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Machado de Assis pelo olhar dos outros: a polêmica entre Sílvio Romero e José

Veríssimo

Renata William Santos do Vale


(Doutoranda em História/UFF, com apoio do CNPq;
pesquisadora do Arquivo Nacional)

Orientador: Prof. Guilherme Pereira das Neves

Em 1897 foi lançado Machado de Assis, estudo comparativo de literatura


brasileira, pelo crítico sergipano Sílvio Romero. Uma das primeiras publicações
“inteiramente” dedicadas à análise da obra de Machado de Assis, então já um eminente
escritor e de reconhecimento nacional. Machado havia publicado no ano anterior o
volume de contos Várias Histórias, e em 1891 publicou seu então mais recente romance,
Quincas Borba. Romero coligia então alguns artigos que já havia publicado em outros
periódicos, além de parte inédita, sobre aquele que era considerado o principal escritor
brasileiro por seus pares, e que havia sido deixado de fora quando veio à luz a sua História
da Literatura Brasileira, em 1888.
O livro de Romero foi bastante discutido por estudiosos e interessados das letras
em artigos na imprensa da capital da nova República, e por críticos de profissão, gerando
intensa polêmica em torno de suas opiniões e conclusões que se arrastou durante mais de
uma década, principalmente com o crítico paraense José Veríssimo, diretor da Revista
Brasileira, e assim como ele próprio e Machado de Assis, membros da recém-criada
Academia Brasileira de Letras. Sílvio Romero era um crítico literário egresso do grupo
de intelectuais que ficou conhecido como Escola do Recife, nascido na Faculdade de
Direito a partir dos anos 1860-70, grosso modo célebre pela introdução e adoção de
postulados científicos para o desenvolvimento do pensamento brasileiro, inclusive na
crítica literária, sobretudo ligados ao conceito de raça, ao determinismo do meio e ao
evolucionismo. Outros intelectuais ligados àquela escola já ocupavam lugar de destaque
entre os letrados brasileiros, como o também crítico Tristão de Alencar Araripe Junior, o
crítico e historiógrafo João Capistrano de Abreu, o jurista Clóvis Beviláqua, todos
cearenses, e o diplomata maranhense Graça Aranha, entre diversas outras personalidades
de destaque entre os séculos XIX e XX.
As relações entre Machado de Assis e Sílvio Romero remontavam aos anos de 1870,
quando este surgiu como poeta e ensaísta e recebeu críticas duras do escritor fluminense
quanto a seu estilo e sua poética. Em dezembro de 1879 Machado lançou um de seus mais
importantes artigos de crítica literária intitulado A Nova Geração, publicado na já citada
Revista Brasileira, que se refere à geração nascida no Nordeste brasileiro, e que ganhava
destaque nacional. No artigo o crítico Machado diminui a importância do grupo, apesar
de reconhecer talentos individuais e a qualidade de alguns textos e ideias, alertando para
os riscos dos novos modismos científicos que vinham da Europa e que não
necessariamente coadunavam com os valores nacionais ou teriam vida longa entre as
muitas novas ideias daquele século1. No que tange a Sílvio Romero, diz Machado:
O autor dos Cantos do fim do século é um dos mais estudiosos representantes da geração
nova; é laborioso e hábil. Os leitores desta Revista acompanham certamente com interesse
as apreciações críticas espalhadas no estudo que, acerca da poesia popular no Brasil, está
publicando o Sr. Sílvio Romero. Os artigos de crítica parlamentar, dados há meses no
Repórter, e atribuídos a este escritor, não eram todos justos, nem todos nem sempre
variavam no mérito, mas continham algumas observações engenhosas e exatas. Faltava-
lhes estilo, que é uma grande lacuna nos escritos do Sr. Sílvio Romero; não me refiro
às flores de ornamentação, à ginástica de palavras; refiro-me ao estilo, condição
indispensável do escritor, indispensável à própria ciência — o estilo que ilumina as
páginas de Renan e de Spencer, e que Wallace admira como uma das qualidades de Darwin.
Não obstante essa lacuna, que o Sr. Romero preencherá com o tempo, não obstante outros
pontos acessíveis à crítica, os trabalhos citados são documentos louváveis de estudo e
aplicação.
Os Cantos do fim do século podem ser também documento de aplicação, mas não dão a
conhecer um poeta; e para tudo dizer numa só palavra, o Sr. Romero não possui a
forma poética. [ASSIS (2008): p. 1277, grifos meus em negrito]2

Não cabe nestas linhas uma análise completa desse artigo; interessa principalmente
demonstrar que as relações entre os dois autores não começaram da forma mais amistosa,
e a “acusação” de falta de estilo e de ausência de forma poética não seriam esquecidos.
Embora Machado não fosse econômico em suas críticas a nenhum autor, dificilmente era
tão criterioso e exigente com um autor principiante. Importa também dizer que para
Machado de Assis a crítica era o principal e mais indispensável instrumento para o
fortalecimento da literatura nacional e para o aprimoramento do escritor. Desse modo,
pretendia que os autores não compreendessem as sugestões e comentários como ofensas
ao estilo pessoal de cada um, mas, ao contrário, como um incentivo para o
aperfeiçoamento do texto, do estilo e do próprio autor.3 Entretanto, Sílvio Romero não
parece ter recebido bem as críticas ao seu estilo e menos ainda à geração da qual fazia
parte. Esta parece ter sido uma das motivações para o estudo que publicou sobre Machado
de Assis mais de uma década depois, quando era também um autor e crítico bastante
respeitado no Rio de Janeiro.

2
Uma marca do estilo de Sílvio Romero sempre foi a linguagem combativa e muitas
vezes até agressiva, na defesa de suas posições, o que frequentemente levou-o ao
envolvimento em polêmicas diversas na imprensa e na ABL, e rendeu-lhe alguns
desafetos. Esse tom aguerrido dá a tônica do livro sobre Machado e também das respostas
recebidas às suas ideias. Passemos a ele, então. Dividido em 19 partes, além de prefácio
e introdução, o livro dedica-se a estudar a obra de Machado em três momentos, entre
1859-69, fase inicial considerada por Romero romântica, além de pouco expressiva e de
qualidade inferior; entre 1870-1879, chamada de fase de “transição”, como poeta,
romancista e contista, na passagem do Romantismo para o estilo moderno então em voga;
e depois de 1880, até o momento de publicação, a obra madura, como prosador, dedicada
ao romance, ao conto e à crônica, considerada pelo crítico como a melhor fase.
O que prevalece nos capítulos do estudo são os comentários ao talento poético de
Machado, ou a ausência dele, e aos problemas de estilo. Mas o que chama mais a atenção
é que no livro dedicado a Machado de Assis, boa parte do estudo seja dedicado à obra do
poeta, crítico e jurista sergipano Tobias Barreto, considerado o líder daquela geração
egressa da Faculdade de Direito do Recife, que comparada à de Machado, se mostra, na
opinião de Romero, em tudo superior. A comparação e as conclusões sobre o estilo de
Machado levam-nos a crer que o ressentimento provocado em 1879 por aquele ensaio de
crítica não fora esquecido.
No esboço biográfico do autor o tom usado por Romero para tratar de seu objeto é
bastante elogioso tal como outros trabalhos apresentados por diversos admiradores da
obra do escritor fluminense. Entretanto, ainda no prefácio o tom amistoso dá lugar aos
objetivos do autor ao dedicar seu estudo ao célebre escritor:
O presente livro, sabemo-lo a priori, vai desagradar, por mais de um motivo, a grande
número e leitores, se, por ventura, os tiver. Consagrado a um ilustre brasileiro, que nos
derradeiros trinta anos tem sido geralmente apontado como um dos pontos cardeais de
nosso armamento espiritual, e destinado a mostrar que não é de todo exato o sítio em que
o colocam na esfera estelar do pensamento pátrio, ele vai, com certeza, ferir
susceptibilidades! Porque nós não estamos ainda habituados a ver duvidar de nosso
feiticismo literário, quanto já nos habituamos a deixar zombar de nossos feitiços políticos.
Machado de Assis é um dos ídolos consagrados em vida ao nosso beatério letrado. Em
parte merece-o ele, mas só em parte, e a pequena redução que se deve fazer em seu
culto é exatamente o que este livro se destina a provar, e tenta-o asseadamente,
honestamente, sem preocupações nem rancores. E o digno escritor não desmerecerá em
sentar-se em seu verdadeiro posto na história intelectual da nossa pátria, se este ensaio
crítico houver de contribuir para designar esse posto. Bem-aventurados nas letras aqueles

3
que são objeto de estudos desinteressados e sinceros; porque ó deles o reino da glória.
Machado de Assis é um desses. [ROMERO (1897): p. XII, grifo meu]4

Ao longo da argumentação, o tom varia, mas em geral vai tornando-se mais ácido,
mais agressivo, e em alguns momentos ofensivo. A linguagem e a intensidade acabam
por dar a tônica do texto e causar a mais forte impressão, principalmente naqueles que
não concordam com os argumentos do crítico e que defendem Machado, o que
praticamente ofusca alguns argumentos que pudessem ser considerados interessantes na
análise da obra do escritor. Não estava em jogo para o sergipano apenas produzir uma
crítica sobre o mais famoso autor brasileiro, ou revidar a forma como fora avaliado por
Machado e como sua geração fora tratada em 1879, mas também lutar pelo
estabelecimento de uma crítica pautada por parâmetros modernos, cientificamente
embasada e profissionalmente estabelecida.
No caso de Sílvio Romero, lutar por uma causa era papel primordial de qualquer
homem de letras que se prezasse, e as causas eram muitas. A constituição de um campo
de saber legítimo, a defesa da ciência como base para a literatura nacional, de suas ideias
em relação à originalidade do povo, do melhor modelo de intelectual, do papel que esse
deveria desempenhar no mundo, e da contribuição que este daria na construção da
identidade, da cultura e das letras nacionais, todas essas questões estavam, de certa forma,
em discussão no livro que Romero escreveu sobre Machado de Assis e Tobias Barreto. O
tom agressivo, um tanto desmedido, demonstrava a necessidade que tinha de que seu
modelo e pensamento triunfasse, fazia parte de sua estratégia de luta e convencimento, na
qual ele usava dos instrumentos que provassem de certa forma seu próprio argumento.
Para Romero, o intelectual/letrado/literato era o homem engajado com uma visão de
mundo, com as novas correntes de pensamento, com a cultura do que ele considerava
como “povo” – dentro dos novos parâmetros científicos –, e que usava sua arte, sua pena
como arma para alcançar seus objetivos. O ataque a Machado e a defesa apaixonada de
Barreto simbolizavam essa estratégia: apoiar o que seria o modelo de intelectual –
engajado, combativo – e rejeitar o que se queria evitar – um homem de letras recluso,
dedicado exclusivamente às artes, equilibrado e conciliador. Dentro dessa lógica, Romero
acaba falando mais de suas ideias do que propriamente fazendo uma análise somente da


A grafia das citações foi atualizada por mim, sem prejuízo da pontuação, para facilitar a leitura. Os grifos
do autor foram mantidos em itálico. Quando há grifos meus em negrito, estão indicados.

4
obra de Machado, que serve como um pretexto bastante atrativo de audiência para suas
ideias.
O estudo em questão, embora tenha suscitado grande polêmica e controvérsia, não
chegou a “manchar” ou diminuir a reputação e a fama de Machado de Assis. Talvez o
principal efeito que tenha causado entre os contemporâneos de ambos tenha sido uma
defesa inflamada de Machado, já que ele próprio, como aliás de seu feitio, não se
envolveu em réplicas ou respostas a Romero5. Aliás, esse aspecto do “temperamento” do
autor foi uma das críticas mais contundentes do crítico sergipano, a aversão às
controvérsias, o não revide quando atacado em suas ideias, uma “placidez” e
“tranquilidade” incômodas para o crítico, que não considerava esse um comportamento
válido para o verdadeiro homem de letras nacional.
Passemos agora a analisar os principais pontos controversos da análise de Sílvio
sobre a obra machadiana. Seguindo mais ou menos a ordem dos capítulos do livro, mas
sabendo da impossibilidade de abordar todos os aspectos apresentados pelo crítico, o
primeiro ponto avaliado foi a poesia de Machado. Esse é a matéria na qual Romero mais
se alonga, quase metade do livro, principalmente porque adota a perspectiva da
comparação, o que consome muitas páginas de poesias e citações dos dois autores
confrontados. Apesar de afirmar desde o princípio que a melhor parte da obra de Machado
é a prosa, demora-se bastante na poesia, principalmente para afirmar que não tinha o
talento necessário para ser um bom poeta, que lhe faltava estilo, lirismo, sentimento.
Crisálidas (1864), Falenas (1870) e Americanas (1875) foram elaboradas e publicadas
quando o jovem escritor ainda não havia bem definido seu estilo, que o crítico classifica
como uma mistura de Classicismo na forma, com um Romantismo decadente: “As
Americanas [...] são um verdadeiro desastre, quase de princípio a fim. Nas Crisálidas e
Falenas abundam também as páginas imprestáveis”. [Idem, p. 41]
Toda a obra do escritor é um produto sui generis, dando-nos o exemplo d'uma espécie de
ecletismo maneiroso, ponderado, discreto, em que se refletem as forças de um espírito
valoroso, é certo, porém fundamentalmente plácido e equilibrado. Pegue-se qualquer de
seus mais recentes livros, desses em que parece haver ele mais de perto atingido a realidade
ou o que julga ser tal, e repare-se que, ao lado de algumas páginas desse gênero, deparam-
se-nos outras em que o demônio romântico sente-se solto e entra a fazer das suas... [Idem,
p. 14-15, grifos meus em negrito]

E apesar do esforço e do “espírito valoroso”, a ponderação, a placidez em excesso


impedem que Machado revele sua alma de poeta, ao contrário de Tobias Barreto, para

5
Sílvio o maior poeta da nova geração, com sua temática popular. E por aqui entramos
numa questão central para a análise de Romero: as influências dos conceitos de meio e
raça na produção do homem de letras, seguindo os preceitos científicos europeus e da
crítica literária Naturalista, que incorpora temas como determinismo, evolucionismo e as
teorias raciais na expressão dos literatos. Seguindo por esses preceitos, o escritor é um
produto de sua raça, de seu meio e de suas condições sociais. É precisamente na sua
capacidade de expressá-los e de usar sua arte para melhorar esse mundo que reside seu
talento.
Cada escritor é um centro de força, além de uma resultante; como centro de força, age como
causa e fator de diferenciação e progresso; como resultante, é um efeito de um meio dado,
de um grupo social e deve refletir as qualidades do agregado a que pertence. Como centro
de ação e como espírito representativo, seu estudo não interessa, não pode interessar, se é
mesquinhamente isolado, se não se generaliza, se não é capaz de dar, em miniatura que
seja, a imagem de seu tempo, de transformar-se em refletor dos homens e da sociedade da
sua época, quando não em todas, em algumas de suas qualidades fundamentais. Mas [...]
não basta refletir a sociedade, o principal é agir sobre ela. Por isso é que os poderosos
espíritos na esfera do pensamento foram sempre guias d'almas. É nessa ação fecunda sobre
os homens que vai o maior elogio de um escritor. [Idem, p. 31-32]

E sobre Machado:
Machado de Assis não sai fora da lei comum, não pode sair, e ai dele, se saísse. Não
teria valor. Ele é um dos nossos, um genuíno representante da sub-raça brasileira
cruzada, por mais que pareça estranho tocar neste ponto.
Mas a crítica não existe para ser agradável aos preconceitos dos homens, que devem ter
ânimo bastante para libertar-se de infundados prejuízos. Sim, Machado de Assis é um
brasileiro em regra, um nítido exemplar dessa sub-raça americana que constitui o tipo
diferencial de nossa etnografia, e sua obra inteira não desmente a sua fisiologia, nem o
peculiar sainete psicológico originado daí. Com certeza não o molesto, falando assim; e
não pode ser por outro modo. [Idem, p. 17-18 grifos meus em negrito]

Talvez o que mais incomode Sílvio, a ponto de algumas vezes perder a


“imparcialidade” que tanto advoga e soar quase ameaçador (“ai dele se saísse), é o fato
de Machado não se encaixar no papel a ele atribuído. Como produto da “sub-raça
americana”, sua obra deveria refletir e tratar de temas considerados populares, expressão
do folk lore resultante da mestiçagem, da mistura das raças já há bastante tempo tratada
pela História nacional. Mas com seu domínio impecável da língua, seu estilo sofisticado,
até mesmo tido como rebuscado por alguns de seus pares, com seu humor irônico, seu
ceticismo ou mesmo em alguns momentos, pessimismo, mas principalmente com sua
literatura de temas universais, Machado contrariava o papel que deveria desempenhar, e
pior, não confirmava a teoria, a lei científica que Romero pretendia provar com sua tese.

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Desse modo, passa a ser a incômoda exceção, não somente a seus preceitos científicos,
mas talvez também pelo fato de representar um mulato, que não era “portador de
pergaminho, que lhe abrisse a senda de qualquer profissão liberal, como a medicina, a
advocacia, a engenharia ou qualquer outra ao jeito da magistratura, da diplomacia, do alto
magistério” [p. 12], cuja “instrução, ainda hoje bem limitada, foi de princípio demasiado
parca” [p. 38], mas que obteve sucesso pelo talento nas letras e recebeu o devido
reconhecimento ainda em vida. Hélio de Seixas Guimarães, que analisou a crítica sobre
Machado dos principais estudiosos da época – Romero, José Veríssimo e Araripe Júnior,
identifica esse incômodo e também conclui que:
Para Romero, isso é um tipo de afetação, quase uma impostura, com repercussões na obra,
marcado pelo artificialismo, pelo isolamento e indiferença em relação ao meio, pelas costas
voltadas à paisagem e ao povo brasileiro. [...] Machado, que não se enquadrava no papel
previsto e, ato contínuo, era logo encaixado em outro estereótipo, o do mulato pernóstico,
de modos afetados, afrancesados, incapaz de reconhecer sua condição de verdadeiro
meridional e mestiço. [GUIMARÃES (2004): p. 273]6

Essa impostura passa a valer de argumento para considerar a obra de Machado,


apesar de algumas qualidades que lhe reconhecia, uma imitação de algo que não era
nosso, tal como o humor, o pessimismo, o estilo, a inovação nos enredos e dos
personagens, cópias de estilo e ideias europeias que não funcionavam bem porque eram
produto de outros povos e quando transplantados para o terreno brasileiro, resultavam em
falsidades, saídas da pena de um elemento estranho.
Apesar de tratar de forma negativa os aspectos estilísticos e estéticos que analisa na
prosa de Machado, Romero acabou por definir algumas linhas mestras de toda a crítica
literária sobre o escritor fluminense ao longo do século XX. O estilo, a linguagem, o
humor, a ironia, o pessimismo, a descrição dos tipos humanos e sobretudo o nacionalismo
da obra tornam-se assunto para praticamente todos os estudos, biografias, análises críticas
da obra, ainda em vida e postumamente.
O estilo de Machado de Assis não se distingue pelo colorido, pela força imaginativa da
representação sensível, pela movimentação, pela abundância, ou pela variedade do
vocabulário. Suas qualidades mais eminentes são a correção gramatical, a propriedade
dos termos, a singeleza da forma. O período não lhe sai amplo, forte, vibrante, como em
Alexandre Herculano; [...]. Em seus livros de prosa, como nos de versos, falta
completamente a paisagem, falham as descrições, as cenas da natureza, tão
abundantes em Alencar, e as da história e da vida humana, tão notáveis em Herculano
e no próprio Eça de Queiroz.
[...] O estilo de Machado de Assis, sem ter grande originalidade, sem ser notado por um
forte cunho pessoal, é a fotografia exata do seu espírito, de sua índole psicológica
indecisa. Correto e maneiroso, não é vivace, nem rutilo, nem grandioso, nem

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eloquente. É plácido e igual, uniforme e compassado. Sente-se que o autor não dispõe
profusamente, espontaneamente do vocabulário e da frase. [Idem, p. 82-83]

Eis aí o maior problema para Sílvio quanto ao estilo machadiano: faltava a paixão,
a agressividade necessária para mover a ação do homem de letras. Enquanto Machado é
um escritor que se ocupa somente de sua pena e seus personagens, para Romero se o texto
não se propõe à ação, perde valor. Machado não serve como o ideal do escritor nacional.
Por outro lado, percebe-se a crítica quanto à falta de paisagem, entendida aqui como falta
dos elementos nacionais nas histórias. Sílvio obviamente não entende a cor local à moda
dos românticos, com as descrições da natureza em estilo épico, mas carecia de ver mais
da terra, do que ele considera a essência do povo e do meio, as tradições populares
próprias das regiões do Brasil e do povo mestiço que o compunha.
Essa essência do povo contraria, a seu ver, a tendência de Machado de expressar
um humor e uma ironia que não são próprios dos povos latino-americanos, herdeiros dos
europeus ibéricos. O humor empregado por Machado não coadunava com o tipo praticado
pelos povos mestiços, meridionais, como o do Brasil, aproximava-se mais do humor
inglês, e por isso era uma falsificação, uma imitação do original. Por isso em alguns
momentos Romero afirma que não vê graça nos livros recentes de Machado, e prefere os
mais antigos, revelando um certo despeito da originalidade do escritor premiado com a
comenda da Ordem da Rosa.
O humour de Machado de Assis é um pacato diretor de secretária de Estado, e o horrível
de seus livros é uma espécie de burguês prazenteiro, condecorado com a comenda da rosa...
Nem interessam e nem metem medo.
Podem figurar nas páginas das folhinhas e almanaques entre as pilhérias contra as sogras.
O temperamento, a psicologia do notável brasileiro não são os mais próprios para
produzir o humour, essa particularíssima feição da índole de certos povos. Nossa raça
em geral é incapaz de o produzir espontaneamente. [Idem, 133]
Quando digo, pois, que não acho graça no humour de Machado de Assis e que o seu
pessimismo me parece espetaculoso e afetado, dou somente a minha impressão pessoal,
que apenas procuro justificar, porque ela se me antolha justa; mas não tenho pretensão nem
interesse em que os outros a aceitem. Chegado a este ponto, é natural que procure
documentar os meus assertos, e não me parece que me seja preciso ir muito longe.
Pegue o leitor comigo nas Memórias Póstumas de Brás Cubas, vamos percorrê-las desde
as primeiras páginas. O leitor conhece por certo a carcaça do livro; sabe que o autor
imaginou um sujeito que do outro mundo nos brinda com as memórias da própria vida,
onde se acham narrados seu nascimento, educação, amores, negócios, até o desenlace final
da morte, sendo este último passo contado logo em princípio da narrativa. Esta espécie de
espiritismo literário pode ser para muita gente o sinal de grande profundeza; mas lhe não
descubro a menor significação. Como originalidade é de gênero inferior. [Idem, 273-274]

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A mesma crítica quando à impostura do humor e da ironia do escritor é feita em
relação ao seu pessimismo, ou seu ceticismo. Parece a Romero que Machado aprendeu
esses recursos em algum manual estrangeiro e importou para sua obra criando um pastiche
das obras dos grandes escritores europeus, mas que aos olhos nacionais parece apenas
mais uma tentativa de fazer uma obra inspirada na Europa, sem originalidade e verdade,
quando é evidente que o espírito do povo brasileiro é alegre, otimista, e não descrente e
cético como Machado quer aparentar ser, mas, segundo o crítico, não convence.
E com estas notas volto a um dos pontos donde parti: Machado de Assis pode e deve ser
também apreciado pelo critério nacionalista. Não o poeta, porque, a não ser em suas pálidas
Americanas, este nos desdenhou de todo; sim o romancista e o contista; porque estes
dignaram-se de olhar, uma vez por outra, para nós.
Em que pese ao Sr. José Veríssimo, o nisus central e ativo de Machado de Assis é de
brasileiro, e como tal se revela no caráter essencial de sua obra de mestiço e até em várias
roupagens exteriores quando ele assesta sua observação mais diretamente para as cousas
pátrias. Há, porém, uma circunstância que tem escurecido este brasileirismo subjetivo, e
vem a ser a mania filosofária, as patacoadas humorísticas e pessimisticantes.
Tirem estas vestes de faquir dos ombros do autor de Brás Cubas e ele mostrará o trajo de
toda a gente. [Idem, 341-342]

Essa crítica ao nacionalismo de Machado, ou à falta dele, torna-se um tema


recorrente na avaliação de sua obra e é frequentemente revisitada por críticos literários e
historiadores. É a propósito desse critério que o crítico José Veríssimo diferencia-se de
Romero. O crítico paraense, formado nos mesmos princípios da crítica naturalista e
influenciado pelas ideias deterministas e evolucionistas que também fizeram a formação
de Romero, entretanto, acabou por matizar essa influência no entendimento da obra
literária, começando principalmente com a obra de Machado de Assis. Além da
apreciação diferente do estilo, a maior contribuição de Veríssimo no debate acerca da
obra de Machado está no caráter nacional da obra.
Outro preconceito que é mister arredar, é o de não poder o autor de Iaiá Garcia ser
apreciado pelo critério nacionalístico. É a opinião do Sr. José Veríssimo, o ilustrado crítico
dos Estudos Brasileiros.
Eis aqui as suas palavras: «A obra literária do Sr. Machado de Assis não pode ser julgada
segundo o critério que peço licença para chamar nacionalístico. Esse critério, que é o
princípio diretor da História da Literatura Brasileira e de toda a obra crítica do Sr. Sílvio
Romero, consiste, reduzido à sua expressão mais simples, em indagar o modo por que um
escritor contribuiu para a determinação do caráter nacional, ou, em outros termos, qual a
medida do seu concurso na formação de uma literatura, que por uma porção de caracteres
diferenciais se pudesse chamar conscientemente brasileira. Um tal critério, aplicado pelo
citado crítico e por outros à obra do Sr. Machado de Assis, certo daria a esta uma posição
inferior em nossa literatura. Parece-me, porém, que legitimo de certo modo, é por demais
estreito para formarmos dele um princípio exclusivo de crítica.

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Se a base de uma literatura qualquer é o sentimento nacional, o que a faz grande e enriquece,
não é unicamente esse sentimento. Estreitaríamos demais o campo da atividade literária
dos nossos escritores se não quiséssemos reconhecer no talento com que uma obra é
concebida e executada um critério do seu valor, independentemente de uma inspiração
mais pegada à vida nacional. Por isso a do Sr. Machado de Assis deve ser encarada a
outra luz e, sobretudo, sem nenhum preconceito de escolas e teorias literárias. Se
houvéssemos, por exemplo, de julgá-la conforme o critério a que chamei nacionalístico, ela
seria nula ou quase nula, o que basta, dado o seu valor incontestável, para mostrar quão
injusto pode ser ás vezes o emprego sistemático de fórmulas críticas. Eu por mim cada vez
acredito menos nelas. »
Assim se expressa desassombradamente o ilustrado crítico paraense. [Idem, p. 55-56, grifo
em negrito meu]

Para o crítico paraense, o critério nacionalístico não serve para analisar a obra do
escritor fluminense, precisamente pela mesma razão que Romero identifica: Machado é
um escritor único, não se encaixa no perfil da crítica naturalista, não se enquadra no papel
do escritor mestiço, e também não no papel do escritor nacional, cuja obra seja um reflexo
do meio e das tradições nacionais. Nos romances de Machado, a temática refletia aspectos
das relações sociais, humanas, universais. O que havia de nacional, não era a descrição
do ambiente, os temas tidos como nacionais, relativos ao povo, à natureza, aos costumes
e cultura popular; estava na descrição, na psicologia dos personagens, na verossimilhança
com os sentimentos e as relações interpessoais do Brasil. O que fazia com que Machado,
à semelhança de outros grandes mestres europeus, tivesse caráter universal em sua obra,
sem perder aquilo que o identificava com a literatura brasileira, era o sentimento íntimo,
que o próprio Machado identificava como o instinto de nacionalidade na literatura
brasileira dos anos 1870.7 O que tornava Machado um escritor singular não era ser um
produto de um meio e de uma raça, mas um escritor de seu tempo.
A crítica de José Veríssimo não está ainda consolidada naqueles anos que precedem
a virada do século, considerando que o escritor sofreu também influência das escolas
cientificistas nos anos 1860 e 1870. A sua grande História da Literatura8 só fica pronta
em 1916, publicada post mortem, e recupera as ideias que vão sendo apresentadas em
artigos na imprensa e na Revista Brasileira, que dirigiu a partir de 1895. A crítica sobre
Machado e suas opiniões vão sendo construídas e vão amadurecendo com o passar dos
anos, assim como cresce sua afinidade e amizade com o escritor. À medida que a crítica
de Romero se acirra contra o famoso literato, a de Veríssimo se aproxima do autor e
começa a relativizar as teorias naturalistas, questionadas pela obra singular de um escritor
que expressa como poucos a vida nacional, tratando de assuntos não colhidos nas lendas

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e tradições regionais, mas na vida e no costume dos brasileiros. José Veríssimo não
considerava na sua crítica somente os elementos do espaço e do tempo, mas também a
originalidade da obra e do autor, e não tinha um apego tão grande ao conceito de raça,
que embasava o pensamento de Romero. Sua experiência como professor, diretor do
Ginásio Nacional, e estudioso da educação propiciou uma reavaliação do papel do meio
sobre o autor. A exceção, que para Sílvio Romero prejudicava a totalidade da teoria,
representava para Veríssimo a confirmação da fragilidade da regra.
Era de se esperar que Romero não aceitasse o argumento de Veríssimo, e a polêmica
entre os dois intensificou-se, mesmo depois da morte de Machado, o primeiro firme na
sua opinião negativa da obra do presidente da Academia e o segundo cada vez mais
convencido da genialidade do escritor, paulatinamente se afastando da crítica naturalista
e enveredando para uma crítica mais impressionista. A controvérsia teve momentos de
grande agressividade entre os autores, Sílvio não perdoava o menosprezo do crítico
paraense quanto ao papel pioneiro da Escola do Recife na renovação do pensamento
nacional brasileiro. Veríssimo por sua vez deu algumas respostas bastante agressivas às
provocações de Romero e ao comportamento inflamado de seu colega da Academia.
Aparentemente, entretanto, a influência de Machado, que procurava não se envolver em
controvérsias, acabou por prevalecer no comportamento do crítico que adotou um estilo
mais recluso no final da vida.
O que se pode afirmar, depois de brevemente analisar as posições dos dois críticos
e suas opiniões sobre a obra de Machado é que, apesar dos embates e das muitas
contradições, ambos deram contribuições decisivas para a constituição e afirmação do
campo da crítica literária no Brasil, inclusive conferindo ao trabalho do crítico paradigmas
científicos que legitimavam a atividade. Dentro de momentos turbulentos como este, de
embates de opinião e de disputa de poder e de afirmação é natural que ocorram
desavenças, que no caso desses críticos extrapolaram algumas vezes os limites do bom
convívio social. Independente das posições, as obras desses críticos são fundamentais
para compreender a recepção da produção de Machado no final do século XIX e nas
décadas seguintes, e são merecedoras de análises mais aprofundadas do que os limites
deste trabalho, que pretendeu apenas uma breve apresentação de seus principais
argumentos.

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A esse propósito, cito a crítica de Capistrano de Abreu publicada na Gazeta de Notícias em 5 de dezembro
de 1879, e reunida em seus Ensaios e Estudos (4ª série. Rio de Janeiro, Brasília: Civilização Brasileira,
INL, 1975, p. 108-110), sobre o artigo crítico de Machado “A nova geração”. Capistrano não se aprofunda
muito na crítica, mas parabeniza e elogia o autor “pelo ato de coragem, porque dizer francamente a sua
opinião, sem descair na louvaminha, nem tombar na detração sistemática, é muito raro neste meio pesado
que nos vicia”. Machado constata a penetração de novas ideias europeias no Brasil, mas critica os novos
escritores pela adesão precipitada a esse novo sistema de pensamento, sem avaliar o contexto nacional e as
especificidades da sociedade brasileira, além de considerar que essa nova geração mais imita as ideias
externas do que reflete sobre elas e as reinterpreta.
2
ASSIS, Machado de. A nova geração. Obra Completa em quatro volumes: volume 3. 2ª ed., Rio de
Janeiro: Nova Aguilar, 2008, p. 1258-1286. Publicado originalmente na Revista Brasileira, vol. II,
dezembro de 1879.
3
Cf. _______. O ideal do crítico. Organização de Miguel Sanches Neto. Rio de Janeiro: José Olympio,
2008.
4
ROMERO, Sílvio. Machado de Assis. Estudo comparativo de literatura brasileira. Rio de Janeiro:
Laemmert & C. editores, 1897.
5
Dois autores que publicaram estudos sobre o livro de Romero foram Labieno, pseudônimo do Conselheiro
Lafayete Rodrigues Pereira, e o diplomata Carlos Magalhaes e Azeredo. O primeiro publicou uma série de
artigos no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, entre 25 de janeiro e 11 de fevereiro de 1898, coligidos
depois em um volume chamado de Vindiciae – o Sr. Sílvio Romero crítico e filósofo. O segundo publicou
na Revista Moderna, em Paris, em novembro de 1897 um artigo sobre Machado de Assis, que parecia
dialogar com o de Sílvio Romero que saiu ao mesmo tempo. Segundo Azeredo, foi uma coincidência, tanto
que depois de ter lido o livro de Romero, escreveu um outro artigo, “Machado de Assis e Sílvio Romero”,
também publicado em Paris, em março de 1898, ambos coligidos no livro Homens e Livros, de 1901. O
tom das respostas de ambos não poderia ser mais diferente. Enquanto os de Labieno usam a mesma
linguagem, tom e estratégia agressiva para atacar Romero em uma defesa apaixonada de Machado, o
segundo procura fazer uma argumentação bastante sensata e controlada, dado que era amigo pessoal de
ambos, procurando realçar as virtudes do livro e da crítica de Romero, ao passo que contestava o que a
maior parte dos defensores de Machado reclamavam, mas em tons mais amenos e menos apaixonados,
visando a uma conciliação entre os autores.
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Alguns críticos e historiadores dedicaram-se ao estudo da polêmica entre Romero e Veríssimo sobre a
obra de Machado de Assis. Alguns exemplos de artigos que muito contribuíram para esse breve estudo ora
apresentado: AGUIAR, Mauricio Maia. Objetividade e aventura: Machado de Assis a partir do casmurro
Sílvio Romero. Machado de Assis em linha. Rio de Janeiro, v. 7, n. 13, p. 44-62, junho de 2004; _____.
Machado de Assis em perspectiva: os olhares divergentes de Sílvio Romero e José Veríssimo. Sociologia
& Antropologia. Rio de Janeiro, v. 05.01: 269-296, abril, 2015; BARIANI, Edison. Machado de Assis e as
críticas de José Veríssimo e Sílvio Romero. Faculdade Santa Rita. 2007. Acessado em 31/10/2016 em:
http://www.achegas.net/numero/40/bariani_40.pdf; FERNANDES, Maria Lúcia Outeiro. Os
contrabandistas do pensamento – impasses da crítica literária brasileira no final do século XIX. Revista
Letras. Curitiba: Ed. UFPR, n. 55, p. 29-54, jan/jun. 2001; GUIMARÃES, Hélio de Seixas. Romero,
Araripe, Veríssimo e a recepção crítica do romance machadiano. Estudos Avançados. V. 18, n. 51, 2004,
p. 269-298; SCHWARZ, Roberto. Duas notas sobre Machado de Assis. Que horas são? Ensaios. 2ª ed.,
São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 165-178.
7
ASSIS, Machado de. Notícia da atual literatura brasileira: instinto de nacionalidade. O ideal do crítico,
op. cit., p. 105-124. Publicado originalmente em março de 1873 na revista Novo Mundo, em New York.
8
VERISSIMO, José. História da Literatura Brasileira – de Bento Teixeira (1601) a Machado de Assis
(1908). 3ª ed., Rio de Janeiro: José Olympio, 1954. Cf. especialmente o cap. XIX, sobre Machado de Assis;
ver também Estudos de Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: H. Garnier, 6 séries, 1901 a 1907.

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