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UNIFAE CENTRO UNIVERSITÁRIO

MESTRADO EM ORGANIZAÇÕES E DESENVOLVIMENTO

DISSERTAÇÃO DE MESTRADO

INDÚSTRIAS QUÍMICAS E O MEIO AMBIENTE


ESTUDO DAS PERCEPÇÕES DE PROFISSIONAIS QUE ATUAM EM
INDÚSTRIAS QUÍMICAS INSTALADAS EM UM MUNICÍPIO
PARANAENSE

ANGELO GUIMARÃES SIMÃO

CURITIBA

2008
2

ANGELO GUIMARÃES SIMÃO

INDÚSTRIAS QUÍMICAS E O MEIO AMBIENTE


ESTUDO DAS PERCEPÇÕES DE PROFISSIONAIS QUE ATUAM EM INDÚSTRIAS

QUÍMICAS INSTALADAS EM UM MUNICÍPIO PARANAENSE

Dissertação apresentada ao Curso de Pós–Graduação


Stricto Sensu em Organizações e Desenvolvimento,
UNIFAE – Centro Universitário, como requisito para a
obtenção do grau de Mestre em Organizações e
Desenvolvimento.

Orientador (a): Prof. Dr. José Edmilson de Souza-Lima

Curitiba, 10 de junho de 2008.


3
4

Este trabalho é dedicado a minha esposa Carla, pelo carinho constante e por ter

compartilhado comigo todos os momentos desta caminhada de construção do nosso


futuro comum baseado na educação, e que agora novamente recomeça com o início do

seu programa de mestrado.

A minha mãe Alcemira, ao meu pai Altevir e a todos os meus demais familiares pelo

carinho, pela compreensão e pela administração dos momentos de ausência exigidos

pelo mestrado.

Também dedico este trabalho em mesmo nível de importância, a todas as pessoas que

ao longo da história da humanidade tiveram a coragem de abandonar as suas causas


particulares para se dedicar a causas coletivas. É graças à atitude destas pessoas que

podemos manter sempre acesa a esperança de uma sociedade mais justa e

consequentemente de um mundo melhor.


5

AGRADECIMENTOS

Primeiramente a Deus. Apesar de não buscá-lo na Igreja, tenho a convicção de

que ele sempre está comigo e de que sempre está presente nos momentos em que eu
mais preciso dele.

Aos profissionais das indústrias químicas que aceitaram participar desta

pesquisa, os quais, mesmo sem ter total consciência, deram importantes contribuições

para a construção de um mundo melhor.

Ao meu amigo e orientador José Edmilson, pela humildade acadêmica, pelo


exemplo da seriedade do seu trabalho, pela dedicação e pela disponibilidade

demonstrada ao compartilhar os seus conhecimentos com o seu grupo de orientandos

que aceitou o desafio de trilhar o caminho da complexidade.

A família do Prof. José Edmilson por compreender a importância do seu trabalho,


o qual exigiu a disponibilidade de seu tempo nos diversos sábados em que as reuniões

de orientação foram realizadas.

Aos amigos de longa data, Janaína e Carlos pelo incentivo do ingresso na vida

acadêmica e pelos vários momentos que nela compartilhamos.

Aos colegas da turma de mestrado de 2007, em especial aos colegas Dora,


Júlio, Paulo Socher e Bernadete, colegas de orientação e com quem compartilhei a bela

experiência de construção coletiva de um grupo de pesquisa.

Aos amigos do observatório das indústrias, que em vários momentos, mesmo

sem perceber, deram muitas contribuições para a realização desta dissertação. Em


especial a minha amiga Erika, pelas várias trocas de idéias sobre a elaboração de uma

pesquisa qualitativa.
6

“O mundo está na nossa mente, a qual está no nosso mundo”.

“Nosso cérebro-mente ‘produz’ o mundo que produziu o cérebro-mente”

“Nós produzimos a sociedade que nos produz”

Edgar Morin
7

RESUMO

A revolução industrial ocorrida a partir do século XVII inaugurou uma nova fase na
relação existente entre sociedade e meio ambiente. Em razão da velocidade das novas
tecnologias empregadas, a sociedade passou a contar com novas formas de produção
que a possibilitaram desenvolver novos padrões de consumo, fatores que associados
determinaram à ampliação da exploração dos recursos naturais e a deterioração do
meio ambiente. Juntas, indústria de transformação, produtora, e sociedade,
consumidora, tendem a ser responsabilizadas por parte das condições favoráveis que
possibilitaram o surgimento da crise ambiental discutida na contemporaneidade. Como
objetivo geral, este estudo procura estabelecer um diálogo com a parte mais criticada
desta relação: a indústria de transformação, em especial indústrias químicas de um
município paranaense, como forma de conhecer como estas estabelecem as suas
relações com o meio ambiente. Neste estudo buscam-se respostas para o seguinte
questionamento: como os profissionais que atuam em indústrias químicas instaladas
em um município paranaense percebem as relações de sua organização com o meio
ambiente? Como objetivos específicos este estudo busca apresentar o perfil ambiental
das indústrias químicas analisadas; apresentar o perfil dos profissionais entrevistados
em termos de formação e experiência de atuação no ramo industrial químico,
caracterizar a forma como estes profissionais percebem o meio ambiente e como
percebem as relações de sua organização com o meio ambiente. Para a realização
deste estudo de percepção o tipo de pesquisa escolhido foi o exploratório, de natureza
qualitativa. O método de abordagem empregado foi a pesquisa de campo e o modo de
coleta de dados se deu por meio da realização de entrevistas semi-estruturadas. A
análise dos dados e o delineamento da pesquisa foram realizados com base no método
de análise de conteúdo. Como conclusão, são apresentadas as percepções que os
profissionais que atuam nas indústrias químicas têm sobre as relações de suas
organizações com o meio ambiente.

Palavras-chave: Meio ambiente. Indústrias químicas. Percepção.


8

ABSTRACT

The industrial revolution occurred from the seventeenth century inaugurated a new
phase in the existing relationship between society and environment. Because of the
speed of the new technologies employed, the society become to rely on new forms of
production that provided the development of new consumption patterns; considering
these factors associated, they led to the extension of the natural resources exploitation
and environment deterioration. Together, processing industry (producer) and society
(consumer) tend to be responsible for the favorable conditions that allowed the
appearance of environmental crisis discussed at present. As a general goal, this study
tries to establish a dialogue with the most criticized part of this relationship: the
processing industry, particularly the chemical industries of a community from Paraná, as
a way of being aware of how they establish their relationship with the environment. In
this study answers have been pursued regarding the following question: how the
professionals that work at chemical industries which are located in a community from
Paraná notice the relationship of their organization with the environment? Taking into
account the specific goals, this study aims to present: the environmental profile of
chemical industries analyzed; the profile of professionals interviewed regarding
education/training and experience of working in chemical industry; and, characterizing
the way these professionals notice the environment and how they realize the
relationship between their organization and the environment. For the realization of this
perception study the type of research chosen was the exploratory, from qualitative
nature. The method of approach employed was the field research and the method of
collecting data was carried out through semi-structured interviews. Data analysis and
survey management were conducted based on the analysis of content method. In
conclusion, the perception of the professionals who work at chemical industries, about
the relationship between their organizations and the environment is presented.

Keywords: Environment. Chemical industries. Perception.


9

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1 – Foto do Planeta Terra – Missão Apollo 8 ..................................................... 68


Figura 2 – Mapa de Domínios das Florestas Tropicais da África .................................. 77
Figura 3 – Mapa de Domínios das Florestas Tropicais da Ásia .................................... 77
Figura 4 – Mapa de Domínios das Florestas Tropicais da América Latina e do Caribe 78
Figura 5 – Projeção do Aumento de Temperatura na Terra .......................................... 80
Figura 6 – Temperatura, Nível do Mar e Cobertura de Neve no Hemisfério Norte........ 81
Figura 7 – Evolução do Índice Planeta Vivo .................................................................. 82
Figura 8 – Evolução do Índice Pegada Ecológica ......................................................... 83
Figura 9 – Impacto Humano nos Ambientes Marinhos.................................................. 85
Figura 10 – Luzes da Terra ........................................................................................... 86
Figura 11 – Perspectivas Humanas em Relação ao Futuro .......................................... 93
Figura 12 – Processo Básico de Obtenção de Garrafas PET a partir da Nafta........... 153
Figura 13 – Empregos na Indústria Química Européia e Norte-Americana................. 164
Figura 14 – Volume de Vendas Mundial (2006) .......................................................... 165
Figura 15 – Crescimento Internacional da Produção Química (1996 – 2006) ............. 166
Figura 16 – Taxa de Crescimento de Vendas em Países e Regiões Selecionadas.... 167
Figura 17 – Participação nas Vendas Mundiais (1996 e 2006) ................................... 168
Figura 18 – Relação das 30 (Trinta) Maiores Companhias Químicas (2006).............. 169
Gráfico 1 – Faturamento Líquido Indústria Química Brasileira por Segmentos (2006) 172
Gráfico 2 – Faturamento Líquido da Indústria Produtos Químicos Industriais (2006) . 173
Gráfico 3 – Participação da Indústria Química no PIB Total Brasileiro (2000 a 2006) 174
Gráfico 4 – Participação da Indústria Química no PIB Industrial (2005)...................... 175
Gráfico 5 – Estimativa de Faturamento Líquido da Indústria por Segmentos (2007) .. 176
Gráfico 6 – Evolução da Produção Produtos Químicos Uso Industrial (1990 a 2006) 176
Gráfico 7 – Importações/Exportações Brasileiras em US$ Bilhões (2000 a 2006)...... 178
Gráfico 8 – Total de Indústrias Químicas por Setor (2005) ......................................... 180
Gráfico 9 – Total de Empregados na Indústria Química por Setor (2005)................... 183
Figura 19 – Mapa da Presença do Programa Atuação Responsável no Mundo ......... 206
Figura 20 – Classificação dos Dados .......................................................................... 226
10

LISTA DE QUADROS

Quadro 1 – Legenda dos Mapas de Exploração das Florestas..................................... 76


Quadro 2 – Crescimento da População Mundial (1970 a 2000).................................... 79
Quadro 3 – Projeção da População Mundial (2010 a 2050).......................................... 84
Quadro 4 – Caracterização da Primeira e da Segunda Modernidade ......................... 103
Quadro 5 – Perspectivas da Sociedade de Risco ....................................................... 107
Quadro 6 – Retrospectiva Histórica da Indústria Química Mundial ............................. 125
Quadro 7 – Retrospectiva Histórica da Indústria Química no Brasil............................ 134
Quadro 8 – Empresas Químicas Instaladas no Brasil entre 1920 e 1939 ................... 136
Quadro 9 – Empresas Químicas Instaladas no Brasil entre 1940 e 1945 ................... 138
Quadro 10 – Empresas Químicas Instaladas no Brasil entre 1946 e 1959 ................. 139
Quadro 11 – Pólo Petroquímico de São Paulo............................................................ 142
Quadro 12 – Pólo Petroquímico do Nordeste.............................................................. 143
Quadro 13 – Pólo Petroquímico do Sul ....................................................................... 144
Quadro 14 – Indústria Químicas por Tipo de Indústria................................................ 145
Quadro 15 – Fatos Ocorridos com a Indústria Química na Década de 1990 .............. 147
Quadro 16 – Classificação das Indústrias Químicas ................................................... 152
Quadro 17 – Capacidade de Produção dos Pólos Petroquímicos Brasileiros ............. 154
Quadro 18 – Classificações Adotadas pela Indústria Química Mundial ...................... 154
Quadro 19 – Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) ................... 158
Quadro 20 – Faturamento da Indústria Química Mundial (em US$ bilhões) ............... 162
Quadro 21 – Número de Empregados na Indústria Química (2000 a 2006).................163
Quadro 22 – Classificação ABIQUIM para Análises Estatísticas ................................ 171
Quadro 23 – Faturamento Indústria Brasileira em US$ Bilhões (2000 a 2006)........... 173
Quadro 24 – Total de Indústrias Químicas – Brasil, Região Sul e Paraná (2005)....... 180
Quadro 25 – Total de Indústrias Químicas por Região (2005) .................................... 181
Quadro 26 – Participação por Estados – Região Sul .................................................. 181
Quadro 27 – Número de Indústrias Químicas por Unidade da Federação (2005) ...... 182
Quadro 28 – Total de Pessoal Ocupado – Brasil, Região Sul e Paraná (2005) .......... 183
Quadro 29 – Pesquisas sobre os Efeitos Nocivos de Produtos Químicos .................. 186
11

Quadro 30 – Acidentes Ocorridos com Indústrias Químicas/Produtos Químicos........ 188


Quadro 31 – Tratados, Acordos e Convenções para a Proteção do Meio Ambiente. . 196
Quadro 32 – Pesquisas de Opinião Pública sobre a Imagem da Indústria Química: .. 200
Quadro 33 – Dados sobre o Programa Atuação Responsável.................................... 202
Quadro 34 – Linhas de Pensamento sobre Percepção – Empirista X Intelectualista.. 208
Quadro 35 – Fontes de Dados X Indústrias Químicas Instaladas no Município.......... 233
Quadro 36 – Indústrias Químicas X Fontes de Dados ................................................ 236
Quadro 37 – Justificativas para a Não Inclusão das Indústrias na Pesquisa .............. 237
Quadro 38 – Total de Contatos Realizados ................................................................ 238
Quadro 39 – Justificativas das Empresas que não Aceitaram Participar da Pesquisa 239
Quadro 40 – Etapas Propostas para a Realização da Pesquisa................................. 241
Quadro 41 – Perfil Profissional dos Entrevistados ...................................................... 243
Quadro 42 – Atividades Desenvolvidas pelas Indústrias Químicas............................. 244
Quadro 43 – Tempo de Existência da Indústria X Tempo de Atuação no Município... 245
Quadro 44 – Declaração de Missão e Valores, SGA e Certificações Ambientais ....... 246
Quadro 45 – Indústrias Químicas X Matriz Energética................................................ 247
Quadro 46 – Gastos/Investimentos Realizados na Área Ambiental (Últimos 3 Anos). 248
Quadro 47 – Motivos para Gastos/Investimentos Ambientais ..................................... 253
Quadro 48 – Dificuldades Encontradas para Gastos ou Investimentos Ambientais.... 254
Quadro 49 – Indústria Química X Descrição dos Resíduos X Destino........................ 256
Quadro 50 – Ações Previstas na Área Ambiental para o Horizonte de 2015 .............. 259
Quadro 51 – Significados dos Entrevistados para Meio Ambiente.............................. 261
Quadro 52 – Relações das Organizações com o Meio Ambiente ............................... 277
Quadro 53 – Acidentes Ambientais ............................................................................. 270
12

SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ............................................................................................. 14
1.1. CONTEXTUALIZAÇÃO DO TEMA.............................................................. 14
1.2. ESPECIFICAÇÃO DO PROBLEMA ............................................................ 22
1.3. OBJETIVOS ................................................................................................. 24
1.3.1. Objetivo Geral............................................................................................... 24
1.3.2. Objetivos Específicos ................................................................................... 24
1.4. JUSTIFICATIVA DO ESTUDO..................................................................... 24
2. FUNDAMENTOS TEÓRICOS ...................................................................... 30
2.1. FUNDAMENTOS EPISTEMOLÓGICOS DO ESTUDO ............................... 30
2.1.1. Considerações Iniciais.................................................................................. 30
2.1.2. O Sucesso da Matriz Linear e suas Limitações............................................ 32
2.1.3. Noções de Refutabilidade e de Paradigma .................................................. 37
2.1.4. A Escolha pela Matriz da Complexidade ...................................................... 42
2.2. MEIO AMBIENTE......................................................................................... 51
2.2.1. A Busca por uma Definição Multidisplinar para Natureza e Meio Ambiente. 51
2.2.2. Reflexões sobre a Relação Ser Humano e Natureza ................................... 61
2.2.3. O Meio Ambiente e a Sociedade Contemporânea ....................................... 70
2.2.4. O Reconhecimento da Complexidade Ambiental ......................................... 86
2.2.5. A Proposta e o Discurso da Sustentabilidade .............................................. 91
2.2.6. A Iminência da Consolidação da Sociedade de Risco ............................... 102
2.2.7. As Organizações e a Sociedade de Risco ................................................. 116
2.3. INDÚSTRIAS QUÍMICAS........................................................................... 121
2.3.1. As Origens da Indústria Química no Mundo ............................................... 121
2.3.2. As Origens da Indústria Química no Brasil ................................................. 134
2.3.3. A Forma de Organização da Indústria Química ......................................... 150
2.3.4. A Indústria Química na Contemporaneidade.............................................. 159
2.3.5. Indústrias Químicas, Sociedade e Meio Ambiente ..................................... 184
2.4. PERCEPÇÃO............................................................................................. 207
13

3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS................................................... 214


3.1. CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA ......................................................... 214
3.1.1. Tipo de Estudo....................................................................................... 215
3.1.2. Natureza ................................................................................................ 216
3.1.3. Método de Abordagem .......................................................................... 220
3.1.4. Coleta dos Dados .................................................................................. 220
3.1.5. Análise dos Dados e Delineamento da Pesquisa .................................. 222
3.1.6. Universo e Amostra ............................................................................... 231
4. APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS DO ESTUDO.......................................... 240
4.1. Perfil do Profissional................................................................................... 242
4.2. Perfil Ambiental da Indústria Química ........................................................ 244
4.3. Profissional e Meio Ambiente ..................................................................... 260
4.4. Indústria Química e Meio Ambiente............................................................ 268
CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................ 281
REFERÊNCIAS........................................................................................................... 290
ANEXOS ..................................................................................................................... 296
14

1. INTRODUÇÃO

1.1. CONTEXTUALIZAÇÃO DO TEMA

A natureza levou de 4,5 a 5 bilhões de anos para constituir um Planeta repleto de


exuberância e de diversidade de formas de vidas. Os encontros e desencontros destes
diferentes tipos de vida ao longo da história do planeta Terra resultaram na formação de
uma grande rede viva na qual todos os organismos, desde os mais simples até os mais
complexos, aprenderam a desenvolver suas relações de interdependência1. Do
constante aprimoramento destas relações, surgiram as condições propícias para a
perpetuação e sustentação da vida.

Desde os tempos mais remotos, desde o surgimento do primeiro sinal de vida no


planeta Terra, os primeiros organismos vivos passaram a desenvolver contínuos
processos de autopoiese2 com o ambiente onde se encontravam inseridos, como forma
de sustentar o milagre da recriação da vida. Por meio do estabelecimento de uma
definição quanto ao seu limite físico, estes diferentes tipos de organismos passaram a
se organizar como indivíduos ou sistemas fechados, estabelecendo uma complexa
relação de equilíbrio entre os ambientes interno e externo, fato reconhecido
posteriormente pela ciência no conceito clássico definido por Claude Bernard,
denominado homeostase3.

Ao estabelecer esta distinção entre ambiente interno e externo, os organismos


vivos passaram a realizar freqüentes trocas com o meio onde se encontravam
inseridos, como forma de sustentar a vida por meio de processos metabólicos. De
acordo com Margulis citada por Capra (2005, p. 26), “o metabolismo, a química

1
Para Rodrigues (1977) a interdependência envolve comportamento recíproco e de interação individual,
caracterizados por situações de cooperação e de competição.
2
Segundo Capra (2005) a dinâmica da “autopoiese”, também conhecida como “autogeração” ou “autocriação” foi
identificada como uma das características fundamentais da vida pelos biólogos Humberto Maturana e Francisco
Varela. O conceito de “autopoiese” associa duas características que definem a vida celular: o limite físico e a rede
metabólica. De acordo com o autor, a teoria da autopoiese considera que “o sistema vivo se liga estruturalmente ao
seu ambiente, ou seja, liga-se ao ambiente através de interações recorrentes” (CAPRA, 2005, p. 51).
3
Para Branco (2005) é conceito segundo o qual, o meio interno, possuindo características químicas e físicas
notavelmente constantes e estando em contato direto ou indireto com o meio externo, variável e inconstante, deve
possuir mecanismos de regulação responsáveis por sua estabilidade.
15

incessante da autoconservação, é uma característica essencial da vida [...]. Através do


metabolismo perene, através de fluxos químicos e energéticos, a vida continuamente
produz, repara e perpetua a si mesma”.

Ao longo do estabelecimento do complexo modo de funcionamento desta grande


rede viva, apenas um entre uma infinidade de seres vivos se destacou em termos de
capacidades intelectuais capazes de promover profundas modificações no meio
ocupado: o ser humano.

Desde os tempos mais remotos e visando garantir a sua própria existência em


um ambiente hostil, o ser humano sempre buscou estabelecer uma relação de domínio
sobre a natureza com base em sua capacidade criativa e inovativa. Esta capacidade,
que o levou a grandes feitos e descobertas, também lhe possibilitou a criação de uma
ciência orientada para o estabelecimento do controle sobre as demais formas de vida,
submetendo estas aos seus interesses por meio de diferentes formas de domínio.
Desta forma, o ser humano gradativamente se colocou em uma condição de maior
importância sobre os demais seres vivos, situação considerada por diversos
pesquisadores como um dos elementos-chave responsáveis pelo surgimento do
desequilíbrio no funcionamento da grande rede viva.

Com as especializações e fragmentações do saber, promovidos ao longo da


história da ciência, o ser humano estabeleceu um pensamento simplificador, baseado
em processos de redução e de separação, responsável pelo distanciamento observado
entre as ciências naturais das ciências humanas, entre objeto e observador, entre o ser
humano e a natureza.

Baseado neste pensamento simplificador, que limita a produção de uma ciência


de característica holística, o ser humano acabou por estabelecer a principal matriz de
pensamento responsável pela formação dos arquétipos mentais predominantes em sua
sociedade. Neste processo de formação, no qual a ciência passou a ser gradualmente
comandada pelos interesses econômicos e estatais, a maior parte da sociedade
também passou a ser privada do seu direito de pensar, delegando ou submetendo o
seu destino às comunidades econômicas que controlam as produções científicas
voltadas para interesses de caráter exploratório. Paralelamente a este processo, boa
16

parte da sociedade também passou a aceitar como verdadeiro somente aquilo que é
produzido pelos poderes vigentes e pela ciência, excluindo-se do processo de
participação ativa da criação do seu modo de vida.

A formação fragmentada do conhecimento, proposta pela matriz de pensamento


linear, limitou os indivíduos e a sociedade em relação a sua capacidade de
entendimento sobre outros fatores que determinam a sua existência. As exigências
estabelecidas pelas necessidades de atendimento às demandas geradas por esta
matriz de pensamento exigiram dos sujeitos à especialização em áreas específicas do
saber, isolando-os de outras possibilidades para o desenvolvimento dos seus
conhecimentos e para uma melhor compreensão do ambiente ocupado.

Neste longo processo de formação do arquétipo mental linear, que demonstrou


sua capacidade de predominância diante de outras alternativas de produção do
conhecimento, o ser humano teve a sua condição de indivíduo anulada, passando a
negar algumas de suas vontades próprias para assumir algumas verdades que não
foram desenvolvidas em seu próprio interior, e sim determinadas pelo ambiente externo
no qual se encontra inserido. Nesta condição, o ser humano passou a limitar a sua
capacidade de produção de um conhecimento holístico e a sua sensibilidade em
relação ao meio ocupado, passando a exercer atividades que lhe são determinadas
pelos padrões vigentes na sociedade.

Talvez este processo “evolucionário” justifique o afastamento do ser humano em


relação à natureza e o seu interesse em dominá-la. Talvez estas condições impostas
pela forma de pensamento dominante que o impedem de exercer a sua completa
liberdade e determinar o seu destino, também o impeçam de enxergar e avaliar as suas
relações com o meio ambiente onde vive.

Nos 5 milhões de anos que demarcam a sua existência no planeta Terra por
meio do surgimento do seu primeiro ancestral, o ser humano já contribuiu diretamente
para a extinção de um número incontável de espécies animais e vegetais, para a
destruição e contaminação de inúmeros habitats4 naturais e para a poluição dos solos,

4
De acordo com Branco (2005, p. 93) “hábitat corresponde a uma parte do ambiente que é normalmente ocupada
por uma espécie em particular”.
17

da água e do ar. De acordo com Stuart e Simmons citados por Shedrake (1993, p. 46):

Na Europa e nas Américas, é possível que os seres humanos tenham sido os


responsáveis pela extinção, há cerca de dez mil anos, de muitas espécies de
mamíferos, tais como o tatu gigante na América do Sul, os mamutes na Europa
setentrional e o hipopótamo pigmeu no Chipre, devido à sua caça excessiva ou
à destruição de seu meio ambiente.

No Brasil, pouco mais de 500 anos de ocupação foram necessários para a


promoção de profundas modificações no ambiente natural, a exemplo da quase
extinção da floresta atlântica e do sempre presente desmatamento da floresta
amazônica. No caso específico do Paraná, pouco mais de um século de franca
expansão e ocupação comandados pelos interesses dominantes foi necessário para
reduzir de 98,32% para 7,59% as densas florestas que cobriam a quase totalidade da
área do Estado (INSTITUTO AMBIENTAL DO PARANÁ (IAP), 2007) e para extinguir as
últimas culturas de povos milenares que aqui habitavam, como os Xetá, última etnia
nativa do estado do Paraná a estabelecer contato com os colonizadores (MINISTÉRIO
DA JUSTIÇA, 2007).

E o que se deve esperar para o futuro em termos da provável ampliação da


utilização dos recursos naturais para o suprimento das demandas de consumo de uma
população mundial que cresce de forma exponencial5?

Apesar da aventura humana no planeta Terra ter iniciado há aproximadamente 5


milhões de anos de um total de 5 bilhões de anos que a natureza levou para constituir a
sua complexa rede viva integrada, foi somente no início da década de 1960 que parte
da sociedade voltou a sua atenção para os impactos produzidos pela humanidade no
ambiente ocupado, ao longo do desenvolvimento de suas atividades.

Após sucessivas rodadas de discussões ao longo destes últimos 45 anos,


mencionadas por Santos, S. E. dos (2007) em sua reflexão sobre a origem e evolução
histórica dos conceitos ambientais, novamente em 2007, as evidências apontadas pela
comunidade científica sobre os seus efeitos do aquecimento global no curto e médio
prazo estão recebendo uma maior atenção por parte das sociedades mundiais em

5
De acordo com Meadows (1978, p. 23) “uma quantidade apresenta crescimento exponencial quando cresce numa
porcentagem constante do total, em um período constante de tempo”.
18

relação à necessidade de uma urgente reflexão global para a realização de mudanças


do paradigma social dominante6. Os resultados dos estudos científicos produzidos e
divulgados pelos cientistas que integram o Intergovernmental Panel on Climate Change
(2007) confirmam que o fenômeno do incremento da temperatura global deixou de ser
apenas uma suposição científica para apresentar-se como uma eminente condição de
risco para a manutenção da vida no planeta Terra.

Esta importante confirmação científica, que contribuiu para consolidar o


fenômeno “aquecimento global” como uma séria evidência da crise sócio-econômica-
ambiental em curso, também se demonstrou capaz de chamar a atenção de diferentes
atores sociais para o estado crítico da saúde ambiental planetária e para as possíveis
conseqüências dela decorrentes nos campos social e econômico em escala global.
Esta confirmação contribuiu para a ampliação da percepção da sociedade global, ainda
que em escala reduzida, quanto à gravidade dos impactos ambientais gerados pelas
diferentes organizações sociais ao longo de sua história, em especial após o início da
revolução industrial.

O reconhecimento pela comunidade científica sobre o agravamento da crise


entre “meio ambiente e sociedade” sugere a humanidade a necessidade de reflexões
sobre suas ações e sobre a forma como compreende e desenvolve a sua relação com o
ambiente natural. Sugere ainda reflexões mais profundas, capazes de questionar as
características de funcionamento de sua racionalidade predominante, a qual determina
a forma de ser e agir das sociedades contemporâneas e serve de abrigo para os
elementos geradores da grande maioria das crises.

Com base nesta necessidade, este estudo se apresenta para a sociedade como
uma proposta para a promoção de reflexões e reavaliações sobre a forma como cada
indivíduo ou organização estabelece a sua relação com o ambiente natural.
Diferentemente da abordagem radical presente em relevantes trabalhos acadêmicos na
área ambiental, não se busca aqui determinar responsáveis por este ou aquele tipo de
atividade causadora de danos ao meio ambiente. Busca-se justamente pensar a crise

6
Para Egri e Pinfield (1999), o paradigma social dominante representa a visão tradicional de mundo da sociedade
industrializada contra a qual se voltam as perspectivas ambientalistas.
19

ambiental em curso como resultado de um conjunto maior de ações oriundas do tipo de


racionalidade hegemônica adotada por diferentes tipos de atores que determinam os
comportamentos da sociedade global.

A urgência do estabelecimento de uma nova reflexão coletiva nas diferentes


esferas das sociedades locais para a institucionalização de uma nova racionalidade
apresenta-se de forma evidente, uma vez que ações isoladas se revelam não
suficientes para reverter ou pelo menos minimizar o quadro de catástrofes ambientais
anunciadas.

Esta urgência do estabelecimento de uma reflexão coletiva e global se dá tanto


no seio das sociedades periféricas como das sociedades centrais em função do
processo de retro-alimentação estabelecido. Nas sociedades periféricas são
desenvolvidas as atividades de produção extensiva orientadas para o atendimento das
demandas dos grandes centros urbanos. Na periferia, o ambiente natural sofre
freqüentes pressões, cedendo espaço para o desenvolvimento das atividades
econômicas orientadas para o atendimento das crescentes demandas de consumo
oriundas das sociedades centrais. Nas sociedades centrais são desenvolvidas as
principais ações de produção que contribuem para o agravamento dos efeitos do
aquecimento global e para a contaminação do meio ambiente. Nas sociedades centrais
encontram-se as maiores concentrações populacionais e nelas são desenvolvidos
padrões de consumo inconseqüentes que contribuem significativamente para o
comprometimento do futuro da vida e do meio ambiente.

Presentes tanto no seio das sociedades centrais como das sociedades


periféricas e voltadas para a promoção e atendimento das demandas crescentes de
consumo das sociedades humanas, as organizações industriais, em especial do setor
químico, deparam-se com uma crescente ampliação dos níveis de exigências em
termos da sua participação no processo de manutenção do meio ambiente. Tais
exigências, oriundas de legislações mais abrangentes e do aprimoramento do
comportamento de uma sociedade que se faz cada vez mais crítica, determinam a
estas organizações o exercício de um real papel de responsabilidade junto à sociedade.

Como agentes responsáveis pelo desenvolvimento econômico e social nos


20

ambientes onde estão inseridas, as indústrias químicas podem contribuir


significativamente para o desenvolvimento de práticas de produção mais limpas
orientadas para um maior respeito ao meio ambiente e para a formação de uma nova
consciência coletiva em termos de produção e consumo.

Algumas destas práticas, que afetam positivamente a sociedade e que


determinam à formação de uma nova consciência coletiva, podem ser percebidas nas
organizações industriais que assumiram o discurso da importância do respeito ao meio
ambiente. Por meio de suas ações, estas indústrias demonstraram que são capazes de
interferir positivamente no comportamento de seus clientes, fornecedores, funcionários
e também nas diferentes esferas do poder público, por meio da institucionalização de
práticas que visem à promoção de um desenvolvimento local e global alinhado com
propostas sustentáveis alicerçadas no respeito ao meio ambiente. Por meio de ações
como o marketing ecológico, o desenvolvimento de produtos biodegradáveis ou a
utilização de embalagens recicláveis, estas organizações, bem intencionadas ou não
em relação aos seus verdadeiros interesses com relação às causas ambientais, podem
contribuir para a construção de um novo tipo de racionalidade mais compatível com as
necessidades de preservação do meio ambiente e voltada para a concretização do
sonho de construção de uma sociedade fundamentada em princípios sustentáveis.

O objetivo deste trabalho é identificar como os profissionais de indústrias


químicas instaladas em um município paranaense percebem as relações de suas
organizações com o meio ambiente. Para o atingimento do objetivo proposto foram
concebidos cinco capítulos para a fundamentação teórica.

No capítulo 2.1, que trata da fundamentação epistemológica do estudo, foram


analisadas algumas das principais características da matriz de pensamento linear e
suas influências sobre a forma de ser e agir da sociedade contemporânea. Com base
nesta reflexão, buscou-se apresentar algumas das insuficiências da matriz de
pensamento linear para o desenvolvimento de um estudo de percepção de
característica multidisciplinar, envolvendo as variáveis meio ambiente e indústrias
químicas. Além das limitações da matriz de pensamento linear, são apresentados
alguns dos motivos que levaram a escolha da matriz da complexidade para o
21

desenvolvimento do presente estudo.

A proposta de organização deste estudo possui características peculiares que o


diferem das propostas de estudos desenvolvidas à luz da matriz do pensamento linear,
onde normalmente o tema meio ambiente é tratado apenas como uma variável
subordinada aos interesses e ao controle das organizações. A concepção da
elaboração deste estudo parte de interesses particulares do pesquisador avivados ao
longo de sua participação no programa de mestrado em Organizações e
Desenvolvimento e do seu reconhecimento quanto à necessidade do desenvolvimento
de novos estudos que versem sobre as relações das organizações industriais e o meio
ambiente e que sejam capazes de caracterizar as empresas apenas como uma parte
integrante de um conjunto maior de elementos que constituem o próprio meio ambiente.

Por este motivo, durante o desenvolvimento deste estudo optou-se


primeiramente por caracterizar aspectos relevantes sobre meio ambiente e sociedade
para somente depois caracterizar as indústrias químicas e a relação que estas
estabelecem com o meio ambiente. Desta forma, no capítulo 2.2 busca-se promover
algumas reflexões sobre meio ambiente e sociedade na contemporaneidade, na busca
da construção de uma compreensão multidisciplinar para natureza e meio ambiente.
Neste capítulo são também apresentadas algumas considerações sobre a relação ser
humano e natureza, além de aspectos relacionados ao reconhecimento da
complexidade ambiental e a iminência da consolidação do conceito de sociedade de
risco proposto por Beck (2006).

O capítulo 2.3 é reservado para a caracterização da indústria química no mundo


e no Brasil, bem como a sua forma de organização e atuação. Em razão do
pesquisador não possuir vínculos profissionais com o setor químico, se fez necessário
resgatar alguns fatos históricos da indústria química, os quais foram incorporados no
presente estudo na forma de tabelas, as quais visam possibilitar uma rápida leitura por
parte daqueles leitores que já conhecem a realidade do setor. A opção pela
manutenção e apresentação dos fatos históricos que tratam sobre o surgimento e a
forma de organização da indústria química, bem como de alguns números que retratam
de forma quantitativa a realidade do setor químico na atualidade, se deu pelo interesse
22

do pesquisador em disponibilizar algumas informações sobre as indústrias químicas


para os profissionais que participaram da pesquisa, os quais receberão uma cópia do
trabalho em meio digital com sinal de retribuição pela sua participação.

O capítulo 2.4 apresenta alguns conceitos relacionados à percepção, os quais


serviram de referência para o desenvolvimento do presente estudo. Neste capítulo
também são apresentados alguns conceitos específicos sobre percepção ambiental e a
sua importância para o desenvolvimento de estudos que envolvam a variável meio
ambiente.

Por fim, o capítulo 3 trata dos procedimentos metodológicos adotados para o


desenvolvimento da pesquisa e o capítulo 4 apresenta os resultados obtidos para este
estudo de percepção, que busca revelar quais são as percepções de profissionais que
atuam na indústria química de um município paranaense em relação ao meio ambiente
e como as organizações onde trabalham consideram a questão ambiental no
desenvolvimento de suas atividades produtivas.

1.2. ESPECIFICAÇÃO DO PROBLEMA

As indústrias de transformação7 desempenham um papel histórico na sociedade


em termos de promoção do desenvolvimento econômico e social das regiões onde se
encontram inseridas e também em relação aos impactos ambientais decorrentes de
suas atividades. Por meio do desenvolvimento de suas atividades, as indústrias de
transformação movimentam a economia quando adquirem matérias-primas para a
fabricação de seus produtos, contratam serviços de terceiros, geram empregos e renda
para as populações das comunidades do seu entorno ou quando contribuem com
tributos para as três esferas do poder público.

7
De acordo com Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), versão 2.0, elaborada pelo Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (2007), a indústria de transformação compreende as atividades que
envolvem a transformação física, química e biológica de materiais, substâncias e componentes com a finalidade de se
obterem produtos novos. Segundo o próprio instituto, a fronteira entre a indústria de transformação e outras
atividades nem sempre é clara, uma vez que a regra geral determina que as unidades da indústria manufatureira estão
envolvidas com a transformação de insumos e materiais em um produto novo. Como a definição do que seja um
produto novo nem sempre é objetiva, este fato gera dificuldades na determinação dos limites do que é considerado
uma atividade da indústria de transformação (atualmente o CNAE possui 24 divisões de atividades econômicas).
23

A importância que as indústrias de transformação representam em termos de


desenvolvimento econômico para as diferentes regiões onde são implantadas pode ser
constatada pelas recentes concessões fiscais oferecidas pelas esferas dos poderes
estaduais e municipais para a atração de novos empreendimentos industriais. No
Paraná, assim como em outros estados, a corrida pelo desenvolvimento industrial
desencadeada na década de 1990 e baseada na concessão de benefícios fiscais,
situação retratada por Santos, S. E. dos (2007), foi diretamente responsável pela
implantação de novas indústrias que hoje contribuem significativamente para a
dinamização da economia do Estado.

Junto com o desenvolvimento econômico, as novas indústrias, em conjunto com


as indústrias que estavam anteriormente instaladas, passaram a exercer uma maior
influência sobre o meio ambiente das regiões onde foram implantadas, quer seja por
questões relacionadas à ampliação da utilização de recursos naturais ou por questões
relacionadas à ampliação da produção de resíduos industriais. Algumas cidades, a
exemplo da Região Metropolitana de Curitiba, além de plantas industriais receberam
também um considerável incremento populacional, fato que resultou em sérios
problemas sociais, de ocupação espacial e de pressão quanto à utilização de recursos
naturais, fato último retratado por Santos, S. E. dos (2007), quando analisa os impactos
ambientais causados pela implantação do setor automotivo no Paraná.

Estes impactos produzidos junto ao meio ambiente se agravam quando há a


ausência de medidas que visem mitigar os efeitos produzidos pelo processo de
ocupação e aumento da utilização dos recursos naturais, como a otimização de
processos industriais, a substituição de insumos e matérias-primas não renováveis por
renováveis, tratamento e destino de resíduos, entre outros. Em especial no setor de
fabricação de produtos químicos, a ausência destas medidas pode representar danos
irreparáveis ao meio ambiente, além de sérios impactos de ordem social e econômica.

Este estudo busca identificar como as indústrias de transformação do setor de


fabricação de produtos químicos instaladas em um município paranaense estabelecem
as suas relações com o meio ambiente, por meio da obtenção de respostas ao seguinte
questionamento:
24

Como os profissionais de indústrias químicas instaladas em um município paranaense


percebem as relações de suas organizações com o meio ambiente?

1.3. OBJETIVOS

1.3.1. Objetivo Geral

Identificar como os profissionais de indústrias químicas instaladas em um município


paranaense percebem as relações de suas organizações com o meio ambiente.

1.3.2. Objetivos Específicos

• Apresentar o perfil ambiental das indústrias químicas analisadas;


• Apresentar o perfil dos profissionais entrevistados em termos de formação e
experiência de atuação no ramo industrial químico;
• Caracterizar como os profissionais percebem o meio ambiente;
• Apresentar como os profissionais percebem as relações de sua organização com o
meio ambiente.

1.4. JUSTIFICATIVA DO ESTUDO

O interesse em realizar um estudo envolvendo as variáveis “Meio Ambiente” e


“Indústrias Químicas” surgiu em meio a crescentes inquietações avivadas ao longo do
mestrado, acerca da real relevância da realização do projeto de dissertação original, o
qual buscava revelar os impactos da utilização de tecnologias de informação por
produtores rurais cooperados. Com um enfoque determinista e simplificador, a proposta
inicial de pesquisa gradativamente se demonstrou insuficiente em relação às
expectativas deste pesquisador em realizar uma pesquisa científica de natureza
multidisciplinar alinhada com interesses mais amplos da sociedade.
25

A insatisfação crescente com a proposta de pesquisa original acabou por


despertar reflexões sobre a necessidade de encontrar um tema de especial relevância
para o contexto da sociedade contemporânea. Neste processo de busca, um antigo
interesse pela área ambiental, esquecido em meio à predominância da até então
desconhecida ação racional instrumental8 e que contribuiu para a subtração de anos de
reflexão deste pesquisador sobre temas complexos, foi reavivado.

A decisão de mudança do tema de estudo veio pelo reconhecimento e pelo


interesse deste pesquisador em desenvolver um estudo envolvendo questões sociais e
ambientais, que outrora estiveram mais próximas e que gradativamente foram
ignoradas. Este abandono se deu em razão da predominância de sua preocupação com
a dimensão econômica, a qual acabou determinando, em parte, pela sua escolha de
graduação acadêmica na área de exatas, especificamente em uma área orientada para
atendimento das necessidades de mercado: a informática.

As evidências do distanciamento das questões sociais e ambientais estão


representadas no estilo de vida adotado por este pesquisador, o qual obedece à
maioria dos padrões de estilo de vida adotados pela sociedade contemporânea. As
lembranças de um padrão de vida simples caracterizado pelo convívio social e por uma
melhor utilização dos recursos naturais estão registradas na memória deste
pesquisador. Lembranças de infância, da época em que os recursos financeiros eram
mais limitados, que os apelos para consumo eram mais moderados e que a convivência
com as pessoas era mais valorizada. Lembranças das muitas pescarias realizadas na
infância nos Rios Tibagi, Guaraúna e Iapó antes da acentuação dos efeitos da poluição
e da degradação do meio ambiente, quando em companhia do seu pai efetuou os
primeiros reconhecimentos do ambiente natural e recebeu as primeiras noções sobre a
beleza e a importância da preservação da natureza.

Com a realização das disciplinas do programa de mestrado multidisciplinar,


estas questões sociais e ambientais, que estavam até então adormecidas, foram

8
De acordo com Serva (1996, p. 342) a ação racional instrumental corresponde a “ação baseada no cálculo, orientada
para o alcance de metas técnicas ou de finalidades ligadas a interesses econômicos ou de poder social, através da
maximização de recursos disponíveis”.
26

novamente despertadas pelas disciplinas Desenvolvimento Sustentável, com o Prof. Dr.


Christian Luiz da Silva e Meio Ambiente, com o Prof. Dr. Cleverson Vitório Andreoli. Em
sua disciplina, o Prof. Dr. Christian Luiz da Silva sensibilizou os mestrandos sobre a
necessidade de se pensar um novo tipo de desenvolvimento além daquele unicamente
baseado na dimensão econômica, um novo tipo de desenvolvimento, que também
considerasse em mesmo nível de importância as dimensões social, ambiental, política,
cultural e espacial diretamente impactadas pelas preocupações unicamente centradas
na dimensão econômica. Com uma abordagem fundamentada, o Prof. Dr. Cleverson
Vitório Andreoli apresentou em sua disciplina evidências sobre a situação crítica do
planeta Terra e sobre o futuro da humanidade, as quais, além de provocar prolongados
debates, serviram para revelar a ausência de sensibilidade e um certo distanciamento
por parte dos mestrandos em relação às questões ambientais, incluindo este
pesquisador – fato que revela uma forte evidência sobre as insuficiências oriundas da
formação educacional de caráter unidisciplinar.

As contribuições destas duas disciplinas se complementaram com as discussões


em torno das definições sobre as racionalidades instrumental e substantiva9 das
organizações, desenvolvidas pelo Prof. Alberto Guerreiro Ramos e apresentadas com
fidelidade por um dos seus discípulos, o Prof. Dr. Belmiro Valverde Jobim Castor na
disciplina denominada Delimitação de Sistemas Sociais. Em sua disciplina, o Prof. Dr.
Belmiro Valverde Jobim Castor forneceu aos mestrandos relevantes informações para o
entendimento das influências das diferentes racionalidades no funcionamento das
organizações sociais e sobre o comportamento dos indivíduos que nelas trabalham,
fatos que associados contribuíram significativamente para a decisão de elaboração
deste estudo envolvendo organizações e meio ambiente.

Outras importantes revelações sobre o processo de formação das matrizes de


produção do conhecimento foram inicialmente obtidas junto aos amigos de longa data e
também pesquisadores, os Professores Janaína Maria Bueno e Carlos Roberto

9
Para Castor (2007) a razão é a força ativa do psiquismo humano que habilita o indivíduo a distinguir o bem do mal,
o conhecimento genuíno do falso, e a ordenar sua vida pessoal e social de acordo com ela. Para o autor, a
racionalidade pode ser definida como funcional ou instrumental quando é definida pelo cálculo de consequências,
enquanto que a racionalidade substantiva se preocupa com as qualidades éticas dos fins e não leva em consideração
conseqüências adversas.
27

Domingues, que em muitas rodadas de conversa no Lucca Café, compartilharam


gratuitamente os seus conhecimentos sobre epistemologia adquiridos ao longo de suas
carreiras acadêmicas, em especial na atual experiência vivida por eles no Programa de
Doutorado em Administração da Fundação Getúlio Vargas – São Paulo, do qual ambos
são integrantes. Nestes encontros, as primeiras noções sobre as matrizes de produção
do conhecimento científico envolvendo o positivismo, o pós-positivismo, o
construtivismo e a teoria crítica foram gradativamente reveladas.

Com a disciplina Epistemologia e Pesquisa Multidisciplinar, especialmente


preparada e ministrada pelo Prof. Dr. José Edmilson Souza-Lima, foi proporcionado aos
mestrandos à oportunidade de conhecer as várias formas de produção do
conhecimento na sociedade contemporânea. Baseado em sua formação e experiência
como professor e pesquisador, o Prof. Dr. José Edmilson Souza-Lima ofereceu em sua
disciplina os estímulos necessários para que os futuros mestres em Organizações e
Desenvolvimento articulassem seus trabalhos de pesquisa em torno de temas sociais,
econômicos, políticos e ambientais, como forma de ampliar a sua compreensão para os
diversos níveis de complexidade do mundo em que estão inseridos e sobre o qual
atuam.

Foi por meio desta disciplina e do conhecimento demonstrado pelo Prof. Dr. José
Edmilson Souza-Lima em termos de seleção dos referenciais teóricos e da condução
das atividades do grupo de pesquisa formado pelos alunos Angelo Guimarães Simão,
Maria Auxiliadora Villar Castanheira, Maria Bernadete Wolochen, Julio César de Oliveira
Sampaio de Andrade e Paulo Roberto Socher, que o entendimento sobre o real sentido
de se produzir ciência com consciência foi consolidado e estabelecido por estes alunos
que aceitaram o desafio de produzir suas dissertações à luz da teoria da complexidade
e alinhadas com desafios emergentes enfrentados pela sociedade contemporânea.

A experiência vivenciada por este pesquisador e por seus colegas ao longo do


mestrado e a sua decisão de troca do tema escolhido para o desenvolvimento de sua
dissertação pode ser traduzida nas palavras de Severino (2002). Para o autor, cabe ao
pós-graduando em geral desenvolver um trabalho de reflexão e pesquisa baseado em
um projeto político-existencial, em consonância com o momento histórico vivido pela
28

sociedade concreta. Um projeto que revele a sensibilidade do pós-graduando às


condições que sua sociedade vive e às exigências de sua transformação, em vista do
seu crescimento constante.

O autor ainda considera que as várias formas de trabalhos científicos têm em


comum a necessária procedência de um trabalho de pesquisa e de reflexão que seja
pessoal, autônomo, criativo e rigoroso. Para Cintra citado por Severino (2002, p. 113),
necessita ser pessoal no sentido em que “qualquer pesquisa, em qualquer nível, exige
do pesquisador um envolvimento tal que seu objetivo de investigação passa a fazer
parte de sua vida”. Para Severino (2002, p. 113):

A temática deve ser realmente uma problemática vivenciada pelo pesquisador,


ela lhe diz respeito [...] não, obviamente, num nível puramente sentimental, mas
no nível da avaliação da relevância e da significação dos problemas abordados
para o próprio pesquisador, em vista de sua relação com o universo que o
envolve.

Desta forma, este trabalho está vinculado à linha de pesquisa "Sustentabilidade e


Desenvolvimento Local", na qual se busca analisar a participação das organizações no
desenvolvimento e o seu papel como agente no processo de desenvolvimento local,
bem como desenvolver pesquisas que versem sobre temas relacionados com o
ambiente e o desenvolvimento.

A escolha do tema de estudo foi motivada pela existência de estudos ou


abordagens que apontam as indústrias de transformação, em especial as indústrias
químicas, como vilãs do meio ambiente, assim como outros estudos que afirmam ou
apontam evidências contrárias. Cabe a presente pesquisa fazer incursões nesse campo
de disputas para verificar possíveis insuficiências das abordagens anteriores e tentar ir
adiante a termos explicativos das relações entre indústrias químicas e meio ambiente.

Outro fator que motivou a realização deste estudo foi a constatação do


distanciamento ocorrido entre a formação universitária e as reflexões sobre os
problemas sócio-ambientais, situação gerada em função da superespecialização das
disciplinas e do interesse de grande parte das instituições de ensino superior, em
especial as instituições privadas, pela adoção de estratégias educacionais centradas
unicamente no atendimento das necessidades de mercado. Esta situação pode ser
29

constatada em algumas citações presentes no estudo realizado por Morales (2007, p.


151), que considera que “... o pensamento moderno está impregnado de caráter
utilitarista e pragmático”. Em seu trabalho de pesquisa, a autora cita Schön, para quem
a racionalidade técnica, principalmente nos cursos de graduação, contribui para a
formação de profissionais que saibam solucionar problemas instrumentais, por meio da
aplicação de teoria e técnicas apropriadas derivadas do conhecimento sistemático. De
acordo com Gonçalves e Carvalho citados por Morales (2007, p. 151) “se fez imperativo
dominar o instinto, as paixões e as intuições, o que implica não considerar o ser
humano e suas interfaces nesse processo, distanciando-o”. Neste sentido Morales
(2007), considera que o ensino superior dá ênfase à formação de profissionais que
sejam produtivos para o mercado, fato que contribui para que o conhecimento torne-se
cada vez mais disciplinar, acompanhando a lógica das novas práticas de
desenvolvimento por meio da técnica e da ciência. Para a autora “... a universidade, ao
criar um ensino de resultados, inviabilizou o contato com os problemas sócio-
ambientais, distanciando-se do saber totalizado” (MORALES, 2007, p. 151).

Esta constatação revela uma grave falha em termos de formação das diversas
especializações profissionais para o devido tratamento das questões ambientais nas
organizações contemporâneas. Talvez este fato justifique a ausência de sensibilidade
demonstrada por diferentes tipos de profissionais em relação a sua preocupação com o
meio ambiente e consequentemente a carência de estudos organizacionais que tratem
de questões ambientais, em especial estudos sobre as organizações que atuam no
Estado do Paraná.

Busca-se também por meio deste estudo, gerar dados e massa crítica para o
meio acadêmico para o desenvolvimento de novas pesquisas relacionadas às questões
das organizações e o meio ambiente. No meio profissional poderá contribuir para a
promoção de reflexões e para o desenvolvimento de ações voltadas para a preservação
do meio ambiente a partir de iniciativas geradas pelos diferentes tipos de profissionais
no interior das organizações.
30

2. FUNDAMENTOS TEÓRICOS

2.1. FUNDAMENTOS EPISTEMOLÓGICOS DO ESTUDO

2.1.1. Considerações Iniciais

Este capítulo visa apresentar as razões e os fundamentos epistemológicos que


nortearam a concepção e a realização deste estudo. Por se tratar de um tema
complexo e de natureza crítica, que aborda a discussão da relação polarizada existente
entre meio ambiente e organizações industriais, se fez necessário primeiramente
estabelecer e compreender os fundamentos epistemológicos que influenciam os
processos de formação dos arquétipos mentais que determinam o modo de ser, pensar
e agir da comunidade científica e, por conseqüência, das sociedades contemporâneas.

Ao longo da investigação e da elaboração da revisão bibliográfica, surgiram


diversas evidências que revelaram as insuficiências da adoção da abordagem linear
para o tratamento de um tema com características complexas, evidências estas que
foram identificadas de forma gradual e devidamente consideradas para o
desenvolvimento do presente estudo.

Compreender melhor a essência dos fundamentos epistemológicos partindo de


uma formação cultural e acadêmica influenciada pela corrente positivista representou
um desafio pessoal em termos de aprimoramento das estruturas de pensamento e de
percepção deste pesquisador, no sentido de torná-las mais abertas e aptas para a
discussão de temas multidisciplinares10. Ao longo do processo de iniciação e
aprendizado para o desenvolvimento de pesquisas científicas multidisciplinares, se fez
necessário conhecer e questionar em vários momentos a natureza de seu pensamento
mecanicista e determinista, no sentido de possibilitar a adoção de novas estruturas
cognitivas compatíveis para a realização desta pesquisa. Aos poucos esta experiência
tornou-se um sentimento maior, alinhando-se ao sentimento da “crise de meia idade”
definido por Jung e citado por Vasconcelos (2002, p. 19), originando assim uma forte
necessidade para o reconhecimento e aprofundamento do seu processo de

10
Vasconcelos (2002) define que as práticas multidisciplinares correspondem a gama de campos de saber que
propomos simultaneamente, mas sem fazer aparecer as relações existentes entre eles.
31

individuação11 em relação às questões sócio-ambientais. Como forma de reforçar esta


reflexão, Sheldrake (1993, p. 168) comenta:

Naturalmente, é a experiência real, e não as limitadas abstrações da ciência,


que tem mais importância para a conduta de nossas vidas. E é toda a nossa
experiência, incluindo nossa herança cultural, que nos liga ao mundo em que
vivemos, e não apenas os aspectos artificialmente limitados da experiência
correspondentes a um experimento ou a uma observação científicos. Se não
nos cabe viver vidas duplas, divididas entre uma realidade mecanicista
impessoal e "objetiva" e o mundo "subjetivo" da experiência pessoal,
precisamos encontrar um meio de estender uma ponte entre esses dois
domínios.

Conhecer um pouco mais sobre a natureza e o funcionamento das matrizes


epistemológicas da linearidade e da complexidade contribuiu significativamente para a
formação de um entendimento mais profundo do comportamento de risco das
sociedades contemporâneas, para um maior entendimento das possíveis origens e
razões da atual crise ambiental, para uma melhor compreensão da delicada relação
existente entre organizações industriais e meio ambiente, e para a realização de
questionamentos sobre a necessidade de uma produção científica pluralista alinhada
com reais interesses da sociedade.

Com base no estudo do contexto do surgimento da ciência moderna,


apresentada na disciplina de Epistemologia e Pesquisa Multidisciplinar, foi possível
contrapor a noção simplificadora da linearidade com a noção emergente da
complexidade, compreensão esta exigida para a realização de estudos mais
abrangentes. Foi possível também perceber de que forma a matriz da linearidade limita
a produção de um conhecimento científico holístico, de natureza inclusiva e orientada
para a promoção do diálogo entre as ciências naturais e sociais, propostas encontradas
na matriz epistemológica da complexidade.

Abordar o tema meio ambiente e indústrias químicas à luz da matriz da


linearidade, ou seja, somente a partir das teorias das ciências naturais ou somente a
partir das teorias das ciências humanas e sociais, não seria suficiente para desenvolver

11
Vasconcelos (2002, p. 18) considera “fundamental diferenciar individualização, processo histórico e cultural em
desenvolvimento nas elites das sociedades ocidentais de capitalismo central, e individuação, processo de
diferenciação e maturação psicológica de cada indivíduo ou pessoa”.
32

um estudo mais abrangente e que possibilitasse o conhecimento das percepções de


profissionais da indústria química de um município paranaense sobre a relação de suas
organizações com o meio ambiente. Promover este diálogo entre diferentes atores das
ciências natural e humana passou a ser considerado então um dos desafios
identificados como necessário para o desenvolvimento do presente estudo.

2.1.2. O Sucesso da Matriz Linear e suas Limitações

Apesar das limitações para o desenvolvimento de um pensamento científico mais


amplo, o sucesso da matriz do pensamento linear, originada ou derivada dos trabalhos
de René Descartes na primeira metade do século XVII e retratada em sua obra clássica
“O Discurso do Método”, fez com que ela mantivesse sua condição hegemônica por
mais de três séculos. Em razão deste sucesso, passou a ser adotada como a matriz
epistemológica que determina a forma de produção de conhecimentos científicos ao
longo da história e na contemporaneidade, influenciando diretamente as formas de
organização social de grande parte da humanidade. A considerar o período de
produção de seus estudos, realizados sob as influências religiosas repressoras da
inquisição, Descartes contribuiu significativamente para a inauguração de um novo
campo epistemológico baseado na racionalidade e na busca de explicações lógicas
para os fenômenos observados, dando origem a uma ciência de natureza
antropocêntrica em substituição ao dogma teocêntrico vigente na época.

Embora questionada pelos denominados “pesquisadores de fronteira”12, em


razão de suas características limitantes para o desenvolvimento do conhecimento
científico, como o excessivo culto à razão e à verdade manifesta ou da disjunção
sujeito-objeto e o estabelecimento da relação causa-efeito, o campo epistemológico
proposto por Descartes ainda é o que mantém o maior número de representantes
responsáveis por desempenhar o papel de perpetuação da lógica cartesiana na
produção acadêmica e científica, a qual reproduz reflexos no contexto da vida social.

12
Termo utilizado por Souza-Lima (2007) para fazer referência aos pesquisadores que estão localizados na fronteira
entre um paradigma vigente e um paradigma emergente.
33

Talvez alguma justificativa para a razão desta perpetuação possa ser encontrada nas
palavras de Sheldrake (2001, p. 20), ao assinalar que os mecanicistas “sempre
temeram, e continuam a temer, que a aceitação da realidade de algo ‘misterioso’ ou
‘místico’ na esfera da vida implique o abandono das certezas laboriosamente adquiridas
pela ciência”.

Para Sheldrake (2001), a teoria mecanicista da vida proposta por Descartes,


segundo a qual todos os animais e plantas são, essencialmente, máquinas complexas,
em princípio plenamente explicáveis nos termos da física e da química comuns, foi
proposta pela primeira vez como parte da filosofia mecanicista da natureza: o cosmo
era uma máquina, como tudo o que nele se continha, inclusive os corpos humanos.
Segundo o campo epistemológico mecanicista, “apenas a mente consciente e racional
do homem era diferente, sendo espiritual em sua essência” (SHELDRAKE, 2001, p. 19).
Para Sheldrake (1993, p. 59):

O universo de Descartes era um vasto sistema matemático de matéria em


movimento. A matéria preenchia todo o espaço; era a matriz universal. Sob uma
forma sutil, ela rodopiava em vórtices; Descartes pensava que a terra e outros
planetas eram levados a girar em torno do sol devido a tal redemoinho. Tudo no
mundo material funcionava de maneira inteiramente mecânica, de acordo com
necessidades matemáticas. Sua ambição intelectual era ilimitada; ele aplicava
em tudo essa sua nova maneira mecânica de pensar, até mesmo às plantas,
aos animais e ao homem. Embora os detalhes do seu sistema fossem logo
substituídos pelo universo newtoniano, onde a matéria atômica se movimentava
no vazio, ele assentou os alicerces da visão de mundo mecanicista tanto na
física como na biologia. Na filosofia de Descartes, as almas foram eliminadas da
totalidade do mundo natural; toda a natureza era inanimada, desprovida de
alma, e morta em vez de viva. A alma também foi retirada do corpo humano,
que se converteu num autômato mecânico, deixando-se apenas a alma
racional, a mente consciente, alojada numa pequena região do cérebro, a
glândula pineal. Desde o tempo de Descartes, a região favorecida deslocara-se
um par de polegadas em direção ao córtex cerebral, mas, essencialmente, a
idéia permanece a mesma. A mente, de certa forma, interage com a maquinaria
do cérebro, embora a maneira como as duas estão relacionadas continue
sendo um mistério impenetrável.

O esteio da filosofia de Descartes pode ser resumido por sua famosa frase em
latim: “Cogito, ergo sum“ ou “Penso, logo existo”; conceito que proporcionou o
surgimento da doutrina do dualismo. Contrariando as idéias originalmente defendidas
pelo pensamento linear, defensores da teoria da complexidade, também denominada
de não-linear e que será adotada para o desenvolvimento deste estudo, criticam
34

abertamente o conceito de dualismo proposto por Descartes. Para Morin (1998), esta
dissociação entre sujeito (ego cogitans) e objeto (res extensa) e para Capra (2005) a
divisão entre a mente, a “coisa pensante” (res cogitans), e a matéria, a “coisa extensa”
(res extensa), propostas por Descartes, determinaram o surgimento de um pensamento
linear fundamentado em um paradigma simplificador, com características de redução e
de disjunção. Segundo Morin (1998), redução porque passou a unificar tudo aquilo que
é múltiplo e de disjunção porque passou a isolar os objetos uns dos outros, do seu
ambiente e do seu observador. Morin (1998) complementa a sua reflexão mencionando
que o estabelecimento deste pensamento isolou diversos campos das ciências como a
Física, Biologia e Antropossociologia, tornando-as ciências totalmente isoladas e
distintas, impedindo o estabelecimento de comunicações entre elas.

Para outros autores como Vasconcelos (2002), este racionalismo dualista


cartesiano, que separa o sujeito pensante do objeto (natureza/corpo) contribuiu para
uma disjunção paradigmática: o mundo dos objetos submetidos à observação,
experimentação e manipulação; e o mundo dos sujeitos racionais que pensam sobre a
sua existência, os saberes e o universo. Para o autor, nessa bifurcação, as
características híbridas e complexas dos fenômenos foram severamente reduzidas,
possibilitando que a primazia antropocêntrica e otimista da racionalidade humana sobre
a natureza/corpo contribuísse, entre outras coisas, para o vertiginoso processo de
destruição ambiental dos séculos XIX e XX, assunto que será foco deste estudo, bem
como para uma dificuldade estrutural na abordagem dos fenômenos subjetivos,
psíquicos, das emoções e da corporalidade, que foram reduzidos no dualismo
cartesiano tanto na abordagem idealista da consciência, quanto na abordagem
mecanicista das ciências naturais. Para autores como Daly e Cobb, Ehrenfeld e
Merchant citados por Egri e Pinfield (1999) este dualismo entre mente e matéria foi
fundamental para a defesa pelos filósofos do século XVII, em especial Descartes, do
domínio sobre a natureza como essencial para o progresso científico e social.

Para Thomaz citado por Sheldrake (1993, p. 62) “a doutrina de Descartes,


segundo a qual plantas e animais não passavam de máquinas, favoreceu sua meta
explícita de fazer dos homens ‘senhores e possuidores da natureza’”. Da mesma forma,
contribuiu também significativamente para a inauguração de um novo período de
35

certezas e para a crença na objetividade da produção científica. Sheldrake (2001, p.


133) revela a sua apreensão em relação aos reflexos do processo de uma produção
científica baseada na lógica linear:

[...] muitos leigos ficam perplexos ante o poder e a aparente certeza do


conhecimento científico. O mesmo acontece à maioria dos estudantes de
ciência. Os manuais estão cheios de fatos supostamente inquestionáveis e
dados quantitativos. Tudo leva a crer que a ciência seja superiormente objetiva.
Aliás, a crença na objetividade da ciência é artigo de fé para muitas pessoas no
mundo moderno. Ela é imprescindível para a visão de mundo dos materialistas,
racionalistas, humanistas seculares e todos que advogam o primado da ciência
sobre a religião, a sabedoria tradicional e as artes.

Sheldrake (1993, p. 66) busca justificar seus argumentos mencionando que “os
sucessos práticos da ciência mecanicista dão testemunho da eficiência desse método;
os aspectos quantitativos do mundo podem, de fato, ser abstraídos e modelados
matematicamente”, porém, segundo o autor “tais modelos deixam de lado a maior parte
da nossa experiência viva; eles constituem uma via parcial de conhecimento”. Para
Sheldrake (1993, p. 66):

[...] o prestígio que esse método adquiriu, graças à física, estabeleceu-o como o
modelo do desprendimento científico, modelo cobiçado por biólogos,
sociólogos, economistas e por todos os que aspiram à objetividade científica.

Evidências como a valorização excessiva dos métodos quantitativos e a


superespecialização das disciplinas, que impedem a comunicação entre saberes
fragmentados e que impossibilitam a adoção de uma abordagem capaz de promover
reflexões multidisciplinares envolvendo questões sócio-econômicas-ambientais no meio
científico-acadêmico, apontam para as insuficiências da forma de produção científica
tradicional quanto a sua capacidade de assumir de forma exclusiva o enfrentamento
das situações de risco enfrentadas pela sociedade contemporânea. Para Sheldrake
(1993, p. 97) estas insuficiências foram inicialmente percebidas no meio científico
quando:

[...] em 1927, à medida que a teoria quântica se desenvolvia, tornou-se claro


que, no nível microscópico, os processos físicos eram essencialmente
indeterminados, previsíveis tão-somente em termos de probabilidades. Durante
várias décadas mais, presumia-se que essa aleatoriedade tinha pouca
relevância para o mundo do dia-a-dia. Mas durante os últimos vinte anos, ou
quase isso, tornou-se geralmente reconhecido que o indeterminismo é inerente
36

em sistemas em todos os níveis de complexidade: em "processos dissipativos"


afastados do equilíbrio termodinâmico, onde pequenas flutuações podem ser
amplificadas para produzir grandes efeitos (como na formação de células de
convecção num fluido aquecido) (Prigogine e Stengers (1984)); em processos
"catastróficos", tais como o quebrar das ondas, o fluxo turbulento de líquidos e
as transições de fase (como na ebulição ou no congelamento); em fenômenos
meteorológicos; em organismos vivos; em cérebros; em dinâmica da população
e em ecologia; e no comportamento da economia. Esses tipos de processos
não podem ser efetivamente modelados em termos da física determinista ao
velho estilo. Novas abordagens matemáticas são necessárias, das quais a mais
importante é a "teoria do caos" (para uma boa introdução não-técnica à teoria
do caos, veja Gleik (1988)). Em modelos matemáticos de processos caóticos,
tornados possíveis graças aos computadores, os sistemas de modelos não se
assentam num equilíbrio simples, mas se desenvolvem em padrões complexos
e não repetitivos.

Apesar de suas limitações, a estrutura de pensamento linear, responsável pelo


surgimento da ciência, foi também responsável pela formação do pensamento
mecanicista e determinista que impera desde as sociedades medievais até as
sociedades industriais contemporâneas e que influencia no comportamento das
organizações sociais nelas inseridas, justificando o surgimento da maior parte das
crises sociais e ambientais planetárias até então percebidas. Para Egri e Pinfield
(1999), as características deste pensamento serviram de alicerces ideológicos das
Revoluções Científica e Industrial das sociedades contemporâneas e para autores
como Beck (2006), aparecem nos principais comportamentos sociais de risco que
determinam o rito de passagem de uma “sociedade industrial” para o que o autor
denomina de “sociedade de risco13”, conceito que será abordado ao longo deste estudo.

Em razão da existência de fortes evidências anteriormente apresentadas que


implicam nas insuficiências da matriz linear para o atendimento das necessidades de
produção do conhecimento científico e consequentemente para a reprodução da vida
em sociedade, esta matriz passou a ser gradativamente criticada por pesquisadores
que perceberam as suas limitações e que tiveram a coragem de propor novas
alternativas a esta forma hegemônica de produção do conhecimento científico. Dentre
os vários pesquisadores que inauguraram novas linhas epistemológicas para propor
outras formas para o desenvolvimento do conhecimento científico, encontram-se Karl

13
Beck (2006) define sociedade de risco como a sociedade que substituirá a denominada sociedade industrial. Entre
as características que definem esta sociedade, está a sua incapacidade de gerenciar a relação entre utilização de novas
tecnologias e manutenção dos recursos naturais.
37

Popper e Thomas Kuhn, representantes da matriz linear, e Edgar Morin, um dos


propositores da matriz da complexidade.

2.1.3. Noções de Refutabilidade e de Paradigma

Popper é considerado um dos fundadores da linha epistemológica do


racionalismo crítico, a partir da qual passam a ser abertamente criticadas e
consideradas inimigas da sociedade aberta as perspectivas fundamentadas no
positivismo como o historicismo, o coletivismo, o relativismo e o positivismo ético14.

Apesar de reconhecer aspectos positivos do positivismo, como o fato de ter


encorajado os homens a pensarem por si próprios e de tornar possível a ciência
moderna, Popper (2003) denuncia aspectos negativos ao apontar que ao mesmo
tempo, o positivismo constitui a base de quase todas as espécies de fanatismo e
autoritarismo; que tem uma necessidade constante não só de interpretação e afirmação
como também de reinterpretação e reafirmação; e que exige uma autoridade que
pronuncie e estabeleça o que deve constituir esta verdade manifesta.

Em sua obra “Conjecturas e Refutações”, Popper dá uma significativa


contribuição à comunidade científica e consequentemente para uma profunda reflexão
quanto a real importância da elaboração deste estudo, quando materializa a idéia de
hipóteses e refutações, ao questionar sobre até que ponto uma teoria deve ser
classificada como científica e se existe algum critério que determine o seu caráter
científico. Popper (2003) revela que as suas inquietações em relação às teorias
positivistas se devem ao fato de sempre se adequarem, de serem sempre confirmadas.
No seu entendimento, estas afirmações que constituem aos olhos daqueles que as
admiram o seu ponto mais forte, são na realidade a sua maior fraqueza.

Baseado em suas reflexões e contrariando a idéia de verdade manifesta

14
Popper (2003) estabelece as seguintes definições para as diferentes perspectivas consideradas inimigas da
sociedade aberta: a) historicismo: atribuição à história um sentido pré-determinado e não passível de alterações pelos
indivíduos; b) coletivismo: consiste em atribuir ao coletivo um essência independente dos indivíduos que o
compõem; c) relativismo: caracteriza-se pela negação da existência de verdade objetiva e/ou pela afirmação da
arbitrariedade da escolha entre duas asserções ou teorias; e, d) positivismo ético: atitude que consiste em tentar
reduzir normas à fatos.
38

defendida originalmente por Descartes e mantida pelos seus seguidores, Popper (2003)
propõe a idéia de que seria possível aprender com os próprios erros, acreditando que a
compreensão da possibilidade de falhas e erros cometidos em uma investigação
proporciona a imersão em uma série de críticas e autocríticas capazes de desenvolver
ainda mais o conhecimento. Para Popper (2003), a possibilidade da refutação de uma
teoria constitui um passo a frente, que aproxima o pesquisador da verdade, permitindo
assim que o aprendizado possa surgir a partir de erros.

Segundo Vasconcelos (2002, p. 51):

[...] partindo da crítica ao positivismo lógico em direção a um evolucionismo


racionalista em ciência, Popper afirma que toda observação indutiva é
impregnada de teoria e/ou sustentada em instrumentos construídos a partir de
teorias. O conhecimento é construído a partir de hipóteses permanentemente
colocadas a teste e refutação, como verdades e soluções provisórias, com
diferentes graus de corroboração, e não confirmação, como no discurso
verificacionista neopositivista. Daí, a importância da característica de
“refutabilidade” para o progresso da ciência: as verdades provisórias devem
estar abertas à refutação, à busca e acumulação de evidências empíricas
através da eliminação de erros, soluções, tentativas, testes de conseqüências
dedutivas, refutação de conjecturas, etc.
.
Popper (2003) parece acreditar que a propensão para procurar padrões de
regularidade e para impor leis à Natureza conduz ao fenômeno psicológico do
pensamento dogmático ou, em termos gerais, do comportamento dogmático15. Apesar
de considerar o dogmatismo até certo ponto necessário, Popper (2003) considera que
este fenômeno é um indício de uma crença forte, que mantém o sujeito agarrado às
suas primeiras impressões. Contrapondo-se a este fenômeno, o autor defende a
necessidade e a importância da teoria crítica, que uma vez estando pronta para
modificar os seus princípios, que admita a dúvida e exija ser testada, apresentando
assim um sinal de uma crença mais fraca, possibilita o desenvolvimento de novos
conhecimentos com base no questionamento dos conhecimentos anteriores. O autor
ainda ressalta a importância da atitude crítica, a atitude da promoção da livre discussão
das teorias com a finalidade de identificar os seus pontos fracos e promover o seu
aperfeiçoamento.

15
Popper (2003) define o comportamento dogmático com sendo aquele onde se espera encontrar regularidades em
todo o lado, inclusive onde elas não existem.
39

Ao defender a idéia de que o conhecimento científico não se assenta no método


indutivo e sim que a ciência deve se basear em hipóteses e refutações, Popper
contribuiu significativamente com a comunidade científica ao demonstrar que a
transformação e o aprimoramento do conhecimento científico dependem da
oportunidade para o estabelecimento de novas hipóteses e da possibilidade de sua
refutação. Desta forma, apesar de considerar científica apenas as teorias derivadas da
matriz linear, Popper contribuiu indiretamente para a proposta da construção de um
ambiente científico baseado na dialógica, diferente daquele unicamente caracterizado
pela imposição de idéias.

Para Vasconcelos (2002, p. 51):

[....] a partir da crítica às pretensões fundacionistas, que acreditavam que o


conhecimento era construído ou justificado por fundamentos seguros, sólidos e
inquestionáveis, sejam eles racionalistas ou empiricistas, Popper (1963/1982)
propõe que o caminho seja a eliminação do erro grosseiro e das
tendenciosidades do pesquisador através da “tradição crítica”, ou seja, a crítica
mútua exercida pelos cientistas, pela abertura da metodologia e dos resultados
à análise e questionamento pela comunidade científica. Nessa perspectiva,
Popper pode ser considerado como um precursor chave do chamado
movimento pós-positivista, no qual o princípio da objetividade é reapropriado de
forma não fundacionista: assume-se a existência de uma realidade externa
regida por leis naturais ou históricas, mas que não podem nunca ser totalmente
apreendidas, dada à precariedade dos instrumentos sensoriais e cognitivos
humanos. Assim, a idéia de objetividade constitui muito mais um “ideal
regulatório”, na medida em que o pesquisador pode apenas se aproximar dela,
como o suporte da tradição crítica (exigências de clareza no relato da
investigação e consistência com a tradição na área) e a comunidade crítica
(julgamento dos pares). Dessa forma, não se garante a certeza dos resultados,
mas apenas que as investigações estão livres de erros grosseiros. Além disso,
enfatiza-se o “multiplismo crítico”, ou seja, a aplicação de estratégias de
triangulação que fazem uso de várias fontes e tipos de dados, visando corrigir e
compensar mutuamente os limites de cada uma das metodologias específicas.

Outra contribuição significativa para o desenvolvimento da ciência e que também


propiciou o aperfeiçoamento da estrutura cognitiva necessária para o desenvolvimento
deste estudo refere-se à noção de paradigma idealizada por Thomas Kuhn em seu livro
“A Estrutura das Revoluções Científicas”. Em sua obra, Kuhn (2005, p. 13) define
‘paradigmas’ como “as realizações científicas universalmente reconhecidas que,
durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma
comunidade de praticantes da ciência”. Kuhn (2005, p. 220) informa que o termo
paradigma pode ser utilizado em dois sentidos diferentes:
40

[...] de um lado, indica toda a constelação de crenças, valores, técnicas, etc.,


partilhadas pelos membros de uma comunidade determinada [...] e de outro,
denota um tipo de elemento dessa constelação: as soluções concretas de
quebra-cabeças que, empregadas como modelos ou exemplos, podem
substituir regras explícitas como base para a solução dos restantes quebra-
cabeças da ciência normal.

Para Kuhn (2005), quando os fatos concretos não conseguem mais se encaixar
dentro de paradigmas vigentes, acontecem as anomalias que vão forçar a emergência
de novos paradigmas.

Em função destas características, a noção de paradigma passou a ser aceita no


meio acadêmico e amplamente aplicada pela comunidade científica pelo fato de permitir
aos cientistas testar as suas hipóteses em relação aos paradigmas vigentes, como
forma de testar a sua validade. Somente quando o paradigma não consegue mais
resolver os problemas pesquisados e provoca anomalias, surgem então crises que vão
dar origem há um novo paradigma.

Para Vasconcelos (2002, p. 33), Kuhn introduziu a idéia de que:

[...] a ciência não avança de forma linear, evolutiva e cumulativa, mas por meio
de rupturas ou paradigmas, como verdadeiros sistemas de crenças e
referências quase sempre incompatíveis uns com os outros, dentro dos quais
as verdades científicas teriam formas limitadas e relativas de validade. Nessa
mesma conjuntura, a crítica à especialização e à tecnoburocracia induziram a
aspirações por práticas inter e transdisciplinares, capazes de fazer dialogar e
produzir trocas entre os diversos campos de saber.

Em sua obra, o autor preocupa-se em diferenciar o conceito de ciência normal da


definição de paradigma. Ele define a ciência normal como a pesquisa firmemente
baseada em uma ou mais realizações científicas passadas, sendo essas realizações
reconhecidas durante algum tempo por alguma comunidade científica. Quanto ao
paradigma, o autor o define como aquilo que é compartilhado por membros de uma
comunidade. Em especial no caso das comunidades científicas, são as realizações
científicas universalmente conhecidas, que, durante algum tempo, fornecem problemas
e soluções modelares para uma comunidade praticante de uma ciência.

Para Vasconcelos (2002), a crítica à perspectiva popperiana e pós-positivista é


desenvolvida inicialmente por autores como Kuhn, que, apesar de suas posições
41

diferenciadas, caminham em uma direção mais relativista, apontando para a questão de


que nas refutações, o que está sendo testado é um conjunto complexo de teorias e
hipóteses auxiliares. É sempre possível fazer alterações nas hipóteses e teorias
particulares sem alterar a teoria mais geral. Assim, torna-se difícil afirmar quando uma
teoria global deve ser considerada refutada e substituída por outra. Para Vasconcelos
(2002, p. 52):

[...] nos períodos de “ciência normal”, os problemas e soluções são colocados


dentro de um paradigma adotado, e os resultados discrepantes não ameaçam a
teoria ou paradigma pela modificação de uma hipótese anterior. Entretanto, nas
revoluções e crises das teorias científicas de grande amplitude, novos
fenômenos são descobertos, conhecimentos aceitos são abandonados e há
mudanças radicais na prática científica, em paralelo com as transformações nas
visões de mundo na sociedade como um todo.

Ao que parece, o surgimento da crise ambiental em larga escala já anunciada e


os reflexos negativos percebidos pela sociedade, em especial pelas organizações
industriais que já esboçam preocupações com questões sociais e ambientais, sugerem
profundas reflexões quanto à necessidade da refutação de padrões tradicionais de
produção do modo de vida das sociedades contemporâneas e a necessidade do
estabelecimento ou adoção de um novo conceito capaz de repensar a forma de
produção científica e industrial.

A noção de refutabilidade apresentada por Popper e de paradigma definida por


Kuhn são aplicadas no contexto deste estudo sobre meio ambiente e indústrias
químicas, numa tentativa de apontar algumas insuficiências do paradigma vigente e de
contribuir para a construção de uma nova forma de se produzir ciência e sociedade,
baseadas em ações orientadas para a promoção do diálogo e para a inclusão do outro.

Para Vasconcelos (2002), a noção de “paradigma da complexidade” proposta por


Edgar Morin torna-se crucial para o campo das teorias humanas e sociais, e chave para
a construção de estratégias epistemológicas adequadas para práticas interdisciplinares
explicitamente críticas, pluralistas, sem o apelo a um relativismo radical. Em função de
suas características peculiares, este estudo será desenvolvido à luz da teoria da
complexidade proposta por Edgar Morin, também denominada como teoria não-linear
por autores como Fritjof Capra.
42

2.1.4. A Escolha pela Matriz da Complexidade

A elaboração do projeto de estudo com característica multidisciplinar envolvendo


as variáveis “meio ambiente” e “organizações”, originadas de campos científicos
distintos e determinados, apontou para as insuficiências da matriz linear em relação à
concepção de uma pesquisa envolvendo um estudo de percepções. Na abordagem
linear, as questões relacionadas ao meio ambiente e organizações normalmente são
tratadas de forma isolada, como se fossem domínios absolutamente incomunicáveis ou
como se um fosse submetido ao controle do outro, no caso o meio ambiente submetido
ao interesse e controle por parte das organizações.

Em razão destas insuficiências e da dinâmica envolvida na delicada relação


existente entre as variáveis escolhidas, houve a necessidade de alinhar os objetivos
deste estudo de forma a propiciar o diálogo entre duas áreas distintas da ciência,
buscando promover um estudo multidisciplinar orientado para a promoção da
aproximação entre ser humano e natureza, ou seja, entre organizações e meio
ambiente, respectivamente.

Tratar o objeto de estudo proposto da forma tradicional, ou seja, à luz do


pensamento linear, sem promover o diálogo entre os dois campos científicos distintos
envolvidos ou sem considerar a relação polarizada existente entre os diferentes tipos de
atores relacionados ao tema, poderia representar como resultado o desenvolvimento de
um estudo parcial de característica unilateral. Ao elaborar um estudo unicamente a
partir do ponto de vista das organizações, a abordagem do meio ambiente poderia ser
reduzida a uma variável controlada pelos interesses das organizações. Por outro lado,
ao elaborar um estudo partindo unicamente do ponto de vista de atores que defendem
a preservação do meio ambiente de forma mais extremada e intocável, o resultado do
estudo poderia gerar um entendimento de características reducionistas da mesma
forma como o tema é muitas vezes percebido pela maior parte da sociedade, ou seja,
de que as organizações industriais são as únicas responsáveis pela destruição do
Planeta. Este estudo se propõe, em termos de fundamentação teórica, a ouvir e a
estabelecer um diálogo entre representantes de campos científicos distintos, das
ciências humanas e naturais, de forma a ampliar a discussão sobre o tema a fim de que
43

possam ser encontrados os elementos necessários para o desenvolvimento da


proposta do estudo de percepção.

A opção pela experimentação da matriz da complexidade como alternativa


epistemológica para o desenvolvimento deste estudo surgiu a partir dos primeiros
contatos com as formulações de Edgar Morin, apresentadas em seu livro “Ciência com
Consciência”. Em sua obra, Morin define como princípio da complexidade aquele que
estabelece a comunicação entre o objeto e o ambiente, que não sacrifica o todo à parte
e estabelece uma relação entre as ciências humanas e naturais; criando um mecanismo
para que a ciência possa refletir sobre ela mesma, reformando o seu modo de pensar.
Como forma de defender a teoria da complexidade e conseqüentemente a idéia da
necessidade da promoção da transdisciplinaridade16, Morin (1998) propõe à
comunidade científica uma nova forma de se fazer ciência com consciência e de
produção do conhecimento científico como alternativa ao modo tradicional17 de
produção científica.

Para Morin (2006, p. 35), a complexidade “à primeira vista, é um fenômeno


quantitativo, a extrema quantidade de interações e de interferências entre um número
muito grande de unidades”. Ela está presente em qualquer “sistema auto-organizador
(vivo), mesmo o mais simples”, que “combina um número muito grande de unidades da
ordem de bilhões, seja de moléculas numa célula, seja de células no organismo”
(MORIN, 2006, p. 35).

Morin alerta, porém que a complexidade não compreende apenas quantidades


de unidade e interações que desafiam as possibilidades de cálculo: compreende
também incertezas, indeterminações, fenômenos aleatórios. O autor considera que a
complexidade, num certo sentido, sempre tem relação com o acaso.

16
Vasconcelos (2002) define que as práticas transdisciplinares correspondem aos campos de interação de médio e
longo prazo que pactuam uma coordenação de todos os campos de saberes individuais e interdisciplinares de um
campo mais amplo, sobre a base de uma axiomática geral compartilhada. O autor complementa sua definição
informando que há uma tendência à estabilização e criação de campo de saber com autonomia teórica e operativa
própria.

17
Para Morin (1998), o modo tradicional é o modo de produção de conhecimento que há mais de três séculos não
faz mais do que provar suas virtudes de verificação e de descoberta em relação a outros modos de conhecimento.
44

Para Morin (2006, p. 5 e 6) algumas interpretações equivocadas quanto a sua


proposta para a complexidade se devem ao entendimento estabelecido para o conceito
da “palavra” complexidade:

[...] a palavra complexidade não tem por trás de si uma nobre herança filosófica,
científica ou epistemológica. Ela suporta, ao contrário, uma pesada carga
semântica, pois que traz em seu seio confusão, incerteza, desordem. Sua
primeira definição não pode fornecer nenhuma elucidação: é complexo o que
não pode se resumir numa palavra-chave, o que não pode ser reduzido a uma
lei nem a uma idéia simples. Em outros termos, o complexo não pode se
resumir à palavra complexidade, referir-se a uma lei da complexidade, reduzir-
se à idéia de complexidade.

O trecho revela que, para ele, a complexidade não se limita a apresentar


soluções simplistas ou simplificadoras, mas a redefinir novos problemas de pesquisa.
Em seus próprios termos, “a complexidade é efetivamente o tecido de acontecimentos,
ações, interações, retroações, determinações, acasos, que constituem nosso mundo
fenomênico” (MORIN, 2006, p. 13). Como forma de possibilitar uma melhor
compreensão para a proposta da complexidade, Morin propõe o entendimento de três
princípios: o dialógico, o da recursão organizacional e o hologramático.

Para o autor, as suas considerações sobre ordem e desordem podem ser


concebidas em termos dialógicos, segundo os quais a ordem e a desordem projetam-se
como dois adversários que se enfrentam na tentativa de um suprimir o outro, mas ao
mesmo tempo e em certos casos, colaborarem e produzirem organização e
complexidade. Para Morin (2006, p. 74), “o princípio dialógico nos permite manter a
dualidade no seio da unidade. Ele associa dois termos ao mesmo tempo
complementares e antagônicos”. Em relação ao desenvolvimento deste estudo, este
princípio será considerado na tentativa de aproximação das variáveis-chave “meio
ambiente” e “indústrias químicas”, uma vez que as relações existentes entre estas duas
variáveis se apresentam em diferentes momentos como complementares e
antagônicas: complementares no sentido que os diferentes tipos de organizações
dependem do meio ambiente para o desenvolvimento de suas operações e antagônicas
por que muitas vezes as organizações são julgadas pelo desenvolvimento de atividades
consideradas prejudiciais ao meio ambiente. Para Morin (2006, p. 87):
45

Não temos de um lado o indivíduo, de outro a sociedade, de um lado a espécie,


do outro os indivíduos, de um lado a empresa com seu diagrama, seu programa
de produção, seus estudos de mercado, do outro seus problemas de relações
humanas, de pessoal, de relações públicas. Os dois processos são
inseparáveis e interdependentes.

Com relação ao princípio da recursão organizacional, Morin (2006, p. 74)


considera que “um processo recursivo é um processo onde os produtos e os efeitos são
ao mesmo tempo causas e produtores do que os produz”. Para Morin (2006, p. 74) “a
sociedade é produzida pelas interações entre indivíduos, mas a sociedade, uma vez
produzida, retroage sobre os indivíduos e os produz”, ou seja, “os indivíduos produzem
a sociedade que produz os indivíduos”. Para o autor esta idéia recursiva é uma idéia
em ruptura com a idéia linear de causa/efeito, de produto/produtor, de
estrutura/superestrutura, uma vez que tudo o que é produzido volta-se sobre o que o
produz num ciclo autoconstrutivo, auto-organizador e autoprodutor. Este princípio será
explicitado ao longo do desenvolvimento deste estudo, no sentido de compreender e
caracterizar as relações recursivas existentes entre “meio ambiente” e “indústrias
químicas”.

Para Morin (2006), a complexidade envolve ainda o princípio hologramático, no


qual a menor parte contém a quase totalidade da informação do objeto representado.
Seguindo a idéia original de Pascal, que considerava não ser possível conceber o todo
sem as partes e da mesma forma as partes sem o todo, Morin (2006, p. 74 e 75) ao
desenvolver o princípio hologramático para a complexidade considera que “não apenas
a parte está no todo, mas o todo está na parte”. Para Morin (2006, p. 74 e 75), “o
princípio hologramático está presente no mundo biológico e no mundo sociológico”.
Seguindo esta lógica, pode-se considerar que as diferentes atividades desenvolvidas
pelas organizações no Planeta Terra geram em maior ou menor grau de intensidade
influências sobre o ambiente global e este, quando em desequilíbrio, gera influências
negativas sobre as diferentes partes que constituem o ambiente global, quer sejam elas
elementos do mundo sociológico ou biológico.

Morin (2006, p. 74 e 75) considera que a “própria idéia hologramática está ligada
a idéia recursiva, que está ligada, em parte, à idéia dialógica”. Para o autor a idéia
paradoxal contida no princípio hologramático imobiliza o espírito linear da mesma forma
46

que na lógica recursiva, sabe-se muito bem que o adquirido no conhecimento das
partes volta-se sobre o todo. Para Morin (2006, p. 74 e 75) “pode-se enriquecer o
conhecimento das partes pelo todo e o do todo pelas partes, num mesmo movimento
produtor de conhecimentos”.

Como divulgador das formulações de Morin, Vasconcelos (2002) reforça algumas


características dos fenômenos complexos: os fenômenos complexos são passíveis de
desordem (caos, acaso, aleatoriedade, indeterminismo) e ordem (auto-organização,
determinismo), em processo de interação contínua, mas que mantém os dois termos
como antagônicos e complementares ao mesmo tempo; os fenômenos complexos são
marcados pelos processos de emergência, pelos quais propriedades novas/diferentes
surgem a partir da interação das partes ou dos diferentes níveis de realidade e
organização, marcando a necessidade de diferentes epistemologias e paradigmas para
a abordagem destas descontinuidades, às vezes dentro de um mesmo campo
disciplinar; os fenômenos complexos são marcados pela retroação ou recursão
organizacional, que diz respeito à recorrência de um efeito sobre as condições
geradoras, exigindo a passagem de níveis epistemológicos diferentes; os fenômenos
complexos são marcados pelos princípios da interação com o observador ou da
implicação, pelo qual a análise ou intervenção em um fenômeno depende sempre da
perspectiva do observador; o conhecimento acerca dos fenômenos complexos implica
incertezas, descontinuidades e desconhecimento parcial, principalmente acerca dos
níveis diferenciados de sua organização ou do sistema de interação entre eles ou entre
níveis epistemológicos diversos.

Refletindo sobre os modos de produção científica, Vasconcelos (2002, p. 62)


considera que Morin contrapõe o “paradigma da simplicidade” com o que denominou de
"paradigma da complexidade". A complexidade segundo Morin citado por Vasconcelos
(2002, p.62) compreende:

[...] o que foi tecido junto: de fato, há complexidade quando elementos


diferentes são inseparáveis constitutivos do todo (como o econômico, o político,
o sociológico, o psicológico, o afetivo, o mitológico), e há um tecido
interdependente, interativo e inter-retroativo entre o objeto do conhecimento e
seu contexto, as partes e o todo, as partes entre si. Por isso, a complexidade é
a união entre a unidade e a multiplicidade.
47

As grandes crises sócio-econômicas-ambientais podem em parte ser explicadas


pela ausência do entendimento das relações ocultas existentes entre os elementos que
constituem as partes e o todo e em razão do distanciamento ocorrido entre o ser
humano e o ambiente natural. Ao reforçar a sua crença na dominação e controle da
natureza, o ser humano desenvolveu uma ciência que originou as condições
necessárias para o estabelecimento de uma sociedade dominante alicerçada em uma
racionalidade instrumental, prejudicando ou minimizando desta forma o
desenvolvimento de uma sociedade orientada para a ação racional substantiva18. Para
Morin (1998), desde que a ciência assumiu uma posição central e hegemônica,
estabeleceu um pensamento simplificador demarcado pela separação do ambiente e
seu observador e pela redução ou unificação daquilo que é diverso ou múltiplo. Morin
(1998) acredita que este mesmo pensamento que gerou o distanciamento das ciências
da natureza das ciências do homem; fez com que conceitos de indivíduo, homem e
sociedade se perdessem em processos interdisciplinares19 ampliando os riscos dos
saberes científicos serem acumulados apenas em banco de dados e de estarem
sujeitos ao controle exercido pelos poderes econômicos e políticos.

Como forma de contrapor as vantagens e desvantagens do desenvolvimento


científico na atualidade, Morin (1998) menciona que o desenvolvimento científico
disciplinar das ciências não traz unicamente as vantagens da divisão do trabalho, mas
traz também os inconvenientes da superespecialização envolvendo o enclausuramento
ou fragmentação do saber. O autor considera que este mesmo desenvolvimento
científico promoveu um desligamento entre a ciência da natureza, responsável pela
exclusão do espírito e da cultura responsáveis pela sua produção, daquilo que ele
chama de ciências do homem, a qual adotou a noção de que somos incapazes de
pensar apesar de sermos seres humanos dotados de espírito e consciência enquanto

18
Para Serva (1996, p. 340), a ação racional substantiva é a “ação orientada para duas dimensões: na dimensão
individual, que se refere à auto-realização, compreendida como concretização de potencialidades e satisfação; na
dimensão grupal, que se refere ao entendimento, na direção da responsabilidade e satisfação sociais”.
19
Vasconcelos (2002) define que as práticas interdisciplinares correspondem às práticas de interação participativa
que inclui a construção e pactuação de uma axiomática comum a um grupo de campos de saber conexos, definida no
nível hierarquicamente superior, introduzindo a noção de finalidade maior que redefine os elementos internos dos
campos originais.
48

seres vivos biologicamente constituídos.

Para Morin (1998), o fenômeno da especialização das ciências antropossociais


que envolvem os conceitos molares de homem, de indivíduo e de sociedade que
perpassam várias disciplinas, são de fato triturados ou dilacerados entre elas, sem
poder ser reconstituídos pelas tentativas interdisciplinares. Morin (1998) complementa
sua reflexão em torno dos efeitos nocivos da fragmentação considerando que o seu
resultado leva ao anonimato, ou seja, o saber deixa de ser pensado, meditado, refletido
e discutido por seres humanos, integrado na investigação individual de conhecimento e
sabedoria, se destinando cada vez mais a apenas ser acumulado em banco de dados
para depois ser manipulado.

Uma das citações do livro que teve um especial significado para a tomada de
decisão quanto à escolha da teoria da complexidade para o desenvolvimento deste
estudo é quando Morin (1998) alerta para a necessidade da não eliminação da hipótese
de um neo-obscurantismo generalizado, produzido pelo mesmo movimento das
especializações, no qual o próprio especialista torna-se ignorante de tudo aquilo que
não concerne a sua disciplina e o não-especializado renuncia prematuramente a toda a
possibilidade de refletir sobre o mundo, a vida e a sociedade, deixando esse cuidado
aos cientistas, que não têm tempo nem meios conceituais para tanto.

Como relatado anteriormente, durante a sua participação no programa de


mestrado e em meio ao desenvolvimento desta investigação epistemológica, este
pesquisador descobriu o quanto estava distante, em termos de reflexão, de outras
áreas do saber além daquelas que correspondem à sua área original de formação. Tal
situação é explicada por Morin (1998, p. 17) quando menciona que se trata de uma
“situação paradoxal, em que o desenvolvimento do conhecimento instaura a resignação
à ignorância e o da ciência significa o crescimento da inconsciência”. Como forma de
reforçar esta situação paradoxal, Morin (1998) apresenta a sua concepção de uma
ciência que necessita ser realizada com consciência mencionando que o progresso
inédito dos conhecimentos científicos convive com o progresso múltiplo da ignorância;
que o progresso dos aspectos benéficos da ciência convive com os aspectos nocivos e
mortíferos; e que o progresso ampliado dos poderes da ciência convivem com a
49

impotência ampliada dos cientistas a respeito desses mesmos poderes.

Dessa forma, o pensamento de Morin contribuiu significativamente para a


mudança da percepção deste pesquisador em relação à necessidade de se realizar
uma produção científica com consciência. Em uma sociedade em que cada vez mais
trabalhos acadêmicos são escritos para um número cada vez menor de leitores, há de
se pensar na qualidade e na relevância daquilo que é produzido. Em um contexto em
que muitas vezes os membros da academia são avaliados por métricas quantitativas e
não pela qualidade de suas produções, se faz necessário repensar o sentido e o
destino da produção do conhecimento científico, de forma a efetivamente torná-lo mais
útil para o atendimento das reais necessidades da sociedade.

A dificuldade da busca de soluções ambientais compatíveis com as expectativas


dos diferentes atores da sociedade reflete as mesmas dificuldades encontradas na
produção do conhecimento científico. Para Morin (1998), estas dificuldades se devem
ao fato de que cada vez mais as disciplinas se fecham e não se comunicam com as
outras. Os fenômenos são cada vez mais fragmentados, o que impede de se conceber
a sua unidade, fato que exige o alcance de uma condição de transdisciplinaridade.
Morin (1998) chama a atenção para o fato de que o desenvolvimento da ciência
ocidental desde o século XVII não foi apenas disciplinar, mas também um
desenvolvimento transdisciplinar, pois considera que a ciência nunca teria sido ciência
se não tivesse sido transdisciplinar. O autor defende a idéia que precisamos ir do físico
ao social e também ao antropológico, por que todo conhecimento depende das
condições, possibilidades e limites de nosso entendimento, isto é, de nosso espírito-
cérebro de homo sapiens.

Para Morin (2006, p. 68 e 69), “a visão não complexa das ciências humanas, das
ciências sociais, considera que há uma realidade econômica de um lado, uma realidade
psicológica do outro, uma realidade demográfica de outro, etc”. Segundo o autor:

Acredita-se que estas categorias criadas pelas universidades sejam realidades,


mas esquece-se que no econômico, por exemplo, há as necessidades e os
desejos humanos [...] atrás do dinheiro, há todo um mundo de paixões, há a
psicologia humana [...] a dimensão econômica contém as outras dimensões e
não se pode compreender nenhuma realidade de modo unidimensional [...] a
consciência da multidimensionalidade nos conduz à idéia de que toda visão
unidimensional, toda visão especializada, parcelada é pobre [...] é preciso que
50

ela seja ligada a outras dimensões; daí a crença de que se pode identificar a
complexidade com a completude (MORIN, 2006, p. 69).

Faz-se importante esclarecer que a adoção da teoria da complexidade para o


desenvolvimento deste estudo não implica em deixar de reconhecer a importância e as
contribuições do pensamento linear e das especializações para o desenvolvimento da
ciência e da sociedade. Em sua proposta da complexidade, apesar de apontar diversas
limitações da matriz hegemônica positivista para a produção do conhecimento, Morin
(1998) não nega as suas contribuições, mencionando que o conhecimento científico da
forma como foi desenvolvido até então, determinou progressos técnicos inéditos, tais
como a domesticação da energia nuclear e os princípios da engenharia genética.
Corroborando as formulações de Morin, Sheldrake (2001) reconhece que de muitas
maneiras, a abordagem mecanicista da vida mostrou-se eficaz: na agricultura, na
agroindústria, na engenharia genética, na biotecnologia e na medicina moderna
prestam tributo à sua utilidade prática. Para o autor:

[...] no âmbito da compreensão fundamental, muito se aprendeu sobre a base


molecular dos organismos vivos, a natureza do material genético, o DNA, as
atividades químicas e elétricas do sistema nervoso, o papel fisiológico dos
hormônios. (SHELDRAKE, 2001, p. 19)

Tal como destacou Sheldrake, Morin (1998) reconhece que a ciência é


elucidativa no sentido de resolver enigmas, enriquecedora ao permitir a satisfação das
necessidades sociais, considerando-a conquistadora e triunfante, porém demonstra que
apesar da ciência possuir todos estes atributos positivos, cada vez mais apresenta
problemas graves que se referem ao conhecimento que produz, à ação que determina
e à sociedade que transforma. Com esta afirmação, Morin expõe a sua preocupação
em relação às influências que a ciência, e consequentemente a sua forma de produção,
exercem sobre a produção da vida em sociedade.

Para Morin (1998), uma sociedade é produzida pelas interações entre indivíduos
e essas interações produzem um todo organizador que retroage sobre os indivíduos
para co-produzi-los enquanto indivíduos humanos, o que eles não seriam se não
dispusessem da instrução, da linguagem e da cultura. O desafio da complexidade não
nos faz renunciar para sempre o mito da elucidação total do universo, mas nos encoraja
51

a prosseguir na aventura do conhecimento que é o diálogo com o universo. Para Morin


(2006, p. 76), “a única coisa possível do ponto de vista da complexidade e que já se
revela muito importante, é ter metapontos de vista sobre nossa sociedade”, condição
que “[...] só é possível se o observador-conceptor se integrar na observação e na
concepção”.

Na busca deste diálogo com o universo se faz necessário avançar da condição


unidisciplinar para a busca da multidisciplinaridade, e em um estado mais elevado pela
busca pela transdisciplinaridade. Vasconcelos (2002) considera que de acordo com a
perspectiva do paradigma da complexidade, a produção de conhecimento, e de forma
mais direta nas ciências humanas e sociais, dependerá cada vez mais da experiência
sócio-histórica, pessoal e da subjetividade dos pesquisadores. Para o autor o
desenvolvimento da criatividade e da inovação nessa esfera se sustentará
fundamentalmente na capacidade dos pesquisadores, enquanto indivíduos ou como
grupos particulares de pesquisa, assumirem o seu processo de singularidade e
individuação. Foi com base na proposta da complexidade de Morin e sob seus
conceitos que foram construídas as bases epistemológicas que nortearam a realização
deste estudo.

2.2. MEIO AMBIENTE

2.2.1. A Busca por uma Definição Multidisplinar para Natureza e Meio Ambiente

A matriz do pensamento linear, que determinou a forma de produção científica e


que produz influências diretas sobre a forma de ser e agir das sociedades
contemporâneas foi também responsável por promover o fenômeno da
superespecialização e fragmentação das ciências, criando o distanciamento percebido
entre as ciências do homem e as ciências da natureza. Este distanciamento ocorrido
entre ser humano e natureza, determinou para a maior parte da humanidade, inclusive
para diferentes comunidades detentoras de culturas milenares de relacionamento com
o meio natural, a perda de sua capacidade em compreender, em um maior grau de
amplitude, o ambiente do qual são apenas uma parte integrante.
52

Para Sheldrake (1993), em nosso mundo particular, não-oficial, a natureza é


mais fortemente identificada com a região rural em oposição à cidade, e, acima de tudo,
com as regiões selvagens e intactas. Para o autor, muitas pessoas sentem uma ligação
emocional com determinados lugares, frequentemente associados com sua infância, ou
sentem uma empatia com animais ou com plantas, da mesma forma que são inspiradas
pela beleza da natureza ou vivenciam um sentimento místico de unidade com o mundo
natural. Segundo o autor:

Durante a infância, as crianças frequentemente são criadas numa atmosfera


animista de contos de fadas, de animais que falam e de transformações
mágicas. O mundo vivo é celebrado em poemas, cantos e canções, e refletido
em obras de arte. Milhões de pessoas que vivem na cidade sonham em dirigir-
se para o campo, ou mudar-se para lá, ou em possuir uma segunda casa em
ambiente rural. (SHELDRAKE, 1993, p. 15)

Para Beck (2006, p. 32) quando alguém utiliza a palavra “natureza”,


imediatamente se estabelecem alguns questionamentos:

[...] que modelo cultural de natureza é aquele que se dá por suposto? A


natureza dominada, explorada até o esgotamento pela indústria? Ou a vida
rural dos anos cinqüenta (tal como se contempla hoje retrospectivamente, ou tal
com contemplavam então as pessoas que viviam no campo)? A solidão das
montanhas antes de existir uma guia intitulada passeios nas montanhas
solitárias? A natureza das ciências naturais? Ou a que se vende nos folhetos
turísticos do supermercado? A visão realista do homem de negócios, segundo a
qual as intervenções industriais sobre a natureza sempre podem reparar-se
plenamente? Ou a visão das pessoas sensíveis, comovidas pela natureza, que
consideram que inclusive as intervenções em pequena escala podem causar
danos irreparáveis?

Sheldrake (1993, p. 16) acredita que “o nosso relacionamento privado com a


natureza pressupõe que esta seja viva e, pelo menos de modo implícito, usualmente
feminina”. Para Sheldrake (1993, p. 21):

Á semelhança das mães humanas, a natureza sempre evocou emoções


ambivalentes. É bela, fértil, nutriz, benevolente e generosa. Mas também é
selvagem, destrutiva, desordenada, caótica, opressiva e lida com a morte.

De acordo com Sheldrake (1993, p. 22):

As próprias palavras que designam a natureza nas línguas européias são


femininas – por exemplo, phusis em grego, natura em latim, la nature em
francês, die Natur em alemão. A palavra latina natura significa, literalmente,
53

“nascimento”. A palavra grega phusis vem da raiz phu cujo significado básico
também estava associado a nascimento (Partridge (1958)). Desse modo,
nossas palavras física e físico, assim como natureza e natural, têm suas origens
no processo de dar à luz, de criar e de proteger (mothering).

Sheldrake (1993, p. 22) considera que “um dos significados fundamentais de


‘natureza’ é uma disposição ou caráter congênito, como ocorre na expressão natureza
humana”. Para o autor:

Este significado, por sua vez, está ligado à idéia da natureza como um impulso
ou poder inato [...] numa escala mais ampla, a natureza é o poder criativo e
regulador que opera no mundo físico, a causa imediata de todos os seus
fenômenos (SHELDRAKE, 1993, p. 22).

Por essa razão, para Sheldrake (1993, p. 22) a “natureza passa a significar o
mundo físico, ou natural, como um todo”. Quando a natureza é personificada “[...] ela é
a Mãe Natureza, um aspecto da Grande Mãe, a fonte e o sustentáculo de toda a vida, e
o ventre para o qual toda a vida retorna” (SHELDRAKE, 1993, p.22).

Esta visão da natureza como mãe é retratada por diferentes culturas milenares
ao redor do mundo, desde aquelas que já desapareceram até aquelas que de alguma
forma ainda resistem às pressões exercidas pela sociedade contemporânea sobre suas
culturas e seus domínios. Poucas definições elaboradas pela ciência tradicional se
revelam capazes de retratar em profundidade e sensibilidade o sentido de natureza
simbólica presente na sabedoria indígena, como aquela expressada pelo Chefe
Indígena Duwamish (Chefe Seattle) no discurso que fez ao Presidente Franklin Pierce
em 1854, em resposta a proposta de compra de suas terras pelo governo americano
(ver Anexo 1).

Em seu discurso, o chefe indígena contrapõe a visão utilitarista do homem


branco em relação ao domínio da natureza com o significado que esta representa para
o homem vermelho. Em suas palavras, o Chefe Seatle retrata com fidelidade o
processo de apropriação da natureza percebido na sociedade contemporânea, dando
um exemplo da sabedoria da cultura indígena, dizimada de forma assustadora por
poderes hegemônicos ao longo dos últimos séculos em diversos locais no mundo.
54

A declaração do Chefe Seattle, amplamente divulgada por movimentos


ambientalistas, sugere inúmeras reflexões sobre a relação ser humano-natureza e os
comportamentos desenvolvidos pela sociedade da qual a grande maioria de nós faz
parte. Quando menciona “vamos, porém, pensar em sua oferta, pois sabemos que se
não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará nossa terra”, o chefe
indígena revela a força e a forma com a qual a sociedade contemporânea se apossou
da natureza.

De acordo com Sheldrake (1993, p. 25) na cultura indígena a terra é “sagrada


tanto como a fonte de vida quanto como o receptáculo dos mortos”. Para o poeta grego
Ésquilo citado por Sheldrake (1993, p.25), ela “dá vida a todas as coisas, sustenta-as e
as recebe de novo em seu ventre”. Sheldrake (1993) apresenta evidências sobre este
sentimento maior pela terra quando comenta que em muitas partes do mundo, as
crianças recém-nascidas eram colocadas no chão e depois levantadas para representar
seu nascimento do ventre da terra, e quando menciona que muitas pessoas que
habitam modernas cidades industriais, desejam ser enterradas em sua terra natal, como
forma de retornar ao seu ventre terrestre.

Sheldrake (1993) considera que essas associações femininas desempenham um


importante papel em nosso pensamento uma vez que revelam que a concepção de
natureza está entrelaçada com idéias sobre as relações entre mulheres e homens,
entre deusas e deuses, e entre o feminino e o masculino em geral. Em sua reflexão, o
autor questiona: “se preferirmos rejeitar essas associações sexuais tradicionais, quais
são as alternativas para a idéia da natureza como orgânica, viva e maternal?”
(SHELDRAKE, 1993, p. 24).

Segundo Sheldrake (1993) uma delas é a que considera que a natureza consiste
apenas em matéria inanimada em movimento. Para o autor, nesse caso, apenas
negamos o princípio mãe por estarmos dele inconscientes, uma vez que “a própria
palavra matéria deriva da mesma raiz de mãe – em latim, as palavras correspondentes
são materia e mater todo o ethos do materialismo está permeado de metáforas
maternas” (SHELDRAKE, 1993, p. 24).

Para Sheldrake (1993) esta idéia da natureza como um sistema inanimado e


55

mecânico, oriunda do pensamento mecanicista, proporciona a confortadora sensação


de que estamos no controle e a impressão gratificante da confirmação da crença de
que o ser humano superou os modos de pensar primitivos e animistas.

Sheldrake (1993, p. 21) considera que:

A Mãe Natureza é menos amedrontadora se puder ser descartada como


superstição, como um estilo poético ou como um arquétipo mítico confinado à
mente humana, enquanto o mundo natural inanimado permanece onde está,
para que o exploremos.

Para Sheldrake (1993, p. 15) “no mundo oficial – o mundo do trabalho, dos
negócios e da política – a natureza é concebida como a fonte inanimada dos recursos
naturais, da qual se pode tirar proveito para o desenvolvimento econômico”. Para o
autor, a abordagem de diferentes tipos de atores que se fundamentam no pensamento
mecanicista, a exemplo de cientistas, tecnocratas, economistas ou proprietários rurais
que enxergam suas terras apenas para fins lucrativos, baseia-se, pelo menos durante
as horas de trabalho, na suposição de que a natureza é inanimada e neutra. Para
muitos desses e outros atores sociais, nada do que é natural possui uma vida, uma
finalidade ou um valor próprio. Muitos acreditam que os recursos naturais existem
apenas para serem desdobrados e que seu único valor é aquele que as forças de
mercado ou os planejadores oficiais neles imprimem.

Para Sheldrake (1993 p. 24) a concepção da natureza como máquina põe em


jogo outro conjunto de metáforas:

Muitos mecanicistas supõem que esse modo de pensar não tem equivalente em
termos de objetividade, enquanto que, por outro lado, vêem a idéia de natureza
viva como antropocêntrica, nada além de uma projeção, sobre o mundo
inanimado que nos rodeia, de maneiras humanas de pensar. Mas certamente a
metáfora “máquina” é mais antropocêntrica do que a orgânica. As únicas
máquinas que conhecemos são feitas pelo homem. A fabricação de máquinas é
uma atividade exclusivamente humana, e relativamente recente. Nos séculos
XVII e XVIII, a concepção de Deus como o planejador e o criador da máquina
do mundo o moldou à imagem do homem tecnológico. Além disso, ao tentar ver
todos os aspectos da natureza como semelhantes a máquinas, projetamos
tecnologias correntes sobre o mundo que nos cerca. Projeções de mecanismos
de relojoaria e projeções hidráulicas estavam em voga no século XVII, bolas de
bilhar e máquinas a vapor no século XIX, e tecnologias informáticas e de
computação nos dias de hoje.
56

Ao que parece, o desejo pelo estabelecimento do completo domínio do ser


humano sobre a natureza é reforçado a cada dia pela lógica de funcionamento da
matriz de pensamento linear. Para Hegel citado por Gray (2005, p. 15) ao que tudo
indica, ”[...] a humanidade só se contentará quando estiver vivendo num mundo
construído por si mesma”.

Ao distanciar-se da natureza, limitando a sua visão a uma condição


simplificadora e reducionista marcada pela substituição do simbólico pelo material, a
humanidade, de forma simultânea, acabou por estabelecer as suas relações de domínio
sobre o ambiente ocupado, orientadas para a exploração crescente dos recursos
naturais sobre o falso pretexto da satisfação de suas necessidades de sobrevivência.
Face ao sucesso do processo de formação do arquétipo mental linear, o termo
“natureza” cedeu espaço ao termo “meio ambiente”, demonstrando nova evidência de
que o que era antes sentido passou a ser coisificado.

Um estudo envolvendo a variável “meio ambiente” representa um tema


complexo, em termos da amplitude da proposta e do crescente envolvimento de
diferentes tipos de atores oriundos das mais áreas e matrizes de formação acadêmica.
Desta forma a construção do conceito meio ambiente vem sendo discutida, sendo
definida de formas variadas por especialistas das mais diferentes áreas. Por esta razão,
estudiosos consideram que a noção geral do termo “meio ambiente” não configura um
conceito que possa ou que deva ser estabelecido de modo rígido e definitivo.

A definição semântica da variável de pesquisa “meio ambiente” envolve aspectos


relacionados à multi e interdisciplinariedade, em razão do tema ser objeto de estudo em
diferentes áreas da ciência, inicialmente nas ciências naturais e mais recentemente das
ciências humanas. Esta característica faz com que um estudo sobre o meio ambiente,
orientado pela teoria da complexidade, adquira como principais características, um
espaço inclusivo, caracterizado pelo diálogo e pelo debate.

Em função destas características peculiares, o que seria então o meio ambiente?


Para Beck (2006) esta e outras perguntas, como o que é natureza, o que é terra virgem
e o que é humano nos seres humanos necessitam ser recordadas, redeclaradas,
57

reconsideradas e rediscutidas em um contexto transnacional, embora ninguém tenha as


respostas.

A própria necessidade da busca de definições para o termo “meio ambiente”


revela indícios do distanciamento ocorrido entre ser humano e natureza, a partir do
momento em que o meio ambiente deixou de ser percebido, vivido e sentido, para ser
apenas coisificado. Esta dificuldade em relação à obtenção de uma definição revela o
distanciamento ocorrido entre as diferentes áreas do conhecimento e as suas
dificuldades de estabelecer conceitos que sejam abrangentes e capazes de se
aproximar de seu sentido e seu significado. Nestas tentativas de definições é possível
perceber a distância entre sujeito e objeto, a partir do momento em que o próprio sujeito
que estabelece suas definições não considera a sua própria participação ou quando
assume uma visão antropocêntrica.

Como representante das ciências humanas, em especial da Administração,


Barbieri (2006, p.2) define que o “meio ambiente é tudo o que envolve ou cerca os
seres vivos”. Para o autor, “a palavra ambiente vem do latim e o prefixo ambi dá a idéia
de ‘ao redor de algo’ ou de ‘ambos os lados’” e “o verbo latino ambio, ambire significa
‘andar em volta ou em torno de alguma coisa’”.

Barbieri (2006, p.2) reforça a sua definição para meio ambiente mencionando
que “... as palavras meio e ambiente trazem per se a idéia de entorno e envoltório, de
modo que a expressão meio ambiente encerra uma redundância”. O autor menciona
que essa expressão é consagrada no Brasil e nos países de língua hispânica (medio
ambiente); e que em Portugal e na Itália utiliza-se apenas a palavra ambiente. De
acordo com Barbieri (2006, p.2) em outros idiomas como no idioma francês e no inglês
“utilizam-se as palavras environnement e environment, respectivamente, ambas
originadas do francês antigo environer que significa circunscrevem, cercar e rodear”.

Para Barbieri (2006) o que envolve os seres vivos e as coisas ou o que está ao
seu redor é o planeta Terra com todos os seus elementos, tanto os naturais quanto os
alterados e construídos pelos seres humanos. Desta forma o autor considera que o
meio ambiente compreende o ambiente natural e o artificial, isto é, o ambiente físico e
biológico originais e o que foi alterado, destruído e construído pelos humanos com as
58

áreas urbanas, industriais e rurais. Para o autor esses elementos condicionam a


existência dos seres vivos, podendo-se dizer, portanto, que o meio ambiente não é
apenas o espaço onde os seres vivos existem ou podem existir, mas a própria condição
para a existência de vida na Terra.

Seguindo a lógica da classificação oriunda do pensamento linear, Odum e


Sarmiento citados por Barbieri (2006) tentam distinguir três tipos de ambientes:

a) O fabricado ou desenvolvido pelos humanos, constituído pelas cidades, pelos


parques industriais e corredores de transportes como rodovias, ferrovias e portos;

b) O ambiente domesticado, que envolve áreas agrícolas, florestas plantadas, açudes,


lagos artificiais, etc...;

c) O ambiente natural, a exemplo as matas virgens e outras regiões auto-sustentadas,


acionadas apenas pela luz solar e outras forças da natureza, como precipitação,
ventos, fluxo de água, etc..., e que não dependem de nenhum fluxo de energia
controlado diretamente pelos humanos, como ocorre nos dois outros ambientes.

Os autores consideram que os elementos que constituem o primeiro tipo de


ambiente como tecnoecossistemas urbano-industriais, se caracterizam por serem
parasitas dos ambientes naturais e domesticados, uma vez que não produzem os
alimentos que a sua população necessita, não limpam o ar e reciclam muito pouco as
águas que utilizam. Para Barbieri (2006, p.3), “... esses ambientes não possuem
capacidade de regeneração, uma característica importante dos ambientes naturais e
até mesmo dos domesticados”.

Para Odum e Sarmiento citados por Barbieri (2006) o ambiente de suporte à vida
é aquela parte da Terra que satisfaz as necessidades fisiológicas vitais, provendo
alimentos e outras formas de energia, nutrientes minerais, ar e água. Segundo Barbieri
(2006, p.2):

A vida ocorre apenas na biosfera, uma estreita faixa do Planeta constituída pela
interação de três ambientes físicos: o ambiente terrestre ou litosfera, o aquático
ou hidrosfera, e o atmosférico, que envolve os outros dois ambientes. A parte
59

terrestre da biosfera é apenas a camada sólida superficial da litosfera; a da


atmosfera é a camada rente à crosta terrestre denominada de troposfera e que
alcança cerca de 11 km de altitude nos pólos e 16 km no equador. O meio
ambiente, como condição de existência da vida, envolve a biosfera e estende-
se muito além dos limites em que a vida é possível.

Para Branco (2005), representante das ciências naturais, em especial da


Biologia, palavras como “meio”, “ambiente” e “meio ambiente” possuem de um modo
geral, significados imprecisos, principalmente ao que se refere a um emprego técnico
consensual. De acordo com Branco (2005, p. 90) “os autores e dicionaristas franceses
estabelecem entre os vocábulos milieu e environnement distinção idêntica a que
fazemos entre ‘meio’ e ‘ambiente’...”. Segundo o autor, “... os ecólogos parecem evitar o
emprego da palavra ‘meio’ para indicar o ‘meio externo’, preferindo empregá-la quando
se referem ao meio interno, biológico, do animal ou vegetal”.

De acordo com Branco (2005, p.90), o termo “ambiente” é indiferentemente


empregado “... como adjetivo (o ar ambiente, o meio ambiente) ou como substantivo (o
ambiente marinho, terrestre, etc...)”. Para o autor talvez este fato tenha contribuído para
a consagração da expressão “meio ambiente” no sentido ecológico atribuído pelas
autoridades brasileiras, quando estas iniciaram a política de proteção ambiental
nacional. Evidências desta consagração podem ser percebidas no artigo 225 da
Constituição Federal, que trata sobre a questão da proteção dos recursos naturais e
que mais tarde influenciou outras interpretações e definições elaboradas pela
sociedade brasileira, a exemplo da definição do artigo 207 da Constituição do Estado
do Paraná:

Art. 225 Todos têm o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem
de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao
Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as
presentes e futuras gerações (BRASIL, 1988).

Art. 207. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem
de uso comum e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Estado,
aos Municípios e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as
gerações presente e futuras, garantindo-se a proteção dos ecossistemas e o
uso racional dos recursos ambientais (PARANÁ, 2001).
60

Para Branco (2005, p. 91):

A palavra ‘meio’, tal como geralmente é empregada em biologia, tem uma


conotação de substância, mais que de entorno [...] quando falamos em um ser
que vive num ‘meio aquático’ parece que estamos nos referindo mais
precisamente ao estado líquido em que ele reside, isoladamente, do que ao
conjunto de seres e circunstâncias que convivem e interagem com ele nesse
meio.

De acordo com o Grand dictionnaire encyclopédique Larousse citado por Branco


(2005, p. 91), a palavra ‘meio’ é definida do ponto de vista biológico como:

Conjunto de fatores que agem de maneira permanente ou durável sobre um


animal, uma planta, uma biocenose, e aos quais os organismos vivos devem
estar adaptados para sobreviver e perpetuar-se.

Já o termo “ambiente”, segundo o autor, não teria essa especificidade: “o


ambiente é mutável e dinâmico em função da própria atividade vital que nele se
desenvolve” (BRANCO, 2005, p. 92).

Para Branco (2005) o termo “meio” possui uma conotação bioquímica e físico-
química, fazendo com que a expressão “meio ambiente” adquira um caráter mais
restritivo. Para o autor esta expressão se refere ao “meio circundante”, mas não
abrange o conceito sistêmico que considera os próprios organismos como parte de
ambiente. Branco (2005) considera que se a intenção dos autores da expressão era
usar “meio” no sentido mais geral, referindo-se a “lugar no espaço”, então a expressão
é simplesmente redundante. “Seria como dizer ‘lugar ambiente’, em vez de empregar
simplesmente o substantivo ‘ambiente’” (BRANCO, 2005, p. 93).

Para pesquisadores de fronteira o termo meio ambiente também é considerado


restrito, motivo pelo qual ele é substituído pelo termo ambiente. Em sua concepção não
linear sobre ambiente Leff (2000, p. 159 e 160) considera que:

O ambiente está integrado por processos, tanto de ordem física como social,
dominados e excluídos pela racionalidade econômica dominante: a natureza
superexplorada e a degradação socioambiental, perda da diversidade biológica
e cultural, a pobreza associada à destruição do patrimônio de recursos dos
povos e a dissolução de suas identidades étnicas; a distribuição desigual dos
custos ecológicos do crescimento e a deterioração da qualidade de vida. Ao
mesmo tempo o ambiente emerge como um novo potencial produtivo, resultado
da articulação sinérgica da produtividade ecológica, da inovação tecnológica e
da organização cultural. O ambiente não é o meio que circunda as espécies e
61

as populações biológicas; é uma categoria sociológica (e não biológica), relativa


a uma racionalidade social, configurada por comportamentos, valores e
saberes, bem como novos potenciais produtivos. Neste sentido, o ambiente do
sistema econômico está constituído pelas condições ecológicas da
produtividade e regeneração dos recursos naturais, bem como pelas leis
termodinâmicas de degradação de matéria e energia no processo produtivo.

Apesar do reconhecimento da condição restritiva apontada por Branco (2005) em


relação à utilização do termo “meio ambiente”, da recomendação de pesquisadores
para a adoção do termo “ambiente” e do reconhecimento que a melhor expressão para
retratar o ambiente natural é “ambiente” ou “natureza”, optou-se conscientemente pela
aplicação da expressão “meio ambiente” como denominação da variável utilizada para
o desenvolvimento deste estudo, como forma de facilitar a interpretação dos
profissionais de indústrias químicas com relação à proposta de pesquisa. Esta decisão
foi tomada em razão da consagração obtida pela expressão nos meios acadêmicos e
empresariais e por estar presente no senso comum da sociedade como definição para
um ambiente mais abrangente.

2.2.2. Reflexões sobre a Relação Ser Humano e Natureza

Com o processo de franca expansão da sociedade, o significado de natureza


viva tal como é entendido pelas culturas primitivas, cedeu espaço ao conceito de
natureza dominada, passando a ser identificada por muitos, de forma reducionista,
apenas como aquela que provê as matérias-primas necessárias para a subsistência do
ser humano.

Sheldrake (1993) considera que desde a época de nossos mais remotos


antepassados até o século XVII, admitia-se como certo o fato de que o mundo da
natureza era vivo. Segundo o autor, os filósofos gregos já haviam desenvolvido uma
sofisticada concepção da natureza como um organismo vivo, na qual, apesar dos
debates a respeito dos detalhes, o animismo ocupava posição central. De acordo com
Collingwood citado por Sheldrake (1993), os grandes filósofos acreditavam que o
mundo da natureza fosse vivo devido ao seu movimento incessante. Acreditavam que
pelo fato deste mundo possuir movimentos regulares e ordenados, que ele “[...] não só
era vivo como também inteligente, um animal imenso com uma alma e uma mente
62

racional própria”. Para os gregos “cada planta ou animal participava psiquicamente do


processo de vida da alma do mundo, intelectualmente na atividade da mente do mundo,
e materialmente na organização do corpo do mundo”. (COLLINGWOOD CITADO POR
SHELDRAKE, 1993, p. 53 e 54).

No prefácio do recente livro de James Lovelock, denominado “A Vingança de


Gaia”, Crispin Tickell revela fatos curiosos sobre as relações entre humanidade, ciência
e meio ambiente. Segundo o autor, Leonardo da Vinci viu o corpo humano como o
microcosmo da Terra, e a Terra como o macrocosmo do corpo humano, porém ele não
sabia que o corpo humano é um macrocosmo dos elementos minúsculos de vida –
bactérias, parasitas, vírus –, muitas vezes em guerra entre si, e juntos constituindo mais
do que as células do nosso corpo. Ainda segundo Tickell, Giordano Bruno foi queimado
na fogueira, mais de quatrocentos anos atrás, por sustentar que a terra estava viva, e
que outros planetas também podiam estar. Em 1785 o geólogo James Hutton viu a
Terra como um sistema auto-regulador e T.H. Huxley a percebeu da mesma forma em
1877. Já Vladimir Ivanovitch Vernadsky viu o funcionamento da biosfera como uma
força geológica que cria um desequilíbrio dinâmico, que, por sua vez, promove a
diversidade da vida.

Segundo Sheldrake (1993) a essência do pensamento grego foi herdada por


nossos antepassados medievais, porém, apesar disso, nos três últimos séculos
observou-se que um número cada vez maior de pessoas cultas passou a pensar a
natureza como isenta de vida, doutrina central da ciência ortodoxa baseada na teoria
mecanicista da natureza. Para Sheldrake (1993, p. 87) “na revolução científica do
século XVII, negou-se à natureza os tradicionais atributos da vida, a capacidade para o
movimento espontâneo e a auto-organização. Ela perdeu a sua autonomia”. Para o
autor:

Esse processo foi levado às últimas conseqüências no século XVII, quando a


natureza tornou-se nada mais que matéria inanimada em movimento, criada por
Deus e mecanicamente obediente às suas leis eternas. A natureza deixou de
ser reconhecida como mãe, e deixou de ser considerada viva. Tornou-se a
máquina do mundo, e Deus, o engenheiro todo-poderoso.

Segundo Sheldrake (1993) na medida em que a idéia de que a natureza


63

funcionava de forma mecânica, Deus foi automaticamente se tornando cada vez mais
supérfluo, fato que contribuiu, por volta do final do século XVIII, para o seu
desaparecimento da visão científica do mundo. Ainda segundo o autor, com o
subseqüente crescimento do ateísmo, a natureza, sozinha, passou a ser considerada
como a fonte de todas as coisas, gerando a crença do materialismo moderno, segundo
o qual se acredita que “[...] a natureza (ou matéria) é a fonte de todas as coisas; toda a
vida emerge dela, e para ela toda a vida retorna” (SHELDRAKE, 1993, p. 31).

Desta forma, ao longo de mais de trezentos anos, a própria ciência baseada na


matriz de pensamento linear e os poderes que a controlam passaram a promover a
substituição do significado de natureza viva, oriundo de diferentes culturas milenares,
por novos conceitos onde a natureza passou a ser entendida de forma mecânica
apenas como matéria disponível para o atendimento das necessidades criadas pelos
seres humanos. Ao final deste período, marcado pelo sucesso da construção e pela
consolidação da matriz de pensamento linear, a ampliação dos efeitos indesejados
percebidos no meio ambiente rapidamente contribuíram para revelar as insuficiências
de um modelo de sociedade alicerçado na matriz de pensamento linear, do qual se
origina a crença da possibilidade do desenvolvimento e do crescimento contínuo.

Sheldrake (1993) considera que a teoria mecanicista da natureza conquistou seu


prestígio graças aos sucessos da ciência e da tecnologia. Para o autor, na medida em
que a própria ciência se desenvolve e que a visão de mundo mecanicista está se
tornando progressivamente ultrapassada, a natureza está voltando à vida novamente
no âmbito da teoria científica. À medida que esse processo vai ganhando impulso,
torna-se cada vez mais difícil justificar a negação da vida da natureza. Com base em
suas reflexões, Sheldrake (1993, p. 82) efetua o seguinte questionamento:

[...] se o cosmos assemelha-se mais a um organismo em desenvolvimento do


que a uma máquina deixando de funcionar, se os próprios organismos são mais
semelhantes a organismos do que a máquinas, se a natureza é orgânica,
espontânea, criativa, então por que continuar acreditando que tudo é mecânico
e inanimado?

Sheldrake (1993) considera que o que justifica a poderosa razão para o apego à
visão mecanicista reside no fato de ela ser mais cômoda; dela ainda constituir a
64

ortodoxia da civilização industrial. Porém o autor alerta para o fato que ela pode não
continuar sendo a mais cômoda por muito tempo:

Decisões públicas estão reflorescendo, as velhas certezas políticas e


econômicas estão se desfazendo e se dissipando. Dúvidas a respeito da
abordagem mecanicista da agricultura e da medicina estão aumentando; a
visão da natureza como algo a ser conquistado está perdendo o seu encanto; e
o clima está mudando, tanto literal como metaforicamente (SHELDRAKE, 1993,
p. 83).

Sheldrake (1993) chega a considerar que talvez, a mais forte das razões para se
negar a vida da natureza esteja no fato de que admiti-la é algo que leva a
conseqüências esmagadoras. Para o autor:

Experiências pessoais intuitivas de natureza não podem mais ser mantidas no


comportamento selado da vida privada, e descartadas como meramente
subjetivas, pois, podem, na verdade, conter revelações da própria natureza
viva, assim como de fato parecem contê-las no momento em que são
vivenciadas. Maneiras de pensar míticas, animistas e religiosas não podem
mais ser mantidas em xeque. Nada menos que uma revolução está se
aproximando (SHELDRAKE, 1993, p. 83).

A partir da década de 1960, os impactos percebidos no meio ambiente


apresentaram evidências sobre as insuficiências da matriz de pensamento linear e
sobre as atividades danosas promovidas pela sociedade global. Neste período, os
efeitos negativos produzidos pelas indústrias e pela ciência dominada pelos interesses
econômicos passaram a ser percebidos com mais intensidade pela sociedade depois
que Rachel Carson publicou, em 1962, o livro “Primavera Silenciosa”.

Em sua obra, que em 2007 comemorou 45 anos e que é considerada por


Colborn, Dumanoski e Myers (2002) como a obra que incentivou o início do movimento
ambientalista durante o pós-guerra, a cientista e escritora expôs pela primeira vez para
a opinião pública os efeitos nocivos do uso indiscriminado de pesticidas e agrotóxicos
sintéticos no ambiente natural, alertando as sociedades globais para os riscos da
contaminação química. Nesta mesma década, uma pequena parte da ciência passou a
se dedicar em restabelecer a sua compreensão sobre os efeitos complexos da
atividade humana sobre o ambiente natural e sobre ela mesma. Muitos dos
componentes envolvidos na relação ser humano e natureza, que já eram de
conhecimento de culturas milenares, passaram a ser redescobertos e comprovados de
65

forma científica por diferentes pesquisadores ao redor do globo.

De acordo com Tickell, foi em 1972 que James Lovelock apresentou para a
comunidade científica as suas idéias sobre um Planeta vivo, por meio da apresentação
20
de sua hipótese denominada “Teoria de Gaia” , idéia que pareceu inaceitável para
muitos adeptos do pensamento convencional. De acordo com Lovelock (2006, p. 33):

Desde o seu início, na década de 1960, a idéia de auto-regulação global do


clima e da química foi impopular entre os cientistas da Terra e os cientistas da
vida. Na melhor das hipóteses, eles a consideraram desnecessária como
explicação dos fatos da vida e da Terra; na pior, condenaram-na imediatamente
nos termos mais desdenhosos. Os únicos cientistas a receberem bem a idéia
foram uns poucos metereologistas e climatologistas. Alguns biólogos logo
desafiaram a hipótese, argumentando que um biosfera auto-reguladora jamais
poderia ter se desenvolvido, já que a unidade de seleção era o organismo, não
a biosfera.

Segundo Lovelock (2006, p. 34), foi ao retornar à discussão com os Darwinistas


que em 1981 ele percebeu que, “[...] Gaia era o sistema inteiro – a união de organismos
e meio ambiente material –, e era este sistema terrestre imenso que desenvolvia a auto-
regulação, não a vida ou a biosfera sozinha”. Porém, segundo o próprio Lovelock
(2006), o reconhecimento pela ciência de que o planeta Terra é vivo, veio somente mais
tarde em 2001, durante a realização de uma conferência em Amsterdã. Nesta
conferência, em que estavam representadas quatro grandes organizações voltadas
para a mudança global, mais de mil delegados assinaram uma declaração que teve
como sua primeira afirmação importante: “O sistema Terra se comporta como um
sistema único e auto-regulador composto de componentes físicos, químicos, biológicos
e humanos” (LOVELOCK, 2006, p. 35).

20
Sheldrake (1993, p. 157) menciona que o proponente da hipótese de Gaia é a de que a Terra é um organismo vivo
auto-regulador. Segundo o autor, Lovelock começou a formular suas idéias quando pensava a respeito da maneira de
detectar vida em Marte. Durante o desenvolvimento de suas pesquisas, Lovelock compreendeu que se os gases que
constituem a atmosfera da terra estivessem em equilíbrio químico, como ocorre nas atmosferas de Marte e de Vênus,
nossa atmosfera deveria apresentar cerca de 99 por cento de dióxido de carbono. Em vez disso, ela contém apenas
0,03 por cento de dióxido de carbono, bem como 78 por cento de nitrogênio e 21 por cento de oxigênio. Para o
pesquisador, essa composição poderia ter surgido somente graças às atividades dos organismos vivos e somente
poderia ser mantida graças à sua contínua atividade.
66

Apesar do reconhecimento da comunidade científica, Lovelock (2006) menciona


que muitos dos seus membros ainda agem como se o planeta fosse uma enorme
propriedade pública possuída e compartilhada, se limitando à visão dos séculos XIX e
XX da Terra ensinada na escola e na Universidade, de um planeta constituído de rocha
inerte e morta, com vida abundante a bordo. Para Lovelock (2006, p. 44), muitos ainda
acreditam que “[...] a evolução dos organismos ocorre de acordo com a visão de
Darwin, e a evolução do mundo material das rochas, ar e oceano, de acordo com a
geologia dos livros didáticos”. Para o autor na proposta da teoria de Gaia, estas duas
evoluções que eram tratadas de forma distintas, fazem parte de uma só história da
Terra, em que a vida e seu ambiente físico evoluem como uma entidade única.

Lovelock (2006) apresenta novas evidências sobre a força da matriz do


pensamento linear. O autor considera que apesar da Declaração de Amsterdã ter
representado um passo importante rumo à adoção da teoria de Gaia como modelo de
trabalho para a Terra, as divisões territoriais e dúvidas persistentes impedem que os
cientistas que assinaram a declaração enunciem a meta da Terra auto-reguladora. Para
Lovelock (2006), esse tipo de omissão permite que os cientistas se declarem partidários
da Teoria de Gaia ao mesmo tempo em que continuam a elaborar suas pesquisas de
forma isolada como antes.

Sheldrake (1993, p. 160 e 161) acredita que “a hipótese Gaia é,


indubitavelmente, um dos passos mais importantes em direção a um novo animismo,
razão pela qual ela é tão controversa”. Para o autor ”o seu apelo, amplamente
difundido, depende da maneira pela qual ela volta a nos conectar com padrões de
pensamento pré-mecanicistas e pré-humanistas”. Para Sheldrake (1993) não se pode
disfarçar o fato de que a hipótese de Gaia envolve uma mudança radical de pontos de
vista centrados no humanismo:

Em Gaia, somos apenas uma outra espécie, não somos nem os proprietários
nem os administradores deste planeta. Nosso futuro depende muito mais de um
relacionamento correto com Gaia do que com o drama infindável dos interesses
humanos (LOVELOCK CITADO POR SHELDRAKE, 1993, p. 161).

De acordo com Lovelock (2006, p. 19), a Teoria de Gaia, assim “como todas as
teorias novas, levou décadas até ser, ainda que parcialmente, aceita, porque teve de
67

aguardar por dados para confirmá-la ou negá-la”. Para o autor é sabido agora que a
Terra de fato se regula, porém lamenta que devido ao tempo decorrido para a coleta de
dados, que a descoberta de que a regulação estava falhando e de que sistema da Terra
rapidamente se aproxima do estado crítico em que a vida corre perigo tenha vindo tarde
demais.

Para Sheldrake (1993, p. 153), “ao longo de toda a história, praticamente toda a
humanidade (e a maior parte dela ainda hoje) aceita como verdadeiro o fato de que a
Terra é viva”. O autor considera que a compreensão contemporânea emergente da
Terra como viva, embora arraigada em velhos padrões de pensamento mítico, é
fortemente influenciada por duas percepções caracteristicamente modernas: a visão
obtida da Terra a partir do espaço, tal como foi observada pelos astronautas e pelos
cosmonautas; e a compreensão de que nossas atividades econômicas estão mudando
o clima global.

Talvez a imagem da Terra vista do espaço pelos astronautas, represente uma


das experiências mais significativas e compartilhadas por uma boa parcela da
humanidade. Esta visão contribuiu de forma significativa para a materialização do
planeta “vivo”, muito diferente da visão tradicional e limitada até então aprendida nos
bancos escolares. Para Lovelock (2006, p. 131) “a Terra nunca havia sido vista como
um todo até que os astronautas a observassem para nós de fora”. Neste momento,
segundo Lovelock (2006, p. 131) “[...] vimos algo bem diferente de nossa expectativa de
uma mera bola de rocha de tamanho planetário existindo dentro de uma camada fina de
ar e água”.

Uma destas visões da Terra obtidas por astronautas a partir do espaço e que
contribuiu para reavivar e reforçar o significado da Terra como um planeta vivo foi
obtida em 24 de dezembro de 1968, pelos astronautas que integravam o missão Apollo
8. Além do reconhecimento das formas e cores, esta imagem contribuiu para revelar o
sentimento que os astronautas tiveram quando consideraram a terra como o seu lar:
68

Figura 1 – Foto do Planeta Terra – Missão Apollo 8


Fonte: Lunar and Planetary Institute (2008)

Sheldrake (1993, p. 27 e 28) faz considerações interessantes que retratam o


sentimento de natureza tal como ele é muitas vezes percebido pela sociedade
contemporânea:

[...] contrastamos hoje a paz dos primeiros tempos com os conflitos que
vivenciamos; nas sociedades “primitivas” reconhecemos um modo de vida
harmonioso que perdemos – e que até mesmo essas sociedades estão
perdendo rapidamente sob a influência da nossa civilização. Para milhões de
habitantes das cidades modernas, a vida se torna mais tolerável ante a
perspectiva de saírem a campo, de se retirarem para ambientes rurais, em fins
de semana, ou de lá permanecerem durante todo o período de férias. Nas
noites de sexta-feira, as estradas que saem das grandes cidades do mundo
ocidental ficam intransitáveis. Há algo a ser encontrado “na natureza”, de que
muitos de nós sentem necessidade.

Sheldrake (1993, p. 70) acredita que “retornar à natureza é uma imagem que
evoca a sensação de voltar para casa, ou de se religar a fonte da vida”, porém “[...]
poucas pessoas querem retornar à natureza por muito tempo”, uma vez que todos ”[...]
somos os herdeiros de uma cultura e de um modo de vida que enfatiza a nossa
69

separação”. Para Sheldrake (1993, p. 70):

Somos os senhores da criação, os conquistadores da natureza. Todos os


antigos medos ainda estão nos bastidores para nos assombrar: o colapso da
civilização, a fome extrema, a pestilência, o barbarismo. Nossos sistemas
políticos e econômicos ajudam a nos separar dos poderes destrutivos da
natureza e da natureza humana, das forças que fazem surgir nossos medos
mais básicos, da constante ameaça do caos. Várias teorias e atitudes habituais
reforçam e estendem esse distanciamento primário, especialmente os hábitos
de desprendimento científico. E, dessa forma, quanto maior for o senso de
separação da natureza, maior será a necessidade de retornar.

Neste contexto em que o sujeito tenta se reaproximar do que foi por muito tempo
considerado como apenas um objeto de estudo e não como algo essencial para a
perpetuação da sua própria vida e das gerações futuras, há de se imaginar as
dificuldades encontradas para o restabelecimento da ligação entre ser humano e
natureza.

Para Sheldrake (1993, p 70), “a natureza tem vários significados e inspira


diferentes tentativas de retorno”. Talvez uma das formas de estabelecer este retorno
passe pela compreensão da importância do ambiente natural para a manutenção da
vida. Para Capra (2005, p. 23):

Não existe nenhum organismo individual que viva em isolamento. Os animais


dependem da fotossíntese das plantas para ter atendidas as suas
necessidades energéticas; as plantas dependem do dióxido de carbono
produzido pelos animais, bem como do nitrogênio fixado pelas bactérias em
suas raízes; e todos juntos, vegetais, animais e microorganismos, regulam toda
a biosfera e mantém as condições propícias à preservação da vida.

Para Branco (2005, p.9), “o meio ambiente diz respeito, objetivamente, à


prevenção contra a extinção da vida em geral, e em particular, da vida humana”. Para o
autor o ambiente adquire uma nova dimensão onde não é mais possível dissociar os
organismos das circunstâncias que o cercam. Em suas considerações, Branco (2005, p.
104) reforça a visão mecanicista do mundo ao mesmo tempo de que apresenta
evidências da existência do princípio hologramático proposto pela teoria da
complexidade, quando considera que “o ser vivo não é mais um ser independente e de
comportamento livre: ele é, antes, uma peça de uma máquina complicada, que não
existe se não estiver associado às demais peças” [...] “ele é parte integrante do
ambiente” que “não é mais um meio circundante”.
70

Logo, pode-se concluir que refletir sobre as questões que envolvem a relação
natureza e ser humano de forma unilateral, ou seja, pensar o meio ambiente sem incluir
o ser humano ou sem envolver aspectos econômicos, sociais, políticos, culturais e
espaciais, a exemplo de inúmeras iniciativas já desenvolvidas, contribui apenas para
antecipar a crise sócio-econômica-ambiental já anunciada. Por se tratarem de questões
complexas, as questões ambientais exigem uma abordagem a partir da racionalidade e
do comportamento da sociedade quanto à forma como o conjunto de indivíduos que a
compõe estabelece as suas relações com o ambiente natural do qual é apenas uma
parte integrante.

2.2.3. O Meio Ambiente e a Sociedade Contemporânea

Com o passar dos séculos e graças às suas capacidades de organização,


criação e inovação, os seres humanos passaram a assumir de forma gradual, uma
posição diferenciada frente as diferentes formas de vida que integradas, constituem o
ambiente natural. Com o processo de crescimento de ampliação de suas populações,
os seres humanos passaram a estabelecer e a ampliar o seu poder de controle sobre o
ambiente ocupado.

Para Sheldrake (1993) as diferentes culturas apenas se diferem quanto à


intensidade de seu impulso de domínio e quanto ao sentido de afinidade que as
mantêm em equilíbrio com o mundo natural. De acordo com o autor, na história
humana, em sua totalidade:

[...] desde que o fogo foi subjugado pela primeira vez, desde que as primeiras
ferramentas foram fabricadas, desde que os metais começaram a ser usados,
desde que os primeiros animais foram domesticados e as primeiras plantas
cultivadas, e desde que as primeiras cidades foram construídas - envolveu, em
graus diversos, o domínio do homem sobre a natureza. (SHELDRAKE, 1993, p.
46 e 47)

Para Sheldrake (1993, p. 47) “o que o mundo moderno tem de único não é o fato
do poder humano em si mesmo, nem o sentido de que a humanidade é alguma coisa
sem paralelo, mas sim o enorme aumento do poder humano”. De acordo com o autor,
“as justificativas filosóficas, teológicas e mitológicas para o poder humano sobre o
71

mundo natural não constituem uma característica exclusiva da civilização moderna” [...]
“elas são encontradas por toda parte”, sendo, portanto consideradas como “[...]
concepções antropocêntricas da relação entre homem e natureza” (SHELDRAKE,
1993, p. 47). Segundo o autor:

Até mesmo o imaginário heróico da conquista da natureza pelo homem, tão


importante moderna ideologia do progresso, tem precedentes antigos. O
arquétipo do herói conquistando a natureza selvagem aparece no mito
babilônico de Marduk triunfando sobre Tiamat, o monstro das profundezas; no
deus Egípcio Hórus vencendo o hipopótamo: no triunfo de Perseu sobre a
Górgona, no de Apolo sobre Píton; e no São Jorge sobre o dragão.
(SHELDRAKE, 1993, p. 47)

Nos séculos que marcaram o surgimento da ciência das especializações, as


relações entre sociedade e meio ambiente passaram a ser tratadas de forma dissociada
pelo poderes controladores da produção científica, situação que nos dias atuais é
responsável pelos reflexos percebidos na forma de produção científica. Pela lógica da
disjunção aplicada pela ciência para a produção de novos conhecimentos, os
fenômenos relacionados ao ambiente natural passaram a ser estudados pelos
representantes das ciências naturais enquanto que, os fenômenos sociais passaram a
ser estudados pelas ciências humanas.

Este processo de disjunção, que por um lado é considerado importante para o


aprofundamento de conhecimentos científicos específicos, foi também responsável por
negar oportunidades aos representantes das ciências humanas quanto a uma melhor
compreensão das relações existentes entre sociedade e natureza. Da mesma forma,
limitou os representantes das ciências naturais em termos da promoção de reflexões
mais amplas sobre as relações existentes entre natureza e sociedade. Com o
estabelecimento das especializações científicas, o que era único foi separado, limitando
as pesquisas e a compreensão dos fenômenos observados às fronteiras pré-
estabelecidas para o desenvolvimento do conhecimento científico.

Este padrão para a produção científica gerou reflexos diretos na formação do


arquétipo mental e consequentemente nos comportamentos apresentados pela
sociedade contemporânea. Ao mesmo tempo em que a tornou detentora de inúmeros e
importantes conhecimentos, inviabilizou a comunicação entre as diferentes disciplinas,
72

impedindo que o conjunto da sociedade adquiri-se uma maior compreensão sobre os


fenômenos observados.

Um exemplo que comprova a disjunção ocorrida entre ser humano e natureza e


que se apresenta como uma tentativa artificial de promover a reaproximação das
massas com o ambiente natural envolve a construção do imaginário “Curitiba, Capital
Ecológica” descrito por Souza-Lima (2006). Em seu estudo o autor demonstra que as
diversas ações adotadas para a construção e o estabelecimento do imaginário
esconderam outras realidades decorrentes do processo de crescimento urbano
acelerado como o aumento da violência, o crescimento das favelas e a ampliação da
poluição. Tais insuficiências do imaginário original, apontadas pelo autor, podem ser
comprovadas quando da decisão política da criação de um novo imaginário “Curitiba,
Capital Social”, situação que demarca com clareza o momento em que a proposta
original passou a receber críticas em relação ao nível de atenção dispensada para as
questões sociais, uma vez que priorizou ações relacionadas ao marketing ecológico em
detrimento de ações voltadas para a promoção do desenvolvimento do ser humano.

Este exemplo demonstra com clareza a noção de disjunção presente em


políticas públicas fundamentadas na racionalidade instrumental. Trata-se de uma
evidência da predominância do pensamento linear na esfera pública, assunto tratado
por Socher (2008), em seu trabalho que trata sobre políticas públicas voltadas para o
cidadão como ator principal da esfera pública.

Situações como o exemplo da capital ecológica, amplamente divulgada pelo


mundo afora como modelo de preservação ambiental, nos remetem a refletir sobre as
formas superficiais com as quais a sociedade contemporânea tenta restabelecer suas
relações com o meio ambiente, com algo que estava próximo e que com o tempo se
tornou distante.

Para compreender as situações geradas pela nossa sociedade no contexto atual


e futuro, se faz necessário, como mencionado anteriormente por Morin (2006, p. 76),
“[...] ter metapontos de vista sobre nossa sociedade”, o qual “[...] só é possível se o
observador-conceptor se integrar na observação e na concepção”. Logo se faz
necessário estabelecer um olhar diferente, assumir uma posição pró-ativa e crítica na
73

busca do estabelecimento de um profundo envolvimento com a sociedade da qual


fazemos parte e da qual emanam os inúmeros efeitos indesejáveis oriundos de nossas
próprias ações e comportamentos. Trata-se de um exercício de enxergar e construir
uma realidade diferente, na qual cada indivíduo, ao assumir novas posições em termos
de produção e de consumo, passa a ser mais responsável pelas ações e
comportamentos que desempenha na sociedade. Trata-se de um exercício que exige
reflexão e desapego em relação às regras vigentes na sociedade que impõe o modo de
vida coletivo contemporâneo.

Infelizmente, boa parte dos indivíduos que integram nossa sociedade é


desprovida do tempo e das condições necessárias para repensar o seu papel junto à
sociedade que integram. Estes limites determinados pela lógica do pensamento
mecanicista, responsáveis por manter os seres humanos presos aos padrões
estabelecidos pela vida em sociedade, os impedem de planejar e refletir sobre suas
ações e sobre a sociedade que desejam, e consequentemente, sobre a forma como a
sociedade a qual pertencem estabelece suas relações com o ambiente natural.

Para Sheldrake (1993) apesar da abordagem mecanicista ter propiciado


progressos tecnológicos e industriais, e de ter oferecido melhores recursos para
combater doenças, ela também forneceu armas para um poder inimaginável. Para o
autor, as economias modernas são construídas sobre alicerces mecanicistas, e todas
as pessoas são influenciadas por eles. Neste contexto, segundo o autor, o mundo vivo
é concebido à imagem de uma economia capitalista e as características individualistas,
egoístas e competitivas do homem, aceitas como verdadeiras pelas teorias econômicas
da livre empresa, são então projetadas sobre os genes.

Para compreender um pouco melhor a sociedade na qual estamos inseridos se


faz necessário estabelecer algumas reflexões sobre diferentes períodos, como forma de
representar o momento e as circunstâncias geradoras das mudanças responsáveis pela
ampliação das crises sócio-ambientais percebidas na contemporaneidade. Várias são
as tentativas entre os pesquisadores de fronteira para tentar definir este momento de
transição, onde mudanças ou rupturas se revelam cada vez mais capazes de definir ou
inaugurar o surgimento de novo período para a sociedade.
74

Desde os tempos mais remotos, as diferentes sociedades promoveram


alterações no ambiente ocupado. De acordo com Sheldrake (1993) embora pareça que
as sociedades paleolíticas de caçadores-coletores tenham vivido em maior harmonia
com a natureza do que as sociedades agrícola e industrial, elas também forjaram
mudanças importantes em seu meio ambiente. Como exemplo, Ciochon, Olsen e
James citados por Sheldrake (1993) mencionam que no sudeste da Ásia o Homo
erectus pode ter caçado certas espécies de primatas até a extinção, e provocado
mudanças definitivas nos habitats e nas populações de espécies como o orangotango e
o panda.

Segundo alguns pesquisadores, as primeiras mudanças provocadas por diversos


tipos de sociedades no ambiente ocupado teriam provocado o seu rito de passagem da
sociedade primitiva para a sociedade agrícola. Esta constatação pode ser percebida no
exemplo de Gray (2005, p. 170):

Só depois de extinguir os moas e devastar a população de focas da Nova


Zelândia os primeiros colonos polinésios passaram a usar métodos mais
intensivos de produção de alimentos. Ao exterminar os animais dos quais
dependiam, esses caçadores-coletores condenaram à extinção seu próprio
modo de vida.

Para Gray (2005), a passagem da caça-coleta para a agricultura é vista com


freqüência, como uma mudança comparável à revolução industrial dos tempos
modernos. O autor considera que quando este fato é visto dessa maneira, é porque
ambas aumentaram os poderes dos humanos sem ampliar sua liberdade. O autor
justifica as suas considerações ao mencionar que os caçadores-coletores normalmente
têm o suficiente para suas necessidades; logo não têm que trabalhar para acumular
mais. Por este motivo, o autor considera que aos olhos daqueles para quem a riqueza
significa ter objetos em abundância, a vida destes indivíduos se assemelha a pobreza.
Para Sahlins citado por Gray (2005, p. 171) isto se deve ao fato de que “estamos
inclinados a pensar os caçadores-coletores como pobres por que não possuem nada;
talvez seja melhor pensá-los, pela mesma razão, como livres”.

Gray (2005, p. 171) estabelece uma comparação interessante entre o modo de


vida das sociedades primitivas com as sociedades agrícolas:
75

Caçadores-coletores têm alta mobilidade. Mas sua vida não requer mudanças
contínuas para novo território. Sua sobrevivência depende de conhecer o meio
local em seus mínimos detalhes. A agricultura multiplica o número de humanos.
Assim, compele os agricultores a expandir a terra que trabalham. A agricultura e
a busca de novas terras vão juntas. Como escreve Hugh Brody, "são os
agricultores, com seu compromisso com terras específicas e grande número de
filhos, que são forçados a constantemente se mudar, reassentar, colonizar
novas terras (...) Como um sistema, e ao longo do tempo, é a agricultura, não a
caça, que gera o 'nomadismo'.

Para Gray (2005) as populações de caçadores-coletores que passaram para o


cultivo das terras aumentaram mais em relação a populações que mantiveram os
hábitos tradicionais de subsistência. O autor acredita que:

A passagem para a agricultura não teve uma razão única. Mas, onde quer que
tenha ocorrido, foi tanto um efeito quanto uma causa do crescimento da
população humana. A agricultura tornou-se indispensável por causa da
população maior possibilitada por ela. (GRAY, 2005, p. 172 e 173)

A partir do estabelecimento das sociedades agrícola e industrial, em diferentes


épocas e em diferentes locais do mundo, a humanidade passou a desenvolver e
ampliar de forma crescente, o seu controle sobre a natureza para possibilitar o aumento
da produção e de consumo de produtos. Com base neste domínio orientado por
interesses de natureza econômica, criou-se as condições necessárias para que a
população mundial crescesse de forma exponencial, fato que garantiu a expansão das
suas atividades e consequentemente determinou a ampliação da exploração dos
recursos naturais e os impactos observados sobre o ambiente ocupado.

Evidências destas constatações podem ser verificadas em um recente estudo


elaborado por Chomitz (2007), que trata sobre a pressão sofrida pelas florestas
tropicais e bosques de savana ao redor do mundo. Segundo o autor, nestas regiões se
concentram a maior parte da população pobre do planeta, a qual é composta por
aproximadamente 70 milhões de pessoas, em sua maioria indígenas que habitam as
áreas remotas das florestas, e outras 735 milhões de pessoas, que compõe a
população rural que habita as áreas de florestas, savanas e arredores.
76

Face aos diferentes tipos de pressões sofridos por estas áreas, Chomitz (2007)
afirma que as florestas tropicais encolhem 5% a cada década, situação que segundo o
autor, deve ser mantida ou ampliada com a manutenção da previsão de expansão de
terras cultiváveis, pastos e plantações nas áreas de florestas naturais nos próximos 30
ou 50 anos. Para o autor, esta expansão é justificada tanto pela pobreza quanto pela
riqueza, uma vez que uma enorme população rural depende da agricultura de baixa
produtividade para subsistência, enquanto que, uma crescente população urbana cada
vez mais rica, necessita dos produtos produzidos nas margens das florestas. Ainda
segundo o autor, as florestas também sofrem pressões de madeireiros, uma vez que a
população pobre necessita de lenha e a população rica necessita de madeira.

A seqüência de imagens apresentada a seguir, demonstra os reflexos das


pressões exercidas pelo conjunto da sociedade sobre a natureza, em especial sobre os
biomas das florestas tropicais e savanas. De acordo com Chomitz (2007), as cores
aplicadas nestas imagens possuem os seguintes significados:

Quadro 1 – Legenda dos Mapas de Exploração das Florestas


Cor Significado
Representa as terras de mosaico de floresta e agricultura, onde a propriedade de terras
é geralmente melhor definida, as densidades populacionais mais altas, e os mercados
mais próximos. Nelas a gestão florestal natural geralmente não pode competir (da
Marrom
perspectiva do proprietário da terra) com a agricultura ou silvicultura de plantação.
Embora a floresta seja esparsa, as taxas de desmatamento são altas, e a
biodiversidade única é ameaçada.

Representa as áreas denominadas de fronteiriças e contestadas, onde as pressões


Amarela para desmatamento e degradação são altas ou crescentes, e o controle é geralmente
instável e em conflito.
Representa as terras denominadas de áreas além da fronteira agrícola – onde existem
Verde muitas florestas, poucos habitantes (predominantemente indígenas) e onde há certa
pressão sobre os recursos madeireiros.
Fonte: Adaptado de Chomitz (2007)
77

Figura 2 – Mapa de Domínios das Florestas Tropicais da África


Fonte: Chomitz (2007)

Figura 3 – Mapa de Domínios das Florestas Tropicais da Ásia


Fonte: Chomitz (2007)
78

Figura 4 - Mapa de Domínios das Florestas Tropicais da América Latina e do Caribe


Fonte: Chomitz (2007)

Com o advento da criação de novas tecnologias pelo ser humano, do aumento


das populações mundiais e da ampliação do consumo, as sociedades agrícola, urbana
e industrial contribuem de forma crescente para ampliação do quadro de degradação do
ambiente natural, extrapolando os seus limites de auto-recuperação. Para Colborn,
79

Dumanoski e Myers (2002) o século XX é considerado um divisor de águas na relação


entre o ser humano e a Terra, onde os poderes combinados da ciência e da tecnologia,
aliados ao número pessoas que vivem sobre o planeta, transformaram a escala do
impacto de localizado e regional para global.

De acordo com dados fornecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU)
(2007) e apresentados no quadro 2, percebe-se que as discussões ocorridas em torno
das questões sócio-ambientais ao longo das últimas décadas foram acompanhadas de
uma explosão demográfica mundial, fato que contribuiu significativamente para o
agravamento dos impactos ambientais até então registrados.

Quadro 2 – Crescimento da População Mundial (1970 a 2000)

Ano População

1970 3.698.676.000

1980 4.451.470.000

1990 5.294.879.000

2000 6.124.123.000
Fonte: Adaptado de Organização das Nações Unidas (ONU) (2007)

De 1970 a 2000, período em que as crises sócio-ambientais se intensificaram e


passaram a ser discutidas em maior profundidade, a população mundial quase dobrou.
Com este significativo incremento populacional, observou-se a ampliação da exploração
dos recursos naturais em escala mundial para o atendimento das novas demandas de
consumo, fato que contribuiu para o agravamento da crise sócio-ambiental já percebida
e agora consolidada pelo fenômeno do aquecimento global.

Lovelock (2006) menciona que o aquecimento global foi ligeiramente discutido


por vários autores em meados do século XX, e que mesmo o grande climatologista
Hubert Lamb, autor do livro Climate: Present, past and future publicado em 1972,
dedicou apenas uma única página ao efeito estufa em uma obra de seiscentas páginas.
De acordo com o autor, o tema só se tornou público por volta de 1988, em função da
80

maior parte dos cientistas da atmosfera estar absorvida pela intrigante ciência da
redução do ozônio estratosférico.

Com relação ao aquecimento global, Lovelock (2006) apresenta um fato


revelador ao rememorar as previsões de clima realizadas no final da década de 1980,
retratadas no livro de Stephen Schneider, Global warming, de 1989, e que ilustram as
idéias dos cientistas do clima em uma conferência realizada em 1987. Apesar dos
conhecimentos limitados então disponíveis, os cientistas fizeram o possível para prever
o clima futuro e apresentar os seus palpites na forma de linhas pontilhadas em um
gráfico, onde a linha pontilhada superior representa um cenário que julgavam ser quase
de ficção científica, de tão extremo. A título de ilustração, Lovelock (2006) acrescentou
uma cruz como forma de destacar a situação atual mencionando ao lado a expressão
“onde estamos agora”, conforme demonstrado na figura 5:

Figura 5 – Projeção do Aumento de Temperatura na Terra


Fonte: Lovelock (2006, p. 56)
81

Dados do Intergovernmental Panel on Climate Change (2007), confirmaram a


manutenção da projeção de aumento da temperatura no globo terrestre. Por meio dos
dados coletados, a ciência tradicional finalmente confirmou o que já estava sendo
percebido e anunciado nas últimas décadas por ambientalistas e especialistas do
ambiente natural: a projeção de manutenção do incremento das temperaturas para os
próximos anos. Com base nos dados históricos sobre a mudança do clima no
hemisfério norte, os cientistas apresentaram, além das evidências do aumento da
temperatura, uma previsão para aumento do nível do mar e para a redução da
cobertura de neve na região, conforme demonstrado na figura 6:

Figura 6 – Temperatura, Nível do Mar e Cobertura de Neve no Hemisfério Norte

Fonte: Intergovernmental Panel on Climate Change (2007)


82

Além dos dados fornecidos pelos cientistas que integram o Intergovernmental


Panel on Climate Change (2007), as evidências dos impactos ambientais gerados pelo
expressivo crescimento populacional e pela ampliação da utilização dos recursos
naturais também podem ser observadas nos números apontados pelos índices “Planeta
Vivo” e “Pegada Ecológica”, ambos elaborados pelo World Wildlife Fund (WWF) (2007).

O índice “Planeta Vivo”21 retrata a saúde de diferentes ecossistemas, medindo as


tendências no âmbito da diversidade biológica do planeta Terra. Com base em índices
específicos obtidos pelo controle das populações de espécies selvagens (terrestres, de
água doce e marinha), um único índice é gerado visando representar o nível de saúde
destes diferentes ecossistemas. Percebe-se na figura 7 que, no mesmo período em que
as primeiras discussões mundiais ocorreram e que houve também um sensível
incremento de população mundial, o índice Planeta Vivo registrou um decréscimo de
30%, caracterizando assim mais uma evidência da deterioração dos ecossistemas
naturais sem precedentes na história da humanidade.

Figura 7 – Evolução do Índice Planeta Vivo


Fonte: World Wildlife Fund (WWF) (2007)

21
De acordo com o World Wildlife Fund (WWF) (2007), o Índice Planeta Vivo é um indicador do estado da
biodiversidade do mundo, com base em tendências apresentadas desde 1970 até 2003, no âmbito de mais de 3.600
populações com mais de 1.300 espécies vertebradas de todo o mundo. É calculado como a média de três índices
distintos que medem as tendências em populações de 695 espécies terrestres, 344 espécies de água doce e 274
espécies marinhas.
83

O outro índice, denominado “Pegada Ecológica”22, aponta para a incapacidade


do planeta Terra em atender a demanda gerada pelo aumento da população em
relação a sua capacidade de renovação dos recursos naturais e absorção dos resíduos
gerados pelas atividades desenvolvidas pelas diferentes sociedades humanas. Este
índice considera a relação existente entre a população mundial e as áreas
biologicamente produtivas utilizadas para o atendimento das necessidades humanas.
Em seu registro histórico, percebe-se que na transição ocorrida entre os anos 1980 e
1990, a humanidade excedeu a capacidade natural do planeta Terra de repor os
recursos naturais necessários para a sobrevivência dos seres vivos e de incorporar os
resíduos gerados (ver figura 8).

Figura 8 – Evolução do Índice Pegada Ecológica


Fonte: World Wildlife Fund (WWF) (2007)

Projeções realizadas pela Organização das Nações Unidas (ONU) (2007),


demonstradas no quadro 3, apontam para a repetição do fenômeno do crescimento
populacional ao longo das próximas quatro décadas. Dentro deste período, a população

22
De acordo com o World Wildlife Fund (WWF) (2007) o índice “Pegada Ecológica” mede a quantidade de terra
biologicamente produtiva e a área de água necessárias para produzir os recursos que um indivíduo, uma população
ou uma atividade consome e para absorver o resíduo que geram, fornecendo tecnologia dominante e gestão de
recursos.
84

mundial provavelmente triplicará o seu contingente em relação aos números


observados no início da década de 1970, fato que certamente contribuirá para o
agravamento da crise sócio-ambiental e para a escassez dos recursos naturais.

Quadro 3 – Projeção da População Mundial (2010 a 2050)

Ano População

2010 6.906.558.000

2020 7.667.090.000

2030 8.317.707.000

2040 8.823.546.000

2050 9.191.287.000
Fonte: Adaptado de Organização das Nações Unidas (ONU) (2007)

Esta estimativa em relação ao provável crescimento desenfreado das


populações mundiais representa um grande risco para muitas gerações periféricas do
presente que já não dispõem de recursos mínimos para a sua sobrevivência e também
inclui as gerações futuras daquelas que hoje usufruem dos recursos naturais sem
consciência. Percebe-se que a progressão exponencial do crescimento populacional,
associada aos conceitos de crescimento vigentes nas sociedades agrícola e industrial
alicerçados unicamente em um sistema econômico centrado em processos
exploratórios, tende a reforçar algumas abordagens que acentuam a crença de que a
humanidade está sendo conduzida para uma sucessão de crises mundiais das mais
variadas naturezas: catástrofes naturais; ampliação da fome, da miséria e da violência;
destruição dos recursos naturais com perda definitiva da biodiversidade; ampliação das
disputas territoriais para o domínio e controle dos recursos naturais, entre outros.

Outro estudo recente que demonstra os sérios impactos gerados pela sociedade
global no ambiente natural, elaborado pelo National Center for Ecological Analisys and
Synthesis (2008) da Universidade da Califórnia, trata sobre o impacto das atividades
humanas nos ambientes marinhos. Este estudo revela o estado crítico em que se
encontram os oceanos em função do incremento das atividades humanas:
85

Figura 9 – Impacto Humano nos Ambientes Marinhos


Fonte: National Center for Ecological Analisys and Synthesis (2008)

Os mesmos recursos tecnológicos que no passado possibilitaram aos


astronautas revelarem a humanidade o seu sentimento pelo planeta Terra, no presente
permitem acompanhar o processo de franca expansão das atividades humanas.

Na imagem elaborada pelo Defense Meteorological Satellite Program (2007), a


partir de diversas fotos de satélite agrupadas, é possível perceber os pontos onde se
concentram a maior parte das populações mundiais e as principais atividades
econômicas desenvolvidas no planeta. Por meio desta imagem é possível perceber o
sucesso da expansão da população humana e do processo de ocupação no planeta
Terra. Em razão deste sucesso, diferentes ambientes naturais deram lugar a ambientes
artificiais construídos pela sociedade moderna, fato que representou a necessidade da
ampliação das atividades industriais e consequentemente, determinou o aumento do
consumo de recursos não-renováveis, a exemplo do petróleo, além da necessidade de
criação crescente de alternativas energéticas capazes de atender as novas demandas,
como as hidroelétricas, as usinas termoelétricas e as usinas atômicas.
86

Figura 10 – Luzes da Terra


Fonte: Defense Meteorological Satellite Program (2007)

Tais atividades contribuíram significativamente para a alteração das


características originais do Planeta e para a alteração do clima em diferentes regiões do
mundo, de acordo com os dados confirmados pelo Intergovernmental Panel on Climate
Change (2007) e recentemente reforçados pelos dados do Goddard Institute for Spaces
Studies (2008), que revelam que o ano de 2007 foi o segundo mais quente do século,
perdendo apenas para o ano de 1998.

Pelas diversas evidências apontadas ao longo deste estudo, tudo indica que, se
mantida a atual forma de relação das diferentes sociedades mundiais com o ambiente
natural, desenvolvida com mais ênfase nas últimas cinco décadas, a sociedade global
estará inaugurando um novo período em sua relação com o meio ambiente, um período
caracterizado pela ampliação dos riscos.

2.2.4. O Reconhecimento da Complexidade Ambiental

Apesar das importantes evidências apresentadas neste estudo e do


reconhecimento de instituições científicas sobre os efeitos nocivos resultantes das
87

atividades humanas desenvolvidas ao longo de vários séculos, os motivos geradores


desta realidade ainda estão distantes de serem compreendidos pela maior parte dos
indivíduos que integram a sociedade contemporânea em função dos limites impostos
pela sua racionalidade dominante. Para aproximar os diferentes indivíduos da crise
ambiental anunciada, se faz necessário um número infindável de ações que permitam
que estes possam refletir sobre as insuficiências de sua racionalidade, de forma que
estas ações resultem em profundas transformações dos comportamentos da sociedade
que integram.

Para Leff (2003, p. 19) “as mudanças catastróficas na natureza ocorreram nas
diversas fases de evolução geológica e ecológica do planeta”. Para o autor, o que difere
estas mudanças da crise ecológica atual é que pela primeira vez não se trata de uma
mudança natural; e sim de uma transformação da natureza induzida pelas concepções
metafísica, filosófica, ética, científica e tecnológica do mundo.

Para Leff (2003), a crise ambiental representa uma crise do nosso tempo, onde o
risco ecológico questiona o conhecimento do mundo. Para o autor esta crise se
apresenta a nós como um limite no real que re-significa e re-orienta o curso da história:
limite do crescimento econômico e populacional; limite dos desequilíbrios ecológicos e
das capacidades de sustentação da vida; limite da pobreza e da desigualdade social.
Para o autor representa também a crise do pensamento ocidental: da “determinação
metafísica” que, ao pensar o ser como um ente, abriu a via da racionalidade científica e
instrumental que produziu a modernidade como uma ordem coisificada e fragmentada,
como formas de domínio e controle sobre o mundo.

Leff (2003, p. 19) considera que:

A problemática ambiental, mais que uma crise ecológica, é um questionamento


do pensamento e do entendimento, da ontologia e da epistemologia com as
quais a civilização ocidental compreendeu o ser, os entes e as coisas; da
ciência e da razão tecnológica com as quais a natureza foi dominada e o mundo
moderno foi economizado.

Para Leff (2006) não basta postular a estabilização da economia e da população


em algum momento no próximo século, sem questionar a possibilidade de deter a
escala e desconstruir a economia para internalizar as condições de sustentabilidade
88

ecológica. A ecologização da economia não é um problema de adequação de ritmos e


escalas, mas de mudança de estrutura e construção de uma nova racionalidade. Leff
(2006) acredita que dentro da perspectiva atual, é impossível manter um crescimento
econômico sustentado, como também a idéia de manter a economia em um estado
estacionário, uma vez que a racionalidade econômica – à diferença das sementes
terminator – não tem inscritos em seu “código genético” os mecanismos de sua própria
desativação.

Para o autor, a inércia cumulativa da economia global alcançou uma escala que
ultrapassa os limites de sustentabilidade do planeta, onde as externalidades do sistema
geraram um estado de escassez absoluta, uma deseconomia global e generalizada.
Desta forma, Leff (2006) considera que o destino do desenvolvimento sustentável
estaria lançado numa encruzilhada, entre o fatalismo da morte entrópica e a esperança
da vontade divina, fato que não oferece saídas à crise do sistema. O autor acredita que:

O problema não está em definir as regras que devem normatizar o processo


econômico, mas sim nas vias de transição para uma economia em estado
estacionário. Mas não há sinais perceptíveis em parte alguma – depois de mais
de trinta anos de ter-se apresentado os limites entrópicos do crescimento, mais
de vinte anos de políticas neoliberais e mais de 15 anos de uma busca de
soluções através do paradigma emergente da economia ecológica – de que a
racionalidade econômica contenha os mecanismos para poder desacelerar-se e
alcançar um estado estacionário (em equilíbrio com a natureza), sem que o
processo leve a seu colapso, e com isso ao da própria natureza. A
desconstrução da racionalidade econômica seria tão quimérica como tentar
transformar um avião supersônico em pleno vôo em um helicóptero capaz de
aterrisar neste mundo antes de estatelar-se contra o tempo. (LEFF, 2006, p.
231).

Ao defender sua proposta a construção de uma racionalidade ambiental23, Leff


(2006) afirma que a economia não mostrou ser uma disciplina capaz de delimitar seu
campo de conhecimento, de acolher outras racionalidades, de abrir-se à alteridade e à
alternativa. Segundo o autor, a economia trata-se de:

[...] uma razão totalitária, que se expande e globaliza, que impõe um processo
de racionalização que vai ocupando todas as esferas da vida social e da ordem

23
Leff (2006) apresenta a necessidade de construção de uma nova racionalidade, que o autor denomina de
racionalidade ambiental, capaz de orientar a construção da sustentabilidade a partir de um encontro de
racionalidades, de formas diferentes de pensar, de imaginar, de sentir, de significar e de dar valor às coisas do
mundo.
89

ecológica. A economia tende, por sua própria “natureza”, a transpor a esfera de


produção para capitalizar a natureza e a cultura. A incorporação pela economia
das condições ecológicas de sustentabilidade, assim como sua desaceleração
e reconversão para uma economia ecologicamente sustentável, não é um
problema metodológico, de um ajuste de contas entre paradigmas teóricos;
implica sobretudo um processo histórico no qual as estratégias de poder no
saber levaram a institucionalizar e legitimar a racionalidade econômica (LEFF,
2006, p. 231).

Para Leff (2006) uma vez que o crescimento econômico não é sustentável e que
a racionalidade econômica não contém os mecanismos para sua desativação, o autor
julga necessário construir outra racionalidade produtiva, capaz de operar conforme os
princípios da sustentabilidade. Leff (2006, p. 232) considera que:

Se os recursos da natureza são limitados, se a segunda lei da termodinâmica é


inescapável, se a seta do tempo é inelutável e se manifesta na desestruturação
dos ecossistemas e na degradação do ambiente; se a capacidade da ciência e
da tecnologia para reverter a entropia e para desmaterializar a economia é
ilusória e incerta; então uma razão guiada pelo instinto de sobrevivência e pela
erotização da vida deve levar a humanidade a procurar novas vias civilizatórias,
antes de ficar enredada na complacência generalizada dentro do fanatismo
totalitário da ordem econômica estabelecida, na crença de que isso representa
um estágio mais alto do desenvolvimento da civilização e que expressa a
vontade dos deuses. Além do propósito de incorporar os custos ecológicos
dentro de uma racionalidade que os rechaça e exclui, é necessário formular
uma nova economia que funcione sobre a base dos potenciais ecológicos do
planeta, do poder, do saber, da ciência e tecnologia, e das formas culturais de
significação da natureza.

Para Leff (2003, p.16) “a crise ambiental, entendida como a crise de civilização,
não poderia encontrar uma solução pela via da racionalidade teórica e instrumental que
constrói e destrói o mundo”. Para o autor:

Apreender a complexidade ambiental implica um processo de desconstrução e


reconstrução do pensamento; remete a suas origens, à compreensão de suas
causas; a ver os “erros” da história que se arraigaram em certezas sobre o
mundo com falsos fundamentos; a descobrir e reavivar o ser da complexidade
que ficou no “esquecimento” com a cisão entre o ser e o ente (Platão), do
sujeito e do objeto (Descartes), para apreender o mundo coisificando-o,
objetivando-o, homogeneizando-o. Esta racionalidade dominante descobre a
complexidade em seus limites, em sua negatividade, na alienação e na
incerteza do mundo economizado, arrastado por um processo incontrolável e
insustentável de produção (LEFF, 2003, p. 16).

Leff (2003, p. 16 e 17) considera que:

A hermenêutica ambiental não é uma exegese de textos em busca dos


precursores do saber ambiental, mas uma visão situada a partir da
90

complexidade ambiental – entendida como expressão da crise de civilização –,


de onde se desentranham as origens e as causas dessa crise, e da qual se
projeta o pensamento (da complexidade) para a reconstrução do mundo. A
hermenêutica abre os sentidos bloqueados pelo hermetismo da razão.

Para Leff (2003, p. 17) “na crítica radical das causas da crise ambiental nas
formas de conhecimento do mundo, se projeta um futuro aberto, com base na
diferenciação dos sentidos do discurso ambientalista”, na qual a “[...] reconstrução
social se funda em um novo saber, a partir da pergunta pelas origens dessa
racionalidade em crise” e “pelo conhecimento do mundo que tem sustentado a
construção de um mundo insustentável”. Para o autor a crise ambiental problematiza o
pensamento metafísico e a racionalidade científica, possibilitando “[...] novas vias de
transformação do conhecimento através do diálogo e da hibridação de saberes” (LEFF,
2003, p. 17).

Para Leff (2003) o ato de aprender a aprender a complexidade ambiental exige


uma reapropriação do mundo desde o ser e no ser; um reaprender mais profundo e
radical que a aprendizagem das “ciências ambientais” que buscam internalizar a
complexidade ambiental dentro de uma racionalidade em crise. Para o autor, “neste
sentido, o saber ambiental retoma a questão do ser no tempo e o conhecer na história;
do poder no saber e a vontade de poder, que é um querer saber” (LEFF, 2003, p. 19).

Para Leff (2003, p. 22):

A complexidade ambiental abre uma nova reflexão sobre a natureza do ser, do


saber e do conhecer; sobre a hibridação do conhecimento na
interdisciplinaridade e na transdisciplinaridade; sobre o diálogo dos saberes e a
inserção da subjetividade dos valores e dos interesses na tomada de decisões
e nas estratégias de apropriação da natureza. Mas também questiona as
formas em que os valores permeiam o conhecimento do mundo, abrindo um
espaço para o encontro entre o racional e o moral, entre a racionalidade formal
e a racionalidade substantiva.

Para Leff (2003, p. 24 e 25):

Na epopéia do ser humano por salvar sua falta em ser através do


conhecimento, tentou colmar sua incompletude com a idéia absoluta, com uma
razão ordenadora, com uma certeza e uma autoconsciência de seu lugar no
mundo. Nessa empresa por compreender, por ordenar, por dominar e controlar,
coisificou o mundo, desestruturando a natureza e acelerando o desequilibro
ecológico; ao submeter a natureza às leis de suas certezas e seu controle, abriu
91

as comportas do caos e da incerteza. Essa é a crise do nosso tempo; daí a


necessidade de entender suas raízes no pensamento para aprender a aprender
a complexidade ambiental que oriente a reconstrução do mundo atual.

Pelas razões explicitadas, Leff (2003, p. 40 e 41) considera que:

A crise ecológica tem sido acompanhada pela emergência do pensamento da


complexidade, a teoria de sistemas, a teoria do caos e as estruturas
dissipativas. O fracionamento do corpo das ciências enfrenta a complexidade
do mundo propondo a necessidade de construir um pensamento holístico
reintegrador das partes fragmentadas do conhecimento para a retotalização de
um mundo globalizado; os paradigmas interdisciplinares e a
transdisciplinaridade do conhecimento surgem como antídotos para a divisão do
conhecimento gerado pela ciência moderna.

Ao que parece, a complexidade da crise ambiental em curso exige uma urgente


superação dos paradigmas dominantes baseados na matriz do pensamento linear para
a reconstrução da realidade coletiva, de forma que possa representar o surgimento de
uma realidade social baseada em um novo tipo de racionalidade de fato compatível
com os interesses de manutenção da vida e de sustentação das gerações presentes e
das futuras. Sem a superação da forma racional de pensar dominante que prioriza a
dimensão econômica em detrimento de outras dimensões, parece pouco provável que
os objetivos pretendidos pelos discursos que pregam o desenvolvimento sustentável e
a sustentabilidade possam ser de fato atingidos.

2.2.5. A Proposta e o Discurso da Sustentabilidade

Desde o alerta de Carson, as quase cinco décadas que demarcaram o fim do


século XX e o início do século XXI serviram de palco para discussões mundiais em
torno das questões sociais e ambientais. Ao longo deste período, algumas
transformações em termos de criação de novos instrumentos e aprimoramento das
pesquisas científicas foram obtidas, mas ao que tudo indica, ao invés de neutralizar o
surgimento de novas evidências em torno do agravamento da crise sócio-ambiental em
curso, serviram apenas para demonstrar que os resultados desejados não foram
plenamente ou suficientemente efetivados.
92

Os diversos e diferentes estudos realizados ao longo deste período geraram


profundas reflexões no meio científico quanto aos limites da racionalidade econômica e
os seus reflexos indesejados na forma de ser e agir das sociedades contemporâneas.
Apontaram também para os limites finitos dos recursos naturais, a desigualdade social,
a distribuição desigual de renda, a situação caótica da fome e da pobreza de grandes
contingentes populacionais, além da necessidade do estabelecimento de um novo
conceito de desenvolvimento, na busca de estabelecer uma melhor relação de
equilíbrio em termos econômico, social, ambiental, político e espacial.

Um dos estudos mais relevantes desenvolvidos neste período e que ainda se


mantém atual em termos de proposta para reflexões sobre a crise sócio-ambiental
contemporânea foi publicado pelo Clube de Roma em 1972, sob o título Limites do
Crescimento (também conhecido como relatório de Meadows, em homenagem a um de
seus autores). Neste relatório foram retratadas as análises de um grupo multidisciplinar
formado por cientistas, educadores, economistas, humanistas, industriais e funcionários
públicos de nível nacional e internacional, sobre o complexo de problemas que afligiam
os povos de todas as nações, os quais envolviam a população, produção agrícola,
recursos naturais, produção industrial e poluição.

Há mais de três décadas, Meadows (1972) já indicava que o dilema da


humanidade residia no fato de que, apesar do homem ser capaz de perceber a
problemática, não conseguia compreender as origens, a significação e as correlações
de seus vários componentes. O relatório considerava que o fracasso ocorria, em grande
parte, pela insistência dos seres humanos em examinar elementos isolados na
problemática, sem compreender que o todo é maior do que suas partes; que a
mudança em um dos elementos significa a mudança nos demais.

Um dos fatores que faz do relatório do Meadows relevante para o contexto da


crise sócio-ambiental em curso são algumas evidências por ele retratadas sobre o
comportamento dos indivíduos. Meadows (1972) já apontava diferentes tipos de
pressões e de problemas que as pessoas enfrentavam, os quais, ao mesmo tempo em
que exigem delas a sua atenção e sua ação, as afastam da possibilidade de refletir
sobre o seu futuro e da sociedade em um contexto mais amplo. No relatório, são
93

apontadas algumas evidências destes comportamentos, como o fato das pessoas


gastarem a maior parte do seu tempo tentando garantir para si e sua família o alimento
do amanhã, de estarem interessadas no poder pessoal ou da nação onde vivem ou
pela necessidade de preocuparem-se com uma guerra mundial no curso de sua vida.

Tais situações foram ilustradas no relatório por meio da figura 11:

Figura 11 – Perspectivas Humanas em Relação ao Futuro


Fonte: Meadows (1972, p. 14)

Nesta figura, as preocupações da humanidade estão assentadas nas dimensões


de espaço e tempo, onde todo o interesse humano pode situar-se em algum ponto,
dependendo do espaço geográfico que ele abrange e até onde se prolonga no tempo.
Desta forma, de acordo com a representação gráfica, a maioria das preocupações das
pessoas estaria concentrada no ângulo inferior esquerdo do gráfico, condição que as
94

impediria de se preocuparem com situações relacionadas ao seu próprio futuro e ao


futuro das próximas gerações envolvendo esferas maiores da sociedade. Para
Meadows (1972, p. 16):

A maioria da população mundial preocupa-se com questões que afetam


somente a família ou os amigos, em períodos curtos de tempo. Outros olham
mais à frente, ou têm visão mais ampla – uma cidade ou nação. Apenas muito
poucas pessoas têm uma perspectiva global que se projeta em um futuro
distante.

As questões levantadas pelo relatório de Meadows, contribuíram para o


surgimento de novos debates em nível global. Ao longo das últimas cinco décadas,
diversas plenárias mundiais foram estabelecidas na busca de novas alternativas para o
crescimento e para o desenvolvimento, dentre elas, a que originou a expressão
desenvolvimento sustentável.

De acordo com Leff (2006, p.136 e 137) “nos anos 1980, as estratégias do
desenvolvimento foram deslocadas pelo discurso do desenvolvimento sustentável”.
Segundo o autor, embora essa noção já tivesse se insinuado a partir dos textos da
Estratégia Mundial de Conservação, de 1980, foi no relatório denominado Nosso Futuro
Comum, mais conhecido como Relatório de Brundtland, que se formulou a definição do
desenvolvimento sustentável como “processo que permite satisfazer as necessidades
da população atual sem comprometer a capacidade de atender às gerações futuras”.

No Relatório Brundtland, publicado em 1987 e que em 2007 comemorou 20


anos, foram efetuadas diversas reflexões no contexto social, econômico e ecológico em
escala global, valorizando a relação de interdependência entre estes elementos.
Durante a realização do estudo foram propostas diversas medidas para a busca do
desenvolvimento em condições de equilíbrio: controle do crescimento populacional,
garantia de produção de alimentos a longo prazo, preservação dos recursos naturais,
redução nos níveis de consumo de energia, desenvolvimento de pesquisas no campo
de fontes energéticas renováveis, adequação da produção industrial com base em
tecnologias ecologicamente adaptadas, controle da urbanização desenfreada, melhor
adequação da relação cidade-campo e em especial, a satisfação das necessidades
básicas das populações mais carentes.
95

De acordo com Leff (2006), a intenção da Comissão Mundial sobre o Meio


Ambiente e Desenvolvimento era a de avaliar os avanços dos processos de
degradação ambiental e a eficácia das políticas ambientais, de forma a criar uma visão
compartilhada por todas as nações do mundo sobre as condições para alcançar a
sustentabilidade ecológica e a sobrevivência do gênero humano. Segundo o autor, foi a
partir deste momento que a noção de desenvolvimento sustentável converteu-se no
referente discursivo e no “saber de fundo” que organiza os sentidos divergentes em
torno da construção das sociedades sustentáveis.

Para Leff (2006, p.133 e 134):

O princípio da sustentabilidade emerge no discurso teórico e político da


globalização econômico-ecológica como a expressão de uma lei-limite da
natureza diante da autonomização da lei estrutural do valor. A crise ambiental
veio questionar os fundamentos ideológicos e teóricos que impulsionaram e
legitimaram o crescimento econômico, negando a natureza e a cultura,
deslocando a relação entre o real e o simbólico. A sustentabilidade ecológica
aparece assim como um critério normativo para a reconstrução da ordem
econômica, como uma condição para a sobrevivência humana e para um
desenvolvimento durável; problematiza as formas de conhecimento, os valores
sociais e as próprias bases da produção, abrindo uma nova visão do processo
civilizatório da humanidade.

Para Leff (2006, p. 134), “a noção de sustentabilidade emerge, assim, do


reconhecimento da função que a natureza cumpre como suporte, condição e potencial
do processo de produção”.

As evidências do agravamento das crises sócio-ambientais demonstram que as


recomendações para o atingimento do estado de desenvolvimento sustentável não
obtiveram êxito. Provavelmente parte da explicação deste fenômeno resida na
explicação de Lovelock (2006, p. 16), quando menciona o significado da expressão
“desenvolvimento sustentável” criada por Gisbert Glaser, consultor sênior do
International Council for Science:

O desenvolvimento sustentável é um alvo móvel. Representa o esforço


constante em equilibrar e integrar os três pilares do bem-estar social,
prosperidade econômica e proteção ambiental em benefício das gerações atual
e futura.

Leff (2006) acredita que o discurso do desenvolvimento sustentável procura


estabelecer um terreno comum para uma política de consenso capaz de integrar os
96

diferentes interesses dos países, povos e classes sociais que plasmam o campo
conflitivo da apropriação da natureza. Para o autor:

A ambivalência do discurso do desenvolvimento sustentado/sustentável se


expressa já na polissemia do termo sustainability, que integra dois significados:
o primeiro, traduzível como sustentabilidade, implica na incorporação das
condições ecológicas – renovabilidade da natureza, diluição de
contaminadores, dispersão de dejetos – do processo econômico; o segundo,
que se traduz como desenvolvimento sustentado, implica a perdurabilidade no
tempo do progresso econômico. Se a crise ambiental é produto da negação das
bases naturais nas quais se sustenta o processo econômico, então a
sustentabilidade ecológica aparece como condição da sustentabilidade
temporal do processo econômico. No entanto, o discurso do desenvolvimento
sustentado chegou a afirmar o propósito de tornar sustentável o crescimento
econômico através de mecanismos do mercado, atribuindo valores econômicos
e direitos de propriedade aos recursos e serviços ambientais, mas não oferece
uma justificação rigorosa sobre a capacidade do sistema econômico para
incorporar as condições ecológicas e sociais (sustentabilidade, equidade,
justiça, democracia) deste processo através da capitalização da natureza
(LEFF, 2006, p. 137).

Desta forma, alguns pesquisadores como Lovelock (2006, p. 82), consideram


que “as expressões ‘desenvolvimento sustentável’ e ‘energia renovável’ entraram no
jargão da política, sendo empregadas pelos políticos para mostrar sua preocupação
com o meio ambiente e suas credenciais verdes”.

Com relação à apropriação indevida do termo, Leff (2006, 139) considera que:

Se nos anos 1970 a crise ambiental tornou necessário que se colocasse um


freio antes que o colapso ecológico fosse alcançado, a partir dos anos 1980 o
discurso neoliberal anunciou a desaparição da contradição entre ambiente e
crescimento [...] na perspectiva neoliberal, desaparecem as causas econômicas
dos problemas ecológicos. A crise ambiental não é mais um efeito da
acumulação de capital, mas resultado do fato de não haver outorgado direitos
de propriedade (privada) e atribuído valores (de mercado) aos bens comuns.
Uma vez estabelecido o anterior – afirma o discurso do desenvolvimento
sustentado -, as leis clarividentes do mercado se encarregariam de ajustar os
desequilíbrios ecológicos e as diferenças sociais, a equidade e a
sustentabilidade.

Desta forma, para Leff (2006), o discurso do desenvolvimento


sustentado/sustentável foi vulgarizado até se tornar parte do discurso oficial e da
linguagem comum. Para Redclift, Martínez Alier e Escobar citados por Leff (2006, p.
138):
97

As contradições não apenas se fazem manifestas pela falta de rigor do


discurso, mas também em sua colocação em prática, quando surgem os
dissensos em torno do discurso do desenvolvimento sustentado/sustentável e
os diferentes sentidos que este conceito adota em relação aos interesses
contrapostos pela apropriação da natureza.

Para Leff (2006, p. 139) “o discurso do desenvolvimento sustentado promove o


crescimento econômico negando as condições ecológicas e termodinâmicas que
estabelecem os limites e possibilidades de uma economia sustentável”. Para o autor:

A natureza está sendo incorporada ao capital mediante uma dupla operação: de


um lado, procura-se internalizar os custos ambientais do progresso atribuindo
valores econômicos à natureza; ao mesmo tempo, instrumentaliza-se uma
operação simbólica, “um cálculo de significação” (Baudrillard, 1974) que
recodifica o homem, a cultura e a natureza como formas aparentes de uma
mesma evidência: o capital. Assim, os processos ecológicos e simbólicos são
reconvertidos em capital natural, humano e cultural, para serem assimilados
pelo processo de reprodução e expansão da ordem econômica, reestruturando
as condições da produção mediante uma gestão economicamente racional do
ambiente. (LEFF, 2006, p. 139 e 140)

Para Daly citado por Leff (2006, p.140) “a ideologia do desenvolvimento


sustentado libera o mercado, desencadeando um processo incontrolado e desregulado
de produção, um delírio da razão econômica, uma mania de crescimento”. Para Leff
(2006), “o discurso da sustentabilidade aparece assim como um simulacro que nega os
limites do crescimento para afirmar a corrida desenfreada em direção à morte entrópica
do planeta”, onde “o discurso da sustentabilidade opera como uma estratégia fatal, uma
inércia cega que se precipita em direção á catástrofe”.

Para Leff (2006, p. 140), o discurso de Baudrillard se reflete e encontra seu


referente no discurso do desenvolvimento sustentado e em manifestações da crise
ambiental quando afirma que:

Estamos governados não tanto pelo crescimento, mas por crescimentos. Nossa
sociedade está fundada na proliferação, em um crescimento que continua
apesar de não poder medir-se diante de nenhum objetivo claro. Uma sociedade
excrescente cujo desenvolvimento é incontrolável, que ocorre sem considerar
sua autodefinição, onde a acumulação de efeitos vai de mãos dadas com a
desaparição das causas. O resultado é um congestionamento sistêmico bruto e
um mau funcionamento causado por uma hipertelia: por um excesso de
imperativos funcionais, por uma sorte de saturação [...] As próprias causas
tendem a desaparecer, a se tornar indecifráveis, gerando a intensificação de
processos que operam no vazio. Enquanto existir uma disfunção do sistema,
98

um desvio de leis conhecidas que governam sua operação, sempre existirá a


perspectiva de transcender o problema. Mas, quando o sistema se precipita
sobre seus pressupostos básicos, desabordando seus próprios fins, de maneira
que não é possível encontrar-se nenhum remédio, não estamos contemplando
mais uma crise e sim uma catástrofe [...]. O que chamamos de crise é de fato a
antecipação de sua inércia absoluta (BAUDRILLARD CITADO POR LEFF,
2006, p. 140).

Leff (2006) acredita que a racionalidade econômica resiste à sua desconstrução


por meio da sustentação do discurso do desenvolvimento sustentado. Neste contexto “o
ambiente é reapropriado pela economia, fragmentando e recodificando a natureza
como elementos do sistema: do capital globalizado e da ecologia generalizada” (LEFF,
2006, p. 142). Para o autor:

O discurso do desenvolvimento sustentado colonizou a natureza, convertendo-a


em capital natural. A força de trabalho, os valores culturais, as potencialidades
do homem e sua capacidade inventiva se transmutam em capital humano. Tudo
é redutível a um valor de mercado e representável pelos códigos do capital. O
capital clona as identidades para assimilá-las a uma lógica, a uma razão, a uma
estratégia de poder para a apropriação da natureza como meio de produção e
de reprodução da racionalidade econômica. Dessa maneira, as estratégias de
sedução e de simulação do discurso do desenvolvimento sustentado constituem
o mecanismo extra-econômico por excelência da pós-modernidade para manter
o domínio sobre o homem e a natureza.

Para Leff (2006, p.143) “as políticas de desenvolvimento sustentado procuram


conciliar os lados opostos contrários da dialética do desenvolvimento: o meio ambiente
e o crescimento econômico”. Segundo o autor, neste discurso a tecnologia
desempenharia o papel de reverter os efeitos da degradação entrópica nos processos
de produção, distribuição e consumo de mercadorias, erguendo assim “[...] uma cortina
de fumaça que mascara as causas da crise ecológica”. Em sua reflexão, Leff (2006, p.
143) considera que o discurso do desenvolvimento sustentado não significaria “apenas
mais uma volta na porca da racionalidade econômica, mas um salto mortal, um vôo e
um aperto na razão”. Para o autor o seu objetivo final não seria:

[...] internalizar as condições ecológicas da produção, e sim postular o


crescimento econômico como um processo “sustentável”, sustentado nos
mecanismos do livre mercado e na tecnologia, que seriam meios eficazes para
garantir o equilíbrio ecológico e a justiça ambiental (LEFF, 2006, p. 143).
99

Leff (2006, p.145) acredita que assim:

As estratégias do capital para reapropriar-se da natureza vão degradando o


ambiente em um mundo sem referentes nem sentidos, sem relação entre o
valor de troca e a utilidade do valor de uso. A economia do desenvolvimento
sustentado funciona dentro de um jogo de poder que outorga legitimidade à
ficção do mercado, conservando os pilares da racionalidade do lucro e o poder
de apropriação da natureza fundado na propriedade privada do conhecimento
científico-tecnológico. As estratégias fatais da globalização econômica
conduzem a uma nova geopolítica da biodiversidade, da mudança climática e
do desenvolvimento sustentado.

Leff (2006, p.145 e 146) considera que:

No processo de objetivação do mundo, o valor de troca desvinculou-se de sua


conexão com o real, a economia se desprendeu da condição de materialidade
da natureza e da necessidade humana; a generalização dos intercâmbios
comerciais se converteu em uma lei universal, invadindo todos os domínios do
ser e os mundos de vida das gentes. Com a invenção da ciência econômica e a
institucionalização da economia como regras de convivência universal, teve
início um processo de cinco séculos de economização do mundo. Tal processo
de expansão da racionalidade econômica chegou a seu ponto de saturação e a
seu limite, por efeito de sua extrema vontade de globalizar o mundo devorando
todas as coisas e traduzindo-as aos códigos da racionalidade econômica, razão
que sustenta a impossibilidade de pensar e agir conforme as condições da
natureza, da vida e da cultura. Esse processo econômico não apenas exsuda
externalidades que seu próprio metabolismo econômico não pode absorver;
mas, além disso, através de sua crença fundamentalista e totalitária, se encrava
no mundo destruindo o ser nas coisas – a natureza, a cultura, o homem – para
reconvertê-las a sua forma unitária e universal. Nesse sentido, o processo de
globalização – os crescentes intercâmbios comerciais, as telecomunicações
eletrônicas com a interconexão imediata de pessoas e fluxos financeiros que
parecem eliminar a dimensão espacial e temporal da vida, a planetarização do
aquecimento da atmosfera e, inclusive, a aceleração das migrações e das
mestiçagens culturais – foi mobilizado e sobredeterminado pelo domínio da
racionalidade econômica sobre os demais processos de globalização. A
hipereconomização do mundo induz a homogeneização dos padrões de
produção e consumo, e atenta contra um projeto de sustentabilidade global
fundado na diversidade ecológica e cultural do planeta.

Para Leff (2006, p.147):

No discurso do desenvolvimento sustentado, a fase atual do capital ecologizado


e da capitalização da natureza aparece como um novo estágio no qual o capital
seria capaz de exorcizar seus demônios e resolver contradições que o têm
acompanhado desde sua acumulação originária até a globalização econômica
atual. No entanto, tendo chegado ao seu limite e diante da impossibilidade de
estabilizar-se como organismo vivo, o capital dá prosseguimento a uma inércia
expansionista, que descarrega sobre a natureza os desejos do processo de
“criação destrutiva” do capital. A geopolítica da biodiversidade e da mudança
climática não apenas prolonga e intensifica os processos anteriores de
100

apropriação destrutiva dos recursos naturais, mas também altera as formas de


intervenção e apropriação da natureza, levando ao seu limite a lógica
econômica, enquanto sua inércia de crescimento desborda os limites da
sustentabilidade do planeta.

Leff (2006) menciona que economistas ecológicos como René Passet, Herman
Daly, José Neredo e Joan Martínez Alier já perceberam as limitações que o mercado
tem para regulamentar efetivamente os equilíbrios ecológicos, bem como sua
capacidade para internalizar os custos ambientais através de um sistema de normas
legais, de impostos ou de um mercado de licenças transacionáveis para a redução das
emissões de gases que causam o aquecimento global do planeta. De acordo com o
autor, estes economistas sugerem assim que:

A economia deve contrair-se aos limites de uma expansão que assegure a


reprodução das condições ecológicas de uma produção sustentável e de
regeneração do capital natural, de um princípio de precaução baseado no
cálculo de risco e na incerteza e em limites impostos através de um debate
científico-político afastado do mercado.

Porém, Leff (2006, p.148) considera que a “racionalidade econômica carece de


flexibilidade e maleabilidade para ajustar-se às condições de sustentabilidade ecológica
do planeta” e que apesar do debate político ter sido enriquecido pelos aportes da
ciência a respeito dos riscos ecológicos do desflorestamento, da erosão genética e do
aquecimento global, este não logrou livrar-se das razões de força maior do mercado.
Para o autor:

A lei da entropia, que estabelece limites físicos e termodinâmicos do


crescimento econômico, é negada pela teoria e pelas políticas de
desenvolvimento sustentado. Mas a teoria crítica da economia baseada nas leis
da natureza, antes de ter fundado a positividade de um novo paradigma
econômico (de uma economia ecológica), abriu as comportas ao campo
emergente da ecologia política, onde o debate científico se desloca para os
conflitos ambientais. O tema sustentabilidade se inscreve nas lutas sociais pela
apropriação da natureza, orientando a reflexão teórica e a ação política para o
propósito de desconstruir a lógica econômica e construir uma racionalidade
ambiental. (LEFF, 2006, p. 148)

Leff (2006, p.160) acredita que:

A sustentabilidade emerge como uma fratura da razão modernizadora, que leva


a construir uma racionalidade produtiva fundada no potencial ecológico da
biosfera e nos sentidos civilizatórios da diversidade cultural. A racionalidade
101

ambiental não é a atualização da razão pura na complexidade ambiental; é uma


estratégia conceitual que orienta uma práxis de emancipação do mundo
hiperobjetivado e do logocentrismo no conhecimento. É um retorno à ordem
simbólica para ressignificar o mundo.

Para Leff (2006, p.172 e 173):

A crise ambiental irrompeu em um mundo no qual a economia ficou desprovida


de lei e de valor, no qual a natureza se desnaturaliza e se coisifica, em que a
dialética procura ancorar-se nas leis da natureza, em que o mundo se converte
em um hiper-realidade onde o simbólico parece perder sua referencialidade e
sua conexão com o real. Exatamente nesse ponto, quando as estratégias do
código econômico triunfam sobre a lei do valor, quando os conceitos perdem
sua referência no real, quando o simbólico parece emancipar-se do fático e a
ecologia fracassa em sua tentativa de enraizar o mundo na ordem da vida;
quando o projeto da racionalidade científica entra em colapso e o mundo parece
flutuar na incerteza e na relatividade dos signos, quando a hiper-realidade
gerada pelas estratégias fatais do código parecem burlar o pensamento e o
discurso do desenvolvimento sustentável seduz o interesse prático ao procurar
o equilíbrio guiado por um mercado sem valores; quando o construtivismo e a
hermenêutica conduzem o pensamento à conformidade e ao jogo de sentidos,
mais além de qualquer determinismo ontológico; quando são vencidas a lei e a
norma fundadas na natureza e na ética; nesse vazio ontológico e nesse reino
da dissimulação, emerge a entropia como lei-limite da racionalidade econômica.
A natureza se impõe às falácias, às ficções e às especulações do discurso do
desenvolvimento sustentado: as de uma ordem simbólica autônoma
desprendida de sua conexão com o real.

Para Leff (2006, p. 225 e 226) a tomada de consciência a respeito dos limites do
crescimento, que surge da visibilidade da degradação ambiental desponta como uma
crítica ao paradigma normal da economia. Para o autor:

Na beira do precipício, soou o alarme ecológico anunciando uma catástrofe tão


inesperada como impensável na auto-complacência do progresso científico-
ecológico, e a convicção, tanto no campo capitalista como no socialista, de que
o desenvolvimento das forças produtivas abriria as portas para uma sociedade
de pós-escassez e à liberação do homem do reino da necessidade. (LEFF,
2006, p. 225)

Desta forma Leff (2006), reforça que o paradigma econômico tem sido incapaz
de assimilar a crítica apresentada pela lei da entropia e da racionalidade econômica. De
acordo com o autor, diante das propostas de colocar um freio no crescimento e da
transição a uma economia de estado estacionário, a teoria e as políticas econômicas
procuram iludir o limite e acelerar o processo de crescimento, montando um dispositivo
ideológico e uma estratégia de poder para capitalizar a natureza, de onde surge o
102

discurso neoliberal e a geopolítica do desenvolvimento sustentável, reafirmando o livre


mercado como mecanismo mais clarividente e eficaz para ajustar os desequilíbrios
ecológicos e as desigualdades sociais.

Ao que tudo indica, o desafio proposto para a sociedade contemporânea para o


real atingimento do estado de desenvolvimento sustentável somente será possível se
contemplar urgentes reflexões e mundanças nas características da matriz de
pensamento que determina as ações emanadas de sua racionalidade dominante.

2.2.6. A Iminência da Consolidação da Sociedade de Risco

No “epicentro” da crise sócio-ambiental já anunciada, se encontram diferentes


tipos de organizações sociais, que em sua grande maioria e no conjunto, contribuem
para a perpetuação e o agravamento das evidências apresentadas. Muitas dessas
organizações sociais, ao assumirem as premissas máximas de uma racionalidade
centrada em aspectos econômicos orientados pela ação racional instrumental, falham
por não considerar a adoção de alternativas compatíveis com o estabelecimento de um
desenvolvimento de fato sustentável. Por força da racionalidade predominante na
sociedade, a grande maioria das organizações sociais ainda atua exclusivamente com
foco nos resultados econômicos, negando ou ignorando questões de caráter social e
ambiental, notadamente vitais para a sobrevivência humana.

Na busca de respostas para os objetivos definidos na proposta de realização


desta pesquisa, se fez necessário primeiro compreender a realidade das racionalidades
e das dimensões econômica, social, ambiental, política e espacial na qual a sociedade,
e mais especificamente, as indústrias químicas se encontram inseridas. Em função do
senso comum vigente na sociedade, no qual está impresso que as indústrias químicas
representam riscos para o conjunto do meio ambiente, optou-se para o
desenvolvimento do presente estudo pela adoção da abordagem elaborada por pelo
sociólogo alemão Ulrich Beck em seu livro denominado “A Sociedade de Risco Global”.

Beck (2006) considera que em todo mundo, a sociedade contemporânea está


submetida a uma mudança radical, fato que originou os debates sociológicos ocorridos
na década de 1990 que tentam captar e conceituar esta reconfiguração, sobre a qual
103

alguns autores colocam grande ênfase na abertura do projeto humano em meio a novas
contingências, complexidades e incertezas. A partir do campo de estudos da sociologia,
Beck (2006) cita algumas das abordagens e autores que tentam delimitar este período
de transição: pós-modernidade (Bauman, Lyotard, Harvey, Haraway), modernidade
tardia (Giddens), era global (Albrow) ou modernidade reflexiva (Beck, Giddens, Lash).

Em sua abordagem Beck (2006) considera que a sociedade contemporânea vive


um momento de transição em algum ponto entre a primeira modernidade e uma
segunda modernidade ou modernidade reflexiva, as quais o autor caracteriza da
seguinte forma:

Quadro 4 – Caracterização da Primeira e da Segunda Modernidade

Corresponde a uma modernidade baseada nas sociedades de Estados-Nação, onde


as relações e redes sociais e as comunidades se entendem essencialmente em um
sentido territorial, na qual as pautas coletivas de vida, progresso, controle, pleno
Primeira
emprego e exploração da natureza se encontram cercadas por cinco processos inter-
Modernidade 24
relacionados: a globalização, a individualização , a revolução dos gêneros, o
subemprego e os riscos globais (como a crise ecológica e o colapso dos mercados
financeiros globais).

Segunda
Período que se configura como um autêntico desafio teórico e político, no qual a
Modernidade
sociedade deve responder simultaneamente a todos os desafios gerados na primeira
ou
modernidade, os quais o autor considera como conseqüências imprevistas da vitória
Modernidade
da primeira modernização, simples, linear e industrial, baseada no estado nacional.
Reflexiva
Fonte: Adaptado de Beck (2006)

No período que o autor busca caracterizar como segunda modernidade, Beck


(2006, p. 2 e 3) acredita que “está construindo-se um novo tipo de capitalismo, um novo
tipo de economia, um novo tipo de ordem global, um novo tipo de sociedade e um novo
tipo de vida pessoal”, fatos que a tornam diferente de fases anteriores do
desenvolvimento social. Por essa razão o autor considera que em termos sociológicos e

24
Para Beck (2006) o processo de individualização surge quando os indivíduos passam a assumir um sentimento
maior de subjetividade, momento em que assumem de forma ativa os destinos de sua sociedade. Segundo o autor,
este processo surge da exaustão, dissolução e desencantamento das fontes de significado e específicas de grupos
(com o a crença no progresso, a consciência de classe) da cultura da sociedade industrial (cujos estilos de vidas e
idéias de segurança também foram fundamentais para as democracias ocidentais e para as sociedades econômicas até
bem entrado o século XX) conduzem a todo o trabalho de definição que desde então se espera ou impõem aos
próprios indivíduos.
104

políticos se faz necessário uma mudança de paradigma, um novo marco de referência,


a qual segundo ele não se trata de “pós-modernidade”, mas sim de uma “segunda
modernidade”.

Em sua proposta de caracterização de um novo momento demarcado pela


iminência da consolidação de uma sociedade de risco global, Beck (2006) considera o
risco25 como sendo o seu elemento principal. O autor justifica sua afirmação
mencionando que apesar de toda a sociedade ter experimentado perigos, o regime do
risco trata-se de uma função de ordem nova, uma vez que não é nacional, e sim global,
e por estar diretamente relacionado com o processo administrativo e técnico de
decisão.

Para Beck (2006, p. 118 e 119):

Os riscos sempre dependem de decisões: ou seja, pressupõem decisões.


Surgem da transformação da incerteza e dos perigos em decisões (e exigem a
tomada de decisões, que por sua vez produz riscos). As ameaças incalculáveis
da sociedade pré-industrial (peste, fome, catástrofes naturais, guerras, mas
também magia, deuses, demônios) se transformam em riscos calculáveis no
curso do desenvolvimento do controle racional instrumental que o processo de
modernização promove em todas as esferas da vida. Isto caracteriza as
situações e os conflitos nova sociedade clássica industrial e burguesa. Em
direção de sua expansão, este não só é válido para a aplicabilidade das
capacidades de produção, ingressos fiscais, cálculo dos riscos de exportação e
conseqüências da guerra, mas também para as vicissitudes das vidas
individuais: acidentes, enfermidades, morte, inseguridade social e pobreza.

Desta forma, Beck (2006) considera que a sociedade industrial se inclina além do
limite da segurabilidade, transformando-se involuntariamente em uma sociedade de
risco através de seus próprios perigos sistematicamente produzidos, sendo que a
racionalidade na qual se baseia se deriva da racionalidade que está no núcleo desta
sociedade: a racionalidade econômica. Para Beck (2006, p. 121):

São as companhias seguradoras privadas as que estabelecem ou indicam a


barreira fronteiriça da sociedade de risco. Com a lógica do comportamento
econômico contradizem as regras de segurança formuladas pelos técnicos e
indústrias de perigo, ao afirmar que, no caso de riscos pouco prováveis, mas de
graves conseqüências, embora seja possível que os riscos técnicos tendam a
zero, os riscos econômicos são potencialmente infinitos.

25
Beck (2006, p. 5) entende como risco “o enfoque moderno da previsão e controle das conseqüências futuras da
ação humana, as diversas conseqüências não desejadas da modernização radicalizada”.
105

Desta forma, segundo Beck (2006), a sociedade de risco se caracteriza por ter
invalidado as decisões que eram tomadas com base em normas fixas de calculabilidade
associadas a meios e fins ou causas e efeitos. O autor acredita que a partir do
momento que a sociedade passou a desenvolver atividades que deixaram de ser
cobertas por seguros, a condição da iminência do risco foi institucionalizada. Como
exemplos que evidenciam a existência do risco, Beck (2006) cita a ausência de seguros
para a cobertura de desastres nucleares, contra os efeitos indesejados ocasionados
pelo fenômeno do aquecimento global ou graves conseqüências que possam ser
causadas por diversos tipos de tecnologias futuras, a exemplo das novas tecnologias
que envolvem a engenharia genética.

Para Beck (2006, p.5), “o conceito de risco e sociedade de risco combina o que
estava excluído mutuamente há tempos: sociedade e natureza, ciências sociais e
ciências naturais, construção discursiva do risco e materialidade das ameaças”.

Beck (2006, p. 6) acredita que “os riscos se converteram em uma das principais
forças de mobilização política, substituindo muitas vezes as referências e as
desigualdades associadas à classe, raça ou gênero”. O autor acredita que de forma
simultânea, a nova preeminência do risco vincula, por um lado, a autonomia individual e
a insegurança no mercado de trabalho e em relação de gênero, por outro lado,
influencia as mudanças científicas e tecnológicas. Para o autor a sociedade de risco
global abre o discurso público e a ciência social aos desafios da crise ecológica, que na
contemporaneidade se faz global, local, e pessoal ao mesmo tempo.

Em seu estudo o autor apresenta algumas conseqüências da sociedade de risco,


chamando a atenção para o fato de que a globalização do risco não significa uma
igualdade global do risco. A título de exemplo, Beck (2006) menciona a primeira lei dos
riscos ambientais a qual considera que a contaminação segue a pessoa pobre. O autor
cita dados da Organização das Nações Unidas (ONU), que afirmam que mais de 2.400
milhões de pessoas vivem sem saneamento; 1.200 milhões carecem de água potável
segura; um número parecido carece de habitações e serviços sanitários e educativos
adequados; mais de 1.500 milhões sofrem de desnutrição, não pela falta de comida ou
pela seca, mas pela crescente marginalização e exclusão dos pobres. O autor revela
106

ainda dados curiosos sobre os hábitos de consumo de determinados segmentos


abastados da sociedade global, mencionando que graças a acordos cruciais para o livre
comércio, a exemplo da OMC e do Nafta, o consumo está praticamente fora de controle
nos países mais ricos, o qual, segundo a ONU, foi sextuplicado em menos de vinte e
cinco anos. De acordo com os dados da entidade, os vinte por cento mais ricos da
população destes países consomem aproximadamente seis vezes mais comida,
energia, água, transporte, petróleo e minerais em relação ao que consumiam os seus
pais.

Beck (2006) menciona que na atualidade se podem ilustrar os componentes


constitutivos dos riscos do mercado global mediante a experiência da crise asiática, da
mesma forma que em 1986 se podiam ilustrar os aspectos de risco tecnológico e
ecológico global mediante o acidente nuclear ocorrido em Chernobil. Com base em
seus estudos, Beck (2006) considera que vivemos em uma era de risco que é global,
individualista e mais moral do que supomos26, onde a ética da auto-realização e
sucesso individual são a corrente mais poderosa da sociedade ocidental moderna. O
autor acredita que escolher, decidir e configurar indivíduos que aspiram a ser autores
de sua vida, criadores de sua identidade, são as características centrais de nossa era.

Para Beck (2006), se pensada até suas últimas conseqüências, a sociedade de


risco significa sociedade de risco global. Nela seus desafios são os perigos produzidos
pela civilização que não podem delimitar-se socialmente nem em termos de espaço,
nem em termos de tempo. Para o autor, neste sentido, as condições e princípios
básicos da primeira modernidade como o antagonismo de classe, estabilidade nacional,
imagens da racionalidade e do controle linear, tecnoeconômico, são evitadas e
anuladas. O autor considera que o conceito da teoria da sociedade de risco global pode
ser respondida sob a luz de duas perspectivas:

26
Beck (2006) acredita que apesar da geração do “primeiro eu” ser muito criticada, que o seu individualismo é mais
moral e político em um sentido novo. O autor considera que a época atual é mais moral que a dos anos 50 e 60, que
os filhos da liberdade têm sentimentos mais apaixonados e morais sobre uma ampla gama de questões, desde o trato
ao meio ambiente aos animais, envolvendo questões de gênero, raça e direitos humanos no mundo.
107

Quadro 5 – Perspectivas da Sociedade de Risco

• Nesta perspectiva, as conseqüências e perigos da produção industrial desenvolvida agora são


globais;
• Esta perspectiva se apóia em descobertas científicas e nos debates da destruição em curso
(da camada de ozônio, por exemplo);
• Nela o desenvolvimento de forças produtivas está entrelaçado com o desenvolvimento de
forças destrutivas e, em conjunto, ambas geram – a sombra de efeitos colaterais latentes – o
romance dinâmico de conflito de uma sociedade de risco global.
• Esta perspectiva se expressa em coisas tais como o desastre de Chernobil, quando uma
nuvem atômica aterrizou em toda a Europa e obrigou as pessoas a adotar mudanças
importantes inclusive em sua vida privada cotidiana. Mas também se manifesta no
Realista ou Essencialista

conhecimento que tem qualquer leitor de jornais ou telespectador maduro das sociedades
industriais de que o envenenamento do ar, da água, do solo, das plantas e dos alimentos não
conhece fronteiras.
• Na perspectiva realista, falar da sociedade de risco global reflete a socialização global
obrigatória devido aos perigos produzidos pela civilização. O novo estado do mundo é a base
da crescente importância das instituições transnacionais. Os perigos globais correspondem, de
forma realista, a modelos globais de percepção, fóruns mundiais de vida e ação pública, e
finalmente – se a objetividade suposta dá bastante impulso para a ação – atores e instituições
transnacionais.
• O vigor do realismo também pode observar-se em seu claro manuscrito histórico, segundo o
qual o desenvolvimento da indústria ou da sociedade industrial atravessou duas etapas
distintas. Na primeira, eram as questões de classe ou sociais as que tinham uma importância
primordial; na segunda, são as questões ecológicas. Porém seria excessivamente simples
supor que a ecologia superou a questão de classe; é bastante evidente, e é preciso destacar,
que as crises ecológicas, do mercado de trabalho e econômicas se sobrepõem e é muito
possível que se agravem mutuamente.
• Pelo lado realista, para contraste, a globalidade é baseada unicamente na auto-autoridade
ostensiva dos perigos objetivos.
• O realismo concebe a problemática ecológica como fechada.

• É baseada na auto-evidência emprestada dos perigos realistas e a partir de atores, instituições,


estratégias e recursos considerados decisivos em sua fabricação.
Construtivista ou Social-Construtivista

• Uma perspectiva social-construtivista em uma sociedade de risco global não se funda em uma
globalidade cientificamente comprovada dos problemas, mas em coalizações de discurso
transnacionais (Hajer citado por Beck (2006)), que esboçam dentro do espaço público as
questões de uma agenda global. Segundo Beck (2006) até os anos 70 e 80 não se forjaram ou
fizeram poderosas estas coalizões, e na década atual, especialmente desde a cúpula da terra
do Rio, tem começado a transformar a paisagem temática em torno dos problemas do planeta.
Isto requer a institucionalização do movimento ecologista e a construção de atores
transnacionais que tentem abordar a gestão global dos problemas mundiais (WWF,
Greenpeace, ministérios de meio ambiente, legislações, acordos nacionais e internacionais,
indústrias, ciência, entre outros).
• Na perspectiva construtivista os diferentes atores necessitam ter êxito em suas atuações e
afirmar-se continuamente contra poderosas contra-coalizações.
• Na perspectiva construtivista, os atores transnacionais já tem que ter conseguido que se aceite
a sua política discursiva, de maneira que a globalidade de questões ambientais seja decisiva
para as percepções e exigências de ações sociais.
• O construtivismo mantém o princípio de abertura em relação à discussão da problemática
ecológica.
Fonte: Adaptado de Beck (2006)
108

Com relação à perspectiva realista que fundamenta a sociedade de risco global,


Beck (2006) chama a atenção para o fato de que basta uma visão superficial para
mostrar como elas são fracas na realidade. O autor considera que um ponto de vista
realista irrefletido esquece ou suprime o fato de que o realismo é consciência coletiva
sedimentada, fragmentada, induzida pelos meios de comunicação de massas.
Conforme sustenta Wynne citado por Beck (2006), o conhecimento público do risco
muitas vezes não é conhecimento especializado mas sim profano, carente de
reconhecimento social. O autor menciona que as imagens e símbolos ecológicos não
possuem uma certeza intrínseca: são percebidos, construídos e mediatizados
culturalmente; formam parte do tecido social do conhecimento, com todas as suas
contradições e conflitos (movimentos sociais, televisão, imprensa diária, organizações
ambientais, institutos de investigação, etc....). Para Beck (2006) a potência definidora
do realismo descansa sobre a exclusão de questões que dizem mais em favor da
superioridade interpretativa dos enfoques construtivistas, os quais o autor considera
como sendo anti-realistas. Para Beck (2006) por mais contraditórios que possam ser os
enfoques essencialista-realista e construtivista em seus métodos e suposições básicos,
ambos estão de acordo em seus diagnósticos sobre a sociedade de risco global.

Beck (2006) alerta para o fato de que, apesar de existirem pontos convergentes
em relação às duas perspectivas, isso não deve ser considerado como um forte motivo
para que sejam minimizadas as suas diferenças. Beck (2006) acha particularmente
notável o fato de o realismo enfatizar questões relacionadas ao risco global enquanto
que o construtivismo enfatiza as questões relacionadas à sociedade. Segundo o autor a
diferença reside no fato de que para um, são os perigos (os cenários de desastre total)
da sociedade de risco global os que constituem o centro principal de atenção; enquanto
que para o outro, são as oportunidades, os contextos em que atuam os atores. Para
um, os perigos globais devem dar lugar antes de mais nada a instituições e tratados
internacionais. Para o outro, ao falar sobre os perigos ambientais já se supõem
coalizões supranacionais de discurso comprometidas em uma ação com êxito.

De acordo com Beck (2006) muitos acreditam que assumir a objetividade dos
perigos globais é potencializar a construção de instituições transnacionais
109

(centralizadas), cujo ponto de vista frequentemente se considera suspeito de


ingenuidade, implica ou inclusive produz um considerável impulso de poder para levar a
cabo uma política de “desenvolvimento sustentável”, segundo se denomina em uma
nova frase mágica.

Em sua proposta para a sociedade de risco, Beck (2006) propõe um novo marco
conceitual, em que a análise sócio ecológica dos problemas ecológicos não seja tratada
como problemas de meio ambiente ou o mundo que nos rodeia, mas sim como um
mundo interior da sociedade. O autor sugere que este marco se inicie além do dualismo
existente entre sociedade e natureza e de conceitos chave aparentemente evidentes,
de natureza, ecologia e meio ambiente.

Para Beck (2006) a sociedade de risco global compartilha o adeus ao dualismo


sociedade-natureza, sugerindo uma única pergunta: como podemos administrar a
natureza depois do seu fim? Para o autor esta pergunta que diferentes abordagens
tratam de iluminar de formas diversas, é desenvolvida pela teoria da sociedade de risco
global em direção do construtivismo institucional. Na concepção de Beck (2006) a
natureza e a destruição da natureza são produzidas institucionalmente e definidas, nos
conflitos de leigos e especialistas, dentro da natureza interiorizada industrialmente.

Beck (2006) acredita que os temas e perspectivas centrais da sociedade de risco


se relacionam com a incerteza fabricada dentro de nossa civilização: risco, perigo,
efeitos colaterais, asseguramento, individualização e globalização. Logo, neste
contexto, a teoria da sociedade de risco global traduz a pergunta pela destruição da
natureza com outra pergunta: Como aborda a sociedade moderna as incertezas
fabricadas autogeradas?

Beck (2006) chama a atenção sobre a essência desta fórmula, na qual residem
os riscos, que dependem de decisões e que em princípio podem controlar-se, e perigos,
que escaparam ou neutralizaram as exigências de controle da sociedade industrial. O
autor atribui à existência dos riscos ao fato de que normas e instituições desenvolvidas
dentro da sociedade industrial podem falhar: o cálculo de riscos, o principio de
segurança, o conceito de prevenção de acidentes e desastres, as medidas profiláticas.
Como forma apresentar evidências sobre a sua existência, Beck (2006) reforça o fato
110

de que indústrias e tecnologias consideradas controversas correspondem àquelas que


não possuem um seguro privado ou que não conseguem um acesso a ele. Como
exemplos, cita casos como a energia atômica, a engenharia genética (incluindo a
pesquisa) e setores de alto risco da produção química.

Para Beck (2006) a ausência de seguro revela que as companhias de seguro são
dotadas de especialistas tecnológicos, que contestam o juízo de técnicos e autoridades
importantes sobre o caráter inofensivo de produtos ou tecnologias que produzem. O
realismo econômico predominante nas companhias de seguro lhes impede ter alguma
relação com um suposto risco zero.

Desta forma, para o autor, a sociedade de risco global avança fazendo


equilíbrios além dos limites de segurança. Visto de outra forma, os próprios critérios que
a modernidade industrial utiliza para cobrir os perigos que ela mesma gera podem
converter-se em normas para a crítica. Para Beck (2006) na medida em que as
decisões ligadas à dinâmica científica, técnico-econômica seguem organizando-se em
um nível de estado nação e a empresa individual, as ameaças resultantes nos
transformam em membros de uma sociedade de risco global.

Segundo Beck (2006) no sistema do industrialismo desenvolvido do perigo nada


pode se fazer em nível nacional para garantir a saúde e a segurança dos cidadãos, nele
os perigos aumentam devido ao fato de serem anônimos. Para o autor as antigas
rotinas de decisão, controle e produção oriundas do direito, da ciência, da
administração, da indústria e da política são as responsáveis pela destruição material
da natureza e pela sua normalização simbólica, processos que se complementam e se
acentuam mutuamente. Acredita que não é a desobediência das normas mas sim as
próprias normas que regulamentam a morte das espécies, rios ou lagos.

Ao mencionar que o conceito de irresponsabilidade organizada indica a


existência de um movimento circular entre a normalização simbólica e as permanentes
ameaças e destruições materiais, Beck (2006) apresenta evidências sobre a existência
do princípio de recursividade ou auto-geração citado por Morin. Para Beck (2006) na
medida em que a administração do estado, a política, a gestão industrial e a
investigação negociam critérios para determinar o que pode ser considerado racional e
111

seguro, o buraco da camada de ozônio aumenta e as alergias se estendem


massivamente.

A teoria da sociedade de risco global, segundo Beck (2006) propõe a


substituição do discurso tradicional sobre a destruição da natureza, no qual os efeitos
colaterais invisíveis da produção industrial se transformam em conflitos ecológicos
globais, pela idéia-chave de que os problemas ambientais se originam de uma profunda
crise da primeira fase da modernidade industrial. Para o autor isto ocorre na medida em
que os efeitos colaterais negativos de uma ação aparentemente calculada e que pode
ser responsabilizada, passam a ser vistos como tendências capazes de erosionar o
sistema de forma a deslegitimar as bases de sua racionalidade.

Beck (2006) também considera que a situação da economia sofre uma mudança
radical. Segundo o autor houve um tempo em que a indústria podia lançar projetos sem
submetê-los a controles e regulações especiais, o qual foi seguido por um período de
regulação estatal, no qual a atividade econômica só passou a ser possível com o marco
da legislação trabalhista, as normativas de segurança, acordos de tarifa, entre outros.
Em termos de uma sociedade de risco global, Beck (2006) considera esta como sendo
uma mudança decisiva em termos da compreensão da sociedade de risco global, onde
mesmo que todas as instâncias e regulamentações desempenhem o seu papel e que
todos os acordos válidos sejam respeitados, os mesmos nem sempre representarão
segurança.

Para Beck (2006) o fato de que as normas sejam respeitadas não impede que a
opinião pública efetue suas críticas sobre as organizações que considere poluidoras do
meio ambiente, pois os mercados de bens e serviços são baseados em princípios
instáveis, ou seja, fogem do controle das empresas que aplicam remédios domésticos,
ocasiões que segundo o autor, revelam a insegurança fabricada em áreas centrais da
ação e da gestão baseadas na racionalidade econômica.

Desta forma para Beck (2006), na sociedade de risco global, os projetos


industriais se convertem em uma empresa política, no sentido de que as grandes
inversões pressupõem um consenso a longo prazo. Tal consenso, porém, já não é
garantido – mas bem ameaçado – pelas antigas rotinas da simples modernização. O
112

que poderia negociar-se e implementar-se a porta fechada, mediante a força das


limitações práticas (por exemplo, os problemas de eliminação de resíduo, os métodos
de produção ou o design dos produtos) fica agora potencialmente exposto a crítica
pública. Para o autor, ao mesmo tempo em que a indústria aumenta a produtividade,
corre o risco de perder sua legitimidade. A ordem legal já não garante a paz social
porque generaliza e legitima as ameaças da vida e também da política.

Em sua concepção para a sociedade de risco global, Beck (2006) acredita que
diferentes ameaças globais como conflitos ambientais, pobreza e armas de destruição
em massa podem muito bem complementar-se e acentuar-se mutuamente, ou seja, se
faz necessário considerar a interação entre a destruição ecológica, as guerras e as
conseqüências da modernização incompleta.

Para Beck (2006) a junção de diversos fatores confirma o diagnóstico de


surgimento de uma sociedade de risco global. O autor considera que as denominadas
ameaças globais conduziram a um mundo no qual foi corroída a base da lógica
estabelecida do risco e no qual prevalecem perigos de difícil gestão em lugar de riscos
quantificáveis, onde novos perigos estão eliminando as fundações convencionais do
cálculo de segurança e os danos perdem seus limites espaço-temporal, convertendo-se
em globais e duradouros.

Para o autor o princípio de culpa está perdendo a sua eficácia, uma vez que em
muitas ocasiões, não podem ser definidas compensações financeiras aos danos
causados e não faz sentido assegurar-se contra os piores efeitos possíveis da espiral
de ameaças globais. Para Beck (2006) em termos de política social, a crise ecológica
implica numa violação sistemática de direitos básicos, cujos efeitos gerados na
sociedade a longo prazo não devem ser subestimados. Para o autor, os perigos
produzidos na indústria, são exteriorizados para a economia, individualizados pelo
sistema legal, legitimados pelas ciências naturais e apresentados como inofensivos
pela política, situações que corroem o poder e a credibilidade das instituições e que só
é evidenciado quando o sistema apresenta algum sinal de crise.

Neste contexto surge um fenômeno que Beck (2006) denomina de subpolitização


da sociedade mundial, onde a atividade das corporações mundiais e dos governos
113

nacionais está se submetendo a pressão da esfera pública mundial. Segundo o autor, a


participação individual-coletiva nas redes de ação global é surpreendente e decisiva; os
cidadãos estão descobrindo que o ato de comprar trata-se de um voto direto que
sempre podem utilizar de forma política. Para Beck (2006), à medida que se difunde a
consciência do perigo, a sociedade de risco global se faz autocrítica. Neste novo
contexto de sociedade global, Beck (2006, p. 106) chega a considerar que:

O adversário mais influente da indústria da ameaça é própria indústria da


ameaça. Expressando-se de outro modo, o poder dos novos movimentos
sociais não só se baseia neles mesmos, mas também na qualidade e o alcance
das contradições nas quais incorrem as indústrias que produzem e administram
os perigos na sociedade de risco. Estas contradições se fazem públicas e
escandalosas através de atividades provocadoras dos movimentos sociais. Por
tanto, não existe unicamente um processo autônomo de encobrimento dos
perigos, mas também tendências opostas que desvelam este encobrimento,
mesmo embora sejam muito menos acusadas e sempre dependam do valor civil
dos indivíduos e da vigilância dos movimentos sociais.

Para Beck (2006) os riscos presumem decisões e considerações de utilidade


industrial, quer dizer, tecnoeconômica, diferindo-se dos desastres naturais pré-
industriais por sua origem no processo de tomada de decisão, os quais não se
encontram nas mãos de indivíduos e sim de organizações e grupos políticos inteiros27.
De acordo com Beck (2006) os perigos pré-industriais, não importa quão grande e
devastador fossem, eram considerados golpes do destino que se descarregavam sobre
a humanidade desde fora e que eram atribuídas a um outro: deuses, demônios ou
natureza, ao contrário do que ocorre como os riscos industriais, gerados a partir do
processo de tomada de decisões. Para Beck (2006) as pessoas, as empresas, as
organizações estatais e os políticos são responsáveis pelos riscos industriais.

Dito de outro modo, desde meados do século XX as instituições sociais da


sociedade industrial tem enfrentado a possibilidade, historicamente sem precedentes,
da destruição de todo vida no planeta por meio das decisões que se tomam. Isto
distingue a nossa época não somente da primeira fase da revolução industrial, mas

27
Luhmann citado por Beck (2006) apresenta a diferença entre risco, o resultado de uma decisão, e perigo, que se
refere às múltiplas pessoas ou grupos que são afetados e afligidos pelos riscos que os outros adotam (e que podem
evitar).
114

também de todas as demais culturas e formas sociais, não importa o quão diversas e
contraditórias tivessem podido ser em seus detalhes.

Para Beck (2006) o principal potencial sócio-histórico e político dos perigos


ecológicos, nucleares, químicos e genéticos é baseado no colapso da administração,
no colapso da racionalidade tecnocientífica e legal e das garantias de segurança
políticas institucionais que estes perigos conspiram para todos. Este potencial reside no
desmascaramento da anarquia concretamente existente que se desenvolveu a partir da
negação da produção e administração sociais dos megaperigos.

Para Beck (2006, p. 113 e 114) neste contexto “surge uma situação
completamente distinta quando os perigos da sociedade industrial dominam os debates
públicos, político e privado”, onde “[...] as instituições da sociedade industrial produzem
e legitimam perigos que não podem controlar”.

Beck (2006) considera que a transição da modernidade industrial para a


modernidade do risco se produz de forma não intencional, não percebida,
compulsivamente, no curso de uma dinâmica da modernização que se fez autônoma,
seguindo a pauta das conseqüências não desejadas. Para o autor, as diferentes
situações percebidas na sociedade de risco se criam em razão das verdades auto-
evidentes da sociedade industrial, como o consenso sobre o progresso, a abstração
das conseqüências e os perigos ecológicos que dominam o pensamento e a conduta
dos seres humanos e instituições.

Logo Beck (2006) defende a idéia de que a sociedade de risco não é uma opção
que possa se escolher ou rejeitar no curso do debate político. Surge por meio do
funcionamento automático de processos autônomos de modernização que são cegos e
surdos às conseqüências e perigos, situação que põe em questão a própria lógica de
funcionamento da sociedade industrial.

Para Beck (2006, p. 115 e 116):

Na sociedade de risco, os conflitos sobre a distribuição dos males que produz


se sobrepõem aos conflitos sobre a distribuição dos bens sociais (renda,
emprego, segurança social) que constituem o conflito fundamental da
sociedade industrial e conduzem às tentativas de solucionar-lo em instituições
adequadas. Pode mostrar-se que os primeiros são os conflitos da exigência da
responsabilidade. Estes conflitos se desatam em torno da pergunta de como se
115

podem distribuir, evitar, controlar e legitimar as conseqüências dos riscos que


acompanham a produção de mercadorias: tecnologia nuclear e química em
grande escala, engenharia genética, ameaças ao meio ambiente, a escalada de
armamentos e o crescente empobrecimento da humanidade que vive fora da
sociedade industrial ocidental.

De acordo com Beck (2006), as sociedades modernas se deparam com os


princípios e limites do seu próprio modelo na medida em que não se transformam, não
refletem sobre as conseqüências e mantém uma política industrial do “mais do mesmo”.
O autor considera que a transformação das conseqüências não desejadas da produção
industrial em fonte de problemas ecológicos globais não é em absoluto, um problema
do mundo que nos rodeia, ou seja, não é um dos denominados “problemas ambientais”,
e sim uma crise institucional da própria sociedade industrial.

Para Beck (2006) na sociedade de risco, o reconhecimento da incalculabilidade


dos perigos produzidos pelo desenvolvimento tecnoindustrial impõem a auto-reflexão
sobre os fundamentos do contexto social e uma revisão das convenções e princípios
predominantes de racionalidade. Segundo o autor, na auto-concepção da sociedade de
risco, a sociedade se faz reflexiva (no sentido estrito da palavra), ou seja, se converte
em um tema e em um problema para si mesma. Desta forma, segundo Beck (2006) a
sociedade de risco tende a ser ao mesmo tempo, uma sociedade autocrítica:

Os especialistas em seguros contradizem os engenheiros especialistas em


segurança. Enquanto os últimos declaram risco nulo, os primeiros consideram
que se trata de um risco não assegurável. Os especialistas são relativizados ou
destronados por não especialistas. Os políticos encontram a oposição das
iniciativas cidadãs; a gestão industrial, a das organizações de consumidores.
Os grupos de auto-ajuda criticam as burocracias. Em última instância, as
indústrias responsáveis pelos danos (por exemplo, a indústria química
responsável pela contaminação marinha) devem inclusive esperar encontrar a
resistência de outras indústrias afetadas (neste caso, a pesca e as empresas
que dependem do turismo costeiro). Estas podem desafiar, inspecionar,
inclusive corrigir as primeiras.

Para Beck (2006, p. 128) ao longo da história mundial surgiram e desapareceram


muitos candidatos a sujeito da crítica social: a classe trabalhadora, a inteligência crítica,
a esfera pública, movimentos sociais das mais diversas tendências e composições, as
mulheres, as subculturas, os jovens, entre outros.
116

Para o autor o que difere a sociedade de risco de outras sociedades é o fato da


base da crítica ser, antes de tudo, autônoma. Para Beck (2006), neste contexto, a
autocrítica significa que dentro e entre os sistemas e instituições (e não somente nas
margens e nas áreas de sobreposição dos mundos da vida privados) surgem linhas de
conflito que podem organizar-se e são susceptíveis de coalizões. Para Beck (2006, p.
128), na sociedade de risco:

Os centros de tomada de decisão e as leis objetivas do progresso científico-


tecnológico estão se convertendo em questões políticas. Isto sugere uma
pergunta: coincide a crescente consciência da sociedade de risco com a
invalidação dos modelos lineares da tecnocracia, modelos que, sejam otimistas
ou pessimistas em relação ao progresso, fascinaram a sociedade e a sua
ciência durante cem anos?

Para Beck (2006, p 139) “[...] a sociedade de risco começa onde os princípios de
cálculo da sociedade industrial submergem e anulam a continuidade da modernização
automática e tempestuosamente triunfante”, onde “a sociedade de risco nega os
princípios de sua racionalidade”, os quais deixou para traz quando começou a operar
além dos limites asseguráveis. Para o autor, “a sociedade de risco só se inicia quando o
debate sobre a reparação e reforma da sociedade industrial se define com clareza”
(BECK, 2006, p 140).

2.2.7. As Organizações e a Sociedade de Risco

Com seria inevitável de ocorrer, a matriz de pensamento linear e mecanicista


surgida no cerne da ciência gerou influências diretas sobre a maior parte das
organizações sociais, em especial as organizações industriais. Como citado
anteriormente, para Egri e Pinfield (1999) as características deste pensamento serviram
de alicerces ideológicos das revoluções científica e industrial das sociedades
contemporâneas.

Ao assumir as premissas definidas da racionalidade econômica, as diferentes


organizações industriais contribuíram para fortalecer os princípios da racionalidade
instrumental em detrimento de outras alternativas. Como forma de garantir a expansão
e o aumento dos resultados de suas operações, as organizações industriais
117

gradativamente aprenderam a desenvolver mecanismos de proteção, como forma de


garantir a rentabilidade de suas atividades.

Para Demajorovic (2003, p. 33) “até meados da década de 1980, predominou no


discurso empresarial uma resistência a qualquer iniciativa de minimizar os impactos
socioambientais decorrentes da atividade produtiva”. De acordo com o autor, como
forma de estabelecer defesas em relação aos problemas de degradação ambiental, os
representantes empresariais desenvolveram o argumento de que custos adicionais para
as empresas para o controle da poluição comprometeriam a lucratividade, a
competitividade e a oferta de empregos, gerando prejuízos às partes interessadas, ou
seja, trabalhadores, acionistas e consumidores.

Nesse contexto, segundo Demajorovic (2003) a estratégia adotada pelas


empresas, segundo o jargão econômico, passou a ser a de externalizar os custos
ambientais, ou seja, transferi-los para a sociedade, poupando o verdadeiro causador de
arcar com qualquer ônus para reverter o problema.

De acordo com Demajorovic (2003), a partir de meados da década de 1980, a


estratégia do discurso empresarial que enaltecia o papel exclusivo das empresas como
fomentadoras da riqueza, encontraria cada vez menos respaldo na sociedade. Segundo
o autor:

Ao mesmo tempo que a mobilização em torno da questão ambiental


multiplicava os debates sobre essa temática em diversos países, o setor
público, por meio de suas agências ambientais, aprimorava a regulação
ambiental, convertendo os danos e as ameaças ao meio ambiente em custo
direto para os negócios (DEMAJOROVIC, 2003, p. 34).

Paralelo a estas questões, Demajorovic (2003) menciona que no mesmo


período, a exposição pela mídia de tragédias ambientais provocadas por grandes
empresas contribuiu para colocar o setor industrial como alvo prioritário dos protestos
de grupos ambientalistas.

Segundo Demajorovic (2003), apesar de muitos defensores da forma atual de


progresso econômico acreditarem que as tragédias ou os problemas mencionados são
fatalidades ou acidentes de percurso do processo necessário para o desenvolvimento
indústria, cada vez menos o trinômio produtividade-progresso-riqueza se vê capaz de
118

convencer a opinião pública. Para Demajorovic (2003) está cada vez mais evidente que
o agravamento dos problemas ambientais está diretamente ligado a escolhas com
respeito à forma de aplicar o conhecimento técnico-científico no processo produtivo.
Logo, o autor considera que “as catástrofes e os danos ao meio ambiente não são
surpresas ou acontecimentos inesperados”, são “[...] conseqüências inerentes da
modernidade, que mostram, acima de tudo, a incapacidade do conhecimento
construído no século XX de controlar os efeitos gerados pelo desenvolvimento
industrial” (DEMAJOROVIC, 2003, p. 35).

Fundamentado em Beck, Demajorovic (2003) menciona que o processo de


industrialização é indissociável do processo de produção de riscos, uma vez que uma
das principais conseqüências do desenvolvimento científico industrial é a exposição da
humanidade a riscos e inúmeras formas de contaminação nunca observados
anteriormente, que ameaçam os habitantes do planeta e o meio ambiente. Para o autor,
o que “agrava o problema é a percepção de que os riscos gerados hoje não se limitam
à população atual, uma vez que as gerações futuras também serão afetadas e talvez de
forma ainda mais dramática” (DEMAJOROVIC, 2003, p. 35).

Demajorovic (2003) afirma que a sociedade de risco não consegue se libertar da


sociedade industrial, uma vez que é especialmente a indústria, unida à ciência, a
principal responsável por gerar as ameaças que lhe dão origem. O autor considera que
com um maior número de empresas competindo no mercado globalizado os riscos se
ampliam, uma vez que o processo de decisão torna-se mais complexo para os gerentes
em suas organizações. Como exemplos, o autor cita o avanço tecnológico que ameaça
os trabalhadores com o desemprego, o aumento de riscos de acidentes em função do
grande número de veículos circulando nos centros urbanos ou ao risco da ampliação da
degradação ambiental em função da concentração de empresas em determinadas
regiões.

Para Demajorovic (2003) em razão do desenvolvimento de seu instrumental de


controle, a sociedade industrial aprendeu a controlar e a conviver de forma menos
traumática com boa parte desses riscos. De acordo com Douglas e Wildavsky citados
por Demajorovic (2003), nunca nenhuma civilização anterior à contemporânea se
119

demonstrou tão preocupada em desenvolver técnicas de cálculo de risco, com o


objetivo de produzir uma infinidade de medidas compensatórias para uma população à
mercê de um mundo cada vez mais incerto. Para o autor, ao desenvolver este
instrumental para o enfrentamento das incertezas, muitas delas acabaram por
incorporar o cálculo de risco28 em seu processo de tomada de decisão. Além disso,
Demajorovic (2003) menciona que diversas empresas já são obrigadas pela regulação
ambiental a apresentar estudos de risco, destinados a reduzir a possibilidade de
ocorrência de acidentes industriais que afetem seus funcionários, a população e o meio
ambiente.

A ampliação das exigências exercida sobre as organizações pelas novas


regulamentações e pela sociedade confirmam a existência dos riscos. Para
Demajorovic (2003) diferentemente dos riscos da fase inicial de industrialização, os
atuais riscos químicos, nucleares, ecológicos e de engenharia genética apresentam três
características fundamentais: não podem ser limitados no tempo e espaço, dificultam a
identificação do nexo causal entre o problema gerado e a sua origem e muitas vezes
não podem ser compensados. De acordo com Beck citado por Demajorovic (2003) é
impossível calcular os riscos gerados para os indivíduos que ainda não nasceram e que
serão afetados pelo desastre de Chernobyl.

Assim como Beck, Demajorovic (2003) considera que nada é mais representativo
do que o posicionamento assumido pelas empresas de seguro em relação ao risco.
Segundo o autor, as várias seguradoras que vislumbraram grandes oportunidades de
negócios na década de 1980 em função do aumento das regulamentações ambientais,
optando por incorporar o seguro ambiental em seus serviços tradicionais, rapidamente
perceberam que a multiplicação dos acidentes revelava que a administração dos novos
negócios não era tão simples. Diversas seguradoras, preocupadas com os bilhões de
dólares destinados ao pagamento das indenizações em virtude do aumento das
reclamações por problemas ambientais, as quais ameaçavam a própria solvência do

28
De acordo com Shrivastava citado por Demajorovic (2003) este tipo de cálculo procura avaliar exclusivamente os
riscos financeiros, ou seja, detectar a possibilidade de retornos monetários para o investimento realizado,
considerando a volatilidade dos mercados financeiros, as flutuações da taxa de inflação, as mudanças tecnológicas,
entre outros.
120

setor, logo elevaram significativamente o valor dos prêmios, ao mesmo tempo em que
diminuíram a cobertura de seguros29.

Para Demajorovic (2003, p. 45 e 46):

Por mais que esses cientistas ou empresários se apeguem à dificuldade de


calcular com exatidão os danos socioambientais produzidos por atividades
industriais, cresce a expectativa de que parcela significativa dos impactos
previstos se concretizará no futuro caso o processo de degradação não comece
a ser remediado no presente. Tal expectativa enfraquece o argumento de
dificuldade de cálculo, tornando mais difícil que essa estratégia seja usada
perante a opinião pública. Essa constatação, contudo, representa apenas uma
das variáveis importantes que afetam as organizações. Na realidade, o
processo social de reconhecimento de risco que está em curso, ainda que
baseado muito mais em estimativas do que em sua real calculabilidade, forja o
desenvolvimento de uma moral ecológica, criando uma variedade de novos
desafios no ambiente em que atuam as indústrias.

Para Demajorovic (2003, p. 46) “o consenso criado em torno dos benefícios


proporcionados pelas empresas, fundamentado em sua contribuição para o
crescimento do emprego e do nível de renda, choca-se com a moral ecológica”. Para o
autor:
Esta não apenas questiona os aspectos econômicos e tecnológicos das ações
empresariais, mas se materializa também nas pressões políticas, em um maior
rigor das normas de comando e controle, no aumento dos custos de operação,
na maior inferência no processo de tomada de decisão dentro das organizações
e no reconhecimento, por parte do Poder Judiciário, das demandas de
compensação por danos socioambientais, levando representantes das
corporações ao banco dos réus. (DEMAJOROVIC, 2003, p. 46)

Demajorovic (2003, p. 47) considera que, “com efeito, os riscos da


modernização, ao acelerar o processo de conscientização, alteram a distribuição do
poder no âmbito da tomada de decisão nas empresas”. Para o autor:

Questões como escolha do processo produtivo, planejamento da produção,


desenvolvimento tecnológico e disposição dos resíduos, tratadas anteriormente
como assuntos de soberania exclusiva dos gerentes e administradores de
unidades industriais, extrapolam os muros das plantas industriais. Novos grupos
e atores sociais entram em cena, exigindo que decisões tomadas nas altas

29
De acordo com Demajorovic (2003) em 1995 o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA)
lançou a Declaração de Compromisso Ambiental para a Indústria de Seguros. De acordo com o autor, no ano da
edição do seu livro, mais de 70 seguradoras de 25 países assinaram o acordo para incorporar a variável ambiental em
suas operações.
121

cúpulas administrativas sejam revistas e que processos de produção sejam


modificados.

Em função do novo contexto delineado pelo surgimento da sociedade de risco


global e de seu histórico que será apresentado no próximo capítulo, as atividades
desenvolvidas pelas indústrias químicas passam a ser mais bem observadas pela mídia
e pelas comunidades onde se encontram inseridas, bem como melhor regulamentadas
e fiscalizadas pelo Estado, em razão dos riscos que representam para a sociedade e
para o meio ambiente. Por essa razão, este estudo busca revelar qual é a percepção
que os profissionais que atuam em indústrias químicas têm da relação de sua
organização com o meio ambiente, por meio do estabelecimento de um diálogo direto
com os diferentes atores que atuam no universo definido para o desenvolvimento desta
pesquisa.

2.3. INDÚSTRIAS QUÍMICAS

2.3.1. As Origens da Indústria Química no Mundo

O surgimento da indústria química mundial se confunde com diferentes períodos


históricos vividos pela humanidade, desde os períodos mais remotos, onde foram
descobertas as primeiras reações químicas, até os períodos mais recentes, que
coincidem com o surgimento da sociedade industrial.

Wongtschowski (2002, p. 8), considera que:

Em seu sentido mais amplo, a química está presente em todas as facetas da


vida do homem, desde o primitivo homem das cavernas ao homem atual. O
fogo, uma das primeiras reações químicas que o homem aprendeu a dominar, a
metalurgia do bronze e do ferro, o curtimento de couros, a fiação, o tratamento
e tingimento dos primeiros tecidos, a obtenção dos primeiros remédios
extraídos de plantas, a elaboração de alimentos fermentados (panificação e
bebidas alcoólicas), a produção de lixívia para a limpeza pessoal e de
utensílios, são todas atividades precursoras da indústria química, tal como é
conhecida atualmente.

Com o aprimoramento de suas capacidades intelectuais e inovativas, o ser


humano passou a construir e a ampliar o seu conhecimento sobre a química,
122

conhecimento este que contribuiu significativamente para o surgimento de uma ciência


capaz de proporcionar inúmeras descobertas a favor e contra a humanidade. As
diferentes pesquisas desenvolvidas no interior desta ciência, inicialmente originadas
pelo interesse dos seres humanos em estabelecer novas descobertas acerca do
ambiente ocupado, gradativamente revelaram a sua capacidade de estabelecer
controles sobre o meio natural.

Com o advento da sociedade industrial, esta capacidade de controle


desenvolvida pela ciência passou a ser gradativamente controlada pelos interesses
estatais e industriais, confirmando o princípio de recursão organizacional definido por
Morin (2006). O Estado e a indústria passaram a financiar a ciência com o interesse
estratégico de criar novos produtos, capazes de assegurar seu poder hegemônico e de
gerar novos recursos para financiar suas próprias estruturas, gerando assim um ciclo
recursivo onde recursos crescentes passaram a ser aplicados na produção de
pesquisas científicas orientadas para o desenvolvimento e o atendimento de novas
demandas. Para Morin (1998) a atividade científica que era sociologicamente periférica,
tornou-se uma poderosa instituição no centro da sociedade, subvencionada, alimentada
e controlada pelos poderes econômicos e estatais.

A estreita relação entre ciência e indústria pode ser percebida em Demajorovic


(2003), quando menciona que os diversos produtos fabricados pela incipiente indústria
química nos séculos XIX e XX tiveram origem em pesquisas desenvolvidas por
membros de grupos científicos, dos quais se originaram nomes proeminentes da teoria
química. A título de exemplo desta estreita relação, o autor cita o caso do professor de
química Herbert Henry Dow, fundador da Dow Química, uma das mais importantes
corporações do setor químico.

Desta forma é possível perceber que a expansão e o crescimento da indústria


química em termos de escala de produção e presença mundial são estabelecidos no
período compreendido pelo surgimento e estabelecimento da sociedade industrial,
momento em que este tipo de indústria passou a ser considerada por diferentes nações
como estratégica para a instalação e desenvolvimento de outras indústrias, e
consequentemente, com o advento da globalização, para o fortalecimento das
123

economias dos Estados-Nação e para a manutenção do equilíbrio da balança


comercial.

Seguindo as premissas da racionalidade econômica e justificando o interesse


demonstrado pelos Estados-Nação em relação ao desenvolvimento da indústria
química, Demajorovic (2003, 65) considera que:

A indústria química constitui um dos setores mais dinâmicos e vitais de qualquer


economia industrializada, pois gera produtos finais amplamente demandados
por consumidores e uma infinidade de insumos intermediários utilizados por
outras indústrias em seus processos de produção.

Para Wongtschowski (1999, p. 25):

Dado o papel representado pela indústria química, de “agente catalizador” do


desenvolvimento industrial, muitas nações emergentes procuraram fomentá-la
com o triplo intuito de criar um parque industrial gerador de empregos,
transformar localmente matérias-primas em produtos de maior valor agregado,
para exportá-los sob esta forma e livrarem-se das importações de produtos que
passam a ser fabricados em seu país, melhorando seus saldos comerciais.

Para alguns autores como Jonhson citado por Demajorovic (2003, p. 65), “a
indústria química transformou profundamente as relações dos seres humanos com o
mundo natural, criando um novo tipo de dependência: a dos indivíduos por produtos
químicos sintéticos”. Esta constatação pode ser confirmada em Demajorovic (2003),
quando menciona a presença dos produtos químicos no cotidiano das pessoas, de
forma direta (produtos farmacêuticos, fertilizantes, tintas, plásticos e borrachas) e
indireta (insumos para as indústrias têxtil, automobilística, eletrônica, entre outras).

Para Wongtschowski (2002) a indústria química tal como é compreendida na


atualidade surge somente a partir do século XIX, oriunda do êxito da realização de duas
tarefas: a de descobrir novos produtos e materiais por meio de ensaios em laboratório
(química) e a de extrapolar estes ensaios para produções em escala industrial
(engenharia química). Reforçando a primeira constatação de Wongtschowski (2002),
Demajorovic (2003) acredita que o fato de vivermos em uma era química se deve a uma
característica marcante do desenvolvimento da pesquisa de novas substâncias
químicas desde sua primeira fase de florescimento no século XIX: a sua capacidade de
124

inovar continuamente. Para Demajorovic (2003, p. 66) “é justamente a capacidade de


inovar mais rapidamente do que os demais setores, oferecendo sempre novos produtos
e modificando processos, que permitiu um notável crescimento à indústria química”.

Clow citado por Demajorovic (2003, p. 66) considera que:

[...] uma análise mais ampla das mudanças observadas no período, não restrita
às tecnologias mecânicas, revela que a famosa Revolução Industrial iniciada na
Inglaterra não resultou de fato em uma revolução e sim uma mudança evolutiva.
A verdadeira ruptura, ou a “revolução química”, teria acontecido por ocasião de
pesquisas anteriores, concomitantes e posteriores ao período da Revolução
Industrial, que, direcionadas para o desenvolvimento de novas matérias-primas,
estabeleceriam as bases para a formação e expansão da indústria química,
principal vetor da mudança social e econômica do século XX.

De forma sintética, o Wongtschowski (2002, p. 8 e 9) menciona que a moderna


indústria química mundial teve o seu desenvolvimento baseado em duas fontes
distintas:
i) Indústria química alemã, desenvolvida por químicos a partir da química
derivada do carvão, em unidades de pequeno e médio portes, em geral
descontínuas, predominando por quase um século, a partir da segunda
metade do século XIX;

ii) Indústria química norte-americana: desenvolvida por engenheiros químicos


a partir da química derivada do petróleo, em unidades de grande porte, em
geral de produção contínua, predominando a partir da segunda metade do
século XX.

Com base no estudo de Wongtschowski (2002), é apresentada no quadro 6 uma


retrospectiva histórica, a qual apresenta as bases de formação e expansão da indústria
química mencionadas por Demajorovic (2003). Nesta retrospectiva histórica é possível
identificar diversos elementos que apontam para a existência de um estreito vínculo de
sua trajetória com as bases que constituem a matriz de pensamento linear
caracterizada pela presença predominante da ação racional instrumental, racionalidade
esta que se tornou um poder hegemônico no processo de formação do arquétipo
mental adotado para o desenvolvimento da sociedade industrial. Cabe ressaltar as
influências geradas pelas duas grandes guerras no processo de industrialização
mundial, as quais também são retratadas nesta retrospectiva histórica.
125

Quadro 6 – Retrospectiva Histórica da Indústria Química Mundial


Período Fatos Relevantes
• A Inglaterra era a sede da maior indústria química do mundo.
• A Alemanha ensaiava seus primeiros passos a caminho da
industrialização.
Meados do Século XIX • Indústrias inglesas e francesas dominam a produção mundial de
corantes.
• Surgem as primeiras indústrias alemãs destinadas para a produção de
corantes: Hoescht (1863), Bayer (1863), Basf (1865) e Agfa (1867).
• Com base em vantagens competitivas (racionalização de seus
processos produtivos, emprego de cientistas e de investimentos em
P&D) alicerçadas em seu sistema de educação, a Alemanha sobrepuja
as indústrias de corantes inglesas e francesas, assumindo a liderança
mundial no campo de corantes e logo depois no campo da indústria
química em geral (liderança que perdurará por 30 anos, até o fim da
1870 a 1880
Segunda Guerra Mundial).
• A liderança assumida pela Alemanha possibilita a passagem da química
de síntese de corantes para a química farmacêutica, produtos químicos
para fotografia, aditivos para a indústria de borracha e até polímeros.
• Em 1870, a empresa americana Standard Oil Company foi criada por
John D. Rockfeller.
• Fundação da empresa americana Dow Chemical pelo professor de
química do curso secundário Herbert Henry Dow. A fábrica foi instalada
1890
em Midland – Michigan, onde existiam grandes jazidas de sal-gema, de
onde era extraído o bromo dos brometos existentes no sal-gema.
1897 • A Bayer desenvolve a Aspirina.
• A Standard Oil Company detinha 80% da capacidade de refino e 90%
dos oleodutos norte-americanos, sendo dividida em 1911 em várias
1900 companhias por decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos. A
maior parte dos negócios da Standard Oil Company passou a então
Standard Oil of New Jersey (atual Exxon).
• A Hoescht desenvolve o “Salvarsan”, primeiro anti-sifílico efetivo
1910
sintetizado pelo homem.
• O Massachusetts Institute of Technology (MIT) contribui de forma
decisiva para o desenvolvimento da indústria química mundial, ao
reconhecer a Engenharia Química como uma disciplina separada da
1912
Química.
• O químico alemão Fritz Klatte desenvolve o primeiro termoplástico a
partir de cloreto de vinila, denominado de PVC.
• Síntese direta da amônia, considerada por especialistas como uma das
maiores conquistas da química e da engenharia química. Processo
1913 desenvolvido por Fritz Haber, pesquisador da Universidade de Karlsruhe
e Prêmio Nobel em 1918, e Carl Bosch, pesquisador da Basf e Prêmio
Nobel em 1931.
• Período da Primeira Guerra Mundial. A indústria química mundial sofre
uma série de mudanças importantes.
• A Alemanha transformou a sua indústria de corantes em indústria de
produtos bélicos, produtos farmacêuticos e borracha sintética.
• Em 1914, os Estados Unidos já eram a segunda potência mundial na
1914 a 1918
fabricação de produtos químicos.
• A Inglaterra que ocupava um papel secundário no cenário mundial vive
um período de expansão.
• Em 1917, a Union Carbide, empresa americana fundada no final do
século XIX para a produção de carbeto de cálcio, junta-se com a Prest-
Continua (...)
126

O-Lite, a Linde Air Products Co. (originalmente uma filial de uma


empresa alemã) e a National Carbon Company para constituir a United
Carbide and Carbon Company.
• Período entre as duas grandes guerras, marcou o desenvolvimento da
indústria química mundial, baseada em grandes investimentos em P&D
voltados para a pesquisa aplicada.
• O Departamento de Engenharia Química do MIT substitui o
processamento em batelada pelo processamento contínuo, além de
desenvolver outros avanços nas áreas de troca térmica, extração,
destilação e fluidodinâmica. A adoção do processamento contínuo em
instalações de petróleo e de petroquímicos criou uma vantagem
competitiva para os Estados Unidos em relação à Alemanha nesse
campo.
• Em 1919 a produção de fibras artificiais era de aproximadamente 11 mil
toneladas. A participação da indústria química mundial, no
desenvolvimento das fibras têxteis, primeiramente nas artificiais (a base
de celulose) e posteriormente nas totalmente sintéticas, foi tão notável
quanto o desenvolvimento do campo dos polímeros. As primeiras fibras
artificiais partiam da celulose, visando dar à mesma uma característica
semelhante ao fio da seda. Outro tipo de fibra artificial, conhecido como
acetato de celulose, parte também da celulose, mas modifica a molécula
da mesma, introduzindo radicais acetato na molécula. A produção
mundial de fibras artificiais sofreu um grande impulso nas décadas de
1920 e 1930 e começou a perder impulso na década de 1950, com a
introdução das fibras sintéticas.
• Em 1920, a Union Carbide cria a Carbide and Carbon Chemicals Corp.
para produzir e comercializar os produtos derivados do eteno. A Dow
Chemical passou a produzir, além do bromo, cloro e soda cáustica,
também cloreto de cálcio, fenol, cloreto de vinilideno (polímero
1919 - 1939
conhecido como “Saran”) e etilcelulose. A partir da década de 1920, os
cientistas começaram a desenvolver polímeros a partir do cloreto de
vinila para a produção de PVC. O maior problema encontrado no PVC
produzido era a sua extrema rigidez, problema que foi resolvido por meio
do desenvolvimento de novos processos por empresas como a Union
Carbide e BF Goodrich.
• Em 1921 a Union Carbide inaugurou a primeira unidade de
craqueamento de gases naturais no mundo para a produção de eteno.
• Em 1923, a DuPont, empresa americana fundada em 1802 pelo Francês
Eleuthère Isidore DuPont, discípulo de Lavoisier, cria a tinta de secagem
rápida para atender a indústria automotiva da época.
• Em 1924 a Dow Chemical, em parceria com a empresa Ethyl
Corporation produz o brometo de etila, utilizado para a produção do
chumbo-tetraetila, antidetonante descoberto pela Ethyl. Neste ano a
produção mundial de fibras artificiais passou para 60 mil toneladas.
• Em 1925, por iniciativa de Carl Bosch, são reunidas na Alemanha as
sete maiores indústrias químicas, entre elas a Bayer, a Basf e a Hoechst
para formar a sociedade Interessengemeinschaft Farbenindustrie
Aktiengesellschaft (IG Farben), responsável pelo desenvolvimento de
novos processos e produtos químicos. Nos Estados Unidos, a Union
Carbide inaugura a primeira planta industrial para a produção de eteno a
partir de etano de gás natural, planta para a produção de cloridina a
partir do eteno e planta de etilenoglicol a partir de cloridrina. Neste
mesmo ano, a empresa norte-americana Naugatuck Chemical Company,
em função dos trabalhos do quimico russo I. I. Ostromislenski, inaugura
a primeira unidade industrial de poliestireno para fabricar o produto

Continua (...)
127

“Victron”, utilizado para a produção de dentaduras. Apesar de boa parte


da pesquisa de produção do estireno ter sido desenvolvida na
Alemanha, em função do grande interesse que o país tinha em
desenvolver a química da borracha sintética a partir deste produto, a
primeira fábrica surge nos Estados Unidos.
• Em 1926 é fundada a companhia inglesa Imperial Chemical Industries
(ICI), resultado da junção das quatro maiores indústrias químicas
inglesas da época: Brunner, Mond & Company, Nobel Industries, Bristish
Dyestuffs e a United Alkali. Esta junção de empresas visava fazer frente
à empresa alemã IG Farben, formada no ano anterior na Alemanha.
• Em 1927 A Union Carbide inaugura a fábrica para fluído de refrigeração
de motores à base de etilenoglicol. Neste mesmo ano, A Standard Oil of
New Jersey negocia e assina com o grupo alemão IG Farben a licença
do processo de hidrogenação à altas temperaturas do carvão em pó
para a produção de hidrocarbonetos. O interesse dos americanos era
dominar a técnica de hidrogenação a altas pressões, para aplicá-la na
refinação de petróleos pesados que começavam a tornar-se mais
freqüentes em suas refinarias. A Shell, de origem britânica holandesa,
decidiu atuar no campo da química ligada aos derivados de petróleo, em
parte porque sua grande concorrente, a Standard Oil of New Jersey
estava fazendo o mesmo e em parte porque a IG Farben e a sua síntese
de hidrocarbonetos a partir do carvão poderia por em perigo sua
penetração no mercado de combustíveis.
• Em 1928 a Union Carbide inaugura as unidades de dietilenoglicol,
trietilenoglicol e trietanolaminas.
• Em 1929 a Union Carbide inaugura a unidade de copolimerização de
cloreto de vinila e acetato de vinila, produzindo um copolímero chamado
“vinylite” que foi empregado nos discos da RCA Vitor. A Dow Chemical
produz um elastômero sintético, a partir de dicloroetano e polissulfeto de
sódio, que embora não fosse o substituto ideal da borracha natural,
podia ser empregado em certos usos específicos, ficando conhecido
com o nome de “Thiokol”. Neste mesmo ano, após os trabalhos de Carl
Wulff na Basf e de Hermann Mark no desenvolvimento do processo de
produção de estireno por desidratação do etilbenzeno e também da sua
polimerização, a IG Farben construiu várias fábricas de poliestireno na
década de 30, sendo também construída nos Estados Unidos pela DOW
a primeira fábrica baseada neste processo. Em 1929, a produção
mundial de fibras artificiais passou para aproximadamente 200 mil
toneladas. As resinas acrílicas foram patenteadas pela IG Farben.
Várias tentativas de extrudar a resina na forma de fibras, efetuadas pela
Agfa em Wolfen na década de 1930, foram infrutíferas.
• Em 1930 a DuPont cria a primeira borracha sintética com características
aceitáveis. A Union Carbide cria a primeira unidade de álcool etílico
sintético, a partir do eteno. A Dow Chemical inicia a produção de
magnésio, embora praticamente não houvesse mercado nos Estados
Unidos, sendo toda a produção exportada para a Inglaterra, França,
Alemanha e Japão. Logo em seguida inaugura uma planta de estireno,
que era a maior fábrica americana deste produto na época. A Standard
Oil of New Jersey negocia um acordo de troca de licenças com grupo
alemão IG Farben, a partir do qual foi construída uma unidade piloto em
Baton Rouge e cedido o pesquisador Paul Baumann, que foi o
responsável pelas experiências nesta unidade durante 5 anos, chegando
a desenvolver o processo de produção de ácido acético a partir do
acitileno. Neste mesmo ano a Shell cria nos Estados Unidos a primeira
unidade e diversas plantas industriais, desenvolvendo diversos
processos e/ou produtos: butanol secundário, isooctano (processo ácido
Continua (...)
128

a frio), álcool isopropílico e acetona, alquilfenóis, alguilação de parafinas


com olefinas, recuperação de tolueno por destilação/extração e
butadieno via diclorobutano.
• No início da década de 1930, E. W. Fawcett e R. O. Gibson da ICI
descobrem o polietileno, que atualmente é o termoplástico de maior
produção mundial.
• Em 1934 o Nylon é descoberto pelo professor e pesquisador da
Universidade de Harvard, Wallace H. Carothers, profissional contratado
pela DuPont em 1927. Este polímero que veio a se tornar o maior
sucesso comercial de produto químico no mundo (desenvolvimento em
escala industrial iniciado somente em 1939). O químico alemão Paul
Schlack, da firma Aceta (IG Farben), que já trabalhava com fibras têxteis
desde 1928, ao ler a patente do Nylon depositada pela DuPont,
imediatamente vislumbrou a possibilidade de produzir um fio
semelhante, usando caprolactama. Em apenas alguns dias, o laboratório
da Aceta estava produzindo um fio denominado “Nylon 6”, com
propriedades diferentes das apresentadas pelo fio de Nylon fabricado
pela DuPont e que partia do caprolactama, que continha 6 átomos de
carbono. Neste mesmo ano a Union Carbide já produzia e
comercializava 35 produtos químicos produzidos a partir do eteno e 15 a
partir do propeno.
• Em 1935, a ICI desenvolve o polietileno de baixa densidade, registrando
a sua patente nos Estados Unidos com poucos meses de antecedência
em relação à Union Carbide. Este produto, atualmente conhecido como
polietileno de baixa densidade e inicialmente aplicado para fins militares
em radares de aviões em função de suas propriedades dielétricas, foi
desenvolvido por Michael Perrin, responsável por determinar as
condições exatas nas quais a reação se processava.
• Em 1938 alguns executivos da DuPont visitaram a fábrica da Aceta em
Wolfen, e ficaram espantados com o progresso alemão na fabricação do
“Nylon 6”, decidindo fazer um intercâmbio de licenças de fabricação, o
que efetivamente ocorreu em 1939, poucos meses antes do início da
Segunda Guerra Mundial.
• Em 1939 a Union Carbide compra a Bakelite Company, empresa
produtora de resina fenol-formaldeído, utilizado para a fabricação de
bolas de bilhar em substituição do marfim. A Dow Chemical constrói uma
planta petroquímica na região da Costa do Golfo (Freeport – Texas)
utilizando conceitos revolucionários para a época ao instalar
equipamentos a céu aberto, sem tubulações de processo enterradas, o
mínimo de edificações possível, o que acarretou economias de um terço
à metade do que seria investido para fazer a mesma fábrica no clima frio
dos Estados do norte dos Estados Unidos (este modelo se tornou
padrão para a construção de unidades químicas em regiões de climas
tropicais e temperados de todo o mundo). Neste mesmo ano, os
químicos ingleses J. R. Whinfield e J. T. Dickson da Calico Printers
Association, começaram a estudar as patentes de Carothers e ficaram
surpresos ao verificar que este havia incluído, na descrição de uma das
patentes, que poliésteres alifáticos (de cadeia reta) não eram adequados
à formação de polímeros que pudessem ser transformados em fibras,
por não apresentarem a estabilidade química das poliamidas (nylon) e
terem ponto de fusão muito baixo, mas não citava os poliésteres
aromáticos (contendo a estrutura de um anel benzênico). Esses
pesquisadores testaram a reação de esterificação e polimerização entre
o ácido tereftálico e o etilenoglicol, sob a ação de catalisadores, e logo
chegaram à formação de um polímero que apresentava ótimas
propriedades como fibra (algumas superiores ao nylon) além de um
Continua (...)
129

ponto de fusão elevado (240 ºC). A esse poliéster deram o nome de


“Terylene”. O primeiro processo prático para produção da acrilonitrila a
partir do acetileno foi patenteado pela Bayer em 1939, trabalho
desenvolvido por Otto Bayer e Peter Kurtz (resinas acrílicas).
• Ainda na década de 30, a ICI faz um acordo de licenças com o cartel
que havia financiado as pesquisas do processo Bergius (ao qual
pertenciam a Shell holandesa e a IG Farben), para utilizar este processo
na produção de gasolina sintética a partir do carvão, criando duas
unidades de gasolina sintética. Como estas unidades geravam muito
propano e butano, e a ICI não sabia o que fazer com estes gases,
procurou então desenvolver processos para produzir amônia e metanol,
desenvolvendo então um processo de reforma catalítica de
hidrocarbonetos leves, para servir como ponto de partida para a
produção de amônia e metanol. Em razão do sucesso do processo,
inúmeras empresas quiseram licenciá-lo. Este processo sintético de
produção do metanol a partir de frações leves e gases naturais
desenvolvido pela ICI é o mais empregado no mundo.
• Período da 2ª. Guerra Mundial no qual foi promovido um avanço sem
precedentes no desenvolvimento da indústria química mundial. Com a
impossibilidade de acesso às fontes usuais de matérias-primas, as
nações em litígio foram obrigadas a lançar mão dos seus químicos e
engenheiros químicos para sintetizarem e produzirem, a partir de
matérias-primas locais, os produtos necessários aos esforços de guerra.
• A Alemanha contava com uma posição vantajosa, não só pelo grande
número de cientistas e químicos de que dispunha, mas sobretudo pela
empresa IG Farben, enquanto que os Estados Unidos não contavam
com a mesma tradição química alemã. Graças à introdução do conceito
de Engenharia Química, formulado pelo MIT e logo seguido por muitas
universidades norte-americanas (California Institute of Technology –
Caltech, e as de Wisconsin, Minnesota, Delaware, Purdue, Texas e
Cornell entre outras), os Estados Unidos foram capazes de recuperar o
tempo perdido, ficando ao fim da guerra, praticamente equiparados à
Alemanha no desenvolvimento de indústrias químicas. Neste período
dentre os processos e produtos desenvolvidos pelos norte-americanos
destacam-se três: o craqueamento catalítico em leito fluidizado, a
gasolina de avião e a borracha sintética.
1939 a 1945 • Neste período surge a maior realização da Standard Oil of New Jersey,
o desenvolvimento do craqueamento catalítico em leito fluidizado,
desenvolvimento este que teve uma participação muito ativa da equipe
do MIT e que é a base do sistema de refino de petróleo no mundo
inteiro, até a presente data.
• A Humble Oil Company, filiada da Standard Oil of New Jersey
desenvolveu e produziu a maior parte da gasolina de avião utilizada
pelos Estados Unidos durante a guerra.
• Em 1939, na área de defensivos agrícolas (“crop protection chemicals” )
e após 20 anos de pesquisa, o químico suiço Paul Müller descobriu o
DDT, considerado o primeiro inseticida moderno, seguindo-se de várias
outras descobertas como o BHC, aldrin, dieldrin, benlate, lindano,
toxafeno, e clordano, entre outros. Pesquisas posteriores mostraram,
entretanto, que muitos desses compostos apresentavam uma
persistência residual na natureza, bastante prejudicial aos homens e
animais e tiveram o seu uso proibido. Novos defensivos agrícolas foram
então desenvolvidos, sem os inconvenientes daqueles.
• Em 1940, enquanto os Estados Unidos produziam 1 tonelada de
borracha sintética por dia (planta piloto da Goodyear), a Alemanha
produzia 20.000 toneladas por ano. No amplo acordo de trocas de
Continua (...)
130

licenças entre a Standard Oil of New Jersey e a IG Farben, de 1930, a


Standard Oil of New Jersey recebeu informações sobre os dois
processos alemães de fabricação de borracha sintética: a Buna S, à
base de estireno e butadieno e a Buna N, à base de acrilonitrila. Quando
em 1942 os japoneses invadiram a Malásia, acabando com o envio de
borracha natural para o resto do mundo, foi a partir das informações das
patentes alemãs que a Rubber Reserve Company começou o programa
de desenvolvimento e produção de borracha sintética nos Estados
Unidos. A produção da borracha sintética a partir do estireno e do
butadieno exigia a fabricação de destes insumos. A borracha sintética
seria produzida pela Goodyear, Goodrich, Firestone e U.S. Rubber
(depois Uniroyal). O estireno seria produzido pela Dow, pela Union
Carbide e pela Koppers, tendo como origem o benzeno que provinha da
indústria metalúrgica (preparação do coque). O butadieno tinha duas
origens distintas: indústria petrolífera (desidrogenação de butenos,
craqueamento de nafta e cloração-deidrocloração de butenos) e álcool
etílico obtido por via fermentativa.
• Durante o período da Segunda Guerra Mundial surgiram nos Estados
Unidos muitas empresas de consultoria (algumas já existentes antes da
guerra), que se dispunham a desenvolver novos processos ou melhorar
os existentes, em laboratórios próprios ou dos próprios clientes, e que
trouxeram uma contribuição notável ao desenvolvimento da indústria
química. Dentre elas a Universal Oil Products – UOP, fundada em 1915
a partir da Standard Asphalt. Gustav Egloff, químico chefe do
Departamento de Pesquisa da UOP havia feito antes do período da
guerra, várias viagens à Alemanha para acompanhar o desenvolvimento
da indústria química alemã, sobretudo a parte da síntese de
combustíveis a partir do carvão. Acabou convidando em uma dessas
ocasiões para trabalhar nos Estados Unidos o cientista Hans Tropsch,
um dos cientistas envolvidos na criação da síntese. Em função do
afastamento de Hans Tropsch, por motivos de doença, a UOP contrata o
cientista russo Vladimir Nicolaevitch Ipatieff, uma das maiores
autoridades em catálise da época e considerado juntamente como Paul
Sabatier, químico francês, um dos “pais” da catálise. Embora Sabatier
tenha ganho o prêmio Nobel por seus trabalhos em catálise, sabe-se
hoje que os trabalhos de Ipatieff foram mais profundos e amplos que os
de Sabatier. Além de consultor da UOP, Ipatieff ocupava uma cátedra de
química na Northwestern University.
• Em 1941 a fibra de poliéster denominada de “Terylene” foi patenteada
pela empresa inglesa Calico Printers Association sob grande segredo,
atendendo a uma solicitação do governo britânico para todo o invento
descoberto durante a Segunda Guerra Mundial que pudesse ter valor
estratégico. Neste mesmo ano, o solvente necessário para transformar a
poliacrilonitrila em fibra, denominado “dimetilformamida”, surge de
trabalhos independentes desenvolvidos tanto pela Bayer como pela
DuPont. Estranhamente, talvez devido aos esforços de guerra, ambas
as empresas descontinuaram as pesquisas. Ao fim da guerra, só os
norte-americanos tiveram condições de prosseguir com os trabalhos. As
investigações sobre as condições da reação de polimerização e a
utilização de comonômeros tinham avançado bastante, sendo possível
produzir fibras tendo comonômeros como cloreto de vinila, vinil-piridina e
ésteres acrílicos. As propriedades dessa fibra acrílica, sobretudo sua
grande resistência à luz solar, imunidade ao ataque de traças e à
formação de mofo e sobretudo seu poder de “afofamento” (“bulking
power”), tornando-a muito semelhante a lã natural, levaram, além da
DuPont, também a Union Carbide e a Monsanto a desenvolverem
Continua (...)
131

processos para a sua fabricação.


• Em 1943 J.R. Whinfield, agora trabalhando para o Ministério de
Suprimentos, negocia com a ICI a cessão de patentes da Calico Printers
Association, ao mesmo tempo em que a ICI deveria desenvolver a
tecnologia de fiação no estado de fusão. A ICI foi escolhida não só
porque já produzia uma das matérias-primas (o etilenoglicol), mas
também porque tinha conhecimento das técnicas de fiação no estado de
fusão, conhecimento obtido através de um acordo com a DuPont (Nylon
Agreement), feito em 1939. O acordo da Calico com a ICI só foi
efetivamente assinado em 1946, e a primeira fábrica de Terylene
começou a operar em 1948.
• A Basf desenvolve um novo processo de produção de polietileno que era
fabricado pela ICI em 1935.
• Nos Estados Unidos a produção de resinas vinílicas, que era pouco
superior a 450 toneladas por ano em 1939, saltou para 54 mil toneladas
por ano, em 1945. As fábricas atuais de PVC têm capacidade individual
de 500 mil e 1 milhão de toneladas por ano.
• Com o fim da guerra, a Inglaterra resolveu revelar as patentes de
inventos considerados estratégicos (e o Terylene foi um deles), dando
oportunidade à DuPont de conhecer este invento, agora de propriedade
da ICI, idêntico ao que ela mesma havia desenvolvido em 1944. Como
as duas companhias tinham um acordo para a cessão de licenças; a
DuPont para a produção do polietileno e a ICI para a produção do nylon,
a DuPont reconheceu a precedência inglesa na descoberta da fibra de
poliéster e acabou negociando com a ICI os direitos de utilização da
patente inglesa. A fibra de poliéster tem características que a distinguem
do nylon, como a extrema insensibilidade à água depois de estirada a
frio, a grande resistência à maioria dos solventes, a possibilidade de
imitar a resilência da lã quando “encrespada”, a possibilidade de “reter o
vinco” após a lavagem (que foi o seu grande apelo na fase de marketing)
e a possibilidade de misturar-se a fibras naturais, sobretudo ao algodão.
Além disso, seu contato com a pele é considerado pela maioria das
pessoas, como mais agradável que o nylon. De todas as fibras
sintéticas, é a de maior produção mundial, correspondendo a
aproximadamente 20% da produção da totalidade de fibras (incluindo as
naturais e artificiais) nos Estados Unidos e Europa Ocidental e a 40% no
Japão.
• Para entrar no mercado de fibras, a Monsanto, por não ter experiência
industrial em processamento de fibras, resolveu fazer uma joint venture
com a Amercian Viscose, na época a maior produtora de raion dos
Estados Unidos, dando origem a Chemstrand. Como resultado desta
parceria, foi montada a fábrica de “Acrilan” (nome dado pela Monsanto
1949
para a sua fibra acrílica), a qual inicia as suas operações no início dos
anos 50. O produto entretanto apresentava um sério defeito, as fibras
rompiam-se quando tensionadas (por exemplo, ao dobrar-se um
cotovelo) e aparecia o substrato da fibra que não era tingido. O produto
teve que ser recolhido e a Chemstrand quase foi à falência.
• A partir da década de 50 a indústria química mundial, agora liderada
pelos Estados Unidos, passou por um desenvolvimento acelerado,
introduzindo no mercado novos polímeros, que vieram a substituir em
muitas funções outros materiais como o papel, madeira, vidro e metais.
1950 Também no campo das fibras sintéticas o avanço foi notável, em
substituição às fibras naturais e às fibras artificiais à base de celulose.
No campo dos defensivos agrícolas foram desenvolvidos dezenas de
inseticidas, herbicidas e fungicidas. Os polímeros termofixos precederam
os termoplásticos, tanto em desenvolvimento como na utilização prática.
Continua (...)
132

Como os produtos elaborados com alguns termofixos (como a resina


fenolformaldeído) apresentavam odor residual e não podiam ser
coloridos, foram desenvolvidas resinas do tipo uréia-formaldeído e
melanina-formaldeído, que não tinham cor nem odor residual e podiam
receber qualquer cor desejável. A American Cyanamid foi uma das
primeiras empresas norte-americanas a produzir essa nova resina, que
mais tarde ficou conhecida com o nome de “Fórmica”, ainda hoje muito
utilizada.
• No início da década de 50, Karl Ziegler, do Instituto Max Planck, retorma
as experiências realizadas pela IG Farben na produção do polietileno de
baixa densidade para produzir o polietileno de alta densidade. A primeira
fábrica deste produto foi implantada pela Hoechst, na Alemanha, em
1955.
• Em 1950, a DuPont construiu a sua primeira fábrica de fibra acrílica (que
recebeu o nome de “Orlon”) em Camden, Carolina do Sul.
• Em 1952, a DuPont constrói uma fábrica de fibra cortada (“staple fiber”),
tendo já neste ano, uma capacidade total de produção acrílicas de
17.000 toneladas por ano.
• Neste mesmo ano, a Union Carbide inaugura a sua fábrica de “Dynel”,
1952 fibra acrílica com 40% de acrilonitrila e 60% de cloreto de vinila, tendo
capacidade de 3.600 toneladas por ano de fibra cortada. Esta fibra era
lavável, não encolhia, podia ser tingida de qualquer cor, aceitava vinco
permanente, tinha a textura da lã e custava exatamente a metade do
preço da lã.
• A Bayer instala a primeira fábrica de fibra acrílica na Alemanha, para a
1953 produção de fibra cortada. Essa fibra recebeu o nome de “Dralon” e veio
a se constituir em um importante produto de exportação da Bayer.
• A Monsanto retoma as pesquisas de laboratório para resolver os
1955 problemas apresentados pelo “Acrilan” em 1949 e o produto pode ser
relançado, sem os inconvenientes do primeiro lançamento.
• A Monsanto compra a participação da American Viscose na Chemstrand
1961
e passa a ser a sua única proprietária.
• Com a introdução dos catalisadores chamados de 2ª. geração para a
polimerização de olefinas e do tipo “metalocenos”, o número de tipos de
1980
polietilenos e polipropilenos com propriedades físicas e químicas
diferentes pode chegar a alguns milhares.
• A produção mundial de fibras artificiais atinge o volume de 2.350 mil
1995 toneladas, correspondente a aproximadamente 6% da produção mundial
de fibras, incluindo fibras naturais.
Fonte: Adaptado de Wongtschowski (1999)

O período analisado e apresentado por Wongtschowski (1999) permite a


realização de algumas reflexões quanto ao tipo de racionalidade adotado para a
expansão da indústria química no mundo, a qual se faz presente nos diferentes
segmentos industriais que constituem a sociedade industrial contemporânea. Em razão
de sua importância estratégica, a história da indústria química mundial se confunde com
a história das duas grandes guerras, onde por meio dos dados apresentados por
Wongtschowski (1999), é possível perceber que a indústria química e parte significativa
133

das pesquisas científicas desenvolvidas na época passaram a ser amplamente


controladas e conduzidas pelos poderes estatal e privado para a satisfação das
necessidades militares e concomitantemente, para o atendimento de interesses de
mercado.

Para Demajorovic (2003, p. 66) a “tecnologia, pesquisa e ciência fundidas em


busca da produtividade encontraram no setor químico o terreno ideal para o seu
desenvolvimento”. De acordo com o autor:

Não por acaso o setor é denominado ‘indústria baseada em ciência’, cuja


principal característica é a contínua inovação propiciada pelas atividades de
pesquisa e desenvolvimento das ciências relacionadas nas universidades ou
em outras instituições de pesquisa.(DEMAJOROVIC, 2003, p. 66 e 67)

Desta forma, a lógica da atuação da indústria química orientada para a


produtividade, similar a de tantas outras organizações atuantes na sociedade industrial,
pode ser associada ao domínio exercido pela racionalidade instrumental sobre a ciência
na busca do atingimento de resultados e da obtenção de lucros.

É importante ressaltar também que, apesar da indústria química produzir


prioritariamente resultados orientados para o atendimento dos interesses estratégicos
ou econômicos dos poderes que a controlam, é também responsável por produzir
inúmeros benefícios a favor da humanidade. Segundo Wongtschowski (1999), somente
no campo de produtos farmacêuticos, o desenvolvimento foi enorme, a começar pela
penicilina e toda a família de antibióticos hoje conhecida, dando origem à indústria
bioquímica, um campo muito particular da indústria química e que está atravessando
uma fase de progresso enorme, através da engenharia genética.

Apesar dos benefícios proporcionados à humanidade apresentados pelo autor e


de outros aqui não relatados, é importante ressaltar que a maior parte das iniciativas
promovidas pela indústria química mundial, a exemplo de outros tipos de organizações
que operam sob a lógica econômica, visa atender objetivos econômicos atrelados aos
interesses daqueles que a financiam e que dela esperam obter retorno financeiro. Esta
constatação pode ser verificada, uma vez que a maior parte dos produtos produzidos
134

pela indústria mundial somente estão disponíveis para as parcelas da sociedade que
dispõe de recursos financeiros para a sua aquisição.

2.3.2. As Origens da Indústria Química no Brasil

A fabricação de produtos químicos no Brasil se inicia com o processo de


colonização do país, com a necessidade primária de produzir localmente os primeiros
artigos necessários para viabilizar a fixação dos colonizadores no novo mundo. Já o
surgimento e a expansão da indústria química no Brasil segue a mesma lógica da
indústria química em outros lugares do mundo, caracterizada pelo interesse econômico
do desenvolvimento de uma indústria em solo nacional orientada para o suprimento
das demandas locais, para a redução da dependência internacional (importações) e
para a ampliação das exportações. Em seu estudo, Wongtschowski (1999) apresenta
uma retrospectiva histórica envolvendo fatos relacionados ao surgimento e a expansão
da indústria química no Brasil, que possibilitam estabelecer relações diretas desta com
a história da indústria química mundial e com a racionalidade adotada pelo processo de
expansão da sociedade industrial:

Quadro 7 – Retrospectiva Histórica da Indústria Química no Brasil


Período Fatos Relevantes
• Instalação do primeiro engenho de açúcar no país. No final do século
XVI a produção anual de açúcar na colônia chegava a 4.500 toneladas,
geradas em 117 engenhos, localizados principalmente em Pernambuco
e na Bahia. Associada à fabricação de açúcar ocorria a produção de
aguardente.
1500 a 1600
• O sabão (produzido a partir de cinzas e de sebo de boi ou carneiro), o
óxido de cálcio (obtido de sambaquis) e o hidróxido de cálcio foram
produtos químicos fabricados desde cedo no País.
• Corantes de origem vegetal (como pau-brasil, anil, urucu) foram
exportados já a partir de 1500-1530 em volumes crescentes.
1662 • Início da produção de sal em escala comercial.
1702 • Início da produção de salitre e, mais adiante, de pólvora.
• Ano em que D. João VI chegou ao Brasil. Neste ano, o Brasil já produzia
açúcar, aguardente, sabão, medicamentos, potassa (carbonato de
1808 potássio), barrilha (carbonato de sódio), salitre (nitrato de potássio),
cloreto de amônio e cal (óxido de cálcio). Produziam-se por extração,
sal, drogas medicinais e resinas vegetais.
• Foram fundadas no País 5 fábricas de pólvora, 30 fábricas de sabões e
velas, e 10 fábricas de produtos químicos diversos (medicamentos,
1808 a 1844
potassa, hipoclorito de sódio, tintas e vernizes, graxas de lustro, tintas
de escrever e água-de-colônia).
Continua (...)
135

• Fundada em Sorocaba, São Paulo, a empresa F. Matarazzo,


1881
inicialmente operando no ramo alimentício.
• Inaugurada em Tremembé, São Paulo, a Companhia de Gaz e Óleos
1883
Minerais, primeira fábrica de ácido sufúrico.
• Inaugurada no Rio de Janeiro, a Companhia de Ácidos para produção
1887
de ácido sufúrico.
• Inaugurada em Maraú, Bahia, a John Grant & Co. para produção de
1889
ácido sufúrico.
• Foi fundada em São Paulo a indústria Dierberger Óleos Essenciais,
1893 voltada para a produção de produtos químicos e essências (existente
até os dias atuais).
• Fundada em São Paulo a firma Queiroz, Moura e Companhia para a
1894
produção de ácidos e produtos químicos.
• Quando da Proclamação da República, o Brasil já possuía indústrias nas
áreas de extração mineral, vegetal e animal, indústria siderúrgica, de
papel, de vidro, de cimento, de sabões e velas e de adubos e
inseticidas. Em termos de fabricação de produtos químicos, existiam
inorgânicos de síntese (hipoclorito de sódio, carbonato de potássio,
1899 cloro, ácidos clorídrico e nítrico, iodeto de potássio, iodeto de ferro,
cloreto mercuroso, bissulfato de cálcio, hipofosfito de cálcio, nitrato de
prata, iodeto de chumbo, carbonato básico de chumbo e sulftato de
magnésio) e produtos orgânicos (clorofórmio, éter dietílico, nitrato de
etila, ácido tartárico e tartaratos, ácido acético e acetatos, ácido nítrico e
citratos, ácido láctico e lactatos, iodofórmio, nitrocelulose e glicerina).
• Constituição da Companhia Melhoramentos de São Paulo para a
1890
implantação de uma fábrica de papel em Caieiras, São Paulo.
• Constituição da Companhia Antártica Paulista em São Paulo, para a
1891
produção de cervejas e bebidas em geral.
• Fundada em São Paulo a S.A. Fábricas Orion, para a produção de
artefatos de borracha.
• Neste mesmo ano, foi consituída em São Paulo a Companhia Química
1898
Duas Âncoras, para a produção de cêras para assoalhos, pastas para
calçados e saponáceos, e que ficou conhecida posteriormente pelo seu
agressivo marketing de “Cito, Póx e Parquetina”.
• Inauguração da Companhia Vidraria Sta. Marina, pertencente ao grupo
1903
francês St. Gobain.
• Fundação em Santos, São Paulo, do Moinho Santista, empresa
pertencente ao grupo multinacional argentino Bunge, que posteriormente
1905 implantou um respeitável conjunto de indústrias químicas no país:
Sanbra (1934), Quimbrasil (1936), Serrana (1938) e Tintas Coral
(fundada em 1654 e vendida para a ICI em 1996).
• Inauguração da fábrica do Ministério da Guerra, em Piquete, São Paulo,
1909
para a produção de ácido sulfúrico, ácido nítrico, pólvora e explosivos.
• Sob o nome de S.A. Indústrias Reunidas F. Matarazzo, muda-se para
São Paulo, onde implanta uma moagem de trigo. Essa empresa foi
responsável posteriormente, pela implantação de um grande parque
1911 industrial de fábricas químicas: óleos e gorduras (1920), raion-viscose
(1924), pequena refinaria de petróleo (1936) e ácido nítrico (1942).
• Criação da Bayer do Brasil sob o nome de Frederico Bayer &
Companhia, pertencente à Bayer da Alemanha.
• Criação da Companhia Brasileira de Carbureto de Cálcio em 1912,
pertencente ao grupo belga Solvay.
1912
• Criação da S.A. White-Martins, posteriormente pertencente à Union
Carbide dos Estados Unidos.
Continua (...)
136

• Período da Primeira Guerra Mundial. A indústria química brasileira


ressentiu-se muito da ausência de matérias-primas, quase todas
importadas. Várias indústrias surgiram neste período, sendo importante
ressaltar a S.A. Indústria Votorantim (1918) em Sorocaba, para a
produção de cerâmica e que deu origem ao grupo Votorantim, bastante
forte no campo das indústrias químicas, entre as quais destaca-se a
Nitro Química em São Miguel Paulista, São Paulo (1935).
• Fundação da Companhia Aga de Gás Acumulado, no Rio de Janeiro em
1914 a 1918
1915, para a produção de acitileno (pertence ao grupo sueco Aga).
• Pelo Decreto Legislativo nº. 3216 de 16/08/1917 o governo oferecia
vantagens a quem em concorrência pública se propusesse a estabelecer
a indústria de fabricação, em larga escala, de soda cáustica, a fim de
atender as necessidades das fábricas de tecidos, de sabão e outros
artigos. Essa fábrica só veio a surgir em 1945, quando a multinacional
Solvay iniciou a sua implantação, no Alto da Serra do Mar, na parada
Elclor, município de Santo André, de uma fábrica de cloro e soda.
• A empresa Queiroz, Moura e Companhia, que a partir de 1912 passou a
se chamar Sociedade de Produtos Químicos L. Queiroz, já possuía
quatro estabelecimentos industriais: fábrica de pólvora na estação de
Sabaúna, fábrica de sulfeto de carbono na estação de São Caetano,
1918 fábricas de ácido sulfúrico, ácido clorídrico, salitre, sulfeto de carbono,
amoníaco, adubos polysu, superfosfatos e sulfato de sódio na estação
Barra Funda e drogaria Americana na Alameda Cleveland. Atualmente
atua sobre a denominação de Elekeiroz S. A., com fábrica na cidade de
Várzea Paulista, São Paulo.
• Criação da Companhia Química Rhodia Brasileira, pertencente ao grupo
1919
francês Rhône-Poulenc.
• A Geon do Brasil em associação com a norte-americana BF Goodrich
1951
inauguram uma fábrica para produção de PVC.
• São Paulo: Kodak Brasileira Com. Ind. Ltda. (1920) e Hélios S.A. Ind. e
1919 a 1939
Com. (1922).
Fonte: Adaptado de Wongtschowski (1999)

De acordo com Wongtschowski (1999), no período entre as duas grandes


guerras (1919 a 1939), o Brasil assistiu a um crescimento contínuo de sua indústria
química, condizente com o desenvolvimento dos outros ramos da indústria, visando a
substituição de produtos químicos até então importados. Neste mesmo período,
empresas originadas de grupos multinacionais vieram a se instalar no País, conforme
demonstrado no quadro 8:

Quadro 8 – Empresas Químicas Instaladas no Brasil entre 1920 e 1939


Ano de Município da
Nome da Empresa Produtos
Fundação Unidade Fabril
1920 Kodak Brasileira Com. Ind. Ltda. São Paulo (SP) Produtos para Fotografia
Ácido Sulfúrico e Produtos
1921 Usina Colombina São Caetano (SP)
Químicos Diversos
Continua (...)
137

S.A. Curtume Carioca Div. Produtos Químicos para


1921 Rio de Janeiro (RJ)
Química Curtume
Produtos Derivados de
1921 Esso Química S.A. Rio de Janeiro (RJ)
Petróleo
Tintas de Escrever, Papel
1922 Hélios S.A. Ind. e Com. São Paulo (SP) Carbono, Fitas para
Máquina de Escrever
1923 Cia. Cerâmica Mauá Mauá (SP) Cerâmica
Cabos e Condutores
1923 Pirelli S.A. Santo André (SP) Elétricos, Pneus e Artigos
de Borracha
Produtos Químicos e
1923 Merck S.A. Inds. Químicas Rio de Janeiro (RJ)
Farmacêuticos
S.A. Inds. Reunidas F.
1924 São Paulo (SP) Raion-viscose
Matarazzo
Estabelec. Nacional Indústria de
1924 São Paulo (SP) Anilinas
Anilinas S.A. ENIA
Cia. Brasileira de Cimento
1925 Caieiras (SP) Cimento
Portland Perus
Com. E Ind. João Jorge
1926 São Paulo (SP) Cerâmicas
Figueiredo S.A.
Produtos Químicos
1928 ICI do Brasil São Paulo (SP)
Diversos
Cia. Fiat Lux de Fósforos de
1928 São Paulo (SP) Fósforos
Segurança
1929 Indústrias Irmãos Lever São Paulo (SP) Sabões e Sabonetes
Amidos, Óleos, Dextrinas,
1929 Refinações de Milho Brasil São Paulo (SP) Glicose, Outros Produtos
Derivados do Milho
Cia. Brasileira Rhodiaceta, Ácido acético, anidrido
1929 Santo André (SP)
Fábrica de Raion acético, raion acetato
1932 Destilaria Sul Riograndense Uruguaiana (RS) Refinaria de Petróleo
Pigmentos e Óxidos de
1935 Globo S.A. Tintas e Pigmentos Mauá (SP)
Ferro
Ácido Sulfúrico, Ácido
1935 Cia. Nitro Química Brasileira São Miguel (SP)
Nítrico, Fio de Raion
1936 Refinaria Ipiranga Rio Grande (RS) Refinaria de Petróleo
1936 Cia. Eletro-Chimica Fluminense Alcântara (RJ) Soda Cáustica e Cloro
Indústrias Matarazzo de Energia
1936 São Caetano (SP) Refinaria de Petróleo
S.A.
Produtos Químicos
1937 DuPont do Brasil S.A. Barra Mansa (RJ)
Diversos
Produtos Químicos
1939 Inbra S.A. Inds. Químicas Diadema (SP)
Diversos
Cia. Goodyear do Brasil Pneus, Câmaras de Ar,
1939 São Paulo (SP)
Produtos de Borracha Artigos de Borracha
Pneus, Câmaras de Ar,
1939 Cia. Firestone do Brasil Santo André (SP)
Artigos de Borracha
Fonte: Adaptado de Santa Rosa citado por Wongtschowski (1999, p. 76 e 77)

De acordo com Wongtschowski (1999) em função da deflagração da Segunda


Guerra Mundial (1939 a 1945), a indústria química brasileira foi privada de sua fonte de
matérias-primas importadas, as quais eram até então, abundantes e relativamente
138

baratas, devido à enorme concorrência que faziam entre si as empresas IG Farben


(Alemanha) e ICI (Inglaterra) pela conquista de novos mercados.

Segundo Santa Rosa citado por Wongtschowski (1999), criou-se nessa época
uma mentalidade orientada para o improviso, numa tentativa de suprir a ausência das
matérias-primas importadas por substitutas nacionais, com resultados econômicos,
muitas vezes, duvidosos: enxofre importado por piritas brasileiras, carvão combustível
por torta de algodão, extrair sais de potássio das cinzas da torta de algodão. Para o
autor este período serviu para que fosse estabelecida a convicção entre o
empresariado e técnicos do setor quanto à necessidade de estabelecer as bases
definitivas da indústria química brasileira ao invés de promover a substituição de
matérias-primas em situações emergenciais. O quadro 9 apresenta as iniciativas
surgidas no período:

Quadro 9 – Empresas Químicas Instaladas no Brasil entre 1940 e 1945


Ano de Município da Unidade
Nome da Empresa Produtos
Fundação Fabril
Ácidos Graxos, Estearina
1941 Ind. Química Anastácio S.A. São Paulo (SP)
e Glicerina
Ácido Sulfúrico, Sulfato
1941 Cia. Brasileira de Alumínio Sorocaba (SP)
de Alumínio
Ácido Sulfúrico, Ácido
Fábrica de Pólvora do
1941 Piquete (SP) Nítrico, Pólvoras e
Ministério da Guerra
Explosivos
Ind. de Prod. Químicos Alca Ácido Láctico, Lactato de
1942 Itapira (SP)
Ltda. Cálcio, Lactato de Etila
Comendador Ermelino Película Transparente de
1942 S.A. Ind. Reunidas Matarazzo
(SP) Viscose (Papel Celofane)
1942 S.A. Ind. Reunidas Matarazzo Sta. Rosa de Viterbo (SP) Ácido Cítrico
Societé Anonyme du Gaz de Benzeno, Tolueno e
1943 Rio de Janeiro (RJ)
Rio de Janeiro Xileno
Fósforos e Clorato de
1943 Inds. Andrade Latorre S.A. Jundiaí (SP)
Potássio
Produtos Farmacêuticos e
1944 E.R. Squibb e Sons do Brasil São Paulo (SP)
Penicilina
Ind. de Tintas e Vernizes
1945 São Paulo (SP) Tintas e Vernizes
“Super”
Soda Cáustica, Cloro,
Inds. Químicas Eletrocloro
1945 Santo André(SP) Ácido Clorídico ,
S.A. – Elclor
Hipoclorito de Sódio
Explosivos, Peróxido de
Hidrogênio (Água
1945 Ind. Química Mantiqueira Lorena (SP)
Oxigenada) e Ácido
Oxálico
Fonte: Adaptado de Santa Rosa citado por Wongtschowski (1999, p. 79)
139

No período posterior a Segunda Guerra Mundial novos empreendimentos foram


inaugurados. De acordo com Wongtschowski (1999) merece destaque o início da
instalação em 1955, pela Petrobrás, de uma unidade de recuperação e purificação de
eteno contido nos gases residuais, anexa a Refinaria de Cubatão, São Paulo. Segundo
o autor, essa unidade iniciou suas atividades em 1957, abastecendo de eteno as
unidades de estireno da Companhia Brasileira de Estireno e de polietileno de baixa
densidade da Union Carbide, ambas em Cubatão e próximas à Refinaria.
No quadro 10, são apresentadas as indústrias químicas instaladas no Brasil
entre 1946 e 1959:

Quadro 10 – Empresas Químicas Instaladas no Brasil entre 1946 e 1959


Ano de Município da
Nome da Empresa Produtos
Fundação Unidade Fabril
De La Rue Plásticos do Brasil Moldados de Resina Fenol-
1946 Rio de Janeiro (RJ)
S.A. Formaldeído
Alcatrões, Amônia, BTX,
1946 Cia. Siderúrgica Nacional Volta Redonda (RJ) Naftalenos, Antraceno,
Óleo de Creosoto e Piche
Colódio (Dinitrocelulose),
Nitrocelulose Industrial e
1947 Nitro Química São Miguel (SP)
Nitrocelulose para Pólvora
(Trinitrocelulose)
Alba S.A. Adesivos e Laticícios Formol e
1947 Curitiba (PR)
Brasil-América Hexametilenotetramina
Ácidos Graxos, Sais de
1947 Ceralit S.A. Ind. e Com. São Paulo (SP) Ácidos Graxos, Óleos,
Glicerina
Resinas Alquidicas,
Maléicas e Fenólicas,
1948 Resana S.A. Inds. Químicas São Bernardo (SP)
Anidrido Maléico e Resina
de Poliéster em 1956
Ácido Sulfúrico, Ácido
Indústrias Químicas Brasileiras
1948 Barra Mansa (RJ) Nítrico, Nitrocelulose para
Duperial
Explosivos
Polietileno de Baixa
1948 Union Carbide do Brasil S.A. Cubatão (SP)
Densidade
Película Transparente de
1948 S.A. Indústrias Votorantim Sorocaba (SP)
Viscose (Papel Celofane)
Folhas, Chapas Rígidas, e
Vulcan Artefatos de Borracha e
1948 Mogi das Cruzes (SP) Chapas Flexíveis de
Material Plástico S.A.
Material Vinílico
Ácido Sulfúrico e
1949 Elekeiroz Várzea Paulista (SP)
Superfosfatos
1949 Cia. Brasileira Givaudan São Paulo (SP) Essências e Aromas
Inds. Farmacêuticas Fontoura-
1949 São Paulo (SP) Produtos Farmacêuticos
Wyeth S.A.
1949 Bakol S.A. Ind. e Com. São Paulo (SP) Produtos Farmacêuticos
Continua (...)
140

1949 Plásticos Plavinil S.A. São Paulo (SP) Filmes de Material Vinílico
Produtos Químicos
1949 Fongra Prods. Químicos Suzano (SP)
Diversos
S.A. Inds. Reunidas F.
1950 São Caetano (SP) Soda Cáustica e Cloro
Matarazzo
1950 Bristol-Labor S.A. São Paulo (SP) Produtos Farmacêuticos
S.A. Inds. Reunidas F. Pesticida Benzeno
1950 São Caetano (SP)
Matarazzo Hexaclorado
Refinaria Nacional de Petróleo
1950 Mataripe (BA) Refinaria de Petróleo
S.A.
1950 Alba S.A. Inds. Químicas Cubatão (SP) Metanol
Ácido Sulfúrico e Dióxido
1951 Cia. Química Industrial – CIL São Paulo (SP)
de Titânio
Cia. de Superfosfatos e Ácido Sulfúrico e
1951 Capuava (SP)
Produtos Químicos Superfosfatos
Pan-Americana S.A. Inds.
1951 Rio de Janeiro (RJ) Soda Cáustica e Cloro
Químicas
1951 Elekeiroz Várzea Paulista (SP) Anidrido Ftálico e Ftalatos
Ácido Acético, Anidrido
1951 Rhodia Santo André (SP)
Acético e Acetatos
Rilsan (Fibra de Poliamida
1951 Rilsan Brasileira S.A. Osasco (SP)
de Classe do Nylon)
1952 Rhodia Santo André (SP) Amônia
Ácido Sulfúrico e
1953 Quimbrasil Santo André (SP)
Superfosfatos
1953 Cia. Eletroquímica Fluminense Alcântara (RJ) Soda Cáustica e Cloro
Carbeto de Silício
Carborundum S.A. Ind.
1953 Salto (SP) (Abrasivo) e Óxido de
Brasileira de Abrasivos
Alumínio (Coridón Artificial)
Pesticida Benzeno
1953 Inds. Químicas Eletro Cloro S.A. Santo André (SP)
Hexaclorado
Cia. Brasileira de Plásticos
1953 São Bernardo (SP) Poliestireno
Koppers
1953 Cia. Brasileira de Estireno Cubatão (SP) Estireno
Butanol por via
Fermentativa, Acetato de
1953 Usina Victor Sence S.A. Campos (RJ)
Butila, Ácido Acético e
Acetona
Resinas Fenólicas,
Cia. de Tintas e Vernizes R.
1953 São Paulo (SP) Maléicas, Alquídicas e
Montesanto
Copais
Fiação Brasileira de Raion
1953 Americana (SP) Raion-Viscose
“Fibra” S.A.
1953 Brascola Ltda. São Bernardo (SP) Adesivos e Colas
1954 Nitro Química São Miguel (SP) Soda Cáustica e Cloro
1954 Matarazzo São Caetano (SP) Sulfeto de Sódio
Cloreto de Cério, Silicato
Orquima Inds. Químicas
1954 São Paulo (SP) de Zircônio, Compostos de
Reunidas S.A.
Tório e Urânio
Pneus, Câmaras e Artigos
1954 Dunlop do Brasil S.A. Campinas (SP)
de Borracha
Refinaria de Petróleo
1954 Rio de Janeiro (RJ) Refinaria de Petróleo
Manguinhos S.A.
Refinaria e Exploração de Refinaria de Petróleo
1954 Capuava (SP)
Petróleo União S.A.
Continua (...)
141

1955 Nitro Química São Miguel (SP) Ácido Sulfúrico


1955 Quimbrasil Santo André (SP) Pigmentos Inorgânicos
1955 Ind. Brasileira de Pigmentos Mauá (SP) Óxido de Zinco
S.A. Inds. Reunidas F.
1955 São Caetano (SP) Carbeto de Cálcio
Matarazzo
Ácido Acético, Anidrido
1955 Rhodia Campinas (SP) Acético, Acetatos, Álcool
Isopropílico
1955 Quimbrasil São Caetano (SP) Fenotiazina
Cia. Petroquímica Brasileira
1955 Cubatão (SP) Negro de Fumo
Copebrás
Brasitex – Polimer Ind. Químicas
1955 São Caetano (SP) Resinas Acrílicas
S.A.
Petróleo Brasileiro S.A.
1955 Cubatão (SP) Refinaria de Petróleo
Petrobrás
Cia. de Produtos Químicos Produtos Químicos
1955 Guaratinguetá (SP)
Idrongal Diversos
Anilinas Holandesas do Brasil Anilina, Ácido Fórmico e
1956 Rio Claro (SP)
S.A. Indústria e Comércio Formiatos
São José dos Campos
1956 Cia. Rhodosá de Raion S.A. Raion-viscose
(SP)
Coral S.A. Fábrica de Tintas, Resinas Sintéticas em
1956 Santo André (SP)
Esmaltes, Lacas e Vernizes Geral, Tintas e Vernizes
Cia. de Petróleo da Amazônia
1956 Manaus (AM) Refinaria de Petróleo
S.A.
1957 Antoine Chiris Ltda. São Paulo (SP) Essências e Aromas
1957 Rhodia Campinas (SP) Acetato de Polivilina
Fábrica de Fertilizantes de Amônia, Ácido Nítrico e
1958 Cubatão (SP)
Cubatão (FAFER) – Petrobrás Fertilizantes Nitrogenados
1959 Quimbrasil Santo André (SP) Fenol
Fonte: Adaptado de Santa Rosa citado por Wongtschowski (1999, p. 80 – 83)

Segundo Demajorovic (2003) a estratégia de ampliação da produção de


químicos foi assegurada com a construção de gigantescas unidades produtivas a partir
da década de 1960, quando as companhias de petróleo passaram a produzir
petroquímicos. De acordo com Wongtschowski (1999), a grande arrancada e
consolidação da indústria química brasileira ocorreu a partir desta década, com a
criação dos três pólos petroquímicos: de São Paulo (1972), do Nordeste (1978) e do Sul
(1982). O autor menciona alguns dados sobre constituição dos pólos e sobre as
primeiras empresas que participaram de suas constituições:

a) Pólo Petroquímico de São Paulo: surgiu da iniciativa da indústria privada nacional


(Grupo Soares Sampaio, proprietário da Refinaria União em Santo André, São
Paulo), depois de duas tentativas frustradas de parceria com as empresas norte-
americanas Gulf Oil Corporation e Phillips Petroleum. O projeto somente pode ser
142

realizado com a participação da então recém criada Petroquisa30. No pólo


petroquímico de São Paulo foram inicialmente instaladas as empresas apresentadas
no quadro 11:

Quadro 11 – Pólo Petroquímico de São Paulo


Nome da Empresa Município da Unidade Fabril Produtos
Eteno, Propeno, Butadieno,
Petroquímica União Benzeno, Tolueno, O-xileno, P-
Santo André (SP)
Ltda. xileno, Mistura de Xilenos e
Resíduo Aromático
Copamo – Consórcio
Paulista de Santo André (SP) Monômero de Cloreto de Vinila
Monômeros Ltda.
Poliolefinas S.A. Ind. e
Mauá (SP) Polietileno de Baixa Densidade
Com.
Brasivil Resinas
Santo André (SP) Cloreto de Polivinila
Vinílicas S.A.
Rhodia Inds. Químicas
Paulínia (SP) Fenol
e Têxteis S.A.
Oxiteno S.A. Ind. e
Mauá (SP) Óxido de Eteno
Com.
Empresa Brasileira de
Mauá (SP) Tetrâmero de Propeno e Cumeno
Tetrâmero
Cia. Brasileira de
Cubatão (SP) Estireno
Estireno
Union Carbide do Expansão da Unidade de Polietileno
Cubatão (SP)
Brasil de Baixa Densidade
Eletroteno Inds.
Santo André (SP) Polietileno de Alta Densidade
Plásticas S.A.
Fonte: Adaptado de ABIQUIM citado por Wongtschowski (1999, p. 85)

b) Pólo Petroquímico do Nordeste: surgiu na necessidade de expansão da produção


brasileira de petroquímicos e da decisão pela implantação do segundo pólo
petroquímico brasileiro, no lugar da ampliação do pólo petroquímico de São Paulo.
Em 1969, o estudo encomendado pelo Conder – Conselho de Desenvolvimento do
Recôncavo (empresa estatal da Bahia) a Clan – Consultoria e Planejamento
recomendava a instalação do segundo pólo petroquímico na Bahia. Com base em
uma decisão política, o General e então Presidente da República Emílio Medici,

30
De acordo com Wongtschowski (1999) a Petroquisa foi criada pelo decreto 61.891 de 28/12/1967, para
desenvolver e consolidar a indústria química e petroquímica no Brasil, por meio de participações societárias em
empresas do setor, mesmo minoritariamente, o que não era permitido à Petrobrás, por força da Lei 2004 que a criou.
A Lei 2004 foi revogada pela Lei 9478 de 06/08/1997, que criou a Agência Nacional de Petróleo (ANP), sendo mais
tarde regulamentada pelo Decreto 2455 de 15/01/98.
143

oficializou a localização do segundo pólo em Camaçari, decisão confirmada pela


Resolução 02/70 do CDI em 21/07/1970. Para a criação do pólo, a Petroquisa ficou
responsável pelo projeto da Central de Matérias-Primas e pela criação de estímulos
para a implantação de unidades de segunda geração. Para implantar a Central de
Matérias-Primas a Petroquisa cria a Companhia Petroquímica do Nordeste –
Copene (1972). Neste pólo foram instaladas as seguintes empresas:

Quadro 12 – Pólo Petroquímico do Nordeste


Nome da Empresa Produtos
Eteno, Propeno, Butadieno, O-xileno, P-xileno, Mistura de Xilenos, Benzeno
Copene
e Tolueno
Ciquine Petroquímica Octano, Butanol e Isobutanol
Ciquine Química Andrido Ftálico, Anidrido Maléico e Plastificantes Ftálicos
Fisiba Fibras Acrílicas
Melamina Ultra Melamina
Metanor Metanol
Nitrocarbono Caprolactama e Sulfato de Amônio
Pronor Dimetilereftalato
Acrinor Acrilonitrila e Ácido Cianídrico
Cobafi Tecido de Cordonéis de Nylon e de Poliéster
Copenor Formaldeído, Hexametilenotetramina, Pentaeritritol e Formiato de Sódio
Cia. Petroquímica de
Monômero de Cloreto de Vinila e Cloreto de Polivinila
Camaçari – CPC
Deten Alquibenzeno Linear
Estireno do Nordeste
Estireno, Poliestireno e Tolueno
EDN
Isocianatos Tolueno Diisocianato
Oxiteno Nordeste Óxido de Eteno, Etileno-glicóis, Etanolaminas e Ésteres Glicólicos
Polialden Polietileno de Alta Densidade
Polipropileno Polipropileno
Politeno Polietileno de Baixa Densidade
Fonte: Adaptado de Suarez e ABIQUIM citados por Wongtschowski (1999, p. 86 – 87)

c) Pólo Petroquímico do Sul: em 1975, apesar do pólo petroquímico paulista já se


encontrar em plena atividade e do pólo do nordeste estar em construção, previsões
de órgãos federais apontavam para a falta de produtos petroquímicos em 1981 e
1982, em níveis equivalentes a um novo pólo. Em função destas estimativas, é
definida a sua localização no Rio Grande do Sul, no município de Triunfo, próximo à
Refinaria Alberto Pasqualini, a qual seria responsável pelo fornecimento de Nafta.
Em 1976, nos mesmos moldes da criação da Copene e para exercer a mesma
função, é criada a Companhia Petroquímica do Sul Ltda. – Copesul. O quadro
144

abaixo apresenta as empresas instaladas no pólo em seus primeiros anos de


atuação:

Quadro 13 – Pólo Petroquímico do Sul


Nome da Empresa Produtos
Copesul Eteno, Propeno, Butadieno, Benzeno e Xilenos
Poliolefinas Polietileno de Baixa Densidade
Petroquímica Triunfo Polietileno de Baixa Densidade
Polisul Polietileno de Alta Densidade
PPH Polipropileno
Petroflex Etibenzeno, Borracha Estireno-Butadieno
Fonte: Adaptado de ABIQUIM citado por Wongtschowski (1999, p. 88)

Para Nakano (2007) a formação de pólos consolidou-se como uma característica


do setor, uma vez que tanto o eteno e o propeno, por se tratarem de gases, são mais
facilmente transportados por dutos. De acordo com o autor, esta situação determina
que as indústrias de primeira e segunda gerações se localizem em aglomerados.

Nakano (2007) menciona que o setor petroquímico brasileiro se originou de uma


iniciativa do governo federal, que na década de 1960 criou o Grupo Executivo da
Indústria Química (GEIQUIM), responsável pela elaboração dos planos que culminaram
na implantação dos pólos de São Paulo, Bahia e Rio Grande do Sul. Por meio da
elaboração destes planos foi implantado um modelo que envolvia três elementos em
sua composição societária: o capital privado nacional, o capital estrangeiro através do
aporte de tecnologia e o capital público.

Para Wongtschowski (1999) foi a partir da experiência de criação do Pólo


31
Petroquímico do Nordeste que se consolidou o sistema dos “terços” ou “tripartite”
anteriormente adotado pela Petroquisa para a criação do pólo paulista. Neste sistema
cada empresa teria um terço do seu capital nas mãos da iniciativa privada nacional, um
terço com uma empresa estatal nacional (em geral a própria Petroquisa) e um terço

31
Segundo Wongtschowski (1999), por meio da adoção do sistema “tripartite” ficavam resguardados dois aspectos
importantes no entendimento do governo federal: maioria do capital nas mãos da iniciativa privada (sócio privado
nacional mais sócio privado estrangeiro) e maioria do capital nacional (sócio privado nacional mais sócio estatal
nacional)
145

com uma empresa privada estrangeira (em geral fornecedora do conhecimento


necessário para a implantação dos processos).

Wongtschowski (1999) menciona que o modelo tripartite de participação


acionária adotado pelas indústrias petroquímicas, já no pólo paulista, mas de maneira
mais completa no pólo baiano, foi desfeito na década de 1980 por um grande número
de empresas que o integravam. Segundo o autor, parte das empresas multinacionais,
em geral detentoras de um terço do capital votante e fornecedoras do conhecimento
necessário para a implantação dos processos resolveu vender sua participação aos
acionistas brasileiros (privado e estatal).

Além da indústria petroquímica, Wongtschowski (1999) menciona que outros


tipos de indústrias químicas atingiram um notável desenvolvimento no Brasil entre as
décadas de 1960 e 1990: fertilizantes32, cloro e soda cáustica33, química fina e
alcoolquímica. No quadro abaixo são apresentados alguns dados relevantes
apresentados pelo autor sobre estas indústrias:

Quadro 14 – Indústria Químicas por Tipo de Indústria


Tipo de Indústria Fatos Relevantes
• Entre 1960 e 1994, o crescimento da produção de fertilizantes foi
de 8,3% ao ano.
• Implantação em 1965 da Ultrafértil com um complexo de
fertilizantes em Cubatão (São Paulo), para a produção de amônia
a partir dos gases da Refinaria Presidente Bernardes.
Fertilizantes • Produção de ácido sulfúrico, ácido nítrico, ácido fosfórico, nitrato
de amônio, fosfato de diamônio e NPK, por iniciativa do grupo
Ultra em associação com a Phillips Petroleum norte-americana,
em 1965.
• Implantação em 1978 da Valefértil em Uberaba, Minas Gerais,
com um complexo de grande porte para a produção de ácido
Continua (...)
32
De acordo com Wongtschowski (1999), a indústria química sofreu um desenvolvimento notável a partir da década
de 1960, com destaque para o Programa Nacional de Fertilizantes e Calcário Agrícola, definido pelo Governo
Federal em 1974.
33
Segundo Wongtschowski (1999) este tipo de indústria caracteriza-se pela produção simultânea de cloro e soda
cáustica, já que é resultante da eletrólise de uma salmoura de cloreto de sódio. O sal para a elaboração da salmoura
tanto pode provir de minas subterrâneas (sal-gema), como de salinas que evaporam água do mar (sal marinho). O
autor revela um dado interessante sobre a indústria de cloro e soda cáustica quando menciona que diferentes estágios
de desenvolvimento de um país podem determinar que apenas a soda cáustica apresente interesse comercial (caso do
Brasil na primeira metade do século) ou que apenas o cloro e seus derivados apresentem potencial de interesse. O
autor considera que em ambos os casos a indústria de cloro e soda cáustica é prejudicada, pois gera um produto sem
valor comercial e de difícil descarte em termos ecologicamente aceitáveis.
146

sulfúrico, ácido fosfórico, fertilizantes fosfatados de alta e baixa


concentração, fosfato de monoamônio e fertilizantes granulados,
por iniciativa da Companhia Base do Rio Doce.
• Desenvolvimento e exploração das jazidas de fosfatos nacionais
– em Jacupiranga, São Paulo, e Araxá, Minas Gerais, pela
Serrana (pertencente ao grupo argentino Bunge); em Tapira e
Patos de Minas, Minas Gerais, originalmente da Metago
(empresa do governo estadual de Goiás) e atualmente
exploradas pela Copebrás e Ultrafértil;
• Desenvolvimento e exploração das jazidas de sais de potássio
(silvinita e carnalita) de Taquari-Vassouras, Sergipe,
originalmente pela Petromin, que depois tornou-se Petromisa
(Petrobrás) e atualmente arrendada à Companhia Vale do Rio
Doce.
• 1948 – fundação da Eletrocloro (Solvay) em Santo André, São
Paulo.
• 1951 – fundação da Pan-Americana no Rio de Janeiro.
• 1963 – fundação da Carbocloro em Cubatão, São Paulo.
• 1972 – fundação da Companhia Química do Recôncavo em
Cloro e Soda Cáustica
Camaçari, Bahia.
• 1977 – fundação da Dow Química em Candeias, Bahia.
• 1977 – fundação da Salgema em Maceió (Alagoas) e Companhia
Petroquímica de Camaçari em Camaçari (Bahia). A fusão destas
duas empresas originou a Trikem em 1996.
• Criada para preencher uma das lacunas em termos de
disponibilidade de produtos fabricados no Brasil como defensivos
agrícolas, fármacos, corantes, pigmentos, catalisadores, aditivos,
aromatizantes e flavorizantes.
• Suarez citado por Wongtschowski (1999) cita que 1982, dos 600
laboratórios produzindo fármacos e intermediários para a
indústria farmacêutica, 520 eram nacionais e 80 eram
estrangeiros. Entre os 50 maiores laboratórios responsáveis por
80% da produção, 45 eram estrangeiros e 5 nacionais.
• Em 1978, um estudo conjunto realizado pela Secretaria de
Química Fina Tecnologia Industrial, CDI, Ceme, Secretaria de Minas e Energia
da Bahia, Fibase, Ceped e Petroquisa apontou para uma série de
intermediários que poderiam ser produzidos no país.
• Em 1980 foi criada a Nordeste Química S.A. (Norquisa), que viria
a desempenhar para as indústrias de Química Fina o mesmo
papel que a Petroquisa desempenhou para as indústrias de 2ª.
geração do pólo baiano.
• Entre as empresas pioneiras da indústria da química fina
brasileira encontram-se: Norquisa, Basf Química da Bahia, Ciba-
Geigy do Brasil, Enia, Ciquine Química, Policarbonatos,
Carbonor, SmithKline do Nordeste, Nitroclor, entre outras.
• Precedeu a petroquímica em quarenta anos. Na década de 1920
a Rhodia produzia o cloreto de etila (para o lança-perfume), o
éter dietílico e o ácido acético a partir do etanol.
• Na década de 1960 o País já produzia derivados acéticos a partir
do etanol, na Rhodia e na Fongra (posteriormente adquirida pela
Alcoolquímica
Hoechst), butanol e acetona na Usina Victor Sence e eteno na
Eletroteno (Solvay) e Union Carbide.
• Entre 1965 e 1971 a Coperbo, em Cabo, Pernambuco, produziu
polibutadieno com butadieno obtido a partir do etanol. A unidade
de butadieno permaneceu desativada até o início da década de
Continua (...)
147

1980, quando foi modificada para permitir a produção de aldeído


acético e eteno a partir do etanol. Estes produtos foram utilizados
pela Companhia Álcoolquímica Nacional, localizada ao lado da
Coperbo, para a produção de acetato de vinila monômero.
• Em 1969 a Eleikeiroz do Nordeste iniciou a produção de 2-etil-
hexanol, a partir do etanol, em Igarassú, Pernambuco.
• Na década de 1970, com a entrada em operação da
Petroquímica União (1972) e da Copene (1978), o eteno
petroquímico tornou-se disponível, iniciando-se uma competição
entre o eteno derivado do etanol e o derivado da nafta.
• Em 1973, com a crise do petróleo, o Brasil passou a buscar
fontes alternativas de matérias-primas visando a redução da
dependência do petróleo importado.
• Em 1975 foi criado o Programa Nacional do Álcool (Proálcool),
gerido pela Comissão Nacional do Álcool. Para a indústria
química o governo resolveu subsidiar a produção de álcool
daqueles derivados orgânicos que pudessem ser produzidos
alternativamente por rota petroquímica.
• Em 1982 o preço do etanol destinado às indústrias
alcoolquímicas passou a ser equiparado ao preço da nafta
petroquímica.
• O Decreto Lei 87.813 de 16/11/82 definiu a sistemática para a
fixação do preço do álcool destinado à indústria química. Para os
produtos que alternativamente também podiam ser produzidos
pro rota petroquímica (eteno, dicloroetano, óxido de eteno,
acetato de vinila) o preço do litro do álcool seria correspondente
a 100% do preço FOB do litro da nafta. Para os produtos sem
rota petroquímica alternativa (éteres glicólicos, ácido acético,
aldeído acético, etilaminas) o preço do litro do álcool seria
correspondente a 170% do preço FOB do litro de nafta.
Fonte: Adaptado de Wongtschowski (1999)

De acordo com Wongtschowski (1999), a partir da década de 1990, os diferentes


tipos de indústrias químicas sofreram os efeitos decorrentes da abertura de mercado,
de desestatização e ampliação dos níveis de exigência da legislação ambiental, mesma
época em que, segundo Nakano (2007), o governo federal retira a sua participação nas
empresas. O quadro 15 apresenta algumas destas informações:

Quadro 15 – Fatos Ocorridos com a Indústria Química na Década de 1990


Tipo de Indústria Fatos Relevantes
• Na década de 1990 a indústria petroquímica sofreu fortemente
com a abertura comercial e a simultânea redução dos preços
dos seus produtos no mercado internacional no período de 1990
Petroquímica a 1994.
• O processo de desestatização empreendido pelo governo
federal após 1990 levou à saída da Petroquisa de praticamente
todas as empresas, mantendo-se nas centrais petroquímicas –
Continua (...)
148

PQU, Copene e Copesul, com participações entre 15% a 18%


do capital votante das empresas. Neste processo a Petroquisa
foi substituída, em todos os casos, por um ou mais sócios com
os quais ela anteriormente compartilhava o controle. Empresas
que anteriormente possuíam controle compartilhado como
Ciquine, Estireno do Nordeste, Nitriflex, Oxiteno, Nitrocarbono,
Polialden e OPP passaram a ter um único sócio controlador.
Outras como Acrinor, Alcoolquímica, Companhia Brasileira de
Estireno, Ipiranga Petroquímica, Isopol e Proppet passaram, em
etapas posteriores, a terem um controlador único. No caso da
Copene o controlador, a Norquisa, passou a ser controlada por
quatro dos principais grupos privados nacionais (Oderbrecht,
Ultra, Suzano, Mariani); a Copesul passou a ter controle
compartilhado entre Odebrecht e Ipiranga; a PQU entre Unipar,
Union Carbide, Polibrasil, Oxiteno e Unigel; e a Polibrasil entre
Shell e Suzano. A Petroflex passou a ser controlada pela
Suzano, Copene e Unipar e a Politeno pela Conepar, Suzano e
Sumitomo/Itochu.
• Antes do Plano Nacional de Desestatização (PND), a Petrofértil
controlava as empresas Ultrafértil, Nitrofértil, Fosfértil, Goiasfértil
e ICC (além de ter como coligadas as empresas Arafértil e
Indag) e a Petrobrás controlava a Petromisa.
• Após a Lei 8.031 de 12/04/90 e o Decreto 99.463 de 16/08/90
que criou o PND, incluindo a desestatização da Petrofértil e o
Decreto 99.226 de 27/04/90 que dissolvia a Petromisa, são
vendidas as participações da Petrofértil em suas empresas
controladas conforme os percentuais: Indag (33,33%), Fosfértil
(77,42%), Goiásfértil (82,64%), Ultrafértil (100%) e Arafértil
(33,33%).
• O Decreto 844 de 24/06/93 retira do PND a Petrofértil e a
Nitrofértil, cujas unidades industriais passam a ser controladas
diretamente pela Petrobrás.
• A partir de 1990 as reservas de silvinita e carnalita passaram a
ser exploradas pela Companhia Vale do Rio Doce, por um prazo
de 25 anos, mediante pagamento de royalties de 2,5% do valor
da receita líquida, à Petrobrás.
Fertilizantes • Com a desestatização da Petrofértil e a compra das suas
controladas pela indústria privada de fertilizantes, iniciou-se um
processo de reagrupamento das indústrias de fertilizantes.
• A Serrana, do grupo argentino Bunge, comprou a Fertisul, a IAP,
a divisão de fertilizantes da Elekeiroz e consolidou seu controle
sobre a Arafértil, da qual era parcialmente proprietária.
• A Fertiza comprou o controle da Fospar, única empresa que
produzia superfosfatos no Paraná, além de adquirir 50% da
Indústria de Fertilizantes de Cubatão, novo nome da Unidade
Industrial de Mistura de Cubatão, até então pertencente a
Adubos Trevo. Os outros 50% foram adquiridos pela Fertibrás.
• Em 1998, a Serrana, Manah e Banco América do Sul,
compraram a Takenaka S.A. Indústria e Comércio. A Takenata
detinha 6,18% de participação acionária da Fertifós, controladora
da Fosfértil. Como a Serrana e a Manah possuiam cada uma
23,06% da Fertifós, com a compra da Takenaka, estas
passaram a controlar acionariamente a Fertifós. Vale lembrar
que a Fosfértil detém praticamente 100% do controle acionário
da Ultrafértil.

Continua (...)
149

• As indústrias de cloro e soda cáustica passaram a ser


submetidas a vários tipos de pressão a partir da década de
1990, sendo as de natureza ambiental as mais significativas.
Dentre elas destacam-se: o perigo potencial representado pelo
cloro e seus compostos; eliminação dos clorofluorcarbonos,
limitações na utilização de solventes clorados e reduções
drásticas na utilização de cloro elementar como agente
branqueador na indústria de papel; tendências dos usuários
finais em diminuir ou eliminar a utilização do cloro e de seus
compostos; campanhas sistemáticas de ativistas ambientais
contra a produção de cloro e seus compostos (a tentativa de
Cloro e Soda Cáustica eliminação do uso do PVC foi emblemática); tentativa de
paralização das unidades que operavam com células a mercúrio,
que representavam, em 1996, 29% da capacidade das indústrias
de cloro e soda em nível mundial e 22% no Brasil; enormes
passivos ambientais das unidades que operam com células a
mercúrio.
• Além das pressões, as indústrias de cloro e soda cáustica têm
de enfrentar o problema crônico do desbalanceamento de
consumo entre a soda cáustica e o cloro, gerando excesso de
um dos dois produtos que tem de ser vendidos a preços
marginais, já que apresentam grande dificuldade em sua
destruição de forma ecologicamente aceitável.
• Foi o ramo da indústria química que sofreu os maiores impactos
gerados a partir da abertura do mercado e das substanciais
reduções de alíquotas de importação implantadas pelo governo
Collor em 1990. Muitas unidades industriais foram desativadas,
possibilitando que as empresas multinacionais ampliassem a
sua participação e domínio do setor de química fina, sobretudo
no campo dos fármacos e defensivos, que somados
correspondem a aproximadamente 70% do mercado da indústria
química fina no Brasil. Com a queda das barreiras alfandegárias,
Química Fina algumas multinacionais paralisaram suas unidades de química
fina, achando mais vantajoso importar o produto diretamente de
suas fábricas no exterior.
• Neste período surgiram movimentos de junções,
reagrupamentos e aquisições tanto entre empresas nacionais
como entre empresas nacionais e empresas multinacionais já
instaladas no país. O objetivo central de tais movimentos era
aumentar a competitividade das empresas, o que se esperava
conseguir reduzindo custos fixos, simplificando as organizações
e investindo nas relações com o cliente.
• A indústria alcoolquímica dividia-se basicamente em dois
grandes grupos: o que transformava o etanol em eteno ou
acetaldeído (produção de polietileno, dicloroetano, estireno,
butadieno, ácido acético, solventes acéticos) e aquele que
utilizava o etanol pela sua função química como álcool
(produção de éteres glicólicos, ésteres e etilaminas). Com o
retorno da cobrança da taxa de contribuição ao IAA em
Alcoolquímica
novembro de 1984, que o governo havia eliminado em 1983,
para incentivar a exportação de produtos químicos produzidos
via alcoolquímica, as indústrias do primeiro grupo pararam de
consumir álcool, para consumir eteno obtido de nafta. Outras
empresas passaram a importar diretamente o ácido acético que
necessitavam para seus produtos, como a Rhodia e a Coperbo.

Continua (...)
150

• O consumo de álcool etílico para a indústria alcoolquímica


sempre foi pequeno, quando comparado com o álcool
consumido como combustível. Situando-se na faixa de 400 a
500 milhões de litros por ano. No auge do programa Proálcool,
foram produzidos anualmente, 15 bilhões de litros de álcool,
estando a produção atual na faixa dos 12 – 14 bilhões de litros
de álcool por ano.
Fonte: Adaptado de Wongtschowski (1999)

Novamente na retrospectiva histórica da indústria química nacional é possível


perceber os traços da lógica racional predominante na sociedade industrial. Avaliando
as informações disponibilizadas é possível perceber a grandeza e a complexidade da
indústria química em termos econômicos, o número de atores envolvidos e da
diversidade de produtos produzidos. Uma forte evidência do sucesso da matriz de
pensamento linear pode ser identificada pela ausência do conhecimento de grande
parte da sociedade mundial quanto às reais dimensões da indústria química, uma vez
que em função da ação racional instrumental, grande parte desta sociedade passou a
ser privada de pensar o próprio mundo do qual é parte integrante.

2.3.3. A Forma de Organização da Indústria Química

Para Furtado (2003) existem dificuldades para o estabelecimento de fronteiras


claras e aceitas no setor químico, cuja existência é atestada por inúmeros fatos do
mundo real, envolvendo empresas, sindicatos e classificações de produtos. Para o
autor indústrias como a farmacêutica ou a de alimentos, se utilizam de uma infinidade
de processos químicos, fato que também permite caracterizá-las como indústrias
químicas.

Segundo Furtado (2003), a dificuldade de delimitar as suas fronteiras ocorre em


função de que estas indústrias muitas vezes realizam afiliações sindicais duplas ou
triplas, o que dificulta o acompanhamento e a definição da dimensão do setor.

Para Furtado (2003), a química pela sua própria natureza, é criadora de


substâncias, combinações de elementos e novas aplicações, enquanto que as
empresas desenvolvem-se criando novas atividades, um processo que nem sempre
151

respeita as fronteiras criadas por definições técnicas e censitárias. Para o autor, este
problema de compatibilidade entre a realidade das empresas e das atividades
econômicas, de um lado, e as definições estatísticas com seus números-resultados,
dificilmente teriam condições de gerar uma solução única e unanimemente aceita.

Segundo Furtado (2003), a indústria química transforma-se por meio de um


processo expansivo com diferentes vetores, dentre os quais estão a escala, a
comercialização e a tecnologia. Apesar de reconhecer a importância de cada vetor, o
autor considera que é na tecnologia, com fundamentos científicos importantes e cada
vez mais substantivos, que se encontra o motor mais importante para o seu
desenvolvimento.

Furtado (2003, p. 9) considera que:

Os fundamentos científicos que permitem criar novos produtos e processos e


alargar a fronteira desta indústria representam ao mesmo tempo um fator de
expansão das empresas e um obstáculo à aplicação literal e sem nuanças de
definições estatísticas estáticas. O peso da atividade petrolífera representa uma
massa econômica e financeira que dá sustentação a diversas empresas
petroquímicas, tanto quanto a produção de conhecimentos e a inovatividade
das indústrias de base químico-farmacêutica alimenta a produção de novos
produtos e processos nas indústrias química e petroquímica.

Para Cremasco (2005) a indústria, de um modo geral, pode ser entendida como
um conjunto de atividades econômicas que visa a manipulação e a exploração de
matérias-primas e fontes energéticas, bem como a transformação de produtos semi-
acabados em bens de produção ou de consumo34. De acordo com o autor, a indústria
química é, resumidamente, um tipo de indústria de transformação, cujas atividades
consistem na transformação de matéria-prima em produtos intermediários (indústrias de
base ou pesada) e destes em bens de consumo (indústrias leves).

Segundo Nakano (2007), o setor químico reúne um conjunto diversificado de


empresas, onde a designação genérica “química e petroquímica” é em geral utilizada
para classificar empresas de diversos setores: de produtos químicos básicos, como
soda cáustica, ácido sufúrico, eteno e propeno, até perfumes e cosméticos, passando

34
Segundo Cremasco (2005) bens de produção, também conhecidos como bens de capital, são bens intermediários
que servem para a produção de outros, enquanto que os bens de consumo atendem diretamente à demanda a médio e
longo prazo.
152

por fertilizantes, pesticidas e plásticos. Segundo o autor, este tipo de indústria produz
insumos para diversos outros setores, sendo considerado um setor intensivo em capital,
que exige grandes investimentos em equipamentos e instalações, e em muitos casos,
licenciamento de tecnologia. Para o autor:

De forma simplificada, pode-se classificar como “indústria petroquímica” a


cadeia produtiva que se estrutura em torno da utilização de derivados do
petróleo, principalmente a nafta petroquímica, da qual se produzem substâncias
como o eteno, o propeno (também conhecidos como etileno e propileno,
respectivamente) e os hidrocarbonetos aromáticos. A partir do eteno são
produzidos, entre outros, plásticos como o polietileno, o PVC[1], o PET[2], a
poliamida (o popular nylon) e os poliésteres, e a partir do propeno, o
polipropileno, materiais esses que têm grande presença em nosso cotidiano:
embalagens, utilidades domésticas, artigos eletro-eletrônicos, produtos têxteis,
automóveis, etc. (NAKANO, 2007)

Ainda segundo Nakano (2007) a indústria petroquímica é um setor meio, ou seja,


que não tem contato com o mercado consumidor final. Seus produtos são utilizados por
outros setores produtivos como o têxtil, de embalagens, automotivo, eletroeletrônico,
entre outros, fazendo parte dos estágios iniciais de diversas cadeias produtivas.

De acordo com Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a)


35
, as indústrias químicas brasileiras são classificadas da seguinte forma:

Quadro 16 – Classificação das Indústrias Químicas


Geração Descrição
No Brasil, a nafta petroquímica, produto obtido em refinarias de petróleo, e o gás natural
1ª.
são as matérias-primas das centrais petroquímicas, que compõem a primeira geração. As
Geração centrais transformam a nafta, um produto derivado do petróleo, e o gás natural em
produtos petroquímicos básicos, como o eteno e o propeno.

É a chamada indústria downstream, que transforma os petroquímicos básicos em produtos


2ª. intermediários, utilizados por outras empresas de segunda geração e finais (resinas
termoplásticas, borrachas, fibras, detergentes, fertilizantes etc.). As empresas de segunda
Geração
geração normalmente se localizam ao redor das empresas de primeira geração,
configurando os chamados pólos petroquímicos.

Continua (...)
35
Segundo o Anuário da Indústria Química Brasileira elaborado pela Associação Brasileira da Indústria Química
(ABIQUIM) (2007b), a entidade foi fundada em 1964, para representar o setor no País e no exterior. Empresas
químicas de pequeno, médio e grande portes, bem como prestadores de serviços ao setor nas áreas de distribuição,
logística, transporte e tratamento de resíduos industriais, são associadas da ABIQUIM. Em termos internacionais, a
ABIQUIM faz parte do Conselho da Indústria Química do Mercosul (CIQUIM) e do Conselho Internacional das
Associações de Indústria Química (ICCA).
153

É o último elo da cadeia produtiva. A denominação “terceira geração” é empregada


3ª.
basicamente para o conjunto das empresas que transformam as resinas termoplásticas em
Geração produtos finais, como fibras têxteis, materiais para construção civil, autopeças,
embalagens, brinquedos e utilidades domésticas, entre outras.
Fonte: Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a)

Utilizando-se da mesma classificação adotada pela ABIQUIM, Cremasco (2005)


apresenta um processo básico para obtenção de garrafas PET, a partir da nafta:

Figura 12 – Processo Básico de Obtenção de Garrafas PET a partir da Nafta


Fonte: Cremasco (2005, p. 40)

De acordo com Cremasco (2005) a partir da destilação do petróleo é possível


obter a nafta e o GLP, produtos que formam a base do setor petroquímico. A partir
destes produtos são obtidos compostos orgânicos classificados como produtos de base
ou de primeira geração (ex: etileno); produtos intermediários ou de segunda geração
(ex: etilenoglicol), produtos finais ou de terceira geração (ex: resinas PET), para
finalmente chegar na transformação (garrafas PET).

Com a criação da Riopol em 2005, o Brasil passou a contar com quatro pólos
petroquímicos, cujo detalhamento quanto a constituição societária e volumes de
produção são apresentados na forma de diagramas extraídos do Anuário da Indústria
Química Brasileira elaborado pela Associação Brasileira da Indústria Química
(ABIQUIM) (2007b) e disponibilizados para consulta nos Anexos 2 e 3 deste estudo:
154

Quadro 17 – Capacidade de Produção dos Pólos Petroquímicos Brasileiros


Empresa Localização Capacidade Instalada – Produção de Eteno (em t/ano)
Braskem Camaçari – BA 1.280.000
Copesul Triunfo – RS 1.135.000
PQU Santo André – SP 500.000
Riopol Duque de Caxias – RJ 520.000
Total 3.435.000
Fonte: Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a)

Wongtschowski (2002, p. 37) considera que “o estudo da indústria química deve


ser precedido de uma concreta definição de quais produtos ou atividades nela estão
incluídos”. Porém o próprio autor reconhece que “infelizmente as definições adotadas
pelos estudiosos do setor ou pelas associações nacionais ou regionais da indústria
química não são homogêneas”. Segundo o autor, para o conjunto da indústria química
existem duas famílias de classificações: uma baseada em atividades e outra baseada
em produtos. No quadro 18 são apresentadas estas classificações:

Quadro 18 – Classificações Adotadas pela Indústria Química Mundial


Tipo de
Objetivo Denominação
Classificação
Utilizadas principalmente
para efeitos tributários
• Central Product Classification (CPC). Criada em
(definições de alíquotas do
1991, é adotada pelas Nações Unidas.
IPI, no caso brasileiro) e
Por Produto • Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM). Criada
para efeitos aduaneiros
(definição da Tarifa Externa em 1995, é adotada pelo Brasil e demais países
que integram o Mercosul.
Comum (TEC), no caso do
Mercosul)
• North American Industry Classification System
(NAICS), que substituiu a Standard Industrial
Classification (SIC). Criada em 1997, é adotada
pelo Departamento de Comércio dos Estados
Unidos e agências estatísticas dos países do
NAFTA (Estados Unidos, Canadá e México).
• International Standard Industrial Classification of
All Economic Activities (ISIC). Criada em 1990, é
Permitir a coleta,
adotada pelas Nações Unidas.
Por Atividade disseminação e análise de
• Nomenclature Générale des Activités
estatísticas econômicas
Économiques dans les Commnautés Européennes
(NACE). Criada em 1990, é adotada pela
Comunidade Européia.
• Classificação Nacional de Atividades Econômicas
(CNAE). Criada em 1996, é adotada pelo Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e pela
Associação Brasileira da Indústria Química
(ABIQUIM).
Fonte: Adaptado de Wongtschowski (2002)
155

Alguns fatores como a quantidade de produtos químicos, a dinâmica da pesquisa


para o desenvolvimento de novos produtos, o grande número de atores que atuam em
nível mundial, os interesses econômicos e os diferentes padrões de classificação
adotados pelas instituições para acompanhar o setor químico contribuem para dificultar
o acompanhamento estatístico do setor. Wongtschowski (2002) afirmou, no ano de
publicação de seu livro, que eram produzidos no mundo aproximadamente 70.000
produtos químicos, número que, segundo European Inventory of Existing Commercial
Substances (2007), já atinge 100.195 substâncias.

Wongtschowski (2002) cita a classificação por produto proposta por Charles H.


Kline em 1976, pela qual são definidos quatro grupos de produtos químicos:
commodities, pseudocommodities, produtos de química fina e especialidades químicas.
De acordo com Wongtschowski (2002, p. 46), as características principais de cada
grupo são:

i) Commodities: são compostos químicos produzidos em larga escala,


frequentemente a partir de matérias-primas cativas, com especificações
padronizadas, para uma gama variada de usos. Normalmente as
commodities têm suas vendas concentradas em um número relativamente
pequeno de clientes. São exemplos de commodities: amônia, ácido
sulfúrico, eteno, metanol e gases industriais;
ii) Pseudocommodities: são produtos diferenciados, que têm em comum com
as commodities o fato de serem produzidos em larga escala, a partir de
matérias-primas em geral cativas, quase sempre compradas por poucos
clientes que são grandes consumidores. Diferenciam-se das commodities
por não serem vendidas através de especificações de sua composição
química, mas sim por especificações de desempenho, para uma ou mais
finalidades. Alguns exemplos de pseudocommodities: resinas
termoplásticas, fibras artificiais e elastômeros;
iii) Produtos de química fina: assemelham-se às commodities por serem não-
diferenciados e geralmente não patenteados. Entretanto, são produzidos
em pequena escala, para um ou mais usos finais, de acordo com padrões
geralmente aceitos, do tipo U.S. Pharmacopeia ou Food Chemical Codex
dos Estados Unidos ou seus equivalentes em outros países. São
geralmente vendidos para um pequeno número de clientes, em volumes
pequenos. São exemplos: ácido acetilsalicílico, sacarina, aromatizantes e
fármacos;
iv) Especialidades químicas: são produtos diferenciados, fabricados em
pequenas quantidades geralmente com matérias-primas compradas de
terceiros, projetados para finalidades específicas do cliente e
frequentemente vendidos para um grande número de clientes que
compram pequenas quantidades. Exemplos: catalisadores, corantes,
enzimas e aditivos em geral.
156

Nakano (2007) apresenta uma importante contribuição para a melhor


compreensão sobre a forma de atuação da indústria química, ao estabelecer uma
relação entre a classificação de produtos apresentada por Wongtschowski (2002) e a
classificação das indústrias químicas elaborada pela Associação Brasileira da Indústria
Química (ABIQUIM) (2007a), apresentada anteriormente:

As empresas de primeira geração são produtoras de commodities. Nessas


empresas o esforço tecnológico atual é fortemente voltado para o aumento de
eficiência de processo, tanto para aumento de produtividade como para
melhoria no grau de pureza do produto, através principalmente do
desenvolvimento de melhores catalisadores e do controle de processo. A busca
por eficiência por parte dessas empresas vem da preocupação com a
competitividade da cadeia à jusante, e não do confronto direto entre elas:
apesar de serem três as empresas de primeira geração, elas não competem
entre si de fato, pois pela distância entre os pólos petroquímicos, seus clientes
são, na prática, cativos. A inovação nessas empresas está localizada hoje
principalmente em esforços de melhoria de processos: grau de pureza dos
produtos, eficiência energética e redução de efluentes, desenvolvimento de
catalisadores e controle de processos. Para essas atividades elas empregam
corpo técnico reduzido, que divide seu tempo entre a operação e o
desenvolvimento, e lançam mão com certa freqüência de acordos com
universidades e centros de pesquisa para o desenvolvimento de novas
soluções. Os produtos das empresas de segunda geração podem ser divididos
em três categorias: commodities (por exemplo o óxido de eteno), pseudo-
commodities, as resinas plásticas (PVC, polietileno, polipropileno, PET, etc), e
as especialidades: resinas especiais e os plásticos de engenharia. As resinas
plásticas são diferenciadas por diversas características tais como: resistência
mecânica e química, resistência à luz e temperatura, facilidade de
transformação, brilho e transparência, etc. Parte dessas características são
intrínsecas ao composto químico. Outra parte é obtida ou aprimorada pelo
processo de polimerização, enquanto uma terceira parte dessas características
são introduzidas ou melhoradas pelo uso de aditivos durante a transformação
das resinas puras em compostos finais. Parte das características ainda podem
ser melhoradas (ou pioradas) no processo de transformação dentro das
empresas de terceira geração. No que tange o desenvolvimento de novos
produtos, as empresas de segunda geração mantém seu olhar em dois pontos:
no mercado final que consome os produtos plásticos, e nas empresas de
terceira geração, seus clientes, que têm demandas específicas. A inovação
nessas empresas está centrada em três aspectos: desenvolvimento do
processo, desenvolvimento de catalisadores e desenvolvimento de aditivos.
Parte do esforço tecnológico é interno, enquanto outra parte do
desenvolvimento é obtido de fontes externas. As empresas de segunda geração
funcionam como líderes ou coordenadores do processo de desenvolvimento:
levando as necessidades levantadas junto às empresas de terceira geração
para os fornecedores de aditivos, coordenando esforços com os fornecedores
de equipamentos e fornecendo insumos, instalações e pessoal especializado
para a busca das soluções.

A Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b), também


considera que a classificação da indústria química já foi motivo de muitas divergências,
157

fato que dificultava a comparação e a análise dos dados estatísticos referentes ao


setor. Segundo a entidade, em algumas ocasiões, indústrias independentes, a exemplo
do refino do petróleo, eram confundidas com a indústria química propriamente dita,
enquanto que outros segmentos tipicamente químicos, como os de resinas
termoplásticas e de borracha sintética, não eram incluídos nas análises setoriais.

De acordo com a Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b),


com o objetivo de eliminar divergências, a Organização das Nações Unidas (ONU)
aprovou uma nova classificação internacional para a indústria química, incluindo-a na
revisão nº. 3 da International Standard Industry Classification (ISIC) e mais
recentemente, na revisão nº. 4. No Brasil, segundo a publicação, o Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE), com o apoio da Associação Brasileira da Indústria
Química (ABIQUIM), definiu, com base nos critérios aprovados pela ONU, uma nova
Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), promovendo o
enquadramento de todos os produtos químicos nessa classificação.

Desta forma, no ano de 2006, o IBGE redefiniu toda a estrutura da CNAE,


estabelecendo que os segmentos que compõem as atividades da indústria química
fossem contemplados, a partir de janeiro de 2007, nas divisões “20 – Fabricação de
Produtos Químicos” e “21 – Fabricação de Produtos Farmoquímicos e Farmacêuticos”,
de acordo com as definições estabelecidas pela Classificação Nacional de Atividades
Econômicas (CNAE) na versão 2.0:

20 – Fabricação de Produtos Químicos: esta divisão compreende a


transformação de matérias-primas orgânicas ou inorgânicas por processos
químicos e a formulação de produtos e a produção de gases industriais,
fertilizantes, resinas e fibras, defensivos agrícolas e desinfetantes
domissanitários, produtos de limpeza e perfumaria, tintas, explosivos e outros
produtos químicos. Esta divisão compreende também a fabricação de produtos
petroquímicos básicos e intermediários. A química fina e suas especialidades,
com especificidades tecnológicas próprias, mesmo não compondo um
segmento específico da CNAE, pode ser reconstituída, por aproximação,
através da agregação das seguintes classes de atividades: (20.29-1), (20.51-7),
(20.93-2), (20.94-1), (21.10-6), (21.21-1) e (21.22-0).

21 – Fabricação de Produtos Farmoquímicos e Farmacêuticos: esta divisão


compreende a fabricação de produtos farmoquímicos, a fabricação de
medicamentos e de outros produtos farmacêuticos, tais como: curativos
impregnados com qualquer substância, preparações anti-sépticas, etc. Esta
158

divisão não compreende a fabricação de alimentos dietéticos, alimentos


enriquecidos, complementos alimentares e semelhantes (divisão 10).

Na nova versão 2.0 do CNAE, as divisões 20 e 21 são ainda subdivididas em


grupo e classe, visando estabelecer um detalhamento mais adequado da organização
da indústria química brasileira:

Quadro 19 – Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE)


Divisão Grupo Classe Denominação
20 FABRICAÇÃO DE PRODUTOS QUÍMICOS
20.1 Fabricação de produtos químicos inorgânicos
20.11-8 Fabricação de cloro e álcalis
20.12-6 Fabricação de intermediários para fertilizantes
20.13-4 Fabricação de adubos e fertilizantes
20.14-2 Fabricação de gases industriais
20.19-3 Fabricação de produtos químicos inorgânicos não especificados anteriormente
20.2 Fabricação de produtos químicos orgânicos
20.21-5 Fabricação de produtos petroquímicos básicos
20.22-3 Fabricação de intermediários para plastificantes, resinas e fibras
20.29-1 Fabricação de produtos químicos orgânicos não especificados anteriormente
20.3 Fabricação de resinas e elastômeros
20.31-2 Fabricação de resinas termoplásticas
20.32-1 Fabricação de resinas termofixas
20.33-9 Fabricação de elastômeros
20.4 Fabricação de fibras artificiais e sintéticas
20.40-1 Fabricação de fibras artificiais e sintéticas
20.5 Fabricação de defensivos agrícolas e desinfetantes domissanitários
20.51-7 Fabricação de defensivos agrícolas
20.52-5 Fabricação de desinfetantes domissanitários
Fabricação de sabões, detergentes, produtos de limpeza, cosméticos, produtos de
20.6
perfumaria e de higiene pessoal
20.61-4 Fabricação de sabões e detergentes sintéticos
20.62-2 Fabricação de produtos de limpeza e polimento
20.63-1 Fabricação de cosméticos, produtos de perfumaria e de higiene pessoal
20.7 Fabricação de tintas, vernizes, esmaltes, lacas e produtos afins
20.71-1 Fabricação de tintas, vernizes, esmaltes e lacas
20.72-0 Fabricação de tintas de impressão
20.73-8 Fabricação de impermeabilizantes, solventes e produtos afins
20.9 Fabricação de produtos e preparados químicos diversos
20.91-6 Fabricação de adesivos e selantes
20.92-4 Fabricação de explosivos
20.93-2 Fabricação de aditivos de uso industrial
20.94-1 Fabricação de catalisadores

Continua (...)
159

20.99-1 Fabricação de produtos químicos não especificados


20 FABRICAÇÃO DE PRODUTOS FARMOQUÍMICOS E FARMACÊUTICOS
21.1 Fabricação de produtos farmoquímicos
21.10-6 Fabricação de produtos farmoquímicos
21.2 Fabricação de produtos farmacêuticos
21.21-1 Fabricação de medicamentos para uso humano
21.22-0 Fabricação de medicamentos para uso veterinário
21.23-8 Fabricação de preparações farmacêuticas

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (2007a)

Com vistas a adotar uma classificação que possibilitasse uma aproximação dos
dados obtidos neste estudo com outras pesquisas futuras desenvolvidas na área,
optou-se pela adoção da Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) –
versão 2.0, como referência para a identificação das indústrias químicas envolvidas na
presente pesquisa.

2.3.4. A Indústria Química na Contemporaneidade

A indústria química, assim como outros tipos de indústrias, se encontra inserida


em um dos contextos mais dinâmicos do período reconhecido como sociedade
industrial, onde suas capacidades, em termos de atendimento de novas exigências do
mercado e da sociedade, necessitam ser frequentemente revisadas e atualizadas.

Segundo Wongtschowski (2002), os últimos anos têm testemunhado profundas


alterações na indústria química mundial. Companhias como a Ciba-Geigy, Hoechst,
Rhône-Pounlec e Sandoz se transformaram primeiro em empresas especialistas em
“ciências da vida” e em menos de três anos depois, em empresas farmacêuticas. Por
meio de processos de fusão, estas empresas deram lugar a novas empresas: Novartis
(fusão das áreas farmacêuticas da Ciba-Geisy e da Sandoz) e Aventis (fusão das áreas
farmacêuticas da Hoechst e da Rhône-Poulenc). De acordo com o autor, a segunda
metade da década de 1990 viu surgirem empresas como Acordis, Astaris, Avecia,
Basell, Clariant, Cognis, Dynea, Imerys, Ineos, Noveon, Noviant, Sandia, Sensient,
Solutia, Solvias, Solvin, Syngenta, Vantico e Wintech, enquanto que nomes tradicionais
160

como Albright-Wilson, Allied Signal, Arco Chemical, Hüls, Neste, Union Carbide,
Upjohn e outros desapareceram.

Segundo Nakano (2007), o setor químico é dominado por grandes grupos de


presença internacional, que têm nos produtos químicos a sua principal atividade de
produção ou uma expressiva porção de seu faturamento. Para o autor o setor passou
por um processo de concentração na década de 1990, fator que contribuiu para a
redução do número de empresas no contexto internacional. Hirutaka citado por Nakano
(2007), apresenta algumas das principais fusões e aquisições ocorridas no setor:
Basell (formada por ativos da Basf, Hoechst, Shell e Montedison), Borealis (Borealis e
PCD), BP Solvay (BP, Amoco, Arco e Solvay), Chevron/Phillips, Dow (Dow e Union
Carbide), Equistar (Lyondell, Millenium e Occidental) e Exxon Mobil. Segundo Nakano
(2007), das sete empresas estudadas em detalhe por Hirutaka no início dos anos 2000
(Dow, Basf, BP Almoco, DSM, Exxon-Mobil, Nova e Solvay), três já haviam passado
por processos de fusão.

Para Nakano (2007) as grandes empresas internacionais são líderes em seus


mercados em função de apresentarem um perfil integrado e de possuírem em geral
base sólida na produção de petroquímicos básicos. Para o autor a estratégia comercial
dessas empresas se caracteriza, por um lado, pelo domínio do mercado de produtos
menos diferenciados (commodities) por meio de uma política agressiva de preços, fruto
de sua alta capacidade de produção e do aproveitamento das economias de escala, e
pelo outro lado, pelo avanço em direção aos produtos mais diferenciados, cuja margem
é mais atrativa.

Wongtschowski (2002) atribui estas transformações a globalização, a


concentração, a especialização e a descentralização geográfica, as quais são definidas
pelo autor abaixo:

a) Globalização: trata-se de um reflexo da mobilidade de capital, da revolução nas


comunicações e da abertura generalizada dos mercados. Para Wongtschowski
(2002), como conseqüência, a indústria química padronizou seus produtos em
função das características da demanda de grande parte de seus clientes, fazendo
161

com que não haja relação geográfica direta entre cliente e fornecedor. Para o autor,
clientes globalizados desejam que seus fornecedores atendam a demandas em
qualquer lugar do mundo, com produto idêntico e em iguais condições comerciais.

b) Concentração: processo de criação de empresas de grande porte que se


beneficiam do poder de escala de produção. Wongtschowski (2002) cita o processo
de concentração que ocorreu na indústria farmacêutica com a criação da
GlaxoSmithKline em 2000 (produto final da fusão entre a SmithKline, Beecham,
Glaxo e Burroughs-Wellcome), da Novartis e da Pharmacia (produto final da fusão
da Pharmacia, Upjohn e da área farmacêutica da Monsanto em 2000). O autor cita
que o fenômeno da concentração também ocorreu na indústria de petróleo, com a
formação da BP Amoco (depois BP), da ExxonMobil, da TotalFinaElf e da Chevron-
Texaco; e na indústria de produtos químicos industriais, com a absorção da Union
Carbide pela Dow em 1999 e da Degussa, Hüls, SKWTrostberg e Th. Goldschmidt
pela Degussa em 2000.

c) Especialização: Wongtschowski (2002) menciona que a especialização ocorre em


muitos setores. Na produção de resinas plásticas há novas empresas, spin-offs36 ou
jointventures37 de grandes empresas que reduziram seu foco: a Basell em
poliolefinas, a Ticona em plásticos de engenharia, a Equistar em eteno e
polietilieno, entre outras. Segundo o autor, a ICI, a nona maior empresa química
mundial em 2000, reduziu de dez para quatro as suas áreas de atuação,
transformando-se em uma empresa de especialidades químicas, empresas de
produtos de limpeza e higiene pessoal como a Unilever e a Henkel venderam as
suas atividades químicas e a DyStar passou a concentrar o negócio de corantes da
Hoechst, da Bayer e da Basf.

d) Descentralização Geográfica: Wongtschowski (2002) considera este como sendo


um fenômeno relativamente novo na indústria. O autor cita como exemplos a

36
De acordo com Wongtschowski (2002), spin-off corresponde a separação de parte de uma empresa em uma nova
entidade jurídica, guardando ou não vínculos acionários com a empresa da qual se separou.
37
De acordo com Wongtschowski (2002), joint venture corresponde a associação de duas ou mais empresas, com
objetivos específicos, executada pela formação de uma nova entidade jurídica.
162

produção de derivados de gás natural que migrou para os países em que esse
insumo é excedente e portanto de baixo custo: Canadá, Indonésia, Arábia Saudita,
Kuwait e Venezuela abrigarão crescentemente unidades de produção de derivados
de eteno; Chile, Nova Zelândia e Trinidad e Tobago abrigam grandes produtores de
metanol; enquanto que a Malásia e as Filipinas atraem usuários de óleos láuricos.

A dinâmica de atuação e expansão da indústria química mundial pode ser melhor


compreendida por meio da análise dos volumes crescentes de faturamento
apresentados pela Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b). O
volume crescente observado para os 18 (dezoito) países analisados pela entidade
apresenta uma nova evidência inegável do sucesso econômico obtido pela sociedade
industrial. A exemplo dos demais países, o Brasil ampliou o faturamento de sua
indústria química no período de 2000 a 2006, o qual quase dobrou em apenas 6 anos,
passando de US$ 43, 6 bilhões para US$ 81,6 bilhões (diferença de 87,16%), condição
que o colocou em 9º. lugar no ranking da indústria química mundial em 2006.

Quadro 20 – Faturamento da Indústria Química Mundial (em US$ bilhões)


Países/Anos 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 Diferença
Percentual
Total Mundial entre 2000
1.708,7 1.657,6 1.737,0 2.004,7 2.312,0 2.578,7 2.847,0
Estimado e 2006
Estados Unidos 449,2 438,4 462,5 487,7 540,9 604,5 637,3 41,87%
China 99,6 107,3 121,6 152,9 189,8 245,1 310,1 211,35%
Japão 220,4 191,2 181,6 201,2 223,3 227,2 222,6 1%
Alemanha 124,8 120,0 125,2 154,4 176,8 190,3 203,7 63,22%
França 75,9 76,3 80,1 99,8 110,6 119,2 125,4 65,22%
Coréia 56,4 50,4 54,9 64,3 78,7 88,6 104,7 85,64%
Reino Unido 72,1 70,4 73,2 81,4 92,0 93,0 100,8 39,81%
Itália 59,9 59,1 66,2 79,4 89,9 93,9 99,4 65,94%
Brasil 43,6 38,8 37,3 45,5 60,2 71,6 81,6 87,16%
Índia 35,3 32,5 33,1 40,6 52,5 66,8 76,4 116,43%
Espanha 33,1 33,6 35,8 44,5 51,4 55,2 58,3 76,13%
Suíça 24,1 26,8 30,6 38,1 44,8 49,4 55,0 128,22%
Holanda 29,0 27,6 28,8 35,7 44,6 46,8 53,4 84,14%
Rússia 27,4 29,1 30,3 33,4 37,5 40,9 53,1 93,80%
Bélgica 30,4 30,5 33,2 41,5 46,8 48,5 52,0 71,05%
Irlanda 22,5 23,0 29,2 36,6 41,3 43,3 49,9 121,78%
Taiwan 39,3 26,8 28,0 33,3 40,4 45,6 49,6 26,21%
Canadá 25,0 24,8 25,8 30,1 36,1 41,0 44,6 78,40%
Fonte: Adaptado da Associação Brasileira da Indústria Química (2007b, p. 17)
163

Com exceção do Japão, que praticamente estabilizou o seu volume de


faturamento no período analisado, todos os demais países obtiveram um considerável
acréscimo. Cabe destacar o expressivo aumento de faturamento da China, que passou
de US$ 99,6 bilhões em 2000 para US$ 310,1 bilhões em 2006 (diferença de
211,35%).

De acordo com Hirutaka citado por Nakano (2007) o setor se caracteriza pela
tendência crescente do estabelecimento de uma divisão internacional de trabalho e de
produção entre países. Para Nakano (2007) os grandes grupos internacionais têm
optado por fabricar produtos menos diferenciados em unidades localizadas em países
periféricos, concentrando a produção dos diferenciados em suas unidades centrais,
onde se localizam também os seus laboratórios de pesquisa e desenvolvimento.

Seguindo mais uma vez a lógica predominante da ação racional instrumental


orientada para a otimização das estruturas visando à obtenção dos melhores
resultados, apesar do expressivo aumento dos volumes de faturamento, o número de
empregos na indústria química mundial se manteve estável ou até mesmo foi reduzido,
como é possível perceber nos dados de alguns países fornecidos pela ABIQUIM:

Quadro 21 – Número de Empregados na Indústria Química em Milhares (2000 a 2006)


Países/Anos 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006
EUA 980 959 928 906 887 879 n.d.
Alemanha 470 467 462 464 445 441 n.d.
Japão 366 364 354 345 341 n.d. n.d.
Brasil 311 310 310 315 320 325 n.d.
França 235 240 241 241 235 231 n.d.
Reino Unido 235 230 229 222 207 198 n.d.
Itália 206 207 208 204 198 198 n.d.
Espanha 134 137 133 137 133 n.d. n.d.
Canadá 83 88 88 88 85 84 n.d.
Holanda 76 75 75 73 73 n.d. n.d.
Bélgica 70 73 71 72 70 69 n.d.
Suíça 60 62 62 62 62 63 n.d.
México 69 66 72 63 61 n.d. n.d.
Suécia 38 38 39 38 36 36 n.d.
Irlanda 23 24 25 25 23 n.d. n.d.
Fonte: Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b, p. 17)
164

Dados apresentados pelo European Chemical Industry Council (2007), sobre o


emprego na indústria química européia e norte-americana reforçam os dados
apresentados pela ABIQUIM. Segundo a entidade, o número de empregos na indústria
química européia apresentou um decréscimo de 2,1% nos 10 últimos anos, enquanto
que nos Estados Unidos, o índice registrado aponta para um decréscimo de 2,7%,
conforme indicado na figura 13:

Figura 13 – Empregos na Indústria Química Européia e Norte-Americana

Fonte: European Chemical Industry Council (2007)


165

O fenômeno da descentralização geográfica mencionado por Wongtschowski


(2002) pode ser percebido pelos dados apresentados pelo European Chemical Industry
Council (2007) na figura 14, os quais retratam o crescimento da produção química do
continente asiático, que passou a ocupar em 2006 o primeiro lugar em vendas em nível
mundial, fato justificado pelo aumento da participação em vendas da China e da Índia:

Figura 14 – Volume de Vendas Mundial (2006)


Fonte: European Chemical Industry Council (2007)
166

Na figura 15, são representadas as trajetórias de crescimento da produção


química mundial, dado que revela a expansão de mercado e, consequentemente, a
ampliação da utilização de recursos naturais:

Figura 15 – Crescimento Internacional da Produção da Indústria Química (1996 a 2006)

Fonte: European Chemical Industry Council (2007)

Dados do European Chemical Industry Council (2007) indicam que as vendas de


produtos químicos cresceu 5,5% nos últimos 10 anos. Estados Unidos, Europa e Japão
apresentaram desempenho inferior ao percentual mundial, enquanto que países como a
167

China, Turquia, Índia e Brasil apresentaram desempenho superior, conforme


demonstrado na figura 16:

Figura 16 – Taxa de Crescimento de Vendas em Países e Regiões Selecionadas

Fonte: European Chemical Industry Council (2007)

Na comparação entre os anos de 1996 e 2006 elaborada pelo European


Chemical Industry Council (2007) e apresentados na figura 17, percebe-se mais uma
vez o crescimento da indústria química mundial, que passou de € 962 bilhões em 1996
para € 1641 bilhões em 2006. Neste mesmo gráfico, pode ser constatado o aumento
da participação do continente asiático nas vendas mundiais (excluindo Japão),
fortalecendo a tendência mundial da descentralização da produção:
168

Figura 17 – Participação nas Vendas Mundiais (1996 e 2006)


Fonte: European Chemical Industry Council (2007)

O fenômeno da concentração citado por Wongtschowski (2002) pode ser


constatado por meio da relação das 30 (trinta) maiores companhias químicas do
mundo, elaborado pelo European Chemical Industry Council (2007). De acordo com a
entidade, somente estas companhias foram responsáveis por € 526 bilhões de um total
de € 1641 bilhões das vendas ocorridas no ano de 2006, conforme demonstrado na
figura 18:
169

Figura 18 – Relação das 30 (Trinta) Maiores Companhias Químicas (2006)


Fonte: European Chemical Industry Council (2007)

Nakano (2007) considera que devido ao processo de formação da indústria


petroquímica nacional, ela ainda é caracterizada pelo seu baixo nível de integração, ou
seja, as centrais e as empresas de segunda geração são em sua maioria isoladas,
contrárias à tendência mundial de integração que possibilita vantagens de economia de
escala na produção e diluição das despesas em pesquisa em desenvolvimento. O autor
faz apenas uma ressalva para o caso da Braskem, que integrou a antiga Copene a
empresas produtoras de resinas, PE, PP, PVC e PET.

No Brasil as principais estatísticas sobre o setor são geradas e disponibilizadas


pela Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) no site da entidade e por
meio de suas publicações anuais. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria
Química (ABIQUIM) (2007b), apesar da entidade como associação representar a
totalidade da indústria química brasileira, determinados segmentos da indústria química
são representados e acompanhados estatisticamente por associações congêneres,
170

como FEBRAFARMA (produtos farmacêuticos), e ABRAFATI (tintas e vernizes), ANDA


(fertilizantes), o SINDAG (defensivos agrícolas) e a ABIHPEC (produtos de higiene
pessoal, perfumaria e cosméticos), entre outras.

Confirmando a dificuldade de se estabelecer fronteiras e controles estatísticos


para o acompanhamento dos segmentos e produtos químicos existentes, a própria
Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b) menciona que a
entidade não acompanha estatisticamente todos os segmentos e produtos químicos,
concentrando-se com algumas exceções, no segmento de produtos químicos de uso
industrial utilizados no âmbito de outros setores industriais e da própria indústria
química. Ainda segundo a entidade, as estatísticas produzidas pela entidade
acompanham cerca de aproximadamente 3.000 (três mil) produtos fabricados
aproximadamente 800 (oitocentas) empresas, associadas ou não à entidade e que
figuram no cadastro de associados da ABIQUIM e no Guia da Indústria Química
Brasileira produzido pela entidade.

Para um acompanhamento estatístico mais detalhado do setor, a ABIQUIM toma


como base um painel formado por cerca de 200 (duzentos) produtos químicos de uso
industrial. De acordo com a entidade, essa amostra segue, desde 1998, a classificação
do IBGE. Objetivando maior precisão nos levantamentos setoriais, a Associação
Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a) subdividiu alguns itens, o que
resultou no seguinte âmbito setorial:

a) Produtos químicos de uso industrial: produtos inorgânicos (cloro e álcalis,


intermediários para fertilizantes, gases industriais e outros), produtos orgânicos
(produtos petroquímicos básicos, intermediários para resinas e fibras e outros),
resinas e elastômeros (resinas termoplásticas, resinas termofixas e elastômeros),
produtos e preparados químicos diversos (adesivos e selantes, aditivos de uso
industrial, catalisadores, produtos químicos para fotografia e outros);
171

b) Produtos químicos de uso final: produtos farmacêuticos; higiene pessoal, perfumaria


e cosméticos; adubos e fertilizantes; sabões, detergentes e produtos de limpeza;
defensivos agrícolas; tintas, esmaltes e vernizes, entre outros.

O quadro abaixo apresenta em detalhes, a classificação de produtos químicos


para uso industrial, foco principal das estatísticas elaboradas pela entidade:

Quadro 22 – Classificação ABIQUIM para Análises Estatísticas38


Classificação Detalhamento da Classificação
FABRICAÇÃO DE - Fabricação de cloro e álcalis
PRODUTOS - Fabricação de intermediários para fertilizantes
QUÍMICOS - Fabricação de produtos químicos inorgânicos não especificados
INORGÂNICOS anteriormente
- Fabricação de produtos petroquímicos básicos
- Fabricação de intermediários para plastificantes, resinas e fibras
- Intermediários para plásticos
- Intermediários para plastificantes
- Intermediários para resinas termofixas
FABRICAÇÃO DE
- Intermediários para fibras sintéticas
PRODUTOS
- Fabricação de produtos químicos orgânicos não especificados anteriormente
QUÍMICOS
- Corantes e pigmentos orgânicos
ORGÂNICOS
- Solventes industriais
- Intermediários para detergentes
- Intermediários para plastificantes
- Plastificantes
- Outros produtos químicos orgânicos
FABRICAÇÃO DE - Fabricação de resinas termoplásticas
RESINAS E - Fabricação de resinas termofixas
ELASTÔMEROS - Fabricação de elastômeros
FABRICAÇÃO DE
PRODUTOS E
- Fabricação de adesivos e selantes
PREPARADOS
- Fabricação de aditivos de uso industrial
QUÍMICOS
DIVERSOS
Fonte: Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b, p. 15)

De acordo com a Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b,


p. 19):

38
Segundo a Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b), a abertura dos grupos de produtos
grafados em itálico na tabela não aparece na Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) Em função
da ABIQUIM já realizar um levantamento desses grupos em separado, a entidade optou por manter essas
subdivisões.
172

Em 2006 o faturamento líquido da indústria química brasileira, considerando


todos os segmentos que a compõem, alcançou R$ 177,7 bilhões, valor 2,3%
superior ao de 2005. Medido em dólares, o faturamento líquido chegou ao
recorde de US$ 81,6 bilhões, 13,9% acima do valor do ano anterior. Apesar do
baixo crescimento da economia brasileira em 2006, ano em que o PIB registrou
alta de apenas 3,7%, a indústria química teve um desempenho razoável. Houve
aumento de 14,2% no volume de exportações, resultando em receita de US$
8,92 bilhões, 20,8% mais que no ano anterior. As importações também
cresceram e atingiram o recorde de US$ 17,38 bilhões, 13,3% mais que no ano
anterior. O déficit na balança comercial brasileira de produtos químicos em
2006 ficou em US$ 8,46 bilhões, contra US$ 7,95 bilhões em 2005. No cenário
internacional, destaca-se a forte elevação da cotação do barril de petróleo em
2006 e, consequentemente, da nafta petroquímica e do gás natural, com
expressivo reflexo no preço internacional de diversos produtos químicos. A
demanda internacional por produtos químicos, impulsionada pelo crescimento
da economia mundial, tem se mantido em patamares elevados, sem a
contrapartida, no mesmo ritmo, da elevação da oferta, o que vem se refletindo
em pressões sobre os preços.

O gráfico abaixo apresenta a composição do faturamento líquido da indústria


química brasileira por segmentos no ano de 2006. De acordo com os dados fornecidos
pela Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b) é possível perceber
a predominância da fabricação de produtos químicos de uso industrial, com vendas
totais de R$ 98,7 bilhões, equivalentes a US$ 45,4 bilhões (55,6%) seguido pela
fabricação de produtos farmacêuticos, com faturamento de R$ 23,8 bilhões,
equivalentes a US$ 10,9 bilhões (13,3%). Na seqüência os demais segmentos somados
responderam por US$ 25,4 bilhões, o equivalente a 31,1% do total.

Outros
US$ 2,3 bilhões

Tintas, Esmaltes e Produtos Químicos de


Vernizes
Total: US$ 81,6 bilhões Uso Industrial
US$ 2,1 bilhões US$ 45,4 bilhões

Defensivos Agrícolas
US$ 3,9 bilhões

Sabões e Detergentes
US$ 4,6 bilhões

Adubos e Fertilizantes Produtos Farmacêuticos


US$ 5,6 bilhões US$ 10,9 bilhões
Higiene Pessoal,
Perfumaria e
Cosméticos
US$ 6,9 bilhões

Gráfico 1 – Faturamento Líquido da Indústria Química Brasileira por Segmentos (2006)


Fonte: Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b, p. 20)
173

Segundo a Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b), no


Brasil, no período de 1990 a 2006, destacaram-se os grupos de higiene pessoal,
perfumaria e cosméticos, produtos farmacêuticos e defensivos agrícolas, que
apresentaram taxas de crescimento anual médio acima de 8,0%. Na série histórica, de
1990 a 2006, por segmentos da indústria química, são apresentados os faturamentos
líquidos obtidos por cada um dos grupos:

Quadro 23 – Faturamento Indústria Química Brasileira em US$ Bilhões (2000 a 2006)


Segmentos 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006
Produtos Químicos de Uso Industrial 22,8 19,6 19,4 24,1 33 39,4 45,4
Produtos Farmacêuticos 6,7 5,7 5,2 5,6 6,8 9,2 10,9
Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos 3,4 3 2,8 3,1 3,9 5,5 6,9
Adubos e Fertilizantes 3 3,2 3,3 4,3 5,6 5,5 5,6
Sabões e Detergentes 2,3 2,1 2,1 2,1 2,6 3,9 4,6
Defensivos Agrícolas 2,5 2,3 1,9 3,4 4,2 4,2 3,9
Tintas, Esmaltes e Vernizes 1,5 1,4 1,1 1,3 1,5 1,9 2,1
Outros 1,4 1,5 1,5 1,6 1,8 2 2,3
Total 43,6 38,8 37,3 45,5 59,4 71,6 81,6
Fonte: Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b, p. 19)

No gráfico 2 é apresentado um detalhamento do faturamento líquido da indústria


de fabricação de produtos químicos industriais, que em 2006, conforme mencionado
anteriormente, realizou um faturamento de US$ 45,4 bilhões, correspondendo a 55,6%
do total de faturamento da indústria química brasileira:

Produtos e Preparados
Químicos Diversos
US$ 8,3 bilhões Total: US$ 45,4 bilhões
Resinas Termoplásticas
Elastômeros US$ 7,7 bilhões
US$ 1,1 bilhões

Cloro e Álcalis Petroquímicos Básicos


US$ 1,4 bilhões US$ 7,4 bilhões

Gases Industriais
US$ 2,2 bilhões

Outros Inorgânicos Outros Produtos Químicos


US$ 2,5 bilhões Resinas Termof ixas
Orgânicos
US$ 1,0 bilhão
Intermediários para US$ 7,0 bilhões
Fertilizantes
US$ 2,9 bilhões

Intermediários para
Resinas e Fibras
US$ 4,0 bilhões

Gráfico 2 – Faturamento Líquido da Indústria de Produtos Químicos Industriais (2006)


Fonte: Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a)
174

O sucesso da indústria química se deve principalmente ao seu nível de inserção


no segmento industrial, servindo de fornecedora de insumos e matérias-primas para a
quase totalidade dos demais tipos de indústrias que operam na sociedade industrial. A
Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b, p. 19) considera que “a
indústria química participa ativamente de quase todas as cadeias e complexos
industriais, inclusive serviços e agricultura, desempenhando papel de destaque no
desenvolvimento das diversas atividades econômicas do País”. Com base em dados
recentemente revisados pelos IBGE, a Associação Brasileira da Indústria Química
(ABIQUIM) (2007b) menciona que a participação da indústria química no PIB total em
2006 foi de 3,1%, maior que a participação de 2% registrada nos Estados Unidos (maior
indústria química do mundo).

O gráfico abaixo demonstra a evolução histórica da participação da indústria


química no PIB total brasileiro:

3,6
3,3
3,2 3,1
3,0 3,0
2,7

2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006

Gráfico 3 - Participação da Indústria Química no PIB Total Brasileiro (2000 – 2006)


Fonte: Associação Brasileira da Indústria Química (2007b, p. 19)
175

De acordo com os dados recentemente apresentados pela Associação Brasileira


da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a) no Encontro Nacional de Indústrias Químicas
(ENAIQ), ocorrido em dezembro de 2007, o setor químico ocupou em 2005 a terceira
posição no PIB da indústria de transformação, respondendo por 11,3% do total,
conforme indicado no gráfico 4:

Alimentos e Bebidas 17,6%


Coque, Refino, Petróleo e Combustíveis 13,0%
Produtos Químicos 11,3%

Metalurgia Básica 8,7%


Veículos Automotores, Reboques e Carrocerias 8,5%

Máquinas e Equipamentos 5,8%

Metal, Exclusive Máquinas e Equipamentos 4,1%


Artigos de Borracha e Plástico 3,8%
Celulose, Papel e Produtos de Papel 3,6%
Minerais Não Metálicos 3,2%

Edição, Impressão e Reprodução de Gravações 3,1%


Máquinas, Aparelhos e Materiais Elétricos 2,3%
Material Eletrônico 2,3%

Fabricação de Produtos Têxteis 2,2%

Indústria do Couro 1,8%


Outros Equipamentos de Transporte 1,8%

Móveis e Indústrias Diversas 1,7%


Outros 5,2%

Gráfico 4 – Participação da Indústria Química no PIB Industrial (2005)


Fonte: Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a)

No mesmo encontro, a Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM)


(2007a) apresentou uma nova estimativa apontando para um novo crescimento do
faturamento da indústria química brasileira em 2007, a qual passaria dos US$ 81,6
bilhões registrados em 2006 para US$ 101,3 bilhões.
176

Outros
US$ 2,6 bilhões

Tintas, Esmaltes e
Vernizes
US$ 2,4 bilhões
Total: US$ 101,3 bilhões
Defensivos Agrícolas Produtos Químicos de
US$ 4,9 bilhões Uso Industrial
US$ 54,2 bilhões
Sabões e Detergentes
US$ 5,5 bilhões

Adubos e Fertilizantes
US$ 8,9 bilhões

Higiene Pessoal, Produtos Farmacêuticos


Perfumaria e US$ 13,6 bilhões
Cosméticos
US$ 9,1 bilhões

Gráfico 5 – Estimativa de Faturamento Líquido da Indústria por Segmentos (2007)


Fonte: Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a)

Seguindo a lógica da produção em escala, os valores crescentes de faturamento


somente foram possíveis em função do aumento de produção. Baseado no princípio da
recursividade apresentado por Morin (1998), pode-se imaginar que o aumento da
produção significa a ampliação da utilização dos recursos naturais e consequentemente
o aumento da geração de resíduos oriundos do aumento de produção, que quando
produzidos em quantidade, podem prejudicar o meio ambiente, responsável pelo
fornecimento de recursos naturais.

180,0

162,8
154,3 154,0
160,0
Índice 1990 = 100 145,1
139,2 138,4
140,0 136,1 134,2
125,8 123,3
117,4
120,0 113,6 115,3
106,2
100,0 99,9
100,0 96,2

80,0

60,0

40,0

20,0

0,0
1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006

Gráfico 6 - Evolução Produção de Produtos Químicos de Uso Industrial (1990 a 2006)


Fonte: Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a)
177

Segundo a Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a) o


setor opera perto do limite de sua capacidade instalada. De acordo com a entidade, em
2006 a taxa de ocupação de capacidade manteve-se em 87%, mesmo percentual
registrado nos dois anos anteriores, o que indica a necessidade de novos investimentos
para a ampliação da capacidade e construção de novas unidades industriais.

Recentes estudos realizados pela Associação Brasileira da Indústria Química


(ABIQUIM) (2007a) mostram que as previsões de investimentos em aumento de
capacidade previstos até 2011, no segmento de produtos químicos para uso industrial,
somam US$ 14,2 bilhões. Segundo a entidade, este valor que sobe para US$ 15,6
bilhões quando computados projetos diversos em manutenção, melhorias de processo,
segurança, meio ambiente e troca de equipamentos.

De acordo com a Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a)


a maior parte dos investimentos em expansão, aproximadamente US$ 11,6 bilhões,
refere-se a projetos ainda em estudo, dependentes, para sua efetiva execução, do
comportamento da economia brasileira e da disponibilidade de matéria-prima. As
estimativas são de que esses projetos de investimento poderão gerar cerca de 5,8 mil
empregos diretos. A entidade apenas ressalta que do total de investimentos previstos,
um único projeto, o do Complexo Petroquímico do Estado do Rio de Janeiro
(COMPERJ), envolve o equivalente a US$ 8,4 bilhões.

Outro dado interessante sobre a indústria química brasileira, diz respeito ao


déficit da balança comercial brasileira. Historicamente, o Brasil sempre importou mais
produtos químicos do que exportou, o que significa que o setor químico nacional
contribui significativamente para o déficit da balança comercial brasileira. No gráfico 7
são apresentados os dados históricos desta seqüência.
178

17,4
14,5 15,3
10,7 10,8 10,1 11,0

7,4 8,9
4,0 3,5 3,8 5,9
4,8

2000 2001 2002 2003 2004


2005
2006

Exportações Importações
Gráfico 7 – Importações/Exportações Brasileiras em US$ Bilhões FOB (2000 a 2006)
Fonte: Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b, p. 20)

Segundo o Relatório Anual 2006 disponibilizado pela Associação Brasileira da


Indústria Química (ABIQUIM) (2007a):

As exportações brasileiras de produtos químicos cresceram 20,8% em 2006,


superando o valor de US$ 8,9 bilhões. As importações somaram US$ 17,4
bilhões, com aumento de 13,3%. Ainda assim, o déficit na balança comercial
brasileira de produtos químicos foi superior a US$ 8,4 bilhões, 6,4% mais do
que o registrado em 2005, estabelecendo um novo recorde. Os produtos
químicos representaram 6,5% de todas as exportações realizadas em 2006
pelo Brasil e 19% do total das importações. Os principais destinos foram os
demais países do Mercosul (Argentina, Paraguai e Uruguai), com 25% do total
exportado (US$ 2,2 bilhões), a América do Norte (Canadá, Estados Unidos e
México), com 20% (US$ 1,8 bilhão), e a União Européia, com 17% (US$ 1,5
bilhão). As importações brasileiras de produtos químicos tiveram como
principais origens a União Européia, com 30% (US$ 5,2 bilhões), e a América
do Norte, com 29% (US$ 5,1 bilhões). Da Ásia, o Brasil importou mais de US$
2,4 bilhões de produtos químicos, o que representa incremento de 27% em
relação a 2005. As exportações brasileiras de produtos químicos para a Ásia
somaram US$ 753 milhões, 10,7% mais que no ano anterior. Em volume, foram
exportadas pelo País mais de 9,5 milhões de toneladas em produtos químicos.
Essa movimentação representa aumento de 14,2% na comparação com 2005.
O volume de importações, com crescimento de 8,9% foi superior a 21,4 milhões
de toneladas.
179

Dados mais recentes, divulgados pela Associação Brasileira da Indústria


Química (ABIQUIM) (2007a) no Encontro Anual da Indústria Química (ENAIQ)
estimavam um US$ FOB 10,7 bilhões em exportações contra US$ FOB 23,8 bilhões em
importações em 2007, estabelecendo, se confirmado, um novo recorde no déficit na
ordem de US$ FOB 13,1 bilhões.

Com relação a quantidade de indústrias químicas existentes no país, este


número apresenta variações de acordo com os critérios adotados ou estabelecidos
pelas entidades responsáveis durante a produção e publicação de dados estatísticos.
Esta ausência de critérios comuns ou a mudança deles ao longo do tempo, justificam
possíveis divergências que dificultam uma clara definição das fronteiras da indústria
química.

Apenas como um exemplo de divergência estatística, o Relatório Anual 2006


elaborado pela Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a)
menciona que em 2006 existiam no país cerca de 4.500 (quatro mil e quinhentas)
indústrias químicas, enquanto que dados do Anuário Estatístico da Relação Anual de
Informes Sociais (RAIS), elaborado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (2007),
apontavam para um total de 23.152 (vinte e três mil cento e cinqüenta e duas) indústria
químicas em 2005.

Esta variação se justifica pela dificuldade encontrada pelas diferentes entidades


no correto dimensionamento do setor, por aspectos relacionados a mudanças de
critérios (classificações), por critérios específicos definidos pela entidade responsável
pela geração da informação ou por questões como a informalidade.

Em função do nível de detalhamento das informações disponíveis, para o


desenvolvimento deste estudo, optou-se pela adoção dos dados apresentados na
Pesquisa Industrial Anual 2005 (PIA), elaborada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) (2007b) com base no CNAE 1.0 e que considera apenas empresas
com 30 (trinta) ou mais pessoas ocupadas. Segundo a pesquisa, existiam no Brasil em
2005, 7.264 (sete mil duzentas e sessenta e quatro) indústrias do ramo químico (divisão
24 – Fabricação de Produtos Químicos), o que correspondia a 4,52% do total de
indústrias de transformação. No quadro abaixo são apresentados os totais de indústrias
180

químicas em relação às indústrias de transformação em níveis: Brasil, Região Sul e


Paraná:

Quadro 24 – Total de Indústrias Químicas – Brasil, Região Sul e Paraná (2005)


Total de Indústrias de Total de Indústrias
Percentual
Transformação Químicas
Brasil 160.684 7.264 4,52%
Região Sul 43.856 1.357 3,09%
Paraná 13.788 498 3,61%
Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (2007b)

Do total de 7.264 (sete mil duzentas e sessenta e quatro) indústrias, o setor de


fabricação de sabões, detergentes, produtos de limpeza e artigos de perfumaria é o que
apresenta o maior número de indústrias, representado pelo total de 1.797 (mil
setecentos e noventa e sete) ou 24% do total. Em seguida aparecem os demais setores
conforme apresentado no gráfico:

1.259 ; 17% 999 ; 14%

827 ; 11%
775 ; 11%

224 ; 3%
47 ; 1%
1.797 ; 24% 1.153 ; 16%
184 ; 3%

24.1 Fabricação de Produtos Químicos Inorgânicos


24.2 Fabricação de Produtos Químicos Orgânicos
24.3 Fabricação de Resinas e Elastômeros
24.4 Fabricação de Fibras, Fios, Cabos e Filamentos Contínuos Artificiais e Sintéticos
24.5 Fabricação de Produtos Farmacêuticos
24.6 Fabricação de Defensivos Agrícolas
24.7 Fabricação de Sabões, Detergentes, Produtos de Limpeza e Artigos de Perfumaria
24.8 Fabricação de Tintas, Vernizes, Esmaltes, Lacas e Produtos Afins
24.9 Fabricação de Produtos e Preparados Químicos Diversos

Gráfico 8 – Total de Indústrias Químicas por Setor (2005)


Fonte: Adaptado do Instittuto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (2007b)
181

Em termos de concentração, a região sudeste apresenta o maior número de


empresas, com 4.487 (quatro mil quatrocentas e oitenta e sete) indústrias (61,78%). O
segundo lugar é ocupado pela região sul, com 1.357 (mil trezentas e cinqüenta e sete)
indústrias (18,68%). No quadro abaixo é apresentado o percentual de participação de
cada região:

Quadro 25 – Total de Indústrias Químicas por Região (2005)


Número de Participação
Indústrias Químicas (%)
Região Sudeste 4.487 61,78%
Região Sul 1.357 18,68%
Região Nordeste 744 10,24%
Região Centro-Oeste 403 5,55%
Região Norte 272 3,75%
Total Brasil 7.263 100,00%
Fonte: Adaptado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (2007b)

Entre os Estados localizados na região sul, o Rio Grande do Sul se destaca em


função da presença de um pólo petroquímico. O Paraná possuía em 2005, 498
(quatrocentas e noventa e oito) indústrias, representando um total de 36,70% de
participação na região sul.

Quadro 26 – Participação por Estados – Região Sul


Número de Participação
Indústrias Químicas (%)
Rio Grande do Sul 537 39,57%
Paraná 498 36,70%
Santa Catarina 322 23,73%
Total Região Sul 1.357 100,00%
Fonte: Adaptado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (2007b)

Em 2005 o Paraná ocupava uma posição significativa no contexto nacional em


termos de número de indústrias químicas instaladas, se situava na 5ª. posição em nível
nacional, logo após dos Estados que possuem pólos petroquímicos.
182

Quadro 27 – Número de Indústrias Químicas por Unidade da Federação (2005)


Número de Indústrias Participação
Químicas (%)
São Paulo 2947 40,58%
Minas Gerais 902 12,42%
Rio de Janeiro 569 7,83%
Rio Grande do Sul 537 7,39%
Paraná 498 6,86%
Santa Catarina 322 4,43%
Bahia 259 3,57%
Goiás 249 3,43%
Pará 193 2,66%
Pernambuco 135 1,86%
Ceará 121 1,67%
Mato Grosso 74 1,02%
Espírito Santo 69 0,95%
Maranhão 56 0,77%
Mato Grosso do Sul 46 0,63%
Paraíba 44 0,61%
Amazonas 40 0,55%
Sergipe 39 0,54%
Rio Grande do Norte 36 0,50%
Distrito Federal 34 0,47%
Alagoas 28 0,39%
Piauí 26 0,36%
Rondônia 17 0,23%
Tocantins 15 0,21%
Acre 4 0,06%
Amapá 3 0,04%
Roraima 0 0,00%
Total Brasil 7.263 100,00%
Fonte: Adaptado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (2007b)

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (2007b) o


número de pessoal ocupado na indústria química em 2005 era de 339.833 (trezentos e
trinta e nove mil oitocentos e trinta e três) empregados. Dentro deste universo, o setor
que detinha o maior número de empregados em 2005 era o de Fabricação de Produtos
Farmacêuticos, sendo responsável por 91.261 (noventa e um mil duzentos e sessenta e
um) ou 27%. Em seguida, são apresentadas as participações dos demais setores:
183

39.732 ; 12% 45.633 ; 13%


27.064 ; 8%
35.259 ; 10%

15.717 ; 5%
67.906 ; 20%
5.899 ; 2%

11.362 ; 3% 91.261 ; 27%

24.1 Fabricação de Produtos Químicos Inorgânicos


24.2 Fabricação de Produtos Químicos Orgânicos
24.3 Fabricação de Resinas e Elastômeros
24.4 Fabricação de Fibras, Fios, Cabos e Filamentos Contínuos Artificiais e Sintéticos
24.5 Fabricação de Produtos Farmacêuticos
24.6 Fabricação de Defensivos Agrícolas
24.7 Fabricação de Sabões, Detergentes, Produtos de Limpeza e Artigos de Perfumaria
24.8 Fabricação de Tintas, Vernizes, Esmaltes, Lacas e Produtos Afins
24.9 Fabricação de Produtos e Preparados Químicos Diversos

Gráfico 9 – Total de Empregados na Indústria Química por Setor (2005)


Fonte: Adaptado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (2007b)

No quadro abaixo são apresentados os percentuais de pessoal ocupado nas


indústrias químicas em relação às indústrias de transformação, nas esferas nacional,
regional e estadual:

Quadro 28 – Total de Pessoal Ocupado - Brasil, Região Sul e Paraná (2005)


Total de Indústrias de Total de Indústrias
Transformação Químicas Percentual
Brasil 6.222.472 339.833 5,46%
Região Sul 1.590.334 43.421 2,73%
Paraná 479.973 16.964 3,53%
Fonte: Adaptado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (2007b)

Os números apresentados neste capítulo apresentam a dimensão econômica e a


velocidade de expansão da indústria química na contemporaneidade. Além de revelar
as dimensões do setor químico em nível mundial e nacional, estes números apresentam
mais uma vez evidências do sucesso da racionalidade econômica no setor e apontam
184

para a manutenção de sua expansão no futuro, fato que poderá contribuir para níveis
crescentes da utilização dos recursos naturais bem como para o aumento dos níveis de
geração de resíduos que poderão contribuir de alguma forma para o agravamento da
saúde ambiental planetária.

2.3.5. Indústrias Químicas, Sociedade e Meio Ambiente

O sucesso econômico alcançado pela predominância da racionalidade


instrumental na sociedade contemporânea pode ser facilmente percebido pelos
números que comprovam a expansão da economia mundial, o incremento da
população mundial e o crescimento dos volumes de produção industrial. Infelizmente
todas as vantagens obtidas pela capacidade humana de estabelecer o seu domínio
sobre os meios de produção e sobre a ciência, e que em um primeiro momento
prometiam o atingimento de melhores condições de vida, vieram acompanhadas por
uma lógica exponencial de destruição da natureza e consequentemente da criação de
novos riscos.

De acordo com Lage e Valle (2004, p. 25) com os avanços tecnológicos


alcançados no final do século XIX, os riscos se potencializaram:

Os combustíveis líquidos, produzidos a partir do petróleo, introduziram novas


variáveis – volatilidade, fluidez, inflamabilidade mais intensa que no carvão –
que aumentam os riscos de acidentes e facilitam as contaminações por
infiltração no solo e dispersão nas águas. A introdução do gás para iluminação
e como combustível contribuiu para melhorar as condições do ar nas grandes
cidades, se comparado com a queima do carvão, mas trouxe mais riscos de
vazamento e o fator pressão, inexistentes com o uso do carvão. A evolução
tecnológica trouxe também, como resultado, novos materiais produzidos pela
síntese química – ácidos, anilinas, álcalis, bem como aplicações para novos
elementos químicos – cloro, bromo, flúor, cádmio, cujos efeitos sobre a saúde
humana e o meio ambiente eram ainda pouco conhecidos. Os primeiros
experimentos com os elementos radioativos e o uso, ainda desprovido de
proteções adequadas, das radiações ionizantes, agregaram novos fatores de
risco de acidentes com a chegada ao século XX.

Os números apresentados neste estudo e que retratam o sucesso econômico


obtido pela indústria química mundial, comprovam a predominância da racionalidade
instrumental no mundo corporativo e o poder político e econômico por ela oferecido aos
185

controladores das atividades econômicas. De acordo com Demajorovic (2003, p. 72 e


73):

Em diversos países desenvolvidos, particularmente nos Estados Unidos,


poucos setores industriais se desenvolveram de forma mais independente dos
governos do que o setor químico. Embora por vezes ajudado por empréstimos e
contratos governamentais, apresentou, desde os anos de 1920, uma incrível
capacidade de autofinanciar seu crescimento. Sem se preocupar com a
intervenção do setor público ou a pressão da sociedade, as empresas tiveram,
até a década de 1960, autonomia quase total para comandar seus próprios
negócios.

Segundo Demajorovic (2003, p. 73):

Nada parecia ameaçar, portanto, o crescimento promissor das indústrias


químicas. Sempre inovando, transformando idéias em produtos comerciais e
com uma eficiente campanha de divulgação que criava novas necessidades de
consumo, o setor aumentava os lucros na medida em que conseguia assegurar
um mercado ávido por absorver uma quantidade e variedade de produtos cada
vez maior. Fibras sintéticas ganharam mercados antes dominados pelas fibras
de algodão, garrafas plásticas passaram a ocupar espaços crescentes nas
prateleiras dos supermercados, desbancando as tradicionais garrafas de vidro,
e uma infinidade de novos pesticidas e adubos prometiam uma revolução verde
no campo, incrementando a produtividade das diversas monoculturas.

Contudo, de acordo com Demajorovic (2003) a expansão crescente da produção


e do consumo não significou apenas o aumento do faturamento do setor, do emprego e
das condições de atendimento de novas necessidades dos consumidores, significou
também o crescimento exponencial do volume de resíduos gerados. Para o autor, a
análise restrita dos números encobriu uma faceta inerente ao desenvolvimento
químico: o aumento dos riscos socioambientais.

Para Demajorovic (2003), poucos setores industriais contribuíram tanto para a


emergência da modernização reflexiva ao criar uma variedade de riscos
socioambientais e, ao mesmo tempo, propiciar o crescimento da autocrítica,
representada pela intensa mobilização da sociedade em torno da problemática
ambiental. Apesar de considerar que a atividade química não seja a principal
responsável pela geração de resíduos, Demajorovic (2003, p. 73) afirma que “nenhum
outro setor produziu tamanha quantidade e variedade de resíduos tóxicos, com efeitos
muitas vezes desconhecidos sobre o meio ambiente e os seres humanos”.
186

A ampliação da produção mundial de produtos químicos com a conseqüente


ampliação da geração de resíduos industriais e urbanos propiciou que os efeitos não
desejados passassem a ser gradativamente detectados por especialistas e pelas
diferentes sociedades locais que habitavam localidades próximas às indústrias
químicas poluidoras. De acordo com Demajorovic (2003), até os anos 1960 pouco se
sabia sobre os subprodutos associados ao desenvolvimento industrial químico, em
função do grande crescimento econômico e da prosperidade vividos nos quinze anos
que se seguiram logo após o final da Segunda Guerra Mundial. De acordo com o autor,
no mesmo momento em que grande parte da população nos países industrializados
sorvia os benefícios de um boom econômico sem precedentes, continuava ignorando o
fato de que alguns insumos e produtos estavam intoxicando trabalhadores e
consumidores ou de que resíduos gerados, em quantidades cada vez maiores, eram
simplesmente lançados em lixões a céu aberto ou em corpos d´água, sem qualquer
tipo de tratamento. Algumas destas situações passaram a ser gradativamente
identificadas por especialistas entre as décadas de 1950 e 1970, conforme
apresentado no quadro 29:

Quadro 29 – Pesquisas sobre os Efeitos Nocivos de Produtos Químicos


Ano Pesquisa
Dois pesquisadores da Universidade de Siracusa (Nova Iorque), Verlus Frank Linderman e
Howard Burlington, alertavam para o fato de que o uso do Dicroro Difenil Tricloroetano
1950
(DDT) em excesso poderia alterar a química hormonal dos animais, levando a uma
acentuada queda de fertilidade.
Publicação do livro Primavera Silenciosa, de Rachel Carson – o primeiro livro a expor os
1962
efeitos nocivos do uso indiscriminado de produtos químicos.
O Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos publicou estudos indicando a maior
incidência de tumores no fígado de camundongos expostos ao DDT. Foi o combustível
ideal para que os ambientalistas aumentassem sua pressão para banir o uso do produto,
1969
uma vez que o câncer já constituía um tema particularmente sensível entre a opinião
pública norte-americana. Em 1971, o presidente Nixon declarou guerra total à doença e,
em 1972, a EPA decretou o fim do uso do DDT no país.
Representou para as empresas químicas o início de grandes investimentos para
cumprimento de regulamentações. Nos Estados Unidos, a partir dessa década, cerca de
10% de todos os investimentos em novas unidades industriais passaram a ser destinados
Década a programas de controle de poluição. Além dos gastos com novos equipamentos
de 1970 industriais, as grandes empresas tiveram de criar estruturas para organizar e coletar as
informações exigidas pelo governo. Segundo Piasecki citado por Demajorovic (2003) de
1970 a 1978 mais de um terço de todos os conflitos judiciais envolvendo unidades
industriais nos Estados Unidos teve como protagonistas empresas do setor químico.
Fonte: Adaptado de Demajorovic (2003, p. 74 e 75)
187

De acordo com Demajorovic (2003, p. 76), estas situações ocorridas nos Estados
Unidos contribuíram para o estabelecimento de uma nova relação entre empresas e
órgãos de governo, uma vez que ambos não podiam mais ignorar a pressão dos
grupos não-governamentais organizados. Segundo o autor, “as entidades públicas e
privadas que tradicionalmente conjugaram seus esforços visando o crescimento
econômico viram-se em lados opostos, pelo menos no que concerne à problemática
ambiental”, uma vez que “novas leis impostas pelos órgãos ambientais passaram a
controlar de forma mais restritiva produtos e processos industriais químicos”
(DEMAJOROVIC, 2003, p. 76).

Demajorovic (2003) menciona que apesar das mudanças decorrentes da pressão


de grupos ambientalistas e da regulação ambiental mais restritiva, a posição da maior
parte das empresas do setor químico continuava a ser tipicamente reativa. Segundo o
autor:

Para representantes da Chemical Manufactures Association (CMA), a maior


união de indústrias químicas nos Estados Unidos, as empresas tratavam a nova
situação regulatória como um complô dos grupos ambientalistas. O esforço de
indústrias importantes no cenário mundial como a DuPont ou a Dow Química,
entre outras, era barrar ou retardar a aprovação das leis de controle ambiental.
Paralelamente, as empresas passaram a financiar grandes campanhas
publicitárias para “educar” o público em geral sobre os benefícios da indústria
química. O objetivo principal era reverter a imagem do setor perante a opinião
pública visando reduzir os custos impostos pela legislação, que restringiam as
possibilidades de crescimento do setor (DEMAJOROVIC, 2003, p. 77).

De acordo com Demajorovic (2003) os resultados esperados para as campanhas


não atingiram o objetivo de mudar a opinião pública. De acordo com o autor, neste
momento a preocupação ambiental, especialmente em relação à indústria química, já
havia sido incorporada na sociedade dos países industrializados, resultando em um
grande número de adesões aos diversos grupos envolvidos na luta contra os produtos
tóxicos. Dentre as principais reivindicações dos grupos organizados destacavam-se:
mudanças no consumo de matérias-primas, nos produtos, nos processos e no acesso
às informações em poder dos governos e das indústrias.

Com a ampliação da produção, dos resíduos e consequentemente dos riscos


inerentes de sua própria operação, o setor químico mundial passou a sofrer maiores
188

pressões por parte da sociedade organizada em decorrência de acidentes de grandes


proporções ocorridos nas mesmas décadas que demarcaram sua expansão. Estes
acidentes serviram para reforçar a opinião pública quanto aos riscos envolvidos na
fabricação, destino dos resíduos industriais, transporte e consumo de produtos
químicos, fato que contribuiu para a ampliação da regulamentação do setor. De acordo
com Demajorovic (2003, p. 78) “os inúmeros acidentes envolvendo indústrias químicas
em diversos países colocaram no centro do debate os problemas associados ao
consumo de produtos tóxicos, ao seu gerenciamento e à distribuição dos riscos
decorrentes da expansão da atividade”.

No quadro 30 são apresentados diversos fatos e acidentes ocorridos com


produtos químicos e indústrias químicas em diferentes épocas e países, os quais
revelam a existência de riscos na produção, no transporte, no destino de resíduos
industriais e no consumo. Estes fatos somados, contribuíram direta e indiretamente
para a formação de uma imagem negativa do setor perante a opinião pública:

Quadro 30 – Acidentes Ocorridos com Indústrias Químicas/Produtos Químicos


Ano Local Fato Ocorrido
Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), gases tóxicos são
utilizados por ambos os lados em combate, causando cerca de 100 mil
mortes. Este fato foi confirmado por um dos entrevistados que participou
1914 Europa
desta pesquisa, o qual revelou ao pesquisador que o seu pai havia lutado
na 1ª. Guerra Mundial e que naquela época os gases produzidos por
indústrias químicas já eram utilizados como arma de guerra.
Acidente com gás venenoso fosgênio em um fábrica de Hamburgo mata 10
1928 Alemanha
pessoas e envenena gravemente outras 150.
1929 EUA Início da produção comercial de bifenilas policloradas (PCB´s).
39
1930 Bélgica Uma ocorrência de smog próximo a Liège causa 100 vítimas fatais.
Indústria química instalada às margens da baía de Minamata passa a
1932 Japão lançar no mar efluentes contaminados com mercúrio. Os efeitos do
mercúrio sobre o organismo eram então desconhecidos.
Bombas atômicas são utilizadas, ao final da Segunda Guerra Mundial,
contra as cidades de Hiroshima e Nagasaki, causando mais de 120 mil
1945 Japão
mortes e provocando a contaminação radioativa de extensas áreas
naquelas cidades.
Continua (...)

39
De acordo com Mundo e Educação (2007) A palavra “Smog” é uma junção de duas palavras da língua inglesa:
“smoke” e “fog”, respectivamente, fumaça e neblina. Smog é um fenômeno que ocorre principalmente nas grandes
cidades, se caracterizando como a mistura de gases, fumaça e vapores de água, formando uma grande massa de ar.
Mais precisamente, o smog é formado por óxidos de nitrogênio (NOx), compostos voláteis orgânicos (VOC),
dióxido de sulfureto, aerossóis ácidos e gases.
189

Indústria do Estado de Ohio lança, com autorização do governo, cerca de


1951 EUA
200 toneladas de poeira radioativa no meio ambiente.
Identifica-se que a contaminação por mercúrio lançado na baía de
Minamata é a causa de disfunções neurológicas em pessoas e animais,
1952 Japão
acarretando mais de quinhentas vítimas humanas fatais entre aquelas que
se alimentaram com peixes e frutos do mar da região.
O smog ocorrido em Londres durante cinco dias, resultante da queima de
1952 Inglaterra
carvão mineral, causa mais de 4 mil vítimas fatais.
A área ocupada por um canal inacabado – o Love Canal, no estado de
Nova York – e posteriormente usada como depósito de resíduos tóxicos,
1953 EUA
passa a ser habitada, acarretando graves conseqüências para a saúde dos
seus moradores.
Um acidente em uma indústria química, na cidade de Ludwigshafen,
Alemanha
1953 provoca emissões de tetraclorodibenzoparadioxina (TCDD), um dos tipos
Federal
de dioxina, que afetam 55 pessoas.
Um teste nuclear com bomba de hidrogênio, no atol de Bikini, contamina
Oceano com radioatividade uma área com cerca de 18 mil quilômetros quadrados
1954
Pacífico do oceano e atinge algumas ilhas habitadas, devido a mudanças
imprevistas na direção dos ventos.
O uso impróprio, para alimentação, de sementes de trigo tratadas com
fungicidas com base de mercúrio provoca muitas mortes. Desastres desse
1956 Iraque
mesmo tipo se repetem em 1960 e 1972 no Iraque, em 1963 no Paquistão
e em 1966 na Guatemala.
Acidente com um reator de plutônio, na usina de Windscale, libera
quantidades de material radioativo que contaminam corpos d´água, animais
1957 Inglaterra e o leite, em uma vasta área de ilhas Britânicas, causando 35 vítimas
comprovadas e aumento dos casos de câncer na população nos anos
subseqüentes.
Acidente em uma instalação nuclear, nos montes Urais, provoca a
contaminação radioativa de uma vasta área e causa centenas de vítimas
União
1957 fatais devido à radiação recebida. Relatório publicado em 1992 relata que
Soviética
mais de 8 mil pessoas haviam morrido, até aquele ano, em decorrência
desse acidente.
O navio-tanque Sinclair Petrolore lança cerca de 60.000 toneladas de óleo
1960 Brasil
ao largo da costa.
O Presidente Kennedy autoriza o emprego da guerra química com o uso do
1961 Vietnã agente laranja, desfolhante associado a dioxinas. Esta ação teve início em
1961 e terminou somente em 1971.
Três técnicos morrem em um acidente com um reator nuclear experimental
1961 EUA
em Idaho Falls.
Radiação disseminada no interior do primeiro submarino nuclear soviético
1961 URSS
mata o comandante e vários tripulantes.
O navio-tanque Heimvard lança cerca de 50.000 toneladas de óleo próximo
1965 Japão
à ilha de Hokkaido.
O navio-tanque Anne Mildred Broving lança cerca de 20.000 toneladas de
1966 Mar do Norte
óleo no mar.
Navio desconhecido lança cerca de 35.000 toneladas de óleo na baía de
1966 México
Campeche, próximo de Vera Cruz.
Reator experimental na região de Detroit funde-se parcialmente devido à
1966 EUA
uma falha no sistema de refrigeração.
O navio-tanque Torrey Canyon lança cerca de 120.000 toneladas de óleo
1967 Mar do Norte
no mar, afetando os litorais da Inglaterra, França e Holanda.
Quarenta lagos e rios são considerados contaminados com metilmercúrio
1967 Suécia originado, provavelmente, de sementes tratadas com mercúrio.

Continua (...)
190

O navio-tanque World Glory derrama cerca de 50.000 toneladas de óleo a


1968 África do Sul
100 km da costa de Durban.
Radiação emitida devido ao mau funcionamento de um reator experimental
1969 Suíça
obriga à lacração da caverna onde estava instalado.
O navio-tanque Julius Schindler lança cerca de 90.000 toneladas de óleo no
1969 Portugal
oceano próximo à costa dos Açores.
Ilhas O navio-tanque Ennerdale lança cerca de 50.000 toneladas de óleo no
1970
Seychelles oceano próximo a essas ilhas.
O navio-tanque Othello lança cerca de 70.000 toneladas de óleo na baía de
1970 Suécia
Tralhavet.
1971 África do Sul O navio-tanque Wafra lança 40.000 toneladas de óleo no litoral.
O navio-tanque Texaco Denmark lança cerca de 100.000 toneladas de óleo
1971 Mar do Norte
próximo à costa belga.
O navio-tanque Sea Star lança cerca de 130.000 toneladas de óleo no golfo
1972 Omã
de Omã.
Oceano O navio-tanque Napier perde cerca de 40.000 toneladas de óleo perto da
1973
Pacífico costa chilena.
Mario Molina e L. S. Rowland demonstram a relação entre os compostos de
1974 EUA clorofluorcarbono (CFC´s) e a destruição do ozônio nas camadas
superiores da atmosfera.
O navio-tanque Yuyo Maru lança mais de 50.000 toneladas de óleo ao largo
1974 Japão
da costa da ilha de Honshu.
O navio-tanque Metula lança cerca de 50.000 toneladas de óleo no estreito
1974 Chile
de Magalhães.
O navio-tanque grego Tarik, fretado pela Petrobras, derrama cerca de 6.000
1975 Brasil
toneladas de óleo na baía de Guanabara.
O navio-tanque Epic Colocotronis lança cerca de 60.000 toneladas de óleo
1975 Porto Rico
no mar a 100 km da costa.
Alemanha
Um curto-circuito na instalação nuclear de Lubmin causa um incêndio que
1975 (República
quase provoca a fusão do núcleo do reator.
Democrática)
Incêndio em usina nuclear no Alabama faz baixar o volume da água de
1975 EUA
resfriamento do reator a níveis alarmantes
O navio-tanque British Ambassador lança cerca de 50.000 toneladas de
1975 Japão
óleo a 300 quilômetros da costa de Iwo Jima.
O navio-tanque Jacob Maersk lança cerca de 90.000 toneladas de óleo na
1975 Portugal
costa de Portugal, próximo ao porto de Leixões.
O navio Urquiola encalha na costa e lança cerca de 95.000 toneladas de
1976 Espanha
óleo na baía de La Coruña.
O navio-tanque St. Peter lança cerca de 35.000 toneladas de óleo próximo
1976 Colômbia
à ponta de Manglares.
Na cidade de Seveso, uma indústria lança acidentalmente no ambiente 2,5
1976 Itália quilos de dioxinas, provocando contaminação de moradores e obrigando o
sacrifício de cerca de 70 mil animais.
Movimentos de conscientização para a poluição gerada pelo Pólo Industrial
1976 Brasil
de Cubatão exigem a recuperação ambiental da região.
O navio-tanque Hawaiian Patriot lança cerca de 95.000 toneladas de óleo
1977 EUA
na costa de Honolulu, Havaí.
O navio Borag lança cerca de 35.000 toneladas de óleo próximo de
1977 China
Chilung.
O navio-tanque Amoco Cadiz derrama cerca de 6.000 toneladas de
1978 Brasil
petróleo no litoral de São Paulo.
O navio-tanque Amoco Cadiz lança cerca de 230.000 toneladas de óleo no
1978 França oceano Atlântico, contaminando mais de 200 quilômetros da costa
francesa.
Continua (...)
191

O navio-tanque Tadotsu perde cerca de 45.000 toneladas de óleo no


1978 Indonésia
estreito de Málaca, próximo a Dumai.
O navio-tanque Andro Patria lança cerca de 50.000 toneladas de óleo
1978 Espanha
próximo à costa do cabo Villano.
Atlântico A organização ambientalista Greenpeace tenta impedir o lançamento, pela
1978
Norte Grã-Bretanha, de 2.000 toneladas de lixo nuclear no oceano.
O navio-tanque Atlantic Empress lança cerca de 278.000 toneladas de óleo
1979 Tobago
no oceano.
O navio-tanque Independenza lança cerca de 95.000 toneladas de óleo no
1979 Turquia
estreito de Bósforo, que separa a Europa da Ásia.
O navio-tanque Patianna derrama cerca de 40.000 toneladas de óleo no
1979 Dubai
mar, próximo a esse emirado.
Um dos reatores da usina nuclear de Harrisburg, em Three Mile Island,
1979 EUA
funde parcialmente, liberando água radioativa.
O navio-tanque Gino lança cerca de 35.000 toneladas de óleo próximo à
1979 França
costa da Bretanha.
Uma plataforma de petróleo no golfo do México libera cerca de 170.000
1979 EUA toneladas de petróleo no mar antes de ser controlada nove meses depois,
em 1980.
Uma fábrica de armas biológicas situada em Sverdlovsk liberou
1979 URSS acidentalmente uma nuvem de esporos de antraz, causando a morte de
pelo menos 68 pessoas.
Descarrilhamento de trem com produtos químicos provoca incêndio e
1979 Canadá escapamento de cloro, obrigando à evacuação de 226 mil moradores na
cidade de Mississauga, na região de Toronto.
O navio Burmah Agate lança 35.000 toneladas de óleo na entrada da baía
1979 EUA
de Galveston, Texas.
Em Lengerich uma fábrica de cimento contamina a região com tálio, metal
Alemanha
1979 pesado venenoso, tornando as terras impróprias para a agricultura e
Federal
desfolhando árvores.
A plataforma Alexander Keillan naufraga no campo petrolífero de Ekofisk,
1980 Mar do Norte
matando 123 pessoas.
O navio-tanque Irenes Serenad lança cerca de 40.000 toneladas de óleo no
1980 Grécia
porto de Arzew.
Identificados casos de anomalias congênitas na população que vive na
região do Pólo Industrial de Cubatão, no estado de São Paulo. Na década
de 1980, entidades criam uma intensa movimentação da opinião pública em
torno dos dramáticos impactos socioambientais provocados pelo descaso
das indústrias instaladas em Cubatão, com a qualidade de vida da
população da região. Em 1982, um ano depois da instituição da Política
1980 Brasil 40
Nacional do Meio Ambiente , foi iniciado um plano de controle das fontes
de poluição nas empresas de Cubatão. Segundo estudos da época, as
empresas instaladas na região eliminavam diariamente cerca de 236,6
toneladas de poeira, 2,6 toneladas de fluoretos, 8,7 toneladas de amônia,
61 toneladas de óxido de nitrogênio e 78,3 toneladas de dióxido de enxofre,
entre outros gases.
O navio-tanque Globe Asami lança cerca de 16.000 toneladas de óleo no
1981 URSS
mar Báltico, matando milhares de pássaros.
1981 Japão 45 funcionários são expostos a radioatividade, em uma usina em Tsuruga.

Continua (...)
40
De acordo com Demajorovic (2003, p. 109) a “Política Nacional do Meio Ambiente representou um marco
histórico ao introduzir a responsabilização por crimes ambientais e eleger o Ministério Público como importante ator
para a solução de conflitos judiciais ligados à degradação ambiental”.
192

O destróier Sheffield, da marinha britânica, suspeito de conduzir armas


1982 Atlântico Sul nucleares, é afundado pela aviação argentina durante a Guerra das
Malvinas.
Atlântico A organização Greenpeace documenta o lançamento de rejeitos atômicos
1982
Norte no oceano, por parte da Grã-Bretanha e Holanda.
O navio-tanque espanhol Castillo de Bellver, carregado com cerca de
1983 África do Sul
260.000 toneladas de óleo, afunda ao largo da costa de Table Bay.
Golfo O navio-tanque Assimi lança cerca de 53.000 toneladas de óleo próximo à
1983
Pérsico costa de Omã.
3 milhões de litros de óleo vazam de oleoduto em Bertioga, estado de São
1983 Brasil
Paulo.
Acidente com trem transportando gasolina em Pojuca, na Bahia. Furto do
1983 Brasil combustível derramado por membros da população local provoca incêndio
que causa 99 mortes.
Armas químicas são utilizadas por esses dois países em guerra, entre 1983
1983 Irã-Iraque
e 1988, causando milhares de mortes.
Uma cápsula de cobalto-60, intensamente radioativa, é levada de um
hospital em Juarez para um depósito de sucata. Seu conteúdo é utilizado
1983 México
por uma siderúrgica para fazer vergalhões de construção, contaminando
centenas de prédios nos EUA, para onde o material foi exportado.
O navio-tanque Pericles GC lança cerca de 50.000 toneladas de óleo na
1983 Qatar
costa de Doha.
Vazamento na Central Nuclear de Philipsburg resulta no lançamento de
1983 EUA
iodo-131 no ambiente.
Grã- Constata-se que a usina de reprocessamento nuclear de Sellafield está
1983
Bretanha lançando no mar resíduos oleosos radioativos.
Vazamento de isocianato de metila, em uma planta química, em Bhopal,
1984 Índia provoca morte de 3.400 pessoas (alguns cálculos chegam a 6.400) e afeta
seriamente a saúde de aproximadamente 200 mil.
Um incêndio e explosões na favela da Vila Socó, construída junto a
1984 Brasil
oleodutos, em Santos, em São Paulo, mata mais de 100 pessoas.
Incêndio, seguido de explosão, provocado por vazamento de gás no campo
1984 Brasil
de Enchova, bacia de Campos, causa a morte de 37 pessoas.
Incêndio em refinaria na Cidade do México, com explosões sucessivas de
tanques de armazenamento e botijões de gás liquefeito de petróleo (GLP),
1984 México
tem como conseqüência a morte de cerca de quinhentas pessoas e
ferimentos em mais de 4 mil.
Explosão destrói uma base de submarinos nucleares causando 10 vítimas
1985 URSS fatais imediatas e um número desconhecido de mortes posteriores
provocadas por exposição à radiação.
O navio-tanque Nova lança cerca de 70.000 toneladas de óleo próximo à
1985 Irã
ilha de Kharg.
Experimentos com armas biológicas provocam mais de 1.000 mortes,
1986 URSS
supostamente devido a contaminação com antraz.
Um dos quatro reatores da Usina Nuclear de Chernobyl, na atual República
da Ucrânia, explode, causando intensa contaminação radioativa em toda a
região, com efeitos em diversos países vizinhos. As autoridades soviéticas
informaram a ocorrência de 31 mortes devido ao acidente e a necessidade
1986 URSS
de evacuação de mais de 100 mil habitantes das regiões vizinhas. De
acordo com Demajorovic (2003) o acidente causou a morte de 10.000
pessoas e mais um número incalculável de casos de câncer em vários
países da Europa.
Dois acidentes, com intervalo de 6 meses, em duas plantas químicas
1986 Suíça distintas, na Basiléia, contaminam o rio Reno com pesticidas e mercúrio.

Continua (...)
193

Uma cápsula de césio-137, isótopo radioativo, deixada em um hospital


1987 Brasil desativado é violada por um sucateiro, libera radiação que contamina e
mata várias pessoas em um bairro de Goiânia, em Goiás.
O navio-tanque Odyssey lança cerca de 132.000 toneladas de óleo no
1988 Canadá
oceano a 560 quilômetros da costa da Terra Nova.
5 mil curdos são mortos com gás mostarda e outras armas químicas
1988 Iraque
utilizadas pelo exército iraquiano.
Explosão de fábrica que produzia perclorato de amônia (combustível para
1988 EUA
foguetes), no deserto de Nevada.
Canal da
1988 O cargueiro Anne Broere afunda com 24.800 litros de acrilonitrila tóxica.
Mancha
A plataforma de petróleo Piper Alpha explode, matando 167 dos 232
1988 Mar do Norte
homens que trabalhavam em suas instalações.
O navio-tanque Exxon Valdez encalha em um recife no estreito Prince
William e lança cerca de 40.000 toneladas de óleo na costa do Alasca,
matando milhares de animais e contaminando as águas da região numa
1989 EUA
extensão de mais de 2.000 quilômetros de costa. Gasto com a limpeza das
costas atingidas e ações de indenização, pagas ou pleiteadas, superam a
cifra dos US$ 10 bilhões.
Próximo à costa da Alemanha, o cargueiro Oostzee enfrenta mar agitado
1989 Mar do Norte transportando 4 mil tambores de epicloridrina. Um grave acidente é evitado
por pouco, graças à pronta ação de salvamento realizada.
Ilhas O navio-tanque Khark 5 explode ao norte dessas ilhas, perdendo cerca de
1989
Canárias 80.000 toneladas de óleo.
Ilha da
1989 O navio-tanque Aragon perde cerca de 25.000 toneladas de óleo.
Madeira
Centenas de milhares de toneladas de petróleo queimam diariamente,
durante meses, como conseqüência da destruição dos campos petrolíferos
1991 Kuwait
desse país promovida pelas tropas iraquianas, em retirada, durante a
Guerra do Golfo.
O ferry Moby Prince abalroa o navio-tanque Agip Abruzzo, causando 140
1991 Itália mortes e provocando a poluição com óleo na costa de Livorno, no mar
Mediterrâneo.
O navio-tanque Haven se incendeia próximo a Gênova e afunda no mar
1991 Itália
Mediterrâneo com 143.000 toneladas de petróleo.
O navio-tanque ABT Summer se incendeia ao largo da costa de Angola,
1991 Angola
carregado com 260.000 toneladas de óleo.
A cidade de Guadalajara é sacudida por uma explosão em seu sistema de
esgoto municipal, causada por infiltração de combustível, acarretando mais
1992 México
de duzentos mortos, cerca de 15 mil desabrigados, 25 quarteirões
destruídos e uma cratera de quase 2 quilômetros de comprimento.
O navio-tanque Katina P lança cerca de 72.000 toneladas de óleo na costa
1992 Moçambique
africana.
O navio-tanque Aegean Sea encalha e lança cerca de 80.000 toneladas de
1992 Espanha
óleo na baía de La Coruña.
Avião de carga transportando explosivos e produtos químicos cai nos
1992 Holanda
arredores de Amsterdã, causando 43 mortes.
Três funcionários são contaminados ao entrar em um acelerador nuclear de
1992 França
partículas, em Forbach, sem a proteção de roupas adequadas.
Acidente em uma planta química próxima a Frankfurt provoca danos à
1993 Alemanha
saúde de 192 pessoas.
Ilhas O navio-tanque Braer, ao partir-se em dois, lança cerca de 85.000
1993
Shetland toneladas de óleo no mar no Norte.
O navio-tanque Maersk Navigator atinge a costa em Sumatra e perde uma
1993 Indonésia
quantidade desconhecida de óleo.
Continua (...)
194

Coréia do Explosão provocada por vazamento de gás no metrô de Daegu provoca


1995
Sul 101 mortes.
Doze pessoas morrem no metrô de Tóquio, vítimas do gás sarin (também
1995 Japão denominado gás dos nervos), lançado por fanáticos religiosos. Centenas de
passageiros são intoxicados.
A qualidade imprópria da água utilizada por um hospital de Caruaru, em
1996 Brasil Pernambuco, contamina equipamentos de diálise renal, causando a morte
de vários pacientes.
Dois acidentes sucessivos em indústria química de Frankfurt contaminam o
1996 Alemanha
ar e o rio Meno.
País de O navio-tanque Sea Empress encalha e lança cerca de 70.000 toneladas
1996
Gales de óleo na costa galesa.
Na ilha de Marinduque mais de 1,6 milhão de metros cúbicos de rejeitos de
1996 Filipinas uma mina de cobre escoam para o rio Boac e três de seus afluentes,
afetando mais de 20 mil moradores na região.
O navio-tanque russo Nakhodka parte em dois, e sua popa afunda na costa
1997 Japão do Japão. Das 17.000 toneladas de óleo que transportava, 6.000 toneladas
vazam para o mar, atingindo a costa.
Canal da O navio Bona Fulmar, abalroado por outro, lança cerca de 4.000 toneladas
1997
Mancha de óleo no mar.
Após uma explosão a bordo, o navio-tanque Petron lança cerca de 200.000
1997 Filipinas
litros de óleo no mar na costa sul das Filipinas.
O navio-tanque Evoikos, carregado de 120.000 toneladas de óleo, choca-se
1997 Cingapura com um cargueiro e lança 25.000 toneladas de óleo no estreito de
Cingapura.
Cerca de 12 toneladas de toluilendiamina escapam de uma indústria
1997 Alemanha química em Dormagen. Cerca de 100 automóveis têm sua pintura
danificada. Não se registram vítimas humanas.
O navio-tanque Diamond Grace encalha próximo a Tóquio e perde cerca de
1997 Japão
1.500 toneladas de óleo.
A ruptura de uma barragem de contenção de uma mina provoca uma
avalanche de 5 milhões de metros cúbicos de lama contaminada com
1998 Espanha
substâncias tóxicas, destruindo uma reserva natural e um santuário de
pássaros.
O navio-tanque Bahía Paraíso afunda próximo ao Cabo Horn, lançando no
1999 Antártica
mar cerca de 1.000 toneladas de óleo diesel.
Incêndio provocado por um caminhão no interior do túnel do monte Branco,
1999 França-Itália
que liga os dois países, provoca 35 mortes
Cerca de 150 toneladas de óleo combustível são lançadas ao mar quando o
1999 EUA navio graneleiro New Carissa parte-se ao meio na costa do Oregon. A parte
da proa do navio é rebocada para alto-mar e torpedeada para que afunde.
Um acidente na planta de reprocessamento nuclear de Tokai-Mura provoca
1999 Japão a contaminação de mais de quatrocentas pessoas pela radioatividade
liberada.
O navio-tanque Volgoneft 248 afunda na costa francesa, dispersando cerca
1999 Turquia de 10.000 toneladas de óleo que contaminam mais de 400 quilômetros de
costa.
Uma barragem de mina se rompe próximo a cidade de Baia Mare, liberando
2000 Romênia 100.000 toneladas de lama que contaminam com cianeto parte da bacia do
rio Danúbio, afetando também Hungria e Iugoslávia.
Explosões em oleodutos, provocadas possivelmente por furos efetuados
2000 Nigéria
para roubar combustível, causam a morte de centenas de pessoas.
A ruptura de um oleoduto libera cerca de 1,3 milhão de litros de óleo na
2000 Brasil baía de Guanabara, Rio de Janeiro.

Continua (...)
195

Uma fábrica de fogos de artifício explode na cidade de Enschede, matando


2000 Holanda
20 pessoas, ferindo 150 e destruindo grande parte da cidade.
A ruptura de um oleoduto libera cerca de 4 milhões de litros de óleo nos rios
2000 Brasil
Barigui e Iguaçú, no Paraná.
O navio Ievoli Sun, de bandeira italiana, conduzindo mais de 6.000
toneladas de produtos químicos (estireno, metil-etil, cetona, álcool
2000 Inglaterra isopropílico e outros produtos) afunda no canal da Mancha, numa região
que anteriormente já fora utilizada para dispor rejeitos nucleares e
munições.
Operários em greve de uma fábrica têxtil descarregam propositalmente
2000 França
cerca de 5.000 litros de ácido sulfúrico no rio Meuse.
Avalanche de lixo acumulado próximo a uma favela provoca centenas de
2000 Filipinas
mortes por soterramento em distrito urbano de Manila.
O navio-tanque Jessica se acidenta nas ilhas Galápagos, derramando
2001 Equador cerca de 660.000 litros de óleo combustível, afetando áreas
ambientalmente preservadas desse arquipélago.
O navio coreano Dayong lança 23.000 toneladas de estireno na foz do rio
2001 China
Yang-tse-kiang, próximo a Shangai, depois de colidir com outro navio.
Uma explosão na plataforma de petróleo P36, da Petrobras, na bacia de
2001 Brasil
Campos, mata onze pessoas. A plataforma afunda posteriormente.
Ruptura de um duto de gás liquifeito de petróleo, provocada pela cravação
2001 Brasil de uma estaca no local, obriga a evacuação de cerca de 2.000 moradores
no município de Barueri, em São Paulo. Não houve vítimas fatais.
Ruptura de um duto lança um jato de 200.000 litros de óleo combustível
2001 Brasil sobre um condomínio residencial em Barueri, em São Paulo. Não houve
vítimas fatais.
Explosão de fábrica de fertilizantes na região de Toulouse causa 31 mortes
2001 França
e fere 2.442 pessoas.
Explosão de fogos de artifício na cidade de Lima provoca 282 mortes e
2001 Peru
mais de 100 feridos.
Acidente com o navio-tanque Norma provoca derramamento de 400.000
2001 Brasil
litros de nafta no porto de Paranaguá, no Paraná.
O navio-tanque Taurus derrama cerca de 7.000 litros de óleo diesel na
2002 Equador
costa da ilha Isabela, no arquipélogo de Galápagos.
República Inundação provocada por chuvas intensas afeta uma indústria química,
2002
Tcheca resultando na liberação de gás cloro para a atmosfera.
O navio-tanque italiano Jolly Rubino, que transportava 31.000 toneladas de
2002 África do Sul petróleo, incendeia-se ao largo da costa, provocando mancha de óleo com
11 quilômetros de extensão.
O navio-tanque francês Limborg explode e incendeia-se ao largo da costa
2002 Iêmen
carregado com 397.000 barris de petróleo.
Trem cargueiro descarrila próximo a Knoxville, Tennessee, com cerca de
2002 EUA 300.000 litros de ácido sulfúrico, obrigando à evacuação de milhares de
moradores da região. Não foram registradas mortes.
O navio-tanque Prestige, registrado nas Bahamas, parte-se em frente à
costa espanhola. Derrama mais de 11.000 toneladas de óleo combustível
2002 Espanha
das 70.000 toneladas que transportava e, afunda, levando consigo o
restante da carga.
O navio de carga Hual Europe, registrado nas Bahamas, que transportava
2002 Japão cerca de 4.000 automóveis, se incendeia depois de encalhar na costa
japonesa.
Acidente em uma fábrica de munições na cidade de Lagos mata mais de
2002 Nigéria 1.000 pessoas pelo impacto da explosão. Outras 1.000 pessoas são mortas
pisoteadas ou afogadas devido ao pânico.

Continua (...)
196

Ruptura de barragem de contenção de rejeitos de uma indústria de celulose


2003 Brasil provoca grande contaminação das águas dos rios Pomba e Paraíba do Sul,
nos estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Acidente com trem transportando produtos químicos provoca contaminação
2003 Brasil
das águas que abastecem a cidade de Uberaba, em Minas Gerais.
Explosão de oleoduto mata mais de 100 pessoas na região da Abia. O
2003 Nigéria acidente foi causado pela faísca de um motor utilizado para perfurar o
oleoduto a fim de roubar combustível.
Explosão em um campo de gás natural na região de Chongqing libera uma
2003 China nuvem de gases tóxicos que mata pelo menos 193 pessoas, deixa
centenas de queimados e obriga a evacuação de 41.000 habitantes.
Explosão em refinaria da cidade de Skikda mata 13 trabalhadores e fere
2004 Argélia
pelo menos 74.
Trem com vagões carregados de enxofre, fertilizantes, gasolina e algodão
2004 Irã explode na cidade de Neyshabur, matando pelo menos 295 pessoas e
ferindo mais de 200.
Trem carregado com dinamite explode em Ryongchon, próximo a fronteira
Coréia do
2004 com a China, causando centenas de mortes e milhares de feridos. O
Norte
acidente foi atribuído a um curto circuito elétrico.
Perfuração acidental de gasoduto subterrâneo, causada por uma obra de
2004 Bélgica construção civil em andamento próximo a Bruxelas, provoca explosão que
resulta em 15 mortos e mais de 200 feridos.
Vazamento de vapor não radioativo mata 4 trabalhadores e fere outros 7 na
2004 Japão usina nuclear de Mihama, situada a 320 quilômetros a oeste de Tóquio. O
acidente não liberou radioatividade.
Fonte: Adaptado de Demajorovic (2003) e Lage e Valle (2004, p. 198-214).

Os diversos acidentes ocorridos e a ampliação dos riscos foram acompanhados


da realização de diversas plenárias ao redor do mundo, a partir das quais foram
elaborados tratados, acordos, convenções e regulamentos como forma de mitigar os
efeitos industriais não desejados. Dentre as diversas plenárias apresentadas no quadro
31 encontram-se algumas que tratam especificamente da produção e do uso de
produtos químicos:

Quadro 31 – Tratados, Acordos e Convenções para a Preservação do Meio Ambiente


Ano Evento
Realização em Berna da Primeira Conferência Internacional sobre a Conservação da
1913
Natureza.
1925 O Protocolo de Genebra proíbe o uso de armas químicas e biológicas.
Entra em vigor o Tratado Antártico, que estipula que aquele continente somente pode ser
1961 utilizado para fins pacíficos, não pode receber resíduos nem ter sua área utilizada para
testes nucleares.
1963 Firmam um tratado que dá fim aos testes nucleares acima do solo.
1963 Acordo de proteção do rio Reno contra a poluição.
Criação do Clube de Roma, dedicado a estudos relacionados com a degradação da
1968
natureza.
1968 Constatadas as primeiras evidências da destruição da camada de ozônio.
Continua (...)
197

Convenção Internacional sobre Responsabilidade Civil por Danos Causados por Poluição
1969
por Óleo.
1969 Convênio relativo à intervenção em alto-mar nos casos de acidentes com óleo.
Convênio sobre responsabilidade civil na esfera de transporte marítimo de materiais
1969
nucleares.
1972 Publicado o primeiro relatório do Clube de Roma, intitulado Os Limites do Crescimento.
1972 Criado o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).
Realizada em Estocolmo a 1ª. Conferência Mundial das Nações Unidas para o Meio
1972
Ambiente e instituído o Dia Internacional do Meio Ambiente (5 de junho)
Firmada a Convention on International Trade in Endangered Species of Wild Fauna and
1973
Flora (Cites) (Convenção Internacional sobre o Comércio de Espécies Ameaçadas).
Convenção Internacional para a Prevenção da Poluição por Navios (conhecida como
1973
Marpol)
Conferido pela primeira vez o selo ecológico Anjo Azul a produtos que se distinguem por
1978
suas qualidades ambientais.
1982 Publicação da Diretiva de Seveso.
Assinada em Londres a convenção internacional que proíbe o lançamento de rejeitos
1983
nucleares nos oceanos.
Implantado pela primeira vez o Programa Atuação Responsável, concedido pela indústria
1984 química, para assegurar maior rigor ao gerenciamento ambiental nas unidades desse setor
industrial em todo o mundo.
Após o acidente de Bhopal, o Congresso Norte-Americano aprova a legislação Sara Title II,
1984
voltada especialmente para as práticas de gerenciamento de unidades industriais químicas.
1985 Firmada a Convenção de Viena para a proteção da camada de ozônio.
Em meados da década de 1980, a ampliação da pressão social resulta em uma atuação
mais contundente dos órgãos ambientais nos grandes centros produtores: Rio de Janeiro,
1985
Rio Grande do Sul, Bahia e São Paulo, determinando mudanças nas políticas
socioambientais das empresas do setor químico.
É aprovado nos Estados Unidos o Emergency Planning and Community Right do Know Act
(EPCRA), também conhecido como Sara Title III. Este plano exigiu que todas as empresas
1986
do setor químico com dez ou mais empregados estimassem o volume das emissões de
seus resíduos gasosos, líquidos e sólidos.
Publicado o relatório da Comissão Mundial do Meio Ambiente e Desenvolvimento, mais
1987
conhecido como Relatório Brundtland, produzido a pedido das Nações Unidas.
Firmado o Protocolo de Montreal, que cria mecanismos para a eliminação das substâncias
1987
que esgotam a camada de ozônio.
Firmada a Convenção da Basiléia, Suíça, que regula internacionalmente os movimentos
1989
transfronteiriços de resíduos tóxicos.
Convenção Internacional sobre Preparo, Resposta e Cooperação em Caso de Poluição por
1990
Óleo (conhecida como OPRC/90)
Firmado o Protocolo sobre Proteção Ambiental, anexo ao Tratado Antártico, que transforma
1991
a Antártica em reserva natural, com a totalidade de sua área protegida.
A Câmara de Comércio Internacional publica a Carta Empresarial para o Desenvolvimento
1991
Sustentável.
Realiza-se no Rio de Janeiro a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o
Desenvolvimento, quando são assinados diversos acordos e convenções ambientais de
1992 alcance global, dentre eles a Agenda 21, cujo capítulo 19 trata do tema de Segurança
Química: todos os produtos químicos devem ter todas as suas características conhecidas e
informadas aos usuários, de modo a proteger a saúde humana e o meio ambiente.
Criado o Comitê Técnico 207 da Organização Internacional para a Normalização (ISO)
1993 incumbido de criar um sistema de normas internacionais para a gestão ambiental, do qual
resultaram as normas ISO 14000.
Convenção de Londres sobre o Banimento do Despejo de Resíduos Radioativos nos
1993 Oceanos.

Continua (...)
198

Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima (United Nations


1993 Framework Convention on Climate Change – UNFCCC), criado com o objetivo de
estabilizar a concentração dos gases de efeito estufa na atmosfera.
A Justiça de Cubatão determinou a total interdição da unidade química da Rhodia em
Cubatão em razão da contaminação da sua planta com produtos altamente prejudiciais à
vida humana e ao meio ambiente, particularmente no que tange a recursos hídricos. Entre
1993 os produtos, destacam-se o hexaclorobenzeno e o hexabutadieno, relacionados a
problemas de câncer e graves problemas de intoxicação. Segundo a Associação dos
Contaminados Profissionalmente por Organoclorados (ACPO), até 1999, sete funcionários
já haviam morrido por causa da contaminação ocorrida.
Criação do Fórum Intergovernamental de Segurança Química (IFCS), com a missão de
1994
promover a implementação do capítulo 19 da Agenda 21.
1996 Publicação da Diretiva de Seveso II.
Início da negociação da Convenção de Roterdã sobre segurança de produtos, a partir da
qual foram estabelecidas regras para o Consentimento Previamente Informado de Produtos
1996
Químicos no Comércio Internacional (PIC), bem com o Sistema Globalmente Harmonizado
para a Classificação e Rotulagem de Substâncias Químicas (GHS).
Início da negociação da Convenção de Estocolmo sobre segurança química, a partir da
qual foram estabelecidas regras para a eliminação de uma lista de produtos organo-
1997
clorados e para o controle de dioxinas e furanos (Aldrin, Clordano, Dieldrin, DDT, Endrin,
Heptaclor, Hexaclorobenzeno, Mirex, Toxafeno, Bifenilas Policloradas (PCB´s)).
É firmado o Protocolo de Kioto, que estabelece metas para a redução das emissões de
1997
gases que contribuem para o efeito estufa.
Convenção de Roterdã sobre Consentimento Previamente Informado para o Comércio
1998
Internacional de Certas Substâncias Químicas e Agrotóxicos Perigosos (PIC)
3ª. Reunião do Fórum Intergovernamental de Segurança Química (IFCS) em Salvador –
2000 Bahia, na qual são elaborados os documentos “Declaração da Bahia” e “Prioridades de
Ação para Além do Ano 2000”.
Regulamento para Uso de Dispersantes Químicos em Derrames de Óleo no Mar
2000
(Resolução Conama nº. 269, de 14/09/2000).
Proposta do “White Paper” da Comunidade Européia para produtos químicos. Início das
negociações do sistema de controle baseado no “Reauthorization and Evaluation of
2001
Chemicals” (REACH), para o registro de substâncias químicas e de suas aplicações para
permitir a sua comercialização na Comunidade Européia.
Firmada na Suécia a Convenção de Estocolmo para o banimento de 12 poluentes
2001
orgânicos persistentes (POP´s).
Plano de Emergência para Incidentes de Poluição por Óleo Originados em Instalações
2001 Portuárias, Terminais, Dutos, Plataformas e Respectivas Instalações de Apoio (Resolução
Conama nº. 293, de 12/12/2001).
Convenção da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre Prevenção de Grandes
2001
Acidentes.
Realiza-se em Johannesburgo, África do Sul, a Conferência das Nações Unidas para o
Desenvolvimento Sustentável, também conhecida como Rio + 10. Nela foi aprovado o
2002 “Plano de Ação de Johannesburgo” cujo parágrafo 23 trata de produtos químicos e
estabelece que “em 2020 os produtos químicos devem ser fabricados de modo tal que
levem à minimização de efeitos adversos à saúde e ao meio ambiente”
Código Internacional de Gerenciamento para Operação Segura de Navios e Prevenção da
2002
Poluição (conhecido como Código ISM)
Início dos trabalhos de Abordagem Estratégica para a Gestão Internacional de Produtos
Químicos – SAICM (Strategic Approach to International Chemicals Management). Esta
negociação destina-se a desenvolver a estratégia para garantir o atendimento do parágrafo
2003 23 do Plano de Johannesburgo. Foram produzidos 3 documentos: a Declaração Política de
Alto Nível (HLD), assinada por Ministros de Estado; a Estratégia Política Ampla (OPS) e o
Plano de Ação Global (GPA).

Continua (...)
199

Entra em vigor a Convenção de Estocolmo, firmada em 2001, que proíbe o uso de 12


2004
poluentes orgânicos persistentes (POP´s).
2004 Entra em vigor a Convenção de Roterdã que trata sobre a segurança de produtos
Conclusão da negociação da SAICM e a realização da 1ª. Conferência Internacional de
Gestão de Produtos Químicos (International Conference on Chemicals Management –
ICCM). Como resultado, os governos, as organizações não governamentais, as
2006 representações sindicais, as organizações de caráter científico e a indústria (química,
incluindo agro-químicos, metais e outras) deverão implementar os elementos da SAICM,
havendo a previsão de realização de eventos para avaliação dos progressos obtidos, que
incluirão a 2ª. Conferência Internacional, proposta para 2009.
Criação do Sistema REACH (Registro, Avaliação, Autorização e Restrição de Substâncias
Químicas). Trata da criação de um sistema de registro com informações sobre os perigos e
2006 riscos de substâncias químicas, novas ou existentes, fabricadas na União Européia ou
importadas de outros países. Com base nas informações prestadas pelas empresas, serão
autorizados os usos de produtos químicos naquele bloco.
Fonte: Adaptado de Associação Brasileira de Indústrias Químicas (2007a), Associação
Brasileira de Indústrias Químicas (2008), Demajorovic (2003), Lage e Valle (2004, p.
198-217).

De acordo com Demajorovic (2003, p. 83):

[...] embora outros setores industriais também sejam responsáveis por gerar
acidentes ampliados ou maiores, grande parte dos eventos ocorreu em
indústrias químicas de base, ou de primeira e segunda geração, que fabricam
uma série de produtos empregados como matérias-primas em outras indústrias.
O risco é inerente a essas unidades industriais em razão de seu próprio
processo de produção e do tipo de produto gerado, e os riscos mais comuns
são incêndio, explosões e vazamentos de gases, além da contaminação do ar,
da água e do solo.

Os fatos ocorridos ao longo das décadas de demarcaram a expansão da


sociedade industrial, confirmam a existência dos riscos e da incerteza em diferentes
etapas dos processos de produção, distribuição e consumo, apontando para a
existência de insuficiências nos conceitos de segurança e controle de riscos
desenvolvidos a partir das premissas da matriz de pensamento linear. Estes casos
demonstram, segundo Rasmussen citado por Demajorovic (2003), que as normas de
segurança das empresas mostram-se inadequadas para evitar ou gerenciar as
ocorrências; que as autoridades locais não possuem informações e a organização
necessárias para mitigar seus efeitos sobre a população e o meio ambiente e,
finalmente, que a população local desconhece os riscos das unidades industriais
próximas, tornando-se extremamente vulnerável em casos de acidentes, uma vez que
não está preparada para enfrentar eventos inesperados.
200

A ocorrência de acidentes químicos ampliados41 como os casos ocorridos na


baia de Minamata no Japão, Bhopal e Seveso, associados com os danos ambientais
causados por produtos químicos, como a destruição da camada de ozônio pelo uso
indiscriminado de gases CFC´s e os diversos derramamentos de óleo em rios e
oceanos, contribuíram significativamente para a ampliação da percepção de diferentes
atores de sociedades locais sobre os riscos das atividades industriais em escala global,
em especial do segmento químico. Esta situação pode ser evidenciada a partir dos
resultados obtidos por diferentes relatos e pesquisas relacionadas, conforme
demonstrado no Quadro 32:

Quadro 32 – Pesquisas de Opinião Pública sobre a Imagem da Indústria Química:


Ano Responsável Dados Coletados
• Em 1986, uma pesquisa realizada em várias cidades brasileiras,
demonstrou que mais de 56% dos entrevistados eram mais
Associação Brasileira preocupados com a indústria química em comparação com
1986 da Indústria Química outras indústrias. A maioria não confiava na indústria química e
(ABIQUIM) pensava que o governo deveria controlar a indústria química
muito mais restritivamente e com uma legislação muito mais
rigorosa.

• As opiniões desfavoráveis aumentaram de 40% para 58%


• As opiniões favoráveis decresceram de 30% para 14%
Chemical • As pessoas que acreditavam que as empresas do setor químico
1988 Manufactures não eram suficientemente regulamentadas aumentaram de 57%
Association (CMA) para 74%
• Aqueles que consideravam a indústria como essencial
diminuíram de 49% para 38%

Janice Mazurek – The • Na pesquisa de opinião pública favorável feita em dez setores
Use of Unilateral industriais norte-americanos, no período de 1990 e 1995, o setor
Agreements in the químico ocupou a segunda posição, perdendo apenas para a
1998 indústria de tabaco. O índice de pessoas que se declararam
United States: The
Responsible Care favoráveis ao setor sofreu um decréscimo de 27% em 1991 para
Initiative 21% em 1995.

Continua (...)
41
Segundo Freitas citado por Demajorovic (2003) acidentes químicos ampliados correspondem a eventos agudos,
tais como explosões, incêndios e emissões, individualmente ou combinados, envolvendo uma ou mais substâncias
perigosas com potencial de causar simultaneamente múltiplos danos ao meio ambiente e à saúde dos seres humanos
expostos. O que caracteriza os acidentes químicos ampliados não é somente a sua capacidade de causar grande
número de óbitos, embora sejam frequentemente conhecidos por isso. É também o potencial de gravidade e extensão
de seus efeitos ultrapassarem os seus limites espaciais de bairros, cidades e países – e temporais – como a
teratogênese, mutagênese e danos a órgãos-alvo específicos.
201

Ana Lúcia M. Guedes


– Dissertação:
• Em sua dissertação de mestrado apresentou dados de uma
Programas
pesquisa realizada no Brasil que apontava o setor químico como
ambientais de
1999 aquele que acarreta mais risco ou problemas socioambientais. O
empresas
setor químico ocupou a primeira posição da lista com um índice
multinacionais no
de 68%.
Brasil: estudos de
caso no setor químico

• Em uma declaração afirmou que a percepção da sociedade


sobre a indústria química em diversos países é muito
Nelson Culer semelhante. De acordo com Demajorovic (2003), dados de
Representante da pesquisas feitas em 1999 revelaram que na Argentina e na
Câmara da Indústria Inglaterra só as indústrias nuclear e de tabaco recebiam uma
1999
Química e avaliação pior que a do setor químico. De acordo com o autor,
Petroquímica da na Argentina as pesquisas mostram que apenas 12% da
Argentina população acredita que as empresas estão efetivamente
preocupadas com a comunidade, e somente 13% considera que
o meio ambiente é assunto prioritário para elas.

• Pesquisa realizada pela ABIQUIM para avaliar a percepção dos


públicos (externo e interno) e partes interessadas sobre os
setores químico e petroquímico. A pesquisa do público externo
envolveu amostras dos seguintes segmentos: público em geral,
comunidades vizinhas a indústrias, formadores de opinião
(jornalistas, organizações não governamentais, universitários,
professores univertários, representantes do governo). A
pesquisa revelou que o setor com imagem mais desfavorável era
Associação Brasileira o químico e de petróleo, ambos com 38%.
2001 de Indústrias • Esta pesquisa também foi direcionada ao público interno das
Químicas (ABIQUIM) empresas associadas (dos 694 questionários enviados a
comissões e diretores das empresas associadas, foram
devolvidos apenas 138). O resultado revelou que o público
interno possui uma percepção diferente do público externo: 43%
consideraram que a indústria química é insegura, enquanto que
5% consideram a empresa onde trabalham como insegura; 81%
consideram que a indústria química agride o meio ambiente
enquanto que 26% consideram que a empresa onde trabalham
agride o meio ambiente.

• Pesquisa de imagem realizada na Europa, onde a indústria


European Chemical química ocupa a 6ª. posição entre 8 diferentes tipos de
2006
Industry Council atividades, ficando a frente somente das atividades relacionadas
a energia nuclear e petróleo.
Fonte: Demajorovic (2003), Demajorovic e Soares (2006), Chiummo (2004) e European
Chemical Industry Council (2007)

Em razão das pressões exercidas pela sociedade organizada sobre os governos


e as indústrias químicas e pela imagem formada pela opinião pública sobre o setor
químico, este se viu obrigado a demonstrar preocupação com os efeitos não desejados
202

oriundos de suas atividades como forma de garantir a continuidade de suas operações,


a exemplo da ação relacionada ao Programa Atuação Responsável42.

De acordo com Lage e Valle (2004) o Programa Atuação Responsável, foi criado
em decorrência dos sucessivos acidentes com grande repercussão e que afetaram a
imagem da indústria química mundial deste o início da década de 1970. Segundo
Demajorovic (2003) foi por meio deste programa que iniciou-se uma campanha
integrada com o objetivo de modificar práticas gerenciais no campo socioambiental
para reverter a imagem negativa do setor perante a opinião pública.

No quadro 33 são apresentados alguns dados relevantes sobre o processo de


criação e implantação do Programa Atuação Responsável no mundo:

Quadro 33 – Dados sobre o Programa Atuação Responsável


Ano Fatos
O programa tem sua origem em uma iniciativa da Canadian Chemical Producers
1984
Association (CCPA).

1987 O programa Atuação Responsável foi levado para os Estados Unidos e Inglaterra.
Implementado oficialmente em 1988 nos Estados Unidos por meio da Chemical
1988
Manufacturers Association (CMA).

Criado o International Council of Chemical Associations (ICCA) com o objetivo de


coordenar em nível mundial a implantação do programa Atuação Responsável, definido
1989 como um “compromisso do setor químico para a melhoria contínua em todos os aspectos
relacionados à saúde, à segurança e ao desempenho ambiental, garantindo a
transparência de suas atividades, planos e objetivos”.

1990 Início das primeiras discussões sobre o Responsible Care no Brasil.


Criados os princípios diretivos e definidos os elementos do Programa Atuação
Responsável. O nome “Atuação Responsável” foi proposto e aceito pelo Comitê Ambiental
da ABIQUIM, e dois novos comitês foram formados para o programa. Líderes de
empresas nacionais que já tinham programas ambientais deram suporte à iniciativa. Em
1991
outubro do mesmo ano, o comitê apresentou os princípios do Programa Atuação
Responsável para a Diretoria da ABIQUIM. A diretoria não aceitou a proposta de imediato,
solicitando seis meses para analisá-la.

Continua (...)
42
De acordo com a Associação Brasileira da Indústria Química (2007a), o Programa Atuação Responsável
(Responsible Care) foi criado no Canadá em 1984 com o intuito de reverter a imagem pública das indústrias
químicas por meio de ações que visem promover a ampliação da segurança e a redução dos riscos relacionados à
indústria química. Internacionalmente o programa é coordenado pelo Responsible Care Leadership Group – RCLG
(Grupo de Liderança do Responsible Care) do International Council of Chemical Associations – ICCA (Conselho
Internacional das Associações da Indústria Química) e no Brasil pela Associação Brasileira de Indústrias Químicas
(ABIQUIM).
203

Adoção do Programa Atuação Responsável pela Associação Brasileira de Indústrias


Químicas (2007), no mesmo ano da realização da Conferência de Desenvolvimento
Sustentável das Nações Unidas (UNCED), conhecida como “Eco 92”, realizada na cidade
do Rio de Janeiro. A pressão de multinacionais atuando no país, especialmente norte-
americanas, acabou revertendo a resistência à iniciativa, fazendo com que em abril de
1992
1992 fosse endossado o programa Atuação Responsável brasileiro. Em maio do mesmo
ano o programa foi oficialmente estabelecido no Brasil, com a participação de 50% dos
associados da ABIQUIM (devido a participação de grandes empresas, o programa
inicialmente envolveu aproximadamente 90% da indústria brasileira do setor em termos
financeiros).
A ABIQUIM desenvolve seis códigos de práticas (com guias e checklists) para o Programa
Atuação Responsável: segurança de processos; segurança e saúde do trabalhador;
1993
transporte e distribuição; proteção ambiental; resposta a emergências e diálogo com a
comunidade; e gerenciamento de produto.
Disponibilização dos códigos de práticas. A ABIQUIM decidiu por não replicar os códigos e
as guias de implementação do Responsible Care e colocou ênfase em liderança,
1994
participação do empregado e sistema de gestão. Nesta época, os membros da ABIQUIM
não eram obrigados a assinar o compromisso com o Programa Atuação Responsável.

A ABIQUIM promove a primeira auto-avaliação, processo que permite às empresas


1995 acompanhar o andamento da implementação das Diretrizes. Neste ano, somente 74 de
103 companhias submeteram-se a avaliação.
Publicação de guias dos códigos de práticas. Neste ano, dos 156 membros da ABIQUIM,
1996 118 ou 75% dos associados, que representavam mais de 90% das companhias líderes de
mercado, assinaram o compromisso com o Programa Atuação Responsável.
104 de 138 companhias químicas assinaram ou renovaram seu compromisso com o
1997
Programa Atuação Responsável.
São gerados os primeiros indicadores. A ABIQUIM reporta que 70% dos seus 133
1998 membros tinham adotado o programa. Neste mesmo ano o programa passa a ser
obrigatório para os membros da ABIQUIM.

De acordo com Mazurek citado por Demajorovic (2003) a iniciativa já atingia 43 países,
cobrindo 87% da produção química mundial. Neste mesmo ano, segundo a ABIQUIM, dos
133 membros 75% tinham implementado o código de segurança de processo, 50% o de
1999
prevenção a poluição e transporte e distribuição, e 30% o de resposta a emergências e
gerenciamento de produto. Neste ano as multinacionais americanas eram as mais
avançadas na implementação do programa.

2000 A ABIQUIM realiza uma pesquisa de imagem da indústria química.

2001 A ABIQUIM divulga o primeiro relatório público.


A ABIQUIM desenvolve em conjunto com empresas certificadoras, o seu primeiro modelo
2002 de sistema de verificação externa do Programa Atuação Responsável, denominado
VerificAR.
Definição do novo modelo do Programa Atuação Responsável e início do processo de
revisão, em função do modelo se mostrar complexo e burocrático, e da necessidade da
sua atualização em relação a legislação brasileira e acordos internacionais (quando o
programa foi lançado apenas algumas práticas gerenciais eram obrigatórias por lei),
2003 atendimento de novas demandas de empresas que já implantaram 100% do programa,
Neste mesmo ano inicia-se a aplicação do VerificAR, com a participação de auditores de
empresas certificadoras, profissionais de empresas associadas e representantes das
comunidades vizinhas.

Continua (...)
204

Criação do Conselho Consultivo Nacional (CCN) reunindo diversas personalidades de


diferentes áreas e setores; aprovação dos textos da Visão, Missão e Princípios Diretivos
2004
do Programa; início da redação do novo conjunto de práticas gerenciais do Programa
Atuação Responsável.
Produção do 1º. conjunto de diretrizes; iniciada a construção do novo espaço na internet
dedicado ao Atuação Responsável (Canal AR) e; iniciada a revisão do VerificAR para
2005 possibilitar uma única auditoria integrada, considerando outros tipos sistemas de gestão.
Apesar de amplo, o VerificAR não possuía total compatibilidade com as auditorias para
normas de sistemas de gestão.
Com a revisão do Programa Atuação Responsável, os antigos códigos e práticas deixam
de existir. O seu conteúdo é integralmente adequado e incorporado nas novas Diretrizes,
definidas no formato do ciclo do PDCA (Plain, Do, Check e Action) e elaboradas com base
2006 em diversas normas nacionais e internacionais de gestão (Ex: ISO), nos critérios do
Prêmio Nacional de Qualidade (PNQ), nos indicadores do Instituto Ethos e outros
instrumentos reconhecidos, tais como o Global Reporting Initiative (GRI) e o Balanced
Scorecard, além das experiências das próprias empresas associadas.
Fonte: Associação Brasileira de Indústrias Químicas (2007), Demajorovic (2003, p. 95),
Demajorovic e Soares (2006) e Relatório de Atuação Responsável (2007)

O longo período exigido para o surgimento, para a aceitação, para a implantação


e para adaptação do Programa Atuação Responsável revela a resistência e as
dificuldades apresentadas pelas indústrias químicas baseadas na racionalidade
econômica em adaptar-se a uma nova realidade compatível com um desenvolvimento
de fato, sustentável.

De acordo com Jonhson citado por Demajorovic (2003), foram as próprias


empresas multinacionais que optaram pela adoção desta alternativa racional visando o
lucro, com o objetivo de proteger a legitimidade da indústria química mundial para
evitar legislações mais restritivas, para equilibrar as forças em jogo e para incrementar
suas operações. Porém no Brasil, segundo o autor, a implementação do Programa
Atuação Responsável encontrou diversas barreiras, visto que várias empresas
nacionais questionavam a utilidade da iniciativa e sentiam-se inseguras sobre importar
um programa na forma de “pacote fechado”. Segundo Demajorovic (2003, p. 112) isto
se devia ao fato de que:

Para muitos representantes de empresas químicas nacionais, a questão da


imagem pública do setor limitava-se às corporações multinacionais,
especialmente em seus países de origem. Empresários nacionais também
argumentavam que a iniciativa poderia atrair ainda mais a atenção dos órgãos
ambientais para o setor, culminando em uma legislação ambiental mais
restritiva, ou reduzir o grau de soberania das empresas associadas na medida
em que preconizava um programa uniforme a ser implementado indistintamente
205

por todos os associados. Por fim, as pequenas empresas, não associadas a


conglomerados internacionais, preocupavam-se principalmente com a
possibilidade de aumento dos custos que a iniciativa implicava sem gerar
qualquer retorno financeiro.

Esta dificuldade para a aceitação do programa pelos responsáveis pelas


indústrias químicas pode ser melhor compreendida pela definição de cinco fases
propostas por Lage e Valle (2004): fase do desconhecimento, fase da contestação,
fase da contemporização, fase da aceitação passiva e a fase da ação pró-ativa.
Segundo os autores, a fase do desconhecimento é caracterizada pela ausência de
conhecimento sobre os efeitos danosos de certos agentes químicos, como por
exemplo, a contaminação do ser humano pelo chumbo, o efeito tóxico de metais
pesados e a ação dos clorofluorcarbonos (CFCs) sobre a camada de ozônio. De
acordo com Lage e Valle (2004) esta fase normalmente é seguida pela fase da
contestação, onde os responsáveis pela produção ou utilização desses produtos não
reconhecem o nexo causal, apesar de já possuírem dados suficientes para admiti-lo.
Para os autores normalmente estas duas fases são seguidas pelas fases da
contemporização e da aceitação passiva para que somente depois ocorra a fase da
ação pró-ativa e consciente que visa eliminar, na origem, a causa identificada.

O Programa Atuação Responsável desenvolvido pela entidade que representa a


indústria química em nível mundial e que é adotado pelas entidades que representam
as indústrias químicas em nível local apresenta algumas limitações. A primeira delas, a
exemplo do Brasil, é que a exigência para a sua adoção é aplicada apenas para as
indústrias químicas associadas à ABIQUIM. Logo, apesar do programa envolver as
maiores indústrias químicas existentes no país, não atinge a totalidade das indústrias
químicas instaladas no território nacional, principalmente pequenas e médias
empresas. Outra questão relevante, diz respeito à dificuldade enfrentada para a sua
adoção em escala global: provavelmente por razões políticas e interesses econômicos
associados, países como a China e a Rússia, responsáveis por uma considerável
participação na produção industrial mundial, representam uma lacuna em termos
globais para a efetivação do programa, conforme ilustrado na figura 19:
206

Figura 19 – Mapa da Presença do Programa Atuação Responsável no Mundo


Fonte: Associação Brasileira de Indústrias Químicas (2007a)

Demajorovic (2003, p. 97) considera que “o Programa Atuação Responsável


apresenta-se para as indústrias químicas como uma nova forma de conduzir seus
negócios, com base em compromissos éticos com a sociedade”. O autor menciona que
os seus representantes não o consideram propriamente um programa, mas sim uma
mudança cultural na maneira como a indústria química realiza seus negócios de forma
a na prática, buscar melhorar a percepção do público em relação às formas de
gerenciamento das unidades químicas.

Demajorovic (2003, p. 97) acredita que o maior problema do programa, ou


fragilidade perante a opinião pública, talvez esteja na forma escolhida para sua
avaliação. Como se trata de um programa voluntário, o Atuação Responsável não
impõe objetivos quantitativos para a redução da poluição ou prazos para que
determinados tipos de emissão cessem ou diminuam. Seu critério de desempenho é
verificar se os códigos referentes aos sistemas de gestão foram implementados pelos
associados nos diferentes países. De acordo com o autor, nesse aspecto, o projeto
assemelha-se à ISO 14000, uma vez que esta também não trabalha com indicadores
de desempenho, limitando-se a certificar sistemas de gestão.
207

Demajorovic e Soares (2006) acreditam que algumas críticas continuam sendo


feitas ao desempenho do programa no Brasil, uma vez que a ABIQUIM tem
dificuldades de manter o apoio efetivo de todos os associados. De acordo como os
autores, um dos problemas verificados é o baixo retorno das auto-avaliações
principalmente das pequenas e médias empresas, em função destas não contarem
com dados sistematizados que permitam o fornecimento das informações solicitadas.
Outro fator apresentado pelos autores é o receio das empresas em divulgar dados e
informações sobre seu desempenho, mesmo quando acordadas condições de garantia
de sigilo.

Este estudo apresentará a percepção de profissionais que atuam em indústrias


químicas distantes da realidade enfrentada por grandes organizações do setor. Estas
indústrias se revelam diferentes pelo fato de não serem associadas às entidades que a
representam em nível nacional, por não possuírem vínculo com o Programa Atuação
Responsável e por não serem consideradas em estudos relacionados a indústrias
químicas. Este estudo busca estabelecer as percepções de um pequeno número de
profissionais de empresas paranaenses do setor químico, para tentar identificar como
estas estabelecem as suas relações com o meio ambiente.

2.4. PERCEPÇÃO

Para este estudo, que busca revelar algumas das percepções que os
profissionais de indústrias químicas instaladas em um município paranaense têm das
relações de suas organizações com o meio ambiente, foram considerados os conceitos
de percepção propostos pela Chauí (2000), Comissão Mundial sobre Meio Ambiente
(1991), Egler e Silva (2007), Sheldrake (2001) e Fernandes (2004).

Em sua obra, Chauí (2000) menciona que na história da filosofia, as tradicionais


linhas de pensamento empirista e intelectualista divergiram sobre as suas respectivas
concepções sobre percepção. A exemplo dos fatos ocorridos em outros campos
científicos fundamentados na matriz do pensamento linear, as tentativas de definição de
208

um conceito para percepção também envolveram questões relacionadas à disjunção


ocorrida entre sujeito e objeto, conforme demonstrado no quadro 34:

Quadro 34 – Linhas de Pensamento sobre Percepção – Empirista X Intelectualista


Linha de
Principais Características
Pensamento
 Nesta linha, a sensação e a percepção dependem das coisas exteriores, causadas
por estímulos externos que agem sobre nossos sentidos e sobre o nosso sistema
nervoso, recebendo uma resposta que parte de nosso cérebro, volta a percorrer
nosso sistema nervoso e chega aos nossos sentidos sob a forma de uma sensação
(uma cor, um sabor, um odor) ou uma associação de sensações numa percepção
(vejo um objeto vermelho, sinto o sabor de uma carne, sinto o cheiro da rosa, etc...);
 A sensação seria pontual, isto é, um ponto do objeto externo toca um de meus
órgãos dos sentidos e faz um percurso no interior do meu corpo, indo ao cérebro e
voltando às extremidades sensoriais. Cada sensação é independente das outras e
Empirista cabe à percepção unificá-las e organizá-las numa síntese. A causa do
conhecimento sensível é a coisa externa, de modo que a sensação e a percepção
são efeitos passivos de uma atividade de corpos exteriores sobre o nosso corpo;
 Nesta linha de pensamento, o conhecimento é obtido por soma e associação das
sensações na percepção e tal soma e associação dependem da freqüência, da
repetição e da sucessão dos estímulos externos e de nossos hábitos;
 Nas teorias empiristas, a percepção é a única fonte do conhecimento, estando na
origem das idéias abstratas formuladas pelo pensamento. Hume, por exemplo,
afirma que todo conhecimento é percepção e que existem dois tipos de percepção:
as impressões (sensações, emoções e paixões) e as idéias (imagens das
impressões).

 Nesta linha, a sensação e a percepção dependem do sujeito do conhecimento e a


coisa exterior é apenas a ocasião para que tenhamos a sensação ou a percepção.
Nesse caso, o sujeito é ativo e a coisa externa é passiva, ou seja, sentir e perceber
são fenômenos que dependem da capacidade do sujeito para decompor um objeto
em suas qualidades simples (a sensação) e de recompor o objeto como um todo,
dando-lhe organização e interpretação (a percepção);
 A passagem da sensação para a percepção é, neste caso, um ato realizado pelo
intelecto do sujeito do conhecimento, que confere organização e sentido às
sensações. Não haveria algo propriamente chamado percepção, mas sensações
Intelectualista dispersas ou elementares; sua organização ou síntese seria feita pela inteligência e
receberia o nome de percepção. Assim, na sensação, “sentimos” qualidades
pontuais, dispersas, elementares e, na percepção, “sabemos” que estamos tendo a
sensação de um objeto que possui as qualidades sentidas por nós;
 Nas teorias racionalistas intelectualistas, a percepção é considerada não muito
confiável para o conhecimento porque depende das condições particulares de quem
percebe e está propensa a ilusões, pois frequentemente a imagem percebida não
corresponde à realidade do objeto;
 Para a concepção racionalista intelectualista, o pensamento filosófico e científico
deve abandonar os dados da percepção e formular as idéias em relação com o
percebido; trata-se de explicar e corrigir a percepção.
Fonte: Adaptado de Chauí (2000)
209

De acordo com Chauí (2000, p. 152), “para os empiristas, a sensação conduz à


percepção como uma síntese passiva, isto é, que depende do objeto exterior”,
enquanto que “para os intelectualistas, a sensação conduz à percepção como síntese
ativa, isto é, que depende da atividade do entendimento”. Ainda segundo a autora “para
os empiristas, as idéias são provenientes das percepções. Para os intelectualistas, a
sensação e a percepção são sempre confusas e devem ser abandonadas quando o
pensamento formula as idéias puras”.

Representando a filosofia, Chauí (2000) afirma que a partir do último século, este
campo científico foi capaz de alterar estas duas tradições, criando as condições
necessárias para a formulação de uma nova concepção do conhecimento sensível43.
Para Chauí (2000, p. 152 e 153), estas mudanças foram trazidas pela fenomenologia
de Husserl e pela Psicologia da Forma ou teoria da Gestalt44, sendo que ambas
mostraram:

i) Contra o empirismo, que a sensação não é reflexo pontual ou uma resposta


físico-fisiológica a um estímulo externo também pontual;
ii) Conta o intelectualismo, que a percepção não é uma atividade sintética feita
pelo pensamento sobre as sensações;
iii) Contra o empirismo e o intelectualismo, que não há diferença entre
sensação e percepção.

De acordo com Chauí (2000), as linhas empirista e intelectualista concordavam


em um aspecto no qual consideravam que a sensação era uma relação de causa e
efeito entre pontos das coisas e pontos de nosso corpo e a percepção era considerada
a atividade que unia as partes numa síntese que seria o objeto percebido. Segundo
Chauí (2000) a fenomenologia e a Gestalt demonstram que não há diferença entre
sensação e percepção, uma vez que nunca temos sensações parciais, pontuais ou
elementares, ou seja, sensações separadas de cada qualidade, que depois o espírito

43
Segundo Chauí (2000) Platão diferencia e separa radicalmente duas formas de conhecimento: o conhecimento
sensível (crença e opinião) e o conhecimento intelectual (raciocínio e intuição), afirmando que somente o segundo
alcança o Ser e a verdade. O conhecimento sensível alcança a mera aparência das coisas, o conhecimento intelectual
alcança a essência das coisas, as idéias. Para Descartes, o conhecimento sensível (isto é, sensação, percepção,
imaginação, memória e linguagem) é a causa do erro e deve ser afastado. O conhecimento verdadeiro é puramente
intelectual, parte das idéias inatas e controla (por meio de regras) as investigações filosóficas, científicas e técnicas.
210

juntaria e organizaria como percepção de um único objeto. A autora considera que na


teoria fenomenológica do conhecimento, a percepção é considerada originária e parte
principal do conhecimento humano, mas com uma estrutura diferente do pensamento
abstrato, que opera com idéias. Para Chauí (2000, p. 156):

A percepção sempre se realiza por perfis ou perspectivas, isto é, nunca


podemos perceber de uma só vez um objeto, pois somente percebemos
algumas de suas faces de cada vez; no pensamento, nosso intelecto
compreende uma idéia de uma só vez, sem precisar examinar cada uma de
suas “faces”.

Chauí (2000, p. 153) considera que sentimos e percebemos formas, ou seja,


totalidades estruturadas dotadas de sentido ou de significação. No exemplo a seguir, a
autora ilustra sua concepção de percepção:

[...] ter a sensação e a percepção de um cavalo é sentir/perceber de uma só vez


sua cor (ou cores), suas partes, sua cara, seu lombo e seu rabo, seu porte, seu
tamanho, seu cheiro, seus ruídos, seus movimentos. O cavalo-percebido não é
um feixe de qualidades isoladas que enviam estímulos aos meus órgãos dos
sentidos (como suporia o empirista), nem um objeto indeterminado esperando
que meu pensamento diga às minhas sensações: “Este objeto é um cavalo”
(como suporia o intelectualista). O cavalo-percebido não é um mosaico de
estímulos exteriores (empirismo), nem uma idéia (intelectualismo), mas é,
exatamente, um cavalo-percebido.

Para Chauí (2000, p. 153-155), a percepção possui as seguintes características:

i) É o conhecimento sensorial de configurações ou de totalidades organizadas


e dotadas de sentido e não uma soma de sensações elementares; sensação
e percepção são a mesma coisa;

ii) É o conhecimento de um sujeito corporal, isto é, uma vivência corporal, de


modo que a situação de nosso corpo e as condições de nosso corpo são tão
importantes quanto a situação e as condições dos objetos percebidos;

iii) É sempre uma experiência dotada de significação, isto é, o percebido é


dotado de sentido e tem sentido em nossa história de vida, fazendo parte de
nosso mundo e de nossas vivências;

iv) O próprio mundo exterior não é uma coleção ou uma soma de coisas
isoladas, mas está organizado em formas e estruturas complexas dotadas
de sentido. Uma paisagem, por exemplo, não é uma soma de coisas que
estão apenas próximas umas das outras, mas é a percepção de coisas que

44
De acordo com Chauí (2000, p. 152) “Gestalt é uma palavra alemã que significa: configuração, figura estruturada,
forma”.
211

formam um todo complexo e com sentido: o vale só é vale por causa da


montanha, cuja altura e distância só podem ser avaliadas porque há o céu,
as árvores, um rio e um caminho; o verde do vale só pode ser percebido por
contraste com o cinza ou o dourado da montanha; o azul do céu só pode ser
percebido por causa do verde da vegetação e o marrom da terra; essa
paisagem será um espetáculo de contemplação se o sujeito da percepção
estiver repousado, mas será um objeto digno de ser visto por outros se o
sujeito da percepção for um pintor, ou será um obstáculo, se o sujeito da
percepção for um viajante que descobre que precisa ultrapassar a
montanha. Em resumo: na percepção, o mundo possui forma e sentido e
ambos são inseparáveis do sujeito da percepção;

v) A percepção é assim uma relação do sujeito com o mundo exterior e não


uma reação físico-fisiológica de um sujeito físico-fisiológico a um conjunto de
estímulos externos (como suporia o empirista), nem uma idéia formulada
pelo sujeito (como suporia o intelectualista). A relação dá sentido ao
percebido e ao percebedor, e um não existe sem o outro;

vi) O mundo percebido é qualitativo, significativo, estruturado e estamos nele


como sujeitos ativos, isto é, damos às coisas percebidas novos sentidos e
novos valores, pois as coisas fazem parte de nossas vidas e interagimos
com o mundo;

vii) O mundo percebido é um mundo intercorporal, isto é, as relações se


estabelecem entre nosso corpo, os corpos dos outros sujeitos e os corpos
das coisas, de modo que a percepção é uma forma de comunicação que
estabelecemos com os outros e com as coisas;

viii) A percepção depende das coisas e de nosso corpo, depende do mundo e


de nossos sentidos, depende do exterior e do interior, e por isso é mais
adequado falar em campo perceptivo para indicar que se trata de uma
relação complexa entre o corpo-sujeito e os corpos-objetos num campo de
significações visuais, tácteis, olfativas, gustativas, sonoras, motrizes,
espaciais, temporais e lingüísticas. A percepção é uma conduta vital, uma
comunicação, uma interpretação e uma valoração do mundo, a partir da
estrutura de relações entre nosso corpo e o mundo;

ix) A percepção envolve toda nossa personalidade, nossa história pessoal,


nossa afetividade, nossos desejos e paixões, isto é, a percepção é uma
maneira fundamental de os seres humanos estarem no mundo. Percebemos
as coisas e os outros de modo positivo ou negativo, percebemos as coisas
como instrumentos ou como valores, reagimos positiva ou negativamente a
cores, odores, sabores, texturas, distâncias, tamanhos. O mundo é
percebido qualitativamente, efetivamente e valorativamente. Quando
percebemos uma outra pessoa, por exemplo, não temos uma coleção de
sensações que nos dariam as partes isoladas de seu corpo, mas a
percebemos como tendo uma fisionomia (agradável ou desagradável, bela
ou feia, serena ou agitada, sadia ou doentia, sedutora ou repelente) e por
essa percepção definimos nosso modo de relação com ela;

x) A percepção envolve nossa vida social, isto é, os significados e os valores


das coisas percebidas decorrem de nossa sociedade e do modo como nela
as coisas e as pessoas recebem sentido, valor ou função. Assim, objetos
que para nossa sociedade não causam temor, podem causar numa outra
sociedade. Por exemplo, em nossa sociedade, um espelho ou uma fotografia
são objetos funcionais ou artísticos, meios de nos vermos em imagem; no
212

entanto, para muitas sociedades indígenas, ver a imagem de alguém ou a


sua própria é ver a alma desse alguém e fazê-lo perder a identidade e a
vida, de modo que a percepção de um espelho ou de uma fotografia pode
ser uma percepção apavorante;

xi) A percepção nos oferece um acesso ao mundo dos objetos práticos e


instrumentais, isto é, nos orienta para a ação cotidiana e para as ações
técnicas mais simples; a percepção é uma forma de conhecimento e de ação
fundamental para as artes, que são capazes de criar um “outro” mundo pela
simples alteração que provoca em nossa percepção cotidiana e costumeira.

xii) A percepção não é uma idéia confusa ou inferior, como julgava a tradição,
mas uma maneira de ter idéias sensíveis ou significações perceptivas;

xiii) A percepção está sujeita a uma forma especial de erro: a ilusão.

Egler e Silva (2007) evidenciam a presença da multidisciplinaridade nos estudos


que tratam sobre percepção quando revelam que a compreensão dos campos da
percepção não é tarefa de um único campo do conhecimento. Para as autoras, as
teorias sobre percepção encontram-se em diversas áreas e possuem enfoques
diferenciados sobre o que venha a ser percepção.

Para Egler e Silva (2007), a percepção nos permite formar idéias, imagens e
compreensões do mundo que nos rodeia, conceito que se aproxima da definição da
Comissão Mundial sobre Meio Ambiente (1991) a qual considera que a percepção é a
maneira pela qual o homem sente e compreende o meio ambiente, natural ou criado
por ele.

Para Egler e Silva (2007, p. 3), a concepção de percepção na visão dos


fenomenologistas é formada por dois mecanismos que se complementam: os sentidos e
a cognição, os quais são influenciados por fatores externos e internos aos indivíduos.
Como forma de ilustrar esta concepção, Egler e Silva (2007, p. 3) citam que:

[...] um cego não pode possuir percepções do mundo igual a uma pessoa que
detém a visão, até por que os estímulos externos são captados pelos sentidos -
audição, visão, tato, olfato, paladar. Não que um cego, por isso, possua uma
percepção reduzida, mas dado a sua dificuldade de visualização ele poder
utilizar outros sentidos, que o permitirá ter outras sensações da realidade e por
isso interpretá-la de um outro modo.

Desta forma, Egler e Silva (2007, p. 3) consideram que:


213

[...] a percepção é um processo ativo da mente, em que se é possível


interpretar o mundo. Sendo que, há uma contribuição da inteligência no
processo perceptivo, que é mediada pela motivação, pelos valores éticos,
morais, interesses, julgamentos e expectativas daqueles que percebem.

Sheldrake (2001, p. 92) considera que “povos tradicionais do mundo inteiro


raciocinam de modo diferente. Acreditam em sua experiência pessoal. A visão se
projeta do corpo. Assim como a luz penetra nos olhos, a visão escapa dos olhos”.
Fazendo referência a Piaget, Sheldrake (2001) menciona que as crianças de
nossa própria cultura também pensam o mesmo e que perdem esta noção com cerca
de 11 anos, quando aprendem que os pensamentos e as percepções não estão fora,
mas dentro de suas cabeças. Desse modo, para o autor, a teoria triunfa da experiência
e uma doutrina metafísica é aceita como fato objetivo. Do ponto de vista “erudito”, as
crianças assim como os povos primitivos e ignaros são considerados gente confusa, por
não conseguirem distinguir o interno do externo, o sujeito do objeto, os quais deveriam
estar nitidamente separados.

Sheldrake (2001, p. 92) acredita que da mesma forma que “[...] a luz penetra nos
olhos, as imagens e percepções se projetam dos olhos para o mundo que nos cerca”.
Para o autor:

Nossas percepções são construções mentais que envolvem a atividade


interpretativa da mente. No entanto, se são imagens em nossa mente, estão
também fora de nossos corpos. Ora, se se acham tanto dentro da mente quanto
fora do corpo, a mente deve estender-se para além do corpo. Ela se projeta
para abarcar tudo o que vemos. Se contemplamos as estrelas distantes, nossa
mente se estira por distâncias astronômicas até tocar aqueles astros. Sujeito e
objeto, de fato, se confundem. Graças às percepções, o ambiente é trazido para
dentro de nós, mas nós também vamos até ele.

Na questão específica de um estudo envolvendo a variável meio ambiente, a


noção de percepção ambiental se faz importante. Para Faggionato citado por
Fernandes (2004), a percepção ambiental pode ser definida como sendo uma tomada
de consciência do ambiente pelo homem, ou seja, o ato de perceber o ambiente que se
está inserido, aprendendo a proteger e a cuidar do mesmo. Para Fernandes (2004),
cada indivíduo percebe, reage e responde diferentemente às ações sobre o ambiente
em que vive. As respostas ou manifestações daí decorrentes são resultados das
214

percepções (individuais e coletivas), dos processos cognitivos, julgamentos e


expectativas de cada pessoa. O autor considera que um estudo da percepção
ambiental é de fundamental importância para a melhor compreensão das inter-relações
entre o homem e o ambiente, suas expectativas, anseios, satisfações e insatisfações,
julgamentos e condutas.

De acordo com Fernandes (2004) a importância da pesquisa em percepção


ambiental para o planejamento do ambiente foi ressaltada pela UNESCO em 1973. O
autor considera que um das dificuldades para a proteção dos ambientes naturais está
na existência de diferenças nas percepções dos valores e da importância dos mesmos
entre os indivíduos de culturas diferentes ou de grupos sócio-econômicos que
desempenham funções distintas, no plano social, nesses ambientes.

Para Marques citado por Fernandes (2008) a percepção ambiental desponta


como uma arma na defesa do meio natural, e ajuda a reaproximar o homem da
natureza, visando um futuro com mais qualidade de vida para todos, já que é capaz de
despertar uma maior responsabilidade e respeito dos indivíduos em relação ao
ambiente em que vivem. Além de revelar algumas das percepções dos profissionais da
indústria química, este estudo busca criar oportunidades para que profissionais da área
e a sociedade da qual são apenas uma parte integrante, reflitam sobre suas ações e
sobre a necessidade do desenvolvimento de uma nova racionalidade que seja mais
compatível com a correta utilização dos recursos naturais e a preservação do ambiente
natural.

3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

3.1. CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA

Segundo Laville e Dionne (1999) o termo método deriva do grego methodos,


formado por meta (para) e hodos (caminho), e poderia ser traduzido como “caminho
para” ou então “prosseguimento, pesquisa”.

Para Demo (1987, p. 19) a metodologia:


215

[...] é uma preocupação instrumental, trata-se das formas de se fazer ciência.


Cuida dos procedimentos, das ferramentas, dos caminhos. A finalidade da
ciência é tratar a realidade teórica e prática. Para atingirmos tal finalidade,
colocam-se vários caminhos. Disto trata-se a metodologia.

Este capítulo busca apresentar os “caminhos metodológicos” adotados para o


desenvolvimento deste estudo exploratório de natureza qualitativa bem como
apresentar os motivos e escolhas que justificam os procedimentos metodológicos
adotados pelo pesquisador. Diferentemente das preocupações predominantes em
pesquisas aplicadas de natureza quantitativa, a exemplo da pesquisa sobre a proposta
de criação de um índice de qualidade do ambiente sustentável para os bairros de
Curitiba, elaborada por Wiens (2007) ou da pesquisa sobre a influência e a percepção
do setor automotivo na sustentabilidade ambiental da região metropolitana de Curitiba,
elaborada por Santos, S. E. dos (2007), optou-se pela adoção de procedimentos
metodológicos que favorecessem os princípios dialógico, recursivo e hologramático
presentes na proposta de Morin para a complexidade, sem que isso represente a
eliminação do rigor necessário para a realização de pesquisas. Para Laville e Dionne
(1999, p. 11) é “... imprescindível trabalhar com rigor, com método, para assegurar a si
e aos demais que os resultados da pesquisa serão confiáveis e válidos”.

3.1.1. Tipo de Estudo

De acordo com Gil (2002) é usual classificar as pesquisas com base em seus
objetivos gerais, classificando-as em três grandes grupos: exploratórias, descritivas ou
explicativas.

Quanto ao tipo de estudo esta pesquisa se caracteriza como sendo exploratória,


pois segundo Gil (2002, p. 41) “têm como objetivo proporcionar maior familiaridade com
o problema, com vistas a torná-lo mais explícito”. Para o autor estas pesquisas têm
como objetivo principal o aprimoramento de idéias ou a descoberta de intuições, sendo
por tanto o seu planejamento bastante flexível, característica esta que possibilita a
consideração dos mais variados aspectos relativos ao fato estudado.
216

Para Oliveira, M. M. de (2007, p. 65) “este tipo de pesquisa objetiva dar uma
explicação geral sobre determinado fato, através da delimitação do estudo,
levantamento bibliográfico, leitura e análise de documentos”. Para a autora “... a
pesquisa exploratória, ao dar uma explicação geral, pode levantar um novo problema
que será esclarecido através de uma pesquisa mais consistente”. Segundo Oliveira, M.
M. de (2007, p. 65):

[...] esse tipo de pesquisa desenvolve estudos que dão uma visão geral do fato
ou fenômeno estudado [...] um estudo exploratório é realizado quando o tema
escolhido é pouco explorado, sendo difícil a formulação e a operacionalização
de hipóteses.

De acordo com Gil (2002) na maioria dos casos estas pesquisas envolvem um
levantamento bibliográfico, entrevistas com pessoas que tiveram experiências práticas
com o problema pesquisado e análise de exemplos que estimulem a sua compreensão.

3.1.2. Natureza

Com o objetivo de atender princípios presentes na proposta da complexidade,


como o estabelecimento da dialógica entre campos científicos distintos, da participação
do pesquisador e da comunicação entre o tema e o ambiente, optou-se pelo
desenvolvimento de um estudo de natureza qualitativa, como forma de promover uma
aproximação entre pesquisador, teoria, sujeitos e objetos envolvidos no tema de
pesquisa.

Para Oliveira, M. M. de (2007, p. 37) a pesquisa qualitativa é “[...] um processo


de reflexão e análise da realidade através da utilização de métodos e técnicas para
compreensão detalhada do objeto de estudo em seu contexto histórico e/ou segundo
sua estruturação”. Para a autora a pesquisa qualitativa “[...] implica em estudos
segundo a literatura pertinente ao tema, observações, aplicação de questionários,
entrevistas e análise de dados, que deve ser apresentada de forma descritiva”.

A escolha pela realização de uma pesquisa de natureza qualitativa também se


deu em razão das características complexas e subjetivas do tema de estudo proposto,
envolvendo as variáveis “Meio Ambiente” e “Indústrias Químicas”, e como alternativa a
forma tradicional de construção do saber científico, caracterizada pelos princípios da
217

objetividade45, do empirismo46 ou da aplicação de métodos quantitativos. Algumas


justificativas para esta decisão podem ser encontradas nas considerações de Demo
(1987, p. 16), que considera que as “realidades sociais se manifestam de formas mais
qualitativas do que quantitativas, dificultando procedimentos de manipulação exata” e
de Flick (2004, p. 17), para quem a “relevância específica da pesquisa qualitativa para o
estudo das relações sociais deve-se a pluralização das esferas da vida”. Para o autor:

A mudança social acelerada e a conseqüente diversificação de esferas de vida


fazem com que os pesquisadores sociais defrontem-se, cada vez mais, com
novos contextos e perspectivas sociais; situações tão novas para eles que as
suas metodologias dedutivas tradicionais – questões e hipóteses de pesquisa
derivadas de modelos teóricos e testadas sobre a evidência empírica –
fracassam na diferenciação de objetos (FLICK, 2004, p. 18)

Algumas limitações em termos da abordagem da objetividade empregada na


forma tradicional da construção do saber científico podem ser encontradas nos
preceitos básicos da pesquisa positivista, definidas por Guba e Lincoln citados por
Mattos (2006, p. 355). Segundo os autores, na pesquisa objetiva:

Só fatos, em si, devem ser considerados. O sujeito conhecedor não “deve”


existir no texto científico. O trabalho de análise é, indiretamente, “tirá-lo de
cena” exatamente pela objetivação total do resultado da observação, no caso a
entrevista. O entrevistador apenas faz perguntas, fica de fora, e toda a
investigação se volta para o objeto de interesse, as respostas do personagem
em cena, para quem as câmeras se voltam, o entrevistado. Fatos são o que ele
diz, o que fica gravado. A análise racional deles, preferencialmente em
linguagem formal e clara, leva ao conhecimento objetivo, que pode assim
tornar-se produto, eventualmente manipulado, aplicado e reproduzido.

Para Santos citado por Mattos (2006), hoje é consensual, inclusive entre as
ciências empíricas, que a ficção de um conhecimento sem a marca cultural do autor,
embora possível para fins práticos e tecnológicos, não se harmoniza com a idéia de

45
Para Laville e Dionne (1999, p. 27), o conceito de objetividade considera que “o conhecimento positivo deve
respeitar integralmente o objeto do qual trata o estudo; cada um deve reconhecê-lo tal como é”. Segundo os autores,
este conceito considera que “o sujeito conhecedor (o pesquisador) não deve influenciar esse objeto de modo algum;
deve intervir o menos possível e dotar-se de procedimentos que eliminem ou reduzam, ao mínimo, os efeitos não
controlados dessas intervenções”
46
Para Laville e Dione (1999) o empirismo se define como um conhecimento gerado à partir de uma experiência.
Para os autores, o conhecimento positivo parte da realidade como os sentidos a percebem e ajusta-se à realidade.
Desta forma qualquer conhecimento, tendo uma origem diferente da experiência da realidade parece suspeito, assim
como qualquer explicação que resulte de idéias inatas ou anteriores a qualquer experiência.
218

ciência racionalmente sustentável, e que os “fatos” também recebem codificação


pessoal e social. Logo, para o autor, se faz necessário redefinir o conceito original de
objetividade.

Para Laville e Dionne (1999, p. 33) “em ciências humanas, os fatos dificilmente
podem ser considerados como coisas, uma vez que os objetos de estudo pensam,
agem e reagem”. Para os autores “são atores podendo orientar a situação de diversas
maneiras...”, situação que coincide com o caso do pesquisador “... ele também é um
ator agindo e exercendo sua influência”.

De acordo com Laville e Dionne (1999, p. 34) “... o pesquisador não pode, frente
aos fatos sociais, ter essa objetividade, apagar-se desse modo. Frente aos fatos sociais
tem preferências, inclinações, interesses particulares” [...] “interessa-se por eles e os
considera a partir do seu sistema de valores”. Para os autores “em ciências humanas, o
pesquisador é mais que um observador objetivo: é um ator aí envolvido” (LAVILLE E
DIONNE, 1999, p. 34).

A concepção deste estudo trata-se de uma tentativa de contribuir para a


redefinição do conceito de objetividade defendido por Santos citado por Mattos (2006) e
de testar a proposta de transformação do conceito de objetividade definido por Laville e
Dionne (1999), segundo o qual o pesquisador passa a ter consciência de que é ele
quem provoca numerosas de suas observações e que sem a sua intervenção elas não
aconteceriam. Para Laville e Dionne (1999, p. 39) “o papel do pesquisador passa a ser
reconhecido, bem como sua eventual subjetividade47, que se espera todavia ser
racional, controlada e desvendada”. Para os autores “é sob esse ângulo que, a partir de
então, define-se a objetividade, relacionada mais ao sujeito pesquisador e seu
procedimento do que ao objeto de pesquisa” (LAVILLE E DIONNE, 1999, p. 39).

De acordo com Oliveira, M. M. de (2007, p. 60):

47
Oliveira, M. M. de (2007) sugere uma neutralidade científica, conceito pelo qual o autor deve evitar ao máximo a
subjetividade, ou seja, o autor deve manter-se distante de suas emoções durante a construção do conhecimento de
forma a evitar o “achismo” que pode interferir nos resultados da pesquisa. Segundo Minayo citado por Oliveira, M.
M. de (2007, p. 102) a subjetividade “leva o pesquisador a sucumbir à magia dos métodos e técnicas, esquecendo-se
do essencial, isto é, a fidedignidade às significações presentes no material e referida a relações sociais e dinâmicas”.
219

A opção por uma abordagem qualitativa deve ter como principal fundamento a
crença de que existe uma relação dinâmica entre o mundo real, objetivo,
concreto e o sujeito; portanto, uma conexão entre a realidade cósmica e o
homem, entre a objetividade e a subjetividade.

Para a autora na abordagem qualitativa, o pesquisador (a) deve ser alguém que
tenta interpretar a realidade dentro de uma visão complexa. Parafraseando Cláudio
Oliveira, Oliveira, M. M. de (2007, p. 60) menciona que “todos os conceitos, teorias e
descobertas são limitados e aproximados” e que este tipo de postura do pesquisador
“[...] se fundamenta no novo paradigma da ciência contemporânea, oposto ao antigo
paradigma, que preconizava a verdade absoluta das coisas”.

Para Laville e Dionne (1999, p. 41) “a idéia de problema está no centro do


realinhamento das ciências humanas, como, aliás, das demais ciências” [...] “trata-se de
compreender, considerando atentamente, a natureza do objeto de estudo, sua
complexidade e o fato de ser livre a atuante, sempre cuidando para não deformá-lo ou
reduzi-lo”. Para os autores, o pesquisador tem consciência que as compreensões assim
produzidas são compreensões relativas e que dependem do talento do pesquisador
para determinar o problema que escolhe para estudar, retraçar seus múltiplos fatores,
escolhê-los e interpretá-los.

De acordo com Laville e Dionne (1999) o que garante o valor deste saber é um
princípio denominado objetivação48. Para os autores:

É a mente do pesquisador que, a seu modo, e por diversas razões, efetua as


escolhas e as interpretações. [...] é esse modo e essas razões que são o objeto
da objetivação: de uma parte, do lado do pesquisador do qual se espera que
tome metodicamente consciência desses fatores e os racionalize; de outra, do
lado daquele ao qual serão comunicados os resultados da pesquisa, que
espera que o pesquisador lhe informe tudo para que possa julgar a validade dos
saberes produzidos. É esse princípio de objetivação que fundamenta a regra da
prova e define a objetividade. Poder-se-ia dizer que a objetividade repousa
sobre a objetivação da subjetividade (LAVILLE E DIONNE, 1999, p. 43 e 44).

A opção pelo desenvolvimento de um estudo de natureza qualitativa justifica-se


pela busca da experiência da objetivação, da promoção de reflexões sobre o tema

48
Laville e Dionne (1999, p. 335) definem objetivação como a “operação pela qual o pesquisador torna consciente,
para ele e para os outros, as coordenadas de seu problema de pesquisa e a perspectiva na qual o aborda”
220

pesquisado, pela preocupação do estabelecimento de uma relação de equilíbrio entre


objetividade e subjetividade e pela intenção do compartilhamento das percepções dos
entrevistados e do pesquisador sobre o tema de pesquisa, de forma a produzir um
estudo de características inclusivas sem intenções de ser conclusivo.

3.1.3. Método de Abordagem

O tipo de abordagem utilizada foi a pesquisa de campo, que de acordo com


Fachin (2003, p. 153), é “qualquer pesquisa realizada em ambiente natural (campo), ou
seja, não controlado (laboratório)”.

Para Santos, A. R. dos (2002, p. 27 e 28) "chama-se fontes de pesquisa os


lugares/situações de onde se extraem os dados de que se precisa" e que ainda
segundo o autor podem ser "[...] o campo, o laboratório e a bibliografia".

Ainda para Santos, A. R. dos (2002, p. 28), a pesquisa de campo é aquela que
“recolhe os dados in natura, como percebidos pelo pesquisador. Normalmente a
pesquisa de campo se faz por observação direta, levantamento ou estudo de caso".

Para Barros e Lehfeld (2000, p. 89) “em pesquisas de campo, é comum o uso de
questionários e entrevistas”. Para os autores, a escolha do instrumento de pesquisa
dependerá do tipo de informação que se deseja obter ou do tipo de objeto de estudo.

3.1.4. Coleta dos Dados

Para Appolinário (2004, p. 48), coleta de dados é a “operação através da qual se


obtêm as informações (ou dados) a partir do fenômeno pesquisado”. Para Barros e
Lehfeld (2000, p. 89) “a coleta de dados significa a fase da pesquisa em que se indaga
e se obtêm dados da realidade pela aplicação de técnicas”.

Para a realização da coleta de dados, foram utilizados como recursos


metodológicos o diário de campo, o questionário e a entrevista semi-estruturada de
natureza qualitativa.
221

Para Barros e Lehfeld (2000, p. 89) o diário de campo corresponde ao ”[...]


registro de fatos observados através de notas e/ou observações”. Seguindo a
recomendação dos autores, este instrumento foi utilizado para registrar as atividades
diárias e as não efetivadas com suas justificativas, servindo também como uma agenda
cronológica do trabalho de pesquisa. Nele foram registradas com exatidão as
observações, percepções, vivências e experiências obtidas na pesquisa, incluindo
impressões pessoais sobre o observado e o executado na pesquisa de campo.

Para a coleta dos dados que compõem o perfil dos profissionais entrevistados e
o perfil ambiental das indústrias químicas pesquisadas, foi aplicado um questionário
antes da realização das entrevistas, visando criar uma aproximação entre o
pesquisador e o entrevistado, além da obtenção de algumas informações preliminares
necessárias para a realização da entrevista semi-estruturada. Para Barros e Lehfeld
(2000, p. 90), trata-se do “... instrumento mais usado para o levantamento de
informações”. Para Oliveira, M. M. de (2007, p. 83):

O questionário pode ser definido como uma técnica para a obtenção de


informações sobre sentimentos, crenças, expectativas, situações vivenciadas e
sobre todo e qualquer dado que o pesquisador (a) deseja registrar para atender
os objetivos do estudo. Em regra geral, os questionários têm como principal
objetivo descrever as características de uma pessoa ou de determinados
grupos sociais.

Para a elaboração do questionário foi definida uma quantidade limitada de


questões abertas e fechadas, apenas as consideradas relevantes para o
desenvolvimento deste estudo, visando atender a recomendação de Barros e Lehfeld
(2000), de evitar um excesso de questões que tornariam o seu preenchimento pelo
entrevistado pesquisado exaustivo.

Devido a natureza dialógica e qualitativa proposta para o estudo, optou-se pela


realização de entrevistas individuais com diferentes tipos de profissionais que atuam
nas indústrias químicas em atividades relacionadas ao meio ambiente, como forma de
possibilitar ao pesquisador conhecer as percepções destes profissionais sobre as
relações de suas respectivas organizações com o meio ambiente. Para a realização das
entrevistas foram entrevistados profissionais diretamente relacionados com gestão
ambiental da organização.
222

Para Richardson citado por Barros e Lehfeld (2000, p. 90) o termo entrevista é
“[...] construído a partir de duas palavras, entre e vista. Vista refere-se ao ato de ver, ter
preocupação de algo. Entre indica a relação de lugar ou estado no espaço que separa
das pessoas ou coisas” [...] “o termo entrevistado refere-se ao ato de perceber o
realizado entre duas pessoas”.

De acordo com Barros e Lehfeld (2000, p. 91) “a entrevista é uma técnica que
permite o relacionamento estreito entre entrevistado e entrevistador”. Corroborando
com Barros e Lehfeld, Oliveira, M. M. de (2007, p. 86) considera que “a entrevista é um
excelente instrumento de pesquisa por permitir a interação entre pesquisador (a) e
entrevistado (a) e a obtenção de descrições detalhadas sobre o que se está
pesquisando”.

Para Laville e Dionne (1999) a entrevista oferece maior amplitude do que o


questionário em relação à sua organização, uma vez que não está presa a condição de
entrega de um documento para cada um dos interrogados. Para os autores, o
entrevistador permite-se explicitar algumas questões no curso da entrevista, assim
como reformulá-las para o atendimento das necessidades do entrevistado.

Para o desenvolvimento deste estudo optou-se pela adoção de uma entrevista


do tipo semi-estruturada, que segundo Laville e Dionne (1999, p. 188) corresponde a
uma “série de perguntas abertas, feitas verbalmente em ordem prevista, mas na qual o
entrevistador pode acrescentar perguntas de esclarecimento”. Oliveira, M. M. de (2007)
recomenda a adoção deste tipo de entrevista como forma de se estabelecer um padrão
de perguntas para cada pessoa ou grupo que se pretende entrevistar.

3.1.5. Análise dos Dados e Delineamento da Pesquisa

Para a análise dos dados e delineamento da pesquisa foi escolhido o método de


análise de conteúdo de natureza qualitativa, por meio do qual se buscou a interpretação
e a valorização das transcrições das falas dos entrevistados como elemento central
para a análise dos dados coletados. Desta forma, como proposta para o
desenvolvimento deste estudo, evitou-se de forma proposital, a aplicação do método de
223

análise de conteúdo tradicional, caracterizado pela realização de análises quantitativas


de dados e pela utilização de softwares estatísticos.

Esta decisão foi tomada primeiramente pelo interesse do pesquisador em tentar


atribuir um maior nível de fidelidade em relação ao tratamento dispensado aos dados
coletados, buscando com isso a preservação da originalidade destes e das idéias
espontâneas resultantes da transcrição literal das entrevistas. Outro motivo que
contribuiu para esta tomada de decisão foi o princípio da precaução, numa tentativa de
evitar a utilização autômata de recursos computacionais para a análise dos dados.

Para Mattos (2006) a tecnicização, que por um lado permite a multiplicação da


produção acadêmica e facilita a vida de mestrandos e pesquisadores menos
experientes, por outro, representa um risco de substituição dos significados originais por
conceitos “pré-moldados”. Em sua análise sobre os possíveis riscos inerentes ao uso
inadequado destas ferramentas, o autor confronta a recente multiplicação de softwares
de análise de conteúdo com o que antes disso advertia Bardin:

Isto [“a atitude de vigilância crítica”] sem que se caia na armadilha: construir por
construir, aplicar a técnica para se afirmar a boa consciência. Sucumbir à magia
dos instrumentos metodológicos, esquecendo a razão do seu uso (BARDIN
CITADO POR MATTOS, 2006, p. 353).

Em relação a análise de conteúdo e baseado em Bardin, Mattos (2006, p. 354)


considera que:

[...] prevalece, na prática, uma conciliação estranha entre “o rigor e a


descoberta”. A análise exaustiva “satisfaz as consciências”’ que precisam
saber-se seguras contra uma “projeção da própria subjetividade”, mas só se
completa na “descoberta dos conteúdos”, um salto não-objetivável, ou como diz
a autora “uma função heurística: a análise de conteúdo enriquece a tentativa
exploratória, aumenta a propensão à descoberta”.

Para Mattos (2006) o problema metodológico da análise de conteúdo consiste


em encontrar uma resposta para a seguinte questão: Como saltar legitimamente da fala
de um entrevistado e, em seguida, de vários deles, para um significado interpretativo?
O autor considera que isso é precedido ou, pelo menos, intermediado, por um trabalho
de organizar as informações resultantes das entrevistas, para que seja possível
proceder a inferências maiores, inclusive à luz de teorias supostamente pertinentes ao
224

caso. De forma mais restrita, Mattos (2006) considera que a questão está exatamente
neste trabalho de organização, e seu caráter problemático reside no fato de que ele não
pode estar dissociado da própria produção, pelo pesquisador, do novo significado
interpretativo, afinal, sua criação pessoal.

Para Mattos (2006) há dois imperativos inseparáveis que, por parecerem


irreconciliáveis, tornam-se geradores de todas as dificuldades dos pesquisadores: criar
significados e garantir objetivação em todo o trabalho. Para Mattos (2006, p. 351) “a
reconciliação está na concepção pragmática e dialogal da linguagem produzida na
entrevista”. Desta forma para o autor:

A objetivação torna-se possível por que a linguagem é um fenômeno social


(fatos, atos de fala, algo identificável e ocorrente entre pessoas), e seu
significado só surge desta relação. Assim, para produzir entendimento
autêntico, ou seja, pertinente e sustentável em relação ao que enuncia, o
pesquisador tem que jogar com os fatos da relação lingüística. A compreensão
exige a prática da objetivação. (MATTOS, 2006, p. 351)

Para Laville e Dionne (1999, p. 214) o princípio da análise de conteúdo consiste


em desmontar a estrutura e os elementos do conteúdo coletado para esclarecer suas
diferentes características e extrair a sua significação. Para os autores:

A análise de conteúdo não é, contudo, um método rígido, no sentido de uma


receita com etapas bem circunscritas que basta transpor em uma ordem
determinada para ver surgirem belas conclusões. Ela constitui, antes, um
conjunto de vias possíveis nem sempre claramente balizadas, para a revelação
– alguns diriam reconstrução – do sentido de um conteúdo (LAVILLE E
DIONNE, 1999, p. 216).

Por se tratar da primeira experiência deste pesquisador no desenvolvimento de


um estudo de natureza qualitativa, foram utilizados para a análise dos dados e o
delineamento deste estudo as recomendações de Laville e Dionne (1999), de Mattos
(2006) e de Oliveira, M. M. de (2007).

Para Laville e Dionne (1999, p. 216) “uma das primeiras tarefas do pesquisador
consiste, pois, em efetuar um recorte dos conteúdos em elementos que ele poderá em
225

seguida ordenar dentro de categorias49”. Para os autores “dado que a finalidade é


evidentemente agrupar esses elementos em função de sua significação, cumpre que
esses sejam portadores de sentido em relação ao material analisado e às intenções da
pesquisa”.

Para Oliveira, M. M. de (2007, p. 93):

[...] em pesquisa é preciso se estabelecer categorias para que se faça um


trabalho sistematizado e coerente [...] portanto, vamos ter em mente que a
palavra categoria está relacionada à classificação ou, mais precisamente, a um
agrupamento de elementos que são sistematizados pelo pesquisador (a) após a
pesquisa de campo, ou durante a análise de conceitos em livros didáticos,
textos e documentos.

De acordo com Oliveira, M. M. de (2007) as informações obtidas durante o


desenvolvimento de uma pesquisa podem ser classificadas em três níveis: categorias
teóricas, categorias empíricas e unidades de análise.

a) Categorias Teóricas: para a autora as categorias teóricas vão surgindo na medida


em que as leituras vão sendo assimiladas, no momento em que surge a
necessidade de afunilamento dos conteúdos. Este afunilamento das leituras
pertinentes ao objeto de estudo implica no estabelecimento de critérios para o
aprofundamento do conteúdo que possam direcionar a posterior construção dos
instrumentais de pesquisa.

b) Categorias Empíricas: segundo Oliveira, M. M. de (2007) com base no quadro


teórico, mais precisamente a partir da definição do tema central de estudo, das
leituras convergentes e da definição das categorias teóricas, é que são definidos e
construídos os instrumentais para a pesquisa de campo. Desta forma cada questão
ou tópico adotado para a realização das entrevistas serve como referencial para a
criação das categorias empíricas, possibilitando a sistematização dos dados
pesquisados;

49
Legendre citado por Oliveira, M. M. de (2007, p. 93) define categoria como sendo um “agrupamento de
informações similares em função de características comuns”. Para Larousse citado por Oliveira (2007, p. 93)
“categoria é a classificação que se faz em função de certos princípios gerais e que tenham identidade comum”.
226

c) Unidades de Análise: para Oliveira, M. M. de (2007) as unidades de análise


correspondem aos dados e informações obtidos com a aplicação dos instrumentais
de pesquisa (entrevistas/questionários). Para a autora dizem respeito a fala dos
atores sociais, a qual fornece os dados e informações que devem ser sistematizados
para facilitar o processo de análise.

Para um melhor entendimento sobre a estrutura de classificação proposta por


Oliveira, M. M. de (2007) para a classificação de dados em uma análise qualitativa, a
autora propõe uma representação gráfica conforme demonstrado na figura 20:

Categorias
Gerais

Categorias Unidades
Empíricas de Análise

Figura 20 – Classificação dos Dados


Fonte: Oliveira, M. M. de (2007)

Para Laville e Dionne (1999) além do recorte dos conteúdos, a definição das
categorias analíticas ou rubricas, anteriormente denominadas de categorias empíricas
por Oliveira, M. M. de (2007), sob as quais virão a se organizar os elementos de
conteúdo agrupados por parentesco de sentido, é uma tarefa que se reconhece
primordial. Para os autores:

A ordem desses dois momentos da análise de conteúdo pode variar: às vezes,


o pesquisador define primeiro suas categorias, mas em outros casos sua
determinação é precedida do recorte dos conteúdos, especialmente quando
essas categorias são construídas de maneira indutiva, isto é, ao longo dos
progressos da análise. (LAVILLE E DIONNE, 1999, p. 219)
227

Para Laville e Dionne (1999, p. 219) existem três modos para a definição das
categorias:

a) Modelo Aberto: onde as categorias não são fixas no início, mas tomam forma no
curso da própria análise;

b) Modelo Fechado: onde o pesquisador decide a priori categorias, apoiando-se em


um ponto de vista teórico que se propõe o mais frequentemente submeter à prova
da realidade;

c) Modelo Misto: situa-se entre os dois, servindo-se dos dois modelos precedentes:
categorias são selecionadas no início, mas o pesquisador se permite modificá-las
em função do que a análise aportará.

Em função de sua característica dialógica, foi empregado neste estudo o modo


de definição das categorias pelo modelo denominado misto. Para Laville e Dionne
(1999, p. 222) “a construção de uma grade mista começa, pois, com a definição de
categorias a priori fundadas nos conhecimentos teóricos do pesquisador e no seu
quadro operatório”. Segundo os autores, o pesquisador, ao adotar este modo de
definição das categorias “[...] não quer se limitar a modelos pré-determinados; espera
poder levar em consideração todos os elementos que se mostram significativos, mesmo
que isso o obrigue a ampliar o campo de suas categorias, a modificar uma ou outra, a
eliminá-las, aperfeiçoar ou precisar as rubricas”.

Isto posto, foram inicialmente identificadas as categorias teóricas definidas por


Oliveira, M. M. de (2007). Durante o desenvolvimento da fundamentação teórica deste
estudo foram identificadas as categorias teóricas “Meio Ambiente”, “Indústrias
Químicas” e “Percepção”, com base nas quais foi desenvolvida a revisão teórica. Logo
em seguida, partindo das categorias teóricas e da definição do conceito de modo misto
proposta por Laville e Dionne (1999), foram inicialmente definidas e propostas as
seguintes categorias e unidades de análise:
228

a) Categoria Analítica: Perfil Ambiental da Indústria Química

Unidades de Análise:

• Ramo de atuação
• Classificação do Cadastro Nacional de Atividade Econômica (CNAE)
• Classificação da organização quanto ao porte
• Tipo de empresa (matriz ou filial)
• Tempo de existência da organização (em anos e meses)
• Tempo de atuação no município (em anos e meses)
• Produtos fabricados
• Declaração formal de valores e missão (se considera o meio ambiente)
• Sistema de gestão ambiental
• Tempo de existência do sistema de gestão ambiental (em anos e meses)
• Certificações na área ambiental
• Descrição dos cargos dos profissionais relacionados com a gestão ambiental
• Matriz energética
• Percentuais de gastos ou investimentos ambientais realizados nos últimos 3 anos
com base na receita bruta (%)
• Descrição dos gastos ou investimentos em gestão ambiental nos últimos 3 anos (%)
• Descrição dos cursos realizados na área ambiental nos últimos 3 anos
• Considerações sobre a legislação aplicada a indústria química (nível de adequação)
• Principais motivações para gastos ou investimentos na área ambiental (além das
exigências legais)
• Principais dificuldades encontradas para a realização de gastos ou investimentos na
área ambiental (além da questão financeira)
• Histórico de acidente ambiental ocorrido na organização
• Geração de resíduo industrial (descrição e destino)
• Controle para emissão da poluição
229

• Registro de reclamação da comunidade em relação às suas operações


• Seguro para acidentes ambientais
• Ações na área ambiental previstas para o horizonte de 2015.

b) Categoria Analítica: Perfil do Profissional

Unidades de Análise:

• Cargo
• Gênero
• Faixa etária
• Formação
• Tempo de experiência como profissional (em anos e meses)
• Tempo de experiência do profissional na indústria química (em anos e meses)

c) Categoria Analítica: Profissional e Meio Ambiente

Unidades de Análise:

• Percepção do profissional sobre meio ambiente


• Percepção do profissional sobre a sua relação com o meio ambiente
• Percepção do profissional sobre o meio ambiente em suas tomadas de decisão
• Influências internas e/ou externas sofridas pelo profissional quanto a tomada de
decisões relacionadas ao meio ambiente
• Importância atribuída pelo profissional do meio ambiente para a sua organização

d) Categoria Analítica: Indústria Química e Meio Ambiente

Unidades de Análise:
230

• Percepção do profissional sobre como a indústria química é vista pela sociedade em


relação às questões ambientais
• Lembrança de acidente ambiental provocado por indústrias químicas
• Riscos que a indústria química representa ao meio ambiente
• Lembrança de acidente ambiental ocorrido na organização
• Nível de risco que as atividades desenvolvidas pela organização representam para o
meio ambiente
• Nível de suficiência das ações ambientais para evitar ou minimizar possíveis
impactos ambientais
• Pressões exercidas sobre a organização para a adoção de medidas que visem a
preservação do meio ambiente
• Percepção do profissional sobre a relação de sua organização como o meio
ambiente
• Percepção do profissional sobre o futuro da relação da indústria química com o meio
ambiente

As duas primeiras categorias analíticas “Perfil Ambiental da Indústria Química” e


“Perfil do Profissional” surgiram da necessidade identificada pelo pesquisador durante o
planejamento do instrumento de pesquisa, de conhecer melhor os sujeitos e os objetos
envolvidos na pesquisa. A elaboração das questões pertencentes à categoria “Perfil do
Profissional” foram inspiradas nas recomendações de Oliveira, M. M. de (2007) quanto
à definição do perfil do entrevistado. Já a elaboração das questões pertencentes à
categoria “Perfil Ambiental da Indústria Química” foram inspiradas pelo contato com as
pesquisas realizadas para a Cepal por Oliveira, K. P. de (2005), que trata sobre o
panorama do comportamento ambiental no setor empresarial no Brasil e na Pesquisa
Gestão Ambiental na Indústria Brasileira realizada pela Confederação Nacional da
Indústria (CNI), Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e
Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) (1998). Por
meio dos dados coletados para estas duas categorias, foi possível conhecer algumas
características relevantes dos sujeitos e objetos envolvidos na pesquisa, fato que
possibilitou uma maior aproximação do pesquisador, um melhor encaminhamento da
231

entrevista com os entrevistados e consequentemente um melhor tratamento dos dados


coletados.

A terceira categoria analítica, denominada “Profissional e Meio Ambiente”, foi


criada como o objetivo de buscar um entendimento sobre quais são as percepções
individuais que os diferentes tipos de profissionais envolvidos com a gestão ambiental
da organização têm em relação ao meio ambiente. Esta categoria foi criada pelo
pesquisador com o objetivo de tentar explicitar qual é a percepção de cada tipo de
profissional em relação ao meio ambiente, independentemente das atividades que são
praticadas pelas suas respectivas organizações.

A quarta e última categoria, denominada “Indústria Química e Meio Ambiente”, foi


criada com o objetivo de buscar revelar quais são as percepções dos profissionais da
indústria química sobre a relação de sua organização com o meio ambiente. Esta
categoria foi criada com o intuito de responder o problema de pesquisa proposto para
esta pesquisa:

Como os profissionais de indústrias químicas instaladas em um município paranaense


percebem a relação de suas organizações com o meio ambiente?

As perguntas de pesquisa foram desenvolvidas a partir das unidades de análise


e agrupadas de acordo com a sua respectiva categoria, com o objetivo de facilitar as
atividades de realização das entrevistas e de tabulação dos dados coletados. As
perguntas de pesquisa são apresentadas no instrumento de pesquisa (Anexos 4 e 5) e
ao longo do capítulo que trata da apresentação dos resultados obtidos no estudo.

3.1.6. Universo e Amostra

Segundo Oliveira, M. M. de (2007, p. 87) “em pesquisa, o termo população ou


universo significa a totalidade de pessoas que habita uma determinada área geográfica,
ou o conjunto de elementos que compõem o objeto de nosso estudo”. Para a autora,
232

“nem sempre é possível pesquisar a totalidade desses elementos, ou todas as pessoas


e grupos que se situam na área que delimitamos para nossa pesquisa de campo”, logo
“[...] cabe ao pesquisador (a), a partir da totalidade (universo), definir o tamanho de sua
amostra50”. “Sendo a amostra uma representação da população ou universo da
pesquisa, faz-se necessário estabelecer critérios no processo de seleção para que ela
seja significativa” (OLIVEIRA, M. M. de, 2007, p. 88).

Para o desenvolvimento deste estudo, optou-se por uma amostra não-


probabilística intencional. Amostra não-probabilística porque “o pesquisador (a)
determina a quantidade de elementos ou o número de pessoas aptas a responder um
questionário” e intencional em função de que “[...] o pesquisador (a) decide analisar um
determinado fenômeno sem ter a preocupação de fazer generalizações em relação ao
universo da pesquisa” (OLIVEIRA, M. M. de, 2007, p. 88 e 89).

Para a delimitação do universo de pesquisa, optou-se pela adoção da limitação


geográfica de um município do Estado do Paraná, o qual foi selecionado por ser
considerado de pequeno porte e por possuir um número significativo de indústrias
químicas instaladas. A escolha deste parâmetro de delimitação foi também motivada
pelo interesse de que a pesquisa retrata-se as percepções de profissionais de
indústrias químicas que compartilham um mesmo ambiente geográfico. Por razões do
compromisso de confidencialidade assumido junto aos profissionais que participaram
da pesquisa, os dados que permitem identificar o município, as indústrias químicas e os
profissionais envolvidos na pesquisa não serão revelados. Esta condição foi assumida
na proposta original da pesquisa com o objetivo de viabilizar a sua realização, sendo
mantida ao longo do desenvolvimento do estudo.

Para a identificação das indústrias químicas que compõem o universo de


pesquisa deste estudo, foram cruzadas informações cadastrais de 7 (sete) fontes de
dados distintas, conforme apresentado no quadro 35:

50
Para Oliveira, M. M. de (2007, p. 88) “[...] a amostra é um subconjunto ou parte dos elementos que compõem o
universo”.
233

Quadro 35 – Fontes de Dados X Indústrias Químicas Instaladas no Município


Total de Indústrias
Entidade Fonte de Dados Químicas Instaladas no
Município
Federação das Indústrias do
Catálogo das Indústrias do Paraná 2006 11
Estado do Paraná (FIEP)
Associação Comercial e
Relatório Cadastral 33
Industrial do Município
Prefeitura Municipal Relatório Cadastral 47
Junta Comercial do Paraná
Relatório Cadastral 41
(JUCEPAR)
Relatório de Licenças Ambientais
Instituto Ambiental do Paraná 64
Fornecidas para Indústrias Químicas
Associação Brasileira da Guia da Indústria Química Brasileira
1
Indústria Química (ABIQUIM) 2007
Sindicato das Indústrias Relação de Associados Disponível no
Químicas e Farmacêuticas do Site da Entidade na Internet 0
Estado do Paraná (SINQFAR) (www.sinqfar.org.br)
Fonte: O Autor (2008)

O resultado do cruzamento de todas as fontes de dados apontou para um total


de 119 (cento e dezenove) indústrias químicas instaladas no município, número
superior ao total de empresas originalmente previsto para a realização do estudo. Este
dado revelou a fragilidade das fontes de dados pesquisadas em termos de abrangência
e de nível de atualização, situação geradora de divergências e que pode ser atribuída a
fatores como: a vinculação voluntária das indústrias aos cadastros das entidades,
ausência de padrão nos critérios aplicados para a classificação das indústrias, a
ausência da adoção de procedimentos periódicos para a sua atualização e a
informalidade. É provável que algumas destas fontes de dados ainda considerem
indústrias que já encerraram suas atividades ou que desenvolvem atividades diferentes
daquelas que caracterizam uma indústria química.

Cabe ressaltar que no caso da Federação das Indústrias do Estado do Paraná


(FIEP), a vinculação dos dados das indústrias que integram o Catálogo das Indústrias
do Paraná 2006 dependia do interesse de adesão das próprias indústrias e que no caso
do Sindicato das Indústrias Químicas e Farmacêuticas do Estado do Paraná
(SINQFAR) e da Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM), o total
apresentado compreende apenas o número de indústrias que são associadas às
respectivas entidades. No caso específico destas duas entidades representativas do
setor, os números revelam um baixo nível de associação das indústrias químicas do
234

município pesquisado em relação às entidades que as representam no contexto


estadual e nacional.

No caso do Sindicato das Indústrias Químicas e Farmacêuticas do Estado do


Paraná (SINQFAR), foi efetuado em 04 de dezembro de 2007 um contato por telefone
com a entidade, no intuito da obtenção dos dados cadastrais das indústrias químicas
instaladas no município selecionado para o estudo. Neste contato o pesquisador foi
informado que a entidade não possuía dados sobre as indústrias químicas instaladas
no Estado do Paraná e que somente possuía dados de seus associados, os quais não
poderiam ser disponibilizados em razão de uma decisão tomada em assembléia. Por
este motivo, para a confirmação do total de indústrias químicas instaladas no município
foram utilizadas as informações dos associados disponibilizadas no site da entidade
(www.sinqfar.org.br), as quais apontaram a inexistência de indústrias químicas
associadas ao sindicato patronal no município, apesar da região possuir um número
representativo de indústrias instaladas. Com o intuito de levar ao conhecimento da
entidade a proposta do estudo a ser realizado, foi encaminhada no mesmo dia uma
carta via correio eletrônico ao Presidente do referido sindicato mencionando os
objetivos da pesquisa (ver Anexo 6). Até o fechamento deste estudo, o sindicato não
havia manifestado interesse pela pesquisa.

No caso do Instituto Ambiental do Paraná (IAP), as informações sobre as


indústrias químicas juntamente com o histórico sobre autuações e acidentes ambientais
envolvendo indústrias químicas instaladas no município, foram solicitadas por carta
encaminhada via correio eletrônico no dia 11 de dezembro de 2007 (ver Anexo 7). Em
resposta a solicitação, o instituto limitou-se a informar que haviam no município 36
(trinta e seis) indústrias licenciadas, sendo que destas apenas 15 (quinze) eram
efetivamente classificadas como indústrias químicas e 21 (vinte e uma) consideradas
como indústrias potencialmente impactantes devido à intensa utilização de produtos
químicos. Quanto ao número de autuações ambientais ocorridas no município do
período correspondente a 01 de janeiro de 2003 a 11 de dezembro de 2007, o instituto
informou que de um total de 138 (cento e trinta e oito) ocorrências, 30 (trinta) foram por
lançamento de efluentes líquidos fora dos padrões exigidos em legislação própria e 108
(cento e oito) por construção, reforma e/ou sem a devida licença ambiental (não
235

obrigatoriamente indústrias químicas). Em relação aos acidentes ambientais


envolvendo indústrias químicas no mesmo período, o IAP informou que houveram 2
(duas) ocorrências.

Em razão do IAP ter disponibilizado apenas totais sem o fornecimento dos dados
cadastrais e o detalhamento das autuações e acidentes envolvendo indústrias
químicas, novos contatos foram estabelecidos com o intuito da obtenção dos dados
originalmente solicitados. Depois de muita insistência, por meio de vários contatos por
telefone, por correio eletrônico e de uma visita pessoal, o IAP disponibilizou em 1º. de
abril de 2008 uma nova relação de indústrias químicas instaladas no município, a qual
apontou um total de 64 (sessenta e quatro) empresas, total diferente do apresentado no
primeiro retorno. Em relação aos dados sobre autuações e acidentes ambientais, o IAP
informou que o detalhamento sobre os mesmos não poderiam ser disponibilizados, uma
vez que a grande maioria das ocorrências ainda estava sendo discutida juridicamente,
fato que impedia a sua disponibilização para efeitos de divulgação pública.

A ausência da disponibilização dos dados cadastrais como telefone e endereço


das indústrias químicas instaladas no município nos relatórios fornecidos pela Prefeitura
Municipal, pelo Instituto Ambiental do Paraná (IAP) e pela Junta Comercial do Estado
do Paraná (JUCEPAR) representaram um fator limitante para a realização desta
pesquisa. A Prefeitura Municipal informou que não dispunha destes dados em função
de estar implantando um novo sistema, motivo pelo qual os dados cadastrais das
indústrias químicas instaladas no município não estavam disponíveis. No caso do
Instituto Ambiental do Paraná (IAP) e da Junta Comercial do Estado Paraná
(JUCEPAR), estes dados não foram disponibilizados nos relatórios fornecidos.

Do total das 119 (cento e dezenove) indústrias químicas apontadas, foram


identificados os dados de contato de apenas 36 (trinta e seis) empresas, por meio dos
dados cadastrais disponíveis em algumas das fontes de dados pesquisadas (FIEP,
ABIQUIM e Associação Comercial e Industrial do Município), de pesquisas
complementares realizadas na internet (sites locais) e na lista telefônica do município.

O quadro 36 revela a situação cadastral das 36 (trinta e seis) indústrias químicas


em relação às fontes de dados pesquisadas:
236

Quadro 36 – Indústrias Químicas X Fontes de Dados


Indústrias Associação Prefeitura Junta Comercial
FIEP IAP ABIQUIM SINQFAR
Químicas Comercial Municipal do Paraná
Indústria 1 X X X X
Indústria 2 X X X
Indústria 3 X X X X
Indústria 4 X X
Indústria 5 X
Indústria 6 X X X
Indústria 7 X X X
Indústria 8 X X X
Indústria 9 X X X X X
Indústria 10 X X X X
Indústria 11 X X
Indústria 12 X X
Indústria 13 X X
Indústria 14 X X X
Indústria 15 X X X
Indústria 16 X X X X
Indústria 17 X
Indústria 18 X X X
Indústria 19 X
Indústria 20 X X
Indústria 21 X X X X
Indústria 22 X X X X
Indústria 23 X X X X
Indústria 24 X X
Indústria 25 X
Indústria 26 X X X
Indústria 27 X
Indústria 28 X
Indústria 29 X
Indústria 30 X X
Indústria 31 X X
Indústria 32 X X
Indústria 33 X X
Indústria 34 X
Indústria 35 X X X
Indústria 36 X X
Fonte: O Autor (2008)

Das 36 (trinta e seis) indústrias químicas identificadas, apenas 23 (vinte e três)


foram consideradas para efeitos de desenvolvimento desta pesquisa. As justificativas
pelas quais 13 (treze) empresas foram desconsideradas são apresentadas no quadro
37:
237

Quadro 37 – Justificativas para a Não Inclusão das Indústrias na Pesquisa


Indústrias Químicas Justificativas para a não Inclusão das Indústrias na Pesquisa
O proprietário informou que a empresa não é classificada como indústria
química em função de não fabricar substâncias químicas. A empresa apenas
Indústria 24
utiliza matéria-prima oriunda da indústria química no processo de fabricação de
produtos cirúrgicos
Indústria 25 Empresa não localizada
Indústria 26 Empresa não localizada
Indústria 27 Empresa não localizada
Indústria 28 Empresa não localizada
O proprietário informou que a empresa não fabrica produtos químicos, apenas
Indústria 29
atua no ramo de comercialização e distribuição de adesivos.
Indústria 30 Empresa não localizada
O proprietário informou que a empresa deixou de atuar no ramo de fabricação
de produtos químicos para atuar no segmento de reciclagem de resíduos
Indústria 31
industriais, incluindo resíduos gerados por indústrias químicas. Os resíduos são
preparados para serem incinerados em fornos de cimenteiras
Indústria 32 Empresa encerrou suas atividades
O proprietário informou que a empresa não fabrica produtos químicos, apenas
Indústria 33
atua no ramo de comercialização e distribuição de tintas.
O proprietário informou que a empresa não fabrica produtos químicos, apenas
Indústria 34
aplica esmaltes nas telhas que fabrica.
Indústria 35 Empresa não localizada
Empresa ainda estava em fase inicial de instalação de sua unidade industrial
Indústria 36
no município
Fonte: O Autor (2008)

No início do mês de dezembro de 2007 foram iniciados os contatos com as 23


(vinte e três) indústrias químicas consideradas para a realização do estudo. Nesta
ocasião o pesquisador realizou uma visita a cada uma das empresas no intuito de
confirmar a sua localização e de realizar o convite oficial por meio da entrega de um
ofício nominal. No convite constavam: o detalhamento dos objetivos da pesquisa, as
condições de confidencialidade estabelecidas para a realização da pesquisa,
orientações sobre a possibilidade de não-participação e dados de contato do
pesquisador para o esclarecimento de eventuais dúvidas das empresas convidadas (ver
Anexo 8). Além dos dados sobre a realização da pesquisa, as empresas convidadas
também receberam uma cópia do instrumento de pesquisa (Anexos 4 e 5), como forma
de contribuir para a sua tomada de decisão quanto a participação na pesquisa.
238

Das 23 (vinte e três) indústrias contactadas, apenas a Indústria 10 efetuou um


retorno para o convite, informando a sua impossibilidade de participação na pesquisa.
As demais indústrias demandaram um esforço adicional do pesquisador quanto à
necessidade de realização de novos contatos para a confirmação do seu interesse em
participar na pesquisa, conforme demonstrado no quadro 38:

Quadro 38 – Total de Contatos Realizados


Indústrias
Número de Contatos Status
Químicas
Indústria 1 1 Entrevista Realizada
Indústria 2 1 Entrevista Realizada
Indústria 3 2 Entrevista Realizada
Indústria 4 2 Entrevista Realizada
Indústria 5 3 Entrevista Realizada
Indústria 6 4 Entrevista Realizada
Indústria 7 13 Entrevista Realizada
Indústria 8 4 Entrevista Realizada
Indústria 9 6 Entrevista Realizada
Indústria 10 0 Convite não Aceito
Indústria 11 9 Convite não Aceito
Indústria 12 7 Convite não Aceito
Indústria 13 7 Convite não Aceito
Indústria 14 7 Convite não Aceito
Indústria 15 4 Convite não Aceito
Indústria 16 10 Retorno Pendente
Indústria 17 8 Retorno Pendente
Indústria 18 3 Retorno Pendente
Indústria 19 2 Convite não Aceito
Indústria 20 5 Convite não Aceito
Indústria 21 7 Retorno Pendente
Indústria 22 8 Retorno Pendente
Indústria 23 9 Retorno Pendente
Fonte: O Autor (2008)

Do total das 23 (vinte e três) indústrias convidadas, 9 (nove) empresas ou


39,13% aceitaram participar da pesquisa. Apesar das várias tentativas realizadas pelo
pesquisador para que um número maior de empresas participasse da pesquisa, 8 (oito)
empresas ou 34,78% não aceitaram o convite e 6 (seis) empresas ou 26,09% não
efetuaram retorno para os contatos estabelecidos.
239

As 8 (oito) empresas que não aceitaram participar da pesquisa apresentaram as


seguintes justificativas:

Quadro 39 – Justificativas das Empresas que não Aceitaram Participar da Pesquisa


Indústrias
Justificativas
Químicas

O proprietário informou que a empresa estava nos meses de maior volume de produção
Indústria
e que os profissionais relacionados com a área ambiental não dispunham de tempo para
10
participar da pesquisa.

Depois de vários contatos realizados, o proprietário da empresa enviou uma mensagem


eletrônica ao pesquisador informando: “Desculpe-nos a demora em responder sua
solicitação a respeito do assunto acima, nossa empresa estava em férias coletivas no
período em questão, sobre sua solicitação queremos salientar que estamos lisonjeados
pela escolha de nossa empresa, mas, não podemos ajudá-los, por diversos motivos, e
o principal deles é que não somos uma Indústria total de transformação, ou seja a
maioria de nossos produtos já vêem manipulados apenas fracionamos e envasamos os
produtos já acabados,outra questão é a respeito dos resíduos, nossa empresa não tem
resíduos para serem lançados fora, todo nosso resíduo é remanipulado e reaproveitado
para uso.Desta forma achamos muito difícil que para um trabalho de mestrado como
este, possamos ser úteis, já que não temos muitas das informações que com certeza
serão necessárias para conclusão do seu trabalho. Achamos que o melhor seria V.Sa.,
Indústria
encontrar empresas do ramo químico que fabricam as matérias primas para
11
transformação, as quais poderiam lhes dar melhores subsídios para seu trabalho.
Agradecemos seu interesse por nossa empresa e ficamos a sua disposição para
dirimirmos possíveis dúvidas a respeito.”
Observação: a justificativa relacionada ao período de férias coletivas informada pelo
proprietário não foi informada em nenhum dos 9 (nove) contatos estabelecidos com a
empresa. A secretária responsável pelos retornos sempre informou que o proprietário
não se encontrava na empresa ou que esta ocupado, realizando outras atividades.
Apesar do retorno negativo em relação à participação na pesquisa, o pesquisador
efetuou um retorno para a mensagem eletrônica informando que mesmo diante das
situações informadas pela empresa, que teria interesse que a empresa participasse do
estudo. Até o fechamento deste estudo, a empresa não havia se manifestado sobre o
novo convite.

Depois de vários contatos realizados, o proprietário da empresa enviou uma mensagem


eletrônica ao pesquisador informando:” 1. Agradecemos ao oficio recebido e as
Indústria chamadas referente ao tema. 2. Gostaríamos de oportunizar este tema para um futuro
12 devido a modificações estruturais que estão em curso na fábrica neste momento. Por
favor, se possível, contatar-nos para o segundo semestre deste ano. Agradeço a
compreensão.”
Depois de vários contatos realizados, no último contato telefônico estabelecido pelo
Indústria pesquisador com o proprietário da empresa, este informou que a empresa passava por
13 uma reestruturação e que somente teria condições de agendar uma reunião para 2009,
quando a nova fábrica estivesse concluída.

Continua (...)
240

Depois de vários contatos realizados, o responsável pela empresa informou que a


Indústria empresa estava passava por mudanças estruturais e que naquele momento não seria
14 possível participar da pesquisa. O responsável pela empresa informou que talvez fosse
possível a participação na pesquisa a partir da metade do ano.

Depois de vários contatos realizados, o proprietário informou por meio de sua secretária
Indústria
que a empresa não participaria da pesquisa em função de diversos compromissos
15
internos.

Depois de vários contatos realizados, uma funcionária da empresa informou que os


proprietários ainda não haviam analisado o convite, afirmando de forma enfática que
Indústria
caso os proprietários da empresa tivessem interesse em participar da pesquisa, eles
19
estariam efetuando um retorno. Até o fechamento deste estudo, a empresa não havia se
manifestado sobre o novo convite.

Depois de vários contatos realizados, um funcionário da empresa estabeleceu um


Indústria contato com o pesquisador para informar que a empresa não participaria da pesquisa
20 em virtude da química responsável pela área do meio ambiente estar de licença
maternidade e do responsável pela produção estar afastado por licença médica.
Fonte: O Autor (2008)

Das 6 (seis) empresas que não efetuaram um retorno, apesar das várias
tentativas de contato, a Indústria 22 chama a atenção por se tratar da única empresa
instalada no município que é associada à Associação Brasileira de Indústrias Químicas
(ABIQUIM). Apesar desta característica e do seu porte, a empresa não retornou a
nenhum dos 8 (oito) contatos que foram realizados por meio de visita para entrega do
convite, telefonemas e mensagens eletrônicas. Uma das hipóteses encontradas para a
ausência de retorno por parte desta indústria reside no fato de que suas instalações se
encontram dentro dos limites de uma Área de Proteção Ambiental (APA). Esta APA,
criada com o intuito de proteger a bacia hidrográfica que fornece água para um
reservatório de abastecimento existente próximo às instalações da empresa, foi
estabelecida em data posterior à instalação da indústria no município.

4. APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS DO ESTUDO

A proposta original de pesquisa apresentada no convite encaminhado para as


empresas, previa a realização das entrevistas em duas etapas distintas, conforme
apresentado no quadro 40:
241

Quadro 40 – Etapas Propostas para a Realização da Pesquisa


Etapas Descrição das Etapas

Entrevista com o principal executivo da empresa, para definir o perfil ambiental e


Etapa 1 identificar quais são os profissionais diretamente envolvidos com as questões ambientais
na indústria química entrevistada.

Entrevista com o principal executivo da empresa e com os profissionais identificados na


Etapa 2
etapa 1 (químicos, coordenadores da área de qualidade/SGA, entre outros)

Fonte: O Autor (2008)

Esta divisão em etapas pretendia estabelecer uma melhor condição para a


realização das entrevistas e por subseqüência, uma melhor qualidade dos resultados.
Desta forma, a primeira etapa propunha uma entrevista com o principal executivo da
empresa, como forma de realizar uma primeira aproximação entre o pesquisador, o
sujeito e o objeto de pesquisa; identificar o perfil ambiental da empresa e os
profissionais diretamente envolvidos com a área ambiental. Na segunda etapa, a
proposta consistia na realização de entrevistas com diferentes profissionais de uma
mesma empresa, como executivos, coordenadores de produção, químicos, entre
outros, como forma de possibilitar o cruzamento de suas respostas e analisar pontos
convergentes e divergentes no discurso.

Em função da existência de uma realidade diferente da idealizada pelo


pesquisador, a proposta original para as entrevistas não pode ser efetivada. Alguns
fatores se demonstraram limitantes para a realização da proposta das entrevistas em
duas etapas como a ausência de disponibilidade de tempo por parte dos profissionais
das empresas entrevistadas, a dificuldade de acesso ao principal executivo da empresa
(grandes empresas), a ausência de quadro técnico composto por diferentes tipos de
profissionais (pequenas empresas) e a própria condição da necessidade de
convencimento de algumas empresas para que estas participassem da pesquisa. Das 9
(nove) empresas entrevistadas, apenas na Indústria 3 foi possível entrevistar o principal
executivo e o profissional responsável pela área ambiental, motivo pelo qual a pesquisa
foi realizada com 10 (dez) entrevistados.
242

Outro fator limitante relacionado à realização das entrevistas ocorreu em função


da disponibilização do instrumento de pesquisa anexo ao convite. Esta situação, criada
com o objetivo de possibilitar que as empresas convidadas avaliassem a proposta de
pesquisa na íntegra antes de decidir sobre a sua participação, possibilitou que os
profissionais da Indústria 1 e da Indústria 6 realizassem o preenchimento do
questionário em substituição da realização da entrevista. Em virtude das duas
empresas não terem aberto a possibilidade de realização de entrevistas, as suas
participações foram tratadas para efeitos de apresentação dos resultados deste estudo,
por meio da transcrição das respostas dos questionários. Esta decisão foi tomada em
virtude da importância das empresas e de suas respostas para o contexto da pesquisa.

Conforme citado anteriormente no capítulo dos procedimentos metodológicos, no


tópico específico que trata sobre os procedimentos adotados para a análise de dados e
o delineamento da pesquisa, como proposta para a realização deste estudo foram
idealizadas 4 (quatro) categorias de análise: perfil do profissional, perfil ambiental da
indústria química, profissional e meio ambiente; e indústria química e meio ambiente.
Estas categorias serão utilizadas como forma de organização para a apresentação dos
resultados da pesquisa.

4.1. Perfil do Profissional

As entrevistas com os profissionais da indústria química revelaram a existência


de uma diversidade de perfis profissionais em termos de cargos, faixa etária e tempo de
experiência profissional e de atuação na indústria química.

Dentre os 10 (dez) entrevistados, 8 (oito) ou 80% são do sexo masculino e 2


(duas) do sexo feminino. Deste total, 7 (sete) ou 70% se declararam proprietários da
empresa, 1 (uma) ou 10% técnica ambiental, 1 (um) ou 10% encarregado de produção
e 1 (um) ou 10% gerente de produção.

Com relação à faixa etária, 4 (quatro) ou 40% dos entrevistados declarou ter
entre 41 e 50 anos, 3 (três) ou 30% ter acima de 60 anos, 1 (uma) ou 10% ter entre 51
e 60 anos, 1 (um) ou 10% ter entre 31 e 40 anos e 1 (um) ou 10% ter entre 20 e 30
243

anos. Desta forma percebe-se que boa parte da amostra, composta por 8 (oito)
entrevistados é constituída por profissionais acima de 41 (quarenta e um) anos, dado
que revela a constituição de um grupo que possui maior tempo de experiência
profissional e de experiência na indústria química, conforme indicado no quadro 41:

Quadro 41 – Perfil Profissional dos Entrevistados


Tempo de
Formação Tempo de
Indústria Faixa Experiência
Entrevistado Cargo Gênero (Ano de Experiência
Química Etária na Indústria
Conclusão) Profissional
Química

Engenharia
Agronômica
(1985)
Entre 41
Técnica Especialização
Indústria 1 Entrevistada 1 Feminino e 50 22 anos 10 anos
Ambiental em
anos
Gerenciamento
Ambiental
(2004)

Entre 31 Analista de
Indústria 2 Entrevistado 2 Proprietário Masculino e 40 Sistemas 25 anos 15 anos
anos (Incompleto)

Entre 20
Encarregado Farmácia
Indústria 3 Entrevistado 3 Masculino e 30 14 anos 10 anos
de Produção (2006)
anos
Acima
Indústria 3 Entrevistado 4 Proprietário Masculino de 60 1º. Grau 47 anos 22 anos
anos

Acima
Indústria 4 Entrevistado 5 Proprietário Masculino de 60 1º. Grau 48 anos 43 anos
anos

Acima
Indústria 5 Entrevistado 6 Proprietário Masculino de 60 1º. Grau 60 anos 55 anos
anos

Entre 41
2º. Grau Não
Indústria 6 Entrevistado 7 Proprietário Masculino e 50 15 anos
(Incompleto) Informado
anos

Técnico em
Contábeis
(1982)
Entre 41
Gerente de Técnico em
Indústria 7 Entrevistado 8 Masculino e 50 25 anos 25 anos
Produção Química
anos
(1988)
Administração
(2000)

Entre 41 Engenheiro
Indústria 8 Entrevistado 9 Proprietário Masculino e 50 Civil 28 anos 5 anos
anos (1984)

Entre 51
Indústria 9 Entrevistada 10 Proprietária Feminino e 60 2º. Grau 31 anos 31 anos
anos

Fonte: O Autor (2008)


244

As entrevistas com os profissionais também revelaram uma diversidade em


termos de formação educacional e apontaram que apenas 2 (dois) profissionais ou 20%
possuem formação relacionada com a área química e que apenas 1 (uma) profissional
ou 10% possui formação na área ambiental.

4.2. Perfil Ambiental da Indústria Química

As 9 (nove) indústrias que participaram desta pesquisa estão distribuídas em 3


(três) regiões distintas do município, o que revela a inexistência de um zoneamento
industrial que concentre as indústrias químicas instaladas no município. Destas
indústrias, 4 (quatro) estão localizadas em áreas industriais e 5 (cinco) em áreas
urbanas. Dentre estas indústrias, 2 (duas) possuem instalações visivelmente precárias
em função das condições físicas de suas instalações e 2 (duas) desenvolvem suas
atividades em instalações que carecem de adequações e melhorias em termos de infra-
estrutura.

As indústrias pesquisadas desenvolvem as atividades apresentadas no quadro


42:

Quadro 42 – Atividades Desenvolvidas pelas Indústrias Químicas


Indústrias Químicas Descrição das Atividades CNAE Localização
Indústria 1 Cosméticos e Alimentos Nutricionais 21.21.1.03 Área Urbana
Indústria 2 Tintas e Vernizes Não Informado Área Industrial
Indústria 3 Produtos Fitoterápicos Não Informado Área Urbana
Indústria 4 Água Sanitária Não Informado Área Urbana
Indústria 5 Água Sanitária Não Informado Área Urbana
Indústria 6 Resinas Uréicas Não Informado Área Industrial
Indústria 7 Graxas e Óleos Não Informado Área Urbana
Indústria 8 Fertilizantes Não Informado Área Industrial
Indústria 9 Fertilizantes Não Informado Área Industrial
Fonte: O Autor (2008)

Dentre as indústrias químicas entrevistadas, apenas a Indústria 1 conhecia o seu


respectivo código da Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE). As
demais empresas desconheciam a existência do Cadastro Nacional de Atividades
Econômicas (CNAE) ou do seu respectivo código, dado que revela a ausência de
245

conhecimento dos entrevistados com relação a este aspecto burocrático que rege a
classificação das atividades da indústria de transformação no país. Por este motivo,
diferentemente da proposta original do estudo que previa classificar as atividades
desenvolvidas pelas indústrias químicas entrevistadas por meio da utilização do
Cadastro Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), foram adotadas as descrições
das atividades fornecidas pelas próprias empresas.

Quanto ao porte, 6 (seis) indústrias ou 66,67% declararam que eram micro


empresas (até 19 empregados), 1 (uma) ou 11,11% declarou que era uma pequena
empresa (de 20 a 99 empregados) e 2 (duas) indústrias declararam que eram de porte
médio (de 100 a 499 empregados). Todas as unidades visitadas correspondem a matriz
da empresa, sendo que destas, 5 (cinco) indústrias ou 55,56% iniciaram as suas
atividades dentro do próprio município, conforme indicado no quadro 43:

Quadro 43 – Tempo de Existência da Indústria X Tempo de Atuação no Município


Indústrias
Tempo de Existência (Anos) Tempo de Atuação no Município (Anos)
Químicas
Indústria 1 22 16
Indústria 2 15 11
Indústria 3 20 12
Indústria 4 30 30
Indústria 5 16 7
Indústria 6 4 4
Indústria 7 31 31
Indústria 8 5 5
Indústria 9 31 31
Fonte: O Autor (2008)

No quadro 44 é possível perceber que a maioria das indústrias químicas


pesquisadas possui um longo tempo de atuação no município, números justificados
pelo fato de que as empresas são nacionais e na maioria dos casos de origem local.
Com relação à declaração formal de missão e valores, Sistema de Gestão Ambiental
(SGA) e certificações na área ambiental, as indústrias apresentaram as seguintes
respostas:
246

Quadro 44 – Declaração de Missão e Valores, SGA e Certificações Ambientais


Sistema de Gestão
Indústrias Químicas Missão e Valores Certificações Ambientais
Ambiental (SGA)
Indústria 1 Sim Sim Não
Indústria 2 Não Não Não
Indústria 3 Não Não Não
Indústria 4 Não Não Não
Indústria 5 Não Não Não
Indústria 6 Não Não Não
Indústria 7 Não Não Não
Indústria 8 Não Não Não
Indústria 9 Não Não Não
Fonte: O Autor (2008)

A pesquisa revelou que 8 (oito) indústrias ou 88,89% não possui declaração de


missão e valores, sistema de gestão ambiental e certificações ambientais. A única
exceção é a Indústria 1, que possui uma declaração formal de missão e valores que
contempla a questão ambiental e um Sistema de Gestão Ambiental (SGA) que conta
com um profissional dedicado para o gerenciamento das atividades relacionadas às
questões ambientais. Apesar da empresa não possuir certificações ambientais, a
exemplo da ISO 14000, a empresa conta com a certificação ISO9001/2000. No caso da
Indústria 7 a empresa informou que iniciou os procedimentos para a implantação da
certficação ISO 9000, mas que os mesmos foram interrompidos em função da abertura
de uma nova filial. Durante os preparativos para a implantação da ISO 9000, a empresa
somente conseguiu implantar um Sistema de Gestão da Qualidade (SGQ), o qual
também se encontra paralisado em função da prioridade de implantação da nova filial.

Quando questionado se algum cliente já havia exigido alguma certificação na


área ambiental, o Entrevistado 8 informou:

“Ainda não, são poucas as empresas que colocam isso como uma pré-condição, porque o
Brasil é um país continental onde você tem diversos tamanhos e diferentes necessidades.
Num futuro próximo, daqui uns 5 ou 6 anos, eu não vejo antes disso, você vai ter um
universo maior de empresas exigindo isso: certificação ISO 9000 para ter rastreabilidade e
ISO 14000 e 18000, seria segurança, meio ambiente, até a parte de saúde ocupacional e
terceiro setor. Quando uma empresa exige alguma coisa na qual nós não nos enquadramos,
nós colocamos a solicitação no nosso cronograma, se ela puder esperar nós fazemos
negócio, se não atende nós não mudamos o nosso foco em função da exigência daquela
empresa” (Entrevistado 8).

Alguns entrevistados, em especial das indústrias de menor porte demonstraram


desconhecimento sobre missão e valores, sistema de gestão ambiental e certificações
247

ambientais. No caso específico das certificações, a maior parte deste grupo de


entrevistados confundiu o questionamento realizado com as licenças ambientais
exigidas para a operação da empresa, fato que revela um certo distanciamento das
certificações ambientais da realidade destas indústrias.

Quanto a matriz energética, a maior parte das indústrias declarou que se utiliza,
em maior proporção para o seu processo produtivo, da eletricidade fornecida pela
Companhia Paranaense de Energia Elétrica (COPEL). Algumas empresas declaram
fontes energéticas complementares, conforme demonstrado no quadro 45:

Quadro 45 – Indústrias Químicas X Matriz Energética


Indústrias Químicas Matriz Energética Observação
Indústria 1 Energia Elétrica (100%)
Energia Elétrica (95%) O óleo combustível é utilizado para
Indústria 2
Óleo Combustível (5%) o funcionamento de uma caldeira
Indústria 3 Energia Elétrica (100%)
Indústria 4 Energia Elétrica (100%)
Indústria 5 Energia Elétrica (100%)

Energia Elétrica (95%)


Indústria 6
Lenha (5%)

Energia Elétrica O entrevistado não soube informar


Indústria 7
Lenha os percentuais
O pó de serra é utilizado para o
funcionamento de uma caldeira, o
óleo combustível para o
Energia Elétrica
funcionamento de um trator e a
Indústria 8 Pó de Serra
energia elétrica é utilizado para o
Óleo Combustível
funcionamento das máquinas do
processo produtivo. O entrevistado
não soube informar os percentuais
Energia Elétrica (90%)
Indústria 9
Lenha (10%)
Fonte: O Autor (2008)

Com relação aos gastos ou investimentos realizados na área ambiental nos


últimos 3 (três) anos, as indústrias informaram:
248

Quadro 46 – Gastos/Investimentos Realizados na Área Ambiental (Últimos 3 Anos)


Percentuais de
Indústrias
Gastos ou Descrição dos Gastos/Investimentos
Químicas
Investimentos
2005 (0,019%)
• Tratamento de Efluentes
Indústria 1 2006 (0,008%)
• Separação de Resíduos e Disposição Adequada
2007 (0,102%)
2005 (1%)
Indústria 2 2006 (1%) • Contratação de empresa para co-processamento de resíduos
2007 (1%)
2005 (5%) • Estação de Tratamento de Efluentes
Indústria 3 2006 (5%) • Despesas com Laboratório (Análises de Efluentes)
2007 (5%) • Consultoria na Área Ambiental
2005 (0%)
Indústria 4 2006 (0%) • Não realizou gastos ou investimentos
2007 (0%)
2005 (0%)
Indústria 5 2006 (0%) • Não realizou gastos ou investimentos
2007 (0%)
2005 (3%) • Recuperação de Água (Re-uso na Produção)
Indústria 6 2006 (2%) • Sistema de Decantação dos Resíduos (Re-uso na Produção)
2007 (2%) • Captação de Água para Sistema de Resfriamentos
• O entrevistado mencionou que os gastos ou investimentos
com a área ambiental não possuíam um centro de custo e
que por este motivo, ele não saberia informar os percentuais.
Indústria 7 Não soube informar Os únicos gastos ou investimentos realizados nos últimos
três anos foram a elaboração de um plano de contingência e
de um plano emergência para situações de acidente que
possam ocorrer na planta.
• Reflorestamento no Entorno da Empresa (Contenção de Pó)
2005 (3%) • Lavadora de Gases
Indústria 8 2006 (3%) • Sistema de Sucção da Fábrica
2007 (3%) • Enclausuramento dos Barracões
• Tanque de Decantação
2005 (0,5%) • Lavadora de Gases
Indústria 9 2006 (0,5%) • Filtros de Manga
2007 (0,5%) • Lonas (Tipo Cortina)
Fonte: O Autor (2008)

Com exceção da Indústria 1, que apresentou percentuais precisos baseados em


controles internos, as demais empresas apresentaram percentuais estimados de gastos
ou investimentos realizados, o que demonstra evidências da ausência de controles
específicos para o gerenciamento dos recursos aplicados na área ambiental, apesar
das realizações efetuadas na área. Este dado confirma a observação efetuada por
249

Demajorovic e Soares (2006) quando mencionam que a ausência de controles


sistematizados em empresas de pequeno e médio porte impede que estas
disponibilizem dados para pesquisas realizadas na área.

Percebe-se no quadro 46 que a maioria das empresas realizou investimentos na


área ambiental, com exceção da Indústria 4 e da Indústria 5, as quais mencionaram
durante as entrevistas que enfrentaram nos últimos anos dificuldades financeiras em
função de um contínuo decréscimo de produção, fato que contribuiu em parte para que
os proprietários não realizassem novos investimentos em suas respectivas fábricas.

Conforme relatado pelos entrevistados, boa parte dos gastos ou investimentos


foram realizados em atendimento a exigências legais e a freqüente atuação do Instituto
Ambiental do Paraná (IAP) no município. Cabe ainda ressaltar que, no caso da Indústria
3, os percentuais investidos são mais altos que os apresentados pelas demais
empresas, em função da redução do faturamento observada nos últimos 3 (três) anos,
o que fez com que os valores investidos passassem a representar um percentual maior
em relação à receita bruta.

Com relação aos cursos realizados na área ambiental nos últimos 3 (três) anos,
apenas a Indústria 1 e a Indústria 6 informaram ter realizado algum tipo de curso. A
Indústria 1 informou que realizou os cursos de resíduos sólidos urbanos e da indústria e
de gerenciamento de resíduos de laboratório (físico e químico), enquanto que a
Indústria 6 informou que realizou o curso de prevenção, segurança e meio ambiente.
Desta forma, 7 (sete) indústrias ou 77,78% não participaram de nenhum tipo de curso
relacionado com a área ambiental, dado que revela que os diversos gastos ou
investimentos realizados por estas empresas na área não contemplaram a formação e a
atualização dos profissionais.

Quando questionados sobre o nível de adequação da legislação aplicada à


indústria química, a maior parte dos entrevistados informou que considerava a
legislação pertinente e que estavam de acordo com as exigências estabelecidas.
Para o Entrevistado 9, a legislação está cada vez mais rigorosa. Quando
questionado sobre se achava o rigor bom ou ruim, o Entrevistado 9 informou:
250

“Eu acho que, claro que para a gente tem que gastar mais dinheiro e as coisas ficam mais
difíceis, mas é uma tendência que não depende da gente e a gente tem mais é que se
adaptar. Não vou dizer que eu gosto né, é uma coisa que não depende da gente e a gente
sabe que é um processo que cada vez será mais exigido” (Entrevistado 9).

A Entrevistada 10 mencionou:

“Eu acho que eles estão certos, tem que fazer alguma coisa porque senão daqui a alguns
anos ...[hesitação]. Eu acho que tem que exigir mesmo” (Entrevistada 10).

Quando questionada se as exigências impactavam muito no desenvolvimento


das atividades de sua empresa, a Entrevistada 10 afirmou:

“Não, eu acho que tem que ter mesmo. Eles procuram orientar, dão um parecer, se não
estiver certo eles dão um prazo para você regularizar aquilo” (Entrevistada 10).

O Entrevistado 8 fez algumas considerações importantes sobre nível de


adequação da legislação, apresentando algumas evidências sobre a fragilidade da
estrutura e dos processos de controle exercidos pelos órgãos de fiscalização. Na sua
opinião:

“O nível de adequação da legislação está correto. Como eu sou químico vou falar da área
técnica não como representante da área gerencial da empresa. Correto está, só que eu
penso que a forma como é cobrado das empresas é que não é apropriada. Os órgãos
ambientais, seja a prefeitura ou o próprio IAP, o pessoal dos dois órgãos ambientais eles
não conhecem como deveriam os ramos aos quais eles vão fiscalizar, e muitas vezes você
tem uma legislação e depende da resposta que eles recebem do profissional, eles tomam
aquilo como grade fidedigna, e nem sempre isso é verdadeiro. Eu falo isso, como eu tenho
conhecimento técnico, eu te digo isso com o máximo de propriedade: com certeza há uma
legislação, ela poderia ser melhor aplicada, se tivéssemos um pessoal que conhecesse mais
da sua região, ou seja, das várias empresas que atuam na região, e se for uma empresa do
setor químico, quais produtos fabrica. Nós temos aqui 15 a 20 matérias-primas, algumas são
poluidoras em potencial e outras nem tanto. Só que eu teria de olhar as especificações do
produto, e nem sempre o que é colocado ali é levado a risca. Existem alguns riscos deste
produto em termos de transporte, de manipulação, de armazenagem, etc, que se eles
tivessem mais conhecimento (a fiscalização) com certeza, talvez tivessem algumas outras
exigências pertinente a parte preventiva. O corretivo, já aconteceu o evento, não tem o que
fazer. Então aí eu diria o seguinte: nós teríamos um outro aparato técnico relativo à
prevenção e até a efetiva cobrança. Apesar da empresa já ter 31 anos, nós temos um plano
de emergência que tem 9 anos, ou seja, ficamos praticamente 21 anos sem plano de
emergência. Não havia exigência porque as leis ambientais eram outras. As necessidades
cresceram e o staff de profissionais do IAP não foi incrementado. O que mais eu acho que
complica não é a questão da quantidade de pessoal, é o fato de que eles não se atualizam
em relação aos ramos de atividade. Eu trabalho no mercado há 25 anos, eu tenho que fazer
cursos para me manter no mercado. Se o meu ramo me exige isso, o ramo deles também. O
Estado não tem esta condição, e eu vejo que o Estado fiscaliza e multa, mas se a multa não
é bem fundamentada, a empresa derruba a multa, isto é líquido e certo. Para você
fundamentar uma multa você tem que ter muito conhecimento técnico, não é da legislação,
251

isso eles tem, é do ramo de atividade da empresa autuada. Eu diria que falta talvez uma
atualização ou uma reciclagem profissional. Estou no mercado há 30 anos, quando eu fiz
engenharia química, a química era de um jeito, hoje já não é mais assim, já mudou muita
coisa. A química é dinâmica e por ser dinâmica quem trabalha com a química precisa ser
dinâmico, senão não acompanha a tecnologia, não acompanha a evolução. Por isso é que
eu digo, a legislação existe, não há profissionais para fazer a fiscalização, então você não
têm contingente suficiente, e pior que isto, quando há contingente ou quando fiscaliza, ele
não consegue falar com os profissionais do mercado com propriedade. Você dá uma
resposta para ele, e ela é uma resposta às vezes politicamente correta, mas ele não pode
contestar porque falta argumentação, não tem contra-argumentação, ou seja, eu mostro os
meus conhecimentos técnicos e aí isso causa uma certa inibição, e a pessoa acaba não
pressionando mais. Se eu falar que não polui, não polui” (Entrevistado 8).

Quando questionado se estas questões poderiam ser atribuídas à dinâmica do


setor químico, o Entrevistado 8 respondeu:

“Eu estou falando para você como um profissional da química não como empresa, eu não
concordo com a justificativa da dinâmica da química, porque se eu sou um profissional da
empresa e aqui eu respondo pela parte técnica e se eu disser para você que a química é
mais rápida do que eu profissional eu estou errado. E se eu sou um órgão
fiscalizador/normatizador é pior ainda, ou seja, eu não vou estar concatenado com o
mercado, não justifica. E aí é assim, ou o Estado é competente para fiscalizar, e se para
fiscalizar ele tem que ter informações do mercado que somos nós para se auto-regulamentar
para depois fiscalizar seria o correto. A química é dinâmica, OK, tudo é dinâmico. Eu
concordo que esta dinâmica dificulta mas acho que o Estado é pesado em relação a isso e
esse peso faz com que ele faça mal feito, então ele faz pró-forma e a empresa faz pró-forma
também e é o pró-forma que gera esses acidentes ambientais homéricos que ocorrem não
só no Brasil, no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa e em qualquer lugar, porque lá
também tem isso. Na Europa, como é que eles fazem: novas empresas são rigorosamente
fiscalizadas, as mais antigas para se adequar custa muito caro, então eles tem lá uma certa
condenscendência e fazem o que, eu vou lhe dar um prazo X por complascência mesmo, e
esse prazo ele vai se dilatando. Você faz algumas coisas, faz um dos termos que está
colocado lá, e assina um termo de ajuste e tem uma dilação de prazo, isto vai se
estendendo. Só que quando você chega na última exigência que estava naquela relação de
termos de ajuste, já houveram modificações ou na planta de processos ou na matéria-prima,
e aí você não tem esse time acertado e aí que está o problema. Eu concordo com você que
a dinâmica dificulta, que é preciso as pessoas e os funcionários que administram os órgãos
ambientais estejam em sintonia com o mercado. Quando você faz um pedido de autorização
de processo, você tem que fazer o EIA/RIMA (Estudo de Impacto Ambiental/Relatório de
Impacto Ambiental), até nisso é uma coisa que é um pouco complicada, porque muitas
vezes você não tem um OK para uma planta funcionar, e o motivo nem sempre é um motivo
tecnicamente justificável. Então tem os dois lados, por isso que eu digo que neste caso
específico se o Estado, vamos dizer assim, como órgão fiscalizador fizer a sua parte já ajuda
muito. Mas eu penso que você não pode pegar alguém da academia, levar para um órgão
ambiental e achar que a pessoa vai ser o big boss, o expert” (Entrevistado 8).

Em seu depoimento, o Entrevistado 8 apresenta evidências sobre um certo


distanciamento existente entre órgãos fiscalizadores e empresas:

“Eu acho que tem que ter uma sintonia fina entre a empresa e o órgão fiscalizador e eu
penso que qualquer tipo de legislação que possa ocorrer, deveria ser feita de forma
252

conjunta, a empresa não está se negando a participar. É muito comum você ter câmaras
técnicas nos órgãos ambientais, só que são câmaras técnicas que tratam de eventos que já
aconteceram. Então não há uma aproximação das empresas em relação aos órgãos
ambientais. Estes órgãos deveriam auxiliar muito mais a empresas e dar referências sobre o
que fazer para não errar, do que esperar para multar. E aí que eu acho que existe uma
discrepância, há uma certa fobia da empresa em relação ao órgão ambiental, e quando ele
vem para dentro da empresa ele acaba inibindo, então você mostra somente aquilo que ele
quer ver. Deveria ser o contrário. Não sei se você acompanhou, teve acho que fazem 2 ou 3
anos atrás aproximadamente, teve uma normativa do IAP que tinha que fazer uma auditoria
compulsória. A FIEP (Federação das Indústrias do Paraná) entrou com uma liminar contra o
IAP e derrubou isso. As empresas que fizeram, fizeram, só que isto perdeu efetividade. Isso
foi uma das coisas mais certas que já ocorreram, porque você ia verificar na sua planta de
produção quais eram as suas mazelas. É melhor você gastar para prevenir do que você ter
um evento que você gasta 3 ou 4 vezes mais, e pior, se você tiver um evento na sua planta,
você vai ter que adequar, então você vai gastar com o evento e gastar com a adequação.
Quando você faz a auditoria compulsória, como nós fizemos, você percebe de A a Z quais
são os seus problemas e aí você apresenta para o órgão ambiental um cronograma de
acordo com o seu time (tempo), seja de orçamento, de condição técnica. Você contrata uma
auditoria que vem para a sua fábrica, ela faz uma análise crítica, isenta, porque ela é paga
para aquilo, e ela é co-responsável e eu levo aquilo e protocolo no IAP. Quando eu levo o
protocolo no IAP eu tenho um cronograma que eu vou dizer para o IAP, eu tenho 10 não-
conformidades, e das 10 eu vou fazer 5 em 2008 e 5 em 2009, desde que eu diga a ele, ao
IAP que as 5 não-conformidades que ficaram pendentes não vão gerar riscos eminentes”
(Entrevistado 8).

Alguns dos entrevistados reclamaram sobre alguns aspectos relacionados às


questões burocráticas, a amplitude da fiscalização, da postura autoritária de alguns
fiscais, das limitações do órgão fiscalizador em termos de disponibilizar orientações
antes de realizar as cobranças. Com relação às questões burocráticas e a
disponibilização para orientações, o Entrevistado 6 menciona:

“São muitas exigências. Sem atenção para com a pessoa que está trabalhando. Se você
precisa de alguma coisa eles mandam você ver na internet. Vire-se, o problema é seu”
(Entrevistado 6).

Quanto à amplitude da fiscalização, o Entrevistado 3 considera que:

“Apenas gostaria que a fiscalização e a cobrança fossem as mesmas para empresas e


residências. Eu acredito que a maior parte da poluição é doméstica. Apesar da legislação
ser moderna, não são realizadas muitas cobranças” (Entrevistado 3).

Quando questionados sobre quais eram, além das questões legais, as principais
motivações para a realização de gastos ou investimentos ambientais, os entrevistados
informaram:
253

Quadro 47 – Motivos para Gastos/Investimentos Ambientais


Entrevistado Motivos Informados
• Preservação do meio ambiente.
Entrevistada 1
• Uso seguro e responsável dos recursos naturais.
Entrevistado 2 • “Preocupação com o meio ambiente e com a imagem da empresa”.
• Para o Entrevistado 4 “Interesse em isenção de impostos para medidas
adotadas para preservação do meio ambiente”.
• Para o Entrevistado 3, “Melhorar o desempenho da empresa”. Segundo ele
“eu tenho responsabilidade: eu sei por exemplo que se peixes começarem a
morrer e as autoridades comprovarem a minha responsabilidade, a empresa
vai fechar. Eu sei que se eu fabricar um creme e muitas pessoas tiverem
problema de pele, a empresa vai fechar. Como o meu compromisso é com a
empresa e não com a fiscalização, eu vou lutar para que isso não aconteça.
Entrevistados A conseqüência disso é que a empresa terá que estar a altura das exigências
3e4 das autoridades. Além do desempenho, saber que você está poupando
problemas para a empresa”
• Fortalecer a marca da empresa (apelo ambiental - produtos naturais - respeita
o meio ambiente). O Entrevistado 3 acredita que “o cliente vai gostar mais da
empresa se a empresa tiver uma imagem limpa. É legal perceber que os
clientes estão buscando empresas ecologicamente corretas. Com o tempo
todas as empresas terão que se adequar. As empresas que não se
adequarem não vão conseguir continuar no ramo. É importante passar esta
percepção para os clientes e para as autoridades”.
Entrevistado 5 • Não realizou gastos ou investimentos na área ambiental.
Entrevistado 6 • Não realizou gastos ou investimentos na área ambiental.
Entrevistado 7 • Preservação do meio ambiente em nossa unidade fabril.
• O Entrevistado 8 informou “Critério ético eu diria. Porque que digo critério
ético: porque nós temos profissionais e profissionais. No caso eu gerencio a
área de produção e respondo pela área técnica. Se eu estudei química e eu
sei que tem a lei de Lavosier que na natureza nada se cria, tudo se
transforma, você tem que pensar como homem de produção e se eu tenho
parte da produção que eu não consigo aproveitar e que vai gerar um resíduo
qualquer, certo, ele tem que ser bem destinado de forma adequada. Aí entra
o critério ético, mesmo que não tenha uma legislação. Se eu sei que aquela
matéria-prima é potencialmente poluidora e se eu descartar de forma errada
no meio ambiente eu vou gerar um problema. Então a primeira coisa é o
Entrevistado 8
critério ético, certo, e uma outra questão é o critério de que tudo que não se
resolve hoje você vai gerar um passivo ambiental para empresa que é quase
incomensurável, porque você não consegue fazer uma análise extrapolando
valores dos números de hoje para daqui 5 a 10 anos. Se eu contamino por
exemplo um lençol freático, ele não é estático, ele caminha. Então eu vou ter
uma contaminação, se ela for levantada a montante ou a jusante, vai
perceber que a partir das empresa onde nós estamos, ou seja, eu vou ter
uma maior contaminação. Como é que eu posso quantificar o quanto aquilo
contaminou para frente. É o tipo de passivo que eu não tenho como mensurar
a não ser numa condição generalizada”.
• Exigências de clientes certificados (um dos clientes estabeleceu um prazo de
5 anos para a empresa adequar-se).
Entrevistado 9
• Reclamações de vizinhos em relação ao pó e aos odores emitidos pela
empresa.
• A Entrevistada 10 informou “Eu acho que é necessário, por tudo, pela saúde,
Entrevistada 10
prevenção, para o futuro”.
Fonte: O Autor (2008)
254

Quando questionados sobre, além da questão financeira, quais seriam as


principais dificuldades encontradas para a realização de gastos ou investimentos na
área ambiental, os entrevistados informaram:

Quadro 48 – Dificuldades Encontradas para Gastos ou Investimentos Ambientais


Entrevistado Dificuldades Encontradas
Entrevistada 1 • “A burocracia existente nos órgãos ambientais”.
Entrevistado 2 • “Custo para montar a gestão de processamento de resíduos é alto”.
• “Uma das principais dificuldades é encontrar empresas especializadas
(prestadores de serviços e treinamento)”. Outra dificuldade apontada foi em
Entrevistados relação à mão-de-obra e sua manutenção “A empresa demorou para
3e4 encontrar um profissional capacitado na área química, que permitisse
estabelecer a atual preocupação que a empresa tem com o meio ambiente.
Muitos profissionais se preocupavam apenas com coisas supérfluas”.
Entrevistado 5 • Não investiu na área ambiental.
Entrevistado 6 • Não Investiu na área ambiental.
• “Muitas informações só são encontradas quando de uma fiscalização ficamos
sabendo do que é preciso ser realizado dentro da indústria. Faltam mais
Entrevistado 7
informativos referentes a aplicações especificas para cada segmento de
mercado químico”.
• “Desculpe, a questão financeira não é o problema, talvez a questão seja você
priorizar. Nós, tudo que tem que ser feito na área ambiental é feito. O que
importa é o seguinte: o órgão fiscalizador quando vier aqui tem que ter
propriedade de dizer o que precisa ser feito. Se ele disser que tem que fazer
10, fazemos 10, se ele disser para fazer 100, fazemos 100. Eu não diria que
a questão financeira seja uma questão que hoje impacta. Pelo nosso nível de
Entrevistado 8 faturamento e pelo pouco capital ou pelo pouco investimento necessário na
área ambiental, tudo que tiver que ser feito seria feito com certeza. Não é a
questão financeira que pega para a gente não fazer não. Aí é mais por que
nós como empresa, aí eu vou falar como empresa e não como profissional da
área técnica, priorizamos outras questões que é fazer o dia-a-dia em termos
de produção e aí isso não fica no primeiro plano. Nós não temos um setor
específico que só pense meio ambiente”.
Entrevistado 9 • “Encontrar profissionais qualificados”.
• “Eu acho que só financeira mesmo, eu acho que não tem outras dificuldades.
Entrevistada 10 No nosso segmento existem profissionais que fornecem serviços
especializados”.
Fonte: O Autor (2008)

Com relação aos históricos de acidentes ambientais ocorridos na empresa, 6


(seis) indústrias ou 66,67% informaram que não possuíam nenhum registro de
ocorrências. Este dado não pode ser confirmado em função da não disponibilização de
informações detalhadas pelo IAP sobre acidentes e autuações envolvendo indústrias
químicas no município. Apenas 3 (três) indústrias ou 33,33% informaram registros de
255

acidentes ambientais: as Indústrias 1, 3 e 7. No caso da Indústria 1, a Entrevistada 1


informou que:

“Sim, de mínimo impacto, no ano passado, quando precisávamos descartar efluente da


estação de tratamento de efluentes. Por questão técnica operacional, foi parte com lodo
biológico, que ocasionou sobrecarga nas lagoas de tratamento” (Entrevistada 1).

No caso da Indústria 3, o Entrevistado 3 informou que:

“Depois que a gente começou a cuidar da água e fazer exames de laboratório, foram
identificados problemas de contaminação na tubulação interna, que exigiu uma manutenção
de limpeza. Foi uma contaminação de extratos vegetais em nível microbiano (matérias-
primas utilizadas pela indústria). Desde o início da instalação da estação de efluentes, há
dois anos e meio, já foram feitas aproximadamente 440 amostras da indústria, sendo que
apenas 1 vez a gente falhou. Foi uma ocorrência importante, o IAP quis autuar"
(Entrevistado 3).

Já na Indústria 7, o Entrevistado 8 informou que ocorreram dois eventos:

“Um que foi eu diria o mais expressivo, que deve fazer entre 7 a 8 anos, e um outro que foi
interno, interno os dois foram, só que um extrapolou os limites da empresa, e o segundo
não, foi contido internamente. Graças a nós termos o histórico do primeiro e a escola do
primeiro fez com que nós fossemos mais eficientes no segundo e logicamente contivemos
ele na área de produção” (Entrevistado 8).

O Entrevistado 8 mencionou que os acidentes estavam relacionados a


derramamento de óleo de um tanque de armazenagem. Segundo ele:

“Um dos acidentes foi externo por que o óleo vazou para a área externa da empresa. Nós
fizemos uma análise da extensão, do local onde ocorreu o vazamento na parte interna e
externa para fazer uma bioremediação, a aí não teve maiores problemas não” (Entrevistado
8).

Quando questionados sobre a geração de resíduos, 5 (cinco) indústrias ou


55,56% informaram que não geram resíduos. Dentre estas empresas, a Indústria 4 e a
Indústria 5 informaram que não geram nenhum tipo de resíduo industrial, em função
das características de produção da água sanitária, a qual permite o total
aproveitamento das matérias-primas sem a necessidade de geração de resíduos. As 3
(três) outras indústrias que informaram não gerar resíduos (Indústrias 6, 8 e 9)
mencionaram que o seu processo industrial ocorre dentro de um circuito fechado, onde
eventuais resíduos são incorporados novamente na linha de produção.
256

As 4 (quatro) empresas que informaram gerar resíduos industriais declararam as


seguintes descrições e destinos para os resíduos:

Quadro 49 – Indústria Química X Descrição dos Resíduos X Destino


Indústria Descrição do Resíduo Destino
Química
Resíduos Líquidos Estação de tratamento de efluentes
Indústria 1
Resíduos Sólidos Separação e disposição adequada
Empresa especializada em tratar os resíduos
Indústria 2 Borra de Tinta industriais para serem incinerados no forno de
cimenteiras
Resíduos Líquidos Estação de tratamento de efluentes
Resíduos Sólidos Catadores de papel e usinas de reciclagem
Indústria 3
Resíduos de Fabricação Adubo orgânico para hotel fazenda pertencente ao
de Extratos Vegetais proprietário da empresa
Resíduos Líquidos Empresa de reciclagem de óleo
Empresa especializada em tratar os resíduos
Indústria 7
Resíduos Sólidos industriais para serem incinerados no forno de
cimenteiras e empresas de reciclagem
Fonte: O Autor (2008)

Com relação aos resíduos, o Entrevistado 3 faz uma declaração que revela a
presença da ação racional instrumental descrita por Serva (1996) nos negócios
corporativos em relação às questões ambientais e a geração de resíduos:

"A questão ambiental era secundária, somente depois que se atingiu a qualidade dos
produtos é que a gente começou a se preocupar com o resíduo" (Entrevistado 3).

Com relação à existência de controles de emissão de poluição, 5 (cinco)


indústrias ou 55,56% informaram que não possuem controles pelo fato de não
realizarem emissões gasosas na atmosfera. As 4 (quatro) empresas ou 44,44% que
informaram possuir controles, mencionaram que seguem as determinações
estabelecidas pela legislação com relação a contratação de uma empresa
especializada para a elaboração de relatórios de emissões, os quais são
periodicamente disponibilizados aos órgãos ambientais. No caso da Indústria 7, o
Entrevistado 8 detalhou como funcionam os procedimentos para controle de emissão
de gases e de monitoramento do lençol freático:

“Nós fornecemos periodicamente ao IAP alguns documentos para que nós tenhamos a
nossa licença de operação mantida. Ou seja, das caldeiras nós temos que semestralmente
257

fornecer os mapas de emissões. Nós temos um contrato com uma empresa que faz o
levantamento e o laudo para envio ao IAP (caldeiras). Nós temos pontos de monitoramento
na parte interna, que eu diria que foram feitos a mais ou menos nove anos, que é para
verificar até que ponto nós estamos mantendo o lençol freático tal como era antes de nós
nos instalarmos aqui. A cada três meses é feita a drenagem dos poços, fazem a coleta dos
poços, fazem a análise da água, preenchem o documento que é enviado ao IAP para
protocolo. Temos duas empresas terceirizadas que fazem estes controles” (Entrevistado 8).

Na questão relacionada à existência de registro de reclamações da comunidade


em relação às suas operações, apenas 3 (três) indústrias informaram possuir registros
de reclamação. No caso da Indústria 3, o Entrevistado 3 informou que se tratava de
apenas uma ocorrência:

“Sim, apenas uma vez quando a estação de tratamento de efluentes foi instalada. Foi
apenas uma reclamação verbal do supermercado vizinho em relação ao cheiro exalado,
situação que em uma semana foi resolvida” (Entrevistado 3).

No caso da Indústria 8, o Entrevistado 9 também informou um único registro:

“Somente reclamação verbal. Os vizinhos reclamavam do pó. Por este motivo investimos
recursos em melhorias, a exemplo do reflorestamento do entorno da fábrica” (Entrevistado
9).

No caso da Empresa 7, segundo o Entrevistado 8, a situação foi um pouco mais


séria, uma vez que o fato ocorrido quase determinou a mudança de endereço da
empresa, conforme explica o Entrevistado 8

“Como a fábrica já está aqui há mais de 20 anos, nós tínhamos uma série de problemas. O
nosso produto era feito, na parte de graxas, era feito em tacho aberto, inicialmente. Então
toda a parte de voláteis do processo ficava no ambiente interno do prédio e uma parte saia.
Então nós temos um cheiro específico do nosso processo produtivo e aí ao longo do
período, houveram uma série de reclamações, fizeram até um abaixo-assinado junto ao IAP
e ele veio aqui, e aí de uma forma muito companheira porque eles nos ajudaram nisso,
foram nos dando algumas orientações em relação ao nosso problema. Em cima desta
situação de reclamações nós fomos para o mercado, vimos alguns equipamentos para o
nosso processo, saímos de tanque aberto para tanque fechado, depois colocamos lavador
de gases, depois condensador, aí junto com a equipe técnica fizemos algumas alterações de
processo (temperatura de cozimento, tipos de voláteis, mudança de matérias-primas).
Logicamente hoje, não temos nenhuma reclamação e temos o Ok do IAP, ou seja, não há
problemas com a comunidade. Já tivemos sim, como eu falei, já chegou até a ter abaixo-
assinado para que nós saíssemos daqui em função disso, mas isso já está totalmente
sanado” (Entrevistado 8).

Da mesma forma que as pressões exercidas pela sociedade organizada foram


fundamentais para que o governo e o setor químico assumissem uma nova atitude em
258

relação ao tratamento dispensado para as questões ambientais, a exemplo de novas


legislações e da criação do Programa Atuação Responsável, nos casos relatados pelas
3 (três) indústrias percebe-se que as reclamações dos vizinhos foram essenciais para
que os problemas fossem solucionados. Foi a partir destas reclamações que as 3 (três)
empresas buscaram adotar medidas para resolver os problemas apontados, de modo a
garantir a continuidade de suas operações.

Para confirmar a existência de riscos inerentes às atividades de fabricação e de


manipulação de produtos químicos, e para confirmar a afirmação de Beck (2006), de
que a condição da iminência do risco se torna institucionalizada a partir do momento
que a sociedade passa a desenvolver atividades que deixaram de ser cobertas por
seguros, os profissionais entrevistados foram questionados se suas respectivas
indústrias químicas possuíam algum tipo de seguro para acidentes ambientais.

Em suas respostas, alguns dos entrevistados confirmam a situação de iminência


do risco retratada por Beck (2006) ao revelarem que não possuem seguro. O
Entrevistado 2 informa que:

“A dificuldade para a obtenção de seguro é muito grande para a própria empresa, todos os
anos são realizadas tentativas porém o seguro nunca é obtido, devido ao nível de exigências
das seguradoras. As seguradoras não fazem este tipo de seguro e quando fazem algum tipo
de orçamento de apólice, os custos são altos: exige troca das portas de madeira, fiação
elétrica, sistemas de comandos eletrônicos e motores a prova de explosão. A empresa já
investiu mais de R$ 50.000,00 em melhorias, mas mesmo assim ainda não conseguiu
atender os requisitos das seguradoras. O último investimento realizado para atendimento de
uma das exigências das seguradoras envolveu a transferência da armazenagem dos
produtos da parte interna para a parte externa e mesmo assim o seguro não pode ser
realizado” (Entrevistado 2).

O Entrevistado 3 informou que a sua empresa não possui em função do seguro


ser muito caro e das exigências das seguradoras. O mesmo ocorre com o Entrevistado
5, quando menciona:

“Não possuo seguro, as companhias seguradoras impõem muitas exigências. A minha


empresa atende apenas as exigências do bombeiro e da medicina do trabalho” (Entrevistado
5).

O Entrevistado 6 menciona que a sua empresa não possui seguro em função da


falta de recursos para a sua contratação, enquanto que a Entrevistada 1, informa que a
opção pela não contratação de seguros se deve ao fato de que considera que a
259

atividade desempenhada pela empresa não gera riscos significativos de acidentes


ambientais.

No caso das Indústrias 6, 7, 8 e 9, os entrevistados mencionaram que possuíam


seguro de suas instalações, porém ficaram em dúvida sobre a cobertura e até mesmo a
existência de seguros para acidentes ambientais. Segundo o Entrevistado 8:

“No ramo seguro, patrimonial, predial, não sei como se chama, há sim uma cláusula
específica quanto a isso. Eu não sei dizer qual é o teor desta cláusula porque eu não
conheço estes detalhes” (Entrevistado 8).

Já o Entrevistado 9 foi categórico em afirmar que não, uma vez que as empresas
de seguro nunca haviam ofertado para sua empresa uma proposta de seguro nesta
área. O mesmo ocorre com a Entrevistada 10 quando afirma que:

“Até hoje as seguradoras nunca ofereceram este tipo de produto. Eu nunca vi, a gente faz
seguro aqui para o escritório, caminhão, carro e patrimonial e as seguradoras nunca
mencionaram” (Entrevistada 10).

Como forma de avaliar qual é o nível de planejamento das indústrias químicas


em relação às questões ambientais futuras, a última questão desta categoria buscou
identificar se haviam nestas empresas ações previstas na área ambiental para o
horizonte de 2015. As respostas obtidas para estes questionamentos foram as
seguintes:

Quadro 50 – Ações Previstas na Área Ambiental para o Horizonte de 2015


Indústrias Químicas Ações Previstas
• Separação e correta destinação do material de laboratório (incineração,
Indústria 1 reciclagem, compostagem).
• Manutenção das ações já realizadas.
• Melhorar a estrutura interna da empresa.
• Contratar uma empresa especializada para atendimento de situações de
Indústria 2
emergência (na atualidade a única alternativa é o bombeiro).
• Implantação de um sistema de prevenção de incêndio.
• Promover ações para separação de lixo reciclável.
• Obtenção de certificações.
Indústria 3 • Realizar novos investimentos em segurança do trabalho.
• Realizar adaptações no processo produtivo para o re-uso da água
• Instalações próprias (adequadas).
Indústria 4 • Não há projetos previstos.
Indústria 5 • Não há projetos previstos.
Continua (...)
260

• Promover ações para a conservação do verde.


Indústria 6
• Investir em melhorias.
• Readequação e treinamento do quadro profissional em função da
criação da nova filial no Rio de Janeiro.
Indústria 7 • Criação de um novo plano de emergência.
• Criação de um novo plano de contingenciamento .
• Criação de uma nova brigada de incêndio.
Indústria 8 • Melhorar o sistema de lavagem de gases em relação a sua eficiência.
Indústria 9 • Não há projetos previstos.
Fonte: O Autor (2008)

Como mencionado anteriormente, o principal objetivo da categoria de análise


“Perfil Ambiental da Indústria Química” foi o de possibilitar uma aproximação entre o
pesquisador, sujeitos e objetos de pesquisa, uma vez que o pesquisador não atua no
setor químico e não possui vínculos de relacionamento com os entrevistados que
participaram desta pesquisa. Com base na realização desta primeira etapa da pesquisa
foi possível estabelecer uma aproximação entre pesquisador e entrevistados, com a
intenção de que as categorias de análise “Profissional e Meio Ambiente” e “Indústria
Química e Meio Ambiente” pudessem ser melhor exploradas.

4.3. Profissional e Meio Ambiente

Esta categoria de análise foi criada com a intenção de possibilitar que os


profissionais envolvidos na pesquisa, como indivíduos, revelassem quais eram as suas
percepções sobre meio ambiente antes de realizar suas considerações sobre a relação
de suas respectivas indústrias químicas e o meio ambiente. Por entender a importância
do indivíduo no contexto das organizações, uma vez que é dele que partem as
decisões que podem, de acordo com Beck (2006), dar origem aos riscos, esta categoria
se demonstrou fundamental para a exploração do tema de estudo proposto.

Com relação aos questionamentos efetuados para esta categoria, o Entrevistado


7, que optou pelo preenchimento do questionário ao invés da realização da entrevista,
foi o único dentre os entrevistados a não fornecer respostas. Quando do
estabelecimento de um novo contato do pesquisador para a obtenção das respostas
ausentes no questionário, o Entrevistado 7 alegou que não havia respondido as
questões por opção própria, por receio da divulgação de suas opiniões em função de
261

representar a indústria química. Mesmo diante da reafirmação do compromisso de


confidencialidade assumido pelo pesquisador com relação à não disponibilização de
dados que possibilitassem a identificação do município, das indústrias químicas e dos
entrevistados participantes da pesquisa, o Entrevistado 7 manteve a sua opção de não
responder aos questionamentos desta categoria.

Para esta categoria foram criadas 5 (cinco) questões, as quais serão utilizadas
como estrutura de tópicos para a apresentação dos resultados obtidos.

a) Para você, o que é meio ambiente?

Com relação ao significado de meio ambiente, os profissionais entrevistados


realizaram declarações que possibilitam uma melhor compreensão sobre como o meio
ambiente é por eles percebido. Em sua maior parte, as respostas foram fornecidas logo
após momentos de hesitação e em muitos casos, de forma objetiva ou cercadas de
insegurança, fatos que podem indicar evidências do distanciamento ocorrido entre ser
humano e meio ambiente. Em alguns casos, as respostas revelam um total
distanciamento ou desconhecimento dos entrevistados sobre o que venha a ser meio
ambiente.

Quadro 51 – Significados dos Entrevistados para Meio Ambiente


Entrevistados Significado para Meio Ambiente
“É tudo que pode afetar a vida, não distinguindo
Entrevistada 1
o homem dos demais seres vivos”
“Onde nós vivemos. Onde tudo ocorre. Devemos ter preocupação com o meio
Entrevistado 2
ambiente. Cuidar com o futuro dos herdeiros”
“É onde a gente mora, é onde a gente trabalha”. Em seu depoimento, o
Entrevistado 3 falou muito sobre religião, tentando estabelecer uma comparação,
Entrevistado 3 mencionando que o meio ambiente e a religião estão em todos os lugares. Para o
Entrevistado 3 “A TV cria um imaginário que faz com que as pessoas pensem que
o meio ambiente é algo que não faz parte da vida delas”.
“Todo mundo entende meio ambiente somente como plantar árvores,
preservação da água. Eu entendo o meio ambiente, primeiro passo é educação, é
educação da comunidade por que ela faz parte do meio ambiente. Primeiro
educação e conscientização. O meio ambiente para mim faz parte do ambiente
Entrevistado 4 das empresas, da comunidade onde as pessoas trabalham, é o relacionamento
funcional dos funcionários e familiares. O entendimento sobre o meio ambiente
começa na educação básica, que pode ser feita dentro de casa ou no trabalho.
Depende do relacionamento das pessoas e da evolução do homem dentro do
meio, ele também faz parte do meio ambiente”.
Continua (...)
262

O Entrevistado 5 não conseguiu definir o que é para ele meio ambiente. Falou em
Entrevistado 5 aquecimento global, em usar a TV para orientar e educar a população, padronizar
os carrinhos dos catadores e da falta de iniciativas para educação da população.
“A preservação do nosso planeta. Tem tantas coisas para falar: a primeira coisa é
a educação do indivíduo. Vou lhe contar de que maneira eu fui criado: quando eu
era criança meu pai me deu uma bala, eu descasquei uma bala, coloquei ela na
boca e joguei o papel no chão. Meu pai falou para mim: meu filho, não se joga
Entrevistado 6
papel no chão, papel não se pode jogar no chão. Eu ri para o meu pai e meu pai
segurou na minha orelha até eu juntar. É assim que precisa ser feito, assim que
eu aprendi. Toda vez que eu pego uma bala eu lembro do meu pai. Meu pai era
alemão e eu não quero dizer com isso que alemão seja melhor que os outros”
“Dependendo do que você fala e de onde você está, você vai ter definições e
definições de meio ambiente. Para nós aqui meio ambiente é onde nós estamos
trabalhando e seria o que, desde a parte de equipamentos, pessoas, matérias-
primas e o ambiente interno e externo. Para mim, meio ambiente é isso, e eu
como profissional devo trabalhar de maneira tal que devo conseguir manter este
sincronismo de forma que um ajude ao outro. Só que aí existe um pouco de
Entrevistado 8 utopia, eu não consigo fazer produção sem ter o impacto ambiental, eu tenho que
minimizar este impacto. Então eu penso que qualquer atividade, só o fato de eu
me locomover da minha casa até aqui, eu gero impacto ambiental, normalmente
prejudicial ao meio ambiente, tem que fazer com que o impacto seja o menor
possível. O meio ambiente para mim é qualquer lugar onde nós estamos
inseridos, onde nós temos todos os tipos de interação com coisas, objetos,
produtos, serviços e até lazer”
“É a nossa casa. Para a gente ..., bom eu vou ser bem sincero, para a gente que
está nesse ramo é um problema, a gente sempre tem que estar às voltas com
isso aí. O mercado exige que a gente tenha todas as adequações mas a
rentabilidade do negócio não permite fazer quadro, contratar profissionais para
cuidar desta área. Para a gente que é uma empresa pequena representa algum
entrave. As exigências muitas vezes são feitas pensando em empresas mais
Entrevistado 9
estruturadas, que possuem pessoal. Aí as empresas que não tem toda esta
estrutura, tem dificuldades de se adequar. Não tenho um profissional assim
contratado full-time, trabalho com terceiros que não tem um foco dedicado para a
empresa. Muitas vezes você precisa indicar as soluções para os terceiros. Desde
que você tenha recurso e profissionais especializados, você resolve qualquer
problema”
“Meio ambiente... é tudo, o mundo... como que eu poderia te explicar..., é uma
Entrevistada 10 coisa necessária para a sobrevivência, para os animais, para os seres humanos,
sem ele não há vida”
Fonte: O Autor (2008)

Nas respostas é possível perceber a ausência de simbolismo e a presença do


antropocentrismo de Descartes, quando por exemplo, o meio ambiente é considerado
apenas como algo necessário para a sobrevivência dos seres humanos. Em algumas
respostas percebe-se indícios da racionalidade instrumental, em especial na fala do
Entrevistado 9, quando considera que o meio ambiente representa um problema em
termos de gestão.
263

Dentre as respostas, uma em especial chamou a atenção do pesquisador em


termos de clareza e posicionamento. Em sua fala, ao considerar que o homem faz parte
do meio ambiente, o Entrevistado 4 se aproxima do princípio hologramático proposto
por Morin (1998), o qual considera que não apenas a parte está no todo, mas o todo
está na parte. Quando menciona a importância da educação básica para a
compreensão do meio ambiente, o Entrevistado 4 revela que a percepção sobre o que
é meio ambiente não depende apenas do nível de educação formal, uma vez que a sua
formação é primária, e que envolve outros aspectos como a experiência de vida e a
formação cultural, esta última no caso do entrevistado, de origem japonesa.

b) Como você enxerga a sua relação com o meio ambiente?

Quando questionados sobre como os entrevistados enxergavam a sua relação


com o meio ambiente, algumas respostas revelaram indivíduos sensíveis às questões
ambientais, porém presos a perspectiva realista definida por Beck (2006). O
Entrevistado 2 acredita que:

“Poderia fazer mais pelo meio ambiente, eu faço pouco hoje. Ter recursos para manter uma
entidade, fazer um reflorestamento, aquisição de novos equipamentos. Queira ou não
queira, nós hoje somos poluidores do meio ambiente, poderia dar maiores contribuições
para o meio ambiente” (Entrevistado 2).

O Entrevistado 3 declarou que busca ter cada vez mas cuidado, principalmente
com o lixo e a preocupação com o futuro dos filhos. Ele comentou que sua sensibilidade
para o tema vem de sua educação familiar, do pai que é agricultor e que sempre atou
em projetos sociais, além de fazer compostagem do lixo biológico e da separação e
destino do lixo em sua propriedade rural.

Ao ser questionado se encontrava dificuldades para ir além da separação do lixo,


o Entrevistado 3 apresentou novas evidências sobre o distanciamento ocorrido entre
ser humano e natureza, retratado anteriormente por Sheldrake (1993):

“Eu nunca tinha pensado nisso, as noções de limpeza, de higiene da criança são totalmente
urbanas, gostam de brincar em shoppings, ambientes que aparentemente são limpos mas
que geram muita sujeira. Para onde vai o lixo do shopping?. A criança vai se afastando das
conseqüências, do descuido ambiental e ela vive esta maquiagem. Ela sempre vai viver
264

dentro do shopping, do apartamento, nunca vai tomar uma água do rio. Nós seres da cidade,
o ser humano de um modo geral está se afastando da natureza e está perdendo a
responsabilidade por que não é o primeiro a sentir os efeitos mas é o primeiro a causar os
efeitos, diferente os seres humanos que possuem um maior contato com a natureza como os
agricultores e os índios” (Entrevistado 3).

Em sua resposta, o Entrevistado 4 revela traços de uma racionalidade


substantiva ao mencionar sua proximidade com a natureza por meio de suas ações, as
quais se aproximam de algumas das características presentes na perspectiva
construtivista definida por Beck (2006):

“Eu me considero um homem consciente. Tenho procurado mecanismos que possam se


adaptar a nossa comunidade, que possam servir para o conjunto da sociedade. Eu vivo a
relação com o meio ambiente na minha chácara, muitas plantas que existem na chácara
onde eu moro foram plantadas pelo meu pai. Não é só falar, é praticar. Desde pequeno eu
recebi noções sobre o meio ambiente na minha educação, meu pai sempre dizia: derrubou
uma árvore plante duas. Por isso é que eu falo que o meio ambiente começa dentro de casa,
educando, conscientizando, participando. No Japão as crianças recebem educação
orientadas para um maior contato com a natureza. Desde cedo, todos aprendem a cuidar do
ambiente, todos são responsáveis pela limpeza do ambiente que utilizam. É importante
conscientizar desde criança. Na chácara são recolhidas aproximadamente 200 garrafas pet
que vem no rio e que ficam presas em três grades, além de outras coisas. Há um tempo
atrás houve uma grande mortandade de peixes no rio que corta a chácara, ocorrida em
função da contaminação de agrotóxicos aplicada em uma plantação de tomate. Eu solicitei
ao meu caseiro para que rastreasse a origem da poluição e quando ele descobriu eu fui falar
com o proprietário para que ele tomasse as medidas necessárias para evitar novos
acidentes. Deixei claro que se ele não tomasse as providências necessárias, faria uma
denúncia para a fiscalização” (Entrevistado 4).

Apresentando dificuldades em definir a sua relação com o meio ambiente, o


Entrevistado 5 menciona:

“A natureza não tem explicação. O ser humano precisa de mais orientação. É necessário
proibir a concentração urbana. Se cada um fizer a sua parte seria importante” (Entrevistado
5).

Como forma de demonstrar que preserva o meio ambiente, o Entrevistado 6 fez


questão de mencionar um fato ocorrido com ele:

“Dia desses eu me deparei com um rapazinho que estava ameaçando quebrar uma árvore
nova, que estava crescendo. Eu falei para ele: meu amigo esta árvore é uma vida, é uma
vida que está aí. Como é que você vai pegar uma árvore dessa, que demora tempo para
crescer, deixe que nasça. Mas está melhorando, eu considero que nos últimos anos está
melhorando” (Entrevistado 6).

Apresentando novas evidências da presença da racionalidade instrumental, as


Entrevistadas 1 e 10 consideram de forma objetiva que a sua relação com o meio
265

ambiente é boa. Da mesma forma o Entrevistado 8 mencionou que considera a sua


relação pessoal com o meio ambiente bastante coerente em diferentes níveis: casa,
família e trabalho. Segundo ele:

“Como eu ocupo um cargo de gerência eu tenho uma certa autonomia sobre a atividade,
meus conhecimentos na parte técnica potencializam a autonomia em relação ao que eu
posso ajudar e contribuir junto a alta administração. Então é assim, eu penso que eu estou
sintonizado com o que eu preciso fazer para minimizar os impactos e faço tudo o que é
possível de trabalhos para minimizar e procuro colocar para as pessoas abaixo ou acima do
meu nível hierárquico todo tipo de informação para que isso seja difundido e implementado,
porque só a palavra não resolve, tem que ter ação. Eu penso que a minha condição hoje é
inserido e comprometido para minimizar o impacto” (Entrevistado 8).

O Entrevistado 9 faz uma revelação em tom de desabafo que revela limitações


oriundas da racionalidade econômica vigente na sociedade industrial, a qual rege o
comportamento da grande maioria das organizações:

“Eu gostaria de ter condições de atender até mais as exigências. Às vezes a gente se sente
frustrado por que acaba não tendo condições de atender 100% as exigências. A gente
sempre acaba tendo que se adequar às exigências dos órgãos ambientais. Eu gostaria de
ter uma empresa mais enquandrada, em cima das normas, quando na realidade a gente
consegue no máximo ficar dentro das normas” (Entrevistado 9).

Quando questionado sobre a sua relação pessoal com o meio ambiente, o


Entrevistado 9 afirmou:

”Particularmente, eu procuro fazer a minha parte. Eu separo lixo, na minha casa nós
separamos o lixo. Busco reciclar, consumir produtos recicláveis de indústrias que não
agridam o meio ambiente, produtos com selo de qualidade. Eu particularmente procuro agir
desta forma, faz bem agir desta forma” (Entrevistado 9).

Com base nas respostas, é possível perceber que a maior parte do grupo de
entrevistados se aproxima da perspectiva realista definida por Beck (2006). Em apenas
uma das respostas foi possível identificar traços ou características presentes na
perpectiva construtivista.

c) Você considera o meio ambiente em suas tomadas de decisão?


266

Quando questionados se o meio ambiente era considerado durante as tomadas


de decisão, todos os entrevistados foram unânimes em informar que sim. O
Entrevistado 3 afirmou:

“Eu considero sim, mas ele é um dos fatores que eu considero. A primeira preocupação na
tomada de uma decisão é que ela esteja de acordo com as normas sanitárias. A segunda
preocupação é a rentabilidade/viabilidade financeira. Em terceiro as questões burocráticas
de registros junto aos órgãos competentes, entre eles o IAP. O IAP é colocado por último,
em função da necessidade de estar bem embasado para solicitar a autorização”
(Entrevistado 3).

Para o Entrevistado 4 o meio ambiente é muito mais importante que qualquer


outra questão. Em sua resposta ele dá novas evidências da presença da racionalidade
substantiva em seus comportamentos e ações quando menciona:

“Considero que o meio ambiente seja mais importante que o econômico em função da minha
concepção sobre o que é o meio ambiente. Não adianta eu ser economicamente perfeito, se
o meio ambiente faz parte do homem dentro deste processo, e ele não tiver capacidade de
evolução e relacionamento” (Entrevistado 4).

Demonstrando novamente a predominância da racionalidade instrumental em sua


organização, o Entrevistado 8 declara:

“Sempre, eu sempre. Só que aí eu não vou destoar do nosso objeto social, que é produzir e
vender lubrificantes. Se o impacto ambiental for de encontro à condição de produção eu
tenho que ser flexível com a minha convicção, e aí eu tenho que ser um pouco permissível
em algumas condições. Senão eu seria radical e não poderia estar aqui como eu estou há
20 anos. Eu acho que isso é um trabalho feito par e passo, eu não posso a toda hora ser
impositivo, tem que ser negociador, e aí eu penso que eu poderia ter um aliado que seria o
próprio Estado, que ajudaria muito. A empresa se enquadra quando você tem leis e
fiscalização, só um ou só outro não vai resolver, é preciso ter um trabalho conjunto”
(Entrevistado 8).

d) Você sofre alguma influência interna e/ou externa para considerar o meio
ambiente em suas tomadas de decisão? De que tipo?

Quando questionados se sofriam alguma influência interna e/ou externa para


considerar o meio ambiente em suas tomadas de decisão, os entrevistados informaram
que sofrem influências de diferentes naturezas: cumprimento da legislação, interesses
econômicos, questões relacionadas à imagem da empresa, questões financeiras e
reclamações dos vizinhos. O Entrevistado 3 considera que:
267

“No momento não, porque estou atendendo as exigências legais. Porém considero que a
maioria das empresas sofre influências relacionadas a questões financeiras, os empresários
nunca falam sobre o meio ambiente. A maior pressão ocorreu antes da implantação quando
da estação de tratamento, agora são apenas as fiscalizações” (Entrevistado 3).

Para o Entrevistado 8, as pressões internas e externas ocorrem da seguinte forma:

“Na parte interna, a alta administração não tem como objeto principal o meio ambiente e sim
a parte de produzir e gerar lucro. Na parte externa, como a gente atende as exigências da
legislação, não há pressões externas que comprometam as atividades” (Entrevistado 8).

e) Em um contexto geral, como você considera a importância do meio ambiente


para a sua organização?

Para encerrar os questionamentos da categoria “Profissional e Meio Ambiente”,


os entrevistados foram questionados sobre como, num contexto geral, consideram a
importância do meio ambiente para as suas respectivas organizações. Apresentando
evidências de um comportamento utilitarista, alguns dos entrevistados consideram em
sua maioria que o meio ambiente é importante pelo fato de ser fornecedor da matéria-
prima necessária para a produção dos produtos que as respectivas indústrias fabricam.
Como exemplo desta afirmação, o Entrevistado 2 considera que para a produção de
tintas o meio ambiente é:

“100% importante para a empresa, pois a produção das resinas provém de matérias-primas
de florestas plantadas, a exemplo do pinus que gera o breu” (Entrevistado 2).

Da mesma forma, o Entrevistado 3 caracteriza que o meio ambiente é importante


em termos de fornecimento de matéria-prima:

“A empresa utiliza diversas matérias-primas que não são sintetizadas na indústria, que são
oriundas do meio natural, a exemplo da água. Quanto mais suja estiver a água, maiores
serão os gastos em produtos químicos para limpeza” (Entrevistado 3).

Confirmando novamente a sua posição baseada na racionalidade instrumental


adotada pela sua empresa, o Entrevistado 8 acredita que:

“É importante, mas não é preponderante. Nós tomamos decisões considerando o meio


ambiente, mas não colocando o meio ambiente em primeiro plano. Então o primeiro
propósito é o que: a matéria-prima, produzir e vender. Sempre que possível comprar de uma
268

empresa que não polua, produzir de forma que não polua e transportar da forma que não
polua. Mas o primeiro objetivo é comprar, produzir e vender. Não é assim vou comprar uma
matéria-prima que seja a menos impactante, produzir da maneira menos impactante, e
transportar da forma menos impactante. É importante mas não é preponderante. Eu acho
muito importante, eu acho importante. Se a gente quiser continuar com a empresa precisa
estar adequado com as normas ambientais, se você não estiver adequado você não vai
conseguir vender, não vai conseguir prosperar com o negócio” (Entrevistado 8).

4.4. Indústria Química e Meio Ambiente

Esta categoria de análise foi criada com a intenção de encontrar respostas sobre
as relações das indústrias químicas e o meio ambiente, em especial a partir das
percepções de profissionais que atuam em empresas instaladas em um município
paranaense. Para esta categoria foram criadas 9 (nove) questões, as quais serão
utilizadas como estrutura de tópicos para a apresentação dos resultados obtidos.

a) Na sua opinião, como a indústria química é vista pela sociedade em relação às


questões ambientais?

Com relação a esta questão, boa parte dos entrevistados confirmou a condição
verificada nos resultados de diferentes pesquisas apresentadas neste estudo (quadro
32), de que a indústria química é mal vista pela sociedade. Para o Entrevistado 2:

“Todos os acidentes ambientais de grande proporção estão relacionados com a indústria


química, principalmente acidentes envolvendo estatais” (Entrevistado 2).

O Entrevistado 8 confirma a imagem negativa da indústria química perante a


sociedade. Para ele a indústria química é vista:

“Como vilã, com certeza. A indústria sabe disso, a sociedade sabe disso e os órgãos
ambientais sabem disso. Só que eu penso que a evolução tecnológica e de processos
produtivos estão à frente da questão de legislação e pior que isso, se houver uma maior
fiscalização, ou você vai ter que produzir menos, ou mudar algumas matérias-primas que vai
impactar no aumento de preços, que não vai ter compromisso seu socializado, próximo ao
seu cliente. Então eu penso que em detrimento dessas decisões que teriam efeitos
colaterais é que existe este rótulo negativo das indústrias químicas e a indústria sabe disso,
o mercado, a sociedade e também os órgãos ambientais. Não é uma visão positiva, é
sempre vista como uma empresa ou que não polui que vai poluir ou já poluiu muito”
(Entrevistado 8).
269

Em sua resposta, o Entrevistado 9 também confirma a imagem negativa da


indústria química:

“Acho que ela é vista como uma indústria poluidora, pelo próprio processo. É diferente uma
indústria química de uma indústria de software, por exemplo, de um prestador de serviço,
que fica dentro de um escritório, separa lixo, coloca uma lixeira e acha que faz sua parte. A
gente faz notificações de processo, tem fornalha soltando fumaça, tem máquina circulando
matéria-prima, então ela naturalmente é mais difícil de se adequar ao meio ambiente. No
caso do setor metalúrgico, que pega o material pronto, não interessa se para produzir aquele
ferro tenha poluído para caramba dali para trás, mas eles pegam o ferro bonitinho, limpinho,
dentro do plástico, daí pegam uma lixeirinha e separam o plástico de um lado, os resíduos
de limalhas de ferro do outro lado, então eles são ambientalmente super corretos. A gente
não, a gente está na parte anterior da deles, a gente tem que fazer movimentação, tem que
fazer processos de produção que geram resíduos, que geram poluição, então eu acho que
as indústrias químicas nesse ponto, são vistas um pouco como poluidoras, pois
naturalmente elas poluem alguma coisa. Já poluíram muito mais, hoje já com as normas as
empresas estão se adequando, mas ainda existem resíduos de produção” (Entrevistado 9).

A Entrevistada 10 também acredita que a indústria química é mal vista, porém


confirma a necessidade de sua existência:

“Muitos acidentes envolvem produtos químicos na natureza, resíduos. Porém é necessário,


se não houver indústrias químicas [hesitação]... eu acho que é um mal necessário”
(Entrevistada 10).

O Entrevistado 4 assumiu um posicionamento de que a indústria química não é a


única culpada pela poluição ambiental. Ele considera que a indústria química é vista
pela sociedade:

“Sempre como poluidora, que estraga a natureza. Os meios de comunicação divulgam muito
os acidentes envolvendo a indústria química e meio ambiente. Porém eu acho que a
indústria química não é a única poluente, o conjunto da sociedade é responsável pela
poluição” (Entrevistado 4).

Já o Entrevistado 5 e o Entrevistado 6 apresentam evidências sobre o


distanciamento da sociedade em relação às questões ambientais e o nível de
importância que ela atribui a indústria química. Eles acreditam que:

“A sociedade não tem conhecimento do que é uma indústria química. O povo não conhece a
realidade de uma indústria química” (Entrevistado 5).

“Não sei, eu acredito que não se importam, está entendendo. Um sabonete que fazem, é
cheiroso, está bom, é um desodorante que está cheiroso. Eles não ligam está entendendo,
eles ligam para o preço, o preço da prateleira, isso aí é que eles ligam. Eles não se
importam, não há interesse, você está entendendo. No meu ver, no meu parecer eu acredito
270

que eles não conhecem o funcionamento de uma indústria química, eles não dão valor para
isso” (Entrevistado 6).

A Entrevistada 1, ao se aproximar do discurso do desenvolvimento sustentável,


acredita que:

“No passado, a indústria química recebia uma conotação apenas de poluidora. Com a atual
legislação, mais rígida e atuante, hoje ela é vista como uma necessidade humana que pode
ser ambientalmente sustentável” (Entrevista 1).

Ao considerar aspectos regionais, o Entrevistado 3 faz considerações relevantes:

“Depende da região. Eu acredito que os pólos químicos da região não são de química
pesada, nós temos uma indústria voltada para a indústria cosmética. O Paraná, diferente de
São Paulo, que tem uma indústria maior, é um Estado mais ligado em questões relacionadas
ao meio ambiente. Em São Paulo, a indústria é mais mal vista, uma vez que a poluição
industrial é mais facilmente percebida. A questão de acidentes ambientais é mais comum em
São Paulo do que no Paraná. No Paraná eu acredito que a indústria química é bem vista”
(Entrevistado 3).

b) Você lembra de algum acidente ambiental provocado por indústrias químicas?

Quando questionados se lembravam de algum acidente ambiental provocado por


indústrias químicas, os entrevistados em sua grande maioria, lembraram de acidentes
envolvendo a Petrobrás. No quadro 53 são apresentados os acidentes ambientais
envolvendo produtos químicos ou indústrias químicas que foram mencionados pelos
entrevistados:

Quadro 53 – Acidentes Ambientais


Entrevistados Acidentes Ambientais
• Derramamento de Óleo pela Petrobrás em Araucária – PR
Entrevistada 1 • Contaminação do Rio dos Sinos em Porto Alegre – RS
• Vazamento de gás em Bophal – Índia
• Derramamento de Óleo pela Petrobrás em Araucária – PR
Entrevistado 2
• Acidente com a plataforma da Petrobrás no Rio de Janeiro – RJ
• Derramamento de Óleo pela Petrobrás em Araucária – PR
Entrevistado 3 • Derramamento de Óleo no Porto de Paranaguá – PR
• Acidente nuclear de Chernobil – Ucrânia
Entrevistado 4 • Derramamento de Óleo pela Petrobrás em Araucária – PR
Entrevistado 5 • Derramamento de Óleo no Porto de Paranaguá – PR
• Lembrou de um acidente ocorrido há 30 anos atrás na cidade onde morava.
Entrevistado 6 Um concorrente seu, ao fabricar hipoclorito de sódio, teve problemas de
vazamento na sua linha de produção. Como a empresa também fabricava
Continua (...)
271

álcool, o fogo rapidamente tomou conta da fábrica. Na época os bombeiros


foram na fábrica do Entrevistado 6 para pegar máscaras, porque na época
eles não dispunham de equipamentos para trabalhar com produtos químicos.
Entrevistado 7 • Não lembrou de nenhum acidente
• Derramamento de Óleo pela Petrobrás em Araucária – PR
Entrevistado 8
• Contaminação da Shell em Paulínia – SP
Entrevistado 9 • Contaminação por chumbo pela Indústria Plumbum – Adrianópolis – PR
Entrevistada 10 • Não lembrou de nenhum acidente
Fonte: O Autor (2008)

Como é possível perceber no quadro 53, a grande maioria dos entrevistados


lembrou de acidentes ocorridos no Paraná, fato que pode revelar que os efeitos
ocasionados por acidentes químicos são mais facilmente percebidos nas regiões onde
ocorrem. Um dos fatores que provavelmente contribuiu para que acidentes ocorridos no
Paraná tenham sido mais lembrados em relação a acidentes ocorridos em outros
lugares do mundo pode estar associada a ampla cobertura jornalística local, situação
que somente se repete em escala global quando acidentes ambientais atingem grandes
proporções. A simples lembrança pelos entrevistados, de acidentes envolvendo
indústrias químicas ou produtos químicos, reforça a questão dos riscos que este tipo de
indústria de transformação representa para o meio ambiente, para as sociedades locais
onde suas plantas industriais se encontram inseridas e consequentemente para as
sociedades globais quando efeitos não desejados dos produtos que fabricam ou dos
resíduos que geram atingem grandes proporções que extrapolam os limites de suas
plantas industriais.

c) Você considera que a indústria química representa algum risco para o meio
ambiente?

Quando questionados se a indústria química representa algum risco para o meio


ambiente, a grande maioria dos entrevistados considerou que sim. A Entrevistada 1
acredita que a indústria química representa um risco elevado, principalmente se for
priorizado apenas o lado econômico, enquanto que o Entrevistado 2 acredita que a
indústria química representa riscos em termos de vazamentos e explosões. Da mesma
272

forma Entrevistada 10 acredita que sim, por causa dos produtos que podem degradar a
natureza.

Além de afirmar categoricamente que sim, o Entrevistado 3 apontou mais uma


evidência da existência do risco, além da questão dos seguros apontada por Beck
(2006):

“Com certeza. Quando você trabalha na indústria química, independente do cargo, você
recebe um bônus no seu trabalho chamado risco de insalubridade. Isto não existiria se fosse
uma atividade boa. Só o fato desta condição existir, isto já é uma revelação que a atividade
pode representar algum risco de contaminação. Uma pessoa que entra em contato todos os
dias com produtos químicos pode desenvolver uma mutação genética, uma doença, uma
alergia. E os animais, as bactérias que vivem nos rios, na terra, no ar que as indústrias
químicas estão poluindo todos os dias, sem serem vigiadas. Se estes animais tivessem
câncer e morressem seria uma realidade. O problema é que muitos destes animais que tem
câncer e morrem, eles tem resíduos de produtos químicos que caem na cadeia alimentar. Eu
acredito que a indústria química representa muito risco para o meio ambiente, para a saúde
e eu reforço que a legislação que é bastante adequada, não permita que as indústrias que
não se adequaram dentro de um prazo de tempo adequado continuem funcionando”
(Entrevistado 3).

O Entrevistado 8 também acredita que sim, mencionando que os riscos não


ficam restritos ao ambiente interno das indústrias:

“Sim, pela própria atividade que ela desempenha, desde o primeiro ponto. Por mais que ela
tenha precaução em sua planta de processo, as matérias-primas que são ou tóxicas ou
poluidoras em potencial elas precisam ser transportadas do ponto de produção da matéria-
prima até o ponto de industrialização e isso gera um risco eminente do ponto A ao ponto B,
ou do ponto A ao ponto C, e indo além, o produto acabado, há bem pouco tempo que existe
legislação específica do DNIT (Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes)
que normatiza cargas perigosas. O condutor da carga perigosa não tem total ciência do que
está transportando devido a sua má formação. Quando você transporta, nós temos uma
51
malha viária muito precária que oferece riscos eminentes. Mesmo com SASSMAQ e tudo,
você não tem condição viária de transportar com segurança. Se eu adotar segurança na
minha planta e o meu transporte tiver segurança, você não tem uma malha viária com
segurança. Você não tem uma condição preventiva e preditiva para você fazer um embarque
de uma carga perigosa que você tenha toda a precaução, inclusive em função disso há
acidentes freqüentes pelo mundo, não só no Brasil. Por isso que eu acho que há um certo
descompasso entre a indústria química poluidora e a condição de chegar matéria-prima até
ela e de sair produtos dela para o mercado consumidor, porque você tem uma série de
participantes neste ciclo produtivo, com elos fracos que podem se romper, quando já não
estão rompidos” (Entrevistado 8).

O Entrevistado 5, além de mencionar a questão do risco, se utiliza de uma


justificativa associada a lógica instrumental para determinar a necessidade de
273

existência das atividades de sua empresa, apesar da existência de possíveis riscos. Ele
considera que:

“É uma faca de dois gumes, conforme o tipo de produto fabricado. Porém dela depende a
sobrevivência dos empregados” (Entrevistado 5).

Seguindo a mesma lógica defendida pelo Entrevistado 5, de que o risco depende


do produto fabricado, o Entrevistado 6 afirma que:

“Depende do que você vai fabricar. Uma indústria de soda eu não posso fazer aqui. Se você
vai fazer um detergente, um amaciante de roupa, um desinfetante não vai prejudicar,
diferente da fabricação do hipoclorito de sódio que exige uma estrutura própria. Se eu fosse
fazer aqui os órgãos ambientais não permitiriam” (Entrevistado 6).

O Entrevistado 4 também concorda com a questão da existência do risco, o qual


segundo ele, normalmente ocorre na ganância das empresas em obter resultados,
momento em que deixam de se preparar adequadamente para realizar as suas
atividades.

Dentre os entrevistados, apenas o Entrevistado 9 e o Entrevistado 7


apresentaram opiniões diferentes para a questão do risco que a indústria química
representa para o meio ambiente:

“Não existem riscos, desde se trabalhe dentro das normas de segurança e ambiental”
(Entrevistado 9).

“Desde que respeitadas as legislações não vejo dessa forma” (Entrevistado 7).

d) Você lembra de algum acidente ambiental ocorrido na sua organização?

Quando questionados se lembravam de algum acidente ocorrido em sua


organização, todos os entrevistados mantiveram as mesmas respostas fornecidas para
esta mesma pergunta, quando realizada na categoria “Perfil Ambiental da Indústria
Química”. Esta questão foi propositalmente colocada de forma repetida no instrumento

51
De acordo com a ABIQUIM (2007) a sigla SASSMAQ corresponde a Sistema de Avaliação de Segurança, Saúde,
Meio Ambiente e Qualidade. Trata-se de um serviço integrado desenvolvido pela entidade para a prevenção e
atendimento de acidentes rodoviários envolvendo produtos químicos
274

de pesquisa com o intuito de verificar se os entrevistados manteriam as informações


originalmente informadas ou se ao longo da entrevista revelariam outras situações
ocorridas e não mencionadas.

e) Você considera que as atividades desenvolvidas pela sua organização


representam algum risco para o meio ambiente?

Quando questionados se as atividades desenvolvidas pela sua organização


representavam algum risco para o meio ambiente, os Entrevistados 4, 5, 6, 7, 9 e 10
foram categóricos em afirmar que não. Para o Entrevistado 4:

“Nenhum, de acordo com a estrutura da empresa hoje considero ser risco zero”
(Entrevistado 4).

O Entrevistado 6 também acredita que não, em virtude do seu processo de


fabricação ser fechado e que somente haveria risco se em sua planta industrial fosse
fabricado o hipoclorito de sódio. Ele considera que os produtos que fabrica contribuem
com a sociedade quando menciona que a água sanitária está matando até a dengue.

A Entrevistada 1 e o Entrevistado 3 acreditam que:

”Desde que cumpridas as normas legais, os riscos são mínimos” (Entrevistado 1).

“Os produtos cosméticos e os alimentos que fabricamos são feitos para passar sobre a pele
ou para ser ingeridos. É óbvio que o nível de toxidade destes produtos tem que ser o menor
possível” (Entrevistado 3).

O Entrevistado 3 e o Entrevistado 2 consideram que os maiores riscos estão na


manipulação da matéria-prima:

“O maior risco está na utilização da matéria-prima e nas atividades de manipulação dos


produtos químicos” (Entrevistado 3).

“Os funcionários que efetuam o manuseio são preparados e a empresa inclusive deixou de
utilizar insumos que representassem risco de contaminação” (Entrevistado 2).

Para o Entrevistado 2 e para o Entrevistado 8, os riscos não se limitam ao


ambiente interno da empresa:
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“Durante o transporte pode ocorrer algum risco de vazamento” (Entrevistado 2).