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A significação da morte voluntária

Estudo sobre o papel da mídia


em suicídios contemporâneos

Denise Souza Dantas1


Resumo: Pesquisa sobre a significação do suicídio enquanto fenômeno
social midiatizado. Partimos do pressuposto de que a mídia participa na
ação dos suicídios contemporâneos. Tomando como base a pesquisa
bibliográfica, buscamos compreender em um primeiro momento, a
construção social de um fenômeno como a busca voluntária da própria
morte. Em seguida, dar conta de apresentar-se como fenômeno social
midiatizado. Traçando suas ressignificações históricas, centralizamos a
atenção nos atentados suicidas do Oriente Médio, exemplificando com o
filme “Paradise Now”, de Hany Abu-Assad. Mostramos ainda, como a mídia
participa na conformação do fenômeno acima citado, com a divulgação das
transmissões televisivas e a Internet – configurando assim, uma cultura do
suicídio grupal.
Palavras-chave: suicídio; mídia; sociabilidade

Abstract: This research works on the meaning of suicide as a medialized


social phenomenon. It is based on the idea that the media plays an
important role in the social reality that refers to contemporary suicides.
Taking bibliographic research as a basis we try to understand, at first, the
social construction of a phenomenon such as suicide. Then, we try to
report it as a medialized social phenomenon. By tracing its historical
meanings, we focus on the suicidal attempts that take place at the Middle
East, choosing as an example the film Paradise Now directed by Hany Abu-
Assad. It is also showed how media participates in the conformity and
legitimacy of suicide through TV transmissions and Internet, contributing,
this way, to the formation of a suicide massive culture.
Keywords: suicide; media; sociability

Na contemporaneidade, o fenômeno do suicídio tem adquirido uma nova


significação que precisa ser repensada à medida que, esse fenômeno tem
freqüentemente apontado um novo caráter e motivação. A presente proposta,tem
como principal objetivo compreender a significação do suicídio como um fenômeno
nos meios de divulgação das mensagens publicitárias. Partimos do pressuposto de
que, os meios de comunicação participam no planejamento e na execução dos
suicídios contemporâneos.
Nesse estudo, discutimos as transformações da significação do suicídio. E,
evidenciamos que tais transformações estão intimamente vinculadas ao fato de que,
na sociedade em que vivemos, os fenômenos sociais têm adquirido um novo
significado em função da participação da mídia na conformação destes fenômenos.
Deste modo, estudamos o suicídio como fenômeno social contemporâneo

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Graduada em Comunicação Social com habilitação em Rádio e Tv (Universidade Estadual de Santa
Cruz)

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midiatizado. Tomamos como base à pesquisa bibliográfica para desenvolver o tema
aqui proposto.
O presente trabalho é composto de dois capítulos. No primeiro, apresentamos
um breve histórico sobre a prática do suicídio. Traçamos as ressignificações deste
fenômeno, utilizando como base o livro O Suicídio, de Émile Durkheim, por seu
pioneirismo e contribuição para sistematização do estudo do suicídio. Buscamos
problematizar a relação da morte voluntária com algumas causas extra-sociais, bem
como sua relação com causas sociais. Discorremos também, sobre como a sociedade
contemporânea vivencia tal fenômeno.
No segundo capítulo, explanamos sobre o mundo islâmico, sobre a construção
de uma identidade muçulmana de resistência e sobre o sentimento de nação sem
fronteiras que o Islamismo traz consigo. Discursar sobre o fundamentalismo e sua
interpretação dos dogmas mulçumanos, mais especificamente sobre a Jihad ou
“Guerra Santa”, um preceito básico da fé islâmica. Abordamos a apropriação pelos
mentores dos atentados suicidas, das formas simbólicas como meio de propagação de
sua ideologia para o maior número de pessoas possível, seja através de seus “vídeos
testamento” veiculados nas grandes redes televisivas, ou através da publicação dos
mesmos na internet.

Desvendando o fenômeno do suicídio


Para iniciar este capítulo, consideramos importante delimitar a noção de
suicídio. Desse modo, adotamos o conceito definido por Durkheim (1897), que faz a
seguinte consideração: “Chama-se suicídio todo o caso de morte que resulta direta ou
indiretamente de um ato positivo ou negativo praticado pela própria vítima. Ato que
a vítima sabia dever produzir esse resultado” (Durkheim, 1897: 15).
Embora seja um tabu nas conversas do dia-a-dia, o suicídio tende a ser aceito
como mais um direito do sujeito contemporâneo. Entretanto, na maioria das vezes,
abreviar a própria vida não se trata de um ato sustentado no livre-arbítrio, mas sim
em conflitos entre a consciência e o inconsciente, entre o sujeito e o grupo. No início
do século XXI, o suicídio tem sido também usado como um gesto de comunicação.
Seja de protestos, ou de manifestações políticas e religiosas.

Um breve histórico
Não é possível precisar quando ocorreu o primeiro suicídio, mas ele sempre
esteve presente na história da humanidade. A Enciclopédia Delta de História Geral
registra que, em um ritual no ano 2.500 a.C., na cidade de Ur, doze pessoas
consumiram uma bebida envenenada e deitaram-se para esperar a morte.
Recorrendo a livros religiosos como a Bíblia, por exemplo, é possível também
encontrar o registro de famosos suicídios como, por exemplo, Saul, Sansão e Judas
Iscariotes.
Relatos de suicídios de pessoas famosas vêm sendo registrados na história
oficial e os cidadãos comuns suicidados são ignorados. No entanto, é possível
constatar a maneira como a sociedade tratou os suicidas e, como este tratamento foi
sendo alternado. Cabendo observar o suicídio enquanto questão política tratada de
diferentes maneiras pelo Estado.

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Na Antiga Grécia, um indivíduo não podia matar-se sem prévio consenso da
comunidade porque o suicídio constituía um atentado contra a estrutura
comunitária. Eram recusadas as honras de sepultura regular ao suicidado clandestino
e a mão do cadáver era amputada e enterrada à parte. Por sua vez, o Estado tinha
poder para vetar ou autorizar um suicídio bem como induzi-lo. Por exemplo, em 399
a.C., Sócrates foi obrigado a envenenar-se. Já nesse momento histórico, indicava-se
negar aos suicidas o sepultamento em locais sagrados, bem como rituais de escárnio
sobre o cadáver. Com o pensamento grego, iniciou-se a discussão do suicídio
filosófico, onde era reconhecida a liberdade como valor supremo do indivíduo, que
poderia decidir sobre sua vida ou morte.
Em outras culturas do primitivo mundo ocidental, era dever do ancião se
matar para preservar o grupo cuja solidez estava ameaçada pela debilitação do corpo
do chefe de família. Segundo Kalina e Kovadloff (1983), ocorria uma franca indução
comunitária ao suicídio, religiosamente estimulada e normativamente legitimada.
No Egito, se o dono dos escravos ou o faraó morriam, seus servos deixavam-se
morrer junto ao cadáver do seu amo. Também no Egito, desde o tempo de Cleópatra,
o suicídio gozava de tal benefício que se fundou a Academia de Sinapotumenos que,
em grego, significa “matar juntos”.
Em Roma, adotou-se atitudes diferentes em relação ao suicídio, legitimando o
óbito do senhor que se matava e condenando o escravo do suicidado à morte. O
senhor, um homem livre, ao matar-se, exercia sobre si o direito próprio de sua
condição social, amparado pela lei pública. O escravo, porém matando-se, ia contra a
autoridade do senhorio, contestando seu poder e diminuindo seu capital. O que era
contra a lei familiar.
O gesto suicida, glorificado no cenário político, era condenado quando se
tratava de um escravo porque o valor do ato era inseparável da condição social do
indivíduo. Entretanto, ao matar-se, a denúncia do escravo ia além da sua condição
social porque colocava em xeque os valores universais de liberdade e justiça, os quais
aparentavam exclusividade do seu senhor quando este, combatia na defesa de sua
cidade e de seus privilégios.
Quatro séculos antes e quatro séculos depois de Cristo, o suicídio é ora
tolerado, ora reprimido. Sua rejeição vai se reforçando durante os primeiros séculos
da era cristã, como por exemplo, o suicídio sem motivo válido sofria sanções
econômicas (como confisco de bens) e morais (aquele que se casasse com uma viúva
de suicida era punido por infâmia); até que o suicídio foi totalmente condenado no
século V por Santo Agostinho e pelo Concílio de Arles (452 d.C.), culminando com a
condenação expressa de todas as formas de suicídio no “Decret de Gratien”, um
compêndio de direito canônico do século XIII.
Na Idade Média cristã, o suicídio é condenado teologicamente. A Europa cristã
acaba com as diferenças entre o suicídio legal e ilegal: matar-se era atentar contra a
propriedade do outro e o outro era Deus. O único que criou o homem e quem,
portanto, deveria ter o domínio sobre a morte. A vida do indivíduo deixa de ser um
patrimônio da comunidade para ser um dom divino. E matar-se, equivale a um
sacrilégio. O suicida não tem direito aos rituais religiosos, seus herdeiros não
recebem os bens materiais e seu cadáver é castigado publicamente podendo ser
exposto nu ou queimado. Sobre isso Daniela Kurcgant e Yuan Wang narram:
Assim, tal qual nas sociedades primitivas, observa-se o cumprimento de
rituais destinados a paralisar o corpo do defunto e a mutilá-lo para assim

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torná-lo impotente. Por exemplo, na cidade de Lille, na França, o cadáver
deveria ser arrastado até a forca e depois pendurado se fosse homem, mas
queimado, se fosse mulher. Em Zurique, inflige-se ao cadáver um destino
que se adaptaria ao tipo de suicídio cometido. Por exemplo, uma ponta de
madeira seria cravada no crânio se a morte ocorresse com um punhal.
(Kurcgant; Wang, 2004: 41)
Os suicidados são igualados aos ladrões e assassinos. O Estado e a Igreja fazem
tudo para combater os suicídios. Um exemplo do tratamento dado pela Igreja ao
corpo do suicida pode ser observado no filme épico “Cruzada” do diretor Ridley Scott
onde as cenas iniciais mostram uma caravana da igreja numa estrada onde jaz o
corpo de uma mulher que havia cometido suicídio; a ordem então, era para que lhe
decapitassem a cabeça antes de enterrá-la.
A sociedade foi reprimindo o suicídio até a Revolução Francesa, a qual aboliu
as medidas repressivas contra a prática do suicídio, o que para Kalina e Kovadloff
significou que a conduta suicida deixou de comprometer a estabilidade do Estado. O
suicídio assumiu assim, um caráter que oscila entre o quase clandestino, ou
francamente clandestino e o patológico. Eles escreveram:
Entre a pessoa e a comunidade começou a se abrir, em meados do século
XVIII, uma distância que duzentos anos mais tarde terminará constituindo
as múltiplas formas de incomunicação contemporânea. Por isso, mais que
um ato de indulgência estatal frente ao indivíduo, deve-se ver nesta
liberalização progressiva das normas punitivas com respeito ao suicídio
uma expressão de irrelevância social que começa a pesar sobre a pessoa. Ou
seja, não se contempla o suicídio com tolerância porque se o compreende,
mas porque já não se lhe atribui maior transcendência coletiva. (kalina e
Kovadloff, 1983: 54).
O fato, é que, apesar da Revolução Francesa ter abolido medidas repressivas
contra a prática do suicídio, aparentando que a conduta suicida não compromete a
estabilidade do Estado. Uma observação primeira da relação suicidado e sociedade,
indica que há um movimento social organizado de prevenção ao suicídio, ou seja,
existe um confronto latente –estrutura social moderna entre dois movimentos– o dos
suicidados e outro que se lhe opõe (representado principalmente pela Igreja). Impõe-
se o silêncio. Afinal, o suicídio transformou-se em um mal mental, moral, físico e
social, que nem de longe lembra a sugestão dos pensadores iluministas, de encará-lo
como mais uma manifestação da liberdade humana.

Ressignificação do suicídio
Durkheim, em seu pioneiro trabalho O Suicídio (1897), define o suicídio como
“[...] todo o caso de morte que resulta direta ou indiretamente de um ato positivo ou
negativo praticado pela própria vítima, ato que a vítima sabia dever produzir esse
resultado” (Durkheim, 1897: 15). Para o autor, como qualquer fato social, o suicídio é
um modo de ação capaz de exercer um constrangimento externo sobre os indivíduos;
constrangimento esse, que chega a questionar a própria estrutura social. Este estudo
de Durkheim, analisando os suicídios ocorridos no século XIX, tornou-se obra
clássica da sociologia por chamar a atenção sobre a significação social do suicídio
pessoal – o suicídio é uma denúncia individual de uma crise coletiva.
Inicialmente, atribuíram-se duas espécies de causa extra-sociais que podem, a
priori, apresentar alguma influência sobre a taxa dos suicídios: as disposições

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orgânico-psíquicas e a natureza do meio físico. O clima, a temperatura (pela maneira
como agem sobre o organismo), ou mesmo na constituição dos indivíduos (ou em
uma classe deles), poderia advir uma tendência, de intensidade variável, que
conduzisse diretamente o homem ao suicídio. Durkheim propõe uma análise destas
hipóteses, averiguando se realmente existe uma participação dessas causas extra-
sociais no fenômeno do suicídio.
Para desassociar a idéia de que o suicídio é uma variante da loucura, Durkheim
afirma que todos os suicídios vesânicos ou são sem motivo aparente ou sua motivação
é puramente imaginária. Para provar que a causa do suicídio não depende
exclusivamente das manifestações vesânicas, o autor compara a porcentagem de cada
sexo no número do que ele denomina de “alienados”: a maioria dos indivíduos
“alienados” são mulheres, mas a maior porcentagem de casos de suicídio neste estado
mental é masculina. Durkheim (1897) conclui: “Por conseqüência, se houvesse entre
a taxa de suicídios e a neurastenia uma relação de causa e efeito, deveriam suicidar-se
mais mulheres do que homens”. Deste modo, o suicídio dos loucos é apenas uma
faceta do suicídio em geral. Portanto, não é o fator principal na tendência coletiva
para o suicídio em sua generalidade. Maurice Pinguet, autor de A morte voluntária
no Japão, comenta a relação entre suicídio e loucura:
Por ter sido durante muito tempo denunciado como cúmplice do demônio,
o suicídio nos aparece ainda hoje como próximo da demência. E temos que
fazer um esforço para pensá-lo não mais como um sintoma de desvario,
mas como um ato semelhante a outros, mais ou menos racional, segundo as
circunstâncias nas quais está posto e de onde lhe vem seu sentido (Pinguet,
1987: 119).
Passou-se então a relacionar o número de mortes voluntárias a diferenciação
das raças, onde existiria uma disposição orgânica estreitamente solidária ao
fenômeno do suicídio. Para a desconstrução dessa idéia, Durkheim apresenta
quadros com dados comparativos dos países europeus do ponto de vista do suicídio e
da raça, onde os povos germânicos, mais especificamente os alemães, são apontados
como a raça mais propensa ao auto-extermínio. Contudo, quando comparada à raça
germânica (alemães), com a raça celto-romana (franceses), habitantes de uma mesma
região (Suíça) e que professam a mesma religião (catolicismo), os franceses têm o
maior número de suicídios. Sobre isso, compartilha-se da idéia de que “Os fatos
mostram, pois, que, se os alemães se matam mais que os outros povos, a causa disso
não está no sangue que lhe corre nas veias, mas na civilização em cujo seio são
educados” (Durkheim, 1897: 71).
Considerar que a raça é um fator importante na tendência para o suicídio, é
afirmar que essa inclinação para o suicídio se transmite de geração para geração, ou
seja, que este é um fator hereditário. Os pais transmitem para os filhos um certo
gênio que pode tender os indivíduos para o suicídio, mas isso não explica a motivação
destes. Durkheim afirma que o poder contagioso do exemplo pode perfeitamente
explicar a ocorrência de sucessivos suicídios na mesma família, como elucida:
O suicídio é eminentemente contagioso. Esse contágio se faz sentir
sobretudo nos indivíduos cuja constituição os inclina mais facilmente a
todos os tipos de sugestões gerais e às idéias particulares de suicídio;
porque não só são levados a reproduzir tudo o que os impressiona, como
são especialmente inclinados a repetir um ato para qual já possuem certa
tendência (Durkheim, 1897: 80).

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Essa inclinação hereditária para o suicídio, com efeito, se reduz a uma geral e
indeterminada disposição, que indispensavelmente carece de outro fator para que se
manifeste essa tendência suicida. Deste modo, não se pode apontar a hereditariedade
como única causa para explicar o suicídio.
Cogitou-se também, que as causas determinantes para o suicídio pudessem ser
atribuídas ao clima e a temperatura sazonal. Bem como doenças podem ser
originadas pelo meio material, eles poderiam ter o poder de impulsionar as aptidões
gerais que os indivíduos seriam dotados naturalmente. Por isso, conferiu-se a estes
fatores (clima e temperatura) uma influência favorável ao suicídio.
Para Durkheim, essa teoria associando o suicídio ao clima e a temperatura, é
questionada a partir do momento no qual afirma que o suicídio é um ato que é
concretizado por meio de uma superexcitação, que depende de um acúmulo de forças
e finda com uma explosão violenta. Na verdade, afirma o autor, a maioria dos casos
de suicídios é causado por depressão profunda, é premeditado e calmo, contrariando
a base dessa linha de pensamento. Se assim fosse, os países mais quentes
apresentariam uma taxa de suicídio tão alta que em poucos anos sua população seria
dizimada. Por fim, compartilha-se nesta pesquisa da idéia de Durkheim, que
assevera: a propensão suicida atinge seu auge no verão não por influência da
temperatura, mas sim, porque é nessa estação que os dias são mais longos e a vida
social é mais intensa.

Delineando as causas do suicídio


Numa análise sociológica entre a relação religião-suicídio, Durkheim
pesquisou três credos monoteístas: o Catolicismo, Protestantismo e Judaísmo, e
constatou que o maior número de suicídios ocorre entre os protestantes, seguidos
pelos católicos, e por último, os judeus. A proibição do suicídio é encontrada nos
dogmas das três religiões de forma igualmente clara, julgando o suicídio como uma
ação má, que acarreta penas morais e que no além morte, é cheio de sofrimento onde
serão severamente castigados. Se na repressão, os cultos têm o mesmo rigor, veremos
no que se diferenciam a explicação para tal estatística.
Durkheim entende que o catolicismo se dirige à consciência do indivíduo,
pedindo uma obediência cega e entrega a fé pronta ao católico, sem qualquer
participação crítica do fiel. O pensamento católico tem um verdadeiro horror à
variação. Existe uma hierarquia de autoridades que não permitem o acesso dos textos
originais sobre os quais a religião e apóiam.
No protestantismo, segundo Durkheim, o fiel participa da elaboração do seu
credo, a bíblia lhe é dada sem que nenhuma interpretação seja imposta. O que fica
perceptível na estrutura do culto reformado é o estado de individualismo religioso. O
clero protestante não obedece à hierarquia. Tanto o crente quanto o sacerdote, só
dependem de sua consciência. Há o incentivo à investigação e ao estudo individual da
bíblia no protestantismo. Cada fiel tem sua interpretação e pode discuti-la
independentemente de hierarquias. Por isso, surgem tantas seitas e ramificações do
culto reformado.
Chegamos, pois, a esta primeira conclusão de que a inclinação do
protestantismo para o suicídio deve estar relacionada ao espírito de livre
exame que anima essa religião. [...] Quando ele surge, quando os homens,
depois de terem por muito tempo recebido da tradição a sua fé já pronta,
exigem o direito de a fazerem eles próprios, tal não será em virtude dos

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atrativos intrínsecos da livre investigação, pois esta acarreta tantas dores
quantas alegrias (Durkheim, 1897: 159).
Para Durkheim, sem a existência da imposição das crenças e a livre
investigação, o indivíduo tem suas crenças tradicionais abaladas. Dúvidas e
reivindicações aparecem e a consciência individual afirma sua autonomia, pois foi
destruído um sistema tradicional de crenças e não foi substituído. Não existem idéias
partilhadas por todos que seja acima de contestações. Tudo pode ser discutido e
questionado. Assim, sem práticas e crenças em comum, o protestantismo confere
uma participação maior ao pensamento individual.
No caso do Judaísmo, de acordo com Durkheim, a justificativa para a menor
taxa de suicídio quando comparado às outras religiões monoteístas, está na
perseguição sofrida durante tantos anos, criou entre eles um sentimento de
solidariedade. As impossibilidades de se comunicarem com outras pessoas
livremente, obrigaram os judeus a manter uma estreita relação entre si. Cada
comunidade se tornou como uma pequena sociedade compacta e coerente. A Igreja
Judaica, quando comparada a Igreja Católica e a Protestante, é a maior instituição de
coerção, já que consiste em essência, de um conjunto de regras e práticas
minuciosamente reguladas, cujo juízo individual é quase inexistente.
Durkheim declara que, quanto mais vasto e sólido o corpo de doutrinas, mais
se socializam os fiéis. Quanto mais determinadas às formas de agir e de pensar sob
um aspecto religioso mais a idéia de Deus está ligada à vida cotidiana dos indivíduos,
unindo-os para um único e mesmo fim. O Protestantismo, por ter seus dogmas não
tão centralizados e consistentes quanto o Catolicismo e no Judaísmo, valoriza o
individualismo religioso o que prejudica na convivência harmônica e a vida social não
é tão integrada como nos outros credos monoteístas.
Quanto mais numerosas e fortes forem elas, [as crenças e práticas] maior
será a integração da pessoa à vida do grupo e menor será a probabilidade de
suicídio. A participação do indivíduo no grupo dá a vida maior sentido,
provê significado através da dedicação a outros, fornece uma ideologia,
distraindo a pessoa de problemas pessoais que poderiam, em
circunstancias, liberar tendências suicidas (Almeida, A.; Almeida Neto, F.
2004: 57).
Para Durkheim, uma vez que a vida social é muito simples, basta pouco para
satisfazer o indivíduo. Numa vida regulada minuciosamente, não há espaço para o
individualismo e para os questionamentos; a sociedade é quem estipula as atitudes
do individuo, a participação do mesmo num grupo, dá a vida maior sentido. E por
este motivo, é de fundamental importância compreender o meio social para entender
a taxa de suicídios. Afinal, só se pode explicar esse fenômeno sociologicamente, na
constituição moral da sociedade que se determina o número de mortos voluntários.
Segundo Durkheim, as inclinações individuais para o suicídio derivam de uma
inclinação coletiva específica. Em geral, para explicar as causas do suicídio recorre-se
às circunstâncias que o cercam de forma imediata, um fato que é aparentemente
intimista e tão somente particular, mas essa disposição moral da vítima nada mais é
do que um eco da sociedade em que vivia. É por essa razão que Durkheim (1897: 328)
acentua: “não há nada que não possa servir de causa ocasional do suicídio. Tudo
depende da intensidade com que as causas suicidógenas agiram sobre o indivíduo”.
O tipo coletivo de uma sociedade é um fator determinante para entendermos o
fenômeno social que nos ocupa. Esse tipo coletivo exprime uma moralidade que

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ultrapassa o indivíduo; são um conjunto de preceitos elevados e imperativos,
persuadidos nos seus integrantes desde a infância, que são capazes de criar
verdadeiras repulsas a determinados atos. Por exemplo, o horror pelo sangue
humano está fortemente estabelecido na consciência coletiva a fim de evitar
manifestações homicidas. O mesmo acontece quando falamos do suicídio, não
somente pelo horror ao sangue, mas também, pelas sanções religiosas e pelo histórico
de repressão e ônus recebidos pelos familiares dos suicidas, como já foi dito em
tópicos anteriores.
Compartilhamos neste estudo do pensamento de Durkheim, onde é evidente
que, à medida que estamos integrados num determinado grupo, vivenciamos nossas
experiências diárias por meio dele e estamos expostos à influência desses estados
sociais. Em oposição, quando possuímos uma personalidade diferenciada do grupo,
tendemos a ser resistentes a eles. Exemplificaremos adiante, dois casos de suicídios
coletivos, de razões distintas, e como a mídia influencia na construção do novo
significado desse fenômeno social.

O suicídio na contemporaneidade
Esqueça os antigos ritos, velórios, lutos, procissão para o sepultamento, como
descritos por Ariès (1992). Foi-se o tempo onde a morte de um homem modificava
solenemente o espaço e o tempo de um grupo social. Hoje, vivemos a banalização da
morte e, consequentemente, da vida. O luto é quase inexistente, a hospitalização dos
doentes ao invés de se morrer em casa, a solidariedade da sociedade para com a
família do morto. Tudo transformou-se. E, em alguns casos, até extinguiu-se. Mas a
morte não deixou de ser um fato social e público.
O que se observa atualmente é a vontade de divulgar as causas da morte, tão
reprimida por medo do Além e pela conveniência de se manter o moribundo na
ignorância. Vivenciamos hoje a necessidade de falar do fim da vida naturalmente ao
invés de esconder, encarar a morte como um direito do homem contemporâneo. Por
isso, há para o indivíduo a necessidade de um último diálogo e suas recomendações
finais; seja o desejo de expressar com quem deixar os bens materiais, como é o caso
do testamento, ou o desejo de findar com o sofrimento acarretado por doença
incurável, como é o caso da eutanásia, ou mesmo a necessidade de desculpar-se,
revelar sentimentos antes ocultos. Esse ritual também é seguido pelo suicida,
principalmente o altruísta. Como veremos mais adiante, há casos onde a própria
morte é o meio mais eficaz de comunicar e divulgar seus pensamentos e ideais.
O fenômeno do suicídio, fato social envolto em tabus e em mistérios,
aparentemente está relacionado a questões íntimas do suicidado e afeta somente seus
parentes e as pessoas mais próximas. No entanto, os rumos da organização mundial
(globalização do entretenimento, comércio em grande escala, modismo, cultura das
mídias), o embate entre culturas e religiões diversificadas são mudanças importantes
e atuais, que trouxeram consigo uma nova relação com o fenômeno do suicídio. Como
lembra Durkheim:
Existe, para cada grupo social, uma tendência específica ao suicídio que
nem a constituição orgânico-psíquica dos indivíduos nem a natureza do
ambiente natural explicam. Resulta disso, por eliminação, que essa
tendência deve depender de causas sociais e constituir por si mesma um
fenômeno coletivo; inclusive, certos fatos que examinamos, sobretudo as

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variações geográficas e periódicas do suicídio, nos levaram expressamente a
essa conclusão (Durkheim, 1982: 107).
Numa rápida análise psicossocial do fenômeno que nos ocupa, é importante
ressaltar o pensamento de Kalina e Kovadloff (1992), onde afirmam que no suicídio há
uma profunda correlação entre a pessoa que se mata e a sociedade em que vive e
morre. Os autores partem da premissa que, em cada indivíduo que se mata, fracassa
uma proposta comunitária.
Em muitas obras o suicídio é visto como o fim de um processo social - já
Eduardo Kalina e Santiago Kovadloff seguem a linha contrária, considerando o
suicídio como um processo em si. E assim entendendo o suicídio, buscaremos a faceta
midiatizada desse processo, um gesto de comunicação que é tão intrigante quanto
atual. Restringimos nossa análise a alguns casos onde o suicídio surge sob um novo
aspecto, ligados a atos de devoção e protesto. Investigamos a natureza do suicídio, em
que o suicida recupera a imagem do homem ativo, capaz de influenciar a realidade, e
também, como na contemporaneidade esse fenômeno adquire uma nova significação,
precisando ser repensado à medida que tem freqüentemente apontado um novo
caráter e motivação.

O mundo islâmico: identidade e suicídio


Fundamentalismo, xiitas, jihad, aiatolás furiosos levantando seus fiéis contra o
“Demônio Ocidental”, guerreiros santos explodindo no meio da multidão, essas são
as principais imagens associadas ao mundo islâmico. A guerra que o planeta assiste
entre a imposição dos valores ocidentais e a resistência desesperada dos islâmicos
impregna a propaganda que fixa nos nossos cérebros como uma caricatura, ou como
uma distorção da realidade.
O Islamismo é, de fato, a religião que mais cresce no mundo contemporâneo,
sendo a segunda maior religião em número de fiéis. Mais do que crescimento, o Islã
apresenta um algo mais, numa edição de 1981 de “O Correio da Unesco” conta que:
“Nos 13 séculos que se passaram desde sua gênese, a religião congrega hoje mais de
800 milhões de adeptos (número da época), unidos pelo sentimento profundo de
pertencer a uma só comunidade. E essa expansão, que continua, é devida
principalmente a um espírito de universalidade que transcende qualquer distinção de
raça e permite a cada povo se integrar no Islã, mas ao mesmo tempo, conservar sua
cultura própria”. Mais que uma religião, o Islã é uma nação sem fronteiras. Por este
motivo, o sentimento de identidade islâmica, como também em outras religiões,
auxilia na instituição do fiel radical que leva ao pé da letra as escrituras sagradas, ou
seja, o chamado fundamentalismo religioso, definido na concepção de Manuel
Castells:
como a construção da identidade coletiva segundo a identificação do
comportamento individual e das instituições da sociedade com as normas
oriundas da lei de Deus, interpretadas por uma autoridade definida que
atua como intermediária entre Deus e a humanidade (Castells, 1999: 29).
Para Castells, o fundamentalismo representa uma fonte de construção de
identidade na sociedade em rede. Na década de 70, enquanto o mundo vivia a
reestruturação capitalista, no mundo islâmico iniciava-se o XIV século da Hégira
(período da fuga d’O profeta Maomé, que representa um período de purificação). A
partir de então, segundo Castells, uma revolução cultural e religiosa se propagou
pelos países muçulmanos. Em alguns casos foi formado um estado paralelo islâmico,

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como na Arábia Saudita. A identidade cultural e o destino político dos fiéis eram a
luta dos radicais do Islã. Castells traz a sustentação de vários estudiosos que alegam
que, “[...] embora a primazia dos princípios religiosos conforme preceituado pelo
Corão seja comum a todo o Islã, as sociedades e instituições islâmicas são também
fundamentadas em interpretações múltiplas” (Castells, 1999: 31).
Entre os preceitos básicos dos dogmas mulçumanos, está a jihad ou “Guerra
Santa”. Existe uma linha de interpretação que afirma que existem duas grandes
formas de se fazer a Guerra Santa preconizada pelo profeta Maomé: “a Grande jihad”,
ou seja, a luta contra o ego, e a “Pequena jihad”, que é a busca de persuasão do infiel
aos caminhos de Alá.
Esse dogma é interpretado também, principalmente pelos fundamentalistas,
como a luta dos mulçumanos contra o Ocidente e o capitalismo. Essa vertente é
defendida pelos líderes radicais, para justificar, por exemplo, o ataque de 11 de
setembro de 2001, ao World Trade Center, e também, para a justificativa dos ataques
suicidas no conflito Palestina/Israel, por exemplo.
A construção de uma identidade de resistência, compartilhando aqui da
definição de Castells (1999), criada por posições e princípios opostos às instituições
da sociedade, deu origem à comunidade islâmica, que é uma forma de resistência
coletiva diante da opressão, devido à posição desvalorizada e discriminada dos
mulçumanos, principalmente aqueles que se encontram nas áreas de conflito, como
na Palestina, Afeganistão e Iraque.
A união dessa identidade de resistência ao sentimento de uma grande nação
sem fronteiras que o Islamismo traz, faz com que a interpretação extremista da
Jihad, faça surgir homens voluntários para o sacrifício consciente da vida, em prol da
honra de um povo, da defesa do direito de ter seu próprio território. Mas não sem
garantias das recompensas divinas por esse martírio. Castells diz que para o
Islamismo “O principal objetivo de todas as ações humanas deve ser o
estabelecimento da lei de Deus para toda a humanidade, colocando assim um ponto
final na atual oposição entre Dar al-Islam (o mundo mulçumano) e Dar al-Harb (o
mundo não-mulçumano)” (Castells, 1999: 32).
Ainda segundo Castells, a identidade islâmica é (re)construída pelos
fundamentalistas por oposição ao capitalismo, ao socialismo e ao nacionalismo, que,
em sua visão, são todas ideologias fracassadas provenientes da ordem pós-colonial. A
construção da identidade islâmica contemporânea realiza-se como uma reação contra
a modernização inatingível, efeitos negativos da globalização e do colapso de projeto
nacionalista pós-colonial. Manuel Castells afirma ainda, que uma nova identidade
está sendo construída, não por um retorno à tradição, mas pela manipulação de
materiais tradicionais para a formação de um novo mundo divino e comunal, onde
significados são reconstruídos em uma alternativa à ordem mundial excludente.

Atentados suicidas e o altruísmo islâmico.


Os atentados de 11 de setembro de 2001, foram uma série de ataques contra
alvos civis nos Estados Unidos. Quatro aviões comerciais foram desviados, sendo que
dois deles colidiram contra as torres do World Trade Center em Nova York. Um
terceiro avião foi divulgado pela autoridades norte-americanas, como tendo sido
intencionalmente derrubado contra o o Pentágono pelos sequestradores. Os
destroços do quarto avião foram vistos espalhados num campo próximo de

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Shanksville, Pensilvânia. A versão oficial apresentada pelo governo norte-americano
sugere que os passageiros enfrentaram os supostos seqüestradores e que, durante
este assalto o avião caiu.
Esse foi o primeiro ataque de efeitos psicológicos e altamente corretivos
imposto por forças inimigas em território americano, desde a Guerra de 1812. Esse
ataque deixou um saldo de mortes próximo a 3 mil vítimas. O ato agravou-se muito
mais por ter sido transmitido ao vivo pelas cadeias de TV do mundo inteiro com a
própria tecnologia americana. Tal ataque, ainda sem precedentes em toda a história
da humanidade, teve sua autoria assumida explicitamete em 29 de Outubro de 2004
por Osama Bin Laden. Ele afirmou em um vídeo divulgado pela rede de televisão
árabe Al Jazeera que: “nós decidimos destruir as torres na América... Deus sabe que
não nos ocorreu originalmente essa idéia, mas nossa paciência se esgotou diante da
injustiça e inflexibilidade da aliança entre americanos e israelenses contra o nosso
povo na Palestina e no Líbano. Então, a idéia surgiu na minha mente”.
Osaba Bin Laden se refere aos palestinos e libaneses como seu povo, mesmo
sendo de origem saudita. Esse sentimento profundo de pertencer a uma só
comunidade faz com que cada mulçumano se compadeça com a dor dos outros
mulçumanos e, também, no caso dos fundamentalistas, se tornem coléricos contra os
opressores. Daí surge à justificativa para os ataques suicidas contra esses opressores.
Seja na resistência a ocupação dos Estados Unidos no Iraque, seja contra a opressão
de Israel sobre os refugiados palestinos, os fundamentalistas islâmicos se unem no
que chamam de Guerra Santa. A ideologia disseminada pelos radicais mulçumanos,
como afirma Thompson, “[...] pode ser necessária tanto para manter submissos os
grupos em sua luta contra a ordem social, como para os grupos dominantes, na sua
defesa do status quo” (Thompson, 1995: 73).
Essa ligação tão estreita que o fundamentalismo islâmico apresenta com a
comunidade, faz com que o indivíduo se torne capaz de colocar em segundo plano sua
própria existência em favor de uma causa maior, o bem-estar de todos os
mulçumanos. Esses conflitos ideológicos são tratados no filme Paradise Now (2005),
do diretor Hany Abu-Assad.
O filme mostra a vida em Nablus, um campo de refugiados palestinos, onde
um pequeno grupo mantém uma vida bem simples e, em relação a idéias e
sentimentos, uma vida igual para todos. Durante a história, os dois personagens
centrais, Said (Kais Nashef) e Khaled (Ali Suliman), são mostrados em posição
inferior aos demais indivíduos da sociedade. O primeiro, porque seu pai tinha sido
um colaborador, ou seja, um mulçumano palestino que se juntou à polícia israelense
para desarticulação de supostos grupos terroristas, e foi executado quando Said tinha
apenas 10 anos. O segundo sentia-se inferiorizado porque seu pai, durante um ataque
israelense foi capturado e quando perguntado antes de uma mutilação, qual perna ele
preferia ficar, respondeu a perna direita. Ao invés de morrer bravamente, tinha
preferido continuar vivendo, mesmo submetendo à família a essa humilhação perante
a sociedade.
Numa posição desvalorizada, os dois personagens querem mostrar sua
dignidade e seu valor perante a comunidade. Então, quando são recrutados para um
ataque suicida recebem como uma honra poder cumprir a vontade de Alá. Para
Durkheim, quando o indivíduo não tem interesses próprios e é educado com um
espírito de abnegação autêntico, uma tendência suicida altruísta é despertada.
Segundo o autor, com o menor pretexto de promover o bem para uma comunidade ou
causa, a qual está tão integrado, o indivíduo dispõe da própria vida. O autor chama de

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suicídio altruísta, essa morte que não decorre do isolamento, mas sim de uma
identificação grupal tão intensa que põe em segundo plano a existência individual, e
possibilita o auto-sacrifício a causas coletivas.
O personagem Said, vê em seu sacrifício uma saída para a vida desonrosa e,
também como o perdão da sociedade para sua família. Por ter o suicídio uma estima
exarcebada nesta comunidade, como fica claro nas cenas da personagem Suha
(Lubna Azabal), filha de Abu Azzam, um mártir, que tinha sido perseguido pelo
exército israelense e, quando cercado preferiu o sacrifício, ao invés da morte pelas
mãos do inimigo. Assim, Abu Azzam se transformou num herói para a comunidade, e
os privilégios se estenderam a toda sua família, o que tornou mais simples o
recrutamento de mais voluntários, principalmente para os indivíduos que vivem em
posições desvalorizadas. Sobre os privilégios que o suicídio tem em certas sociedades,
Durkheim escreve:
Como se trata de uma virtude, e mesmo da virtude por excelência, louva-se
todo aquele que, ao mínimo pretexto, ou mesmo, por simples
exibicionismo, se recusa a viver. Um prêmio social está assim ligado ao
suicídio, que é por isso mesmo estimulado, e a recusa desta recompensa
tem, embora em menor grau, os mesmos efeitos que um castigo
propriamente dito (Durkheim, 1897: 235).
As represálias sofridas pela família de Said eram tamanhas que, com o aceite
de ser homem- bomba ele aspirava conseguir status perante a sociedade e libertar-se
de uma vida de vergonha e humilhação. Havia também a esperança de melhores
perspectivas para além dessa vida, onde os mentores do atentado suicida deixavam
claro que as regalias do além morte, nem se comparam com quaisquer bens desta
vida.
O fato de deixar de viver não é mais um baluarte que só insurge de tempos em
tempos, no acaso da morte, para Foucault (1988) o suicídio cai, em parte, no campo
de controle do saber e de intervenção do poder. O poder que o indivíduo tem sobre a
sua vida, é demonstrado também no direito de escolher o momento da sua própria
morte, como o autor afirma:
Não deve surpreender que o suicídio – outrora crime, pois era como
usurpar o direito de morte que somente os soberanos, o daqui debaixo ou o
do além, tinham o direito de exercer – tenha-se tornado, no decorrer do
século XIX, uma das primeiras condutas que entraram no campo da análise
sociológica; ele fazia aparecer, nas fronteiras e nos interstícios do poder
exercido sobre a vida, o direito individual e privado de morrer (Foucault,
1988: 130).
O direito de morrer é aproveitado pelos mentores dos ataques suicidas, assim
como no caso dos kamikazes do Japão durante a guerra do Pacífico em 1944, onde se
organizavam os voluntários para um ataque planejado e mais eficiente. Nesses
ataques suicidas dos islâmicos contra os seus opressores, vemos a natureza do
suicídio em que o suicidado recupera a imagem de sujeito de ação, capaz de interferir
na organização social.

Vídeo testamento: a apropriação das formas simbólicas


As experiências das pessoas estão cada vez mais mediadas por sistemas
técnicos de produção e transmissão simbólica. De acordo com Thompson, as
maneiras como as formas simbólicas são produzidas, transmitidas e recebidas nas

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sociedades modernas; as maneiras como as pessoas experimentam as ações e os
acontecimentos que se dão em contextos dos quais estão distanciados, tanto no
espaço como no tempo, afetam de modo profundo e irreversível os seus receptores
(Thompson, 1995: 25).
Compartilhamos a idéia de que não se pode mais desconsiderar o papel da
mídia na conformação dos fenômenos sociais contemporâneos. É nesta perspectiva
que buscamos compreender esse fenômeno que é o suicídio. Para Thompson, com o
desenvolvimento da comunicação de massa, os fenômenos ideológicos podem tornar-
se fenômenos de massa, capazes de afetar grande número de pessoas em locais
diversos e distantes. E é justamente isso que ocorre nos atentados suicidas.
No filme Paradise Now, vemos Khaled (Ali Suliman) gravar o seu discurso
final em vídeo, um meio técnico que garante um alto grau de fixação do conteúdo
significativo, e também permite certo grau de reprodução das formas simbólicas
(Thompson, 1995: 23). Como já foi dito anteriormente, vivenciamos hoje a
necessidade de falar do fim da vida naturalmente ao invés de esconder, encarar a
morte como um direito do homem contemporâneo. Por isso, há também para o
suicida a necessidade de um último diálogo e suas recomendações finais. Um ritual é
seguido pelos suicidas, onde num tipo de “vídeo testamento”, uma carta cheia de
revolta e reivindicações expressam também, que a própria morte foi o meio mais
eficaz de comunicar e divulgar esses pensamentos e ideais.
Esses vídeos são exibidos pelas grandes emissoras de televisão do mundo todo
e também publicado na internet. A forma simbólica é comercializada, passando pelo
processo que Thompson denomina como processo de valorização. E neste caso, é um
processo duplo, ocorrendo tanto uma valorização simbólica, pois esses vídeos são
apreciados tanto pelas pessoas que a produzem como pelas pessoas que os recebem,
quanto uma valorização econômica. Exemplo disto pode ser observado numa cena do
filme Paradise Now, em que os personagens Said e Suha se dirigem a uma locadora
de vídeos e lá lhes são oferecidos para aluguel os vídeos sobre homens- bomba, e
também vídeos de execuções de colaboradores. Sobre esse processo Thompson
afirma: “Quando as formas simbólicas estão sujeitas à valorização econômica,
tornam-se mercadorias ou, como geralmente digo, ‘bens simbólicos’ que podem ser
comprados, vendidos ou trocados de qualquer modo no mercado” (Thompson, 1995:
23).
Segundo Thiago Sobral (2005), os meios de comunicação representam um
importante fator, que influi no planejamento e na execução dos atos terroristas. Para
José Jorge Letria, a cobertura jornalística é o fator motivador das ações terroristas,
sendo a cobertura midiática procurada pelos grupos terroristas. A eficácia plena do
ato de destruição depende da cobertura dada pelos meios de comunicação. Dessa
forma, o terrorismo precisa da cobertura midiática para atingir os seus feitos políticos
e divulgar seus protestos.
De acordo com Letria, a ampla cobertura dada aos atos terroristas pelos meios
de comunicação, surge da necessidade da mídia que precisa da dimensão trágica, da
imprevisibilidade e violência dos atos terroristas para manter seus índices de
audiência. Para ele, o terrorismo transformou-se em uma poderosa realidade
midiática reforçada por fenômenos como o radicalismo nacionalista e o
fundamentalismo religioso e, sobretudo pela globalização que assegura a projeção
intercontinental do ato terrorista.

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O terrorismo até recentemente, selecionava suas vítimas cuidadosamente.
Assim, essas eram geralmente figuras importantes de governos. Dessa forma era mais
fácil conseguir seus objetivos, denominada por Letria como a diplomacia do terror.
Mas, atualmente o terrorismo nos parece como uma propaganda que tem por
objetivo à revolução social ou libertação nacional, ou ainda, contra a opressão que
julgam estar submetidos e esse método de pressionar as autoridades não escolhe
mais apenas chefes de estado, mas sim ícones de poder e dominação.

Considerações finais:
Evidenciando o papel da mídia nos casos de suicídio
É certo que o fenômeno do suicídio como todo fenômeno social, alcança
diferentes significações em distintos tempos e espaços. Com a construção de uma
identidade islâmica de resistência, o suicídio surge como uma forma de oposição
coletiva diante da opressão, devido à posição desvalorizada e discriminada dos
mulçumanos, principalmente para aqueles que se encontram nas áreas de conflito,
como na Palestina, Afeganistão e Iraque.
Apresentamos uma discussão sobre o filme Paradise Now, do diretor Hany
Abu-Assad, abordando os métodos de persuasão utilizados para recrutar voluntários
para homens-bomba. Apontamos a apropriação pelos mentores dos atentados
suicidas das formas simbólicas, como meio de propagação de sua ideologia para o
maior número de pessoas possível, seja através de seus “vídeos testamento”
veiculados nas grandes redes de televisão, ou através da publicação desses vídeos na
internet.
A televisão, através da cobertura jornalística na contemporaneidade, concede
ao suicídio uma visibilidade privilegiada, principalmente quando se trata dos
atentados suicidas islâmicos. A cobertura jornalística é o fator motivador das ações
terroristas, sendo a cobertura midiática procurada pelos grupos terroristas que têm
certeza que encontrará um espaço no horário nobre de todas as grandes redes de
televisão do mundo.
Concluímos que, os meios de comunicação representam um importante
elemento que participa no planejamento e na execução dos suicídios altruístas
contemporâneos. Esta participação se dá, seja como uma mera interferência como,
por exemplo, os livros; seja como um meio de encontrar e compartilhar os mesmos
ideais como é o caso da internet; seja como objetivo final de divulgar suas
reivindicações, protestos e ideologias, como ocorre com os “vídeos testamento” e suas
exibições no horário nobre da televisão.

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http://hdl.handle.net/1904/17198> Acessado em10 mai. 2007 às 14:27h.
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