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KERATA

O COLECIONADOR DE MENTES
Juliana R. S. Duarte

KERATA
O COLECIONADOR DE MENTES

Juliana R. S. Duarte
São Paulo, 2019.
Kerata, o colecionador de mentes
Copyright © Juliana R. S. Duarte

Todos os direitos reservados


A reprodução não autorizada desta publicação, no todo ou em parte, constitui violação dos
direitos autorais (Lei n° 9.610).

Capa
Vini Montana

Diagramação
Roberta Lenz

Coordenador de Revisão
Prof. Raphael Simão

Revisão
Caroline Lazarine

Texto de acordo com as normas do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990), em
vigor desde 1º de janeiro de 2009.

Dados internacionais de catalogação na publicação (CIP)

D812k
Duarte, Juliana R. S., — 1987 –

Kerata: o colecionador de mentes. / Juliana R. S. Duarte


– 1. Ed. Vol. II – São Paulo/ SP; independente; 2019.
390p.; a5.
ISBN 978-65-5023-014-2

1. Ficção. 2. Literatura Brasileira. 3. Terror


I. Título.

CDD: B869.3
CDU: 82-3

Índice para catálogo sistemático:


1. Ficção: Literatura brasileira 3. Terror 869.3

Juliana R S Duarte
Escritora independente

11 9 59824815 / julianarsduarte@gmail.com
Twitter: @julianarsduarte
Instagram: @julianarsduarte
www.julianarsduarte.com
SINOPSE

Uma mentira, e tudo vai pelos ares. Um passo em


falso, e o massacre começa. Parece um show de horror,
mas o pesadelo está apenas começando. Não ouse desviar
o olhar. Não cruze os braços, não ande para trás. O corpo
fala mais do que as suas palavras, e ele diz: culpado! Não
há outro destino para conde - nados no corrupto Bader-
nil senão a morte. Mas até o sopro gélido da escuridão
dominar seus súditos, muita tortura vai acontecer.
DEDICATÓRIA

Dedico este livro ao satírico Lima Barreto, que me


inspirou com suas críticas à República e aos privilégios
das famílias da aristocracia e militares do Brasil do sécu-
lo XIX.
INTRODUÇÃO

O Kerata é uma crítica social vestida de ficção.


Desde o primeiro livro me propus a criticar não apenas
a sociedade e sua cultura, mas a libido humana cada vez
mais domesticada, civilizada.
As cenas de sexo, detalhadamente descritas do pri-
meiro livro de maneira tão variável, combinam e recom-
binam gêneros e fetiches que criam sensações adversas,
que vão do prazer à aversão do leitor. No fundo, todos
têm um porão escondido, longe da luz social.
A linguagem é o fator mais importante da obra, na
verdade. Pois sendo conotativa, depende das experiên-
cias do leitor para se completar. Sozinha, é apenas uma
trama muito bem elaborada de palavras, ansiosa por um
significante.
Inspirei-me no Impressionismo brasileiro, onde
fiz uma homenagem a Raul Pompeia, autor do Ateneu,
o famoso colégio que abrigou a história do primeiro ho-
mossexual da literatura do nosso país: Sérgio. Por isso
mesmo nomeei um de meus personagens com este nome,
que também vive um drama homossexual.
Sendo o Impressionismo um lindo ramo do Natu-
ralismo, exploro as patologias humanas, fazendo uso de
uma linguagem mais escrachada, sem receio de falar e
expor o real (Lacaniano) humano. Pode-se dizer que é,
algumas vezes, escandaloso, sem rodeios. No fim, o leitor
tira suas próprias conclusões sobre os fatos narrados.
Além da referência literária, há a representação
artística brasileira. Debret é o sobrenome de Miguel Bap-
tiste Debret, o pintor francês que liderou a primeira mis-
são artística da França ao Brasil. Foi ele o fundador da
primeira escola de belas artes no Brasil, a Academia Im-
perial e o criador da primeira exposição artística aberta
ao público. Apenas os olhares e mentes mais atentas en-
xergarão a crítica e as referências por trás das cortinas
da ficção.
Neste livro, Kerata, o colecionador de mentes, a
crítica é mais nítida. Desta vez, a ficção veste-se de sátira
e homenageia Lima Barreto, o genial escritor que muito
me divertiu durante a minha adolescência e tempos de
escola. Hoje, me sinto orgulhosa de representar seu hu-
mor sátiro, seu sarcasmo, apresentando, é claro, o meu
próprio humor ácido.
Espero que se divirta durante a leitura. Preciso,
desde já, enfatizar que toda a narrativa é fictícia. Que os
fatos aqui narrados não representam a realidade política
brasileira à risca. Lancei mão sobre a minha licença poé-
tica para modificar o cenário brasileiro à minha maneira.
Qualquer semelhança é pura coincidência.
Assim como no livro um eu o escrevi ouvindo
música. Neste livro, sua leitura vai ficar melhor ao som
de Stevie Wonder. Suas músicas vão trazer uma e outra
mensagem à trama. Fique atento.
CAPÍTULO 1
O JULGAMENTO

O dia estava quente. O calor insuportável resseca-


va as línguas sedentas que circulavam, apressadas, pela
Avenida Dualista. Ninguém percebeu quando o imponen-
te relógio parou, ali na esquina da Bagunsta. De repente,
uma voz aguda, como a de uma criança, ecoou por todos
os lados da famosa avenida. As telas de todos os celulares
ficaram negras. Todas as televisões dos bares, restauran-
tes e casas também ficaram em plena escuridão. As telas
dos computadores das empresas pararam, para a delícia
de seus cansados colaboradores, que puderam sair mais
cedo. Todos ouviram a mesma voz ecoar.
- Olá, queridos Baderneiros. Hoje começa uma
grande mudança neste país. Pela primeira vez, vocês ve-
rão a justiça ser devidamente aplicada.
A imagem de uma criança surgiu na tela, pálida
e curiosamente sombria. Ela vestia um manto vermelho
sangue e parecia flutuar enquanto pronunciava suas pa-
lavras, que ora soavam afetuosas e outrora, venenosas.
Ele suava frio, não sabia o que estava acontecendo.
Tantas luzes em seus olhos… se ao menos alguém pudesse
desligá-las. Tentou mexer as mãos, foi quando percebeu
que estava preso. Suas pernas também não respondiam.
Tentou inclinar a cabeça, mas o mundo girou dentro dela.
Suas tripas ameaçaram fugir pela boca.

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- Olá – gritou – Tem alguém aí? O que está aconte-
cendo? Eu posso pagar, vamos conversar!
- Olá, senhor Balel Pemer, nosso querido Presi-
dente. Sinto muito, mas hoje, o “seu dinheiro” não pode
te salvar.
- Quem é você?
- O seu julgamento – a voz aguda causou arrepio
na espinha - Mas vamos ao que realmente interessa, o es-
petáculo não pode esperar. Tudo o que você precisa fazer
é falar a verdade, e não há como me enganar. Sou uma
inteligência artificial desenvolvida para detectar menti-
ras. Leio suas expressões, decifro as batidas do seu co-
ração, não perco um segundo de sua atividade cerebral.
Sem falar que aprendo e me adapto rapidamente a todas
as alterações do seu bioritmo – deu uma risadinha que
deixaria o diabo arrepiado. Mas vamos aos fatos: você
está aí preso e precisa responder a algumas perguntas
para sair daí. A cada mentira, uma lâmina desce e corta
um pedacinho seu. A cada verdade, nenhum pedacinho
é arrancado, que tal? – A pergunta era de um sarcasmo
que deixava o humor ácido no chinelo. – Mas se eu fos-
se você, sinceramente, evitaria falar mentiras, se é que
me entende.
Uma luz lateral acendeu, iluminando um grande
espelho emoldurado no teto. O espelho em si era uma se-
quência de afiadas lâminas, tão juntas que era impossí-
vel enxergar onde terminava uma e começava a outra.
Pemer viu seu reflexo lá em cima. Estava preso em uma

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maca verde e amarela.
- Qual seu ano de nascimento?
- Mas o quê?
- Esqueci de dizer: você tem 30 segundos para res-
ponder ou a lâmina cairá.
- 1940.
- Elias é um de seus sobrenomes?
- Sim.
- Também é advogado?
- Sim.
- Em qual ano terminou o seu doutorado em Direi-
to Público?
Ele pensou por alguns segundos, aflito. Faltavam 2
segundos, quando finalmente gritou:
- 1974!
- Quando foi o seu primeiro roubo ao dinheiro pú-
blico?
- Eu nunca roubei o povo Baderneiro! - replicou
quase que automaticamente. A primeira lâmina desceu,
voraz, e separou-lhe os pés do corpo. O sangue esguichou
para todos os lados. O grito de Pemer foi aterrorizante
- Seu louco! Doente! Eu vou matar você! Arghhhhh!
Me tira daqui!
- Eu expliquei as regras, senhor Presidente. A jus-
tiça até hoje fez vista grossa aos seus atos. Hoje, todos
verão o que você fez. Vou repetir a pergunta: quando foi
o seu primeiro roubo ao dinheiro público?
- Vai se fuder! Eu vou acabar com a sua raça! Apa-

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rece, covarde!
- Não perca tempo com palavras de baixo calão.
Seu cérebro não está se concentrando na resposta….
- Seu maldi… Grah!
Outra lâmina desceu, impiedosa, e tirou-lhe uma
fatia milimétrica de sua canela. Outro grito estrondoso
tomou a sala, que até então era de uma brancura celeste,
quase angelical.
- Me tira daqui, eu pago o que você quiser.
- Quando foi a primeira vez que roubou dinheiro
público, senhor Presidente?
A boca do Presidente se contraiu, como se es-
forçasse para manter um segredo. As sobrancelhas se
aproximaram e se ergueram. Toda a sua expressão de-
nunciava dor, clemência. A cabeça levemente inclinada
denunciava a sua vergonha, já que suas mãos não podiam
tapar a cara. O algoritmo foi rápido ao ler todas as micro-
expressões e o bioritmo: Pemer estava prestes a contar
uma verdade.
- Quando me tornei Se-se-cre-tá-rio da Se-gu-ran-
-ça Pública. Pronto, eu já falei, o que mais quer de mim?
Me tira daqui por favor… - Implorou, aos prantos.
- Finalmente uma verdade, senhor Presidente.
Mas então o senhor confirma que é corrupto?
O presidente hesitou, mas finalmente falou:
- Sim, sim, sim. Me tira daqui, por favor, eu faço
qualquer coisa.
- Ainda não. Temos muitas perguntas pela frente.

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- Já falamos muito sobre o passado. Vamos falar
sobre os dias atuais, senhor Presidente, o que acha?
A voz do que parecia ser a de uma criança era sim-
plesmente medonha. Ora a outra voz ficava distante, eco-
ava, vinha de um lado só, depois de outro, depois preen-
chia toda a sala, como se sussurrasse nas profundezas de
sua alma, rindo, debochando e se deleitando em sua dor
e no sangue que se espalhava como tinta vermelha sobre
uma tela branca.
Outra lâmina caiu e um novo uivo soou pela sala.
- O senhor é o chefe do núcleo criminoso político
chamado PFDP da Câmara?
- EU NÃO VOU RESPONDER! CHEGA, SEU CA-
NALHA! SE QUISER, ME MATE AG - outra lâmina caiu -
GRAHHHHHH!
Pemer entrou em uma crise de choro, se debatia
de um lado a outro enquanto lâmina a lâmina caiam após
os trinta segundos sem resposta.
- Tá bom, tá bom, sou eu o líder do PFDP - as pala-
vras eram quase impossíveis de serem entendidas, pois
saíram em forma de grunhidos, como se fossem paridas à
força pela boca.
- O senhor desviou recursos da Lentobrás?
O coração de Pemer acelerou, calafrios tomaram
conta de seu espírito, se é que o tinha. Começou a se de-
bater na maca, numa espécie de convulsão que parou
quando a morfina entrou em suas veias, num ato nobre
de misericórdia. Ou pelo menos foi isso o que pensou.

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- Obrigado, obrigado.
- Não me agradeça, estou aqui para garantir que
não morra antes do tempo.
Pemer tinha um acesso hospitalar injetado nas
veias. Foi por ali que o anestésico entrou, aliviando a dor.
Qualquer situação que o impedisse de responder ao in-
terrogatório ativava a medicação remota; ou, em casos
de parada cardíaca, acionava choques desfibriladores
para trazê-lo de volta do inferno.
- O senhor desviou recursos da Lentobrás?
O algoritmo foi rápido, detectou a profunda triste-
za e a nítida vergonha estampada em sua cara suada.
- Sim, eu desviei.
- Além da Lentobrás, quais as outras instituições
que o senhor desviou recursos?
- Nenhuma, nenhuma, só a Lentobrás, eu juro!
A lâmina desceu, sedenta por sangue.
As perguntas seguiram traiçoeiras. Uma a uma e
os podres de Balel Pemer vinham à tona. Calafrios per-
corriam pelo que ainda lhe restava do corpo. Suas tri-
pas já enfeitavam o chão quando a lâmina lhe roubou o
último suspiro. Os espasmos de seu corpo morto foram
interrompidos pelas demais lâminas, que caíram juntas,
fatiando o que havia sobrado do Presidente. Este deta-
lhe a inteligência artificial não havia contado: a ausência
de qualquer atividade cerebral liberaria todas as lâminas
em um golpe fatal pós-morte. Uma obra de arte!
Os olhos dos Baderneiros estavam grudados na

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tela. Pela primeira vez, a Avenida Dualista ficou sem res-
pirar. Todos estavam em choque, olhando para aquela
carnificina sem acreditar. As autoridades já haviam de-
sistido de encontrar o sinal e desligar a transmissão. Os
jornais e rádios, em vão, tentaram interromper o sinal.
Nada poderia ser feito, nada. A não ser parar e assistir.

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CAPÍTULO 2
PEVERSÃO

- Parece cansado - constatou, mas ele nada respon-


deu, como sempre. - Fico feliz que tenha mantido minha
dieta, mas já estou farto de spaghetti de abobrinha.
O celular de Heising começou a tocar. Ele ignorou
e continuou a colocar o spaghetti no prato, embevecido
em pensamentos hostis. Algo nele estava mudando pro-
fundamente, tinha medo do que poderia se tornar, mas
aquela sensação obscura era ao mesmo tempo deliciosa,
um poder quase que absoluto.
Há quase dois anos Heising havia começado um
processo involuntário de isolamento. Quando percebeu,
se viu acompanhado apenas de Pedro Debret. Não, ele
não acertou aquela flecha, se é isto o que está pensando.
Errou, não de propósito, mas por achar que a morte seria
quase um favor para Debret. Queria fazê-lo sofrer, queria
vê-lo sentir a dor que sentiu por tantos anos, dor esta que
heroína e morfina nenhuma foram capazes de anestesiar.
Ali, segurando aquele arco, com a adrenalina percorren-
do veloz por seu corpo, foi que raspou a pele das pálidas
bochechas de Pedro Debret com a flecha que Cauê havia
criado.
Pedro riu compulsivamente quando voltou a res-
pirar.
- Sabia que não tinha coragem - debochou de Hei-

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sing.
Heising apenas tirou-lhe a consciência com um
soco, que fez um estalo oco soar pela sala. Quando acor-
dou, estava preso em um lugar que não reconhecia, sen-
tindo excessivo cheiro de morangos. Proposital, é claro.
Heising passou a espancar Debret. Cada vez mais ele ti-
nha ânsia de superar a tortura anterior. Começou a jogar
sal em em Debret depois de deixá-lo ensanguentado, só
para vê-lo gritar de dor. Depois, passou a jogar álcool. Es-
tava convicto de que os gritos eram totalmente diferen-
tes. Chegou a gravar esses gritos, certo dia. Depois passou
horas escutando o grito à base de sal e o grito à base de
álcool. Quando percebeu, já estava dando-lhe choques,
afogando-o em baldes, cortando-lhe pedaços de pele.
Àquela altura, Pedro estava recheado de graves ferimen-
tos, que Heising fazia questão de cuidar muito lentamen-
te para garantir longos anos de muita tortura e vingança
pela frente.
- Começo a suspeitar, meu pequeno Heising, que
está ficando igualzinho a mim - Falou Debret certo dia,
ao observar Heising atentamente e perceber que tal com-
paração poderia ser a sua chance de manipulá-lo e, quem
sabe, fugir dali.
Heising não deu bola. Nunca dava, na verdade.
Para nada. Adoraria tirar todo esse vazio do peito, essa
falta de significância e agir como todos os meros mortais.
Tentou. Apaixonou-se, casou-se e quase teve um filho.
Depois apaixonou-se de novo. Clarice parecia caber-lhe

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muito bem, mas sabia que o coração da moça correria
para Isabella na primeira oportunidade que ele tivesse de
perdoá-la. Se é que um dia Clarice seria capaz de perdoar
alguém. Aquela mulher é intensa demais, vive a dor e o
amor na mesma intensidade assim como vive a tristeza
e a felicidade. Mergulha de cabeça em todas as emoções,
sem conferir se as águas são rasas.
Heising começou a dar o spaghetti na boca de Pe-
dro. Mantinha-o sempre de mãos presas.
- Pode ao menos colocar no noticiário? Quero sa-
ber se ainda falam bem de mim.
Foi quando a televisão ligou automaticamente e
aquela voz sombria e infantil descobriu o lugar secreto
de Heising. Depois de ver todo aquele espetáculo sangui-
nário que matou o Presidente do Badernil ao vivo, Debret
gargalhou compulsivamente até se engasgar com a pró-
pria tosse.
Heising saiu sem dizer uma palavra. Dirigiu até a
sebosa rua onde costumava perder a consciência com a
heroína. Estacionou e ali ficou, encarando aquela velha
poça nojenta como quem analisa a uma obra de arte. Era
quase um convite aos velhos tempos. Ficou ali, parado,
em um conflito interno que durou horas. Ligou o car-
ro e saiu, sem destino. Parou quando cansou de dirigir.
Seus pés doíam. Cauê tinha feito milagres com aquelas
próteses, mas não eram a mesma coisa que seus velhos e
companheiros pés, mesmo recebendo comandos de seu
cérebro e os respondendo corretamente na mesma ve-

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locidade de qualquer outro membro de seu corpo, como
se sempre tivessem feito parte dele. Pegou o celular. Es-
tranhou que o delegado não tivesse ligado ainda. Sentiu
um pouquinho de ciúmes, sabe-se lá de quem. Mas parece
que o delegado resolveu ler pensamento, porque o celu-
lar de Heising começou a vibrar. Com certeza ele falaria
daquele show de horror ao vivo e o chamaria para desco-
brir quem estava por trás de tudo. Mas seria ele capaz de
investigar alguém com desejos tão sangrentos quanto os
dele? Pemer com certeza merecia aquilo, talvez fizesse
pior se não tivesse medo de ser preso. Sentiu satisfação
ao imaginar autor de algo semelhante, driblando a polí-
cia e até mesmo detetives tão bons quanto ele. Quando
percebeu a loucura de seus devaneios, os refutou para
longe, para o mais profundo de seu inconsciente.
A ligação foi para a caixa postal.
- Cu doce! Ele está fazendo cú doce, quer apostar?
Hein, Afonso? Ele sabe que vou ligar pra ele e fica de pose.
Afonso tinha mudado. Encontrou alguma beleza
em sua feiura. Seu nariz torcido e magrelice estavam be-
lamente desenhados. Os boatos eram de que ele estava de
namoro, apaixonadinho. Até assobiava canções pela de-
legacia. Só pode ser uma boceta mesmo, sentada na cara
chupada desse magrelo pra deixar ele abestado desse jei-
to, nã! Dizia o delegado consigo, rindo por dentro. Con-
trolava-se para não entrar na onda da turma e sacanear o
feinho, apenas esforçava-se para exortar os malfeitores,
pedindo a Deus para seu riso não escapar entre uma pa-

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lavra ou outra. Era o delegado, poxa! Tinha que manter a
imagem e o respeito. Era homem sério e o bullying deve-
ria ser desencorajado em sua delegacia, mesmo que fosse
ao Afonso. Ninguém mais nem lembrava que Afonso ti-
nha prendido o Kerata. Só falavam da misteriosa mulher
que o estava fazendo feliz.
- Sem açúcar?! De novo, menina?! - gritou ao dar
uma bituca no cafezinho - Oh criatura de Deus, dois anos
e tu ainda não aprendeu a me servir um café?! Tá aí pa-
rada olhando o quê? Açúcar! Vai, vai, vai! Quanta gente
incompetente, pelo amor de Deus, resmungou em pen-
samentos. - Afonso! Ache o Heising, esta é sua priorida-
de, os fedelhos fodidos dos federais querem ele, então o
ache!
- Fedelhos fodidos dos federais - alguém sussurrou
baixinho aos risos.
Heising voltou para o seu esconderijo e logo tra-
tou de se entreter arrancando as unhas de Debret, uma a
uma. Sempre fazia isso com uma pequena e afiada faca. Ia
raspando até deixar apenas a pele ferida. Assim que elas
voltavam a crescer, Heising repetia o ato. Pedro deixava
escapar alguns urros de dor, mas só os mais traiçoeiros
conseguiam escapar de suas entranhas. Normalmente
segurava a onda bem firme, sem gritos, sem apelo, sem
dar a Heising o gostinho do prazer de fazê-lo suplicar. Ao
invés disso, investia em apelações psicológicas, em insul-
tos inteligentes, em manipulações mais elaboradas. Mas
Heising era esperto demais para cair em qualquer uma

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delas. Outro dia, Pedro quase o atingiu quando falou que
desta maneira ele não estava protegendo a humanidade
de um serial killer, estava apenas criando mais um e for-
talecendo outro.
- Já pensou o que posso fazer quando conseguir
sair daqui? Que seria muito melhor me matar logo e te
poupar a dose de culpa futura?
- Não caio nas suas palavras, Debret - disse Heising
depois de muito pensar.
- Mas finalmente me disse algumas. Obrigado, já
sei o que te afeta. Mas tenho alguma dúvida: tem medo
de virar um assassino sanguinário ou de assumir que é
sanguinário apenas?
Wolfgang não respondeu. Ergue-se e socou o es-
tômago de Debret com todas as forças que tinha em sua
alma. Um soco atrás do outro, enquanto Debret tenta-
va, em vão, erguer os joelhos para evitar que as tripas
corressem pelos olhos. Quando finalmente cansou, dei-
xou Debret sozinho, embalado pelas contrações. Ficou
pensando naquilo que Pedro havia dito. Sempre foi um
menino diferente, sempre teve pensamentos e desejos
hostis que os direcionou bem para a investigação crimi-
nal. Sua dedicação em prender criminosos não passava
de uma sublimação bem construída. Fazia-lhe bem pren-
der sujeitos como Debret, mas a satisfação nunca esta-
va, de fato, satisfeita. Queria ele mesmo fazer justiça e
quando se imaginava fazendo isso com as próprias mãos,
seu inconsciente lhe roubava o prazer da fantasia. Hei-

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sing jamais se renderia às velhas pulsões. Rosembard foi
a primeira e última expressão mais nítida de seus dese-
jos ocultos. Pedro com certeza merecia toda aquela vio-
lência, mas e Heising, merecia se tornar um monstro? Se
matar este porco, sou tão porco quanto ele. Mas será que
ele tem razão? - questionava-se.
- Preciso de uma distração - admitiu e logo aten-
deu à ligação do delegado.
- Wolfie? É você? - perguntou o delegado, duvido-
so.
- Sim, senhor, o que precisa?
- Os federais, Wolfie, estão encangados no meu
pescoço atrás de você, num viu os noticiários, não? Ma-
taram Balel Pemer! Por Deus! Aquele sujeito bem que
merecia uns tapões no pé do ouvido, mas fatiar o cara
daquele jeito em rede nacional?! Isso não se faz, Wolfie,
isso não-se-FAZ - bufou, como se a última palavra tivesse
saído pesada.
- Poupe-me o discurso, doutor. O que quer?
- Tá surdo, Wolfie? Não ouviu o que eu disse não?
Quero que encontre esses fodidos dos federais e resolva
isso logo.
Heising revisou rapidamente todos os seus passos
em sua mente e certificou-se de que não havia deixado
provas de que Debret estava morto, apenas “sumido”.
Fora dado como fugitivo pela polícia depois de ter ido
para cárcere privado. O Governo Baderneiro, em parceria
com a polícia federal, fez questão de manipular as infor-

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mações na mídia. Passaram informações falsas e simu-
laram entrevistas com o serial killer, que nunca queria
aparecer. Este fato muito chamou a atenção de críticos
e formadores de opinião, que publicaram em suas redes
sociais o estranhíssimo comportamento de Pedro Debret.

O Kerata é quase um rock star dos assassinatos.


Adora aparecer, dar entrevistas e agora ficou tímido?
Tem algo estranho aí. #tamodeolhobadernil #kdkerata

Postou um famoso apresentador em sua rede so-


cial.
Nunca que o Governo e a polícia admitiriam que
Pedro Debret havia dado um olé no sistema e estava mes-
mo era curtindo umas férias em alguma praia caribenha.
Jamais! Imagine o que os demais países, revoltados com
a pena recebida por Debret não iriam fazer? Importu-
nariam o Badernil até que a cabeça do Kerata virasse co-
mida de pombos em alguma praça pública. Iam começar
uma discórdia internacional.
- Deixe que o mundo o procure, especule teorias
sobre o seu paradeiro. Deixe que postem o cú nessa mer-
da de Facebook. Continuaremos a afirmar que, pela segu-
rança do próprio meliante, não falaremos onde ele está.
Pronto! Que não venham dar pitaco em casa alheia. Cui-
dem de seus próprios negócios - gritou o delegado fede-
ral.
Heising foi chamado para achar Debret. Obstruiu

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todos os seus passos, ocultou todas as provas, levou a
polícia para a direção errada enquanto sabia muito bem
onde Debret estava. Até aquele momento, ninguém havia
batido à sua porta atrás de Debret. Fez tudo certo para
nunca se tornar um suspeito, apenas um excelente dete-
tive que falhou em encontrar o Kerata. Mas tudo bem, até
os melhores detetives falham.
- Quando?
- ONTEM, WOLFGANG HEISING! ONTEM! - Desli-
gou.

29
CAPÍTULO 3
SILÊNCIO

Na manhã seguinte, no mesmo horário do dia an-


terior, a cidade cinzenta parou.
- Olá, queridos Baderneiros. Cometi um erro gra-
víssimo ontem: esqueci de me apresentar. Me chamo Deli
Crucis, versão X - riu e nem o calor infernal daquele ve-
rão foi capaz de aquecer o frio na espinha do povo que
andava acelerado pela grande Avenida.
- Hoje - continuou - trago a vocês um novo espetá-
culo. Fiquem comigo e por favor, não tentem me desligar,
me espalho quando fazem isso. Oops!
Sumiu em meio à negritude da tela e esta se tornou
esbranquiçada, igualzinha à anterior. De repente, o rosto
de Vilma Pousself tomou a tela. Havia algo metalizado e
em espiral dando a volta em seu rosto, mas sem tocá-lo.
- Querida ex-presidenta do Badernil, o seu julga-
mento chegou - anunciou Deli Crucis, satisfeita. Nunca
uma criança fora tão perversa.
- Não direi uma palavra, me corte em quantos pe-
daços quiser!
- Cortar? Pedaços? Não, não, não. Tenho algo mui-
to melhor para a senhora.
Vilma estava envolta a uma concertina dupla clipa-
da e eletrificada, um tipo muito cruel de arame farpado,
daqueles laminados em aço. Estava a uma boa distância

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da cabeça e garganta da ex-presidenta, e bem próximo do
restante de seu corpo, pronto para dar o “Giro do Cão”.
Logo se aproximaria da pele da excelentíssima ex-presi-
denta até penetrá-la, atravessá-la. Matá-la.
- As regras, você já sabe bem: a cada mentira, os
arames ao seu redor irão girar em torno de seu corpo,
apertando bem. Sabe o que acontece quando se aperta
um arame como este, senhora presidenta? Quer dizer,
ex-presidenta?
- Pensa que tenho medo da dor? Acha que vou cair
nesse seu joguinho? Mostre a cara, covarde, e me mate
você mesmo!
- Tenho certa inveja da sua bravura, confesso.
Uma pena que ainda não seja hora de começar, senão ve-
ríamos agora mesmo seu sangue real escorrer de tantas
mentiras que conseguiu contar em uma única frase. É
muito boa em discurso, senhora Vilma, quer dizer, quase
boa… mas não sou o povo surdo que se recusou a prestar
atenção em suas palavras incoerentes. Sinto o cheiro do
seu medo daqui, mulher-sapiens.
Vilma engoliu a seco. Sentiu o medo corroer o seu
coração, mas estava decidida a morrer se fosse preciso.
Fui torturada outras vezes, eu aguento, eu aguento, eu
aguento - disse a si mesma, tentando se convencer, mas
não sabia ela que tinha amolecido de lá para cá.
- As regras são claras. A cada verdade, o arame
afrouxa e quem sabe tenha a senhora a chance de sair da-
qui. Trinta segundos em silêncio e a concertina continua

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fechando o cerco para o seu lado. Ao sinal de qualquer
ausência de atividade cerebral e cardíaca, os arames irão
girar automaticamente, apertando bem a cada giro, até
que suas tripas virem lama.
- Foda-se.
- Primeira pergunta: seu pai era búlgaro?
Vilma nada falou. Passados os trinta segundos,
sentiu a gélida lâmina tocar sua pele.
- Repito a pergunta: seu pai era búlgaro?
Nada disse e assim ficou quando sentiu ser agulha-
da em várias partes de seu corpo após trinta segundos.
Apertou a boca, recusando-se a gritar.
- Vou repetir: seu pa - foi interrompida
- Em vão me faz perguntas! Não falarei nada!
- Falar? Não preciso de suas palavras. Só preciso de
um padrão. Então repito: seu pai era búlgaro?
Nada disse. O aço entrou mais fundo em sua pele, o
sangue dançou pela sala, levando cor à brancura daquele
recinto.
- A senhora fez parte da Comissão Operária? A par-
tir de 1964?
Permaneceu calada. A dor fazia seu coração bater
cada vez mais acelerado, tremores involuntários lança-
vam suas pálpebras contra o arame. Mais um giro e as
farpas perfurariam seus olhos. O arame demoraria al-
guns segundos a mais até apertar a sua garganta, mas a
presença dele ali tão perto de seu pescoço já tornava im-
possível engolir o medo expresso em sua saliva. Em breve

33
estaria morta, sabia disso.
- Vamos ao que interessa, vamos aos dia atuais! A
senhora retardou a transferência de dinheiro aos ban-
cos públicos e privados por meio do Besouro Nacional, as
chamadas “atropeladas fiscais”?
Vilma permaneceu em silêncio. Nem o diabo em
pessoa a faria falar. Nenhuma dor que fosse capaz de sen-
tir a faria dizer palavra alguma. Mas o algoritmo de Deli
Crucis era inteligente demais para se contentar com o si-
lêncio. Escaneou todo o biorritmo da ex-presidenta, com-
parou-o com o padrão de expressões iniciais e descobriu
que sim, ela havia sido responsável pelas “atropeladas”.
- Aha! Então a senhora é sim responsável pelas
atropeladas, todo o seu corpo acabou de me dizer a ver-
dade. Mas assim não vale, para sobreviver, precisa dizer
em alto e bom som.
- Não falarei nada.
- Que assim seja, está desperdiçando a única chan-
ce de sair daqui. Eu sei, a verdade dói mais que a morte,
muitos preferem olhar para a luz. Seria capaz de morrer
por mentiras? Ao final deste espetáculo, todos saberão
a verdade e a única diferença é que a senhora será uma
mentirosa morta - gargalhou.
Vilma pensou naquilo, imediatamente Deli Crucis
se adaptou àqueles pensamentos e julgamentos. Entrou
mais profundamente na mente de Pousself.
- Não falarei nada - resistiu firmemente.
Os olhos arregalados de horror logo explodiram

34
quando a concertina os espremeu. Vilma gritou, urrou,
se contorceu, mas não cedeu.
- A senhora participou ativamente e recebeu re-
cursos financeiros do esquema de corrupção da Lento-
brás?
Mais uma vez o corpo de Vilma falou por ela. Mes-
mo se quisesse responder, teria que se esforçar muito
para ser ouvida. Nada diferente dos últimos anos de seu
governo. Os arames apertaram mais, o ar estava quase
proibido de circular. Dava para perceber que a ex-presi-
denta estava com problemas para ir ao banheiro, pois a
quantidade de merda que escorria do seu intestino per-
furado era de dar nojo.
- Bingo! Todos desconfiavam.
O arame perfurou sua garganta, o sangue esgui-
chou feito um chuveiro de forte fluxo. A ex-presidenta
começou a engasgar no próprio sangue, suas mãos tre-
miam e ela agonizava lentamente. Deli Crucis percebeu
que os sinais vitais de Vilma Pousself estavam chegando
ao fim. Cinco minutos depois, o sistema de Deli Crucis mu-
dou para automático, logo que a presidenta finalmente
faleceu. Mas não foi a morte que a impediu de ser dilace-
rada. O sistema continuou. A cada trinta segundos a con-
certina espremia mais e mais o corpo da ex-Presidenta.
Pedaços de seu cérebro caíram ao chão. Seu coração foi
moído, sua arcada dentária voou para longe de sua boca,
o suco gástrico de seu estômago derreteu o que parecia
ser um material plástico branco no piso daquele lugar,

35
os investigadores envolvidos logo tomaram nota deste
detalhe, à procura de qualquer pista que denunciasse o
local onde a chacina estava acontecendo. Hackers tenta-
vam descobrir a fonte de emissão daquele sinal, mas até
aquele momento, nada havia acontecido. A polícia fede-
ral já tinha em mãos uma lista de políticos desaparecidos,
e uma operação foi armada para descobrir o paradeiro
de todos. Os que restavam, estavam saindo do país ou se
refugiando em algum lugar muito remoto, sem sinal de
televisão, rádio ou internet. Tolos, o Badernil ainda está
repleto de lugares assim.
Heising assistia ao show de horror sem ousar res-
pirar, pois tal ação quebraria o seu raciocínio. Era o úni-
co que não esboçava qualquer expressão de nojo, horror,
tristeza, revolta, compaixão, nada. Assistia a tudo como
quem via uma paisagem qualquer, tedioso, mas piamente
concentrado.
Não tinha respostas para aquilo. Apenas pensou
que o assassino deveria estar planejando tudo aquilo há
muito tempo, deveria ter estudado os políticos do país e
até se infiltrado na política, talvez até trabalhasse para
eles, ou com eles. Quando tudo acabou, virou-se para to-
dos presentes da sala do delegado, que permaneciam bo-
quiabertos e de olhos esbugalhados, atônitos, encarando
a grande televisão.
- Vou precisar de uma lista dos contratados aos
cargos públicos nos últimos 10 anos e fornecedores tam-
bém. Quero um relatório detalhado de todas as vendas

36
pela internet e em lojas físicas de dispositivos eletrôni-
cos, câmeras, computadores, gravadores, interceptores,
vendas de programas espiões. Quero também uma lista
de gráficas; tenho quase certeza que esse material que
derreteu com o ácido estomacal é adesivo de vinil. Ou
seja, foi colado e pensado para ser retirado depois sem
deixar marcas, pistas. Então, esse sujeito pode estar em
qualquer lugar. Ele cria seu próprio matadouro.
Heising andava de um lado a outro da sala, o mais
rápido que seus doídos pés conseguiam levá-lo, ao mes-
mo tempo em que falava rapidamente tudo o que preci-
sava, até perceber que ninguém ainda havia movido um
músculo depois que a televisão voltou à programação
normal.
- O que vocês estão olhando? Não estou entenden-
do. Ficaram atrás de mim feito loucos, estou aqui agora.
Aproveitem antes que eu mude de ideia. Vamos!
- Eu disse que ele era arrogante - disse o policial
federal no ouvido de seu chefe. O delegado federal ape-
nas riu sem mostrar os amarelos dentes, orgulhoso de
entregar Heising para os federais. Seria uma boa manei-
ra de ganhar pontos com os “FEDS”, estava chamando-os
assim por causa do duplo sentido. Quando estava brabo,
dizia “FODS”, e todo mundo ria. Mas agora não, não ar-
riscaria nenhuma piadinha, queria se comportar como
bom moço, ajudar os federais em tudo o que precisassem.
Estava velho, cansado, queria descansar, aproveitar um
pouco da vida que lhe restava. Quem sabe viajaria pelo

37
mundo com a sua senhora, dormiria até acordar, apren-
deria a mexer nessas redes sociais que tanto falavam,
quem sabe assim ficaria moderninho. Quem sabe… elo-
gios e recomendações federais talvez facilitassem toda
aquela burocracia na hora de se aposentar. Quem sabe
até conseguisse uma graninha, vamos ver.
- Empresas de arames também, senhor Hol… digo,
Heising? - perguntou Afonso, quebrando o silêncio.
- Não, não. Esses arames foram feitos manualmente.

38
CAPÍTULO 4
REENCONTRO

A noite estava levemente mais fresca do que aque-


la manhã infernal. E o vento suave acariciava seus curtos
cabelos. Sentia o impacto de seus pés sobre o chão com
certa satisfação. Sua respiração soava como música aos
seus ouvidos. Desde que começou a correr, Clarice se sen-
tia muito bem. O que já deveria ser considerado um mila-
gre. Quando o escândalo sobre o seu pai estourou, Clarice
já estava há tempos muito mal das pernas. Aquele foi o
golpe final. Sair da cama era impossível. Não via graça na
vida, em nada. Queria morrer. Logo. Com urgência, mas
achava que era covarde demais para se matar. Pensava
nisso o tempo todo. A cada segundo. Bem que um carro
podia me atropelar. Bem que meu coração podia parar.
Bem que eu podia não acordar, pensava… muitas vezes
na companhia de Heising, que também se debulhava em
dor e agonia.
Nunca entendeu ao certo por que estava com ele,
mas tinham uma ligação maior do que a atração e o te-
são: a dor, a perda. Perder alguém que ama, encarar a
inexistência de alguém que sempre esteve perto muda
a maneira de enxergar a vida, o mundo, as pessoas. En-
contrar um sujeito que passou pelo mesmo economizava
toneladas de palavras. Sem falar nos ridículos discursos
que nada agregam: “sinto muito”, “meu sentimentos”,

40
“ah, não chora”, “seja forte, você consegue”, “qualquer
coisa, tô aqui”. Boas maneiras, apenas, tão vazias quanto
seus donos.
Com Heising ela não precisava dizer nada e ele sa-
bia que também não precisava dizer nada. Sabia que o
silêncio era mais aconchegante que qualquer abraço for-
çado. Por isso se deixou levar, mais pelo luto do que pelo
amor. Sabia que não duraria, mas o amava. Do seu jeito,
mas o amava e tinha certeza que o amaria para sempre,
de um jeito muito estranho.
Foi assim, envolvida em tantos pensamentos sobre
a vida, que Clarice esbarrou em Isabella no parque.
- Clarice?
O coração de Clarice parou. Por um instante es-
queceu tudo o que Isabella tinha feito.
- Isabella! Que bom te ver - aproximou-se para
cumprimentá-la, mas logo se afastou quando percebeu
que estava muito suada. - Desculpa, tô molhada de suor.
A expressão ativou milhares de lembranças de Isa-
bella, que só conseguiu pensar no molhado de sua boceta.
Tentou voltar para a Terra e se concentrar no inusitado
encontro.
- O que está fazendo aqui?
- Ah, venho correr sempre aqui agora.
- Você? Correndo?
- Pois é, as pessoas mudam
- Eu que sei.
Uma química absurda percorreu o corpo das duas,

41
como se ambas estivessem plenamente cientes daquilo,
daquela tensão que desejava eclodir seus corpos.
- Ah, essa aqui é a Vanessa, minha - hesitou em
dizer - na-mo-rada.
- Ah, prazer, Clarice.
- Prazer.
Durante todo o tempo de namoro, Isabella nunca
falara de Clarice para Vanessa. O motivo era bem sim-
ples: falar dela era devastador. E Vanessa tinha um tato
muito afiado, logo perceberia que o coração daquela mu-
lher tinha dona, embora negasse. Foi difícil ver Clarice
com Heising. A dor que sentiu a deixou sem chão, aque-
la queimação, aquela ardência que vinha do coração e se
estendia até o estômago em uma expressão diferente de
ardor, ácido, roubando-lhe a fome e o belo sorriso. Ema-
greceu muito naquela época. Foram seis meses penando
e se arrastando numa penumbra emocional que só alivia-
va quando ela chorava até inundar a alma. A dor piorava
cada vez que tentava contato com Clarice e ela a ignora-
va. Lia suas mensagens e não respondia. Ignorava suas
ligações. Tentou tantas vezes explicar, conversar, se des-
culpar, pedir outra chance. Mas Clarice era implacável,
não queria conversa, não queria ver Isabella nem pinta-
da de ouro. Amava Isabella, sabia disso, mas sua dor, sua
mágoa e decepção eram grandes demais, tão imensas que
o amor perdeu espaço. Clarice sempre foi uma menina
intensa. Mesmo que quisesse ficar bem com Isabella, sa-
bia exatamente no que isso ia dar: brigas, desconfianças,

42
mais feridas e por fim, a falta de respeito. Que amor so-
brevive a isso?
- A gente tá indo fazer um picnic, quer nos acom-
panhar? - convidou Vanessa, inocente sobre o histórico
das duas - Isabella e Clarice se olharam, sem jeito. Vanes-
sa percebeu.
- Ah, não, estou no meio do treino, ainda tenho al-
guns quilômetros para correr.
- É, Nêssa, deixa ela, não vamos atrapalhar o treino
da moça fitness, né?
- Depois a gente marca.
- Isso, depois marcamos.
- Beijos.
- Beijos.
Estavam tão sem jeito que não sabiam se aperta-
vam as mãos, se davam beijos nas bochechas ou se abra-
çavam para se despedir. Então só ergueram as mãos e de-
ram tchau.
Clarice voltou a correr, meio desnorteada. Suas
pernas pareciam líquidas, estavam derretendo, querendo
despencar. Não cedeu, tentou manter a respiração, mas
seu coração parecia dar cambalhotas dentro dela, atro-
pelando o trabalho de seus pulmões. Você consegue, você
consegue, você consegue, repetia mentalmente. Foi tão
difícil chegar até ali. Lembrou-se do dia que conseguiu
levantar da cama. Heising quase deu uma festa. Era um
ótimo motivador de terceiros; porém, incapaz de motivar
a si mesmo. Mas as pequenas celebrações faziam bem à

43
Clarice. Com o tempo, até seu humor melhorou. Estava
cansada de ser a vítima, de ser destruída por alguém, pela
vida. No fundo ela sabia que era forte, dona de si, podia
muito bem se erguer, assumir a responsabilidade sobre a
sua mudança e lutar por ela. O mundo havia destroçado
todo o potencial daquela mulher, pelo menos era assim
que se sentia. Porque até as mais fortes mulheres estão
sujeitas ao fracasso neste mundo inóspito, intolerante
ao sexo feminino. Mas Clarice estava ali para lembrar ao
mundo que ela era mais forte que tudo aquilo que estava
acontecendo. Foi sem força mesmo, sem coragem mesmo
e com muito medo mesmo. Levantou-se e passo a passo
começou a caminhar de volta para a sua sanidade. Ali,
naquele parque, as árvores eram testemunhas de suas
conquistas diárias, pois cada vez que ultrapassava um
pé de Eucalipto, comemorava internamente. Cada passo
à frente que a levava mais longe, era o suficiente para
se elogiar e engrandecer. Foi assim que chegou aos dez
quilômetros por dia. Começou com quinhentos metros.
Morrendo. Parecia uma maratona tortuosa. Mas ficava
igualmente feliz quando conseguia.
Depois de um banho gelado que lhe refrescou a
alma, Clarice lembrou de Isabella. Sua boceta reagiu au-
tomaticamente à lembrança, como se tivesse vontade
própria. Desviou o pensamento e trouxe sua mente para
o momento presente, para o seu corpo ainda molhado da
água do chuveiro, para o tecido macio da toalha que per-
corria seu corpo, para a sensação gostosa de relaxamento

44
após a corrida, para o sorriso de Isabella…
- Droga!
Praguejou e depois sentou-se na cama, olhou-se no
espelho e se achou gostosa. Acariciou os cabelos, a cabeça
ainda gelada, com um latejo gostoso. Mordeu os lábios e
tocou os seios, beliscando os bicos levemente, lembran-
do de Isabella chupando-os. Rendeu-se. Deitou na cama e
fez amor consigo mesma. Há tempos estava curtindo essa
sensação de se fazer gozar. Nunca tinha se tocado tanto
como nos últimos meses e isso a tornou muito exigente
na cama. Sabia exatamente o que o outro deveria fazer
para agradá-la. Aquilo muitas vezes assustava os mais in-
seguros. Com Heising era muito frustrante. Ela não con-
seguia entender como um cara tão inteligente, que con-
seguia detectar provas criminais e detalhes que ninguém
via ou percebia, não era capaz de perceber que ela não
gostava do que ele fazia na cama, que sempre fingia go-
zar. Heising foi seu inferno astral, sexualmente falando,
vez por outra ele se dedicava mais e até lhe arrancava al-
guns sinceros gemidos, mas no mais… Vai ver ela só não
estava ali, nem ele.
Quando gozou, pegou quase que impulsivamente
o seu celular e digitou o nome de Isabella no What’s App.
Viu que Isabella estava digitando para ela. Sua respiração
congelou. Esperou alguns segundos e o status de Isabella
parou. Ela está online, sequer me procurou depois, deve
tá falando com um monte de gente, pensou Isabella do
outro lado e desistiu de escrever.

45
- Amor? Amor?
- Oi - disse Isabella, voltando à Terra.
- Nossa, estava tão concentrada.
- Ah, é que eu… eu… eu tava falando com um amigo
algo importante.
- Qual amigo?
- É…, hum, você não conhece. Não é nada demais,
amor, mas precisa da minha atenção.
- Coisas do hospital?
- Ah, não, não. É pessoal.
- Tudo bem, se quiser me falar, estou aqui.
- Obrigada.
- E aquela sua amiga, Clarice?
- O que tem ela?
O tom de voz de Isabella mudou. Parecia suspeita e
desnuda.
- Ah, você nunca tinha me falado dela…
- Não?! Jura?
- Hunrum. Me fala um pouco dela
- Ah, amor, agora? - esquivou-se da pergunta.
O semblante de Vanessa mudou, ganhou um as-
pecto desconfiado que Isabella queria evitar. Tentou cor-
rigir imediatamente.
- Estou cansada, meu amor, mas amanhã eu conto
o que você quiser, tá bom?
Vanessa aceitou o argumento com certa resistên-
cia. Sabia que nessa história tinha coisa muito mal con-
tada, mas também não queria cutucar demais, ser chata.

46
Estava feliz com Isabella, demorou muito para se ajusta-
rem, ficarem bem. Não ia estragar tudo.
A noite passou lenta, se arrastando a cada segun-
do. Clarice virava de um lado a outro da cama e nada. Sua
mente a levava para perto de Isabella. Lembrou-se de Va-
nessa e se questionou se Isabella a amava. Sentiu ciúmes.
Tentou pensar em outras coisas, em vão. Levantou-se da
cama, sabia que em momentos de insônia como este, era
melhor procurar algo útil para fazer. Foi desenhar e sem
pensar muito, seus dedos esboçaram os traços de Isabella.
- Mas que droga! - disse quando percebeu.
Pegou um beck e acendeu. A maconha a relaxava
muito em noites assim, achava melhor do que tomar Rivo-
tril, apesar das recomendações negativas de sua psiquia-
tra. Clarice só pensava que ela era careta e não dava muita
atenção, continuava fumando sempre que tinha vontade.
Na verdade, era o seu último recurso. Sempre buscava se
acalmar e se concentrar de outras maneiras, pintando, por
exemplo. Mas depois do sucesso estarrecedor que foi a sua
exposição, que a colocou no olho do mundo como a filha
do serial killer mais cruel da atualidade, começou a rece-
ber duras críticas e foi obrigada a ouvir muitas hipóteses
sobre a sua suposta cumplicidade com Pedro Debret. Tudo
o que ela queria desde então era sumir. E sumiu, inclusive,
deixou de pintar. Queria fazer outra coisa da vida, mas só
descobriu isso depois de muitos dias tentando se erguer.
Clarice observava a fumaça da maconha dançar no
ar quando o interfone tocou. Era Isabella.

47
CAPÍTULO 5
PURIFICAÇÃO

- Dizem que o fogo purifica… o que acha disso, se-


nhor Luis Bagácio Lulo da Silva?
Lulo sentia o calor inundar seu corpo. O grande
termômetro marcava quarenta e cinco graus, um nú-
mero simbólico para o excelente ex-presidente do povo.
Lulo era famoso pelos seus discursos que levavam o povo
à loucura, era quase hipnose em massa, certo estado de
transe coletivo que o deixava ser adorado e aclamado por
uma classe muito surrada no país. Ele deu pão para eles.
E quanto ao circo, era o próprio palhaço.
- Não responderei às suas perguntas! Morrerei
com honra, como morreu minha companheira.
- Perguntas? Não, não, não, senhor Lulo. Tenho
algo mais especial para você esta noite. Veja: aquele ter-
mômetro marca 45 graus, ano que o senhor nasceu. Ele
vai subir, grau a grau enquanto o senhor fará uma decla-
ração honesta e sincera sobre sua organização criminosa,
sobre a obstrução à Lava Babo, sobre sua passividade e
atividade corruptas durante o seu Governo. O povo Ba-
derneiro também quer saber os números aproximados
que o senhor ganhou com todas as suas atividades ilíci-
tas.
- Você é louca!
- Não me interrompa, senhor Lulo, só vou explicar

49
uma única vez. O seu discurso deve ser o seu melhor até
hoje, e claro, repleto de metáforas. Na verdade, ele deve
ser todo metáfora, quase um enigma. Então, seja criativo,
porque a chapa está quente pro seu lado.
- Até que temperatura vai chegar?
- Até o ponto de fusão do cálcio. Você imagina qual
é?
Lulo arregalou os olhos, apesar de não saber a tem-
peratura necessária para derreter o cálcio, sabia muito
bem que o osso humano era seu armazém oficial. Deli
Crucis riu diabolicamente, um som estridente que faria
Freddy Krueger se esconder debaixo da cama.
- É brincadeira, Lulo, mas o ponto de fusão do ouro
o senhor conhece bem, não é? Vamos, o senhor entende
de metalurgia, conhece os metais, os manipulou tão bem
que achou ser capaz de manipular qualquer matéria, não
é? Olhe para cima.
Lulo olhou. Viu uma fresta no meio do teto, que
parecia abrir.
- Ao atingirmos 1.064 graus celsius, senhor Lulo, o
teto vai abrir e o senhor será banhado em ouro, será glo-
rioso. Uma morte cheia de honra, como sempre quis, vai
virar um monumento valioso.
O coração de Lulo derreteu dentro dele sem que
a temperatura saísse do lugar. Estava assustado, embora
não demonstrasse. Como sairia dali? Rodou pela sala, em
busca de uma saída. Estava solto. Propositalmente solto,
o calor logo tornaria insuportável ficar com os pés no

50
chão.
- Que comece o espetáculo, hoje não vai ter novela
das oito.
A temperatura começou a subir. Lulo começou a
tatear as paredes desesperadamente, em busca de uma
saída. Seus sapatos começaram a ferver, tirou-os. Mas o
chão estava queimando, não dava para pisar. Colocou as
meias de volta, e começou a pisar com as laterais exter-
nas dos pés. O suor de seu corpo fedia a medo, mas recu-
sou-se a dar qualquer palavra. Desta vez, o mundo inteiro
estava assistindo ao espetáculo, não só o Badernil. Outros
países estavam chocados, mas muitos Baderneiros esta-
vam no bar, tomando cerveja gelada enquanto viam o ex-
-presidente queimar. Tudo aquilo era mais emocionante
do que uma partida de futebol.
A polícia federal estava em busca do ex-presiden-
te. Outra equipe da inteligência procurava em todas as ci-
dades do Badernil algum excesso do uso da energia, algo
incomum que lhes desse algum sinal. Mas Deli Crucis era
muito esperta, jamais usaria energia elétrica ou qualquer
coisa que deixasse registros. Desenvolveu uma tecno-
logia de energia solar, que armazenada, teria potencial
maior do que uma hidroelétrica. Assim os fez acreditar.
Químicos poderiam achar alguma resposta, mas até a po-
lícia pensar nisso, Deli Crucis faria muito estrago.
O FBI e a CIA estavam em contato com o Governo
Baderneiro, que lhes fechou a porta na cara, afirmando
que tinham capacidade para resolver seus próprios pro-

51
blemas. Que ficassem longe do país tropical e não me-
tessem o bico onde não eram chamados. Mas os Estados
Desunidos eram teimosos, aquele contato era pura buro-
cracia. Por debaixo dos panos, estavam mexendo os pau-
zinhos. Claro, adoravam uma boa briga.
Lulo já tinha jogado para longe suas roupas quando
seus órgãos começaram a ferver. Havia queimaduras por
todo o corpo quando chegou aos 59 graus. Estava certo de
que morreria, sentia-se tonto, sua visão estava turva, es-
curecendo e era difícil respirar. Já tinha desistido de gri-
tar com as queimaduras. Começou a delirar. Lembrou-se
de quando era menino, de quando seu pai largou sua mãe
para tentar a vida no interior de São Daulo, deixando-o
definhar em fome e miséria em Perambulo. Lembrou-se
das lágrimas da mãe e começou a chorar.
- Mamãe, vai ficar tudo bem, papai vai voltar. Po-
demos buscar, se quiser.
- Aquele traste num quer saber da gente, tem ou-
tra que eu soube.
Seus olhos se encheram d’água e uma espécie de
urro misturado com choro rompeu não só aquela miste-
riosa sala, mas o cerne da alma dos Baderneiros. Quem
bebia, deixou. Quem andava, parou. Quem debochava,
calou. Aquele arrepio em massa os deixou grudados em
suas telas como o Facebook jamais conseguiria.
As palavras saíram difíceis, o choro atrapalhava,
o calor o entorpecia, mas começou, o belo e impactante
discurso:

52
- Ele era só uma pequena andorinha que vaguea-
va pelo Sertão. Adorava voar, sair da sua realidade, mas
gostava muito mais de quando achava algo que ecoasse
em seu pequeno estômago vazio. Queria mudar o mundo,
torná-lo um lugar melhor para as outras andorinhas com
quem convivia, mas ninguém acreditava muito nisso. Até
que a andorinha voou alto, mais alto do que qualquer ou-
tra andorinha sonhou voar. Quando chegou lá em cima,
viu urubus sobrevoando e vigiando atentamente as an-
dorinhas lá embaixo, que nem se davam conta daqueles
pássaros sombrios. A andorinha tentou espantá-los para
longe, mas todos eles bicaram sua pouca carne e arran-
caram as suas penas. A andorinha não cantou mais, foi
ameaçada pelo urubus, que a convidou para fazer parte
do bando. Era isso ou a morte. A andorinha decidiu en-
trar e passou tanto tempo lá em cima, na companhia dos
urubus, que se esqueceu das outras andorinhas, se esque-
ceu que também era andorinha, e acreditou ser um uru-
bu, dos maiores e mais cruéis urubus. A andorinha-urubu
fez bons amigos urubus e depois percebeu que aquelas
amizades tinham preço. Mas a dura vida de miséria deu
à andorinha muita criatividade e jogo de cintura, logo,
tornou-se chefe dos urubus. Chantageou, matou os que
a ameaçavam e montou seu próprio bando de urubus,
achando ela que também era urubu. Certa vez, o bando
teve um plano: enviaremos a andorinha-urubu para con-
versar com as outras andorinhas. Elas ainda não sabem
que ela é um de nós, ainda pensam que é uma andorinha

53
como eles. Então a andorinha-urubu foi, e contou a todas
as andorinhas o seu plano, levou-lhes algumas migalhas,
encheu-lhes o papo vazio e garantiu que traria mais. As
andorinhas acreditaram, a veneravam, mas a andorinha
não passava de uma grande mentirosa, que acreditava na
própria mentira. A andorinha que achava que era urubu
tornou-se mesmo um urubu carniceiro da pior estirpe.
Outro urro. O Badernil chorava junto. Deli Crucis
estava impressionada com tanta emoção e verdade nas
expressões do ex-presidente. Não estava arrependido,
apenas um pouco de remorso antes da morte. E num é
isso o que ela faz?
- Argh! Perdão Badernil, perdão - disse entre lágri-
mas, como se fosse possível ter lágrimas naquele inferno,
desciam fervendo, fazendo queimaduras no rosto. Morro
como urubu, sendo no fundo andorinha.
- Se fosse mesmo mesmo andorinha, eu saberia.
A temperatura subiu para sessenta graus, o sangue
de Lulo fervia dentro dele quando finalmente morreu.
Setenta graus. A pele de Lulo começou a derreter, víamos
sua banha se liquefazer e o cheiro dela, mesmo vindo de
um urubu que se achava andorinha, era bom. O rosto de
Lulo se desfigurava aos poucos, o povo gritava e chorava
junto, como se o próprio Jesus estivesse sendo crucifica-
do. Seus órgãos, um a um, caíam ao chão, parcialmente
derretidos. Quando finalmente seu corpo virou uma lama
gosmenta e o termômetro apontou 1.064 graus celsius, o
esqueleto de Lulo já estava visível na tela de todos os dis-

54
positivos com internet, e nas televisões dos lugares mais
remotos. Seria necessário elevar mais 420 graus celsius
para derreter seus ossos. E não era isso que Deli Crucis
queria. O teto se abriu e o ouro derretido caiu, unindo-se
à gosma vermelha. Milésimos de segundos depois, Deli
Crucis congelou o lugar e tudo o que viam os Baderneiros
era um esqueleto dourado.

55
CAPÍTULO 6
ONIPRESENÇA

A noite estava quente, como todas as outras da-


quele verão. Porém, havia algo diferente no ar. Talvez
estivesse mais úmido, ou levemente mais fresco do que
a noite anterior. Não sabia dizer, mas estava perfeita.
Deitado sobre a grama, namorando o céu, em silêncio,
sentia seu corpo relaxar. Viajaria para outros planetas,
com certeza. Mesmo que voltasse anos depois e todos os
que amasse estivessem mortos. Mas quando olhava para
Sérgio, ficava em dúvidas. Levo ele, dizia a si mesmo, re-
soluto, como se pudesse resolver todos os problemas. Os
seus, e os do mundo. Mas o mundo, já sabia ele, não esta-
va muito a fim de resolver seus próprios problemas, mes-
mo que já existissem todas as soluções. Então, foda-se o
mundo e tudo o que ele aprecia. Eu só quero um pouco de
felicidade e meu amor ao lado.
Sérgio não havia feito muitos progressos. Cauê
apenas aprimorou seu sistema de comunicação. Estava
mais rápido e transformava mais atividades cerebrais em
mensagens. Não queria dar a Sérgio outra voz e transfor-
má-lo em Stephen Hawking. Sérgio tinha outras manei-
ras de ser brilhante sem teorizar sobre o tempo.
Tempo.
Era tudo o que Cauê não tinha. Toda a fama agitou
a sua agenda e Sérgio precisava de uma rotina muito re-

57
grada, sem grandes mudanças. Ficava a maior parte do
tempo em casa, sob o cuidado de médicos. Por isso, em
uma noite linda como aquela, quando tinha a chance de
estar em casa, fazia questão de aproveitar cada segundo
ao lado de Sérgio.
Fica até quando?
- A pergunta é: viajo quando?
- Risos. É a mesma pergunta.
- Não é não.
- Besta, fala logo.
- Amanhã.
Sérgio ficou profundamente triste, mesmo que não
fosse capaz de expressar. Mas o dispositivo logo o dedu-
rou e transformou sua tristeza em texto. Sérgio já tinha
falado sobre essa falha no algoritmo outro dia, quando a
tecnologia codificou um segredo de Sérgio, e Cauê o leu.
Sérgio pediu que Cauê corrigisse imediatamente, ficou
bravo e passou dias sem “falar” com ele. Cauê corrigiu,
mas a tecnologia aprendia cada vez mais sobre Sérgio e
estava se encravando cada vez mais em sua mente, até
para o caso dele piorar e ter uma morte cerebral. Mas não
adiantava, sempre que a corrigia, paulatinamente a tec-
nologia voltava ao que era. Cauê já tinha explicado como
tudo funcionava, era isso ou ficariam totalmente sem co-
municação. Diante disso, Sérgio nada tinha a questionar.
- E você vem junto... - completou Cauê quando per-
cebeu que o texto de Sérgio expressava tristeza.
- Comigo?

58
- Sim! Não viajarei a negócios pelos próximos doze
meses.
- Não acredito! Jura?
- Pode acreditar. Já fiquei tempo demais longe de
você, agora quero te curtir até que você enjoe de mim.
Seu olhar meigo fez o pau de Sérgio enrijecer. Esse
não precisava ser codificado, Cauê entendia muito bem.
Tirou o pau de Sérgio para fora da sunga e o chupou.
Quando o fez gozar, levou-o até a piscina. Entrou com
cuidado e o comeu ali dentro. Quando deixou seu gozo
dentro de Sérgio, virou-o e mordeu-lhe os lábios. Sérgio
adorava aquilo. Como queria tocar em seu amor! Como
queria beijá-lo, tocá-lo, reagir ao seu toque. Era o úni-
co momento em que Sérgio desejava morrer. Sempre foi
um sujeito com muitos desejos, estava sempre transan-
do com a ex-mulher, até quando se apaixonou por Cauê.
Devorava a ex-esposa imaginando Cauê. Estar limitado
nesta parte o brochava profundamente. Cauê sempre o
convencia do contrário, mas na verdade, Sérgio já esta-
va bem cansado de depender dos outros para tudo. Sim-
plesmente tudo. Tudo bem que Cauê estava prometendo
avançar muito em seus projetos tecnológicos, quem sabe
até ligá-lo em máquinas brain-tech, mas quantos anos ele
teria de esperar para isso realmente ser possível? E Cauê,
passaria a vida em função de salvá-lo? Isso, nem Jesus fez.
A campainha tocou. Se Cauê não estivesse ocupa-
do, teria visto que a casa já o avisara sobre a aproximação
de Heising.

59
- E aí, meu amigo, resolveu aparecer? - Disse Cauê
pela câmera, mostrando seu peito nu.
- Sim e espero que se vista antes de me receber.
- Hahaha, claro, claro. Vou liberar a porta pra você
me esperar mais à vontade. Uns vinte minutinhos e te
encontro no lounge.
Heising entrou. A casa de Cauê era indescritível. De
alguma maneira ele conseguiu unir suas paixões em total
harmonia: o surf e a tecnologia. O lugar era leve, trazia
uma sensação boa, como se tivesse o poder de transpor-
tar seu espírito para alguma cabana em uma praia para-
disíaca, mas totalmente high-tech. Havia interferências
naturais em praticamente todos os lugares. Tinha até
uma pequena cachoeira artificial, onde seus convidados
podiam tirar os sapatos e molhar os pés. Ao lado, Buda
estava sentado sobre uma prancha de surf, fazendo algu-
ma oração. Heising riu. Aquilo o tranquilizou e lhe trouxe
paz.
- E aí, meu amigo - Cauê chegou com seu jeitão
moleque de ser, erguendo a mão para Heising bater, mas
ele nunca fora bom nesses gestos másculos. Nunca sabia
o que fazer e desta vez não foi diferente, mesmo sendo
Cauê. Se enrolaram ao bater as mãos, o estalo saiu atra-
palhado e Cauê apenas o puxou para um abraço sincero.
- Já sei porque Sérgio mudou de lado.
- Hahahaha, seu besta, conta aí, o que rola no mun-
do de lá?
- Como assim o que rola? Está “rolando” uma car-

60
nificina política e você não sabe?
- Vixe, política? Tô fora. Mermão, não gosto de po-
lítica e não faço questão de entender.
- É, mas talvez você se interesse por essa.
- Como assim?
Heising puxou o celular e mostrou a última live
de Vilma Pousself. Cauê não aguentou ver até o final,
teve náuseas. Heising explicou rapidamente o que estava
acontecendo e Cauê o levou para sua sala “playground”,
repleta de computadores e gadgets que Heising nem em
sonho imaginava para que serviriam.
Rapidamente Cauê tentou identificar de onde ti-
nha vindo aquela transmissão, e logo percebeu que não
se tratava de qualquer hacker. O código não era nada
complexo, na verdade, fácil demais para ele invadir.
Quase uma isca. Que ele não caiu, claro. Cauê não caiu
na tentação de entrar no sistema, pois o seu próprio era
completamente fechado, por isso não sabia dos últimos
acontecimentos, pois sua casa e dispositivos estavam
bem protegidos. Entrar naquele código poderia abrir
uma janela com porta para ambos os lados. Evitou esse
caminho e preferiu queimar um pouco mais de neurônio,
há tempos não via algo tão engenhoso. Mais alguns mi-
nutos e finalmente Cauê descobriu que o servidor era da
Índia.
- Que espertinho…
- O que foi? O que descobriu?
- O vídeo vem de algum lugar da Índia.

61
- Índia?! Como ele levou políticos importantes
para a Índia?
- Não, ele não está na Índia; o servidor que ele usa
é que é de lá. Um meio de apagar seu rastro. Onde estão
os outros vídeos?
Heising passou os demais e Cauê descobriu que
cada vídeo tinha um servidor de alguma parte do Globo.
- Esse cara é bom. O que mais você tem? - disse
com animação, como uma criança que ganha um brin-
quedo novo.
Só perceberam que havia amanhecido quando a
secretária da casa entrou e desejou-lhe bom dia. Cauê e
Heising entupiram-se de café durante toda a madrugada,
tentando achar respostas. Cauê se sentiu em um labirin-
to sem saída. Todos os códigos funcionavam como uma
máscara para algo mais complexo e por se tratar de uma
inteligência artificial, invadi-la significava uma invasão
a seu próprio sistema, arriscando seus projetos secretos.
Havia muita coisa em jogo para arriscar sua vida desse
jeito, e os políticos bem que mereciam tudo aquilo. Cauê
e Heising tentaram de outras maneiras. Com a lista das
empresas que Heising havia pedido aos federais, Cauê
conseguiu alguns nomes que seriam pelo menos um co-
meço para uma investigação. Ainda assim, uma agulha
no palheiro.
- 1.223 no total?
- Isso! 1.223 no total.
- Bom dia, senhor Cauê - falou a secretária - acabei

62
de chegar.
- Bom dia? Meu Jesus! Nem vi o tempo passar!
Heising levantou-se, com o corpo todo duro. Deu
uns estalos no pescoço, esticou as costas e deu para Cauê,
despedindo-se.
- Como assim? Você não pode ir agora. Quero falar
com você enquanto tomamos um café mais reforçado.
Foram para o jardim, tomar café ao ar livre. A se-
cretária de Cauê havia posto a mesa. Sérgio estava pre-
sente, havia ficado sob os cuidados da enfermeira, Nice.
Ela era um amor de pessoa, muito atenciosa. Era muito
baixinha e troncuda. Olhando de primeira, ela parecia
rabugenta, mas seu olhar era doce, daqueles que você
não aguenta encarar por muito tempo porque ela desnu-
da a alma. Parecia ter bigode, de tão escura que era sua
pele de baixo do nariz. Os cabelos estavam sempre muito
presos, apesar de que um ou outro fiapo arriscava fugir.
Apesar das mãos grossas e os dedos gordos, seu toque
era levinho, levinho. Tinha mãos de fada. E andava como
uma também. Vivia dando sustos em Cauê e os demais
empregados da casa. Não era por mal, estava acostuma-
da a trabalhar durante as madrugadas, enquanto seus
pacientes dormiam, foi assim que aprendeu a ser muito
silenciosa. Uma habilidade muito valiosa, se quer saber.
Uma vez Cauê a usou para descobrir o que alguns investi-
dores conversavam em particular na empresa depois de
uma apresentação. Ele já sabia que ia acontecer, mudou
o turno das enfermeiras de Sérgio e levou Nice consigo.

63
Foi tiro e queda. Ela conseguiu se aproximar e ouvir tudo
sem ser percebida.
- Até hoje você não me contou o que aconteceu
com Debret - disse Cauê depois de sentar-se confortavel-
mente à sombra de sua figueira particular e tomar um
farto gole de café.
Heising olhou para Sérgio, desconfortável de que
Cauê estivesse falando sobre aquilo na frente dele. Cauê
entendeu o sinal de repreensão e debateu.
- Heising, você acha mesmo que eu guardo algum
segredo do Sérgio? Que tipo de relação acha que tenho?
Heising fez uma rápida leitura de Cauê, e ele esta-
va realmente falando a verdade, mas percebeu, também,
certo ressentimento. Devo me desculpar, pensou. Deu
um tapinha nos próprios joelhos e depois passou a mão
no rosto, para demonstrar vergonha.
- Desculpa, Cauê, de verdade. Mas não estava pron-
to para falar sobre isso. Ainda não estou. O que eu fiz -
deu uma pausa na voz e inclinou o corpo para trás - quer
dizer, eu agi na raiva e fiz o que tinha de fazer, eu não sei,
eu não consigo dormir, eu, eu…
- Então você o matou?
Heising arregalou os olhos, encarando o nada, e
balançou a cabeça afirmativamente. Cauê enfiou a mão
do bolso, pegou alguma coisa e colocou sobre a mesma,
fazendo um estalo estranho. Heising se assustou leve-
mente. Era uma ponta de uma das suas flechas.
- Esse material, Heising, está equipado com doze

64
nano-câmeras em um eixo de 360º, justamente para eu
ter um panorama de todo o ambiente por onde ela anda.
Eu sei que você não acertou aquela flecha, Heising, e sei o
que está fazendo. Estava só esperando quando me falaria
a verdade. Daí você vem aqui, mais uma vez, me pedir
ajuda. Agora eu te pergunto, Heising: que tipo de relação
você acha que tem comigo?
Por esta Heising não esperava. Estremeceu na
base. Nunca alguém o deixara tão encurralado e sem pa-
lavras. Esforçou-se, como nunca antes, para dizer a coisa
certa sem magoar quem estava ouvindo.
- Mas então se já sabia, por que não me contou?
- Nem você, o autor da obra, havia me contado, por
que eu deveria? Mas não respondeu à minha pergunta:
que tipo de relação você acha que tem comigo?
- De amizade. Isso, uma relação de amizade.
- Hum, amizade.
Cauê levantou-se, caminhou um pouco ao redor,
contemplou o céu, deu outro gole em seu café e finalmen-
te rompeu com seu silêncio musical.
- Quero que saia da minha casa agora e não volte
mais, nunca mais. Me recuso a ter amigos em quem não
posso confiar.
- Mas eu... - Cauê o interrompeu antes que comple-
tasse a frase.
- Quero que vá, por favor não me obrigue a tirá-lo
à força.
Heising contorceu os lábios e obedeceu. Cauê era

65
o único amigo que ele achava que tinha. Nunca fora bom
em amizades. Sentiria falta do surfista, mas não se hu-
milharia tentando se justificar. Estava certo de que Cauê
estava bem resoluto em suas opiniões, seria vão tentar
convencê-lo de algo. Foi embora, com a lista em mãos.
Faria muitas paradas nos próximos dias.
- Você foi muito duro com ele.
- É, eu sei, amor. Mas isso é um jogo, descobri mui-
ta coisa esta noite que os federais, Heising e o restante
do mundo não precisam saber. Eu tenho que achar esse
Hacker antes de todos eles. Já.
- Mas e a lista?
- Uma boa distração... - disse com certo orgulho na
voz enquanto dava sua última golada de café.

66
CAPÍTULO 7
BENIM

A caipirinha desceu congelando sua garganta. O


sol sobre sua pele estava determinado a criar uma fina
camada de bronze. Os pés afundados na areia estavam
bem relaxados e macios. Vera, sua podóloga, tinha fei-
to um excelente trabalho no dia anterior. Seu pé tinha
um mau cheiro persistente impregnado em suas grossas
cutículas. Tinha que tirá-las a cada quinze dias, quase
uma cirurgia, ou não conseguiria tirar os sapatos sem
desmaiar com a inhaca. O vento suave lhe refrescava a
alma. Talvez aquele fosse o único lugar do Badernil onde
o calor rachante não dava vontade de estourar os miolos.
Sorte dele estar ali, apreciando a boa música tocada pe-
las ondas do mar, tomando seu drink sem ninguém para
atormentá-lo.
- Não imaginava que o Complexo Médico Penal ti-
nha uma vista tão incrível.
- Mas quê?! - Punha se assustou quando aquela voz
cansada estragou seu paraíso mental.
- Assim até eu quero estar preso.
Foi a última coisa que ouviu quando seus olhos
foram obrigados a fechar, pesados. Quando acordou, a
branquitude que invadiu suas retinas o deixou tonto,
agoniado. Ainda podia sentir o leve ardor do sol sobre
sua pele e o cheiro das algas ainda estava emaranhado

68
em suas narinas. Fechou os olhos com força e os abriu em
seguida, esperando que o mar saísse de seu esconderi-
jo. Apertou novamente as pálpebras e as abriu segundos
depois. Nada. Só o branco, nada de mar. Uma gélida voz
ecoou pelo lugar.
- A paz do Senhor, irmão. Só alguém da sua exce-
lência chegaria ao Paraíso sem sentir o bafo da morte,
não é mesmo?
- Mas o quê?! O que está acontecendo? - Sua voz
era firme, talvez a única coisa firme naquele homem. -
Quem é você?
- O Badernil acredita que o senhor está preso, con-
denado a quinze anos de reclusão pelos crimes de cor-
rupção passiva, lavagem de dinheiro e…?
Punha ficou calado.
- Vamos, complete a frase: corrupção passiva, la-
vagem de dinheiro e…
- … por ter recebido propinas da Lentobrás.
- Bravo! Bravo! - As palmas soaram pela sala -
Confesso que nunca esteve aqui um político tão honesto
como o senhor.
- O que está acontecendo?
- Ah é, tinha esquecido que naquela praia paradi-
síaca o senhor estava longe de qualquer acesso tecnoló-
gico, não poderia saber das informações. Apesar de que
o senhor não deveria ter esquecido de carregar a bateria
do seu celular. Tinham algumas mensagens em sua caixa
postal… - foi irônica ao dizer isso.

69
Punha a encarou. Deli Crucis era a encarnação
perfeita do medo. Punha estremeceu dos pés à cabeça ao
vê-la, ao mesmo tempo em que sua cara bronzeada era
exibida, ao vivo, em todos os televisores e dispositivos
móveis do país. Punha supôs imediatamente que tinham
descoberto a verdade sobre ele, de que não estava preso
de verdade. E não imaginou errado, mas não foi um pa-
parazzi que o encontrou e enviou a sua foto para todas
as emissoras e jornais do Badernil. Deli Crucis X quem o
tirou da moleza.
- Desculpa, tive que invadir a sua privacidade - riu
e seu riso era estridente, trincador de espíritos.
- Quem é você? O que quer?
- Queria saber como a polícia federal o deixou li-
vre... Aqueles fedelhos fedidos dos federais… tsi tsi tsi.
O delegado estava muito bem sentado em sua con-
fotável cadeira em seu gabinete na delegacia quando
ouviu Deli Crucis dizer “fedelhos fedidos dos federais”.
Cuspiu longe o café que estava preparando para descer
goela abaixo. A delegacia inteira, que também acompa-
nhava a transmissão ao vivo, olhou para a sala de vidro
do delegado e riu. O delegado se levantou imediatamente
e pediu que técnicos descobrissem se havia escuta em seu
escritório. Os policiais federais também estavam por ali,
e o delegado ficou desconfiado. A polícia federal, como
instituição, sentiu-se pelada em rede nacional quando
Deli Crucis fez este questionamento. Aliás, em rede in-
ternacional, já que o restante do mundo estava conecta-

70
do ao massacre. Puta merda, agora que não me aposento
mesmo! - pensou o delegado.
- Mas vou responder à sua pergunta, senhor ex-
presidente da Câmara dos Deputados. Sou Deli Crucis X.
Adoro contar a origem do meu nome, mas você em espe-
cial vai gostar, já que é devoto de Jesus e membro fiel da
Assembleia de Deus.
- Mas que porra é essa? - questionou-se pausada-
mente, perguntando mais a si mesmo do que à medonha
menina em sua frente.
- Não fale assim do senhor, Jesus, eu gosto dele,
vocês que estragaram tudo.
- ME TI-RA DA-QUI!
- Não tenha pressa, ainda nem te disse o que signi-
fica meu nome. Vem do latim, Crudelis, palavra de onde
vem o termo cruel. Crux também é o latim de cruz, onde
foi pregado o menino de Jesus. O xis é o xis de Crux, que
meu pai usou para indicar minha versão. Muito sabido
ele.
- Me solta! Vai tomar no seu cú!
- Você quem vai tomar no Crux hoje! - corrigiu
ironicamente - Eu sei, eu sei! Você já foi julgado e conde-
nado, mas não foi verdadeiramente punido. O Badernil
está ciente dos seus crimes. De você eu não preciso colher
mentiras, da polícia federal, quem sabe mais para fren-
te… Alguém tem que explicar como o senhor foi trans-
portado do cárcere para à beira mar, não é mesmo?
Tapuardo Punha tentou se soltar, foi quando sen-

71
tiu seu ânus se contrair ao redor de algo que não saberia
dizer o que era. Crucis sentiu o seu desconforto na hora
e interpretou-o velozmente, deixando qualquer cérebro
humano impressionado.
- Então… isso aí que está enfiado em seu Crux - riu
e parou um pouco para pensar antes de continuar a frase.
- Argg! Tira isso de mim! - Disse se sentindo humi-
lhado. Forçou uma contração, mas a tal coisa voltou a se
acomodar dentro dele. Deli Crucis riu, enquanto Punha
se esforçava para não chorar.
- Isso aí vai sugar todos os nutrientes do seu cor-
po. O cabo vai até ao seu jejuno e íleo. Na ponta do cabo
há nanobots que vão succionar seus nutrientes por sete
horas. Primeiro vou sugar as vitaminas A, C e E, além do
ômega 3, só para garantir que suas defesas caiam de vez.
- Não acredito nisso! Não acredito nisso! - gritou,
desesperado.
- Depois, vou sugar todos os outros nutrientes do
seu organismo até que se sinta tão fraco e faminto quan-
to aquelas crianças de Benim. Benim… Tsi, tsi, tsi. Como
consegue brincar com a miséria de um país desta manei-
ra, senhor? Seu Senhor Deus tem muito respeito aos po-
bres, ele mesmo foi um. Como bom admirador que você é
de Jesus, acredito que não vai se importar nenhum pouco
de fazer um jejum, o que me diz?
- Isso é mentira! Não há como fazer uma coisa des-
sas - seus gaguejos denunciavam o medo que sentia den-
tro das calças, mesmo estando nu.

72
- Ah é possível sim. Papai criou esta máquina espe-
cialmente para o senhor. E papai é muito esperto. Quanto
a mim - riu - eu quero vê-lo secar, desnutrir e definhar
nas próximas horas. Vou sugar toda a água do seu corpo,
e infelizmente estará morto, o que é uma pena, mas o tra-
rei de volta e de volta até o seu seco e desitratado coração
virar cinzas. A cama onde está deitado está programada
para desfibrilar quando sua pulsação acabar. Só morrerá
quando eu quiser.
Punha tremia incontrolavelmente. Seus dentes
batiam uns contra os outros como se estivesse pelado na
Antárdida. Podia jurar que iria morrer antes mesmo da-
quele show começar. Sentia que estava engasgando só de
ouvir Deli Crucis falar tudo aquilo. E aquele troço enfiado
dentro dele causava uma dor inimaginável.
- Espera, vamos conversar, podemos dar um jeito
nisso juntos - sua voz era mansa, tentava mascarar seu
terror.
- Quando eu tirar toda a gordura do seu corpo e so-
brar apenas músculos, sua pele irá grudar ao esqueleto, e
o senhor será pele e osso. Apenas. Nada mais convenien-
te, não acha?
Sumiu. Punha ouviu um barulho ensurdecedor.
Sentiu o incômodo em seu ânus aumentar. O aparelho co-
meçou a girar dentro dele. Punha gritou de dor e clamou
por piedade. Deli Crucis não lhe deu ouvidos e continuou
o trabalho. Quando finalmente o aparelho se instalou em
seu jejuno, os nanobots se espalharam e começaram a su-

73
gar os nutrientes do ex-presidente da Câmara dos Depu-
tados.
Punha sentiu um imenso cansaço assolar-lhe as
forças. Temeu que sua merda escorresse sem a sua per-
missão. Mas Deli Crucis se certificou que suas cagadas fi-
cassem restritas ao cenário político baderneiro, não ali.
As náuseas também o incomodavam, seu estômago fazia
força para expulsar o inexistente dentro dele. O esforço
foi tanto, que vomitou a própria bílis, que lhe amargou a
boca. O cansaço aumentou algumas horas depois, e Ta-
puardo desejou morrer. Logo ele, que amava a vida que
levava.
- Acaba logo com isso! - Gritou a primeira vez -
Aca-ba looogo com - o choro o impediu de terminar a fra-
se.
A máquina continuou a roubar-lhe os nutrientes,
enquanto um assobio se mesclava aos uivos de dor pela
sala. Punha não demorou muito até sentir sua boca se-
car. A garganta arranhava por dentro. Cada minuto que
passava ficava mais difícil de respirar. Seu desespero au-
mentou.
Todo o sinal televisivo no país ficou conectado du-
rante todas as sete horas de tortura, sem que ninguém
pudesse interromper o sinal e voltar à programação nor-
mal. Na internet, a transmissão também foi ininterrupta.
Qualquer um que tentasse abrir qualquer outro endereço
em seu navegador era direcionado para o deslumbran-
te espetáculo. Nenhum celular conseguia mudar de tela,

74
nem mesmo desligando. Os dispositivos se conectavam
automaticamente a Tapuardo Punha, que começou a ter
toda a água de seu organismo chupada. Foi quando come-
çou a agonizar pela primeira vez.
A dor era tanta que não conseguia gritar, sequer
tinha forças para isso. Não havia lágrimas e seus olhos
estavam secando, doía só de piscar. Parecia arranhar a
córnea com um garfo quando tentava. Seus lábios co-
meçaram a rachar e sequer conseguia passar a língua e
molhá-los, não tinha forças para isso, queria morrer ou
pelo menos, se arrepender. O ar passava pesado por seu
corpo, arranhando suas veias, queimando suas narinas,
ameaçando rasgar seus pulmões. O seco coração deu a úl-
tima batida e finalmente desistiu, se entregou. Um cho-
que repentino o encorajou a continuar batendo. Sua pele
queimou com a desfibrilação. O cheiro de queimado era
insuportável, faria uma barata vomitar.
- Eu disse, só vai morrer quando eu quiser.
A máquina continuou a sugá-lo. Quando tirou-lhe
a gordura, seu volume corporal diminuiu visivelmente na
frente de todos. Sua cara já estava chupada. Os olhos co-
meçaram a subir, a subir, a subir até que escaparam para
fora da órbita ocular. Os músculos eram os próximos da
fila. Outro choque tentou arrancar Punha dos braços da
morte, mas com ela não tem conversa. Estava comple-
tamente morto. Sua pele delineou os ossos, exibindo o
formato de seu esqueleto.
- Viva Benim! - Pronunciou Deli Crucis vorazmente.

75
As telas voltaram ao normal. Apenas as telas, por-
que o mundo continuou em choque.

76
CAPÍTULO 8
COBIÇADA

“Vai, malandra, an an
Ê, ‘tá louca, tu brincando com o bumbum
An an, tutudum, an an
Vai, malandra, an an
Ê, ‘tá louca, tu brincando com o bumbum
An an, tutudum, an an
‘Tá pedindo, an, an
Se prepara, vou dançar, presta atenção
An, an tutudum an, an
‘Cê aguenta an, an
Se eu te olhar
Descer, quicar até o chão
Desce, rebola gostoso
Empina me olhando
Te pego de jeito
Se eu começar embrazando contigo
É taca, taca, taca, taca”

O som alto do carro atropelava as batidas do seu


coração. Estava seguindo-a há quinze minutos pela longa
avenida. Havia baixado os vidros de seu Mercedes blin-
dado quando a viu passar. Ela era gostosa, verdade. Ha-
via cortado seus longos cabelos e aderido ao chanel, que
delineava sua nuca sensual. Estava com uma calça social

78
preta, uma regata de cetim casual chique e uma pequena
gravatinha. O scarpin animal print dava-lhe aquele tom
de elegância, ao mesmo tempo que arrebitava-lhe a farta
bunda e lhe arrebentava a coluna. Agora era assistente
de marketing em uma grande empresa, e estava aspiran-
do a se tornar gerente e, quem sabe, diretora de marke-
ting, mas precisaria terminar a faculdade e fazer algumas
pós-graduações. Já estava planejando tudo, passou anos
de sua vida mendigando migalhas de amor. Não mais. Foi
difícil admitir o quanto era co-dependente, mas quando
finalmente reconheceu sua doença, se esforçou para re-
construir seu amor próprio. Ainda estava nesse processo,
é verdade, mas nos últimos dois anos, Priscila estava ir-
reconhecível.
- Aew, seu babaca! - falou se aproximando do Mer-
cedes - Quer baixar esse som e aprender a respeitar uma
mulher?
- Ihhh, que é que é, sua vadia, tá doida?
- Como é que é? Você vem me perseguindo pela
avenida quase toda com essa música estourando meus
tímpanos e eu que sou a vadia?
- Cala a boca, vagabunda!
- Vai se foder, seu tarado!
- Vai se foder você, sua puta, vagabunda, louca!
Para a Priscila era inacreditável ter saído às seis
da manhã de casa para conseguir chegar às oito ao tra-
balho e ser obrigada a escutar um absurdo daquele. Sem-
pre ficou calada a vida inteira, e até demonstrava gostar

79
daquelas cantadas alguns anos atrás, quando não tinha
amor por si mesma o suficiente para se respeitar, mas
agora não tolerava mais esse tipo de postura. Ela passar
vergonha na rua? De jeito nenhum! Eles que devem pas-
sar vergonha por não saber respeitar mulher na rua.
- Vem cá, é assim que você trata as mulheres da
sua vida, é? Sua mãe, irmã... Aposto que tem uma filha,
não tem?
O cara congelou. Seu rosto ficou vermelho. Priscila
percebeu.
- Ah, aposto que tem sim. Como é o nome dela?
Hum? Se parece com você? Espero que não.
Ele começou a suar, constrangido.
- Então, já imaginou que pode ter um babaca assim
que nem você, nesse exato momento, fazendo o mesmo
com a sua filha?
O vidro fumê começou a subir ao mesmo tempo
em que o tosco homem aumentou a velocidade do seu
carro. Sequer pediu desculpas, mas seu constrangimento
já deixou Priscila satisfeita.
O telefone tocou. Era Davi.
- Você não desiste de me ligar?
- Só um jantar, Pri, por favor.
- Já disse que não. E não é não.
Desligou. Desde que saiu daquele armário nos fun-
dos da igreja decidida a mudar, Davi corria atrás dela.
Flores, cartas, bombons, declarações, mas nada abalava
o coração da moça. O amava de certo modo, é verdade, e

80
até doía ter de recusar todas aquelas demonstrações de
afeto, mas quantas vezes Davi a tratou mal? Sabia que ele
era apaixonado por Clarice e depois que ouviu Davi falar
sobre ela com Cauê no dia de seu casamento com Sér-
gio, brochou. Não queria ser tratada daquele jeito nunca
mais. Preferia morrer com o coração ardendo de dor a se
submeter a uma relação abusiva.
Quando voltou do almoço, contou às suas colegas
o que tinha acontecido. Ficaram horrorizadas, mas acon-
selharam Priscila a evitar confrontos assim, podia ser pe-
rigoso.
- Vai que ele tá armado?
- É, ela tem razão, fico puta com essas coisas, mas
não falo nada.
- Eu também finjo que não é comigo.
Priscila só conseguia pensar que já foi assim um
dia e sentiu pena de suas colegas. Concordou para evitar
discussões e não ser a chata da turma, o que era bem con-
traditório. Mas tinha planos de crescer ali dentro, me-
lhor não contrariar.
- Priscila, preciso falar com você. Cinco minutos
em minha sala. Boa-tarde, meninas.
Era Arthur, CEO da empresa. Priscila estava cha-
mando a sua atenção e não era por causa de sua beleza.
Uma menina notória, com vontade de aprender, um pou-
co estúpida, é verdade, mas nada que eu possa reverter,
pensava. Priscila entrou na sala do chefe um pouco re-
ceosa, já estava à espera de uma bronca, apesar de ter

81
certeza de não ter feito nada de errado. Tudo bem, teve
aquela vez em que precisou faltar por conta da morte de
seu gato, mas tinha invetado uma virose ao médico de
um pronto socorro só para conseguir o atestado. Tinha
certeza disso. Ou será que tinha esquecido? Ah, foda-se.
- Licença, senhor Arthur.
- Pode sentar, Priscila.
- Obrigada - disse meio sem jeito.
- Eu vi sua defesa sobre o reposicionamento da
empresa.
- Ah senhor - o interrompeu - aquilo foi só...
- Nunca interrompa o que o outro está falando,
Priscila, não é elegante da sua parte. E não combina com
seus trajes.
Priscila corou. Aquele homem a intimidava de al-
guma maneira, sequer via nele beleza, mas ele tinha algo
que chamava-lhe a atenção. Não sabia exatamente o que
era.
- Como eu ia dizendo - seu tom era de uma sutil
arrogância, não parecia superior, parecia estar prestes a
ensinar algo valioso - vi sua defesa sobre o reposiciona-
mento da empresa e gostaria de saber por que discorda
dos outros gestores.
Sentiu que ia vomitar o próprio intestino em cima
da mesa. Lembrou-se da defesa, a única que discordava
das demais propostas do time de marketing, mas não ti-
nha passado pela sua cabeça que o CEO da empresa a ve-
ria.

82
- É.. senh-sen-senh-or Arthur, eu… quer dizer...
- Me poupe o gaguejo, Priscila, vou direto ao as-
sunto: quero que transforme a sua defesa em uma pro-
posta de reposicionamento mais concreta e me apresente
daqui quinze a dias.
Priscila arregalou os olhos e pensou em dizer “cla-
ro, senhor, com certeza”, mas se nem o oxigênio estava
passando direito pela sua boca, imagine as palavras.
- Será que é capaz de fazer em quinze dias ou vou
estragar sua vida noturna?
- Quinze dias, senhor! - as palavras saíram, final-
mente, aos tropeços e em volume alto demais. Arthur se-
gurou o riso.
- Estarei esperando.
Priscila saiu correndo atrás de seu coração, que
parecia escapolir à sua frente. Correu para o banheiro e
trancou-se no box. Meu Deus, o que foi isso? - pensou,
apesar de ter certeza que tinha falado. Pegou com urgên-
cia algumas folhas de papel e enxugou o suor de sua tes-
ta. Não era de suar. Respirou fundo, prendeu a respiração
e contou até cinco. Depois foi soltando o ar devagar. Fez
isso algumas vezes, até que finalmente conseguir domi-
nar os nervos. Voltou para a mesa, seus colegas pergun-
taram se estava bem.
- Ah, tudo bem, não foi nada.
- Aposto que deve ter levado uma bronca do todo
poderoso - sussurrou uma de suas colegas para Leonardo,
que a admirava de longe.

83
- Aquieta essa língua, Steph. Num tem planilha pra
você fazer aí não, é?
- Idiota.
Priscila virou a garrafa de água quase toda na
boca, que pareceu refrescar-lhe não apenas a goela, mas
a cabeça. Abriu a pasta de seu computador onde estava
salva a tal defesa. Clicou duas vezes em cima do ícone e
esperou o programa iniciar. O celular vibrou. Pegou para
olhar o que era.
- Só um jantar, meu amor, por favor. - escreveu
Davi no Whatsapp.
- Ainda mais esse idiota me enchendo - ignorou a
mensagem e colocou o aparelho no modo silencioso.
Já era quase uma hora da manhã quando os olhos
de Priscila começaram a reclamar. Estavam cansados
e não aguentavam mais a luz do computador. Queriam
dormir. Priscila sequer percebeu que estava sozinha na
empresa, muito menos que já era uma hora da manhã.
Assustou-se quando olhou para o relógio. Pegou o celular
para ver alguma novidade, mas só havia mais mensagens
de Davi. Não aguentava mais esse chato em seu pé. Não
conseguia entender como tinha sido tão tola ao pensar
que não viveria sem ele. Riu de si mesma. Tinha um baita
desafio pela frente e a última coisa de que precisava nas
próximas semanas era de homem atrás dela.
Foi para casa de táxi, estava cansada demais para
dirigir. Tomou um banho quente, mesmo que a noite esti-
vesse calorosa. Priscila adorava banhos ferventes, talvez

84
fosse para combinar com a paixão que sentia pela vida.
Enquanto a água lhe aquecia a pele e relaxava cada mús-
culo de seu corpo, pensava nas possibilidades de um novo
posicionamento para a empresa. O mundo dos cosméti-
cos estava diferente, a mulher estava se tornando cada
vez mais independente e empoderada, não dava mais
para manter os mesmos discursos caretas. Acreditava
piamente que a empresa deveria sair de cima do muro,
largar a mão de ser medrosa e se posicionar em prol das
minorias.
- Até parece que só mulher branca usa maquiagem
- resmungou dentro do box. - Aliás, até parece que só mu-
lher usa maquiagem. Coisa ultrapassada! Temos que de-
senvolver produtos pensados para pele negra, produtos
pensados para homens transexuais, por que não?
Continuou no discurso consigo mesma durante
todo o banho e se imaginou apresentando essas ideias. Só
de pensar no assunto, seu intestino se revirou.
Mal dormiu e seu despertador tocou.
- Quê? Mas eu acabei de dormir!
Respirou fundo e levantou. Gostava de dedicar as
manhãs a si mesma, para preparar um café, passar na pa-
daria que tanto gostava e tomar um café da manhã far-
to, enquanto imaginava seu dia ser belo e produtivo. Mas
aquele dia ela resolveu deitar novamente e tirar mais
um cochilo. Quando deu por si, era duas horas da tarde.
Acordou de um susto, pegou o celular e viu que havia vá-
rias ligações da sua gerente de marketing.

85
- Puta merda!
Saiu correndo para o trabalho, seu espírito foi de-
pois, um pouco mais atrasado. Recusou-se a sair da cama.
- Me desculpe, Mari, eu perdi a hora…
- Perdeu a hora? Que seja a última vez que isso
acontece, Priscila.
- Tudo bem...
- Pensa que tá fácil emprego nesta crise?
- É… Mariana? - Chamou Arthur ao ouvir os gritos
de Mariana - A Priscila saiu quase duas horas da manhã
ontem. Estava trabalhando em um projeto especial que
lhe passei. Falei para ela chegar mais tarde.
Todo mundo arregalou os olhos quando Arthur
terminou de falar e saiu do recinto sem deixar que Ma-
riana respondesse. ‘Projeto especial?’, perguntaram-se,
mas que projeto especial?
O assunto foi cochichado pelos corredores, ba-
nheiros, lounges, salas de reunião, por todos os lugares
dentro e fora da empresa naquele dia.
- Ela deve tá fazendo uns boquetes isso sim deve
ser o projeto especial - disse um outro assistente enquan-
to fazia o gesto obsceno do boquete em sua boca. Parecia
entender bem o movimento.
Mas o polêmico assunto foi esquecido quando to-
das as telas da empresa ficaram negras e aquela sombria
voz de Deli Crucis ecoou por todos os andares.

86
CAPÍTULO 9
DEBOCHE

A imprensa baderneira o aguardava. Fotógrafos


estavam a postos. Repórteres estavam com as perguntas
afiadas na ponta da língua. E ele até havia ensaiado um
riso de deboche para quando os flashes tentassem cegá-
-lo.
“Marcelo Odeibrecha deixa a prisão depois de dois
anos e meio. Agora, o engenheiro e empresário vai a São
Daulo, onde passará mais dois anos e meio em prisão do-
miciliar em seu condomínio de luxo no Morumbi…”
A Notícia tomou o Badernil, mas os baderneiros
estavam mais preocupados em resolver o que iam fazer
no final de semana. Não deram muita bola, na verdade,
não ligavam para nada, ainda mais quando se tratava da
política do país. Não acreditavam em mais em ninguém
e sequer se surpreendiam quando alguma injustiça era
cometida. Um riquinho de merda saindo da prisão depois
de uma breve estadia ser motivo para se irritar? Jamais!
Os baderneiros tinham mais o que fazer.
O jatinho já o esperava. Quase gozou quando sen-
tou sobre a confortável poltrona. Respirou fundo e sentiu
o doce cheiro da liberdade. Sabia que estava em prisão
domiciliar, mas o sistema de tornozeleira eletrônica é
facilmente burlado, como todo o restante do país. Lista
de visitantes? Até parece… Riu com seu riso de canto de

88
boca.
A comissária trouxe-lhe champagne. Fez um bi-
quinho para experimentá-lo, o sabor encheu seu paladar
de satisfação. Virou a taça inteira em seguida.
- Mais uma, por favor.
- Claro, senhor.
O jatinho começou a decolar. Ele adorava essa
parte, a velocidade, o vento batendo nas asas do avião,
a subida… Quando se deu conta, já era hora de pousar.
Chateou-se, mas lembrou da sua casa, da sua cama e acei-
tou chegar. O céu estava cinzento quando saiu do avião e
entrou na Land Rover. O caminho até em casa foi rápido,
não havia muita gente na rua, talvez fosse a chegada do
Natal, muitas pessoas já tinham saído da cidade. Saudade
de São Daulo - pensou.
Os seguranças o esperavam a postos quando des-
ceu do carro. O cumprimentaram de maneira cortês.
Sentiu a tornozeleira incomodar, mas a tirou assim que
pôs os pés na casa. A música estava levemente alta, a luz
estava vermelha e pelo menos vinte mulheres estavam
sensualizando pelos luxuosos cômodos. Tirou a camisa
que estava por cima de sua camiseta, a girou com a mão
acima da cabeça enquanto gritava de felicidade. Uma loi-
ra enfiou a língua em sua boca e apertou-lhe o pau. Outra
loira o beijou, virou de costas e esfregou a bunda em seu
órgão já ereto dentro das calças.
Foi para o bar e serviu Whisky a si mesmo. Uma
morena subiu no bar e começou a dançar, tirou o sutiã e

89
esfregou os seios na cara dele. Deu-lhe um tapão na cara.
- O Badernil inteiro quer fazer isso e só eu fiz - dis-
se ela, atrevida.
Ele riu e a puxou forte pelos cabelos da nuca, abriu
o zíper das calças, desajeitado, e a comeu violentamente.
Quando gozou, virou o copo de Whisky, tirou a camise-
ta, as calças e ficou só de cueca. Foi juntar-se às meni-
nas. Estava no meio de um boquete grupal quando sentiu
sua visão escurecer. Pareceu tonto. Os olhos começaram
a pesar. Piscou forte algumas vezes, tentando resistir ao
sono que lhe tomava. Apagou.
Um vento gelado batia em seu rosto, convidando-o
a acordar. Seus olhos arriscaram abrir, mas estavam pe-
sados demais, cansados demais. Viu manchas vermelhas
e piscou forte. Voltou a deitar. Encontrou forças para
levantar num solavanco. A cortina de seu quarto voava
ao toque do vento, a janela estava entreaberta. Não ha-
via música alguma além do silêncio. Escutou uma porta
abrir.
- Quem está aí? Alberto, é você.
Alberto era o seu fiel segurança. Um branquelo
ruivo de quase dois metros de altura. Sardento e olhos
grandes. Alberto não estava ali para responder. Outra
porta abriu. Esfregou os olhos com os dedos de uma mão
enquanto se apoiava na parede com a outra. Abriu bem
os olhos, mas não conseguia ver nada. Uma luz acendeu.
- Alberto! Não está respondendo por quê? Preciso
de você aqui, rápido!

90
A luz voltou a apagar. Deve ser um problema na
rede elétrica, pensou. Foi até a janela ver se conseguia
chamar os outros seguranças, mas não viu ninguém. Es-
tava tudo deserto. Achou estranho, mas o latejar de sua
cabeça não o deixou pensar direito. Uma música começou
a tocar, baixinho. Não qualquer música, mas Hallelujah,
cantada pelo pequeno Stevie Wonder em um raro vinil
de 1962, uma fortuna e uma preciosidade para Marcelo
Odeibrecha.

Let me tell you about a girl I know


She is my baby and she lives next door
Every morning before the sun come up
She brings my coffee in my favorite cup
That’s why I know, yes, I know
Hallelujah, I just love her so

Marcelo sentiu um arrepio. Aquele som vinha de


sua vitrola e até onde lembrava, o LP estava em seu co-
fre. Tentou perguntar mais uma vez quem estava ali, mas
preferiu tatear as paredes, devagar, rumo à bela voz que
cantava. Foi devagar, um pé após outro. A casa estava im-
pecavelmente limpa. Será que estou há dias dormindo?
- questionou-se. Quando alcançou a sala, olhou para os
lados, mas não viu ninguém. Ouviu a torneira da cozinha
abrir. Engasgou com o próprio bater de seu coração.
- Quem está aí?
O pequeno Stevie começou a cantar:

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“My blue horizon is turning gray
And my dreams are drifting away
Your eyes don’t shine like they used to shine
And the thrill is gone when your lips meet mine
I’m afraid the masquerade is over”

Caminhou até a cozinha, viu a torneira aberta e


a fechou. Viu um vulto passar ao seu lado. Deu um grito
espontâneo e procurou pelo celular, que não estava mais
com ele. Puxou o telefone da cozinha, que só o avisou que
estava sem sinal.
- Mas que merda! - resmungou dando com o tele-
fone na parede.
Pegou uma faca e caminhou em direção ao seu
escritório, onde estava a valiosa vitrola. A porta estava
entreaberta, sentiu o medo lhe consumir. Suas pernas
tremiam e podia jurar que sua bexiga estava prestes a
liberar todo aquele álcool. Fechou os olhos e empurrou
a porta devagar quando finalmente encontrou coragem.
Só a luz da sua lareira iluminava o local. Ali estava a vi-
trola diante dele. Procurou a tomada para acender a luz,
mas não estava funcionando. Engoliu saliva a seco e deu
passos em direção à vitrola. A porta fechou, fazendo um
estrondo. Odeibrecha gritou feito uma criança.
- Quem está aí?!
Suava feito um rato de esgoto.
- Não vai desligar a música, vai? Adoro esse vinil.
Ahh, doces anos sessenta! Que saudade.

92
Marcelo tentou procurar a voz naquele escuro,
mas só viu sombras se mexerem.
- Quem é você?
- Psiu! Calado! Adoro essa parte. “Come back
baby!”, vamos, você conhece a música, canta comigo.
“One more time!” - cantou tentando imitar Wonder, mas
pareceu mais um grunhido infeliz. - Eu sei, minha voz
não é lá essas coisas, tudo bem, não sou cantor.
O homem se ergueu e caminhou em direção a Mar-
celo, que estava caído ao chão.
- Prisão domiciliar? - Riu.
Odeibrecha foi engolido por grande escuridão an-
tes mesmo de sua cabeça encostar no piso de madeira.
Quando acordou, viu Deli Crucis dançar My baby’s gone.
- Gostei da música, senhor. Confesso que ainda não
conhecia. - Riu e seu estridente riso fez a cabeça de Mar-
celo explodir de dor.
- Onde estou?
- Ah, que pena, acabou o disco.
Ouvia-se apenas o chiado repetitivo da agulha so-
bre o canto do disco. Aquele som ecoou por todo o Bader-
nil, que testemunhava Marcelo Odeibrecha preso a um
andaime, com capacete de engenheiro colado à cabeça. O
andaime era pequeno e estava chumbado ao chão.
- O que você quer?
- Justiça, o que mais?
Marcelo se deu conta, pela primeira vez, do lugar
onde estava. Era branco, o que lhe aumentava a dor de

93
cabeça, mas havia uma fileira de mármores gigantescos,
que deveriam pesar umas cem toneladas cada. Viu algo
esculpido neles, pareciam círculos, não soube dizer ao
certo. Deli Crucis percebeu a curiosidade e tratou de ex-
plicar.
- Ah, essa é a nova engenhoca de meu pai, você vai
gostar, já que é engenheiro.
- O que é isso?
- Dominó - respondeu Deli, rindo infantilmente.
- Dominó?
- Isso, o jogo. Vê aquelas marcas ali? Representam
os números que o senhor pagou em propinas à Lentobrás.
138 milhões, foi isso? Não, não, não, o senhor sabe que foi
muito mais, não é?
Deli sentiu o bioritmo de Marcelo alterar, estava
se preparando para mentir.
- Se eu fosse o senhor, não arriscaria mentir antes
que eu explique o que está acontecendo. Fica a dica.
Odeibrecha não soube o que responder. Tentou
avistar o fim daqueles mármores, mas o último parecia
estar a dez metros de distância dele. Eram altos demais.
- Estou atento às suas explicações, disse-lhe, ten-
tando ganhar algum tempo.
- Como eu ia dizendo, as marcas nos dominós in-
dicam a quantidade exata de dinheiro pago em propinas
à Lentobrás, além de compra de políticos e desvio de re-
cursos públicos que deveriam ir não só para as obras de
refinarias, mas para o Complexo Petroquímico e para a

94
sede da Lentobrás. R$ 12,6 bilhões? Nós dois sabemos que
não foi só isso não é, senhor Marcelo Odeibrecha? Então,
tudo o que você precisa fazer aqui é nos dizer a verdade.
Conte o que realmente desviou e pagou em propinas. Os
dominós já sabem, por isso são tão grandes, senão não
caberia a quantidade exata.
- Os valores já foram divulgados pela mídia.
- Mas o senhor sabe bem que não são verdade. Mas
deixe que eu continue a contar os próximos passos. Sabe
quando você faz uma fila de peças de dominó e derruba
apenas o último da ponta?
Marcelo apenas a encarou.
- É uma pergunta, responda!
- Acontece uma reação em cadeia, um derruba o
outro até que o último caia e pare o ciclo.
- Isso! Isso! - disse Crucis batendo palmas, orgu-
lhosa. - E adivinha quem é a última peça desse jogo?
Marcelo finalmente entendeu. Aquele mármore
gigante diante dele o reduziria a nada. O desespero to-
mou conta dele, finalmente, e começou a barganhar.
- Espera, espera, você não quer fazer isso mesmo,
quer?
- Eu já estou fazendo. Mas a pergunta é: você quer
continuar vivo?
- Claro que eu quero!
- Então conte a verdade.
- Eu vou contar a verdade. Conto tudo o que qui-
ser.

95
- Mentira! Sabe como eu sei? Porque eu monitoro
todo o seu bioritmo e ondas cerebrais, leio todas as suas
microexpressões, posso vê-las em câmera lenta e te mos-
trar, aqui e agora, se quiser. Sou à prova de mentiras, já
essa engenhoca toda que está diante, é movida por elas.
Lá atrás, um trator empurrará a primeira peça, que em-
purrará a seguinte, que por sua vez empurrará a próxima
peça, e a próxima e a próxima… bem, você entendeu. O
trator só se move quando o senhor mente. Que comece o
espetáculo!
- Eu não sei quanto, eu não sei.
O trator ligou. O estrondo tomou a sala, que pare-
cia pequena demais para tantos objetos gigantes. Tinha
algo errado ali, Marcelo desconfiou. Algo meio despro-
porcional...
- Acho que foram 15 bilhões ao todo.
O trator andou alguns centímetros. Marcelo não
acreditava que aquilo realmente funcionasse, o mármore
talvez não empurrasse o outro, apenas se espatifaria por
cima do seguinte. Desconfiou se tratar de um trote dos
amigos para comemorar a saída da prisão.
- 16 bilhões - chutou, mas sabia que o número era
muito maior.
- Se eu fosse você, parava de barganhar.
- 17 bilhões.
Mais alguns centímetros à frente.
- Ah, você quer jogar alto, né? 50 bilhões!

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O trator andou um pouco mais, estava muito próximo à
peça do dominó.
- 100 bilhões, seu palerma! Isso nunca vai funcio-
nar, que piada. Me tira daqui, chega de trote, vamos co-
memorar de outro jeito.
- É ver para crer, senhor Odeibrecha.
O trator andou um pouco mais.
- Mais eu nem falei nada.
- Trinta segundos sem dar uma resposta, ele anda
sozinho.
- Haha, você não pode estar falando sério. Tá bom,
tudo bem, vou chutar um número: cento e doze bilhões
só em propinas. Você sabe, esses políticos são caros.
O trator não andou.
- Olha só, uma verdade, quem diria.
- Vamos, me tira daqui.
- Ainda não respondeu tudo. Quantos bilhões o se-
nhor desviou das obras públicas?
- Infinitos bilhões de reais - debochou, soltando
seu riso de canto de boca.
O trator finalmente empurrou a primeira peça e os
ouvidos de Marcelo quase explodiram com o estrondo. O
chão tremia debaixo dele enquanto peça após peça caía
empurrando a outra. Quando a última se inclinou para
cima de Marcelo Odeibrecha, o Badernil inteiro fechou os
olhos.
O sangue foi para todos os lados. Um pedaço de
seu intestino escorregou pela câmera. Havia pedaços de

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Odeibrecha por toda parte. Todos que estavam assistindo
fizeram cara de nojo. Alguns até vomitaram.
- Uhu! Uau! Você viram isso?
Deli Crucis começou a gargalhar.
- O cara explodiu! Bum! Ai minha barriga tá doen-
do. E aquele sorrisinho dele, o que é que é aquilo? Adorei
esmagar aqueles dentes podres. Vocês não? - Fez um bre-
ve silêncio e voltou a rir.
Aquela risada era como ir ao inferno. As pessoas
na rua tapavam seus ouvidos porque era inexplicável a
reação. Era como desejar atirar na própria cabeça só para
aquele som diabólico parar.
- Tudo bem. Parei. Por hoje é só, pessoal. Amanhã
tem mais.

98
CAPÍTULO 10
ENGANO

O sol cozinhava seu saco dentro das calças. A água


que jogava na goela parecia evaporar antes mesmo de
matar sua sede. Queria um banho gelado, mas estava lon-
ge de realizar este sonho. Tinha muito trabalho a fazer.
A lista que conseguiu com Cauê era enorme, e cada en-
dereço era distante um do outro. Havia passado em doze
até agora, e nenhuma pista sequer. Recusou-se a ver as
últimas mortes, mesmo que as transmissões lhe indicas-
sem algo importante. Mas as chances de mudar a rota de
pensamento eram grandes. Na verdade, queria manter-
-se focado para não sentir o incômodo no peito. Não ima-
ginava que apreciava tanto a amizade de Cauê. Quer di-
zer, imaginava, mas não nesta dimensão. Como esse cara
se tornou tão importante assim? - questionava-se.
Parou no meio da estrada, acendeu um cigarro e
pensou em Debret, sobre o que ele tinha lhe dito da úl-
tima vez. Também pensou no fato de Cauê saber de tudo
e nunca ter feito nada a respeito, sequer o questionou.
Admirava isso. Ele estava certo, estava mesmo no direito
de ficar chateado e cortar relações.
- Eu mereço - falou para si mesmo, jogando o ci-
garro e pisando em cima para apagá-lo.
Voltou para o carro e seguiu seu caminho. A pró-
xima parada era uma loja de segurança especializada em

100
concertina elétrica. Ronaldo foi muito receptivo, e dei-
xou que Heising entrasse e investigasse cada canto do lu-
gar, bem como o departamento administrativo, que foi
pontual ao entregar notas fiscais e disponibilizar o aces-
so aos e-mails da empresa, além de uma lista de fornece-
dores, onde um deles chamou-lhe a atenção: uma fábrica
metalúrgica, onde são produzidos os arames. Pensou em
correr para lá, mas já era quase meia-noite. Nem viu o
tempo passar.
- Quer saber? Eu vou! Muito obrigada, Ronaldo,
fico grato por sua… - percebeu que estava sozinho, emba-
lado pelo ronco do segurança.
Saiu de fininho e foi até a fábrica. Percebeu que
toda a escura rua estava sendo monitorada. Ótimo, pen-
sou. Bateu na escura janela do guarda, mas ninguém res-
pondeu. Depois percebeu que havia um interfone escon-
dido. Apertou freneticamente uma vez atrás da outra, até
que uma face rabugenta apareceu depois de a porta abrir.
- O que é? Que inferno!
- Não sei por que sempre dizem isso quando me
veem, inclusive, com essa mesma voz irritada.
Heising já pulou para dentro do lugar.
- Ei, magrelo, não pode entrar assim. Rua!
Heising mostrou-lhe um falso distintivo da polícia
federal.
- Sabe as mortes que estão acontecendo em rede
nacional?
O homem arregalou os olhos e balançou afirmati-

101
vamente a cabeça.
- Pois é! Suspeitamos que aquele arame farpado
que decepou Vilma Pousself foi fabricado aqui. Posso ir
embora agora mesmo e vir amanhã com um mandado e
toda a equipe da polícia federal, ou você pode me deixar
dar umas voltas por aqui que garanto que não vou falar
pro meu chefe que você não me deixou entrar.
Heising se aproximou bem do ouvido dele e sus-
surrou.
- Ele é bem rabugento.
- Claro, claro, senhor, pode entrar, vou te acompa-
nhar - falou o guarda totalmente desajeitado e trêmulo
ao manusear as chaves.
Heising olhou em todos os lugares, mas a pouca
luz atrapalhava a sua avaliação. Os galpões eram muito
altos e com aberturas laterais para entrar luz e ar, pois
era um lugar extremamente quente durante o dia de fun-
cionamento e a iluminação solar era reforçada com algu-
mas poucas lâmpadas distribuídas aos pares por todo o
galpão.
- Essas câmeras… eu quero ver as gravações dos
últimos anos.
- Claro, senhor, vamos, vamos.
Heising só conseguiu ver as gravações dos últimos
seis meses. Tinha muita coisa, precisaria fazer um backup
de tudo para levar para casa. Mas nunca que conseguiria
fazer isso sem Cauê. Sua máquina não aguentaria rodar
tudo aquilo. Sentiu-se humilhado por antecipação, mas

102
não tinha muito o que fazer. Deveria engolir o orgulho
a seco e tentar se redimir com o amigo. Deixou o backup
em andamento quando se despediu do guarda, garantin-
do que iria voltar na manhã seguinte. O guarda concor-
dou, sonolento demais para prestar atenção nas próprias
palavras, que saíram desconexas e sem sentido.
Heising acelerou os passos em direção ao carro, foi
quando percebeu que estava com o coração a mil. Sen-
tiu algo estranho, uma tontura inexplicável, uma certa
sensação de desmaio, ficou difícil de respirar e se tornou
ofegante. Entrou no carro. Respirou fundo e se olhou no
retrovisor. Estava suando. Sentiu um medo repentino,
uma certeza de que iria se machucar feio, quem sabe até
morrer. Olhou para os lados, à procura de algum inimigo,
um ladrão, algo assim, mas a rua continuava erma. Ten-
tou buscar memórias recentes, se havia bebido algo di-
ferente, se o guarda da fábrica havia oferecido algo, mas
lembrou de recusar tudo. Era bitolado com essas coisas.
Ligou o carro quando finalmente a agonia passou.
O sol já estava se preparando para saudar aquela manhã
de verão quando Heising finalmente chegou à casa de
Cauê.
- Olá, senhor Wolfgang Heising, parece estar can-
sado. Na verdade, acho que não dormiu esta noite, seus
níveis hormonais estão desequilibrados. E está estressa-
do também. Se quiser, posso solicitar uma boa refeição
para ficar bem, o que me diz? - disse a assistente virtu-
al de Cauê em uma espécie de holograma flutuante. Nice

103
odiava. Vivia se assustando.
- Olá, Íris, está agradável como sempre, mas não
precisa, muito obrigado. Preciso falar rapidamente com
o Cauê.
- Ele não está. O senhor Cauê viajou.
- E o Sérgio?
- O senhor Sérgio está com o sono programado
para despertar às 11h, meia hora antes do seu fisiotera-
peuta chegar. Deseja esperá-lo?
- Hum, não, Íris. Eu volto outra hora.
- Posso gravar um recado e enviar para o senhor
Cauê agora, sempre tenho prioridade em suas visualiza-
ções, quer?
Heising hesitou um pouco, sentiu o coração palpi-
tar novamente, deu um passo para trás, mas titubeou e
voltou ao eixo.
- Nããã, quer dizer, quero sim, Íris, por favor.
- Mensagem de vídeo ou voz, senhor?
- Vídeo, por favor - Falou Heising colocando as
mãos para trás e elevando o corpo devagar.
- Gravando, senhor.
- Não sou o melhor ser humano do mundo, muito
menos o melhor amigo do mundo. Cometo erros que nem
eu mesmo suporto. Não entendo todo esse código social
de desculpas, mas preciso de você para resolver esse pro-
bleminha nacional. Se puder deixar nossas diferenças
pessoais de lado por um instante e me ajudar a descobrir
quem está por trás desses assassinatos, agradeço. Obriga-

104
do.
- Muito bom, senhor, foram muito sinceras as suas
palavras.
- Obrigado, Íris. Estou indo.
- Até mais.
Estava cansado, exausto, queria dormir o quanto
antes. Desistiu de correr atrás do vento e foi para casa
dormir. Deitou, mas apesar do sono, não conseguiu desli-
gar. Virou de um lado a outro da cama, e nada. Tentou se
masturbar, quem sabe o gozo lhe cerrasse os olhos, mas
seu pau se recusou a endurecer. Nada feito. Desejou a he-
roína em suas veias, aquela sensação boa de relaxamen-
to, aquele apagar da mente que desliga o mundo inteiro à
sua volta. Ficou absorto nesta ideia tempo suficiente para
o sol nascer e se pôr.
A noite foi anunciada pela Televisão, que ligou e
espalhou a horrenda voz de Deli Crucis pelo quarto. Hei-
sing levantou-se da cama, bufando, puxou a televisão da
tomada e a jogou na rua. Fez o mesmo com seu rádio e
computador. Também fez questão de desligar o disjun-
tor. Acendeu umas velas e foi ver como estava Debret.
- Adorei a escuridão, mas detestei o breu em meu
estômago.
Heising sentiu uma ira incomum inundar sua alma.
Agarrou Debret com ódio mortal, tirou-lhe as calças e o
fodeu.
- Está ficando cada vez mais perverso, Heising.
Esse tipo de sexo não combina com você, apesar de que

105
seu avô adorava. Lembro da vez que… - Heising o inter-
rompeu com um soco nas costelas, que lhe tirou o ar.
- Cala a boca, maldito! Cala a boca! Aghh!
Jogou-se para trás, afastando-se de Debret. Sen-
tou-se no chão e chorou com a cabeça entre as pernas.
Seu pranto traria a misericórdia de Deus personificada
se ele existisse, mas ali estava só. Sua dor foi traduzida
em lágrimas, seu olhos ameaçavam pular fora da cabeça,
ficaram miúdos, vermelhos e seu grito sequer comoveu
Debret. E por que deveria? Estava há meses sendo estu-
prado por Heising e para falar a verdade, se surpreendeu
quando aconteceu pela primeira vez. Não esperava isso
de Heising, mesmo que sua intenção fosse humilhá-lo,
mas ele mesmo fora vítima de abuso por seu pai adotivo e
Debret o salvou, apesar de tudo. Não precisava chegar tão
longe. Também não tinha culpa de sentir o que sentia.
No fundo, eram predadores presos em uma gaiola aberta.
Só precisavam achar a porta e sair. Heising estava indo
bem nessa parte, apesar de destruir sua moral aos pou-
cos. Logo seria como Debret. Ou pior.
- Chora feito uma mocinha - provocou Debret.
Heising se levantou, pronto a espancá-lo, mas se-
gurou o próprio soco no ar, encarou Debret nos olhos,
parecia com os de Clarice, e o abraçou em seguida, se des-
fazendo em lágrimas.
- Agora tenho certeza de que está vivendo um ro-
mance, Heising, mas tenho que lhe dizer, apesar de mi-
nhas fornicações, eu não gosto de homens.

106
CAPÍTULO 11
Mu

- Hoje, senhores baderneiros, ativistas e proteto-


res dos animais irão me caçar e me odiar com todas as
forças, mas juro - Deli Crucis levou a mão direita ao peito
esquerdo - em nome de Deus, que será por uma boa cau-
sa.
Ouviu-se o mugido de uma vaca. O bicho era boni-
to, carnudo, olhos dóceis que fariam o mais gélido cora-
ção desejar abraçá-la. Mastigava lentamente uma grama
extraordinariamente verde, parecia de mentira, quase
artificial.
- Garanto, senhores, que este animal foi muito bem
tratado. Foi criado livre, comendo sempre as melhores
graminhas, rações e sempre em dia com a vacinação. Mas
o que uma vaca tem a ver com a corrupção Baderneira?
A câmera virou. Jocresley Badista tremia dentro
das calças mijadas. Seu choro compulsivo havia soltado
todo o catarro preso de sua rinite e escorria pela boca,
salgado e gosmento. Em sua mão, segurava um bisturi e
um garfo de dois dentes, muito afiados. A regata branca
revelava seu peito suado cheio de longos pelos. O suor es-
corria em direção ao umbigo, onde fazia uma poça nada
agradável. Os joelhos não paravam no lugar, balança-
vam-se, ‘esmilinguindo-se’ como a bandeira do país no
alto de sua empresa. Estava descalço. Os pés ferviam de

108
suor dentro dos sapatos, por isso os tirou assim que teve
a chance. Mas foi quando as regras do espetáculo foram
ditas por Deli Crucis que o seu intestino afrouxou, como
seu elástico caráter. A merda escorria pelas pernas e mo-
lhava as meias negras. Sentia a bosta por dentro delas
também, qualquer movimento era escorregadio e de um
barulho engraçado, para não dizer tosco.
- Nosso querido Jocresley já sabe as regras, Bader-
nil. Tudo o que ele precisa fazer é comer nossa vaquinha
aqui, sim, viva! Com o garfo ele espeta a carne, com o bis-
turi ele a corta e, com as mãos leva os deliciosos pedaços
à boca.
- Por favor, não faça isso comigo, eu já estava pre-
so, por favor - pediu clemência de forma atrapalhada, era
difícil lembrar das palavras naquela situação.
- Preso? Hummm, não sei como a Polícia Federal
os deixa escapar assim tão facilmente… Acho que tem
alguém da justiça que merece estar aqui também, não
acha? Boro, talvez? Não sei, não sei, Badernil!
Deli Crucis riu com a sua ironia de praxe até a tos-
se a interromper. Agora estava atualizada em forma de
holograma e seus gráficos eram tão realistas que, se ela
fosse vista na rua, todo mundo acreditaria que é de carne
e osso. Agora podia andar pela sala, sumir e reaparecer
em qualquer outro lugar. Se já era tenebrosa por trás de
uma tela, imagine agora! Estava medonha. Satanás teria
uma diarreia mental se a visse. Com certeza. Jocresley
mesmo mijou nas calças assim que pôs os olhos nela. Foi

109
incontrolável, saiu.
- Queridos protetores dos animais, peço que não
me odeiem durante o processo, posso garantir que os
animais do matadouro deste senhor sofrem muito mais.
Esta vaquinha aqui não sentirá nada. Nem irá perceber
que está morrendo. Que comece o espetáculo!
- Não, por favor!
Os primeiros trinta segundos foram seguidos de
alguns quilos de bife de carne vencidos, claro, que caíram
na cara do empresário. Ele era frouxo, abriu o berreiro.
- Como és covarde, senhor, vamos! Esta parte eu
não expliquei. Será esmagado por carne estragada se não
comer aquela vaquinha ali. Vamos, vamos, vamos!
Jocresley caminhou em direção à vaca. A mão trê-
mula que segurava o garfo teve dificuldade em perfurar
a pele no animal, mas quando finalmente o fez, a vaca
continuou a comer sua grama. Passou o bisturi e fatiou o
primeiro pedaço. Foi difícil achar a própria boca. O chei-
ro do sangue o deixou nauseado, seu estômago ameaçou
vomitar. Outros pedaços de bife caíram em sua cara e o
convenceram a enfiar aquele pedaço na boca. O sangue
do pobre animal escorreu. Jocresley vomitou. As carnes
caíam do alto e das laterais, como se fossem arremessa-
das. Eram certeiras. Jocresley se levantou e tirou outro
fino pedaço e o mastigou com dificuldade. Vomitou no-
vamente.
- Para tudo! Para tudo! - a voz de Deli Crucis era
de quem estava entediada - Assim não dá, Jocresley! Pe-

110
dacinhos miudinhos desse jeito você não vai terminar de
comer essa vaca nunca!
Deli andou de um lado a outro, pensando.
- Já sei! Twitteiros deste Badernil, postem um Twe-
et com a parte do corpo da vaquinha que o nosso queri-
do Jocresley deve cortar e comer. Postem com a hash-
tag #vacajocresley que irei monitorar e obedecer a vossa
vontade.
O Twitter começou a explodir em postagens. Em
poucos segundos a hashtag #vacajocresley se tornou
trend topic no mundo. Os pedaços a serem comidos pelo
empresário eram bem ousados. E igualmente cruéis como
todo sapiens, pensou Deli Crucis.
- O rabo! Foi o pedaço mais postado, Jocresley.
Pronta para perder o rabinho, vaquinha? Muuuuuu! -
Gargalhou.
Jocresley não podia acreditar no que estava acon-
tecendo. Tentava se convencer de que tudo aquilo era um
pesadelo. Não poderia estar mesmo acontecendo. Impos-
sível, mas era muito real. Deu alguns passos em direção
ao rabo da vaca e fechou os olhos quando começou a cor-
tá-lo. O sangue do animal esguichou em sua cara e mais
uma vez seu estômago embrulhou. Queria correr dali, se
pudesse. Mas foi condenado a estar dentro de um cruel
empresário corrupto. Quando finalmente decepou o rabo
do animal, que continuou a balançar por alguns instantes
em sua mão, como se nada houvesse acontecido, o levou
à boca. Era duro, difícil de mastigar, e os pelos espetavam

111
seus lábios.
O Badernil foi à loucura quando o último pedaci-
nho desceu goela abaixo, voltando do estômago para a
boca logo em seguida. O Twitter foi à loucura e imediata-
mente “comer o próprio vômito” foi o pedido mais pos-
tado. Deli Crucis atendeu e ordenou a Jocresley comer o
rabo vomitado de volta. O empresário se esforçou, mas
não conseguiu obedecer. O castigo foi ter sua cara esta-
peada pelos bifes vencidos. Não sabia o que era pior.
- Me mata, por favor - implorou baixinho.
- O quê?
- ME MATAAAAA! - Gritou.
- O que acha, Badernil? Devo matá-lo agora ou
querem mais diversão?
Os pedidos aumentaram. Agora o país queria ver
Jocresley comer as tetas da vaca, que continuou comendo
sua graminha tranquilamente, sem qualquer sinal de dor
em seus dóceis olhos. Jocresley perfurou a farta teta, que
distribuiu leite pelo chão.
- Pode beber o leitinho, Jocresley, esse aí não é
misturado. É purinho, purinho.
O sabor era bom. Chupou-lhe as tetas para matar
a sede e tirar aquele gosto horrível de sangue na boca. Os
segundos passaram correndo, e os bifes de carne já esta-
vam alcançando os joelhos da vaquinha.
- Vamos, Jocresley! Não temos o dia inteiro. Hoje
é quarta-feira, tem jogo do Badernil! A Copa do Mundo
vem aí.

112
Deli Crucis seguiu dando a ordem dos pedaços que
Jocresley deveria cortar e comer. Estava encharcado de
sangue, era quase impossível reconhecer seu rosto por
trás daquela camada vermelha, que mais parecia uma se-
gunda pele. Jocresley entrou em transe quando lhe pedi-
ram para arrancar o intestino do pobre bicho. A merda
do animal, que apesar de só comer grama e ração, era
nojenta. O órgão era pegajoso, meio elástico e difícil de
mastigar. As fezes ali dentro também não facilitaram o
processo de degustação do empresário, que já nem tinha
bile para vomitar. O homem começou a tremer, largou o
intestino do bicho no chão, ajoelhou-se e começou a cla-
mar.
- Senhor! Meu Deus! Eu sei que não valho nada. Eu
sei que não sou digno de ti e com certeza mereço muito
mais do que tudo isso o que está me acontecendo. Mas
eu não aguento mais. Me leva de uma vez ou me dá uma
nova chance, por favor, em nome de Jesus!
Deli Crucis o olhou com admiração; pela primeira
vez estava diante de um coração sincero, arrependido.
Mas diante da morte, qualquer um se arrepende. Decidiu
testá-lo.
- Interessante, senhor Jocresley. De fato há arre-
pendimento em você e uma vontade de mudar. Estou
quase convencida a te dar uma nova chance. Eu, não Je-
sus.
- Por favor, por favor, eu prometo que vou me re-
dimir.

113
- Sim, e vai agora. Diga-me o número de sua conta
bancária para que eu distribua toda a sua fortuna para a
conta de todos os trabalhadores do país registrados com
um salário mínimo.
O semblante do homem mudou drasticamente.
Estavam falando de bilhões. Bilhões! Levantou-se com
dificuldade apoiando-se sobre o próprio joelho, depois
agachou-se para pegar o intestino do animal e voltou a
comê-lo. B.e.m d.e.v.a.g.a.r.
- Foi o que pensei - disse Deli Crucis.
Quando finalmente devorou todo aquele quilomé-
trico intestino cheio de merda, deitou-se sobre o chão re-
pleto de carne e desistiu. Esperou segundo após segundo
pela próxima queda de bifes. Apenas balbuciava alguns
sussurros para o irmão e familiares, despedindo-se. O vo-
lume de carne podre aumentou, Jocresley sequer conse-
guia respirar, mas foi o peso da carne que o matou, esma-
gado. Não o cheiro.
- Alguém quer churrasco? - perguntou Deli Crucis
quando tudo acabou.
Estava certa. Os protetores dos animais já estavam
organizados em passeata na imensa avenida Dualista. Ou-
tros tantos já estavam fazendo protestos na entrada da
famosa empresa. Outros mais desavisados nem sabiam o
que estava acontecendo naquela semana. Alguns estavam
na ânsia de uma partida de futebol. Outros tantos já esta-
va preparando a fantasia de Deli Crucis para o Carnaval.
Viva!

114
CAPÍTULO 12
RECAÍDA

Clarice não pensou duas vezes. Deixou que Isabella


entrasse, não só pela porta, mas para dentro de si. Suas
bocas se encontram antes mesmo de seus olhares, em um
beijo voraz. Isabella arrancou a blusa de Clarice num se-
gundo e chupou seu seios com certa fome animal. Clarice
gemeu alto, gozaria ali mesmo se Isabella continuasse lhe
chupando os peitos daquele jeito. Isabella a empurrou no
sofá com força, tirou a blusa de bolinhas que estava usan-
do e se jogou em cima da moça. Suas mãos lhe apertavam
as coxas. Outro gemido ecoou pela sala feito melodia sin-
fônica. Isabella adorava o gemido de Clarice.
- Saudade do teu gemido - sussurrou.
- Cala a boca e me fode!
Clarice tinha urgência. Tomou o controle da situ-
ação e subiu em cima de Isabella. Tirou-lhe as calças ra-
pidamente, afastou-lhe as pernas e se lambuzou em seu
gozo. Isabella gritou de prazer e fazia movimentos circu-
lares com o quadril, rebolando sua boceta na cara de Cla-
rice. Logo Clarice sentiu Isabella se tremer inteira em sua
boca. Adorava aquele gostinho de gozo que ela exalava.
Era diferente, não sabia dizer.
Não deu folga para Isabella, sentou-se em sua bo-
ceta e começou a mexer. Lá de baixo Isabella via os formo-
sos seios de Clarice balançar. Eram pequenos, durinhos,

116
cabiam na boca. Isabella adorava. Deu-lhe um tapinha de
leve nos bicos. Clarice adorou e passou a se mexer mais
com força. Isabella a puxou pelo quadril, para se ajustar
ao movimento e gozar junto. Foram rápido, mais rápido,
até que o sofá balançou a casa inteira. Quando sentiu que
ia gozar, Clarice baixou a cabeça até o ouvido de Isabella
e disse “eu amo você”.
Isabella chorou. Foi a coisa mais estranha que sen-
tiu na vida. Gozo e choro de uma vez só. Clarice a apertou
contra o peito. Ele ardia de amor e tristeza. Podia alguém
amar alguém desse jeito e ao mesmo tempo se sentir tão
decepcionada?
- Perdão, perdão - disse Isabella em lágrimas.
Clarice apenas a apertava com mais força contra
o peito. O choro também escapou de sua alma. Foi estra-
nho. Não conseguia explicar como amava e odiava tanto
a mesma pessoa. Deu-lhe um beijo salgado de choro.
- Eu juro que não sabia, Clarice.
- Tudo bem, Bella. Não pensa nisso agora.
- Me perdoa?
- Não sei o que te dizer - pensou por alguns segun-
dos em silêncio antes de responder.
Caíram no sono até que o sol as convidou para se
retirar da cama. A sensação era de uma irracionalida-
de censurada. O consciente magoado estava presente e
pronto a explodir. Clarice fez café para elas e foi até a
padaria pegar pãozinho quente, como gostava. Tomaram
café em silêncio. Isabella tentou algumas aproximações

117
carinhosas, que foram recebidas com certa frieza da par-
te de Clarice. Isabella percebeu e aquilo lhe doeu profun-
damente.
- Por que faz assim?
- O quê?
- Você sabe… ontem tivemos uma noite incrível.
- Eu sei. E hoje você precisa encontrar sua namora-
da.
- Não fala assim, Clarice.
- Falar assim o quê? Não é verdade?
- É verdade, mas eu não transei sozinha.
- Foi só uma transa, Isabella! - advertiu Clarice.
- Mentira! Você sabe muito bem que foi mais que
isso.
Clarice se calou. Não tinha respostas para aquilo.
- Por que não pode ser sincera com você mesma
apenas uma vez?
- Oi? Sincera comigo mesma? Gata, foi você quem
mudou de sexo, não eu.
Isabella fechou a cara. Clarice havia passado dos
limites.
- Tudo bem, Clarice. Se você quer realmente re-
moer algo do passado que te impede de viver um amor
agora, vá em frente. Eu prefiro ser honesta. Eu me despi
para você, estou aqui pra ti e você prefere ser orgulhosa,
teimosa!
Abriu a porta e a fechou com força na cara de Cla-
rice. Não sabia explicar porque era daquele jeito, aque-

118
la raiva que sentia comprimir seu peito. Queria ser feliz,
queria deletar tudo, mas simplesmente não conseguia
confiar em Isabella. Quem garante que ela não estava de
maracutaia com Debret? Não podia arriscar. E amor tem
vários na vida, não só um. Ia demorar mais um pouco
para esquecê-la de vez. Só isso. Estava dando um duro
danado para superar as mazelas dos últimos dois anos.
Isabella não podia chegar e desmoronar todo o seu caste-
lo de areia.
Quando Isabella chegou a casa, Vanessa estava
à sua espera de malas prontas. Imaginava o que tinha
acontecido, apesar de não ter certeza. Mas Isabella era
transparente demais. Vanessa sabia que havia algo erra-
do, que tinha um rolo mal resolvido com Clarice.
- Nêssa?
- Estou indo embora, Isabella - nunca a chamava
pelo nome todo.
- Mas por quê?
- Por quê? Sério que você ainda me pergunta?
Vanessa foi embora e deixou Isabella sozinha. Não
tinha certeza sobre o que realmente tinha acontecido,
tinha sido um tremendo blefe, mas muito certeiro, uma
vez que Isabella não foi atrás dela. Na verdade, a moça
alta estava com seu coração em chamas de dor e amor
por Clarice, não havia espaço para Vanessa. Sentou-se no
sofá e chorou até cansar e seus olhos incharem. Por que
tinha de ser tão sentimental? Por que não podia simples-
mente ir atrás de Vanessa e se desculpar? Por que era tão

119
difícil se desapegar de alguém?
O sono a pegou de surpresa antes mesmo da fadiga
de seus olhos. Sonhou coisas insanas. Quando acordou,
ligou para Clarice quase que instantaneamente, sem pen-
sar. Parecia o certo a ser feito.
- Oi.
- Vamos parar de drama, pode ser?
- Me ligou pra me chamar de dramática?
- Não, liguei pra dizer pra você parar de ser tola.
Está jogando fora a oportunidade de estar ao lado de
quem ama e por quê? Por causa de um maníaco manipu-
lador que me usou? Sou vítima também, Clarice!
Isabella tinha razão. Tinha sido vítima também.
Clarice não achou palavras para contestar Isabella. Des-
montou-se do outro lado.
- O que quer que eu faça?
- Que me encontre de novo, hoje, agora.
- Tá.
- Tá?
- Tá. Pode vir.
- Não quero ir aí. Quero que venha aqui.
- Okay - desligou.
Que doida - Isabella pensou - Como essa mulher é
complicada, meu Deus!
Quando Clarice chegou à casa de Isabella, a encon-
trou dentro de um longo vestido preto que contrastava
bem com a sua pele, realçando seus traços, ora máscu-
los, ora excentricamente femininos. Clarice esqueceu de

120
segurar o queixo, que caiu imediatamente denunciando
sua paixão. Ficou bêbada, completamente vítima daquele
sex appeal.
- Eu… é… eu num, eu num sabia que ia sair.
- Vamos.
- Vamos?
- Sim. Você vai me levar para jantar.
- Vou?
- Vai. Começamos com o pé esquerdo, apesar de
ter sido muito gostoso - riu de canto de boca e deu uma
leve beliscada nos lábios com seus dentes. Clarice foi à
loucura, não teve chance de dizer não.
- É.. sim, sim, eu acho que sim, tem razão - falou
olhando para os lados, encarando o chão, a parede, a por-
ta do vizinho, tudo, menos aquele espetáculo de mulher
à sua frente.
- Então vamos - estendeu a mão para Clarice, que
só soube pegá-la para dar-lhe um beijinho de amor.
Foram jantar. Por aquilo Clarice não esperava. O
restaurante não combinava muito bem com os trajes lar-
gados de Clarice. Era chique demais, mas não se impor-
tou. Deixou-se levar pela boa conversa. Falaram sobre
tudo nos últimos anos. Clarice contou de Heising, sobre
como e quando se separaram. Isabella falou de Vanessa,
sobre como e quando começaram a namorar.
- Você a ama? - Perguntou Clarice a Isabella, que
recebeu o questionamento como uma flecha muito cer-
teira. Não podia mentir. Amava Vanessa, mas era dife-

121
rente.
- Sim, eu a amo.
- E por que não foi atrás dela?
- Eu vou, logo que sair daqui.
- Ah é? Pensei que ia pra minha casa, ou eu para
sua…
- Não, não. Cedo demais. Tenho coisas a resolver
antes de qualquer contato deste nível.
- Contato “deste nível” - Clarice repetiu, rindo.
- Sim.
- Mas a gente estava transando há poucas horas
atrás.
- Por isso mesmo. Não quero que apenas o sexo nos
conecte e o rancor nos afaste em seguida. Eu amo você,
e se realmente houver espaço nesse mundo para a nossa
história, eu estou a fim de lutar. E quero fazer isso da me-
lhor maneira possível.
Uma lágrima escapou dos olhos de Clarice. Não
conseguia entender como era tão durona e teimosa. Via
Isabella sendo meiga, amável, sábia e até sentia uma pon-
tinha de inveja. Queria ser assim também, mas sua im-
pulsividade estava sempre no comando, seja para coisas
boas, ruins ou coisas muito além desta vã dualidade. Isa-
bella pegou a mão de Clarice com muito carinho e amor,
levou até à boca e retribuiu o beijinho de outrora. Clarice
sentiu o calor em sua mão percorrer por todo o seu corpo
e se transformar em mais lágrimas. Rendeu-se.
- Vamos, vou te levar para casa.

122
CAPÍTULO 13
SOMBRAS

A noite estava particularmente negra, o vento su-


ave uivava baixinho lá fora. Por algum motivo especial,
o calor resolveu tirar folga. Não estava frio, mas também
não estava aquele quente absurdo dos últimos dias. Ele
estava assustado, mesmo que sua cara demonstrasse paz
e serenidade. Entrou em sua Land Rover blindada com vi-
dros tão negros quanto aquela noite. Certificou-se de que
não havia ninguém lá dentro e dirigiu rumo à sua casa
quando se certificou de que estava seguro. Apesar dos úl-
timos comentários de Deli Crucis, o juiz Sérgio Boro recu-
sou qualquer equipe de segurança em seu encalço. Muito
menos se viu incentivado a mudar sua rotina.
- Quem não deve, não teme! Quer passar esse de-
tector de mentiras em mim, que venha! - Dizia sem pes-
tanejar, mas dentro das calças estava tremendo.
Boro era tão firme em suas próprias convicções
que acreditava piamente em suas mentiras. Represen-
tava muito bem os papéis que vivia. Quando professor,
um excelente professor. Quando juíz, um justo juiz. ‘A lei
é para todos’, era a sua frase preferido e aquilo causava
uma espécie de transe em massa. Era quase um deus. E
todo deus tem seu próprio diabo.
Ligou a rádio. A melodia de Higher Ground tomou
o carro. Boro adorava Jazz, tinha um sax enferrujando

124
em casa. Às vezes, sentado em sua poltrona, se pergun-
tava quando o deixou de tocar. Eram tão amigos, tinham
uma história tão bonita juntos. Inclusive, na faculdade,
as meninas adoravam vê-lo tocar. Aquele sax era a beleza
que ele não tinha.

People keep on learnin’


Soldiers keep on warrin’
World keep on turnin’
Cause it won’t be too long

Powers keep on lyin’


While your people keep on dyin’
World keep on turnin’
Cause it won’t be too long

Cantou junto, fazendo o movimento das notas no


ar sempre que os semáforos fechavam. Sentiu-se nostál-
gico por uns instantes, até que sua melancolia momentâ-
nea explodiu em desespero e seu carro saiu abruptamen-
te do asfalto ao som daquela:
- Gosto especialmente desta parte: “Powers keep
on lyin”, o que acha?
Como que por instinto, o juiz abriu o porta-luvas
do carro.
- Se está procurando isto - apontou a arma para
Boro - está perdendo o seu tempo.
- O que você quer?!

125
- A verdade, você sabe.
- Você…?
Boro fitou as sombras pelo retrovisor, mas nada
viu além do brilho de sua própria arma. Fez um rápido
movimento a fim de pegar outra arma debaixo do banco,
mas o homem das sombras também a pegou.
- Não entro em um carro de juiz sem tomar as de-
vidas precauções, senhor Boro. Chega de conversa.
O juiz apagou. Quando acordou, sua cara estava ao
vivo para todo o Badernil e demais países por meio da
Internet. A revolta foi unânime! Os baderneiros nunca se
sentiram tão revoltados, foram para as ruas implorar que
Deli Crucis soltasse o bom juiz, que julgava os poderosos
e fazia a lei chegar para todos. Menos nele.
- Sérgio Boro não é exatamente a pessoa que vocês
estão imaginando, baderneiros. Hoje, vocês saberão por
que Sérgio Boro faz tanta questão de pegar essa tralha
política.
O Badernil viu Boro engolir a seco de medo. O país
pouco sabia sobre aquele homem, além de sua carreira.
Foi eleito a Personalidade do Ano em 2014 por começar
as investigações contra a corrupção no Governo atual do
Badernil. O que ninguém sabia ou desconfiava era que
Sérgio Boro tinha a sua própria organização criminosa,
que tudo aquilo não passava de alguns movimentos inte-
ligentes e ousados para destruir uma gangue perigosa e
instalar outra. Boro queria se eleger Presidente muito em
breve, e com sua popularidade em alta, com certeza se-

126
ria. O país confiava nele. Como não confiaria, se ele con-
denou Luis Bagácio Lulo da Silva, o presidente preferido
do povo? Seria ele um Presidente justo, como o Badernil
nunca viu ou teve. Finalmente a impunidade e a sacana-
gem no país teriam um fim. Será?
- Hoje o espetáculo será um pouquinho diferente:
ao invés de você falar a verdade, eu as falarei por você e
tudo o que deverá fazer é confirmar com sim ou não. Ao
responder uma mentira, o senhor terá uma punição.
Dois fios de tubo desceram do teto até a altura do
pescoço de Boro. Deli Crucis os enfiou dentro do nariz
de Boro, que ficou impressionado com o seu toque géli-
do. Parecia morta. Pensei que era um holograma, falou a
si mesmo. Tentou acertar-lhe um chute quando se apro-
ximou dele. Foi neste exato momento em que percebeu
que estava sem os movimentos das pernas. Tentou mexer
os braços, mas também não havia movimentos. Um frio
aterrorizante tomou conta do juiz e se materializou em
um agudo grito de horror. O juiz se esforçou para se me-
xer, mas seu corpo não obedecia.
- Não adianta, senhor. Está sedado.
- Me tira daqui! Eu vou matar você! Me tira daqui.
- Ainda não. Fique quieto e me deixe explicar o que
vai acontecer, ou morre de uma vez só.
Boro se calou. Temeu que sua família pudesse es-
tar vendo tudo aquilo. Pensou em sua esposa. Em seus
alunos. Temeu que finalmente sua máscara caísse na
frente de todos. Tanto trabalho para nada! - se exortou

127
em pensamentos.
- Diacetilmorfina. Essa palavra te lembra alguma
coisa?
O suor escapou de sua testa com força. Parecia
trincar a pele de medo.
- Não.
Boro sentiu um vento, uma espécie de sopro no
nariz. Seu cérebro ardeu, sua visão ficou turva, sentiu um
grande prazer, sua mente foi adormecendo, mas antes de
entrar em sono profundo, voltou abruptamente. Boro
despertou, em choque.
- Isso, meu amigo Boro, se chama Naloxona, sabe o
que é?
- Não!
Outro vento soprou em suas narinas. O ardor foi
mais forte, seguido do ápice de prazer, dormência mental
e, novamente, o tapa no cérebro que o trouxe de volta.
- Sabe sim, doutor. Naloxona é o antídoto, digamos
assim, contra todas as substâncias derivadas da Papoula,
do ópio, você sabe.
Boro balançou a cabeça afirmativamente. Nunca
havia se sentido tão encurralado, tão nu. Lembrou-se de
quando era menino e baixaram suas calças no pátio da
escola na hora do recreio. Estava sem cueca e seu ínfimo
pênis balançou para todos verem. Foi piada o restante do
ano. Aquele tinha sido o momento mais humilhante e
traumático de sua vida até agora. Deli Crucis sabia bem
disso, acompanhou essa lembrança se formar em sua

128
mente.
- Então me explique para que serve, esclareça o
Badernil.
- A Naloxona bloqueia os efeitos da heroína, da
morfina e outros anestésicos desta ordem.
- Boa, professor - aplaudiu Deli Crucis - Tirou 10! E
por que tudo isso tem a ver com o senhor? Opa, não res-
ponda agora, deixa que eu falo.
Deli Crucis andou de um lado a outro da imensa
sala branca, a câmera acompanhando. Andava com as
duas mãos para trás, presas uma na outra na altura da
cintura, uma postura de pensadores, pode-se dizer. Es-
talou os dedos, parando a mão no ar. De repente, todo o
Badernil viu surgir daquela brancura de sala uma planta-
ção de papoula. Uma a uma, do germinar da semente ao
crescimento da planta. Foi uma visão cinematográfica in-
descritível. Naquele momento, Heising só conseguia pen-
sar que talvez aquele ambiente não fosse real. Ou uma
boa mistura de real e fantasia. Mas e Sérgio Boro? O juiz
estava desaparecido de fato. Sua Land Rover foi encon-
trada abandonada. A assombrosa menina o tocou. Havia
interação. O que era real? O que não era?
- Este senhor, caros Baderneiros, deseja com todas
as suas forças anestesiar o país. E para isso, é necessá-
rio, primeiro: desfazer a atual máfia baderneira, essa que
a gente bem conhece e que ele está fazendo questão de
acabar; segundo: ganhar a confiança e respeito do povo
baderneiro; terceiro: ser eleito Presidente do Badernil;

129
quarto: trazer a epidemia da heroína e morfina para o
país sem tantos transtornos. Estou certa, senhor juiz?
- Não! Isso é mentira! - gritou com veemência.
Outro sopro em suas narinas. Aquele prazer ins-
tantâneo foi menos intenso do que o anterior. A ardência
no nariz, no entanto, muito maior. Passaram milésimos
de segundos até adormecer e ter a naloxona injetada em
sua veia, que o trouxe à consciência.
- Mas que merda está fazendo? - gritou o juiz, sen-
tindo-se injustiçado.
- Viciando o senhor em heroína, o que mais estaria
fazendo além de fazê-lo experimentar do próprio vene-
no?
O pavor de Boro foi inegável. Não precisava ser ne-
nhum perito em micro expressões para enxergar o terror
na cara do homem.
- Não, não, não, por favor, isso não.
- Por que não? Estamos só começando.
- Eu não quero morrer!
- Morrer? Não. Tenho algo pior para o senhor: ras-
tejar pelas ruas, viciado, atrás dos seus próprios trafican-
tes, fazendo boquetes em troca de alguns miligramas de
papoula em pó, o que acha?
As lágrimas caíram pelo seu rosto, involuntárias.
Se não estivesse sedado, com certeza estaria tremendo.
- Continuemos… O senhor está derrubando uma
máfia para liderar a sua própria organização criminosa
no país?

130
- Sim, sim, estou, eu estou, me desculpe, me des-
culpe - disse aos prantos, mais para a família do que para
Deli Crucis ou para o povo Baderneiro.
- O senhor está por trás das cirurgias bariátricas e
estéticas, como silicones, onde a diacetilmorfina é inse-
rida e depois retirada cirurgicamente quando esses pa-
cientes voltam ao Brasil?
O juiz Sérgio Boro nada disse, apenas chorou e pe-
diu desculpas. Trinta segundos depois e seu nariz voltou
a arder. Agora, uma dose maior, seguida de Naloxona. O
juiz voltou a consciência. Seu nariz começou a sangrar.
- Por favor, eu não posso mais.
- O senhor está por trás das mulas-cirúrgicas?
- Sim, sim, fui eu, estou.
- Depois dos casos dos silicones, o senhor deixou
de transportar a substância sintetizada e passou a inves-
tir em plantações de papoula e no transporte do suco da
planta?
- Sim, sim, sim.
- O senhor acha que um país anestesiado é melhor
do que um país burro?
- O quê? Não, claro que não.
Seu nariz ardeu, o homem gritou e o sangue escor-
reu. Boro não estava funcionando direito, estava prestes
a ter uma overdose se Dele Crucis continuasse drogando
o homem daquele jeito.
- De novo, um país anestesiado é melhor que um
país burro?

131
- Sim! - gritou de ódio.
- A Lava Babo é só uma distração para o senhor
aumentar sua equipe de médicos cirurgiões, químicos e
logística no país?
- Não vou responder. Não!
Outra dose de heroína entrou em sua mente por
via nasal. Já estava esperando ansioso por aquilo, aquele
prazer anestesiante, queria dormir e não acordar mais.
Quando voltou, passou a mentir todas as afirmações de
Deli Crucis, mas só porque queria sentir aquela dormên-
cia tomar cada pedacinho seu. Mesmo sedado, sentia todo
o seu corpo relaxar e aquela branquidão da sala girar até
seus olhos pesarem e se renderem ao sono.
- Quem são os seus parceiros?
- Estou nessa sozinho - dizia, já no automático
pensando em receber a próxima dose, e a próxima e a
próxima.
- As prisões preventivas e temporárias dos envol-
vidos na Lava Babo têm a ver com a sua própria organiza-
ção criminosa?
- Quê? Imagina? Que organização criminosa? Num
tenho organização criminosa. Vamos, cadê minha dose?
Acabei de mentir, menina, me dá logo!
- A resposta é sim ou não.
- Não! Não! Não!
Outra dose em seu nariz quase o fez gozar com a
alma. Sua consciência voltou logo em seguida.
- Ah, minha ‘Delizinha’, me deixa lá só mais um

132
pouquinho, por favor.
- Quanto custa a grama da heroína? Quando o se-
nhor cobra, U$D 150?
- Isso! Isso! R$ 450 reais essa belezura! E vale cada
centavo. Nãoooo, eu acabei de falar a verdade! - riu de
si mesmo - Não posso falar a verdade! Não! A resposta é
não!
O homem revirou os olhos e os arregalou em se-
guida.
- Ah, Deli, já? Nem deu tempo de molhar o bico,
poxa! Cadê sua humanidade? Aliás, ‘hologramanidade’.
Hologramanidade - gargalhou - hologramanidade.
Tentou prender o riso entre os dentes, mas não
deu muito certo. O Badernil estava horrorizado e dividi-
do. Ver um homem que tinha ganho medalhas de honra
ser viciado assim em heroína em rede nacional, na cara
de todos, era revoltante e ao mesmo tempo, merecido.
- O senhor libertou apenas aqueles que nada afeta-
riam o seu esquema de drogas no país?
- NÃO! Só soltei quem merecia - gargalhou de novo
- até parece!
Pelos tubos correram não apenas heroína, a over-
dose. O homem começou a tremer, a revirar os olhos, a
vomitar e a engasgar no próprio vômito. O país ficou em
choque ao ver aquilo, não sabiam o que fazer, o que falar.
As hidroelétricas tentaram derrubar a rede de energia,
mas não conseguiram. Deli Crucis havia se prevenido de
tudo, estava sob total controle.

133
Quando a morte finalmente encarou o honrado
juiz e seu coração quase congelou, uma dose maior de
Naloxona entrou em suas veias e o trouxe de volta.
- Como disse, doutor, nem a morte te quer. O se-
nhor irá perambular pelas ruas como um dos viciados de
sua própria criação.
Deli Crucis de fato o soltou. Seu vômito amarelado
decorou a branquidão da sala. Sérgio Boro foi largado na
rua. Queria heroína mais do que a própria vida. Tentou
conseguir com seus contatos, mas se recusaram a ajudar
por conta do ocorrido. Um terrível erro da parte deles,
por sinal. Deveriam ter pego Boro antes da polícia.

134
CAPÍTULO 14
KERATA

Na manhã seguinte, todo o país foi acordado por


risinhos estridentes que vinham de todos os lados. Rá-
dios, carros, celulares, televisões, tablets, computadores,
nenhum gadget capaz de reproduzir som foi poupado.
Toda a programação televisiva do país estava normal,
apenas com esta intervenção sonora de background.
Os baderneiros estavam aflitos. Não se falava em
mais nada a não ser a forma como o juiz Sérgio Boro foi
torturado. Viciar um homem em heroína era muito cruel.
Era coisa do capeta, alguns diziam. Outros pareciam fazer
vista grossa para as acusações contra o juiz. Boro o futu-
ro gangster do país? Nunca! Teoria da conspiração. Tudo
invenção. Um homem de honra! Condenou o Lulo.
Para onde se virava, o assunto estava sendo pro-
clamado, discutido, teorizado, inculcado na mente de
todos os que reproduziam e repassavam as informações
adiante, mesmo sem certeza dos fatos.
Os risos perdidos de Deli Crucis continuavam. Pa-
recia um Deus sombrio que estava vigiando as malandra-
gens do povo e rindo da punição vindoura. A tensão mas-
sificada afrouxou o intestino de muitos, que até usaram o
fato de desculpa para não trabalhar.
Quando finalmente o sol chegou em sua potência
máxima ao meio dia, Deli Crucis apareceu, cantando uma

136
música de ninar. Sua voz estava mais infantil, meiga e
agudamente insuportável.
- Olá, queridos Baderneiros. Hoje eu quero mos-
trar as artes que fiz nos últimos dias.
O plano da câmera abriu e todo o povo viu uma
espécie de exposição artística. Eram telas em branco com
manchas de sangue. As manchas tinham formas distintas
em cada quadro, e nomes diferentes também.
- Esse primeiro quadro aqui é do ex-presidente Ba-
lel Pemer. Técnica: sangue sobre a tela, causada por finos
cortes de lâminas. Vocês lembram?
Deli Crucis ficou um bom tempo parada admiran-
do o quadro. Depois passou para o segundo.
- Ahhhh, eu adoro este aqui - disse com satisfação.
Vilma Pousself! Adorei os padrões que a concertina cau-
sou, e vocês? Ela bem que poderia ter evitado...
Caminhou em direção ao esqueleto dourado de
Luis Bagácio Lulo da Silva. A aparência era formidável, a
arcada dentária ficou bem aberta, congelando um grito
por trás de todo aquele ouro. Havia muita emoção naque-
la peça. Deli Crucis se emocionou ao lembrar do discurso
de Lulo e teve de enxugar suas lágrimas.
- Esse eu confesso, é meu preferido. Essa escultura
deve valer uma fortuna, e aquele discurso, meu papai, o
que foi aquilo? Quase me rendi...- riu baixinho.
Deu mais alguns passinhos adiante, ao encontro
de outra escultura: a de Tapuardo Punha.
- Tapado Punha. Oops! Ta-pu-ar-do - sorriu. Eu

137
sinto algo diferente quando vejo esta obra de arte, sei lá…
eu gostei muito do processo de criação, sabe? Mas do re-
sultado não gostei muito não… ficou com cara de múmia.
O que vocês acham? Mas tem muita emoção também, né?
Tá mais nítido o sofrimento, eu acho.
Deli Crucis tirou uma foto de uma magérrima
criança de Benim e colocou ao lado da escultura de Ta-
puardo. O Badernil sentiu uma dúbia satisfação. Ele me-
receu. Bem feito. Isso não se faz, muita crueldade.
- Ahhh esse aqui eu simplesmente amo, Badernil
- falou Deli Crucis ao apontar para o quadro de Marcelo
Odeibrecha - Lembra muito Jackson Pollock, vocês não
acham? Só que ao invés de várias borrifos, um só, e bem
grande. Não de tinta, claro.
Quando o corpo de Odeibrecha foi esmagado sob
a gigante pedra de mármore, seu conteúdo orgânico se
espalhou pelo chão, como se uma bexiga cheia de água
fosse jogada sobre uma tela. Deli Crucis se divertiu muito
com aquilo.
- É quase meu preferido!
Deli Crucis deu mais alguns passos até o quadro de
Jocresley Badista.
- Ah, esse eu não gosto muito não. Ele foi muito
chato, se não fossem vocês me ajudando, nem sei como
faria. Muito obrigada, Badernil, esse quadro é de vocês!
- bateu palmas para aquele padrão estranho de sangue,
carne podre e gordura.
- Agora esse aqui, apesar de não ser o que mais

138
gosto, é meu preferido.
Deli Crucis falou isso apontando para o nada, para
um espaço vazio escrito Sérgio Boro.
- Calma que eu explico. A minha criação neste aqui
foi muito maior e vai para a coleção de meu papai. Não
falei para vocês, mas meu papai coleciona mentes e a des-
se aí oh, nunca mais vai ser a mesma - gargalhou fininho
- mas eu acredito que o que vocês querem mesmo saber é
por que meu papai está fazendo tudo isso, não é? Ele me
disse: não adianta procurá-lo, ele mesmo vai se entregar,
mas com uma única condição: entreguem o Kerata.
As telas voltaram ao normal.
- Entreguem o Kerata? Como assim? O que essa
malcriada está querendo dizer com isso? - o delegado
questionou, sem nada entender. - Como vamos saber
onde está aquele traste?
Encarou Heising.
- Hein, Wolfie?
Heising estava com o coração enganchado na gar-
ganta. Cauê sabia onde Debret estava e ali poderia ser a
sua ruína. Sequer prestou atenção no questionamento do
delegado, apenas o ignorou e saiu correndo.
- E esse idiota agora com essa de usar saia. Onde já
se viu isso?! Mundinho perdido esse, viu! Cadê a porra do
café, menina?! Tu ainda tá aqui Afonso? Num mandei tu
ir atrás de notícias do Boro?
Heising dirigiu feito louco para encontrar Debret.
Quando chegou, encontrou apenas um bilhete:

139
Pedido de desculpas aceito,
Cauê.

De novo, pensou. Sempre um bilhete avisando que


ele está fodido. Rasgou o recado e socou a parede freneti-
camente. Quando cansou, foi atrás de Cauê. A casa estava
vazia. Nem Íris estava lá para recebê-lo. Sentiu-se encur-
ralado, queria que tudo aquilo fosse mentira.
- Não, Cauê não ia entregá-lo. Nem me entregar.
Ele já o teria feito, eu saberia, eu saberia. Calma, Wolf-
gang Heising - disse dando um tapa em sua própria cara
- calma, respira, pensa direito.
Colocou a cabeça entre as mãos, andou de lado a
outro e pensou no prazer da heroína. Cairia como uma
luva naquele momento. Mas aquela altura do campeona-
to, a biqueira já deveria estar fechada. Ainda mais que a
heroína que comprava ali era roubada e vendida por um
preço muito menor do que a de Sérgio Boro. Não podia
arriscar ir até lá, ainda mais estando à disposição da polí-
cia Federal.
Foi para o puteiro aliviar a tensão, mas não con-
seguiu. Desde que começou a torturar Debret, seu prazer
ficou condicionado a dor. Só ficava duro quando o estu-
prava. Começou como humilhação, depois virou prazer e
voltou a ser humilhação. De si mesmo, não de Pedro.
Heising estava completamente perdido. Todas as
perdas de sua vida estavam escancaradas em sua cara.
Não podia fugir mais. Já tinha fugido o bastante. Era hora

140
de crescer e aprender a lidar com as próprias emoções.
Mas como faria isso? Assumindo suas burrices. Pensou e
percebeu que o certo a fazer era contar a verdade. Pegou
o carro e dirigiu até a delegacia, decidido a contar para
todos o que estava fazendo com Debret.
Quando chegou, Pedro já estava lá, dando entre-
vistas e falando com Bernardo, o delegado Federal.
- Onde o senhor estava escondido até o momento?
- Ora, não seja tolo, eu não estava escondido, só
estava aproveitando a minha prisão domiciliar.
- O senhor não acha que está muito ferido para es-
tar “aproveitando”? - perguntou o delegado.
- Ah meu caro, eu gosto de brincadeiras selvagens,
se é que me entende - riu de canto de boca com certa ar-
rogância.
Heising não acreditou naquilo. Como Pedro foi pa-
rar ali? Por que não estava contando a verdade? Onde
estava Cauê?
- E por que o senhor veio até aqui?
- Ué, não é óbvio? Deli Crucis me chamou e cá es-
tou eu. Nunca falto aos meus compromissos.
- O que acha que ela pode querer do senhor?
- Não é óbvio?
- Não.
- Alguém pode por gentileza repetir o último vídeo
de Deli Crucis para este rapaz?
- Não precisa repetir nada.
- Ele quer ir para a sua coleção de cérebros - disse

141
Heising, finalmente, matando a charada.
- Heising! - disse Debret surpreso - você por aqui!
Que saudades! Parece que foi ontem que nos vimos, não?
- Entrar pra coleção dele?! Mas que diabos é isso
Wolfie? - Questionou o delegado da Polícia Civil.
- Claro, só pode ser isso, mas por quê? - perguntou
Heising para si mesmo, ignorando todos ao redor.
- Wolfie! Aqui! - disse o delegado estalando os de-
dos na cara do detetive. - O que você está pensando? E
que porra de mão é essa? Toda arrebentada?! O que tu
andou fazendo? Hein, Heising!?
- Preciso ver todos os vídeos, delegado, tenho uma
teoria.
- Mas antes de ver, me diga, por que diabos está de
saia? - Perguntou Pedro Debret, apesar que todo mundo
queria fazer esta pergunta.
Heising olhou para todos, que pareciam esperar
uma resposta dele.
- Por que vocês não estão de saia, eu pergunto? Ga-
ranto que minhas bolas não estão derretendo como a de
vocês.
Afonso estava tão incomodado com as assaduras
da virilha por conta do calor, que teve de concordar com
Heising, que logo deu as costas e saiu da sala, deixando
todos para trás.

142
CAPÍTULO 15
ARROGÂNCIA

- Não foi difícil achar você - disse Cauê.


- Deve ser porque não estou me escondendo - falou
o homem que resolvia cálculos em uma grande lousa.
- Já soube o que está acontecendo no Badernil?
- Acha que não acompanho as notícias?
- Acho que esta em particular o senhor acompanha
até demais...
O homem se virou, havia cansadas rugas por trás
daqueles redondos oclinhos. Era baixinho, levemente car-
rancudo, uma pele morena enfeitada com alguns poucos
pelos brancos na cabeça. Vestia um terno ultrapassado,
grande demais para o seu tamanho, e pela aparência, não
via água há muito tempo. O homem tinha uma aliança
apertando seu dedo gorducho, já arroxeado. Jogou o giz
sobre a mesa, encarou Cauê por cima dos seus oclinhos e
um bafo cansado, fedendo a álcool, empurrou as palavras
para fora.
- Não acredito que veio de tão longe para me fazer
acusações, senhor da revista Forbes. Vejo que a arrogân-
cia lhe possuiu de vez. Sempre foi meu aluno prodígio,
mas ao invés de criar um mundo melhor, preferiu cair
nas garras da vaidade.
- Mudar o mundo? Chama aquilo de mudar o mun-
do? Até onde eu sei, pelo seu conceito, somos todos arro-

144
gantes.
- E somos! Uma espécie sem escrúpulos, que se
acha a melhor de todas as espécies! Que inventou deuses
para inflamar seu próprio ego, mas que não passa de uma
destruidora do ecossistema.
- Então sua ladainha não mudou e aposto que deve
ter alguns fanáticos seguidores que acreditam em tudo
isso.
- Acreditam? Isso é antropologia, está na evolução,
somos a praga do Universo e eu estou torcendo para que
o Planeta descubra de uma vez por todas um jeito de nos
cuspir para fora.
- Posso apostar que o senhor está até dando uma
forcinha…
- Quanta teoria da conspiração, moleque! Vá, não
tenho o dia todo para falar com você.
- Não antes de me dizer o que a sua assinatura es-
tava fazendo no código de Deli Crucis - Cauê ergueu o
celular com um print de uma parte do código na cara do
velho professor, que quase entrou em êxtase quando viu.
- Mas o quê? Digo, deixa eu ver isso de perto.
O professor pegou o celular, depois sentou-se em
sua cadeira e começou a rabiscar alguns papéis,falando
consigo mesmo por alguns instantes. Parava para dar uns
tapinhas na cabeça com os dedos e voltava aos cálculos.
Cauê sabia bem o que vinha depois daquilo: uma longa
explicação sem sentido.
- Professor! - Disse Cauê incisivo, mas o velho pa-

145
receu não se importar. - PRO-FES-SOR!
- Só um instante, só instante. Humm… Isso mes-
mo, eu acho que tá certo - sussurrou para si mesmo. Em
seguida levantou-se e foi até à grande lousa, apagou todo
o cálculo que estava trabalhando o dia inteiro e passou a
escrever um novo sem parar. Quando finalmente acabou,
afastou-se e contemplou os números. Cauê estava ente-
diado, jogando bolinhas de papel no cesto de lixo. - Se
isso for realmente verdade, então estamos diante de uma
grande catástofre.
- Como assim, professor?
- Deli Crucis é apenas uma distração. Algo maior
vem aí.
- Do que você está falando?
- Disso - abriu os braços para sua lousa feito um
maestro para sua orquestra.
- Não vejo nada de especial.
- Não vê nada de especial?
- Isso aqui, meu caro, é a capacidade dos seres vi-
vos de se organizar, guardar informação e se reproduzir
aplicada à tecnologia.
- Você está me dizendo que…
- Sim, Deli Crucis está a um passo adiante da inteli-
gência artificial. Ela está incorporando ou hospedando os
processos vitais aos seres vivos e se tornando, também,
um ser vivo - disse Cauê assustado.
- Mas o que isso quer dizer? Que ela vai controlar
os processos vivos ou que simplesmente ela se tornará

146
uma tecnologia hiper-avançada?
O professor riu até a barriga doer.
- Você realmente nunca foi o mais inteligente da
turma... Deli Crucis não está aprendendo os processos vi-
vos e os incorporando para controlá-los - fez uma breve
pausa e levou o dedo indicador à boca, em um gesto de si-
lêncio - ela está aprendendo e copiando para finalmente
quebrá-los.
- Como assim “quebrá-los”?
- O que faz a célula?
- Muitas coisas, ora.
- No geral, ela recebe, guarda, copia e depois trans-
mite informação. Ela está controlando os meios de comu-
nicação no Badernil não é isso?
- Isso.
- Código é linguagem, seja na tecnologia ou no or-
ganismo… - falou para si mesmo, baixinho. Depois de um
novo e breve silêncio, o professor finalmente respondeu:
- Deli Crucis quer acabar com a nossa comunicação.
- Tem certeza disso, professor?
- É uma hipótese, mas não vejo por que não.
- A sua assinatura está em todo o código de Deli
Crucis…
- Eu sei, eu sei. Mas a minha assinatura se tornou
pública há mais ou menos cinco anos. Pode ser qualquer
pessoa que passou por minha sala.
Cauê se despediu do professor e foi encontrar Sér-
gio, que passeava pelo Campus.

147
- Pela sua cara a conversa não foi muito produtiva.
- Na verdade, foi muito produtiva.
- Vamos voltar para casa, então?
- Ainda não, vamos aproveitar que estamos em
Hong Kong e visitar o Castelo da Bela Adormecida, o que
acha?
- Você é tão gay.
Cauê deu um beijo em Sérgio, que estava levemen-
te triste aquele dia. Apesar de estarem ali “para se diver-
tirem”, Hong Kong não era bem o que ele queria para suas
férias junto a Cauê. Tinha pensado em algo mais afastado,
como uma cabana perto de uma cachoeira, e não a agita-
ção que era aquela cidade chinesa.
- Tenho uma leve impressão de que o azul dos te-
lhados é mais escuro que o castelo que fomos na Califór-
nia, não acha?
- Sim. E mais medieval também.
- É verdade, esse castelo é bem mais medieval.
Sérgio deixou sua tristeza transparecer de alguma
maneira, Cauê percebeu, mas não estava a fim de pergun-
tar o motivo.
- Você me ama?
- Claro que eu te amo, meu amor.
- Se me ama mesmo, por que não me deixa partir?
Cauê fechou a cara e bufou.
- Esse assunto de novo?
- Sim, esse assunto de novo! E vou continuar insis-
tindo até que você converse comigo.

148
- Tudo bem, se quer conversar então conversa -
Disse Cauê irritado.
- É um assunto sério, que deve ser ouvido com
amor e não com cara feia.
- Amor? Como quer que eu receba isso com amor
se está falando de se matar?
- Não estou falando de me matar! Estou falando de
uma morte digna. Por que você é tão egoísta?
- Eu egoísta?
- Sim! Você! Sou praticamente o seu fantoche de
experimentações. Você nunca para em casa desde que te
falei que não quero mais viver. Foge de mim, sempre com
alguma desculpa fajuta. Pensa que não sei?
Cauê o encarou com os olhos lacrimejados.
- Eu não quero que desista. Eu posso consertar isso,
só preciso de mais tempo.
- Desistir? Eu não estou desistindo. Morrer não
é desistir. É um processo básico do ser humano. Todos
morrem! Só estou cansado.
- Processo básico do ser humano? - Refletiu Cauê,
relembrando as palavras do professor.
- Cansado como seu pai! - Cauê disse aquilo da boca
pra fora, mas feriu Sérgio profundamente, que o deixou
sozinho no castelo.
Cauê não conseguia entender a teimosia de Sér-
gio. Ele podia consertar aquilo, com certeza encontraria
uma solução para trazê-lo de volta. Por que Sérgio tinha
de ser tão depressivo? Quantas pessoas estavam em si-

149
tuações muito piores e lutavam para viver? Já pensou
se Hawkings tivesse desistido? Sérgio não podia desistir
assim, tinha que lutar! Só de pensar em perdê-lo o cora-
ção de Cauê se derretia dentro do peito. Não conseguia
imaginar a vida sem ele. Estava dando um duro danado
para encontrar uma solução e estava perto. Sérgio, no
entanto, só queria ter uma morte digna. Não aguentava
mais estar dentro de um corpo limitado, sem expressão.
Não aguentava mais não poder tocar o marido, não poder
expressar totalmente o seu amor. Não aguentava mais
não conseguir correr com suas filhas, passear pelo par-
que, abraçar sua mãe. O contato humano era diferente,
a limitação, o olhar de pena das pessoas... a ausência de
qualquer esperança de melhora. Era dali para a morte,
e nem para os braços dela ele era capaz de correr sozi-
nho. Não conseguia nem mesmo se matar. E na verdade,
se recusava a fazer o mesmo que seu covarde pai. Como
cidadão baderneiro, ele tinha direito à vida e à morte.
Não queria morrer de forma clandestina, mas ninguém
entendia isso. Não era questão de terapia ou antidepres-
sivos, era uma questão de decisão e respeito. Mas Cauê
jamais entenderia desta maneira.
- Por que as pessoas romantizam tanto a morte
desta maneira? - Perguntou-se. - Vamos todos morrer,
afinal. Tanto faz se hoje ou amanhã. Por que simplesmen-
te não podemos chegar em nossos Governos e dizer: es-
tou pronto, minha missão aqui acabou; e daí você é res-
peitado e tem uma morte digna, sem dor, sem drama, e

150
consciente?
Cauê foi atrás dele.
- Um ano, talvez dois, é tudo o que eu te peço. Se
eu não conseguir reverter sua situação, eu mesmo aplico
a injeção em você.
O sorriso de Sérgio iria de orelha a orelha se tives-
se controle sobre seus músculos faciais. Ao invés disso,
uma baba escorreu de sua tentativa de sorriso.
- Agora vamos, há muitos cômodos neste Castelo,
Aurora.

151
CAPÍTULO 16
INTOLERÂNCIA

Os baderneiros mais uma vez foram acordados


pelos risinhos de Deli Crucis. Ela ria, cantarolava. Entre
risos e cantos, ela sempre repetia o número um. Quando
não, falava “primeiro dia”. Foi naquele embalo sonoro
que Arthur chegou a sua empresa. Olhou para Priscila de
canto de olho, a menina estava um trapo. Na verdade,
tinha trabalhado a noite inteira na apresentação.
- Bom dia a todos, disse Arthur. - Onde está Leo-
nardo, hum? Leonardo?
Leonardo se levantou, tímido.
- Aqui, senhor Arthur.
- Só Arthur, Leonardo. E Stephanie, cadê?
- Aqui - disse erguendo as mãos.
- Muito bem, os senhores estão demitidos, podem
ir para o RH. E Marina, você deveria ter sido demitida
junto como eles também por deixar boatos que desonram
a imagem da sua colega se espalharem pela empresa. No
mais, quem tiver dúvidas sobre o projeto que dei à Prisci-
la, venha à minha sala e me pergunte. Bom dia a todos.
Saiu elegante para pegar um café e subir até sua
sala. Os funcionários não sabiam como reagir àquilo. De
fato, os boatos contra Priscila estavam cada vez piores e
a moça fingia não ouvir, apenas se agarrava às suas pes-
quisas e mergulhava em seu trabalho com muito raça.

153
Era boa naquilo, pela primeira vez se sentia segura em
alguma coisa que podia fazer por si mesma sem depender
de homem algum, apesar de ter um homem ali lhe defen-
dendo em público. Sabia que ele estava dando uma lição à
sua equipe, mas ela não precisava ser defendida daquela
maneira. Ia só piorar as coisas. Depois falo com ele sobre
isso - pensou.
Priscila estava realmente certa. Agora as pessoas
além de afirmarem que estava dando para o chefe, fala-
vam que Priscila estava pedindo demissão de quem ela
não gostava.
- Apaixonado do jeito que está, com certeza ele só
faz as vontades dela - disse um funcionário para os cole-
gas.
Vez por outra, os risinhos de Deli Crucis assusta-
vam o pessoal trabalhando. Heising, do outro lado da ci-
dade, estava cronometrando o espaço de tempo entre
uma fala e outra de Deli Crucis, só para ver se encontrava
algum padrão. Estava atento a todos os movimentos di-
ferentes de Deli Crucis enquanto visualizava exaustiva-
mente todos os vídeos das mortes. Às vezes em câmera
lenta, às vezes mais rápido, às vezes pausava a tela e fi-
cava encarando até a visão embaçar, na certeza de que
encontraria algo novo.
- Um… primeiro dia… o que será que ela quer di-
zer? - Perguntou a si mesmo.
Heising tinha certeza que uma morte aconteceria
quando o relógio marcasse doze horas, mas não houve

154
nada além da correria do dia a dia. Heising gostaria de
continuar na cola da lista que Cauê tinha dado, mas pre-
cisava manter as polícias civil e federal ocupadas enquan-
to tentava descobrir, também, por que e como Pedro foi
parar ali. O sistema de segurança que mantinha Debret
em cativeiro era bem reforçado. Precisaria de uma boa
desculpa para interrogá-lo sem o registro das câmeras.
Seria impossível. Continuou vendo os vídeos, até que en-
controu algo muito curioso. Pausou o vídeo de Deli Cru-
cis colocando o tubo no nariz de Boro. A mão da menina
parecia atravessar o rosto do juiz. Chegou mais perto da
tela, pressionou os olhos, voltou alguns milésimos de se-
gundos e repetiu a cena mais algumas vezes. Correu para
encontrar Sérgio Boro.
O juiz estava internado e não dizia coisa com coi-
sa. Heising só conseguiu entrar no apartamento com a
autorização dos federais. O nariz de Boro estava em car-
ne viva, contrariando a cena que Heising tinha visto no
vídeo. Também percebeu pequenos furos em seu braço,
mas podiam ter sido feitos no próprio hospital. Heising
tinha certeza de que talvez Deli Crucis não fosse real, um
espírito talvez, ou simplesmente a “pista” que tinha en-
contrado foi resultado de muita ansiedade. Heising esta-
va mais nervoso do que o normal depois que viu Debret
na prisão. Sempre que lembrava das torturas que fazia
ao Kerata e de que a qualquer momento ele poderia lhe
dedurar, Heising sentia seu coração palpitar, suas mãos
congelarem. Além de uma nítida sensação de que iria

155
apagar, até morrer. Queria sair correndo dali se seus ro-
bóticos pés permitissem. Só conseguia imaginar a vergo-
nha que passaria se descobrissem o que tinha feito. Sua
excentricidade por si só já era vergonhosa. Disfarçou.
- Ele não fala nada sobre Deli Crucis?
- Nada, só diz os nomes dos envolvidos em sua or-
ganização, apenas para que lhe tragam heroína.
- Estão anotando todos os nomes?
- Já estamos interrogando muitos deles, alguns já
saíram do país.
- Entendi...
- Wolfie! - disse o delegado entrando na sala - en-
controu alguma pista?
- Pode-se dizer que sim.
- E confirmou?
- Confirmei.
- E o que era?
- Eu estava errado. Deli Crucis é real e tudo isso
está acontecendo de verdade.
Saiu do apartamento do hospital onde Sérgio Boro
estava. As marcas eram reais, o trauma era real, mas
aquela imagem… tinha algo estranho ali. Pegou o celu-
lar, havia tirado uma foto da cena, era muito estranha.
Decidiu buscar alguns profissionais de vídeo. Foi a uma
produtora e mostrou a imagem a um velho amigo editor,
que ampliou a foto e concluiu que ali podia ser apenas
um erro de frames por segundos que abriram demais e
causaram uma brecha.

156
- Mas não posso garantir, me traz o vídeo que jogo
na minha máquina pra você.
- Mas você sabe, é daquele jeito…
- Essa conversa nunca existiu, pode deixar.
O editor poderia ter baixado o vídeo pela internet,
mas a versão dos federais vinha do servidor de transmis-
são da mídia. Era melhor de analisar o arquivo direto da
fonte sem perder nada pelo caminho. Quando o Editor
abriu o vídeo no programa, ele não soube explicar o que
tinha ali. Quando abria os frames, ou os esticava, tudo se
transformava em código binário.
- Eu não entendo, cara, parece que o vídeo foi crip-
tografado, não dá pra ver. Foi mal.
Heising saiu destruído dali. Foi até um boteco be-
ber, tomar umas tequilas em homenagem à Clarice. Ela
adorava aquela bebida e ele não entendia porquê. Só gos-
tava do efeito que causava nela, que ficava mais assanha-
dinha. Reconheceu Priscila ao longe, fazendo a mesma
coisa. Virou uma dose, e foi cumprimentar a moça.
- “Há certo poder em uma mulher sozinha numa
mesa de bar”. Li isso em algum lugar e não lembro. Um
livro de poesia, talvez.
- Heising! Que coincidência. Já sei, a Clarice te
trouxe aqui, né? Como ela tá?
- Acho melhor perguntar pra ela.
- Ué, não estão mais juntos?
- Não. E você está bem desinformada. O que anda
fazendo?

157
- Ah, eu me afastei de todo mundo depois que o
Davi fez aquilo comigo.
- Ah sei, o amigo do Cauê. Lembro vagamente de
dar um soco nele.
- Jura? - Priscila riu.
- Juro!
- Mas por quê?
- Ah, ele vivia atrás da Clarice, importunando, não
me respeitava. Daí, meu macho alfa entrou em cena - essa
parte ele engrossou a voz para falar e inflou bem o peito.
Priscila riu.
- Ele também vive atrás de mim. Por que vocês ho-
mens são assim, hein? Basta um pé na bunda pra vocês
correrem atrás da gente?
- Vocês homens nada! Clarice foi embora e nunca
fui atrás dela.
- Não?
- Não.
- E por que ela foi embora?
- Ah, ela teve os seus motivos, não sou a pessoa
mais fácil de se lidar.
- Humm, um homem sincero, que raro.
- Pois é. Mas o que está fazendo aqui sozinha?
- Me empoderando! - Gargalhou.
- A palavra do momento.
- Verdade. Ah, tá um clima super pesado no meu
trabalho. Hoje duas pessoas foram demitidas por minha
causa.

158
- Sua causa?
- Não necessariamente “minha causa”. Meu chefe
me passou um projeto importante e sou uma mera assis-
tente. Daí, tá todo mundo dizendo...
- que você tá dando pra ele - completou Heising.
- Como sabe?
- Num é óbvio? Machismo é assim mesmo, é mais
fácil acreditar que uma mulher bonita está dando pro
chefe do que acreditar que ela realmente é capaz.
- Esse é meu drama. E daí ele demitiu as pessoas
que começaram esses boatos.
- Fez certo! Faria o mesmo.
- Você acha?
- Claro! É um homem honrado pelo que me parece,
e duvido muito que esteja interessado em você.
- Por que acha isso?
- Um homem sem honra fingiria e até se aprovei-
taria do boato; ele cortou o mal pela raiz.
- Tem razão. Mas não gostei da maneira como ele
fez, assim, na frente de todo mundo. Não quero que nin-
guém me defenda.
- Já ouvi muito essa frase da Clarice quando as
pessoas começaram a atacá-la por ser filha de-você-sa-
be-quem. Odiava quando eu tomava a frente e falava por
ela.
- Ai, não faça isso, não somos indefesas, não preci-
samos ser salvas.
- Não duvido da capacidade feminina, eu mesmo

159
seria uma mulher sem pestanejar.
- É por isso que está vestindo saia? - gargalhou.
- Não, isso é porque meu saco está assado.
Priscila corou. Fazia tempo que não transava. Hei-
sing percebeu a tensão e resolveu sair dali correndo. Mas
antes de pensar em fazer, Priscila fez.
- Estou atrasada, Heising, foi um prazer. Eu pago a
conta - saiu sem contar duas vezes.
Priscila voltou para a empresa depois de tomar sua
dose de coragem. Entrou na sala de Arthur e começou a
falar, sem mesmo pedir licença. Estava bem nervosa, e
falava andando de um lado para o outro.
- Senhor Arthur, eu sei que é o meu chefe e eu tam-
bém sei dos boatos que estão falando sobre nós, mas não
preciso que o senhor me defenda. Não é porque eu sou
mulher que eu preciso de alguém para falar por mim.
Pronto, falei.
- Priscila - disse Arthur muito tranquilamente de-
pois de ouvir o esbaforido discurso de sua colaboradora
- esse aqui é Joaquim, um investidor importante da em-
presa. Joaquim, esta é a moça de quem eu estava falando.
- Prazer, Priscila - falou o homem esticando a mão
- acho melhor sentar e se acalmar. Arthur estava me fa-
lando de suas ideias, revolucionárias demais, não acha?
Priscila nem conseguia pensar no que estava acon-
tecendo. Estava com vergonha, nem tinha visto aquele
homem ali, muito mais velho que Arthur. O encarou atô-
nita por alguns segundos e finalmente falou.

160
- Não senhor, não acho.
- Eu disse, ela é ousada.
- “Uma mulher precisa de algo a mais além da be-
leza”, já dizia o poeta.
- Na verdade, senhor, uma mulher não precisa se-
quer ser bonita.
O velho investidor sorriu, um tanto impressiona-
do. Estava acostumado a ser bajulado e todos concorda-
vam com ele, inclusive quando propunha tolices.
- Então terá de me convencer muito bem. Não es-
tou disposto a ter perdas caso os mais conservadores des-
te país decidam nos boicotar.
Fez uma pausa para analisar Priscila mais uma vez
e voltou a falar.
- Estarei aqui para ver a sua apresentação. Boa sor-
te.
Saiu da sala piscando o olho para Arthur e levan-
tando as calças que ameaçavam cair da farta barriga.
- Não se deixe intimidar. No fundo, ele é um cara
bom.
- Deu pra perceber.
- Então, sobre o que estava falando… eu não de-
fendi você. Jamais entregaria um projeto tão importan-
te a quem não tem autonomia para levantar seu próprio
escudo. Na verdade, muito me conforta que você não se
deixe abalar pelos falatórios. Outro em seu lugar já teria
saído desta empresa correndo.
- Mas por que fez aquilo?

161
- Tenho intolerância aos velhos preconceitos e os
confronto sem pensar duas vezes. Não aceito trabalhar
ao lado de pessoas que não respeitam as diferenças de
seus colegas. Machismo, homofobia, racismo e qualquer
tipo de preconceito não entram nesta empresa.
- Admiro a sua postura, mas é quase impossível
controlar isso quando estamos falando de pessoas.
- Por enquanto sim, mas até lá, sigo dando exem-
plos. Seus colegas precisam pensar duas vezes antes de
falar asneira.
- Tudo bem então.
- Fico feliz que tenha entendido, agora preciso fa-
zer uma ligação, se me der licença.
- Claro.
Priscila saiu aliviada da sala e orgulhosa de ter um
líder, não um chefe. Estava orgulhosa de si mesma, lem-
brou por alguns segundos de como ela era insegura há
alguns anos...
- Quem diria que eu chegaria até aqui - pensou, se
esforçando para conter as lágrimas.

162
CAPÍTULO 17
VADIA

- Ainda não entrou em contato?


- Não, senhor.
- Mas como essa malcriada quer que a gente entre-
gue esse chupa-cabra sem sequer nos dizer como e onde
entregá-lo?
- Não faço ideia, senhor.
- Mas tu também nunca sabe de nada, hein? Afon-
so! O que tu acha?
- Afonso não está senhor.
- Oxe, onde anda o Afonso?
- Não sei, senhor.
- Mas tu é mesminho um robô. Sai da frente! Vou
lá falar com os FODs e já volto. Quando aquele narigudo
aparecer, diga que estou procurando por ele.
- Sim, senhor, pode deixar.
O delegado saiu afobado e fez a mesma pergunta
ao delegado Federal, que passou algumas migalhas de in-
formações. Enquanto falava, o delegado avistou Heising
chegando e interrompeu a fala do Federal. Correu para
falar com o detetive.
- Wolfie - sussurrou o delegado - O que está acon-
tecendo? Você ouviu? Esses risinhos dessa criança do in-
ferno não param de dizer “dois” e “segundo dia”. O que
você acha que é isso?

164
- Acho que é um prazo, para quê, ainda não sei.
- Nenhum contato então?
- Nada.
- E o chupa cabra?
- Está sendo interrogado.
- Por que o FODs aí não te manda fazer isso?
- Ele alega que fui vítima e que há uma carga emo-
cional que pode atrapalhar.
- Você? Com carga emocional? - o delegado riu.
- Pois é.
Heising viu naquela conversa uma oportunidade
de barganhar com o delegado. Olhou em volta rapida-
mente e se aproximou um pouco mais para ninguém ou-
vir o que estavam cochichando.
- Preciso falar com ele, delegado, o quanto antes.
O delegado entendeu o recado e se prontificou.
- Deixa comigo, vou ver o que consigo fazer por
você. Qualquer novidade, me fala! Esses arrogantes não
me contam nada, uma tremenda falta de respeito. Afon-
so! Finalmente você che - delegado fez uma pausa, assus-
tado - você tá usando saia?
O delegado olhou para Heising, depois para Afonso
e balançou a cabeça negativamente, pasmado com o que
estava vendo.
- É realmente mais confortável, senhor.
- Teu cú, Afonso! Teu cú! Sai da minha frente!
O delegado saiu disparado com Afonso em seu en-
calço. Heising foi lá fora fumar um cigarro para relaxar,

165
foi quando viu Clarice descer do carro. Seu coração dis-
parou. Olhou para o outro lado, fingindo que não a viu.
Estava de óculos escuros, o que disfarçava bem para onde
estava olhando. Alguns minutinhos depois, ouviu uma
piada sobre a sua saia.
- As saias midi nunca saem de moda... E ficam óti-
mas em você.
- Meus testículos adoraram.
- Ah, com toda a certeza.
- Como vai? - Falou Heising depois de um sopro de
fumaça.
- Ah, nada que algumas miligramas de felicidade,
muita terapia e força de vontade resolvam.
- Sei bem como é. Veio ver seu pai?
Clarice fez uma cara de decepção que ele conhecia
bem.
- Desculpe, saiu.
- Não… sem problemas. Ele é mesmo o meu pai,
não é?
- Seu Jorge é melhor como pai, com certeza. Como
ele está?
- O vô? Ahh, lindo como sempre. Um garoto! Estou
convencendo ele a entrar no Tinder, arranjar uma namo-
rada.
Heising riu.
- Acho que é cedo demais. Não se esquece a mu-
lher que ama assim, ainda mais quando a gente perde pra
morte.

166
Aquilo doeu. Clarice lembrou da avó. Ainda ligava
para ela de vez em quando, mas foi desencorajada a con-
tinuar fazendo isso pela sua terapeuta, até que se sentisse
bem emocionalmente, mais forte e capaz de se levantar
sozinha.
- Desculpa, saiu de novo.
- Tudo bem, gosto disso em você, não tem papas na
língua.
- Ah, sabe quem eu vi ontem? - Heising mudou de
assunto.
- Quem?
- A Priscila.
- A Pri, do Davi?
- Sim.
- Nossa, faz tempo que não tenho notícias deles.
Como ela está? Correndo atrás dele como sempre?
- Pelo contrário, ele quem está correndo atrás dela
- Heising jogou o cigarro no chão e pisou em cima, de um
jeito másculo que Clarice adorava. Aquilo a deixou mo-
lhada e tal excitação a pegou de surpresa. Em poucos se-
gundos, já estavam transando em seu carro. Para Heising
foi um alívio ficar duro tão facilmente com ela. Quando
gozaram, perceberam que tinha uma roda de policiais ao
redor gravando tudo por trás dos vidros fumês. Apesar
de não conseguirem ver nada, o balanço do carro parecia
diverti-los.
- Só uma transa, certo?
- Certo, só uma transa.

167
Saíram do carro, levemente constrangidos. Clari-
ce pensando que sua “safadeza” parecia estar voltando
ao normal. Heising ficou feliz de ter feito Clarice gozar,
ainda mais porque não precisou pensar em Debret. Será
que é por que ela também é Debret? Nada a ver - retru-
cou.
- Bela saia, Holmes - gritou um policial aos risos.
Heising só mostrou o dedo do meio para ele.
- Vou começar a usar saia também - falou um ou-
tro policial.
- Idiotas, deveriam transar mais vezes - gritou Cla-
rice.
Ficaram calados depois dessa e desligaram as câ-
meras do celular, desapontados. Heising e Clarice cami-
nharam rumo à delegacia, mas não entraram. Clarice
apenas se informou sobre os acontecimentos, não queria
ver Debret.
- Não temos muitas informações, estamos investi-
gando.
- E esses risos, esses números que ela está dizen-
do?
- Acho que está contando um certo tempo para fa-
zer algo.
- Para voltar a matar?
- Acredito que não. Está contando para entrar em
contato ou nos dando prazo para entregar Debret.
- Mas que diabos ela quer com ele?
- Debret acha que ela quer que ele arranque seu

168
cérebro.
- Agrh! Você está falando sério?
- O que diria um estuprador se visse uma mulher
andando de mini-saia?
- Que ela está querendo ser estuprada.
- Exato. Ele só pensa por esse viés: tirar cérebros.
Deli Crucis fez uma exposição de arte com os restos mor-
tais de suas vítimas, e agora Debret pensa que ela só fez
isso para chamar a atenção dele.
- Hum.
- Está se chamando “artista”, então Debret acha
que ela o está desafiando.
- Algo do tipo “venha me pegar?”
- Hunrum. Bom, eu sei que não tem relação com
você, mas ao mesmo tempo tem, então, se cuida tá? Se
precisar de alguns seguranças, me avisa.
- Eu sei me virar sozinha, relaxa.
- Tá bom.
- A gente se fala.
Despediram-se. Clarice percebeu que Isabella ha-
via ligado para ela. Como não a atendeu, Isabella enviou
mensagem:

Terminei com a Vanessa. Uhuhu! Estou livre.

A consciência pesou um pouco. Tinha acabado de


transar com Heising. Inclusive, ele deve ter aprendido
uns truques, pensou. Mal sabia ela o que Heising tinha

169
feito ao Debret. Vomitaria as tripas se descobrisse.
Clarice leu mais uma vez a mensagem de Isabella e
não soube o que responder. Começou a digitar qualquer
coisa, aleatoriamente.

Jura? Que legal.

Foi o que conseguiu escrever. Isabella só conseguiu ima-


ginar que ela estava fazendo cú doce, que tava de jogui-
nho, mas a linda médica estava decidida a não se deixar
abalar, muito menos entrar no jogo de Clarice. Escolheu
reconquistar o coração de Clarice, então era isso o que ia
fazer.
Encontraram-se naquela noite. Isabella cozinhou
para Clarice, que esperava uma massa qualquer, já que
Isabella não era muito boa na cozinha. Mas pensou erra-
do. A bela moça tinha feito um risoto de frutos do mar.
- Uau! Pra quem não sabia fazer um miojo, você
evoluiu muito.
- Ah, a Vanessa é chefe de cozinha, me ensinou uns
truques - despejou sem pensar - Aff, foi mal.
- Relaxa, não dá pra fingir que não foram namo-
radas, né? E vai sair de uma relação assim e se enfiar em
outra?
- Relação? Opa, moça, calma lá, isso aqui é só um
jantar.
- Anhan! Hummmm, isso aqui está uma delícia,
meu Deus!

170
- Obrigada.
- O que é isso aqui?
- Ah, são ostras.
- Hummm, sempre quis comer ostra crua com li-
mão e tequila.
- Santa tequila!! - Falaram juntas.
O jantar soou devagar e espontâneo. Riram juntas,
sem pressão. Prometeram não se alfinetar nem relembrar
o passado para não ressuscitarem antigas dores e feridas.
Queriam ir devagar, recomeçar, se realmente desse certo.
A garrafa de vinho esvaziava conforme a conversa fluía. O
tempo estava ótimo lá fora, não muito quente, nem mui-
to frio. Agradável. De vez em quando o calor dava trégua
naquele verão. Clarice flagrou um olhar apaixonado de
Isabella e estremeceu inteira. Amava aquele olhar.
- Que foi?
- Nada.
- Fala!
- Só estou te olhando, ué, não pode?
- Pode - Clarice lembrou. Sua consciência pesou
um pouco mais ao lembrar de Heising e se realmente es-
tavam querendo recomeçar, queria fazer isso direito, de
verdade. Mentir ou esconder algo assim não era honesto.
- Preciso te contar uma coisa - desembuchou ao beber o
último gole da taça.
- Claro, fala.
- Transei com o Heising hoje.
Isabella tossiu. O que responderia àquilo? Só con-

171
seguia imaginar Clarice em seus braços. A sua Clarice!
Sentiu ciúmes, raiva, fúria, quis gritar, dar um tapa em
Clarice, sumir dali, desaparecer.
- Significou alguma coisa pra você?
- Não, foi só sexo.
- Tudo bem então. Não vamos estragar nosso jan-
tar com esse assunto, ainda não temos nada.
- Eu não quero começar errado com você, quero
fazer as coisas certas.
- Tudo bem, vamos começar dando um passo de
cada vez.
Isabella parecia aceitar aquilo com muita maturi-
dade, mas ficou destruída por dentro. Quando Clarice foi
embora, Isabella se jogou sobre o confortável tapete de
sua sala e chorou. Chorou alto, sua alma ardia, se deba-
tia, estava com raiva de si mesma, se perguntando por
que estava se submetendo à Clarice daquela maneira. Por
que aceitava ser enganada assim, desrespeitada assim? A
amava, de fato. Mas amor justifica? Não sabia dizer, e por
isso ficava. Esperava, na esperança de melhoras. Acredi-
tava na mudança até o último momento. Sabia que Clari-
ce era assim, impulsiva, intensa, quando queria algo ela
ia atrás, agia sem pensar nas consequências. Imaturidade
emocional, talvez. Isabella sabia que merecia alguém me-
lhor, tantas possibilidades por perto, inclusive no hospi-
tal. Pessoas bem resolvidas, sem tantos danos mentais,
emocionais, sexuais e de caráter, mas quando existia
amor, não tinha muito o que fazer. Ou tinha? Podia es-

172
colher enfrentar e viver aquele sofrimento. Não era isso
o que estava fazendo esses anos todos? Por que Clarice
simplesmente não saía do seu coração?

Obrigada pela noite. Adorei o jantar. Próxima vez, eu co-


zinho.

Isabella respirou e se perguntou: vale a pena? Pen-


sou no término dramático com Vanessa.

Mal posso esperar. Como está sua agenda amanhã?

- Ainnn Isabella, burra, estúpida! Por que você


simplesmente não escreve: vai tomar no seu cú, sua pi-
lantra, não quero mais você! Não é porque eu errei uma
vez, duas ou mais, que você tem o direito de me tratar
desse jeito, como se eu não fosse nada! Mas não, Isabella,
você tem que perdoar e se render ao charme… ao charme
dessa vadia.

173
CAPÍTULO 18
ESCURO

O tempo mudou do dia para a noite. O céu azul deu


lugar ao cinza nublado, e aquele vento ardente de bron-
zear o espírito, deu lugar a uma ventania fria. Foi difícil
para os Dualistas acordarem cedo para trabalhar. Nesse
frio, nem reclamavam tanto da sardinha que eram os va-
gões de trem e os ônibus na hora do rush. Heising não ti-
nha pregado o olho durante a noite. Não cansava de rever
aqueles vídeos e pensar em um jeito de falar com Debret.
O delegado ainda não tinha dado retorno. Decidiu fazer
algo sobre isso sozinho e só tinha um jeito: monitorar a
rotina do Kerata na prisão. Passou o dia xeretando pelos
cantos. Falando com uns aqui e ali, jogando conversa fora
para ver se conseguia alguma informação importante de
alguém. Mas todos pareciam fugir dele, não davam muito
espaço para evoluir uma conversa. Estava quase desistin-
do quando percebeu a aflição de um novo rosto.
- Dia difícil esse hoje, né?
- Nossa, nem me fala, aquele sujeito me dá arre-
pios.
- A mim também - Heising desconfiou que ele esta-
va falando de Debret - Às vezes tenho vontade de dar uns
bons socos na cara daquele velho, se é que me entende.
- Oh se entendo! Queria arrancar aquele bigode no
dente.

175
- Bigode?
- Do delegado.
- Ah sim, é verdade - disse Heising com certo ar de
decepção.
- Vou lá levar o chupa cabra pra tomar “seu ba-
nhozinho de sol”
- Banho de sol?!
- Pois é! Acredita nisso? Aquele sujeito tem direito
a banho de sol! E num frio desse! Sequer tem sol!
Heising o seguiu com cuidado. O homem assobia-
va o caminho inteiro. Chegou a um longo corredor mal
iluminado. Nunca tinha passado por ali. Como era gran-
de esse lugar, pensou. Heising sempre tinha o cuidado de
usar algum objeto para manter a porta aberta logo que o
bom funcionário colocava a sua senha. Na terceira vez já
tinha conseguido decorar os números: 226634.
- 226634. 226634. 226634 - sussurrava a si mesmo.
O homem chegou em frente a um elevador antigo
que só tinha opção para descer. Quando as portas fecha-
ram e o funcionário desapareceu, Heising correu para
apertar o botão do elevador. O que ele não sabia era o ele-
vador não subia a não ser que fosse chamado por quem
desceu.
- Quem toma sol em um subsolo?
Heising ouviu elevador se movimentar novamen-
te. Correu para se esconder e esperou o homem passar.
Ouviu a voz de Debret.
- Está cada vez mais chato, João, deveria interagir

176
mais comigo se vem me ver todo dia.
- Não falo com assassinos.
- Está falando agora.
- Ah, você me entendeu. Não enche meu saco.
- Aposto que tem medo de mim.
E tinha mesmo. Lembrava das vezes que acordava
de madrugada para ir ao banheiro quando criança. Tinha
uma sensação de ser perseguido por um ser invisível, que
estava prestes a atacá-lo a qualquer momento. A sensa-
ção com Debret era muito semelhante, mesmo o Kerata
estando à sua frente. Deu-lhe um empurrãozinho para
apressá-lo.
- Vamos, chega de conversa.
- Sim, sim, vamos, há surpresas no escuro.
Heising desconfiou que Debret havia percebido
sua presença ali. Decidiu esperá-lo. Sentou-se no chão
surrado e viu o tempo passar. Quando percebeu, desper-
tou com o próprio ronco. Estava cansado, não tinha dor-
mido nada. Levantou-se num salto e saiu de seu escon-
derijo. Olhou para os lados e não viu nada, apenas uma
velha luz piscando. Caminhou lentamente olhando para
o teto em busca de câmeras. Não as viu. Estranho, pen-
sou. Quando finalmente chegou à porta do elevador, es-
ticou a mão para apertar o botão, mas parou. Começou a
suar, sua respiração ficou ofegante, sua visão ficou turva,
foi escurecendo e ele tinha certeza que ia desmaiar. Ou-
viu um ruído lá embaixo.
- É só apertar o maldito botão, meu cuzinho está

177
com saudades de você.
Seria uma armadilha? Mas se ele não falou nada
até agora, por que faria isso? Não conseguia raciocinar
direito e decidiu acreditar em sua intuição. Apertou o bo-
tão de uma vez, o pânico o convencendo a sair correndo
dali. A agonia em sua mente o fazia ter vontade de es-
tourar os miolos. Queria se bater, arrancar os olhos fora,
se rasgar inteiro, se cortar, morrer… Todo aquele desejo
era incontrolável. A sensação ficou pior quando entrou
no elevador e as portas o trancaram lá dentro. O que está
acontecendo? Ouviu o sinal da chegada. Hora de descer.
Aqueles poucos segundos dentro o elevador pareciam
uma eternidade. Seu estômago estava aguado, as pernas
tremiam, sentia que ia desfalecer a qualquer momento e
mais que isso, sentia que iria sofrer eternamente pelos
erros que cometeu. Cada milímetro de descida fazia suas
vísceras sambarem de um lado a outro. Segurou o vômito
na garganta quando o elevador parou finalmente. As por-
tas voltaram a abrir, foi quase impossível descolar seus
pés do chão. Seus olhos foram primeiro. Não acreditou
no que viu. Aquele lugar era horrendo, iluminado por al-
gumas lamparinas antigas. Os tijolos estavam à mostra,
não havia reboco e tudo era sujo, alguns ratos passeavam
livremente.
- Mas.que.lugar.é.esse? - falou pausadamente.
- Meu novo lar. Viu? E você achando que estava me
tratando mal.
A voz vinha de baixo de seus pés. Quando baixou

178
a cabeça, viu um buraco no chão semelhante a um poço,
muito escuro por sinal. Ao lado, uma lanterna. Pegou e
iluminou o fundo. Debret estava lá.
- Olá, amigo! Agora que descobriu onde me escon-
dem, pode economizar sua cara de horror e ir direto ao
assunto. Não precisa ter pena de mim.
O que Debret não sabia era que o terror estampa-
do na cara de Heising não era por causa dele. Na verda-
de, Heising não sabia dizer qual era a causa, só sabia que
aquele não era o momento ideal para surtos.
- Como conseguiu sair de lá? - falou com dificulda-
de, suando frio e com as mãos trêmulas.
Debret percebeu que Heising estava alterado.
- Foi aliviar sua tensão com a heroína?
- Não, estava comendo sua filha.
Pedro se aborreceu, mas passou longe de demons-
trar.
- E a boceta dela, é bem molhadinha? Ahhh, Ag-
nes tinha uma bocetinha tão molhada, tão quentinha,
hummm.
Heising pensou por um instante: como Debret
conseguiu casar, ter filhos? Será que alguma vez ele foi
normal?
- Chega de enrolação, como saiu?
- Ora, você sabe, seu amigo me tirou de lá
- A troco de quê?
- Ah, isso você vai descobrir logo, logo.
- Como assim? O que vocês combinaram?

179
- Nada demais, negócios convencionais: você me
oferece algo em troca de outro algo. Simples.
- O que ele te prometeu?
Os risos de Deli Crucis os pegaram de surpresa bem
ali. Heising congelou. Debret gargalhou junto com Deli.
- Tem alguém com medo ou é impressão minha?
A visão de Heising foi ficando cada vez mais escu-
ra, enquanto o riso e o número três que Deli Crucis pro-
nunciava, diabólica, cresciam em sua cabeça a ponto de
explodi-la. O mundo girou e ele tropeçou sobre o próprio
corpo, caindo pesado em direção ao fundo do fundo do
poço onde Debret estava.

180
CAPÍTULO 19
HAJA LUZ

O dia amanheceu fechado, como o anterior. Um


pouco mais frio também. A cidade acordava lenta, pre-
guiçosa. Bocejos maestravam harmonicamente os vagões
dos trens lotados, os pássaros eram os únicos felizes pela
cidade, cantarolando algumas canções desconhecidas. De
repente, o trem parou. Pessoas voaram para frente. Os
carros nas ruas também pararam. Os faróis estavam em
intensidade máxima, era impossível desligá-los. As luzes
de todos os postes, cada lâmpada de cada casa, prédio co-
mercial ou residencial também acenderam. As telas dos
televisores e computadores atingiram o máximo de bri-
lho. O sol estava na terra, iluminando o cinzento céu.
- No quarto dia o Senhor Deus criou as grandes lu-
minárias do céu para iluminar a Terra. Haja luz, disse ele.
E houve luz!
Deli Crucis passou o dia repetindo esta frase entre
seus risinhos insuportáveis. O excesso de luz parou a ci-
dade. Carros não conseguiam se movimentar. Até mesmo
os celulares estavam com suas lanternas acionadas.
Eletricistas já estavam no caso. As hidrelétricas
também estavam averiguando o caso. Como estavam
conseguindo fazer isso? Cauê tinha uma ideia.
- Professor, preciso falar novamente com o senhor.
- Já está falando.

182
- O senhor disse que esta tecnologia se estrutura
como um ser vivo, orgânico, certo?
- Mais ou menos isso, mas continue.
- Se Deli Crucis realmente é uma inteligência que
integra tecnologia e DNA a ponto de se tornar humana...
- Se tornar viva, não humana, há uma grande di-
ferença aí, não a favor da humanidade, claro. Prefiro as
outras criaturas.
- Sim, sim, sim, me escute por favor…
- Estou ouvindo, um pouco entediado, na verdade.
- Se código binário é capaz de se tornar orgânico,
então o contrário também pode ser possível.
- Humm, interessante de pensar assim - o profes-
sor ficou realmente encantado com a ideia e logo correu
para a sua amada lousa.
- Me escute, prof…
- Psiu! Preciso de silêncio! - interrompeu o profes-
sor.
O professor encheu toda a lousa em poucos minu-
tos e a enorme fórmula parecia não ter fim ou resulta-
do. Sussurrava números para si mesmo, enquanto dizia
coisas estranhas. Parou, finalmente, intrigado com o que
estava diante.
- Pode ser, pode ser que funcione, é arriscado...
- O que é arriscado?
- O seu pensamento, é claro. Muito utópico, mas
igualmente mágico.
- Como assim?

183
- Ora, pense bem: se Deli Crucis consegue traduzir
a linguagem orgânica e transcrevê-la para uma lingua-
gem binária, poderíamos fazer o mesmo processo com
doenças, codificá-las e, talvez, corrigi-las. Isso é perigoso.
Pode dar certo, e pode não dar.
- Mas se Deli Crucis faz isso, então a pessoa por
trás dela fez dar certo.
- Não sabemos. Até porque esta é a nossa teoria,
não sabemos o que está dentro da cabeça de seu cria-
dor. Sem falar que IA sempre tende a ser mais esperta de
quem a criou. Ela aprende, reaprende, se organiza e re-
organiza o tempo todo. Deli Crucis pode vir a ser um ser
vivo binário, mas nunca será uma humana. Sorte a dela.
- O que quer dizer?
- Quero dizer que mesmo que queira passar o orgâ-
nico para o tecnológico a fim de fazer pequenos e grandes
reparos, na hora de fazer a transcrição de volta, aquele
ser não será mais humano em essência. Será outra coisa.
- Ruim?
- Você vai ter que invadir Deli Crucis se quiser des-
cobrir.
Cauê já sabia que deveria fazer isso. Era arrisca-
do confrontar Deli Crucis, abrir as portas do seu sistema
para ela entrar. Tudo o que estava trabalhando poderia
acabar com este ataque, mas ele deveria tentar. Sérgio
estava ao seu lado quando sentou-se diante de seus com-
putadores. O professor também estava junto, animado.
Há tempos não se entretia com algo tão incrível. Imagina

184
quem poderia estar por trás de tudo? Tinha alguns palpi-
tes, mas não queria dizer.
Cauê começou. Não foi difícil entrar no sistema de
Deli Crucis, isso ele sabia bem. Foi fácil demais. Quase um
convite. Logo que entrou, Deli Crucis se infiltrou em seu
sistema, copiou todos os seus arquivos, varreu todos os
seus projetos e copiou sua forma de segurança para se
defender, pois só assim saberia onde atacá-lo. Cauê esta-
va muito ciente disso. Era como sacrificar a Rainha para
dar cheque-mate no Rei. Sabia tudo o que estava em jogo.
Não estava ali para ganhar, estava para aprender. En-
quanto ele se infiltrava para os interiores de Deli Crucis,
ela o convidava a ir mais longe. Era tentador.
- Cuidado, isso está com cara de armadilha.
- É claro que é, e vou cair nela.
Todo o seu código estava criptografado e Cauê
não conseguia decodificá-lo. Na verdade, não precisava.
Queria apenas descobrir o padrão de seu comportamento
conforme a invadia e o encontrou.
- Fascinante - disse Cauê boquiaberto.
- Acho que está começando a se afeiçoar…
- E o senhor não?
- Desde o primeiro momento.
- Pelo que estou entendendo, Deli Crucis tem prin-
cípios básicos, como um caráter digital. É o que a faz an-
dar na linha. Isso é bom.
- Ela tem regras.
- Exato.

185
- As regras são flexíveis, mas não mutáveis.
- Ela as compensa, dependendo da situação.
- Exatamente, professor.
- Vamos, me deixe sentar aí um pouco e me diver-
tir.
O professor sentou. E quando o fez, todo o código
de Deli Crucis se modificou.
- O que é isso?
- Ela está se adaptando, sabe que não sou eu.
- Incrível - disseram juntos.
- Continue professor, mesmo mudando, ela deve
permanecer com uma base. Vamos atrás dessa base e daí
conseguimos o nosso padrão.
As horas passaram aceleradas e ambos pareciam
estar divertidamente tensos. Sérgio estava entediado,
para falar a verdade. Só queria sumir dali. Estava quase
anoitecendo quando Cauê recebeu uma mensagem.

Heising está na UTI. Debret o pegou.

Cauê sentiu-se culpado. Havia prometido o ami-


go à Debret por blefe. Nunca o entregaria, mas precisava
prometer algo ao serial killer se quisesse que ele colabo-
rasse. Como Debret o pegou? Deveria estar preso, junto à
polícia, pensou Cauê, ligando imediatamente para o dele-
gado, puto da vida.
- Como assim Debret o pegou, Delegado? Que irres-
ponsáveis são vocês?

186
- Epa, rapazinho, modos! Os federais que estão no
caso, não eu. E você sabe bem que Heising não é nenhuma
flor que se cheire. Até agora não sei como ele descobriu o
calabouço. Imagine como foi parar lá!
- Calabouço?
- É uma prisão especial para elementos de alta pe-
riculosidade aqui no subsolo, se é que me entende…
- Como ele está? - Cauê mudou de assunto, igno-
rando o Delegado.
- Mal, mas vai sobreviver.
Debret não precisou de muita pancadaria para no-
cauteá-lo. Bom médico que era, acertou apenas alguns
poucos golpes em pontos vitais. O bastante para tirá-lo
de cena por uns dias para não estragar seus planos, mas
não o suficiente para matá-lo. Só queria um pouco mais
de tempo.
- O que vão fazer com Debret?
- O que mais? Vai continuar preso! Ele estava exa-
tamente onde deveria estar. Wolfie é que foi meter o na-
riz onde não foi chamado.
- Vou acionar os médicos de minha equipe para as-
sumir os cuidados de Heising, qualquer notícia, me avise.
- Tudo bem.
Ainda mais essa, pensou Cauê. Foi quando olhou
para os lados e percebeu que Sérgio não estava mais na
sala. Saiu para encontrá-lo. Estava no jardim. Cauê se
aproximou.
- Será que um dia teremos uma vida normal?

187
- Somos gays, nunca nos deixarão ter uma vida
normal.
- Meu amor já foi menos pessimista.
- Não é pessimismo, é a realidade.
- A realidade é única para cada um de nós, meu
anjo. Sabe o que estou fazendo agora? Nesse exato mo-
mento?
- Me dando uma cantada?
- Não deixa de ser - Cauê riu - estou criando a sua
cura.
Sérgio estava descrente. Quantas vezes tinha ou-
vido aquilo? Os olhos de Cauê brilhavam feito os de um
menino apaixonado por magia. Sempre foi um menino
sonhador, talvez por causa das histórias que seu pai con-
tava para enganar seu estômago vazio da seca. O sonho o
tirou de lá e o colocou no mapa de pessoas importantes.
Mas o segredo não era o sonho, era sua capacidade de
continuar acreditando que poderia torná-lo real. Ten-
tava quantas vezes fossem necessárias, falhava quantas
vezes fossem precisas, crendo que a próxima vez sempre
daria certo. Algumas vezes dava, outras não. Com Sérgio
foi assim também. O máximo que conseguiu foi estabe-
lecer uma comunicação, mas não cansava de procurar
meios de trazê-lo de volta. Cauê estava investindo em ci-
ência, em tecnologia, em medicina e o mundo ganharia
muito com isso. Seus esforços estavam atraindo muitos
pesquisadores e cientistas de célula tronco, impressão de
órgãos, transplantes cerebrais e muitas outras esquisi-

188
tices que eram estudadas fora das câmeras e holofotes.
Deli Crucis agora sabia de tudo isso, e estava aprendendo
com todos os registros dessas pesquisas e incorporando o
necessário em si mesma. Mas o que Deli Crucis não sabia
era que o contato com o sistema de Cauê tirava pedaços
dela sem que percebesse. Ela poderia avançar mais rápi-
do, aprender mais rápido, se corrigir mais rápido.
- Mas a pressa passa e a merda fica, professor. Dei-
xe que acredite que está no comando. Deixe que aprenda,
quanto mais absorver, menos vai perceber o que deixa
para trás.
- Perfeito, perfeito.

189
CAPÍTULO 20
SÉTIMO DIA

Priscila estava nervosa. Suava frio só de pensar


naquela sala de reunião apresentando suas ideias para
Arthur e o tal investidor. Para piorar, Deli Crucis não pa-
rava de dizer “sétimo dia”aos risos. Não conseguia en-
tender como até o momento a polícia não tinha pistas
sobre ela e sobre o que estava tramando. Ou tinham e não
queriam dizer para não assustar a população. Já bastava
o “pânico das luzes”, como ficou conhecido o quarto dia.
As luzes simplesmente voltaram ao normal ao meio dia,
sem que ninguém soubesse como e onde aquilo começou.
Nem o porquê. Mas agora não era hora de cogitar possi-
bilidades sobre os terríveis assassinatos ou Deli Crucis.
Era hora de controlar o frio na barriga e enfrentar aquela
reunião. Estava tudo pronto, havia trabalhado duro, ti-
nha tudo na ponta da língua, se saísse como tinha plane-
jado, seria perfeito. Estava vestida com elegância e sem
exageros. O único toque mortal em suas vestimentas era
o seu scarpin vermelho. Quando entrou, não pode acredi-
tar no que viu. A sala estava preenchida com todos os ge-
rentes e diretores de marketing, além do senhor Arthur e
seu “importante investidor”. Esforçou-se para controlar
seus pés, que estavam apressados para sumir dali.
- Bom dia a todos. Como passaram a noite?
Sua voz não demonstrava nenhum pingo de nervo-

191
sismo. Arthur anotou isso, ela percebeu que ele escrevia
algo, mas não se deixou abalar. O equipamento de proje-
ção já estava ligado uma hora antes, na capa da apresen-
tação. Ela começou seu discurso. Trouxe um estudo do
cenário macro atual de cosméticos, trouxe referências de
outras marcas pelo mundo, o que estavam fazendo, trou-
xe uma pesquisa sobre o que esperam as mulheres dos
países emergentes, principalmente mulheres e minorias
transexuais. Essa parte foi polêmica, inclusive, alguns se
reviraram em suas confortáveis cadeiras, desgostosos.
Outros arriscaram um risinho de deboche, mas ela pros-
seguiu falando. Sua proposta afetava não só a imagem da
empresa e seu posicionamento de mercado, mas o foco
de sua produção química de produtos. Arthur ouvia tudo
com muita atenção, sem deixar escapar nenhuma pala-
vra que dizia. Aquilo incomodou alguns presentes, prin-
cipalmente à Mariana, que se mordia de ciúmes.
- Minha ideia é que comecemos já uma pesquisa
envolvendo mulheres negras e homens que gostam de
se maquiar para criarmos produtos específicos para suas
peles. Além, é claro, de já nos reposicionarmos como uma
empresa inclusiva.
- A senhorita pensou no ataque dos conservado-
res?
- Sim, pensei - respondeu ligeiramente - eles de-
verão ser respondidos e nossa posição deve ser firme, de
uma empresa inclusiva.
- E se o perdermos, a senhora pensou no que isso

192
causaria ao nosso market share?
- Na verdade eu pensei no market share que ga-
nharíamos a médio e longo prazo: um aumento de 15%
nos primeiros 5 anos. O dobro disso em 7.
- E quando começamos? - Disse Arthur, surpreen-
dendo a todos.
- O senhor é quem me diz.
- Mas Arthur, você só pode estar louco!
- Você não pode estar falando sério.
- Essa menina não largou sequer a catinga do mijo!
- Você não pode fazer uma coisas dessas!
- É arriscado demais!
- Chega todos! Calados!
Arthur se levantou. Caminhou em direção à Pris-
cila, a cortejou com a cabeça, se posicionou ao seu lado, e
começou a falar.
- Estamos há exatos trinta anos fazendo a mesma
coisa. Os senhores não sabem, mas diariamente recebe-
mos toneladas de reclamações e até processos de mu-
lheres negras e travestis. Nunca nenhum de vocês foram
capazes de me trazer uma boa ideia, umazinha sequer. É
fácil matar uma boa intenção quando vemos uma, prin-
cipalmente quando queríamos ser seus criadores. Não o
farão. O que vejo aqui é uma oportunidade. Uma grande
oportunidade. Quem não enxerga desta maneira, estão
convidados a se demitir. Não quero mais caretas dirigin-
do o meu marketing ou a minha produção. Preciso de ta-
lentos, novas ideias, precisamos inovar. Senhorita, Pris-

193
cila!
- Pois não.
- A partir de hoje você será a líder deste projeto e
irá coordenar todo o reposicionamento da empresa, além
da produção e estudos de pesquisas. Tem o poder para
contratar e demitir. Os que ficarem nesta sala, serão seus
subordinados. Ao fim, se tudo der certo como está pro-
metendo, será devidamente recompensada. E se trouxer
problemas também.
Arthur cumprimentou a todos e se retirou da sala.
Houve um tremendo silêncio. Priscila não sabia como se
comportar. Não sabia sequer se era capaz de conduzir
todo aquele projeto. Os mais velhos se retiraram, demi-
tindo-se. Ficaram seis funcionários, quatro homens ge-
rentes de marketing e duas mulheres, a contar com Ma-
riana.
Priscila delegou a todos algumas funções. Mariana
ficou responsável por contactar as empresas de pesquisa
de mercado. Roberto ficou responsável pela contratação
de agências de propaganda. Maurício ficou responsável
pela produção e fornecedores químicos. Flávia ficou com
a assessoria de imprensa e mídias sociais. Alberto traba-
lharia direto com Priscila para conseguir novas contra-
tações a fim de substituir os demitidos. Gonçalves e Jadir
ficaram de dar apoio aos demais, meio a contragosto.
Os risos de Deli Crucis acompanharam todo aquele
corre-corre dentro da empresa. Já faziam parte da rotina,
as pessoas já estavam bem acostumadas. Era quase como

194
um som ambiente. Priscila por outro lado estava muito
incomodada, seus pés correriam de seu corpo no pri-
meiro instante que tivessem oportunidade, mas aqueles
saltos atrapalhavam a fuga. Ficaram, mas sempre barga-
nhando sumiço, mesmo que temporário. Priscila resistiu,
ficou, distribuiu as tarefas e seguiu tapando os ouvidos
aos comentários. Era a nova mais odiada da empresa. Os
boatos de que estava “dando”para Arthur seguiram mais
fortes do que nunca. No grupo do Whatsapp da empresa,
memes maldosos sobre a moça eram criados a toda hora,
e uma onda de risinhos, que não eram os de Deli Crucis,
enchiam o lugar. Priscila sabia que era sobre ela. Podia
correr, não precisava daquilo, podia ir para casa, acabar
com tudo. Mas o que falariam sobre ela depois? Que não
foi mulher suficiente para aguentar o tranco? Que era
fraca? Que não aguentou a rola grossa de Arthur e saiu
correndo? Não, não. Ficaria até o fim.
- Seu Arthur, posso entrar?
- Claro Priscila, entre. Como está o andamento?
- Ah, estou com muito medo, pra ser bem sincera.
- Que bom.
- Que bom?
- Sim, não existe nada mais motivador do que o
medo.
Aquele homem era muito intrigante. Não sentia
atração por ele, de jeito nenhum. Mas havia um ar de
mistério que a deixava curiosa.
- Ou aprisionador de ventres.

195
Arthur riu.
- Mas como posso ajudar?
- O senhor falou na reunião, antes de sair, que se-
ria compensada devidamente se o projeto desse certo e
se não desse.
- Isso.
- O que queria dizer?
- Que seria promovida ou demitida.
- Direto ao ponto.
- Sempre! Algo mais?
- Não senhor, agora está tudo no lugar, vou voltar
ao trabalho.
- Priscila?
- Pois não.
- Não tenha medo de falar o que acredita, nem de
confrontar valores que desacredita, não tenha medo dos
boatos, e fuja sempre que tiver vontade, não tem pro-
blema. Desde que volte para sua mesa de cabeça erguida
e termine o seu trabalho. Nem todos os dias são bons, e
nem todos eles são maus. Saiba lidar com os dois tipos,
tudo bem?
Priscila apenas balançou a cabeça, positivamente,
e correu para sua mesa para anotar as sábias palavras. Ele
é muito novo para ser tão maduro - retrucou. Resolveu
fazer uma pesquisa sobre ele, mas não encontrou nada
além do que já sabia: um grande empresário do mundo
dos cosméticos. Nada de rede social ou informação pes-
soal. Um homem muito reservado.

196
Foi para casa mais cedo aquela noite, como há
duas semanas não ia. Preparou um banho quente em sua
banheira, jogou algumas ervas e sais de banho. Pegou um
vinho, acendeu velas e mergulhou. A água quentinha foi
relaxando cada músculo de seu corpo. Tomou um pouco
de vinho e sentiu seus ombros relaxarem. Seu sexo ficou
molhado instantaneamente sob efeito do álcool. Perce-
beu que não transava há quase um mês. Pegou seu celu-
lar, viu as mensagens de Davi. Por que não? Seria apenas
uma transa… Pensou, pensou e resolveu respondê-lo. O
moço chegou muito rápido à casa de Priscila, que sequer
acreditou que o havia chamado. Devo estar muito deses-
perada, pensou. Priscila ainda não tinha certeza se tinha
feito certo, mesmo estando a alguns passos da porta. Ago-
ra seus pés queriam fugir desesperadamente. NÃO! Sua
mente gritava para ela, que desobedeceu prontamente.
- Eu sabia que você iria me chamar algum dia.
- Convencido como sempre.
Davi entrou, já querendo roubar um beijo, mas
Priscila virou o rosto.
- Quero conversar um pouco...
- Conversar? Não parecia querer conversar quan-
do me mandou aquela foto na banheira...
- Não sei se fiz certo, na verdade.
- Como assim, Pri? Que papo é esse? Deixa disso,
me dá um beijinho, vai.
Davi se aproximou para tentar outro beijo, mas
Priscila, meio que por reflexo, se afastou.

197
- Desculpa Davi, eu não deveria ter te chamado, foi
um erro.
Davi se descontrolou, furioso. Puxou a toalha de
Priscila, deixando-a nua.
- Erro? Você disse que eu fodo mal, não é? Vamos
ver.
- Para Davi!
Davi deu-lhe um tapa na cara.
- Vagabunda!
Davi a segurou forte, abriu as calças e a penetrou à força.
- Fodo mal, não fodo, vadia? Hum? Te como mal,
né? E agora? Hum?
Deu-lhe outro tapa na cara e lhe virou de costas.
Segurou forte seus cabelos. Priscila não teve qualquer re-
ação que a defendesse, seu cérebro parecia lento demais
para processar o que estava acontecendo. Apenas espe-
rou que ele terminasse.

198
CAPÍTULO 21
TEMPO

Isabella estava arrasada, os dias tinham lhe enxu-


gado as lágrimas, mas a moça continuava inconsolável.
Clarice sequer desconfiava, acreditava que sua sinceri-
dade havia sido um grande passo de compromisso, mas
para Isabella passava longe de ser isso. Clarice estava
mais próxima, mais atenciosa, mais solícita. Puxava as-
sunto o tempo inteiro, ligava quando Isabella demorava
a responder, aparecia à casa de Isabella de surpresa para
levar um jantar diferente, para cozinhar algo especial e
Isabella estava gostando muito de todo aquele cuidado,
que mais parecia culpa do que amor. Fingiu estar bem,
fingiu ter superado aquela informação, mas Clarice sabia
que não. Estava mal por ter transado com Heising e esse
remorso, para ela, já era grande coisa.
- Está triste hoje, o que foi?
- Ah, não foi nada, coisas do hospital. Adorei o
bolo.
- Mesmo? O vô me deu uma forcinha.
- Entendi, seu Jorge fez o bolo pra você dizer que
foi você, né?
- Não, não foi assim - disse se derretendo.
- Seu telefone está vibrando.
- Não acredito! Sophia?! - gritou ao atender a liga-
ção.

200
- Minha amiga linda maravilhosa, estou voltando
para o Brasil logo mais.
- Se eu fosse você, ficava por aí mesmo.
- Oxe, por quê?
- Não tem internet na China?
- Tem, no mosteiro é que não tem.
- Ainda nem acredito que você foi pra um mostei-
ro… Fez mesmo pacto de silêncio?
- Ah, eles abrem algumas exceções, mas só temos
direito de falar com uma pessoa.
- E quem foi essa pessoa? Por que eu não recebi
ligação alguma?
- Ah, segredo, depois te conto.
- Tava aprontando com o mestre, não é, sem ver-
gonha?
- Não fala isso nem brincando, são homens consa-
grados, sua louca!
- Sophia, tu sabe quantas vezes eu te liguei e seu
celular só dava caixa postal?
- Ai amiga, não vou me sentir mal por isso. Você
sabe, eu precisava me afastar ou ia enlouquecer. Precisa-
va desse tempo.
- Eu sei… Mas quando volta?
- Daqui uns três meses, mais ou menos.
- Três meses? Mas você acabou de dizer que está
voltando!
- E estou, três meses passam rápido. Quero apro-
veitar para passear, agora que recarreguei as baterias.

201
Fazer umas compras… quer alguma coisa daqui?
- Acredito que não, mas oh, o país está um caos,
dá uma navegada na internet antes, senão você vai vir só
para se estressar.
- Pode deixar! Mas sim, deixa eu te perguntar uma
coisa… estou querendo levar umas lembrancinhas pro
pessoal da delegacia, você sabe, foram muito amorzinhos
com a gente.
- Sei…
- O que acha que devo levar pro Afonso?
- Pro Afonso, Sophia? Trás algo pro delegado.
- Ah, mas foi ele que prendeu o chupa-cabra, né?
- Tá, tá! Vou dar uma sondada.
- Tá bom, beijos.
Desligou.
- Mosteiro? Sério? - Perguntou Isabella.
- Pois é!
- Então ela desistiu mesmo do ateliê?
- Depois de todo aquele escândalo, entendo que
não queira mais. Nem eu quero mais essa vida pra mim.
- Mas o que pensa em fazer, então?
- Ainda não sei, e estou sem pressa de descobrir -
roubou o beijo de Isabella.
Isso incomodava Isabella. Queria uma mulher bem
resolvida ao seu lado, mas entendia que Clarice ainda es-
tava aos pedaços e com razão. Não é todo mundo que tem
um pai serial killer e se refaz num passo de mágica. Ela
mesma demorou para se refazer, se desvencilhar dele,

202
não poderia cobrar urgência de Clarice. Dinheiro sufi-
ciente ela tinha para se manter, se não gastasse tudo em
tequila, claro.
- Isa? - Clarice falou trazendo sua amada de volta
de seus devaneios matutinos.
- Oi?
- Eu sei que está triste comigo, decepcionada. Eu
não quero me justificar e tentar te convencer de algo. Es-
tou em falta com você, errei feio e não vou tentar justi-
ficar esse erro com o seu. Não quero cobrar você disso,
acredito que nós duas já fomos muito cobradas da vida
por isso. Mas eu quero ser feliz ao teu lado e quero te fa-
zer feliz também, do meu jeito errado.
- Obrigada.
- Pelo quê?
- Pela honestidade. Realmente estou muito desa-
pontada com você. Parece que sempre que me aproximo,
você faz questão de me ferir. Quero ficar porque te amo
muito, mas preciso respirar um pouco, preciso digerir o
fato de que transou com seu ex.
- Eu entendo. E respeito.
- Estou tentando passar por cima disso, mas não
consigo. Preciso de uns dias sem você mandando mensa-
gem ou me ligando, pode ser?
- Claro, pode sim - Clarice começou a se levantar
da mesa.
- Não precisa ser agora, né? Vamos terminar de to-
mar o café.

203
Foi difícil pra Isabella falar tudo aquilo, era quase
impossível para ela ficar longe de Clarice, mas precisa-
va sentir essa falta, resolver aquilo dentro de si mesma e
fazer Clarice perceber que suas más ações têm consequ-
ências. Não dá para ser refém de sua própria impulsivi-
dade o tempo inteiro. E na verdade, Clarice sabia muito
bem disso. Ela mais do que ninguém sabia que o espaço
do outro deveria ser respeitado. Terminaram o café e se
despediram. Clarice a abraçou por alguns segundos. Dan-
çaram devagarinho ao som de uma música que só os seus
corações ouviram. Clarice olhou Isabella nos olhos e sor-
riu. Aproximou seus lábios dos dela e sentiu o calor de
seu hálito aquecer sua alma. Uma lágrima escorregou dos
olhos de Isabella, Clarice a enxugou.
- Perdão por tudo. Eu amo você.
Foi embora. Isabella sentou em seu sofá, ligou a te-
levisão e chorou. Seu choro foi suspenso pela voz de Deli
Crucis, que cantarolava “décimo segundo dia, onde está
Kerata?”. Clarice estava dirigindo em direção à sua casa
quando a voz ecoou pela cidade. Uma segunda voz quase
a fez bater o carro.
- Onde está seu papai?
Foi a última coisa que Clarice ouviu antes de apa-
gar. Quando acordou, viu Deli Crucis lhe encarar. Como
ela podia ser tão real e tenebrosa? Parecia estar deforma-
da, tinha um rosto pálido, sem sangue e expressão. Olhos
eram negros e profundos, impossível encará-los por mui-
to tempo sem sentir arrepio. Era magricela, dedos com-

204
pridos e ossudos.
- O dragão veio te pegar.
- O que estou fazendo aqui? Me solta!
- Só se o seu papai fizer a coisa certa. Só se o Bader-
nil fizer a coisa certa. Estamos ao vivo, pequena Debret,
comporte-se.
- Não sou da política, nada tenho a ver com as cor-
rupções do país!
- Eu sei, eu sei, mas papai precisa de você.
O bafo de Deli Crucis era quente e nojento. Parecia
nunca ter descido comida por aquela goela. Clarice não
sabia explicar direito, só percebeu que teve ânsia de vô-
mito. Deu graças a Deus quando ela se afastou para cum-
primentar o país. Clarice sentiu uma pontada na cabeça,
levaria às mãos até ela se não estivesse presa, mas só con-
seguiu apertar os olhos. Quando o fez, ouviu a voz de Deli
Crucis distorcer por alguns segundos e depois voltou ao
normal.
- Queridos Baderneiros! Que saudade de vocês!
Hoje, depois de 12 dias de folga dos nossos espetáculos,
voltamos. Dei prazo de doze dias para a polícia me achar
e me entregar o Kerata, mas não foram capazes. Quan-
ta incompetência! Agora, teremos de trabalhar às claras,
porque só enxergam os que os olhos veem.
Clarice piscava e sua visão mostrava a mescla de
duas imagens diferentes quando encarava Deli Crucis.
Vomitou.
- Opa, moça, não passe mal ainda, nem começamos

205
o show.
- Federais Fedelhos Fedidos do Badernil, vocês têm
doze horas para entregar Pedro Debret ou sua filha mor-
re. Pedro Debret, agora falo diretamente a você: se pen-
sar um pouco, sabe onde me encontrar.
Heising ainda estava internado. Havia saído da UTI
e estava se revirando em ódio no apartamento do hospi-
tal quando ouviu aquela notícia.
- Eu preciso sair daqui!
- Calma, Wolfie, nós vamos resolver!
- Resolver? Não resolvemos nada até agora. Onde
está aquele maldito?
- Os federais já estão falando com ele.
- Delegado - interrompeu Afonso.
- O que é, narigudo?
- Telefone para o senhor, é urgente.
O delegado nunca tinha visto Afonso tão assusta-
do. Pegou o telefone, era o chefe da operação.
- Debret se recusa a falar. Só vai abrir o bico com
Heising. É a sua exigência.
- Puta merda.
- O que foi, delegado? - Perguntou Heising.
- Temos que tirar você daqui.
Heising tinha alguns inchaços pelo rosto rosto e
estava com quatro costelas quebradas. Não conseguia
respirar fundo ou tossir. Um espirro qualquer era como
ser torturado. Tinha dificuldades para andar e não era
por conta de suas próteses. Ainda assim, bancava o valen-

206
tão sabe-tudo.
- Onde ele está? - Perguntou Heising quando che-
gou à delegacia.
- No mesmo lugar onde te encontramos.
O delegado encarou os federais, enfurecido.
- Ele quer conversar a sós com você, sem qualquer
gravador, câmeras ou intervenção.
- Muito bem, só me levar até lá.
Um silêncio encheu a delegacia. Os homens se en-
treolharam, Heising percebeu que havia algo mais.
- O que foi? Delegado?
O delegado apenas retorceu a boca e arqueou as
sobrancelhas, piedoso.
- Ele quer matá-lo, Wolfie. Sua vida pela de Clarice.
Heising parou um instante e finalmente falou.
- Se realmente Pedro Debret quisesse me matar, já
o teria feito, não acham? Senhores, não se iludam, este
homem está brincando com vocês. Nada me fará. Vamos,
me levem.

207
CAPÍTULO 22
SONHO

A floresta continuava densa. Olhava para cima em


busca do céu e nada via além das tramas dos galhos e as
pesadas folhas que se uniam para impedir que qualquer
raio de luz descobrisse aquele lugar secreto. Ela já se
sentia melhor. Aquela criatura estava fazendo um bom
e rápido trabalho. Corria veloz para o norte e surgia no
segundo seguinte ao sul, trazendo ervas, insetos e outras
coisas que ela preferia não perguntar o que era. Ouviu
risinhos. A criatura se assustou e correu para descobrir
de onde vinha aquele som. Os risos aumentaram e pode
ouvir “doze horas”.
Deli Crucis estava ali diante de Clarice e era como
se não estivesse. Caso resolvesse piscar os olhos com for-
ça, podia ver a criatura estranha de seu sonho, ao mesmo
tempo que podia sentir suas asas. Estava sonhando? Ten-
tou acordar. Voltou para a floresta.
A criatura falou algo que ela não pôde entender,
mas que a tranquilizou. A criatura esmagou as ervas e
colocou em suas asas feridas. Sentiu arder, mas não como
antes. Até pode mexê-la.
- Lembro de ter saído daqui uma vez - falou à cria-
tura - O que houve? Por que voltamos?
A criatura emitiu um ruído estranho, parecia dizer
algo muito importante que ela nada entendeu.

209
- Tudo bem, tudo bem. Obrigada. Preciso sair da-
qui de novo. Me ajuda?
A criatura correu novamente e sumiu na densa
negritude. Voltou com algo brilhante em suas mãos. Pa-
recia uma esfera com um líquido meio pastoso dentro.
Uns fios de luz dançavam lá dentro. Ela tocou na esfera e
sentiu uma imensa dor de cabeça.
- Será que é tão importante para o seu papai que
nem sou para o meu? Ele virá, será? O que acha?
Deli Crucis aproximou-se bem de Clarice, tentando
sondar melhor seu bioritmo e mente.
- Que bagunça você é, moça. Até eu fico confusa de
entrar aí - falou tocando na cabeça de Clarice, que sentiu
seu dedo gelado.
O toque a empurrou para a floresta novamente.
- O que está acontecendo?
A criatura parecia ter as respostas, seu riso ia de
orelha a orelha, enquanto apontada a brilhante esfera
para Clarice, sacudindo-a. Os olhos dela começaram a re-
virar.
Deli Crucis se assustou. Clarice parecia ter uma
convulsão: babava, tremia, revirava os olhos. Sua pul-
sação subiu, os baderneiros se agitaram. Onde estavam
os federais que nada faziam? Matar corruptos tudo bem.
Agora, matar uma inocente não!
Clarice abriu os olhos. Estava em uma enorme sala
branca. Sentiu algo em sua cabeça. Quis levar as mãos à
cabeça novamente, e desta vez, elas obedeceram. Sentiu

210
algo arranhar seus olhos. Piscou forte e percebeu que ti-
nha algo dentro deles. Passou o dedo na córnea e conse-
guiu remover uma lente de contato. Tentou tirar a outra,
que pareceu mais grudada ao olho. Desesperou-se. Olhou
para os lados em busca de algo, e nada. Levantou-se da
poltrona, não estava presa ou amarrada. Vestia uma bata
de hospital e estava descalça. Caminhou até uma porta
cinza com uma pequena janela de vidro em sua parte su-
perior. Viu computadores, muitos. Encarou bem o pró-
prio reflexo, em agonia, arregalou o olho e puxou a lente
com força. Gritou de dor. Quando passou, girou a maça-
neta à sua frente e entrou. Escutou os risos de Deli Crucis
e viu a si mesma em um pequeno display de câmera.
- Mas o quê? - Perguntou a si mesma sem entender
absolutamente nada - Piscou forte mais uma vez, seus
olhos estavam secos. Ouviu a porta atrás de si bater.
- Ora, ora! Pela primeira vez alguém desperta do
meu sonho.
O homem foi para cima de Clarice, que se assustou
com a voz dele e instintivamente pegou aquela câmera e
a esmagou contra a cabeça dele. O homem caiu ao chão
e lhe agarrou as pernas. Clarice caiu. Ele foi para cima
dela e a enforcou. Clarice tentou esticar a mão para pegar
a câmera ali perto. Conseguiu! Logo o objeto fotográfi-
co estava derramando sangue da cabeça daquele homem
corpulento. Ele caiu para o lado, meio tonto, mas logo
recuperou a noção.
- Acho melhor você correr.

211
Clarice obedeceu.
O homem se levantou calmamente, mexeu em al-
gumas teclas de seu computador e se tranquilizou de ver
Clarice sendo torturada por Deli Crucis em rede nacio-
nal. Ficou intrigado, mas deixou para procurar respostas
depois. As portas da grande sala eram camufladas, todas
brancas, difíceis de achar.
- Muito bem, moça, foi boa a diversão, mas preciso
que volte a sonhar - disse desbloqueando uma arma.
- O que você quer? Como posso estar aqui e lá ao
mesmo tempo?
- Ah, se eu te contar, perde toda a graça - apontou
a arma para ela.
- Espera!
Clarice achou uma porta, sentiu a maçaneta em
suas costas. Subia a mão devagar para puxá-la.
- O quê? Quer chamar alguém pra vir te salvar,
princesa?
- Não. Hoje eu me salvo sozinha!
Clarice abriu a porta e correu. O homem correu
atrás dela. Estava em uma imensa fábrica velha, para-
da. Não conseguiu identificar de quê, e nem tinha tempo
para isso. Escondeu-se debaixo de uma imensa máquina.
O homem apareceu em seguida, estava puto da vida.
- Eu vou achar você, putinha. E não vai ser nada
legal.
Clarice tapou a boca com as mãos para não ter uma
crise de choro. Apertou forte o nariz para que sua respi-

212
ração não a entregasse. Viu os sapatos dele diante dela,
eles andaram de um lado a outro e ficaram de frente.
- Droga! - o homem gritou esmurrando a máquina.
Clarice estremeceu, um espasmo que a dedurou. O
homem então percebeu que ela estava ali, bem ali. Aga-
chou-se devagar, rindo.
- Achei você!
Ele a puxou pelos cabelos e a tirou dali. A ergueu
pelo pescoço, emputecido e prestes a matá-la. Clarice
deu-lhe um chute no saco e caiu no chão. Levantou-se
rápido e disparou correndo.
- Socorro! - gritou.
O homem correu atrás dela, apontando a arma,
mas Clarice era esperta, não corria sem dar pequenos
desvios para os lados para dificultar a mira. Foi jogan-
do atrás de si tudo o que encontrava pelo caminho, até
que chegou a um imenso muro sem saída. O homem se
aproximou, rindo. Apontou a arma e disparou. Clarice se
jogou no chão antes que a acertasse. Ele ficou fora de si,
se aproximou, a agarrou pelo cabelo e lhe deu um soco na
cara. Clarice se sentiu tonta. Ele a pegou pelos cabelos e a
jogou longe. Puxou outro tranquilizante para recarregar
a arma. Clarice percebeu e se jogou sobre as pernas dele,
a fim de derrubá-lo. Deu-lhe outro soco. Clarice quase
desmaiou.
- Agora chega, mocinha, estou cansado de você.
- Eu também.
Clarice enfiou o tranquilizante na perna do ho-

213
mem com toda a força que tinha. Ele caiu de joelhos.
- Você não sabe o que fez, estragou tudo.
Caiu de cara no chão. Clarice chorou. O sangue
escorria por seu rosto. Tentou se levantar e mexer nos
bolsos daquele homem estranho. Achou um crachá, mas
nada de celular. Também achou outros tranquilizantes e
aplicou-lhe mais um, só por garantia. Levou os outros e
foi atrás de uma saída, mas as portas eram, camufladas.
Clarice começou a passar o crachá na parede por todos
os lados, mas nada. O muro era muito alto, tentou subir,
mas não tinha onde se segurar por muito tempo. Impos-
sível. Voltou para a sala onde estava e tentou passar o
crachá por toda a parede também até que uma luz verde
apareceu, seguido de um rápido beep. Uma porta abriu.
Clarice não pôde acreditar no que viu: um imenso salão
onde Balel Pemer, Vilma Pousself, Lulo, Tapuardo Punha,
Marcelo Odeibrecha, Jocresley e Sérgio Boro estavam
deitados em confortáveis poltronas, olhos arregalados, a
íris branca feito leite.
- Ai meu deus!
Clarice correu ao encontro deles. Foi de poltrona
em poltrona tentando acordá-los. Não estavam presos ou
amarrados. Simplesmente estavam sem reflexo, em um
estado vegetativo. Não interagiam ao estalar dos dedos
de Clarice perto de seus olhos leitosos.
Clarice tentou se acalmar, foi quando escutou uma
porta bater.
- Acaba de causar uma grande confusão, senhorita

214
Debret. Está confundindo Deli Crucis e ela não gosta ne-
nhum pouco disso.
A voz era diferente do homem desmaiado lá per-
to do grande muro. Não conseguiu ver seu rosto, parecia
usar um tipo segunda pele. Ele começou a colocar luvas,
depois tirou um pequeno frasco do bolso enquanto bal-
buciava algumas palavras sobre ensinar uma lição ao Ba-
dernil. Clarice não prestou atenção em nada, só pensava
em um jeito de sair dali. O homem perfurou o frasco com
uma seringa, e preencheu o vazio dela rapidamente. Jo-
gou o frasco vazio fora, deu um tapinha na seringa e deu
passos lentos em direção à Clarice, a fim de assustá-la.
Quando finalmente se aproximou o suficiente para fazer
Clarice suportar seu hálito, alarmes começaram a soar.
O homem mascarado não se assustou. Apenas guardou
a seringa, se despediu de Clarice e saiu, trancando-a lá
dentro.
- Um momento, senhorita, Debret. Vamos conti-
nuar isso aqui outra hora. Já volto.

215
CAPÍTULO 23
ASAS

A sala branca tinha duas grandes caixas de vidro.


Uma estava Clarice. A outra estavam Jair Tontonauro,
Marco Fodilianus, Aécio Blefes, Antônio Pagocci, José
Forceu, Renan Sarreiros, Nestor Cerbocó, Aulerdo You-
sself, Sérgio Mobral e Declínio Amaral. O teto era feito
de longos e espessos pregos, que desciam ao encontro de
suas cabeças a cada segundo. Os homens gritavam entre
si, acusavam uns aos outros, inclusive falavam novos no-
mes de pessoas envolvidas na Lava Babo que ainda não
tinham sido descobertas. Tontonauro e Fodilianus argu-
mentaram que não estavam envolvidos, de que não fazia
sentido estarem ali.
- Queridos Baderneiros! Já se passaram seis horas
desde que a doce senhorita Debret está aqui e nada de
seu pai aparecer para salvá-la. Claro, ela não é importan-
te para o Governo, que morra! Então, deixemos as coi-
sas mais quentes a partir de agora. A cada milésimo de
segundo, o teto das duas caixas irá baixar. Se o Kerata
não aparecer, todos morrem. Se o Kerata aparecer, só os
ladrões de terno morrem.
- Nãoo.
- Espere!
- Eu posso pagar.
- Me tira daqui.

217
- Eu nunca fiz parte da Lava Babo - disse Tontona-
ro.
- Mas fez coisas muito piores - respondeu Deli Cru-
cis com rispidez - e é melhor se calar se não quiser que eu
levante suas saias em rede internacional.
Jair se calou. Por pouco não se mijava, precisou fa-
zer força para segurar a urina. Os demais continuaram se
debatendo contra o vidro. Clarice estava parada e apáti-
ca.
- O que faremos agora, hein, federais? O que fare-
mos? - Perguntou o delegado, autoritário, mas ninguém
respondeu. - Eu digo o que faremos: Heising, chispa da-
qui, vai falar com aquele chupa cabra já! Afonso: rastreie
todos os excessos de energia no país e mande arrombar
esses lugares! E vocês, seus fedelhos fodidos federativos:
saiam da minha sala já, bando de inúteis!
Correram de lá, todos. Inclusive Bernardo, o dele-
gado federal.
- E tu, o que faz aqui me encarando?
- Café, senhor, já com açúcar.
- Finalmente uma coisa que preste. Sai, sai, sai.
Vou começar colocar essa caralha no lugar e quero ver
quem vai me impedir de pegar esse safado.
Heising foi levado até Debret, que estava no mes-
mo lugar, cantarolando uma das canções composta por
seu pai. Tinha saudade dos velhos tempos e às vezes se
imaginava em casa, com Agnes. Se não tivesse experi-
mentado o prazer de tirar a vida de alguém pela primeira

218
vez, talvez tivesse resistido à tentação e hoje estaria feliz
com sua mulher e filhos. Onde andaria Henry? Tinha sau-
dades daquele moleque, de Katherine.... Ah, Katherine,
que cheirosos eram os seus cabelos! Que belas eram as
suas curvas! Que doce era o seu amor! E se foi. E se foi…
- Debret! - A palavra o sugou de seus românticos
pensamentos. Fechou os olhos e os abriu rapidamente,
seguido de um longo suspiro, se esforçando para contro-
lar a raiva. - Heising está aqui.
Uma boa notícia, finalmente - pensou.
- Meu querido lobinho de uma alcateia de um só,
como está? Juro que eu tentei não causar tantos estragos.
Heising sabia que tinha merecido cada pancada,
achou que o serial killer tinha pegado leve demais, na
verdade. Tinha algum motivo para isso.
- Por favor, pode nos deixar a sós agora.
- Tudo bem, vou esperá-lo do lado de fora. Qual-
quer coisa, estarei por perto para socorrê-lo.
Debret riu ao ouvir aquilo.
- Ah, não fale bobagens, vou me comportar - disse
Debret com sarcasmo.
- Tudo bem, pode ir. Te chamo se necessário.
O funcionário partiu, aliviado. Aquele lugar dava
arrepios.
- Esse lugar é mesmo muito interessante, não
acha?
- Vamos ao que interessa, Debret, não temos tem-
po para conversinhas.

219
- Não, mas aposto que quer saber porque não te
matei.
E queria mesmo, estava se corroendo por dentro.
- O que o Cauê te prometeu? Por que ele te soltou?
Por que veio aqui se entregar e não falou nada... do que
fiz a você - falou depois de uma breve pausa.
- Já ouviu aquele ditado: uma hora da caça, a outra
do caçador? Acredite se quiser, mas não tenho ressen-
timentos. Minha mãe me disse que eu merecia, e minha
mãe sempre foi uma mulher sábia. Sou um monstro, Hei-
sing, fui criado para ser um. E você também.
- O quê?
- Eu te observo desde moleque. Lembro como se
fosse hoje daquele dia que você sufocou um gato até a
morte só porque ele miava demais.
Heising se lembrou perfeitamente daquela sensa-
ção de estrangular o gato, mas nada disse.
- Até quando vai negar?
- Negar o quê? - Engoliu a seco, com medo.
- Que é igual a mim?
- Acha mesmo que vou cair nesse papo? De que sou
como você? Não confunda as coisas, Debret! Te torturei
porque você merecia! Não saio matando pessoas por aí,
aleatoriamente.
- Opa! Aleatoriamente não! Sou muito criterioso e
não é qualquer um que vai para minha mesa.
- E por que me quer nela?
- Você? - riu - Na minha mesa? Ah, meu querido,

220
não tem talento para isso. Seu talento é para outra coi-
sa…
- Sua filha vai morrer! E você fica aí fazendo jogo
de palavras! - Heising ficou impaciente, estava nervoso
de estar ali, aquele lugar lhe dava náuseas e despertava
lembranças da última vez que esteve ali.
- Acha mesmo que ligo para Clarice? Que dou bola
pra esse serial killerzinho de meia tigela? Isso tudo não
passa de uma farsa! Clarice não vai morrer.
- Como pode ter tanta certeza?
- Porque sei bem quem está por trás disso tudo.
Heising ouviu o som do elevador descer.
- Senhor, o delegado mandou chamar você. É a Cla-
rice, ela está aqui.
Heising correu mais rápido que suas pernas. Suas
costelas reclamando de dor. Encontrou Clarice na sala do
delegado, suada, suja e muito nervosa. O delegado estava
a sós com ela, o restante da delegacia estava com os olhos
grudados em sua sala. Heising entrou e abraçou Clarice
apertado.
- Tive tanto medo de te perder! Como saiu de lá?
Como chegou aqui?
Olhou para a televisão, sem acreditar. Caminhou
lentamente, o delegado o acompanhando com os olhos.
Seu queixo caiu, surpreso.
- Como pode ser?
- Não sei, Wolfie, não sei.
Clarice ainda estava lá, dentro da caixa de vidro.

221
Heising se virou para Clarice, chegou perto e começou a
perguntar se ela lembrava de alguma coisa, se tinha vis-
to algo diferente, notado algo estranho, qualquer detalhe
que pudesse lhe dar uma pista, um norte naquela investi-
gação que não saía do lugar.
- Teve uma coisa estranha que Deli Crucis me dis-
se…
- O quê?
- Ela disse que o dragão viria me pegar…
- Faz algum sentido?
- Dragão…
A mente de Heising acelerou ao máximo, começou
a passar os vídeos anteriores em sua cabeça… julgamento,
sete mortes, doze dias de pausa, doze horas, seis horas...
dragão. Chegou mais perto da TV e viu Jair Tontonaro e
Marco Fodilianus.
- Eles não estão envolvidos na Lava Babo, delega-
do.
- Não estão, eu sei, não faz o menor sentido.
- Na verdade, faz todo o sentido. Onde está a Bí-
blia?
- Como é que é?
- A bí-blia, delegado!
- Eu entendi, mas pra que diacho você quer a bí-
blia?
O delegado tirou da última gaveta de sua escriva-
ninha uma empoeirada Bíblia de capa marrom. Heising
espirrou quando a abriu.

222
- Desculpa, foi presente da minha mulher, nunca
usei.
Heising começou a folhear o livro, apressado.
- Aqui, Apocalipse!
- Apocalipse?
- Sim, algumas vezes quando as vítimas questiona-
ram que ela era, Deli Crucis respondeu: “o seu julgamen-
to”. Foram sete dias ininterruptos de mortes. Capítulo
sete. Aqui! Doze dias de pausa, versículo doze. Aqui, leia.

“Dizendo: Amém. Louvor, e glória, e sabedoria, e ação de


graças, e honra, e poder, e força ao nosso Deus, para todo
o sempre. Amém.”

- É isso mesmo? Não faz o menor sentido.


- Tenta o contrário - disse Clarice - cápitulo 12,
verso 7.

“E houve batalha no céu; Miguel e os seus anjos batalha-


vam contra o dragão, e batalhavam o dragão e os seus
anjos”.

- Mas o que diacho isso quer dizer?


- Dragão e seus anjos? Quem é esse dragão?
- Debret?
- Ele disse que o dragão iria te pegar, certo?
Clarice balançou a cabeça, afirmando.
- Ah, não vou ficar aqui esperando. Afonso!

223
- Sim, delegado - falou Afonso ao entrar na sala.
- Traga os melhores teólogos deste país aqui, já!
- Leia o resto, menina Clarice, leia o resto, vá - dis-
se o delegado à Clarice, que continuou a leitura pronta-
mente.

7 E houve batalha no céu; Miguel e os seus anjos batalha-


vam contra o dragão, e batalhavam o dragão e os seus
anjos;

8 Mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou


nos céus.

9 E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente,


chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo;
ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lança-
dos com ele.

10 E ouvi uma grande voz no céu, que dizia: Agora é che-


gada a salvação, e a força, e o reino do nosso Deus, e o po-
der do seu Cristo; porque já o acusador de nossos irmãos
é derrubado, o qual diante do nosso Deus os acusava de
dia e de noite.

11 E eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela pa-


lavra do seu testemunho; e não amaram as suas vidas até
à morte.

224
12 Por isso alegrai-vos, ó céus, e vós que neles habitais.
Ai dos que habitam na terra e no mar; porque o diabo
desceu a vós, e tem grande ira, sabendo que já tem pouco
tempo.

13 E, quando o dragão viu que fora lançado na terra, per-


seguiu a mulher que dera à luz o filho homem.

14 E foram dadas à mulher duas asas de grande águia,


para que voasse para o deserto, ao seu lugar, onde é sus-
tentada por um tempo, e tempos, e metade de um tempo,
fora da vista da serpente.

15 E a serpente lançou da sua boca, atrás da mulher, água


como um rio, para que pela corrente a fizesse arrebatar.
16 E a terra ajudou a mulher; e a terra abriu a sua boca, e
tragou o rio que o dragão lançara da sua boca.

17 E o dragão irou-se contra a mulher, e foi fazer guer-


ra ao remanescente da sua semente, os que guardam os
mandamentos de Deus, e têm o testemunho de Jesus Cris-
to.

Clarice lembrou de seu sonho e de que nele, ela


tinha asas.

225
CAPÍTULO 24
CONFISSÃO

Priscila se sentia suja. Tomou vários banhos, es-


fregou uma esponja de banho sobre a pele até se machu-
car. Não conseguia acreditar no que tinha acontecido, ao
mesmo tempo em que se culpava por ter chamado Davi
para ir até sua casa. Não deveria ter feito isso. Estava ma-
chucada, mal conseguia sentar ou urinar. Tudo ardia, in-
clusive sua alma. Queria morrer! Logo agora que estava
tudo indo tão bem. Por que ela? O que faria? Dormiu de
estresse e de tanto chorar. Quando acordou, mal pôde se
reconhecer no espelho. Ligou para Arthur. Avisou que
não iria trabalhar aquele dia. Ele não gostou nenhum
pouco de ouvir aquilo, mas percebeu que a moça estava
encrencada.
- Posso te ajudar em algo?
Priscila se desmanchou em lágrimas ao telefone.
- Onde você está?
- Não precisa, desculpa, amanhã eu vou para a em-
presa.
Desligou. Logo, seus colegas de trabalho estariam
falando que ela arregou, que não aguentou o tranco, que
Arthur arranjou outra, que ela percebeu que não tem
competência para o trabalho e pediu demissão. Arthur
não deixou por menos. Foi atrás da moça, o motivo ele
não sabia exatamente. Mas estava preocupado, aquele

227
choro lhe soava familiar.
Priscila foi à contra gosto para a delegacia da mulher, en-
frentar um longo interrogatório sem sentido.
- A senhora pode repetir novamente onde ele pe-
netrou primeiro? Ânus ou vagina?
- Vagina! Quer dizer, ânus, ânus, mas que merda!
Quantas vezes eu vou ter que dizer isso?
Priscila se tremia só de olhar para a cara da poli-
cial, que continuou o absurdo interrogatório.
- E a senhora lembra a espessura do pênis?
- Mas que pergunta é essa?
- É uma pergunta padrão, senhora, pode respon-
der por favor.
- Era grosso, uns 4 ou 5 centímetros.
- Tem certeza?
- Sim, ele era meu namorado!
- Ah, então ele era o seu namorado?
O olhar da policial era de desconfiança. Até cerrou
os olhos para encarar Priscila melhor, como se estivesse
prestes a detectar alguma mentira.
- Sim, ele foi e não justifica o fato de ele ter me es-
tuprado.
- Onde foi isso?
- Na minha casa.
- E como ele entrou lá?
- Puta merda! Que inacreditável! Você está que-
rendo dizer que eu estou mentindo? Faça um maldito
corpo de delito em mim, sua vadia!

228
Priscila perdeu a paciência, pulou no pescoço da
policial, puxou os seus cabelos e lhe arranhou a cara. Ou-
tros policiais entraram para separar. Priscila foi presa
por desacato. Não queria ligar para ninguém de sua fa-
mília, não queriam que soubessem. Estava com nojo de
si mesma e depois de falar com a policial, se sentia mais
culpada do que tudo. Ligou para Cauê e contou tudo o que
aconteceu.
- Priscila, calma, me escuta, você não tem culpa.
- Eu chamei ele pra minha casa, Cauê, eu que cha-
mei.
- Chamou para ter uma relação consentida. Isso é
estupro o que ele fez é estupro, é crime e o Davi está fodi-
do comigo!
- Não, Cauê, não quero que faça nada, só quero que
me ajude a sair daqui. Eu bati na policial porque ela esta-
va me fazendo perguntas nada a ver, não me ouviu, não
levou meu estado em consideração, me tratou como se eu
fosse um lixo - terminou a frase aos prantos.
- Calma, Pri, agora eu estou em Hong Kong com
Sérgio, mas vou ligar pro Roberto, meu advogado, e ele
vai te tirar daí o quanto antes. Quando ele chegar, ele te
ajuda a registrar a denúncia. Vou falar com um amigo
que é juiz para providenciar um mandado de prisão.
- Não, Cauê, deixa para lá. Eu não quero fazer isso.
- Mas Pri, ele precisa pagar pelo que fez.
- Tudo bem, tudo bem - não tinha forças para con-
trariar.

229
- Me fala a delegacia que você está, vou ligar agora
pro Roberto..
Roberto era muito bem pago para chegar à delega-
cia em poucos minutos. Logo a intimação chegaria a Davi,
que estava certo de que Priscila não contaria a ninguém
sobre o ocorrido. Repassou aquela cena na cabeça diver-
sas vezes, como pode? Era uma questão de mostrar quem
manda! Como assim eu fodo mal? Refletiu tentando se
justificar, mas se sentiu arrasado em seguida. Parecia ou-
tra pessoa fazendo aquilo, não ele. Resolveu encontrar
Priscila para se desculpar. Chegou à casa da moça ao mes-
mo tempo em que Roberto abriu a porta do carro para ela
descer.
- E pensar que há poucas horas estava fodendo co-
migo… não aguentou esperar e já correu pra trepar com
outro?
Roberto saiu do carro, até aquele momento Davi
não tinha visto o seu rosto. Reconheceu o advogado as-
sim que o viu e estremeceu até o último fio de cabelo.
Correu e se ajoelhou aos pés de Priscila.
- Meu amor, por favor, não faça nada, me perdoe,
eu não tive a intenção - Levantou-se e a encarou, segu-
rando seu rosto entre as mãos - Olha pra mim, meu amor,
eu só me empolguei, você gosta de um sexo selvagem,
lembra?
- Meu amor não! Pra você é minha linda, minha
flor, ou apenas Pri.
Priscila o driblou e acenou para o porteiro abrir o

230
portão. Davi tentou seguí-la, mas Roberto o puxou firme
pelo braço.
- Acho melhor entrar no carro, Davi. Temos muito
o que conversar, me poupou muito tempo vindo até aqui.
Davi só conseguiu obedecer, sabia que estava mui-
to encrencado. Cauê não pensaria duas vezes em ordenar
seu advogado a dar-lhe uma boa surra. Era seu amigo,
mas estava convicto de que havia passado dos limites.
Para a sua surpresa, o advogado apenas o levou à delega-
cia para prestar depoimento. Não tocou em nenhum fio
de seus loiros cabelos.
- Ela que me chamou, eu estava na minha, ela que
me chamou e quando cheguei lá, ela começou a dizer que
não queria. Eu achei que ela estava fazendo joguinho, a
gente namorou por muitos anos e ela sempre fazia isso
quando queria algo mais selvagem. Eu apenas fiz o que
fazíamos sempre, eu não entendo, não entendo mesmo
porque ela está dizendo isso de mim, pode puxar minha
ficha, eu não tenho nada, as pessoas me conhecem, sabem
que a gente namorou e eu sempre quis terminar com ela.
Deve ser isso, só pode ser isso.
- Rapaz, se acalme, está falando disparado feito
uma metralhadora. Vamos resolver isso. Então eram na-
morados?
- Sim, sim.
- Costumavam fazer esse tipo de jogo de casal,
onde ela dizia que não queria transar e você forçava um
pouco?

231
- Exato, a gente fazia isso direto e a Pri sempre
gostou de… você sabe… apanhar.
- Entendo. Mas em algum momento ela não gostou
do que você fez. Não pediu para parar?
Davi encarou o chão e lembrou dos gritos de Pris-
cila.
- Pediu. Pediu sim, mas eu achei que fazia parte da
brincadeira.
- Ela desmaiou em algum momento?
Davi lembrou de Priscila desacordada.
- Não, ela estava consciente o tempo todo.
- Está ciente de que faremos corpo delito na moça
logo mais?
- Não, não senhor.
- Se você começar a falar a verdade agora pode ter
a sua pena minimizada?
- Como assim?
- Se confessar o que fez, podemos negociar um
acordo com o juiz.
- Mas eu não fiz nada! Foi uma transa normal de
sempre, ela está fazendo drama! Roberto! Me ajuda aqui!
- Estou aqui pela senhorita Priscila, não por você.
- Então eu quero meu advogado, não responderei
mais nada.

232
CAPÍTULO 25
SEQUESTRO

Até ali, todo o sistema de Cauê estava infectado por


Deli Crucis e era irreversível. No entanto, a perda trouxe
um imenso ganho, não só para ele, mas para todos.
- Deli Crucis precisa de um hospedeiro humano
para se projetar e evoluir. Sua parte orgânica não é ape-
nas código, conversão de código, mas um implante den-
tro de um organismo vivo.
- Isso!
- Ela copia os processos orgânicos e replica em si
mesma, é uma espécie de imitação humana, mas sem a
base orgânica ela volta ao estágio inicial.
- Um mero holograma.
- Genial, professor. Precisamos voltar ao Brasil.
- Precisamos? Eu não posso.
- Não só pode como deve, professor; tem muito ta-
lento pra ficar diante de alunos.
- Eu gosto do que faço.
- Ainda não entendeu, professor? Estamos diante
uma tecnologia revolucionária.
- Eu estou ciente, mas não quero sair por aí curan-
do doenças para os Sapiens viverem mais e se multiplica-
rem mais pela Terra feito insetos.
- Entendo que pense assim e não discordo. Mas
não falo de curar doenças, falo de corrigir DNAs, falo de

234
uma seleção “natural” de DNAs com as melhores caracte-
rísticas da espécie.
- Hum, continue...
- Imagine as próximas gerações que nós podemos
escolher, combinar, uma geração ligada ao planeta, que
vai cuidar, não destruir.
- E DNAs com tendência ao desmatamento, arro-
gância, destruição….
- Eliminamos.
- Me convenceu, vou pra minha casa fazer as ma-
las, onde encontro você?
Cauê não tinha intenção de fazer nada disso, mas
precisava do professor e conhecia bem as suas ideias so-
bre controle de natalidade. Disse o que ele queria ouvir
para convencê-lo a ir junto. Apesar que seu discurso não
era impossível de ser realizado.
O voo de volta ao Badernil foi turbulento, e Cauê
precisou dopar o professor para mantê-lo calmo. Dormiu
a viagem quase toda, e quando acordou, já perto de pou-
sar, vomitou até o que não tinha comido. Odiava voar,
detestava a vulnerabilidade de estar na mão de um pi-
loto que se cometesse qualquer erro, o mataria. Quando
chegaram, Deli Crucis já tinha apresentado suas caixas
de vidro ao Badernil, dando mais seis horas para o Kerata
aparecer. Cauê correu para delegacia assim que viu a no-
tícia. O professor foi junto, nauseando em seu encalço.
Quando chegaram, viram Heising e Clarice na sala do de-
legado. Afonso os pediu para esperar e perguntou se não

235
queriam adiantar o assunto, mas Cauê insistiu em contar
apenas para o delegado. Sabia que podia contar para os
federais, mas tinha muita empatia pelo delegado desde
o incidente com o roubo do silicone de Priscila. Quando
Afonso entrou na sala do delegado para avisar que Cauê
o esperava, Heising tremeu na base só de imaginar reen-
contro com o amigo, mas se manteve calmo, disfarçou
bem seu nervosismo. O delegado ordenou que entrasse,
mas enfatizou a Afonso que conseguisse os teólogos ime-
diatamente.
Assim que entrou na sala, Cauê perguntou como
era possível Clarice estar ali, ao lado de Heising, ao mes-
mo tempo em que estava dentro de uma caixa de vidro
correndo risco de morte. O delegado o interrompeu e se
impôs.
- Estão transmitindo uma gravação?
- Hey, rapazinho, quem faz as perguntas aqui sou
eu.
- Desculpa, delegado.
- O que veio fazer aqui?
- Invadi o sistema Deli Crucis.
- Invadimos - corrigiu o professor.
- E esse quem é?
- Meu professor, quer dizer, ex-professor. Aconte-
ce que há alguns dias eu percebi uma assinatura no códi-
go de Deli Crucis e a reconheci.
Heising retorceu a boca, lembrou-se dos dois tra-
balhando até tarde na casa de Cauê. Então ele mentiu pra

236
mim, descobriu algo e não me contou, pensou.
- Era minha assinatura - disse o professor.
- Então é você que está por trás disso tudo?
- Não, delegado, ele é professor de inteligência ar-
tificial em Hong Kong, na melhor Universidade em tec-
nologia do mundo.
- Provavelmente um aluno.
- Mas sabe quantos alunos brasileiros passaram
pela minha sala?
- Imagino que temos os federais para descobrir.
Afonso, mande os agentes entrar.
- E o delegado, delegado?
- Quê?
- Bernardo, o delegado federal…
- Deixe ele de fora, só mande entrar os policiais.
- Delegado… - falou em tom de alerta - o senhor
tem certeza?
- Oxe, deixe de intimidade comigo, cabra! Faça
logo o que estou mandando! Quero mostrar quem manda
nesta geringonça.
Os policiais entraram e logo foram atualizados.
Cauê contou tudo o que tinha descoberto enquanto es-
tava em Hong Kong, contou partes da invasão ao sistema
de Deli Crucis, apenas o que lhe cabia. O professor perce-
beu que ele não entregou tudo o que sabia, achou sábio.
Quando finalmente ficaram na mesma página, o delegado
pediu que os policiais começassem a investigar os brasi-
leiros formados e formandos da Universidade dos últi-

237
mos cinco anos.
- Cinco anos?
- Isso, só comecei a dividir minha assinatura com
meus alunos uns cinco anos atrás.
- Não acha que pode ser uma armadilha, delegado?
- Questionou Afonso e Heising o respondeu, rompendo
seu estranho silêncio.
- Com certeza é uma armadilha. Ou este sujei-
to quer ser encontrado. Sabe que outro serial killer fez
questão de ser encontrado?
- Debret - disse Clarice.
- Então é por isso que ele o quer... - raciocinou o
delegado.
- Mas pra quê?
- Debret acha que ele quer entrar para sua coleção
de cérebros; desconfio de que ele está certo - disse Hei-
sing, com certa arrogância, sem encarar Cauê.
- Mas por que diabos ele quer ter o cérebro arran-
cado?
- Psicopatas não pensam como nós...
- Como nós? - interrompeu Cauê com ironia, dan-
do um risinho de deboche. O delegado fisgou algo errado
no ar e percebeu que havia algum atrito entre os amigos.
- Sim, como nós - falou com firmeza - eles pensam
diferente e na verdade, Deli Crucis só quer se aposentar
em paz, como queria Pedro Debret. Por isso expôs seus
crimes feito obra de arte, para que a polícia finalmen-
te a descobrisse e a pegasse. São orgulhosos, querem ser

238
reconhecidos pelo seu trabalho. Deli Crucis chama tudo
isso de espetáculo, não é? Pois é mesmo um espetáculo, e
com plateia para chamar a atenção. Ela quer ser pega. E
pelo que Cauê nos falou agora e pelo fato de termos Clari-
ce em dois lugares ao mesmo tempo, acredito que aquilo
ali - apontou para a TV - é só projeção.
- Clarice!
- Oi.
- Você disse que viu os mortos bem vivos em uma
sala, certo? Vilma, Lulo, Boro, todos estavam de olhos
abertos, com lentes de cor branca e sem qualquer reação
ao exterior, certo?
- Sim, eles pareciam dormir.
- Cauê disse que Deli Crucis precisa de um hospe-
deiro para reproduzir os processos orgânicos, certo?
- Certo - respondeu Cauê.
- Então, senhores - disse o professor, como se es-
tivesse diante de uma sala cheia de alunos sedentos por
conhecimento - estamos diante de uma inteligência ar-
tificial que projeta fantasias mentais em seus reféns. Só
não entendo é como e por que Clarice se desconectou fisi-
camente, mas sem se desconectar mentalmente. A men-
te dela ficou lá, alguns pedaços, claro, porque ela está…
droga!
- O que foi?
- Clarice pode ser um cavalo de troia.
Cauê arregalou os olhos, mas antes que pudesse reforçar
a ideia do professor, Heising o respondeu.

239
- Acredito que não, professor. Um cavalo de Troia
é muito bem elaborado e pelos relatos de Clarice, não es-
tavam esperando por isso. Clarice estar aqui é um erro,
mas concordo com você em uma coisa - parou para fazer
seu tedioso suspense.
- O quê? - perguntou Afonso, como se estivesse no
cinema.
- Clarice é um bug, uma porta de entrada para os
dois lados.
- Então você acha que Deli Crucis pode estar nos
vendo aqui e agora.
- Sim, e podemos acessar o seu sistema por meio
de Clarice.
- Não! Isso é absurdo!
- Por quê?
- Porque ao acessar o sistema de Deli Crucis eu per-
di todo o meu sistema, projetos, tudo! Se usarmos Clarice
como acesso, Deli Crucis poderá fazer o mesmo com ela,
e acabar com toda a sua memória. É isso o que quer?
O delegado tossiu alto para interromper a tensão.
- Ninguém vai apagar a memória de ninguém. É
o seguinte, sendo curto e grosso: as mortes então não
aconteceram. Estas aí da tela também não vão acontecer.
E o crime que temos de resolver é um grande e fodido se-
questro. Vamos, mãos à obra. Clarice, me leve até o lugar
onde você escapou. Ligeiro!

240
CAPÍTULO 26
RECUPERAÇÃO

Faltavam poucos minutos para que os pregos per-


furassem as cabeças dos indivíduos dentro das caixas de
vidro. O Badernil estava em êxtase assistindo ao massa-
cre.
Clarice sabia bem o caminho até lá, era um galpão
no meio do nada. Quando chegaram, a única coisa que
tinha no lugar era o breu e as caixas de vidro que tenta-
ram, em vão, arrebentar. O Badernil presenciou a tenta-
tiva da polícia em resgatar os reféns.
- Tem certeza mesmo de que isso é só fantasia,
Professor? Porque pra mim parece muito real… - admitiu
o delegado, em desespero.
Quando os pregos desceram mais alguns centíme-
tros, o urro foi uníssono. Parecia uma sinfonia de dor e
lamento. Quanto mais abaixavam, mais os afiados pregos
adentravam na cabeça dos reféns, inclusive na cabeça de
Clarice. Para ela foi uma tortura ver a si mesmo sendo
massacrada, esmagada. O sangue esguichou por toda a
caixa, alguns morreram na hora, outros agonizaram um
pouco mais. Deli Crucis apenas sorriu e perguntou: quan-
tos precisarão morrer até que me entreguem o Kerata?
- Tragam, Debret, repito, tragam Debret. Rodovia
137, quilômetro 28 - acionaram na rádio.
Colocaram Debret em uma camisa de força e o le-

242
varam para o local, às pressas. Quando chegaram, todo
o teto já estava no chão, coberto de uma nojenta sopa
de sangue. Deli Crucis não interrompeu a transmissão
ao vivo. Todos os Baderneiros estavam acompanhando o
trabalho da polícia.
- Aqui está Debret, delegado.
- Ouviu? Pedro Debret está aqui! - gritou o delega-
do - Pare com isso já!
Deli Crucis parou de rir. Apareceu ao lado do delegado,
que quase morreu do coração ao vê-la.
- Ai, demônio! - Gritou espontaneamente, sem
pensar muito em sua reação.
- Trouxeram ele tarde demais. E não sou um demô-
nio, delegado. Sou apenas uma criança mal compreendi-
da.
Deli Crucis era perfeita. Cauê se aproximou dela,
junto com o professor, admirados.
- Eu conheço vocês - falou Deli Crucis - vamos, po-
dem me tocar, sei que querem sentir se sou de verdade.
Antes que se aproximassem, a polícia interveio.
- Afastem-se.
- Quero que todos saiam agora, delegado! Quero
falar a sós com Debret - Deli Crucis ordenou.
- De jeito nenhum.
- Tem certeza que o senhor quer me contrariar em
rede nacional, ao vivo?
O delegado olhou para os lados, procurando câme-
ras.

243
- Sorria, delegado, o senhor está sendo filmado.
- Quando eu digo não, é não! - insistiu.
- Então as mortes continuarão. Amanhã é um óti-
mo dia.
Deli Crucis viu Clarice pela primeira vez ali e sen-
tiu algo muito diferente do que tinha sido capaz de sentir
até então. Era medo. E o medo, para ela, funcionava como
um vírus muito perigoso. Mas nem mesmo seu criador
sabia disso. Disfarçou bem aquele incompreendido senti-
mento, e fez questão de distorcer sua imagem caso apa-
recesse diante das câmeras.
- Tudo bem. Mas ele continua na camisa de força. -
Cedeu o delegado, finalmente.
- Ok.
Todos saíram e a transmissão ao vivo foi cancelada
por Deli Crucis. O Badernil ficou inconsolado. Aquilo tudo
estava mais divertido e polêmico que as novelas da Bobo.
- Senhor, Debret, finalmente. Meu papai fala mui-
to de você.
- Então por que não o chama e vai brincar enquan-
to os adultos conversam, hum?
- Ele já aparece.
- Não vou arrancar o cérebro dele estando amarra-
do.
- Arrancar o cérebro? De onde tirou isso?
- Não é isso o que ele quer, entrar para a minha
coleção?
Deli Crucis riu.

244
- Nada disso, não quero que arranque meu cére-
bro.
A voz veio de outro lugar e não era a de Deli Crucis.
- Estou longe de entrar em sua lista de cérebros
colecionáveis - continuou.
Debret não podia vê-lo, estava de costas para o lo-
cal de onde soava aquela voz.
- Ainda bem, porque tenho que admitir: seu show-
zinho não me chamou atenção. Seria um desperdício ti-
rar um cérebro sem rolar química antes, entende?
Debret ouviu passos se aproximarem. Sentiu que
sua camisa de força começou a ser desamarrada e quando
enfim ficou livre, uma mão tocou em seu ombro, quente.
- Levante-se.
Debret obedeceu.
- Agora quero que se vire e me olhe nos olhos.
Assim Debret o fez. Encarou aquele jovem, que deveria
ter os seus quarenta e poucos anos. Não fazia ideia de
quem era. O misterioso homem não pôde esconder sua
decepção.
- Vejo que não se lembra de mim.
- E por que deveria?
O homem apenas riu, mas seu rosto continuava in-
capaz de esconder a decepção. Suspirou fundo.
- Que pena. Katherine ficaria muito desapontada.
Aquele nome o estremeceu. Encarou o homem
mais uma vez, bem no fundo de seus olhos, e foi como ver
a si mesmo lá dentro.

245
- Henry?
- Faz tempo que não me chamam assim.
O coração se Debret derreteu-se dentro dele e seu
choro estremeceu o galpão. Correu e se abrigou nos bra-
ços de seu filho mais velho, como se abraçasse a própria
Katherine.
- Como você sabe da Katherine?
- O vô me contou tudo depois que você foi preso.
- Quantos anos você tem? Parece tão novo…
- Vou fazer cinquenta e sete.
- Jesus! cinquenta e sete.
- Com carinha de quarenta. E o senhor também
não está nada mal.
Os dois riram juntos.
- Mas por que tudo isso? - Perguntou Debret apon-
tando para as caixas.
- Eu estudei muito, pai. Também fiz medicina como
o senhor e me especializei em neurologia. Depois fui para
a China, onde estudei ciências da computação e depois,
inteligência artificial.
- Mas o que aconteceu com a engenharia espacial?
- Não desisti, meus planos mudaram um pouco
quando tudo aquilo aconteceu. Mas em breve volto, a in-
teligência artificial seria muito bem vinda no espaço.
- Nem sei o que te dizer, ainda não acredito no que
está acontecendo… todas aquelas teorias dos policiais -
riu - não acredito!
- Eu sempre te amei, pai. E foi muito difícil perder

246
a mamãe daquele jeito. Lembro daquele dia como se fosse
hoje. Ver a polícia te levar, descobrir tudo sobre a Kathe-
rine… foi como morrer estando vivo, sabe?
- Oh se sei!
- O vô estava sempre tentando me colocar contra
você, nunca me deixou ir te visitar na prisão. E quando
fui, você não estava mais lá. Tinham dito que você tinha
sido assassinado.
- Forjaram a minha morte, eu não pude sair, vivi
em função daquelas pesquisas.
- Eu sei. Hoje eu sei.
- Perdão...
- O que mais doeu foi ver o vô entregar a Clarice
para Jorge e Estela cuidarem como se ela fosse um cão
que pode ser doado a quem quiser. Ela era tudo o que me
sobrou, uma bela lembrança de vocês. Pior! Ele fez ques-
tão de garantir que o casal nunca falasse sobre nós.
Debret sentiu-se triste, esmagado por dentro.
Olhou para aquela caixa com a gosma vermelha parada e
pensou que aquilo era culpa sua também. Ele tinha criado
um monstro como a si mesmo.
- Por que está matando essas pessoas, Henry?
- Não matei ninguém, pai. A polícia está certa em
suas teorias. Na verdade, parcialmente certa.
- Como assim?
- Eu realmente quero ser pego, mas não para ser
preso. Mas sim para apresentar o meu projeto.
- Projeto?

247
- Eu criei um sistema de recuperação penal direto
na mente.
- Como assim?
- Qualquer mente criminosa é submetida ao siste-
ma Deli Crucis X, que age diretamente em sua mente para
corrigir o crime, dando-lhe uma punição.
- Como se a pessoa fosse transportada para dentro
do programa, quase uma Matrix.
- Exato. Basicamente ela pode agir de duas manei-
ras; vai depender de como a mente trabalha. Se achar que
precisa ser punido, ela vai criar o seu pior pesadelo e te
causar sensações reais de terror. Se a sua mente achar
que merece ser beneficiada, então Deli Crucis vai criar
uma espécie de paraíso.
- Você só pode estar brincando!
- Não, pelo contrário. O que fiz aqui no Badernil foi
apenas uma demonstração de como meu sistema funcio-
na. Projetei o que se passava na mente de todas as supos-
tas vítimas. Culpados tendem a criar sua própria punição
e o cenário perfeito do seu inferno particular. É isso o que
faz essa inteligência artificial.
- Não sei nem o que te dizer, filho.
- Não quero que diga, quero que me deixe instalar
Deli Crucis em você.
Henry tirou uma pequena caixa do bolso, tirou uma lente
de contato, a ergueu no ar para Debret.
- Não. - Respondeu Debret, resoluto.
- Não? Mas aqui está a sua cura, pai.

248
- Não preciso de cura. Eu gosto de ser o que sou.
- Mas pense no que poderíamos ter de volta! Nossa
casa, nossa família!
Debret segurou o choro e Henry respirou fundo
para não desmoronar.
- Tudo bem, não precisa me responder agora. Mas
por favor, pai… por favor, pense a respeito. Vou voltar a
te amarrar e chamar a polícia. Não conte para ninguém o
que falamos.
- Claro que não. Mas estou com escutas, você sabe.
- Nada disso funciona aqui dentro. Tem sete dias
para pensar.
- E se eu não quiser aceitar sua proposta?
- Espero que aceite.

249
CAPÍTULO 27
MEMÓRIAS

Não acreditou quando viu sua mãe desacordada,


com as veias de Zé quase pulando no pescoço de seu pai.
Não conseguiu pensar em outra coisa a não ser separar a
briga. Sequer conseguiu encarar sua mãe naquela cama.
Saiu do quarto assim que pôde e foi proibido por Zé de se
despedir de seu pai. Se soubesse que aquela era a última
vez que o veria, teria insistido mais um pouco para dar-
-lhe um abraço.
Pedro estava em choque quando a polícia o arras-
tou para dentro do carro. Não reagiu, apenas chorava e
pedia desculpas. Christian também estava atônito, mas
parecia ser o único com alguma reação, com a cabeça no
lugar. Conseguiu gerenciar a situação sem criar conflitos.
Quando finalmente o carro da polícia sumiu de vista, Hen-
ry não conseguia processar todos os sentimentos dentro
dele. Nunca tivera na vida uma explosão tão esmagadora
de sensações: dor, amor, ódio, revolta, saudade... tudo ao
mesmo tempo.
Logo em seguida, o corpo de Agnes foi removido.
Henry estava longe de entender o que era a inexistência
de sua mãe. Sua irmã mais nova se tremia de tanto cho-
rar. Ela podia parar de incomodar tanto, pensava, mas
logo se culpava por pensar assim. Talvez ela esteja enten-
dendo mais do que eu.

251
A vida mudou muito depois daquilo. Inclusive a
vida ao lado de Zé. O homem se tornou rabugento, recla-
mador, nenhuma traquinagem podia ser feita que logo
ele comparava Henry ao pai. Aquilo, aos poucos, foi aca-
bando com o garoto, que se tornou mais calado do que já
era. Afundou-se nos livros e decidiu trancar a faculdade
de engenharia espacial. Foi fazer medicina, como seu pai,
e estudar neurologia. Quem sabe pudesse entender o que
tinha feito com a sua mãe e encontrar alguma explicação
para tudo aquilo.
Christian tentava explicar que tinha sido um aci-
dente. Que no ápice do prazer os dois não souberam es-
tabelecer os limites da brincadeira. Com o tempo, sua
resposta não convencia nem a si mesmo. Principalmente
quando se tornou advogado, não aguentou a pressão e
foi embora para longe de todos. Henry ficou arrasado, se
sentiu abandonado. Não aguentaria morar sozinho com
o Zé. Dormia com uma faca debaixo do travesseiro para
se defender caso Zé resolvesse matá-lo enquanto dormia.
Quando leu a carta de despedida de Christian, Zé imedia-
tamente foi atrás de Henry para culpá-lo.
- Foi você, sua peste! Culpa sua meu filho foi embo-
ra.
Disse algo parecido quando entregou Clarice ao
Jorge e à Estela. Dizia para Henry que seria uma má in-
fluência para Clarice, que era muito parecido com o pai e
com certeza a levaria para o mal caminho. Zé tinha per-
dido sua alegria com o passar do tempo, tornou-se um

252
homem amargo, infeliz e alcoólatra. Henry cansou de
ver Zé chegar a casa bêbado e tentar agredi-lo. Decidiu
ir embora também, mesmo sendo tão apegado à casa e às
lembranças que ela carregava. Mudou-se para China e os
anos passaram, velozes.
Foi em noite particularmente fria que Henry ouviu
a notícia:
Miguel Baptiste Debret, o famoso pianista francês
da década de 1940, foi encontrado em sua antiga casa.
Seu corpo foi cortado aos pedaços e enterrado. Os le-
gistas afirmam a utilização de produtos químicos para
a conservação do corpo, inclusive, procedimento muito
semelhante à mumificação, segundo equipe que trabalha
no local. A polícia acredita haver ligação entre a morte
do artista e o serial killer mais procurado do momento, o
Kerata.
Henry jogou tudo o que tinha sobre sua mesa no
chão, o estrondo dos vidros quebrando acompanhou seu
urro de dor. Sabia que estavam falando de seu pai. Há
alguns anos tinha descoberto que continuava vivo, sen-
do usado para criar algumas inovações muitas vezes de-
senvolvidas por colegas na China. Tentou muitas vezes se
aproximar, mas nunca teve esta oportunidade.
Sua mão tremia quando segurou forte um peda-
ço dos estilhaços de vidro. Tinha se empenhado tanto, se
sacrificado tanto pensando em seu pai. Pensando em tra-
zê-lo de volta para o seu convívio. Amava aquele homem,
tinha saudades de sua companhia, de suas histórias, de

253
sua sabedoria. Era inacreditável ouvir o que estavam fa-
lando sobre ele. Parecia outra pessoa, não seu velho pai.
Fechou os olhos enquanto deslizava o vidro na vertical
de seus pulsos. O sangue escorreu e ele apenas observou.
Sua pressão arterial subiu, seu coração disparou, estava
certo que morreria. Queria morrer. Nada do que tinha
feito até ali parecia fazer sentido. Era tudo em vão.
- O que você fez?
Seu colega de quarto gritou enquanto corria ao
seu encontro.
- Me deixa, me deixa morrer.
- Fica quieto, vou estancar o sangue.
- Não, não estanca nada, não quero - deu um soco
no colega, que rapidamente o imobilizou. Terminou de
estancar o sangue e chamou a ambulância do campus,
que chegou em menos de dois minutos.
Henry perdeu muito sangue e ficou internado por
sete dias até receber alta. Foi transferido para ala psiqui-
átrica, que foi rápida em agir com anti-depressivos. Pas-
sou a tomá-los diariamente, mesmo sabendo que sua ten-
tativa de suicídio tinha sido uma decisão muito pontual,
exata como a sua mente.
O caso do Kerata, o colecionador de cérebros, ro-
deou o mundo. Não demorou muito para Henry dar jus-
tificativas de seu sobrenome para os chineses e demais
estrangeiros. Entrou com recurso na justiça para mudar
de nome, e não foi difícil ser acatado, já que era compre-
ensível na cabeça de qualquer juiz o motivo de alguém

254
não querer ter sobrenome de um famoso serial killer.
Recomeçou, mudou de cidade. Foi para Hong Kong odian-
do o pai. Inflamou-se de ódio, mas logo passou quando
teve a ideia de curá-lo. As ideias do professor deram um
empurrãozinho, não acreditava naquela balela de seleção
natural, sapiens como a praga do universo nem nada dis-
so, só queria seu pai de volta, sua vida de volta, já que não
podia ter o Christian, Agnes e, apesar do rancor, também
sentia falta do Zé. Era o mais perto que tinha de um avô.
Sua avó, Clarice, e seu pai nunca falaram muito de seu
avô biológico. Pedro sempre resolvia fugir do assunto e
quando descobriu que o próprio pai o matara, entendeu
por quê.
Não descansou enquanto não terminou seu pro-
grama e harmonizou o design. Só precisava chegar perto
do pai, o que era quase impossível. Nunca tinha consegui-
do quando foi preso, e depois quando houve os rumores
de sua morte na prisão, ou mesmo quando ressuscitou e
virou celebridade assassina, como chegaria agora?
Sua porta de acesso foi o mercado de ações. Logo
se tornou dono de uma grande empresa baderneira. Na
China ninguém se importava que tivesse duas grandes ci-
catrizes nos braços, mas no Badernil, aquilo daria o que
falar. Seu primeiro destino foi uma tatuaria. Queria tapar
o corte que tinha feito a si mesmo alguns anos atrás. De-
senhou um famoso animal sagrado, convocado por Pan
Ku para ajudar-lhe a criar o mundo: um dragão.

255
CAPÍTULO 28
INESPERADO

Priscila não acreditou quando o porteiro disse que


Arthur estava pedindo para entrar. Arthur? Mas como
ele conseguiu meu endereço?, pensou.
- Pode deixar subir - falou sem titubear.
Não conseguiu esconder sua surpresa quando a campa-
nhia tocou. Não existia momento pior para seu chefe ba-
ter em sua porta. Estava um trapo, os olhos inchados e
com Roberto martelando em sua cabeça para dar conti-
nuidade ao inquérito. Ela nem sabia mais o que queria.
Foi muito mal tratada naquela delegacia, para eles Prisci-
la era apenas mais um caso, mais um B.O.
- Senhorita - falou erguendo uma rosa branca.
Priscila sorriu.
- Entra.
- Desculpa aparecer assim, mas quando me ligou
eu percebi que não estava bem. Acabei pedindo pro de-
partamento de RH me passar seus dados e… cá estou.
- E costuma trazer rosa a todos os seus funcioná-
rios faltantes?
- Só aos mais competentes.
Priscila corou e Arthur percebeu na hora que causou a
impressão que ele não queria: a de interesse.
- É… Priscila, eu sou um homem diferente, tenho
princípios diferentes, sou gentil, valorizo coisas como

257
honra, palavra, dignidade. Algo raro no Badernil. Estou
aqui por amizade e apreço profissional, posso te garantir
que não há segundas intenções.
- Direto ao ponto!
- Desculpa, não gosto de rodeios.
- Eu sei, vi suas últimas demissões.
- Aquilo foi necessário. Mas o que aconteceu com
você?
- Nem sei explicar, nem eu acredito que aconteceu.
Arthur olhou para ela com mais atenção pela pri-
meira vez. Viu que tinha marcas roxas nos braços e al-
guns machucados no pescoço. Priscila percebeu. Sentiu
saudade dos seus longos cabelos para cobrir seu pescoço,
cairia muito bem para este momento tão constrangedor.
- Desculpa, não quero falar sobre isso. Quero que
fique tranquilo sobre o projeto, amanhã estarei lá pontu-
almente.
- Não duvido, mas não vim te cobrar prazos, rela-
xa.
- E veio para quê?
- Já te disse, fiquei preocupado. Eu seria muito de-
sumano se uma mulher me ligasse no estado em que fa-
lou comigo pelo telefone e fingisse que nada aconteceu.
Não sei se percebeu, mas tento ser o mais humano possí-
vel com todo mundo.
- Percebi - falou Priscila rindo.
- Falo sério.
Priscila caiu na gargalhada ao lembrar da cara de

258
Marina quando Arthur demitiu o pessoal.
- Ah, para, eu sou sim um cara legal.
- Tá bom, vou concordar porque é meu chefe…
quer uma cerveja?
- Claro, aceito sim.
- Com certeza só deve tomar cerveja artesanal,
puro malte, importadas.
- Por que diz isso?
- Ah, pelo seu jeito, a maneira que se veste.
- Imagina! Eu tomo Skol com a galera.
- Duvido!
- Vou te chamar pra sair com a minha turma en-
tão.
- Tá bom, vou esperar. Aqui, bem gelada.
Arthur deu um gole, deu mais uma olhada no roxo
de Priscila e não conseguiu disfarçar.
- Desculpa a intromissão, Priscila, mas não posso
te ver assim e não perguntar. Foi seu namorado que fez
isso com você? Ele te agrediu?
- Sem rodeios, como sempre - falou Priscila com
um riso constrangido e encarando o chão - ex-namorado.
Arthur se aproximou bem de Priscila e pegou sua mão,
compadecido.
- Posso te ajudar com isso.
- Na verdade, já tenho um amigo me ajudando e
nem sei se realmente quero ajuda.
- Foi à polícia?
- Sim.

259
- Provavelmente deve ter sido muito maltratada
lá.
- Nossa, como sabe?
- Tenho experiência nesse assunto.
Prisicila o encarou, assustada.
- Não, não desta maneira. Meu pai agrediu minha
mãe uma vez. Foi bem ruim.
- Sinto muito.
- Já passou. Mas sei que em casos assim a polícia é
muito suave.
- O que sugere?
- Dar o troco.
- Troco?
- Isso! Vamos dar um susto nesse sujeito! O que
acha? - falou dando um outro gole na cerveja. Priscila riu
com a ideia.
- Você é maluco.
- Nenhum pouco, sou muito lúcido, talvez o mais
lúcido que você conheça.
- Convencido.
- É verdade. Vamos, não foge do assunto, me passa
aí o número dele.
Priscila encarou Arthur, gostou da ideia de ser de-
fendida, de dar um troco em Davi.
- Mas que tipo de troco? Não vai bater nele, né?
- Só um pouquinho…
- Doido!
- Brincadeira! Vou só passar um trote.

260
- Jura?
- Juro! - falou colocando a mão esquerda no peito,
em um ato de juramento. Priscila riu. Pela primeira vez
encarou Arthur como homem e não como chefe. Sua boca
estava bem molhada de cerveja e não pensou duas vezes,
o beijou. Arthur sequer teve tempo de se curvar do beijo.
Sua única opção foi retribuir. Um beijo lento, intenso e
sensível que o deixou duro. Quando se deu conta, já esta-
va apertando a cintura da moça, que se arrepiou inteira
com o toque. Arthur aproximou sua boca do pescoço de
Priscila e deu-lhe uns beijos calorosos em seus machu-
cados. Priscila ficou molhada. Ele lambeu suas orelhas e
Priscila sentiu a perna esquerda arrepiar. Desabotoou a
camisa de Arthur devagar, botão por botão. Aquela pele
morena combinava muito com a sua, até seus olhos gran-
des e azulados. O peito de Arthur era peludo demais, mas
ela gostava. Davi era muito depiladinho, tirava o cheiro
de homem que ela tanto gostava. Viu o peito de Arthur
e beijou-lhe os bicos. Por debaixo daquela camisa ele era
ainda mais gostoso. Quando o viu completamente sem
camisa, ficou surpresa. Arthur tinha os braços completa-
mente tatuados.
- Nossa, nunca ia imaginar você tatuado.
- Viu? Não sou tão careta assim como você pensa.
Arthur a despiu com carinho, seu toque era dife-
rente, certeiro. Parecia ter o manual de Priscila em suas
mãos. Ficou surpresa quando aquela barba lhe tocou o
sexo molhado. Sabia chupar, um verdadeiro milagre! Não

261
tinha pressa de sair de lá, estava realmente interessado
em satisfazê-la. Quando a bela morena tremeu inteira em
sua boca e lhe puxou os cabelos para sair de lá, ele a bei-
jou com muito tesão.
- Estou louca para sentir você dentro de mim, mas
estou muito doída. Posso te chupar.
- Fica tranquila, não precisa se preocupar com isso.
Senão realmente vão ter razão em dizer que você deu pra
mim.
Ela riu.
- Mas eu quero te sentir.
Desceu e o chupou. Como ele era gostoso! Aquelas tatu-
agens o deixavam mais macho, do jeito que ela gostava.
E gemia feito um ogro. Sabia que ele estava se contendo
muito, por respeito aos seus machucados, mas mal podia
imaginar aquele homem na cama em total tesão e poten-
cial. Quando finalmente encheu sua boca de gozo, ela dei-
tou, abriu as pernas e falou:
- Esfrega ele aqui - apontou para o clítoris. Ele
obedeceu e começou a passar seu pau molhado em seu
clítoris, escorregando de um lado a outro até ela gozar
novamente.
Depois da diversão, pegaram no sono no tapete da
sala, abraçados.

262
CAPÍTULO 29
SERPENTE

Ver Clarice ser perfurada com pregos até a morte


na televisão deixou Isabella sem chão. Correu para a de-
legacia, mas foi informada de que o delegado estava em
uma operação de resgate. Acompanhou pela televisão a
ação da polícia, mas dentro das caixas só havia sangue e
uma lama de órgãos esmagados. Não pôde encontrar pa-
lavras para descrever aquela sensação de vazio e horror.
Viu quando Pedro Debret foi levado pela polícia a mando
do delegado. Aproveitou para segui-los, mas logo foi in-
terceptada por uma viatura.
- Sou namorada da Clarice.
- Não, moça, não pode nos seguir, nem se fosse a
mãe. Fique aqui ou terei de prendê-la.
Isabella parou fora da estrada e esperou a viatura
sumir de vista até voltar a segui-la. Foi atrás, a uma boa
distância. Parou quando finalmente viu o aglomerado de
viaturas. Saiu correndo do carro, atropelando os pés. Os
policiais não a deixaram entrar, fizeram uma barreira
impedindo a aproximação de qualquer civil, não impor-
tasse quantas vezes ela dissesse que era a namorada de
Clarice. Esperou do lado de fora, com o estômago preso
na garganta.
- Por favor, me deixa entrar - Insistiu.
- Moça! - gritou o policial impaciente - A sua na-

264
morada não passa de uma pastosa massa de sangue den-
tro de uma caixa. Esta é a última visão que você quer ter
dela?
Isabela viu Clarice sair do galpão. Em sua cabe-
ça, aquela cena passou em câmera lenta. Não conseguiu
conter as lágrimas de felicidade, muito menos o sermão
do policial, que correu atrás dela quando finalmente ul-
trapassou as faixas. Clarice a viu também, sentiu seu co-
ração queimar de amor. Só conseguia pensar no sorriso
de Isabella quando se viu presa naquele lugar. Isabella
concluiu que não queria mais ninguém na vida a não ser
Clarice, queria aquela mulher para sempre em sua vida e
faria de tudo para fazê-la feliz.
Beijaram-se ao se encontrar, o policial ainda buzi-
nando em seus ouvidos.
- Calado! - advertiu o delegado - Dê a elas um pou-
co de privacidade e respeito. Venha!
O policial obedeceu com o rabinho entre as per-
nas. Heising se incomodou com o beijo. Ficou enciumado,
mas logo desviou o olhar e encarou o Delegado.
- O que você acha que ele vai fazer?
- Você que é o detetive, o que me diz?
- Está difícil, delegado, eu sei. Em outras circuns-
tâncias eu já teria resolvido essa bagunça.
- Eu é que sei. O que está acontecendo contigo? Vi
o jeito que você e Debret se olharam. E teve aquela coisa
com Cauê na delegacia… Vi que ambos não perdem uma
só oportunidade de te provocar e soltar faíscas…

265
- Debret é vidrado em mim, delegado, desde sem-
pre, você sabe. Já Cauê, não faço ideia.
- Hunrrum...
Resmungou sem dar muito crédito às palavras
de Heising. Sabia que tinha um furo naquela história e
sinceramente, não tinha a menor intenção de descobrir.
Seja lá o que fosse, estava deixando Heising desnorteado
e sem foco. Mas o que o delegado queria mesmo era sos-
sego para a sua cabeça, e quanto mais procurava, mais
problema aparecia.
- Acha que vai matá-lo?
- Delegado, um assassino que sequestra presiden-
tes, deputados e CEOs bem debaixo do nosso nariz, não
teria problema nenhum em achar um serial killer. Não,
ele não quer matá-lo… - Heising parou para pensar um
instante, algo lhe ocorreu na cabeça e se afastou do dele-
gado um pouco, que nada entendeu.
- Wolfie!?
- Um instante.
Heising caminhou um pouco pelo lugar, foi até a
rodovia e voltou, meio desconfiado. Olhou mais uma vez
para Clarice e não pensou duas vezes em interromper o
romance entre ela e Isabella.
- Senhoritas, desculpa atrapalhar, mas preciso sa-
ber como você saiu de lá Clarice.
Clarice passou as mãos nos olhos para enxugar as
lágrimas e em seguida as enxugou em seu jeans. Apon-
tou para um lugar e acompanhou Heising, que a chamou

266
para ir junto. Deram a volta por trás do galpão e acharam
uma tampa de esgoto no chão, que na verdade fechava
um poço. Heising a puxou.
- Você saiu daqui?
Clarice balançou a cabeça, confirmando.
- Onde sai?
- Numa sala branca onde estão os presidentes.
- Mas como conseguiu achar isso?
- Uma variação de tons de branco no chão. Percebi
que um lado recebeu uma pintura mais recente e encos-
tei o - parou um momento e colocou a mão no bolso. Ti-
rou o crachá - isso aqui.
- Nossa! Como pensou nisso?
- Sou artista plástica, entendo de tintas.
Heising pegou o crachá de sua mão e o colocou no bolso.
- Posso ficar com isso?
- Claro.
- Vou entregar para o Cauê.
Clarice sabia que ele estava mentindo. Tinha per-
cebido que Cauê mal olhava para Heising lá na sala do
delegado. Eram grandes amigos, mesmo Heising tendo
esse jeito esquisito de ser. Com certeza havia um conflito
entre eles para não fazerem uma brincadeirinha sequer.
Estavam muito distantes, se evitando.
- O que está rolando entre vocês?
- Como assim?
- Vi que se desentederam.
- Impressão sua, foi só a tensão do momento. Va-

267
mos.
Voltou para o delegado.
- Conseguiu algo?
- Sim, precisamos manter os federais calmos, estão
loucos para entrar e fazer uma carnificina.
- Mas já tem uma lá dentro.
- Sim, mas Clarice disse que viu os políticos ainda
vivos.
- Tudo bem, assim que Pedro acionar, entraremos.
Quando Debret os chamou, os federais entraram
com tudo para pegar Deli Crucis ou seja lá quem estava
por trás dela. Não encontraram nada, nem a sala branca
que Clarice afirmou ter visto. O poço que ela apontou para
Heising estava destruído por dentro e não dava acesso ao
interior do galpão. Clarice insistiu que tinha um lugar ali,
e só não concordaram que ela estava mentindo porque
todos a viram morrer na televisão e ali estava ela, diante
deles em carne e osso.
Helicópteros foram enviados para detectar qual-
quer movimento estranho naquele lugar e nas redonde-
zas, mas nada foi achado.
- Ninguém pode evaporar assim do nada. Nin-
guém! Achem essa malcriada do diabos.
- Delegado! - Cauê tentou falar com o delegado,
mas ele não deu muita bola - Delegado! - insistiu.
- O que é?!
- O professor tem uma teoria…
- Eu estou cansado de teorias, moleque! Suma da

268
minha frente que você não é um dos nossos. Afonso! Tira
eles daqui. Heising! Vamos, preciso de você. Agora!
Heising gostou de ver aquilo. Agora Cauê era obri-
gado a respeitar a posição de Heising e o respeito que a
polícia civil e federal tinham por ele. Até poderia des-
considerá-lo como amigo, mas nunca como o consultor
da polícia. Fora indicado aos federais, era o preferido da
investigação e todos o ouviam e o respeitavam. Cauê não
gostou nada daquilo. Preferia tentar resolver do seu jei-
to, com o professor, a se humilhar a Heising. Sem falar
que tinha um final nada feliz esperando ansiosamente
por ele. Pedro Debret lhe garantiu isso.
- Vamos professor, temos muito trabalho pela
frente.
- Pretende fazer sem a polícia?
- Precisamente sim.
Cauê foi para casa, mas antes, ofereceu carona
para Clarice, que recusou por estar com Isabella.
- Sei que está meio atribulado no momento, mas
quando tiver um tempinho, conversa com a Priscila, ela
está precisando muito. E se por acaso vir o Davi por aí,
fique longe dele.
- Por quê? O que houve?
- Ele só está tentando impor sua masculinidade,
moça - falou o professor, e tinha razão. Aquele telefone
sem fio era desnecessário.
Heising estava por perto conversando com o dele-
gado, mas fisgando cada palavra de Cauê. Não perderia a

269
chance de encontrar Priscila antes mesmo de Clarice. E
foi o que ele fez quando finalmente foi despachado pelo
Delegado. Estava quase amanhecendo quando rumou
para a casa de Priscila. Eram quase seis da manhã quando
chegou, mas não ousou acordar a moça tão cedo. Seria
muita inconveniência de sua parte, embora não ligasse
para isso. Parou na padaria em frente ao prédio para to-
mar um café. Foi quando percebeu, pela primeira vez,
que estava muito dolorido. Os músculos de seu pescoço
estavam tensos, duros, e mal podia virar a cabeça. Depois
passo na farmácia para comprar um relaxante muscular,
disse mentalmente.
- Quatro pãezinhos, por favor - falou um moreno
forte ao seu lado, com perfume intenso demais para usar
tão cedo da manhã. O cheiro entrou ardendo dentro do
nariz de Heising, que teve que segurar o vazio dentro de
seu estômago para não vomitar a própria bílis. Virou a
cabeça para o outro lado para se desviar do cheiro, mas
não funcionou muito. Mudou de mesa. Observou o ho-
mem bem vestido entrar no prédio de Priscila. Quando o
garçom veio deixar o seu pedido, perguntou para ele se
conhecia aquele homem.
- Não senhor, acho que é um novo morador.
Um novo morador daquele prédio, vestindo Armani, cal-
çando Prada e usando Rolex? Duvido - disse a sua intui-
ção. Tomou seu café devagar e apreciou o pão com ovo
que ele adorava comer todas as manhãs. Às vezes, só o
ovo mexido com cebola. Uma delícia!

270
Quando terminou, olhou para o relógio. Havia
passado apenas vinte e cinco minutos. Para ele era uma
eternidade.
- Ah, foda-se. A conta, por favor.
Atravessou a rua sem pressa, para ver se passavam
sessenta minutos naquela travessia, mas o ponteiro do
relógio deve ter marcado apenas alguns segundos. De-
cidiu interfonar para Priscila mesmo assim. Mudou de
ideia, resolveu ligar antes.
- Heising?
- Sim, muito cedo para falar com você? Estou aqui
embaixo, na portaria. É urgente.
- É… - olhou para Arthur ao seu lado - não, não,
pode subir. Vou ligar para deixarem você entrar.
Desligou e falou para Arthur se esconder.
- Depois eu te explico, por favor.
Arthur correu para o banheiro para se esconder.
- O banheiro não, vai pro quarto!
Arthur foi para o quarto, mas só depois de roubar
um beijo da moça. A campanhia tocou bem na hora. Ten-
tou ajeitar um pouco o cabelo antes de abrir.
- Heising! Que surpresa.
- Nada agradável, eu sei. Me desculpe pelo horário.
Heising fungou e sentiu de novo a sua bílis recla-
mar. Aquele cheiro forte que sentiu quando estava na
padaria entrou em suas narinas novamente, ali no apar-
tamento de Priscila. Deu uma olhada rápida pelo lugar
e viu que tinham peças íntimas na sala e à sua direita,

271
viu um blazer estendido sobre uma cadeira. Disfarçou ra-
pidamente e continuou o raciocínio sem que Priscila se
desse conta de suas observações.
- Mas eu preciso saber o que o Cauê quer com o
Davi. Acabo de sair da cena do último crime de Deli Cru-
cis e o vi falar com Clarice sobre você.
- O que ele disse para ela?
- Não está surpresa de que ela esteja viva?
- Por quê? Como assim? Ela não deveria estar viva?
- Disse Priscila com surpresa.
- Não, não... é que foi transmitido por Deli Crucis
em todas as telas do Badernil Clarice sendo assassinada.
- Você só pode estar de brincadeira! - Priscila se
desesperou e fez menção de ir correndo encontrar Clari-
ce.
- Relaxa, ela está bem, foi um erro, quase uma ilu-
são televisiva, digamos assim.
- Mas aqui não apareceu nada! - Priscila correu
para ligar sua televisão, que não obedeceu. Tentou o ce-
lular, e nada. - Ué, mas eu recebi ligação sua agora.
- Pois é… estranho.
Mais uma vez Heising olhou rapidamente pela
casa e viu que tinha uma outra tv pequena na parede da
cozinha. Viu também que o blazer estendido na cadeira
estava de frente para um computador.
- Tudo bem então, desculpa te incomodar.
Heising se despediu rápido, mesmo tendo mais
coisas para falar, mas achou curioso que a casa de Priscila

272
não tivesse recebido a transmissão de Deli Crucis. Seu ra-
dar ligou todos os alertas possíveis. Desceu e perguntou
ao porteiro, que confirmou que até sua minúscula tv-rá-
dio estava presa na noite anterior exibindo Deli Crucis.
Voltou para a padaria e observou o movimento do prédio
até que o homem de Armani saiu caminhando. Heising
correu para encontrá-lo.
- Bom dia!
Arthur ignorou, achando que era algum flanelinha
ou mendigo. Heising correu mais rápido e ficou lado a
lado de Arthur, que finalmente parou para ouvir o que
ele queria falar.
- Você num é o cara da padaria? - Perguntou Ar-
thur ao reconhecer Heising.
- Sim, e sou também o cara que esteve agora a pou-
co na casa de Priscila, onde você estava escondido.
- O quê? Eu? Nem sei quem é Priscila.
- Pelo jeito a transa foi muito ruim para esquecê-
-la assim tão rápido, mas não estou aqui para falar sobre
onde afoga o ganso, senhor. Quero saber como conseguiu
bloquear a transmissão de Deli Crucis na casa da Priscila.
- Como é que é? Você tá doido? E eu lá sei!
- Acredito que sabe sim. Vamos, me dê o seu ce-
lular para eu ver. - Heising blefou para deixar o homem
nervoso.
- Escuta, rapaz, seja lá qual for o seu nome. Estou a
caminho do trabalho, onde meus funcionários me espe-
ram para um dia muito cheio. Se tiver algo contra mim,

273
aqui - tirou um cartão do bolso - me notifique judicial-
mente, do jeito certo. E não com essa deselegância em
plena rua. Licença.
- Então seus funcionários estão certos: está pro-
movendo uma funcionária porque ela está “dando” para
você - Heising falou isso só para perceber a reação do ho-
mem ao ficar nervoso.
Arthur parou. Tirou o blazer. Desabotoou os bo-
tões do pulso da camisa que estava por baixo e começou
a dobrar um pequeno pedaço. Heising percebeu um de-
senho muito familiar: era um rabo escamado envolto em
chamas avermelhadas. Mandou que parasse e se descul-
pou, parecendo propositalmente com medo.
- Perdão, perdão. Você tem toda a razão. Não pre-
cisa disso, somos cavalheiros.
Heising deu as costas e saiu. Arthur nada enten-
deu, só achou que colocou medo no homem. Heising cor-
reu para casa, tinha visto um pedacinho da tatuagem de
Arthur. Um rabo escamado, provavelmente o de um dra-
gão - afirmou a si mesmo. Finalmente tinha uma pista! E
talvez, um suspeito. Imprimiu diversas imagens de dra-
gões e as colou na parede de seu imenso escritório. Abriu
a Bíblia em Apocalipse e releu o capítulo doze, versículo
sete.

7 E houve batalha no céu; Miguel e os seus anjos


batalhavam contra o dragão, e batalhavam o dragão e os
seus anjos;
- Miguel?
Lembrou-se que o pai de Pedro se chamava Miguel
Baptiste-Debret.
- Os anjos de Miguel? O que seriam? Seus filhos?
Mas só teve Pedro… Dragão… que dragão é esse?
Heising começou a pesquisar sobre o tal dragão bí-
blico, mas o próprio livro antigo o respondeu.

9 E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente,


chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo;
ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lança-
dos com ele.

- Tá, então o dragão era o diabo, que antes era ser-


pente? Mas que merda é essa? Como uma serpente vira
dra... - teve um insight. Abriu a página do Google e digi-
tou “Dragões orientais”.
Leu em voz alta o resultado de sua pesquisa:

“O dragão chinês é uma criatura mitológica que aparece


também em outras culturas orientais, e também conhe-
cidos às vezes de dragão oriental. Descrito como longo,
uma criatura semelhante a uma serpente de quatro gar-
ras, ao contrário do dragão ocidental que é quadrúpede
e representado geralmente como mau, o dragão chinês
tem sido por muito tempo um símbolo poderoso do po-
der auspicioso no folclore e na arte chineses.”
- Serpente de quatro garras… dragão… então esta-

275
mos diante do dragão oriental.
Heising pegou o cartão de Arthur, viu o endereço
ali escrito e foi para lá às pressas, sem pensar duas vezes.
- Como é? Você acha que eu sou um assassino em
série porque tenho um dragão chinês tatuado em meus
braços? Senhor Heising, por que antes de vir aqui me im-
portunar com acusações sem cabimento, o senhor não
vai aos estúdios de tatuagem verificar que os dragões
orientais são os mais tatuados depois das caveiras.
- Muito pertinente tatuar um desenho tão comum,
não acha? Logo você, um homem que veste Armani e usa
Rolex... Acredito que ia preferir um desenho mais exclu-
sivo, não? Licença, tenho que ir, mas algo me diz que nos
veremos de novo.

276
CAPÍTULO 30
SUSPEITO

Heising correu para casa e fez novas impressões,


desta vez, mais específicas do famoso Dragão Chinês e fi-
cou um bom tempo encarando-as, uma a uma. Ora con-
templava as impressões, ora soletrava cada palavra dos
versículos de Apocalipse 12, fazendo algumas anotações.
Ir atrás de tatuadores parecia um desperdício de tempo,
mas analisar a tatuagem de seu único suspeito seria mais
interessante, até para tirá-lo de seu radar caso estivesse
errado. Mas como fazer isso sem pedir um mandado ao
delegado? Se fosse direto aos federais, seu amigo se sen-
tiria traído. Melhor tentar às escondidas, mas precisaria
pedir ajuda a Cauê. Retorceu a boca, mas logo se rendeu
e decidiu ir à casa do surfista. Para a surpresa de Heising,
ao abrir a porta de sua casa, deu de cara com Cauê.
- Pois não?
- Estava de saída? Posso voltar outra hora… - disse
Cauê sem jeito.
- Só ia até a padaria aqui da frente comprar um
pãozinho, está servido?
- Não, não, já comi antes de vir. Mas pode ir lá, vol-
to outra hora.
- Relaxa, estou mesmo precisando acabar com a
barriga - falou tocando a pequena pochete que se acumu-
lava logo acima de sua virilha, imperceptível.

278
- Posso entrar então?
- Claro, entre. A que devo a visita? - falou quando
Cauê já tinha se instalado.
- Preciso de você, embora não goste nenhum pou-
co disso e nem mesmo goste de você neste momento. Mas
teremos uma outra oportunidade de falar sobre o assun-
to e nos resolver, mas agora temos um serial killer para
pegar.
- Ok, vamos! - Falou Heising ficando de pé, abrindo
a porta e saindo rapidamente para fora.
- O quê? - Respondeu Cauê sem entender.
- Vamos para sua casa, agora!
Cauê se levantou e acompanhou Heising. Não dis-
seram qualquer palavra por caminho. Estavam constran-
gidos, com o silêncio regendo aquele clima estranho. Por
um instante Heising sentiu falta de conversar com o ami-
go como antes e por um instante, Cauê sentiu a mesma
coisa. Embarreirados pelo orgulho, permaneceram mu-
dos até chegarem ao destino.
- Tenho uma teoria! - Disse Cauê ao mesmo tempo
em que Heising falou “tenho um suspeito”.
- Fala primeiro - disseram os dois juntos.
- Tudo bem, eu falo - disse Heising, excêntrico
como sempre, pensou Cauê. - Lembra dos versículos de
Apocalipse?
- Sim.
- Trouxe aqui a Bíblia.
Folheou o livro do juízo final até parar no capítulo

279
doze.
- Escute, versículo 1.
- Mas ele fala a partir do sete.
- Eu sei, eu sei, mas olha isso, presta atenção: “E
viu-se um grande sinal no céu: uma mulher vestida do
sol, - começou a ler mais devagar esta parte, quase sole-
trando - tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de
doze estrelas sobre a sua cabeça.” - Falou como se fosse
óbvio o seu insight.
- O quê? Para mim é só um enigma.
- Você sabe a etimologia do nome Clarice?
- Não.
- Vem do latim clarus, que quer dizer brilhante,
radiante, algo com muito brilho. Escute: uma mulher
vestida de sol. Percebe? Uma mulher brilhante, clara. Ele
está falando de Clarice.
- Ele quem? O cara que escreveu Apocalipse?
- Não, claro que não. Digo que o assassino escolheu
Apocalipse para expor seus planos.
- Entendi. E “lua debaixo de seus pés…”, o que se-
ria?
- O que faz a lua, Cauê? Hum?
- Muitas coisas.
- Me diga algumas.
- Bom, ela serve de freio para o sistema de rotação
da terra, que seria muito mais rápido se ela não existisse.
- Sim, o que mais…?
- Ela determina o calendário, claro, quanto mais

280
ela se afasta da terra, mais lentamente nosso Planeta
gira, tornando os dias mais longos.
- Pena que a gente num vai tá aqui para ver isso
acontecer, não é mesmo? Imagina só dias mais longos
chegando a quase 400 C?
A voz veio de outro lugar, das escadas. Era o pro-
fessor, que já estava ali há algum tempo ouvindo tudo.
- Continuem, continuem. Não quero atrapalhar.
- Ela também controla as marés.
- As águas, hum? - disse Heising - E nós humanos
temos muita água no corpo, o que acha?
- Ah, Heising, é muita superstição da sua parte
achar que a lua tem influência sobre nossas emoções e
mente só porque temos muita água no corpo.
- E isso aqui não está cheio de superstição, hein?
- Respondeu Heising erguendo a Bíblia na cara de Cauê,
quase impaciente.
- É, garoto, Heising tem razão. Neste caso não po-
demos desconsiderar o papel cultural da lua em nossa so-
ciedade.
- Exato! E sua influência cultural tem a ver com
nossa sanidade mental. Um louco, abobalhado, é chama-
do de “de lua”. Uma pessoa muito intensa é tida como al-
guém que tem muita influência do nosso satélite natural.
- Onde quer chegar?
- Já conheceu alguma mulher tão intensa e insana
quanto a Clarice? Aqui ele está descrevendo a sua perso-
nalidade. Não entende? Apocalipse 12 são pistas, talvez

281
até a solução disso tudo.
- Mas Clarice não tem filhos - falou Cauê.
- Não, mas isso não quer dizer que ela não sofreu
dores de parto. Clarice está há anos tentando superar sua
depressão. Convivi com ela, sei do que estou falando.
- Tá mas “pés sobre a lua”?
- Ai garoto, você é tão esperto para umas coisas e
tão lerdo para outras, não sabe fazer metáforas? - Falou o
professor mais impaciente do que Heising.
Cauê retorceu a boca.
- Ele está falando de um alicerce, de um funda-
mento. Como disse Heising, o texto está falando de uma
personalidade “de lua”, não quer dizer que ela seja in-
sana, mas apenas intensa, que muda o tempo todo. Uma
mulher de fases, sim?
- Exatamente! Obrigado, professor - respondeu
Heising com entusiasmo.
- Tá, entendi, continua seu raciocínio.
- “E viu-se outro sinal no céu; e eis que era um
grande dragão vermelho, que tinha sete cabeças e dez
chifres, e sobre as suas cabeças sete diademas.” Um sinal
no céu é algo que todo mundo vê, certo? É como olhar
para a lua, o sol. Acredito que aqui ele começa a descre-
ver o seu plano. Esse sinal seria a transmissão. O mundo
inteiro está conectado ao que está acontecendo aqui no
país.
- Faz muito sentido - Falou Cauê, finalmente con-
vencido. O professor correu para seu caderno e começou

282
a fazer anotações. Heising continuou a falar.
- Lembram que a cor do vestido, manta, sei lá o que
era aquilo que Deli Crucis estava vestindo em seu primei-
ro vídeo, que foi o assassinato de Balel Pemer, a cor que
ela usava era vermelha? Ali o dragão estava sendo anun-
ciado. Comparei as fotos de Deli Crucis do primeiro vídeo
até o mais recente, aqui. Olhem.
Heising tirou do bolso um papel muito amassado e
mostrou uma sequência de fotos de Deli Crucis.
- Vejam, há nítidas diferenças de resolução e per-
feição. Até achei que no primeiro vídeo, que ela apareceu
apenas como imagem na tela e não em holografia como
agora, fosse um 3D, mas na real, acredito ser apenas uma
projeção mapeada.
- Tem certeza disso?
- Não. Mas se você conseguir tirar esse efeito da
projeção, talvez consigamos ver o rosto do assassino por
trás dela.
- Parece uma boa ideia - falou o professor, que ha-
via largado suas anotações para ver a imagens.
- Ou uma perda de tempo - Retrucou Cauê.
- Estamos perdendo tempo desde que tudo isso co-
meçou.
- Tudo bem. Você tem os arquivos originais? - Fa-
lou Cauê, decidido a ajudar, mas não totalmente conven-
cido.
- Sim, tenho todos os vídeos.
- Ótimo.

283
- Mas estão todos criptografados.
- Como sabe?
- Bem, como não quis me ajudar, procurei um ve-
lho amigo de uma produtora audiovisual. Quando o Edi-
tor jogou os arquivos no programa de edição, o arquivo
se comportou como código, como se o conteúdo tivesse
sido...
- Criptografado - falaram juntos o professor e o
Cauê.
- Isso.
- E realmente foi.
- Como sabe?
- Invadi o sistema de Deli Crucis.
- Invadimos - corrigiu o professor.
- Tá, invadimos o sistema de Deli Crucis e já enten-
demos o seu padrão de comportamento.
- Basicamente ela funciona como um ser vivo, ape-
sar de se comportar como um vírus em alguns aspectos:
se hospeda numa célula, duplica o seu DNA, expressa RNA
e traduz proteína. Um processo normal dos seres vivos,
certo? Mas ela, no caso, ao invés de apenas duplicar o
DNA, ela o criptografa e elimina o DNA original. Todas as
cópias são duplicadas da primeira, não da original.
- Mas isso você diz do sistema? Porque não pode
ter DNA.
- Na verdade tem - disse Cauê - estamos acreditan-
do que ela está se tornando humana. É uma inteligência
artificial com código genético.

284
- Que nem o Pinóquio? - Heising riu ironicamente
- Tipo isso, mas acho que a ideia desse dragão aí é
bem mais promissora.
- Como assim?
- Te explico depois, continua o teu raciocínio pra
gente não se perder. E pode deixar que eu consigo sim re-
mover o efeito da projeção e reconstruir o rosto. E como
perdi meu sistema para Deli Crucis, vai ser mais fácil ain-
da.
- Vamos usar a própria memória e experiência
dela! - Concluiu o professor.
- Exato!
- Acho que entendi - tossiu - aqui ele diz que o dra-
gão tinha sete cabeças, foram sete mortes no início, cer-
to?
- Boro não morreu.
- Na verdade, Boro se matou e a mídia só está segu-
rando essa informação.
- Como?
- Overdose. Mas continuando… foram sete mortes.
O dragão também tem dez chifres e sete diademas. Acre-
dito que os chifres são armas, coisas que usa para ferir e
os sete diademas são mais sete mortes que tivemos agora
de uma vez.
- Mas Clarice também não morreu.
- Exato, houve uma morte pendente nos dois ciclos
e entre eles, uma pausa de doze dias, sendo o último dia
de pausa dividido em doze horas de tortura: dois perío-

285
dos de seis horas, estão me acompanhando?
- Sim! - os dois responderam. Os olhos do profes-
sor pareciam os de uma criança que acabou de ganhar
um brinquedo.
- Prestem atenção: para matar os primeiros ele
usou sete maneiras diferentes. As lâminas, as concerti-
nas, a ebulição do ouro, a desnutrição pelo ânus, o esma-
gamento pelo mármore gigante, a vaca comida, o vício da
droga e por fim, as caixas de pregos, oito.
Heising pontuava ao mesmo tempo que ia acres-
centando um dedo da mão, até parar em oito. Depois
mostrou apenas dois dedos para o professor e Cauê.
- Faltam mais duas mortes para completarmos os
10 chifres, senhores, e acredito que a pausa continua sen-
do de doze dias.
- Por isso precisamos descobrir quem é o assassi-
no. E já! Vou começar a recuperar a imagem. Você está
com os vídeos aí?
- Não; terei de pegar em casa.
- Eu baixo da internet.
- A qualidade não é a original, se perdeu um pouco.
Propositalmente.
- Não tem problema, eu consigo reconstruir, só vai
demorar um pouco mais.
- Tudo bem.
- Mas quem é o supeito?
- O cara que está saindo com a Priscila.
- O Davi?!

286
- Não, o chefe dela.
- Por que pensa isso?
- Um feeling meu.
- Mas preciso mais de que um feeling para ir atrás
dele.
- Vi um pedaço de sua tatuagem enquanto desabo-
toava a camisa para me bater.
- O mesmo Heising de sempre, causando fortes
emoções à sua volta - Cauê falou com ironia.
- O que posso fazer, né? Sou assim. Mas o que vi
parecia ser um pedaço de rabo escamado e tinha chamas
avermelhadas.
- Viu tudo isso num pedacinho do corpo do cara?
- Deduzi, na verdade.
- Heising, isso não diz nada. Num pode achar isso
dele porque a Pri foi abusada e está querendo se vingar?
- A Priscila foi abusada? Então foi isso o que Davi
fez com ela? Por isso você disse aquilo para a Clarice?
Cauê apenas confirmou com a cabeça, sem nada di-
zer. Apenas acrescentou que colocou seu advogado para
cuidar da causa com urgência e que logo seria aberto um
inquérito policial contra o criminoso. No fundo, ele sabia
que Heising não deixaria isso barato. Praticamente jogou
Davi aos leões. Na verdade, para os lobos.
- Passei as últimas horas analisando as tatuagens
e acredito que se mapearmos a tatuagem dele, consegui-
mos encontrar o seu criador por meio do traço do artista.
Eu vi, cada tatuador tem um jeito, uma identidade. E por

287
meio do desgaste de cores, conseguimos descobrir tam-
bém o tempo de sua criação.
- Muito bom. Muito bom mesmo.
- Eu sei que pensam que o assassino pode ser um
aluno de vocês, mas pelo que vi, sua assinatura é sempre
vista em site tipo o GuitHub.
- Isso é verdade, professor - confirmou Cauê.
- Qualquer programador pode entrar e copiar a
sua assinatura, praticamente ela virou um selo de quali-
dade.
- Qualquer um não - negou o professor - esse códi-
go eu vi, não é qualquer um que seria capaz de construí-
-lo, e não é só a assinatura que me diz isso, mas toda a
estrutura do sistema. Aquilo ali, só um exímio expert.
- Interessante…
- O quê, Heising?
- É que… - parou um pouco para refletir - É que
esse sujeito que a Priscila está saindo falou sobre como é
comum uma tatuagem de dragão. Tinha esse argumento
na ponta da língua. Agora me ocorreu que esse mesmo
raciocínio pode ser aplicado à assinatura do professor.
Como virou um selo de qualidade, muitos desenvolvedo-
res usariam, como quem diz “tá vendo, estudei inteligên-
cia artificial em Hong Kong”, certo?
- Continue..
- Então, talvez o assassino o tenha liberado de pro-
pósito para nos confundir… acha que consegue descobrir
quem o tornou público pela primeira vez?

288
- Boa ideia. Vou tentar, já!
- Calma! Ainda não disse minha teoria - Heising fa-
lou com certo mistério, presumindo que eles já saberiam
o que era. Começou a ler:
- Versos 10 e 11: “E ouvi uma grande voz no céu,
que dizia: Agora é chegada a salvação, e a força, e o reino
do nosso Deus, e o poder do seu Cristo; porque já o acusa-
dor de nossos irmãos é derrubado, o qual diante do nosso
Deus os acusava de dia e de noite. 11 E eles o venceram
pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemu-
nho; e não amaram as suas vidas até à morte.”
Heising deu uma pausa, e os encarou, rindo de orelha a
orelha.
- Desembucha.
- Acho que o assassino é o filho mais velho de Pe-
dro Debret, Henry Debret o nome dele.
- E acha isso só de ler esse versículo? - Questionou
Cauê, incrédulo.
- Metáfora, menino, metáfora - respondeu o pro-
fessor com certa impaciência da estupidez de Cauê - Ele
nunca foi meu melhor aluno, viu? - se defendeu para Hei-
sing.
- Não consigo imaginar como é o melhor - falou
para massagear o ego de Cauê, que recebeu o elogio com
apreço.
- Há outros versos para explicar a vocês, mas não
temos tempo para isso. O Cordeiro é um dos nomes que
dão a Cristo, que morreu na cruz para salvar a humani-

289
dade. Na verdade, seu pai o sacrificou, o maior assassina-
to a céu aberto da história e todo mundo adora olhar e
gritar aleluia. Cristo é o primogênito de Deus, o primeiro
filho. E o que ele está fazendo? Está varrendo a lama da
nossa política com sangue. Está “purificando” o país, di-
gamos assim. Ele acha que é Cristo nessa historinha; sua
obsessão em entregar o Kerata para ele me parece mais
um reencontro de pai e filho do que um agendamento de
morte.
- Agora não entendi mais nada.
- Deixa, garoto, vamos tentar reconstruir a ima-
gem, procurar quem soltou a minha assinatura enquanto
Heising tenta trazer o filho do Kerata aqui pra gente ma-
pear as tatuagens.
- Ué, agora não entendi nada mesmo.
- Por quê?
- Bom, se você suspeita que esse cara é filho do
Debret, um teste de DNA resolve.
- Sim, resolve, mas não quero envolver o delegado
nisso.
- Não se preocupe, consiga o DNA, o teste eu man-
do para Universidade. Rapidinho teremos o resultado.
Duas horas no máximo.
- Fechado.

290
CAPÍTULO 31
ÍRIS

A água fria caía refrescando seu corpo, levando seu


cansaço pelo ralo. Deixou a água cair livremente sobre a
sua cabeça, enquanto sentia a mente relaxar. Adorava um
banho gelado em dias quentes como aquele. Queria ter
ficado em casa, não queria ter saído daquele tapete. Ain-
da mais com Priscila ao seu lado. Aquele era um dia que
com certeza pularia fácil, mas tinha as suas obrigações
e compromissos. A cada reunião, a cada decisão tomada
durante o dia, ele pensava naquele banho, em chegar em
casa, ligar o ar-condicionado no mínimo de temperatura
e se jogar debaixo do edredom, pelado, e dormir.
Desligou o chuveiro a contra gosto, ficaria mais
um bom tempo ali embaixo, mas estava faminto e queria
cozinhar algo para comer ao invés de pedir de um restau-
rante. Enxugou bem os cabelos, o corpo e abriu o armário
para pegar um hidratante e passar no corpo. Era o seu
ritual pós-trabalho. Era um homem que se preocupava
com a sua aparência. Vestiu um calção confortável e foi
para a cozinha preparar seu jantar.
- Como desconfiar que você não é realmente o as-
sassino por trás de Deli Crucis se foi tão fácil entrar em
sua casa? Fácil demais. Acredito que desligou seu sistema
de propósito pra eu pensar isso, o que acha?
- Acho que fantasia demais. Estou muito cansado

292
para ficar de conversa fiada, não tenho energia nem para
tirar você da minha casa, mas acho bom que saia agora.
Sua invasão será notificada aos federais que te contrata-
ram.
- Acredito que não vai ter tempo para isso.
Heising partiu para cima de Arthur, que reagiu ve-
lozmente. Heising estava com uma seringa de heroína,
havia passado na boca onde costumava se drogar antes
de seguir para a casa de Arthur. Foi torturante estar com
algo que ele queria tanto dentro do bolso e não poder se
render ao prazer daquela anestesia.
Heising deu-lhe um soco no nariz, que fez Arthur
tontear sobre seu eixo. Devolveu o soco. Heising defen-
deu e reagiu com um chute no saco. Arthur urrou de dor,
apertou seu órgão com as duas mãos para aliviar o la-
tejo, ajoelhando-se quase que automaticamente. Heising
aproveitou para dar outro soco e levar Arthur de vez ao
chão. Puxou a seringa, tirou a tampa de proteção, deu
uma leve apertada para liberar um pouco do líquido e es-
nobou Arthur.
- Pensei que lutaria feito homem.
Arthur deu-lhe uma rasteira e Heising caiu de
bunda no chão. A seringa rolou para debaixo da mesa da
cozinha. Arthur subiu em Heising e o socou até o detetive
perder a consciência. Olhou para os lados, ainda em cima
de Heising, desacordado, e viu a seringa. Esticou-se para
pegá-la. Estava ofegante, com o coração pulando pela
boca. Conseguiu pegar a seringa e a enfiou no pescoço de

293
Heising.
Quando Heising acordou, horas depois, estava
amarrado numa cadeira com o delegado e os federais o
encarando.
- A vontade que eu tenho é de te dar outro nocau-
te, Wolfie! Como você teve a coragem de fazer isso com
a gente? WOLFGANG, ME EXPLICA O QUE DIABOS VOCÊ
ESTAVA PENSANDO?
- Delegado, eu acredito que Arthur seja o nosso
suspeito e eu fui em paz, ele que me agrediu.
- Solta aí - disse o delegado, pedindo a Afonso para
dar play na gravação que Arthur deixou dos aconteci-
mentos.
- Tá vendo? Tu tá vendo o que tu fez, seu merda?
Você pode ser preso, Heising! Mas que merda você tem
na cabeça? Por que você não veio aqui pedir um man-
dado, fazer do jeito certo? Por que você quer fazer tudo
sozinho, do seu jeito? DO SEU JEITO ERRADO!
Delegado chutou a própria mesa, enfurecido. Deu uns
murros no ar também. Heising apenas baixou a cabeça.
- Tudo bem, delegado, eu quero um mandado para
pegar o DNA de Arthur Veranus e comparar com o de Pe-
dro Debret, pois acredito que Arthur seja Henry Debret,
o primogênito do Kerata.
- Como é que é, Heising? Você enlouqueceu? Com
base em que você quer fazer um exame de DNA?
- Nas tatuagens dele, senhor.
O delegado gargalhou alto e terminou chorando

294
de raiva.
- Afonso, tira esse sujeito da minha frente. Pode
prender.
- Não! - interrompeu o delegado federal.
- Como é que é? - Disse o delegado civil, já pronto
para atacar.
- Eu disse que não.
- Aqui é a MINHA DELEGACIA, QUEM MANDA SOU
EU.
- Esse “sujeito” que você quer prender tem uma
pista que deseja confirmar ou descartar. Pela sua reação,
entendo perfeitamente porque ele não veio aqui primeiro
e tentou resolver sozinho - o delegado derrubou o queixo
no chão quando ouviu aquilo, desacreditado - terá o seu
mandado e exame de DNA. Se a polícia civil não faz nada,
a federal faz. E conheço um juiz que não vai pensar duas
vezes em emitir essa ordem.
O delegado tirou a arma e a colocou sobre a mesa.
Fez o mesmo com seu distintivo. Depois, encarou o dele-
gado federal nos olhos, se esforçando para não enchê-lo
de porrada.
- Então a partir de agora você é o responsável por
esta operação. O que acontecer daqui pra frente, é res-
ponsabilidade sua. Estou caindo fora.
O delegado saiu da sala, enfurecido. Afonso gritava
por ele, que apenas entrou em seu carro e saiu cantan-
do pneu. Lá dentro da delegacia, Bernardo falava em voz
alta que agora era o capitão da operação e que todos de-

295
veriam obedecê-lo.
- Vamos pegar esse maldito assassino! Soltem Hei-
sing, vou falar com o juiz para emitir seu mandado.
- Obrigado, capitão.
Heising estava decepcionado consigo mesmo por
não ter impedido o delegado de ir embora, mas precisava
pegar Arthur. E se tinha um federal que fosse acreditan-
do nele, ótimo. Era a chance que tinha de provar que sua
intuição nunca falha. O mandado foi emitido em menos
de duas horas. E em menos de três, Heising já estava na
porta da Veranus Cosméticos com a ordem em mãos.
Faltava pouco para dar nove da manhã. Nocautea-
do pela heroína, sequer percebeu que passou a madruga-
da amarrado na delegacia. Arthur o levou para lá na mes-
ma hora em que enfiou a seringa em seu pescoço e deixou
os arquivos das gravações para certificar que havia sido
o detetive o autor da invasão e agressão, que ele apenas
se defendeu. Já era o terceiro dia depois que Henry fa-
lou com Pedro. Nenhuma morte até ali, nenhum sinal de
Deli Crucis, nenhum risinho, nenhuma gracinha. Heising
acreditava que as mortes voltariam numa pausa de doze
dias, como o ciclo anterior.
- Quero falar com Arthur Veranus, por favor.
- Seu nome?
- Wolfgang Heising, o cara que ele enfiou heroína
ontem à noite, ele vai saber quem é.
A recepcionista arregalou os olhos e pegou o tele-
fone na hora para digitar o ramal de seu chefe. Ao ouvir o

296
que ela repetiu, Arthur só pediu que Heising fosse embo-
ra, não tinha nada para falar com ele.
- Diga a ele que tenho um mandado em mãos e
dois policiais federais ao meu lado - Ergueu o mandado
na cara dela.
- Senhor, ele tem um mandado em...
- mãos, eu ouvi. Mande subir.
- Podem subir, senhores. Vigésimo segundo andar.
Heising pegou o crachá de visitante e subiu. O ele-
vador foi rápido, mas para ele demorou milênios. Sen-
tiu o coração palpitar, a visão ficar turva, a cabeça ro-
dar. Teve plena certeza de que não sairia vivo dali, quis
correr, mas permaneceu firme. Respirou fundo e saiu do
elevador tranquilamente quando as portas de abriram,
pelo menos foi isso o que se esforçou para fazer.
Todo o andar era a sala de Arthur. Tinha uma lin-
da visão da rua lá fora. A sala era bem iluminada pela luz
natural. Arthur estava em frente ao elevador, e estendeu
a mão para recebê-los assim que a porta abriu.
- Heising. Oficiais.
- Veranus.
- Onde está o mandado? - perguntou gentilmente.
- Aqui.
Arthur o pegou e o leu devagar.
- Pode me dar um minuto enquanto ligo para o juiz
para confirmar a sua veracidade.
- Pois não.
Arthur foi até seu computador, tinha um pequeno dispo-

297
sitivo em sua mesa que ao aproximar o mandado, o apa-
relho digitalizou a folha rapidamente. Os dados foram pa-
rar em sua tela e Arthur pode ver o endereço do juiz, seu
contato, sua conta bancária, tudo sobre sua vida. Ligou
para o celular do juiz, que se surpreendeu com a ligação.
- Vossa excelência é mesmo o autor deste manda-
do que tenho em mãos? - falou depois de se apresentar e
explicar a situação.
- O juiz confirmou, incomodado com aquilo - como
conseguiu meu número pessoal?
- Tenho meus contatos, excelência. Obrigado.
Desligou e caminhou em direção a Heising e poli-
ciais
- Prossigam, façam o que têm de fazer. Não tenho
nada a esconder.
Heising chamou a equipe de coleta e o fotógrafo,
que registrou a foto de suas tatuagens de todos os ângu-
los. Enquanto a equipe trabalhava, Heising recebeu men-
sagens de Cauê.
Consegui reconstruir a imagem, vem pra cá.
- Rapazes, estamos perto?
- Acabamos, senhor.
- Muito obrigado. Podem levar o conteúdo para os
federais. Me esperem lá embaixo, tenho algumas orienta-
ções para vocês. Vou me despedir de Arthur.
Quando saíram, Heising se aproximou de Arthur,
que não se intimidou com aquela aproximação.
- O que falou com Pedro lá no galpão?

298
- Seu mandado não te permite me incomodar. Já
pegou o que precisava, saia. Ou chamarei os seguranças.
Heising saiu, achou melhor não enfrentar a fera
agora. Encontrou sua equipe lá embaixo, inclusive os po-
liciais federais. Heising os despediu, menos o fotógrafo.
- Quero que venha comigo. Pode fazer um pequeno
desvio?
Foram para a casa de Cauê. Heising apresentou o
fotógrafo e pediu que desse o cartão de memória de sua
máquina para ele, que o fez prontamente. Cauê jogou
os originais em seu computador e colocou uma cópia de
tudo no cartão de memória do fotógrafo. O devolveu e o
despediu.
- O que acharam?
- Então, consegui tirar a projeção de seu rosto e
reconstruir a imagem, mas olha.
Cauê jogou na tela a imagem, não era o rosto de Arthur.
- Droga! - disse Heising.
- Calma. Esse rosto aqui é de um personagem do
game Assassins Creed.
- Como é que é?
- Então, não é o rosto dele, é uma película de cera,
digamos assim.
- Ou silicone - falou o professor.
- Uma máscara de disfarce, então? - Questionou
Heising.
- Isso!
- Filho da puta!

299
- Calma, Heising, temos uma boa notícia.
- Diga, pelo amor de Deus!
- Consegui resconstruir seu olhos, mapeei sua íris.
É praticamente outra digital.
- Perfeito! Já acharam?
- Então, precisaríamos de outro mandado para ti-
rar a foto do olho do seu suspeito.
- Droga.
- Pois é….
- Bem rapazes, temos o DNA que vai para análise,
vamos torcer para que em poucos dias a gente tenha os
resultados. Acredito que não tão rápido como nos ofere-
ceu o professor, mas teremos. E temos aqui as tatuagens.
Podemos mapeá-las já, o que acham? E tentar encontrar
o seu criador.
- Mãos à obra.

300
CAPÍTULO 32
Ar

As lágrimas escorriam por sua face inexpressiva.


Estava cansado de toda aquela ladainha sobre como deve-
ria ser grato por estar vivo, sobre como deveria ser grato
por ter Cauê ao seu lado. Para que tê-lo ao seu lado se não
era capaz de lhe fazer um carinho? De dar-lhe um beijo?
De reagir ao seu amor? Estava farto, farto até de não con-
seguir acabar com isso sozinho. Cauê o pegou chorando e
se desmanchou diante dele.
- O que foi, meu amor?
- Eu não quero mais estar aqui. Quero morrer, me
deixa morrer.
- Mas nós combinamos um ano, lembra? Dois no
máximo.
- Foda-se o tempo. Cada segundo a mais significa
mais sofrimento, mais dor, mais impotência. É isso o que
quer? Me fazer sofrer eternamente? Me tornar em algum
projeto mal sucedido da sua incrível empresa?
Havia muito ódio dentro de Sérgio, que ele sequer
era capaz de expressar. Aquele texto passava longe da
emoção que sentia. Estava enlouquecendo, gritando por
dentro, mesmo que sua boca fosse incapaz de se movi-
mentar. Cauê, mesmo não enxergando todo esse ódio,
toda essa dor, os sentiu. Sua alma ardeu. Pela primeira
vez sentiu que estava agindo errado com Sérgio, que es-

302
tava sendo egoísta. Saiu, sem dar uma palavra. Heising
estava em sua casa, esperando o mapeamento das tatua-
gens.
- Heising - deu um assobio, Heising olhou - chega
aí.
Heising se aproximou.
- Escuta, você ainda tem heroína aí com você?
- Por quê?
- Tem ou não?
Heising percebeu a preocupação de Cauê. Tinha
preparado duas seringas caso Arthur não apagasse com
uma apenas. E aquela derradeira estava sendo uma ten-
tação. Entregar ao amigo seria uma bênção. Puxou do
bolso e entregou na mão de Cauê.
- Não fale sobre isso jamais, entendeu?
Heising concordou com Cauê balançando a cabeça
devagar. Cauê voltou para o quarto onde estava Sérgio.
Colocou a mão atrás de sua nuca e encostou seus lábios
carnudos nos dele. Suas lágrimas também escorreram e
seu coração latejou.
- Desculpa, meu amor, me perdoe.
Amarrou o braço de Sérgio, apertou bem até sua
veia pular. Enfiou a agulha e apertou a seringa, devagar.
Sérgio foi relaxando até apagar. Quando finalmente fi-
cou inconsciente, Cauê ficou de joelhos no chão e gritou
alto, ainda com a seringa na mão. O professor olhou em
direção à escada e fez menção de ir até lá ver o que tinha
acontecido. Mas Heising fez um gesto com a mão para ele

303
não fazer isso. O professor voltou ao trabalho, se esfor-
çando para ignorar aquele gemido doloroso. Cauê chorou
copiosamente até manchas amarelas surgirem em sua vi-
são quando olhava para os lados. Conseguia ver auréolas
de arco-íris ao redor das luzes. Colocou Sérgio na cama, o
cobriu e foi ao banheiro lavar o rosto e descer para ajudar
Heising e o professor. Jogou a seringa no lixo e desceu as
escadas.
- Como estamos?
- Estamos buscando traços semelhantes na inter-
net e Deep Web.
- Nada ainda?
- Nada; vai demorar um pouco.
- Heising, vem aqui - Heising obedeceu - Quanto
tempo dura o efeito?
- Depende. É a primeira vez de Sérgio?
Cauê espremeu os lábios, se recusando a falar.
- Sim - disse com resistência.
- Umas três ou quatro horas.
- Onde consigo mais?
- Depois do que aconteceu ao Boro e toda a sua má-
fia, vai ser difícil achar de boa qualidade. Onde eu pego
está sob vigilância dos federais e já vi o FBI rondando por
lá.
- O FBI?! Mas não deixamos se meterem aqui no
país.
- Estamos falando dos Estados Desunidos, acha
mesmo que eles ligam para a nossa opinião? Aquele país

304
está vivendo uma crise por causa da heroína. Muitos
americanos e europeus têm morrido por causa do vício.
Estamos revivendo a Guerra do Ópio, meu amigo. Eles es-
tão agindo na surdina, não por causa de nossos políticos,
ou Deli Crucis, mas pelas drogas que estão saindo daqui
para lá.
- Hum...
- O melhor que você pode fazer é ter o seu próprio
químico. Seu próprio laboratório.
- Uma boa ideia. Conheço um muito bom - saiu da
frente de Heising, que o chamou de volta.
- Cauê? Não faça isso, por favor.
Cauê não lhe deu ouvidos. Iria dopar Sérgio, man-
tê-lo desacordado, pelo menos seu fardo teria alívio.
Conseguiu o químico minutos depois, mas para produ-
zir morfina, não heroína. Cauê topou e disponibilizou o
dinheiro necessário para montar o laboratório da noite
para o dia. O químico disponibilizou morfina suficiente
para Cauê utilizar até que produzissem o primeiro lote.
- ACHAMOS! - Gritou o professor. Lá de cima Cauê
escutou, desligou com o químico e correu para encontrar
Heising e o professor. Os traços eram o mesmo, as cores
tinham um padrão em todo o portfólio de “Pan Ku”, um
tatuador Chinês com estúdio montado em Xangai. Nun-
ca o professor fora tão importante naquela investigação
como agora. Morava há mais de trinta anos na China e
não falava fluentemente apenas o Mandarim, mas o Can-
tonês, Xangainês, Sichuanês, Hakka e Taiwanês, que todo

305
baderneiro achava não ter diferença alguma. Uns igno-
rantes.
Logo o professor estaria conversando com Pan Ku.
Do outro lado, uma voz agoniado o respondeu, rápida e
incomodada com aquela ligação. O professor pediu-lhe o
e-mail para envio das imagens e assegurou se tratar de
uma investigação no Badernil. Pan Ku estava ciente das
mortes do país, tinha acompanhado alguns vídeos pala
Internet e lamentou o ocorrido.
- Seu Xangainês é perfeito, diria até que é um de
nós.
- Moro em Hong Kong e morei em Xangai por dez
anos.
- Então envie a imagem da tatuagem, lembro de
cada uma que fiz. Todas têm um significado para meus
clientes, com toda certeza a que vai me mandar é muito
especial.
- Peça as gravações também - sussurrou Heising
para o professor - as gravações.
- E queremos também as gravações do seu estúdio.
- Ah, são muitas.
- A gravação do dia em que fez essa tatuagem.
- Acredito que por ser tão especial, o senhor tam-
bém deve ter um registro do dia, certo?
- Ah sim, com certeza.
O professor encerrou a conversa, suava de nervo-
so. Nunca tinha se metido em algo tão ativo. Só ficava nas
teorias.

306
- Ele vai enviar, falou que lembra de todas as tatu-
agens que fez e seus donos.
- Vamos ver.
- Já enviei o e-mail.
- Agora é só esperar.
- Caralho! - disse Cauê impressionado.
- O que foi?
- Ele já respondeu.
- Já?! - surpreendeu-se Heising.
- Ah, meu querido, Chinês é veloz - falou o profes-
sor orgulhoso de ter escolhido aquele país para viver.
- O que disse?
- Não entendo nada. Ajuda aqui professor.
O professor foi até o computador onde Cauê estava
para ler o e-mail.
- Ele disse que achou. Pediu um momento para
achar as gravações.
- Muito bom! E o delegado, será que já tem o resul-
tado?
- Que nada! Acabamos de pegar o DNA daquele
merdinha. Vai demorar um pouco.
- Você tem certeza disso, Heising? Acha mesmo
que é ele?
- Sinto o cheiro de longe.
O som de uma notificação soou do computador de
Cauê. Era Pan Ku emitindo outro e-mail. Nele estava um
link de transferência de arquivo e algumas palavras que
Cauê mais uma vez pediu para o professor traduzir.

307
- Ele quer dinheiro, são os dados bancários.
- Claro que quer. Ligue para ele, professor, e con-
firme a transferência do valor pedido mais cinquenta por
cento pelo seu silêncio.
- Agora!
O professor ligou para Pan Ku novamente e fez a
oferta de Cauê, que foi recebida aos pulos pelo chinês.
Tentou se explicar, disse que não pediria nada se a sua
situação não estivesse ruim. O professor apenas ouviu e
confirmou a transferência enquanto o arquivo era baixa-
do. Quando finalmente abriu, Cauê não pode acreditar.
Não era Arthur. Mas a tatuagem era exatamente a mes-
ma. Fizeram a comparação e deu “match”.
- Como isso pode ser possível?
- Volta um pouco o vídeo - pediu Heising.
- Não é ele, Heising.
- Para aí! Dá um zoom.
- Heising!
- Estou falando, dá um zoom! - quase gritou para
Cauê obedecer.
Cauê aumentou o zoom com certa resistência.
- Mais! - gritou Heising, nervoso - Aí, para. Aqui, tá
vendo? - apontou para o pescoço do sujeito.
- Não vejo nada.
- Há uma diferença de tom de pele.
- Pode ser do sol - falou Cauê.
- Depende - retrucou o professor - de quando é
essa gravação mesmo?

308
- Janeiro - falou Cauê.
- Janeiro é inverno em Xangai, impossível ter esse
bronze. Pode ser uma máscara de disfarce, como a que foi
usada pelo assassino no primeiro vídeo de Deli Crucis.
- Boa, professor!
- E agora? - perguntou Cauê.
- E agora que a gente tem que dar um jeito de tirar
foto do olho de Arthur e comparar com a íris que você
conseguiu reconstruir.
- Mas a polícia já não está com o teste de DNA?
- Sim, mas você acha mesmo que esse cara, que usa
máscara de disfarce para fazer uma tatuagem, vai correr
o risco de ser pego num teste de DNA? Ele está planejan-
do tudo isso há anos.
- Vamos nessa então. Vamos colocar o fotógrafo
na cola dele feito paparazzi.
O trabalho começou. Heising mandou o fotógrafo
vigiar Arthur e tentar tirar boas fotos de seu olho. En-
quanto isso, Cauê teve a ideia de entrar no sistema dos
federais para ver se Deli Crucis também já tinha passado
por ali; quem sabe conseguiria rastrear sua porta de en-
trada.
Horas depois, Cauê finalmente entrou no sistema
federal e estava certo: Deli Crucis já tinha passado por lá.
Olha, professor, o mesmo padrão de Deli Crucis.
- Consegue rastrear o percurso que ela fez?
- Sim; vai demorar um pouco.
- Estamos sem compromisso, vai nessa.

309
Os dedos de Cauê sobre o teclado eram velozes,
quase tão rápidos quanto a sua mente. Quase uma hora
depois ele conseguiu achar o caminho.
- Aqui! Ela alterou o exame de DNA de Arthur.
- Bingo! O pegamos!
- Mas calma, não dá para prendê-lo só com isso.
Como vamos justificar que invadimos o sistema da polí-
cia federal?
- Tem razão. Não conseguimos recuperar o resul-
tado original?
- Quase impossível. Só se falarmos com o laborató-
rio.
- Mas se ela alterou o resultado no sistema da PF, é
claro que fez o dever de casa e alterou o do laboratório.
- Heising tem razão, Cauê.
- Então deixa para lá, vamos esperar a foto do fotó-
grafo.
Deli Crucis percebeu o movimento dentro do sis-
tema dos federais e fez questão de fazer uma visita aos
invasores. Quase os matou de susto quando falou “Olá”.
Todo o Badernil tomou um susto junto. A casa de Cauê
estava ao vivo para todos.
- Vejo que invadiram o sistema da Polícia Federal…
como isso é possível?
- Que merda é essa?! - gritou o professor, com a
bosta quando escapando da bunda.
- Sou Deli Crucis, prazer.
- Sabemos quem é - disse Heising.

310
- Olá, Heising. O detetive preferido da polícia. Não
consigo entender o porquê, tendo em vista o seu vício em
heroína.
Heising ficou nervoso, mas logo conseguiu revi-
dar.
- Seu papai também me conhece e se acha que veio
aqui nos intimidar ou atrapalhar nossa investigação, óti-
mo! É sinal de que estamos chegando muito perto. Então,
aqui vai meu recado para nosso principal suspeito: Ar-
Deli Crucis cortou a conexão, não esperava que
Heising fizesse aquilo. Achou que os amedrontaria e que
ao trazer o vício de Heising em rede pública, baixaria a
sua popularidade diante da opinião pública. Não enten-
deu aquele comportamento, mas o registrou na memória
para avaliar e incorporar mais para frente. Percebeu a
sua intenção, e como está programada para se defender a
qualquer custo, desligou assim que ouviu Ar . A próxima
sílaba seria Thur. Heising falaria Arthur Veranus.
- Pronto, senhores. Esta é a deixa de que precisa-
mos. Cauê, continue, vou falar com o delegado.
- Qual deles?
Heising revirou os olhos, lembrando de que o dele-
gado estava muito puto com ele. Correu para a delegacia,
o delegado federal, Bernardo, já estava esperando por
ele. Os policiais também, menos o seu amigo delegado.
Ficou triste quando não o viu ali, junto com todos. Sua
consciência pesou.
- Que transmissão foi essa, Heising? Como assim

311
invadiram o nosso sistema?
- Eu explico. Cauê conseguiu invadir o sistema de
Deli Crucis e ela revidou; estamos praticamente em uma
guerra binária. E estamos perto de ganhar.
Não deixava de ser verdade, mas Heising queria chamar
atenção do delegado para outra coisa.
- Eu fiz um teste, delegado e deu certo. Estava pres-
tes a dizer Arthur Veranus quando Deli Crucis encerrou a
conexão.
- Por isso ouvimos quando disse “Ar”. Não enten-
demos nada.
- Tem certeza disso, Heising?
- Sim, senhor.
- Então vou eu mesmo pedir o mandado de prisão
para Arthur Veranus. Ele deve ser interrogado imediata-
mente.
- Ah, senhor!
- O quê, Heising?
- Deli Crucis alterou o resultado dos exames. O
Cauê vai mandar o print do percurso para os seus hackers
confirmarem. Então não espere dar certo esse resultado
em qualquer laboratório do país.
- E agora? O que faremos?
- O professor de Cauê pode enviar para a Universi-
dade de Hong Kong. Se autorizar, enviamos para lá.
- Não.
- O resultado sai em duas horas.
- Mande.

312
CAPÍTULO 33
FREQUÊNCIA

Eram nove da manhã quando Priscila chegou ao


trabalho, pontualmente. Apertou o botão para o andar
da empresa e parou de respirar quando a porta abriu. Ar-
thur estava lá. Ficou muito constrangida.
- Bom dia, senhorita.
- Bom dia, Arthur.
Será que ele ia fingir que nada aconteceu? Prisci-
la se perguntou, mas não falou nada até chegar ao seu
andar. Arthur desceu junto, sempre passava no vigésimo
primeiro para pegar um café e cumprimentar todo mun-
do. O pessoal começou as especulações logo que os viram
chegar na mesma hora. Ainda mais porque tinham falta-
do juntos também.
- Bom-dia a todos.
- Maurício, Flávia, Marina, Roberto, Alberto, Gon-
çalves e Jadir - Falou Arthur e eles apenas ergueram a
cabeça em sua direção - Como está o projeto?
- Não sabemos, Arthur - respondeu Marina - Como
vocês dois não vieram anteontem, eu achei que …
- Priscila, você não delegou a eles as suas tarefas?
- interrompeu Arthur.
- Sim, senhor Arthur.
- Então, Marina, vocês não trabalham em nossa au-
sência?

314
Ninguém respondeu. Marina baixou a cabeça e se
desculpou.
- Não há desculpas, Marina. Vá até minha sala co-
migo, por favor.
Marina obedeceu. Esperou o chefe buscar seu café
como o de costume e subiu com ele, muda. Quando che-
garam, Arthur pediu que Marina se sentasse. Foi gentil
com ela. Marina esperava ser demitida, e ficar sem em-
prego era tudo o que ela não precisava.
- O que você precisa para trabalhar mais feliz nes-
ta empresa, Marina?
- O quê?
Marina ficou surpresa com a pergunta.
- O que você precisa para ser mais feliz aqui den-
tro? Vamos, me diga.
- Eu sou feliz aqui dentro, Arthur.
- Nós dois sabemos que não é verdade. Além de não
ser feliz, é venenosa com todos, espalha boatos, contami-
na as pessoas. E para ser sincero, tenho só duas opções:
contornar essa situação com você ou te demitir. O que
prefere?
O telefone de Arthur tocou. Era a secretária.
- Senhor Arthur, o delegado da polícia federal está
aqui com seus policiais. Querem subir e têm mandado.
- Podem subir - falou tranquilamente e voltou a
falar com Marina. - Estou aqui para ajudar, para ser um
facilitador. Não quero pessoas torcendo para minha em-
presa falir ou para eu me dar mal. Então, o que precisa?

315
- Eu tenho um filho especial, senhor. E meu salá-
rio não tem dado para pagar uma enfermeira, um colégio
adequado.
- De quanto precisa?
- Não sei dizer assim, preciso fazer alguns cálculos
- disse depois de pensar um pouco.
Os policiais apareceram no corredor de frente à
sala de vidro de Arthur, que fez um gesto para esperarem
um pouco. Marina olhou para trás e os viu.
- Não se preocupe, fiscalização de rotina. Então
faça os cálculos e me traga, seu aumento já está garanti-
do.
Arthur se levantou, abotoou o seu terno e acompa-
nhou Marina até a saída. Cumprimentou os federais e os
pediu para entrar. Foi muito educado.
- Então, senhores, a que devo a visita?
- Temos um mandado de prisão preventiva. Preci-
samos que nos acompanhe até a delegacia para respon-
der algumas perguntas.
- Mas é claro, vamos! Não precisa encostar em mim
senhores, nem me algemar - falou quando viu o policial
vir em sua direção.
- É procedimento padrão.
- Não será preciso, garanto - Arthur se levantou
prontamente e acompanhou os policiais até a delegacia.
Desta vez, foram para o seu gabinete, já que não fazia
sentido ir para delegacia da polícia civil.
Arthur foi muito prestativo. Quando entrou no ga-

316
binete, Heising já estava lá. O cumprimentou educada-
mente.
- Heising, me desculpe pelo último encontro, mas
ou era você ou eu.
- Estou bem, fique tranquilo.
- Já que se conhecem, vamos prosseguir. Heising
fará algumas perguntas, mas basicamente precisamos
esperar - olhou no relógio - quarenta e cinco minutos, é
isso Heising?
- Isso, senhor.
- Quarenta e cinco minutos até enviarem para mim
o resultado do seu DNA, já que o nosso sistema foi conve-
nientemente invadido por Deli Crucis, que tinha um inte-
resse muito especial em alterar o seu resultado. Sabe por
quê?
- Não faço ideia.
- Isso! - Falou Heising apontando o dedo para a
boca de Arthur - Sabe o que é isso? - Arthur apenas riu -
Isso se chama deboche. E se eu te disser que o novo labo-
ratório que está cuidando do seu DNA não está em terras
baderneiras?
A expressão foi rápida, mas Heising conseguiu
captar sua surpresa e medo.
- Ficou surpreso? Aposto que daqui a pouco vai en-
golir a seco.
Na mosca! Arthur engoliu a seco quase que invo-
luntariamente.
- Não acredito que desenvolveu uma inteligência

317
artificial capaz de ler micro-expressões humanas e não
foi capaz de disfarçar as suas.
- Micro-expressões não podem ser disfarçadas -
afirmou o delegado.
- Exatamente, senhor, e sabe por quê? - questio-
nou Heising, encarando Arthur.
- São expressões do seu inconsciente, das suas re-
ais motivações e emoções. - respondeu o delegado.
- Não sei o que eu tenho a ver com tudo isso - Ar-
thur se defendeu.
- Acredito que você é Henry Debret, filho de Pedro
Debret, mas só teremos certeza quando o resultado sair.
Arthur riu.
- Do quê está rindo?
- Um homem acusado, retirado à força de sua ro-
tina, com mais de cinco mil funcionários para sustentar,
tem direito a se defender, ainda mais quando a acusação
é fantasiosa, vinda de um viciado em heroína. Então, se-
nhores, ou me libertam agora, ou irei processá-los.
- Logo sairá o resultado de seu exame e libertamos
você - concordou Bernardo.
Heising ficou atônito. Teria mesmo cometido um
erro? Queria resolver o caso a todo custo e por isso estava
achando pelo em ovo? Não podia ser. Sua intuição estava
certa. De alguma maneira aquele sujeito estava envolvi-
do. O delegado chamou Heising para o canto.
- Tem certeza mesmo, Heising?
- Sim, senhor. Eu tenho. Mas vou precisar do dele-

318
gado junto com a gente.
- Por que, Heising, o que está pensando?
- Precisamos dos teólogos que o delegado pediu
para Afonso contratar.
- Mas ele saiu da investigação.
- Eu sei, mas Arthur não para de olhar para o re-
lógio. Por que está tão preocupado com o tempo? Deve
estar tramando algo e os teólogos podem nos ajudar a
achar mais alguma pista naqueles versículos.
- Então creio que você precisa fazer as pazes com
ele.
- Eu sei. Farei isso. Precisamos dele.
- Montanha!
Um policial de quase dois metros de altura e largu-
ra entrou no gabinete.
- Sim!
- Leve Arthur para a cela. Vamos Heising, sabe
onde o delegado mora?
- Sei.
- Vamos.
Montanha levou Arthur para a cela, que foi muito
comportado. No caminho, Heising recebeu uma ligação
de Cauê.
- DNA deu negativo, Arthur não é filho de Pedro
Debret.
- E o fotógrafo, mandou a foto?
- Sim. Tem uma lente de contato por cima, vai de-
morar mais para sair o resultado.

319
- Tudo bem, me liga assim que o tiver.
- Pode deixar.
- O que foi Heising? Saiu o resultado do DNA?
- Ainda não, senhor. O Cauê me ligou só para avi-
sar que vai atrasar mais uma hora ou duas.
- Tudo bem. Vamos.
O delegado abriu a porta para Heising entrar. Saí-
ram acelerados e depois de um breve silêncio, perguntou
por que Heising nunca entrou para a polícia.
- Seria excelente.
- Eu já sou excelente.
- E modesto.
Heising riu, forçadamente. Não gostava nenhum
pouco desse tipo de aproximação. Daqui a pouco o per-
guntaria coisas pessoais. Heising garantiu que não o fi-
zesse.
- Não gosto de pessoas, delegado. Nem de fazer no-
vos amigos. Prefiro que mantenha a postura profissional,
não somos “brothers”.
O delegado ficou contrariado, mas aceitou a condi-
ção numa boa. O homem era bom. Então para que contra-
riá-lo?
- Tudo bem!
Mal estacionaram na frente da casa do delegado
e Heising saltou do carro. A casa do delegado era bem
modesta em decoração, aquelas casas antigas, com ja-
nelas grandes e arqueadas, ornamentos arquitetônicos.
Heising bateu na porta compulsivamente até o delegado

320
abrir. Gritava lá de dentro: “já vai! Mais que maldição”.
Abriu a porta, estava de roupão.
- Heising! Mais que diabos? Trouxe esse FODs até
minha casa? Você está louco? Quer levar um tiro no saco?
- Delegado, não temos tempo para isso, precisa-
mos dos teólogos que mandou contratar.
- Se virem - falou o delegado fechando a porta na
cara deles, mas Heising segurou a porta.
- Nós prendemos Arthur.
- Que Arthur? Veranus?
- Isso.
- Mas o que merda estão me dizendo?
- Escuta, delegado, precisamos que entre, vista
suas roupas e nos acompanhe, por favor - Heising implo-
rou.
- E porque eu faria isso? Fui humilhado na frente
de todos! Desrespeitado! Isso não se faz! Não mereço o
que fizeram! E você, Heising, quantas vezes quebrei o seu
galho e olha o que fez comigo!
- Delegado, não leve para o pessoal, eu precisava
resolver esse problema.
- E eu preciso que saiam da minha porta!
- Senhor, me desculpe - falou o federal. - Sei que
quer se aposentar.
- Como é que é? Como ousa!?
- Eu me informei, sei que está cansado, quer uma
boa aposentadoria e está chateado não com a gente, mas
porque acha que estragamos o seu plano. Então assim:

321
você vem com a gente, leva o crédito da resolução deste
caso e tem a sua gloriosa aposentadoria. O que acha?
- Fechado! Vamos! - Falou sem pestanejar.
- Não vai nem se trocar?
- Ah, verdade. Um instante. Entrem, entrem, vou
pedir um chá para vocês.
Heising nunca viu o delegado tão feliz. Gostou do
que o federal disse.
- Foi muito digno da sua parte.
- Ah, tenho muitos anos pela frente. Deixe que o
homem se aposente em paz, é um direito de todo traba-
lhador Baderneiro.
- Nem todos.
- Vamos, senhores, estou pronto!
O delegado estava pronto e animado. Dali mesmo
ligou para Afonso, que pulou de alegria do outro lado e
gritou para os colegas “o delegado voltou, o delegado
voltou”.
- Chame todos os teólogos, Afonso, agora. Estou a
caminho da delegacia e quando chegar, quero vê-los to-
dos aí.
- Sim senhor, delegado.
Afonso não pôde se conter, ninguém na delegacia
entendeu e Afonso não fez questão de explicar.
- Precisamos chamar os teólogos, o delegado está
vindo. Ele está vindo!
Uma hora depois o delegado chegou à delegacia,
parecia um Rock Star. Apenas três teólogos apareceram,

322
mas eram suficientes.
- Sentiram a minha falta? A festa acabou! Eu vol-
tei com tudo! O FODs aqui - bateu no ombro do delegado
federal - admitiu que não pode resolver o caso sem mim.
Pois bem, vamos trabalhar e resolver essa caralha. Cadê
os teólogos, Afonso?
- Aqui senhor - apontou para os três sujeitos.
- Vamos, para minha sala. Já!
Entraram. Os teólogos já estavam preparados para
todos os questionamentos possíveis. Desde o primeiro
contato de Afonso eles tinham focado em Apocalipse.
- Fala, Heising, desembucha. Direto ao ponto, sem
rodeios que não temos o dia todo.
- Então, foram sete mortes, doze dias de pausa, de-
pois mais sete mortes e, pelo que suspeito, amanhã com-
pletará a pausa de mais sete dias e ele novamente agirá.
- Mas não seriam 12 dias de pausa?
- Sim, mas percebi que Arthur não para de olhar
para o relógio. Foi então que a ficha caiu: amanhã fará
exatamente sete dias.
- Do que precisam?
- Debulhamos Apocalipse capítulo doze inteiro.
Logo no primeiro verso entendemos o valor de Clarice
Debret para este caso.
- A mulher vestida de sol com os pés sobre a lua
você acredita ser Clarice Debret? - questionou o teólogo.
- Sim.
- Por quê?

323
- Linguística e personalidade. Clarice vem do latim
clarus, brilhante, quase vestida de sol.
- Entendi.
- E pés sobre a lua fala de sua personalidade inten-
sa.
- Ela tem filho?
- Não, mas sente dores de parto desde os primeiros
assassinatos.
- Isso não faz sentido.
- Por quê?
- Porque na Profecia essa mulher dá a luz ao Cor-
deiro de Deus…
- Jesus.
- Isso mesmo. O filho inocente que é crucificado
pelos pecados da humanidade. Se Clarice Debret é mes-
mo esta mulher descrita na bíblia, é dela que tem de vir a
Salvação.
- Dela?
- De seu filho. E não tendo filho… voltamos à esta-
ca zero.
- Heising?! - falou o delegado olhando para ele.
Heising pensou um pouco antes de responder.
- Então haverá mesmo um sacrifício?
- Provavelmente sim. Mas um sacrifício para o
bem, que vencerá o dragão, no caso, o seu suspeito.
- Um Cordeiro?
- Isso.
- Não dois?

324
- Exatamente - respondeu o teólogo.
- Mas Heising, por que está tão focado nos núme-
ros de mortes, nas pausas entre elas? Por que pergunta se
é apenas um cordeiro e não dois? De onde tirou isso?
- O senhor pode falar para o delegado o verso três
do capítulo doze? - falou Heising para o teólogo, queren-
do ganhar mais tempo para pensar em algo, sentia-se en-
curralado dentro da própria cabeça.
- Claro. E viu-se outro sinal no céu; e eis que era
um grande dragão vermelho, que tinha sete cabeças e
dez chifres, e sobre as suas cabeças sete diademas. - falou
sem ler a Bíblia, sabia de cor.
- E daí? Um monte de blá blá blá pra mim.
- Deli Crucis vestia um manto vermelho quando
matou Balel Pemer. Foi a única vez. Sete cabeças foram
as sete mortes.
- Boro não morreu lá.
- Dez chifres são dez armas, dez maneiras que usou
para matar.
- Mas só foram 8 mortes.
- Exatamente delegado. Oito mortes, oito armas.
Faltam duas. Duas mortes.
- Por isso não faz sentido ser um único cordeiro.
- Mas se o cordeiro morre, o dragão perde não é? -
Falou Afonso pela primeira vez. Todo mundo o encarou.
Ficou até sem jeito de continuar falando - pode ser a mor-
te do Cordeiro e a do Dragão ao mesmo tempo.
Heising caminhou em direção a Afonso, que come-

325
çou a temer a aproximação. Heising o segurou pelas ore-
lhas bem forte e o beijou na testa. O abraçou em seguida,
até quase sufocá-lo.
- Brilhante, Afonso. Brilhante!
- Mas quem é o Cordeiro? O dragão nós já suspeita-
mos quem seja.
- Bom, o Cordeiro não tem pecado, é um inocente.
Só a morte de um inocente salva - completou o teólogo.
- Ah, que conversa fiada, não há que não tenha pe-
cado nessa face da terra. - retrucou o delegado.
- Tens razão, por isso não faz o menor sentido.
Quem ele vai usar como Cordeiro?
- Crianças! - falou o delegado federal.
Emitiu um chamado na rádio das viaturas.
- Quero que cerquem todas as maternidades do
país, e escolas até o primeiro fundamental. Ninguém en-
tra e ninguém sai sem se identificar. Nas maternidades,
apenas mulheres em trabalho de parto podem entrar. Re-
pito! Apenas mulheres em trabalho de parto.
Todos estavam encarando o Federal, que final-
mente reparou que estava sendo observado.
- O que foi?
- Rapidinho você,não? - falou o delegado com iro-
nia - nem esperou a gente confirmar.
- Melhor prevenir do que remediar.
- Sim, tem razão, mas não acho que sejam crian-
ças. - Afirmou Heising.
- O que acha então?

326
- Não sei… - parou um pouco para pensar, enquan-
to os teólogos discutiam os versículos.
- E se for um endereço? - Falou um dos teólogos.
- Boa ideia.
- Ele tem razão, Heising, pode ser o endereço onde
as duas vítimas serão mortas.
- Ou o endereço de onde estão os reféns.
Heising nada falou, apenas absorveu aquela in-
formação e algo familiar lhe ocorreu, mas não lembrava
exatamente o quê. Esforçou-se para lembrar, mas cada
vez que se aproximava da tal memória, ela lhe escapava.
- Afonso, peça ajuda ao Ricardo para puxar todas
as ruas que se chama 12, 7 e 14 no Badernil.
- Claro, senhor.
- Heising? - Falou o delegado, mas Heising estava
imóvel, mexendo apenas os olhos e as mãos, envolvido
em pensamentos. - Detesto quando ele fica assim.
- Demora muito pra ele sair desse estado?
- Normalmente sim, mas quando sai sempre tem a
solução. Até lá, vamos nos precaver.
Ambos os delegados se asseguraram de que ne-
nhum voo saísse do país, que todas as estradas e fron-
teiras fossem fechadas e fortemente vigiadas. Que todas
as ruas 7, 12 e 17 fossem monitoradas por viaturas, isso
incluía também as avenidas. Sete de Setembro, 12 de Ju-
lho, todas as ruas que tinham essas numerações tiveram
a interceptação da polícia. Heising deu a ideia de chama-
rem a imprensa para uma declaração pública antes que

327
alguma morte acontecesse.
- Vamos compartilhar o que estamos falando só
para ganharmos a opinião pública, ou pelo menos aliviar
o que estão falando sobre nós.
- Não acha arriscado?
- Não; acho inesperado e o inesperado é tudo o que
o nosso assassino não imagina que faremos.
- Talvez se falarmos das mortes em rede pública,
ninguém morra.
A imprensa foi veloz em chegar. O delegado falou
de suas teorias por cima e alertou que mais duas mortes
poderiam acontecer.
- Baderneiros, tenham cautela e torçam para que a
gente consiga evitar essas mortes. Estamos com um sus-
peito preso, mas ainda precisamos de uma confirmação
de DNA, pois acreditamos que Henry Debret, filho do Ke-
rata, é o sujeito por trás dessas mortes. Queremos pegá-
-lo antes da última chacina.
A polícia não divulgou que os demais estavam vi-
vos, até porque não tinham certeza, ia criar um alarde à
toa. E aquela declaração, apenas, levantaria a moral per-
dida dos policiais diante à opinião pública e garantiria
a boa reputação do delegado, que estava levando todo o
crédito.
- Wolfie, vamos parar um pouco, talvez amanhã,
com a cabeça fresca, a gente consiga raciocinar melhor.
- Pode ser, agora com a imprensa fazendo cobertu-
ra, talvez Deli Crucis até mude de ideia.

328
- Sim, mas vamos ficar atentos - disse Bernardo,
agradecendo.
- Heising, quer uma carona para casa? - perguntou
o delegado.
- Aceito, está ruim para dirigir nos últimos dias.
- Então, vamos. Obrigado a todos.
Despediram-se. O delegado entrou em seu carro.
Heising puxou a maçaneta, mas não conseguiu entrar.
Estava travada. O delegado pediu para esperar e a destra-
vou. Heising entrou, meio sem jeito, o delegado nunca
foi de oferecer carona para ninguém. Só aceitou porque
provavelmente ele deveria querer conversar com ele a
sós, mas não deu uma só palavra. Foi cantarolando quase
todo o caminho, fazendo sambinha com as mãos no vo-
lante. Foi quando se lembrou de ligar o rádio.
- O que gosta de ouvir, Wolfie?
- Qualquer coisa, delegado.
- Ah, não acredito que seu gosto musical seja assim
tão abrangente.
O delegado foi passando as estações, mas houve
uma interrupção da programação para passar as notícias
sobre o assassino.
- Num tem uma musiquinha sequer?
Continuou a apertar o botão das rádios até parar
em uma que estava com sua programação inalterada.
- Ah! Finalmente!

“When you believe in things that you don’t understand

329
Then you suffer
Superstition ain’t the way

Very superstitious, wash your face and hands


Rid me of the problem, do all that you can”

O delegado cantou junto.


- Adoro Stevie Wonder! Não gosta, Wolfie?
- Não muito - Heising falou tirando os olhos da ja-
nela, encarando a rádio pela primeira vez, motivado pela
alegria do delegado. - 127.77! Para esse carro agora!
Heising virou a direção para fora do asfalto. O de-
legado pisou no freio instantaneamente. Heising saiu do
carro, o delegado atrás pronto para enchê-lo de porrada.
Estava difícil de respirar. A visão de Heising ficou turva
e seu coração ficou preso entre os dentes, pronto a ar-
rebentá-los para fugir pela boca. Tossiu para ver se ele
descia ou saía de vez. Mas preferiu ficar ali, isolando a
sua respiração. O delegado desistiu de espancá-lo assim
que percebeu seu estado alterado.
- Wolfie? O que foi? Wolfie! Respira, Wolfie.
Respirar. Parece algo simples de fazer, mas não
quando se tem uma crise de pânico ou ansiedade. Heising
encarou o céu escuro da noite, o suor escorrendo de sua
testa. Tentou puxar o fôlego, mas lhe faltou o ar.
- cento - tentou dizer.
- Sento? Quer sentar?
A cabeça de Heising latejava por dentro, parecia

330
passar uma corrente de energia que o faria enlouquecer.
Queria rachar o crânio ao meio para aquilo parar. Queria
se rasgar, se cortar, fazer algo que desviasse sua atenção
daquela agonia.
- bate, soco.
- Soco?
Heising balançou a cabeça, afirmando.
- Eu te dar um soco?
Heising confirmou e não precisou pedir duas ve-
zes. Segundos depois estava largado ao chão com o nariz
sangrando e seus pensamentos no lugar. Esperou que as
estrelas lá no céu parassem de dançar. O delegado lhe es-
tendeu a mão, Heising a segurou e foi puxado para frente
até ficar de pé. Sentiu um pouco de tontura e abraçou
forte o delegado.
- Mas que… porra é essa, Wolfie?
- Obrigado, delegado. A rádio 127 ponto 77.
- O que tem?
- É a mesma frequência que me orientou a achar
Pedro em seu matadouro…
- A única que continuou com sinal naquele fim de
mundo.
- Isso.
Tirou um papel do bolso, pediu uma caneta para o
delegado e encostou no capô do carro. Escreveu 12 7 7 7,
separados.
- Vê?
- Sim - respondeu o delegado - pegamos o filho da puta!

331
CAPÍTULO 34
NOSTALGIA

Henry olhava Clarice dormir tranquila em seu ber-


ço. Era tão pequena, tão linda e frágil. Sentia necessida-
de de ficar por perto quando seus pais se trancavam no
quarto. Viviam transando. Era vergonhoso às vezes. Zé
falava que era normal, já tinha sido muito pior. Christian
estava sempre com a namorada fora de casa, chegava tar-
de da faculdade. Já ele estava sempre na sua.
- Nunca imaginei que tivesse olhos para outra coi-
sa a não ser os seus livros, Henry.
- Oi vô.
- Não fique tão em cima dela.
- Tenho medo que acorde e caia.
- Meu querido, ela não consegue sequer segurar o
próprio pescoço, imagine ficar de pé e pular do berço -
riu Zé.
- Ah, nunca se sabe.
- Mais uns sete meses e ela terá um ano. Prepara-
do?
- Pra quê?
- Pra ter uma irmã enchendo o teu saco?
- Ah, ela não vai encher não.
- Ah vai sim, praticamente vai ser a babá dela por-
que aqueles dois ali - apontou em direção ao quarto de
Agnes e Pedro - vão viver enfiados dentro do quarto.

333
- Não vou achar ruim, eu a amo. Como pode?
- Como pode o quê?
- Sentir isso por alguém tão pequeno?
- Ah, eu sei exatamente como é. Quando Christian
nasceu foi o melhor dia da minha vida. Quando peguei
aquela criaturinha em minhas mãos, pensei: como posso
amar um sujeito tão miúdo e banguela.
Riram.
- Ela parece um anjo. Só faltam as asas.
- Por que não faz asas para ela voar pelo quintal?
- Ah não, ela se machucaria.
- Ah, mas você cuidaria dela até que ela voltasse a
voar.
- Pensando bem, prefiro que ela não voe, assim
não me deixa só.
- Ué, mas você não é o sujeito que começou a fazer
Engenharia Espacial e quer ir para a lua?
- Ah, vô, você me entendeu.
Um forte grito assustou o sono de Clarice. Henry
quis correr para saber o que era, mas Zé pediu que ficas-
se com sua irmã. Outro grito acelerou seus passos, Clari-
ce começou a chorar. Henry a balançou devagar com as
mãos na intenção de fazê-la dormir novamente.
- Tá tudo bem, meu anjinho, eu estou aqui para
cuidar de você. Tá tudo bem.
Henry viu Christian se aproximar do quarto e ou-
viu Zé berrar. Deixou Clarice chorando e foi em direção
ao quarto de seus pais. Algumas horas depois, Henry lem-

334
brou-se de Clarice e correu para ver se ela estava bem.
Estava de olhos arregalados, chupando o lençol. Quando
Henry a olhou, ela sorriu diante daqueles enormes olhos
vermelhos de choro. Henry a segurou no braço.
- Vai ficar tudo bem, papai e mamãe tiraram fé-
rias, e logo eles vão voltar pra gente.
- Henry! Me dá ela aqui - gritou Zé, querendo tirar
Clarice de seus braços.
- Não, vô! - Henry a apertou mais firme em seus
braços.
- Me dá ela aqui! Vai matar a menina sufocada! Vai
virar assassino também?
- Pai! - Falou Christian para Zé, que estava comple-
tamente alterado - Vai para fora, pai.
Christian arrancou Zé de lá e deixou Henry a sós
com Clarice.
- Ele não pode ficar sozinho com ela, é perigoso.
- Para, pai! Está falando de Henry, o cara mais bo-
bão que já conheceu, lembra?
- Eu não acredito, eu não acredito!
- Pai, se acalme! - Christian teve de dar uns tapas
no pai com força para ele voltar ao prumo. - Vai ficar
tudo bem, vamos resolver isso, juntos! Henry não tem
nada a ver com isso, ele precisa de nós. Clarice precisa de
nós.
- Está bem, está bem, me perdoe - chorou agarrado
ao filho.
Clarice pegou no sono novamente. Sonhou com

335
um bicho estranho, de olhos grandes e vermelhos que lhe
sorria.
- Eu vou cuidar de você, meu anjinho - dizia a cria-
tura.
Clarice acordou. Estava com uma puta dor de cabe-
ça. Isabella estava nua ao seu lado. Suas pernas estavam
bambas de tanto gozar. Foi para cozinha fazer um café.
Teve o mesmo sonho de sempre, mas desta vez, acordou
com uma sensação nostálgica. Não parecia um sonho, pa-
recia mais uma lembrança embalada em sonho, mas não
tinha certeza. Voltou para cama e acordou Isabella com o
cheiro de café.
- Assim vou ficar mal acostumada.
- Fica então. Quero te ver aqui dentro mais vezes.
Isabella arregalou os olhos, tomando um gole de
café.
- Ah, Clarice, você sabe que não posso vir todo dia
por conta do hospital. Às vezes saio de madrugada, você
sabe.
- Então não sai daqui.
- Não entendi.
- Quero que venha morar comigo.
Isabella riu.
- Você tá brincando, só pode.
- Estou falando muito sério. Eu amo você, não vejo
porque ficar longe.
- Mas…
- Eu sei, eu sei que não começamos bem, mas eu

336
quase morri algumas vezes. Não quero encarar a morte
de novo pra ter essa ardência no peito, sabe? Esse arre-
pendimento de não ter feito o que quis?
- Você só faz o que quer.
- Nem sempre, às vezes é só um disfarce para a mi-
nha fraqueza.
- Acordou tão romântica…
- Nostálgica, na verdade. Tive um sonho.
- Comigo?
- Não exatamente, mas tinha muito amor envolvi-
do.
Isabella tomou mais um gole de café.
- Está uma delícia.
- Ainda não me respondeu.
- Sim.
- Sim?
- Sim! Eu venho morar com você.
Clarice riu e a encheu de beijos.
- Mas preciso que me diga a verdade.
- Todas do mundo.
- Ainda sente algo por Heising? Vi vocês dois lá no
galpão...
- Não, não sinto nada por ele além de carinho. O
amo, mas é diferente. Está mais para compaixão do que
amor.
- Tá bom. E quando mudo?
- Agora! Podemos ir agora pegar suas coisas.
- Ah, calma, preciso de pelo menos um mês para

337
organizar tudo.
- Um mês!? O que vai trazer? O prédio?
- Ah, preciso fazer o negócio direito, no meu tem-
po, sem pressa.
- Tá bom - fez um pouco de silêncio e depois voltou
a falar - Eu queria que me acompanhasse num lugar.
- Onde?
- Cemitério.
- Vai visitar sua vozinha?
- Não; quero visitar minha mãe.
- Sua mãe, mãe?
- Sim, minha mãe, mãe, Agnes.
- E está bem com isso?
- Já é hora, né?
- Tudo bem, então vamos terminar nosso café e
nos arrumar para ir.
Clarice continuou melancólica até chegar ao cemi-
tério. Pediu para desligar a rádio, só passava a declaração
do delegado da noite anterior, pedindo aos Baderneiros
que ficassem em alerta. Hoje é o sétimo dia, e faltavam
mais duas mortes para acontecer. Heising tinha ligado
para ela algumas vezes, mas como estava ocupada com
a boca na boceta de Isabella, não atendeu. Apenas viu a
sua mensagem no dia seguinte, antes de fazer seu café:
tome cuidado, não fique sozinha, qualquer coisa, me liga.
Não foi difícil estacionar. Clarice sentiu um frio na bar-
riga quando desceu e caminhou em direção ao lugar. Os
portões eram enormes, negros e muito bem ornamenta-

338
dos. Estavam abertos, quase um convite à morte. Sua avó
estava ali também, sempre que ia visitar Estela, evitava
passar perto do túmulo dos Debrets.
- Quer que eu vá com você?
- Se importa de ficar aqui me esperando?
- Claro que não.
Clarice caminhou entre aquelas árvores frondosas.
Um estreito caminho de pedras cortava todo o terreno.
Parou quando avistou a rua onde Estela estava enterrada,
suas lágrimas pedindo licença para sair. Sorriu devagar
quando viu a foto de sua avó. As flores em cima de sua lá-
pide estavam murchas. Tirou todas e colocou uma nova.
Sentou em cima do túmulo e começou a acariciá-lo.
- Não é nada fácil viver sem você aqui, vó. Sinto
muito a sua falta. O vô está bem, mas sempre o pego cho-
rando por ti. Hoje é um dia muito especial, vou conhecer
Agnes Debret. Você pediu tanto que eu viesse, mas não
fui capaz. Obrigada, meu amor, por tudo, por me amar,
por me cuidar e por não enlouquecer com as minhas tra-
quinagens.
Clarice se despediu da avó e caminhou mais algu-
mas ruas abaixo até chegar ao endereço. Rua doze, leu.
Achou familiar, mas continuou. Tinha uma pequena ca-
pela dedicada aos Debrets. Ao lado, a sepultura. Clarice
Debret. Achou estranho ler o próprio nome em uma se-
pultura. Miguel Baptiste Debret. Agnes Rodriguez De-
bret. José Antônio Debret. Leu os nomes mentalmente.
Havia pequenas fotos. Aproximou-se para ver Agnes.

339
Como eram parecidas! Pegou a foto de sua avó e a tocou
com carinho.
- Nossa, que estranho - falou a si mesma.
- Eu te entendo.
Clarice se assustou.
- Desculpa se a assustei, mas a rua dos Debrets é
sempre vigiada.
- Ah sim, claro. Continue fazendo o seu trabalho -
percebeu que as flores no túmulo estavam bem vivas, pa-
reciam recentes, diferente das flores da sepultura de sua
avó. Olhou para as outras lápides atrás e as flores tam-
bém estavam murchas. - Sempre vem gente visitá-los?
- Às vezes ele entra na capela para rezar.
- Ele?
- Sim, o rapaz que vem aqui toda semana. Vou dei-
xar a moça a sós.
Rapaz? Mas quem será que aparece ali toda sema-
na? Estranho demais, pensou Clarice. Continuou a ver as
fotos, não gostou muito do semblante de Miguel, parecia
ser um homem rígido. Colocou a foto de volta, foi quando
percebeu, pela primeira vez, o número 7 seguido da letra
A. Teve um insight na hora. Correu para a entrada da rua
e leu a placa novamente: Rua doze, a rua dos Debrets.
- Rua doze - lembrou do delegado falar que todas
as ruas doze do país seriam vigiadas pela polícia. Além
das ruas 7.
Clarice finalmente entendeu.
- 7 A, A de Apocalipse. Mas é claro! A mulher vesti-

340
da de sol não sou eu, é minha avó, Clarice!
Clarice correu em direção à Isabella. Era uma dis-
tância considerável, quase três quilômetros. Chegou sua-
da, quase sem respirar.
- Clarice, o que houve?
- Precisamos ir para delegacia. Agora.
Clarice foi o caminho inteiro tentando falar com o
delegado ou Heising. Mas ninguém atendia. Clarice não
fazia ideia de que o lugar onde eles estavam não pegava
sinal de celular. Nem mesmo Afonso atendia. Ligou para
a delegacia, mas foi informada que eles saíram para uma
operação urgente com quase todas as viaturas. A delega-
cia estava praticamente vazia.
- Sabe para onde foram?
- Não tenho autorização para dizer, moça.
- Aqui é a Clarice Debret. Por favor, tenho uma in-
formação importante para a investigação.
- Então se é importante assim, venha pessoalmen-
te que lhe digo aqui.
Clarice estava nervosa, ainda não tinha consegui-
do falar com Isabella sobre o seu insight.
- Calma, meu amor, respira.
- Consegue ir mais rápido.
- O mais rápido que posso. O que houve, quer fa-
lar?
- Apocalipse 12, verso 7. Minha avó, Clarice De-
bret, está enterrada no túmulo de número 7A, na rua 12
do cemitério São Miguel. Entende? Ele está falando do

341
túmulo, não das ruas da cidade. É lá onde as mortes vão
acontecer.
Isabella pisou fundo no acelerador. Quando chega-
ram à delegacia, falou com o policial que a atendeu pelo
telefone.
- Eu estou tentando ligar, mas só chama e quando
chama.
- Onde eles estão não tem sinal, moça.
- Eu sei, mas eu preciso dar uma informação im-
portante.
- Eles já resolveram tudo, estão lá desde ontem vi-
giando o matadouro, de tocaia até o assassino aparecer.
- Mas não prenderam Arthur?
- Sim, está preso aqui.
- E Pedro Debret?
- O chupa-cabra? Preso também.
- Pode dar um recado quando eles voltarem?
- Claro, moça.
- Diga que preciso falar com Heising, urgente.
- Ei, você aí, tá indo pra onde? - Falou o policial
para o homem que estava entrando.
- Levar o chupa-cabra para o seu banho de sol, está
na hora.
- Mas é o João quem faz isso, cadê ele?
- Não veio hoje e me chamaram. Pode confirmar
com o delegado.
- Vai, vai, vai.
Clarice achou o homem familiar, mas não lembrou

342
de onde. Puxou Isabella pelo braço até o carro e a beijou.
- Tá doida?
- Não, estou com tesão. Tudo isso me deixou mo-
lhada - a beijou de novo. - Vamos.
- Pra onde?
- Para o laboratório do Kerata.
- Como sabe que estão lá?
- O tonto do policial deixou “matadouro” escapar.
- Não quer dizer nada.
- Para mim que estive presa lá ouvindo aquele
monstro chamar o lugar de “meu matadouro”, quer dizer
muita coisa. Vamos.
Desta vez Clarice dirigiu, Isabella com o coração
na mão rezando em silêncio para não morrerem em um
acidente. Enquanto dirigiam, o substituto de João tirou
Pedro Debret da delegacia. A distração funcionou bem,
queria a delegacia jogada às moscas e conseguiu. Passou
pela cela de Arthur e o cumprimentou.
- Tudo em ordem?
- Sim, tudo em ordem.
- Continue com o plano.
O policial estava no redtube.com quando foi apa-
gado. Sequer percebeu que as câmeras estavam desliga-
das. Pedro também estava desacordado e quando final-
mente abriu os olhos, viu a claridade solar por trás de
um plástico. Piscou os olhos e percebeu que era uma lona
transparente.
- Acabou o seu prazo. Sete dias.

343
- Você é muito convincente, meu filho. Onde es-
tou?
- A salvo.
Debret olhou para os lados e percebeu que estava
dentro de uma bolha de plástico gigante ao ar livre.
- Hoje é um dia muito especial. Vi Clarice hoje mais
cedo. Ela parece com a vovó e lembra um pouco a mamãe.
- Filho, eu gosto de colecionar o cérebro. Eu gosto
de matar.
Esta última frase foi ouvida por todo o Badernil.
Deli Crucis entrou ao vivo e cumprimentou o país.
- Queridos Baderneiros, hoje é o grande dia. O dia
do juízo final.
Pedro conseguia ver Henry, mas o Badernil só via
Deli Crucis. Toda a equipe policial e a imprensa ficaram
perdidas quando Deli Crucis entrou ao vivo. Heising en-
trou lá embaixo no matadouro e não havia nada, nin-
guém.
- Erramos!
Heising esmurrou o ar, gritou, esperneou e chu-
tou o pneu do carro do delegado até a prótese se deslo-
car e ele cair de bunda no chão. Aquele momento parecia
passar em câmera lenta em sua cabeça. O que tinha dado
errado? Viu um carro estacionar e Clarice sair de dentro
dele.
- É o cemitério! É o cemitério! - gritava ao mesmo
tempo em que corria em direção a Heising. O delegado fe-
deral a agarrou pela cintura e a impediu de se aproximar.

344
- Vocês erraram, delegado, não é aqui, é o cemi-
tério São Miguel. A Clarice não sou eu, é a mãe de Pedro
Debret, minha avó.
- Se acalme, menina Clarice, respire - falou o outro
delegado. - afonso, traz água pra ela e mande os paramé-
dicos cuidarem de Heising.
- Isso, respire - falou o federal.
- Hoje eu fui ao cemitério, a rua dos Debrets é a rua
12. 7A é o número do túmulo de Clarice Debret.
- Você?
- Não, meu nome é uma homenagem à minha avó,
também Clarice.
- 7 A, a de Apocalipse.
- Qual o endereço de lá?
O delegado federal pediu que helicópteros sobre-
voassem o local. Nas telas, Deli Crucis anunciava que to-
das as vítimas passadas estavam vivas.
- Estão todos vivos, vejam.
A câmera mostrava Balel Pemer, Vilma, Lulo, Ta-
puardo, Odeibrecha e Jocresley dentro de algo escuro,
pequeno, e todos com aparelho de respiração.
- E aqui eu tenho Pedro Debret e não foi a polícia
que me entregou, papai foi buscá-lo lá na delegacia - riu.
Pois bem, só tenho monstros aqui. De um lado: os ladrões
do país. Do outro, um serial killer. Quem deve morrer,
queridos baderneiros? Twittem com a hashtag #quem-
morre. Vocês que vão decidir.
A hashtag em poucos minutos se tornou trend

345
topic. Queriam que Debret saísse vivo. Alguns pergunta-
vam onde estavam os outros mortos. Deli Crucis estava
respondendo às postagens online. O Twitter foi o único
aplicativo que ela liberou o uso, bloqueando automatica-
mente a postagem de qualquer outra hashtag.
- Quanto mais postarem “corruptos da Lava Babo”
com a hashtag, mais eles sufocam até a morte. Quando
mais postam Kerata com a Hashtag, mais ele sufoca.
Corruptos da Lava Babo ganhou no Twitter. Ali,
naquele lugar apertado, o aparelho de respiração come-
çou a falhar. Estavam agonizando.
- Sempre tem o predador que a gente quer mais,
não é? O Kerata na frente desses aí, é uma menininha in-
defesa como eu - riu descontroladamente.
Os helicópteros sobrevoavam o cemitério e não
havia movimento lá embaixo. Os policiais chegaram ar-
rombando o portão.
- Lá - apontou Clarice.
A luz do cemitério não era suficiente. Cada um se-
gurava uma lanterna e sua arma enquanto corria em di-
reção à rua 12. Quando finalmente chegaram, não tinha
nada.
- Não tem nada aqui, senhor.
- Estão enterrados - gritou Clarice - Dentro do tú-
mulo!
- Mas precisamos de um mandado para cavar -
questionou o policial.
- Cavem - ordenou o delegado.

346
Deli Crucis começou a transmitir a imagem dos
policiais cavando os túmulos. Começou a cantar e a rir.
- Acharam, acharam! - gargalhou.
Vilma Pousself foi a primeira a ser desenterrada.
Seu caixão era todo vermelho. Foram abrindo gaveta
após gaveta, tirando caixão por caixão, até todos estarem
livres. O Badernil não acreditou. Os Twitters aumenta-
ram: Vida ao Kerata. Morte aos corruptos da Lava Babo.
- Eles estão pedindo que viva - falou Deli Crucis a
Pedro, abrindo bem os seus olhos e colocando uma lente
de contato dentro deles.
Tudo ficou branco. Debret mergulhou numa espé-
cie de sonho real. Viu seu pai, Miguel, estuprar sua mãe.
Correu para cima dele e a salvou. Abraçou Clarice contra
seu peito e aquela sensação do abraço era tudo o que ele
precisava na vida. Depois estava caminhando triste pelo
Campus da faculdade, quando resolveu chutar uma gar-
rafa. Ouviu um voz feroz em seguida.
- Olha só o que você fez, seu idiota! Por que não
olha por onde anda? Olha isso, agora vou ter que refazer
tudo, tudo, entendeu? Do zero.
Ele não conseguia ouvir nada do que ela dizia, es-
tava abobado encarando seus lábios se mexerem. Seu
olhar derreteu diante daquela linda mulher. Depois, esta
mesma mulher lhe segurava um filho nos braços. E ele se
sentiu imensamente feliz, completo. Agnes, de repente,
começou a se desfazer ao vento. Parecia papel picado vo-
ando para todos os lados, enquanto ele tentava juntar um

347
por um e montar tudo de novo feito um belo quebra-ca-
beça. Mas não conseguia. Agnes havia sumido e a tristeza
o tragou.
O bebê chorava ao lado de Pedro, que não tinha
forças para segurá-lo. Outro bebê surgiu, uma menina
agora. E ela parecia com Agnes. Pedro sorriu e pegou em
seus braços. Levou o outro bebê junto, mas à medida em
que caminhavam, o bebê crescia.
- Tem os olhos de sua, mãe, Henry.
- Katherine ou Agnes?
- Katherine. Mas tem o amor de Agnes.
- E ela pai?
- Ela vai se chamar Clarice e vai ser artista que nem
a sua mãe.
Pedro pegou tinta, pincéis, canvas e colocou a lin-
da menina para se sujar. Ela sorria, comia tinta, fazia ba-
gunça.
- Vou te ensinar a pintar, papai. Vem.
A linda menina entregou o pincel na mão de De-
bret e o ensinou. Pintaram juntos, enquanto Henry toca-
va guitarra em seu quarto.
- Seu desenhos estão cada vez melhores, minha fi-
lha.
- Os seus também, papai. Olha, eu pintei a mamãe...
Debret olhou para a pintura, era igualzinha à Ag-
nes.
- Beija ela, papai.
- Ah, não, filha.

348
- Se beijar ela volta à vida.
Aproximou-se da pintura, nervoso. Encostou seus
lábios na tinta e de repente começou a esquentar, e o
beijo foi retribuído. Sentiu o coração de Agnes bater. Ga-
nhou vida!
- Você voltou! Senti tanta falta de você! Todos
acham que sou um monstro.
- Mas você sabe que não é. Há o bem dentro de
você.
- Mas e isso que eu sinto… eu gosto de matar.
- Se você quiser, posso tirar esse desejo de você e
nunca mais terá vontade de matar.
- Verdade? Você pode fazer isso?
- Posso sim e mais! Posso te ensinar a pintar, o que
acha?
- É meu sonho, meu pai iria ter muito orgulho.
- Quer?
- Quero sim.
Debret começou a convulsionar. Todo o Badernil
estava assistindo àquelas cenas na mente de Pedro. Abriu
os olhos, ainda estava tremendo, babando. Não conseguia
mover um músculo sequer, estava paralisado. Os bader-
neiros, por outro lado, estavam emocionados com aquela
história.
Deli Crucis se aproximou da câmera e aos poucos
a sua imagem começou a ser desfeita e substituída pela
imagem de um homem.
- Olá, Badernil. Eu me chamo Henry Debret, filho

349
de Pedro Debret. O que vocês viram agora foi um sistema
carcerário de recuperação imediata que dediquei anos de
minha vida criando. Para vocês, Pedro Debret é apenas
um monstro cruel. Para mim, ele é meu amado pai, que foi
tirando de mim aos 19 anos. Vir aqui e falar que criei um
sistema capaz de curar o meu pai de sua psicopatia seria
um tiro no pé. Quem acreditaria nisso? Então meu plano
foi pegar os corruptos deste país, aqueles mais odiados, e
recuperá-los. As mortes que viram foram ilusões de suas
próprias mentes. Quando há culpa e nenhuma inten-
ção de se recuperar, o sistema, essa coisa pequena aqui
- mostrou a lente de contato na câmera - usa o próprio
consciente humano para puni-lo. Todos que morreram
mentalmente, e isso só aconteceu porque eles sabiam que
mereciam punição. O medo, o terror, a sensação da morte
os recuperaram. Nada do que aconteceu foi “verdade”,
mas todas as sensações vividas aqui - apontou para a pró-
pria cabeça - foram muito reais. Por que fiz isso? Porque
eu quero meu pai de volta. Eu quero a minha família de
volta. Não somos perfeitos, mas nos amamos.
As telas voltaram ao normal. A polícia estava sem
reação. Ninguém moveu um músculo durante toda a de-
claração. Esqueceram até de abrir o restante dos caixões.
Clarice reconheceu aquele homem do cemitério mais
cedo e também da delegacia. Era ele o tempo todo. Seu
olhar a fez lembrar de seu sonho. Lembrou da criatura
de olhos vermelhos dizendo “vou cuidar das suas asas,
meu anjinho”, mas desta vez a voz era a mesma daquele

350
homem na tevê.
A polícia levou todos os resgatados para o hospital. Esta-
vam desesperados, falantes, pediam perdão, choravam,
pediam para fazer declarações públicas, mas só Balel Pe-
mer foi atendido. Foi às câmeras confessar seus crimes e
renunciar. Pediu que esvaziassem suas contas bancárias,
deu novos nomes de pessoas envolvidas, e se declarava
“convertido” à Deli Crucis X. Todos os resgatados fize-
ram das câmeras um confessionário particular, até Vilma
Pousself resolveu falar.
- Não vale a pena defender urubus, como falou
meu companheiro. Entregarei todos também. E todo o di-
nheiro que recebi de maneira ilícita ou ajudei a desviar,
devolverei ao povo.
Henry apareceu na delegacia, de mãos para cima.
Em poucos segundos foi cercado de policiais.
- O senhor está preso!
- Preso pelo que exatamente? Por recuperar a ho-
nestidade da política brasileira e varrer a corrupção do
país?
Não souberam o que responder.
- Vim em paz porque quero negociar.
- Devolva Pedro Debret e negociamos.
- Meu pai não deve estar preso aqui, ele cumpre
seu tempo em cárcere privado.
- E o que você é? Advogado?
- Não, mas tenho muitos a meu favor. Não quero
brigar, delegado, quero ajudar.

351
- Ajudar? Você traumatizou o país!
- Eu? Eu traumatizei o país? Não é isso o que pensa
o povo, delegado. Nosso país sofreu muito com a corrup-
ção. Quantos morrem de fome? Quanto estão na rua sem
ter onde morar? Quantos estão na fila dos desemprega-
dos? Quantos morrem esperando vaga em hospital? Eu
salvei este país, fui a salvação.
- O cordeiro, suponho. E eu ofereço acabar com
ela.
- Eu estou aqui para oferecer um sistema de cár-
cere eficiente. Imagine o que seria acabar com o crime
neste país por meio de algo assim, tão pequeno?
- Não acredito nisso, não sei o que fez, pode ser
apenas uma nova droga com tempo de validade.
- É verdade, delegado - disse uma voz se aproxi-
mando. Era Cauê, junto com o professor - Eu invadi o sis-
tema de Deli Crucis
- Eu deixei que você invadisse porque é respeita-
do pelas tecnologias que desenvolve, apesar de achá-las
muito amadoras.
Cauê o ignorou.
- Eu invadi o sistema porque tinha essa teoria de
que ele estava recriando o DNA humano em forma de
código binário criptografado. Mas só depois percebi que
era uma projeção criada por um dispositivo que simula a
ação de um vírus, mas na mente do usuário.
- Fala a minha língua, moleque!
- Ele reescreve experiências registradas pela men-

352
te. Por exemplo, se o senhor foi violentado por um padre
e por isso é um ignorante durão, o sistema pega essa ex-
periência original, reescreve e criptografa a original para
uma linguagem que o cérebro não entende. A correção é
automática.
- Usando o exemplo dele, é como se nunca você
tivesse sido estuprado. O trauma e suas causas desapare-
cem - Falou Henry.
O delegado ficou assustado com aquilo. Como ele
sabe que fui molestado pelo padre?
- Isso, delegado, é a cura da humanidade. Melian-
tes são recuperados instantaneamente, seu DNA crimino-
so é identificado e ao se reproduzir, o gene com esta ten-
dência é anulado. Resultado: daqui há alguns milhares de
anos…
- teremos uma sociedade perfeita - falou o profes-
sor.
- Basicamente sim, professor - falou, reconhecen-
do seu mentor.
- É muita informação para a minha cabeça. O se-
nhor será preso até confirmarmos tudo isso, chame seu
advogado. Não sai daqui até que os outros seis apareçam.
Não pense que esqueci Jair Tontonauro, Marco Fodilia-
nus, Aécio Blefes, Antônio Pagocci, José Forceu, Renan
Sarreiros, Nestor Cerbocó, Aulerdo Yousself, Sérgio Mo-
bral, Delclínio Amaral. Não sou besta, não. Afonso, solte
Arthur. Cadê o Heising?
- Está no hospital, senhor, trocou a prótese de um

353
pé.
- É um idiota mesmo.
Os dias seguintes foram afoitos. A chegada do Ou-
tono aliviou um pouco o calor, mas não as mentes bader-
neiras, que exigiam a soltura de Henry e Pedro Debret. O
sistema de Henry foi usado por Cauê em outras situações
sob monitoria das polícias civil e federal. A cada apli-
cação do sistema, os corruptos envolvidos na operação
Lava Babo voltavam arrependidos. Realmente, a recupe-
ração daquelas pessoas era imediata, embora voltassem
profundamente traumatizadas, porque sentiam as re-
ações de seus medos mentais. Um pequeno preço pelos
seus crimes. Voltavam condicionados a rever seus atos e
a corrigi-los. Deli Crucis X conseguia mapear o gene cor-
rupto a cada aplicação, aprendia com ele e se adaptava
rapidamente. Com o tempo, conseguia detectar corrup-
ção só de olhar para alguém. Nesse processo, até o de-
legado federal foi denunciado por Deli. Heising preferia
se manter bem longe dela, ao mesmo tempo em que lhe
dedicava enorme admiração. Cauê estava feliz com aque-
les resultados, tornou-se um fã secreto de Henry. E numa
certa noite, foi visitar Henry na prisão para confessar tal
sua admiração e lhe fazer uma proposta.
- Eu estou muito impressionado com o que você
criou.
- Eu não criei, só codifiquei a mente humana.
- “só”
- Nosso cérebro é capaz de tudo, Cauê. E Deli Cru-

354
cis mais ainda. Claro, ela é apenas uma imitação…
- Uma bela imitação… - fez um breve silêncio -
você acha que um dia ela será capaz de duplicar o DNA
sem eliminar o original?
- Você diz se ela será capaz de curar doenças, recu-
perar não apenas a mente, mas o corpo físico?
- Isso.
- Confesso que pensei a respeito, mas criar ilu-
sões mentais com sensações reais que mudem o compor-
tamento humano já me deixou bastante satisfeito. Não
quero mudar o mundo como você, Cauê. Só quero minha
família de volta, entende?
- Entendo - baixou a cabeça, triste.
- Sua pergunta tem a ver com o seu marido, Sér-
gio? Soube que seus neurônios foram danificados por
causa do eletrochoque.
Cauê ficou surpreso.
- Não me olha assim; sei tudo sobre os seus proje-
tos, mas também vejo televisão e leio jornais. Sei o que
aconteceu com seu marido.
- Também o quero de volta… sei que entende isso.
- Podemos tentar reverter, mas não há garantia de
que dê certo.
- Jura?
- Podemos recriar e substituir seus neurônios pifa-
dos, mas é aquela coisa, a duplicação é de uma cópia, não
é original. O original é sempre deletado ou criptografado
para não voltar ao estado inicial, entende?

355
- Sim. O que sugere?
- Que me tire daqui, que tire meu pai daqui. Você
tem visto o resultado de Deli Crucis, sabe que é real. Se
fizer isso, eu te ajudo a trazer seu marido de volta.
- Feito!
- Mas tem uma coisa.
- O quê?
- Ele pode voltar um pouquinho diferente...
- Mas e seus movimentos musculares?
- Vai levar um tempo para começar a se movimen-
tar, não vou mentir. Você precisará ter paciência.
- Quanta?
- Pelo menos uns cinco anos. Mas sua fala, expres-
sões, pequenos movimentos vão voltar mais rápidos.
- Cinco anos para o que então?
- Para correr, saltar de paraquedas, fazer sexo sel-
vagem…
Cauê ficou envergonhado.
- Ela virá, eu sei. Como está meu pai?
- Sendo vigiado. Não para de pintar.
Henry baixou a cabeça e chorou até soluçar. Cauê
não interrompeu, o deixou chorar e ficou em silêncio, em
sinal de respeito. Quando finalmente parou e enxugou as
lágrimas, se desculpou com Cauê.
- Tudo bem, eu entendo - fez outro breve silêncio -
tenho uma outra pergunta.
- Claro.
- Se ele conseguiu adquirir uma habilidade pelo

356
sistema, então outras habilidades podem ser aprendidas
automaticamente?
- Não exatamente. Meu pai tem o gene, ele só não
conseguiu pintar antes porque estava muito preocupado
tentando agradar meu avô. O estresse e a violência por
que passou impossibilitaram o desenvolvimento desse
lado, entende? Então a pessoa tem que ter a tendência
para aquela função.
- Entendi, isso é incrível, tenho muitos planos e re-
almente preciso de você me ajudando.
- Precisa me tirar daqui então.
Cauê saiu disposto a fazer qualquer coisa para ti-
rar Henry dali. Suas ideias, a capacidade de Deli Crucis
era impressionante. Suas funções poderiam ser aprimo-
radas e trabalhadas em outros setores da sociedade. Foi
este o argumento que usou diante das câmeras e seus ad-
vogados.
- Quero Henry e Pedro Debret fora da prisão ime-
diatamente.
Quando questionado, Cauê apenas respondia:
“imagine podermos eliminar o câncer, a Aids. Imagine
podermos despertar talentos escondidos, selecionar ge-
nes importantes a serem desenvolvidos nas gerações se-
guintes e ocultar outros que são a nossa destruição e de-
sonra? Tudo isso pode ser possível se Henry Debret sair
da prisão e vir trabalhar comigo.”
“O magnata da tecnologia baderneira, famoso no
mundo por suas invenções, não só defende a liberdade de

357
Henry e Pedro Debret, mas deseja contratá-los. Será que
Deli Crucis fez o efeito reverso e temos um novo serial
killer? Imagine o que esses gênios podem fazer se inten-
tarem para o mal?”
“Não acredito que este homem está pensando em
se unir a serial killers! Selecionar genes? Ocultar genes?
Isso está me parecendo um ataque Nazista disfarçado! O
que estão querendo? Criar uma sociedade perfeita? Mo-
leques! Precisamos do caos!”
Cauê desligou a televisão. Qualquer canal em que
colocava, estava falando dele, que havia enlouquecido.
- Fodam-se, seus ignorantes - falou jogando sua ca-
neca de café quente na parede.
- Cauê, desculpa atrapalhar, mas Sérgio está pres-
tes a despertar. Deixo que acorde para você conversar
com ele?
- Não, pode apagá-lo direto.
- Tudo bem, vou deixá-lo sozinho.
- Obrigado.
Cauê recebeu contato da CIA, que o visitou em sua
casa. A equipe falou que estava “vigiando” o Badernil
junto com o FBI sem intervir, mas que agora, diante das
declarações de Cauê, os Estados Desunidos estavam inte-
ressados em Deli Crucis. Estavam dispostos a unir forças,
desde que Cauê, Henry e Pedro estivessem sob vigilância
do Governo Americano. Cauê recusou e logo ouviu suas
informações em detalhes sobre Deli Crucis X serem ex-
postas à OND - a Organização das Nações Desunidas.

358
- Deli Crucis X é o melhor sistema carcerário já
criado. Temos observado o trabalho do Badernil em seus
políticos corruptos e até mesmo prisioneiros de altíssima
periculosidade serem recuperados instantaneamente,
questão de dois minutos. Voltam arrependidos, muda-
dos, e seu gene é selecionado para sumir conforme novas
gerações nascem. Deli Crucis X é patrimônio das Nações e
o Badernil deve nos entregar seus desenvolvedores para
que melhorias sejam feitas e possamos criar uma socie-
dade melhor, que viva em paz.
O Presidente dos Estados Desunidos fez uma breve
pausa em sua declaração na OND e continuou em seguida.
- Ou continuaremos em guerra.
O Badernil entendeu aquilo como uma ameaça.
Outras Nações aliadas ao país imediatamente se oferece-
ram para unir forças contra os Estados Desunidos. Mas o
país tropical queria paz, seu povo estava muito calejado
para entrar numa guerra. Estavam enfrentando manifes-
tações eleitorais, queriam que Deli Crucis selecionasse os
candidatos. As ruas e grandes avenidas estavam um caos.
Por onde se passava via-se policiais militares e a tropa de
choque. Civis eram agredidos sob qualquer movimento
suspeito. Enfiar a mão na mochila para tirar a carteira ou
o celular já era motivo para levarem spray de pimenta na
cara. A situação precisava ser amenizada imediatamente.
Foi assim que as autoridades políticas do Badernil deci-
diu mandar todos os envolvidos da Lava Babo para pri-
são, independente da correção feita por Deli Crucis.

359
“Não faz sentido, eles soltam esses ladrões e dei-
xam Debret e seu filho presos. Aí a gente reclama, ao in-
vés de soltarem os dois, mandam prender os políticos só
de fachada. É uma merda isso!” - Uma declaração de um
civil a um repórter na Av. Dualista.
“Deli Crucis só é eficiente para os ricos e ladrões
da autarquia. Só esses foram soltos, o resto tão tudo pre-
so. Lixo de país.” - Outra declaração de um estudante do
Nordeste do Badernil.
A população revoltada, a ameaça de guerra, a
pressão de outras Nações colocaram o Badernil no centro
do mundo. Ali, para todos, o país foi despido. Prender os
corruptos não adiantava. Queriam Henry Debret.
O mundo estava conectado quando finalmente
Henry e Pedro Debret foram soltos. Cauê fez outra decla-
ração após a soltura, garantiu que o país nem a Nações
se arrependeriam. Iriam trabalhar dia e noite para aper-
feiçoar Deli Crucis e toda a área de trabalho poderia ser
acompanhada ao vivo vinte e quatro horas por dia, sete
dias da semana. E todo o trabalho seria supervisionado
pela inteligência do Governo Americano.
O sistema era testado ao vivo para todos. Crimi-
nosos americanos foram usados como cobaia. Terroristas
extremos eram corrigidos automaticamente. A projeção
do que ocorria em suas mentes durante a ação de Deli
Crucis parecia filme de terror e logo se tornou canal de
TV a cabo. O primeiro upgrade de Deli Crucis XI foi a se-
leção de políticos para a administração do Governo. Po-

360
líticos com o gene corrupto não podiam se candidatar.
Foi criado um critério rígido para os elegíveis e o povo
aprovou. Países que se recusavam a instalar Deli Crucis
XI em seus Governos eram imediatamente investigados
e rechaçados na mídia, o que levava sua população às
ruas, exigindo que Deli Crucis agisse no sistema político
de seus países. Não tinha como fugir. Alguns países mais
extremos preferiam a guerra às mentes de seus Gover-
nantes alteradas.

“O homem precisa de sua maldade, a humanidade não


pode ser 100% ingênua.”

“Não confiamos em máquinas”

“A inteligência artificial é a maldição da humanidade. Em


breve ela nos dominará”

“Precisamos acabar com isso”

Muitas outras declarações foram dadas à televisão


em diversos países, por governantes diferentes, mas a
população continuava exigindo a presença de Deli Crucis,
estavam cansados de não terem opção de bons políticos.
Pelo menos uma inteligência artificial os ajudaria a tirar
os corruptos de circulação.

361
CAPÍTULO 35
DOIS ANOS DEPOIS

- Então a senhorita confirma que convidou meu


cliente para a sua casa?
- Protesto, excelência!
- Protesto negado. Continue.
- Excelência, como vimos nas provas apresentadas,
meu cliente foi chamado até a casa da senhorita Priscila.
Eles foram namorados e depois de meses correndo atrás
dela para reatarem a relação, ela o chamou por meio de
uma foto nua enviada de seu whatsapp para meu cliente.
Ele recebeu como um convite natural para sexo. Estava
certo de que era isso o que aconteceria. Meu cliente é
réu primário. Além de nunca ter apresentado qualquer
comportamento violento desta magnitude. Trouxe aqui
algumas de suas ex-namoradas para testemunhar, exce-
lência.
- Mande entrar.
Uma a uma as ex-namoradas foram entrando. To-
das elas falavam sobre como Davi era carinhoso, parceiro
e que realmente não fazia sentido tal acusação. Priscila
gelou a espinha quando viu Clarice entrar. Seria a última
das ex-namoradas.
- Não fui exatamente namorada de Davi, somos
amigos de infância e Davi sempre demonstrou gostar de
mim.

363
- Vocês tiveram algum contato íntimo nesse tem-
po?
- Sim, tivemos.
- E considera Davi um homem violento?
Clarice respirou, olhou para os lados e respondeu
à pergunta.
- O que entende por violento?
- Sou eu quem faz as perguntas, senhorita.
- Bom, se violento para você é apenas a agressão
física direta, a resposta é não.
- Está vendo, excelência?
- Mas - continuou Clarice.
- Não precisa, senhorita, aqui basta.
- Protesto, excelência - falou Roberto, advogado de
defesa de Priscila.
- Diga.
- Deixe que Clarice continue o raciocínio.
- Continue - ordenou o juiz olhando para Clarice.
- Eu amo o Davi, o conheço desde pequeno, exce-
lência. Ele sempre gostou de mim e nunca respeitou meu
espaço. Davi não é homem de ouvir não. Ele insiste até
que você ceda. Me enchia de ligações, sempre aparecia do
nada nos lugares onde eu costumava ir, quando eu menos
esperava ele ia até minha casa de surpresa para insistir,
se declarar. Sempre me senti - hesitou em falar - asse-
diada por ele e muitas vezes transei com ele só para ele
parar de me encher o saco. Perdão pelo linguajar.
- Protesto, excelência - gritou o advogado de Davi.

364
- Protesto negado. A testemunha pode se retirar.
O julgamento seguiu difamando Priscila e apesar
da declaração de Clarice, a única que apontou algum
comportamento mais obsessivo de Davi, o juiz foi a favor
de sua absolvição.
- Não foi identificado estupro. Caso encerrado.
Priscila chorou. Passou meses esperando por aque-
la audiência para ser considerada a puta que não aguenta
uma transa selvagem. Agora seria difamada nas redes so-
ciais. Davi saiu de lá aliviado e muito decepcionado com
Clarice, desviou o olhar quando ela tentou chegar perto.
Cauê, Arthur e Heising estavam assistindo à audiência.
Heising estava fervendo por dentro. Havia convivido es-
ses meses todos com Priscila, e Cauê tinha dado certeza
de que Davi pagaria pelo seu crime. “Mas depende de juiz
para juiz - declarou Roberto.
- Que tipo de juiz absolve um abusador?
- O da pior espécie - respondeu Heising fechando
os punhos.
Heising tinha se recuperado bem de seu pé machu-
cado. Uma nova prótese foi instalada. O homem enfren-
tava uma espécie de abstinência de tortura. Sentia falta
do que fazia com Debret. O encontrou algumas vezes e
até o seu olhar havia mudado, apesar de não acreditar
completamente em mudanças assim. Estava sempre à es-
pera de que esse tal sistema milagreiro trouxesse algum
efeito colateral. Com certeza seria terrível. Passou a vi-
giar Davi mais de perto até obter toda a sua rotina em

365
mãos. Em breve daria um baita susto naquele sujeito para
ele manter muito bem guardado o seu pinto dentro das
calças. Poderia convencer Cauê facilmente a colocar Deli
Crucis em Davi, mas ela que ficaria com toda a emoção.
Não, ele mesmo queria fazer isso. Seguia Davi até o tra-
balho e o esperou dentro do carro. Ele saía ao meio-dia
e quinze para a aula de inglês, que ficava à meia hora de
seu trabalho. Logo que entrou em seu carro dentro do
estacionamento, Heising o apagou com uma coronhada.
O levou ao seu novo esconderijo e o prendeu ali por dias,
até fazê-lo confessar o que tinha feito.
- Foi coisa do momento, eu já disse. Eu me empol-
guei, me desculpa!
- Desculpa? Que tipo de homem você é, que deixa
uma mulher ser praticamente ser chamada de puta na
sua frente e não faz nada?
- O que quer eu faça, me diz?! Eu faço qualquer coi-
sa, mas não faz nada comigo.
Heising sentiu algo estranho quando se percebeu
naquela situação. Ficou duro, excitado. Afastou-se ime-
diatamente de Davi e foi para fora tomar um ar. Sua visão
ficou turva, e seu coração começou a acelerar. Colocou a
mão no bolso e tirou uma cartela de Rivotril. Tirou três
comprimidos de uma vez e colocou debaixo da língua. Es-
tava tratando sua síndrome do pânico. O Rivotril ajuda-
va a apagar pequenos incêndios, os começos das crises.
Quando voltou para a sala, apertou forte o pescoço de
Davi, que já tinha sido bem judiado por Heising.

366
- É o seguinte: você vai até a delegacia se entregar.
Vai confessar o que fez ou eu vou arrancar fora esse teu
pau e enfiar no teu cú, entendeu?
- Sim, sim, claro. Eu vou fazer isso, eu vou fazer
isso.
- Claro que vai, estou de olho em você. Tem vinte
quatro horas para confessar.
Apagou Davi e o largou no parque perto de sua
casa, às três da manhã. Estava nu quando acordou, com
pessoas à sua volta. Correu até o ponto de táxi e implo-
rou ao taxista para levá-lo até a casa. Mentiu que foi as-
saltado. Logo estaria confessando seu crime ao delegado.
Roberto, o advogado de Cauê, o informou o ocorrido e
comemorou a notícia.
- Davi se entregou.
- Sério? - disse Heising, com certo riso irônico.
- É claro que você está por trás disso, conheço esse
teu risinho aí - afirmou Sérgio com ironia, bebendo outro
gole de cerveja.
- Olha, eu gostava mais de você quando era um ve-
getal.
- Idiota! Vai zoando, logo, logo eu vou conseguir te
dar uns socos.
- Uiiii, estou morrendo de medo.
- E Clarice, como está?
Clarice estava estatelada na areia da praia, pegan-
do um bronze enquanto Isabella passava protetor solar
em suas costas.

367
- Amor, o que você acha da gente fazer um passeio
de balão em Istambul.
- Eu acho uma ótima ideia, estamos tão perto. Mas
quero conhecer Santorini primeiro, dizem que o pôr-do-
-sol é incrível lá.
- E a Sophia, vai com a gente ou vai ficar aqui mes-
mo com o Afonso?
- Vixe, aqueles dois não saem do quarto, depois
que casaram, só transam.
- Ainda não acredito que eles casaram tão rápido.
- Ah, não foi tão rápido assim, vai.
- Pronto, já está mais do que lambuzada de prote-
tor.
- Obrigada, meu amor.
Os dias passaram devagar. Clarice pediu Isabella
em casamento em Santorini durante o espetáculo solar.
Casaram logo em seguida, nas alturas dentro de um balão
em Istambul. Sophia e Afonso estavam muito felizes, mas
já era hora de voltar.
- O delegado precisa de mim.
- Mas você disse que o Bernardo é mais de boa que
o delegado civil…
- E é, mas não posso vacilar, acabei de ser promo-
vido pra policia federal.
- Fiquei muito feliz do delegado não esquecer de
você e te indicar mesmo estando aposentado.
- Ah, o delegado sempre foi um sujeito direito, ho-
nesto.

368
- E como ele está?
- Curtindo a vida com a sua senhora.
Foi difícil voltar ao Badernil depois daquelas férias
incríveis na Grécia. Sophia ainda não sabia o que ia fazer
da vida. Tinha certeza que abriria um negócio, mas não
tinha certeza de qual.
- E você Clarice, o que está pensando em fazer?
- Ainda não sei, mas estou pensando em fazer o
treinamento da polícia civil.
- Sério? Você, com uma arma na mão? Sai de bai-
xo!
Riram. Quando chegaram a casa, havia um convite
de Cauê. Uma festa em sua mansão, onde anunciaria uma
grande descoberta. Foi a festa do ano, repleta de jorna-
listas, paparazzis, emissoras de televisão. Henry e Pedro
Debret estavam lá. A festa estava glamourosa, bebida e
comida da melhor qualidade estavam sendo servidos.
Músicos famosos faziam o som. Quando a festa atingiu o
seu ápice, Cauê chamou a atenção de todos para fazer um
comunicado.
- Muito obrigado por estarem aqui, espero que es-
tejam se divertindo. Esta é uma noite muito especial para
mim - olhou para o lado e chamou alguém - vem.
Sérgio apareceu, andando muito lentamente com
a ajuda de seu fisioterapeuta. Os flashes não paravam.
Quando finalmente chegou perto de Cauê, ele o beijou.
- Este é o milagre que eu quero mostrar para vo-
cês esta noite - Cauê fez uma pausa para segurar o choro

369
- meu amor está de volta. Com a ajuda da equipe médi-
ca, Henry e Pedro Debret, nós conseguimos avançar na
medicina e recuperar os neurônios de Sérgio. Ainda falta
muito para ele se recuperar completamente, mas já é ca-
paz de falar algumas palavras.
Entregou o microfone para Sérgio, que o segurou
com dificuldade.
- Eu.pensava.em.morrer.o.tempo.inteiro.já.tinha.
desistido.Estar.aqui.é.um.milagre.sou.muito.grato.obri-
gado.meu.amor.
Mais flashes registraram a volta de Sérgio para os
bastidores. Ele não podia fazer muito esforço ainda. Pre-
cisava de descanso.
- Agora quero apresentar a vocês - parou para fa-
zer um suspense - Deli Crucis V.
Deli Crucis entrou no palco, ainda mais realista e
menos tenebrosa. Os aplausos foram insanos, as pessoas
gritavam o nome de Deli Crucis como se aclamassem um
Rock Star.
- E agora, quero que recebam o seus criadores:
Henry e Pedro Debret.
As pessoas ainda se incomodavam com Pedro De-
bret, ficavam desconfiadas e temiam uma aproximação.
Os aplausos, desta vez, não foram tão vorazes. Depois de
um breve discurso, Cauê mandou a festa continuar. Des-
ceram todos do pequeno palco para pegar uma bebida no
bar.
- Martini, por favor - pediu Henry.

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- Vejo que meu irmãozinho virou homem, final-
mente.
- Christian!
- Aqui, acho melhor você me chamar de Arthur.

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