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O Método Etnográfico em Pesquisas na Área da

Saúde: uma reflexão antropológica1


The Ethnographic Method in Health Researches: an
anthropological thinking

Eunice Nakamura Resumo


Doutora em Antropologia. Professora Adjunta I do Departamento
de Saúde, Educação e Sociedade – UNIFESP. Campus Baixada O artigo tem como objetivo refletir sobre as possíveis
Santista. contribuições teórico-metodológicas das ciências
Endereço: Rua Governador Pedro de Toledo, 3, ap. 51, CEP 11045-551, sociais para as pesquisas na área da saúde, dada
Boqueirão, Santos, SP, Brasil.
E-mail: eunice_nakamura@hotmail.com
a crescente incorporação de metodologias qualita-
tivas, em especial do método etnográfico, nessas
1 Texto elaborado a partir de apresentação no II Encontro Paulista pesquisas. O ponto de partida dessa reflexão são três
de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, junho de 2009. pressupostos teórico-conceituais fundamentais à
consolidação do método etnográfico em sua origem,
concomitantemente à própria afirmação da ciência
antropológica, entendendo que na compreensão do
que seja a prática etnográfica, também se compre-
enda a importância da análise antropológica na
explicação dos diferentes fenômenos socioculturais,
dentre eles a saúde, o adoecimento e as estratégias
de tratamento ou de cura. Esses pressupostos – et-
nocentrismo, relativismo e cultura – marcaram de
tal forma a pesquisa e a produção de conhecimento
antropológicos, que método e teoria se tornaram in-
dissociáveis. Pensar na possibilidade de reiteração
e reposição constante dessa indissociabilidade, em
um movimento dialético da experiência concreta
com as teorias apreendidas, pode ser uma das prin-
cipais contribuições das ciências sociais, em parti-
cular da antropologia, para as pesquisas na área da
saúde. A ausência dessa reflexão parece colocar em
risco o compromisso dessa possível interface com
o rigor teórico-metodológico na produção e divul-
gação do conhecimento científico, pela redução e
simplificação do método à técnica. Por outro lado,
essa mesma indissociabilidade leva-nos a indagar
sobre as possíveis contribuições da incorporação do
método etnográfico em pesquisas na área da saúde
ao conhecimento antropológico.
Palavras-chave: Antropologia; Cultura; Pesquisa
Qualitativa; Metodologia.

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Abstract Introdução
The article aims to reflect on the possible theoretical A crescente incorporação em pesquisas na área da
and methodological contributions of social science saúde de métodos qualitativos, no geral originados
research in health, given the increasing incorpo- nas Ciências Sociais e Humanas, coloca aos cientis-
ration of qualitative methodologies, particularly tas sociais que atuam na interface com a saúde, em
ethnography, this research. The starting point for especial na formação de profissionais, tanto no nível
this discussion are three theoretical and concep- de graduação como na pós-graduação, a necessidade
tual keys to the consolidation of the ethnographic de uma postura crítica em dois planos: quanto à
method in its origin, in conjunction with the very observação de certos pressupostos na utilização de
assertion of anthropological science, assuming métodos qualitativos e na produção do conhecimen-
that by understanding what is the ethnographic to científico mediante a utilização de referencial
practice, we also understand the importance of the teórico-conceitual apropriado.
anthropological explanation of the different socio- Se, por um lado, o processo de disseminação
cultural phenomena, among them health, illness and dos métodos qualitativos aponta para uma necessi-
strategies for treatment or cure. These assumptions dade de a área da saúde buscar novos referenciais
- ethnocentrism, relativism and culture - marked teórico-metodológicos que deem conta de seus
so the research and production of anthropological objetos, por outro lado, isso nos leva a indagar se
knowledge, theory and method that have become os pesquisadores têm se preocupado de fato com
inseparable. Thinking of repetition and constant os pressupostos teórico-conceituais que funda-
replenishment of inseparability in a dialectical mentam tais métodos, e não simplesmente com a
movement of concrete experience with learned aplicação de técnicas (Nakamura, 2009). A origem
theories can be a major strength of the social sci- dessa indagação baseia-se na compreensão de que
ences, particularly anthropology, for research in metodologia é o conhecimento crítico dos limites e
health. The absence of this reflection seems to risk das possibilidades do processo científico, em que a
the compromise that can interface with the theoreti- questão técnica encontra-se vinculada à discussão
cal and methodological rigor in the production and teórica (Martins, 2004), ou seja, implica a produção
dissemination of scientific knowledge, the reduction de conhecimento.
and simplification of the technique. On the other Ao refletir sobre a produção do conhecimento
hand, this same inseparability leads us to inquire científico no âmbito dos métodos e técnicas qua-
about possible contributions of the incorporation litativos de pesquisa, Martins (2004) ressalta que
of ethnographic method in research in the health “fazer ciência” implica não apenas o compromisso
of anthropological knowledge. do pesquisador com alguns pressupostos a serem
Keywords: Anthropology; Culture; Qualitative Re- considerados no processo científico, mas fundamen-
search; Methodology. talmente a expressão de uma qualidade essencial à
sua utilização. Dentre os pressupostos apontados
pela autora, referidos mais especificamente à so-
ciologia, cuja fronteira com outras disciplinas das
ciências sociais, no entanto, é na maioria das vezes
difusa, destaca-se a análise intensiva e em profun-
didade de microprocessos, a flexibilidade quanto
às técnicas de coleta de dados e a heterodoxia na
análise dos dados. Soma-se a eles a qualidade men-
cionada, a “capacidade integrativa e analítica” do
pesquisador, desenvolvida a partir de sua “capaci-
dade criadora e intuitiva”. Trata-se, nesse caso, da
capacidade intuitiva “resultante da formação teórica

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e dos exercícios práticos do pesquisador”, ou seja, de como os das ciências sociais, para possíveis riscos
sua “competência teórica e metodológica” (Martins, da incorporação e banalização desses métodos e téc-
2004, p. 292-293). nicas em pesquisas na área da saúde, pela redução
Na antropologia, qualidade semelhante do pes- da complexidade que sua utilização exige.
quisador e igualmente essencial é apresentada por Esse convite à reflexão retoma o debate surgido
Oliveira (1998, p. 18) como “faculdades do enten- na década de 1980, apontado por Cardoso (1988), em
dimento”, as quais consistem na integração entre relação ao pragmatismo atribuído às pesquisas qua-
percepção (da realidade empírica) e pensamento litativas, ao mesmo tempo em que se “desqualificou
(teórico), que conduz ao “ato cognitivo” propriamen- como ocioso o debate sobre os compromissos teóri-
te dito, de natureza epistêmica, a partir do qual se cos que cada método supõe” (Cardoso, 1988, p. 95).
torna possível a construção do saber. Os riscos de tal pragmatismo, especificamente em
Em relação à reflexão crítica proposta neste relação ao método etnográfico, são aqui retomados
artigo quanto à observação de certos pressupostos como objeto de reflexão antropológica, numa tenta-
teórico-conceituais e à efetiva produção do conhe- tiva de requalificar o debate teórico-metodológico
cimento, toma-se como caso exemplar o método em termos da reiteração e reposição constante do
etnográfico, na medida em que sua origem não pode movimento dialético da experiência de campo com
ser dissociada da própria origem da ciência antropo- as teorias apreendidas, uma possibilidade também
lógica e que, portanto, na sua escolha como método a novas revelações teóricas.
para as pesquisas na área da saúde, dois conceitos
fundamentais à constituição da antropologia como
ciência devem ser considerados: etnocentrismo e
Pressupostos Teórico-conceituais: a
cultura (Nakamura, 2009), além de um terceiro a constituição do método etnográfico
ser destacado nesse processo, o relativismo, indis- e da antropologia
sociável, em sua origem Boasiana, de um conceito
de cultura. “Em antropologia ou, de qualquer forma, em
Daí a importância de que, ao pretender utilizar antropologia social, o que os praticantes fazem
o método etnográfico, os pesquisadores sejam é etnografia. E é justamente ao compreender o
convidados a conhecer um pouco da história da que é a etnografia, ou, mais exatamente, o que é
antropologia, dada a relação existente entre etno- a prática da etnografia, é que se pode começar
grafia, etnologia e antropologia, como três etapas a entender o que representa a análise antropo-
ou três momentos de uma mesma pesquisa, sendo a lógica como forma de conhecimento” (Geertz,
preferência por uma delas apenas a expressão “pre- 1989, p. 15).
dominantemente voltada para um tipo de pesquisa, Considerando-se a relação estreita entre esses
que não poderia nunca ser exclusivo dos dois outros” momentos da pesquisa, podemos afirmar também
(Lévi-Strauss, 1975, p. 396). Ressalta-se, em especial, que ao conhecer mais sobre a antropologia, é possí-
a relação estreita entre antropologia e etnografia, vel compreender melhor o que é o método etnográfi-
desde suas origens, e a correspondência entre seus co, como se originou, quais os seus princípios.
pressupostos teóricos, os quais têm garantido aos A relação entre esses dois momentos da pesquisa
pesquisadores a manifestação e reposição constante possibilita-nos vislumbrar o processo de construção
de sua “capacidade criadora e intuitiva” (Martins, do conhecimento científico, em que a etnografia
2004) ou de “atos cognitivos” (Oliveira, 1998), tão corresponderia aos primeiros estágios da pesquisa,
essenciais à produção do conhecimento sobre os ao trabalho de campo orientado pela observação e
fenômenos socioculturais, dentre eles a saúde, a descrição aprofundada dos fenômenos, complemen-
doença, as formas de tratamento e de cuidado. tado pela etapa de síntese consolidada na e pela
Ao destacar alguns pressupostos quanto à utili- antropologia (Lévi-Strauss, 1975).
zação de métodos e técnicas qualitativas, chama-se a Lévi-Strauss (1993) atribui a origem da “antro-
atenção de pesquisadores, tanto os da área da saúde pologia social” a Marcel Mauss, que no final da

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década de 1930, no século XX, teria introduzido o coletadas nas sociedades recém-descobertas, sendo
termo para ressaltar, nos estudos sobre as diferentes muitas informações filtradas pelo olhar europeu, no
sociedades, a importância da relação entre as várias geral bastante preconceituoso com relação a esses
dimensões da vida social e cultural que as consti- outros povos.
tuem e da observação empírica dos fatos sociais Na busca de um conhecimento sistematizado so-
como condição imprescindível à sua compreensão. bre o ser humano, a nascente antropologia buscava
Assim, Mauss como teórico e Malinowski como compreender as diferentes sociedades em termos
“experimentador” foram os primeiros a compreen- de uma classificação comparativa e evolutiva das
der, segundo Lévi-Strauss (1993), que não é suficien- sociedades humanas, a partir de critérios estabele-
te “decompor e dissecar” os fenômenos sociais, pois cidos pelo mundo europeu “civilizado”.
estes são vividos por homens. A vida social e cultural A essa visão de mundo, contrária à ideia de di-
de uma sociedade é apreendida em sua totalidade, a versidade das sociedades e culturas, fundamentada
partir da observação de como os diferentes aspectos em valores de uma única sociedade, denominou-se
da vida social se expressam em situações particu- etnocentrismo, o primeiro conceito:
lares, revelando valores, comportamentos, modos “A atitude mais antiga, e que se baseia indiscuti-
de vida e visões de mundo diferentes. A síntese velmente em fundamentos psicológicos sólidos
empírica e subjetiva operada a partir das contribui- (já que tende a reaparecer em cada um de nós
ções desses autores tornou-se uma característica quando nos situamos numa situação inespera-
fundamental do conhecimento antropológico, uma da), consiste em repudiar pura e simplesmente
garantia de que a análise pode contemplar, ou ao as formas culturais: morais, religiosas, sociais,
menos deveria, a totalidade da vida social. estéticas, que são as mais afastadas com as quais
Percebe-se na definição do que seja “antropo- nos identificamos. ‘Hábitos de selvagem’, ‘na
logia social”, de acordo com Lévi-Strauss (1993), a minha terra é diferente’, ‘não se deveria permitir
importância da relação entre a reflexão teórica do isto’ etc., tantas reações grosseiras que traduzem
antropólogo e a pesquisa de campo, sendo possível esse mesmo calafrio, essa mesma repulsa diante
afirmar que o pesquisador pode ser considerado um de maneiras de viver, crer ou pensar que nos são
“intérprete”, o mais fiel possível, da realidade vivida estranhas” (Lévi-Strauss, 1993, p. 333).
pelos homens em outras sociedades, grupos sociais A lógica do etnocentrismo consiste, pois, em
ou culturas. pensar o mundo por meio de um referencial único,
Ao referir-se à consolidação do pesquisador de ou seja, tendo como referência a cultura, os valores e
campo profissional na primeira metade do século costumes de uma sociedade em detrimento de outra,
XX, “o etnógrafo como o melhor intérprete da vida manifestando-se por meio de julgamento de valores
nativa”, em oposição ao viajante, ao missionário e da cultura do outro, seu modo de pensar e agir.
ao administrador, Clifford (1998) também ressalta a O etnocentrismo que possibilitou a classificação
importância da fusão da teoria geral com a pesquisa comparativa das sociedades humanas, baseado
empírica, da análise cultural com a descrição etno- principalmente no pensamento evolucionista, foi
gráfica, embora numa perspectiva crítica acerca da criticado por Franz Boas, no final do século XIX e
“formação e desintegração da autoridade etnográ- primeiras décadas do século XX. Boas redefiniu os
fica na antropologia social do século XX” (Clifford, fundamentos da antropologia ao considerar a hu-
1998, p. 18). manidade formada por grupos ou culturas únicos e
A complementaridade entre teoria e pesquisa tem distintos em suas práticas e valores. As sociedades
sido uma preocupação recorrente na antropologia, ocidentais, europeia e norte-americana deixaram de
embora não observada em seus primórdios, no sécu- ser o padrão de “civilização” a partir do qual outras
lo XVI. Os viajantes e informantes (administradores sociedades eram julgadas, sendo cada uma delas
que vinham conhecer as colônias recém-descobertas e suas culturas vistas como produto de contextos
ou missionários que procuravam levar a fé para “ín- históricos particulares, expresso em um conjunto
dios sem alma”, entre outros) traziam as impressões de crenças, valores e comportamentos (Greenfield,

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2001; Silverman, 2005). A essa nova visão acerca [...] etnografia é uma descrição densa. O que o
das sociedades humanas denominou-se relativismo etnógrafo enfrenta, de fato – a não ser quando
cultural, o segundo conceito. (como deve fazer, naturalmente) está seguindo
A atitude crítica de Boas em relação ao pensa- as rotinas mais automatizadas de coletar dados
mento evolucionista baseou-se na oposição siste- –, é uma multiplicidade de estruturas concep-
mática à classificação das pessoas em categorias, tuais complexas, muitas delas sobrepostas ou
muito comum na postura etnocêntrica, insistindo na amarradas umas às outras [referindo-se à noção
importância de suas particularidades. Um de seus de cultura], que são simultaneamente estranhas,
principais desafios foi questionar o rigor científico irregulares e inexplícitas, e que ele tem que,
do pensamento evolucionista, tarefa realizada com de alguma forma, primeiro apreender e depois
base em dados etnográficos (Greenfield, 2001, p. apresentar. (Geertz, 1989, p. 20).
42-43) e por meio da elaboração teórica simultânea
Desde suas origens, falar de etnografia pressu-
das noções de relativismo e cultura.
põe considerar a ciência antropológica e vice-versa,
Boas ressaltou a importância do trabalho de cam-
pois se trata o tempo todo da relação intrínseca que
po no estudo das sociedades primitivas, ao mesmo
se estabelece entre método, pressupostos teórico-
tempo em que redefiniu a noção de cultura, o terceiro
conceituais e produção do conhecimento, na busca
conceito aqui apresentado, fortemente influenciado
de uma compreensão a respeito dos homens, a partir
pelo conceito de cultura formulado por Tylor – com-
de suas experiências particulares.
preendida como “um conjunto complexo, onde se
Ao assumir como fundamental essa relação,
ordenam todos os conhecimentos, crenças, arte,
busca-se refletir sobre as possíveis contribuições
moral, direitos, costumes e todas outras aptidões ou
da antropologia, também dos antropólogos, na
hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro
escolha pelo método etnográfico em pesquisas na
da sociedade” (Tylor, 1871 citado por Lévi-Strauss,
área da saúde.
1975, p. 34). Uma diferença fundamental em relação a
esse conceito, entretanto, deve ser apontada a partir
da redefinição dos fundamentos da antropologia Contribuições Teórico-
proposta no pensamento de Boas. Nele, cultura não metodológicas da Antropologia
é sinônimo de civilização, mas é definida num sen-
tido plural, enfatizando a diversidade das culturas, para as Pesquisas em Saúde
consideradas como contextos de comportamentos Saúde, doença, formas de tratamento e cura não
humanos apreendidos (Silverman, 2005, p. 262), de são temas estranhos às pesquisas antropológicas,
acordo, portanto, com sua perspectiva relativista. pois “têm sido estudados, direta ou indiretamente,
Essa viagem empreendida por autores clássicos por antropólogos desde o final do século XIX, pos-
da antropologia permite que se compreenda como sibilitando à ciência antropológica, por meio da
se estabeleceu a relação entre a antropologia e o descrição e da análise proporcionadas por estudos
método etnográfico, concomitantemente à definição etnográficos, acumular um vasto conhecimento
de seus fundamentos teórico-conceituais e metodo- acerca das diferentes experiências de sociedades e
lógicos, conforme anteriormente apontado. grupos sociais sobre esses fenômenos” (Nakamura,
Os conceitos de etnocentrismo, relativismo e cul- 2009, p. 27).
tura, apresentados como fundamentos ao método e No geral, a maioria desses estudos não tinha
ao conhecimento científico por ele produzido, sofre- como objeto específico esses temas, mas por meio de
ram inúmeras críticas, reformulações e adaptações outros, como a religião e a magia, puderam revelar
aos novos contextos de pesquisa, principalmente aspectos importantes sobre os sistemas explicativos
na perspectiva hermenêutica de Geertz e na crítica que integram saúde, doença e cura em diferentes
à autoridade etnográfica feita pelos pós-modernos sociedades.
na antropologia; entretanto, na perspectiva antro- Mais recentemente, verifica-se o aumento do in-
pológica permanece a ideia de que: teresse da antropologia pelos temas saúde e doença,

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principalmente na década de 1980, num movimento pressupostos inerentes ao método etnográfico: o
que poderia ser aqui denominado de “penetração” afastamento do etnocentrismo e a relativização.
das ciências sociais na saúde. Destacam-se nesse Para realizar essa tarefa, duas condições essenciais
processo os estudos sobre saúde e doença das são exigidas do pesquisador: contatar os pesquisa-
classes trabalhadoras ou de grupos específicos da dos (os “nativos” das pesquisas em saúde, usuários
população; saberes e práticas populares de cura; de serviços de saúde, trabalhadores ou gestores da
saberes e práticas da medicina oficial; a loucura e saúde, entre outros) e despir-se de seus preconcei-
o desvio; sexualidade; medicalização; serviços de tos e valores para compreender os de outros. Essa
saúde; escolhas terapêuticas, entre outros, segundo última condição refere-se principalmente ao risco
autores que sistematizaram a produção do conheci- de que os conhecimentos adquiridos nas ciências
mento sobre o tema (Canesqui, 1994; Carrara, 1994; biomédicas e a visão científica sobre saúde, doença
Duarte, 1998). e formas de tratamento e cura se sobreponham a ou-
Na maioria desses estudos, fica evidente a utili- tros sentidos que esses fenômenos possam adquirir
zação do método etnográfico vinculada à (necessá- para os “nativos”.
ria) produção de conhecimento antropológico, sendo Esses pressupostos irão definir a entrada do
o problema menos em relação aos pressupostos pesquisador em campo, sua atitude em relação aos
teórico-metodológicos e mais de ajustes necessários pesquisados e à coleta de informações, na medida
em relação ao método – como, por exemplo, a relação em que dizem respeito ao modo particular como
entre pesquisador e pesquisados e o questionamento sua interpretação dos fenômenos deverá se orien-
da autoridade do etnógrafo (Cllifford, 1998; Geertz, tar pelas qualidades quanto às formas de “olhar” e
1989) – e de escolhas teóricas adequadas para dar “ouvir” e “domesticada” pelo esquema conceitual da
conta dos novos objetos e contextos de pesquisa, no disciplina (Oliveira, 1998).
geral pouco comuns à disciplina. Essa percepção particular dos fenômenos é com-
Por outro lado, num outro movimento, o de “in- plementada pelo pensamento, fundamental ao ato
corporação” (pela saúde) do método etnográfico, de “escrever”, momento em que, segundo o mesmo
verifica-se um aumento considerável, principalmen- autor, ocorre a articulação entre os dados do campo
te nos anos 2000, de artigos que fazem referência e a produção do texto etnográfico, também baseado
ao método etnográfico. no sistema conceitual disponibilizado pela antropo-
Numa rápida consulta na base Scielo, utilizando- logia. Esse momento refere-se a um segundo aspecto
se o termo etnografia, constata-se a existência de necessário à reflexão.
76 artigos publicados, dos quais 73 somente nos
[...] no que tange à antropologia, como procurei
anos 2000. A maioria desses artigos provém da
mostrar, esses atos estão previamente compro-
área de ciências sociais, mais especificamente da
metidos com o próprio horizonte da disciplina,
antropologia, mas 17 estão relacionados a pesquisas
em que olhar, ouvir e escrever estão desde sempre
da área da saúde e foram publicados em periódicos
sintonizados com o sistema de ideias e valores
das áreas de enfermagem (10), de saúde coletiva (5)
que são próprios da disciplina (Oliveira, 1998,
e de psicologia (2).
p. 32).
A disseminação do método etnográfico em
pesquisas dessa área, assim como a análise de fe- Se o objetivo final da “aventura antropológica”
nômenos contemporâneos de saúde e adoecimento é atingir o “ato cognitivo” capaz de conduzir à ela-
por antropólogos, coloca a necessidade de refletir boração do conhecimento científico, pergunta-se
criticamente sobre as contribuições teórico-me- em que medida a “penetração” das ciências sociais
todológicas do referencial antropológico a essas na saúde e a “incorporação” (pela saúde) do método
pesquisas, questionando-se, também, em que me- etnográfico têm possibilitado que esse objetivo seja
dida elas têm contribuído para a renovação desse alcançado.
conhecimento. A reflexão sobre as possíveis contribuições
Um primeiro aspecto a ser destacado nessa refle- teórico-metodológicas da antropologia para as
xão refere-se à observação, como já citado, de alguns pesquisas em saúde não se esgota, portanto, nessas

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considerações, sendo antes um convite à continuida- Na possibilidade de consolidação dessa interfa-
de do debate surgido na década de 1980 em relação ce em pesquisas, concomitantemente à produção
ao pragmatismo atribuído às pesquisas qualitativas, do conhecimento, a reflexão crítica em relação à
simultaneamente à desqualificação do debate sobre incorporação de certos referenciais teórico-meto-
os compromissos teóricos de cada método (Cardoso, dológicos originados nas ciências sociais passou a
1988). ser complementada pelo compromisso necessário,
Em relação ao método etnográfico, assumir tal por parte dos cientistas sociais e em especial dos
pragmatismo pode tornar-se um risco pela simpli- antropólogos, com a análise em relação ao seu papel
ficação do método, transformado em técnica. Para na formação profissional e na divulgação do conhe-
evitá-lo, é urgente retomar esse debate e, nesse sen- cimento científico.
tido, o esforço de reflexão talvez deva ocorrer menos No processo de formação profissional, indaga-se
em direção ao modo como outras áreas, como a da sobre a reiteração e reposição constantes, nesse pro-
saúde, utilizam o método etnográfico e contribuem cesso, da relação dialética entre experiência de cam-
(ou não) para a produção do conhecimento antropo- po e reflexão teórica, como apontada por Da Matta
lógico, do que no interior da própria antropologia. (1981). Nas pesquisas antropológicas, os estudantes
As “contribuições teórico-metodológicas da se movem em suas experiências de campo por meio
antropologia para as pesquisas em saúde” parecem dos referenciais teórico-conceituais apreendidos na
estar bem caracterizadas nos pressupostos teórico- disciplina, utilizam nessas experiências os “óculos
conceituais do método etnográfico e na possibilidade teóricos”, tão fundamentais ao modo particular
de produção do conhecimento antropológico, como de “olhar”, “ouvir” e “escrever” sobre o mundo ob-
norteadoras do rigor científico nas pesquisas em servado. Na área da saúde, entretanto, um grande
saúde, servindo, ao mesmo tempo, como parâmetro desafio aos antropólogos no processo de formação
para que alguns riscos de simplificação sejam evita- em pesquisa, em se tratando do método etnográfi-
dos. Outro plano de contribuições, mais pertinente co, parece estar na garantia de que esses “óculos
às questões aqui apontadas, parece estar vinculado teóricos” modulem a observação, a percepção e a
à capacidade dos antropólogos de realizarem uma interpretação do pesquisador em todas as fases da
reflexão crítica no interior da própria disciplina, pesquisa. Trata-se, como ressaltado anteriormente,
revendo seus compromissos com os pressupostos da formação necessária para garantir a apreensão
teórico-metodológicos a serem observados não de referenciais teórico-conceituais que orientem o
apenas pelos “de fora”. pesquisador, evitando, assim, que tome a técnica no
lugar do método. Espera-se, assim, que em estudos
Alguns Desdobramentos do sobre “percepções”, “representações” ou “signi-
ficados” de saúde, doença e cura, os referenciais
Exercício da Reflexão Crítica teóricos estejam claramente enunciados, segundo
O convite à reflexão crítica sobre a interface das a complexidade exigida pelo método etnográfico, de
ciências sociais com a saúde, em especial da antro- modo a evitar que este seja reduzido à descrição de
pologia e do método etnográfico, possibilitou que procedimentos de um conjunto de técnicas, como a
um pequeno passo no debate sobre os compromissos observação ou as entrevistas em profundidade.
teóricos do método fosse dado. O avanço ocorreu prin- Outro compromisso a ser assumido nessa in-
cipalmente em função de deslocamento da postura terface, não apenas pelos antropólogos, mas pelos
crítica em relação à observação de certos pressupos- cientistas sociais em geral, refere-se à análise crítica
tos na utilização do método etnográfico (por “outros”) acerca de seus papéis na divulgação do conhecimen-
para uma indagação (por parte dos cientistas sociais, to produzido, seja quando atuam como avaliadores
em particular dos antropólogos) quanto ao rigor na ou quando buscam divulgar os resultados de seus
utilização de referenciais teórico-conceituais dis- estudos por meio de artigos. A questão que se apre-
ponibilizados pela disciplina, também em relação à senta em relação a esse aspecto refere-se ao risco
produção de (novos) conhecimentos. de “adequação” dos textos etnográficos a critérios

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nem sempre familiares à disciplina, muitas vezes CARDOSO, R. C. L. Aventuras de antropólogos
retirando deles aquilo que os qualifica, ou seja, o em campo ou como escapar das armadilhas do
exercício criativo que caracteriza a produção do método. In: CARDOSO, R. C. L. (Org.) A aventura
conhecimento e o pensamento antropológico: uma antropológica: teoria e pesquisa. 2. ed. Rio de
maneira particular de “escrever” (Oliveira, 1998). Janeiro: Paz e Terra, 1988. p. 95-105.
Não se pretendeu esgotar aqui o debate teórico- CARRARA, S. Entre cientistas e bruxos: ensaio
metodológico da década de 1980 sobre a pesquisa sobre os dilemas e perspectivas da análise
qualitativa, mas retomá-lo no contexto de um antropológica da doença. In: ALVES, P. C.;
possível diálogo das ciências sociais com a área da MINAYO, M. C. (Orgs.). Saúde e doença: um olhar
saúde, especificamente do diálogo a partir da antro- antropológico. Rio de Janeiro: FIOCRUZ, 1994. p.
pologia, devido à crescente incorporação do método 33-45.
etnográfico nas pesquisas da área. A retomada desse
debate coloca a necessidade de que os antropólogos, CLIFFORD, J. A experiência etnográfica:
em particular aqueles que atuam na área da saúde, antropologia e literatura no século XX. Rio de
reiterem seu compromisso com a reflexão crítica Janeiro: UFRJ, 1998.
acerca das possíveis contribuições da disciplina DA MATTA, R. Relativizando: uma introdução à
às pesquisas nessa área, especialmente no debate antropologia social. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1981.
acerca dos aspectos teóricos a serem considerados
DUARTE, L. F. D. Investigação antropológica
em relação ao método, o que parece ser um debate
sobre doença, sofrimento e perturbação: uma
inesgotável na disciplina, na medida em que é no
introdução. In: DUARTE, L. F. D.; LEAL, O. F. (orgs.)
movimento dialético entre teoria e método que ela
Doença, sofrimento, perturbações: perspectivas
se movimenta.
etnográficas. Rio de Janeiro: FIOCRUZ, 1998. p.
O método etnográfico, aqui tomado como um 9-27.
exemplo do processo de “incorporação” de um mé-
todo das ciências sociais às pesquisas em saúde, GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de
também é um bom exemplo de como a reiteração Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editora,
e reposição constante do movimento dialético da 1989.
experiência de campo com as teorias apreendidas GREENFIELD, S. M. Nature/ Nurture and the
são fundamentais ao rigor e à validade dos estudos Anthropology of Franz Boas and Margaret
qualitativos, fundamentados essencialmente nas Mead as an agenda for revolutionary politics.
relações estabelecidas entre dados empíricos e in- Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 7, n.
terpretações teóricas (Martins, 2004). 16, p. 35-52, dez. 2001.
Dada a complexidade e as implicações das
LÉVI-STRAUSS, C. Antropologia estrutural. Rio de
possíveis contribuições teórico-metodológicas das
Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975.
ciências sociais para as pesquisas na área da saúde,
em particular do método etnográfico, este parece ser LÉVI-STRAUSS, C. Antropologia estrutural Dois.
apenas o ponto de partida para a retomada de um 4. ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1993.
exercício constante de debate. (Biblioteca Tempo Universitário, 45)
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Recebido em: 20/09/2010


Aprovado em: 04/10/2010

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