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GATOS E HOMENS

Mama San Ra'ab Rampa

Tal como em seu primeiro livro, MENTE FELINA, publicado pela Record,
Mama Rampa aborda em GATOS E HOMENS temas transcendentais, profundos,
mais uma vez imprimindo ao seu texto um característico tom leve e ameno.
O budismo — mais como filosofia de vida do que como religião — muitas
reminiscências do tempo da Segunda Guerra Mundial na Inglaterra, extraordinárias
e, às vezes, divertidas passagens autobiográficas das quais se evola um perfume de
outras épocas, incidentes descritos com ternura e senso de humor, envolvendo
gatos tão ilustres como Mr. T. Catt, Miss Cleo, Miss Tadalinka, Miss Kuei, tudo isso
se reúne para formar estranha mas fascinante tapeçaria contra a qual se recorta a
proposição central do livro.
GATOS E HOMENS é uma narrativa rica de experiências e vivências,
cheia de conselhos utilíssimos e curiosos, especialmente quando se referem aos
cuidados a serem dispensados ao "povinho felino", como a autora lhe chama.
Mama Rampa nos ensina neste seu novo livro o que é a transmigração, diz-nos
como se deu a "partida" de Cari e como foi o "advento" do Dr. Rampa, a autora
mantém a teoria de que a morte não representa o fim e afirma que os gatos têm uma
importante missão a Cumprir na Terra — coisa que pessoas de baixa vibração não
podem compreender.
GATOS E HOMENS é, em suma, um livro para ser lido com grande
deleite por pessoas de altas vibrações, pois segue uma linha filosófica próxima da
que o famoso T. Lobsang Rampa, marido da autora, prega em suas obras, também
publicadas pela Record.

Capa: Foto Abril Press

RECORD

1
GATOS E HOMENS

por
Mama San Ra'ab Rampa

Tradução de
VERA NEVES PEDROSO

EDITORA RECORD

2
Título original norte-americano

TIGERLILY

Copyright © 1976 by Sarah Rampa

Direitos de publicação exclusiva em língua portuguesa no Brasil

adquiridos pela

DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A.

Av. Erasmo Braga, 255 — 8.° andar — Rio de Jan eiro, RJ

que se reserva a propriedade literária desta tradução

Impresso no Brasil

3
Um pensamento

Só quem é capaz de ver o invisível

É capaz de conseguir o impossível.

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Este livro e dedicado ao Capitão-Médico Reginald

Thompson, da Marinha Real Britânica, já falecido,

que muito me ajudou e que continua a me ajudar

do lugar onde se encontra.

"Há mais coisas entre o céu e a terra do que a gente pode

supor."

Shakespeare

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5
A pena é mais poderosa

do que a espada.

Alimentai a mente com grandes pensamentos,

pois jamais subireis mais alto do

que sois capazes de pensar.

Disraeli

6
Índice

Capítulo 1 ....................................................................................................................8
Capítulo 2 ..................................................................................................................12
Capítulo 3 ..................................................................................................................16
Capítulo 4 ..................................................................................................................22
UM PEQUENO SKETCH.......................................................................................25
Capítulo 5 ..................................................................................................................28
Capítulo 6 ..................................................................................................................34
Capítulo 7 ..................................................................................................................40
Capítulo 8 ..................................................................................................................46
Capítulo 9 ..................................................................................................................51
Capítulo 10 ................................................................................................................57
Capítulo 11 ................................................................................................................63
Capítulo 12 ................................................................................................................69
Interlúdio....................................................................................................................76
Capítulo 13 ................................................................................................................84
Capítulo 14 ................................................................................................................89
Capítulo 15 ................................................................................................................94
Capítulo 16 ...............................................................................................................99
Capítulo 17 ..............................................................................................................105
Capítulo 18 ..............................................................................................................113
Capítulo 19 .............................................................................................................123
Capítulo 20 ..............................................................................................................128
Capítulo 21 ..............................................................................................................134
Capítulo 22 ..............................................................................................................140
Capítulo 23 ..............................................................................................................148

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Capítulo 1

Tive a boa sorte de nascer numa época em que a família ainda tinha

significação, em que as mães se realizavam dentro do seu lar e não tinham

necessidade de uma segunda ocupação para se sentirem perfeitamente integradas

como seres humanos. A coisa mais difícil era voltar da escola e encontrar a casa

vazia: mamãe estava sempre em casa, ora costurando, ora fazendo crochê (arte que

me ensinou quando eu ainda era bem menina) e havia sempre um ótimo chá

esperando pelas crianças esfomeadas.

Como eu era voluntariosa, sem dúvida uma disciplina um pouco mais

firme não calharia mal — mas mamãe era toda bondade e doçura.

Os momentos mais felizes eram passados quando o dia já estava

terminando e a noite se aproximava, antes da hora de acender as luzes.

Mamãe gostava de recitar esta quadrinha:

"Entre a escuridão e a luz do dia,

Quando a noite começa a cair,

Há uma pausa nas tarefas diárias,

Que é a chamada hora das crianças."

Ela fazia questão de dedicar muito do seu tempo aos filhos e de cuidar

das suas necessidades mentais e espirituais, bem como do seu bem-estar físico.

As coisas que se aprendem na infância parecem ficar para sempre na

lembrança, permanecem muito mais do que num computador com o seu "banco de

memória". Eu gostava de ir à escola, gostava de estudar — mas isso fazia parte do

cotidiano, era algo que se tinha que fazer. Do que eu realmente gostava era de ouvir
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mamãe contar histórias verdadeiras sobre a família e os parentes próximos. Como

parecem estar longe, já que estou agora escrevendo isto num apartamento de um

edifício, aqueles dias em que o lar era uma casa, onde a gente se sentava junto à

lareira, nas longas noites de inverno!

À medida que minha mãe ia contando, com sua voz calma e pausada, eu

imaginava uma menininha dos seus cinco anos, sendo levada para morar com a

avó, que vivia muito longe da cidade grande onde a menina nascera e morava.

Embora eu nunca tivesse me separado da MINHA família, procurava sentir o que

seria, para uma meninazinha, adaptar-se à vida numa aldeia, com pessoas que lhe

eram estranhas, embora fossem parentes. Minha mãe contava pouca coisa sobre o

avô, mas a avó aparentemente se esquecera de tudo o que uma menina pequena

poderia necessitar.

A princípio, a ida da menina fora encarada como algo apenas temporário,

enquanto a mãe se recuperava de uma doença grave. Mas os dias foram-se

passando, depois semanas, meses e anos, e minha mãe nunca mais voltou ao lugar

onde nascera, por isso acabou considerando os primos mais como sua família do

que os seus irmãos e irmãs.

Olhando para trás, lembro-me ainda de algumas interessantes

experiências e histórias que ela costumava contar. Naqueles dias, eu achava que

eram apenas "sonhos diferentes" mas, à luz de acontecimentos posteriores, acho

que minha mãe era capaz de ver o futuro. Contou-nos como, num sonho, vira o que

chamou de carruagens sem cavalos, e isso quando ela era bem menina, isto é,

antes do começo deste século. Além dessa capacidade de prever o futuro, acho que

ela também via o passado, pois nos contou de como vira vasilhas cheias de luz de

uma brancura fora do comum — e de como, em sonho, visitara uma cidade de uma

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civilização anterior. Também via pessoas, só que elas não ficavam paradas,

moviam-se, avançavam para ela.

Os trabalhos de agulha e a leitura eram a nossa principal recreação e

acho que o meu amor pelas citações e pelos provérbios — interesse que continua

até hoje — vem desses dias. Antes de saber ler, adorava que lessem para mim, e

histórias como A Pequena Nell e A Cabana do Pai Tomás proporcionavam alimento

de sobra para a minha imaginação.

Mais tarde, passei pela usual fase "adolescente" das novelas românticas,

identificando-me com as alegrias e as decepções dos personagens de Hall Caine e

de Ethel M. Dell. Certa vez, eu estava devolvendo um livro à biblioteca da escola, e

todo mundo caiu na risada, ao me ouvir dizer:

— Trouxe de volta O Topo do Mundo.

— Você deve ser um bocado forte! — comentou uma voz sarcástica.

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Procurei a minha alma

Mas não a pude ver.

Procurei o meu Deus

Mas Ele me escapou.

Procurei um amigo

E encontrei os três.

William Blake

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Capítulo 2

Tive também a boa sorte de casar com alguém interessado em algo mais

do que os aspectos materiais da vida. Ele, a quem chamarei Cari, era uma pessoa

muito sensível e, desde o nosso primeiro encontro, tivemos a certeza de que os

nossos caminhos já se haviam cruzado antes. Quase não tínhamos necessidade de

palavras, pois éramos, por assim dizer, capazes de ler os pensamentos um do outro.

"Que chato!", pensarão alguns; mas, quando não há nada a esconder, esse é, sem

dúvida, o meio mais simples de comunicação. Há quem diga que, quando duas

pessoas vivem juntas durante muitos anos, vão aos poucos ficando parecidas

fisicamente e se entendendo perfeitamente, sem precisar falar. Nós como que

tomamos um atalho e, em vez de esperar pelo fim da vida, começamos logo a nos

entender e a nos beneficiarmos desse entendimento.

A primeira tarde que passamos juntos foi uma alegria para ambos — uma

data a ser recordada para sempre.

Enquanto contemplo a paisagem norte-americana, relembro um dia

maravilhoso, na Inglaterra. Foi no fim do verão, em meados de setembro, que as

vidas de duas pessoas destinadas a se encontrar tomaram um rumo decisivo.

Havia um homem, na Inglaterra, que quando tinha de escrever algo

desagradável numa carta avisava antes:

— Se não gostar do que se segue, por favor, leia com os olhos fechados.

Acho que vou fazer uma sugestão semelhante. Quem não acreditar em

astrologia, feche os olhos, porque vou contar algo para quem acredita:

Um eminente astrólogo, conhecido em todo mundo, que se interessou em

nos fazer um horóscopo, disse:

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— O encontro de vocês era inevitável. Saturno está na mesma casa, em

ambos os horóscopos, sinal de união duradoura e profunda.

Este astrólogo era muito cuidadoso no que predizia, conhecia bem as

fraquezas da natureza humana e a responsabilidade da sua profissão, e parecia

algo perplexo com certas coisas que via nos nossos horóscopos. Tendo em vista as

experiências incomuns por que passaríamos nos dias e semanas seguintes, isso

não era de espantar. Percebia-se que, embora nem sempre víssemos da mesma

forma as coisas do dia-a-dia, não havia dúvida de que, nas coisas mais profundas e

mais permanentes, tínhamos o mesmo ponto de vista. Essa certeza sempre me

sustentou através dos altos e baixos, das subidas e descidas da gangorra que é a

vida a dois. Sabia que, por trás de tudo, havia um propósito e, mesmo quando tudo

parecia negro, tinha a certeza de que todas as vicissitudes valeriam a pena.

Poucos dias depois de nos conhecermos, Cari quis que eu conhecesse a

mãe dele, com quem morava. De aspecto algo atemorizante, com opiniões

inabaláveis sobre muitos assuntos, ela mostrou-se amável comigo, mas eu sempre

tive a impressão de que ressentia a minha aparição em cena. Como acontece com

muitas mães, queria conservar o filho só para si, embora nunca tivesse demonstrado

nenhum afeto especial por ele. Provavelmente, queria apenas se agarrar a algo que

corria o perigo de perder. Eu tinha a certeza de que suportaria tal situação, pois era

natural um rapaz querer encontrar a felicidade com uma moça, e sentia que

estávamos fazendo o que fora traçado para nós. Havia já alguns anos que me

defendia sozinha, de modo que tinha experiência em enfrentar diferentes situações e

aquela era apenas uma a mais. Não sei por que, mas por diversas vezes, na minha

vida, tive que me haver com a "animosidade" de várias mulheres, e há ocasiões em

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que me pergunto se isso não me acompanhará até o fim da vida. O astrólogo deu a

isso o nome de ciúme!!!

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A melhor parte da vida

de uma pessoa

está nas suas amizades.

Abraham Lincoln

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Capítulo 3

A maneira pela qual eu e meu futuro marido acabamos nos encontrando

foi interessante, embora tudo indicasse ter havido várias tentativas, por parte dos

"poderes ocultos", no sentido de que isso acontecesse. Acabamos sendo

apresentados por um homem, conhecido de ambos, que afirmou ter tido como que o

palpite de que caberia a ele aproximar-nos. Isso mostra que devemos sempre seguir

as nossas intuições, ou, pelo menos, não rechaçá-las sem antes pensar bem; e que

ninguém deve, jamais, considerar-se demasiado insignificante para atuar como

instrumento no plano geral das coisas. A certa altura da vida, eu tinha uma atitude

bastante depreciativa quanto às minhas próprias capacidades e a tendência a seguir

os conselhos dos outros — achando que eles sabiam muito mais do que eu — mas

sofri por causa disso. Hoje em dia, sei que devo me responsabilizar pelas minhas

crenças e pelos meus atos. Graças a isso, adquiri um bocado de confiança em mim

mesma.

A primeira vez que eu e Carl nos vimos foi num sábado, em setembro, e

logo sentimos que já tínhamos estado juntos antes. Era como se cada um de nós

tivesse voltado de uma viagem e fosse reencenar a vida a partir de onde a tínhamos

deixado, após termos nos afastado para cumprir as nossas respectivas missj5es.

Naquele primeiro dia e nos dias que se seguiram, muitas vezes eu ia começar a

dizer algo... fazer algum comentário ou perguntar alguma coisa.. e logo estacava,

dizendo: — Ora, mas eu já disse isso! — ou — Já lhe perguntei isso antes!

Onde e quando nos tínhamos conhecido? Desse tempo até hoje, acho

que fiquei bem mais esclarecida a respeito dessas coisas e muitas vezes desejei ter

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tido, naquela época, um pouco mais do conhecimento e da compreensão que depois

me seriam concedidos.

Esse foi o primeiro de muitos agradáveis interlúdios, em que

costumávamos caminhar ou sentar junto ao rio, tomando chá numa das muitas

confeitarias ao ar livre, ao longo das margens do Tamisa, perto de Londres.

Costumávamos também tomar um barquinho a remo e passar uma hora passeando;

quando eu caí na água Carl riu muito, embora para mim o incidente nada tivesse de

divertido.

Apesar de, na ocasião, nos parecer que não havia outra escolha, no dia

em que resolvemos ir morar em Weybridge, tomamos uma decisão infeliz: o lugar

não combinava conosco e, olhando para trás (expressão que ficou muito popular

desde o Watergate ..), compreendemos que tínhamos cometido um erro.

Contudo, "o homem põe e Deus dispõe", e não se podia viver em Londres

sem trabalhar, pelo menos, não se podia no tempo sobre o qual escrevo; porque, a

julgar pelo que se ouve dizer a respeito da assistência social, dos fundos de

desemprego e dos vários benefícios e auxílios concedidos .. talvez seja possível,

hoje em dia, viver em Londres sem trabalhar.

Como aconteceu com muita gente, a guerra de 39/45 veio alterar em

muito a nossa vida. O lugar onde Carl trabalhava como gerente foi bombardeado e

muitas mudanças tiveram que ser feitas. Uma manha, ele saiu de Knightsbridge,

como de costume e, ao chegar a Conduit Street, encontrou toda a área cercada e a

polícia impedindo as pessoas de entrar. Após explicar o seu caso a um oficial de

polícia, ele pôde passar e alcançar os escritórios da companhia de instrumentos

cirúrgicos, que fora atingida por uma bomba.

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Quando a gente afasta a neblina da memória é que percebe quão

horríveis eram aqueles tempos. O edifício de apartamentos (ou bloco de

apartamentos, como o chamavam) em que morávamos também foi atingido por uma

bomba, para meu grande susto. Nervosa, gritei por Carl, com medo que o prédio

viesse abaixo; mas ele demorou muito a aparecer, embora eu sacudisse

alucinadamente a maçaneta da porta, pois fazia algo que ninguém podia fazer por

ele. A bomba fez com que todos os inquilinos fossem evacuados do edifício até a

manhã do dia seguinte. Demos graças a Deus por conhecer alguém que nos

pudesse acomodar e rumamos para Earl's Court, onde caímos direto na cama.

Muitas vezes comentei que o melhor café da manhã que jamais tomei foi naquele

dia, quando voltamos para o nosso apartamento e fizemos uma refeição com bacon,

ovos e salsichas. Aparentemente, havia o risco de um escapamento de gás e não

seria prudente permitir que alguém pernoitasse no edifício.

Muitas vezes nos perguntaram como conseguíamos dormir, em meio a

ataques aéreos tão perigosos e barulhentos, e custam a acreditar que eu fosse

capaz de dormir apesar de tudo. Nunca me preocupei em saber se estaria viva ou

não no dia seguinte e não me esquecerei da noite em que Carl me despertou (nós

ainda não estávamos acostumados aos bombardeios) durante um ataque aéreo,

particularmente barulhento, para me dizer que eu não devia dormir tão

profundamente.

— Se você morresse de uma hora para a outra — disse ele — levaria

muito tempo para saber o que lhe tinha acontecido, de modo que é melhor estar

acordada e consciente do que está acontecendo .

Esfreguei os olhos e pensei naquilo. Quanto mais pensava, mais sentido

o que ele dissera fazia... a tal ponto, que desde então nunca mais isto me saiu da

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cabeça. Desde que não esteja com algo que me incomode ou com alguma dor, nem

uma bomba é capaz de me acordar; evidentemente, devo descer a um "nível" muito

profundo no sono, o que me faz um bem enorme. A maneira pela qual eu durmo, o

nível de sono alcançado, determina o meu estado e a minha eficiência no dia

seguinte.

Ainda no mês passado, dois ou três carros de bombeiros foram chamados

à minha rua pela madrugada, e devo confessar que não ouvi nada — só soube do

que tinha acontecido quando me contaram. Dormir profundamente não quer dizer

que a gente durma a noite inteira... no meu caso, durmo apenas algumas horas, no

máximo três, o que me parece ser mais benéfico do que dormir oito horas seguidas.

O falecido Sir Winston Churchill aparentemente também achava isso

suficiente — juntamente com os seus "cochilos" diurnos.

Achei interessante o que li no Livro do Sono, do Dr. James Paupst. Diz

que "algo parece estar faltando nas pesquisas sobre o sono feitas até agora".

Escreve ele:

"Se os cientistas resolvessem não só olhar — como

quem está de fora — para essa outra vida que levamos à noite,

mas tomar parte nela, como Alice no País das Maravilhas

atravessando a porta mágica, talvez pudessem obter alguma

prova real. Porque, se existe uma outra vida, ela pode ser mais

'real' do que aquela que vivemos. Quem sabe que papéis cada

um de nós desempenha nela? Quem pode registrar as nossas

atividades e as nossas reações?"

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Ao ler esse livro, lembrei-me de um incidente ocorrido durante a nossa

estada em Surrey, quando Carl certa manhã me perguntou:

— Que é que você estava fazendo, enquanto dormia?

— Por quê? — retruquei, curiosa.

— Bem — sorriu ele — você disse que ia mandar pintar o nosso carro de

azul.

Aquilo me fez pensar, pois não me lembrava de nada.

— Você falou claramente — continuou ele — e quando lhe perguntei por

que, respondeu que ia pintá-lo de azul porque era dessa cor que o carro de Warwick

Deeping ia ser pintado.

Mais tarde, nesse mesmo dia, estávamos folheando uma revista e, para

nossa surpresa, vimos uma referência ao carro AZUL de Warwick Deeping.

Quem era Warwick Deeping? Um escritor que estava na moda, embora a

sua obra apresentasse um estilo bastante empolado. Deeping era um mero

pseudônimo, não o seu nome verdadeiro.

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Se aceito o sol

e o calor,

devo também aceitar

o trovão e o relâmpago.

Kahlil Gibran

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Capítulo 4

O dono da companhia de material cirúrgico achou pouco prudente

continuar em Londres, pois não havia forma de garantia contra os ataques aéreos.

Começou a procurar um lugar mais seguro, escolhendo, por fim, um local na área de

Midland, um bocado distante de Londres.

Ouvimos falar em outra companhia que também tinha saído da cidade

devido à guerra e se mudado para Weybridge, em Surrey. Soubemos que estavam

precisando de funcionários. Exigiam uma entrevista pessoal, de maneira que, após

termos marcado hora, para lá nos dirigimos de ônibus, chegando antes do Diretor-

Gerente. Carl teve que esperar enquanto eu descia à rua a procura de um café...

onde esperei o que me pareceu horas intermináveis pelo meu marido. O Diretor-

Gerente (que era também o patrão, o dono) esquecera-se da entrevista, por isso

chegara tarde. Mas, aparentemente, ficara impressionado com a experiência e a

capacidade de Carl e resolvera dar-lhe o cargo.

Eram raras as pessoas que se dispunham a se embrenhar em Weybridge,

principalmente quando acostumados à vida em Londres. Nós também não

achávamos muita graça, mas não havia mais nada em vista, tínhamos de

aceitar; qualquer coisa.

A firma era uma espécie de instituto de Tecnologia por correspondência e

não faltavam alunos, pois todo mundo queria estar bem preparado para o futuro e

procurava ampliar os seus conhecimentos. Em tempos de guerra, as pessoas se

preocupam muito com o futuro, interrogando-se a respeito das condições do pós-

guerra e acham que, aumentando os seus conhecimentos, terão melhor chance de

arrumar um bom emprego.


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A firma floresceu durante alguns anos é, embora os ordenados do

pessoal deixassem muito a desejar, parece que o dono não demorou a ficar

milionário. Como tantas vezes acontece, não conseguia entender que os seus

empregados também precisavam de dinheiro.

Mais tarde, viemos a saber que, se tivéssemos esperado mais um pouco,

outras oportunidades se teriam apresentado e uma oferta muito mais satisfatória

poderia ter surgido. Se as pessoas em geral tivessem o dom de prever as coisas,

como as suas vidas seriam melhores! Ou não? Parece tão fácil escolher o caminho

errado...

O verão provou ser bem mais agradável, porque podíamos alugar um

bote e remar no rio Wey. Mas isso só foi possível depois de seis ou sete meses, pois

tínhamos nos mudado numa época horrível, em pleno novembro.

Íamos sentir falta dos passeios nos parques, e dos fins de semana

passados em Green Park e nos jardins de Kensington. Carl adorava visitar museus,

principalmente o Museu de Ciências, em South Kensington; quanto a mim, gostava

de ir ao museu de cera de Madame Tussaud e também, de vez em quando, de

jantar fora. Um dos nossos lugares prediletos era o Empire Restaurante, em Victoria

Street, onde íamos às vezes, depois que Carl saía do escritório... e muitas vezes

fiquei pensando se ele não faria isso por minha causa, para me dar prazer. Sabia

que ele gostava muito de cinema, de modo que sugeria irmos a um, antes do voltar

para casa.

Nosso vizinho mais próximo, em Weybridge, era um jardineiro, que

morava com a mulher numa pequena casa e tinha uma horta onde cultivava vegetais

para si e seus "fregueses". Não devia haver nada de ilegal nisso, mas ele não

parecia contente em ter vizinhos (nós) capazes de observar as suas atividades. As

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coisas entre nós corriam mais ou menos bem, excetuando-se a sua queixa de que

um gato — que ele achava ser o nosso — vinha-lhe cavando os canteiros de flores e

hortaliças.

Certa manhã, muito cedo, fomos acordados por batidas fortes na porta e

uma voz agitada. Abrimos a porta e demos com a mulher do jardineiro, muito

nervosa, vestindo apenas uma camisola. Suplicou-me que a acompanhasse, pois

achava que o marido estava morrendo e queria a minha opinião. Vi-a tão aflita, que

não pude deixar de aceder, embora ela e o marido não tivessem senão mostrado

ressentimento contra nós. Enfiei um robe e dirigi-me com ela para a casinha, cuja

soleira atravessei pela primeira vez. Fiquei um momento olhando para o jardineiro e

vi que era demasiado tarde e que nada havia a fazer, pois o espírito já se havia

desligado do seu corpo. A mulher olhou para mim, compreendendo aos poucos o

que acontecera. Consolei-a, enquanto ela ia gradativamente recuperando o

autocontrole e procurando se comunicar com o médico e os parentes.

Deve ser uma das situações mais tristes essa em que um dos cônjuges é

de repente levado (a maioria das pessoas não sabe para onde), enquanto o outro

fica na Terra, enfrentando a vida sozinho.

Neste caso em particular, o varal de roupa do quintal dos fundos foi

conservado por muito tempo como estava, quando normalmente a corda era retirada

tão logo a roupa estivesse seca. Isso porque o varal fora uma das últimas coisas que

o jardineiro colocara, e a esposa não se sentia com forças para recolhê-lo pois

achava que a ajudava a manter contato com o marido.

Muitas vezes me pergunto por que razão não somos instruídos para

aceitar a morte, por que não nos dizem que a morte é uma coisa natural e não o fim.

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A maioria dos jovens de hoje parece ter uma concepção confusa do que seja a

morte, mas o que eles hão de fazer, se não há ninguém para lhes ensinar?

UM PEQUENO SKETCH

A calçada era fria e dura ao contato do seu corpo, que caiu do alto de

vinte andares e ficou ali, imóvel, à mercê do vento gélido e da curiosidade mórbida

dos transeuntes.

Teria ele nascido com a Lua na oitava casa, sinal de morte em lugar

público?

Depois que os três carros da polícia foram embora e o corpo levado para

o necrotério, a calcada foi lavada e os curiosos, aos poucos, se dispersaram.

Perto dali vivia um avatar e, após algumas horas, o espírito do jovem

chegava diante do Grande Ser.

— Onde estou? — perguntou o jovem, que não vivera mais de dezoito

anos. — Vim até aqui porque vi uma luz de compreensão, mas a primeira criatura

que encontrei foi um gato.

Com uma expressão intrigada, acrescentou que achava que devia estar

doido, pois tinha entendido o que o gato lhe dissera.

O avatar olhou para o rapaz com simpatia e perguntou-lhe por que estava

tão preocupado (o jovem parecia ignorar tudo o que se relacionasse com a morte e

não podia aceitar o fato de estar realmente morto).

— Você nunca ouviu falar na vida após a morte? — indagou o avatar. —

Não acredita em Deus?

— Ora — retrucou o jovem — isso é um conto da carochinha!

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A fim de convencê-lo de que estava morto, sugeriram que o rapaz fosse

até a capela fúnebre e visse o seu corpo.

Quando ele voltou, disse:

— Puxa, que lugar tão cheio de defuntos!

O avatar suspirou, com pena do jovem, e dedicou muito tempo à procura

de um modo de fazê-lo compreender tudo aquilo. Acabou conseguindo, e o jovem

ficara perplexo ante a sua falta de ensinamentos religiosos.

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Se desejas ver os vales,

Sobe ao topo da montanha;

Se desejas ver o topo da montanha,

Sobe a uma nuvem;

Mas, se quiseres compreender a nuvem,

Fecha os olhos e pensa.

Kahlil Gibran

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Capítulo 5

Weybridge era bastante movimentada durante os anos de guerra. A

Fábrica de Aviões Vickers Armstrong ficava nas vizinhanças, proporcionando

emprego para milhares de pessoas. Todas as manhãs, à hora do café, a avenida

onde morávamos ficava cheia de carros, caminhões e bicicletas — todos a caminho

da Vickers. Uma hora depois, a rua estava quase totalmente deserta. Sim, nunca

podíamos esquecer a guerra! Havia também o hipódromo de Brooklands, situado

também no distrito de Weybridge, e conhecido em todo o mundo.

Aquele foi um período bastante sossegado para nós, pois não fazíamos

muita vida social e tínhamos poucas visitas. Carl não gostava de vida social e o

patrão estava sempre censurando-o por isso. Se alguém quiser triunfar nos negócios

ao que parece, deverá fumar, beber e ser sociável, o que quer que isso signifique!

Alguns dos meus conhecidos vinham nos visitar "naqueles cafundós" e

ainda me lembro de uma enfermeira que contrariara os regulamentos do hospital em

que trabalhava e se casara recentemente com um dos seus pacientes. Embora não

me recorde mais do seu nome, tenho várias razões para me lembrar dessa moça,

uma delas é o fato de que era uma excelente enfermeira, admirada por todos. Antes

de se casar, seu marido sofrera um acidente de motocicleta e tivera uma perna,

amputada. Durante o tempo em que ficara hospitalizado, sob os cuidados

proporcionados pela enfermeira, ele se apaixonara por ela. Após ter recebido alta do

hospital, tinham-se encontrado várias vezes, depois do expediente, e não tardou que

os dois se casassem. Por esse tempo, um conhecido ator de cinema também tivera

uma perna amputada e recorrera a uma perna artificial. Minha amiga e seu marido

passavam horas no cinema, estudando os movimentos de perna do ator, a ver se

podiam tornar as coisas mais fáceis para eles.


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Eu ia dizer que não me lembrava do nome do ator mas, de repente, as

pulsações elétricas dentro do meu crânio "estalaram", trazendo à tona o nome de

Herbert Marshall — famoso ator britânico desse tempo.

Outra pessoa com quem mantínhamos contato era o Dr. Murray,

patologista. Sempre que nos encontrávamos nas proximidades, íamos até o hospital

onde ele trabalhava, para bater um papo. O Dr. Murray era um homem muito culto,

autor de vários livros e candidato a um lugar no parlamento britânico; mas, como nós

não gostávamos do partido que ele representava, não ficamos aborrecidos quando

ele não conseguiu os votos suficientes. Teria sido muito triste um médico brilhante

desperdiçar o seu tempo com política.

O Dr. Murray não está mais no plano da Terra — mas será sempre

recordado com afeto.

Não gostamos de nos lembrar da guerra. Não tínhamos nenhum prazer

em morar perto de uma fábrica de aviões, o que para certas pessoas é uma fonte de

glamour artificial. Os salários são altos e o homem comum, o chamado Homem-da-

Rua, pode ascender a um status que nunca seria capaz de alcançar em tempos de

paz.

Além dos aviões Vickers Viscount, a fábrica Vickers de Brookland também

fabricava o Bombardeiro Wellington (o Wimpey), que foi o primeiro avião geodésico.

Fabricava também um dos primeiros aviões anti-submarinos dotados de radar, que

no alto mostrava uma coisa parecida com um disco voador, e costumava sobrevoar

o mar à noite, quando os submarinos vinham à superfície para recarregar as

baterias. O radar possibilitava-lhe detectar os submarinos e lançar contra eles as

suas cargas de profundidade.

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Não há prazer em reviver os horrores da guerra, com todo o seu ódio e

desentendimento e a gama de sofrimento que ela acarreta. Bastava se passar pelo

Lar dos Inválidos, perto de Richmond Park, para se ter idéia de como os homens

podem ser maus uns com os outros. Todos aqueles inválidos e aleijados tinham sido

vítimas da Primeira Grande Guerra.

Vivendo relativamente isolados, tínhamos mais tempo para pensar, ler e,

à noite e nos fins de semana, explorar os arredores, pedalando as bicicletas que

tínhamos trazido de Londres. Muitas vezes íamos de bicicleta até Walton-on-Thames

ou, em direção oposta, até um lugarejo chamado Addlestone (perto de Chertsey).

Outras vezes, tomávamos o trem e íamos até Woking ou Guildford. Um dos médicos

mais encantadores que jamais conheci morava em Woking. Era irlandês e, devido à

sua capacidade como médico e à sua atitude naturalmente humanitária, a maioria

dos seus clientes achava que tinha muita sorte em ser tratada por ele. Esse

autêntico CAVALHEIRO partiu para um plano mais elevado, com a certeza de que a

sua passagem pela Terra não foi em vão.

Um dia, estávamos pedalando na direção de Heath Road, a caminho de

casa, quando passamos por um pequeno restaurante e vimos um cartaz que dizia:

"Vendem-se gatinhos". Resolvemos parar e pedir informações. A dona do

restaurante era uma simpática inglesa e a sua família de gatos tinha um aspecto

saudável e feliz, de modo que decidimos ficar com um dele, ao qual demos o nome

de Mr. T. Catt.

T. Catt era uma bolinha de gato, com uma cauda muito curta e uma

carinha linda e sensível. Ficamos entusiasmados com a idéia de adotá-lo. Durante

as duas semanas que tivemos que esperar que ele tivesse idade suficiente para ser

desmamado, compramos pratos (fundos e rasos), vasos onde ele fazia "as

30
necessidades" e um cesto para ele dormir; pois os gatos, como todas as criaturas,

sentem-me mais felizes quando têm os seus próprios utensílios.

Quando fomos buscá-lo, já estava tudo pronto. Ele era tão pequeno, que

cabia facilmente no bolso de Carl e foi assim que o levamos de uma casa para a

outra.

Foi um momento feliz quando T. Catt transpôs nossa porta e penetrou em

nossas vidas. Quando um gatinho começa a explorar os seus novos domínios e

mostra interesse pela comida, você pode ter quase a certeza de que ele vai se

ambientar. E foi isso o que aconteceu.

A vida como que adquiriu um novo significado, pois tínhamos estado por

demais "fechados em nós mesmos" e precisávamos ampliar os nossos interesses e

afetos. Eu e Carl tínhamos passado tanto tempo a dois, que havia poucos "espaços"

na nossa união — como diz Kahlil Gibran:

"Permiti que haja espaços na vossa união e que os ventos dos

céus dancem entre vós. Amai-vos um ao outro, mas não façais

desse amor um grilhão; deixai que um mar se mova entre as

praias das vossas almas."

A chegada de Mr. Catt trouxe, pois, uma nova dimensão às nossas vidas

e eu iria aprender muito com ele. A experiência mais fascinante foi um dia, quando

Mr. Catt já atingira a maioridade. Eu estava com ele ao colo, diante de um espelho.

Sem me concentrar no que fazia, virei-me para deixar que ele se visse, porque sabia

que os gatos podem ver a sua imagem, desde que estejam interessados. Às vezes,

se convencem de que há um gato do outro lado e é muito divertido vê-los procurar

31
atrás do espelho, para ver se encontram o "intruso". Nessa ocasião, porém, não quis

saber se T. Catt estava olhando ou não o espelho, pois só estava interessada no

que eu estava vendo: refletida no espelho, havia em volta do gato, uma estreita faixa

de substância cinza-azulada, de alguns centímetros de espessura e que mais tarde

vim a identificar como sendo o corpo etérico que circunda todos os seres vivos. Foi,

para mim, uma descoberta muito importante, porque, bem mais tarde, após ter lido a

respeito, pude dizer para mim mesma: "Sim, é verdade, porque eu vi com os meus

próprios olhos." Às vezes, é possível ver coisas desse tipo com maior clareza com o

auxílio de um espelho; isso me deu a certeza de que o etérico realmente existia,

possibilitando-me gradativamente vê-lo sem qualquer ajuda artificial.

32
No meio do inverno, compreendi, finalmente,

que dentro de mim

havia um verão invencível.

Albert Camus

33
Capítulo 6

Quando olho para trás percebo cada vez mais que o tempo que

passamos em Weybridge foi uma espécie de preparação para uma outra fase das

nossas vidas. Não estávamos destinados a ter amigos ou mesmo conhecidos, e não

demorou que ficássemos isolados em nós mesmos — os poucos amigos que eu

tivera estavam ocupados com os seus próprios problemas e, de uma maneira ou de

outra, a guerra exercia a sua influência na vida de todo mundo.

Eu e Carl viramos guardiães de ataques aéreos. Tínhamos os nossos

plantões, durante os quais patrulhávamos o bairro, cuidando que ninguém

acendesse a luz e violasse o regulamento do black-out, à noite. Certa vez, fomos

acusados de deixar passar uma fresta de luz — mas foi mais um caso de despeito

do que uma violação do regulamento.

Carl adorava animais e estávamos cada vez mais felizes por termos o

nosso gatinho, que por sua vez mostrava um grande interesse em tudo o que

fazíamos e parecia saber que a sua missão na vida era tomar conta de nós. Carl

sugeriu que comprássemos uma coleira para Mr. T. Catt, antes de nos aventurarmos

a sair com ele. Foi o que fizemos e, embora ele não gostasse de se sentir cerceado,

acabou aceitando a trela como parte do processo de se tornar civilizado, ou mesmo

humanizado. O gato considera-se um membro da família; por que, então, não

considerar-se também "humanizado"? Às vezes, fico pensando se os meus bichos

não me consideram um membro da família deles. Em casa, freqüentemente me

chamam de "Mãe Gata" e há ocasiões em que quase sinto as coisas do ponto de

vista deles.

Afinal de contas, se você é capaz de visualizar algo mentalmente, não há

nenhuma razão pela qual a coisa não possa se transformar em realidade. Quase
34
todos nós já ouvimos comentar: "Gosto mais do meu cão do que da maioria das

pessoas", ou "Quanto mais conheço as pessoas, mais gosto dos cães". Tem-se dito

muitas vezes que, o que a pessoa é capaz de visualizar, pode existir. Quem é capaz

de ver o invisível, é capaz de conseguir o impossível.

Gostaria de citar um trecho de Alice no País das Maravilhas, que tão bem

se adapta aqui, pois nos ajuda a acreditar nas chamadas coisas impossíveis.

Alice riu.

— Não adianta tentar — disse ela. — A gente não pode acreditar em

coisas impossíveis.

— Creio que você não tem praticado muito — replicou a Rainha. —

Quando eu era mais moça, praticava sempre pelo menos meia hora cada dia. As

vezes, chegava a acreditar em seis coisas impossíveis antes do café da manhã."

Quem poderia acreditar que, em certa época, os gatos andavam eretos,

sobre duas patas? Pois bem, eu acho que, de acordo com certas lendas, eles

andavam mesmo; e que se dedicavam a várias atividades que, hoje em dia,

constituiriam uma surpresa para nós, humanos.

Com o correr dos meses, T. Catt tornou-se um gatão lindo e eu

costumava dizer que ele parecia um lírio tigrino — tinha as listras do tigre e o

aspecto delicado de um lírio. A expressão da sua carinha era o que se pode chamar

de angélica.

A medida que os dias passavam fomos compreendendo que quando se

adota um bichinho e se lhe dá todo o afeto que ele merece a gente nunca se

decepciona — pois os animais são capazes de mostrar de todas as maneiras a sua

devoção. Nunca esquecerei o quanto devo ao meu gatinho vira-lata, ao meu Lírio-

Tigrino.

35
Como levávamos uma vida muito isolada, o dia em que nos tornamos

donos de um pequeno automóvel foi um acontecimento. O gerente da firma onde

Carl trabalhava esperava que ele servisse de mecânico para os carros dele e

continuasse no cargo de consultor para o qual fora contratado, e eu me tornei uma

assistente de mecânico bastante aceitável. Certa vez, ajudei a trocar todo o motor de

um carro (espero me lembrar da marca; ah, sim, era um Standard e, pelos padrões

atuais, provavelmente seria considerado uma lata velha).

O tal senhor tinha também um belo Chrysler preto e, amante da

velocidade, fazia com que os pedestres pulassem fora do caminho, quando ele

voava pela avenida, a caminho do escritório. Esse carro também estava aos

cuidados de Carl, já que o seu conhecimento de motores era grande. Mas, como

Carl detestava esse tipo de trabalho, acabou exigindo que o patrão procurasse outra

pessoa para fazê-lo.

Possuir um carro próprio, porém, era algo inteiramente diferente e fiquei

entusiasmada quando Carl me disse que ouvira falar num Morris Minor quase novo,

à venda por um preço bem razoável.

Dirigimo-nos à garagem de Baker Street, experimentamos o carro e

fechamos negócio, fazendo com que a vida ficasse muito mais interessante.

Exploramos todo o distrito e muitas vezes íamos até o aeroporto de Londres

(Heathrow), que estava em fase de acabamento, pois achávamos muito divertido ver

os aviões. Com surpresa verifico que o nome "Heathrow" continua a ser usado, pois

naquele tempo se dizia que a sua pronúncia representava um problema para muitos

estrangeiros, que não conseguiam dizer o th. Mas, como o nome persistiu, o

problema não devia ser tão grande assim.

36
Às vezes, íamos até outros locais de interesse, como Epsom Downs ou

Boxhill, de onde podíamos descortinar uma vista maravilhosa; ou mesmo até

Londres, para contemplar os estragos causados pela guerra.

Ficamos desapontados em constatar que T. Catt cada vez se interessava

menos por sair. Preferia meter-se debaixo do carro e examiná-lo quando voltávamos

de um passeio. Sempre que tentávamos levá-lo conosco, ele opunha as maiores

objeções — como se fosse a coisa mais desagradável do mundo. Talvez

pressentisse mais do que nós que havia algo de estranho relacionado com o carro.

Para nosso espanto, o carro mostrava-se às vezes difícil de controlar,

como se uma entidade misteriosa procurasse tomar o volante e levá-lo na direção

oposta. Outras vezes, parecia andar para trás, algo que era logicamente impossível,

pois não estávamos dando marcha à ré.

Parte do mistério acabou sendo explicado quando ficamos sabendo mais

a respeito do carro. Aparentemente, estivera envolvido num acidente, no qual uma

pessoa morrera e, segundo o homem que nos contou a história, o carro era tido

como mal-assombrado. Por isso fora tão barato e talvez aí residisse o segredo de

Mr. Catt não querer andar nele, resistindo sempre às tentativas de levá-lo conosco.

O que o nosso tigre adorava era passear no jardim, nos fins de semana

ou à noitinha, geralmente usando uma coleira, para que não se afastasse de nós.

Gostava principalmente de subir nas árvores (antes de ser transformado em

escritórios, aquele terreno fora uma propriedade particular, com cerca de três acres

e meio de terra). Era muito, agradável passearmos por entre as árvores e as fiares,

nas noites de verão acompanhados por Mr. Catt e conversando sobre uma porção

de coisas do nosso interesse.

Um dia, Carl disse:

37
— Sabe, Ra-ab, esse gato me faz lembrar um bichinho que eu tive antes;

embora a cor seja diferente, tinha os mesmos maneirismos e muitas vezes penso no

meu gato preto, quando olho para este.

Como ambos acreditávamos que tanto as pessoas quanto os animais

voltam várias vezes à Terra, aceitamos o fato de que o gato preto John voltara de

novo à Terra sob a forma de um gato listrado — para olhar por nós e adquirir mais

experiência. Acreditávamos que T. Catt, antes conhecido como John, já estivera

conosco em muitas vidas e continuaria conosco por muitas mais.

Carl era extremamente delicado com os animais e pegava nos gatos com

todo o cuidado, com as duas mãos — e não pelo cachaço, como tanta gente faz.

Costumava dizer que nunca se devia rir de um gato, pois eles se sentiam ofendidos,

principalmente os vira-latas. Parece que os siameses não ligam tanto para isso; em

compensação, sofrem muito com a solidão, precisam da companhia das pessoas

para viverem felizes e saudáveis.

Ficamos muito preocupados, uma noite em que Mr. Catt não voltou para

casa à hora de dormir. Tínhamos saído para o quintal, numa noite quente de verão,

e, de repente, ele disparara como uma flecha, indiferente aos nossos chamados.

Nunca tinha passado a noite fora e, preocupados, não conseguimos dormir, apenas

cochilar. Foi com alegria que, pela manhã, ao olhar pela janela, o vi sentado debaixo

de uma árvore, esperando que a porta se abrisse para ele poder entrar.

38
Eu faço o que posso

E você faz o que pode.

Não estou neste mundo

Para fazer o que você espera,

E nem você está no mundo

Para fazer o que eu espero.

Você é você

E eu sou eu.

Mas se, por acaso, a gente se encontrar,

Como vai ser bom!

Fritz Peris

39
Capítulo 7

Era a coisa mais engraçada, quando Mr. Catt começava a 'se exibir'

diante de uma visita: deitava-se de costas e ficava à espera de que o admirassem.

Sendo um nativo de Leão, era orgulhoso... e muito bonito —; todo mundo elogiava a

sua beleza. Até mesmo o rabinho curto crescera e ficara lindo. Eu passava muito

tempo com ele no quintal, lendo ou cultivando um pequeno canteiro de flores,

plantando sementes que, esperávamos, acabariam dando amores-perfeitos de

várias cores.

O nosso tigrezinho comia um bocado de capim, que é muito bom para os

gatos pelo seu efeito emético; felizmente, botava tudo para fora antes de entrar em

casa. Atualmente, tenho de cultivar capim dentro de casa, em vasos, e é divertido

ver as pessoas entrarem pela primeira vez no nosso apartamento e perguntarem o

que vem a ser aquilo. Quando lhes dizemos: "A, é capim", olham para nós de

maneira estranha, pensando que é maconha, até se darem conta de que é capim

mesmo, cultivado especialmente para os gatos.

— Por que o efeito emético? — perguntarão vocês. — Não deve ser bom,

fazer um gato vomitar!

— Claro que é bom — respondo eu — pois ajuda-o a pôr para fora o pêlo

que ele engole quando se lava e que forma uma bola dentro do estômago do bicho.

Quando essas bolas, muitas vezes demasiado grandes e duras para poderem

passar pelos intestinos do animal, não são expelidas, podem gerar obstruções e

outros males.

Algumas pessoas fazem o gato tomar um pouco de azeite de oliva ou

parafina líquida, que ajuda a amolecer a bola de pêlo, permitindo com isso que o

bolo passe pelo trato digestivo; mas é preciso estar sempre alerta aos sintomas que
40
o problema acarreta. A fim de preveni-lo e manter o gato saudável e livre de prisão

de ventre, deve-se ter o cuidado de lhe colocar sempre ao alcance uma vasilha com

água, de manhã e de noite. Muita gente fica surpresa, ao saber que a maioria dos

gatos prefere água a leite e que, na maior parte dos casos, a água é mesmo melhor

para eles. Todos os gatos deveriam ser escovados e penteados diariamente, para

evitar que engolissem pêlo solto. Não só os gatos de pêlo comprido, mas também os

de pêlo curto precisam desses cuidados.

É espantoso constatar quanta gente tem animais de estimação e não se

dá ao trabalho de aprender a cuidar deles, de saber o que é melhor para eles, o que

se lhes deve dar de comer etc. Da mesma forma que os seres humanos, os bichos

sofrem e sentem-se desprezados quando não se liga para eles — sejam peixinhos

de aquário, passarinhos de gaiola ou bichos maiores. Sabe-se agora que as próprias

plantas caseiras se desenvolvem muito melhor numa atmosfera amiga, quando os

chamados "donos" falam com elas e lhes fazem companhia.

Muitos de nós somos culpados de não agir logo, quando um bicho está

doente ou não parece muito bem. No caso dos gatos, principalmente, um dia, ou

mesmo umas horas de demora no tratamento podem fazer muita diferença. Todos

os veterinários concordam nesse ponto e, certa vez, o Dr. Randall (nosso atual

veterinário) nos falou sobre isso.

— Não há perigo — apressou-se ele em dizer — de que os seus gatos

fiquem muito tempo sem cuidados médicos.

Ele sabe que nós o chamamos só para ter a certeza de que os nossos

bichinhos estão passando bem.

A guerra continuava e todos nós estávamos cansados de racionamentos

de roupa e de comida, sem falar na escassez de gasolina. Ovos desnutridos não

41
servem para fazer uma boa refeição para um ser humano e um gatinho novo pode

ficar logo farto de comer sardinhas em lata — além de que as mulheres,

provavelmente mais do que os homens, acham monótono e desmoralizante ter que

usar sempre as mesmas roupas. Naquele tempo, eu adorava roupas bonitas e

estava sempre buscando uma maneira de aumentar o meu guarda-roupa. Tive a

sorte de entrar em contato com a editora de modas de um jornal de Londres, que

ficava com algumas roupas para fotografar e anunciar. Como eu vestia o mesmo

número que ela, consegui que ela me desse algumas peças que não queria... o que

fazia um bem enorme ao meu ego. Até que fiquei irritada, quando ela me ofereceu

um lindo casaco de lã vermelha, "que precisava ficar com ela somente por uns dias,

para um desfile" e logo depois se arrependeu e retirou o oferecimento. Uma ninharia,

talvez, mas que na hora me aborreceu bastante.

T. Catt adorava flores e nós brincávamos com ele, dizendo que parecia o

Touro Ferdinando, cujo maior prazer era cheirar as flores. Lembro-me que passamos

um dia inteiro plantando sementes — trabalhando com afã e energia — e depois

ficamos à espera de que a Natureza as fizesse desabrochar. Na época própria,

nossos esforços foram recompensados e deparamos com um belíssimo canteiro de

amores-perfeitos das mais variadas cores e tons de azul, roxo, laranja e amarelo;

alguns tinham a cor exata de um lírio tigrino.

Há pessoas que parecem ter mais sorte que outros no cultivo de flores.

Mas será mesmo sorte ou outra coisa? Se a gente pensa um pouco e se dá ao

trabalho de pesquisar o assunto, pode chegar a conclusões bastante interessantes

sobre a famosa expressão "ter mão para as plantas".

Assim, constata-se que as pessoas com "mão para as plantas" são,

geralmente, as nascidas sob um signo da Terra, como os sólidos nativos de Touro

42
— nascidos em maio — os de Virgem, que aniversariam em setembro ou os

capricornianos de janeiro. Essas pessoas vivem em maior harmonia com a Mãe

Terra. Enquanto se entregam com entusiasmo às atividades da horticultura, suas

emanações etéricas são absorvidas, propiciando a energia extra que resulta num

crescimento mais rápido e saudável das plantas. Conheço uma pessoa que possui

uma abundância de qualidades de Touro e Capricórnio. Como era de se esperar, o

seu jardim é o seu hobby e o seu grande amor.

Passa horas e horas cultivando-o e o resultado causa inveja a todos os

seus amigos que também têm jardim.

Os que possuem essas qualidades podem ajudar a curar uma pessoa

doente transmitindo-lhe energia através do toque, já que as emanações etéricas são

mais poderosas na região das mãos.

Eu e Carl passávamos um bocado de tempo na nossa câmara escura,

algo, por assim dizer, improvisado: por causa da guerra, as cortinas do blackout

ajudavam a escurecer o quarto, mas não havia água corrente, de modo que

tínhamos de transportar as soluções do banheiro para a câmara e vice-versa, tendo

o máximo de cuidado para evitar que a poeira se juntasse nas bacias. Logo aprendi

que é preciso manter toda a limpeza possível ao processar filmes e fazer revelações,

quase tanta limpeza quanto num hospital. Também aprendi que, se a pessoa

realmente se interessa e se dedica ao que está fazendo, poderá obter bons

resultados, apesar das condições de trabalho adversas. Só os maus artesãos

culpam as suas ferramentas, os bons vencem todos os obstáculos.

Vendo Cari trabalhar e ouvindo-lhe as explicações, pude aprender um

bocado a respeito de fotografia. Com a grande Thornton Packard e a pequena Agfa

de 35 mm, as possibilidades de obter boas fotos tornavam-se maiores.

43
Muita gente se pergunta por que existem películas de tamanho reduzido.

Parece que a vantagem está em tornar o filme mais acessível ao grande público,

principalmente pelo fato de ser mais fabricada que as outras. A firma belga Gevaert

fabricou o filme, em colaboração com a Agfa, cuja câmara de 35mm foi uma das

primeiras no mercado. Acho que fomos um dos primeiros consumidores dessa

câmara, posteriormente tão popular.

Por essa época, uma firma britânica de Kingston-on-Thames, Surrey,

lançou no mercado a Compase, uma câmara de pulso, que utilizava uma película

circular de 16mm e, os centro-europeus inventaram uma câmara "espiã", utilizando

também esse filme, que é mais ou menos a metade do tamanho da de 35mm. Pouco

mais tarde, na Itália, inventou-se outra pequena câmara fotográfica, considerada

uma das melhores jamais fabricadas mas que, não sei por que, não recebeu a

necessária promoção e nunca se tornou popular. Trata-se da Gami, que apresentava

a novidade de tirar três fotos diferentes a cada disparo do obturador. Se isso

representava uma vantagem, é coisa discutível. Vi algumas fotos tiradas com essa

câmara e devo dizer que, do ponto de vista de qualidade, eram quase perfeitas.

44
A amizade é o

conforto indescritível

de se sentir seguro com

uma pessoa, sem ser preciso

pesar o que se pensa,

nem medir o que se diz.

George Eliot

45
Capítulo 8

A vida é feita de sol e de sombra e não seria bom para ninguém se tudo

fossem experiências deprimentes ou extasiantes. Não sei quem disse que "Se o sol

brilhasse dia e noite, depressa as árvores murchariam!"

Digo isto para ilustrar os caminhos do dia-a-dia. Embora os mal-

entendidos e as brigas sejam muito desagradáveis, há um maravilhoso sentimento

de triunfo quando duas pessoas resolvem as suas diferenças e a harmonia volta a

ser restaurada. É como quando a gente se afastasse de alguém com quem está

diariamente — o fato de ter havido uma separação temporária faz com que o

reencontro adquira um significado extra.

Estou tentando explicar que a história do "Lírio Tigrino" é constituída de

uma mistura como a que acabei de descrever, onde nem tudo foi alegria e felicidade

perpétua. Se eu procurasse dar essa impressão, estaria fugindo à verdade, pois

tivemos os nossos problemas, grandes e pequenos, como ocorre com todas as

pessoas que pensam e têm consciência.

Muita gente tem mostrado interesse ou curiosidade a respeito da minha

vida, achando que ela deve ter sido diferente devido às circunstâncias pouco

comuns, em que uma pessoa deixou esta divida e o seu lugar foi tomado por outra.

Vocês, que: têm seguido os ensinamentos contidos nos livros de Lobsang Rampa (a

quem devo tanto, que acho que não vai ser possível pagar-lhe, nem em muitas

outras vidas), por certo conhecem em detalhe a longa caminhada. Como a sua

descrição tem muito mais força do que a minha, não vou me estender mais sobre o

assunto.

Lobsang Rampa tem a vida mais difícil do que a maioria das pessoas

possa entender. Vê os seus esforços sabotados por gente mentalmente inferior e,


46
quando eu olho para trás, para antes da vinda dele, vejo que as minhas próprias

ações (ou falta delas) poderiam ter facilitado em muito as condições para aquele que

já estava aqui e para o que iria substituí-lo.

Eu e Carl, presos por sólidas vibrações à terra e não tendo adquirido os

refinamentos necessários, encontrávamo-nos muitas vezes num dilema e faltava-me

a compreensão que nos poderia ter ajudado mutuamente.

Passávamos horas conversando sobre a nossa vida anterior, comparando

experiências e chegando à conclusão de que havia muita coisa que não

compreendíamos, coisas que esperávamos fossem um dia esclarecidas. Sentíamo-

nos sempre intrigados ao pensar na força especial que fizera com que nos

encontrássemos e no propósito que devia haver por trás dela. Eram tantos os

incidentes, as recordações de coisas que deviam ter-se passado, mas que pareciam

nebulosas, como se envoltas numa espécie de fog! Foi só quando Lobsang Rampa

entrou em cena, que a luz se fez sobre muita coisa e é por essa luz, que iluminou os

recessos mais escuros do subconsciente, que eu me sinto tão grata à Rampa.

À medida que se vai compreendendo melhor os caminhos da vida em

direção ao alto, a gente vai percebendo que não é aconselhável, nem mesmo

sensato, discutir e anunciar todos os nossos pensamentos e experiências

particulares. Recordo-me do conselho do Dr. Rampa, sobre dar um nome ao

subconsciente: dê-lhe um nome mas não diga a ninguém qual é, ou o seu poder — o

poder do subconsciente — não será tão grande, ficará diminuído.

Seria ótimo contar várias experiências, dar conselhos que pudessem

ajudar alguém na caminhada, mas o que pode ajudar uma pessoa pode prejudicar

outra, de modo que vamos guardar as nossas experiências para nós mesmos, de

maneira a beneficiar pelo menos uma pessoa, ao invés de espalhar uma porção de

47
"receitas" que provavelmente não beneficiariam ninguém — em parte, porque não

acreditariam nelas, achariam que era apenas "papo-furado".

Há algo, porém, que pode ser passado adiante, na certeza de que irá

ajudar pelo menos alguém que ache a sua cruz pesada demais. Várias vezes

cheguei à conclusão de que ninguém recebe uma cruz ou alguma carga de

problemas que não seja capaz de suportar. Há sempre alguma circunstância que

intervém, quando sentimos que estamos quase chegando ao ponto máximo de

tolerância, e isso acontece com todo mundo, em determinada altura, a menos que

sejamos um desses raros indivíduos que, por uma razão qualquer, sofreram numa

outra vida e estejam tendo um descanso, ou que não tenham alcançado o estágio

em que uma experiência desse gênero seja considerada benéfica ao seu progresso.

Posso dizer, através da minha experiência pessoal, que recebi, quando

precisei, uma sensação de força que não julgara possível ter. Estou dizendo isto

para mostrar que, quando a pessoa acredita, sempre tem ajuda.

Muitas pessoas manifestaram a esperança de que a Sra. Rampa

escreveria um livro sensacional, cheio das coisas excitantes que quase todo mundo

gosta de ouvir. Bem, embora não queira desiludir ninguém, nunca tive a intenção de

escrever uma história "sensacional". Não há nada de sensacional no meu livro (toda

a minha vida tem sido vivida segundo a lei da Natureza), de modo que o meu maior

desejo é que, aqueles que lêem estas páginas, as aceitam como elas são, uma

relação de acontecimentos na vida de uma família bastante comum, que inclui um

gato muito inteligente e alguém que eu creio ter alcançado um nível bastante alto na

escala evolutiva.

Talvez haja quem ache interessante saber que, sempre que me sento à

máquina para continuar a escrever sobre as nossas experiências, diante de mim

48
aparece a figura ou impressão — como quiserem — de um gato, sob uma forma ou

outra. É quase como se eu fosse impelida a fazer com que ele fosse o tema central

da minha história e não tivesse outra escolha. Agora mesmo, enquanto escrevo, há

uma gata muito inteligente sentada bem à minha frente, com os olhos semicerrados,

mas com um ar de quem está alerta. Essa criatura, uma das mais inteligentes que

tive a honra de conhecer, parece estar me dizendo que eu escreva mais acerca de

gatos e do seu mundo felino — e que, se eu não estiver suficientemente a par desse

mundo, devo perguntar. O Guv — como todos nós chamamos, afetuosamente, o Dr.

Rampa — está sempre pronto a dar conselhos e dicas tirados do seu vasto

conhecimento e, em assuntos relacionados com os problemas do dia-a-dia,

contamos com um ótimo veterinário, igualmente pronto a nos dar os frutos da sua

experiência. Por tudo isso, a minha Lady Cleópatra não vê razão para que eu não

escreva um livro todo sobre felinos, contando muita coisa que as pessoas gostariam

de saber, mas não sabem. Por conseguinte, talvez seja boa idéia voltarmos a falar

de gatos, assunto que tanta alegria e felicidade traz aos amantes dos bichanos.

49
O amor não consiste

em olhar um para o outro,

e sim em olhar

na mesma direção.

Antoine de Saint-Exupéry

50
Capítulo 9

NAVIOS QUE PASSAM...

Diz-se que as pessoas são como navios que passam, mas isso também

pode ser aplicado a outras criaturas, e vou me referir aqui, particularmente, aos

gatos. Todos nós, criaturas humanas e animais, somos como navios que se

encontram em alto mar, param para se cumprimentar e depois continuam, cada qual

o seu caminho, para acabar chegando a destinos diferentes.

O Rei George V da Inglaterra costumava dizer:

— Se houver algum ato de bondade que eu possa

fazer, deixai que o faça agora, pois talvez eu não volte a passar

por este caminho.

Sempre achei importante não esquecer isso, pois muitas vezes só

demasiado tarde reparamos no gesto amigo que poderíamos ter tido, ou na palavra

de apoio que poderíamos ter dito, e que sem dúvida teria dado ânimo à pessoa a

quem ela se dirigiria.

Outro dia, eu estava folheando as páginas do meu livro A Mente Felina e

fiquei espantada ao ver quanta coisa mudou desde que o livro foi iniciado, há dois

anos atrás. Várias das pessoas nele referidas, senão todas, já desapareceram da

nossa vida. Pensar nisso pode ser bastante desconcertante, se você for dessas

pessoas que abominam mudanças.

51
Recordando e ainda tratando do tema felinos, cabe a lembrança da Sra.

Potter, que tinha um gatil muito bem montado e ocupava uma posição de

responsabilidade num hospital veterinário local.

Eu gostava de bater papo com a Sra. Potter e de visitar o seu gatil, para

ver os lindos gatos e gatinhos. Nunca nos passaria pela cabeça que a situação

mudasse, e tão depressa; mas, quando o Amor entra em cena, tudo pode acontecer.

Ela enviuvara muito cedo e conservara este estado durante alguns anos, quando

resolveu casar de novo e partir para os Estados Unidos com o segundo marido,

levando, segundo creio, alguns dos gatos aos quais mais se afeiçoara.

Antes de ir embora, ela teve a idéia de gravar uma fita com as impressões

sonoras de sua família de gatos, antes de uma das refeições do dia. Assim, sempre

que pomos a fita para tocar, nos lembramos daqueles tempos felizes. Além disso, a

gravação nunca deixa de atrair a atenção das nossas Miss Cléo e Miss Taddy, que

não aprovam toda aquela miadeira, achando-a de bastante mau gosto.

Um gato batizado com o nome de Manxie, por ser um gato de Manx —

aquela raça que não tem rabo — era muito querido da Sra. Potter e não tenho

dúvidas de que a acompanhou. Não sei se Mr. Ming, o cão cuja tarefa era guardar o

gatil, também viajou, mas espero que sim, pois era uma criatura extremamente

simpática e dedicada, que levava muito a sério os seus deveres. Uma das coisas

mais tristes deve ser ter que abandonar um serzinho querido, principalmente um

animalzinho, que não pode dizer o que está pensando e para quem é tão difícil

acostumar-se a uma vida diferente, após ter vivido tanto tempo num lugar e passado

tantos anos cumprindo com os seus deveres. Mr. Ming sempre foi muito gentil

comigo, quando eu ia visitar o gatil, de modo que tenho a certeza de que, onde quer

que ele esteja, continuará sendo apreciado e amado.

52
Quem quer que tenha lido o meu livro A Mente Felina se lembrará de dois

gatos siameses, chamados Tiki e Shara, que haviam sido adotados pela Sra. Potter,

enquanto ela procurava encontrar um lar permanente para eles. Não tinham a

necessária liberdade no gatil, porquanto a Sra. Potter recebia pensionistas

temporários e não podia arriscar-se a uma briga entre gatos desconhecidos. Em vez

de conservar os pensionistas fechados, ela os deixava andar um pouco, o que

causava um problema para Tiki e Shara. Por isso, foi um dia feliz, aquele em que um

casal de velhinhos apareceu no gatil da Sra. Potter à procura de um gato.

Aparentemente, o homem ficou encantado com os dois, embora não estivesse

pensando em gatos siameses. Shara, principalmente, que era muito temperamental,

mostrou logo interesse pelo casal e especial afeto pelo homem, influindo na sua

escolha. E assim foi que aquele casal de ex-fazendeiros, que estava em Calgary

apenas de passagem, pôde propiciar um lar feliz e permanente para dois bichinhos

que, sem culpa nenhuma, tinham sido mais ou menos abandonados pelos antigos

donos e acabariam provavelmente morrendo se tivessem sido levados para a

Sociedade Protetora de Animais, se o destino não fizesse com que um motorista de

táxi mencionasse a existência, de um gatil capaz de lhes proporcionar um novo lar.

Seria bom que todas as histórias de gatos terminassem de maneira tão feliz, pois

esses dois gatinhos encontraram uma família que soube apreciá-los e o ex-

fazendeiro e sua esposa receberam, em troca, toda a gratidão que só os bichos são

capazes de oferecer.

As pessoas passam, vão e vêm, e as circunstâncias podem influenciar as

ações não só dos humanos, mas também de outras criaturas de Deus, Estou

pensando numa certa família felina. Já escrevi sobre a mãe-gata siamesa Nikki que,

com a idade de doze anos, teve de ser mandada para o Outro Lado, por estar

53
sofrendo de uma doença fatal e galopante. O Vovô Gato conhecera Nikki toda a sua

vida e, como ele próprio chegara à avançada idade de dezesseis anos, deve ter

sentido muito a falta dela. A medida do seu sofrimento só foi, porém, perfeitamente

apreciada quando, algumas semanas depois da morte de Nikki, ele foi aos poucos

se recusando a comer e acabou caindo doente, e não tardar a se juntar à querida

companheira de tantos anos. Ficou apenas Ichabod, com dez anos, que nunca se

afastara da mãe Nikki ou do Vovô Gato. E, como, pelos padrões humanos, ele teria

setenta anos, pode-se imaginar a sua solidão e o seu desespero, principalmente

porque ele nunca fora o que se diz um gato "normal", devido a uma doença que

tivera.

Penso muitas vezes em Ichabod, vivendo sozinho e triste o resto dos seus

anos, esperando pacientemente o momento de se juntar à sua mãe-gata e ao avô

bichano. Poucos dentre nós temos a noção exata do tormento que, conscientemente

ou não, podemos causar através do que geralmente não passa de puro egoísmo,

por não sermos capazes de suportar o fato de perder um bicho — sofra ele ou não

— adiantando-lhe o momento final, confiando o serviço a um bom veterinário, não

compreendemos que isso seria a coisa mais humanitária a fazer. Quando o animal

está sofrendo e não há esperanças de recuperação, não devemos permitir que o

nosso egoísmo fale mais alto, embora eu reconheça que seja uma atitude difícil de

tomar. Procurando bem, sempre se encontra um veterinário compreensivo e humano

que lhe dê uma injeção indolor, tornando mais fácil ao animalzinho atravessar o rio

para o outro lado da vida, onde o esperam amigos da mesma espécie e onde ele

descansará e receberá todos os cuidados adequados à sua condição.

Todos os seres são recebidos do outro lado por entidades desencarnadas

e compreensivas de modo que podemos estar certos de que os nossos bichinhos de

54
estimação não estarão sós quando chegar a hora de atravessar o rio para a Grande

Incógnita, o verdadeiro lar. Muitas pessoas ficam desesperadas quando perdem um

ente querido, seja ele humano ou animal, e se perguntam onde ele estará, se estará

se sentindo bem, ou sozinho. Quem tiver lido os livros de Lobsang Rampa, não terá

dúvida quanto às experiências passadas pelos seus entes queridos. Saberá que vai

poder encontrá-los durante o sono e que, quando chegar a hora de fazer a viagem

para o País da Luz Dourada, encontrará todos aqueles com quem esteve em

harmonia na Terra — e também com aqueles com quem não esteve em perfeita

harmonia podem ter compreendido os seus erros, da mesma forma que você pode

ter mudado de idéia a respeito de muitas coisas.

Ensinam-nos os livros de Rampa que não devemos nos preocupar

demasiado, que devemos ser mais plácidos, principalmente em relação aos nossos

entes queridos. Quanto mais a gente se preocupa, mais difícil é para eles. Os que

estão do outro lado sentem-se atraídos por nós, na Terra, através de fios invisíveis

(vibrações), resultando daí um sofrimento ainda maior para eles, porquanto as

sensações extracorpóreas são mais agudas do que as experimentadas por aqueles

que ainda estão encarnados. Isso é fácil de dizer, mas não tão fácil de fazer, mas

pelo menos podemos nos esforçar nesse sentido, pois ninguém que tenha

consciência quererá causar dor ou sofrimento a outrem, principalmente quando se

trata de pessoa com uma doença incurável.

Quantos animaizinhos doentes são mantidos vivos, quando seria muito

mais humano deixá-los partir para o Verdadeiro Lar! E, muitas vezes, as pessoas

que os impedem de descansar afirmam amar os animais!

55
O que fica atrás de nós

e o que jaz à nossa frente

têm muito pouca importância,

comparado com

o que há dentro de nós.

Ralph Waldo Emerson

56
Capítulo 10

Como esta narrativa parece avançar dos acontecimentos passados para o

futuro e voltar ao presente, espera-se que, por causa disso, a clareza não venha a

sofrer. Quando uma amiga inglesa leu o original datilografado de A Mente Felina,

comentou que todos aqueles nomes de lugares no Canadá lhe deixavam um bocado

confusa. Já que nunca tinha visitado este país e não tendo alma de viajante, ficava

tonta só de ler sobre os vários lugares por onde tínhamos andado e onde tínhamos

vivido. Tenho quase a certeza de que não era questão de querer estar em nosso

lugar; a inveja é um defeito que não se lhe podia atribuir, pelo menos a esse

respeito.

Antes de voltar a Weybridge e tocar em fatos que lá aconteceram,

deixem-me dizer que, às vezes, a gente encontra um "navio" (uma pessoa) pela

segunda vez, mesmo que apenas por correspondência. Eis um exemplo:

No ano passado, sem mais nem menos, recebi uma carta de alguém com

quem há quase dezessete anos não tinha contato e de quem não esperava ter

notícias, pois vivíamos em países diferentes e, sendo ela muito mais jovem, então

uma adolescente, não possuíamos o que se poderia chamar de interesses comuns.

Não obstante, Adrienne me escreveu porque a Família Rampa "não lhe saía da

cabeça". Contou que deixara a loja de flores em que trabalhava quando a

conhecemos, em Dublin, onde ocupávamos o apartamento acima do florista.

Durante esse período, de vez em quando eu tinha de ir a Londres e, numa dessas

viagens, Adrienne me acompanhou. Como era a primeira vez que saía de casa, foi

uma experiência e tanto para ela — e uma responsabilidade enorme para mim.

Disse-me, na carta, que depois disso fora muitas vezes a Londres e que sempre

pensara em nós, principalmente ao passar diante do hotel em que tínhamos ficado


57
— o Whites Hotel, em Bays-water Road, num fim de semana, feriado nacional, o

único lugar que ainda tinha quartos. Apesar disso, aproveitamos bem a viagem e,

como o avião era pequeno e voava baixo, pudemos apreciar a beleza da paisagem

— principalmente quando sobrevoamos as montanhas de Gales, famosas pelo seu

esplendor agreste. Adrienne divertiu-se visitando o museu de cera de Madame

Tussaud, que reunia figuras de gente famosa, e infame. A masmorra dava arrepios,

pois nela se viam, lado a lado, os assassinos e os assassinados. Esse museu é

muito interessante e ninguém que vá a Londres deve deixar de visitá-lo. Fizemos um

tour de ônibus pela cidade, com um guia apontando-nos os lugares de maior

interesse, como as Casas do Parlamento, o n.° 10 de Downing Street, a Catedral de

São Paulo, onde se pode ver a obra de Sir Christopher Wren e, naturalmente, o

famoso Big Ben, além da Abadia de Westminster, o Palácio de Buckingham, onde

assistimos à mudança da guarda, e também a Trafalgar Square, com seus pombos.

Adrienne ficou encantada com os parques, como os Jardins de Kensington e o Hyde

Park, em cujos lagos homens e crianças punham seus pequenos barcos na água

para navegar.

Achamos que seria boa idéia ir a um cinema, desde que houvesse algum

filme interessante passando. Alguma força superior devia estar nos guiando, pois

não demoramos a achar um filme muito adequado para Adrienne. Contava a vida de

uma freira e, como a minha jovem amiga era católica, a escolha não podia ter sido

melhor. Nunca esquecerei o título do filme, Heaven Knows, Mr. Allison, no qual

Deborah Kerr fazia o papel da freira. Adrienne ficou fascinada. Hoje em dia, ela está

casada, tem um casal de filhos e, neste ano que passou, recebi várias cartas dela,

recordando os tempos em que éramos mais jovens e despreocupadas. Esse é, pois,

um exemplo de alguém que "passou pelo meu caminho" mais de uma vez e se, por

58
acaso, Adrienne pensasse que tudo tinha sido um sonho e que nunca tinha feito

aquela viagem a Londres, precisava apenas puxar da carteira e olhar para as fotos

que sempre a acompanham, para se certificar de que foi verdade.

Naturalmente, seria impossível manter contato com todas as pessoas que

encontramos em nossa vida, porque o que devemos fazer é andar em frente não

viver no passado, para que possamos progredir no nosso caminho, subindo, sempre

que possível, mais um degrau na escada do sucesso.

Muitas vezes deparamos com uma pessoa que vive muito feliz, mas sem

pensar em progredir, portanto vive num perfeito marasmo. Embora algumas pessoas

se dêem a esse luxo, a maioria precisa abrir caminho para poder alcançar o objetivo

almejado. Infelizmente, há muita gente que não possui energia suficiente e se

contenta em ficar sentada à beira do caminho, mesmo com o objetivo em vista,

embora o tempo não pare de correr e, se não abrirmos bem os olhos, talvez depois

seja demasiado tarde, e seria muito triste se fôssemos obrigados a voltar à Terra

para concluir uma tarefa deixada incompleta. Quantas vezes me disseram para não

"olhar para trás" e sim para ir em frente, com um objetivo em mente. E essa a idéia

expressa no episódio da mulher de Lot, na Bíblia: ela olhou para trás, quando a

cidade ardia, e se transformou numa coluna de sal! É preciso não esquecer a

necessidade de ir em frente, conhecer novas pessoas e nunca perde de vista o

nosso objetivo.

Fechemos os parênteses e voltemos a Weybridge, onde todos os dias

decorriam quase iguais uns aos outros, sem que nada de muito interessante

acontecesse.

Só quando Mr. T. Catt, o nosso "tigre", tinha os seus quatro anos, é que o

deixamos sair sozinho. Eu e Cari discutimos o assunto e decidimos que ele ficaria

59
em segurança andando nas vizinhanças da casa, desde que não tentasse

atravessar a estrada, o que esperávamos ele não fizesse. A princípio, ficávamos um

bocado apreensivos, principalmente quando alguém do escritório nos vinha dizer

que tinha visto um gato rajado atravessando a estrada e entrando no jardim de

algum vizinho.

Felizmente, os automóveis não andavam tão depressa como aqui, no

Canadá. Em Ontário, por exemplo, é terrível ver o número de mortos em desastres

de automóvel, muitos dos quais poderiam ter sido evitados.

Uma das atrações para o nosso "tigre" era o fato de os vizinhos criarem

galinhas e pintos. Aparentemente, T. Catt adorava ir visitá-los, o que nos trouxe

outro problema — pulgas! Era um dia aziago para ele, quando o levava para o

quintal e, com todo o cuidado (sem afetar os olhos e as orelhas) lhe esfregava pó

contra pulgas no pêlo, pois cada vez que ele visitava o galinheiro voltava com uma

porção desses bichinhos.

Além de evitar contatos com galináceos, muitas vezes infestados de

pulgas, deve-se catar cuidadosamente os gatos e evitar que eles andem perto de

esquilos e pombos, principalmente se ainda forem pequenos e não souberem cuidar

do pêlo, como acontece com os gatos já adultos.

Nós nos divertíamos muito com Mr. T. Catt. Ele adorava pegar nas mais

variadas coisas e trocá-las de lugar, atrasando-nos a vida, quando precisávamos

delas com urgência. Lembro-me de certa vez em que Carl estava à procura de um

instrumento, uma espécie de faca em forma de escalpelo e, por mais que

revirássemos a casa, não conseguíamos encontrá-lo. Após algum tempo, o culpado,

isto é, Mr. Catt, saiu de um peitoril onde costumava passar horas sentado, trazendo

na boca a faca, que depôs, todo satisfeito, aos pés de Carl. Devia ter estado fora

60
muito tempo, pois ficara enferrujada. Foi um episódio que terminou bem, porque, até

encontrarmos o instrumento, Carl deve ter pensado que eu o tivesse tirado do lugar.

De outra feita, o nosso tigre chegou a casa com aspecto de quem brigou

e levou a pior, pois estava todo lanhado e com uma orelha mordida Talvez fosse o

resultado de seu gosto pela fanfarronada, pois era nativo de Leão. Ainda muito

novinho, caíra do mesmo peitoril onde costumava sentar-se e fora parar no chão, um

andar abaixo. Foi miar na porta da frente, como se nada lhe tivesse acontecido. Sem

dúvida, porém, isso lhe diminuiu em uma as sete vidas que se atribuem aos gatos.

Tínhamos passado a maior parte dos anos de guerra naquela localidade,

mas continuávamos com poucos amigos. Entre estes, um oficial da Real Força

Aérea e sua esposa. Um dia, resolvemos alugar um barco e passar a tarde vagando

no rio Wey. Pensamos que não seria má ideia levar o nosso tigre, seria uma boa

mudança para ele. Uma boa mudança, vírgula! Tenho a certeza de que foi o dia

mais infeliz da sua vida. Ficou o tempo todo ofegando como um cachorro e

parecendo que ia morrer. Foi essa a primeira e última vez que Mr. Catt andou de

barco...

61
O grande homem (ou mulher)

nem sempre

é aquele que mais se destaca.

62
Capítulo 11

Algo importante aconteceu quando estávamos vivendo na região de

Weybridge: o casamento da então Princesa Elizabeth com o Príncipe Philip, hoje reis

da Inglaterra. Foi um momento feliz, aquele em que, do nosso posto, na ponte que

dá para St. George's Avenue, vimos passar a comitiva real, levando o jovem casal

para gozar parte da sua lua-de-mel com seus parentes, Lord e Lady Mountbatten.

Era um dia frio de novembro, com a chuva molhando os que faziam questão de

assistir à passagem da carruagem real. Onde quer que a família real se encontre,

podem ter a certeza de encontrar também uma multidão de súditos felizes. Os

ingleses têm grande afeto pelos seus reis e rainhas e por tudo o que a monarquia

representa.

Tínhamos de tirar o máximo proveito de cada acontecimento, pois eram

poucas as oportunidades de presenciar coisas memoráveis.

Durante um certo período, durante a guerra, Mary, a filha mais nova de Sir

Winston Churchill, passou algum tempo na região, junto com outras moças do Corpo

Auxiliar Feminino, aparentemente em missão de treinamento. Mais tarde, Miss

Churchill casou com Christopher Soames, atualmente Sir Christopher.

Grande parte do nosso tempo passávamos lendo e escutando rádio. A

obra de Shaw Desmond era, então, muito popular, bem como os. livros de Paul

Brunton, escritor sério e interessante. Carl gostava de ler sobre ocultismo e

metafísica e, aos poucos, fui também me interessando por esses assuntos. A

princípio, não gostava de vê-lo ler tanto, pois achava que ele ficaria sabendo muito

mais do que eu. Era uma forma estúpida de pensar, mas não tão incomum como se

possa crer, a julgar pelas cartas que recebemos. Hoje em dia, sei que todo mundo

pode progredir espiritualmente, através de estudos de metafísica e ocultismo —


63
principalmente quando se conta com a orientação de alguém mais culto. Como

acontece com tanta gente que casa, ainda tínhamos muito que aprender um sobre o

outro, de modo que passávamos muitos momentos falando sobre a vida que

tínhamos levado antes de nos conhecermos.

A juventude de Carl não foi muito feliz. Era um rapaz distante, difícil de ser

compreendido. Ao terminar o colegial, teve que trabalhar como aprendiz de

mecânico, coisa que ele detestava. Enfrentando intempéries, ficou com problemas

pulmonares e foi obrigado a largar o emprego. Mais tarde, estudou publicidade,

coisa que achava muito mais interessante e para a qual parecia ter uma certa

vocação. Na companhia em que trabalhava quando nos conhecemos, Carl tinha sob

a sua responsabilidade toda a publicidade, de maneira que o seu trabalho já era

bem mais satisfatório. O cargo que ele ocupava em Weybridge também era ligado à

publicidade, e Carl desempenhava-se bem nele, o que prova que uma pessoa que

faz um trabalho que gosta tem muito mais chance de ser bem-sucedida do que

alguém que é empurrado para fazer algo de que não gosta e por que não se

interessa.

Ele costumava falar da irmã, que nunca tive oportunidade de conhecer, e

talvez tenha sido bom, porque os dois não se davam bem. Aparentemente, a irmã

era a favorita dos pais, conseguindo deles tudo o que desejava, ao passo que Carl

tinha de lutar sozinho. Às vezes penso que talvez Carl cedesse muito facilmente, em

vez de exigir um tratamento igual dos pais, principalmente da mãe, que parecia

cortar-lhe todas as ambições. Mas é muito fácil ver o que as outras pessoas

deveriam fazer, e não tão simples resolver os nossos próprios problemas, por isso

não devemos censurar tanto os outros, principalmente quando não estamos a par de

todos os fatos. Cari costumava falar com afeto do pai. Eles sempre tiveram um bom

64
relacionamento e isso ajudava a equilibrar a situação, pois de outra forma teria sido

muito ruim para Carl. Ele falava freqüentemente do pai e parece que sua mãe tinha

um temperamento ditatorial, muito impositivo, em contraste com o marido, de

têmpera mais sóbria. Porém não tive o prazer de conhecê-lo, pois morreu alguns

meses antes que eu e Carl nos conhecêssemos. Sempre gostei muito de ouvir falar

sobre ele e sobre a sua personalidade naturalmente encantadora. John, o gato

preto, foi um companheiro fiel, principalmente nos seus últimos dias de vida, ficando

no seu colo de inválido até ele partir para regiões mais felizes. Carl costumava falar

na bênção que esse gato tinha representado, pois parecia ter o dom de confortar o

velho, e de como, quando seu pai fora, John sentira a perda do seu dono querido.

Fiquei sabendo também que o nome completo do gato preto era Johnny

Shanko. Mais tarde, Johnny Shanko teve que ir dormir antes da hora, pois a família

se dissolveu e resolveu mudar para muito longe e não seria possível levá-lo. Muitas

vezes pensei se não teria sido possível achar outra solução, que certamente

acabaria sendo encontrada, se a mãe de Carl tivesse mais paciência. Ouvindo Carl

falar do gato, senti o doloroso que deveria ter significado para ele. Não obstante,

tínhamos agora o prazer da companhia de Mr. T. Catt, porque, se Johnny Shanko

tivesse vivido até o fim da Terra, não teria voltado para nós sob a forma do nosso

pequeno tigre. Realmente, não há mal que não venha para bem!

Antes de prosseguir, permitam-me uma explicação. Caso o leitor esteja

estranhando os meus comentários, sugiro que leia todos os livros de T. Lobsang

Rampa, autor conhecido no mundo inteiro. Pode ser que não compreenda coisas

como a reencarnação, a Lei do Karma, etc., de modo que, lendo as obras de

Lobsang Rampa, o leitor ficará entendendo como Johnny Shanko, o gato preto de

Carl, pôde voltar à Terra como Mr. T. Catt, a fim de completar o ciclo de vida que

65
antes lhe fora negado, ao ser enviado para o seu lar celestial antes do tempo. É

muito confortador ficar sabendo dessas verdades, que eliminam a tristeza

geralmente experimentada por quem perde um animalzinho de estimação. Saber

que vamos voltar a nos encontrar neste plano terrestre ou no próximo, que não vai

mais haver separação. Se vocês lerem os livros que mencionei, poderão ter uma

vida muito mais rica, desde que os levem a sério, pois todos os dezessete títulos —

e parece que em breve vai sair o décimo oitavo — não dizem senão a verdade.

Muita inverdade se tem escrito sobre Carl e sobre Lobsang Rampa, seu

sucessor, pois a imprensa, como sempre, procura o sensacionalismo, tratando as

pessoas de maneira infame. O pai de Carl era o Engenheiro Hidráulico Chefe do

distrito em que morava, na cidade de Plympton, Devonshire, mas a imprensa prefere

dizer que ele era bombeiro-hidráulico. Que diferença faz que Carl seja filho de um

padeiro, de um alfaiate, de um fabricante de velas? É coisa que não entendo, a não

ser que isso possa trazer satisfação a certas pessoas que pretendem denegri-lo e

influenciar os editores no sentido de não publicarem os livros de Lobsang Rampa. É

um exemplo do que o ciúme e a inveja podem fazer quando um homem é diferente e

possui uma mentalidade superior, algo que as pessoas que tentam destruí-lo não

entendem. Mas o que nunca consegui entender foi o que pode haver de errado em

ser bombeiro — Cristo não era filho de um carpinteiro, de alguém que trabalhava

manualmente com madeira? Qual a diferença entre madeira e água? Precisamos de

ambas. Por que colocar um estigma num bombeiro ou num carpinteiro? Pelo que se

sabe da vida de Cristo, ele foi ridicularizado, chacoteado e, finalmente, açoitado e

crucificado. No meu entender isso é um sinal de que todos os grandes seres,

homens ou mulheres, que vêm à Terra antes do seu tempo, são perseguidos pelo

simples fato de não serem compreendidos e por terem um conhecimento maior e

66
muito mais adiantado do que a maioria das pessoas que vivem nela. Isso faz com

que sejam malvistos pelos que não podem entendê-los. Diz-se que as pessoas

temem e procuram destruir o que não entendem, assim, pode ser essa uma das

razões pelas quais esses seres superiores têm tanta dificuldade em levar avante a

sua missão e transmitir a sua mensagem. Nós, da Terra, julgamo-nos muito

inteligentes, mas isso não impede que procuremos destruir tudo aquilo que não

compreendemos! É uma sorte que essas criaturas como o Yeti (também chamado o

abominável homem das neves), o monstro de Lochness e os humanóides, que, de

vez em quando, são vistos saindo dos Objetos Voadores Não-Identificados, nunca

tenham sido capturados pelo homem. Às vezes, confesso que me envergonho de

pertencer à raça humana.

67
Nenhum livro é tão

mau que não tenha

algo de bom.

Plínio

68
Capítulo 12

Não devemos nos esquecer que há alguns anos atrás as condições de

vida eram inteiramente diferentes das de agora, e eu gostava de ouvir Carl contar

como a sua família vivera no penúltimo condado do sul da Inglaterra, em

Devonshire, um condado antes de Cornwall, onde fica Land's End.

A cidadezinha natal não ficava longe de Plymouth (o seu nome atual é

Plympton) e, naquele tempo, havia uma grande diferença de classes. A família de

Cari morava numa casa conhecida como a Prefeitura, pois fora anteriormente

residência do prefeito. Era uma casa enorme, construída numa elevação, e tinha

cinco andares, solicitando os serviços de muitos empregados para que fosse

mantida em condições. Na parte da frente, o andar térreo ficava subterrâneo, devido

à inclinação do terreno mas, na outra extremidade, tinha portas envidraçadas que

abriam para um jardim de cerca de três acres — que também exigia pelo menos um

jardineiro. Nesse jardim, à esquerda, havia uma casa de pedra com janelas de vidro

colorido, onde costumavam se reunir os gatos da vizinhança, saindo de lá, após

algum tempo, quase vesgos e meio tontos, devido aos efeitos causados pela luz

multicolorida.

A primeira parte do jardim era um pequeno gramado, recortado em forma

de forte, com canhões à volta. Depois, desciam-se alguns degraus até um grande

tanque com peixinhos dourados, que tinham sido ensinados a puxar um fio quando

estavam com fome. Eu ficava fascinada, ouvindo Carl contar coisas sobre a sua

infância. O tanque tinha no meio uma estatueta representando um garoto que

segurava duas rodas. Quando se abria uma torneira, a água jorrava e ouvia-se uma

musiquinha, ao mesmo tempo em que a água fazia girar as rodas. À esquerda do

69
lago ficava um grande aviário, construído contra um muro. Era muito espaçoso e as

pessoas podiam entrar e andar nele à vontade.

Espero que os leitores não fiquem entediados com estas descrições, mas

acredito que a maioria ficará tão fascinada quanto eu, ao imaginar aquele jardim de

outros tempos.

Carl tinha a capacidade de, ao contar coisas da sua juventude, fazer com

que tudo fosse revivido. Eu sentia que estava literalmente vivendo em meio àquela

obra da Natureza, ajudada pela mão do homem.

Quero contar mais alguma coisa a respeito desse jardim, mas vamos

agora mudar um pouco de assunto, porque os que, como eu, forem amigos de

mudanças, devem estar querendo evitar essa horrível sensação de tédio e sem

dúvida erguerão aos céus uma silenciosa prece de gratidão. O nome do chefe de

família que habitava a Casa da Prefeitura era William. É importante assinalar este

fato porque ele tinha dois nomes, mas William será suficiente para identificá-lo. Muito

bem, esse senhor, que era engenheiro hidráulico chefe do distrito, morava bem em

frente à prefeitura propriamente dita que, por sua vez, ficava ao lado do Quartel

Central de Polícia.

Pode parecer estranho, meio século mais tarde, entender que Wiliam,

além do cargo que exercia, possuísse também o único carro de bombeiros da

região, acumulando também as funções de chefe dos bombeiros. Como já dissemos,

a prefeitura ficava ao lado do Quartel Central da Polícia e, do outro lado, havia um

pequeno caminho que subia o morro e passava em frente à Casa da Prefeitura,

estendendo-se até o Castelo de Plympton, que tinha uma bela torre de menagem,

ao lado da qual havia um alto, sobre o qual se erguia o castelo original.

70
As muralhas do castelo estavam em ruínas, mas ainda se podia perceber

o seu plano originário. Eram muralhas extremamente grossas, tão grossas, que

havia um túnel passando por elas e levando a uma câmara escondida, sob a

elevação onde se erigia o castelo. Essa câmara fora recentemente obstruída por

pedras que haviam caído. Do lado de fora das muralhas havia uma grande pedra

vermelha. A lenda — como sempre, imprecisa — contava que o Príncipe Negro tinha

visitado o castelo e, por ter muito mau gênio, castigara um guarda menos obediente,

espatifando-lhe os miolos contra a tal pedra, que desde então ficava vermelha do

sangue do coitado.

O chefe de bombeiros, William, costumava percorrer a região numa

pequena caleça puxada por um pônei, carregando o seu comprido estetoscópio, que

naquele tempo era de madeira e comprido, como se fosse uma bengala: numa das

extremidades havia uma espécie de auricular e, na outra, uma ponta grossa.

De vez em quando, Papai William pulava da caleça, enfiava a ponta

grossa do pau no chão e ficava escutando, para ver se a água estava saindo do

reservatório. Depois, subia de novo e prosseguia na sua inspeção, sempre fumando

o seu curto cachimbo irlandês.

No fundo do jardim havia uma estufa muito ampla, e seguindo-se a aléia

da direita, ia-se ter a um pomar. O jardim era muito grande. Uma horta ocupava

cerca de dois acres e, entre ela e o jardim, havia uma casa onde eram guardadas as

bombas contra incêndio que William adquirira, pois não havia outro Corpo de

Bombeiros nas proximidades. Tanto as bombas como o carro de bombeiros de

Papai William eram puxados por cavalos. Cada vez que havia um incêndio, seguia-

se uma reunião do Conselho, que votava quanto se devia pagar aos bombeiros.

71
Todos esses bombeiros usavam uniformes azul-escuro e reluzentes

capacetes metálicos. A Brigada contra Incêndios, como a chamavam, era muito

popular nas paradas, principalmente quando se precisava de arranjar fundos para

algum empreendimento.

Papai William colecionava antiguidades, principalmente quadros e móveis,

influenciado por seu irmão Richard, que pertencia à Academia Real, onde, inclusive,

havia vários quadros seus. Mas William era de temperamento impulsivo, o que fez

com que comprasse várias "antiguidades" que nada tinham de autêntico, empatando

dinheiro nelas. Ao descobrir mais tarde que muitos dos quadros e obras de arte

eram falsificados, todos da família ficaram perplexos. Depois que William faleceu,

verificou-se que, embora no papel os seus bens valessem muito dinheiro (graças,

sobretudo, às antiguidades), grande parte não tinha valor, por ser constituída de

falsificações.

Volto a afirmar aqui que Papai William nunca foi bombeiro hidráulico (só

se a confusão for devida ao fato de ele apagar fogo ..) e sim engenheiro hidráulico

chefe do distrito. Insisto nisso porque muita gente, principalmente jornalistas, tem

dito, em tom de sarcasmo: — Como é que o filho de um bombeiro pode saber algo

além de mexer com canos? Felizmente, isso não mais me afeta, pois aprendi coisas

mais importantes do que ligar para a imprensa, que não se importa em provocar

suicídios, desde que os seus jornais vendam bem.

Aprendi a valorizar a felicidade, a dar e a compartilhar e a saber que é

possível manter o ânimo em meio a mais cruel das doenças. Aprendi a sentir

satisfação neste planeta, tantas vezes decepcionante. Vi como uma pessoa ajudou

outras pessoas que só procuraram causar-lhe mal e, se nem sempre eu própria

tenha agido assim, o fato de ter estado imersa nesse clima de bondade decerto

72
deixou marcas no meu subconsciente, o que permite que cada vez mais eu me torne

uma pessoa melhor.

Não, William não era encanador, mas que importância tem se tivesse

sido? Eve, a mulher de William, pertencia a uma riquíssima família de fazendeiros de

Brentnor, com muitas propriedades, mas as famílias de Papai William e de Mamãe

Eve tiveram consideráveis batalhas legais a respeito do direito de passagem entre

os dois campos. Ambas as famílias (naquele tempo ricas) foram à Justiça e, quando

uma família perdia uma ação, entrava com uma apelação. A coisa continuou assim

até todos ficarem pobres.

Como costuma acontecer, quando um patrão importante tem vários

homens sob suas ordens, esses homens trabalham horas extras, fazendo serviços

extraordinários. Certo dia, o Chefe de Bombeiros mandou um dos seus

comandados auscultar a água do reservatório, para ver se estava fluindo pela

tubulação, conforme devia. Aconteceu que esse homem, que não era lá muito

inteligente, estava freando o pônei para saltar da caleça, quando o animal se mexeu

e o fundilho de suas calças ficou preso na lâmpada da caleça. Ele estava justamente

pulando da caleça e as calças cederam. Correu imediatamente para o banheiro com

a intenção de remendá-las e assim poder reaparecer em público. Mas, bem no

momento em que acabara de tirar as calças o alarme de incêndio soou e o homem

lembrou-se de que estava de plantão. Na pressa, não pensou mais nas calças e

correu para o carro de bombeiros, que já estava saindo. De repente, o cocheiro

parou o carro, ao ouvir uma tremenda risada. Eram os outros bombeiros, rindo do

colega, com o seu capacete reluzente, mas sem calças e com as fraldas da camisa

esvoaçando... Um dos colegas atirou-lhe uma túnica e o pobre homem desapareceu,

sem dúvida para tentar remendar as calças rotas.

73
Antes de deixarmos o interessante assunto da água e seus usos, quero

relatar um caso que li no The Albertan, ainda esta manhã, 1.° de dezembro de 1976:

Um médico teve necessidade de chamar um bombeiro-hidráulico, que não

tardou a lhe bater à porta. Pôs-se ao trabalho e em breve tinha consertado o defeito.

— Quanto é? — perguntou o médico.

— Setenta e cinco dólares — disse o bombeiro.

— O quê! — retrucou o médico. — Eu cobraria, por uma visita, menos de

um quarto do que o senhor me pede.

— Eu também, quando era médico — respondeu, rindo, o bombeiro.

Talvez vocês já tenham, como eu, ouvido essa piada, mas a verdade é

que ela reflete as mudanças que estão ocorrendo. Bombeiros ricos, médicos

pobres...

74
ODE À MONTANHA

No alto da montanha

É onde eu quero estar.

Olhando para o horizonte,

É onde eu quero estar.

Quero comungar contigo, árvore,

Só tu e eu,

Pois é belo estarmos juntos,

Só tu e eu.

Uma folhinha de verde erva

E uma colorida flor de montanha.

Uma joaninha que traz boa sorte

E uma colorida flor de montanha.

Será egoísmo desejar tanto para mim?

Deveria, antes, pensar nos outros?

Mas eu busco as coisas da Natureza

Para aprender a amar os outros.

75
Interlúdio

Vocês já repararam como o tempo parece voar mais rápido e os anos

parecem ter uma pressa desesperada em chegar a algum lugar, sem poder esperar

por ninguém?

Hoje é Páscoa, domingo de Páscoa do ano de mil novecentos e setenta e

sete e, ao mexer nas primeiras páginas desse livro vejo que a última (ou será melhor

dizer "a primeira?") parte dele foi concluída em princípios de dezembro de 1976. Que

aconteceu nesse intervalo? Doenças na família, doença fatal num dos casos,

questões financeiras e domésticas a resolver, cartas a responder.

É como se a gente se tivesse separado de alguém — tanta coisa mudou,

nestes quatro meses! Mas, pelo menos, eu posso dizer: "Saudações, Lírio Tigrino,

vamos continuar com a nossa história!" Talvez este seja o momento adequado para

estender as nossas saudações a pessoas que nos escrevem de muitos países,

espalhados à volta do nosso planeta. Quero dizer àqueles que me escreveram após

terem lido o meu primeiro livro, A Mente Felina, que muito apreciei as suas palavras

de estímulo e que foram elas que me fizeram continuar escrevendo. Sinto-me

especialmente feliz por ver que, através das suas páginas, muita gente ficou

entendendo melhor os seus bichinhos de estimação, formando assim um elo mais

sólido de companheirismo com eles.- Uma dessas pessoas que me escreveu disse

que desde jovem sempre tivera cães e pouco sabia a respeito de gatos. O gato do

vizinho ignorava-a quando se encontravam, mas, para sua grande surpresa, depois

de ler as histórias de A Mente Felina, o gato começou a lhe dar atenção. E ainda há

quem diga que os gatos são pouco inteligentes!!! A maioria das pessoas inteligentes

conhece algo sobre a história dos gatos, como eles foram torturados, tidos como

feiticeiros (e, em certas épocas, adorados como deuses). Bem, se como talvez seja
76
possível, eles tinham que pagar por erros passados, reais ou imaginários, a

"humanidade" cuidou de que pagassem muito caro, mas agora eles se redimiram.

Muita gente talvez não saiba, mas os gatos fazem tanto para ajudar os humanos,

que vai levar muito, muito tempo, para que possamos pagar-lhes o mal que nós lhes

causamos e o bem que ora estão fazendo em prol da humanidade. Espero, pelo

menos, contribuir um pouco para mostrar aos que estiveram interessados como é

simples e compensador dedicar um pouco mais de tempo a uma maior compreensão

das necessidades dos nossos irmãozinhos gatos.

Como a maioria das pessoas, também gosto de me afastar um pouco das

obrigações cotidianas e a Páscoa me permite isso, fazendo com que eu possa usar

outras partes do meu cérebro, dedicar-me a fazer coisas diferentes da rotina que o

dia-a-dia exige e que não envolve grande esforço intelectual. No caso de escritoras

como eu, a ocasião permite que paremos para bater papo e não tenhamos que

correr à caixa postal para apanhar a correspondência e ter que responder às cartas,

o que nos consome a maior parte do dia. Não me entendam mal. Nós recebemos

cartas encantadoras, de gente de todas as partes do mundo — não estou

reclamando e sim dizendo apenas que é bom poder parar um pouco a fim de

"recarregar" o mecanismo.

Conheço uma senhora que não pode funcionar se não parar de vez em

quando para se sentar, fechar os olhos e esquecer o mundo à sua volta. Ou então

vai até o jardim e cuida dos canteiros de flores, a fim de relaxar. Atualmente, ela está

vivendo momentos de grande tensão, causados pela doença de duas pessoas muito

idosas da sua família, que não têm esperança de se recuperar. Felizmente, ela está

agora aposentada, após ter passado muitos anos viajando de um lado para o outro,

pois ocupava um cargo importante como técnica em estatística.

77
Há uns dias atrás, tivemos ocasião de nos falar, e ela me disse quanta

coisa aprendeu nos últimos anos, coisas que anteriormente só tinham existido como

teorias na sua cabeça, mas que aos poucos ela foi pondo em prática. Por ter mais

tempo disponível, após a aposentadoria, e antes de ocorrerem às doenças na

família, ela constatou que, quanto mais trabalhava com as mãos, num hobby com a

jardinagem, em vez de ler ou ver televisão, mais "sensível" e "atenta" às coisas da

mente ela ficava. Foi com grande interesse que a ouvi contar isso, pois o mesmo

aconteceu comigo. Às vezes, acho que não aprendo com facilidade e que deve ter

havido uma porção de falhas na minha instrução, com relação a conceitos que eu

deveria ter aprendido antes.

No que diz respeito à sensibilidade, ainda no outro dia ouvi no rádio algo

muito interessante com referência a terremotos, um fenômeno muito comum nos

dias que correm. O entrevistado dizia que os cientistas só podem prever a

ocorrência de um terremoto dentro de um período de seis anos aproximadamente,

ou seja, sabem que vai haver um terremoto dentro de seis anos, mas não podem

precisar quando. Disse também ter sido constatado que as humildes baratas são,

dentre todas as criaturas, aquelas cujo comportamento indica a iminência de um

terremoto. E que os psíquicos e outros sensitivos também são bons indicadores

desse tipo de fenômeno. Essa minha amiga que tem os parentes doentes me contou

que, de vez em quando, tem umas sensações estranhas e que "você pode apostar o

que quiser como, dentro de três ou quatro dias, outro terremoto sacudirá o planeta".

Contou que, há algumas semanas atrás, estava preocupada com a doença dos

parentes quando sentiu os primeiros sintomas de uma gripe e, ainda por cima houve

um desses terríveis ataques que precedem um tremor de terra — tremor esse que

logo foi noticiado. Não há dúvida de que se trata de uma pessoa altamente sensitiva.

78
Trabalhar com as mãos é, realmente, algo que pode nos ajudar a

progredir e até, em certos casos, a preservar a saúde mental. Como acontece com a

maioria das coisas, bastando que se saiba vê-las, o trabalho manual tem o seu lado

bom.

Neste fim de semana de Páscoa, vimos uns filmes do National Film Board

e um deles tratava dos hippies e seus imitadores. Ao que parece, eles estão

causando bastantes problemas numa certa região de Toronto ê a solução

encontrada foi convidá-los para uma reunião com o Prefeito, no seu gabinete. O

Prefeito procurou convencer esses "reformadores do mundo" de que era essencial,

para todo o mundo, trabalhar, ter um emprego, pagar pelas coisas que se

consomem na vida.

— Trabalhando, a pessoa sente-se feliz — disse o Prefeito e,

naturalmente, isso provocou uma discussão.

— Então, por que é que todo mundo procura trabalhar o menos possível?

— perguntou um dos jovens. — Se trabalhar faz as pessoas se sentirem felizes, elas

estão querendo sentir-se infelizes.

E eu pensei:

— Sr. Prefeito, está vendo como é difícil convencer alguém?

Cada segmento da sociedade acredita estar com a razão e parece não

haver ponto de contato, ponte de comunicação entre eles, de modo que todos se

sentem como que perdidos. Felizmente, a gente pensa que em breve a humanidade

chegará ao "fundo do poço" e depois teremos outra Idade de Ouro, pois não haverá

outro jeito senão subir. Mesmo que muitos de nós não vivamos para ver isso,

conforta-nos pensar que as gerações futuras serão beneficiadas (a menos que,

79
nesse meio tempo, destruamos o planeta...) e se sentirão orgulhosas, e não

envergonhadas, de pertencer à raça humana.

Pessoalmente, esta Semana Santa trouxe-me muitas recordações e me

fez sentir grata. Há sete anos atrás, quando estávamos vivendo em New Brunswick,

parecia iminente uma mudança na minha vida e na da minha família. Se eu

acreditasse piamente nos médicos, ficaria esperando que nossa família se

desagregasse dali a três a seis meses e teria sido muito triste. Que faria eu com os

meus dois gatos siameses, que naquele tempo eram ainda bebês, mas que já

mostravam tanto amor por Lobsang Rampa (o Guv), sentimento esse recíproco?

Agora, sete anos mais tarde, novamente nos divertimos vendo filmes,

como naqueles dias que nos parecem já tão longínquos. Ainda recentemente, vimos

de novo o encantador curta-metragem do Sr. Gafanhoto e de Dona Formiga, feito

por Lotte Reiniger, essa brilhante alemã, de que já falei em A Mente Felina e que no

The Albertan de 21 de abril ganhou uma encantadora reportagem, juntamente com

uma fotografia. Gostamos principalmente de saber que essa célebre alemã está

morando em New Barnet, na parte norte de Londres, e se associou a John Grierson,

da British Broard Casting Corporation, que mais tarde fundou o National Film Board.

Lotte Reiniger, ao que parece, foi a pioneira do filme de silhuetas e fez o primeiro

longa-metragem de animação da história do cinema. Atualmente com setenta e sete

anos, continua viajando muito e cheia de vivacidade. Foi uma grande experiência,

conhecê-la mesmo que apenas através de um jornal. É bom constatar que o nosso

jornal local de vez em quando se lembra de publicar algo interessante e educativo.

Se não fosse a dor constante, presente na nossa órbita, eu poderia me

sentir como a gatinha, que se sentia tão ancha pelo fato de estar incluída no quadro

de Buda, que acabou sobrando neste planeta e teve de ir para o outro mundo. De

80
modo que, se todos nós não tivéssemos as nossas tristeza se as nossas tensões,

poderíamos ficar demasiado complacentes- e nunca atingir os objetivos a que nos

propúnhamos.

Nestes feriados, tivemos tempo de falar de muitas coisas e eu gostei

porque, nos dias úteis, há tanta gente pedindo ajuda, principalmente por carta, que

não me sobra tempo para nada.

Mas houve também um pequeno contratempo. Depois de ter datilografado

a primeira página deste "Interlúdio", a beleza do tempo fez com que eu pusesse de

lado a máquina de escrever e levasse as minhas gatas para um passeio de cerca de

uma hora. Temos um encantador motorista, que adora Cléo e Taddy, de modo que

me sinto segura quando as deixo com ele e saio do carro para comprar algo ou fazer

uma visitinha. Quando ele vê alguém se aproximando, sobretudo crianças (que

muitas vezes são endiabradas), fecha todas as portas do carro e guarda as minhas

gatas com zelo de pai. Cléo e Taddy têm Keith na mais alta estima e, acostumadas

que estão com ele, podem se esquecer da sua presença e devotar todas as suas

energias psíquicas e mentais a observar o ambiente e as pessoas que estão

sentadas nos carros estacionados, ou que passam por nós (comentando "Que lindos

gatos!"), ou então fazendo o que Cléo e Taddy mais gostam, correr e deixar para

trás os outros carros.

Tínhamos andado muito pouco, quando Mama San sentiu que os óculos

estavam frouxos e, mal tinha comentado a respeito, a lente direita caiu. Keith pulou

logo para fora do carro, abrindo a porta de trás e mostrando-se, como sempre,

solícito. Mas a lente foi rapidamente achada dentro do carro e logo nos metemos de

novo a caminho, Mama San sentindo-se meio cega. Foi um contratempo e tanto,

pois parte da minha missão era dar um pulo na casa de uma senhora minha

81
conhecida, que desejava me mostrar uns trabalhos que está fazendo. Essa senhora

faz de tudo, inclusive macramê, e seus dois filhos são artistas profissionais, um

trabalhando como free-lance e outro como professor de arte em Montreal. O marido,

por sua vez, faz histórias em quadrinhos, de modo que não pude apreciar como

devia as coisas que me mostraram. Outro hobby dela é fazer turbantes. Tinha um

quase pronto para mim e queria que eu o provasse. Achei melhor ela decidir

sozinha, pois não confiava na minha visão de um só olho.

Assim foi que, após um agradável interlúdio ao longo de Elbow Drive,

voltamos para casa.

A tarde do domingo de Páscoa foi bem menos agradável, porque o

terceiro membro da nossa família acabou no pronto-socorro do hospital local,

esperando cerca de duas horas de uma linda tarde para que lhe dessem sete pontos

no dedo. Foi apenas um pequeno acidente, uma luta para abrir uma lata de

conservas, em que a lata ganhou.

Realmente, foi uma Páscoa a ser recordada por muitas razões. Após

esperar em casa mais de duas horas, telefonei para o hospital, a fim de saber o que

estava acontecendo, e me responderam:

— Ah, sim, estão dando os pontos neste momento!

Isso fez-me lembrar uma ocasião, em Montreal, quando comigo

aconteceu uma coisa parecida, e Taddy perguntou ao Guv:

— Você acha que vamos voltar a ver mamãe? Aqui termina o nosso

Interlúdio.

82
Se você está sempre

imaginando que tem uma doença,

poderá acabar contraindo-a

por auto-sugestão, e o inverso também

é verdadeiro: se você tem uma doença,

poderá ver-se livre dela se

tiver bastante confiança

em si mesmo!

83
Capítulo 13
Terminado o interlúdio, talvez seja boa idéia voltar à história central de

lírio tigrino, antes de perder completamente o fio da meada, porque eu gosto mesmo

é de viver e de escrever o presente. Isso é compreensível, pois me sinto muito mais

feliz hoje em dia, que tenho a vantagem de experiências passadas, vantagem essa

que procuro utilizar para tornar a vida um pouco mais agradável aos outros membros

da minha família. Antigamente, eu sofria de uma aparente insatisfação que causava

grande preocupação a Cari. Tínhamos os nossos desentendimentos e muitas vezes

não conseguíamos encarar uma situação sob o mesmo ponto de vista.

Naturalmente, isso levava a momentos difíceis, que por sua vez resultavam em

sofrimento para Cari, pessoa extremamente sensível. Felizmente, porém, ele nunca

abrigou qualquer ressentimento — passado algum tempo, tudo voltava a ser como

antes. O mesmo não acontecia com a Ra'ab, que ficava "morando" no assunto,

aumentando tudo o que fora dito e fazendo o papel do elefante, que nunca esquece.

Hoje, que a Ra'ab tem mais conhecimento das coisas, ela compreende as diferenças

que existem em cada pessoa e sabe que procurar controlar o leão e o touro,

principalmente quando eles coexistem na mesma pessoa, é tarefa muito difícil, pois

ambas as criaturas são voluntariosas e dotadas de boa memória no tocante a

ofensas, reais ou imaginárias.

Uma coisa que me enfurecia era ser objeto de brincadeiras, mas hoje eu

vejo que isso era pura infantilidade da minha parte. Eu era demasiado "quadrada"...

Mas que é que vocês achariam se fossem empurrados para fora da cama, só por

brincadeira? Por trás de tudo isso, porém, eu sabia que a vida era muito mais do que

procurar se divertir e tirar o máximo partido possível dela. Sabia que se eu

procurasse fugir à situação, às minhas responsabilidades, alguma coisa, alguém,

84
num lugar qualquer, seria afetado, e que os meus atos, se eu me desviasse do

caminho que escolhera, poderiam causar um sério problema e resultar pelo menos,

numa grande perda pessoal. Nos nossos momentos de harmonia, eu ficava muito

feliz » em ouvir Cari dizer que a sua vida presente era a melhor que ele jamais

conhecera e que ele achava a minha companhia estimulante. Quando nos

conhecemos, ele costumava me dizer que, do ponto de vista espiritual e mental, teria

achado a minha companhia interessante fosse eu homem ou mulher! Para mim, isso

era um maravilhoso tributo a outro ser humano e ele costumava fazer observações

desse tipo nos momentos menos esperados.

Naqueles primeiros tempos eu usava muita maquilagem, coisa de que ele

não gostava. Dizia sempre:

— Ra'ab, você sabe exatamente a quantidade de maquilagem que

precisa para ficar ainda mais bonita!

Isso até eu resolver deixar de me pintar, por perceber que era o que ele

queria. Não havia dúvida que ele usava de psicologia. Mas, se você não se esforça

por agradar o seu marido, a quem mais você pretende agradar? Diz-se que as

mulheres se vestem para as outras e, não raro, para vantagem das outras. Procuram

competir umas com as outras e só se pode concluir que têm tão pouca confiança em

si próprias, que tentam ser melhores do que as outras para compensar o seu

sentimento de inferioridade!!!

Antes de conhecer Carl, mandei fazer o meu retrato e dei-o de presente a

ele quando começamos a sair juntos. Para minha surpresa, quando Carl o pendurou

na parede do seu apartamento, vi que o tinha alterado.

— Que aconteceu com os meus brincos? — perguntei.

— Ah, pintei-os — respondeu ele — não gostava deles.

85
Carl não suportava artificialismos de nenhum tipo, fazendo-me lembrar o

Faraó Akenaten — o herege — pois sempre me interessei muito por egiptologia.

Esse faraó, que era fisicamente disforme, recusava-se a ser pintado diferente do que

era na realidade. Falando do Egito, já quase não me lembro por que comecei a ser

chamada pelo nome egípcio de "Ra'ab". Parece que, se as pessoas me chamavam

pelo meu verdadeiro nome, eu não me dava conta de que estavam falando comigo.

Às vezes, suspeito que o nome seja o diminutivo de um nome mais longo, mas isso

não tem importância. Já fui chamada de várias maneiras, durante a minha vida, mas

Ra'ab é o nome de que mais gosto!

Não obstante,- os nomes têm a sua força. Sabe-se de muitos atores e

atrizes que nunca tiveram sorte e não conseguiram ir para a frente enquanto não

mudaram de nome. Depois que mudaram, foi como que uma porta se abrisse e eles

passaram a ser aclamados onde que fossem. Alguns nomes parecem dar azar e

impedir que a pessoa progrida, ao passo que outros são harmônicos e protetores.

Conheço uma pessoa que acrescentou apenas uma letra ao seu nome para poder

obter melhores resultados nos seus negócios.

Bem, enquanto morávamos em Weybridge, mudamos também de nome

mas, como isso foi descrito em foi assim! um dos últimos livros de Lobsang Rampa,

não há necessidade de eu me ater a detalhes com relação aos motivos da

mudança. O que eu sei é que tivemos de suportar muita maldade e sarcasmo de

pessoas de posição elevada. Um certo "cavalheiro", uma autoridade, achou

divertido compor uns versos de pé-quebrado e conteúdo mordaz, que vivia

repetindo! Sim, nós tivemos a nossa parcela — acho que até mais do que a parcela

normal — de aborrecimentos, principalmente quando Carl teve a inspiração (ou

recebeu a instrução, qual a diferença?) de usar roupas orientais e deixar crescer a

86
barba. Tenho boas razões para crer que algumas dessas pessoas, que nos

achavam loucos, não estão tão bem assim hoje em dia, umas deste lado do véu da

vida, outras do outro, onde é demasiado tarde para pedir desculpas e o máximo que

elas podem fazer é arrepender-se da sua cegueira. Às vezes, a gente sente uma

certa empatia pelos que foram avisados do seu propósito, da sua missão na vida,

mas preferiram ignorar a mensagem, e estão agora condenados à Terra, seja no

estado encarnado ou no desencarnado, de vez que, tendo deixado escapar a

oportunidade, têm que esperar muito tempo para poderem ver os seus erros e voltar

ao "ciclo de vida" num futuro distante, ficando, enquanto isso, a chafurdar no

remorso e no arrependimento.

87
Acho que nunca hei de ver

um cartaz tão belo quanto uma árvore

e, a menos que o cartaz caia,

nunca hei de ver uma árvore.

88
Capítulo 14

É muito fácil a pessoa ficar amargurada, desanimada, e culpar tudo e a

todos pelas suas mágoas, em vez de olhar bem para si mesma e compreender que

é dentro de nós que está a maior parte, ou mesmo todo o mal. Há quem acuse todo

o sistema de estar errado, quem culpe o establishment pela sua falta de sorte, ou os

seus pais, ou o fato de não haver trabalho (às vezes, ha trabalho, mas não é

considerado à altura dos seus talentos imaginários). É por isso que tanta gente

metida a hippie resolve não fazer absolutamente nada.

O que acabei de dizer não é conversa fiada, pois quando olho para trás,

para a minha juventude, ainda me parece ouvir-me dizer, sempre que estava em

maus lençóis (pois nenhuma família é imune a isso):

— Ora, eu não pedi para nascer!

Passaram-se alguns anos antes que eu compreendesse a imbecilidade

de tal comentário. Agora, eu sei que todos planejamos nascer, embora o resultado

possa ser um pouco diferente do que nós pretendíamos. A verdade que há nisto

veio-me à mente com maior nitidez há alguns dias atrás, quando estava relendo o

livro de Lobsang Rampa, Eu Creio, que acabou de ser publicado e dedica quase

dois terços das suas páginas a esse tema. Por isso, o rubor da ignorância deve, a

esta altura, ter empalidecido, à medida que me fui dando conta da verdade.

Talvez agora seja hora de voltar a Weybridge e ao nosso tigre-gato, que

tanta felicidade trouxe às nossas vidas e que ainda está conosco sob outra forma,

pronto a me saudar com alegria quando chegar a minha vez de ir para a terra onde

ele agora habita.

Mr. T. Catt ficou todo excitado e entusiasmado, quando pela primeira vez

lhe permitimos percorrer, sozinho, os três e meio acres, mas a princípio a sua "mãe"

89
humana ficou muito apreensiva. Acho que já mencionei isso, mas há pessoas que

não se importam com as repetições. Talvez eu esteja utilizando o método de outra

pessoa ou dando a desculpa de que, quando a gente fica mais velha, costuma

repetir as coisas.

O nosso tigre passou a maior parte da sua vida na região de Weybridge e,

quando chegou a hora de ir embora, foi para ele um grande golpe, embora nós, na

ocasião, não percebêssemos isso. A primeira noite depois que mudamos (e nem foi

para um lugar muito distante) ele ficou sentado, sem comer nem ir ao banheiro, até o

dia seguinte. Nesse tempo, a sua "mãe" era bastante ignorante e Carl era quem

entendia de gatos, mas talvez Ra'ab esteja aos poucos compreendendo que essas

criaturinhas precisam de mais atenção e consideração do que a maioria das pessoas

está preparada para dar. Como talvez eu já tenha dito, os gatos são extremamente

sensíveis e os chamados felinos domésticos não suportam que riam deles — eles

podem rir com vocês (quem já ouviu falar em que a coisa aconteceu me parecesse

uma calamidade, uma espécie de terremoto.

Refletindo bem, cheguei à conclusão de que um gato pode facilmente

sentir-se muito só. Embora eles sejam capazes de entender os humanos, seguindo-

lhes os pensamentos, muitos humanos, talvez a maioria, são incapazes de

compreender o que os gatos estão tentando lhes transmitir. Ainda há pouco, isto é,

há alguns meses, li a respeito de um gato doméstico, "o bichano de estimação da

família", como dizia no jornal, que acordou os ocupantes da casa quando esta

começou a pegar fogo, salvando-os de uma morte horrível. Se o gato tivesse sido

capaz de gritar:

— Ei, a casa está pegando fogo! — o alarme teria sido dado mais

depressa e teria havido menos pânico. Recentemente, um jovem me escreveu,

90
dizendo: "Sempre achei os gatos estúpidos". Pobre rapaz, pensei, você é que é

estúpido!

Voltamos, pois, a Weybridge. No fim da década de quarenta, passamos lá

um dos invernos mais frios de que tenho notícia, em que tudo parecia congelado.

Um apartamento situado em cima de uma garagem nunca é muito quente e eu tinha

um sifão de soda num armário do hall, que não só congelou, como também explodiu!

Estávamos muito preocupados com Mr. T. Catt, sentando na sua poltrona,

com o ar mais infeliz do mundo. Tínhamos posto um cobertor forrando a poltrona e

coloquei-lhe outro por cima, tentando aquecê-lo. Tinha medo de pôr um saco de

água quente perto dele, temendo que o furasse com as garras e se queimasse. Hoje

em dia, já sei que não há perigo e que os gatos adoram esse conforto, mesmo

quando não faz tanto frio assim. Os gatos siameses parecem sentir mais frio do que

os outros, talvez por terem o pêlo mais curto. Aconselho os leitores que estejam

pensando em esquentar os seus gatos com um saco de água quente a terem o

cuidado de apertar bem a rolha e não fazerem a coisa de qualquer jeito, como

aconteceu comigo uma ou duas vezes, resultando num banho do estofo do sofá

onde as minhas atuais gatas se sentam. Como o sofá estava forrado com uma

fazenda listrada, agora o que há é uma confusão de azuis, verdes, vermelhos e

amarelos.

Sem dúvida, muitos leitores se lembram ainda do terrível inverno de mil

novecentos e quarenta e sete, de que tanto se falou na Inglaterra.

Nossa estada naquele distrito de Weybridge estava chegando ao fim, mas

nós ainda não sabíamos disso. Com o passar do tempo, Carl muitas vezes parecia

pensativo, como se tivesse uma porção de coisas na cabeça, e de fato tinha. Às

vezes, eu me sentia um pouco perdida e tomada de um sentimento de solidão,

91
embora soubesse que as coisas iam mudar. A solidão foi sempre um dos meus

maiores problemas e eu bem sabia que a coisa toda estava dentro de mim. Foi só

nos últimos anos que essa atitude mudou e, atualmente, sinto quase o contrário.

Talvez o passar dos anos me tenha feito mudar — embora eu não me atreva a

perguntar à família se para melhor, se para pior, com medo da resposta!

Carl estava trabalhando muito, sua saúde nunca fora boa (o serviço de

recrutamento das Forças Armadas classificou-o como reservista de quarto grau) e

essa fora uma das principais razões por que tínhamos decidido morar perto do seu

local de emprego. Como tantos outros, naqueles tempos, ele era alvo de insultos por

não estar na ativa e ficou em silêncio quando, um belo dia, recebeu anonimamente,

pelo correio, uma pena branca, símbolo de covardia.

Havia muito trabalho acumulado no escritório e Carl escrevia artigos e

mensagens publicitárias, instigado pelo patrão, que nunca lhe elogiava nem

reconhecia o trabalho. Havia um bocado de ciúme e inveja no ar, pois Carl era capaz

de fazer mais do que os outros. Foi, realmente, um período bastante infeliz. O

crédito ia sempre para a pessoa para quem Carl escrevia a matéria e nunca para

ele.

Acabamos decidindo que era hora de mudar e, de certa maneira, isso nos

foi imposto, mas preciso deixar claro que foi nossa a decisão de sair, pois mais tarde

correram boatos segundo os quais Carl fora despedido. O chefe também queria que

eu trabalhasse, gratuitamente, claro, atendendo telefonemas e fazendo outros

serviços, mas o leão que há em Ra'ab não se mostrou disposto a colaborar.

Decidimos, então, mudar de ares.

92
Escreve sem cobrar até que

alguém te ofereça dinheiro;

se ninguém te oferecer dinheiro

depois de três anos, é porque

nasceste para cortar lenha.

Mark Twain

93
Capítulo 15

O lugar que seria o nosso destino ficava a caminho de Londres, depois de

Walton-on-Thames e Esher, não muito longe de Kingston-on-Thames e Surbiton,

que era um pouco menor e mais perto. A localidade mais próxima para fazer

compras era Kingston-on-Thames, onde a grande loja de departamentos de Bentall

constituía a grande atração. Hoje em dia, estamos tão acostumados a centros

comerciais gigantescos, que a Bentall's passaria quase despercebida.

Para nós, foi como que um arrancar de raízes, pois tínhamos morado

durante muito tempo em Weybridge, mas não estávamos tristes por ir embora.

Excetuando a passagem da atual Rainha Elizabeth pelos arredores da nossa

cidadezinha e as atividades próprias da guerra, muito pouca coisa ficou na minha

memória. Houvera uma certa agitação quando a filha de Sir Winston, Mary Churchill,

chegou comandando um batalhão de mulheres do corpo auxiliar feminino, para

treinamento. Tínhamos vendido o carro, de modo que recorremos a um serviço de

mudanças, mas eram muito poucas as coisas que íamos levar conosco e até as

roupas eram escassas. O nosso "tigre", foi quem sentiu mais, ia deixar o único lar

que jamais conhecera e do qual nunca se afastara, nem de noite. Estava,

evidentemente, muito abalado e, no dia da partida, tive de ir dar um recado a uma

vizinha, dessas que adoram bater um papo. Ao voltar, encontrei o tigre a ponto de

ter um ataque. Felizmente, Carl ficara com ele e soube contornar a situação melhor

do que eu seria capaz. Ia ser muito duro para ele e para nós ficar sem o grande

jardim, sem a boa vizinhança, e ter que ficar fechados dentro de dois quartos que

nem sequer se comunicavam. Mas não havia outra alternativa, as circunstâncias

assim o ordenavam.

94
A senhoria, em Thames Ditton, parecia ansiosa por nos ter como

inquilinos, chegando ao ponto de discutir com o anterior inquilino a fim de nos

possibilitar alugar dois quartos, pois tínhamos deixado claro que não poderíamos

ocupar um. Isto passou-se por volta de agosto ou talvez setembro, é uma das datas

de que não tenho certeza, coisa rara em mim, que geralmente guardo bem datas.

Lembro-me é de como costumávamos nos sentar no quintal, nos fundos da casa,

durante as claras noites de verão, e como sofríamos com as picadas de mosquitos

aparentemente enormes. Não foram tempos felizes. Tudo era inconveniente e a

gente sentia-se deslocada naquela região, que parecia completamente estranha.

Tínhamos um banheiro comum a todos e instalamos um pequeno fogão no quarto,

coisa hoje em dia completamente ilegal. A senhoria era muito temperamental e

pensava que podia mandar nos inquilinos. Passava muito tempo no seu quarto e

dava-nos a entender que era uma espécie de "conselheira sentimental", por

correspondência, e a julgar pelas suas conversas respondia a consultas mediante

pagamento. Gostava de prever o futuro. De qualquer maneira, o departamento dos

correios se beneficiava com um bom dinheiro.

Era uma mulher de caráter forte e, aqueles que acreditam em

reencarnação podem facilmente chegar à conclusão de que ela (ou ele) fora alguém

de importância em outras vidas — na vida atual, tinha tido estreito contato com uma

alta personalidade da Ásia e agia com se ainda lá estivesse. Suas roupas fora de

moda mostravam claramente que pertencera à classe alta e, embora bastante velha,

tinha um companheiro jovem. Desejava poder conjurar telepaticamente um quadro,

pois duvido muito que possa descrever adequadamente, com palavras, um episódio

de que ela foi protagonista.

95
Morávamos ainda com Madame quando chegou o Natal e, como é de

costume, a maioria das pessoas, nesse dia pelo menos, gosta de irradiar amizade.

Algo como ir à igreja aos domingos e passar o resto da semana vivendo como

ímpios.

Bem, o nosso quarto de dormir ficava em frente ao de Madame e, quando

já íamos nos recolher, na véspera do Natal, ouvimos um barulho de papel e um

ofegar bem alto, seguidos de um estrondo terrível, enquanto "algo" rolava pela

escada abaixo e Madame, sem a peruca, abria a porta do seu quarto para ver o que

estava acontecendo. Aparentemente, estivera embrulhando uma lata de ração para

gatos, ou algo parecido, para dar de presente a Mr. T. Catt, saíra do quarto e

deixara-a no alto da escada, onde ela se agüentara alguns segundos para depois,

quando Madame já estava recolhida ao quarto, começar a rolar degraus abaixo.

Não, não acho que a descrição esteja à altura da cena. Mas tudo terminou bem, com

todos nós, inclusive Madame, rindo às gargalhadas!

É difícil dizer se a situação era pior para Carl ou para o tigre. Muita gente

já passou por algo semelhante e sabe o que é estar sem emprego. Na Inglaterra, a

pessoa era considerada liquidada quando não estava estabelecida na vida aos

trinta anos. Quando se largava um emprego por vontade própria, sem se ter sido

despedido, não havia esperanças de conseguir ajuda. Que diferença do que ocorre

na Inglaterra dos nossos dias, onde se pode obter todo tipo de ajuda sem se ter

trabalhado um só dia, quando há assistência social e bolsas para estudantes! Mas

será isso uma boa coisa? Não estará contribuindo para se criar uma nação de

molengas? Carl passava horas indo de bicicleta até East Molesley, onde ficava a

Agência de Desemprego, esperando conseguir trabalho de qualquer espécie mas

recebendo sempre um tratamento nada agradável, embora, como sempre ocorre,

96
houvesse uma exceção e um dos funcionários se portasse de maneira humana com

ele e viesse nos visitar uma ou duas vezes. Os poucos empregos que havia eram

dados a pessoas que tinham sido despedidas dos cargos anteriores e não aos que

se tinham despedido por conta própria, não obstante os motivos que os tivessem

levado a isso Eu sabia que Mr. Catt estava muito preocupado, porque os gatos

(quando tratados com um mínimo de consideração) sempre se identificam com a

sua família humana, e ele devia estar aflito com o nosso futuro. Felizmente,

tínhamos algumas apólices de seguro, que pudemos resgatar, de outra maneira a

situação teria sido desesperadora. O emprego de Weybridge não nos permitira

economizar nada, mas. uma coisa veio em nosso socorro. Alguns anos antes, eu

tivera a intuição de fazer um seguro por minha livre e espontânea vontade. As

prestações eram muito altas e não era possível continuar a pagá-las, na situação em

que estávamos, mas a restituição foi boa e, à nossa maneira, continuamos nos

mantendo.

Pequenas tarefas de publicidade apareciam de quando em quando, mas

era apenas um quebra-galho, que nos proporcionava algumas libras. O nosso living

tinha uma sacadinha, mas isso foi depois de termos saído da casa de Madame, o

que ocorreu menos de uma semana após a troca de gentilezas natalinas. Madame

gostava de caras novas e nos ofereceram o apartamento superior de uma casa de

poucos andares, que logo tratamos de aceitar. Era uma suíte mobilhada, que

atendia às nossas necessidades, com um quarto, uma sala de estar e cozinha. T.

Catt ficava horas a fio na sacada, desfrutando do sol da tarde e vendo os pássaros.

97
Um clássico é um livro

que todo mundo gostaria de ter

lido, mas que ninguém quer ler.

De A Sabedoria de Mark Twain

98
Capítulo 16

Thames Ditton deve ter sido um lugar muito importante em tempos

passados, principalmente na época de Elizabeth I. Podia-se imaginar a rainha

vogando, na sua lancha, sobre o Tamisa, até Hampton Court, onde parece que ela

passava longas temporadas. Atualmente, como quando lá vivemos, acho que é

possível visitar a suite que ela utilizava e contemplar a cama onde ela dormia — ou

ficava acordada. Na Inglaterra, há uma frase muito conhecida usada para atrair

turistas: "A Rainha Elizabeth dormiu aqui" — e designa vários lugares. Todos nós

gostamos de visitar tais lugares.

Isso me traz à lembrança a história dos turistas (terei coragem de

acrescentar que deviam ser americanos, desses que gostam de percorrer vários

lugares em poucas horas?). Acabavam de deixar a Inglaterra e estavam no

continente, falando dos diversos lugares históricos que tinham visitado.

— Viram a Magna Carta? — perguntou um deles. ,

— Não, chegamos muito tarde e ela já tinha ido embora.

Meus conhecimentos de história não são tão grandes como eu desejaria

mas, viajando e visitando lugares históricos, pode-se aprender mais do que

folheando um livro de história e foi para mim uma satisfação visitar o palácio que

Henrique VIII mandou construir para o Cardeal Wolsey. Meu propósito, ao escrever

estas páginas, não é falar de Hampton Court ou discorrer sobre assuntos históricos,

e sim escrever sobre a minha família que, naturalmente, inclui os felinos. Muito bem,

quero apenas mencionar outro item de interesse: a fileira de casas que há em frente

do Court e que foram desenhadas por Sir Christopher Wren, personalidade que

sempre me interessou muito.

99
Por isso, sendo medianamente obediente, vou voltar à minha história

particular, que talvez deva frisar ser verdadeira, pois é meu desejo descrever, da

maneira mais acurada possível, exatamente o que aconteceu durante esse período

da nossa vida. Tanta gente tem procurado levar o público a pensar que os livros de

Lobsang Rampa não passam de ficção (embora a maioria das pessoas saiba que

ele só escreve a verdade), que faço questão de insistir em que, da mesma forma,

Lírio Tigrino só trata de acontecimentos nos quais eu tomei parte.

A metade da casa, a parte que nos cabia, era, sob muitos pontos de vista,

bastante conveniente porque podíamos descer a pé até o rio, e gozar da sua calma

pensando em quantas histórias o velho Tamisa não teria para contar se pudéssemos

entender a linguagem da água.

A estação ferroviária ficava muito perto, de modo que era fácil ir até

Surbiton, nosso mais próximo centro comercial, ou até Wimbledon, ou a Kingston-

on-Thames e mesmo a Londres, que também não ficava muito distante.

Naturalmente, não viajávamos muito, mas Carl tinha que ir de um lado para o outro

esforçando-se ao máximo para encontrar um emprego, apresentando-se para

entrevistas ou fazendo testes.

Mr. T. Catt ficava em casa comigo e fazíamos muita coisa juntos. Tenho a

certeza de que os gatos exercem boa influência e, quando a gente os trata de

maneira correta, podem nos ajudar. Sentada à mesa, estudando grafologia, eu

sempre tinha a sensação de que o nosso tigre estava ligado no que eu fazia, da

mesma forma que as duas bichanas que agora me fazem companhia.

Não havia independência entre os dois apartamentos. Alguns degraus

levavam à parte de cima, onde nós morávamos, mas não havia privacidade e

tínhamos que sair pela única porta, da mesma forma que os inquilinos idosos que

100
habitavam no andar térreo. Naturalmente, ninguém gostava disso, mas não

tínhamos outra alternativa, de modo que nos conformávamos. Muitos anos se

passaram, mas eu nunca esqueci um pequeno incidente.

Acho que um dos casais idosos devia ser ligeiramente surdo, porque o

homem costumava gritar bem alto e aparentemente a mulher estava sempre

reclamando de uma coisa ou outra. Ela trabalhava, mesmo sendo bem velha, mas

acho que o homem devia ser aposentado. Seja como for, certa manhã, quando ela

estava saindo, após a briga de costume, ouvimos o homem gritar, logo atrás dela:

— Setenta anos e ainda saindo para trabalhar!

Pessoalmente, acho que ele devia estar era muito satisfeito, e por dois

motivos: tinham um pouco mais de dinheiro (a menos que ela o escondesse dele!) e,

na ausência dela, ele podia ter um pouco de sossego!!!

A vida sem dúvida tem momentos mais felizes e tenho a certeza de que

Mr. Catt muitas vezes deve ter pensado:

— Puxa vida, por que será que esses humanos não concordam nunca,

nem que seja para variar!

Conforme creio já ter mencionado, os gatos não toleram atritos e é essa

uma das razões pelas quais sofrem de males físicos e nervosos. Quando há atritos

demais e de menos o gato desiste de viver, deita-se e morre, ou então some de vez.

Olhando para trás, vejo que uma boa parte da minha vida foi passada

aparentemente esperando — mas esperando o quê? — e mesmo que, em certas

ocasiões, eu tenha dado a impressão de estar olhando "através de um vidro escuro"

(citação bíblica) sempre, no fundo, eu sentia que havia algo por trás de tudo. Agora,

sei que todos os períodos de reclusão, principalmente depois de ter conhecido Carl

e no tempo que se seguiu à sua partida deste planeta, tiveram uma razão especial.

101
Já que mencionei uma citação bíblica, vou fugir um momento ao assunto

para contar uma experiência de há dois dias atrás, quando dois homens, entre meia-

idade e idosos, bateram à porta do nosso apartamento. Abri-a e eles me

perguntaram se podia lhes dar um minuto de atenção.

— Com que fim? — perguntei, pois tenho uma certa desconfiança de

desconhecidos, nestes dias de tantos crimes.

— Bem — disse um deles — somos da Sociedade Bíblica e gostaríamos

de conversar um pouco com a senhora.

Educadamente, respondi:

— Não, acho que não adianta conversar — eu tinha uma porção de

coisas para lazer, àquela hora da manhã — porque nós aqui somos budistas.

Os dois deram um passo atrás, mas logo recuperaram o sangue-frio e

exclamaram:

— Que interessante!

Aproveitei para contar-lhes algo que me acontecera nas últimas semanas.

Uma jovem tinha expressado o desejo de ler o meu livro A Mente Felina e, como eu

tinha um exemplar extra, emprestei-o. Uma ou duas semanas mais tarde, recebi pelo

correio um bilhete de agradecimentos, junto com um livro da Sociedade Bíblica, que

ela me informava ser uma história verídica. O bilhete estava escrito de maneira a

sugerir que a minha história era apenas uma fábula. Da mesma forma que meu

marido, também eu sou contra essa atitude missionária, pois ambos acreditamos

que podemos ser salvos sem fazermos parte da Igreja de Cristo. Quando muito

jovem, eu achava, como tantas outras pessoas, que devíamos procurar converter os

outros à fé cristã, nem que fosse pela força. Agora, que entendo as coisas, sei que o

verdadeiro budista não tem missionários e não acredita nas tentativas de modificar

102
as crenças dos outros. As pessoas parecem não entender que o budismo, em vez

de ser uma religião, é um modo de vida, um esforço para tratar os outros como

gostaríamos de ser tratados. Cristo não viveu segundo essa lei? Então, por que

tanta briga?

103
Se você não sabe o que

está procurando, como

vai saber, quando encontrar?

104
Capítulo 17

Tinha sido um dia daqueles, em que tudo parece sair errado. O tempo —

bem, vocês sabem como é o tempo em Calgary, frio, ventoso, com uma grande faixa

de neblina amarelo-esverdeada no horizonte, o smog dos carros, porque aqui, em

Calgary, acho que há mais carros per capita do que em qualquer outro lugar da

América do Norte, e os carros roncam durante todo o dia e toda a noite. À noite,

então, os motoristas parecem enlouquecer.

É estranho, mas os guardas de trânsito se omitem completamente. À

noite, os carros passam voando. Na maioria das vezes, ignoram inteiramente os

sinais. Uma noite, eu estava à janela, quando dois carros passaram à toda. O

primeiro parou no sinal, mas o motorista do segundo resolveu não parar! Ouviu-se

um bater de lataria, felizmente não foi nada grave, mas o chofer do segundo carro

pulou para fora do veículo, o do primeiro também e começaram a se esmurrar no

rosto e a berrar como loucos. Ambos pareciam estar bêbedos. O sinal ficou verde,

depois vermelho, depois verde outra vez, e eles brigando. Aí, o sinal ficou de novo

vermelho e os motoristas, como que combinados, voltaram para seus carros,

furaram o sinal vermelho, pararam do outro lado do cruzamento, saltaram de novo.

e. recomeçaram a se esmurrar! Sinal dos tempos,.

Bem, o dia tinha sido difícil. A toda a hora gente na porta, o homem da

Companhia Telefônica, um entregador, o síndico do edifício, para avisar que eu não

deixasse escoar água pela pia da cozinha porque havia um vazamento no andar de

baixo — tinham que substituir os canos e, se não tivéssemos cuidado o pessoal de

baixo provavelmente tomaria um banho de água suja.

É, fora um desses dias horríveis, em que tudo parece conspirar para dar cabo da

energia da gente. Olhei pela janela ao anoitecer, quando as sombras noturnas

105
começam a cair e as luzes se acendem nos altos edifícios, de trinta e quarenta

andares. O grande edifício novo, à esquerda, sede de uma companhia de petróleo,

estava todo aceso. Mais à esquerda, o novo aeroporto, ainda em construção, estava

tendo a iluminação testada. Fazia um belo clarão no céu e combinava bem, quase

que artisticamente, com algumas das lâmpadas cor de âmbar da rua e com as

azuladas, fluorescentes. Continuando a olhar, vi as luzes do trânsito piscar e, depois,

passando por cima dos arranha-céus, um grande jato 747, com centenas de

passageiros. Do nosso posto de observação, sempre vemos a luz de bombordo da

asa. É a vermelha, e só quando o vento muda e o avisão está de-colando é que

vemos a luz verde de estibordo, mas este avião estava iluminado como uma cidade

sobre asas e eu pude imaginar as pessoas apagando os seus cigarros, apertando os

cintos de segurança e se perguntando se a Tia Fanny ou o Tio Cicrano estariam no

aeroporto, à sua espera.

Mas eu me sentia muito cansada. Miss Cleo estava indócil, andando de um lado

para outro em volta dos meus pés e me atrapalhando, porque queria dar uma

corridinha pelo corredor antes de se recolher. Com um suspiro de resignação, abri a

porta e deixei-a sair. Temos que ter muito cuidado, porque Miss Cleo é uma gata

muito sociável e gosta de se sentar na frente dos três elevadores, de modo a poder

cumprimentar as pessoas que saem. Há outros apartamentos no andar e Miss Cleo

gosta de atuar como recepcionista oficial. É engraçado, ver como tanta gente a

ignora, parece nem sequer vê-la, mas temos que estar vigilantes, porque Miss Cleo

já muitas vezes tentou entrar num elevador. Não se considera uma gata, considera-

se uma pessoa, talvez porque ela e Tadalinka foram tratadas como seres humanos

desde que nasceram. Finalmente, cansada de estar no corredor, voltou, com a

106
cauda erguida e soltando gritinhos de satisfação por estar regressando a casa,

depois de ter cumprido o seu dever.

O Guv estava em seu pequeno quarto, onde tudo o que ele pode ver do

mundo é através de um espelho, isto é, ao contrário. Tem um telescópio equipado

com um espelho, o que faz com que, naturalmente, a esquerda e a direita sejam

invertidas.

Eu estava ficando exausta. Gosto de me deitar cedo, dá-me a

oportunidade de pensar, de meditar sobre os problemas do dia e de especular sobre

o dia seguinte. O Guv já tinha tomado o seu remédio e estava pronto para se

recolher. Pus para fora o jantar das gatas. Ou melhor, a ceia. Elas fazem questão de

ter uma boa ceia todas as noites. Assim que eu encho os pratinhos, elas vêm

cheirar, para ver o que é, e depois se retiram. Não querem comer logo. Gostam de

esperar até ser bem tarde e as luzes estarem todas apagadas.

Meu quarto também é pequeno e, numa das paredes, tenho um belo

poster. É uma paisagem havaiana, uma linda praia de areia branca e mar muito azul,

além das inevitáveis palmeiras, tão bem fotografadas que, com um pouco de

imaginação, a gente pode vê-las ondular ao vento. Tenho também um quadro com

motivo brasileiro, que combina muito bem com o poster.

Há sempre tanto que fazer, antes de ir para a cama! Verificar se a porta

está trancada e que a tranca está no lugar. Tem havido tantos assaltos em Calgary,

que mandei fazer uma tranca de aço especial. Uma das pontas se encaixa no chão

e a outra — em forma de forquilha — debaixo da da maçaneta, de modo que

ninguém pode entrar. Coloquei a tranca no lugar, recolhi jornais e coisas pela casa

toda e guardei-os antes de ir para o meu quarto. Como já disse, é um quarto

pequeno, mas tenho uma linda cama de metal dourado, dessas do tipo antigo.

107
Assim que deitei ouvi um ronronar satisfeito. Miss Tadalinka se acomodara ao meu

lado e ronronava para expressar o seu contentamento de que o dia tivesse,

finalmente, terminado e ela pudesse encostar a cabecinha e mergulhar nos seus

belos sonhos de gata.

Miss Cleo ainda não terminara as suas obrigações. Teve de ir ver se o

Guv estava bem e, após ouvir as palavras tranquilizadoras dele, atravessou o

corredor do nosso apartamento e pulou para a minha cama — mas aí viu a gorda

Taddy já instalada e, com um ar ofendido, foi se deitar no que é realmente a cama

delas, ao lado da minha. Não demorou que estivesse toda enroscada e ressonando

baixinho.

Durante alguns momentos, fiquei ouvindo rádio e lendo algumas cartas

que tínhamos respondido durante o dia, pois todo dia chega muita correspondência.

O Guv é quem responde às cartas, mas depois eu faço uma revisão, à procura de

erros de ortografia, de gramática ou de datilografia. Tentei concentrar-me na leitura,

mas estava me sentindo tonta de sono. Não adiantava insistir, estendi a mão direita,

apaguei a luz e enrodílhei-me ao lado de Tadalinka, que emitiu um pequeno

grunhido de satisfação, ao sentir a minha mão sobre o seu corpinho. Fui-me

sentindo cada vez mais pesada, até que o sono me venceu.

Não sei quanto tempo dormi, mas acordei sobressaltada. Não podia

imaginar o que estava errado, mas sentia que "algo" não estava certo. Era como se

alguém estivesse ali no quarto comigo, além de Cleo e Taddy. Olhei para cima e, à

luz da rua, refletida nas paredes do quarto, vi Miss Kuei sentada aos pés da minha

cama. Miss Kuei deixou-nos faz já algum tempo para viver no astral, mas continua

nos dando conselhos e, muito frequentemente, o prazer de vê-la outra vez. Não

existe isso a que chamam morte. Algumas pessoas chamam-lhe "transição", mas o

108
nome que lhe não importa. A chamada morte é apenas o abandono do corpo

terreno, algo assim como tirar a roupa antes de partir para a terra do sono.

Miss Kuei estava sentada nos pés da minha cama, sorrindo para mim.

— Ma — disse ela — você está escrevendo coisas erradas nesse livro,

devia era escrever mais sobre os gatos.

Olhei para ela, pensei um pouco e .cheguei à conclusão de que ela

estava. certa porque tanta gente me escreve fazendo as perguntas mais

surpreendentes sobre gatos. Como alimentá-los corretamente? Como pegar neles?

Deve-se escová-los ou penteá-los? Que se deve fazer com um gato que tem

pulgas? E com um gato que sofre de prisão de ventre? As pessoas parecem não

saber nada a respeito das necessidades básicas dos gatos.

Taddy ressonava profundamente, Cleo sentou-se e ficou olhando, com ar

de quem aprovava. Mlss Kuei voltou a falar:

— Você pode responder a todas essas perguntas, Ma! Pode tornar a vida

muito mais fácil para nós, gatos. As pessoas acham que nós somos criaturas

estranhas, que não precisamos de nada. Mas você sabe que isso não é verdade,

não sabe? Quero que você escreva sobre os gatos: como é possível tornar os gatos

mais felizes, por que nós temos uma missão a cumprir. Nós somos os Olhos dos

Jardineiros e o que vemos determina o que deve ser feito em prol dos humanos e

dos animais. Mas, — e sorriu — não somos todos animais? Afinal de contas, os

humanos não passam de uma outra espécie de animais.

Eu estava me sentindo um pouco desnorteada, porque já tive muitos,

muitos gatos, de todos os tipos, de temperamentos diferentes e todos com

necessidades diferentes. Miss Kuei leu o meu pensamento e disse:

109
— Não, Ma, você está enganada. Não são necessidades diferentes, todos

os gatos precisam das mesmas coisas. Precisam de um certo tratamento básico, de

uns certos remédios básicos. Por que você não escreve sobre isso?

Voltei me um pouco ná cama e disse:

— Que é que você acha disso, Cleo, como vamos poder responder a

uma pergunta dessas?

Miss Kuei interrompeu:

— Claro que você vai poder, você já teve gatos bastantes para saber o

que os faz ficar felizes, o que os faz ficar doentes!

Hesitei, só de pensar em escrever coisas desse tipo, porque achava que

isso cabia a um especialista, mas repliquei:

— Miss Kuei, a melhor coisa que eu posso fazer é escrever o que penso

e pedir a um veterinário para corrigir ou acrescentar algo.

Miss Kuei franziu a testa e retrucou:

— Como você quiser, Ma, mas acho que não é preciso.

Mesmo assim, decidi telefonar, no dia seguinte, para o Dr. Peter Randall,

o excelente veterinário que cuida de Cleo e Taddy desde que viemos para Calgary.

Cleo dá-se muito bem com ele. Taddy bufa, faz uma encenação completa, mas

nunca tenta avançar para ele. Prometi, então, a Miss Kuei:

— Muito bem, de manhã bem cedo vou entrar em contato com o médico

de gatos e lhe pedir para ler algumas páginas do que escrevi, dizendo-me se estou

cem por cento certa nas minhas recomendações.

Miss Kuei fez que sim e disse:

— Não se esqueça de escrever sobre como fazer para curar gatos que

sofrem de prisão de ventre, gatos que sofrem de diarreia, sobre qual a melhor

110
maneira de alimentá-los — tanta gente pensa que os gatos bebem só leite, quando

precisam igualmente de água. Escreva sobre todas essas coisas! Diga que os gatos

precisam de uma alimentação variada, com alguns vegetais, além da carne. Os

gatos não são inteiramente carnívoros — gostam também de vegetais. Mais do que

isso, os vegetais são necessários à sua boa saúde. Escreva sobre como obter

sementes de capim e cultivá-la em vasos, pois o capim é a melhor coisa para limpar

o gato por dentro, botando para fora as bolas de pêlo. Faça isso, Ma, que você

estará nos prestando um grande serviço.

Miss Kuei piscou o olho para mim, levantou-se, espichou-se, e

desapareceu, voltou para o mundo astral que habita desde que deixou a Terra.

Suspirei profundamente ante a ideia de alterar os planos para o meu

segundo livro e acho que voltei a dormir porque, quando acordei, o sol da manhã

estava penetrando através da névoa que envolve Calgary e formando desenhos na

parede em frente à minha cama.

111
Eu me preocupo com a tua felicidade

assim como tu te

preocupas com a minha.

Eu não poderia estar em paz

se tu não estivesses.

Kahlil Gibran

112
Capítulo 18

Não demoramos a tomar o café. O Guv come muito pouco, e geralmente

em companhia de Miss Cleo, que gosta de se sentar na beira da cama e ficar

olhando. Assim que Guv termina, ela se senta no peito dele! Por uma razão

qualquer, que nós ainda não conseguimos entender, Cleo nunca se senta no colo

dele, sempre no seu peito, às vezes tão próximo, que ele não pode nem virar a

cabeça. Sentou-se e ficou ronronando, ronronando, até que eu tive de sair para ir

buscar a correspondência na caixa postal, pois não queremos que as pessoas

venham nos visitar. Já tivemos muitos aborrecimentos e resolvemos não dar o nosso

endereço particular.

Ainda há bem pouco tempo, recebemos um casal que tinha vindo de

avião do Peru. Queriam passar o fim de semana conosco. Nunca tínhamos ouvido

falar neles, nem sequer recebido uma só correspondência deles mas, no mesmo dia

em que saíram de Calgary, recebemos uma carta pedindo que Guv entrasse em

contato com eles, pois tinham vindo do Peru para passar o fim de semana conosco e

pedir conselhos a ele. Disseram também que tinham pedido a ajuda da polícia, do

correio, de todo mundo que lhes passara pela cabeça, tinham procurado vários

hotéis e motéis, mas não tinham conseguido descobrir o nosso endereço e, como

disse o Guv, "tínhamos que dar graças aos céus."

É a coisa mais irritante, quando as pessoas vêm a Calgary para tentar nos

achar. Pensam que vão ser recebidas como o filho ou a filha pródiga e, para

conseguir isso, removem céus e terra. Muitos chegaram a ir à polícia e inventar uma

história patética sobre um caso extremo — alguém estava morrendo etc. etc. — e

logo um policial vinha até a portaria do nosso edifício, anunciar "Polícia!" pelo

interfone. Naturalmente, os boatos não tardam.


113
— Por que será que os Rampa estão sempre recebendo a visita da

polícia?

Não é nada agradável.

Faz-me lembrar quando morávamos em Habitat, Montreal. Guv tinha uma

cadeira de rodas que pretendia dar a um policial que ficara inválido, depois de ter

sido alvejado na espinha por um assaltante. Mandamos chamar um detetive, que

olhou para a cadeira e achou que convinha. Depois, veio um enorme sargento da

Polícia, tratar da remoção da cadeira e, imediatamente mandaram um camburão

para apanhar a cadeira. Muito bem, Guv desceu com a cadeira de rodas pelo

elevador e atravessou a calçada da rua principal de Habitat, até o camburão. Foi

realmente divertido — para quem tem esse sentido de humor — ver uma porção de

cabeças espiando por trás das cortinas e os jardineiros se esconderem atrás dos

arbustos, tudo para ver o Guv sendo levado num camburão. Deve ter sido uma

decepção, quando viram a cadeira ser içada para dentro do veículo, as portas se

fecharem, o carro partir e Guv voltar para o edifício em outra cadeira. Por tudo isso,

não gostamos de visitas. Temos uma caixa-postal para evitar visitantes e devia ficar

claro que, se quiséssemos visitas, tornaríamos público o nosso endereço. Da

mesma forma, já tivemos algumas experiências com pessoas que nos telefonam.

Numa ocasião, por volta da meia-noite, dois policiais foram até a nossa

casa, em New Brunswick, e houve uma longa troca de palavras, pois eles insistiam

para que nós ligássemos para alguém do outro lado de Montreal e se recusavam a ir

embora antes que o fizéssemos. Uma mulher, que se negou a pagar o chamado,

queria que Guv telefonasse para o marido dela e lhe dissesse que não tinha

relações sexuais com ela, pois ela não o tolerava.

114
Mas os dias foram passando, dias comuns, sem nenhum acontecimento

extraordinário — café da manhã, pilhas e pilhas de cartas, almoço, mais trabalho,

chá, a hora do recreio das gatas, que é quando elas dão para correr e subir na casa

de árvore, até a hora de ir de novo para a cama. O Guv passa 99 por cento do seu

tempo na cama, contemplando o mundo através de um espelho. Deitei-me na minha

linda cama de metal e, mal adormeci, senti que me batiam no ombro. Tonta de sono

e, consequentemente, não muito disposta a papos, abri um olho e lá estava de novo

a Lady Kuei!

— Acorde, Ma — disse ela — ainda não terminamos aquele assunto que

começamos ontem à noite!

Não tive outro remédio senão abrir os dois olhos e esperar que ela

falasse.

— Que é que você vai dizer quanto ao sofrimento dos gatos? Agora

mesmo chegou aqui uma gata que se tornou minha amiga: As pessoas com quem

ela vivia não lhe ligavam, não tinham tempo para ela. Era apenas uma gata,

pensavam! Foram de férias e deixaram a gata, chamada Pansy, sozinha, trancada

em casa. Ela morreu de fome, porque as pessoas se demoraram mais do que

esperavam. Que é que você diria a gente como essa? Bem, ela tocou num ponto

nevrálgico, pois muita gente pensa que um gato é apenas um enfeite, um

ornamento dentro de casa, que não merece atenção. Ora, é possível deixar peixes

dias a fio sem comida, porque, se tiverem um bom aquário, podem se sustentar

bastante tempo das plantas aquáticas e dos microorganismos existentes na água.

Além disso, a maioria das pessoas sempre pede a alguém para dar comida aos

peixes, mas parecem não se preocupar com os gatos. Foi o que fiquei pensando, ali

115
deitada na cama, com o luar entrando pela janela e um avião chegando e saindo

periodicamente do aeroporto de Calgary.

As pessoas que possuem animais de estimação têm deveres para com

esses animais. Se não estiverem preparadas para dispensar os cuidados

necessários devem passar sem eles. Os animais têm direitos, tanto quanto as

crianças. São criaturas de Deus. São seres inteligentes. Quando as pessoas viajam,

devem deixar os seus animaizinhos com um veterinário de confiança. Os

veterinários costumam ter espaços cercados, especiais para alojar cães e gatos.

Naturalmente, os donos dos bichos têm que pagar — mas não pagariam pelos filhos,

se tivessem que deixá-los com alguém? Pagariam para ir ao cinema ou ao teatro.

Pagariam para se embriagar. Pagariam por qualquer diversão mas, quando se trata

de pagar por um pobre animalzinho inofensivo e sem defesa, que não pode tomar

conta de si mesmo, agem como miseráveis. Choram tudo, até a comida que lhes

dão. Essas pessoas deveriam ser postas numa jaula ou, então, presas por

praticarem crueldades contra animais.

Se você tiver que viajar, pergunte ao seu veterinário se pode ficar com o

seu bichinho por tantos dias. Se ele não puder, decerto saberá indicar-lhe quem

possa. Você viajará sabendo que o seu animalzinho está sendo bem tratado. Não se

sentirá só e receberá você de volta com alegria e gratidão.

Por que você tem um bichinho? Para enfeitar a casa? Mesmo sendo esse

o motivo, você afinal de contas cuida dos seus enfeites, faz questão de que eles

estejam limpos, num lugar seguro. Um enfeite é um enfeite — por mais artístico que

seja, é algo inanimado. Já os animais são uma das maravilhas deste mundo, com

sentidos muito mais desenvolvidos do que os dos humanos. Você seria capaz, por

exemplo, de farejar um tapete e saber quem andou em cima dele, três ou quatro dias

116
antes? Cleo é capaz, Taddy também. Todos os nossos gatos foram capazes de tal

façanha. Se você não se comunica com o seu gato, a ignorância é sua, quem perde

é você. Seu gato sabe o que você está pensando. Se você estiver pensando nele

com amor, seu gato lhe demonstrará amor. Se você irradiar ódio, seu gato

simplesmente desaparecerá da sua casa.

Há também a questão da prisão de ventre. Não são só os humanos que

sofrem de prisão de ventre, os gatos também, mas só devido à negligência das

pessoas. Dão-lhes comida errada, restos, tudo o que não presta para os homens é

geralmente jogado para o gato ou o cão comerem. E por quê? Se você realmente

ama o seu animalzinho, não acha que ele merece uma alimentação adequada?

Existem muitas rações para gatos e cães no mercado. A ração para gatos

só serve para eles, não para os cães. A ração para cães, é adequada aos cães e

nem sempre aos gatos, mas, seja qual for a ração, por melhor que ela seja, por si só

não é suficiente. Gostaria de poder escrever isto em manchetes de jornal

sensacionalista: ração para gatos ou para cães, sozinha, não é suficiente. Outras

coisas são precisas. Vegetais, por exemplo. É necessário dar-lhes carne e também

água. Muitas pessoas têm a ideia errada de que os gatos só bebem leite. Não é

assim. Eles também precisam de beber água.

Você sabe o que causa a prisão de ventre? Dentro dos intestinos há

uma porção de pêlos, chamados vilosidades. Na realidade, essas vilosidades são

pequenos tubos, algo assim como agulhas hipodérmicas. Penetram na massa que

está sendo expelida através dos intestinos. Ora, no intestino delgado, o conteúdo é

líquido, tornando-se semilíquido ao se aproximar do início do intestino grosso.

117
Quando a matéria chega ao cólon, está-se transformando de um estado

semilíquido para o que se poderia chamar de semi-sólido, porque as vilosidades

extraem dela todos os nutrientes, juntamente com a água.

A medida que a matéria — agora se transformando em matéria fecal —

sobe pelo cólon, torna-se mais dura, como que uma pasta e, quando desce para o

cólon descendente, em direção ao reto, vai endurecendo cada vez mais, mas

sempre ao alcance do esforço muscular necessário para a sua expulsão.

Se um animal — ou um humano, tanto faz — não tem suficiente água no

seu organismo, a matéria fecal endurece cada vez mais e, no fim, o pobre animal

tem que tomar uma lavagem, a fim de obter a água necessária para amolecer a

massa dura e possibilitar aos intestinos expeli-la.

Um animal — ou homem — corretamente alimentado e "regado" nunca

sofrerá de males como esse, porque a matéria fecal nunca endurecerá. Às vezes,

quando a criatura está debilitada, os músculos dos intestinos ficam por demais

enfraquecidos para dar início aos movimentos peristál-ticos, ocorrendo então a

prisão de ventre crónica. Nesse caso, é preciso introduzir um elemento irritante —

algo que irrite o cólon e o faça contrair -se, provocando a expulsão da matéria fecal.

Quando se tem que tomar um laxante (que é um irritante do intestino), deve-se

tomar também bastante água, para amolecer a massa fecal. Com os gatos

descobrimos que, usando leite em pó, o gato lambe tudo até à última gota e vai

direto, aos pulos evacuar. Dá ótimos resultados, mas é preciso ter cuidado porque,

dando leite demais, obtém-se o oposto da prisão de ventre, que é a diarreia, e um

gato com diarreia não é nada agradável de se ver — além de dar muito trabalho — o

melhor é tratar os nossos animais com os devidos cuidados.

118
Ração demasiada pode causar prisão de ventre. Um pouco de carne crua

ajuda a vencer esse problema, mas também não se deve abusar, porque, se o gato

come carne crua em excesso pode ficar com vermes. A prática fará com que você

aprenda a dosar adequadamente a alimentação do seu bichano.

Mas — para que é que eu estou dizendo tudo isto? Se você consultar um

bom veterinário, ele lhe dirá qual a melhor maneira de tratar o seu gato. Não lhe vai

custar muito uma consulta, pois constatamos que os veterinários são bem mais

humanos e menos comerciantes do que muitos médicos de gente. Guy sempre diz

que gostaria de poder ter um veterinário; sem dúvida teria muito mais compaixão,

pois não há muita compaixão pelas pessoas que têm doenças fatais. Negam-lhes

vaga nos hospitais e os médicos não têm tempo para visitá-los, de modo que a vida

se resume numa espera, ao longo de dias intermináveis e noites mais ainda, de que

o Senhor lhe ponha um fim.

Os gatos são criaturas peculiares. Têm uma característica que nem todo

mundo conhece. São algo parecidos com os patos que acabaram de sair do ovo.

Quando um patinho sai do ovo trata a primeira pessoa que vê como se fosse a sua

mãe. É isso mesmo! Já foram feitas experiências muito divertidas a esse respeito.

Bem, o mesmo acontece com os gatos. Um gato nunca esquece a primeira comida

que lhe dão, de modo que, se você der a um gatinho novo um pouco de peixe, ele

toda a sua vida adorará peixe. Se você lhe der carne, gostará de carne toda a vida.

Os gatos são criaturas extremamente fiéis aos hábitos adquiridos — não gostam de

novidades. A maioria dos gatos gosta de um único tipo de comida, o que não é bom.

Devem ter uma dieta bem equilibrada, em que entrem diversos alimentos. Algumas

rações para gatos são excelentes; outras são exatamente o contrário, de modo que

o melhor é experimentar várias delas até constatar qual o animal prefere e depois

119
usá-la como alimento básico, acrescentando-lhe outras coisas: um pedacinho de

batata, de repolho ou de alface e, naturalmente, carne, fígado ou peixe. Acima de

tudo, é indispensável ter sempre um pratinho com água ao alcance do animal.

Uma outra coisa: não se esqueça de ter um vaso ou uma caixa de

madeira cheia de capim plantado. É uma coisa muito fácil de fazer. Basta arranjar

um pouco de terra, umas sementes de capim e plantá-las. Em mais ou menos uma

semana, você terá um belo canteiro de capim, que o seu gato poderá mastigar à

vontade, até vomitar, pois é esse o propósito do capim: limpar o estômago e remover

a bola de pêlos nele acumulada. Uma bola de pêlos no intestino do gato pode

causar entupimento intestinal e morte, de maneira que você pode estar salvando a

vida do seu bichinho certificando-se de que ele consome capim fresco. É muito fácil

plantar um caixote de capim e, quando ele começar a crescer, plantar outro, de

modo a ter capim sempre fresco, quando o primeiro murchar ou for consumido!

Muita gente se queixa de que os gatos arranham os móveis. Não é

verdade. Um gato nunca arranhará um móvel se tiver algo próprio onde exercitar os

músculos das garras. As nossas gatas têm o que se chama "casa na árvore". Trata-

se de uma coisa comprida, que se estende do chão até o teto e é mantida firme por

uma espécie de mas tro, formado de um pau que desliza dentro de outro, e a parte

interna impelida para fora por uma mola forte. Esta espécie de árvore coberta de

tapete, tem várias plataformas, cada uma com um buraco. Os gatos sobem pelo

mastro, passam através do buraco e chegam ao alto, onde arranham e arranham,

exercitando os músculos das garras.

Temos também um pedaço de madeira, mais ou menos do dobro do

comprimento do gato e revestido por um tapete grosseiro. As gatas atiram-se à

madeira e arranham o tapete. Afirmo-lhes que as nossas gatas não arranham

120
nenhum móvel nem estofo, pois reconhecem nessas duas coisas sua propriedade

particular, sabem que elas foram postas ali para a sua conveniência e nunca

abusam da confiança que a gente deposita nelas.

Uma outra coisa, muito importante. Quando você tiver que se afastar por

um certo número de horas, diga isso ao seu gato. Pegue nele com carinho, olhe bem

para sua carinha e diga-lhe, em voz lenta e firme, que vai sair, mas que dentro de

tantas horas vai voltar. Constatei essa necessidade há um tempo atrás. Tive de sair

para fazer umas compras e disse:

— Bem, gatinhas, vou sair, mas não vou demorar. Até logo.

Infelizmente, me atrasei algumas horas. Vocês sabem como é, comecei a

olhar vitrinas, vi uma porção de coisas que não podia comprar, mas fiquei

namorando com os olhos, o tempo passou mais depressa do que eu esperava e,

quando voltei para casa, soube que as duas gatas por pouco não tinham

enlouquecido de preocupação. Tinham ficado como loucas e, finalmente, se deitado

na cama e virado a cara para a parede, que é uma espécie de preparação para a

morte.

Pois é, os gatos podem morrer assim, facilmente. Quando um gato se vê

separado de um ente querido e não vê esperanças de voltar a encontrar, o gato —

não estou exagerando — vira a cara para a parede e morre. Infelizmente, vimos isso

acontecer.

Um animalzinho querido, seja ele um gato ou um cão, só nos traz alegria.

É um companheiro que nunca nos deixa mal, em quem a gente sempre pode confiar,

um bom amigo, que sabe expressar o seu carinho, nos dar ânimo e demonstrar que,

embora o mundo inteiro se vire contra a gente, ele continua a nos compreender e

amar.

121
Deus me dê

SERENIDADE

Para aceitar as coisas

Que não posso modificar,

CORAGEM

Para modificar as coisas

Que estiverem ao meu alcance

SABEDORIA

Para ver a diferença.

122
Capítulo 19

Os gatos, como as pessoas e os automóveis, têm diferentes formas,

tamanhos, cores e tipos. Têm uma pata em cada extremidade do corpo, da mesma

forma que um automóvel tem uma roda em cada ponta, e a maioria dos gatos possui

cauda, embora o gato de Manx não a tenha, e isso atrapalhe o pobrezinho quando

tem de virar uma esquina correndo.

Primeiro, há o gato doméstico comum e fleugmático. Os gatos desse tipo

têm a peculiaridade de serem muito agarrados à casa onde vivem e, quando a

família se muda, é muito frequente que este tipo de gato não se acostume e queira

voltar à casa primitiva.

O gato doméstico comum tem as quatro patas aproximadamente do

mesmo comprimento. Já o gato siamês é bem diferente. Tem patas mais compridas

atrás, de modo que, quando você vê um gato siamês pela primeira vez, pensa que o

pobre bicho está descendo uma ladeira. Mas o gato dessa raça é muito inteligente,

muito sensível e, ao contrário do gato comum, se liga mais à família do que à casa.

Quando as pessoas se mudam, o gato siamês pensa:

- Ora bolas, ainda bem que vamos sair desta espelunca! — E parte feliz

com os chamados "donos" para o novo endereço.

Os gatos birmaneses são muito parecidos com os siameses e pode-se

dizer que eles são os Rolls-Royce e os Cadillacs do mundo felino, mas têm que ser

tratados com muito carinho. Extremamente sensíveis, precisam de amor em grandes

quantidades. Se a pessoa tem que sair para trabalhar, é muito cruel ter apenas um

gato siamês. Dois não custam mais a manter e fazem companhia um ao outro. Se

você tem um gato siamês e não o ama, ele também não o amará, na maioria das

vezes, nem vai querer ficar com você. Um dia, acabará fugindo e pronto, você nunca
123
mais o verá. Irá para um lugar onde as pessoas o ame. Assim, se você quer um

bichinho só para enfeitar, prefira um gato comum — eles estão acostumados a isso.

São independentes e capazes de suportar quase tudo. Mas, se você quer uma

companhia e passa muito tempo em casa, arranje um gato siamês ou birmanês. Se

você tiver que sair durante muitas horas por dia, arranje dois gatos.

Algumas pessoas têm dificuldade em arranjar um segundo gato, devido

às brigas, ressentimentos e ciúmes que os gatos possam ter, mas isso, na verdade,

não constitui problema. Fecha-se o siamês residente (chamemo-lo assim) num

quarto, e o recém-chegado no quarto ao lado ou em frente. Abre-se a porta uns dois

centímetros, de modo a eles poderem se olhar, tirarem as suas conclusões um sobre

o outro e bufarem à vontade. Dentro de muito pouco tempo, os dois se tolerarão e

não acontecerá mais nada. Naturalmente, se você trouxer um gato novo e atirá-lo

junto do outro que você já tem, a coisa vai dar em briga e eles nunca serão amigos.

Você precisa usar de psicologia felina. Tem de dar muita atenção ao primeiro gato,

depois dar muita atenção ao segundo e, quando eles tiverem resolvido as suas

diferenças e decidido qual dos dois vai ser o gato número um, você terá paz em

casa. Os dois viverão muito bem juntos, cuidarão um do outro e não se sentirão sós

quando você tiver de sair.

Muita gente me pergunta o que eu acho sobre castrar gatos. Acho que é

uma boa coisa. No caso de uma gata, por exemplo, depois de operada ela fica muito

mais carinhosa e não é a mesma coisa que praticar uma histerectomia numa mulher.

Numa mulher, uma operação dessas geralmente provoca uma grande mudança de

personalidade. Isso não acontece com as gatas. Elas têm um metabolismo diferente

e a única coisa que acontece é você se livrar dos miados e gritos, ganhando em

troca uma companheira ainda mais amorosa. Se você não mandar operar a sua

124
gata, ela fará um barulho horrível quando estiver no cio, um barulho que não deixará

você dormir sossegado e, se você permitir que ela engravide, em breve toda a

vizinhança estará inundada de filhotes de siamês.

Os gatos machos devem ser castrados quando bem jovens, pois possuem

uma glândula especial, que faz com que excretem um líquido sobre os móveis e em

volta das paredes, líquido esse que é um autêntico chama-gatas. Castrando o seu

gato, ele vai ficar mais calmo, e a sua casa livre de cheiro.

Por falar em cheiros, todos os gatos devem ter um lugar onde fazer as

necessidades. Este lugar precisa ser mantido limpo, ou seja, a sujeira deve ser

jogada no vaso sanitário, porque de outra forma o cheiro fica demasiado forte e o

gato não pode ser responsabilizado por preferir um canto escuro, sujar debaixo da

cama ou coisa parecida. Você não faria o mesmo? Gostaria de usar um vaso

entupido ou com sinais de ter sido usado por outros, antes de você? Claro que não!

Então, procure ter com o seu gato os mesmos cuidados básicos que você teria

consigo mesmo ou com os outros.

Muita gente diz que os gatos são destruidores. Não são não. Os humanos

é que são os culpados. Se você acha que as suas unhas estão muito compridas,

pega uma tesoura e corta-as. Já um gato não pode fazer o mesmo. Tem que ter algo

onde possa aparar as garras e, se você lhe proporcionar o que ele precisa, não terá

que se preocupar com estofos rasgados. Nós temos o que se chama uma casa-na-

árvore. Acho que já a descrevi. Tem duas plataformas e as gatas sobem pelo

"tronco" ou poste, atravessam o buraco existente em cada plataforma, sobem mais

um pouco e acabam chegando ao alto, onde se firmam nas patas traseiras e ficam

arranhando o poste, que é recoberto por um tapete grosseiro. Compreendem que

têm o direito de arranhar ali e deixam os móveis sossegados.

125
Temos essa casa-na-árvore e também uma espécie de tapete especial,

do comprimento de dois gatos, para elas arranharem. Formam um ângulo em

relação ao chão e as gatas se jogam de lado em cima dele e arranham com vontade

o tapete que recobre a madeira, desgastando, dessa maneira, as garras.

Guv é muitas vezes acusado de se repetir, mas sempre, inevitavelmente,

depois de receber uma carta acusando-o de se repetir, recebe uma outra carta de

alguém que elogia a repetição e diz que a segunda ou terceira vez que ele falou de

um mesmo assunto é que o tornou absolutamente claro, de modo que, se eu estiver

me repetindo, bem, é tudo em prol da minha campanha pelo bom tratamento dos

gatos!

126
Quando alguém se preocupa conosco

É mais fácil falar,

É mais fácil ouvir,

É mais fácil se divertir,

É mais fácil trabalhar.

Quando alguém se preocupa conosco É mais fácil sorrir.

Susan Polis Schutz

127
Capítulo 20

Recebi uma carta com algumas perguntas que podem ser de interesse

geral. Uma delas é sobre os gatos e o carma. Bem, os gatos têm um carma diferente

dos humanos, pois estão isentos de muitas das influências cármicas por serem "os

olhos dos deuses". Isto é, os gatos são criaturas completamente estranhas,

colocadas na Terra para relatarem coisas, para agirem como — digamos assim —

câmeras de televisão remotas, de maneira que os Jardineiros da Terra saibam o que

está acontecendo. Ãs vezes, têm que fazer algo que normalmente incorreria em

carma mas, nesse caso particular, o carma é anulado pelo fato de eles estarem

trabalhando para os deuses.

Outro assunto que parece intrigar muito as pessoas é a reencarnação. Os

humanos nunca se transformam em animais — claro que nós também somos

animais, mas teimamos em ser chamados de humanos — e os animais tampouco se

transformam em humanos. As pessoas têm a idéia errada de que os humanos são

os deuses da Terra, ao passo que os animais não passam de criaturas a serem

chutadas de um lado para o outro pelos "humanos". É um conceito inteiramente

errado. Tanto os humanos quanto os animais podem ter igual valor na comunidade

superior que exista além da Terra e, em certas condições, um animal pode ser

muito mais valioso para os Jardineiros da Terra do que um ser humano. Depende

das circunstâncias, mas não se pense que um animal pode ser "elevado" ao status

humano. O animal pode achar que, ao contrário, isso seria uma degradação.

O homem comete um crime gravíssimo contra a natureza quando utiliza

animais para experiências ou vivissecção. É um verdadeiro absurdo o representante

de uma indústria farmacêutica dizer que o seu produto foi experimentado em não sei

quantos camundongos. Um camundongo não é um homem. Se os homens desejam


128
fazer experiências, que as façam em prisioneiros. Hoje em dia, os criminosos são

muito mimados. Aqui em Calgary temos uma prisão que mais parece um hotel de

primeira, com televisão em todas as celas, uma piscina e tudo quanto é esporte.

Acho que é uma maneira errada de tratar os criminosos. Se eles têm uma dívida

para com a sociedade pelo mal que fizeram, por que não pagar servindo de cobaias

para experiências com medicamentos?

Guv tem uma opinião ainda mais radical a respeito. Diz ele:

— Por que não utilizar os hippies e as adeptas do Women's Lib nessas

experiências? Afinal de contas, eles ficam o tempo todo sem fazer nada, a não ser

dizer aos outros o que está errado no mundo. Mas não mexem uma palha para

endireitá-lo.

Vemos muitos animais serem atropelados. Ainda há pouco tivemos aqui

em Calgary um caso desses. Foi de noite. Um cão — desses cães-guia de cegos —

estava sentado perto de uma cerca, numa calçada ampla, à espera do dono. De

repente, um jovem criminoso surgiu num carro todo amassado e, com um olhar

diabólico, jogou-o em cima do cão, subindo a calçada e esmagando o pobre animal.

Depois, fugiu à toda. A polícia tentou pegar o carro, mas tratava-se de um veículo

roubado e o sujeito conseguiu fugir. Tem havido muitos casos tristes aqui, como o

dos marginais que foram até ao Jardim Zoológico e alvejaram os pobres animais

com flechadas. Esse não era o carma dos animais, mas não há dúvida de que

contribuiu para o carma dos "humanos".

A carta de que falei, pergunta a respeito de Lobsang Rampa e os animais.

— Sim — respondo — é certo que o Guv é capaz de se comunicar com

os animais aqui na Terra e no astral. Tem, por exemplo, três gatos amigos que

moram no astral e que lá permanecem para poderem auxiliá-lo sempre que ele

129
precisa de ajuda. Um chama-se Shindi, outra chama-se Jasmine e a terceira, Phyllis.

Todos três ensinam muita coisa a Guv.

Além disso, ele conversa muito e, por vezes, durante longo tempo com

Miss Cleo Rampa e Miss Tadalinka Rampa. Muitas vezes vejo Cleo entrar no quarto

dele, pular para cima do seu peito e ficar sentada, conversando com ele. Também

me perguntam sobre o que acontece quando os animais são mortos por outros

animais. Por exemplo, um gato caça um camundongo ou um pássaro. O pássaro e o

camundongo não padecerão, antes de serem mortos, uma verdadeira agonia de

terror? A resposta é: não, porque a Natureza faz com que, ao se aproximar a hora

da morte, o animal não tenha consciência disso. Não fica paralisado de medo e sim

tranquilo, sentindo que vai ser libertado de todas as dificuldades, sofrimentos e

amarguras desta vida.

Naturalmente, isso não se aplica no caso do homem matar animais,

porque é muito comum ele ferir um animal e o pobrezinho ficar com uma pata

quebrada ou uma artéria sangrando, procurando abrigo e impossibilitado de caçar. O

animal fica, então, sofrendo de fome e dor até que finalmente a morte venha libertá-

lo. Só aí receberá a ternura e a piedade que aparentemente não existiam entre

humanos de vibrações tão baixas, que não pareciam sentir amor por nenhuma

criatura, além de si mesmos.

A dor que é causada pela insensibilidade do homem é uma dívida

acrescentada, com toda a justiça ao carma desse homem. Numa outra ocasião,

nesta vida ou quando ele voltar de novo à Terra, irá padecer uma agonia semelhante

à que causou ao pobre animal.

130
Não é a mesma coisa quando um animal é morto humanamente, ou seja,

num matadouro, pois aí a morte é quase instantânea, não leva mais de dois minutos

para que o animal morra. Falo nisto porque tenho a certeza de que alguém vai dizer:

— Puxa, esta mulher tem uma obsessão contra a caça!

Eu retrucaria que existe uma enorme diferença entre matar um animal de

forma humana, para alimentar pessoas, e a matança indiscriminada de pássaros e

outros animais, só para satisfazer o instinto de caça do homem. As caçadas à

raposa, que através dos séculos prevaleceram na Inglaterra, principalmente entre

a chamada "classe aristocrática", de cuja educação e tradição se esperaria muito

mais são, para mim, inspiradas diretamente pelo demônio. Como você se sentiria, se

de repente lhe atiçassem uma matilha de cães em cima??? É a única coisa em que

a família real britânica deixa a desejar: sua responsabilidade é tão grande, e o seu

exemplo tão importante, que precisavam levar isso em consideração, antes de

cederem à sua preferência por esse "esporte" de aspectos morais tão repulsivos!

Muitas pessoas não sabem ver quando a morte realmente ocorre, não

conseguem distingui-la da morte aparente, quando a pessoa pode estar apenas em

estado de choque, sofrendo de catalepsia ou em coma profundo. Só um clarividente,

como o Guv, seria capaz de responder a isso. Diz ele:

— A morte ocorre quando o cordão de prata é partido.

E acrescenta:

— Quando o cordão de prata é partido, a separação do corpo e da alma

é inevitável e irreversível.

A grande maioria dos humanos é incapaz de ver esse fenômeno. Somos

cegos à visão dessa separação entre corpo e alma, de modo que precisamos nos

servir de outros meios para podermos saber se a vida realmente se extinguiu.

131
Procuramos sentir o pulso da pessoa, erguer-lhe as pálpebras, para ver se os seus

olhos reagem. Há também o método de colocar um espelho diante da boca do

paciente — se o espelho ficar embaciado, há uma chance de a pessoa se recuperar.

O estado cataléptico pode ser muito difícil de diagnosticar. Mas, enquanto estamos

vivos, todos nós, animais, humanos e demais criaturas da Natureza, devemos viver

realmente e fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que os outros fiquem

felizes e satisfeitos. Com relação aos animais de estimação, gatos e também

cãezinhos, Guv sempre diz que eles devem ter os seus brinquedos. Pode ser

apenas um camundongo de pelúcia, recheado de serragem, mas, quando você se

mudar para um lugar diferente, não se esqueça de levar também os objetos de uso

do seu animalzinho. Leve-os consigo, como objetos pessoais, pois pode ter de

esperar algum tempo para que a mudança chegue. Leve um tapete velho, uma

casa-na-árvore, a manta que seu bichinho costuma usar e qualquer brinquedo predi-

leto, de maneira a que o animal não se sinta perdido. Os gatos são muito sensíveis e

o fato de serem, de uma hora para a outra, trasladados para um novo ambiente, com

cheiros desconhecidos, pode ser terrível e resultar até num desfecho triste, como

posso garantir por experiência realizada. Use a mesma vasilha de água e o mesmo

prato de comida que sempre usou para ele. O seu bichinho sentirá menos a

mudança.

132
Quando se está curado de

uma doença, importa

que doença era?

133
Capítulo 21

Pronto, felinos, já lhes dei uma oportunidade. Agora, deixem-me voltar a

falar do Lírio Tigrino e das minhas atividades familiares daqueles tempos.

Era uma sorte naquele tempo não haver televisão, pois tenho a certeza

de que nos sentíamos muito mais felizes com o rádio que, após todos estes anos,

continua sendo a minha principal fonte de entretenimento, contribuindo para o

relaxamento, principalmente ao fim de um dia cansativo, e durante os raros

momentos de descanso após o almoço.

Dois programas semanais, do tempo em que morávamos em Thames

Ditton, permanecem na minha lembrança, ambos muito interessantes, embora um

deles tivesse mais utilidade para Carl. Fred Hoyle, o famoso cientista, ora Sir Fred

Hoyle, tinha um programa sobre astronomia e, embora eu soubesse muito pouco a

respeito, estava desejosa de aprender. Achava o assunto fascinante, mas Carl era

mais adiantado intelectualmente do que eu e, consequentemente, capaz de

acompanhar melhor as dissertações. Mesmo que grande parte do que diziam

estivessem além dos meus conhecimentos, eu gostava de ficar junto de Carl

ouvindo, nem que fosse para lhe fazer companhia, pois essa era a única coisa que,

segundo ele, lhe faltara na juventude.

Uma coisa que me enervava era quando Carl dava para desmontar um

velho rádio, a fim de estudar o seu mecanismo e consertar, desde que possível, o

aparelho. Quando a pessoa está mexendo num rádio, fica girando todos aqueles

botões, passando de uma estação para a outra, coisas que, para quem está de lado,

podem ser extremamente irritantes, principalmente quando se pegam algumas

palavras de um programa interessante e, de repente, já se está em outra estação.

Sem dúvida, eu era hipersensível — o que ainda sou, embora em grau um pouco
134
mais atenuado — mas, recordo-me nitidamente do dia em que perdi a cabeça,

quando Carl estava entretido consertando um rádio. Precisava tanto de um pouco de

paz, que rumei para o armazém, com o pretexto de comprar umas coisas, e a

caminhada me acalmou os nervos, fazendo com que depois tudo melhorasse.

Acho que este é um bom momento para confessar que não tenho sido

uma pessoa de convívio fácil e gostaria de ser eu mesma a dizer isso. Talvez, em

dias futuros, quado muito se escrever sobre Carl e sobre T. Lobsang Rampa, parte

verídica e muita coisa, talvez, fruto da vívida imaginação de algum escritor, a

"mulher da história", que sou eu, possa merecer uma ou duas palavras. É em parte

por esse motivo que achei boa ideia a própria Mama San escrever sobre Mama

San Ra'ab.

É certo que me sinto tão satisfeita quanto é possível estar, nesta Terra,

mas isso não quer dizer que eu seja uma pessoa fácil de se conviver. Intimamente,

sinto-me muito satisfeita, mas influências estranhas tendem a me tirar desse estado.

Quando a vida decorre tranquila eu funciono melhor. As circunstâncias atuais não

nos permitem ter visitas, principalmente devido à doença do Guv, o que para mim é

altamente satisfatório, mas provoca ressentimentos em algumas pessoas, que

parecem não ter muita compreensão das coisas. Gostaria de pagar tributo a uma

pessoa que representa uma exceção nesse aspecto: a Sra. Gertrud Heals, uma de

minhas amigas. A Sra. Heals é proprietária de uma livraria e de uma galeria de arte

que também se encarrega de fazer molduras e atua igualmente como guarda-livros

da firma. Mas sempre lhe sobra tempo para fazer muitas coisas extras e, por vezes

vem ao nosso apartamento numa missão qualquer, mas nunca procura aproveitar-se

da situação e estender a visita por muito tempo. Embora seja grande admiradora de

Rampa, nunca pede uma entrevista com ele — pelo que lhe estou muito grata.

135
Por outro lado, acontece de algumas pessoas se queixarem de que Guv

lhes escreveu uma carta num tom um pouco mais amistoso, diferente do tom

impessoal a que estavam habituadas. A isso Guv contesta:

— Muito bem, se é isso o que elas querem, vou voltar a lhes escrever da

maneira antiga, mais formal! Para mim dá no mesmo!

Há ocasiões em que as pessoas parecem insensíveis e intolerantes.

Outra pessoa muito compreensiva, também do mundo dos livros, é a Sra.

Cármen Moore, que temos na mais alta estima.

Quantas vezes Lobsang Rampa, nos seus dezessete livros, tentou

explicar que, se você quiser progredir espiritualmente, ter mais consciência das

coisas etc., não pode andar de um lado para o outro, colecionando amigos e

conhecidos como quem coleciona borboletas! Até mesmo a Bíblia, que norteia

espiritualmente a maioria das pessoas do mundo ocidental, nos aconselha a ficar

quietos e meditar, o que vem a dar no mesmo que "Fique quieto e procure se

conhecer". Por isso, não acho que seja errado levar uma vida quieta e sossegada e

sinto que sou feliz por não ser tão sensível quanto o Guv, que é altamente afetado

por vibrações não harmoniosas. Claro que a harmonia também o afeta e oxalá essa

harmonia existisse em abundância...

Voltemos uma vez mais a Thames Ditton, ao meu marido e ao meu

"tigre". Para Carl os tempos foram ainda mais difíceis do que para mim, pois uma

grande mudança estava prevista para ele, mais ainda do que para mim, embora eu

também estivesse inquieta só de pensar no que o futuro nos reservava. Revendo

agora o passado, com a maturidade que então não possuía, percebo o quanto isso

deve ter sido interessante para Mr. T. Catt que, como todos os gatos, vivia ao

136
mesmo tempo em dois planos. Mais tarde, Guv me disse que o tigre lírio deve ter

pensado consigo mesmo:

— Lá está ela, vive em meio a acontecimentos tão cheios de interesse e

não consegue ver além do plano físico.

— Bem, se eu fosse uma gata, talvez pudesse ver além do físico e do

etérico! — retruquei.

Carl costumava sair para dar longas caminhadas solitárias, entre as

árvores que abundavam em Thames Ditton e eu acreditava que ele receberia

inspiração e instruções sobre o que se esperava que ele fizesse. Em retrospecto,

vejo que, embora ele tivesse concordado em renunciar ao seu corpo por uma

causa maior, às vezes devia sentir-se perplexo diante de todo o processo.

Aos domingos costumávamos ter um dia bastante tranquilo. Nesse dia

tínhamos por hábito ouvir o outro programa de rádio que nos interessava, as

palestras do Professor Joad, da British Broadcastíng Company, estação que também

irradiava o programa de Fred Hoyle o qual, incidentalmente, hoje em dia conta com a

ajuda de um colega, o seu filho.

Como todos nós gostamos de uma história divertida, nunca esqueci as

declarações do professor, cuja tradição familiar e formação pertenciam à era

vitoriana. O Professor Joad contou certa vez que nunca vira as pernas de sua mãe,

o máximo que ele vira fora os tornozelos e, mesmo assim, por descuido dela.

Quando ele era criança, até mesmo a mesa, as poltronas e o piano eram cobertos

de pano, de modo a não serem vistos "nus".

— Será possível? — pensei.

Se o professor pudesse olhar para baixo agora, sem dúvida ficaria sem

fala. Imaginem se ele tivesse visto algumas minisaias...

137
Não pretendo descrever o advento de Lobsang Rampa, pois ele já

escreveu sobre isso em seu livro Foi Assim e estou certa de que a maioria dos

leitores deste meu Lírio Tigrino, se não o leram pelo menos terão ouvido falar, de

modo que lhes recomendo comprá-lo, para saberem como tudo aconteceu, de viva

voz.

138
O que nos fez amigos

Quando nos conhecemos?

Bem, eu acho que sei:

O melhor que há em mim

E o melhor que há em você

Saudaram-se um ao outro

Porque ambos sabiam

Que sempre, desde o começo da vida,

O fato de sermos amigos

já estava escrito por Deus.

George Webster Douglas

139
Capítulo 22

Durante algum tempo depois da mudança cada um de nós teve uma

sensação estranha — e deve ter sido muito pior para Guv. Saíamos de vez em

quando, coisa que eu gostava muito de fazer e, de vez em quando, íamos comer

num restaurante, após os nossos passeios exploratórios pelo campo. Ele parecia se

adaptar muito depressa àquela vida nova e estranha, e eu me sentia grata por isso.

Num dia memorável, fomos até Mortlake, lugar conhecido em todo o mundo, mesmo

que apenas de nome, pois lá se desenrolam, anualmente, as competições de remo

entre as Universidades de Oxford e Cambridge. Aconteceu pouco depois do

"advento" de Lobsang Rampa e, segundo me lembro, havia à nossa volta uma

atmosfera desusada, aparentemente inexplicável, enquanto subíamos a ponte em

Mortlake. Tínhamos deixado Mr. T. Catt montando guarda ao apartamento e acho

que ele passara a maior parte do tempo dentro do seu cesto, na varanda porque,

quando chegamos, dormia satisfeito. Bem, em Mortlake atravessamos a ponte de

Chiswick e pouco falamos, pois Guv parecia imerso nos seus pensamentos. Devia

estar passando em revista algumas cenas do passado e fez alguns comentários a

respeito. Uma das coisas que comentou comigo foi sobre a era da Rainha Elizabeth

I, três ou quatro séculos antes. Falou no Dr. John Dee, o célebre alquimista, que era

também astrólogo da rainha, e que tinha morado em Mortlake com a família. O Dr.

Dee tivera uma vida movimentada, ora gozando dos favores da Corte, ora sendo

repudiado por ela. Nunca fora rico, por vezes passara necessidades. No fim da vida,

a rainha demonstrara-lhe a sua gratidão concedendo-lhe uma pensão. O Dr. Dee

fora uma pessoa muito franca e algo desconcertante. Tudo isso o Guv me disse,

mencionando também Sir Christopher Wren, o Cardeal Wolsey, William

Shakespeare e outros da mesma época. O nome de Shakespeare me traz à mente o


140
processo da transmigração e muitas vezes fiquei pensando, a propósito da

controvérsia de quem escreveu as obras a ele atribuídas, se esse não seria um caso

de transmigração, fenômeno mais comum do que muitos podem pensar.

Pessoalmente, eu acreditaria mais nessa explicação do que nisso de que alguém,

como Sir Francis Bacon, ter sido o autor das obras-primas. Minha suposição não

parece descabida.

A conversa daquela tarde prosseguiu, mais intensa, depois que voltamos

para casa, pois eu estava fascinada com o que Guv me dizia. Nunca lhe serei

suficientemente grata pela paciência por ele demonstrada e o tempo dedicado à

ampliação dos meus conhecimentos, ao meu progresso intelectual e espiritual.

Uma coisa que sem dúvida interessará aos que lerem estas páginas é

saber como Guv se adaptou ao novo ambiente. Logo comecei a me dar conta de

que ele agia muito mais normalmente do que o seu antecessor. Até a voz era

diferente, o Guv fala num tom mais profundo, uma espécie de barítono, ao passo

que a voz de Carl era de tenor. Nenhum dos dois tinha, porém, voz de cantor, coisa

que eu também lamento, pois tampouco tenho voz boa. Guv sempre foi mais

adaptável, no que dia respeito a se dar com as pessoas. É mais sociável, não tão

fechado com as pessoas quanto Carl, que era muito reservado. Antes de ficar tão

doente, Guv ajudou muita gente, através de contatos pessoais, mas agora chegou a

um ponto em que, por um motivo ou outro, as visitas não são permitidas, nem

sequer cogitadas. Muitas vezes fiquei pensando se não teria sido melhor que Carl

tivesse adotado uma atitude mais firme para comigo, pois eu era teimosa e

precisava de um marido capaz de usar de firmeza e que soubesse lidar com alguém

com a minha força de vontade. Felizmente, essa situação parece ter sido remediada

e Mama San está muito satisfeita em ser orientada por alguém mais forte do que ela,

141
fazendo com que a sua vida seja mais disciplinada do que antes. É, a disciplina é

muito boa, permite que a pessoa encontre a felicidade naquilo que realiza.

Sei que há muitos, mas muitos, exemplos de transmigração, mas algumas

religiões, como a nossa fé cristã, a consideram algo estranho ou mesmo inaceitável;

isso porque os ensinamentos originais de Cristo foram alterados na Convenção de

Constantinopla (60 a.C), dando aos padres maior poder graças à supressão dos

conhecimentos sobre a transmigração. Como fui uma das vítimas desses

ensinamentos adulterados, tive, a princípio, muitas dificuldades em perceber isso,

mas agora sei que a transmigração não é um fenômeno raro. Conheci uma pessoa

que esteve envolvida num acidente e sofreu ferimentos na cabeça, resultando num

estado de concussão, com perda temporária de memória. Enquanto se recuperava

do acidente, a pessoa começou a agir de maneira desusada, a ter pontos de vista,

gostos e ojerizas diferentes, para surpresa dos que já a conheciam. Não é

impossível que uma outra entidade, um outro espírito tenha tomado conta dela,

enquanto a pessoa estava desorientada devido ao choque, mas isso não quer dizer

que a coisa toda não tivesse sido preestabelecida, pois talvez tivesse chegado o

momento de o primeiro indivíduo concluir o seu ciclo de vida. Quem pode dizer,

exceto os que "estão por dentro", se um ser de outro planeta não poderia utilizar-se

do processo conhecido como "transmigração" para obter experiência e estudar a

vida no nosso planeta? Vale a pena pensar nisso, pois tudo o que a pessoa imagina

é possível, e nós, habitantes da Terra, estamos muito atrasados nesses assuntos,

em parte porque os nossos governos não permitem a publicação de informações

vitais. Dão a impressão de que têm medo de originar pânico entre o povo, que

provavelmente não é tão medroso quanto os governos pensam. Talvez os

governos temam perder o poder, de ter de competir com seres mais adiantados.

142
É um assunto sobre o qual não me sinto em condições de prolongar e

nem é esse o propósito deste livro. Alguém me mandou um cartão no outro dia e

acredito que se referisse à sua própria situação. Vou tentar descrevê-lo, pois acho

que transmite um sentimento, uma atitude bastante familiar a todos nós. No cartão,

um homem está olhando pelo binóculo e a legenda diz: gostaria MUITO DE

CONHECER PELO MENOS ALGO SOBRE o desconhecido, mas a pessoa que

o enviou escreveu embaixo: "Eu, olhando na direção errada." Ele costuma me

mandar citações divertidas, embora eu deva dizer que recebemos uma verdadeira

avalanche de recortes de jornais. Os de John, porém, são curtos e acurados, como

também os enviados pelo nosso amigo comum Eric Tetley que mora na Inglaterra e

tem o dom de nos divertir com as suas cartas. Isso muito contribui para aliviar as

preocupações do dia-a-dia, de modo que, Mr. Tetley, muito obrigado!

Passado algum tempo, eu e Guv tivemos uma conversa sobre as coisas

em geral e, em particular, sobre a nossa situação e o futuro. Ele decidiu que não

podíamos pensar em permanecer onde estávamos, lugar que, sob muitos aspectos,

era um atraso de vida, mas que fora um refúgio muito útil enquanto se processavam

as mudanças preparatórias do futuro que Lobsang Rampa tinha em mente. Os

escritórios do The Milk Marketing Board, parte importante de Thames Ditton, não nos

eram mais interessantes e a maioria dos habitantes aparentemente optara por uma

rotina confortável, coisa que absolutamente não combinava com os nossos planos.

Havia muitos aposentados, outros viajavam todos os dias para a cidade, onde

trabalhavam, de modo que Thames Ditton era ótima para passar os fins de semana

e, graças à sua localização, à margem do rio Tamisa, ideal para uma vida

descansada e de lazer. Conheci uma encantadora família judia, composta de pai,

mãe e bebê, e pude ajudá-los um pouco, principalmente à mulher, que mostrou a

143
sua gratidão de um modo típico aos judeus, povo muito generoso desde que

"gostem da sua casa". Foi para mim uma honra quando, muitos anos depois, tendo

que tratar com um judeu, ele me perguntou, em meio à conversa:

— A senhora não é judia também?

Minha pele morena e os meus — então — cabelos quase pretos e olhos

castanhos fizeram com que muita gente especulasse sobre a minha ancestralidade.

Eu mesma especulei!

Passados uns meses, começamos a nos conhecer melhor, eu e o Guv, e

descobri que ele era muito mais firme e tinha uma personalidade muito mais forte do

que o seu antecessor, descrição essa que usamos ao falar no Carl da época pré-

Rampa. Guv tinha propósitos de vida bem mais definidos e não tinha tempo a

perder. Era capaz de lidar de maneira mais adequada com os meus ocasionais

ataques de mau humor e, através dessas experiências, concluí que o seu método dá

certo. Embora ele possa estar sentindo uma grande compaixão por alguém

"desesperado", muitas vezes não o demonstra, ao contrário, pode até dizer algo

duro, pelo menos na opinião da vítima. Ora, eu sei que o que ele diz e o modo pelo

qual trata os problemas são corretos, principalmente quando expressa a opinião de

que o que se deveria fazer com os jovens de hoje em dia era pô-los a trabalhar em

qualquer coisa, para que eles não tivessem tempo livre nem energia para estar

sempre malhando a situação e o establishment. Nunca deixarei de me sentir grata

ao fato de, através da minha associação com ele, ter aprendido a enfrentar muitos

dos problemas da vida e a não me deixar arrastar por pensamentos impulsivos,

podendo assim ajudar um pouco aqueles que não tenham tido tanta sorte. Claro que

ainda me sinto, às vezes, aborrecida, mas já não deixo que os pequenos

aborrecimentos me deprimam. É melhor rir dos aborrecimentos, pois dessa maneira

144
a gente não fica com tantas rugas no rosto, economizando em cosméticos, que na

verdade não escondem mesmo nada, principalmente quando você encara a vida

com amargura. Ainda outro dia, comentei com Guv:

— Por que será que me sinto tão satisfeita? Todos os momentos do dia

são bons, ir para a cama é maravilhoso, pois posso visitar todos os gatos e pessoas

que significaram algo para mim, e acordar às seis da manhã não é nenhum esforço,

pois que cada novo dia traz acontecimentos interessantes que me permitem

aprender algo.

Guv não hesitou:

— Bem, Ra'ab, vou lhe dizer. A resposta é que você sabe para onde está

indo, esse é o único segredo!

Achei que valia a pena meditar sobre o assunto, mas logo ele fez outro

comentário:

— Sabe, Ra'ab, que você é osso duro de roer? Retomando o fio da

meada, acabamos nos mudando para uma localidade maior e mais movimentada,

um subúrbio de Londres, ainda na região sudoeste, onde tínhamos encontrado um

pequeno apartamento mobiliado, com um jardinzinho e uma velha macieira junto à

porta dos fundos, onde o Mr. Catt costumava ficar horas sentado num galho que

formava um ângulo de quase noventa graus com o tronco da árvore. Nosso "tigre"

levou algum tempo a se acostumar com mais essa mudança, pois já estava ficando

velho e tivemos que deixá-lo trancado durante alguns dias até que voltasse a se

orientar, o que para ele foi muito duro, principalmente porque eu saía muito e

deixava-o só enquanto fazia compras ou tratava de outros assuntos, e Guv também

precisava sair bastante. Por tudo isso o "tigre" ficava muitas vezes sozinho e, sendo

mais velho, sofria mais do que, na ocasião, eu poderia imaginar. Arrependi-me muito

145
de, devido a minha falta de idéia, tê-lo feito sofrer de solidão, coisa que muitas vezes

podia ter evitado. Depois que ele nos deixou para sempre, meu remorso foi enorme

e durante algum tempo fiquei muito abalada, só me recompondo graças à atitude

incrivelmente compreensiva e ao apoio de Guv.

O "Tigre" passou conosco cerca de um ano, nessa última casa. De vez

em quando, Guv colocava-o na frente da sua bicicleta e levava-o para um passeio

pelas ruas. Era algo que ambos adoravam, principalmente quando o passeio era de

noite, pois no escuro os gatos vêem melhor.

Já no fim da vida, Mr. Catt passava muito tempo dormindo ou

descansando — e muitas vezes ia até o jardim, bater um papo com a Dona Árvore.

Foi na véspera do Ano Novo que ele contraiu pneumonia e eu fiquei toda a noite

estendida com ele no chão da sala, vendo-o piorar a olhos vistos. Quando, por fim,

ele partiu, a sala foi inundada por uma luz brilhante, sem dúvida provocada pela

presença de entidades desencarnadas, que tinham vindo especialmente para

conduzi-lo até em Casa. Sei que vou vê-lo de novo, quando chegar a minha hora de

partir também.

Pouco depois de ele ter nos deixado, eu tive um sonho — ou o que se

convencionou chamar sonho. Parecia haver uma espécie de chama ardendo — algo

que eu não entendia, mas que sentia estar ligado a Mr. Catt. Guv explicou-me que

era exatamente isso — o espírito puro do meu Lírio Tigrino, que eu vira porque as

minhas vibrações haviam sido temporariamente ampliadas. Muitas vezes pensei

nisso e sei que teria tido outras experiências se não me tivesse deixado vencer de

tal maneira pela dor.

146
Agarre-se aos sonhos

Porque, se eles morrerem,

A vida será como um pássaro

De asas partidas, incapaz de voar.

Agarre-se aos sonhos

Porque, se eles se forem,

A vida será como um campo estéril,

Gelado de neve.

Langston Hughes

147
Capítulo 23

À medida que este meu livrinho vai chegando âo fim, parece-me boa idéia

tecer alguns comentários com relação a um assunto que talvez ocupe os

pensamentos de muitos leitores. Muita gente nos tem escrito pedindo que

comentemos por que "o assunto não costuma ser discutido hoje em dia". Ainda esta

manhã, recebi uma carta que pelo conteúdo, vi que não veio parar em minhas mãos

por mero acidente. Era como um lembrete mencionando o que tantos outros leitores

me tinham escrito, durante os últimos meses. Como conheço bem o autor da carta,

talvez não se incomode que eu cite o parágrafo principal:

"Seria uma ótima idéia escrever mais a respeito da morte, porque é algo

que afeta a todos nós e ajudaria a romper as barreiras do medo que a maioria das

pessoas tem."

E continua:

"No século passado, na era vitoriana, o sexo era tabu, mas agora, ao

contrário, ele está na moda. Agora, o tabu é a morte do corpo físico. Esperemos que

este assunto venha a ser tratado mais abertamente num futuro não muito distante,

sem medo, e tenho a certeza de que você poderá ajudar, tocando nisso."

Acho que Lobsang Rampa é a pessoa mais indicada para escrever sobre

a morte e, muito mais do que isso, sobre o que acontece depois da morte. Em seu

último livro Eu Creio, foi exatamente o que ele fez e muita gente expressou a opinião

de que é esse o melhor dentre os dezessete que ele já escreveu. Todos nós

esperamos que ele possa ter força física suficiente para levar avante a sua intenção

de publicar o décimo oitavo livro. A julgar pelos seus comentários, tenho a certeza

de que esse poderá ultapassar, em interesse, até mesmo o décimo sétimo, embora

um venha a complementar o outro.


148
A idéia de morrer, pessoalmente, não me preocupa, pois estou mais

preocupada com o meu desempenho enquanto viva. Se eu fizer o melhor que posso

na vida, há sempre a esperança (na verdade, a certeza) de que não será preciso me

preocupar quando chegar a minha hora. Outro dia, li que alguém se considerava "um

homem com pressa", querendo com isso dizer que os anos estavam passando e ele

ainda tinha muito que fazer. Sinto-me na mesma posição, pois não acho que tenha

feito ainda o máximo possível da minha vida e preciso esforçar-me por recuperar o

tempo perdido.

Estou mais ou menos na situação de um homem que conheço. Ele

chegou ao Canadá como imigrante e, embora esteja agora numa posição de

destaque, como editor mundialmente famoso, homem de televisão e produtor, na

sua juventude trabalhou em várias lojas lavando vidraças. Recentemente, foi

entrevistado e disse:

— Eu tinha ao todo oito vitrines para lavar. Cada uma delas me levava um

dia de trabalho, assim, como a semana útil tem apenas seis dias, eu sempre estava

duas vitrines atrasado.

Receio ser essa a minha situação atual.

Acho que não é importante os anos que vivemos e sim como vivemos,

sejamos nós humanos ou "animais", pois todas as criaturas estão na Terra para

aprender certas lições e cumprir certas missões. Faz umas semanas, recebi de

Eric Tetley um recorte de jornal, que guardei para incluir em Lírio Tigrino. Mr. Tetley

costuma mandar muitos artigos sobre gatos e vocês precisavam ver o meu acúmulo

de fotos de bichanos, enviadas de todo o mundo. Qualquer dia vou precisar de um

álbum! De quaquer maneira, foi com muito interesse que li a respeito do gato mais

velho do mundo, segundo o Livro de Recordes Guinness. O nome dele era Butch e

149
morava com um certo Sr. Arthur Baxter, em Claxby Lincolnshire. Butch fora

apanhado, coberto de óleo, nas docas de Immington, em 1942, quando tinha apenas

semanas, e viveu até os trinta e quatro anos. Multipliquem isso por sete vejam o

resultado, em anos-gato: duzentos e trinta e oito. Deve ter sido um gato feliz e bem

tratado, para ter vivido um número tão surpreendente de anos.

Muitas vezes penso no mundo dos gatos no chamado Além e sei que é

um lugar belíssimo. Guv, como muitos de vocês devem saber, possui maravilhosos

poderes de descrição e eu gosto de pensar que, nos meus "sonhos", ou viagens

astrais, visito aqueles que eu conheci um dia, e que, num futuro não muito distante,

voltaremos a nos unir.

Morte — Vida. Esta experiência terrena não é mais parecida com a morte

e o além com a Vida Real? É assim que eu penso e deve ter sido esse o conceito

que levou Longfellow a escrever O Salmo da Vida, que eu tive de aprender de cor

quando estava na escola:

Não me diga, em tons sombrios,

Que a vida não passa de um sonho vazio,

Pois a alma que dormita está morta

E as coisas não são o que aparentam,

A Vida é Realidade, a Vida é Seriedade

E a cova não é o seu fim.

És pó e ao pó voltarás

Nunca à alma se aplicou!

150
Gosto também das palavras de Mark Twaín, presumivelmente ditas no

seu leito de morte:

Morte, a única coisa imortal que nos trata

a todos igualmente, cuja piedade,

paz e refúgio são para

toda a gente — os puros e os impuros,

os ricos e os pobres, os amados e

os desprezados.

De A Sabedoria de Mark Twain.

E aqui termina a história do Lírio Tigrino, concluída no dia do Jubileu de

Prata da Rainha Elizabeth II, um dia de saudade para todos aqueles que, como nós,

aportamos a esta terra, na qualidade de imigrantes, há muitos e muitos anos atrás.

Embora muitos sejamos agora cidadãos canadenses, Sua Majestade Graciosa

continua sendo a nossa rainha.

Quanto tempo nós, aqui no Canadá, permaneceremos nesta situação é

coisa que não sabemos, por se tratar de assunto muito controvertido, assim como o

separatismo e o bilinguismo.

A rainha e seu esposo, o Príncipe Philip, estão, naturalmente, muito a par

do que aconteceu e eu não pude deixar de rir quando, na sua fala de Jubileu, Sua

Majestade disse:

— Todos nós sabemos o que a Comunidade NÃO é.

Acrescentando:

151
— É um passatempo popular, atualmente! Bem dúvida o mundo seria

bem melhor se nós fôssemos tão conscientes quanto a nossa rainha e seu ilustre

pai, o falecido Rei Jorge VI.

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