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eXtra

Sustentabilidade
Uma edição especial, com artigos e entrevistas exclusivas,
para celebrar o Dia Mundial do Meio Ambiente
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ED I TORIAL

CARTA-CONVITE
Para estimular ações em prol da proteção ao ambiente, a de de marcas e produtos da empresa, até um leve e didá-
Organização das Nações Unidas instituiu, em 1974, o dia 5 tico artigo sobre aquecimento global, assinado pela en-
de junho como Dia Mundial do Meio Ambiente. genheira ambiental especialista em mudanças climáticas,
Mariana Fieri. Ainda na categoria artigos, tanto Viviane
E a gente com isso? Bem, para quem ainda acha que o Mansi, diretora de Comunicação e Sustentabilidade da
tema é responsabilidade de especialistas em sustentabili- Toyota na América Latina, quanto Leonardo Lima, diretor
dade, esta revista chegou em boa hora. Para quem já está de desenvolvimento sustentável e compromisso social do
ciente de que essa é uma pauta importante para todos, a McDonald’s, nos agraciam com textos que manifestam
hora também é agora. Explico: nossa ideia é justamente crenças e fazem chamados importantes para que a susten-
promover um grande encontro entre iniciantes e escola- tabilidade seja um tema de todos.
dos, para que a sustentabilidade alcance o patamar que ela
precisa e assim, de fato, observarmos mudanças significa- E não paramos por aí. Além de apresentar pontos de
tivas em prol de uma qualidade de vida melhor para todos. vista diferentes de executivos imersos no universo cor-
porativo, esta edição especial também agrega o papel do
Pretensiosos? Talvez. Até porque nem mesmo uma pu- empreendedorismo e dos negócios sustentáveis nessa dis-
blicação de 500 páginas daria conta de cobrir tudo que é cussão. Essa parte do conteúdo foi 100% construída no for-
relevante quando o assunto é proteção do meio ambiente. mato de entrevista, para que os desafios e os ensinamen-
Mas preferimos nos autointitular “sonhadores”, porque tos desses empreendedores cheguem ainda mais vivos até
se de um lado sonhamos com um mundo em que a susten- você. Queremos que os sabores da Frutos da Amazônia e
tabilidade é parte integrante de nossa atitude como seres os cheiros da Papel Semente mostrem a você a lógica do
humanos, de outro sabemos que toda longa jornada co- comércio justo, e que os planos da Shizen e da Utopies no
meça com um primeiro passo. E eis nosso primeiro passo: Brasil encham seu coração de esperança, assim como en-
lançar uma publicação totalmente diferente das edições cheram os nossos aqui na redação.
extras anteriores, falando de respeito, consciência e tra-
balho coletivo. Mais do que um editorial, esta é uma carta-convite. Um
convite para que você se abra para a sustentabilidade e
Aqui você vai encontrar uma coletânea de artigos escri- para todos os temas que ela abriga. Sonhando grande e
tos por especialistas no assunto, cada qual com seu ponto começando pequeno, juntos podemos mudar a realidade
de vista, sobre como devemos ampliar a discussão sobre do mundo.
sustentabilidade. Assim, temos desde um case reconhe-
cido internacionalmente como o da Natura, escrito por Gabi Teco
Keyvan Macedo, responsável pela área de sustentabilida- Editora-executiva

EXPEDIENTE
HSM - THE POWER OF KNOWLEDGE HSM Management é uma publicação mensal da HSM,
Chief Executive Officer: Guilherme Soárez de ISSN 1415-8869, agora gerenciada pela Qura Editora.
Head de conteúdo: Poliana Reis Abreu O conteúdo dos artigos é de responsabilidade dos autores.
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S EU MAPA PARA A EDIÇ ÃO 134 - X

ARTIG OS: ESPE CIA LISTAS CONV IDA DOS

04 Quando você tem 18


que acertar
as contas – e se
orgulha disso
Viviane Mansi, diretora de Comunicação
e Sustentabilidade da Toyota na
América Latina, convida gestores de
todas as áreas a participar ativamente das
discussões sobre sustentabilidade. Ela ainda
nos dá cinco bons motivos para isso.

08 Será possível pensar um


futuro que não seja
sustentável para todos?
Leonardo Lima, diretor de Desenvolvimento Sustentável
e Compromisso Social do McDonald’s Brasil, provoca
uma reflexão sobre o mundo em que vivemos hoje e
nos lembra de que o planeta não precisa ser salvo:
nós, os humanos, é que devemos tomar cuidado.

11 Gerar impacto positivo na


sociedade e no meio ambiente
é um desafio coletivo
Keyvan Macedo, engenheiro especialista em gestão de baixo
carbono e mudanças climáticas, e responsável pela área de
23 “Queremos ser a empresa de
sustentabilidade de marcas e produtos da Natura, compartilha energia para os Millenials”
os compromissos e os desafios da empresa para se tornar Bruno Suzart, country manager da Shizen no
uma empresa carbono neutro, e destaca parcerias com outras Brasil, fala sobre estratégia e impacto social no
instituições. Na visão de Keyvan, a inovação deve ser coletiva. processo de geração de energia renovável.

16 Aquecimento global, 27 Papel Semente:


as empresas e o nosso papel o lixo que floresce
Mariana Fieri, engenheira ambiental especialista em Andréa Carvalho, sócia-fundadora da Papel Semente,
mudanças climáticas, desenvolvimento de projetos de crédito conta os desafios para empreender no Brasil um
de carbono e sustentabilidade empresarial, descreve de negócio que, há 10 anos, era novidade por aqui:
forma didática e educativa o que é o aquecimento global, produtos feitos a partir de papel reciclado “cravejado”
destacando o que as empresas e as pessoas podem fazer de sementinhas de flores, hortaliças e temperos.
para contribuir para a preservação do meio ambiente.
31 Quando a floresta
ENTREVISTAS E X CLUS IVAS
vale mais em pé
Iolane Tavares, sócia-fundadora da Frutos da Amazônia,
19 Prosperidade local decidiu trabalhar com os sabores da floresta numa época
Elisabeth Laville, fundadora da consultoria francesa em que a moda era consumir produtos importados. Não foi
Utopies, fala sobre o desenvolvimento de economias locais e fácil. Mas, respeitando o produtor e o meio ambiente, Iolane
aponta caminhos para as empresas brasileiras que desejam provou que é possível manter um modelo de negócios em
adotar uma estratégia proativa nesse novo contexto. que todos ganham: a empresa, a sociedade e a natureza.

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ARTI GO: ESPEC IALISTA C ONV IDA DO

Quando você tem que


acertar as contas
– e se orgulha disso
EU ERA CRIANÇA QUANDO A ECO-92 FOI REALIZADA. DÉCADAS SE PASSARAM,
AS QUESTÕES CRÍTICAS AINDA ESTÃO AÍ PARA SEREM RESOLVIDAS E JÁ NÃO DÁ
MAIS PARA PASSARMOS A BOLA PARA AS FUTURAS GERAÇÕES. A BOA NOTÍCIA?
SE MANTIVERMOS UMA POSTURA PROATIVA, É POSSÍVEL, SIM, ACELERAR
AS COISAS E ENTÃO ACERTAR AS CONTAS COM O PLANETA. | POR VIVIANE MANSI

E
u era criança ainda, mas lembro como se apenas a questão de meio ambiente. Ela é mais complexa
fosse hoje quando a maior revista sema- e, como tudo o que é assim, exige um olhar mais aberto, in-
nal do país chegou à casa da minha avó na- clusivo e generoso sobre o que nos cerca.
quele domingo. Fazia sol lá fora, num dia A sustentabilidade, como um todo, vale a pena ser discu-
iluminado, o que me fez pensar que as coisas tida. E nossa geração de líderes tem uma responsabilidade
podiam ser diferentes dali pra frente. Ela devia ter umas extra – não parece ser possível passar o bastão para a próxi-
duzentas páginas. Era pesada, tinha um globo no centro da
capa e tratava da Eco-92, mencionada como “a maior con-
ferência ecológica da história”. Viviane Mansi é diretora de Comunicação e Sustentabilidade
Vinte anos se passaram e precisamos de um novo even- da Toyota na América Latina, diretora da ABRH e faz parte do
Conselho Editorial da HSM. Em 2018, foi eleita Top Voice pelo
to – Rio+20 – para tentar resolver questões críticas. Não
LinkedIn no Brasil.
foi suficiente. Assim como de fato não é suficiente discutir

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ma geração resolver o problema. Ele é nosso, e precisa ser
resolvido agora. Ou, sendo mais específica e realista, as so- é hora de irmos
luções precisam ser aceleradas agora.
Quando vemos o tema sendo destacado em uma revista além. De pensarmos
como HSM Management, esse é o chamamento. Ainda
que cada vez mais tenhamos dados e fatos na mão, a nossa
em cadeia. As nossas
geração ainda titubeia quando tem que tomar decisões decisões de hoje
afetarão as pessoas
que sejam boas para hoje, amanhã e sempre. Por que isso
acontece? Por que ainda não estamos tão convencidos de
que as empresas precisam tomar partido da sustentabi-
lidade e garantir que as suas ações não impactem o meio e o planeta. são
ambiente, como tem acontecido hoje?
Claro que já há muitas exceções. Como vimos na maté-
muitas as formas
ria de capa da edição 133 desta revista, quando a discussão de nos engajarmos
nessa temática
de sustentabilidade chega aos fóruns de investimento, a
coisa começa a mudar. Larry Flink, CEO da Black Rock –
a maior gestora de ativos financeiros do mundo – é um
dos exemplos de líderes que começaram a olhar com mais para tomar
cuidado o custo da falta de sustentabilidade. Ele é ruim
para o planeta, mas também é ruim para a reputação das
boas decisões
empresas. São passivos que se tornam cada vez maiores
e passam a custar mais, quando investidores começam a
ter opção de investir em outros tipos de empresa que apre-
sentam menos riscos.
Pelo segundo ano consecutivo, Flink reforça a impor- sões baseados em conceitos mais abrangentes que o resul-
tância da consciência socioambiental em sua carta aos tado imediato da nossa empresa. É hora de irmos além, de
acionistas. Quanto mais líderes tiverem essa postura, pensarmos em cadeia. As nossas decisões de hoje afetarão as
mais fácil será resolver questões relacionadas à susten- pessoas e o planeta.
tabilidade. Mas eu tenho uma má notícia: não depende São muitas as formas de nos engajarmos nessa temáti-
só deles. Depende da liderança média da empresa, assim ca para tomar boas decisões. Antes de qualquer coisa vale
como dos diretores e CEOs de cada subsidiária, e também a pena dizermos o que são boas decisões: aquelas que são
de cada CEO global. A gente já tem em quem se inspirar. boas para as pessoas, para as empresas e para o planeta/so-
Agora precisa trazer a inspiração para o movimento de ciedade. O desafio aqui é do “e” em vez de pensarmos em
transpiração. Não é fácil colocar em prática, mas é abso- “ou”. Que decisões podem beneficiar a todos? Onde buscar
lutamente necessário. esse equilíbrio? Como reduzir danos?
Tive a sorte de trabalhar em empresas que também ti- Quando comecei a me engajar nessa temática e aprofun-
nham essa preocupação – longe de serem perfeitas, tinham dar meu conhecimento sobre o que é possível/necessário
ações afirmativas consistentes que nos ajudavam a redese- fazer, me vi invadida por mil pensamentos, dúvidas e afli-
nhar o papel dos gestores. ções. A seguir, compartilho um pouco das questões que hoje
Aqui eu queria convidar a todos para uma conversa olho me ajudam a participar mais ativamente das discussões re-
no olho, de gestor para gestor. A gente sempre fala “nas lacionadas ao tema.
empresas” que fazem ou que deixam de tomar ações críti-
cas para a sustentabilidade. Mas, por trás de “empresas”, É preciso conhecer mais e melhor
o que a gente encontra é gente de carne e osso mais ou
menos sensibilizada por tomar decisões que tenham im- Não só do nosso negócio, mas do impacto do nosso ne-
pacto no longo prazo. gócio no nosso entorno. Significa conhecer mais sobre a
Quando a gente personaliza o assunto, estamos falando nossa cadeia de valor. Numa das empresas em que eu tra-
de como estamos preparados para entender e tomar deci- balhei, ainda como estagiária, conheci a dona Jandira. Ela

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movidos a combustíveis fósseis. No fim de 2019 devemos
ter nove modelos com tecnologia híbrida disponíveis no
Brasil, ou seja, carros que geram energia no próprio motor
a partir da aceleração e da frenagem, sem necessidade de
fornecimento externo de energia. Ao formular o plano, as
atividades ambientais foram categorizadas em seis desa-
fios, sendo três relacionado a zero emissão de CO2 (uso do
veículo, ciclo de vida e fabricação) e mais três ligados à ge-
ração de impactos positivos (água, reciclagem e harmonia
com a natureza). Os avanços concretos podem ser vistos
nos investimentos que resultam na redução de consumo
de energia e consequente redução da emissão de CO2, na
compra de energia elétrica 100% renovável desde 2015, na
redução do consumo de água para a fabricação de veículos e
ainda na redução de emissão de compostos orgânicos volá-
teis (VOC em inglês, de Volatile Organic Compounds). Mas
sabemos que temos muito trabalho pela frente e estamos
acelerando o processo a partir de ações que tenham a ver
com a matriz de materialidade da empresa.

É preciso ser multidirecional, envolver quem


tinha quase 70 anos e continuava trabalhando lá como co- importa e cuidar do que é essencial
peira. Quando chovia muito, dona Jandira chegava atra-
sada, porque as ruas perto do bairro alagavam e ela não Está aqui o desafio mais intenso. Comecemos dentro de
conseguia sequer sair de casa. Muitas vezes, ficava para casa. Nossos colegas sabem o quanto o tema é importante?
evitar que a água invadisse tudo. Eu, que sempre vivi uma Eles se interessam por isso? Será que a gente fez todo o esfor-
situação mais ou menos privilegiada, começava ali a en- ço para que todos façam parte e ajudem a construir essa his-
tender o problema da minha cidade. tória? Agora vamos para fora, para o mundo. Num contex-
to em que stakeholder é quem se considera como tal, como
É preciso ter metas e compromisso com elas falar com os stakeholders corretos? Há alguém que ficaria
de fora de uma discussão que envolve a nossa condição de
Conhecer os problemas do nosso entorno é apenas uma seres deste planeta? O desastre em Mariana e Brumadinho
das coisas que a gente pode fazer para tomar uma decisão estão aí para nos ajudar a refletir. O diálogo com diferentes
melhor (seja do ponto de vista pessoal ou profissional). audiências é fundamental para entendermos o que importa
Outra atitude possível, agora no âmbito da empresa, é e o que é possível fazer. Diálogo em si não é fácil. A empre-
medir o nosso impacto. Assim a gente consegue saber por sa pode ouvir muita coisa dura, difícil de lidar. E aí? A gente
onde começar. Quando tomamos essa decisão, é preciso tem disposição mesmo para fazer a diferença? Ações sociais
acompanhar a nossa performance para mudar a realida- são lindas, mas não adianta plantar árvore, fazer doação e
de. Hoje, na Toyota, isso faz parte do meu trabalho. A em- voluntariado se a gente não olha para o centro do negócio
presa tem um compromisso global com o meio ambiente, para verificar se a ação fim da empresa está acontecendo da
que foi anunciado como Desafio Ambiental Toyota 2050. melhor forma que pode. Essa é a grande discussão. É isso
Desde que foi criado, em 2010, fazemos planos de médio e que vira o jogo.
longo prazo, que são compartilhados e discutidos por toda Pequenas ações contam. Pequenas experiências também.
a gestão, incluindo o presidente. Eu me lembro de uma longa discussão em outra empresa
Um dos maiores desafios é a intenção de reduzir as emis- que trabalhei sobre como trocar as latas de lixo das mesas
sões de nossos veículos em 90% até 2050, quando compara- dos empregados. Na época, acho que chegamos a trocá-las
das com as emissões de 2010. Na prática, isso significa que, por caixas menores de papelão. Eis que eu mudo de empre-
em breve, deixaremos de fabricar carros exclusivamente sa novamente e quando chego, cadê a caixa de papelão? Não

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ache outras
pessoas
para ajudar,
participe de
boas conversas,
dê o exemplo e
garanta que,
quando olhar
para trás, seu
legado seja
robusto e você
tenha o prazer
de contar isso a
alguém
tem! Mas e o meu lixo? Preciso caminhar uns 50 metros até uma nova ética?) faz muita diferença. Mostra que não es-
a lixeira mais próxima. Conclusão 1: eu gero menos lixo. Em tamos falando apenas de decisões isoladas.
outra oportunidade, uma colega, que nada tem a ver com a Os céticos perguntarão se é suficiente. Não, não é. É pre-
área de Sustentabilidade, vem me dar de presente um copo ciso fazer mais, é preciso fazer rápido. O bom é que há
de silicone para eu substituir pelos copos plásticos. Conclu- muito por fazer e cada gestor pode encontrar a sua forma
são 2: eu não saio mais sem meu copo. Não uso mais plásti- de fazer. Comece pequeno, mas siga adiante. Lembro
co. Dispenso canudo. Evito todo tipo de resíduo que não é também que, na minha época de faculdade, estava lendo
necessário. A mobilização da minha colega mexeu comigo. o jornal e vi a propaganda de um banco que dizia mais ou
E continuo aprendendo com ela todos os dias. menos assim: “queremos ser o banco da sua vida, ainda
que você não seja nosso correntista”. Está aí um bom prin-
É preciso deixar saber. cípio, de um banco (o finado Banco Real) que criou um
novo jeito de fazer negócio, considerando novas aborda-
Participei recentemente de um fórum com gestores gens. Ache outras pessoas para ajudar, participe de boas
de Comunicação e Sustentabilidade em que se debatia o conversas, dê o exemplo e garanta que, quando olhar para
futuro desse tema num contexto em que o Brasil parece trás, seu legado seja robusto e você tenha o prazer de con-
afrouxar as regras e as obrigações. Resultado bom de se tar isso a alguém e estimular mais e mais gente a fazer o
ver: as empresas fazem o que entendem que é necessário mesmo. É hora de acertarmos as contas – tomamos deci-
fazer. O compromisso de ser verdadeiramente um impor- sões no passado que custaram muito a pessoas e ao pla-
tante ator global num mundo globalizado fala mais alto neta. Agora, redefinir os rumos está na força da nossa ca-
do que regras específicas de um país ou outro. Ouvir essas neta. Isso não precisa significar menos lucro. Precisa de-
histórias, fortalecer o coro, e ajudar outras empresas a ver monstrar que a gente pode ter lucro, mas ele não precisa
que é necessária uma nova conduta (e, por que não dizer, ser selvagem. #vaicomtudo

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ARTI GO: ESPEC IALISTA C ONV IDA DO

Será possível pensar


um futuro que
não seja sustentável
para todos?
PARA RESPONDER À PERGUNTA, TEMOS DE REFLETIR SOBRE O
MUNDO EM QUE VIVEMOS ATUALMENTE, SEM ESQUECER QUE O
PLANETA NÃO PRECISA SER SALVO: NÓS, OS HUMANOS, É QUE
DEVEMOS TOMAR CUIDADO E FAZER NOSSA PARTE. | POR LEONARDO LIMA

A
cada dia que passa – e o tempo segue o Dessa forma, vivemos como avestruzes que passam todo
mesmo, ou seja, o dia continua com suas o tempo ciscando para sua nutrição, e não nos damos conta
24 horas –, temos a impressão de que ele de que o entorno está mudando muito rápido e que possi-
passa mais rápido e que não damos conta do velmente vai faltar alimento para sua própria sobrevivência.
que temos de fazer. Somos levados a trabalhar focados em nossa atividade,
Uma agonia toma conta de todos, porque a velocidade em seja ela qual for, achando que do restante alguém vai dar
que vivemos exige ] que cada vez façamos mais e em menos
tempo. Nosso cérebro trabalha mesmo quando não quere-
Leonardo Lima, diretor de Desenvolvimento Sustentável e
mos, porque fica difícil desligar, sabendo que cada segundo
Compromisso Social do McDonald’s Brasil
conta e que fará falta no final.

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conta – na empresa, na organização para a qual trabalha-
mos, no bairro, na cidade ou mesmo no país. Não é assim? precisamos
Mas o entorno vem mudando e cada vez mais vejo que
não estamos preparados para lidar com as mudanças que definir que
ele acarretará, ou melhor, já vem acarretando.
Tão focados estamos no curto prazo e nas atividades que
tipo de vida
temos de dar conta hoje que estamos deixando de lado um queremos ter
no planeta que
olhar mais sistêmico e fora da caixa do que está acontecendo.
É dentro desse contexto que precisamos buscar responder à
pergunta feita no início.
Vejamos alguns dados interessantes, e que merecem não precisa
uma análise um pouco mais profunda. Vivemos no planeta
Terra, que já tem 4,54 bilhões de anos de existência, contra
ser salvo, a
aproximadamente 200 mil anos do que conhecemos como menos para
que tenhamos
homo sapiens. Esse dado nos mostra que o planeta seguirá
por vários bilhões de anos mais e que, na realidade, por mais
que escutemos “save the planet”, os dados matemáticos nos
mostram que seguramente ele não precisa ser salvo. melhores
Bem, se o planeta não precisa
oportunidades
ser salvo, quem precisa? de vida
A meu ver, claramente vivemos um ponto bem impor-
tante de nossa história, e podemos ser protagonistas ou comida produzida é perdida, desde o campo até a mesa
não do que poderá acontecer nesta e em futuras gerações. de quem a vai consumir, como ter posições ou iniciativas
Precisamos definir que tipo de vida queremos ter no pla- diferentes das que tenho hoje?
neta que não precisa ser salvo, a menos que seja para que A essa equação complexa ainda podemos incluir ingre-
todos tenhamos melhores oportunidades de vida. Mas dientes como a escassez de água potável para milhões de
aqui começa uma das muitas equações complexas que pessoas e a falta de saneamento básico, que gera nume-
temos de resolver como humanidade. rosos casos de doenças, colapsando os sistemas de saúde
De novo, creio que nosso modelo de vida não ajuda de vários países.
muito, dado que estamos tão focados no agora, que não Se voltarmos aos ingredientes da equação a resolver,
paramos para pensar que não somos educados para viver como alimentar mais 1,8 bilhão de habitantes perden-
o hoje e muito menos o amanhã. do um terço de tudo o que é produzido, sem invadir as
Se vivo em um planeta com outros 7,2 bilhões de áreas de biodiversidade restantes no planeta? É nesse
seres similares a mim e desconheço que teremos ponto que o componente ambiental fala alto e vemos
a companhia de mais 1,8 bilhão em não mais discussões acaloradas do que fazer, produzir ou prote-
de 30 anos, já começamos a ter um problema ger. Seguramente temos de buscar e encontrar soluções
bem significativo. Se também desconheço para os dois.
que, dos 7,2 bilhões de seres, aproxima- Outro dado que não é menor refere-se a nosso estilo de
damente 800 milhões não terão garan- consumo, exagerado, no qual consumimos mais do que
tia de alimentação para seu próximo necessitamos. Seja o que for, a balança será positiva, o
dia de vida, temos um dado ainda mais que acarreta enorme pressão nos ativos do planeta, sejam
preocupante, já que todos deveriam eles quais forem. E também somos doutores em descarte.
ter acesso à alimentação básica. Descartamos tudo, num ritmo frenético de consumo ao
Mas se também vivo nesse planeta som da marchinha da Economia Linear: compro, uso, não
e desconheço que um terço de toda a penso, descarto onde seja. E vou vivendo.

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Claramente necessitamos pensar em algo melhor que
possa substituir essa marchinha que já está fora de moda
há anos, mas que nos recusamos a enxergar.
Algumas estatísticas apontam que nós, do alto de nossa
sabedoria como único ser inteligente do planeta, descar-
tamos, em média, um quilo de resíduo por dia. Lembran-
do que somos 7,2 bilhões hoje e que seremos por volta de
9 bilhões em 2050.
Necessitamos sepultar a economia linear e substituí-la
por outra, que seja no mínimo circular, e com a qual não
desperdicemos recursos que serão cada vez mais escas-
sos. Sem falar nas emissões de gases de efeito estufa re-
sultantes das marchinhas do passado.
Felizmente, o mundo como um todo, e representado
pelas Nações Unidas, está trabalhando a agenda do De-
senvolvimento Sustentável com três grandes objetivos:
eliminar a fome, reduzir a desigualdade e combater a mu-
dança climática, a partir dos 17 Objetivos do Desenvolvi-
mento Sustentável.
Confesso que, dos 17, sou fã dos objetivos 4, que trata da
educação de qualidade, e 17, que promove ações em con-
junto para resolver os outros 16 objetivos.
No meu entender, o mundo deve ser sustentável para
todos sim, sem nenhuma dúvida. E o fator que pode e deve
mudar chama-se educação. Com ela eliminamos a descul-
pa de que não sabíamos, de que desconhecíamos ter um
problema.
temos que Obviamente, não creio que somente com educação

rever nossos
resolveremos os problemas urgentes que enfrentamos
como sociedade, mas jogamos luz onde aparentemente

sistemas de só há escuridão.
Também acredito que temos de rever nossos sistemas
educação, de educação, pensando no olhar para frente e não pelo re-
trovisor, com sistemas de educação arcaicos. E, principal-
pensando mente, precisamos educar para viver e entender o mundo
atual. Tenho trabalhado com modelos de educação nos
em olhar quais os educandos saem conscientes de sua responsa-

para frente bilidade e já começam a realizar mudanças significativas


para a sociedade.
e não pelo E o outro fator que não devemos desprezar é eliminar
o conceito de que alguém vai resolver. Para termos um
retrovisor, mundo e uma vida sustentável para todos a hora de co-
meçar a fazer algo é agora, no curto prazo, mas sempre
com sistemas com o propósito do médio e longo prazo. Cada um de nós

de educação é responsável.
Temos uma grande responsabilidade, hoje e amanhã.

arcaicos Afinal de contas, nos intitulamos os seres inteligentes do


planeta. Até quando?

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ARTI GO: ESPEC IALISTA C ONV IDA DO

Gerar impacto
positivo na sociedade
e no meio ambiente
é um desafio coletivo
A SUSTENTABILIDADE ESTÁ NO DNA DA NATURA E A JORNADA PARA SER UMA EMPRESA
CARBONO NEUTRO NOS TROUXE UMA SÉRIE DE DESAFIOS E APRENDIZADOS.
COM COMPROMISSO E METAS CLARAS, OS RESULTADOS TAMBÉM APARECERAM,
É CLARO. ENTRETANTO, POR MAIS QUE NOSSAS PRÁTICAS SEJAM REFERÊNCIA
NO BRASIL E NO MUNDO, PRECISAMOS ATUAR DE FORMA ECOSSISTÊMICA
PARA, JUNTOS, CONTERMOS AS AMEAÇAS AMBIENTAIS. | POR KEYVAN MACEDO

Keyvan Macedo é engenheiro especialista em gestão de baixo


carbono e mudanças climáticas, responsável pela área de
Sustentabilidade de Marcas e Produtos da Natura.

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E
stamos diante da maior ameaça ambiental
já enfrentada globalmente pela humani-
dade. As mudanças climáticas causadas
pelo aumento das temperaturas médias
na Terra representam um risco para a vida
humana e a maneira como estruturamos nossa socieda-
de. Desde o início da Revolução Industrial, a temperatura
global aumentou pouco mais de 1°C. Se nada for feito, a
Terra ficará 3°C mais quente até o fim deste século, se-
gundo análise da Climate Action Tracker. Não é preciso
esperar para saber os efeitos dessa mudança. Desastres
causados por eventos climáticos, perda de biodiversida-
de, extinção de espécies animais e vegetais, prejuízos à
agricultura e ao abastecimento alimentar, à saúde huma-
na e ao equilíbrio dos ecossistemas dos oceanos são ape- leve a mudanças radicais em nosso modo de vida, incluin-
nas alguns dos efeitos dessa crise. do a busca de novas tecnologias, novos regulamentos e
A alteração dos ciclos naturais, causada pelo aqueci- mesmo o desenvolvimento de novos hábitos de consumo.
mento global, já se faz sentir em todos os cantos do globo Se os dados são alarmantes e os riscos enfrentados bas-
e deve se agravar, colocando em risco a vida no planeta. tante tenebrosos para a vida na Terra, todos devemos ce-
O desenvolvimento de uma série de atividades econô- lebrar um fato histórico: é crescente a consciência de que
micas, o crescente consumo de energia de combustíveis o aquecimento global representa um risco para a vida no
fósseis e o desmatamento, entre outros fatores, liberam nosso planeta. E ainda estamos em tempo de fazer mudan-
grandes quantidades de carbono e outros gases de efei- ças nos padrões de comportamento, produção e consumo
to estufa na atmosfera, fazendo com que a temperatura que assegurarão o cumprimento da nossa responsabilida-
média do planeta suba e o clima mude, com graves conse- de comum com as gerações futuras. Na Natura, defende-
quências para a saúde humana, a economia e o meio am- mos que o valor e a longevidade das organizações estão li-
biente. Isso exige urgentemente uma ação conjunta que gados à sua capacidade de contribuir para a evolução da
sociedade e seu desenvolvimento sustentável, e que juntos
podemos promover as ações necessárias para reduzir, mi-

ainda estamos em tigar e nos adaptar às mudanças climáticas.

tempo de fazer O compromisso da Natura

mudanças nos padrões Foi nesse cenário de alerta que a Natura assumiu o com-
promisso de se tornar uma empresa Carbono Neutro, em
de comportamento, 2007, com o objetivo de promover uma redução contínua

produção e consumo e significativa de nossas emissões de Gases de Efeito Estu-


fa (GEE) e limitar o impacto que causamos. O programa,

que assegurarão o que na última década evitou a emissão de 1 milhão tone-


ladas de gases de efeito estufa, tinha como desafio inicial
cumprimento da nossa englobar toda a cadeia de negócios, da produção de ma-
térias primas até o pós-consumo das embalagens. O que
responsabilidade desde então já tornava a nossa posição diferenciada é o
fato de priorizarmos a redução das nossas emissões, pois
comum com as acreditamos que diminuí-las traz mais benefícios do que

gerações futuras compensá-las. Isso porque temos a oportunidade de ava-


liar mudanças em nossos processos e produtos, de iden-
tificar tecnologias mais limpas e incentivar a mudança de

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para recompensar
o esforço de todos
atitude de todos aqueles que nos cercam. Com isso, esta-
mos contribuindo para a redução de muitos outros impac-
os colaboradores
tos não contabilizados no cálculo da emissão de carbono,
como aqueles decorrentes, por exemplo, do uso da água.
com o tema, desde
Nosso compromisso de redução engloba toda a cadeia
produtiva, extrapolando as ações para além das nossas 2009 atrelamos
instalações. As emissões que até agora puderam ser re-
duzidas com ações internas são neutralizadas por meio o indicador de
de editais para projetos de compensação de carbono rea-
lizados pela Natura. Em adição à compra de créditos de emissões de GEE à
participação de
carbono de projetos provenientes do mercado voluntá-
rio e regulado, também apoiamos iniciativas de pequena
escala que hoje estão à margem do mercado de carbono,
mas são importantes para o combate às mudanças climá- lucros e resultados
ticas. Para que essas iniciativas sejam elegíveis ao edital,
criamos um conjunto de ferramentas para auxiliar essas (PLR) da empresa
organizações a quantificar o impacto climático do proje-
to proposto.
Ao assumir publicamente o compromisso de reduzir
em um terço as emissões relativas de GEE na atmosfera
até 2013, demos nosso primeiro passo rumo à redução Para recompensar o esforço de todos os colaboradores
da emissão de gases de efeito estufa em nossa cadeia de com o tema, desde 2009 atrelamos o indicador de emis-
produção. A meta foi alcançada e, novamente, a empresa sões de GEE à Participação de Lucros e Resultados (PLR)
se comprometeu a diminuir em mais 33% as emissões até da empresa, estimulando a todos nesse esforço conjunto
2020, em relação ao ano base de 2012. pela redução. O desenvolvimento de produtos passou a
Esse é um exemplo de como um desafio ambiental pode ser acompanhado, desde 2010, por uma calculadora de
ser alcançado ao ser incorporado ao processo de plane- carbono e é exemplo de como o desafio de reduzir as emis-
jamento estratégico e de tomada de decisão da empresa. sões pode gerar inovação.
O desafio de redução das emissões motivou diversas ino- Os resultados que obtivemos até aqui são animadores,
vações e gerou inúmeros aprendizados na Natura. O Pro- mas ainda insuficientes. Desde o início do projeto, foram
grama Carbono Neutro influenciou a criação de um siste- mais de cinco editais e 36 projetos apoiados pela Natu-
ma de gestão do tema em todas as etapas dos processos de ra, com a compensação de 3,4 milhões de toneladas de
desenvolvimento, produção e comercialização dos pro- carbono equivalente. No entanto, sabemos que esse é um
dutos. Quando assumimos esse compromisso, sem pre- desafio global, o qual exige ação cooordenada de todos.
cedentes no Brasil, demos início a uma transformação na Em 2015, no Acordo de Paris, líderes de todo o mundo
gestão do negócio. Fizemos o inventário de nossas emis- reconheceram que ultrapassar o limite de 2°C acima dos
sões em toda a nossa cadeia de valor e trabalhamos com níveis pré-industriais pode trazer consequências catas-
profissionais envolvidos em diversas etapas, inclusive tróficas e, possivelmente, irreversíveis para o planeta.
com fornecedores, para buscar reduções. Escolhemos o Frear o aquecimento global, porém, não será fácil.
carbono por sua transversalidade, que nos permite abor- Temos um papel importante a cumprir. O Brasil, oitava
dar várias frentes, como eficiência energética, e como um maior economia do mundo, abriga 60% da floresta Ama-
direcionador para a escolha de materiais e ingredientes zônica, que desempenha função de reguladora do clima,
para nossos produtos. A ideia é adaptar nossas atividades preservando a umidade do ar. Não basta combater o des-
ao equilíbrio do planeta, privilegiando sua biodiversida- matamento ou reduzir as emissões isoladamente. Nosso
de e fazendo uso consciente e inteligente de seus recursos, futuro depende de um esforço conjunto para equilibrar
mesclando o que há de melhor na ciência cosmética com as dimensões ambientais, sociais, econômicas e culturais.
o conhecimento tradicional das comunidades envolvidas Um esforço que conte verdadeiramente com a participa-
na cadeia de ativos da sociobiodiversidade brasileira. ção de todos: governos, empresas e a sociedade.

HSM MANAGEMENT EDIÇÃO 134-X 13


queremos criar atual no Brasil e no mundo, e destacaram os impactos
socioambientais, discutindo novos modelos de fazer

uma rede de negócios e atitudes inspiradoras para enfrentar as mu-


danças climáticas.
organizações Fazemos isso porque queremos criar uma rede de or-
ganizações interessadas em potencializar suas estraté-
interessadas em gias de compensação de gases de efeito estufa, promo-

potencializar
vendo iniciativas de baixo carbono com impactos so-
cioambientais positivos. É uma iniciativa que está em

suas estratégias linha com a nossa crença de que a geração de impacto


positivo na sociedade e no meio ambiente é um desafio
de compensação coletivo.
O que nos motiva e inspira são iniciativas como o pro-
de gases de jeto Fogões Eficientes, realizado pelo Instituto Perene.

efeito estufa
No Brasil, estima-se que 3 milhões de domicílios de-
pendem de lenha para cozinhar. Os fogões eficientes
são pensados para produzirem o máximo de calor com
menor quantidade de lenha e não deixar que a fumaça
se alastre no ambiente das casas e no pulmão das famí-
lias que o utilizam, beneficiando quase 11 mil domicí-
lios na região, impactando principalmente mulheres e
Atuação ecossistêmica crianças. A economia de tempo que seria gasto na coleta
de lenha chega a 18 horas semanais.
Em 2017, celebramos 10 anos do Programa Carbo- Outro destaque é a iniciativa do Instituto Socioam-
no Neutro e ampliamos nossa atuação. Em uma parce- biental, que engaja indígenas e produtores rurais na
ria inédita com o Itaú Unibanco, apoiado pelo Instituto recuperação das áreas de cabeceiras do Parque Indíge-
Ekos Brasil, lançamos a Plataforma Compromisso com o na do Xingu, no Mato Grosso, o que ajuda a deter o as-
Clima, cujo objetivo é estimular novos parceiros e forne- soreamento das nascentes do rio. Para isso, o programa
cedores a neutralizar suas emissões, por meio de projetos adotou um sistema de plantio de muvuca (mistura de
nas áreas de energia, agricultura, floresta e tratamento de sementes) e agilizou a formação de uma rede de cole-
resíduos, entre outros. Optamos por unir esforços em um tores que comercializa as sementes e gera renda para
edital conjunto, pois acreditarmos que juntos podemos suas comunidades.
gerar impacto positivo na sociedade e no meio ambiente, Esses projetos geram, assim, impactos socioambien-
já que esse é um desafio coletivo. Estamos certos de que tais que vão além da compensação de carbono. No total,
não chegaremos a esse impacto de forma isolada. os impactos sociais e ambientais gerados pelos projetos
A Plataforma busca ainda otimizar recursos, ao com- equivalem a um montante valorado em R$ 1,6 bilhão
partilhar conhecimentos e boas práticas na seleção de de impacto positivo desde o início do Programa Carbo-
projetos socioambientais, conectando-os aos investi- no Neutro, sendo que em média para cada R$ 1 inves-
dores, ao mesmo tempo em que contribui para viabili- tido são gerados R$ 31 de benefícios para a sociedade
zar iniciativas de mitigação dos efeitos climáticos, am- (SROI, 2012). Resultado que contempla os aspectos de
pliando também os benefícios para o meio ambiente e saúde humana, desenvolvimento comunitário, servi-
para a sociedade. Em 2019, mais duas empresas, B3 e ços ecossistêmicos e mudanças climáticas. Os investi-
Lojas Renner, passaram a fazer parte da Plataforma. mentos são relativos apenas aos custos desembolsados
Juntos, realizamos no início de junho a segunda edi- pela Natura na compra dos créditos de compensação.
ção do “Diálogos sobre nova economia”, reunindo em- Para cada tema avaliado foi realizado o mapeamento
presas, organizações e especialistas para debater os dos impactos causados. Os métodos de valoração tra-
desafios e as oportunidades no combate às mudanças duzem a percepção de valor do impacto gerado para as
climáticas. Os debates projetaram o tema no contexto pessoas e o planeta.

HSM MANAGEMENT EDIÇÃO 134-X 14


Queremos cada vez mais conectar as iniciativas e os
projetos de forma a potencializar seus benefícios so-
cioambientais. Foi pensando em conter o desmatamen-
to na Amazônia e estimular o papel do agricultor familiar
para a conservação da vegetação local que desenvolve-
mos o primeiro projeto de pagamento pela compensação
de carbono dentro de sua cadeira produtiva, chamado
de Carbono Circular (ou carbon insetting). O projeto re-
munera as famílias de pequenos agricultores não ape-
nas pela compra de insumos e a repartição de benefícios,
mas também pelo serviço de conservação ambiental.
O projeto foi feito, inicialmente, em parceria com a Coo-
perativa de Reflorestamento Econômico Consorciado e
Adensado (RECA), que reúne produtores rurais de Porto
Velho (RO) e regiões de entorno no Acre e no Amazonas.
Com isso, buscamos ampliar o relacionamento com as co-
munidades fornecedoras de ativos da sociobiodiversida-
de na região e reforçar que é economicamente viável con-
ciliar atividades produtivas e manutenção da floresta em
pé – quanto menor o desmatamento registrado na área,
maior o retorno financeiro dos produtores rurais pelos
serviços ambientais. A iniciativa cria um círculo virtuo-
so, porque traz renda extra para os fornecedores dos in-
gredientes e aumenta a resiliência da cadeia. O objetivo é
que, ao longo desse período, a taxa de desmatamento caia
a zero e que outras áreas possam seguir o mesmo modelo.
Oferecer bens de consumo dentro de uma ética de de-
senvolvimento sustentável, buscando fomentar benefí-
cios socioambientais em cada produto, é a perspectiva
que norteia a Visão de Sustentabilidade da Natura, que
prevê que em 2050 a empresa só terá valor se for gerado-
ra de impacto positivo. O programa Carbono Neutro é um
reconhecido protagonista no meio empresarial e por or-
ganizações do terceiro setor nessa agenda que exige ino-
a Terra é a nossa vação e dedicação.

casa, a única Essa inovação, contudo, precisa ser coletiva. A Terra


é a nossa casa, a única que temos. Não podemos ficar de
que temos. Não braços cruzados, depositando expectativas apenas nas
autoridades. Combater o aquecimento global e os estra-
podemos ficar de gos causados pela ação humana são missões que trans-
cendem o papel dos governos e precisam engajar toda a
braços cruzados, sociedade – pessoas e empresas aí incluídas. E devemos

depositando ir além, fomentando ações de desenvolvimento susten-


tável, como o fortalecimento de economias locais e a pro-

expectativas apenas teção da biodiversidade e dos recursos hídricos. Nosso


destino depende do que faremos daqui para frente, para
nas autoridades cuidar do nosso planeta. O futuro está em nossas mãos.
Vamos construí-lo juntos?

HSM MANAGEMENT EDIÇÃO 134-X 15


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ARTI GO: ESPEC IALISTA C ONV IDA DO

Aquecimento global:
as empresas
e o nosso papel
ACOMPANHANDO NOTÍCIAS E ARTIGOS SOBRE AQUECIMENTO GLOBAL, FICO
SEMPRE COM UM MISTO DE SENTIMENTOS. SE POR UM LADO OBSERVO FELIZ
QUE O TEMA ESTÁ EM PAUTA E QUE A DISCUSSÃO ESTÁ SENDO AMPLIADA,
POR OUTRO ME OCORRE QUE MUITAS EMPRESAS E PESSOAS AINDA NÃO
DESPERTARAM PARA O FATO DE QUE ESSE ASSUNTO É RESPONSABILIDADE
DE CADA UM DE NÓS. POR ISSO RESOLVI ESCREVER ESTE ARTIGO: ELE É
DIDÁTICO, EDUCATIVO ATÉ. MAS MINHA CRENÇA É DE QUE AS GRANDES METAS
DEPENDEM DAS PEQUENAS ATITUDES E ESSE DESPERTAR COLETIVO PRECISA
ACONTECER. HÁ URGÊNCIA E JÁ ESTAMOS ATRASADOS. | POR MARIANA FIERI

C
om 4,5 bilhões de anos e uma população
de aproximadamente 7,2 bilhões de habi-
tantes, nosso planeta Terra, formado por
cinco oceanos e seis continentes, rechea-
dos das mais diversas formas de vida, a cada
ano manda mais sinais de que não está nada bem. Uma
das maiores preocupações ambientais da nossa geração é
o aquecimento global e as mudanças climáticas. As notícias
de desastres ambientais relacionados ao clima são cada vez
mais frequentes, e protestos ocorrem no mundo todo co-
brando a participação de líderes governamentais a toma-
rem atitudes e criarem iniciativas que ajudem a controlar
esse problema.

Mariana Fieri é engenheira ambiental especialista em mudan-


ças climáticas, desenvolvimento de projetos de crédito de
carbono e sustentabilidade empresarial.

HSM MANAGEMENT EDIÇÃO 134-X 16


Entendendo o aquecimento global
De forma resumida, o aquecimento global é o aumen-
to da temperatura média dos oceanos e da camada de ar
próxima à atmosfera. Esse processo é ocasionado, em
grande parte, devido ao aumento das emissões de gases para as
na atmosfera que causam o efeito estufa, como o dióxi-
do de carbono (CO2), o óxido nitroso (N2O) e o metano
empresas que
(CH4). O Efeito Estufa é um processo natural e impor-
tante para a manutenção da vida. A Terra possui uma
se encontram
camada de gases que cobre sua superfície, e a radiação prontas para
solar, quando chega a nosso planeta, atravessa a atmos-
fera. Parte dessa radiação é refletida de volta ao espaço, entrar na
parte dela é absorvida pelos oceanos e pela superfície
terrestre, e uma terceira parte fica retida nessa camada
luta contra o
de gases, ocasionando o Efeito Estufa. Se essa camada
não existisse, o planeta se tornaria extremamente frio,
aquecimento, o
impossibilitando a vida de diversas espécies. Seu des- primeiro passo
controle e consequente agravamento, porém, deixa a ca-
mada de ar na atmosfera mais espessa, e ela retém mais é inventariar
calor no planeta, aumentando a temperatura e ocasio-
nando o aquecimento global. as emissões
Estudos mostram que, antes mesmo da Revolução
Industrial, o planeta já vinha sofrendo com o aque-
cimento. Isso porque, em algumas regiões, povoados to das camadas polares; um terço de espécies animais
antigos utilizaram grande parte dos recursos naturais pode ficar ameaçada de extinção, algumas produções
com o desenvolvimento da agricultura, o desmatamen- de alimentos (trigo, soja, milho) seriam prejudicadas e
to, a caça e a pesca. Quando a Revolução Industrial se populações estariam mais vulneráveis a doenças e des-
instalou, no século 18, a atmosfera passou a receber dia- nutrição. Kiribati, país composto por 33 ilhas na Ocea-
riamente quantidades significativas de CO2, e, dessa nia, será o primeiro a ser submerso pelo oceano em con-
época até os dias atuais, nossa produção cresceu expo- sequência do aumento do nível do mar.
nencialmente, assim como a quantidade de gases po-
luentes liberados na atmosfera. O papel das empresas
Após a compreensão de que a ação antropogênica
provocaria alterações no clima da Terra, foi criado em O mundo corporativo encontra-se num processo de
1988 o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Cli- aprendizagem para o desenvolvimento das melhores
máticas (IPCC, na sigla em inglês). O órgão é composto práticas a fim de combater o aquecimento global. Em-
por delegações de 130 governos e desde 1990 publica bora as grandes corporações estejam preocupadas com
relatórios com estudos que reúnem evidências cientí- essa questão, em especial com a cobrança dos consu-
ficas das mudanças climáticas e o papel do homem, as midores, o cenário geral de iniciativas ainda está longe
consequências para o meio ambiente e a saúde humana do necessário. Um grande número de empresas sequer
e como mitigar as mudanças climáticas. Os cientistas possui uma política ambiental ou ainda um departa-
do IPCC alertam que até o fim do século a temperatura mento ou profissional da área.
média do planeta deverá subir entre 1,8°C e 4°C. Com Contudo, para as empresas que se encontram prontas
o aumento da temperatura, estaremos mais suscetíveis para entrar na luta contra o aquecimento, o primeiro
a desastres ambientais relacionados ao clima, como passo é inventariar as emissões; ou seja, pela conta-
tempestades, enchentes e secas; o nível do mar pode se bilização de gases emitidos durante o período de um
elevar entre 18 e 58 cm, em decorrência do derretimen- ano é possível reconhecer as fontes emissoras diretas

HSM MANAGEMENT EDIÇÃO 134-X 17


O papel do cidadão comum
Todos nós podemos contribuir para o esfriamento do
planeta com pequenas ações cotidianas que reduzem as
emissões de gases do efeito estufa, tais como:

1. Realizar pequenos trajetos a pé, ao invés de utilizar o


carro, ou mesmo pegar ou dar carona para alguém.

2. Apagar as luzes quando sair de ambientes, economi-


zando energia elétrica.

3. Reduzir o consumo de carne bovina, uma das prin-


cipais fontes de emissão de gases no Brasil, tanto por

é primordial o causa do desmatamento associado, quanto devido à


emissão de gás metano produzido no processo de di-
investimento gestão do gado.

em educação 4. Dar preferência a produtos de empresas comprome-


ambiental para tidas com o meio ambiente e que compensem as emis-
sões de sua produção, seja pelo reflorestamento, seja

a mudança de pela compra de créditos de carbono. Se a empresa faz,


com certeza colocará algum informativo na embalagem.
comportamento 5. Evitar consumir copos plásticos, uma vez que eles
da nossa emitem muitos gases na produção e são utilizados por

sociedade, além pouco tempo, muitas vezes apenas para tomar um ca-
fezinho.

de investimentos 6. Comprar roupas, equipamentos e utensílios de se-


em pesquisa, gunda mão também é um jeito prático e eficiente de eco-
nomizar dinheiro e emissões de CO2.
tecnologia e
inovação
Será uma longa caminhada cheia de erros e acertos,
recheada de desafios, para conseguirmos frear o aque-
cimento global. É primordial o investimento em educa-
ção ambiental para a mudança de comportamento da
nossa sociedade, além de investimentos em pesquisa,
tecnologia e inovação para que os processos sejam mais
e indiretas, seja de processos produtivos, seja da gera- eficientes e estejam aptos a utilizar matrizes energéti-
ção de energia, da utilização de frotas de veículos, das cas de fontes renováveis. Nossa responsabilidade com
viagens aéreas, entre outros. Após essa contabilização, o meio ambiente vai desde a utilização ponderada dos
a empresa pode desenvolver uma gestão de carbono e recursos naturais e o consumo consciente de produ-
definir metas de redução e medidas de mitigação. In- tos até a escolha de nossos líderes governamentais e a
corporar a redução de emissões na política ambiental educação que damos aos nossos filhos. O cenário está
da empresa é fundamental, uma vez que a tendência é mudando a favor da natureza e juntos, sociedade, go-
surgirem metas ousadas a serem exigidas pelo governo, vernantes e indústrias, temos o poder de mudar o rumo
conforme o cenário for se agravando. do planeta.

HSM MANAGEMENT EDIÇÃO 134-X 18


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EN TR EVI STA EXCLUSIVA

Prosperidade local
ELISABETH LAVILLE, DA CONSULTORIA FRANCESA UTOPIES, FALA
SOBRE O DESENVOLVIMENTO DE ECONOMIAS LOCAIS E APONTA
CAMINHOS PARA AS EMPRESAS BRASILEIRAS QUE DESEJAM ADOTAR
UMA ESTRATÉGIA PROATIVA NESSE NOVO CONTEXTO. | POR GABRIELLE TECO

D
epois de se formar na Escola de Negó- 2018, uma joint venture firmada com a consultoria em
cios HEC, em 1988, Elisabeth Lavil- sustentabilidade brasileira Rever Consulting, deu ori-
le criou a Utopies em 1993, um think- gem à Utopies Brasil.
-tank e consultoria especializada em de- Em entrevista para HSM Management, Laville fala
senvolvimento sustentável, reconhecida sobre o desenvolvimento de economias locais e apon-
como uma das pioneiras para estratégias de negócios ta caminhos para as empresas brasileiras que desejam
sustentáveis na França. A Utopies também está em pri- adotar uma estratégia proativa nesse novo contexto.
meiro lugar no ranking francês de melhores consulto-
rias de sustentabilidade desde 2011 e nas 25 principais 1. Como o fortalecimento de estratégias de econo-
consultorias francesas para estratégias de marketing mias locais está relacionado à redução dos impac-
(revista Décideurs), e top-20 no ranking mundial dos tos ao meio ambiente? Poderia explicar um pouco a
principais parceiros de relatórios (CorporateRegister. conexão entre esses dois assuntos?
com). Ela também se tornou a primeira empresa fran-
cesa a obter a certificação B Corp, em janeiro de 2014. Quanto mais uma cidade ou região for capaz de forne-
Elisabeth Laville e seu time de 50 pessoas têm tra- cer respostas locais a suas necessidades também locais,
balhado em estratégias e gestão de responsabilidade melhor para o meio ambiente. Isso acontece, em pri-
corporativa para diversos clientes globais, como Ben meiro lugar, porque, se você produzir localmente o que
& Jerry’s, Danone, Carrefour, Sodexo e L’Oréal. Mar- é consumido localmente, precisará de menos impor-
cas brasileiras também figuram nessa lista, pois, desde tações, o que significa menos caminhões nas estradas

HSM MANAGEMENT EDIÇÃO 134-X 19


para bens sibilitam uma
rastreabilidade

manufaturados, completa até a


origem, ou seja,

uma ótima maneira uma visualização


de onde eles vêm e
de desenvolver de como foram pro-
duzidos, o que faz com
respostas locais que os consumidores te-
nham mais confiança nos
às necessidades produtos. Segundo uma pes-

é fomentar novos
quisa da Kantar feita em 44 paí-
ses, as marcas locais correspondem a

modelos de negócios, 46% do consumo global e crescem duas vezes


mais rápido do que as marcas internacionais! Isso é

como os da economia algo que pode ser encontrado no mercado de cervejas


dos Estados Unidos, por exemplo, em que cervejas ar-
circular, e a economia tesanais locais representam 25% do mercado.
Acredito que as pessoas também têm tentado comba-
de serviços ter a padronização cultural, promovendo cada vez mais
as culturas locais – o que é melhor feito por meio de mar-
cas também locais. Além disso, ter acionistas e funcioná-
rios locais também significa que qualquer euro, dólar ou
transportando os produtos, menos congestionamento, real gasto com a empresa terá um maior impacto socioe-
menos poluição, menos emissões de CO2 e, consequen- conômico (por exemplo, geração de empregos, PIB etc.)
temente, menor impacto climático. Produzir e consu- na região. Isso acontece porque o dinheiro permanecerá
mir em âmbito local também significa aumentar a re- na economia local e seu efeito multiplicador terá mais
siliência da cidade ou da região e, consequentemente, impacto na própria região em questão.
diminuir sua vulnerabilidade e sua dependência de ou-
tros mercados. 3. Quais são os casos mais emblemáticos desse tipo
Para bens manufaturados, uma ótima maneira de de- de ação focada localmente? Quais foram os impac-
senvolver respostas locais às necessidades é fomentar tos ambientais, sociais e econômicos?
novos modelos de negócios, como os de economia cir-
cular (em que resíduos ou produtos que não foram uti- Um exemplo recente é um projeto que fizemos em
lizados são transformados em recursos) e a economia 2018, quando a Utopies avaliou, com sua ferramenta
de serviços (em que você utiliza ao máximo os produtos Local Footprint®, os impactos econômicos e ambien-
disponíveis localmente, compartilhando-os e, assim, tais do “Ecossistema de Darwin”, um lugar dinâmico e
aumentando o número de usuários que se beneficiam vibrante em Bordeaux (França), que é dedicado a pro-
de um único produto). mover um desenvolvimento responsável da economia
local e uma transição social e ecológica. O estudo pro-
2. Essa é uma temática que tem crescido bastante vou, por exemplo, que o maior restaurante orgânico
internacionalmente, principalmente em países euro- da França, que está no Ecossistema de Darwin, apoia,
peus. Por que esse assunto tem ganhando tanta força? graças a sua política de compras locais e orgânicas, a
manutenção de até 40% a mais de empregos na região
Primeiramente, há um interesse crescente dos con- metropolitana de Bordeaux em comparação com um
sumidores em todos os mercados, incluindo o de ali- restaurante convencional. O estudo ajudou significa-
mentos, por marcas e por produtos locais. Esse interes- tivamente as partes interessadas a entender melhor as
se vem, na maioria das vezes, porque tais produtos pos- externalidades ambientais do Ecossistema e a valori-

HSM MANAGEMENT EDIÇÃO 134-X 20


zar seus efeitos socioeconômicos locais positivos, com descobertas mostram que atrair riqueza de fora é, natu-
mais de 1 mil empregos diretos, indiretos e induzidos ralmente, um pilar importante e necessário para uma
mantidos localmente. economia local ativa e próspera. No entanto, a atração
Em termos mais gerais, também realizamos vários es- da riqueza externa, por si só, não explica nem susten-
tudos na França, nos EUA e em outras áreas do mundo ta a prosperidade da região. De fato, não só a riqueza
(por exemplo, nas Ilhas Maurício) para entender pro- local depende da capacidade da região de atrair renda
fundamente três fatores: 1. Como a riqueza é gerada em internacional (de exportações, de mão de obra, empre-
um território específico, podendo ser um país, uma ci- sas etc.), mas também depende da capacidade da região
dade ou até mesmo uma região); 2. Quais são os meca- de circular a riqueza localmente – nesse caso, a renda
nismos geradores de riqueza; 3. Quanto dessa riqueza é que entra na região gera mais riqueza localmente, o que
gerada a partir dos circuitos econômicos locais. Nossas acabada gerando novas trocas e mais renda, criando um
ciclo virtuoso entre os atores da economia local, até que
esse efeito cascata desapareça. Isso é o que chamamos de
efeito multiplicador local, que quase em todo o mundo
está indo para baixo. Sem esse efeito, a região funciona
como um “balde furado” que é incapaz de manter a rique-
za que entra e beneficia sua economia local.
Nossos estudos também mostraram que a econo-
mia local é responsável por um terço da prosperidade
local – parcela enorme e, na maioria das vezes, abso-
lutamente desconsiderada pelas agências e pelas auto-
ridades de desenvolvimento econômico. Nem mesmo
um terço do orçamento de desenvolvimento econômi-
co é dedicado a impulsionar a economia local, apesar
do fato de já existirem muitas soluções para isso, como
microfábricas, fab labs, incubadoras e outras soluções
para produzir localmente até mais do que é consumido
localmente. Outras soluções são as chamadas “circula-
res”, destinadas à reparação, reciclagem ou reutiliza-
ção de resíduos, além de tudo que possa ajudar a criar
valor em vez de produtos, como modelos de negócio
baseados em soluções digitais (peer to peer, platafor-
mas colaborativas, aplicativos descentralizados atra-
vés de blockchain ou inteligência artificial). Isso é bom
NOSSOS ESTUDOS para o emprego e para a economia local, mas também

MOSTRAM QUE A cria um modelo de economia e consumo menos inten-


sivo em CO2. Sabemos que, com base no Protocolo de
ECONOMIA LOCAL Kyoto, por exemplo, as emissões de CO2 são calculadas
com base no que é produzido no país, portanto, não se
É RESPONSÁVEL leva em consideração o que é consumido, mesmo con-
siderando que essas emissões baseadas no consumo
POR UM TERÇO DA aumentariam significativamente (chegando a mais de

PROSPERIDADE DE 40% na França, por exemplo) as emissões territoriais!


Por fim, esses modelos de negócios novos e “mais lo-

UMA REGIÃO cais” também são menos dependentes de matérias-pri-


mas internacionais por meio de importações, que ex-
põem a região/país à escassez de recursos e aos riscos
climáticos e também geopolíticos.

HSM MANAGEMENT EDIÇÃO 134-X 21


VEJO ESPAÇO
PARA AS MARCAS
SEREM MAIS
PROATIVAS
E TRAÇAREM
ESTRATÉGIAS
PARA MAXIMIZAR
A PRODUÇÃO OU
A GERAÇÃO DE
IMPACTO LOCAL

4. Sabemos que você vem com frequência ao Brasil e focarmos apenas na globalização, perderemos uma di-
que tem uma empresa sediada em São Paulo. Quais mensão fundamental. No entanto, pelo que tenho visto
são as oportunidades aqui no país para trabalhar a no Brasil, marcas que produzem localmente nem men-
temática, e como isso pode ajudar a solucionar os cionam isso para os consumidores locais, como se fosse
grandes desafios socioambientais brasileiros? irrelevante para o mercado. Mas não acho que seja ir-
relevante quando lidamos com desafios ambientais e
econômicos. Vejo espaço para as marcas serem mais
O Brasil tem problemas de desemprego e pobreza, proativas e traçarem estratégias para maximizar a pro-
mas também é um país grande, com marcas fortes e dução ou a geração de impacto local.
dinâmicas que fabricam muitos bens e produtos, con-
siderando alimentos, cosméticos, têxteis ou produtos 5. Para as empresas que se interessam em trilhar
industriais. Eu diria que promover o “feito no local” esse caminho, quais seriam as recomendações prá-
(Made in Brazil, Made in Rio, Made in Ceara etc.) seria ticas para construir um caso de sucesso?
muito relevante para explicar aos consumidores que
eles, de fato, escolhem, todos os dias, de acordo com o Acredito que há dois elementos fundamentais para
que compram, o mundo, o país e a região em que que- qualquer empresa que queira iniciar um trabalho mais
rem morar. Se eu comprar um produto local, sei que direcionado ao desenvolvimento local: 1. Engajamen-
o dinheiro vai ficar na comunidade e circular melhor, to e inovação entre as partes interessadas locais, em
criando empregos para minha família e meus amigos, todos os horizontes, tais como ONGs sociais e am-
mais locais prósperos, mais conexões entre as pessoas bientais, autoridades locais, grupos de cidadãos lo-
e, portanto, mais coesão social, o que torna a comuni- cais, instituições de ensino, startups e incubadoras,
dade mais resiliente em situações de crise. empresas locais pequenas ou grandes; 2. Metas cor-
Essa lógica não significa não importar ou não expor- porativas radicais, a fim de impulsionar a mudança
tar mais: não se trata de escolher entre a globalização e inspirar outras pessoas, como decidir mudar para
ou o local, mas sim ter o melhor dos dois mundos. Hoje, 100% de energia renovável produzida localmente, tor-
como eu disse, um terço da geração de riqueza local de- nar-se uma empresa 100% circular, definir uma meta
pende da força da própria economia local, portanto, se de resíduo zero etc.

HSM MANAGEMENT EDIÇÃO 134-X 22


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EN TR EVI STA EXCLUSIVA

“Queremos ser a
empresa de energia
para os Millennials”
BRUNO SUZART, BRASILEIRO QUE DESEMBARCOU NO JAPÃO EM 2016
PARA TRABALHAR NA SHIZEN ENERGY, HOJE RETORNA AO NOSSO
PAÍS COMO COUNTRY MANAGER E FALA SOBRE ESTRATÉGIA E IMPACTO
SOCIAL NO PROCESSO DE GERAÇÃO DE ENERGIA RENOVÁVEL.

Q uem não se lembra do terremoto que


provocou um tsunami devastador no
Japão em 2011? Além de mortes e muita
destruição, o desastre, que ainda causou
1. Por que investir em energia renovável?

A necessidade de energia no mundo todo continua cres-


cendo. O Brasil deve dobrar sua capacidade de produção em
um acidente na usina nuclear de Fukushima, acabou vinte anos, por exemplo. Do ponto de vista do capital, novos
servindo de inspiração para três executivos que na investimentos em geração de energia serão em grande parte
época trabalhavam em uma usina eólica. Apenas três impulsionados por fontes e tecnologias de geração com boas
meses após o tsunami, eles largaram seus empregos e capacidades de retorno financeiro, e que atendam a reque-
fundaram a Shizen Energy. rimentos de financiadores e investidores. Um mercado em
Na época, o Japão precisou desconectar mais de 50 crescimento, em que os custos caem e a demanda cresce con-
usinas nucleares e o foco da Shizen, desde então, tem tinuamente é, certamente, um bom negócio. As matrizes re-
sido o de propagar energia renovável para suprir essa nováveis provavelmente vão capitanear o investimento em
necessidade e também renovar a matriz de geração geração de energia nas próximas décadas. Isso é um pouco
de energia do país. O brasileiro Bruno Suzart, que em da lógica que precisamos usar para trazer investimentos
2016 tinha apenas 23 anos e se mudou para o Japão para o setor. Os motivos mais importantes, entretanto, não
para trabalhar na Shizen, hoje conta com orgulho os estão ligados à otimização da distribuição de capital, mas
avanços da empresa que está desembarcando por aqui. sim à nossa responsabilidade em relação à qualidade de vida
Como country manager no Brasil, Suzart compartilha no planeta. Não é só o trabalhador que pode deixar de passar
com HSM Management os planos de investimento da anos dentro de uma mina de carvão, mas também a família
empresa em nosso país, e destaca o papel social da Shi- que pode respirar ar limpo, que não vai precisar se mudar
zen no desenvolvimento das comunidades em que a para evitar o alagamento causado por uma megausina, que
empresa se instala. vai poder beber água limpa, comprar peixe no supermerca-

HSM MANAGEMENT EDIÇÃO 134-X 23


as fontes renováveis receber um inves-
timento nosso. Al-
abriram caminho guns fatores im-

para uma revolução pulsionaram nossa


escolha: a diferença
na forma como entre os custos de

produzimos e
capital (o capital no
Japão é relativamente
consumimos energia, barato), mudanças regu-
latórias incentivando a ins-
tornando possível talação de novas usinas, o fato
trazer de volta a de ser um mercado relativamente
novo, em que nem todos os investidores
produção de energia e outros participantes do mercado de infraestru-
para os locais tura têm capacidade ou incentivo o suficiente para entrar, e,
obviamente, o fato de eu ser brasileiro. Isso passa batido às
onde há demanda, vezes, mas a disponibilidade de conexões pessoais em novos
em um modelo mercados é um catalizador importantíssimo para o desen-
volvimento de negócios. Em suma, alto potencial no merca-
descentralizado do, ainda muito do know-how da indústria para ser desco-
berto, e poucos players internacionais, de forma que nossa
intervenção pode gerar bastante valor. O Brasil foi o segundo
do sem medo de contaminação, e por aí vai. Na verdade, as mercado em que decidimos investir. Hoje temos projetos na
fontes renováveis abriram caminho para uma revolução na Indonésia e desenvolvimentos na Malásia, no Vietnã, nas
forma como produzimos e consumimos energia, tornando Filipinas, nas Ilhas Salomão, nos Estados Unidos e outros.
possível trazer de volta a produção de energia para os locais De forma similar, e apesar de Brasília ser estrategicamen-
onde há demanda, regressando a um modelo descentrali- te importante, do ponto de vista de track record, decidimos
zado. Esse tipo de investimento faz justamente o que temos instalar nosso primeiro projeto em Brasília por conta da dis-
tentado criar com o nosso trabalho: conectar o capital global ponibilidade de conexões pessoais, que acarretaram na cria-
e impactar positivamente as comunidades, gerando novas ção de uma parceria com uma empresa local, que foi coin-
oportunidades de emprego e negócios. É uma nova econo- vestidora no processo. Enxergamos Brasília como uma das
mia a ser construída. E, claro, há o aquecimento global. Que- localidades com maior potencial de instalação fotovoltaica,
remos fazer o possível e o impossível para aplacar os efeitos ainda, como quase todo o Brasil, inexplorada.
do processo, e descarbonizar a nossa produção de energia é
um passo necessário. 3. Como será a operação brasileira da Shizen? O modelo
de negócio será similar ao que há hoje no Japão?
2. A Shizen está chegando no Brasil. Conte-nos como foi
o processo de decisão para a entrada no país e por que No Japão, onde começamos, há um incentivo por parte
escolheram Brasília como primeira cidade a receber esse do governo chamado Feed-in Tariff. Basicamente o gover-
investimento. no força as concessionárias de energia a assinar contratos
de vinte anos com as novas usinas de geração renovável, a
Já chegamos! Temos uma subsidiária, parceiros, e uma preços fixos. Isso gera um nível de segurança suficiente para
usina fotovoltaica que acaba de ser conectada ao sistema em que desenvolvedores construam e investidores decidam ad-
Brasília. Há poucos mercados com capacidade acima de al- quirir projetos. O Japão iniciou em 2012 com uma tarifa pró-
guns gigawatts para desenvolvimento de nova geração re- xima de R$ 1,50 por cada kWh, que é bastante alta. Hoje, sete
novável no mundo, e dentro dos mercados não membros da anos depois, há mais de 70 GWp instalados no Japão. Para
Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econô- efeito de comparação, o Brasil tem 2 GWp instalados em
mico (OCDE), o Brasil é o que está na melhor posição para energia solar. Hoje o preço do Feed-in Tariff no Japão está

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perto de R$ 0,55 por kWh, ainda bastante alto em compara- no risco inicial dos projetos, na fase de desenvolvimento, e
ção com o resto do mundo. Com uma garantia de que os pro- nos valendo da nossa disponibilidade e custo de capital para
jetos construídos terão um contrato que compra 100% da ter uma vantagem competitiva. Outra coisa que diferencia
energia a esse preço por vinte anos, as empresas têm bastan- o mercado brasileiro é que, na nossa estratégia, decidimos
te espaço para desenvolver novos projetos. Ainda, a disponi- não investir em projetos de geração centralizada, que são os
bilidade de alavancagem com juros baixos, sem necessidade projetos em que desenvolvedores competem nos leilões de
de geração de passivo para desenvolvedores ou investidores venda de energia, e assinam contratos de longo prazo com
ajuda a retirar mais risco do modelo de negócios. Daí para as concessionárias no Brasil (similar ao Japão, porém com
frente as usinas fotovoltaicas são tratadas mais como um o leilão no meio). Decidimos entrar no mercado de geração
produto financeiro de baixo risco, comparável a um Fundo descentralizada aqui, ou seja, cada contrato, cada usina, tem
Imobiliário, e há uma separação bem clara entre os papéis um cliente individual. O esforço comercial para esse modelo
de cada stakeholder no desenvolvimento e na construção é obviamente maior, mas também é a nossa competitivida-
dos projetos. No Japão somos quase que um one-stop shop, de, dado que a maioria dos participantes no mercado não
fazemos o desenvolvimento das usinas, a construção, a ope- tem a mesma experiência, ou disponibilidade de capital que
ração, a manutenção, a gestão dos ativos, e somos investi- temos. Oferecemos aos nossos clientes um benefício direto
dores. No Brasil o mercado ainda não é tão maduro, e nosso de redução de custos com energia, e assumimos o risco de
entendimento é que podemos adicionar mais valor focando operação das usinas fazendo os investimentos com capital
próprio. Nossos clientes não precisam investir nada, nem se
tornar gestores de usinas. Esse trabalho fica todo conosco.
Na verdade, o mercado de contratos bilaterais não é novida-
de, só é diferente do que existe do outro lado do mundo para
nós. Há mais risco envolvido, e depende ainda mais de co-
nexões já existentes com clientes em potencial. Mas estamos
conscientes e preparados para superar o desafio!

4. Já existe um plano de expansão da Shizen no Brasil?

Sim! Queremos instalar 20 MWp em usinas solares nos


próximos meses (mais ou menos umas 6.000 casas). Até
2022, nosso plano é fazer dez vezes isso, que seria mais ou
menos um investimento acumulado de quase 1 bilhão de
reais nos próximos dois anos. Isso geraria cerca de 300 GWh
por ano depois de instalado, o suficiente para abastecer mais
no brasil o ou menos 0.001% do que consome a cidade de São Paulo em
um ano, ou 85.000 toneladas de carbono por ano. Também
mercado ainda temos interesse em expandir para áreas correlatas, como
transmissão e distribuição, outras fontes renováveis, mobi-
não é tão maduro, lidade, e nos envolver com negócios indiretamente conecta-

e podemos adicionar dos, como construção civil.

mais valor focando 5. Li um material de vocês que diz o seguinte: “Nosso


empenho não termina apenas com a criação de energia,
no risco inicial cuidamos de tudo aquilo que está ao redor da energia

dos projetos que criamos, da qualidade de vida de comunidades às


indústrias locais”. Na prática, o que isso significa?
Isso na verdade é provavelmente a parte mais im-
portante do nosso propósito, especialmente por conta

HSM MANAGEMENT EDIÇÃO 134-X 25


de onde queremos estar no futuro. Tudo começou com
um programa que chamamos de “1% para a comunida-
de”. A geração de energia e especialmente os projetos
que temos desenvolvido são extremamente conectados
às comunidades onde eles são instalados. Ao longo do
tempo começamos a aprender como lidar com as comu-
nidades locais, o que era importante, o que fazia dife-
rença, e também como os nossos projetos impactam a
vida das pessoas. São dezenas ou centenas de empregos
durante a construção, e mais outros durante a operação
dos projetos, isso sem falar na quantidade de impostos
pagos, dinheiro disponível em bancos locais, disponi-
bilidade de energia etc. O “1% para a comunidade” foi
a nossa prova de que o relacionamento com essas co-
munidades era essencial para o sucesso dos projetos.
Começamos a doar, ou melhor, investir, 1% da renda
de cada projeto para as comunidades onde eles foram
construídos. Isso resultou em várias coisas interessan-
tes. Hoje somos sócios de uma cervejaria, de fábricas
de chips feitos com vegetais locais, uma loja de sucos
(bem incomum no Japão) e um instituto focado em es-
colas. Conforme o nosso entendimento sobre o nosso
papel na indústria melhorou, aprendemos que na ver- 6. Qual o sonho grande da Shizen? Qual legado a empresa
dade o que queríamos fazer não precisava estar limi- deseja deixar para o mundo?
tado a gerar energia. Aprendemos que, inclusive por A Shizen quer ser a empresa de energia para os Millen-
meio do “1% para a comunidade”, o valor que geramos nials. O mercado de geração, transmissão e distribuição de
de verdade está em mudar a maneira como as pessoas energia é um mercado que já existe há mais de 150 anos e que
se relacionam com a energia. Isso modifica completa- muda pouco. Há inovação, novas tecnologias e processos,
mente a cara do nosso trabalho. Passamos a nos preo- de forma limitada, mas você não associa jovens, processos
cupar não só com o custo da terra onde construímos, disruptivos e o futuro do trabalho a conglomerados gigan-
mas também com as estradas próximas, a produção tescos de concessionárias provedoras de serviços públicos e
agrícola ou de piscicultura local, passamos a educar de infraestrutura, incluindo energia. Queremos mudar isso.
as comunidades, e estamos numa fase em que o pro- Energia é um assunto importante demais e é necessário criar
pósito da empresa passa, e tem que necessariamente uma ponte entre a geração de gerentes e líderes hoje, e a gera-
passar, por construir comunidades que sejam compa- ção que vai realmente receber o planeta nas mãos para gerir.
tíveis com energias renováveis. Hoje temos parcerias Queremos usar a energia para empoderar comunidades, a
com empresas que constroem e gerenciam bibliotecas caminho da transição energética para um mundo 100% pro-
e livrarias, que vendem móveis feitos de materiais re- vido por energia renovável. Temos um plano meio megalo-
ciclados, escolas, marcas de produtos de beleza, gente maníaco de estar em 196 países até 2030, e para isso temos
que compartilha dos nossos valores e de nossa cultura. que acertar a mão em como tornar o nosso modelo de negó-
Uma das vertentes desse tipo de parceria é que estamos cios replicável. Queremos ser uma companhia totalmente
construindo casas que usam menos energia, procuran- autogerida, formada por pessoas conectadas com nosso pro-
do gerar mais disponibilidade de renda para famílias pósito. Fundamentalmente, queremos ser uma plataforma
no norte do Japão. Entender o impacto na qualidade de aceleração de modelos de negócio que propaguem ener-
de vida de uma família, que agora pode deixar de usar gia renovável e ajudem a manter o planeta azul, queremos
casaco dentro de casa ou que pode deixar os filhos lerem usar nossos recursos e experiência aqui no Japão para ativar
um livro até um pouco mais tarde, é o nosso jeito de indivíduos ao redor do mundo que se conectem com a nossa
fazer negócios. missão, que muito mais que lucrativa, é justa..

HSM MANAGEMENT EDIÇÃO 134-X 26


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EN TR EVI STA EXCLUSIVA

Papel Semente:
o lixo que floresce
ANDRÉA CARVALHO, SÓCIA-FUNDADORA DA PAPEL SEMENTE, CONTA OS DESAFIOS
PARA EMPREENDER NO BRASIL UM NEGÓCIO QUE, HÁ DEZ ANOS, ERA NOVIDADE
POR AQUI: PRODUTOS FEITOS A PARTIR DE PAPEL RECICLADO “CRAVEJADO”
DE SEMENTINHAS DE FLORES, HORTALIÇAS E TEMPEROS. | POR GABRIELLE TECO

T odos os dias toneladas de lixo são descarta-


das no Brasil e, apesar de 30% desse volu-
me ter potencial para ser reciclado, apenas
3% de fato é reaproveitado, segundo dados
empreendedora em um negócio sustentável no Brasil e divi-
de conosco seus sonhos e seus planos para o futuro.

1. Como surgiu a ideia de fundar a Papel Semente?


do Plano Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Andréa
Carvalho decidiu fazer algo a respeito dessa realidade. Com Iniciei como voluntária em uma instituição que fazia papel
outros dois sócios, fundou a Papel Semente e, há dez anos, reciclado artesanal com a comunidade em torno de um lixão,
segue batalhando para que um papel, que seria descartado em Atibaia, cidade do interior de São Paulo onde eu morava.
de qualquer forma (como um folder ou um convite), possa Com o tempo, passei a fazer oficinas para ensinar as pessoas
germinar uma nova vida. Seus produtos, todos cravejados e também coordenar projetos socioambientais. Foi nessa
de sementes de manjericão, pimenta ou margarida, são pro- época que Paulo Candian, meu marido que depois se tornou
duzidos a partir de papel reciclado e o descarte, ao invés de meu sócio, viu uma ação da Honda na Inglaterra que utili-
lixo, vira um ato de cuidado e amor: picar, plantar, regar zava o papel semente. Pesquisamos e vimos que no Brasil
e florescer, respeitando o ciclo da natureza e contribuindo não tinha ninguém produzindo, e que era uma oportunidade
com um futuro mais sustentável. Em entrevista para a HSM ainda inexplorada. A ideia surgiu em São Paulo, mas, como
Management, Andréa conta os desafios de ser uma pequena sou de Niterói e meu filho único estava querendo se mudar

HSM MANAGEMENT EDIÇÃO 134-X 27


para o Rio para estudar e ficar mais perto do pai, Luis Fe-
lipe, que também se tornaria meu sócio, decidimos iniciar
a Papel Semente no Rio. Meu ex-marido tinha um galpão
na comunidade de Guaxindiba e decidiu empreender esse
sonho com a gente.

2. Quais foram os primeiros desafios enfrentados? trabalhamos com


Estávamos só iniciando e, por dia, eu já recebia cerca de matéria-prima
30 a 35 currículos de pessoas da comunidade sem nenhuma
qualificação. Isso me assustou, mas também me fez perceber
reciclada, o que
uma oportunidade de desenvolvimento que deu origem ao
nosso projeto de geração de emprego e renda. Passamos a
gera impacto zero
capacitar as pessoas antes mesmo de contratá-las e, mesmo no meio ambiente
quem não era admitido, obtinha ao menos uma qualifica-
ção para procurar outras oportunidades. Temos orgulho de e ainda contribui
dizer que o nosso líder de expedição, por exemplo, começou
conosco nesse processo de capacitação e hoje exerce uma
para diminuir o
função importantíssima em nossa operação. volume de rejeitos
3. Conte-nos mais sobre o seu produto nos aterros e
A Papel Semente trabalha com matéria-prima reciclada, lixões
o que gera impacto zero no meio ambiente e ainda contribui
para diminuir o volume de lixo nos aterros e nos lixões. Esti- onde estava a pobreza o lixo também estava. Ter descoberto
mular o consumo de um papel fabricado a partir de material o papel semente me mostrou que era possível fazer algo para
reciclado reduz a poluição do ar em 95% e utiliza 50 vezes mudar a realidade das comunidades, de um jeito consciente
menos água e energia. Além disso, a cada tonelada de papel e sustentável.
reciclado, evita-se o corte de cerca de vinte árvores. Nosso
produto é feito a partir de restos de aparas de papel de grá- 5. E como tem sido o desempenho da empresa em
ficas e de papéis jogados fora por empresas e residências. tempos de economia instável?
Quem coleta nossa matéria-prima é a Recooperar, coope-
rativa de catadores de material reciclável, que faz parte da Há cinco anos, estávamos com a empresa bem enxuta, os
ONG Guardiões do Mar. A parceria, além de apoiar a geração recursos eram limitados, portanto, decidimos focar em pla-
de renda e trabalho para muitos catadores, colabora para a nejamento com metas claras e investir em posicionamen-
limpeza e a preservação das praias, dos rios e das lagoas das to de marca. Esse início mais contido foi fundamental para
cidades de São Gonçalo e Niterói. As mulheres da comunida- segurar a empresa, que só não quebrou por conta da quali-
de são responsáveis pelo manuseio e pelos acabamentos dos dade do produto. Passada essa crise, nos últimos três anos
pedidos. Hoje temos uma líder da comunidade que é MEI a Papel Semente registra um crescimento anual acima dos
(Microempreendedora Individual) e retira os trabalhos na dois dígitos, e nossa expansão se dá tanto em volume de ven-
fábrica repassando a outras mulheres. das quanto em número de clientes. Além de nosso empenho,
credito esse resultado a alguns fatores, tais como: o consu-
4. Com tantas ideias e oportunidades de mercado, midor está cada vez mais “antenado” e valorizando negócios
por que vocês decidiram investir em um setor ligado sustentáveis; ele já entende melhor o valor agregado que
ao meio ambiente, com apelo sustentável? produtos sustentáveis têm; como a concorrência aumenta
e os recursos estão escassos, as empresas estão investindo
Acredito que foi pela experiência na ONG lá em Atibaia. O em posicionamento, para se diferenciarem – aí a comunica-
que eu havia visto era que onde tinha lixo, tinha pobreza, e ção sustentável de nossos produtos, como convites, folders,

HSM MANAGEMENT EDIÇÃO 134-X 28


comprar da gente, mas antes nos pediu para comprovar que
a semente realmente germinava. Resultado: o processo de
negociação durou mais de oito meses, pois fizemos desde a
produção do papel semente, o plantio, o cuidado, até que as
primeiras plantinhas começassem a aparecer. Documenta-
mos tudo em relatórios para que o projeto, que foi criteriosa-
mente avaliado, pudesse ser aprovado. Levou tempo: nosso
e da natureza, mas no fim deu certo e a conquista dessa conta
foi um marco na história da Papel Semente.

8. Quando a sustentabilidade começou a ser pauta


dentro das empresas, houve muito questionamento
se não seria esse um modismo, um tema passagei-
ro. Qual a sua opinião sobre isso? A sustentabilida-
de veio para ficar?
crachás, cartões etc. fazem toda a diferença –; e, por último
e não menos importante, em tempos tão difíceis no Brasil,
receber um produto nosso, em que o cidadão é incentivado A sustentabilidade já se estabeleceu, não tem mais volta.
a plantar, colher e semear, acaba sendo um alento e uma es- Temos instituições sérias e estudos que comprovam que
perança para tempos melhores. precisamos rever nossos hábitos de consumo. Por exemplo:
os oceanos do mundo estão se afogando em plástico. A Ellen
6. Qual o produto carro-chefe e o setor responsável MacArthur Foundation estima que, até 2050, o mar terá
pelo maior volume de vendas de vocês? mais peso em plástico do que em peixes.
Em Fernando de Noronha, por exemplo, já foi proibido o
uso de plástico. Temos a notícia trágica, mas também vemos
Se falarmos em semente, nosso carro-chefe é o cravinho vários grupos agindo, pensando e repensando. O movimen-
francês, uma semente resistente e de fácil germinação. Do to está acontecendo, não dá para voltar atrás. A consciência
sul ao nordeste, ele germina e floresce. Em produtos, o forte está sendo ampliada e, com isso, buscamos maneiras mais
ainda são folders e materiais para campanhas promocio- sustentáveis de consumo. E as empresas, que antes po-
nais. E, nos últimos três anos, vem crescendo o cliente de diam entrar nessa onda apenas para aparecerem “bonitas
TAGs/etiquetas, o que para nós é relevante, pois é um pro- na foto”, precisam mostrar que estão fazendo sua parte. O
duto que gera venda recorrente. consumidor está ligado e as redes sociais fazem as notícias
viajarem na velocidade da luz.
7. Como é a relação da venda no B2B? Além dos pro-
dutos, as relações também são sustentáveis? 9. Vocês são uma empresa certificada pelo Sistema
B. Qual a importância de fazer parte desse ecossis-
tema e de possuir esse selo?
A parte mais difícil dessa relação ainda são os prazos de
pagamento. Imagine o que significa para uma pequena em-
presa precisar esperar 60 a 90 dias para receber. Mas, com Esse selo certifica empresas que, assim como a Papel Se-
planejamento, dá para se organizar e manter uma relação mente, estão redefinindo o conceito de sucesso nos negócios
saudável com esses clientes. São eles que fazem nossa roda e criando uma nova identidade de mercado, a identidade B.
girar e nos provocam a ser cada vez melhores, seja em nosso Para tanto, cumprem altos padrões de performance e são
processo produtivo, seja na logística de entrega, pois aten- avaliadas por meio de um processo de certificação global que
der grandes volumes é um desafio diário. Além do prazo de analisa cinco principais áreas: modelo de negócios, comuni-
pagamento, eu citaria também a exigência de algumas em- dade, meio ambiente, governança e funcionários.
presas na comprovação dos benefícios dos nossos produ- Estar nesse ecossistema fortalece pequenos negócios,
tos. Certa vez, uma das maiores perfumarias do Brasil quis como a Papel Semente, pois nos coloca no jogo de igual para

HSM MANAGEMENT EDIÇÃO 134-X 29


meu grande
sonho: continuar
crescendo para
empregar mais
e mais pessoas,
e poder vê-las
realizando seus
sonhos
igual com grandes empresas que também têm a mesma
certificação. A Natura e a Mãe Terra, por exemplo, apesar
de serem muito maiores que a Papel Semente, sentam na
mesma mesa conosco e com as mesmas condições de nego- 11. Como empreendedora, o que motiva você? Qual
ciação. Viramos pares. Isso é sensacional para uma peque- o seu propósito e que legado você quer deixar para
na empreendedora. Como todo selo ou certificação, ter uma o mundo?
instituição séria atestando o seu trabalho e reforçando que a
empresa realmente entrega o que ela promete, ajuda demais
no nosso relacionamento com o mercado. Sou uma pessoa que sempre gostou de gente, de ajudar
pessoas. E o meu negócio me permite realizar isso por meio
10. Como é empreender um negócio com apelo sus- da geração de emprego. Sabe aquele ditado que diz “quem
tentável no Brasil? ama cuida”? Então, como viver nesta casa maravilhosa cha-
mada Terra e não cuidar dela? Como olhar para o outro e não
cuidar dele? Como olhar para as plantas e não cuidar delas?
Fácil não é, mas sempre digo: é possível. Respire fundo, Os rios, os mares, os oceanos… Para a Papel Semente a cultu-
planeje, seja embasado por fatos e dados, ateste, conteste; ra do cuidar é o grande exercício do amar. Fazemos negócios
mas, acima de tudo, acredite que o que você faz pode fazer assim: com cuidado e amor. Esse é o legado que quero deixar.
diferença neste mundo. No início, as pessoas comparavam
muito o preço do papel semente com o papel comum. E eu 12. Para onde caminha a Papel Semente? Quais são
dizia: “Como você pode comparar algo que tem vida com os próximos passos e os seus sonhos para o seu
algo que vai virar lixo?”. E eu realmente acreditava (e sigo negócio?
acreditando) nisso, mas nem por isso deixei de fazer a minha
parte. Em 2011, investimos em pesquisa e conseguimos re-
duzir o custo do produto em 40%, e essa redução foi repassa- Completamos dez anos e estamos em processo de interna-
da ao mercado. Este ano completamos dez anos de Papel Se- cionalização. Temos um projeto desenvolvido em parceria
mente, e continuo tendo muito prazer em atender às grandes com a University of Illinois (Estados Unidos) que está saindo
empresas, mas também me orgulho em fornecer pequenas do papel. Vamos lançar nosso e-commerce na Europa até o
quantidades para quem deseja uma lembrancinha de ma- fim do ano. O meu grande sonho: continuar crescendo para
ternidade ou um convite de casamento diferentes. Acredito empregar mais e mais pessoas e poder vê-las realizando seus
que o papel semente é um grande sensibilizador para as cau- sonhos. Nossa fábrica fica em uma comunidade que tem a
sas ambientais e sociais, portanto, precisamos que ele che- presença do tráfico; gerar emprego é fundamental para dar
gue nas mãos de mais e mais pessoas. alternativas para a população.

HSM MANAGEMENT EDIÇÃO 134-X 30


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EN TR EVI STA EXCLUSIVA

Quando a floresta
vale mais em pé
IOLANE TAVARES DECIDIU TRABALHAR COM OS SABORES DA AMAZÔNIA NUMA
ÉPOCA EM QUE A MODA ERA CONSUMIR PRODUTOS IMPORTADOS. NÃO FOI
FÁCIL. MAS ASSOCIANDO SABOR, ESTÉTICA E O IMAGINÁRIO DA FLORESTA,
A FRUTOS DA AMAZÔNIA APOSTOU NO RESPEITO AO PRODUTOR E AO MEIO
AMBIENTE, E PROVOU QUE É POSSÍVEL MANTER UM MODELO DE NEGÓCIOS EM
QUE TODOS GANHAM: A EMPRESA, A SOCIEDADE E A NATUREZA. | POR GABRIELLE TECO

asta uma espiada rápida no e-com- de 1990, a abertura econômica fez quebrar por aqui a

B
merce da Frutos da Amazônia para os onda dos produtos importados. Entre chocolates suí-
olhos se encherem de cores e a imagina- ços e latas de biscoitos finos, bombons de cupuaçu não
ção, de sabor. Entre biscoitos, geleias e tinham vez. Mas ela persistiu, ainda bem. Vinte e cinco
bombons de taperebá, graviola e outros anos depois, a Frutos da Amazônia continua expandido
recheios brasileiríssimos, é possível enxer- sua atuação, promovendo também o desenvolvimento
gar a floresta por outra perspectiva: aquela em que ela sustentável das comunidades ribeirinhas e cooperati-
vale mais em pé do que no chão. Se hoje essa brasilida- vas que manejam a floresta sem degradá-la. Confira a
de toda está em alta, Iolane Tavares é prova de que nem seguir a entrevista que Iolane Tavares concedeu a HSM
sempre foi assim. Quando fundou a Frutos na década Management.

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1. Você contou que começou fazendo bombons com
frutos da Amazônia por hobby. Quando e por que o
hobby virou negócio?

Quando cheguei em São Paulo nos anos 1990, iniciei com meu objetivo
amigas uma produção caseira de bombons só como passa-
tempo. Eu sentia saudades dos sabores da minha terra, que é sempre foi
Belém do Pará, e não encontrava no mercado local produtos
que utilizassem os ingredientes daquela região. Esse víncu- oferecer o
lo afetivo e cultural, aliado à oportunidade de explorar essa
riqueza de sabores, me levou a criar a Frutos da Amazônia verdadeiro sabor
em 1994.
da amazônia,
2. O que levou você a trabalhar diretamente com
comunidades de Belém do Pará? conservando
Sou assistente social e essa minha formação me levou a o que há de mais
trabalhar com as populações tradicionais da região, tais
como as mulheres que trabalhavam quebrando castanhas precioso nela:
nas usinas, e também com comunidades ribeirinhas.
a floresta
3. Como foi o início do negócio? As pessoas se mos-
travam abertas a provarem sabores diferentes?

O início foi muito difícil, pois ninguém conhecia as frutas


da região e, muitas vezes, se recusavam até mesmo a experi- 5. Por que empreender um negócio com uma relação
mentar os produtos. Para completar, o mercado estava vol- tão forte com o meio ambiente e apelo sustentável?
tado para produtos importados por conta da recente aber-
tura a importação. Tive que remar muito contra a maré e Meu objetivo sempre foi oferecer o verdadeiro sabor
também me adaptar. Na época, foquei a produção na linha da Amazônia, conservando o que há de mais precioso
de biscoitos de castanha-do-pará, pois as barreiras eram nela: a floresta. Criei uma linha de bombons rechea-
muito menores. dos com açaí, cupuaçu, graviola e taperebá. Além disso,
temos biscoitos, geleias e alguns itens sazonais, que
4. Em que momento esse jogo mudou? Na buscam associar sabor e estética ao imaginário da flo-
sua percepção, quando e por que os resta Amazônica. Para tornar tudo isso realidade, eu
produtos locais passaram a ser valo- preciso me relacionar com pequenas cooperativas de
rizados? agricultores, artesãos e ceramistas, a fim de construir
uma identidade única para o produto final. Como já
No ano 2000, com as comemora- mencionei, tenho vínculos afetivos e culturais com a
ções dos 500 anos da descoberta do região e acredito que uma das formas de preservação é
Brasil, teve início um movimento comendo seus frutos e, dessa maneira, ajudar a man-
de revalorização da nossa cultura, ter a floresta em pé. Foi uma escolha natural para mim,
dos nossos valores e, consequente- pois vivi os problemas que afetam a região.
mente, dos produtos que trouxes-
sem essa brasilidade. Em paralelo, 6. Quais são os impactos sociais, ambientais e eco-
ganham força as questões ligadas nômicos gerados pela Frutos da Amazônia?
ao meio ambiente, e os olhares se
voltam para a Amazônia. Apesar de a Frutos da Amazônia ainda ser um peque-

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no negócio, nosso impacto é positivo na economia dos
povos da floresta, pois compramos nossos principais
insumos de pequenos agricultores cooperativados, de
artesãos ribeirinhos, que confeccionam nossas emba-
lagens, e de ceramistas, que elaboram peças que resga-
tam a arqueologia da Amazônia. Um modelo de negó-
cio em que todos ganham: a comunidade, a empresa e
a natureza.

7. Você comentou que a Frutos da Amazônia une


três pilares: sabor, estética e imaginário da flores-
ta. Como isso se manifesta nos produtos de vocês?

A Amazônia tem uma variedade de frutas com sabo-


res muito particulares, o que proporciona uma expe-
riência sensorial única. Mas ela vai além dos sabores.
A floresta também é uma plantação de símbolos, o que
permitiu agregar às embalagens uma comunicação vi-
sual que refletisse a estética e os elementos do imagi-
nário da região, das encantarias que povoam o universo
profundo da Amazônia, como a lenda do curupira, do
pássaro Uirapuru, do boto, entre outros. É por isso que,
além de ser gostoso, nosso produto precisa ser belo e
carregar na alma a riqueza encontrada em nossa flo-
resta.

8. Qual o seu sonho para a Frutos da Amazônia? Até


para levar a onde você acredita que a sua empresa pode chegar?

empresa para outro Meu sonho é levar a Frutos da Amazônia para outro

patamar, o desafio patamar. O desafio será alavancar o crescimento da


empresa sem afetar o propósito que norteia toda a sua
será alavancar o história: respeitar a natureza e encantar o paladar. Já
fizemos exportações, e em todas as rodadas de negócio
crescimento, sem e interações nas feiras internacionais fica claro o apelo
que o produto e a marca têm para se tornar global. Como
afetar o propósito dizem: se é para sonhar, vamos sonhar grande!

que norteia toda 9. Quais conselhos você daria para outros empreen-
a nossa história: dedores que desejam atuar em negócios sustentá-
veis?
respeitar a Construir uma cadeia confiável de fornecimento e de
natureza e encantar relacionamento para que todos ganhem é fundamen-

o paladar tal, mas tenha claro que isso não é romance. É preciso
ter competitividade e dar lucro como qualquer negó-
cio. .

HSM MANAGEMENT EDIÇÃO 134-X 33