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Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação

XXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Uerj – 5 a 9 de setembro de 2005

Interdisciplinaridade em Psicologia Social e Comunicação Social1

João Fernando Rech Wachelke2 e Mariana Segala 3

Universidade Federal de Santa Catarina.

Resumo

Considerando-se a comunicação social como área de conhecimento tecnológico voltada


para campos de atuação profissional vinculados a meios de comunicação de massa,
argumenta-se que existe uma necessidade de emprego de conhecimento produzido por
disciplinas científicas básicas para sustentar o entendimento de alguns fenômenos
abordados na comunicação. Após definir a psicologia social como ciência situada entre
a psicologia e a sociologia que se ocupa do estudo das inter-relações entre grupos
sociais e o indivíduo, os autores sugerem que essa área oferece uma contribuição
significativa em termos teóricos e metodológicos para os estudos de comunicação
social, uma vez que os processos comunicativos gerais e a comunicação de massa são
alguns dos assuntos mais estudados a partir de uma perspectiva psicossociológica.

Palavras-chave

Psicologia social; interdisciplinaridade; comunicação social; psicologia da


comunicação.

Corpo do trabalho

O presente trabalho busca justificar a contribuição da psicologia social para os


estudos em comunicação social. Para tanto, primeiramente apresentamos uma definição
da área de estudos denominada comunicação social com caráter fortemente
interdisciplinar. Dentro desse contexto da interdisciplinaridade, numa seção subseqüente
do texto apresentamos brevemente a ciência psicossocial, em termos do objeto que lhe
interessa e de outras caráterísticas distintivas, para finalmente sugerir algumas
possibilidade concretas de intersecção entre as duas áreas.

A comunicação social como área de conhecimento tecnológico

Antes de iniciar a conceituação da comunicação social, é pertinente apresentar


definições da comunicação propriamente dita. Derivado do vocábulo latino communis, o
termo comunicação remete diretamente às idéias de comunhão e comunidade e, assim, é

1
Trabalho apresentado ao Intercom Junior.
2
Bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. E-mail: wachelke@yahoo.com.
3
Acadêmica do curso de graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina. E-mail:
mariana_segala@yahoo.com.br.

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entendido como o ato de tornar comum, estabelecer comunhão, participar da


comunidade, através do intercâmbio de informações (MELO, 1978). A partir de uma
perspectiva estrutural, Melo afirma que comunicação é o processo de transmissão e
recuperação das informações. Rodrigues (1990) amplia esse conceito e entende como
atos de comunicação a interação entre os indivíduos, entre eles e a natureza e entre eles
e as instituições sociais, bem como o relacionamento do indivíduo consigo mesmo.
Assim, os processos da comunicação englobam domínios diversificados, entre os quais
atos discursivos como o silêncio, os gestos, os comportamentos, os olhares, as ações e
as omissões. Bougnoux (1999), por sua vez, considera a ação comunicacional uma
atividade eminentemente pragmática de tratamento das mensagens entre sujeitos.
Embora comumente se identifique comunicação com as mídias, Wolton (2004)
afirma que existem fenômenos complementares que ultrapassam esta primeira
impressão. Para o autor, o termo se refere àquilo que “permite às coletividades
representarem-se, entrarem em relação umas com as outras, e agirem sobre o mundo”
(p. 501) e inclui na definição, portanto, o conjunto das mídias de massa, as formas de
expressão e de troca da cultura ocidental, as novas técnicas comunicacionais (derivadas
da informática, das telecomunicações, do audiovisual e da sua inter-relação) e os
valores, os símbolos e as representações que organizam o funcionamento do espaço
público das democracias de massa.
A comunicação dirigida a um grande público por meio de intermediários
técnicos sustentados pela economia de mercado a partir de uma fonte organizada
(BARBOSA & RABAÇA, 2001) é a chamada comunicação de massa. Outro termo
usado para conceituar o mesmo fenômeno é comunicação social, conceito que foi
adotado em substituição ao anterior por sugestão do Vaticano, por entender que a
expressão comunicação de massa não abrangia o papel do indivíduo como sujeito
comunicacional ativo (SOUSA, 2002) e que será utilizado neste trabalho, designando
um dos tipos de comunicação existentes.
Comunicação social é a comunicação midiatizada, “que implica geralmente
mensagens que circulam entre grupos de pessoas, ou entre uma pessoa e um grupo”
(BRETON & PROULX, 2002, p.12). Sousa (2002) chama de comunicação social a
comunicação em sociedade, formada pelas relações entre pessoas individuais. Wolton
(2004), por sua vez, afirma que a comunicação social tem um caráter funcional, que
abrange “as necessidades de comunicação das economias e das sociedades abertas, tanto
para as trocas de bens e serviços como para os fluxos econômicos, financeiros ou

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administrativos” (p. 31). Entre os objetivos dessa modalidade de comunicação, segundo


Charles Wright, citado em texto de Barbosa e Rabaça (2001), estão: a) a coleta e
distribuição de informações sobre o ambiente; b) a interpretação e orientação em relação
aos eventos; c) a transmissão de cultura de uma geração para outra ou de membros de
um grupo para novos membros; e d) o entretenimento.
Para Tovar, citado em Melo (1978), as “ciências da comunicação social” – que
incluiriam o jornalismo, as relações públicas e a publicidade, tomados como áreas de
conhecimento – têm como objetivo conhecer e dominar os mecanismos por meio dos
quais a sociedade se comunica. O autor pondera que essas são ciências aplicadas, pois,
apesar de apoiadas num conjunto de conhecimentos puros, são todas atividades práticas.
A classificação de Tovar, embora antiga, é ainda utilizada na denominação das
habilitações dos cursos superiores de comunicação social no Brasil.
Breton e Proulx (2002) distinguem três grandes territórios da comunicação
social, que são as mídias, as telecomunicações e a informática, os quais apresentam
diferenças marcantes entre si. As mídias – editoras, imprensa, rádio e televisão – são os
instrumentos que cobrem um imenso espaço da comunicação social, em detrimento da
comunicação interpessoal. Elas “se encarregaram das funções ao mesmo tempo do oral
e da escrita e acrescentaram a uma oferta de informações já variada e abundante a
técnica da imagem, cuja extensão tende permanentemente a se ampliar” (p. 92). É nesse
campo – o mais antigo dos três – em que, segundo os autores, se encontram atividades
ligadas às relações públicas, à publicidade, aos serviços de comunicação e de
informação internas das empresas, bem como aquelas relacionadas à atuação da
imprensa escrita, do rádio e da televisão.
Os mesmos autores atribuem à área de atuação dos que chamam de “praticantes
da comunicação argumentativa” – jornalistas, consultores, serviços de comunicação,
entre outros – um caráter técnico no sentido pleno, ou seja, suas atividades são
finalizadas em vista de realizar objetivos concretos. Essas técnicas compreendem, ao
mesmo tempo, saberes e práticas. Podemos considerar, portanto, que atividades
profissionais como o jornalismo, a publicidade e as relações públicas – que são mais
comumente identificadas com o termo comunicação social e que serão abordadas neste
trabalho com mais propriedade – estão englobadas por essa concepção.
Ao assumir o caráter técnico dos estudos em comunicação social, entendemos
que ela não deve ser considerada uma área de conhecimento básico, tal como por
exemplo a física, a sociologia e a fisiologia. Entendemos que o mais adequado é

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considerar a comunicação social uma disciplina tecnológica. É importante, entretanto,


que se precise o sentido em que é empregado o termo tecnologia; comumente, em nível
de senso comum, ele é utilizado como um sinônimo de “produto tecnológico”. Porém,
os produtos tecnológicos são apenas o resultado final de todo um processo de produção
de conhecimento com diversas características metodológicas semelhantes à investigação
científica, cuja finalidade reside no aprimoramento de técnicas para fins específicos.
Inspiramo-nos em um artigo de Couto (1996), que discute a natureza da
tecnologia e justifica a classificação da área de design nesse domínio como um corpo
organizado de conhecimentos que possui estatuto de disciplina. Julgamos que a mesma
classificação deva ser estendida para a comunicação social enquanto disciplina. Tendo
em vista que jornalistas, profissionais de relações públicas e publicitários visam, por
meio dos estudos em comunicação social, explicar os fenômenos com que lidam em
suas profissões, bem como ampliar a eficiência técnica de seu trabalho, parece coerente
conceber essa disciplina como uma área de conhecimento tecnológico. Resta, ainda, um
outro componente essencial que necessita ser discutido para complementar a perspectiva
que adotamos em comunicação social. Trata-se de sua condição interdisciplinar.

Condição interdisciplinar da comunicação social

Partindo-se da concepção de comunicação como processo social básico, pode-


se afirmar que ela se insere no objeto de todas as ciências sociais: na psicologia, abre-se
espaço para o estudo das intenções do comunicador ou do comportamento do receptor; a
sociologia pode se voltar ao estudo dos hábitos do receptor ou da credibilidade dos
canais; o direito, por sua vez, analisa a estrutura normativa do comunicador
institucionalizado; na antropologia, os padrões culturais difundidos nas mensagens
podem ser alvo de pesquisas (MELO, 1978).
Para Wolton (2004), como possui uma dimensão antropológica inerente, a
comunicação se constitui em um objeto de conhecimento interdisciplinar. Segundo o
autor, ela faz apelo a dez disciplinas científicas, a saber: filosofia, economia, direito,
ciência política, história, antropologia, psicolingüística, geografia, sociologia e
lingüística. Barros (2002) defende que, tanto do ponto de vista teórico como
metodológico e prático, a comunicação é interdisciplinar desde sua origem. De início, as
primeiras pesquisas sobre a comunicação foram realizadas por estudiosos de áreas como
a sociologia e a psicologia e não por comunicólogos, no sentido estrito do termo. Por

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outro lado, a própria atuação nas atividades profissionais da comunicação foi realizada,
durante muito tempo, por indivíduos com formação em outras áreas.
Analisando a questão da interdisciplinaridade sob uma ótica diferente,
Bougnoux (1999) afirma que o campo profissional da comunicação se infiltra em
muitos outros. Para o autor, “as demandas e as vizinhanças surgirão dos lugares mais
inesperados, mas nossa própria disciplina interessa a muitos campos para ter
verdadeiramente lugar. E sua autonomização recente é mais institucional do que
teórica” (p. 19). Bougnoux, que chama a comunicação de interdisciplina, defende que os
programas de ensino ou de pesquisa em comunicação poderiam ser espaços ativos de
confrontação e de diálogo com seus inúmeros vizinhos.
A interdisciplinaridade no ensino da comunicação social é defendida também
por Rodrigues (1996), que propõe que se relacione o domínio da comunicação com os
outros domínios do saber. “Não se trata de uma simples afirmação ideológica da
interdisciplinaridade, mas de uma prática efetiva da interdisciplinaridade, a partir de um
trabalho que consiste em repensar criticamente a circulação dos conceitos, dos
paradigmas, dos modelos e dos procedimentos de análise, através das diferentes
disciplinas modernas”.
No que tange à pesquisa em comunicação, a característica interdisciplinar do
objeto parece ainda mais evidente. As possibilidades de utilização de teorias e métodos
de outras ciências na análise dos fenômenos comunicacionais são muitas e os resultados
práticos dessa interação podem ser interessantes. Conceituando a pesquisa em
comunicação como o estudo científico dos elementos que integram o processo
comunicativo e a análise de todos os fenômenos relacionados ou gerados pela
transmissão de informações – sejam dirigidas a uma pessoa, a um grupo ou a um vasto
público –, Melo (1978) afirma que ela assume a natureza de campo interdisciplinar de
estudos que envolve investigações lingüísticas, educacionais, jornalísticas e
cibernéticas, bem como iniciativas de outras áreas das ciências humanas – sociológicas,
psicológicas, históricas, antropológicas, entre outras.
Entendemos que a disciplina de comunicação social, portanto, é uma área de
conhecimento tecnológico que se faz valer de conhecimentos e métodos de uma
variedade de ciências e áreas tecnológicas, organizando-as em virtude das necessidades
de pesquisa e intervenção junto a seu objeto – os processos que compartilham com a
disciplina o nome “comunicação social”. Não obstante, o fato de servir-se de corpos de
conhecimento diversificados e a demanda de produção de conhecimento orientada por

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necessidades profissionais implicam a existência de teorias e métodos característicos da


disciplina, com uma certa independência de outras áreas do conhecimento.
Wolton (2004), a propósito da pesquisa em comunicação, distingue três pólos
fundamentais. O primeiro consiste na interface da comunicação com as neurociências e
as ciências cognitivas e, aí, têm espaço os estudos da comunicação nas suas relações
com o cérebro – a percepção, a memória, o tratamento da imagem e da linguagem. O
segundo pólo abarca a interação com as ciências cognitivas e físicas ligadas à
engenharia e está centrado nos problemas da comunicação entre o homem e as
máquinas. Por fim, o terceiro pólo diz respeito às ciências do homem e da sociedade e
estuda a comunicação entre os indivíduos e as coletividades, além do impacto das
técnicas de comunicação no funcionamento da sociedade. É nessa terceira perspectiva
que se enquadra a proposta deste trabalho, que é mostrar as contribuições teórico-
metodológicas da psicologia social para os estudos da comunicação social.

Psicologia social: objeto de estudo e métodos

Para se entender a contribuição interdisciplinar da psicologia social para a


pesquisa em comunicação social cabe, primeira e obviamente, defini-la enquanto área
de conhecimento científico. Em outras palavras, isso significa delimitar o objeto de
estudo e os métodos característicos da psicologia social, bem como alguma outra
especificidade que a diferencie de outras ciências.
Para Rodrigues, Assmar e Jablonski, autores do livro-texto de psicologia social
mais difundido do Brasil, a psicologia social é “o estudo científico da influência
recíproca entre as pessoas (interação social) e do processo cognitivo gerado por esta
interação social” (2002, p. 21). Leyens e Yzerbit (1999) entendem a psicologia social
como ciência que estuda o comportamento à medida que é influenciado pelo “outro”,
sob um triplo ponto de vista: o conhecimento do outro, a influência social e as
interações sociais. Para esses autores a psicologia social situa-se dentro do rol de ciência
psicológicas, no sentido de que suas explicações e teorias incidem somente sobre o nível
de explicação individual.
A primeira impressão causada pelo termo “psicologia social” e pelas definições
supracitadas é que se trata efetivamente de uma sub-área da psicologia. No entanto, esse
não é exatamente o caso: há uma divergência entre autores no que tange à natureza da

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disciplina. Logo no início da introdução de seu livro-texto, Cerclé e Somat (1999)


atentam para o fato de que há autores que concebem a psicologia social como uma
disciplina que se encontra na articulação entre psicologia e sociologia, enquanto outros
a classificam como uma subdisciplina da psicologia geral.
Existem, de fato, diferenças nas concepções de psicologia social existentes pelo
mundo, sobretudo se consideramos os contrastes entre a psicologia social norte-
americana e a psicologia social européia. Ambas as variedades da disciplina se
configuram de maneira diferenciada devido à influência de ideologias e contextos
históricos distintos, o que implica uma agenda de questões a serem tratadas pela ciência
e métodos adotados também, por sua vez, diferentes. Nos Estados Unidos, a psicologia
social propriamente dita estabeleceu-se com forte influência de pesquisadores europeus
que migraram para a América após a 2a Guerra Mundial, como por exemplo Kurt
Lewin. Em solo americano, a psicologia social caracterizou-se por um forte
psicologismo, isto é, primazia dos fatores psicológicos e, portanto, individuais, para
explicar os fenômenos sociais, e pela ênfase no experimentalismo. Na psicologia social
norte-americana, é dado destaque ao estudo das atitudes sociais e dos processos
intragrupais. Na Europa, por outro lado, a psicologia social assumiu formas mais
diversificadas, algumas das quais de caráter mais sociológico, isto é, dando mais ênfase
ao estudo de produtos culturais e a outros métodos além da experimentação, como a
observação (Farr, 2002). Não obstante, a prática de experimentação na pesquisa
européia em psicologia social também é muito difundida.
Jesuíno (1996), ao comentar as especificidades das psicologias sociais norte-
americana e européia, refere-se a esta última como sendo mais fortemente marcada pela
tradição de pesquisa de relações intergrupais e das representações sociais, fazendo
referência ao fato de que há autores que classificam a psicologia social realizada no
Velho Mundo como uma “psicologia social mais social”, em comparação com a
psicologia social norte-americana, que pode ser considerada a perspectiva dominante.
De todo modo, comenta-se que psicologia social européia não pode representar um
modelo único de ciência devido à marcada subdivisão que a caracteriza.
Em virtude dessa ambigüidade existente na psicologia social, isto é, de situar-se
entre uma perspectiva psicológica e sociológica de estudo da realidade, há autores como
Maisonneuve (1993a) que preferem dar-lhe o nome de psicossociologia para evitar que
a área seja vista simplesmente como uma divisão da psicologia, como são a psicologia
do desenvolvimento ou a psicologia do trabalho. Para o mesmo autor, a psicossociologia

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surge do reconhecimento que nem uma abordagem psicologista nem sociologista dão
conta de explicar a sociedade e sua relação com as pessoas.
Em decorrência dessa problemática de delimitação do campo psicossociológico,
há autores que pensam que a psicologia social deve constituir-se como ciência
autônoma, distinta tanto da psicologia como da sociologia. Maisonneuve (1993b) pensa
de forma diferente: para o autor, ser uma “ciência fronteira”, nos limites das duas
disciplinas, é a natureza mesma da psicologia social, ou psicossociologia. Também este
autor apresenta uma definição da área com destaque para a noção de interação. Segundo
Maisonneuve, a psicologia social é a ciência que se ocupa do estudo da interação entre
os processos sociais e psicológicos, incluindo todas suas acepções, visando assim
explicar o comportamento das pessoas e dos grupos (1993a).
Adotamos como referência neste trabalho a definição de Maisonneuve, pelo fato
de que, em nosso entender, enfoca o que julgamos central na disciplina ao mesmo
tempo em que não apresenta a psicossociologia de maneira restritiva, evitando concebê-
la como uma das formas mais específicas, seja psicologista ou sociologista, dessa
ciência; ambas são compatíveis com essa conceituação de psicologia social, embora
lidem com níveis de análise distintos em grande parte dos casos.
Além da delimitação do objeto de estudo, importante contribuição para a
definição de psicologia social é fornecida por Moscovici (1985), segundo a qual o que
possui primeira importância para o entendimento do que seja a psicossociologia não é
tanto seu objeto de estudo, mas sim o modo com que essa ciência lida com seu objeto.
Em oposição à psicologia e sociologia, que propõem uma relação binária entre sujeito
(individual ou social, respectivamente) e objeto, a psicologia social integra os elementos
numa grade ternária para chegar às suas teorias. É esse olhar distinto e integrativo
buscando entender os fenômenos num nível intermediário de diálogo entre o individual
e o macrossocial que define a atividade do pesquisador em psicologia social.
No terreno metodológico, pode-se dizer que a psicologia social é uma ciência
social rigorosa. Embora existam muitos pesquisadores que utilizem métodos de
observação direta e indireta, como ocorre em grande parte dos estudos de representação
social, e em estudos de interações de pequenos grupos, é inegável que o núcleo das
descobertas de teorias como a identidade social e as atitudes, ou de estudos nas áreas de
influência social, foram produzidos por meio da utilização do método experimental,
freqüentemente empregando delineamentos fatoriais complexos.

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Após introduzir alguns dos aspectos distintivos da psicologia social enquanto


área de conhecimento científico, cabe entrar finalmente na discussão que constitui o
cerne deste texto: sua contribuição para o estudo da comunicação social. Há
possibilidade de significativa relação interdisciplinar devido à comunicação social ser,
ela mesma, um dos objetos de estudo da psicologia social.

Contribuições da psicologia social para a comunicação social

Referindo-se ao termo comunicação social no sentido de um processo existente


na natureza, isto é, de um fenômeno a ser estudado – em oposição ao sentido que
empregamos na maior parte do texto, a saber, de campo de estudos tecnológicos -, logo
se constata que ele faz parte do objeto de estudo da psicologia social. Isso se deve ao
fato de que a própria comunicação só faz sentido no seio da interação.
Para Abric (1996), a comunicação é o processo pelo qual pelo menos duas
pessoas trocam informações em uma situação social dada. A comunicação social seria,
segundo essa acepção, um caso específico da noção mais geral de comunicação.
Maletzke (1976) situa os processos e meios de comunicação de massa no núcleo da
noção de comunicação social, e considera que, no que tange à ciência psicológica, a
comunicação social deve ser classificada sobretudo no contexto da psicologia social,
devido a seu objeto ligar-se à interação; de todo modo, contribuições importantes para a
compreensão do fenômeno podem ser oferecidas por subdivisões da psicologia, tal
como o estudo da personalidade e do desenvolvimento, apenas para citar dois exemplos.
Atendo-nos à psicologia social, podemos apontar uma variedade de maneiras
pelas quais ela pode fornecer subsídios para os estudos em comunicação social. No
presente texto, a título de ilustração, abordaremos dois dos principais fenômenos que
integram os programas de pesquisas em psicologia social, analisando brevemente seus
desdobramentos para a comunicação social: as atitudes e as representações sociais.
A teoria das atitudes é talvez a mais tradicional em psicologia social. O conceito
de atitude a define como uma predisposição de um indivíduo para agir de determinada
forma em relação a um objeto social; as atitudes podem ser analisadas em três
componentes: cognitivo (crenças sobre o objeto), comportamental (ações dirigidas ao
objeto) e afetivo (aspectos emocionais referentes ao objeto; a atitude propriamente dita).
Para simplificar, mantendo a essência do conceito, podemos dizer que uma atitude
frente a um objeto representa o grau de favorabilidade (ou desfavorabilidade) que uma

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pessoa possui frente a esse objeto. Há uma grande diversidade de modos de mensurar as
atitudes para fins de pesquisa, dependendo-se do componente que se deseja estudar.
Certamente, a maneira mais difundida de fazê-lo são as escalas de atitudes, instrumentos
psicométricos auto-aplicados formados por um conjunto de itens avaliativos sobre um
objeto social específico (por exemplo, o casamento, a política, cotas para
afrodescencentes, ou algum grupo social).
O progresso nas pesquisas sobre atitudes ocorreu principalmente por meio de
estudos experimentais voltadas para a explicitação das condições em que as pessoas
mudam de atitudes em relação aos objetos sociais. Em outras palavras, foram estudadas
as influências de variáveis que tornavam os indivíduos mais ou menos favoráveis a
objetos. Como de modo geral a maior parte das pesquisas sobre mudanças de atitudes
centra-se em alterações de modalidades de variáveis cognitivas, muitos estudos
consistiram em manipulação de fatores referentes ao processo comunicacional, isto é,
características de destinatário da comunicação, da mensagem, do emissor, e assim por
diante. Assim, pesquisas em mudança de atitudes podem compreender, por exemplo,
verificar se um texto escrito em registro formal é mais persuasivo que um texto
equivalente redigido informalmente, e se o efeito é equivalente em públicos-alvo com
escolaridades diferenciadas; ou então estudar se o fornecimento de uma informação por
uma fonte com maior credibilidade gera maior mudança de atitudes que quando a
informação parte de uma fonte menos confiável, da perspectiva dos destinatários.
A relevância dos achados das pesquisas em atitudes para os estudos em
comunicação social é evidente. Conhecer e investigar atitudes permitiria a um jornalista
avaliar com maior precisão o efeito dos tipos de notícias na população e do modo como
é efetuado o trabalho jornalístico, uma vez que esse profissional sempre trabalha com a
divulgação de informações na esfera pública. Se uma das metas freqüentes do jornalista
é a objetividade e imparcialidade na descrição dos fatos, torna-se pertinente saber em
que extensão uma matéria pode influenciar o público numa ou noutra direção, ou
simplesmente comunicar eventos com carga afetiva reduzida.
Para os profissionais da área de relações públicas e publicitários, a importância
da teoria das atitudes é ainda maior, uma vez que o objeto de trabalho das duas
categorias profissionais, a grosso modo, está ligado às atitudes que as pessoas têm sobre
organizações, num caso, e produtos ou campanhas, no outro. Trabalhar a imagem de
organizações, marcas e produtos é certamente uma intervenção no contexto das atitudes
do público sobre esses objetos. De certo modo, uma parcela significativa da teoria de

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publicidade e propaganda pode ser considerada uma aplicação dos estudos de atitudes
em psicologia social.
As representações sociais, por sua vez, constituem um paradigma integrativo em
psicologia social originado de uma escola psicossociológica francesa, tendo em
Moscovici (1978) seu fundador. Essa perspectiva propõe que seja feito o estudo
científico do senso comum como forma de conhecimento, tanto de sua estrutura, como
de seu funcionamento e conteúdo; trata-se das representações sociais, teorias mantidas
por grupos sociais que servem de referência para as pessoas no que diz respeito a
tomadas de posição e práticas. Uma representação social é uma teoria do senso comum
específica a um grupo (tomado no sentido amplo de categoria ou segmento social) sobre
um aspecto da realidade. Em certo sentido, a noção de representação social engloba o
conceito de atitudes; estas são concebidas assim como uma dimensão das
representações, como o são a informação e o campo de representação ou imagem.
As representações sociais adquirem importância a partir do Século XX devido à
forte influência dos meios de comunicação de massa, fazendo do senso comum uma
forma de conhecimento passível de mudança relativamente veloz e específica a grupos.
Isso é diferente do que ocorria em épocas passadas, quando as representações coletivas
possuíam um caráter marcado de estabilidade à mudança.
As áreas da comunicação social a que nos referimos neste texto – jornalismo,
publicidade e propaganda, e relações públicas –, por lidarem com a divulgação de
informações, têm um papel essencial, portanto, para a dinâmica das representações
sociais. De acordo com Jodelet (2001), a comunicação de massa possibilita e determina
as representações sociais; isso significa dizer possuem capacidade de influenciar o senso
comum em grande extensão. As pesquisas em representação social reconhecem
prontamente isso, recorrendo freqüentemente a mapeamentos da mídia, analisando o
conteúdo da imprensa para chegar às representações difundidas. Estudos de
representações difundidas por peças publicitárias também permitem acesso às teorias de
pensamento veiculadas pelos meios de comunicação.
Adotar o paradigma teórico das representações sociais na comunicação social
significa assumir que a mídia é um veículo poderoso de comunicação de pontos de vista
para a população, talvez a responsável maior pela constituição do senso comum.
Entender como se comportam e se influenciam as representações nos meios de
comunicação possibilita aos profissionais e estudiosos de comunicação social uma
espécie de diagnóstico da maneira como um fenômeno é tratado pela mídia e suas

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relações com as práticas que as representações resultantes eliciam. Reconhecendo a


intersecção entre comunicação social e as representações sociais, Pavarino (2004)
realiza uma apresentação mais detalha dessa perspectiva em psicologia social,
apontando sua utilidade para entender a teoria do Agenda-Setting, uma teoria de
comunicação de massa.

Conclusão

É evidente que a contribuição da psicologia social para a comunicação social não


se restringe às atitudes e representações sociais. Escolhemos essas duas como
ilustrações para nosso texto porque consideramos que o salto qualitativo propiciado às
diversas áreas de estudo em comunicação social, decorrente de seu emprego, é claro.
Gostaríamos de concluir este trabalho fazendo um esclarecimento que julgamos
necessário. Ao argumentar favoravelmente à utilização de teorias e métodos
psicossociais em comunicação social, não nos referimos à simples importação de
resultados, métodos e pressupostos de pesquisa. Agir dessa forma seria um equívoco e
um desrespeito tanto ao modo como se estruturou o campo de estudos em comunicação
social historicamente, quanto a sua especificidade. Entendendo a comunicação social,
em concordância com Bougnoux (1999), como interdisciplina, consideramos que, ainda
que compartilhando de uma interface com diversas áreas de conhecimento científico e
tecnológico, esse mesmo leque de interfaces possibilitou o desenvolvimento de um
corpo teórico que lhe é característico e não está diretamente ligado a outra área de
conhecimento.
De qualquer modo, é saliente a interface que a comunicação social possui com a
psicologia social. A utilização de teorias e métodos psicossociológicos pode ser muito
frutífera e conduzir a avanços significativos caso eles sejam pertinentes às necessidades
dos estudiosos em comunicação social. Por avanços, referimo-nos também, e talvez
principalmente, a inovações teóricas e metodológicas possíveis apenas em virtude de
um diálogo interdisciplinar.

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