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3. HISTORIA E CIÊNCIAS SOCIAIS.

A LONGA DURAÇÃO1

Há uma crise geral das ciências do homem: estão


todas esmagadas sob seus próprios progressos, ainda
que seja apenas devido à acumulação dos novos conhe-
cimentos e da necessidade de um trabalho coletivo, cuja
organização inteligente falta ainda eregir; direta ou
indiretamente, todas são atingidas, queiram ou não,
pelos progressos das mais ágeis dentre elas, mas perma-
necem entretanto às voltas com um humanismo retró-
grado, insidioso, que não lhes pode mais servir de
quadro. Todas, corn mais ou menos lucidez, se preo-
I . Annalcs E.S.C.. n.0 4 , out.-dez. 1958. Dlbair e1 Combats. pp. 725-753,
cuparn coin seli Iiigiir no conjunto monstruoso das ciência tivesse vantagem, por um momento, em reto-
pesquisas antigas e novas, cuja convergência necessária mar uma estrada mais estreitamente pessoal.
hoje se adivinha. Mas, é preciso aproximar-se desde logo, a ope-
As ciências do homem sairão, dessas dificuldades ração é urgente. Nos Estados Unidos, essa reunião
por um esforço suplementar de definição ou um acrés- tomou a forma de pesquisas coletivas sobre as áreas
cimo de mau humor? Talvez tenham a ilusão disso, culturais do mundo atual, sendo as area studies, antes
pois (no risco de voltar a antigas repetições ou falsos de tudo, o estudo, por uma equipe de social scientists,
problemas) ei-Ias preocupadas, hoje, ainda mais que desses monstros políticos do tempo presente: China,
ontem, em definir suas metas, seus métodos, suas supe- fndia, Rússia, América Latina, Estados Unidos. Co-
rioridades. Ei-Ias, à porfia, empenhadas em chicanas nhecê-los é questão vital! Cumpre ainda, fora dessa
sobre as fronteiras que as separam, ou não as separam, compartição de técnicas e conhecimentos, que cada
ou as separam mal das ciências vizinhas. Pois cada um dos participantes não permaneça enterrado em seu
uma sonha, de fato, em permanecer ou retornar à sua trabalho particular, cego ou surdo, ao que dizem, escre- .
. .
casa . Alguns estudiosos isolados organizam para- vem, ou pensam os outros! É preciso ainda que a
reunião das ciências sociais seja completa, que não
lelos: Claude Lévi-Strauss2 impele a antropologia "es-
se negligenciem as mais antigas em benefício das mais
trutural" rumo aos procedimentos da linguística, aos jovens, capazes de prometer tanto, senão de cumprir
horizontes da história "iiiconsriente" e ao imperialismo sempre. Por exemplo, o lugar dado à Geografia nessas
juvenil das matemáticas "qualitativas". Tende para tentativas americanas é praticamente nulo e, extrema-
uma ciência que ligaria, sob o nome de ciência da
mente reduzido o que se concede à História. E além
co~?iunictlçáo,a aiitropologia, a economia política, a disso, de que História se trata?
linguística . . .Mas quem está pronto para esses fran-
As outras ciências sociais são muito mal infor-
queamentos de fronteira r para esses reagrupamentos?
madas a respeito da crise que nossa disciplina atraves-
Por um sim, por um não, a própria geografia se divor-
sou no decorrer desses últimos vinte ou trinta anos,
ciaria da história!
c sua tendência 6 de:;conhecer, ao mesmo tempo que
Mas, não sejamos injiistos; há um intcressc nessas os trabalhos dos historiadores, um aspecto da reali-
querelas e nessas recusas. O desejo de cada um se dade social do qual a história é boa criada, senão hábil
afirmar contra os outros está forçosamente na origem vendedora: essa dur;>ção social, esses tempos múlti-
de novas curiosidades: negar outrem, já é conhecê-lo. plos e contraditórios da vida dos homens, que não são
Mais ainda, sem o querer explicitamente, as ciências apenas a substância do passado, mas também o estofo
sociais se impõem umas às outras, cada uma tende a da vida social atual. Uma razão mais para assi-
compreender o social no seu todo, na sua "totalidade"; nalar com vigor, no debate que se instaura entre todas
cada uma invade o domínio de suas vizinhas crendo as ciências do homem, a importância, a utilidade da
permanecer em casa. A Economia descobre a Socio- história, ou, antes, da dialética da duração, tal como
logia que a rodeia, a História - talvez a menos estru- ela se desprende do mister, da observação repetida do
turada das ciências do homem - aceita todas as lições historiador; pois nada 6 mais ,importante, a nosso ver,
de sua múltipla vizinhança e se esforça por repercuti- no centro da realidade social, do que essa oposição
-las. Assim, malgrado as reticências, as oposições, as viva, íntima, repetida indefinidamente entre o instante
ignorâncias tranquilas, a insta!ação de um "mercado
e o tempo lento a escoar-se. Que se trate do passado
comum" se esboça; valeria a pena tentá-la no decorrer ou da atualidade, uma consciência clara dessa plura-
dos anos vindouros, mesmo se, mais tarde, cada lidade do tempo social é indispensável a uma metodo-
2 . Anlhropologir slruclurolc. Paris. Plon, 1958, posrim e notada- logia comum das ciên&as do homem.
mente, p. 329.
Falarei, pois, longamente da história, do tempo importam essas fórmulas; em todo caso, é de uma à
da história. Menos para os leitores dessa revista, outra, de um p610 ao outro do tempo, do instantâneo
especialistas em nossos estudos, que para nossos vizi- à longa duração que se situará nossa discussão.
nhos das ciências do homem: economistas, etnógrafos, Não que essas palavras sejam de uma certeza
etnblogos (ou aiitropblogos), sociólogos, psicólogos, absoluta. Assim a palavra evento. De minha parte,
linguistas, demógrafos, geógrafos, até mesmo, mate- quisera acantoná-Ia, aprisioná-la na curta duração: o
máticos sociais ou estatísticos - todos vizinhos que, evento é explosivo, "novidade sonante", como se dizia
há longos anos, seguimos nas suas experiências e pes- no século XVI. Com sua fumaça excessiva, enche a
quisas porque nos parecia (e ainda nos parece), que, consciência dos contemporâneos, mas não dura, vê-se
colocada a seu reboque ou ao seu contato, a história apenas sua chama.
se ilumina com uma nova luz. Talvez, de nossa parte, Os filósofos nos diriam, sem dúvida, que isto
tenhamos alguma coisa a Ihes dar. Das experiências significa esvaziar a palavra de uma grande parte .
e tentativas recentes cia história, desprende-se - cons- de seu sentido. Um evento, a rigor, pode carregar-se
ciente ou não, aceita ou não - uma noção cada vez de uma série de significações ou familiaridades. Dá
mais precisa da miiltiplicidade do tempo e do valor testemunho por vezes de movimentos muito profundos
excepcional do tempo longo. Essa última noção, mais e, pelo jogo factíci~ou não das "causas" e dos "efei-
que a própria história - a história das cem faces - tos" caros aos historiadores de ontem, anexa um tem-
deveri interessar às ciências sociais, nossas vizinhas. po muito superior à sua própria duração. Extensível
no infinito, liga-se, livremente ou não, à toda uma cor-
rente de acontecimentos, de realidades subjacentes, e
1. História e durações impossíveis, parece, de destacar desde então uns dos
outros. Por esse jogo de adições, Benedetto Croce
Todo trabalho Iiistórico decoiiip6e. o tcii~podecor- podia pretender que, em todo evento, a história intei-
rido, escolhe entre suas realidades cronológicas, segundo ra, o homem inteiro se incorporam e depois se redes-
preferências e opções exclusivas mais ou menos cons- cobrem à vontade. Sob a condição, sem dúvida, de
cientes. A história tradicional, atenta ao tempo brevc, acrescentar a esse fragmento o que ele não contém à
ao indivíduo, ao evento, habituou-nos há muito tempo primeira vista e portanto saber o que é justo - ou não
à sua narrativa precipitada, dramática, de fôlego curto. - associar-lhe. É esse jogo inteligente e perigoso que
A nova história econômica e social põe no pri- as reflexões recentes de Jean-Paul Sartre -propõemS.
-
meiro plano de sua pesquisa a oscilação cíclica e Digamos então mais claramente, em lugar de
assenta sobre sua duração: prendeu-se à miragem, ocorrencial: o tempo curto, à medida dos indi-
também à realidade das subidas e descidas cíclicas dos víduos, da vida cotidiana, de nossas ilusões, de nossas
preços. Hoje, há assim, ao lado do relato (ou do "re- rápidas tomadas de consciência - o tempo, por exce-
citativo" tradicional), um recitativo da conjuntura que lência, do cronista, do jornalista. Ora, notemo-lo, crô-
põe em questão o passado por largas fatias: dez, vinte nica ou jornal fornecem, ao lado dos grandes acon-
ou cinquenta anos. tecimentos, ditos históricos, os medíocres acidentes da
Bem além desse segundo recitativo, situa-se uma vida ordinária: um incêndio, uma catástrofe ferroviá-
história de respiração mais contida ainda, e, desta vez, ria, o preço do trigo, um crime, uma representação tea-
de amplitude secular: a história de longa, e mesmo, de tral, uma inundação. Assim, cada um compreenderá
longuíssima duração. A fórmula, boa ou má, tornou-se- que haja um tempo curto de todas as formas da vida,
-me familiar para designar o inverso do que François econômica, social, literária, institucional, religiosa e
Simiand, um dos primeiros após Paul Lacombe, terá 3 . JEAN-PAUL SARTRE, Qucstions de mCthode. Ler Tempr Mo-
batizado história ocorrencial (événementielle) . Pouco drrnes, 1957 nV 139 e 140.
mesmo geográfica (uina ventania, uma tempestade) passo a passo a história ocorrencial tal como eia se
assim como política. desprende de correspondências de embaixadores ou de
debates parlamentares. Os historiadores do século
A primeira apreciisáo, o passado é essa massa de XVIII e do início do XIX haviam estado mais atentos
fatos miúdos, uns brilhantes, outros obscuros e inde- às perspectivas da longa duração que, a seguir, somen-
finidamente repetidos, esses mesmos fatos que consti- te grandes espíritos, como um Michelet, um Ranke, um
tuem, na atualidade, o despojo cotidiano da micro-socio- Jacob Burckhardt, um Fustel souberam redescobrir. Se
logia ou sociometria (há tambtm uma micro-história). ,
aceitarmos que essa superação do tempo curto foi o
Mas essa massa não forma toda a realidade, toda a bem mais precioso, porque o mais raro, da historiogra-
espessura da história sobre a qual a reflexão cientí- fia dos últimos cem anos, compreenderemos o papel
fica pode trabalhar à vontade. A ciência social tem eminente da história das instituições, das religiões, das
quase horror do evento. Não sem razão: o tempo civilizações, e, graças à arqueologia, a qual necessita
curto é a mais caprichosa, a mais enganadora das de vastos espaços cronológicos, o papel de vanguarda
durações. dos estudos consagrados à Antiguidade clássica. Ontem,
Donde, entre alguns de nós, historiadores, uma \ eles salvaram nossa profissão.
viva desconfiança relativamente a uma história tradi- A recente ruptura com as formas tradicionais da
cional, dita ocorrencial, confundindo-se a etiqueta com história do século XIX não foi uma ruptura total com
'a da história política, não sem alguma inexatidão: a o tempo curto. Sabe-se que ela redundou em benefí-
história política não é forçosamente ocorrencial, nem cio da história econômica e social, em detrimento da
condenada à sê-10. Entretanto, é um fato que, salvo história política. Daí uma reviravolta e uma inegável
os quadros factícios, quase sem espessura temporal, de renovação; daí, inevitavelmente, modificações de mé-
onde recortava suas narrações4, salvo as explicações de todo, deslocamentos de centros de interesses com a
longa duração de que era preciso sorti-la, é um fato I aparição de uma história quantitativa que, certamente,
que, no seu conjunto, a história dos Últimos cem anos, não disse sua última palavra.
quase sempre política, centrada no drama dos "gran-
des eventos", traballiou no e sobre o tempo curto. Mas sobretudo, houve alteração do tempo histó-
Foi talvez, o preço dos progressos realízados, duran- rico tradicional. Ontem, um dia, um ano podiam pa-
te zsse mesmo período, na conquista científica de recer boas medidas para um historiador político. O
instrumentos de trabalho e de métodos rigorosos. A tempo era uma soma de dias. Mas, uma curva dos
preços, uma progressão demográfica, o movimento dos
dzscoberta maciça do documento levou o historiador salários, as variações da taxa de juro, o estudo (mais
a crer que, na autenticidade documentária estava toda imaginado do que realizado) da produção, uma aná-
a verdade. 1 lise precisa da circulação reclamam medidas muito
I mais amplas.
Basta, escrevia ainda ontem Louis Halphen6 deixar-se de
algum modo levar pelos documentos, lidos um ap6s o outro. Aparece uma nova forma de narrativa histórica,
tal como se nos oferecem, para ver a corrente dos fatos se digamos o "recitativo" da conjuntura, do ciclo, até
reconstituir quase automaticamente. mesmo do "interciclo", que propõe à nossa escolha
uma dezena de anos, um quarto de século e, no limite
Esse ideal, "a história no estado nascente", resul- extremo, o meio século do ciclo clássico de Kondra-
ta por volta do fim do século XIX numa crônica de tieff. Por exemplo, sem levar em conta acidentes bre-
novo estilo, que, na sua ambição de exatidão, segue ves e' de superfície, os preços sobem, na Europa, de

1
4 . a<A Europa em 15M)», uO Mundo em 1880», uA Alemanha A vés- 1791 a 1817; baixam de 1817 a 1852: esse duplo e
pera da Reforma»... lento movimento de elevação e de recuo representa
5 . LOUIS HALPHEN, Iniroduciion d I'Hirioirc. Paris, P.U.F. 1946, na época um interciclo completo da Europa e, mais
p. 50.
ou menos, do mundo inteiro. Sem dúvida, esses pe- cular. Em 1943, no maior livro de histiiria publicado
ríodos croiiológicos não têm um valor absoluto. Em na França no decorrer desses últimos vinte e cinco
outros bardmetros, o do crescimento econômico e da anos, o mesmo Ernest Labrousse cedia essa neces-
renda ou do produto nacional, François Perroux6 nos sidade de retorno a um tempo menos embaraçante,
ofereceria outros limites, mais válidos talvez. Mas quando, no próprio côncavo da depressão de 1774 a
1791, assinalava uma das fontes vigorosas da Revolu-
pouco importam essas discussões em curso! O histo-
riador dispõe seguramente de um tempo novo, elevado ção Francesa, uma de suas rampas de lançamento.
à altura de uma explicação onde a história pode tentar Apelava ainda para um meio interciclo, grande medi-
inscrever-se, dividindo-se de acordo com referências da. Sua comunicação ao Congresso Internacional de
inéditas, segundo essas curvas e sua própria respiração. Paris, em 1948, Comment naissent les révolutions?, se
esforça em ligar, desta vez, um patetismo econômico
Foi assim que Ernest Labrousse e seus alunos de curta duração (novo estilo) a um patetismo político
prepararam, após seu manifesto no último Congresso (estilo muito antigo), o dos dias revolucionários.
Histórico de Roma (1955), uma vasta investigação de Eis-nos novamente no tempo curto, e at6 o pescoço.
história social, sob o signo da quantificação. Não creio Bem entendido, a operação é lícita, útil, mas como é
trair seu desígnio dizendo que essa investigação levará sintomática! O historiador é, de bom grado, encena-
forçosamente à determinação de conjunturas (até mes- dor. Como renunciaria ao drama do tempo breve, aos
mo de estruturas) sociais, sem que nada nos assegure, melhores fios de uma velhíssima profissão?
de antemão, que esse tipo de conjuntura terá a mesma
velocidade ou a mesma lentidão que a econômica. Além dos ciclos e intercicios, há o que os econo-
Além disso, essas duas grandes personagens, conjun- mistas chamam, sem estudá-la, sempre, a tendência se-
tura econômica e conjuntura social, não nos devem cular. Mas ela ainda interessa apenas a raros econo-
fazer perder de vista outros atores, cuja marcha será mistas e suas coiisidcraçõcs sobre as crises estruturais,
difícil de deteriiiiiiar, talvez indeteriniiióvel, por falta iião tendo sofrido a prova das verificações históricas,
de medidas precisas. As ciências, as técnicas, as insti- se apresentam como esboços ou hipóteses, apenas
tuições políticas, as ferramentas mentais, as civiliza- enterrados iio passado recente, até 1929, quando muito
ções (para empregar essa palavra cômoda), têm igual- até o ario de 18708. Entretanto, oferecem útil introdu-
mente seu ritmo de vida e de crescimento, e a nova ção à história de longa duração. São uma primeira
história conjuntural, só estará no ponto, quando houver chave.
completado sua orquestra. A segunda, bem mais Útil, é a palavra esirutura.
Com toda lógica, esse recitativo deveria, por seu Boa ou má, ela domina os problemas da longa dura-
próprio excesso, conduzir à longa duração. Mas, por ção. Por estrutura, os observadores do social entendem
mil razões, o excesso não foi a regra e um retorno ao uma organizasão, uma coerência, relações bastante fi-
tempo curto se realiza sob nossos olhos; talvez porque xas entre realidades e massas sociais. Para nós, histo-
parece mais necessário (ou mais urgente) costurar riadores, uma estrutura é sem dúvida, articulação,
juntas a história "cíclica" e a história curta tradicional, arquitetura, porém mais ainda, uma realidade que o
do qJe ir do anterior para o desconhecido. Em termos tempo utiliza mal e veicula mui longamente. Certas
militares, tratar-se-ia no caso de consolidar posições estruturas, por viverem muito tempo, tornam-se ele-
adquiridas. Assim, o primeiro grande livro de Ernest mentos estáveis de uma infinidade de gerações: atra-
Labrousse, em 1933, estudava o movimento geral dos vancam a história, incomodam-na, portanto, coman-
preços na França no século XVIII', movimento se- dam-lhe o escoamento. Outras estão mais prontas à
6 . C f . rua Thtoris g&nIrale d u progrLr Iconomique, Cahiem de 8. Apreciação e m RENE CLEMENS, ~ r o l d ~ o m d n e#une
r 1hIo6e da
1'I.S.E.A. 1957.
7. Esquirse du mouvement der prix e1 der revenus an Francs OU
Ia rlruclure Icononiiquc, Paris, Domat-Montchrestien, 1952 - ver também
X V l l l e siicle, Paris, Dalloz, 1933, 2 v.
JOHANN AKERMAN, Cycle ct Stmcture, Ravua Iconomiqua, 1952, n9 1.
livres. O tema que Alphonse Duprontll trata, se apre-
se esfarelar. Mas todas são ao mesmo tempo, susten- senta também como uma das mais novas pesquisas da
táculos e obstáculos. Obstáculos, assinalam-se como Escola Histórica francesa. A idéia de cruzada é aí con-
limites (envolventes, no sentido matemático) dos quais siderada, no Ocidente, para além do século XIV, isto
o homem e suas experiências não podem libertar-se. é, muito além de a "verdadeira" cruzada, na continui-
Pensai na dificuldade em quebrar certos quadros geo- dade de uma atitude de longa duração que, repetida
gráficos, certas realidades biológicas, certos limites da incessantemente, atravessa as sociedades, os mundos,
produtividade, até mesmo, estas ou aquelas coerções os psiquismos mais diversos e toca com um último re-
espirituais: os quadros mentais também são prisões de flexo os homens do século XIX. Num domínio ainda
longa duração. i vizinho, o livro de Pierre Francastel, Peinture et So-
O exemplo mais acessível parece ainda o da ciétG2 assinala a partir dos inícios do Renascimento
coerção geográfica. Durante séculos, o homem é pri- florentino, a permanência de um espaço pictural "geo-
sioneiro de climas, de vegetações, de populações ani- métrico" que nada mais alterará até o cilbismo e a
mais, de culturas, de um equilíbrio lentamente cons- pintura intelectual dos inícios de nosso século. A his-
truído, do qual não pode desviar-se sem o risco de pôr , tória das ciências também conhece universos consfruí-
tudo novamente em jogo. Vede o lugar da transumân- I dos que são outras tantas explicações imperfeitas, mas
cia na vida montanhesa, a permanência de certos se- I aos quais, séculos de duração são regularmente conce-
tores de vida marítima, enraizados em certos pontos I didos. São rejeitados apenas depois de hbverem ser-
privilegiados das articulações litorâneas, vede a durá- vido longamente. O universo aristotélico se mantém
vel implantação das cidades, a persistência das rotas e
dos tráficos, a fixidez surpreendente do quadro geo- I sem contestação, ou quase, até Galileu, Descartes e
Newton; oblitera-se então diante de um universo pro-

i
gráfico das civilizações. fundamente geometrizado que, por sua vez, afundará,
porém muito mais tarde, diante das revoluções einstei-
As mesmas permanências ou sobrevivências no
imenso domínio cultural. O magnífico livro de Ernst nianasl:'.
Robert CurtiusQue finalmente apareceu numa tradu- A dificuldade, por um paradoxo s6 aparente, é
ção francesa, é o estudo de um sistema cultural que discernir a longa duraçiio no domínio onde a pesquisa
prolonga, deformando-a por suas escolhas, a civiliza- histórica acaba de obter seus inegáveis sucessos: o do-
ção latina do Baixo Império, esmagada, ela própria, mínio econômico. Ciclos, interciclos, crises estmturais
sob uma pesada herança: até os séculos XII e XIV, ocultam aqui as regularidades, as permanências de sis-
até o nascimento das literaturas nacionais, a civiliza- temas, alguns disseram de civilizaçõesl4 - isto é,
ção das elites intelectuais viveu dos mesmos temas, das velhos hábitos de pensar e de agir, quadros resistentes,
mesmas comparações, dos mesmos lugares-comuns e duros de morrer, por vezes contra toda lógica.
refrões. Numa linha anáioga de pensamento, o estudo Mas raciocinemos com base em um exemplo, ana-
de Lucien Febvre, Rabelais et le problème de i lisado depressa. Eis, perto de nós, no quadro da Euro-
l'incroyance au X V I e siècle30 dedicou-se a precisar a 11. L6 myihc de Croiradc. Ersai da sociologic rcligieure. Sorbonne,
ferramenta mental do pensamento francês na época de tese datilografada.
12. PIERRE FRANCASTEL, Pcinture cl Sociltl. Nairsancu et des-
Rabelais, esse conjunto de concepções que, b e n antes truclion d'un espace plasliquc, de l a Rcnaimnce au cubisme, Lyon,
de Rabelais e muito tempo depois dele, comandou as Audin, 1951.
13. Outros argumentos: colocam de bom grado em questão os
artes de viver, de pensar e de crer, e limitou duramente, rosos artigos que todos defendem no mesmo sentido de OTTO BRUN'&
sobre a história social da Europa, Hidorirche ~ c i t k h r i f i ,ti 177, no 3-
de antemão, a aventura intelectual dos espíritos mais de R. BULTMANN, ibidern, t. 176, nv 1, sobre o humanismo; - de
GEORGES LEFEBVRE, Annales hirioriqucs de la Rluolulion francaise,
9 . ERNST ROBERT CURTIUS, Europairche Liicraiur und Iarei- 1949, no 114, e de F. HARTUNG, Hirloriche Zcitrchrifl, t. 180, no 1,
nischcs Milielaller, Berna, 1948 trad. ir.: I.a Liiléralurc aureplcnnc 61 sobre o Despotismo esclarecido.. .
le Moyen Age laiin, Paris, P.U.F., 1956. 14. RENJ COURTIN, La Civiliration lconomique du Brlsil, Paris,
10. Paris, Albin Michel, 1943, 38 ed., 1969. Librairie de MCdicis, 1941.
pa, um sistema econômico que se inscreve em algumas tratará, tampouco, de uma escolha cujo único b e n e
linhas e regras gerais bastante claras: mantém-se mais ficiário será ele. Para o historiador, ocultá-lo é pres-
ou menos no lugar, do século XIV ao século XVIII, tar-se a uma mudança de estilo, de atitude, a uma alte-
digamos, para maior segurança, até por volta de 1750. ração de pensamento, a uma nova concepção do so-
Durante séculos, a atividade econômica depende de cial. B familiarizar-se com um tempo diminuído, por
populações demograficamente frágeis, como hão de vezes, quase no limite do movediço. Nessa faixa, não
mostrar os grandes refluxos de 1350-1450 e, sem dú- I
em outra, - voltarei a isso - é lícito desprender-se
vida, de 1630-1730'5. Durante séculos, a circulação vê do tempo exigente da história, sair dele, depois voltar
o triunfo da água e do navio, sendo toda a espessura a ele, mas com outros olhos, carregados de outras
continental, obstáculo, inferioridade. Os surtos de pro- inquietudes, de outras questões. Em todo caso, é em
gresso europeus, salvo as exceções que confirmam a re- relação a essas extensões de história lenta que a tota-
gra (feiras de Champagne já em seu declínio no início lidade da história pode se repensar, como a partir de
do período, ou feiras de Leipzig no século XVIII), uma infra-estrutura. Todas as faixas, todos os milha-
todos esses surtos de progresso se situam ao longo das res de faixas, todos os milhares de estouros do tempo
franjas litorâneas. Outras características desse sistema: I
da história se compreendem a partir dessa profundi-
a prioridade dos mercadores; o papel eminente dos me- dade, dessa semi-imobilidade; tudo gavita em torno
tais preciosos, ouro, prata, e mesmo o cobre, cujos cho- dela.
ques incessantes somente serão amortecidos, pelo de- Nas linhas que precedem não pretendo ter defi-
senvolvimento decisivo do crédito, e ainda, com o fim
do século XVI; os abalos repetidos das crises agríco-
nido o mister de historiador - mas uma concepção
desse mister. Feliz, e bem ingênuo, quem pensasse,
las estacionais; a fragilidade, diremos, do próprio soa- após as tempestades dos últimos anos, que encontra-
lho da vida econômica; enfim, o papel desproporcio- mos os verdadeiros princípios, os limites claros, a boa
nado à primeira vista, de um ou dois grandes tráficos Escola. De fato, todos os misteres das ciências sociais
exteriores: o comércio do Levante d o . século XII ao náo cessam de transformar-se em razão de seus movi-
século XIV, o comércio colonial no século. XVIII. mentos próprios e do vivo movimento do conjunto. A
Assim, por minha vez, defini ou antes, evoquei história não faz exceção. Nenhuma quietude está pois à
após alguns outros, os traços principais, do capitalismo vista e a hora dos discípulos não soou. Há uma longa
comercial, para a Europa Ocidental, etapa de longa distância de Charles-Victor Langlois e Charles Seigno-
duração. Não obstante todas as modificações eviden- bos a Marc Bloch. Mas desde Marc Bloch, a roda não
tes que os percorrem, esses quatro ou cinco séculos de cessou de girar. Para mim, a história é a soma de todas
vida econômica tiveram uma certa coerência, até a agi- as histórias possíveis - uma coleção de misteres e de
tação do século XVIII e da revolução industrial da pontos de vista, de ontem, de hoje, de amanhã.
qual ainda não saímos. Alguns traços lhes são i
comuns e permanecem imutáveis, enquanto que em O único erro, a meu ver, seria escolher uma des-
sas histórias com exclusão das outras. Foi e seria o
torno deles, entre outras continuidades, mil rupturas e erro historizante. Sabe-se que não será cômodo con-
agitações renovavam o aspecto do mundo. vencer todos os historiadores e, menos ainda, as ciên-
Entre os diferentes tempos da história, a longa cias sociais, empenhadas encarniçadamente em nos re-
duração se apresenta assim como um personagem em- conduzir à história tal como era ontem. Ser-nos-á
baraçante, complicado, amiúde inédito. Admiti-lo no preciso muito tempo e cuidado para fazer com que
coração de nosso mister não será um simples jogo, a ! todas essas mudanças e novidades sejam admitidas sob
habitual ampliaçio de estudos e curiosidades. Não se o velho nome de história. No entanto, uma nova
"ciência" histórica nasceu, e continua a interrogar-se e
15. A liora Irancesn. N a Espanlia o refluxo deinogr&lico sc nota desde
o fim d o s&culo XVl. a transformar-se. Anuncia-se, entre nós, desde 1900,
com a Revue de Synthèse Historique e com os Anna- graças a uma sociologiá empírica, desdenhosa de toda
les, a partir de 1929. O historiador quis-se atento a história, limitada aos dados do tempo curto, da inves-
"todas" as ciências do homem. Eis o que dá ao nosso tigação sobre o vivo; a outra ultrapassa pura e sim-
mister estranhas fronteiras e estranhas curiosidades. plesmente o tempo, imaginando ao termo de uma
Além disso, não imaginemos, entre o historiador e o "ciência da comunicação" uma formulação matemática
observador das ciências sociais, as barreiras e diferen- de estmturas quase intemporais. Este último procedi-
ças de ontem. Todas as ciências do homem, inclusive f
mento, o mais 'novo de todos, é evidentemente o único
a história, estão contaminadas umas pelas outras. que pode nos interessar profundamente. Mas o ocor-
Falam a mesma linguagem ou podem falá-la. rencial tem ainda bastante partidários para que os dois
aspectos da questão mereçam ser examinados alterna-
Quer se situe em 1558 ou no ano da graça de damente.
1958, trata-se, para quem quer compreender o mundo,
de definir uma hierarquia de forças, de correntes, de Falamos de nossa desconfiança em relação a uma
movimentos particulares, depois, apreender de novo história puramente fatual. Sejamos justos: se há
uma constelação de conjunto. A cada instante dessa um pecado factualista, a história, acusada de escolha,
pesquisa, será preciso distinguir entre movimentos lon- não é a única culpada. Todas as ciências sociais par-
gos e impulsos breves, estes, tomados desde suas fontes ticipam do erro. Economistas, demógrafos, geógrafos,
imediatadas, aqueles, no impulso de um tempo longín- estão divididos entre ontem e hoje (mas, nial dividi-
quo. O mundo de 1558, tão enfadonho no momento dos); ser-lhes-ia preciso para serem prudentes, man-
francês, não nasceu ao umbral desse ano sem encanto. ter a balança igual, o que é fácil' e obrigatório para o
E tampouco, sempre no momento francês, nosso difí- demógrafo; o que é imediato para os geógrafos (par-
cil ano de 1958. Cada "atualidade" reúne movimen- ticularmente os nossos, alimentados pela tradição vida-
tos de origem, de ritmo diferentes: o tempo de hoje liana); o que, ao contrário, só acontece raramente no
data, ao mesmo tempo, de ontem, de anteontem, de caso dos economistas, prisioneiros da mais curta atua-
outrora. lidade, entre um limite à retaguarda que vai aquém de
1945 e um hoje que os planos e previsões prolongam
no futuro imediato de alguns meses, quando muito
2. A Querela do Tempo Curto alguiis anos. Sustento que todo pensamento econômico
fica encantoado por essa restrição temporal. Cabe aos
Essas verdades são certamente banais. Entretan- historiadores, dizem os economistas, ir aquém de 1945,
to, as ciências sociais não se sentem quase tentadas na pesquisa das economias antigas; mas, fazendo isso,
pela busca do teinpo perdido. Não que se possa levan- privam-se de um maravilhoso campo de observação,
tar contra elas um firme requisitório e declará-las sem- que abandonaram por si mesmos, sem por isso negar-
pre culpadas de não aceitar a história ou a duração -lhe o valor. O eco,nomista tomou o hábito de correr
como dimensões necessárias de seus estudos. Aparen-
temente, elas nos dão mesmo uma boa acolhida; e a serviço do atual, a serviço dos governos.
exame "diacrônico" que reintroduz a história não está A posição dos etnógrafos e etnólogos não é tão
jamais ausente de suas preocupações teóricas. clara, nem tão alarmante. Alguns dentre eles subli-
Todavia, afastadas essas aquiescências, é preciso nharam bem a impossibilidade (mas todo o intelectual
convir que as ciênclas sociais, por gosto, por instinto é obrigado ao impossível) e a inutilidade da história
,profundo, talvez por iorniação, tendem a escapar sem- I no interior de seu mister. Essa recusa autoritária da
pre à explicação histórica; escapam-lhe por dois pro- história não terá quase servido Malinowski e seus dis-
cedimentos quase opostos: uma "fatualiza", ou se cípulos. De fato, como a antropologia se desinteres-
quisermos "atualiza" em excesso os estudos sociais, saria da história? E a mesma aventura do espírito,
como costuma dizer Claude Lévi-Strausslu. Não h6 ses e explicações, de recusar o real ta1 como é perce-
sociedade, por mais inferior que seja, que não revele à bido, de truncá-lo, de ultrapassá-lo, todas as opera-
observação, "as garras do evento", tampouco não há ções que permitem escapar ao dado, para melhor
sociedade cuja história tenha naufragado inteiramente. dominá-lo, mas que são, todas, reconstruções. Duvido
Por este lado, não teríamos razão em 110s lamentar ou que a fotografia sociológica do presente seja mais "ver-
insistir. dadeira" que o quadro histórico do passado, e tanto
menos quanto mais afastada do reconstruído ela qui-
Em compensação, nossa querela será bastante viva 1'
ser estar.
nas fronteiras do tempo curto, com respeito à sociolo-
gia das investigações sobre o atual, as investigações de Philippe Ariès18 insistiu sobre a importância do
mil direções, entre sociologia, psicologia e economia. expatriamento, da surpresa na explicação histórica:
Elas mergulham entre nós, como no estrangeiro. São tropeçais, no século XVI, em uma estranheza, estra-
à sua maneira, uma aposta repetida sobre o valor nheza para v6s, homem do século XX. Por que essa
insubstituível do tempo presente, seu calor "vulcâni- diferença? O problema está colocado. Mas direi que ,

co", sua riqueza abundante. Para que voltar-se para a surpresa, o expatriamento, o afastamento - esses
o tempo da história: empobrecido, simplificado, devas- grandes meios de conhecimento - não são menos
tado pelo silêncio, reconstruído - insistamos bem: re- necessários para compreender o que vos cerca, e de
construído. Na verdade, está tão morto, tão reconstruí- tão perto que não mais o vedes com clareza. Vivei
do quanto se pretende dizê-lo? Sem dúvida, o histo- em Londres um ano, e conhecereis bem mal a Ingla-
riador tem demasiada facilidade para destacar o essen- terra. Mas, por comparação, à luz de vossos espantos,
cial de uma época passada; para falar como Henri tereis bruscamente compreendido alguns dos traços
Pirenne, distingue nela sem esforço os "eventos impor- mais profundos e originais da França, aqueles que não
tantes", entenda-se, "aqueles que tiveram conseqüên- conheceis a força de conhecê-los. Face ao atual, o
cias". Simplificação evidente e perigosa. Mas, o que passado, tambCm 6 expatriamento.
não daria o viajante do atual para ter esse recuo (ou Historiadores e social scientists poderiam pois
esse avanço no tempo) que desmascararia e simplifi- eternamente passar a bola um para o outro no que
caril1 a vicla prcsiiitc, confusa, poiico legível porquc tange ao documento morto e ao testemunho muito vivo,
deinasiado atiavaiicada de gestos e sinais menores'? ao passado longínqiio, à atualidade muito próxima.
Claiide Lévi-Strauss pretende que uma hora de con- Não acho que esse problema seja essencial. Presente e
vcisaçfio com uiii cc~iiieii~porâiieo
dc Platão o informa- passado iluminam-se com luz recíproca. E se se
ria, mais que nossos discursos clássicos, sobre a observa exclusivamente na estreita atualidade, a aten-
coerência ou a iiicoerèiicia da civilização da Grécia ção incidirá sobre o que se mexe depressa! brilha com
7
antiga T . Estou bem de acordo com isso. Mas razão ou sem razão, ou acaba de mudar, ou faz ba-
é que, durante anos, ele ouviu cem vozes gregas salvas rulho, ou se revela sem esforço. Todo um fatual, tão
do silêncio. O historiador preparou a viagem. Uma fastidioso como o das ciências históricas, espreita o
hora na Grécia de hoje não lhe ensinará nada, ou observador apressado, etnógrafo que encontra por três
quase nada, acerca das coerências ou incoerências meses um povo polinésio, sociólogo industrial que
atuais. entrega os clichês de sua última investigação, ou que
pensa, com questionários hábeis e as combinações dos
Mais ainda, o inquiridor sobre o tempo presente cartões perfurados, cercar perfeitamente um mecanis-
somente chega até às tramas "finas" das estruturas, à mo social. O social é uma caça muito mais ardilosa.
condição, também, de reconstruir, de adiantar hipóte- Na verdade, que interesse podemos encontrar, nós,
16. CLAUDE WVI-STRAUSS, Anlhropologic slrucluralc, o p . cil., ciências do homem, nos deslocamentos, de que fala
p. 31.
17. DIOGkNE COUCHB, Lrs Ternpr Modernrs. no 195, p. 17. 8 Le Temps de I'histoire, Paris. Plon, 1954, notadamente p. 298 e%.
uma vasta e boa investigação sobre a região parisienseLg, I "história ciência do passado, ciência do presente". A
história dialética da duração, não é à sua maneira, ex-
de uma jovem entre seu domicílio, no XVIO quarcei-
rão, seu professor de música e o local das Sciences-Po? 1 plicação do social em toda a sua realidade? e portanto
do atual? Valendo sua lição nesse domínio como uma
Tira-se daí um lindo mapa. Mas, tivesse ela feito estu- Í
proteção contra o evento: não pensar apenas no tempo
dos de agronomia ou praticado o esqui náutico e tudo
teria mudado em suas viagens triangulares. Divirto-me
1 curto, não crer que somente os atores que fazem ba-
rulho sejam os mais autênticos; há outros e silenciosos
em ver, sobre um mapa, a distribuição dos domicílios - mas quem já não o sabia?
dos empregados de uma grande empresa. Mas, se não
disponho de um mapa anterior da distribuição, se a
distância cronológica entre os extratos não é suficiente 3 . Comunicação e Matemáticas Sociais
para permitir inscrever tudo num verdadeiro movimen-
to, onde está c problema sem o qual uma investigação Talvez não tenhamos tido razão em nos demorar
permanece um esforço perdido? O interesse dessas
investigações para a investigação é, quando muito, na agitada fronteira do tempo curto. Na verdade, aí
o debate se desenrola sem grande interesse, ou ao me-
acumular ensinamentos; ainda assim nem todas serão nos, sem surpresa útil. O debate essencial que a mais
válidas ipso facto para trabalhos futuros. Desconfie-
nova experiência das ciências sociais conduz, sob o
mos da arte pela arte.
duplo signo da "comunicação" e da matemática, está
Duvido igualmente que um estudo de cidade, alhures, entre nossos vizinhos.
qualquer que seja, possa ser o objeto de uma investi-
Mas aqui, não será fácil advogar o processo,
gaçãc. sociológica como foi o caso para AuxerreZ0, ou quero dizer, será algo difícil provar que nenhum estudo
Viena em Delfinadoa, sem se inscrever na duração his-
tórica. Toda cidade, sociedade tensa com suas crises, social escapa ao tempo da história, a propósito de ten-
tativas que, ao menos aparentemente, se situam abso-
seus cortes, seus pânicos, seus cálculos necessários, tem
lutamente fora dele.
que se recolocada no complexo dos campos próximos
que a rodeiam, e também desses arquipélagos de cidades E m todo caso, nessa discussão, se o leitor quiser
vizinhas das qiiais, iini dos priri~eirosa falar, terá sido nos seguir (para nos aprovar ou divergir de nosso
o historiador Richard Hapke; e portanto rio movimen- ponto de vista) fará bem em pesar por sua vez, e um
to, mais ou meiios afastado no tempo, amiúde milito a um, os termos de um vocabulário não inteiramente
íifastado iio iciiipo, qiie anima esse coniplexo. Se re- novo, mas, retomado, rejuvenescido nas novas dis-
gistrarmos um intercâmbio canipo-cidade, determinada cussões e que prosseguem sob nossos olhos. Nada
rivalidade industrial ou comercial, é indiferente ou, ao temos a repetir, evidentemente, acerca do evento, ou
contrário, não é essencial saber que se trata de um mo- da longa duração. Nem há grande coisa a dizer acerca
vimento jovem em pleno ímpeto ou de um fim de cor- das estruturas, ainda que a palavra - e a coisa - não
rida, de um longínquo ressurgimento ou de um monó- esteja ao abrigo das incertezas e das d i s c u ~ s õ e s ~E~ .
tono recomeço? inútil também insistir muito nas palavras sincronia e
Concluamos numa palavra: Lucien Febvre, du- diacronia; elas se definem por si mesmas, ainda que seu
rante os dez últimos anos de vida, terá repetido: papel, num estudo concreto do social, seja menos fácil
a delimitar do que parece. Com efeito, na linguagem
19. P. CHOMBART D E LAUWE, Paris e1 l'agglorndralion paririenne,
Paris, P.U.F., 1952, I. I, p. 106. da história (tal como eu a imagino), não pode haver
20: SUZANNE FRBRE e CHARLES BETTELHEIM, Une uille sincronia perfeita: uma parada instantânea, suspenden-
Irançoisc m o y e n n r , A u x c r r c e n 1950, Paris, Armand Colin, Cahiers der
Scicnces Politiquer, nv 17, 1951. do todas as durações, é quase absurda em si, ou, o que
21. PIERRE CLEMENT e NELLY XYDIAS, Vienne..sur-le-Rhbne. 22. Ver o Colloque sur lu Stmctuns, VIa Sec~áoda aEcole Pratique
Sociologie d'unc ciié {rançaire, Paris, Armand Colin, Cahiers der Scienccs
des Hautes ,tilides, rrsuino diitiloyrafado, 1958.
Politiques, no 71, 1955.
cebida do que se costuma dizer. Cada um de nós, além
vem a dar no mesma bastante fictícia; do mesmo modo, de sua própria vida, tem o sentimento de uma história
uina descida segundo a inclinaçáo do tempo não é
de massa cuja potência e cujos impulsos reconhece
pensável seriáo sob a forma de uma inultiplicidade de melhor, é verdade, do que as leis ou a direção. E se
descidas, segundo os diversos e inumeráveis rios do essa consciência, hoje, é cada vez mais viva, ela não
tempo. data apenas de ontem. (É o que acontece no tocante à
Essas breves chamadas e cuidados bastarão, para história econômica.) A revolução, pois, é uma re-
o instaiite. Mas é preciso ser mais explícito no que volução no espírito, consistiu em abordar de frente essa
concerne à história inconsciente, aos modelos, às ma- semi-obscuridade, em lhe conceder um lugar cada vez
temáticas sociais. Esses comentários indispensáveis se maior ao lado, até em detrimento, do factual.
reúnem alhures, ou - espero-o - não tardarão a se
reunir, numa problemática comum às ciências sociais. Nessa prospecção em que a história não está só
(ao contrário, ela nada mais fez senão seguir nesse
A história inconsciente é, bem entendido, a histó- domínio os pontos de vista das novas ciências sociais e
ria das formas inconscientes do social. "Os homens adaptá-los ao seu uso), novos instmmentos de conhe-
fazem a história, mas ignoram que a fazemvz3. A fór- cimento e investigação foram construídos: temos assim,
mula de Marx esclarece, mas não explica o problema. mais ou menos aperfeiçoados, por vezes ainda artesa-
De fato, sob um novo nome, uma vez mais, é todo o nais, os modelos. Os modelos não são mais do que
problema do tempo curto, do "microtempo", do factual hipóteses, sistemas de explicação solidamente ligados
que se nos reapresenta. Os homens sempre tiveram a segundo a forma da equação ou da função: isso é igual
impressão, vivendo seu tempo, de apreender seu desen- aquilo ou determina aquilo. Mas uma certa realidade
rolar no dia a dia. Essa história consciente, clara, é não aparece sem que uma outra não a acompanhe e,
abusiva, como muitos historiadores, já há muito tempo, desta para aquela, relações estreitas e constantes se re-
concordam em considerá-la? Ontem, a linguística acre- velam. O modelo estabelecido com cuidado permitirá,
ditava tirar tudo das palavras. A história teve a ilusão pois, colocar em questão, fora do meio social observa-
de tirar tudo dos eventos. Mais de um de nossos con- do - a partir do qual foi, em suma, criado - outros
temporâneos acreditaria de bom grado que tudo veio meios sociais de mesma natureza, através do tempo e
dos acordos de Ialta ou de Potsdam, dos acidentes de espaço. É seu valor recorrentc.
Dien-Bien-Phu ou de Sakhiet-Sidi-Iussef, ou desse outro
evento, importante de outro modo, é verdade, o lança- Esses sistemas de explicações variam ao infinito
mento dos sputniks. A história iiiconsciente se desen- segundo o temperamento, o cálculo ou o alvo dos uti-
rola além dessas luzes, de seus flashes. Admiti pois lizadores: simples ou complexos, qualitativos ou quan-
que existe, a uma certa distância, um inconsciente so- titativos, estáticos ou dinâmicos, mecânicos ou estatís-
cial. Admiti, além disso, esperando o melhor, que esse ticos. Retomo em Claude Lévi-Strauss esta última dis-
inconsciente seja considerado cientificamente mais rico tinção. Mecânico, o modelo estaria na própria dimen-
que a superfície cintilante à qual nossos olhos estão ha- são da realidade diretamente observada, realidade de
pequenas dimensões interessando somente a grupos mi-
bituados; cientificamente mais rico, isto é, mais sim- núsculos de homens (assim procedem os etnólogos a
ples, mais fácil para explorar - senão para descobrir. propósito das sociedades primitivas). Quanto às vas-
Mas a separação entre superfície clara e px'ofundezas tas sociedades, onde os grandes números intervêm, o
obscuras - entre ruído e silêncio - é difícil, aleatória. cálculo das médias se impõe: elas conduze:m aos mo-
Acrescentemos que a história "inconsciente", em parte delos estatísticos. Mas pouco importam essas defini-
domínio do tempo conjuntura1 e, por excelência, do ções, por vezes discutíveis!
tempo estrutural, é muitas vezes, mais claramente per- De minha parte, o essencial antes de estabelecer
23. Citado por CLAUDE L&VI-STRAUSS, Anihropologic slrucluralc. um programa comum das ciências sociais, é. precisar o
o p cit., pp. 30-31.
I
I
papel e os limites do modelo, que certas iniciativas tuto do metal - são também, jogadores; a "estratégia"
arriscam engrandecer excessivamente. Daí também, a de um, pesa sobre a "estratégia" do outro. Não será
necessidade de coiifroritar os modelos, por sua vez, com difícil transportar esse modelo fora do século privile-
a idéia de duração; pois, da duração que implicam giado e particularmente movimentado, o século XVI,
dependem bastante estreitamente, a meu ver, a respecti- que escolhemos para nossa observação. Os economis-
va significaçáo e o valor de explicação. tas não tentaram também à sua maneira, no caso par-
Para ser mais claro, tomemos exemplos entre mo- i
ticular dos países desenvolvidos de hoje, verificar a
velha teoria quantitativa da moeda modelo27?
delos históricos--', ou seja, fabricados por historiado-
res, modelos bastante grosseiros, rudimentares, rara- Mas as possibilidades de duração de todos esses
mente desenvolvidos até o rigor de uma verdadeira modelos ainda são breves se as compararmos às do mo-
regra científica e nunca preocupados em desembocar delo imaginado por um jovem historiador sociólogo
numa linguagem matemática revolucionária - todavia, americano, Sigmund D i a m ~ n d ~Atônito
~. com a dupla
modelos à sua maneira. I linguagern da classe dominante dos grandes financistas
americanos contemporâneos de Pierpont Morgan, lin-
Falamos mais acima do capitalismo comercial {

entre os séculos XIV e XVIII: trata-se aí de um mo- guagem anterior à classe e linguagem exterior (esta
última, na verdade, defende em face da opinião pública
delo, entre vários, que podemos depreender da obra de
Marx. Se deixa a porta aberta a todas as extrapola- a quem se representa o sucesso do financista como o
ções, aplica-se plenamente apenas a uma família dada triunfo típico do self-mude man, a condição da fortuna
de sociedades, durante um tempo dado. da própria nação), atônito com essa dupla linguagem,
vê nela a reação habitual a toda classe dominante que
Já não é o mesmo com o modelo que esbocei, sente seu prestígio atingido e seus privilégios ameaça-
num livro antigo5,de um ciclo de desenvolvimento
econômico, a propósito das cidades italianas entre os dos; para se mascarar, precisa confundir sua sorte com
séculos XVI e XVIII, alternadamente mercadoras, a da Cidade ou da Nação, seu interesse particular com
"industriais", depois especializadas no comércio do o interesse público. S. Diamond explicaria de bom
banco; esta última atividade, a mais lenta a desabro- grado, da mesma maneira, a evolução da idéia de di-
char, é também a mais lenta a se apagar. Mais res- nastia ou de império, dinastia inglesa, império roma-
trito, de fato, que a estrutura do capitalismo comercial, .
no. . O modelo assim concebido é, evidentemente,
esse esboço seria, mais facilmente que aquele, exten- capaz de correr os séculos. Supõe certas condições so-
sível na duração e no espaço. Registra um fenômeno ciais precisas, mas cuja história tenha sido pródiga: é
(alguns diriam uma estrutura dinâmica, mas todas as válido, por conseguinte, para uma duração muito mais
estruturas da história são pelo menos elementarmente
dinâmicas) apto a se reproduzir num número de cir-
cunstâncias fáceis de reencontrar. Aconteceria talvez a
I longa do que os modelos precedentes, mas ao mesmo
tempo põe em causa realidades mais precisas, mais es-
treitas.
mesma coisa com esse modelo, esboçado por Frank No limite, como diriam os matemáticos, esse gê-
Spooner e por mim mesmo", a propósito da história nero de modelo assemelhar-se-ia aos modelos favori-
dos metais preciosos, antes, durante e após o século tos, quase intemporais, dos sociólogos matemáticos.
XVI: ouro, prata, cobre - e crédito, esse ágil substi- Quase intemporais, isto é, na verdade, circulando pelas
24. Seria tentando dar um lugar aos umodelosa dos economista, que, rotas obscuras e inéditas da longuíssima duração.
na verdade, comandaram nossa imitação.
2 7 . ALEXANDRE CHABERT, Sfruclure lconomiquc e1 I h l o r i c mo-
25. L a M l d i f s r r a n l e c1 Ic monde m l d i f c r r a n l c n d I'lpoquc da Phi- ndlairc, Paris, Armand Colin, publ. do uCentre d'Etudes Economiquwu,
lippc I I , Paris, Armand Colin, 1949, p. 264 e 5s. 1956.
26. FERNAND BRAUDEL e FRANK SPOONER, L e r m l f a u x mo- 28. SIGMUND DIAMOND, T h c R c p u f a f i o n of lhe American Buri-
nifaircs ef I'lconomie d u X V l e rilcle. Rapporir ou Congr21 inlcrnelional ncssrnan, Cambridgc (Massachuset~~),
1955.
de R o m e , 1955, v. IV. pp. 233-264.
difícil via das medidas e dos longos cálculos estatísti-
As explicaçòes que precedem não são mais que cos. Da análise do social, pode-se passar diretamente
uina insuficiente iiitroduçiio à ciência e à teoria dos
a uma formulação matemática, à máquina de calcular,
n~odelos. E é preciso que os historiadores ocupem aí diremos nós.
posições de vanguarda. Seus modelos não passam
quase de feixes de explicações. Nossos colegas são, Evidentemente, é preciso preparar o trabalho dessa
aliás, tão ambiciosos e avançados na pesquisa, que ten- máquina que não engole nem tritura todos os alimen-
tam chegar à altura das teorias e das linguagens da tos. Além disso, foi em função de verdadeiras máqui-
informação, da comunicação ou das matemáticas qua- nas, de suas regras de funcionamento, para as comuni-
litativas. Seu mérito, - que é grande - é o de aco- cações no sentido mais material da palavra, que se
lher no seu domínio essa linguagem sutil, as matemá- esboçou e desenvolveu uma ciência da informação. O
ticas, mas que corre o risco à menor desatenção, de autor desse estudo não é, de modo algum, um especia-
escapar ao nosso controle e de precipitar-se, Deus sabe .lista nesses domínios difíceis. As pesquisas com vistas
para onde! Informação, comunicação, matemáticas h fabricação de uma máquina de traduzir, que ele se-
qualitativas, tudo se reúne bastante bem sob o vocá- guiu de longe, mas que ainda assim seguiu, lançam-no,
bulo, aliás amplo, das matemáticas sociais. Ainda como alguns outros, num abismo de reflexbes. Entre-
assim, é preciso iluminar nossa lanterna, como pu- tanto, permanece um duplo fato: 1Q) tais máquinas,
dermos. tais possibilidades matemáticas existem; 2Q) é preciso
As matemáticas sociais" são pelo menos três lin- preparar o social das matemáticas do social, que não
são mais apenas nossas velhas matemáticas habituais:
guagens que ainda podem misturar-se e não excluem curvas de preços, de salários, de nascimentos. . .
uma sequência. A imaginação dos matemáticos não
está no fim. Em todo caso, não há uma matemática, a Ora, se o novo mecanismo matemático nos escapa
matemática (ou então é uma reivindicação). "Não se com muita frequência, o preparo da realidade social
deve dizer a álgebra, a geometria, mas, uma álgebra, para seu uso, sua brocagem, seu recorte, não podem
uma geometria" (Th. Guilbaud), o que não simplifica iludir nossa atenção. O tratamento prévio, até aqui,
noFsos problemas, nem os deles. Há três linguagens, tem sido quase sempre o mesmo: escolher uma unidade
portanto: a dos fatos de necessidade (um é dado, o restrita de observação, tal como uma "tribo" primitiva,
outro segue), é o domínio das matemáticas tradicio- um "isolado" demográfico, onde se possa examinar e
nais; a linguagem dos fatos aleatórios, desde Pascal - tocar quase tudo diretamente com o dedo; estabelecer
é o domínio do cálculo das probabilidades; enfim, a em seguida, entre os elementos distinguidos todas as
linguagem dos fatos condicionados, nem determinados, relações, todos os jogos possíveis. Essas relações rigo-
nem aleatórios, mas submissos a certas coerções, a re- rosamente determinadas dão as próprias equações, das
gras de jogos, no eixo da "estratégia" de Von Neu- quais as matemáticas tirarão todas as conclusões e pro-
mann e Morgenstern", essa estratégia triunfante que longamentos possíveis para chegar a um modelo que
não ficou somente nos princípios e audácias de seus as resuma todas, ou antes, leve todas em conta.
fundadores. A estratégia dos jogos, pela utilização dos Nesses domínios evidentemente se abrem mil pos-
conjuntos, dos grupos, do próprio cálculo das probabi- sibilidades de pesquisas. Mas um exemplo valerá mais
lidades, abre o caminho As matemáticas "quantitativas". que um longo discurso. Claude Lévi-Strauss se nos
Por conseguinte, a passagem da observação à formu- oferece como um excelente guia; vamos segui-lo. Intro-
lação matemática não mais se faz obrigatoriamente pela duzir-nos-á num setor dessas pesquisas, digamos o de
29. Ver especialmente CLAUDE LIVI-STRAUSS, Bullelin Inlcrna- uma ciência da comunicaçáo~1.
tional de$ Scienccs socialcs, UNESCO, VI, n9 4, e mais geralmente todo
esse número de um grande interesse, intitulado: Les maihlrnaiiqucs a1 les
sciences socialer. 31. Todas as obxrvações que seguem são extraídas de sua Última obra.
30. T h e T h e o r y o/ C a m c s and economic Bchauiour, Princeton, 1944. a Anihropologic struciurale, o p . cii.
Cl. o relatório brilliantc de JEAN FOURASTIB, Critique, out. 1951, nV 51.
"Em to1111 ~ocicdnde", escreve Claude Lévi- "átomo" de parentesco, o qual nosso guia apresentou
-Strauss:l< "n nconiunicnção se opera pelo menos em na sua tese de 1949" sob a expressão mais simples:
três I I I V Ç ~CHO: I I I U ~ ~ C ~ das
Ç ~ O mulheres; comunicação entenda-se o homem, a esposa, a criança, depois o
do3 hriis c dos serviços; comunicação das mensagens". tio materno da criança. A partir desse elemento
Aclii~i~~ii~iosque sejam, em níveis diferentes, linguagens quadrangular e de todos os sistemas de casamentos
diferentes, mas linguagens. Assim sendo, não teremos conhecidos nesses mundos primitivos - e são nume-
o direito de tratá-las como linguagens, ou mesmo como rosos - os matemáticos procurarão as combinações
a linguagem, e de associá-las, de maneira direta ou in- e soluções possíveis. Ajudado pelo matemático André
direta, aos progressos sensacionais da linguística, ou Weill, Lévi-Strauss conseguiu traduzir em termos mate-
melhor, da fonologia, que "não pode deixar de repre- máticos a observação do antropólogo. O modelo
sentar, em face das ciências sociais, o mesmo papel obtido deve provar a validade, a estabilidade do sis-
renovador que a física nuclear, por exemplo, represen- tema, assinalar as soluções que este último implica.
tou para o conjunto das ciências exatas9'33? É dizer Vê-se qual é o encaminhamento dessa pesquisa:
muito, mas é preciso dizer muito, algumas vezes. Como ultrapassar a superfície da observação para atingir a
a história presa na armadilha J o evento, a linguística zona dos elementos inconscientes ou pouco conscien-
presa na armadilha das palavras (relação das palavras tes, depois reduzir essa realidade em elementos meno-
com o objeto, evolução histórica 'das palavras), se li- res, em toques finos, idênticos, cujas relações possam
bertou pela revolução fonológica. Aquém da palavra, ser precisamente analisadas. É nessa etapa "micro-
ela apegou-se ao esquema de som que é o fonema, indi- -sociológica" (de um certo gênero, sou eu que acres-
ferente por conseguinte a seu sentido, mas atenta a seu cento essa reserva) que se espera perceber as leis de
lugar, aos sons que o acompanham, aos agrupamentos estrutura mais gerais, como o linguista descobre as suas
desses sons, às estruturas infrafonêmicas, à toda reali- na ordem infrafonêmica e o físico, na ordem inframo-
dade subjacente, inconsciente da língua. O novo tra- lecular, isto é, ao nível do átomo""5. O jogo pode
balho matemático colocou-se sobre algumas dezenas de prosseguir, evidentemente, em muitas outras direções.
fonemas que se encontram, pois, em todas as línguas Assim, nada mais didático, do que ver Lévi-Strauss
do mundo passou a aplicar-se o novo trabalho mate- às voltas, desta vez, com os mitos e, maneira de ser,
mático, e eis a linguística, ao menos uma parte da lin- com a cozinha (essa outra linguagem) : re.duzirá os
guística que, no decorrer desses últimos vinte anos, mitos a uma série de células elementares, os mitemas;
escapa do mundo das ciências sociais para atravessar reduzirá (sem acreditar muito) a linguagem dos livros
"o desfiladeiro das ciências exatas". de cozinha em gustemas. A cada vez, está à procura
Estender o sentido da linguagem às estruturas de níveis de profundidade, subconscientes: ao falar,
elementares de parentesco, aos mitos, ao cerimonial, não me preocupo com os fonemas de meu discurso;
às trocas econômicas, é pesquisar esse caminho difícil à mesa, salvo exceção, não me preocupo mais, culi-
mas salutar do desfiladeiro, e é a proeza que realizou
Claude Lévi-Strauss, à propósito, primeiramente, da nariamente, com "gustemas", se é que existem "gus-
troca matrimonial, essa primeira linguagem, essencial temas". A cada vez, entretanto, o jogo das relações
às comunicações humanas, a tal ponto que não há sutis e precisas me faz companhia. Essas relações
sociedades, primitivas ou não, onde o incesto, o casa- simples e misteriosas, a última palavra da pesquisa
mento no interior da estreita célula familiar, não seja sociológica, seria apreendê-las sob todas as linguagens,
proibido. Portanto, uma linguagem. Sob essa lin- para traduzi-las em alfabeto Morse, quero dizer, a uni-
guagem, ele procurou um elemento de base correspon- versal linguagem matemática? É a ambição das novas
dente, se quisermos, ao fonema, esse elemento, esse 34. Ler ~Iruclures llimcntairsr de la parenll, Paris, P.U.F., 1949.
Ver Anlhropologie síruciurale, pp. 47-62.
32. Ibid., p. 326.
33. Ibid., p. 39. 35. Anlhropologie ..., pp. 42-43.
natemáticas sociais. Mas, posso dizer, sem sorrir, sentadas até aquiw, se prestariam mal a tais viagens,
que essa é uma outra história? antes de tudo porque circulam sobre uma única das
inumeráveis rotas do tempo, a da longa, longuíssima
Reintroduzamos, com efeito, a duração. Disse duração, ao abrigo dos acidentes, das conjunturas, das
que os modèlos eram de duração variável: valem o rupturas? Voltarei, uma vez mais, a Claude Lévi-
tempo que vale a realidade que eles registram. E -Strauss, porque sua tentativa, nesses domínios, me
esse tempo, para o observador do social, é primordial, parece a mais inteligente, a mais clara, a melhor enrai-
porque, mais significativos ainda que as estruturas pro- zada também na experiência social de onde tudo deve
fundas da vida, são seus pontos de ruptura, sua brusca partir, ou aonde tudo deve voltar. A cada vez, note-
ou lenta deterioração sob o efeito de pressões con- mo-lo, ele põe em causa um fenômeno de extrema
traditórias. lentidão, como que intemporal. Todos os sistemas
Comparei por vezes os modelos a navios. O de parentesco se perpetuam porque não há vida huma-
navio construído, o meu interesse é pô-lo na água, ver I
na possível além de uma certa taxa de consagüinidade,
se flutua, depois fazê-lo subir ou descer, à minha von- , porque é preciso que um pequeno grupo de homens,
tade, as águas do tempo. O naufrágio é sempre o I para viver, se atira para o mundo exterior: a proibi-
momento mais significativo. Assim, a explicação ção do incesto é uma realidade de longa duração.
imaginada por F. Spooner e por mim mesmo, para 0 s mitos, lentos para se desenvolver, correspondem,
os jogos entre metais preciosos, não me parece válido eles também, a estruturas de extrema longevidade.
antes do século XV. Aquém, os choques dos metais Podemos, sem nos preocupar em escolher a mais anti-
são de uma violência que a observação ulterior não ga, colecionar as versões do mito de Édipo, sendo que
havia assinalado. Então, cabe-nos procurar a causa. o problema é ordenar as diversas variações e pôr à
Assim como é necessário ver, rumo à jusante desta luz, abaixo delas, uma articulação profunda que as
vez, porque a navegação de nosso navio muito sim- comande. Mas suponhamos que nosso colega se inte-
ples torna-se difícil, depois impossível, com o século resse não por um mito, mas pelas imagens, pelas
XVIII e o impulso anormal do crédito. Para mim, a interpretações sucessivas do "maquiavelismo", que ele
pesquisa deve ser sempre conduzida, da realidade pesquisa os elementos de base de uma doutrina bas-
social ao modelo, depois deste àquela, e assim por tante simples e muito difundida, a partir de seu lança-
diante, por uma sequência de retoques, de viagens mento real por volta do meio do século XVI. A cada
pacientemente renovadas. O modelo é assim, alter- instante, aqui, quantas rupturas, quantas reviravoltas,
nadamente, ensaio de explicação da estrutura, instru- até na própria estrutura do maquiavelismo, pois esse
mento de controle, de comparação, verificação da sistema não tem a solidez teatral, quase eterna, do
solidez e da própria vida de uma estrutura dada. Se mito; ele 6 sensível às incidências e saltos, às intem-
eu fabricasse um modelo a partir do atual, gostaria I péries múltiplas da história. Numa palavra, não
de recolocá-10 imediatamente na realidade, depois caminha apenas sobre as estradas tranquilas e monó-
tonas da longa duração . . . Assim, o procedimento
fazê-lo remontar no tempo, se possível, até seu nas-
cimento. Após o que, calcularia sua vida provável,
até a próxima ruptura, segundo o movimento conco-
i que Lévi-Strauss recomenda na pesquisa das estruturas
matematizáveis, não se situa apenas na etapa micro-
mitante de outras realidades sociais. A não ser que, -sociológica, mas no encontro do infinitamente pequeno
servindo-me deie, como de um elemento de compa- e da longuíssima duração.
ração, eu o faça passear no tempo ou no espaço, em
busca de outras realidades capazes de se iluminar I De resto, as revolucionárias matemáticas quali-
tativas estarão elas condenadas a seguir somente as
graças a ele, com uma luz nova. I
36. Digo matemáticas qualitativas, segundo a estratkgia dos jogos. So-
Não tenho razâo em pensar que os modelos das bre os modelos clássicos e tais como os elaboram os economistas, uma
discusrio diferente estaria por se empenhar.
matemáticas qualit~tivas. tais como nos foram apre-
estradas da longuíssima duração? Nesse caso, após quando houverem abordado uma sociedade moderna,
esse jogo cerrado, encontraríamos apenas verdades seus problemas emaranhados, suas diferentes velocida-
que são um pouco demais as do homem eterno. des de vida. Apostemos que a aventura tentará um
Verdades primeiras, aforismos da sabedoria das na- de nossos sociólogos matemáticos; apostemos tam-
ções, dirão espíritos melancólicos. Verdades essenciais, bém que provocará uma revisão obrigatória dos métodos
responderemos, e que podem iluminar com uma nova até aqui observados pelas matemáticas novas, porque
luz as próprias bases de toda vida social. Mas não estas não podem restringir-se a isso que chamarei
reside aí o conjunto do debate. desta vez, a duração demasiado longa; elas devem
reencontrar o jogo múltiplo da vida, todos os seus
Não creio, de fato, que essas tentativas - ou movimentos, todas as suas durações, todas as suas
tentativas análogas - não possam prosseguir fora da rupturas, todas as suas variações.
longuíssima duração. O que se fornece às matemá-
ticas sociais qualitativas, não são cifras, mas relações,
relações que devem ser assaz rigorosamente definidas
para que possamos atribuir-lhes um sinal matemático ( 4. Tempo do historiador, tempo do sociólogo
a partir do qual serão estudadas todas as possibilida-
des matemáticas desses sinais, sem mesmo nos preo- Ao termo de uma incursão pelo país das intem-
cuparmos mais com a realidade social que representam. porais matemáticas sociais, eis-me de volta ao tempo,
Todo o valor das conclusões depende portanto do A duração. E, historiador incorrigível, espanto-me,
valor da observaçáo inicial, da escolha que isola os uma vez mais, que os sociólogos tenham podido esca-
elementos essenciais da realidade observada e deter- par dela. Mas é que seu tempo não é o nosso: é
mina suas relações no seio dessa realidade. Conce-
muito menos imperioso, menos concreto também, nunca
be-se, por conseguinte, a preferência das matemáticas está no coração de seus problemas e de suas reflexões.
sociais pelos modelos que Claude Lévi-Strauss deno-
mina mecânicos, isto é, estabelecidos a partir de De fato, o historiador não sai jamais do tempo
grupos estreitos onde cada indivíduo, por assim dizer, da história: o tempo cola em seu pensamento como a
é diretamente observável e onde uma vida social terra à pá do jardineiro. Ele sonha, seguramente, em
muito hornogênea permitz definir seguramente relações lhe escapar. Com a angústia de 1940 ajudando, Gastoii
humanas, simples e concretas, pouco variáveis. R0upnel:~7escreveu a esse propósito palavras que fazem
Os modelos ditos estatísticos se destinam, ao sofrer todo historiador sincero. É igualmente o sen-
tido de uma antiga reflexão de Paul Lacombe, também
contrário, às sociedades amplas e complexas onde a historiador de grande classe: "o tempo não é nada
observaçáo só pode !er dcseiivolvida graças às médias, em si, objetivamente, não é nada senão uma idéia para
isto é, às mateiiiátic:,~tradicioiiais. Mas, essas iiiédias
nós":iX... Mas se trtta no caso de verdadeiras eva-
estabelecidas, se o observador é capaz de estabelecer, sões? Pessoalmente, no decorrer de um cativeiro
lia escala dos grupos e não mais dos indivíduos, essas bastante moroso, lutei muito para escapar 3 crônica
relaçõii de base de que. falávamos e que são neces-
sárias às elaborações das matemáticas qualitativas, desses anos difíceis ( 1940-1945). Recusar os even-
tos e o tempo dos eventos, era colocar-se à margem,
nada impede por conseguinte de recorrer a elas. Ainda ao abrigo, para olhá-los um pouco de longe, melhor
não houve, que eu saiba, tentativas desse gênero. Mas
estamos no início das experiências. Por ora, quer se julgá-los e não crer muito. Do tempo curto, passar
ao tempo menos curto e ao tempo muito longo (se
trate de psicologia, de economia, de antropologia, )
existe, este último, só pode ser o tempo dos sábios);
todas as experiências foram feitas no sentido que
3 7 . H i ~ i o i r s e1 Dcslin, Paris, Bernard Graset, 1943, parsim, notada-
defini à propósito de Lévi-Strauss. Mas as matemá- mente p. 169.
ticas sociais qualitativas só darão provas de seu valor 38. Neuue dr rynfhise hisíoriqur, 1900, p. 32,
pode, à vontade, cortar, fechar, recolocar em movi-
depois, chepndo 11 rtiw iciiiio, deter-se, considerar mento. O tempo da história prestar-se-ia menos,
tudo de novo a ~ r t + r i i i t . i iiir,
r ver tudo girar à volta: a repito-o, ao duplo jogo ágil da sincronia e da diacro-
operaçAo tem coiii o que tentar um historiador. nia: quase não permite imaginar a vida como um
Mas, cssns fugas sucessivas não o repelem em mecanismo cujo movimento podemos parar para dele
definitivo, fora do tempo do mundo, do tempo da apresentar, à vontade, uma imagem imóvel.
história, imperioso porque irreversílrel e porque corre Esse desacordo é mais profundo do que parece:
no próprio ritmo da rotação da Terra. De fato, as
o tempo dos sociólogos não pode ser o nosso; repugna
durações que distinguimos são solidárias umas com as à estrutura profunda de nossa profissão. Nosso tem-
outras: não é a dcração que é tanto assim criação de
nosso espírito, mas as fragmentações dessa duração. po é medida, como o dos economistas. Quando um
sociólogo nos diz que uma estrutura não cessa de se
Ora, esses fragmentos se reúnem ao termo de nosso destmir senão para se reconstruir, aceitamos de bom
trabalho. Longa duração, conjuntura, evento se en-
grado a explicação que a observação histórica confir-
caixam sem dificuldade, pois todos se medem por uma ma de resto. Mas quiséramos, no eixo de nossas
mesma escala. Do mesmo modo, participar em espí-
rito de um desses tempos, é participar de todos. O exigências habituais, saber a duração precisa desses
filósofo, atento ao aspecto subjetivo, interior à noção movimentos, positivos ou negativos. Os ciclos econô-
micos, fluxo e refluxo da vida material, se medem.
do tempo, não sente jamais esse peso do tempo da Uma crise estrutural social deve, igualmente, referir-se
história, de um tempo concreto, universal, tal como no tempo, através do tempo, situar-se exatamente nela
o tempo da coiijuntu!-a que Ernest Labrousse descreve
no início de seu livra:'!), como um viajante que, idên- mesma e mais ainda em relação aos movimentos das
tico em toda parte a si mesmo, corre o mundo, impõe estruturas concomitantes. O que interessa apaixona-
os mesmos constrangimentos, qualquer que seja o país damente um historiador, é o entrecruzamento desses
movimentos, sua interação e seus pontos de ruptura:
onde desembarca, o regime político ou a ordem social coisas todas que só podem se registrar em relação ao
que aborda. tempo uniforme dos historiadores, medida geral de
Para o historiador, tudo começa, tudo acaba pelo todos esses fenômenos, e não ao tempo social multi-
tempo, um tempo matemático e demiúrgico, do qual forme, medida particular a cada um desses fenômenos.
seria fácil sorrir, tempo como que exterior aos homens,
L'e~Ógen~", diriam os economistas, que os impele, os Essas reflexões ao contrário, um historiador as
constrange, arrebata seus tempos particulares de cores formula, com ou sem razão, tnesmo quando penetra
diversas: sim, o tempo imperioso do mundo. na sociologia acolhedora, quase fraternal de Georges
Gurvitch. Um filÓsof04~ não O definia, ontem, comc
Os sociólogos, é claro, não aceitam essa noção aquele que "encurrala a sociologia na história"? Ora,
muito simples. Estão muito mais próximos da Dia- mesmo nele, o historiador não reconhece nem suas
lectique de lu durée, tal como a apresenta Gaston durações, nem suas temporalidades. O vasto edifício
Bachelard". O tempo social é simplesmente uma di- social (diremos o modelo?) de Georges Gurvitch se
mensão particular de determinada realidade social que
contemplo. Interior a essa realidade como pode sê-10 organiza segundo cinco arquiteturas essenciaid2: os
- patamares em profundidade, as sociabilidades, os gru-
a determinado indivíduo, é um dos sinais entre
pos sociais, as sociedades globais -
os tempos, esse
outros - de que ela se reveste, uma das propriedades último andaime, o das temporalidades, o mais novo,
que a marcam como ser particular. O sociólogo não
41. GILLES GRANGER, Eudnemcnt et Slruclure dons Ies Scienccs
é incomodado por esse tempo complacente que, ele de l'homme, Cahiers de I'lnstitut de Science economiquc Appliquée, Série
M, np I, pp. 4142.
39. ERNEST LABROUSSE, La crise de l ' i c o n o m i ~ /rançaire à lo
ueille de Ia Riuolulion françaire, Patis, P.U.F., 1944, IntroduGáo. 42. Ver meu artigo, sem dúvida, muito polêmico uGeorges Gurvitcli
et Ia disco?tinuité du social*, Annaler E.S.C., 1953, 3: pp. 547-361.
40. Paris, P.U.F., 2r ed., 1950.
sendo também o último construído e como que sobre- Não sei se esse artigo muito claro, muito ampa-
posto ao conjuiito. rado, segundo o hábito dos historiadores, terá a aquies-
cência dos sociólogos e de nossos outros vizinhos.
As temporalidades de Georges Gurvitch são múl- I Duvido. . E m todo caso, não é útil repetir, h guisa
tipl;is. Ele distingue toda uma série: o tempo de longa de conclusão, seu leitmotiv exposto com insistêricia.
I
diiração e em ritmo mais lento, o tempo ilusão de i Se a história está destinada, por natureza, a dedicar
óptica ou o tempo surpresa, o tempo de pulsação uma atenção privilegiada à duração, a todos os movi-
irregular, o tempo cíclico, o tempo em atraso sobre si mentos em que ela pode decompor-se, a longa duração
próprio e o tcmpo dc altcrii5iicia cntre atraso e avan- nos parece, nesse leque, a linha mais útil para uma
ço, o tempo em avaiico sobre si próprio, o tempo ex- observação e uma reflexão comuns às ciências sociais.
plosivof". . . Como o historiador se deixaria conven- É pedir muito, a nossos vizinhos, desejar que a um
cer? Com essa gama de cores, ser-lhe-ia impossível dado momento de seus raciocínios, reconduzam a esse
reconstituir a luz branca unitária, que lhe é indispen- eixo suas constatações ou suas pesquisas?
sável. Ele percebe também rapidamente, que esse
tempo camaleão assinala sem mais, com um sinal su- Para os historiadores, que não serão todos da
plementar, com um toque de cor, as categorias ante- minha opinião, seguir-se-ia uma inversão do vapor: é
para a história curta que vão, instintivamente, suas
riormente distinguidas. Na cidade de nosso amigo, o preferências. Estas têm a cumplicidade dos sacros-
tempo, último a cnegar, se aloja muito naturalmente santos programas da Universidade. Jean-Paul Sartre,
entre os outros; assume a dimensão desses domicílios em recentes artigo+, reforça o ponto de vista deles
e de suas exigências, segundo os "patamares", as I
quando, querendo protestar contra o que, no mar-
sociabilidades, os grupos, as sociedades globais. E uma l xismo, é ao mesmo tempo demasiado simples e dema-
maneira diferente de reescrever, sem modificá-las, as i
1 siado pesado, ele o faz em nome do biográfico, da
mesmas equações. Cada realidade social secreta seu
tempo ou suas escalas de tempo, como vulgares con-
chas. Mas o que nós, historiadores, ganhamos com
1 realidade abundante do factual. Nem tudo está dito,
quando se tiver "situado" Flaubert como um burguês,
ou Tintoretto como um pequeno-burguês. Estou efe-
isso? A imensa arquitetura dessa cidade ideal perma- tivamente de acordo. Mas a cada vez, o estudo do
nece imóvel. A história está ausente dela. O tempo caso concreto - Flaubert, Valéry, ou a política exte-
do mundo, o tempo histórico aí se encontra, mas como rior da Gironda - reconduz, finalmente, Jean-Paul
o vento em Eolo, encerrado numa pele de bode. Não Sartre ao contexto estrutural e profundo. Essa pes-
é à história que os sociólogos, final e incoilsciente- quisa vai da superfície às profundezas da história e
mente, querem mal, mas ao tempo da história, - atinge minhas próprias preocupações. Alcançá-las-ia
essa realidade que permanece violenta, mesmo se se ainda melhor se a ampulhetâ fosse inclinada nos dois
procura arranjá-la, diversificá-la. Essa coerção à qual sentidos - do evento para a estrutura, depois das
o historiador nunca escapa, os sociólogos escapam estruturas e dos modelos para o evento.
quase sempre: evadem-se ou no instante, sempre atual, O marxismo é uma multidão de modelos. Sartre
como que suspenso acima do tempo, ou nos feno- protesta contra a rigidez, o esquematismo, a insufi-
menos de repetição que não são de nenhuma idade; ciência do modelo, em nome do particular e do indi-
portanto, por uma marcha oposta do espírito, que os vidual. Protestarei como ele, (em estes ou aqueles
acantona seja no factuel'mais estrito, seja na duração matizes a menos), não contra o modelo, mas contra
mais longa. Essa evasão é lícita? Aí reside o verda- a utilização que dele se faz, que muitos se julgaram
deiro debate entre historiadores e sociólogos, inclusive autorizados a fazer. O gênio de Marx, o segredo de
entre historiadores de opiniões diferentes! 44. JEAN-PAUL SARTRE, Fragment d'un livre B paraltre tur le
Tintoret, Ler T c m p s Modcrnes, nov. 1957, e artigo citado precedente-
43. Cf. GEORGES GURVITCH, Dítcrminismcs sociaux r t Liberid mente.
humaiiie, Paris, P.U.F., 1955, pp. 38-40 e passim..
seu poc,cs~* l ~ ~ ~ ~ l ~1 1ti . vi ~ricrl ~
IIO ~Iiilo l ~q~1 1, d o i o
~ ~ tlc Entretanto, que não se esqueça uma Última lin-
priliipii~i (1 (11111 ) i 1 1 1 VI-IIIIIIII'II IIY iiiotlrlos sociais, e a guagem, uma última família de modelos, para falar
11111 111 i111 III~I,III11111 II~;I~O I~istOricn. Eses modelos
a verdade: a redução necessária de toda realidade
IIIIIII~~ 1111 NIIII simplicidade ao lhes ser dado
I IIII~!~~IIIIIIIY
social ao espaço que ela ocupa. Digamos a geografia,
VI~IIII III. 11.1, iIr. cxp1iciiçU0 prévia, automática, apli- a ecologia, sem nos deter muito nessas diferenças de
~ . I , V I . I ri,\ ~ o d OS ~ slugares, a todas as sociedades. Ao vocabulário. A geografia se considera m u i b frequen-
IIII\W cluc, transportando-os sobre os rios mutantes do
temente como um mundo em si, e é pena.i' Ela teria
tciiipo, sua trama seria posta em evidência porque é necessidade de um Vidal de La Blache que, desta
sólida e bem tecida, reapareceria sem cessar, mas vez, em lugar de pensar tempo e espaço,. - d a r i a
matizada, alternadamente esfumaçada ou avivada pela espaço e realidade social. E nos problemas de con-
presença de outras estruturas suscetíveis, elas próprias, junto das ciências do homem que, por conseguinte,
de serem definidas por outras regras e, portanto, por dar-se-ia o passo na pesquisa geográfica. Ecologia:
outros modelos. Assim, limitou-se o poder criador a palavra, para o sociólogo, sem que ele o confesse B
da mais poderosa análise social do último século. Ela sempre, é uma maneira de não dizer geografia e, ao
,. mesmo tempo, de esquivar os problemas que o espaço
não poderia reencontrar força e juventude senão na
longa duração . . . Acrescentarei eu que o marxismo coloca e, mais ainda, que ele revela à observação
atual me parece a própria imagem do perigo que atenta. Os modelos espaciais são esses mapas onde
a realidade social se projeta e parcialmente se explica,
espreita toda ciência social apaixonada pelo modelo modelos, na verdade, para todos os movimentos da
no estado puro, presa ao modelo pelo modelo? duração e sobretudo da longa duração, para todas as
O que eu quisera sublinhar também para concluir categorias do social. Mas a ciência social os ignora
é que a longa duração é apenas uma das possibilida- 1 de maneira espantosa. Pensei muitas vezes que uma
des de linguagem comum em vista de uma confrontação
das ciências sociais. Existem outras. Assinalei, bem
ou mal, as tentativas das novas matemáticas sociais.
I das superioridades francesas nas ciências sociais era
essa escola geográfica de Vidal de La Blache, cujo
espírito e as lições não nos consolaríamos em ver
As novas me seduzem, mas as antigas, cujo triunfo é traídos. É preciso que todas as ciências sociais, por
patente em economia - talvez a mais avançada das seu lado, dêem lugar a uma "concepção (cada vez)
ciências do homem - não merecem esta ou aquela mais geográfica da humanidaden4B, como Vidal de La
reflexão desabusada. Imensos cálculos nos esperam Blache o pedia já em 1903.
nesse domínio clássico, mas há equipes de calcula-
Na prática - pois esse artigo tem um fim prático
dores e máquinas de calcular, dia a dia mais aper-
feiçoadas. Creio na utilidade das longas estatísticas, - desejaria que as ciências sociais, provisoriamente,
no necessário remontar, a partir desses cálculos e pes- cessassem de tanto discutir sobre suas fronteiras recí-
procas, sobre o que é ou não é ciência social, o que
quisas, a um passado cada dia mais recuado. O século
XVIII europeu, no seu conjunto, está semeado por
i é ou nHo 6 estrutura . . . Que procurem antes traçar,
através de nossas pesquisas, as linhas, se existem
nossos canteiros de obra, mas já o XVII, também, e
mais ainda o XVI. Estatísticas de uma dimensão linhas, que orientariam uma pesquisa coletiva, bem
inaudita nos abrem por sua linguagem universal, as como os temas que permitiriam atingir uma primeira
profundezas do passado chinês4.. Sem dúvida, a es- convergência. Essas linhas, chamo-as pessoalmente:
tatística simplifica para melhor conhecer. Mas toda matematização, redução ao espaço, longa duração.. .
Mas estaria curioso para conhecer aquelas que outros
ciência vai assim do complicado ao simples.

I
45. OTTO BERKELBACH, VAN DER SPRENKEL, ~Population 46. P. VIDAL DE LA BLACHE, Rauue de synfh2se h i ~ f o r i q u e 1903,
,
Statistiw of Ming China*, B.S.O.A.S., 1953; MARIANNE RI,EGER, aZur p. 239.
Finani-und Agrargeschichte der Ming Dpastie 13681643>s, Sinico, 1932.
,?,,lii, IIIII,~I~~I, III~IIII 11 IIIIII. I ' o i s ÇSSC artigo, é necessário
III I,,, i l ~ l i r 1111 IUII IICIISO colocado sob a rubrica
I 1, / I , I I + r * / í ' ~ I ~ I I / J ~ I ~ . YPretende
~'~. por não resolver pro-
III~.IIIII~ cri1 que infelizmente cada um de nós, no que
II:I~concerne à sua especialidade, se expõe a riscos
evidentes. Essas páginas são um chamado à discussão.

I 4. UNIDADE E DIVERSIDADE DAS


i
i
CIÉNCIAS DO 1-IOMEM1

A primeira vista - ao menos se se participa por


pouco que seja em seu processamento - à primeira
vista, a s ciências humanas nos impressionam não pela
unidade, difícil de formular e de promover, mas pela
diversidade entranhada, antiga, afirmada, para dizer
tudo, estrutural. Elas são desde logo elas mesmas,
estreitamente, e se apresentam como outras tantas
pátrias, linguagens e também, o que é menos justifi-
cável, como outras tantas carreiras, com suas regras,
Rubxica bem conhecida dor Annolcr (E.S.C.). I. Rcuuc ds l'tnreigncment rupe"aur, n9 1. 1960, pp. 17-22.
47.

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