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Os Inimigos da Fé

O evangelho do reino produz resultados onde quer que seja pregado. Como já foi dito
pelo profeta, a palavra divina jamais “volta vazia” (Is 55.11).

O modo como essa palavra é recebida define a sua eficiência. Onde quer que ela seja
acolhida, produzirá frutos para a salvação. Se for rejeitada, produzirá condenação. Se
acolhermos esta palavra com fé obediente, somos salvos. Se rejeitarmos esta palavra,
adicionamos aos nossos muitos pecados as transgressões do orgulho e da incredulidade.
O evangelho cancela todo potencial de neutralidade — não há como alguém ouvi-lo e
permanecer o mesmo. Ou a pessoa será aproximada de Cristo ou será considerada
indesculpável, no dia do juízo, por não ter invocado o Senhor.

Em suma, somos responsáveis pelo modo como respondemos à Palavra do Deus.


Sem obscurecer o ensino bíblico sobre a soberania divina, veremos que temos
responsabilidade no que diz respeito ao modo como acolhemos a proclamação das
Escrituras. Por isso é preciso resistir aos inimigos que buscam impedir o exercício da fé.

No texto lido, o Senhor Jesus compara a pregação ao trabalho de um agricultor que sai
para semear boas sementes. Sem dúvida tais sementes são o evangelho e o semeador é o
próprio Cristo ou quaisquer de seus discípulos que pregam e testemunham. As sementes
caem em solos diferentes, os corações humanos.

O texto vai nos dizer, basicamente, que nos corações é que são travadas as grandes
batalhas, nas quais são definidos os destinos eternos. Ao cair em solo bom, as sementes
nascem e dão fruto em grande quantidade (vv. 8 e 20). Em outros solos, a semente é
prejudicada pela ação de diversos inimigos.

Hoje conheceremos quais são os inimigos da fé, os opositores que buscam impedir que
creiamos e prossigamos no desfrute e conhecimento do evangelho do reino. Quais são
estes inimigos da fé? Como identificá-los e como vencê-los?

Satanás (vv. 4, 4.15).

Somos informados de dois fatos acerca da ação do diabo, envolvendo a pregação do


evangelho do reino:

1. Ele é um inimigo real, pessoal, que fica à espreita, com o objetivo de roubar a
Palavra de nossos corações (v. 4).
2. Ele atua quase que simultaneamente à pregação. Ele age até mesmo no meio do
arraial, no momento em que a Escritura está sendo exposta (v. 15)!

Mas como e com que base ele age? Isso pode ser respondido quando atentamos para a
geografia da beira do caminho: um solo endurecido com a passagem de muitos pés. As
sementes são lançadas neste solo mas ficam expostas aos pássaros.

Nós, leitores ocidentais, temos a tendência de identificar essa “beira do caminho” com
as ruas de nossas cidades: uma parte central, por onde passam os carros, ladeada por
paralelepípedos que sustentam os meios-fios, sobre os quais encontram-se as calçadas.
Os cantos das ruas (as sarjetas), onde se situam as entradas dos bueiros de águas
pluviais, são pouco utilizados. Os caminhos da Palestina, por sua vez, eram diferentes.
Não havia nenhum meio-fio, acostamento ou calçada. No centro transitavam as
carroças, carruagens e outros tipos de montarias. Nas “beiras” transitavam os pedestres,
de modo que a terra repisada ficava enrijecida.

É por isso que alguns intérpretes consideram que esta “beira do caminho” pode ser
entendida como “os costumes e regras de uma sociedade injusta" (caminho por onde
todos passam – Balancin, 1991, p. 65). Ao acomodar-se aos valores da injustiça, o
indivíduo torna-se impermeável (endurecido) à Palavra e presa fácil de Satanás.

Tal entendimento é consistente com o teor geral da parábola: todos os resultados


decorrem de responsabilidades humanas e mesmo nesse primeiro caso, onde parece que
o grande vilão é Satanás (e realmente o diabo é mau, tentador e digno de eterna
reprovação), a causa maior é o solo duro, que não acolhe nem acoberta a semente,
fornecendo o ambiente para sua germinação. Pelo contrário, ele a deixa “frágil” de
modo que o inimigo a leva embora.

Isso me faz lembrar da pergunta 160, do Catecismo Maior: “Que se exige dos que
ouvem a Palavra pregada? Exige-se dos que ouvem a Palavra pregada que atendam a
ela com diligência, preparação e oração; que comparem com as Escrituras aquilo que
ouvem; que recebam a verdade com fé, amor, mansidão e prontidão de espírito, como a
Palavra de Deus; que meditem nela e conversem a seu respeito uns com os outros; que
meditem nos seus corações e produzam os devidos frutos em suas vidas”.

O catecismo indica que algo é requerido dos que ouvem a Palavra. Estes devem
monitorar seus sentimentos e pensamentos, devem portar-se com receptividade e estar
prontos em seus espíritos. Ressalto a ênfase na necessidade de preparação e oração e
entendo que ficaríamos constrangidos de tivéssemos de responder a esta pergunta:
“quantos de nós ouvimos uma pregação em espírito de oração, suplicando que Deus fale
conosco, nos conceda fé e produza sua boa obra em nós, a partir de sua palavra
ministrada?” e mais ainda: “quantos de nós nos preparamos em oração, nas noites de
sábados (antes dos cultos das manhãs de domingo) ou nas tardes dos domingos (antes
dos cultos vespertinos dominicais)?”.

Pense em você, assentado, olhos fixos no pregador. Este articula seus argumentos e
explica a Escritura Sagrada – coração inflamado, alma compungida pelo peso da
ministração; arauto das boas-novas, porta-voz do Altíssimo. Mas sua mente divaga,
sugerindo outros tópicos de reflexão; sua visão periférica se fixa em outras pessoas e
objetos; seu coração desanda, premido por sentimentos dos mais diversos. Tudo em
você milita contra a absorção da Palavra. Eis o homem, conclamando, na Palavra, à fé, e
você, de rosto sério, rindo por dentro, lembrando das últimas cenas das
“videocassetadas do Faustão” assistidas a pouco menos de 1 hora, antes de você
arrumar-se às pressas para o culto. A doutrina está sendo explicada e aplicada, mas o
sangue em suas veias corre fervente, enquanto você se lembra daquele rapaz ou daquela
menina que você conheceu hoje à tarde, no churrasquinho do clube. Apelos eternos são
realizados, mas aquela nota promissória precisa ser paga e você já faz as contas de
quanto precisará utilizar do seu limite de cheque especial. A semente está sendo lançada
mas o solo é liso, duro, impermeável, impenetrável. Você distrai-se no banco e, ao seu
lado, o espírito que tem voz de poeta e bafo de dragão sorri silenciosamente, enquanto
rouba palavra por palavra da mensagem. O seu coração é como o solo da “beira do
caminho”.

Os entretenimentos são feitos para relaxar. Participamos deles sem que precisemos de
pensar. Apenas “desligamos a mente” e nos divertimos. O culto exige participação
consciente, em contínuo estado de vigília e oração. O culto não é realizado para nos
divertir, nem nos aliviar. O culto é para tributarmos a Deus a glória que lhe é devida e
recebermos dele as graças necessárias para nosso crescimento espiritual. E o Senhor nos
afirma, nesta parábola, que este ambiente do culto é um campo de batalha. Satanás está
agindo, pronto a roubar a semente que cai na “beira do caminho”.

A crença fácil (vv. 5-6, 16-17).

Duas coisas podem levar a alma à desgraça, a incredulidade e a credulidade ingênua,


rasteira e precipitada. É claro que o evangelista deseja que todos creiam, mas crer não é
vir precipitadamente à religião para abandoná-la daqui a alguns meses. É preciso
calcular o preço do discipulado.

A palavra que Marcos utiliza para descrever o lugar onde caiu a outra semente é
pedregais, “terreno raso com subsolo de pedra” (Graham Swift, 1985, p. 995). Ela
indica “uma rocha coberta com fina camada de terra. O calor do sol primeiro
transformou esse solo em um viveiro que produziu rápida germinação e, a seguir, em
uma fornalha que queimou e secou a tenra plantinha” (Burdick, 1984, p. 85).

De acordo com o Senhor Jesus, os ouvintes do “solo rochoso” não possuem “raiz em si
mesmos” (v. 17). Eles são de “pouca duração” (tais como a bateria defeituosa do meu
telefone celular, que precisa receber uma nova carga a cada 4 ou 6 horas). A tradução da
Bíblia Ecumênica é ainda mais esclarecedora: eles são “homens de momento”.

Alguns, desiludidos, acusam a igreja: “essa comunidade é fria ou não atende às minhas
necessidades espirituais; eu quero ‘algo mais’; estou descarregando; preciso de uma
nova ‘tomada de fé’. Vou procurar a igreja tal, onde eles ministram a bênção
avermelhada do vau de Jaboque”, e passam a mudar de comunidade ano após ano.

Outros abandonam o arraial. Retornam às práticas pecaminosas e tornam-se ainda mais


endurecidos a qualquer iniciativa de evangelização.

Um terceiro grupo permanece na igreja. Como os membros da comunidade de Sardes,


têm nome de que vivem, mas estão mortos (Ap 3.1). Ouvem a Palavra semanalmente
mas perderam a alegria dos primeiros dias. Não possuem viço, vigor, virilidade,
vivacidade, motivação. Nunca se aprofundam em nada ou, nas palavras do apóstolo
Paulo, “aprendem sempre e jamais podem chegar ao conhecimento da verdade” (2Tm
3.7). Morreram. “Não têm raiz em si mesmos”.

Em suma, para o Senhor, a semente do evangelho, uma vez arraigada, produz frutos e
desenvolvimento contínuo (v. 8). O texto diz, literalmente, “eles davam fruto que crescia
e se desenvolvia” (TEB). Quando esta semente não deslancha, não se aprofunda, não
produz resultado duradouro, é sinal de que o solo é rochoso. O evangelho chegou e a
pessoa “de momento” o abraçou rapidamente, com sofreguidão. Mas veio a realidade,
chegaram os problemas, as frustrações, as perseguições decorrentes da fé. A pessoa
discordou do novo horário da Escola Dominical ou antipatizou com o Conselho de
presbíteros, que disciplinou seu filho. O pastor disse uma palavra considerada dura ou
ofensiva, “ninguém se importa comigo nessa comunidade”. E o indivíduo vai embora,
“toma Doril”, fecha-se para tudo e todos. Está zangado porque ocuparam a sua vaga no
estacionamento; está magoado porque esqueceram sua data de aniversário no Boletim.
Pessoas assim não nasceram de novo. A semente semeada e germinada, morreu antes de
produzir fruto salvífico. “Não têm raiz em si mesmos”.

Observemos a doutrina. Nas palavras do autor da carta aos Hebreus, uma pessoa pode
ser de certo modo iluminada e inclusive provar algo do dom celestial. Ela pode obter
certas graças do Espírito Santo e provar o sabor da Palavra de Deus, além dos poderes
do mundo vindouro. Ainda assim, ela pode não ser verdadeiramente regenerada. Ela
pode cair e nunca mais se levantar (Hb 6.4-8). “Não têm raiz em si mesmos”.

Leviandade, superficialidade. Cristianismo “alegrinho”, “animadinho”, “gospelzinho”,


pronto a atender a todo tipo de apelos emocionalistas, mas rasteiro. Fé que nunca se
aprofunda; suposta conversão que não produz compromisso; suposto discipulado que
não redunda em obediência. Crença fácil, solo rochoso. “Não têm raiz em si mesmos”.

As devoções concorrentes (vv. 7, 18-19).

O terceiro inimigo é identificado pelo solo cheio de espinhos. A semente é lançada mas,
logo depois, sufocada. A semente é boa, mas o solo é espinhoso.

Os espinhos, diz-nos o Senhor, são “os cuidados do mundo, a fascinação da riqueza e as


demais ambições” (v. 19).

A palavra-chave para o entendimento do ensino é “concorrendo”, “entrando” (ERC e


ERC e Revisada. O termo é infelizmente omitido na NVI, colocando o peso da sentença
sobre o termo “sufocam” – v. 19). A palavra no original é literalmente entrando e
sugere invasão ou intromissão (TEB). Os espinhos invadem o espaço da semente e a
sufocam.

Sementes precisam de um ambiente próprio para se desenvolverem. Elas precisam de


nutrientes, de água, de oxigênio e (pelo menos a maioria delas) da incidência da luz
solar sobre a terra. Sem isso elas apodrecem e não germinam. E mesmo depois de
germinarem, elas precisam de espaço para lançar suas raízes. Se o solo estiver
abarrotado de raízes concorrentes; se elas não conseguirem meios de aprofundar suas
hastes a fim de obter provisão, então elas se atrofiam e morrem.

O Senhor está falando sobre devoção. Ele está nos mostrando como nosso coração lida
com as afeições. Ele nos informa de que se devotar a algo ou alguém é uma tarefa que
denota amor verdadeiro e que absorve nossos pensamentos, energia, sentimentos,
recursos e vontade.

A devoção é absoluta em suas exigências. Não há como se devotar integralmente a duas


ou mais coisas. Devoção integral é a entrega de tudo o que somos ou temos a uma só
coisa ou pessoa. Não dá para, ao mesmo tempo, lutar exaustivamente para ficar rico e
dedicar tempo de qualidade à esposa e filhos. É impossível empunhar, em um mesmo
palanque, as bandeiras de partidos políticos com ideologias e propostas opostas. Como
diz o ditado popular, ninguém consegue, simultaneamente, “assoviar e chupar cana”.

Essa é a característica dos corações semelhantes à terra com espinhos. A Palavra chega
mas outras coisas concorrem pela atenção; outras prioridades disputam o tempo; outros
prazeres são oferecidos para serem desfrutados; outras preocupações intrometem-se no
espaço da confiança na provisão celestial; outras ambições capitalizam os esforços, em
lugar do alinhamento da vontade aos projetos de Deus. A semente foi lançada mas o
texto não informa se ela germinou ou não. O que fica claro é que ela foi sufocada (vv.
7-19). Outras coisas “entraram”, “concorreram”, “se intrometeram”, “invadiram o
espaço”, de modo que não deu nem pra checar o estado da semente.

O coração humano tem espaço limitado. Não adianta tentar colocar um caminhão
trucado em uma vaga projetada para um Ford Ka. O Projetista do coração humano o
criou com espaço para apenas uma devoção central. Em um mesmo coração, não cabem
o evangelho e o egoísmo; não se acomodam a Palavra de Deus e a busca pela satisfação
do ego; não podem estar juntas a simplicidade da fé e a obsessão pelos “cuidados do
mundo”.

A tradução da Nova Versão Internacional indica que a semente é sufocada pelas


“preocupações desta vida, o engano das riquezas e os anseios por outras coisas”. Comer,
beber, vestir, morar, obter graduações, descansar, divertir-se, desfrutar de prazeres,
envelhecer com conforto e dignidade — todas essas coisas são legítimas e boas, mas
não devem “concorrer” com a fé — não devem fazer frente ao evangelho.

Os ouvintes de Jesus precisam fazer uma opção: Cristo como Senhor, todas as coisas
sendo orientadas e supridas segundo o seu querer. Isso é o evangelho do reino. É Cristo
com rei, é Deus no comando, é o Senhor como proprietário e nós como propriedade
dele, doulos, escravos. Libertos do poder do mundo, da carne e do diabo, a fim de servi-
lo eternamente. Não há espaço para devoções concorrentes. Nenhum espaço para
amantes espirituais. Nenhum espaço para ídolos bem polidos e cuidados, alojados nos
pequenos altares de nossas almas — ali, escondidinhos dos olhos humanos, mas visíveis
aos olhos de Deus. “Tudo ou nada, pega ou larga de vez”, como ouvimos em uma das
músicas do grupo Vencedores Por Cristo.

Aqui a Escritura nos alerta para o perigo das coisas que são legítimas em si mesmas,
mas quando entronizadas, tornam-se idolatria e sufocam o desenvolvimento da Palavra.
Penso que estamos diante de um dos maiores problemas de cristandade atual. Os
membros das igrejas, de modo geral, gostam de adorar, gostam de participar de eventos
bem elaborados, gostam da religião. Não obstante, isso tudo é ótimo se não exigir muito
dos cristãos. Estes não estão tendo tempo ou disposição nem mesmo para congregar-se.
Não há como servir de maneira profícua. É preciso “ganhar a vida”; é preciso manter o
padrão de consumo; é preciso finalizar aquele projeto pessoal inadiável; é preciso
separar tempo para o lazer e o entretenimento. É difícil encaixar Deus nesse esquema.
Não sobra espaço para sequer guardar o Dia do Senhor — não há tempo para a leitura
devocional das Escrituras, a prática do silêncio e da meditação ou o exercício da oração.
Mais difícil ainda, não há tempo para servir, para fazer algo em favor dos irmãos ou dos
não-cristãos. Os “cuidados do mundo, a fascinação da riqueza [que tem como
contrapartida, igualmente pecaminosa, a obsessão para livrar-se de forma antibíblica dos
constantes endividamentos] e as demais ambições” se intrometem e sufocam a Palavra.
Eis uma reclamação, um lamento que se ouve de muitos pastores: “Eu não entendo o
que está acontecendo. Eu preparo a mensagem com cuidado, estudo o texto
detalhadamente e oro extensamente. Eu prego com zelo e parece que a Palavra não
penetra; parece que as pessoas têm ‘couro duro’; parece que os desafios da Escritura
entram por um ouvido e saem pelo outro”. Jesus explica isso. Os corações dos ouvintes
estão cheios de espinhos. A semente é lançada e cai no solo, mas é asfixiada, quase que
imediatamente.

A primeira categoria de ouvintes recebe a mensagem mas, por não internalizá-la,


deixando-a exposta ao inimigo, permite que esta seja por ele roubada. A segunda
categoria é infantil, “de momento”. Atende fácil e alegremente a todo tipo de apelo mas
abandona tudo com a mesma rapidez com que assumiu. Hoje quer comprometer-se com
o campo missionário, amanhã assume a visita aos doentes e depois de amanha abandona
tudo. A terceira categoria expõe-se à Palavra, mas ao mesmo tempo, permite que esta
seja sufocada pelas preocupações, pelos desejos pecaminosos e pelo mundanismo.
Todos estes são, de acordo com a avaliação de Jesus Cristo, solos improdutivos.

Conclusão

O Senhor Jesus Cristo ensina que o reino de Deus vai progredir. O evangelho será
recebido e dará muito fruto. O termo traduzido por “outra”, no v. 8, é plural. Muitas
sementes caem em boa terra e frutificam tremendamente.

Outras sementes, porém, não frutificam. “O problema é com o solo”, diz-nos o Senhor.

Aqui somos chamados a analisar nossos próprios corações. Em um momento ou outro,


divagamos, abrindo brechas para a ação de Satanás. Outras vezes abraçamos causas
rapidamente, para depois abandonarmos o que foi iniciado. Em outras ocasiões,
capitulamos diante dos cuidados da vida e das propostas mundanas. Somos infiéis,
necessitamos da graça do Senhor e da aplicação das palavra do profeta:

Semeai para vós outros em justiça, ceifai segundo a misericórdia; arai o campo de
pousio [terra bruta, que não foi cultivada]; porque é tempo de buscar ao SENHOR, até
que ele venha, e chova a justiça sobre vós (Os 10.12).

Hoje, Deus nos pergunta: “Filho meu, como está o teu coração?” Eis o campo de
batalha; a mente, os sentimentos, os desejos, a vontade humana. Tipos de solo.
Ambiente onde é lançada a semente. Como está o teu coração?

Encontramos respostas às perguntas levantadas no início desta meditação: Como


identificar os inimigos da fé? Como vencê-los?

Os inimigos estão fora de mim; Satanás e as pressões do mundo. Tenho um opositor


pessoal, o “espírito que atua nos filhos da desobediência” (Ef 2.2). Preciso “resistir a
ele”, preciso “vigiar e orar” (Tg 4.7; 1 Pe 5.8). Tenho de dizer “não ao mundo” e lutar
contra suas investidas que não têm outro objetivo senão me arrastar para o caminho da
perdição (1Jo 2.15-17).

O inimigo está dentro de mim. É o orgulho, a cobiça, a cegueira em minha própria alma
que me impedem de ouvir e atender à Palavra de Deus. O problema não é com a
semente, mas com o solo. Tomás de Kempis (1979, p. 59) afirmou que “a salvação é um
edifício que se levanta sobre as ruínas da soberba”. Meu coração deve ser quebrantado,
arado, adubado pela graça divina, a fim de que a semente da Palavra produza vida.
Isso é iniciado com o arrependimento, a penitência interior de reconhecer que sou
pecador, que sou endurecido, que tenho, com isso, rejeitado a Palavra de Cristo. Isso
deve me fazer clamar por perdão e restauração. É preciso afofar a terra; é preciso retirar
os espinhos. É preciso criar as condições para que eu aprofunde raízes. É imperativo
que eu deixe de ser superficial, “de momento”, “sem raízes” e passe a ser “terra boa”.

A parábola é finalizada com a exortação “quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (v. 9). E
nesse ponto eu me lembro da interpretação de Eugene Peterson sobre o Sl 40.6-9,
especificamente sobre a expressão “abriste os meus ouvidos”, do v. 6. O verbo no
hebraico é, literalmente, “cavar” — “cavaste os meus ouvidos” — e Peterson entende
que os tradutores sempre preferem usar uma paráfrase ao invés da poderosa metáfora
original.

Imagine uma cabeça humana sem ouvidos. Um bloco compacto. Olhos, nariz, boca, mas
sem orelhas. No lugar em que, comumente, elas estão, apenas uma superfície lisa,
impenetrável, osso duro. Deus fala, não há reação. A metáfora ocorre no contexto de
uma atividade religiosa apressada, surda à voz de Deus: “sacrifícios e ofertas não
quiseste… holocaustos e ofertas pelo pecado” (40:6). Como essas pessoas sabiam sobre
as ofertas, e de como fazê-las? Tinham lido e seguido as instruções de Êxodo e Levítico,
tornando-se religiosos. Seus olhos leram as palavras na página da Torá e os rituais
tomaram forma. Leram cuidadosamente as palavras das Escrituras e adotaram o ritual
adequado. Que aconteceu para que não atentassem para a mensagem “não o requeres”?
Deve haver mais envolvido do que seguir instruções sobre animais sem defeito, altar de
pedra e fogo sacrificial. E há: Deus está falando e tem que ser ouvido. Mas o que
adianta falar, sem que existam ouvidos humanos para escutar? Por isso, Deus toma uma
picareta e pá e cava o granito craniano, abrindo a passagem que dará acesso às
profundidades interiores, à mente e ao coração. Ou, talvez, não imaginemos uma
superfície lisa de crânio, mas algo como poços entupidos de lixo: barulho cultural,
fofoca descartável, conversa suja. Os ouvidos estão cheios de tal forma que não
ouvimos Deus falar. Ele os cava de novo, retirando o lixo sonoro, assim como Isaque
abriu de novo os poços que os filisteus haviam entupido.

O resultado é a restauração das Escrituras: olhos transformados em ouvidos. O ritual


hebraico do sacrifício incluía leitura de um livro, mas ele se degenerou, transformando-
se em ação e assistência. O que se fazia com o rolo era apenas uma parte do show,
ingrediente verbal jogado no ritual, porque a receita mandava. Agora, com ouvidos
recém-cavados, a pessoa ouve uma voz chamando, convidando. E responde: “Então, eu
disse: Eis aqui estou, no rolo do livro está escrito a meu respeito; agrada-me fazer a tua
vontade, ó Deus meu; dentro em meu coração está a tua lei” (Sl 40.7,8). O ato de ler
transformou-se no de ouvir. Descobriu-se que há no livro uma voz, dirigida ao leitor
transformado em ouvinte: “escrito está a meu respeito”.
Peterson, 2000, pp. 94-95.

O evangelho fala de quem? Objetivamente, fala da pessoa e obra de Cristo. Fala


também, sem dúvida dos apóstolos, das multidões que seguiam ao Senhor e das pessoas
e instituições com as quais ele se relacionou enquanto esteve neste mundo. Mas o
evangelho fala de mim, de você, de nós: “Então, eu disse: Eis aqui estou, no rolo do
livro está escrito a meu respeito; agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro em
meu coração está a tua lei” (Sl 40.7,8). O solo endurecido foi cavado, tratado e adubado.
Tornou-se solo bom, no qual vingou a semente do evangelho.

Supliquemos a ele que limpe o solo de nossos corações. Clamemos por sua
misericórdia, peçamos que ele “cave nossos ouvidos”. Disponhamo-nos a segui-lo e
servi-lo de toda nossa alma, com toda a nossa força, com todo o nosso tempo, recursos e
entendimento. E assim recebamos sua Palavra, de modo que esta produza a “trinta”, a
“sessenta” e a “cem por um” (vv. 9, 20). Amém.