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O TEMA / Os xoguetes tradicionais

A história dos
brinquedos na
antiguidade
clássica

João Amado
M uitos dos jogos e brinque-
dos populares —e artesa-
nais— que chegaram até aos
De facto, sobre os jogos da
infância e da juventude, e os
prazeres próprios destas ida-
Universidade de Coimbra
nossos dias têm origens remo- des —ludus aetati, ludus par-
(joaoamado@fpce.ul.pt)
tas; de facto o brinquedo não vulorum— os testemunhos são
tem fronteiras geográficas nem muitos mas aparecem dispersos
cronológicas, como disse o es- e abrangendo um período que
tudioso galego Lorenzo Fernán- vai desde Homero até, pelo me-
dez (1952, 1992). nos, S. Agostinho, passando por
autores como Platão, Sócrates,
Podemos afirmar que a maior
Ovídio, Marcial, Macróbio, Sé-
parte das tradições, neste cam-
neca, Horácio, etc. A variedade
po da actividade lúdica, são fru-
e riqueza destes testemunhos
to de uma longa herança de sé-
é suficiente para no dar uma
culos, hoje em risco de ser posta
ideia razoável deste aspecto da
de parte. A documentação ico-
história da vida quotidiana da
nográfica, escrita e arqueológi-
época, como o faremos ver, su-
ca é, mesmo para os períodos
cintamente, ao longo da nossa
greco-romano, muito vasta.
exposição.

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Os xoguetes tradicionais / O TEMA
A completar a informação escri- gregas recebiam as prendas do Adornos e adereços.
ta surge a iconografia grega e primeiro olhar; recebiam-nas
Testemunhos e registos vários
romana, também ela variada e também no dia em que lhes era
dão conta do costume de enfei-
significativa, inscrevendo-se nos dado o nome, no dia de aniver-
tar a cabeça e o pescoço com
mais variados suportes, como sário -dies natalis-, no primeiro
grinaldas -lemniscus- e colares
nos vasos gregos do século V dia do ano e no dia 17 de De-
de folhas, de flores e de frutos
antes de Cristo, nos mármores zembro, festa das Saturnálias
silvestres -monile baccatum-.
dos sarcófagos infantis, no es- -Ludi saturnales-.
pólio do interior dos próprios Brinquedos sonoros e musicais.
Os rapazes deixavam de brincar
túmulos infantis, nos frescos de
com os seus brinquedos, aos 17 Eram comuns vários instrumen-
Pompeia, nos mosaicos encon-
anos, quando vestiam a toga vi- tos de cana (Plínio, História Na-
trados, a Oriente e a Ocidente,
ril. Entre os gregos era costume tural, XVI, 66) que chegaram
por todo império.
consagrarem, nesta idade, os aos nosso dias, destacando-se
Naquelas épocas, como hoje, brinquedos a uma divindade, nos registos iconográficos a
as crianças observavam a vida em especial a Diana e a Venus flauta de pã -syrinx- e o crota-
dos adultos, em todas as suas (Persio, II, 70). lum, uma espécie de rela de
esferas, e procuravam recriá-la cana (Aristófanes, Núvens, 260).
E entre os romanos dizia-se que
e imitá-la a seu modo, através Neste conjunto não podemos
os meninos estavam a deixar as
de jogos e brincadeiras. Platão deixar de falar do rhombus, (fig.
nozes —nuces relinquere— tal
(Leis, I, p.643) considera, até, 1) conhecido ainda hoje por
era o fascínio das crianças e jo-
que o espírito de imitação das muitas designações, tais como
vens romanos pelos jogos com
crianças deve ser estimulado e zoadeira, fungona, funga- cuja
nozes!.
explorado pedagogicamente. E prática pelas jovens recém-ca-
não resisto a transcrever as cé- Também se pode estabelecer- sadas, acompanhada por certas
lebres considerações de Séneca se, com base nos testemunhos, orações, prevenia a infidelidade
(4ª.C-65 d.C.) que colocam em uma relação entre os brinque- dos seus maridos!.
paralelo as actividades lúdicas dos usados naquelas épocas e
Bonecas, bonecos e acessórios.
das crianças e as actividades di- as diferentes fases de desenvol-
tas sérias dos adultos: não po- vimento psicomotor da criança: Chegaram aos nossos dias mui-
demos dizer que haja a menor num primeiro tempo, tratava- tos testemunhos arqueológicos
diferença entre os nossos adul- se de despertar e de captar a -em especial na decoração e
tos e as crianças; estas cobiçam atenção dos mais pequenos agi- nos espólio de sarcófagos infan-
os ossinhos, as nozes e uns ar- tando diante deles relas, figuri- tis- da utilização lúdica de bone-
cos; aqueles nutrem amor pelo nos cheios de seixos ou guizos cas e bonecos de todo o tipo de
ouro, pela prata e pelas cidades cuja forma em nada difere dos material.
(…). Portanto, crianças e ho- preconizados hoje por qualquer
Representações de animais.
mens avançados na idade con- manual de puericultura. Um
hecem os mesmos erros, mas pouco mais tarde, quando o Aristófanes, em As Núvens,
por perdas diferentes e mais bebé já anda, puxa atrás de si apresenta Filípedes como um
importantes (Séneca, Da Cons- animais de madeira ou de ba- jovem tão habilidoso que já em
tância do Sábio, 12, 2). rro colocados sobre rodas. Em
seguida atrelará animais vivos
O que este testemunho de-
a carroças miniatura (Fry, 1995).
monstra é uma surpreendente
continuidade e identidade da Seria interessante fazer a des-
alma humana – ontem como crição de muitos jogos, brinque-
hoje, somos pouco diferen- dos e brincadeiras cujos teste-
tes!… E perante a referência a munhos chegaram aos nossos
tão diversas práticas lúdicas –os dias, alguns já referidos na pri-
ossinhos, as nozes, os arcos…- meira parte deste texto. Na im-
encontramos um bom pretexto possibilidade de o fazer, devido
para a uma pesquisa que não aos constrangimentos da publi-
ponha de lado este filão históri- cação, invocamos alguns exem-
co e documental. plos utilizando as categorias
que temos utilizado desde há
A oferta de brinquedos às
alguns anos no inventário, des-
crianças está documentada na
crição, história e interpretação
literatura. Segundo Plauto (230
destes materiais e destas práti-
a.C. - 180 a.C.), na sua obra
cas (Amado, 2007). Vejamos.
Rudens (IV, 4,110) as crianças Fig. 1 - Cupido com Rhombus . Época romana.

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O TEMA / Os xoguetes tradicionais

Fig. 2 – Ganimedes correndo com arco (Sé. V a.C.) Fig. 3 – Jogo do plano inclinado, com nozes.

criança das cascas de romãs fa- Transportes. com o himantelimus, que con-
zia rãs que era um encanto vê- sistia em desenvencilhar um nó
Cavalgar num cavalo de pau —
lo. Infelizmente, estes materiais numas correias, lembrando a
equitare in arundine— foi uma
não chegaram até nós; ficaram, lenda do nó górdio.
prática que mereceu muitos
porém os de terra-cota, osso e
testemunhos literários e icono- Materiais de jogos infantis.
bronze para atestar uma prática
gráficos. São muitos também os
muito mais generalizada, por Há que recordar aqui o pião
testemunhos sobre o baloiço,
certo. —turbus—, praticado entre
em torno do qual se criaram
gregos e romanos, a bola —
Miniaturas de utensílios domés- belas histórias mitológicas (Pol-
pila—, o saltar à corda, o jogo
ticos. lux, Iv, 7,55). No entanto, muito
das pedrinhas —pentha litha, na
mais variedade de testemunhos
No espólio do Museu de Co- Grécia e talus em Roma—, e os
vamos encontrar a propósito de
nímbriga (Portugal) encontra-se diversos jogos semelhantes aos
correr com o arco —trochus—.
um conjunto de miniaturas de jogos do berlinde —vide Poema
Esta era a brincadeira quoti-
louças de barro: um pucarinho, Nux, na Arte de Amar, de Oví-
diana de Ganymedes (fig. 2), a
duas tigelinhas e uma lucerna deo— mas praticados com no-
criança humana que vivia com
-que, supostamente, seriam zes, bugalhos e avelãs (fig.3).
os deuses no Olimpo. Na época
brinquedos deste tipo e muito
romana, correr com o arco era Fantasias.
vulgares entre as crianças.
uma brincadeira muito popular,
Teócrito (XXV, 247), por exem-
Miniaturas de engenhos e al- praticada até pelos adultos (Ho-
plo, descreve um pastor arre-
faias agrícolas. rácio, Ars poetica, 380; Ovídio,
bentando folhas de papoila em
Tristia, II, 485).
Construir pequenos carros — cima da mão para tirar, do esta-
plostellum— e atrelá-los a ratos Armas. lo, a certeza de que era querido
era, para Horácio (Sátires, II, 3, pela sua amada.
Segundo vários testemunhos,
247), uma das várias práticas in-
na época romana era muito vul- Culinária infantil.
fantis impróprias para adulto.
gar o jogo designado por basi-
Tal como hoje, as crianças ex-
Construções e ofícios. linda, em que uma das crianças
perimentavam o sabor de ervas,
imitava o rei e os restantes eram
Séneca, na continuidade da ci- flores e frutos silvestres. Recor-
seus servos e seus soldados ar-
tação que acima fizemos, regista do que o medronho era conhe-
mados com imitações miniatu-
que as crianças constroem nas cido como arbustus unedo —de
rais da panóplia do seu tempo.
praias, simulacros de casas com unidade—, como que para ad-
montes de areia…, e já, muito Quebra-cabeças. vertir sobretudo as crianças no
antes, Homero (Ilíada, XV, 363) sentido de que só deveriam co-
Incluímos nesta categoria que
considerava que Aquiles e seus mer um… já que comer demais
encerra os materiais de vários
homens destruía as muralhas de provoca embriaguez!.
jogos que implicam, simultanea-
Troia tão facilmente como as
mente, alguma destreza manual Enfim, o espaço não nos permite
crianças destroem as suas cons-
e intelectual. Exemplificamos mais desenvolvimentos. Demos
truções na areia.

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Os xoguetes tradicionais / O TEMA
apenas umas notas suficientes trágico da relação entre Dédalo BIBLIOGRAFÍA
para demonstrar a raiz histórica e seu sobrinho Talo, a mitológi-
de todo um património infantil ca criança que inventou a roda - Amado, J. (2007). Universo
e da humanidade que chegou de oleiro, o serrote e o com- dos Brinquedos Populares.
aos nossos dias, baseado num passo. Dédalo, enraivecido e Quarteto: Coimbra.
paradigma que fazia do ar livre, cego de inveja por pensar que - Fry, C. (1995). Pédagogie
do contacto com natureza e na o engenho do jovem sobrinho Archéologique: l’enfance anti-
actividade em cooperação com ofuscava a sua fama, empurrou- que. Education et Recherche,
os outros, a sua principal carac- o mortalmente para um des- (EdUniv. Fribourg Suisse), nº3,
terística. Sem querer demonizar penhadeiro junto do templo da pp. 274-289.
as novas tecnologias e o novo deusa Atena. Este acto terrível,
paradigma que elas suportam, o assassínio da criança, nunca - Lorenzo Fernández, X. (1992)
creio que continua a ser neces- mais há-se dar sossego e sorte (1958ª). Enredos. Alicerces, nº
sário permitir à criança o contac- ao seu autor!… 2. Santiago de Compostela:
to estimulante com a natureza; Museo do Pobo Galego.
de contrário corremos o risco
de matar a infância que todos
devemos manter em nós. Nes-
te enquadramento não resisto à
tentação de invocar o desfecho

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