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A espiral austera

Os sucessivos pacotes de austeridade desenham um percurso em espiral com o


radicalizar progressivo da política criadora de recessão e desemprego. Isto porque os
ingratos “mercados”, mesmo depois de terem sido salvos pelos Estados, clamam pelo
sangue dos PIGS. E, no movimento descendente da espiral austera que segue esse
clamor, ecoam declarações ora de um penoso realismo impotente, uma vez que tem de
ser assim, ora de um exultante sentimento de vingança, já que agora é que os mercados
vão finalmente meter todo o desarranjo nacional na linha. Entre as duas vozes, PEC é
um nome possível para designar a linha dessa espiral em direcção ao caos social.
Apesar da receita se repetir em todo o lado, pode-se dizer que a espiral austera toca
sobretudo aos PIGS assim como quem lembra que a crise financeira foi um piparote
suficiente para fazer ir com os porcos o periclitante o pacto europeu não escrito (as
regras e os benefícios dos grandes pagos supostamente com a contrapartida das ajudas
ao pequenos). As ajudas dos grandes são agora empréstimos pagos com a imposição aos
improdutivos e subsidio-dependentes PIGS (gregos e outros gregos que tais) de PECs.
Que os PIGS, para eles, são como os ciganos para quem pensa com o formato do
preconceito: vivem de um Rendimento Social de Inserção e não querem nada com o
trabalho. E assim continuam a ditar de acordo com a sua conveniência as regras do Euro
forte e dos deficits públicos apertados à sua medida e ajudando a cobrar a caro quem se
arruinou (não só mas também) com esta política.
A crise e a espiral austera que a acompanha foram por sua vez o piparote que deu cabo
dos restos do pacto social vigente internamente e já moribundo: o fim da ditadura e a
integração europeia permitiram melhoria das condições de vida (entendida sobretudo
como das possibilidades de consumo), apesar dos salários serem baixos compensava-se
materialmente com crédito, ao mesmo tempo que a transferência de direitos sociais
conquistados anteriormente ia acontecendo criando uma mais valia descarada para uma
burguesia parasita do Estado). Agora a quantidade de “sacrifícios” impostos e a sua
distribuição prova que a crise bate à porta dos mais fracos arrombando-a e que a espiral
é austera mas selectivamente. Para além do mais, não ficamos nunca a saber até onde
vão os “mercados” exigir a diminuição do nível de vida.
Face ao anúncio destas medidas pelo governo, não há alternativa: ou dizemos basta ou
este PEC3 significará uma crise de uma profundidade assustadora podendo a mesma
lógica da espiral austera arrastar-nos depois para um PEC4 ainda pior, continuando com
os remédios de sempre que agudizam os mesmos males. E porque a espiral austera
obedece aos interesses e chantagens especulativos não deixa espaço ambiguidades,
neutralidades políticas ou meias palavras: só o “não” serve. E não há planos económicos
milagrosos para conter a crise: só a luta social contra a ditadura dos mercados pode
colocar um ponto final na espiral austera.