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Liderança de
Poder
na Igreja
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Liderança de
Poder
na Igreja

O Ministério no Espírito segundo


Paulo
Brian J. Dodd
Traduzido por Lena Aranha

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Todos os direitos reservados. Copyright 2005 para a língua portuguesa da Casa
Publicadora das Assembléias de Deus. Aprovado pelo Conselho de Doutrina.
Título do original em inglês: Empowered Cburcb Leadersbip InterVarsity Press,
Downers Grove, Illinois, USA Primeira edição em inglês: 2003
Tradução: Lena Aranha
Preparação dos originais: Kleber Cruz
Revisão: Leonardo Marinho
Projeto gráfico e editoração: Leonardo Marinho
Capa: Leonardo Marinho
CDD: 253 - Liderança ISBN: 85-263-0675-8
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As citações bíblicas foram extraídas da versão Almeida Revista e Corrigida, edição de
1995, da Sociedade Bíblica do Brasil, salvo indicação em contrário.
Casa Publicadora das Assembléias de Deus
Caixa Postal 331
20001-970, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Ia edição: 2005

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À memória de meu pai, Asa, e a minha mãe, Mildred,
ao meu irmão, Jim e a minha irmã, Suzanne.

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SUMÁRIO
1. Liderança Fortalecida pelo Espírito................................................9

2. Discipulado e Rendição................................................................31

3. Pague o Preço, Carregue a Cruz..................................................61

4. O Poder de Deus em Vasos Trincados........................................79

5. O Poder do Exemplo Pessoal......................................................93

6. O Poder dos Parceiros................................................................105

7. Por meio da Oração ................................................................... 121

8. A Sublimidade da Servidão........................................................ 139

9- A Liderança Necessária É Apostólica......................................... 149

Apêndice: Ouvindo a Direção de Deus para o seu Ministério..... 159

Notas.................................................................................................181

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LIDERANÇA FORTALECIDA PELO ESPÍRITO
Ai dos que descem ao Egito a buscar socorro
e se estriham em cavalos!
Têm confiança em carros, porque são muitos,
e nos cavaleiros, porque são poderosíssimos;
e não atentam para o Santo de Israel
e não buscam ao Senhor.
ISAÍAS 31.1

TODO METRO QUADRADO DO PLANETA tem seu endereço em um satélite, o geocódigo.


Esses endereços precisos passaram a existir em virtude do ímpeto militar estadunidense
de ser capaz de lançar bombas, guiadas por laser, que acertem um alvo através de uma
chaminé. Hoje, um cidadão comum, se quiser gastar a quantia requerida, pode ter uma
versão pessoal do sistema de posicionamento global (mais conhecido por GPS) no
painel do carro. O computador GPS dirá ao motorista a distância até a próxima entrada,
mostrará no mapa onde ele se encontra e a rota mais rápida para o destino desejado.
Uma das versões até mesmo fala com o motorista por meio de um sistema de voz
computadorizado: "Volte imediatamente. Você está indo na direção errada".
O GPS trabalha com o princípio de triangulação, dos antigos mapas de navegação. Em
mar aberto, sem ponto de referência ou bússola, o navio fica à deriva. Quando alguém
viaja grandes distâncias, até mesmo um grau de diferença resulta em centenas de
quilômetros de desvio em relação ao destino. Antigamente, os marinheiros determi-
navam a localização e o rumo ao criar um triângulo entre o navio e dois outros pontos
fixos (daí a origem do termo triangulação). Durante o dia, ter terra à vista era essencial.
Em noites límpidas, as estrelas forneciam toda sorte de pontos fixos pelos quais a
posição poderia ser determinada. Na era tecnológica, o viajante necessita apenas ler um
mapa gerado pelo computador que, a partir do GPS, e por meio de uma rede de satélites,
decodifica a posição através da triangulação.
Qualquer pessoa que queira encontrar o caminho e a direção de Deus sabe a importância
de um ponto de referência. Sem o posicionamento de Deus, ficamos à deriva em mar
aberto. Sem pontos de referência fixos à nossa volta, apenas com objetivos conflitantes,
valores e opiniões flutuantes, não podemos navegar por uma rota segura. Precisamos de
pontos de referência eternos: a Palavra de Deus e a vontade de Deus. Essa necessidade
nunca foi tão grande para os líderes da igreja cristã do Ocidente. Temos negligenciado,
com freqüência, o magnífico sistema de posicionamento global de Deus e encontramo-
nos à deriva, à mercê dos ventos.
A ausência de um ponto de referência divino é muito óbvia no mercado florescente de
livros e seminários sobre liderança. Devoramos a sabedoria do mundo e nos entupimos
com práticas, técnicas e jargões seculares. A caricatura dessa tendência apareceu em um
recente artigo de jornal, que registrou o encontro dos líderes de duas importantes
denominações — atualmente estão em declínio — no instituto Disney: "Palestrantes do
instituto Disney incentivaram os líderes locais da igreja a pensar de forma mais criativa
para impedir a diminuição do número de membros".1 O quê?! O Mickey Mouse nos
ajudará a fazer crescer nossa participação em baixa no mercado? Isso mesmo, embora
saibamos que as igrejas devotadas ao cristianismo bíblico são as únicas que
experimentam o crescimento. Isso fez com que a velha piada quase acertasse o alvo,

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chegando, para mim, bem próximo: "Qual a diferença entre a igreja e a Disneylândia? A
Dis-neylândia tem o verdadeiro Mickey Mouse!"
Essa tendência de se confiar nas estratégias de lideranças seculares e de se igualar o
ministério às técnicas de gerenciamento afetou e infestou o pensamento de quase toda
uma geração de líderes cristãos. No início da década de 1980, quando, pela primeira
vez, comecei a selecionar livros sobre liderança, minha motivação era bem simples.
Queria tornar-me um pastor mais eficiente. As pessoas de minha igreja não eram o que
precisavam ser — conforme meu ponto de vista —, e eu não tinha certeza de como
transportá-las do lugar onde estavam para o lugar onde eu achava que deveriam estar.
Portanto, busquei gurus de liderança, desapercebido de que muito do que ensinavam
relacionava-se aos princípios de liderança secular, os quais eram bem contrários aos
princípios de liderança do Reino ensinados por Jesus e incorporados por Paulo.
O chamariz do sucesso pode ser sedutor. As sirenes levam muitas pessoas a delegar,
sem nenhum senso crítico, muita autoridade a líderes de destaque, palestrantes de
palanque e pastores de "megaigrejas". Parece que têm muito sucesso (leia-se, eram
responsáveis por muitas pessoas e muito dinheiro), portanto o que eles têm a dizer deve
funcionar como autoridade para mim. Nos Estados Unidos, esse alto valor atribuído ao
sucesso é estranho ao valor do Reino de Deus que valoriza a fidelidade e a obediência.
Conforme o padrão estadunidense, a vida humana de Jesus foi um fracasso, pois
terminou de forma vergonhosa e desonrosa em uma cruz, além de todos os seus
seguidores o terem abandonado.
Aceitei a tendência por um tempo, mas algo estranho aconteceu comigo nesse processo.
Lembrei-me do provérbio sobre o sapo e a chaleira. Estava aprendendo as últimas
novidades sobre liderança, mas não tinha consciência de que o aumento do calor poderia
"cozinhar" meu espírito. Aprendi, em uma época em que tudo era mais simples em mi-
nha vida, que aquEle que foi crucificado e ressuscitou era o foco da igreja, e que a
mensagem a respeito da cruz "é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos
salvos, é o poder de Deus" (1 Co 1.18).
Não encontrei essa mensagem nos livros que estava lendo (e, realmente, lia sobre todos
os assuntos). Entretanto, por um certo período de tempo, em minha mente, a cruz foi
substituída, vagarosa e sutil-mente, pelo foco na visão, na excelência e na sensibilidade
daquele que busca a Deus. Meu ministério refletia minha maneira de pensar, atualizada,
mas sem poder. Não estou afirmando que a culpa é de alguma outra pessoa além de
mim mesmo. Por minha conta, estava desviando-me do rumo, sendo levado pelas ondas
dos princípios e jargões de liderança, mas, com freqüência, ignorando e até mesmo indo
na direção contrária ao caminho de Jesus, ao caminho da cruz e ao caminho do Reino de
Deus.
Percebo agora que isso não aconteceu apenas comigo. À nossa volta, podemos encontrar
exemplos de pessoas que se renderam aos caminhos do mundo. Basta apenas um
exemplo. Tenho diante de mim, enquanto escrevo, essa carta de muitas páginas que me
foi endereçada por um executivo da igreja. O título da carta, em grande destaque, é
"Comprometido com a excelência", mas em sua abordagem sobre o desenvolvimento do
ministério curiosamente não há menção a Jesus. As palavras me remetem aos jargões
que são freqüentemente usados por equipes esportivas, enfatizando sempre a máxima:
"Temos de vencer". A expansão dessas equipes é muito mais importante que a expansão
do Reino. Será que é difícil ver aquilo que é tão óbvio? Encontramos o inimigo, e o
inimigo somos nós!
À medida que faço uma retrospectiva, percebo que o principal motivo que me fez vir a
Jesus não se deve a nenhum líder brilhante ou à excelência da igreja, mas a um
despertamento espiritual. Deus atuou de maneira soberana, e tive um encontro com o

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Salvador ressurreto a quem a igreja pregava: "Porque os judeus pedem sinal, e os gregos
buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os
judeus e loucura para os gregos. Mas, para os que são chamados, tanto judeus como
gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus" (1 Co 1.22-24).
Não fiquei impressionado com o fato de ter uma relação com Deus. Fui chamado a ter
esse relacionamento. O chamado veio de fora. De repente, em meio à minha vida
consciente, ali estava o Senhor Jesus vivo, que tocou-me, curou-me, transformou-me e
chamou-me a que seguisse seus passos.
Contudo, muito tempo depois, já como pastor, jamais deixei de recorrer a uma profusão
de fontes — cassetes, livros e seminários sobre liderança —, cristãs e outras. Fiquei
deslumbrado e fascinado, pois, como um guerreiro da fé já exaurido, recebi uma nova e
promissora fonte de energia; senti que minha eficiência fora renovada e que meus
sonhos foram preenchidos. No entanto, muitos, se não a maioria, dos livros cristãos
sobre liderança não são realmente cristãos, a não ser pelo fato de que usam textos das
Escrituras para comprovar os- pontos de vista e fazer sugestões à vida da igreja. Todas
as características de liderança cristã encontradas na Bíblia estão claramente ausentes na
maioria da literatura cristã popular: a cruz, o serviço sacrificial, o amor, a gentileza, o
ministério exercido por vasos fracos, mas liderado e fortalecido pelo Espírito, a oração,
o sofrimento e coisas similares. Em vez disso, a indústria de literatura sobre liderança
cresce e está recheada com histórias sobre empresas multinacionais como o McDonald's
e o Wal-Mart. O que aconteceu com Jesus, Pedro e Paulo?2 Precisei ouvir o aviso de
Isaías, proferido na antigüidade: "Ai dos que descem ao Egito a buscar socorro e se
estribam em cavalos! Têm confiança em carros, porque são muitos, e nos cavaleiros,
porque são poderosíssimos; e não atentam para o Santo de Israel e não buscam ao
Senhor" (Is 31.1).
Eu estava negociando com o Egito, em vez de consultar ao Senhor. Não estava com
discernimento para submeter a literatura sobre liderança, que estava lendo, ao contexto
espiritual. O que eu precisava era de um diretor espiritual, não de mais livros seculares
com invólucro de ensinamento cristão. Precisava de encorajamento para orar e assumir
a responsabilidade da oração, em vez de estratégias para motivar as pessoas a tomarem
a direção que queria que tomassem. Afinal, que benefício há em fazer com que as
pessoas o sigam se você não recebeu instruções do Senhor para marchar? Era comum
exper-mentar o poder de Dodd, em vez do poder de Deus. Paulo diagnostica esse dilema
como a diferença entre viver "segundo a carne" e viver "segundo o Espírito". Terei mais
a dizer sobre isso no próximo capitulo
Após muitos anos absorvendo todos os livros e seminários sobre liderança que
encontrei, retornei à escola para o doutorado em Novo Testamento, cujo foco era o
estilo de liderança de Paulo. Comecei,para meu desconcerto, com a abordagem
"segundo a carne", ao buscar explicações humanas e sociais para a eficácia de Paulo
como líder. Não resta a menor dúvida de que o apóstolo era um líder cristão eficiente.
Imaginei que truques atemporais, que também pudéssemos usar, ele aprendera com os
líderes que o rodeavam. Minha questão de pesquisa inicial era: "Que influências sociais
e culturais do estilo de liderança de Paulo podemos manifestar em nosso ministério?" O
que Paulo aprendera com os fariseus, com a liderança civil do império, com a liderança
militar romana, com os filósofos cínicos, com os retóricos greco-romanos, com os
profetas Moisés e Abraão, e como adaptara esse conhecimento a seu ministério? Logo
descobri (graças a Deus!) que meu projeto de pesquisa não daria uma dissertação. Por
fim, apresentei uma tese que focava um aspecto crucial, embora parcial, do estilo de
liderança de Paulo: a utilização da aprendizagem e do exemplo pessoal para os que
estão "em Cristo".3

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O que era surpreendente a respeito da liderança de Paulo não era a maneira como
refletia o estilo de liderança eficiente das pessoas de sua época. Na verdade, o que
impressionava era o estilo único cie liderança que ele adotava, centrado em Cristo e
reflexo da cruz. Teólogos podem chamar esses aspectos de sua liderança de
cristocêntrico e cruciforme. Esse estudo sobre Paulo produziu diamantes que eu não
antecipara. Em vez de salientar a cultura de Paulo e os elementos humanos de sua
liderança, o que saltava à vista era a maneira como o líder cristão deve refletir o
evangelho que prega. Devemos pregar a cruz, e nossas vidas devem moldar-se à
imagem de Jesus, em sua morte e ressurreição. Redescobri que as pessoas não precisam
de líderes brilhantes, mas de testemunhas fiéis que apontem, por meio de suas palavras e
vidas, para aquEle que foi crucificado e ressuscitou. O que os líderes mais precisam não
são de técnicas, mas a consciência do ser dirigido pelo Espírito, a importância da oração
e a essência da natureza de equipe no ministério eficiente (para usar a terminologia do
Novo Testamento, a natureza eficiente do ministério de "num só corpo"). Na época em
que fiz esse extenso estudo bíblico, o que alimentou meu espírito foram os aspectos
singulares da liderança bíblica e cristocêntrica de Paulo. Assim, voltei ao ponto inicial.
Quando comecei a partilhar com outros líderes cristãos as descobertas a respeito das
epístolas de Paulo, percebi que eles também estavam sedentos por uma teologia cristã
que se aplicasse essencialmente à liderança. Na verdade, a motivação para este livro
nasceu em um retiro em que liderava cerca de cinqüenta pastores. As expectativas deles,
ainda sem respostas, podiam ser encontradas nas epístolas de Paulo em que trata dos
fundamentos da liderança efetiva e devotada. Esses pastores tinham questões, como:
"Por que algumas vezes é tão difícil servir a Jesus? Por que é tão doloroso ser líder? Por
que as pessoas criticam injustamente os líderes cristãos? Por que o fruto do Espírito
demonstra tão pouco poder e dinamismo em meu ministério?" Essas não são questões
que os clones cristãos de consultores de liderança secular possam responder, mas Paulo
as antecipara. Na verdade, ele vivera em meio, conforme vim a perceber, à experiência
compartilhada dos líderes mais fiéis e piedosos. Muito do que escrevo aqui já testei com
praticantes da liderança cristã, e muito do que apresento aqui é proveniente de minhas
experiências dolorosas de aprendizado. Acredito que me ative aos assuntos cruciais.
O que apresentarei é uma leitura cuidadosa e rigorosa das epístolas de Paulo por alguém
que está profundamente interessado no desenvolvimento da liderança e
apaixonadamente comprometido com a renovação e crescimento da igreja. Apresento
fatos a partir da experiência no ministério pastoral, da literatura sobre liderança e de
estudos acadêmicos sobre o Novo Testamento. Meu desejo é que este livro,
fundamentado na Bíblia, seja uma ajuda, tanto aos líderes e leigos como aos pastores e
ministros, enraizada clara e solidamente em solo teológico. Meu trabalho ressalta a
aplicação de valor, para que cada capítulo, por meio das questões para discussão, possa
ser usado em reuniões e retiros de liderança, assim como em aulas e estudos bíblicos.
Minha oração é que este livro ajude no surgimento e desenvolvimento de líderes que,
para traçar o planejamento e perspectivas futuros de seu ministério, sejam orientados
pela Escritura e nela fundamentados.
Sempre que lemos a Bíblia cuidadosa e rigorosamente para que por meio dela nos
beneficiemos, descobrimos que ela acaba também por nos ler. Se estamos prestando
atenção cuidadosa a um texto para

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compreender a liderança, não podemos ignorar a crítica implícita à igreja de hoje, que
necessita de algo mais, que seja diferente e distinto do que nos é usualmente oferecido
em estudos contemporâneos sobre liderança. No Ocidente, a ausência de poder tem
infiltrado a igreja, o que resulta em uma diminuição de sua atuação. As lições de
liderança aprendidas com o mundo não melhoraram nossa participação, assim como
podemos notar que não obtivemos bons resultados com o pragmatismo e a heresia de
valorizar o que quer que funcione. O reinado que estamos construindo é essencialmente
diferente do Wal-Mart e da igreja dos mórmons. Se avaliarmos justamente nossas
práticas de liderança, que refletem a maneira de ser do mundo, perceberemos que elas
não frutificaram. Todas as semanas, 53 mil cristãos abandonam a igreja no Ocidente,4 e
os Estados Unidos são hoje a quinta nação do planeta5 em número de pessoas que não
freqüentam a igreja. Muitas dessas igrejas que ganham freqüentadores podem estar
apenas conseguindo que as pessoas entrem na igreja, mas, conforme fica bem evidente,
o evangelho não penetra em suas vidas ou cultura. Uma nova geração de líderes
fortalecidos pelo Espírito é necessária — agora, imediatamente.
O melhor local para buscar uma compreensão renovada sobre liderança é a Bíblia. É
possível até imaginar que muito da literatura sobre liderança cristã não passa de um
cavalo de Tróia, do território inimigo, pois muito pouco espaço é dedicado ao que a
Bíblia diz. As palavras de Paulo a Timóteo ainda são verdadeiras: "Toda Escritura
divinamente inspirada é proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para
instruir em justiça, para que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente instruído
para toda boa obra" (2 Tm 3-16,17).
A fim de equiparmo-nos para "toda boa obra" do ministério e da liderança, é preciso
aprender com afinco toda a extensão bíblica e teológica do suporte que Paulo nos dá em
relação à liderança. Precisamos nos aprofundar na Palavra de Deus para saber o que os
líderes necessitam, em vez de buscar outras fontes. Este livro busca envolver o leitor em
um estudo extensivo do Novo Testamento para que tenhamos os fundamentos de uma
liderança eficiente, inspiradora e revigorante.

O Exemplo de Paulo É a Melhor Opção?


Buscar o exemplo de Paulo para que nos equiparemos a ele é problemático para alguns
leitores e, portanto, necessita de uma breve justificação. Quando nos deparamos com os
ensinamentos desse apóstolo da antigüidade, alguns aspectos o desqualificam, a ponto
de não ser admirado por muitas pessoas do mundo contemporâneo. Dentre estes
ensinamentos estão suas atitudes e princípios doutrinários sobre as mulheres, seu
silêncio sobre a abolição da escravatura e sua insistência, aparentemente rígida e
dogmática, em relação à moralidade tradicional. Lidei com essas e outras objeções em
maior profundidade em The Problem with Paul (O Problema com Paulo) e peço ao
leitor, caso deseje um tratamento mais extenso dessas questões, que as busque nessa
fonte.6 Minha abordagem para analisar Paulo a partir de seu ponto de vista cultural
reconhece que ele era extremamente progressista, até mesmo liberal, em relação às
mulheres em cargos de liderança (considere Febe, Priscila e Júnia em Romanos 16,
apenas para mencionar algumas delas) e à aceitação de escravos na igreja. Na verdade, a
Igreja Primitiva se expandiu mais rapidamente entre as mulheres e os escravos. Embora
Paulo, para as pessoas de hoje, pareça em muitos aspectos politicamente incorreto, uma
leitura justa de seus textos à luz da herança cultural da antigüidade fornece uma
impressão muito mais favorável.
Em vez de medir os pontos de vista de Paulo em relação às suscetibilidades modernas,
algumas das questões relevantes para o tópico deste livro são: você nomearia Paulo para
liderar sua igreja e ministério? As qualidades e valores dele o colocariam na lista dos

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possíveis escolhidos? Antes de responder impetuosamente a essas questões, devemos
lembrar-nos de que muitas pessoas da época de Paulo tinham dificuldades com seu
estilo de liderança. Na verdade, podemos enumerar muitos aspectos considerados pelas
pessoas da época como desqualificativos para o papel central de liderança.
1. Paulo era considerado um péssimo orador pelo padrão da época. "E eu, irmãos,
quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não fui com
sublimidade de palavras ou de sabedoria" (1 Co 2.1). Seus críticos o descartaram
secamente com as seguintes palavras: "Porque as suas cartas, dizem, são graves e fortes,
mas a presença do corpo é fraca, e a palavra, desprezível" (2 Co 10.10). Lembre-se, essa
é a maneira como Paulo registra a crítica feita a ele!
2. Ele tinha problemas de visão que lançavam sombra em suas habilidades de
liderança. A cultura greco-romana, muito parecida com a estadunidense, obcecada pela
imagem, enfatizava a forma física e a estatura como parâmetros para a posição e
liderança que a pessoa exercia na sociedade. Paulo não correspondia a esses parâmetros
e observa, com alegria, como os gaiatas transpuseram a bagagem cultural para aceitá-lo:
"E vós sabeis que primeiro vos anunciei o evangelho estando em fraqueza da carne. E
não rejeitastes, nem desprezastes isso que era uma tentação na minha carne; antes, me
recebestes como um anjo de Deus, como Jesus Cristo mesmo" (Gl 4.13,14).
3. Ele considerou insignificantes suas qualidades e habilidades humanas, quando
comparadas com o poder que emana da comunhão com Cristo. Paulo era capaz, culto e
pertencia à elite, assim como tinha paixão e dedicação incomensuráveis (veja Fp 3.3-5).
No entanto, ele aprendera à medida que caminhava com Cristo e estabelecia esse novo
relacionamento. "Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo" (Fp 3-7).
Paulo passou a perceber que todas as habilidades e qualidades humanas eram insufici-
entes e vulneráveis, embora consideradas valorosas por aqueles que não caminhavam no
Espírito. A fonte verdadeira da liderança revigorada fluía de Cristo, de quem Ele é e do
que Ele faz por meio de seus líderes e seu povo.
4. Ele sustentava a si mesmo com trabalho secular e recebia apoio financeiro de
algumas igrejas (a de Filipos), mas não de outras (a de Corinto). A prática do patronato,
em que um patrão apoiava financeiramente seu cliente e recebia admiração por essa
afiliação quando esse cliente era reconhecido e destacava-se socialmente, era algo
comum e freqüente na sociedade da época. Isso é algo muito parecido com a alegria e
realização que aqueles que apoiam financeiramente equipes esportivas desfrutam,
embora não tenham feito nada efetivamente para ganhar o jogo. O fato de Paulo ganhar
seu sustento com a manufatura de tendas impedia que os coríntios tivessem sentimento
de propriedade em relação a seu ministério.
5. Ele confrontava as pessoas, era controverso e não se envergonhava disso (Gl 2; At
15). A atitude dele em Gaiatas 1-2 é a seguinte: "Sei quando estou certo. Até mesmo se
Pedro ou um anjo do céu insistir que a circuncisão é necessária para ser salvo, eu os
resistirei". A luva de veludo cia gentileza que Paulo usava encobria sua mão de ferro
quando um assunto crucial estava em risco (2 Co 10.1; 1 Ts 2.7).
6. Ele tinha passagem pela cadeia. Ofensas múltiplas e desordens pareciam
acompanhá-lo em todos os lugares que ia. Isso aconteceu somente depois que se tornou
cristão! Antes disso, conforme confessou, participara do assassinato de cristãos: "... que,
dantes, fui blasfemo, e perseguidor, e opressor" (1 Tm 1.13). Supõe-se até mesmo que
ele tenha preferido ser conhecido por Paulo, em vez de seu nome hebraico, talvez, em
parte, para minimizar as associações dramáticas que o nome Saulo poderia reavivar
entre os cristãos (veja, por exemplo, At 9-13,14). Esse seria um homem que você
gostaria de ver à frente de sua igreja? Paulo teve de implorar mais de uma vez para que
seus amigos não se envergonhassem de suas prisões (2 Tm 1.8). Ninguém poderia dizer

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que Paulo era um hipócrita, pois ele foi o primeiro a admitir que era o maior de todos os
pecadores (1 Tm 1.15; a palavra grega prôtos significa "primeiro" ou "principal"
pecador).
Esse não é exatamente o perfil de um líder modelo. Por que Paulo foi tão eficiente
quando tinha contra si tantos pontos desfavoráveis? A que seu sucesso e eficiência em
todo o Império Romano poderia ser atribuído?
Felizmente, Paulo tratou esse problema diretamente, e não temos de fazer especulações
sobre a compreensão que tinha a respeito desse assunto. Para Paulo, o segredo de seu
sucesso estava além de suas habilidades técnicas ou princípios humanos. Como ele
justificava seu sucesso, embora fosse alguém que não estivesse à altura da expectativa
social em relação aos líderes e figuras públicas? Sua explicação vai além do que
poderíamos imaginar. Ele não diz apenas: "Veja o que Deus fez por meu intermédio.
Deus não é maravilhoso?" Essa é parte de sua mensagem, mas apenas parte dela. Paulo
diz que a razão por que Deus usou um líder tão improvável quanto ele é a mesma razão
pela qual Deus está trazendo as pessoas mais humildes do planeta para seu Reino. O
propósito de Deus é derrubar o foco do mundo — que dá mais ênfase à aparência, à
realização e às habilidades humanas —, no qual Deus não é levado em consideração.
Em vez disso,
... Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus
escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes. EDeus escolheu as
coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são para aniquilar as que são;
para que nenhuma carne se glorie perante ele. Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o
qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção; para
que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor (1 Co 1.27-31)-
O ponto é o seguinte: Deus usa Paulo e os coríntios — e pessoas comuns como você e
eu — para derrubar a pretensão do orgulho humano, aquela parte de nosso ser que quer
nos elevar por vencer por nosso próprio mérito e depositar o crédito dessas vitórias em
nós mesmos. Em nossa essência de seres pecadores existe um ser espiritual de dois anos
de idade que quer "fazer tudo por si mesmo". Esse é nosso problema. A solução para
esse problema é aprender a confiar em Deus, a viver na total dependência de Deus para
que nos ajude e nos dê assistência diariamente. Se há algo sobre o que devemos nos
gloriar, é em Jesus Cristo, o Capitão de nossa fé. Orgulho, arrogância e altivez são
inimigos do ministério de poder. Deus se agrada de habitar no humilde.
Se uma liderança humana capacitada pudesse resolver os problemas sérios que a
pecaminosidade humana criou em nosso mundo, isso já teria acontecido. O problema é
maior do que apenas a necessidade de uma nova visão ou direção. Não estamos, como
pessoas, apenas seguindo pelo caminho errado; na verdade estamos mortos "por causa
do pecado" (Rm 8.10), ainda fracos para mudar nossa situação difícil (5.6). Precisamos
mais do que apenas boa liderança; precisamos do poderoso Salvador, aquEle que pode
absolver a onda de pecado em si mesmo e ressuscitar-nos da existência condenada em
que vivemos. Sem Jesus — quer os líderes sejam bons quer sejam ruins — não temos
esperança nem perspectiva. O Império Romano possuía líderes poderosos, mas todos
eles desapareceram. A Igreja Primitiva possuía uma liderança dúbia (pense em cada
discípulo e personagem da história!), contudo a igreja cristã continua a expandir-se de
forma cada vez mais rápida, até mesmo quando incluímos o declínio da igreja no
hemisfério ocidental.
O caminho de Deus é oferecer livremente uma solução para nossa condição: salvação de
nosso estado pecaminoso, perdão e esperança na morte e ressurreição de Jesus. Isso é o
que Paulo chama de "graça", a solução misericordiosa de Deus para nossa condição
humana intratável e obstinada. Paulo diz que esta é a razão pela qual Deus escolheu um

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grande pecador como ele para liderar sua igreja:
E dou graças ao que me tem confortado, a Cristo Jesus, Senhor nosso, porque me teve
por fiel, pondo-me no ministério, a mim, que, dantes, fui blasfemo, e perseguidor, e
opressor; mas alcancei misericórdia, porque o fiz ignorantemente, na incredulidade. E
a graça de nosso Senhor superabundou com a fé e o amor que há em Jesus Cristo. Esta
é uma palavra fiel e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo, para
salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal. Mas, por isso, alcancei misericórdia,
para que em mim, que sou o principal, Jesus Cristo mostrasse toda a sua
longanimidade, para exemplo dos que haviam de crer nele para a vida eterna. Ora, ao
Rei dos séculos, imortal, invisível, ao único Deus seja honra e glória para todo o
sempre. Amém! (1 Tm 1.12-17)
Portanto, Paulo, de todas as maneiras, é um líder modelo. Sua mudança dramática de
religioso violento e fanático para o mensageiro perdoado de Jesus é um retrato da nova
ordem mundial que Jesus nos trouxe. Paulo, um líder caído e perdoado, incorporou o
que Deus queria que o mundo soubesse sobre Jesus: Ele derrama misericórdia, graça e
amor em pessoas falhas. Ele nos salva de nossos pecados, nos levanta da poeira da
morte e coloca nossos pés sobre uma base sólida. Nosso lado pecador fica privado de
seu pior veneno, o orgulho. Qualquer pessoa que se apresente diante de Deus só pode
assim o fazer graças à ação misericordiosa do Senhor, não por conquistas humanas.
Paulo foi escolhido como líder tão-somente devido à graça, misericórdia e amor de
Deus.
Ministério Fortalecido pelo Espírito
O propósito de Deus é a reconciliação da humanidade, orgulhosa e rebelde, para que
esta se volte para Ele. Seu plano, diz Paulo, é escolher os líderes improváveis para que
fique óbvio que é Deus quem está no comando. Esse é o incógnito divino, em que o
Senhor se esconde nas coisas fracas para combater o orgulho humano, algo muito
ofensivo ao Deus santo. Qualquer pessoa que se aproxime de Deus deve fazê-lo de
forma humilde e agradecida, reconhecendo que o Senhor, misericordiosamente,
substituiu a morte que acompanha o orgulho pela vida proveniente do Espírito.
O sucesso do segredo da liderança de Paulo, portanto, não estava em comportamentos
específicos do apóstolo, nem em seu caráter superior e, tampouco, em técnicas
especiais. A eficiência de Paulo era algo divino. Deus se movia em seu ministério.
Quando Paulo se apresentou, Deus escolheu mostrar-se por meio da presença poderosa
do Espírito Santo. Paulo estava totalmente consciente do segredo de seu sucesso:
"Porque não ousaria dizer coisa alguma, que Cristo por mim não tenha feito, para
obediência dos gentios, por palavra e por obras; pelo poder dos sinais e prodígios, na
virtude do Espírito de Deus; cie maneira que, desde Jerusalém e arredores até ao Ilírico,
tenho pregado o evangelho de Jesus Cristo" (Rm 15.18,19).
Paulo tinha muita clareza da razão pela qual sua liderança era eficiente. Ele jamais
poderia fundar a "escola de Paulo sobre as sete

14
leis da liderança". Havia apenas um princípio que os líderes precisavam conhecer: Deus,
ao reconciliar o universo e a humanidade consigo, está construindo seu Reino. Apenas
Ele poderia fazer tal coisa. Os esforços humanos por si só, sem o poder de Deus,
resultam em nada. Somos por Deus convidados a nos unirmos a Ele nessa tarefa de
construção de seu Reino.
Esse não é um tema passageiro nas epístolas de Paulo em que descreve sua liderança e
ministério: "E eu estive convosco em fraqueza, e em temor, e em grande tremor. A
minha palavra e a minha pregação não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria
humana, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se
apoiasse em sabedoria dos homens, mas no poder de Deus" (1 Co 2.3-5).
Para que não pensemos que isso se aplique apenas a Paulo e não a nós, lembre-se de
como ele descreve todo o ministério e, portanto, toda a liderança como dependentes dos
dons e do fortalecimento do Espírito:
Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. E há diversidade de
ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade de operações, mas é o mesmo
Deus que opera tudo em todos. Mas-a manifestação do Espírito é dada a cada um para
o que for útil. Porque a um, pelo Espírito, é dada a palavra da sabedoria; e a outro,
pelo mesmo Espírito, a palavra da ciência; e a outro, pelo mesmo Espírito, a fé; e a
outro, pelo mesmo Espírito, os dons de curar; e a outro, a operação de maravilhas; e a
outro, a profecia; e a outro, o dom de discernir os espíritos; e a outro, a variedade de
línguas; e a outro, a interpretação das línguas. Mas um só e o mesmo Espírito opera
todas essas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer. Porque, assim
com o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, são um só
corpo, assim é Cristo também. Pois todos nós fomos batizados em um Espírito,
formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos
bebido de um Espírito (1 Co 12.4-13).
Estas frases foram reunidas para nos lembrar que o ministério e o trabalho eficiente para
Deus não se originam em nós, mas é o Espírito quem opera todas essas coisas, pois são
manifestações "do Espírito", "pelo Espírito" e "no Espírito", graças ao Espírito de Deus.
Qualquer orgulho humano referente a realizações originadas no ser humano é
despedaçado contra as rochas dessa realidade espiritual. O mundo e todos os que nele
estão são confundidos. A única ajuda real que temos vem do alto. Só estamos
verdadeiramente servindo a Deus e a seus propósitos quando nos unimos ao que Deus
está fazendo por meio de seu Espírito. Somos vasos afortunados, pois fomos escolhidos
para a tarefa, fomos selecionados na prateleira e empregados no serviço a Deus. Somos
vasos, Deus é o oleiro, e o Espírito de Deus é a presença e o poder que Ele derrama em
nós e por meio de nós.7
O Espírito Santo é o segredo do sucesso de Paulo. Isso em parte explica por que esse
não é um tópico apreciado em livros e seminários sobre liderança no tão pragmático
Ocidente. Você não pode engarrafar ou vender o Espírito Santo. Como Jesus diz: "O
vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde
vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito" (Jo 3-8). O crescimento do Reino e a
expansão da igreja são obras de Deus efetuadas por meio do poder do Espírito Santo.
Deus utiliza pessoas comuns e sobre elas derrama o seu Espírito, e elas realizam coisas
maravilhosas. Contudo, Deus escolhe em quem, quando e onde derramar o seu Espírito.
Todos nós conhecemos os abusos de pretensos dons e supostas obras do Espírito Santo.
Os impostores religiosos estão sempre à nossa volta. Basta isso para que qualquer um
fique nervoso, mas o princípio da Reforma ainda é muito sólido: o uso abusivo de algo
não anula o uso apropriado. Há lunáticos e mentirosos que abusam dos dons e
ensinamentos do Espírito Santo; porém, isso não muda o seguinte fato crucial: o

15
ministério de Paulo e, conseqüentemente, o da Igreja Primitiva eram ministérios
caracterizados pelo poder do Espírito. O poder do Espírito Santo é a chave do sucesso
de Paulo. Ele diz isso reiteradamente: "Porque, andando na carne, não militamos
segundo a carne. Porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas, sim, poderosas
em Deus,para destruição das fortalezas; destruindo os conselhos e toda altivez que se
levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo entendimento à
obediência de Cristo" (2 Co 10.3-5).
Alguns intérpretes querem dirigir nossa atenção aos termos retóricos dessa passagem
para apresentar a argumentação efetiva que é empregada aqui. Contudo, o ponto de vista
de Paulo é consistente com sua compreensão da razão pela qual suas palavras e
ministério carregam tamanha força: é "o poder divino" que o capacita e faz com que sua
argumentação com seus oponentes seja tão eficiente. Isso foi o que o apóstolo disse
inicialmente aos tessalonicenses: "Porque o nosso evangelho não foi a vós somente em
palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo, e em muita certeza, como bem
sabeis quais fomos entre vós, por amor de vós. E vós fostes feitos nossos imitadores e
do Senhor, recebendo a palavra em muita tribulação, com gozo do Espírito Santo" (1 Ts
1.5,6). Tenho certeza de que era isso que ele também tinha em mente em 2 Coríntios
10.
Alguns capítulos depois, em 2 Coríntios, ele teve de abordar o mesmo assunto de uma
perspectiva distinta. O ataque de seus oponentes era baseado em uma simples equação:
como Paulo tinha todos os tipos óbvios de problemas e dificuldades não seria possível
que ele estivesse falando por Deus. A resposta de Paulo para esse ataque frontal é,
novamente, lembrar a seus leitores de Corinto que suas dificuldades, sua fraqueza e seus
problemas o qualificavam para o tipo de ministério que Deus queria realizar por
intermédio dele. Deus quer derrubar qualquer pretensão de que a maneira do Senhor é
trabalhar por meio de líderes pretensiosos, a saber, Ele não trabalha da mesma forma
que Hollywood.
E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De
boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder
de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas per-
seguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando estou fraco, então, sou
forte (2 Co 12.9,10).
Paulo não nega o argumento deles. Ele é fraco, sofre perseguições e está propenso a
todo tipo de dificuldade. Ele continua seu argumento e concorda com seus oponentes de
que nada é (2 Co 12.11). Porém, nada disso importa a Paulo, visto que o segredo do seu
sucesso não está em seus atributos, mas no trabalho soberano do Espírito Santo: "Os
sinais do meu apostolado foram manifestados entre vós, com toda a paciência, por
sinais, prodígios e maravilhas" (2 Co 12.12).
O poder de Paulo vinha do alto. Ele era servo do Deus vivo que, por meio do Espírito
Santo, o ungiu e lhe deu poder de forma extraordinária. O Espírito era uma parte crucial
de como Paulo compreendia sua eficácia, assim como era um componente-chave de sua
teologia. Aos gaiatas ele escreve:
Só quisera saber isto de vós-, recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação
da fé? Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela
carne? Será em vão que tenhais padecido tanto? Se é que isso também foi em vão (Gl 3-
2-4).
Imagino se essa questão no versículo 3 não deveria estar sobre as escrivaninhas de todos
os líderes cristãos: "Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis
agora pela carne?" Cada um de nós iniciou a caminhada com Deus por meio da escolha,
da ação e da iniciativa do Senhor. Somos nascidos "do Espírito", para utilizar a

16
explicação de Jesus a respeito dessa conversão em nosso relacionamento com Deus (Jo
3). Se nos desviarmos do lugar em que recebemos poder, se acabarmos "pela carne",
esvaziaremos o evangelho de seu maravilhoso poder transformador. Quando
preenchemos o espaço com o desejo e a determinação para fazer "da nossa maneira", a
presença e o poder do Espírito são banidos. Paulo diz o seguinte: "Digo, porém-. Andai
em Espírito e não cumprireis a concupiscência da carne. Porque a carne cobiça contra o
Espírito, e o Espírito, contra a carne; e estes opõem-se um ao outro; para que não façais
o que quereis. Mas, se sois guiados pelo Espírito, não estais debaixo da lei" (Gl 5.16-
18).
A vida cristã é para ser uma vida dirigida pelo Espírito, e a liderança cristã também
deve ser liderada pelo Espírito. Os seminários são estimulantes, mas o poder provém do
Espírito. Os princípios ajudam-nos a não perder o controle, mas o Espírito nos direciona
para o que Deus quer que façamos.
Contudo, a liderança dirigida e fortalecida pelo Espírito não era apenas uma idéia de
Paulo. Os cristãos, antes de Paulo, já haviam se defrontado com crentes que
demonstravam uma unção espiritual e poderosa em seus ministérios. Lucas fornece um
relance de como essas coisas aconteciam: "E os apóstolos davam, com grande poder,
testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça" (At
4.33). Esse poder foi primeiramente demonstrado em Pentecostes, quando os ouvintes
compreendiam o que era dito sobre as grandezas de Deus em sua própria língua (At
2.11). Depois, Pedro curou o paralítico pelo poder do Espírito Santo e perguntou às
pessoas: "Varões israelitas, por que vos maravilhais disto? Ou por que olhais tanto para
nós, como se por nossa própria virtude ou santidade fizéssemos andar este homem?" (At
3-12; veja At 4.7) Estêvão, "cheio de fé e de poder, fazia prodígios e grandes sinais
entre o povo" (At 6.8). E essas histórias maravilhosas sobejam no livro de Atos. Tudo
que seus oponentes poderiam pensar para interromper a atividade deles era recorrer ao
poder carnal, às autoridades seculares ou à força coercitiva. Quando Estêvão foi
apedrejado até a morte, Paulo observou com aprovação, assim como cuidou das vestes
dos executores. No entanto, o poder do Espírito adornava o trabalho dos cristãos e os
levava a sofrer horríveis perseguições e grandes oposições. Todo o propósito era chamar
a atenção para a nova revelação de Deus por meio da presença e poder do Senhor entre
seu povo. De acordo com Lucas, esse é o tipo de ministério que Jesus prometeu a seus
primeiros discípulos: "Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre
vós; e ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e
até aos confins da terra" (At 1.8).
Jesus, antes de prometer e fortalecer o ministério de seus discípulos, serviu-lhes de
modelo. Ele manifestara continuamente o poder divino de Deus, e a ressurreição foi o
ápice da demonstração de que Deus estava atuando de forma única e poderosa em Jesus:
"Varões israelistas, escutai estas palavras: A Jesus Nazareno, varão aprovado por Deus
entre vós com maravilhas, prodígios e sinais, que Deus por ele fez no meio de vós,
como vós mesmos bem sabeis; [...] ao qual Deus ressuscitou, soltas as ânsias da morte,
pois não era possível que fosse retido por ela" (At 2.22,24; cf. At 10.38).
Portanto, não é de admirar que Paulo tenha herdado imediatamente esse mesmo Espírito
de poder para desempenhar sua função de líder. Isso não se iniciou com ele ou com os
primeiros discípulos, nem mesmo com Jesus. Os primeiros discípulos perceberam que
esta era a maneira como Deus, havia muito tempo, já vinha atuando por meio de seus
líderes escolhidos. A Igreja Primitiva percebeu que o fortalecimento divino para a
liderança chegava até Moisés. "E Moisés foi instruído em toda a ciência dos egípcios e
era poderoso em suas palavras e obras" (At 7.22). Deus fortaleceu e ungiu os líderes
escolhidos em todas as épocas. Isso aconteceu com Moisés, Davi, Jeremias, Jesus,

17
Pedro e Paulo. E isso pode acontecer com você e comigo.
Você e Eu Podemos Ter o mesmo Ministério de Poder
Os cessacionistas são pessoas que acreditam que os milagres e os dons espirituais
relatados nas Escrituras eram apenas para os tempos bíblicos; não para os nossos dias.
Todo aquele poder cessou com os primeiros apóstolos; daí o nome cessacionista. Esta é
uma posição teológica quase que exclusivamente encontrada no Ocidente materialista, a
qual é praticamente incompreensível para dois terços do mundo em que os cristãos estão
acostumados a testemunhar a ação poderosa do Espírito Santo. Se os cessacionistas
estão corretos, por que Paulo disse a Tito: "... Espírito Santo, que abundantemente ele
derramou sobre nós por Jesus Cristo, nosso Salvador" (Tt 3.5,6)? Como podemos pensar
que o Espírito era para aquela época, mas não para hoje? O Espírito fornece a cada
cristão poder, amor e moderação: "Porque Deus não nos deu espírito de temor, mas de
fortaleza, e de amor, e de moderação" (2 Tm 1.7). É verdade, o amor e a moderação são
componentes cruciais, mas não devemos convenientemente ignorar a necessidade do
poder do Espírito de Deus. A teologia bíblica de liderança tem de iniciar aqui, e um
ministério eficiente precisa ser continuamente dirigido pelo Espírito. Onde quer que a
igreja esteja viva e crescendo, todas essas observações são como leite materno, os
fundamentos iniciais do ministério. Apenas no Ocidente, racionalista e abertamente
materialista, onde a igreja mais luta, é que essas verdades escriturais são contestadas.
Paulo antecipou esses dias em que vivemos, quando a imoralidade se espalharia como
um câncer, e a igreja teria "aparência de piedade, mas negando a eficiência dela" (2 Tm
3.5). Essas palavras não apenas soam bem verdadeiras, como descrevem muitas de
nossas igrejas cristãs de hoje. E a carapuça serviu para muito de meu ministério e para o
de muitas igrejas pelas quais passei. O que precisamos em nossas igrejas e em nossa
liderança não são princípios, idéias ou prédios novos, mas uma dependência renovada
em Deus, para sermos renovados pela presença e poder do Espírito Santo. O Espírito
Santo, melhor do que qualquer um de nós, sabe como chamar a atenção ao Cristo cruci-
ficado e ressureto, em quem temos vida, esperança e salvação.
O assunto deste livro é o ensinamento de Paulo e o exemplo de liderança fortalecida
pelo Espírito Santo. Dividi os capítulos a seguir em três seções. A primeira seção é
sobre quem nos confere o poder. A rendição de nosso ser é o início de nosso
relacionamento com Deus. O que necessitamos é de uma comunhão renovada mais do
que liderança (capítulo 2). O capítulo 3 trata da necessidade do sofrimento, de nosso
chamado a "levar a cruz", para sermos líderes eficientes e piedosos. O capítulo 4
explora a característica crucial da liderança, a saber, ser um vaso trincado. Você pode
até dizer que esses capítulos são apenas sobre o Oleiro e a dependência dos vasos de
barro (nós, os líderes) nEle para que sejamos moldados e utilizados conforme a mão
artística de nosso Criador desejar.
Na seção seguinte, dois capítulos são dedicados à discussão do poder que temos como
líderes e da razão pela qual aceitamos a Cristo: o poder do exemplo pessoal (capítulo 5),
e o poder do companheirismo, trabalho de equipe e da multiplicação do ministério por
meio da reprodução de líderes (capítulo 6). Quando Cristo entra em nossas vidas,
entramos em uma nova esfera, chamada pelo apóstolo Paulo de "em Cristo". Estar "em
Cristo" é ser uma nova criatura (2 Co 5.17), é passar a ter uma dupla cidadania, pois,
embora tenhamos um pé na terra, devemos ser totalmente leais aos céus. Estar "em
Cristo" significa que nosso caráter submete-se a uma transformação, e tornamo-nos
parte de um novo povo, o corpo de Cristo. Por essa razão, o exemplo que damos e a
equipe que construímos causam um impacto divino.
Na terceira seção, dedico dois capítulos a como Paulo diz que devemos continuar a
viver no Espírito. O capítulo 7 ressalta a necessidade crucial de oração. O capítulo 8 nos

18
faz lembrar que Deus trabalha de baixo para cima, por meio das pessoas mais
improváveis. Duas coisas são essenciais para os líderes de hoje: seguir verdadeiramente
e refletir claramente a vida de Deus em Jesus Cristo, nosso Senhor.
O capítulo 9 descreve a nova classe de líderes da linha de frente, os quais, hoje, vejo
Deus levantando, assim como descreve como podemos nos unir ao que Deus está
fazendo em nossa terra. O título do apêndice que vem a seguir é auto-explicativo:
"Ouvindo a Direção de Deus para seu Ministério".
Mas, antes de mais nada, devemos retomar o fio da meada.

19
2
DISCIPULADO E RENDIÇÃO

E é por Cristo que temos tal confiança em Deus-,


não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa,
como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus,
o qual nos fez também capazes de ser ministros
dum Novo Testamento, não da letra, mas do Espírito;
porque a letra mata, e o Espírito vivifica.
2 CORÍNTIOS 3-4-6

É parte de nossa disciplina de humildade que não devamos guardar


nossa mão sempre que possa prestar serviço e que não devamos assumir
que a disponibilidade de horário esta ali para que nós mesmos a
gerenciemos, mas permitir que seja organizada por Deus.
DIETRICH BONHOEFFER, LLFE TOGHETHER (VIDA KM COMUNHÃO)

Um outro ancião disse ainda: Se vir um jovem monge tentando subir


aos céus pela própria vontade, pegue-o pelo pé e jogue-o ao chão,
pois o que ele está fazendo não é bom para ele.
THOMAS MERTON, THE WISDOM OF THE DESERT (A SABEDORIA DO DESERTO)

Onde quer que o Senhor me envie, eu irei.


ROBERT DUVALL, The APOSTLE
(O APÓSTOLO)

20
O PODER ESPIRITUAL FLUÍA POR INTERMÉDIO do ministério de Paulo, mas o
apóstolo deixa claro que este poder não vem dele. Ele é um canal, um vaso, um mero
condutor do poder do Espírito que gera vida e o qual flui por intermédio dele e de seu
ministério. Na passagem de 2 Coríntios, citada acima, Paulo aplica isso a todos nós ao
utilizar a primeira pessoa do plural. O que é verdade para Paulo, seus companheiros de
ministério e os coríntios é verdade para todos os cristãos, inclusive você e eu-.' "Não
que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a
nossa capacidade vem de Deus" (2 Co 3-5).
Para experimentar a liderança de poder, temos primeiro de aprender quem é a fonte de
poder, aquele poder verdadeiro que não vem de nós, nem de nossos esforços e,
tampouco, de nossa sabedoria humana. "Temos, porém, esse tesouro em vasos de barro,
para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós" (2 Co 4.7). Portanto, temos
de ser modelados por Deus para sermos canais de seu poder. Deus é quem equipa e
fortalece o ministério eficiente. O ministério eficiente é aquele que confere vida no
Espírito aos outros e fornece uma antecipação do Reino de Deus que virá em plenitude.
Deus é quem dá vida, por meio de Jesus e por intermédio do Espírito: "O qual nos fez
também capazes de ser ministros dum Novo Testamento, não da letra, mas do Espírito;
porque a letra mata, e o Espírito vivifica" (2 Co 3-6).
Discipulado
Como isso é verdade. O que necessitamos não é de novos pioneiros e desbravadores que
nos guiem ao futuro, mas sim de discípulos autorizados, canais do poder do Espírito
para trazer as pessoas à presença de Deus e ao seu Reino. Precisamos de líderes que
modelem a maneira de se submeter a Deus e que recebam a força e purificação de Deus
para o serviço no mundo. É animador sentir-se forte, competente e no comando, mas
não há poder espiritual verdadeiro nisso nem habilidade para materializar a realidade do
Reino de Deus. A liderança vivificadora flui da dependência profunda naquEle que
fortalece, purifica, guia e vivifica nosso viver.
Em suma, o que precisamos é de discipulado, em vez de liderança. Os líderes que
precisamos necessitam modelar a maneira de seguir a Cristo, de viver sob o governo de
Cristo e de buscar a semelhança de Cristo, ao depender confiantemente de Deus.
Qualquer João, José ou Maria pode ter uma idéia e reunir outros para iniciar a
construção de um prédio, favorecer o crescimento de um grupo, fazer planejamentos ou
reuniões para receber doações. Não há nada essencialmente cristão em relação a essas
coisas. As igrejas não são as únicas a fazer isso — corporações e seitas também o
fazem. Se isso for liderança, então temos líderes mais que suficientes na igreja. Os
assim chamados líderes, muito freqüentemente, modelam uma vida bem materialista,
mais "segundo a carne". Retornaremos a esse ponto posteriormente.
Paulo modelou o discipulado. Não creio que tivesse notado isso a respeito do ministério
de Paulo até que dei o salto qualitativo em meu ministério, em que passei de planejador
a discípulo. Não me entenda mal, não estou criticando a organização, o cuidado com a
administração do tempo ou a coordenação de esforços das várias equipes para
conquistar um objetivo comum. Ao contrário, estou criticando a dinâmica cie ministério
que é fundamentada no controle e direção humanos, em vez de no poder e liderança de
Deus. Estou tentando lançar uma luz sobre as mentiras plantadas em seminários e
escolas de teologia que advogam que "ministério significa gerenciamento".
Temos de encarar os fatos. A descrição dos eventos em Atos dos Apóstolos não diz que
Paulo era um mestre visionário que tinha um plano de quinze anos para evangelizar os
maiores centros do Império Romano, os quais por sua vez evangelizariam suas próprias
regiões.2 Ele não era um líder nesse sentido, a saber, visionário. Em vez disso, o
ministério de Paulo é retratado em contínua intermitência, pois é interrompido pela

21
oposição humana e, freqüentemente, redirecionado pelo Espírito. Por exemplo, Paulo
estava apenas iniciando seu trabalho em Tessalônica, quando uma revolta o levou a
deixar a cidade (At 17.1-10). Hoje, se perguntasse a qualquer especialista em implemen-
tação de igrejas, perceberia que não é possível implantar uma igreja, que sobreviva por
um longo período, em apenas três ou quatro semanas. Contudo, isso foi exatamente o
que Paulo fez. Ele escreve aos tessalonicenses como se fossem uma comunidade cristã
muito ativa: "À igreja dos tessalonicenses" (1 Ts 1.1; 2 Ts 1.1). Quando Deus quer
realizar algo por nosso intermédio, é preciso que sejamos discípulos, não planejadores.
De acordo com meu mentor F. Dale Bruner: "As duas primeiras palavras de uma
teologia cristã sólida são: Deus pode". A partir do momento em que compreendemos
isso, podemos compreender toda a teologia e desenvolver a fé construída sobre
fundamentos sólidos. Deus é capaz. Deus não precisa de Noé nem de Moisés para
compreender ou perceber o significado da arca ou do êxodo. Deus apenas requer a
obediência deles. O dilúvio veio, e o mar se abriu. Deus pode. Atos igualmente
poderosos podem acontecer quando estivermos bem alinhados com o que Deus escolheu
fazer.
Os líderes da Igreja Primitiva, em Antioquia, compreenderam isso muito bem. Deus é
capaz. Eles não necessitavam de um planejamento. Eles precisavam apenas conhecer a
mente de Deus por meio do Espírito. Essa era a maneira normal de exercitar a liderança
cristã na época de Paulo:
E, servindo eles ao Senhor ejejuando, disse o Espírito Santo: Apartai-me a Barnabé e a
Saulopara a obra a que os tenho chamado. I...] E assim estes, enviados pelo Espírito
Santo, desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre. E, chegados a Salamina,
anunciavam a palavra de Deus nas sinagogas dos judeus; e tinham também a João
como cooperador (At 13-2,4,5).
Liderados pelo Espírito, inspirados pelo Espírito, fortalecidos pelo Espírito — eles
obedeciam a Deus, e a liderança deles era vivificadora. O texto não nos conta como eles
escutavam o Espírito Santo, mas Ele se dirigia a eles enquanto oravam e jejuavam.
Presumivelmente, a palavra vinha por meio de um dos profetas. A direção não vinha
explicitamente de um líder visionário. Os resultados falam por si sós. O amor de Jesus
espalhou-se por todo o Império Romano, e as igrejas, as eme eram bases missionárias,
foram estabelecidas em locais estratégicos para o fomento do evangelho.
O racionalista do hemisfério esquerdo (RHE) que existe em mim faz agora objeções
(você também é RHE?). O que dizer sobre todos os lunáticos que afirmam serem
guiados por Deus e desencaminham as pessoas? O que dizer sobre todas as pessoas
irresponsáveis que culpam a Deus pelas coisas que elas fazem? Será que você consegue
imaginar como isso pode tornar as coisas confusas? Como podemos nos proteger contra
os abusos de autoridade? O que dizer dos fanáticos idiossincráticos que lançam mão de
coisas assim e as usam para causar confusão e destruição na igreja? (Meu RHE continua
a gritar suas objeções quando volto a ponderar sobre essa passagem das Escrituras.) A
verdade é que uma visão, proveniente do desejo pessoal imposto a outros cristãos, pode
ser muito destrutiva e opressora. Os princípios da Reforma devem ser aplicados aqui: o
abuso de algo nunca anula seu uso apropriado. O fato de pessoas abusarem da afirmação
de que são lideradas pelo Espírito não significa que devemos negligenciar a liderança do
Espírito em nossa própria vida.
A questão verdadeira não se refere a nossas objeções racionais, mas a nossa necessidade
obsessiva de manter um firme sentido de controle. Como Mike Yaconelli muito bem
afirma, em Dangerous Wonder (Prodígio Perigoso),
Mas a verdade é imprevisível quando Jesus está presente; todos se sentem
desconfortáveis, embora, ao mesmo tempo, misteriosamente felizes. Pessoas não

22
gostam de surpresas— até mesmo as pessoas que freqüentam a igreja— e não querem
sentir-se desconfortáveis. Elas querem um Jesus agradável e domesticado. Sabe de uma
coisa?' Domesticação não é uma opção. Retire a surpresa da fé, e tudo que nos resta é
uma religião ressequida e morta.
Em vez de racionalização, quero responder ao meu RHE com uma observação bíblica
óbvia. Isso é o que as Escrituras dizem que aconteceu — eles foram liderados pelo
Espírito. Nós precisamos fazer os cálculos e juntá-los aos frutos: o Espírito movia-se
com poder por meio do ministério deles. Ministros liderados pelo Espírito liberam o
poder do Espírito em seus ministérios. Conseqüentemente, a vida é difundida.
Posso enumerar muitos outros exemplos. Paulo era ávido por pregar o evangelho onde
quer que fosse; contudo, em um determinado ponto de sua segunda viagem missionária,
ele ministrou em Frigia e na Galácia, pois fora impedido "pelo Espírito Santo de
anunciar a palavra na Ásia" (At 16.6). Por quê? Alguém havia sido enviado por Deus
para essa região? Aquele não era o momento ideal? Quem pode saber! Posteriormente,
em sua terceira viagem, ele pôde, em seu caminho para Trôade, passar por Colosso e
Éfeso. No entanto, nessa segunda viagem, ele teve de fazer um caminho mais longo
rumo ao norte: "E, quando chegaram a Mísia, intentavam ir para Bitínia, mas o Espírito
de Jesus não lho permitiu" (At 16.7).
Seguir, em vez de planejar. Era esse o fundamento da liderança e do ministério de
Paulo. Ele obedeceu e, na noite em que chegaram a Trôade, descobriu por que o Espírito
o direcionara dessa maneira. Deus planejara usá-lo, assim como a seus companheiros,
para difundir a mensagem sobre Jesus e plantar igrejas, que fossem bases missionárias,
por toda a Macedonia, a província onde se encontravam as cidades de Filipo,
Tessalônica, Apolônia e Beréia. "E Paulo teve, de noite, uma visão em que se
apresentava um varão da Macedonia e lhe rogava, dizendo: Passa à Macedonia e ajuda-
nos! E, logo depois desta visão, procuramos partir para a Macedonia, concluindo que o
Senhor nos chamava para lhes anunciarmos o evangelho" (At 16.9,10).
Portanto, o evangelho se difundiu, e a igreja foi estabelecida ao longo da fronteira
oriental da Macedonia e, inclusive, descendo até Atenas e chegando a Corinto, em
apenas alguns poucos meses. Ninguém planejara isso. Eles apenas estavam seguindo a
direção do Espírito Santo. Deus acenava, e eles seguiam. Ao seguir a vontade revelada
de Deus, foram posicionados exatamente onde precisavam estar. Caso se ativessem a
um projeto preconcebido, eles deixariam de perceber o que Deus queria que fizessem.
Posteriormente, o Espírito Santo direciona Paulo para Jerusalém, o local mais
improvável que ele — ou nós, nas mesmas circunstâncias — planejaria visitar. Por que,
com toda a oposição e conspiração contra sua vida, ele iria para Jerusalém? Não havia
razão alguma. Esse é o motivo pelo qual Lucas registra o significado, para Paulo, de ser

23
compelido pelo Espírito: "E, agora, eis que, ligado eu pelo espírito, vou para Jerusalém,
não sabendo o que lá me há de acontecer, senão o que o Espírito Santo, de cidade em
cidade, me revela, dizendo que me esperam prisões e tribulações" (At 20.22,23).
Paulo começou a ser arrastado para lã. Podemos dizer que seguir o Espírito, nesse caso,
levou à direção oposta que qualquer indivíduo com um mínimo de bom senso planejaria
seguir. No entanto, o fruto da obediência de Paulo é evidente para todos nós. Temos o
benefício da visão perfeita em retrospectiva e, desse modo, podemos observar que Paulo
fez uma viagem sem percalços até lá. Depois seguiu para Roma e, presumivelmente, até
a extremidade oeste do Império Romano, na Espanha. O planejamento não o direcionou
para lá, mas o seu propósito em seguir a direção do Espírito.
Devemos permitir que isso penetre profundamente em nosso ser. Não podemos
descartar esse fato com o seguinte comentário: "Essa era a maneira como eles faziam as
coisas naquela época, em uma cultura totalmente diferente". Devemos ter consciência
de que isso era tão problemático para muitas pessoas RHE quanto o é para nós hoje. Os
coríntios, por exemplo, ficaram perplexos quando Paulo mudou os planos, quando ele
chegou a "Trôade para pregar o evangelho de Cristo e [abriu-se-lhe] uma porta no
Senhor" (2 Co 2.12; veja 2 Co 1.15-2.13 para ler toda a narrativa). Os coríntios ficaram
aborrecidos com isso, e muitos de nós também ficariam: "Paulo, você não veio até aqui
seguindo seus planos? Você estava seguindo o Espírito? Que tipo de explicação é esta?"
Contudo, essa é a explicação de Paulo.
Mas isso não é tudo. Paulo nos chama a seguir seu exemplo: "Se vivemos no Espírito,
andemos também no Espírito" (Gl 5.25). Essa é a maneira como a Versão Almeida
Revista e Corrigida traduz esse texto, mas "andar" é uma palavra muito fraca para fazer
justiça à forte palavra grega stoichômen, que se origina da terminologia militar para ali-
nhamento obediente.4 Isso não significa "seguir a direção do Espírito com ponderação".
Para estar de acordo com o Espírito é necessário submeter-se à mente e ao propósito de
Deus em relação ao assunto relevante, tanto para fazer o que o Espírito diz que deve ser
feito como para ser guiado "pelo Espírito" (Gl 5.17). Será que a tradução desse
versículo fez com que os tradutores, como nós, ficassem desconfortáveis? O sentido
deve ser: "Se vivemos pelo Espírito, devemos também ser controlados pelo Espírito".
Esse foi o modelo que nos foi ensinado por Paulo, e seu significado fica bem claro. Isso
não é o delírio de um maníaco carismático; é o que a Bíblia cliz.
E se sua experiência com Deus não foi dessa maneira? E se esse tipo de interação
pessoal com Deus, por meio do Espírito Santo, estiver faltando em sua vida? Suponho
que isso também signifique que você não experimentou um ministério de poder. Você
pode até ter alcançado alguns resultados, mas eles foram vivificadores? O Reino
multiplicou-se? As pessoas foram transformadas em cristãos como as do Novo
Testamento e enviadas aos não-cristãos? Jesus Cristo tornou-se o centro da vida dessas
pessoas, ou, ao contrário, o resultado disso foi a igreja ou o ministério tornarem-se o
centro de suas vidas?
Como mudar do planejamento impotente para o seguir cheio de poder? Há uma resposta
simples e uma complexa para esta questão. A simples é: pedimos para Deus nos guiar, e
vamos aonde somos direcionados e fazemos o que Ele nos manda. A resposta complexa
é que temos de nos libertar das forças internas e externas a nós, as quais nos desviam e
nos impedem de escutar e obedecer a direção de Deus. Paulo denomina a força interna
da qual precisamos nos libertar de "carne"; e a externa, de agradar às pessoas. O restante
desse capítulo é sobre como podemos passar a ter um ministério liderado pelo Espírito,
fortalecido pelo Espírito e, portanto, vivificador.
Viver e Liderar "Segundo o Espírito" versus "Segundo a Carne"
"Carne" (em grego, surx) é um termo desafiador, mas crucial para compreender a

24
teologia de Paulo, assim como para entender o caminho que leva à liderança de poder.
"Carne" não é o mesmo que "corpo", mas há uma pequena sobreposição no uso e
significado dessas palavras. "Carne" é um termo negativo para Paulo, ao passo que "cor-
po" é neutro: carne ^ corpo. Os dois termos se sobrepõem, mas não são sinônimos.s

O uso de "carne", crucial para a compreensão deste capítulo, diz respeito a viver
"segundo a carne" (em grego, kata sarka) em contraste com viver "segundo o Espírito"
(katapneuma). O problema com as pessoas que vivem "segundo a carne" é que elas não
se submetem ao desejo e ao caminho de Deus. O problema com a "carne" é, na verdade,
um problema com o desejo em que há intencionalidacle pecaminosa e rebelde em
relação a Deus e seu controle sobre nossa vida. "Carne" não diz respeito à vida "no
corpo", mas à condição espiritual de ser intencionalmente independente de Deus e de
seu desejo. É mais do que a tentação física (outro significado de "carnal", palavra
também usada na tradução de sarx). Talvez, nesse sentido, a melhor maneira cie definir
"carne" seja desejo próprio ou intencionalidade independente — uma pessoa que em sua
condição espiritual está distante de Deus e do que Ele quer que essa pessoa seja e faça/'
Há duas passagens-chave em Paulo para que nos aprofundemos e possamos
compreender a diferença entre viver "segundo a carne" e viver "segundo o Espírito". A
primeira delas é Romanos 8.5-9:
Porque os que são segundo a carne inclinam-se para as coisas da carne; mas os que
são segundo o Espírito, para as coisas do Espírito. Porque a inclinação da carne é
morte; mas a inclinação do Espírito é vida epaz. Porquanto a inclinação da carne é
inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser.
Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus. Vós, porém, não estais na
carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não
tem. o Espírito de Cristo, esse tal não é dele.
Paulo apresenta contradições contundentes entre essas duas maneiras de viver. A
primeira delas, "segundo a carne". Os que vivem segundo a carne geralmente não têm
consciência disso, mas a direção que tomam leva-os ao desapontamento, à destruição e
à "morte". Estou convencido de que muitos líderes cristãos desempenham suas funções
segundo a carne e não estão conscientes disso. Essa equação carne/morte espelha a
sabedoria do Antigo Testamento: "Há caminho que ao homem parece direito, mas o fim
dele são os caminhos da morte" (Pv 14.12). Não apenas esse caminho tem
conseqüências terríveis, mas também é uma maneira de viver que ofende continuamente
a Deus; é "inimizade contra Deus". Por que viver "segundo a carne" é antagônico a
Deus? Porque os que vivem dessa maneira não se submetem à vontade de Deus e,
tampouco, são capazes de o fazer (v. 7). Eles "não podem agradar a Deus" nem esperar
ver os favores de Deus, pois são traidores que vivem em um outro reino sob o domínio
de um outro monarca, o reino do "eu". A submissão a Deus é a chave, e muitos jamais
encontram o ministério vivificador, pois se recusam a submeter-se.
Qualquer pessoa que renda seu "reino do eu" a Deus submete-se ao senhorio de Jesus e
recebe o amor e a bênção dos dons do Espírito Santo (Rm 8.5). Quando recebemos os
dons do Espírito de Deus, experimentamos as bênçãos de viver sob o comando de Deus:
vida em lugar de morte e paz em lugar da inimizade com Deus (Rm 8.7). Qualquer

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cristão, qualquer indivíduo que tenha se submetido ao relacionamento de confiança com
Deus por intermédio de Jesus Cristo, tem o Espírito Santo, que nele habita. "... se
alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele" (Rm 8.9). Paulo afirma que ser
cristão é o mesmo que estar cheio do Espírito. Ser líder cristão é o mesmo que ser líder
cheio do Espírito. A única outra opção que Paulo deixa em aberto é viver "segundo a
carne" — e deixa claro onde isso nos leva.
Como líder, vivi tanto o ministério controlado pela carne como o liderado pelo Espírito.
A diferença é tão dramática quanto a distinção entre remar e velejar. O remador chega a
seu destino por meio do desgaste, batalha e esforço pessoal. O velejador chega a seu
destino pelo poder do vento. Remar é uma boa maneira para manter-se em forma, mas
um método ruim para viajar. O velejar aproveita o poder do vento e permite que
viajemos mais longe, mais rápido e com muito menos esforço do que quando remamos.
Por muitos anos, ministrei como se estivesse em um barco a remo: com minhas forças e
sabedoria e por intermédio de meu poder. Embora a maioria de minhas pregações fosse
fundamentada nas Escrituras, pregava e ensinava a partir de minhas boas idéias. Na
época, achava que esse não era o caso, mas, na verdade, não passava de um cristão
fariseu. Acreditava e ensinava a Bíblia, mas o poder não fluía por intermédio de meu
ministério. (Isso não quer dizer que Deus não usasse meu ministério — Ele assim o
fazia, pois a Palavra realiza coisas incríveis e maravilhosas apesar do mensageiro.)
Desde essa época, tenho aprendido a diferença entre pregar e ensinar biblicamente
"segundo a carne" e pregar e ensinar bíblica e poderosamente "segundo o Espírito".
Velejar é muito melhor. O restante deste livro é uma tentativa de descrever, em
detalhes, a maneira de permanecer no caminho supremo do ministério liderado pelo
Espírito e de abandonar o caminho medíocre do ministério "segundo a carne".
O Caminho para o Poder: Render-se
Render-se é a maneira pela qual podemos nos livrar das amarras da "carne". O problema
da carne pode ser ilustrado por meio da analogia de como conduzir um carro. Quando
vivemos segundo a carne, nossas mãos seguram tão firmemente a direção de nossa vida,
e, por conseguinte, de nossa família e de nosso ministério, que as juntas dos dedos
chegam a ficar esbranquiçadas. Render-se é soltar a direção e passar a ocupar o banco
do passageiro, permitindo que Deus ocupe totalmente o lugar de motorista e o controle
de nossa vida. Participamos da jornada à medida que Deus pede e requer isso de nós, e
não contra-ordenamos o que Deus quer.
Alguns cristãos estão quase rendidos, o que podemos chamar de "quase cristãos".7
Contudo, sempre que um assunto crucial, que envolve suas carreiras — como as
finanças ou o futuro —, vem à tona, eles se inclinam e agarram a direção, pisando
violentamente no freio. Substituem a obediência e submissão a Deus pela arrogância do
desejo e determinação pessoais. Sempre que penso sobre isso, a imagem de um garoto
de dois anos, berrando, me vem à mente-. "Eu sei fazer sozinho". A instância da
intencionalidade se fecha ao poder do Espírito na vicia dessas pessoas, como se
estivessem desligando a chave da ignição. A "carne" assume o controle, e o poder do
Espírito é dissipado. Isso não quer dizer que Deus não esteja presente, mas que o
Espírito se recusa a derramar poder em tais circunstâncias.
Por quê? Retrato isso da seguinte forma: Quando minha filha tinha dez anos ela
realmente gostava de falar e pensar sobre dirigir carros, embora não tivesse ainda o
tamanho e a maturidade para assumir essa grande responsabilidade. Recusava-me a
deixá-la ter o controle da direção. Imagine que estivéssemos dirigindo em uma estrada.
Se ela agarrasse a direção ou puxasse o freio de mão, teríamos um grande problema a
resolver! Se ela me forçasse a sair do assento do motorista, faria o possível para desligar
o carro antes que ela tomasse o controle. Poder requer responsabilidade. No caso dos

26
líderes espirituais, a responsabilidade vem quando nos humilhamos e admitimos que
não podemos fazer o trabalho de Deus — o planejamento e o direcionamento do
conduzir que traga a plenitude do Reino.
Em vez disso, quando decidimos confiantemente o rumo de nossa vida ou ministério
sem qualquer ajuda ou direção de Deus, somos como garotos de dez anos que querem
dirigir. A autoridade e capacidade de Deus estão acima de nossa compreensão. Somos
como garotos de dez anos quando temos de lidar com o futuro e conhecer a mente de
Deus para o futuro. Conhecemos as pinceladas que Deus revelou nas Escrituras.
Contudo, nenhum cie nós pode ver claramente onde cada um desses caminhos nos leva,
quais obstáculos e oposição estão diante de nós e qual caminho nos leva até nossa
moradia celeste. Nenhum de nós, exceto Deus. Essa é a razão pela qual render-se é mais
sensato do que determinar por si mesmo, como também é a razão pela qual Deus
fortalece apenas os que se submetem.
Muitos, ou talvez a maioria de nós, provavelmente não vão ao local de rendição e
submissão por si mesmos. Paulo também não. Ele estava no caminho da morte, mas
estava totalmente convencido de que servia a Deus — em seu caminho para assassinar
cristãos em Damasco, com a aprovação de seus superiores religiosos! Esse foi o
momento em que o Cristo ressureto o confrontou, o colocou de joelhos e o cegou.
Ironicamente, a cegueira física de Paulo tornou-se o início de seu despertar para a vida
no Espírito, pois ele recebeu a verdadeira visão espiritual. Para Paulo, essa visão veio
subitamente por meio de um resplendor de luz do céu, e foi um choque para os cristãos
primitivos encontrar esse homem transformado (veja At 9-1-31; 22.1-21; 26.1-23). Ele
foi transformado da morte para a vida, do viver segundo a carne para o viver para Jesus,
direcionado pelo Espírito, em um momento de sujeição, submissão e rendição. Em um
segundo, teve de desistir de tudo o que algum dia considerou valioso, de tudo que
construíra em sua vida até aquele momento. Isso nos leva a outra passagem importante
que precisamos ler cuidadosamente, Filipenses 3-3-11.
Nestes versículos, Paulo avisa seus queridos amigos a respeito das viagens de falsos
missionários que insistiam que os cristãos gentios deviam ser circunciclados. Em
Gaiatas, ele chama esses encrenqueiros de judaizantes, pois insistiam que os gentios
deviam ser circuncidados e observar as restrições alimentares e o calendário santo dos
judeus.8 Paulo, em Filipos, ao admoestar seus amigos sobre essas pessoas, explica
claramente o que mudara para ele quando inclinou seu desejo para Jesus e consentiu em
sujeitar-se:
Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus no Espírito, e nos gloriamos em
Jesus Cristo, e não confiamos na carne. Ainda que também podia confiar na carne-, se
algum outro cuida que pode confiar na carne, ainda mais eu: circuncidado ao oitavo
dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de bebreus-, segundo a lei, fui
fariseu, segundo o zelo, perseguidor da igreja; segundo a justiça que há na lei,
irrepreensível. Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E, na
verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de
Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas e as considero
como estercopara que possa ganhar a Cristo e seja achado nele, não tendo a minha
justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de
Deus, pela fé; para conhecê-lo, e a virtude da sua ressurreição, e a comunicação de
suas aflições, sendo feito conforme a sua morte; para verse, de alguma maneira, eu
possa chegará ressurreição dos mortos (Fp 3-3-11).
Aqui, o contraste é o mesmo que encontramos em Romanos 8, mas Paulo distingue
entre a atitude de confiança na "carne" e a que significa "estar em Cristo". Paulo
identifica o "confiar na carne" como a confiança em cerimônias religiosas (circuncisão),

27
em sua linhagem, de família de elite, e nas .conexões sociais (israelita, da tribo de
Benjamim, hebreu de hebreus), assim como a confiança em seu esforço para ser um
perfeito fariseu (irrepreensível) e em seu zelo (como perseguidor dos cristãos). Paulo,
conforme o padrão do mundo, ou pelo menos de acordo com os padrões de um judeu
respeitador de sua época, tinha toda a razão para confiar "na carne" (Fp 3.4).
Essa confiança estava mal direcionada, pois estava firmada na confiança de conquistas
humanas, e não em Deus. Quando encontrou a Jesus na estrada de Damasco,
literalmente face a face, ele apresentou esta confiança. Quando a comparou com sua
nova experiência de vida em Jesus, ele percebeu que era skybala, uma palavra muito
grosseira, traduzida por "estéreo" na Versão Almeida Revista e Corrigida, mas que foi
traduzida por "refugo", uma forma mais branda, na Versão Almeida Revista e
Atualizada. Ele passou a perceber que todas as coisas, que um dia tivera em alta estima,
eram repugnantes quando comparadas com o tesouro supremo da vida em Jesus, vivida
segundo o Espírito. Ele tornou-se apaixonado pela vida que encontrou em Jesus: "Para
conhecê-lo, e a virtude da sua ressurreição, e a comunicação de suas aflições, sendo
feito conforme a sua morte" (Fp 3-10). Sua mensagem tornou-se a seguinte: "Venda
tudo e compre Cristo! Renuncie a toda confiança e intencionalidade pessoais e submeta-
se e renda-se ao desejo e propósito de Deus em Jesus Cristo!"
Para a maioria de nós, transpor a intencionalidade "segundo a carne" para aceitar a
submissão a Cristo é um processo, mais do que um evento em um determinado
momento. Começamos a caminhar do orgulho em direção à humildade. (Utilizo
"orgulho" no sentido negativo, similar a "segundo a carne", não no sentido positivo, de
auto-estima saudável.) "A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a
queda. Melhor é ser humilde de espírito com os mansos do que repartir o despojo com
os soberbos" (Pv 16.18,19). Deus se opõe ao viver orgulhoso "segundo a carne", mas
honra o viver humildemente.
Deixe-me tentar ilustrar esse processo de caminhar da vida na carne para a vida no
Espírito. Na figura 2.2, a marca na linha representa onde estou nessa escala de
"orgulhoso" e "não tão orgulhoso". Não sou tão orgulhoso, tão "carnal", como
costumava ser. Estou caminhando na direção do "não tão orgulhoso". Na verdade, posso
até mesmo ter orgulho de não ser "tão orgulhoso", e isso indica que ainda tenho muito
que caminhar.

Eventos e circunstâncias humilhantes aconteceram, e minha perspectiva, depois deles,


ampliou-se consideravelmente. Percebo que necessito crescer bem mais. Dei alguns
passos para me desviar do orgulho, mas percebo que "não tão orgulhoso" é ainda um
estado de orgulho, de egoísmo, da "carne". Já me humilhei o suficiente para saber que
tenho um longo caminho a percorrer. Não sou mais "tão orgulhoso", mas ainda me
preocupo com o eme os outros pensam de mim, ainda me aborreço com as ofensas e o
menosprezo que tenho de enfrentar, ainda me concentro no comparar minhas bênçãos e
provações com o que os outros recebem. Ainda estou destituído de poder para o
ministério. Não transpus a fronteira crucial de Brian J. Dodd para Deus, do desejo
pessoal para o maravilhoso poder de Deus (veja a figura 2.3).

28
Na figura 2.2, a divisão no meio marca a fronteira entre viver sem poder e com poder no
Espírito. Isso também coincide com o levar uma vida conforme o desejo humano,
segundo a carne, à esquerda, e viver uma vida de rendição cheia do poder do Espírito, à
direita. Caminho de uma para outra quando rendo meu desejo, meu futuro e minha
determinação pessoal a Deus (veja a figura 2.3). Quanto mais submeto meu ser à
direção e ao controle de Deus (quanto mais me movo para a direita), mais poder é
liberado em meu ministério e vida, Esse tesouro é confiado quando aprendemos a não
tomar a direção. Maior poder requer maior restrição pessoal. Render-se é o caminho
para o poder do Espírito, experimentar e ser capacitado pelo poder que vem de Deus.
A maioria de nós não participa voluntariamente desse processo. Charles Spurgeon,
renomado pregador londrino do século XIX, expressa isso adequadamente: Deus nos faz
em pedaços antes de nos exaltar. Prefiro utilizar as exatas palavras desse pregador: "Não
é curioso que Deus, sempre que quer tornar um homem grande, primeiro o faça em
pedaços?"9 Esse é o exemplo de Jesus e seus seguidores, assim como também de todas
as grandes testemunhas das grandezas espirituais que andaram na face da terra. Para
submeter-nos aos propósitos de Deus precisamos ter nossos desejos quebrantados e
subjugados. Spurgeon continua:
Será que nenhum de vocês já notou, era sua vida, que sempre que Deus está se
preparando para dar-lhe crescimento, trazendo-o a uma esfera mais ampla do servir ou
a uma plataforma mais alta da vida espiritual, você sempre é derrubado? Essa é a
forma usual de Deus trabalhar. Ele o faz ficar faminto, antes de alimentá-lo; Ele o
despe, antes de vesti-lo; Ele faz com que você seja nada, antes que faça com que você
seja algo. Isso foi o que aconteceu com Davi. Ele seria o rei de ferusalém, mas o
caminho para o trono passou pela caverna. Bem, alguns de vocês aqui vão para o céu,
ou para o estado celestial de santificaçào, ou ainda para uma esfera mais ampla do
servir, não se impressione se alcançar isso passando pela caverna.
Quando percebemos quão profundamente necessitamos de Deus e nos convencemos de
que os seus propósitos são muito superiores a nossas preferências, então estamos
prontos a nos submeter a Deus. O processo é doloroso e muitas vezes não o queremos,
mas é necessário para se tomar o caminho do ministério de poder pelo Espírito.
Pedi a Deus por força, para- que pudesse alcançar, Enfraquecido fui, para que pudesse
aprender a obedecer humildemente

29
Pedi por saúde, para que pudesse fazer coisas maiores,
Adoentado fui, para que pudesse fazer coisas melhores.
Pedi por riquezas, para que pudesse ser feliz,
Empobrecido fui, para que pudesse ser sábio.
Pedi por poder, para que pudesse ter a aprovação dos homens,
Enfraquecido fui, para que pudesse necessitar de Deus.
Pedi por todas as coisas, para que pudesse desfrutar a vida,
Vida foi-me dada, para que pudesse desfrutar todas as coisas.
Não alcancei nada do que pedi, mas tudo que esperava.
Apesar de mim mesmo, minhas orações não verbalizadas foram
respondidas.
Estou entre os homens mais ricamente abençoados.
— Autor desconhecido
Fazendo o que Deus Quer que Seja Feito: Quebrantamento
Quando passamos da existência centrada no desejo pessoal para a de submissão ao
Senhor, pomo-nos em uma posição de prontidão contínua para fazer o que Deus quer
que façamos. Esse é o segredo cristão para uma vida feliz e a característica mais crucial
para um líder transmissor da vida-, fazer o que Deus quer que seja feito. Podemos
escolher obedecer a Deus fiel e radicalmente, fazendo disso um hábito em nossa vida.
Ao contrário, muitos de nós têm de ser condicionados a obedecer por meio de um
processo espiritual de quebrantamento. Para que essa seja nossa escolha, precisamos ser
convencidos de que os planos e iniciativas humanas trazem morte, não vida.
Provavelmente, poucos de nós chegam a esse estágio por escolha própria. Com
freqüência, precisamos experimentar quebrantamento e desespero profundos em nossos
esforços antes que nos abramos verdadeiramente para buscar e realizar apenas o desejo
de Deus.
Você pode dizer que precisamos ser quebrantados, assim como um cavalo precisa ser
dominado para tornar-se útil. Imagine Deus como o cavaleiro, e você como o cavalo. Se
você for quebrantado,você está sob o comando do Mestre. O Cavaleiro divino, quando
você é quebrantado, pode direcioná-lo em velocidades cada vez mais altas sem qualquer
apreensão de que você virará à esquerda em uma vala quando as rédeas o puxam para a
direita, para o único caminho que o Senhor vê. A rendição faz com que nossa lealdade
cresça, e, portanto, nosso Mestre possa nos confiar com mais autoridade e poder. As
únicas pessoas às quais Ele não outorga poder são as que buscam o poder em vez da
submissão ao propósito planejado para esse poder: reconciliar o mundo que dEle se
desviou.
Quando buscamos, de forma habitual, primeira e unicamente o desejo de Deus, nosso

30
ministério flui e se desenvolve com facilidade. Não há necessidade de forçar as coisas.
A força é o caminho da carne. Ao contrário, quando seguimos a direção de Deus, as
portas, com freqüência, abrem-se facilmente e as barreiras caem ao toque de uma pena.
As portas que o Senhor abre ninguém pode fechar, e nada pode interromper o avanço de
Deus. Os indivíduos que são direcionados pelo Espírito podem ser eficientes e gentis,
pois não necessitam usar a força para abrir portas (veja Cl 3.12; 1 Ts 2.7; 2 Tm 2.24).
Quando vivemos e lideramos "segundo a carne", temos de usar a força. O caminho não
foi desimpedido para nós, e carregamos o peso da responsabilidade sem a ajuda de
Deus. Extenuamo-nos, pressiona-mo-nos e fatigamo-nos. Estamos puxando um arado
para dois cavalos com apenas um, e o arreio mais formidável está vazio: não temos o
ombro de Deus puxando o arado conosco.
A primeira coisa que muitos líderes "segundo a carne" precisam aprender é que Deus já
está fazendo algo. Quando nos desfazemos de nosso orgulho e nossa necessidade de
receber elogios, podemos ver que Deus já está trabalhando, fazendo algo para que
possamos nos unir a Ele. Teologicamente isso é denominado de graça preveniente. Deus
já está trabalhando. Quando colocamos nosso ombro naquele arado, o Parceiro divino
carrega a maior parte do peso, e, assim, o trabalho flui e é abençoado. Liderança de
poder é isso. O salmista conhecia essa verdade: "Se o Senhor não edificar a casa, em
vão trabalham os que edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a
sentinela" (SI 127.1).
Muitas vezes, frustramo-nos em nossos testemunhos e esforços evangelísticos por essa
razão. Determinamos apresentar Deus a alguém, em vez de discernir que campos estão
prontos para a colheita e, assim, nos unirmos ao que Deus está fazendo. Lidero uma
equipe de evangelísmo denominada Share Jesus! (Compartilhe Jesus), em que pro-
curamos fazer com que as igrejas e os discípulos sejam testemunhas mais eficientes.
Uma das coisas mais importantes que ensinamos a eles sobre evangelismo é o seguinte:
sempre que entrar em algum recinto, em algum parque ou participar de uma festa, ore:
"Senhor, mostre-me ao lado de quem devo estar", e, a seguir, siga a sugestão do Espírito
Santo. Isso faz com que toda a ansiedade seja retirada do processo. Não estamos falando
de Deus para essa pessoa, mas estamos nos juntando a Deus e ao que a graça já está
fazendo na vida dessa pessoa. Já observei pessoas fazerem isso e levarem alguém a
Cristo e à igreja em questão de segundos. Isso soa inatingível? No entanto, foi
exatamente o que aconteceu com Filipe e o eunuco etíope (At 8.26-40).n
Obviamente, em tudo isso parto do pressuposto de que o desejo escrito de Deus,
revelado nas Escrituras, é a proteção no caminho em que viajamos. A direção dada pelo
Espírito pode nos dizer que caminho tomar, mas jamais nos pedirá para transpor a
proteção ética da Palavra escrita de Deus, que está na Bíblia. Viver liderado pelo Espíri-
to não pode substituir o pensamento e decisões transmitidas na Bíblia, mas apenas
complementá-las, a saber, "tanto-mais" em vez de "ou-ou". Esse aspecto é muito mais
profundo do que intencionalidade, rebelião e independência obstinada de Deus, as quais
são apenas uma peneira em nossa alma em que o poder divino se esvai. Rendição,
submissão, humildade, quebrantamento, retidão, confiança e obediência fazem com que
nossa alma seja um vaso pronto a receber e a distribuir o poder de Deus que é
derramado sobre o humilde e o humilhado. "Temos, porém, esse tesouro em vasos de
barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós" (2 Co 4.7).
Libertar-se da Escravidão: o Poder É do Mestre
Para nós que somos cio mundo ocidental, permissivo e individualista, toda essa questão
sobre rendição, submissão e total obediência pode ofender nossas suscetibilidades.
Temos a tendência de ser cristãos do tipo "experimente-nosso-bolo-e-coma-o-também",
em que vislumbramos o Reino de Deus como algo similar ao governo da Grã-Bretanha.

31
Jesus é Rei com toda a pompa e circunstância que isso pressupõe. No entanto, sou o
primeiro-ministro, com toda a autoridade verdadeira para tomar decisões e desenvolver
políticas de governo. Jesus é o rei representativo, sem autoridade verdadeira, que ratifi-
ca minhas decisões e me resgata das dificuldades. Eu, porém, decido os objetivos e
tenho o comando de meus subordinados, tempo e dinheiro. Isso é viver "segundo a
carne", embora equivocadamente pensemos que estamos vivendo "segundo o Espírito".
Quando, vez após vez, Paulo honra a Cristo como o Senhor (kyrios) é claro que
freqüentemente compreendemos esse termo em seu uso comum, a saber, o mestre que
possui e controla seus escravos.12 Paulo compreende seu papel como escravo cie Cristo
(doulos), alguém compelido e controlado por seu mestre para realizar suas ordens e
servir a seus propósitos. Os leitores cio Novo Testamento grego sabem muito bem que
as versões da Bíblia velaram sutilmente as imagens de escravidão contidas no Novo
Testamento. Essas versões têm a tendência de usar o termo "servo", mais bem aceito
socialmente, em vez de escravo, ao traduzir dessa forma, no Novo Testamento, cerca de
cento e noventa palavras associadas à escravidão. Isso, indubitavelmente, acontece de-
vido a nossa vergonha coletiva em relação à história da escravidão, em que os escravos
eram bens materiais. Os estudiosos sabem que a consciência dessa imagem mestre-
escravo é crucial para a compreensão, hoje, das epístolas de Paulo, pois foram assim
compreendidas no século I. A prática da escravidão era prevalecente-, o fundamento
econômico em que o Império Romano repousava. Estima-se que um terço cio Império
Romano, na época de Paulo, era formado por escravos, um terço por mestres e um terço
por escravos emancipados.13
"Escravo de Cristo" é uma das maneiras como Paulo se autodenomina. Como as versões
minimizam esse fato, seria valioso citar algumas das muitas instâncias em que Paulo se
retrata como "escravo de Cristo". Ele se apresenta aos romanos como: "Paulo, servo
[escravo] de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus"
(Rm 1.1). É comum designar Paulo como apóstolo e pensar que essa era a maneira mais
habitual por ele utilizada para descrever-se. No entanto, esse versículo alude ao que era
uma convenção social de intitular os emissários como "apóstolos", que eram, com
freqüência, escravos que serviam como representantes de seus mestres. Em Romanos
1.1, "apóstolo" é mencionado na segunda linha, depois de "servo" [escravo]. Aos
filipenses, ele apresentou Timóteo e a si mesmo apenas como "servos" [escravos] de
Jesus Cristo. Obviamente, Paulo comunicara sua compreensão de liderança subjugada a
seu pupilo mais famoso, Timóteo (veja 2 Tm 2.24). Epafras foi treinado da mesma
maneira por Paulo, seu mentor (Cl 4.12).
Paulo deixa claro que o uso da imagem de escravidão serve para compreender que a
relação do indivíduo com Cristo deve ser de obediência. Para Paulo, o assunto é claro-.
"Todos obedecem algo, e você é escravo, portanto, obedeça". Paulo, utilizando uma
linguagem distinta, contrasta a tensão entre a carne e Cristo, discutida acima, com o
escravo do pecado versus o escravo da justiça (Rm 6.16; cf. Gl 4.3). Quando somos
libertados da escravidão do pecado, somos "feitos servos [escravos] de Deus" (Rm
6.22). Em 1 Coríntios, qualquer cristão (que vive "em Cristo") torna-se "servo [escravo]
[...] de Cristo" (1 Co 7.22). Paulo diz ser uma dessas pessoas, não escravo conforme a
visão da sociedade (eleutheros, "livre"), mas que serve a todas as pessoas como escravo
de Deus (1 Co 9.19). A seguir, apresentaremos a maneira como Paulo resume sua
mensagem de obediência ao Mestre, Jesus: "Porque não nos pregamos a nós mesmos,
mas a Cristo Jesus, o Senhor (kyrios); e nós mesmos somos vossos servos (douloi,
"escravos"), por amor de Jesus" (2 Co 4.5).
Paulo simplesmente segue os passos de Jesus, que se humilhou e tomou "a forma de
servo [escravo]" (Fp 2.7). Isso reflete o padrão de liderança de Jesus, seu legado para os

32
primeiros discípulos. O Evangelho de João narra uma circunstância em que Jesus
modelou a liderança, na qual demonstrou que devemos ser como escravos. Foi difícil
para aqueles discípulos, como o é para nós, pensar no papel da liderança cristã como o
do escravo menos importante. Toda a cena foi estranha para eles, o que se torna óbvio
pela reação de Pedro.E, acabada a ceia, tendo já o diabo posto no coração de Judas
Iscariotes, filho de Simão, que o traísse, Jesus, sabendo que o Pai tinha depositado nas
suas mãos todas as coisas, e que havia saído de Deus, e que ia para Deus, levantou-se
da ceia, tirou as vestes e, tomando uma toalha, cingiu-se. Depois, pôs água numa bacia
e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugar-lhos com a toalha com que estava
cingido. Aproximou-se, pois, de Simão Pedro, que lhe disse: Senhor, tu lavas-me os pés
a mim? Respondeu Jesus e disse-lhe: O que eu faço, não o sabes tu, agora, mas tu o
saberás depois. Disse-lhe Pedro: Nunca me lavarãs os pés. Respondeu-lhe Jesus: Se eu
te não lavar, não tens parte comigo. Disse-lhe Simão Pedro: Senhor, não só os meus
pés, mas também as mãos e a cabeça. Disse-lhe Jesus: Aquele que está lavado não
necessita de lavar senão os pés, pois no mais todo está limpo. Ora, vós estais limpos,
mas não todos. Porque bem sabia ele quem o havia de trair, por isso, disse: Nem todos
estais limpos (Jo 13-2-11).
Jesus continua e os chama explicitamente de "escravos" de seu "Senhor" e Mestre,
Jesus, que modelou para eles a liderança de poder e do servir como escravo.
Depois que lhes lavou os pés, e tomou as suas vestes, e se assentou outra vez à mesa,
disse-lhes: Entendeis o que vos tenho feito? Vós me chamais Mestre e Senhor e dizeis
bem, porque eu o sou. Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também
lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz,
façais vós também. Na verdade, na verdade vos digo que não é o servo maior do que o
seu senhor, nem o enviado, maior do que aquele que o enviou. Se sabeis essas coisas,
bem-aventurados sois se asfizerdes (Jo 13.12-17).
Jesus e Paulo deixam claro que a liderança cristã é mais bem caracterizada como
escravidão ao Mestre, Jesus, inclusive com tudo que isso acarreta: submissão e
obediência. Essa é uma outra maneira de dizer que o poder vem daquEle que dirige
nossas vidas e liderança. O poder é encontrado na escravidão libertadora em Jesus,
como Senhor. Nessa escolha de submissão e obediência somos libertados do mestre
invisível que puxa nossas correntes: a "carne", a natureza pecaminosa, o "pecado".
Todos servimos a um mestre ou a outro (Rm 6.16).
Não Podemos Servir a Dois Senhores: O Problema com o Agradar às Pessoas
Hã uma outra forma de vida "segundo a carne" que todo líder tem de confrontar: a
pressão para agradar as pessoas. Todos nós conhecemos líderes que satisfazem a
opinião pública, que se rendem à pressão, que tomam o caminho da menor resistência,
que buscam evitar conflito e que procuram satisfazer a todos. Seus ministérios nunca
são ministérios de poder e, por fim, são incapazes de satisfazer a todos. Quando é
preciso tomar uma decisão, eles ficam à espreita, observando para que lado pende a
maré da opinião pública. O resultado de se buscar satisfazer as pessoas é que a minoria
que fala mais alto controla o ministério ou a igreja, infelizmente fundamentada no
princípio de "quem não chora, não mama". Na verdade, o coletivo carnal de pessoas
opressoras é como o rabo que balança o cachorro, em que o líder é controlado pela
congregação. A necessidade do ego do líder por aprovação submerge à responsabilidade
divina do líder de focar o desejo e a glória de Deus. Há um caminho que parece reto às
pessoas, mas que leva à destruição...
Paulo, em uma confrontação reveladora com a igreja de Galácia, dá seu exemplo
pessoal, de forma sucinta, para que sirva como parâmetro de comparação para os
membros dessa igreja: "Porque persuado eu agora a homens ou a Deus? Ou procuro

33
agradar a homens? Se estivesse ainda agradando aos homens, não seria servo de Cristo"
(Gl 1.10). Os cristãos gaiatas estavam sentindo a pressão de intrusos para que
aceitassem a necessidade da circuncisão para sua salvação. Paulo, certamente, teve o
discernimento da imensa pressão que recaía sobre eles, pois o apóstolo resiste às
pessoas que buscam agradar um dos principais tópicos de seus argumentos em defesa da
fé (além de demonstrar teologicamente que não necessitavam ser circundados).14 Por
essa afirmação incisiva, em que utiliza o pronome "eu", ele lança, para essa
congregação, um exemplo claro de como ser verdadeiro ao Senhor e Mestre, e rejeitar
esse outro mestre da opinião e pressão pública.
Gaiatas 1.10, conforme o concebo, explica por que Paulo relata sua confrontação
pública com Pedro (Gl 2.11-15). Ele está modelando para os gaiatas como se manter
firme contra a pressão de pessoas influentes. Pedro, vergonhosamente, cede à pressão
das pessoas. Paulo faz tudo que está ao seu alcance para não fazer o que Pedro fez, não
sucumbir àqueles que queriam que fossem circundados e observassem as restrições
alimentares para que, desse modo, fossem salvos (Gl 2.14).
É incrível a pressão inconsciente que podemos sentir por parte de outras pessoas para
agir ou tomar decisões de um modo ou de outro. Quando um líder de um ministério
busca satisfazer as pessoas, os resultados são devastadores. Ele não é mais dirigido pelo
Espírito, mas pela opinião pública, a grande ultimação da carne. Este pode parecer um
estilo democrático ou participativo, mas, com freqüência, isso significa que aquele que
chora é quem mama — e o resto do corpo fica sem o leite! Quando o líder
conscientemente serve de instrumento aos desígnios de pessoas influentes ou ricas, isso
é ainda mais pernicioso, ainda mais tortuoso e destrutivo.
Há uma história sobre um experimento na faculdade em que um grupo de controle foi
levado a se enganar. Foi-lhes dito que quando dois palitos fossem segurados diante
deles, todos eles deveriam dizer que o palito mais longo era, na verdade, o mais curto.
Esse não era um estudo sobre medidas, mas sobre a influência da pressão do grupo. Os
sujeitos, um após o outro, foram trazidos ao recinto. Quando pediram para que
decidissem qual o palito mais longo, eles consisten-temente rotularam o menor como o
mais longo, pressupondo que "esse enorme grupo deve estar certo". Assim, fica óbvio
que a necessidade de agradar às pessoas tem um grande poder de enganar e direcionar
equivocadamente o indivíduo.
A mesma coisa acontece, embora com resultados mais perigosos, na igreja. As pessoas
que buscam satisfazer os outros evitam a confrontação, pois querem apenas agradar às
pessoas, evitar conflitos e manter as coisas funcionando sem percalços. Na verdade, é
bom manter a unidade do corpo de Cristo. Contudo, a unidade cujo preço é satisfazer as
pessoas em vez de satisfazer a Deus, não é unidade. Deus não fica satisfeito, e o poder
do Espírito Santo nunca se torna evidente em tais circunstâncias. Satisfazer as pessoas
torna-se imediatamente algo demoníaco, quando o líder está procurando ascensão em
sua carreira, ao utilizar o satisfazer as pessoas para promover-se ou evitar conflitos com
a finalidade de manter seu cargo eclesiástico. Não é de admirar que muitos de nós
experimentemos trevas profundas na igreja. O pastor responsável pelas ovelhas, por
medo, deixa que os lobos andem livremente em meio a suas ovelhas.
Francamente, agradar às pessoas, quando estas necessitam de palavras de admoestação,
nunca é uma demonstração de amor. Se tenho câncer, e você me diz que está tudo bem
comigo, na verdade você foi cruel e insensível. A atitude amorosa é permitir que eu
saiba qual é o problema para que possa lidar com ele, tratá-lo e fazer algo enquanto
ainda posso. "Ignorância é alegria", que certamente fará com que o tumor me consuma.
A pressão para agradar às pessoas em vez de obedecer a Deus está implícita nesse
código bem-humorado de "Como Avaliar o Sermão". Aqui fica implícito o alto custo

34
que às vezes pagamos por sustentar a verdade, em vez de buscar satisfazer as pessoas
com o que dizemos.
Como Avaliar o Sermão
"G" (Geral) Geralmente aceitável para todos. Cheio de chavões inofensivos e pueris;
usualmente descrito como "maravilhoso" ou "fantástico".
"PG" (Parcialmente Generalizado) Para congregações mais maduras. Às vezes, esse
sermão até mesmo torna o evangelho relevante para os assuntos referentes à atualidade;
pode até mesmo conter leves sugestões de mudança. Usualmente descrito como
"desafiador" ou "instigante", embora ninguém tenha a intenção de tomar qualquer
atitude ou mudar suas atitudes."R" (Restrito) Definitivamente restrito aos que não se
incomodam com a verdade. Este sermão diz o que deve ser dito. Ameaça a zona de
conforto; mais usualmente descrito como "controverso" ou "perturbador". Indica, com
freqüência, que o pregador tem uma fonte de renda externa.
"X" (Proibido) Positivamente limitado àqueles que podem lidar com idéias explosivas.
Este sermão realmente alimenta as pessoas com essas idéias. Esse é o tipo de sermão
que levou Jeremias a ser jogado no poço, Amos a fugir da cidade e Estêvão a ser ape-
drejado; sempre descrito como "chocante" ou "de mau gosto". O ministro que prega
esse sermão deve ter sua mala sempre à mão e o seguro de vida em dia.
Algumas vezes é difícil para pastores cuidadosos manter o balanço entre servir às
pessoas e agradá-las. Bob Schaper, um de meus professores no seminário, ensinou-me
um mote que me ajuda a manter o balanço entre obediência a Cristo e a postura de servo
em relação às pessoas: sou seu servo, mas não sou seu mestre.
Esse lembrete ajuda-nos a manter nossa instância de servos mesmo quando temos de
lidar com os acionistas de poder que, usualmente, encontramos em posições de
liderança na igreja. É libertador perceber que sou livre em Cristo para servi-lhe. Mesmo
que você exija que eu lhe sirva, faço-o para o Senhor. No entanto, há algo que deixo
claro: recebo minhas ordens de comando de um único Mestre. Porém, sou
completamente submisso ao Senhor Jesus ao manter a instância de servo em relação aos
outros.A descrição de Paulo, a respeito de si mesmo, dessa instância em relação à
bajulação é nosso modelo para lidar com os problemas traiçoeiros referentes ao
satisfazer as pessoas:
Mas, como fomos aprovados de Deus para que o evangelho nos fosse confiado, assim
falamos, não como para agradar aos homens, mas a Deus, que prova o nosso coração.
Porque, como bem sabeis,nunca usamos de palavras lisonjeiras, nem houve um pretexto
de avareza; Deus é testemunha. E não buscamos glória dos homens, nem de vós, nem
de outros, ainda que podíamos, como apóstolos de Cristo, ser-vos pesados (1 Ts 2.4-6),
Assim que nos libertamos dessas coisas que nos acorrentam — nossa vontade pessoal
(carne) e a vontade pessoal dos outros (satisfazer as pessoas) — estamos prontos a
seguir a Cristo, a deixar que seu Espírito flua em nossa vida e a movermo-nos em seu
poder. O caminho para transpor nosso "eu" é a rendição e a renúncia da necessidade de
aprovação pessoal e de ministério. Afinal, há apenas uma Pessoa a quem temos de olhar
nos olhos no dia final, e é sua voz que queremos escutar: "Bem está, servo bom e fiel...
entra no gozo do teu senhor" (Mt 25.21).
Oração dos Seguidores
Deus meu e Senhor, não tenho a menor idéia de para onde estou indo. Não vejo a estrada à minha frente.
Não posso saber com certeza onde ela terminará. Tampouco, realmente conheço a mim mesmo, e o fato
de que penso estar seguindo seu desejo não significa que esteja realmente fazendo isso. Contudo,
acredito que o desejo de agradar-lhe, de fato, lhe agrada. E espero ter esse desejo em tudo que esteja
fazendo. E espero nesse desejo, sabendo que se fizer assim, o Senhor me guiará ao caminho correto,
embora eu possa ignorar como isso se dá. Portanto, sempre confiarei no Senhor, embora pareça estar
perdido e na sombra da morte. Não temerei, pois o Senhor estará sempre comigo e jamais permitirá que
eu encare meus desafios e perigos sozinho. Amém. — Thomas Merton

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Questões para Reflexões e Discussões
1. Muitos pastores e líderes cristãos que atuam "segundo a carne" não têm a menor
idéia de que assim o fazem. Como reconhecer isso?
2. Aprender a discernir a direção do Espírito Santo é um processo. Aprendemos a
andar antes de correr. Deus, com freqüência, instrui-nos a fazer uma coisa e não
recebemos instruções posteriores até que tenhamos sido fiéis e obedientes nessa tarefa.
O que Deus quer que você faça? Qual foi a última tarefa que você se lembra de ter sido
por Deus instaiído a fazer? Talvez você estivesse escutando um sermão, lendo a Bíblia
ou orando. Você pode não receber orientações adicionais até que tenha realizado o que
lhe foi pedido.
3. Que áreas de sua vida estão desalinhadas com o desejo revelado de Deus nas
Escrituras? Ausência de submissão nas coisas óbvias usualmente eqüivale à ausência de
direção em sua vida e ministério. Arrependimento é geralmente o ponto de partida para
passar da vida "segundo a carne" para a vida "segundo o Espírito". Alguns pontos de
verificação:
• Você tem comentado a respeito de alguém de uma forma que não falaria diretamente
à pessoa (fofoca)?
• Você usa a Internet para luxúria?
• Há alguém que você evita, pois ainda não o perdoou?
• Falta integridade em suas transações financeiras ou em sua empresa?
• Você mentiu ou enganem para evitar o conflito?
• Você tem o espírito de servo em relação a seu trabalho ou ministério, ou há tarefas
que o levam a reclamar?
• Você oferece uma porção generosa de sua renda à obra de Deus no mundo?
• Você é conhecido como alguém que ajuda o necessitado e busca os perdidos e
feridos?
• Você é impaciente, rude ou desagradável com as pessoas próximas de você? E com os
funcionários de um estabelecimento comercial ou com as camareiras de um hotel?
4. A responsabilidade relacionai com as pessoas que o amam e o apoiam é crucial para
a vida no Espírito. Como a responsabilidade o guarda contra abusos daqueles que
afirmam ser guiados pelo Espírito, mas que usam essa afirmação para obter controle,
conseguir fazer as coisas à sua maneira, ou aumentar sua riqueza?
5. Quais áreas de sua vida você reluta em submeter a Deus? Você estaria disposto a
exibir sua agenda e seu talão de cheque para que todos os vissem? O que o deixaria
envergonhado se os outros soubessem sobre seu uso do tempo ou do dinheiro?
6. Quem são as pessoas em sua vida e ministério para quem você tem se inclinado a
fim de evitar o conflito ou vir a desagradar-lhes? Você pode ter involuntariamente
recebido planos e direções que não são de Deus. Busque ao Senhor em oração e
conselheiros sábios para encontrar maneiras de lidar sabiamente com essa situação.
7. Medo de perder o controle é um problema na vida de todos nós, quer estejamos
conscientes disso quer não. Ceder o controle a Deus é algo que não devemos temer —■
os frutos são notáveis. Leia o Salmo 23 e medite sobre as bênçãos e paz que podemos
ter quando seguimos totalmente nosso gentil e suave Pastor.
8. Este capítulo se encerra com uma oração de Thomas Merton. Quais partes da oração
mais lhe tocaram? Por quê?

36
3
PAGUE O PREÇO, CARREGUE A CRUZ
E também todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições.
2 TIMÓTEO 3.12

Uma vida sem sacrifício é abominação.


ANNIE DILLARD

Certa vez, um discípulo de um filósofo grego recebeu uma ordem de seu mestre: dar dinheiro, por três anos, a
qualquer pessoa que o insultasse.
Quando esse período de provação acabou, o mestre disse-lhe: "Agora você já pode ir para Atenas e aprender sobre a
sabedoria". Quando o discípulo estava entrando em Atenas, encontrou um sábio sentado às portas da cidade, que
insultava todos os transeuntes. Ele também insultou o discípulo que, imediatamente, caiu na risada. "Por que você ri,
quando eu o insulto?", disse o sábio. "Porque", disse o discípulo,"paguei, por três anos, por esse tipo de atitude e
agora você me dá isso gratuitamente." O sábio disse-lhe, a seguir: "Entre na cidade, ela é toda sua ". O mestre João
costumava contar essa história, adicionando o seguinte: "Essa é a porta de Deus por meio da qual nossos pais, em
regozijo graças às muitas tribulações, entraram na Cidade Celestial".
THOMAS MERTON THE WISDOM OF THE DESERT (A SABEDORIA DO DESERTO)

37
Paulo ouviu A DEUS E SEGUIU o CAMINHO do Espírito a ele apresentado. Para assim fazer, ele negou seus
desejos e imaginação (sua "carne") e bloqueou as vozes que clamavam pressionando-o a
satisfazer as pessoas. Ele, continuamente, sentia o peso de Deus e vivia para agradar a
seu Mestre. Desta forma, sua liderança deu frutos, pois ele era um líder vivificador.
Contudo, precisamos, imediatamente, apresentar uma outra parte indispensável da
liderança de Paulo: ele pagou o preço por fazer a vontade de Deus. Ele escutou o que
Deus queria que ele fizesse e, incansavelmente, seguia a direção de Deus sem levar em
consideração o quanto ela poderia feri-lo, como também a grande oposição que sofreria
e o custo disso. Para compreender a liderança vivificadora, precisamos compreender a
parte essencial que o sofrimento tem na vida de um líder guiado pelo Espírito. Essa é
uma questão indiscutível-, seguir a Cristo o levará a dolorosas batalhas e terrível
oposição. Esse é um aspecto da liderança que raramente é discutido, mas não pode ser
evitado se quisermos que a nossa liderança e ministério sejam bíblicos e, portanto,
vivificadores. Os líderes espirituais centram sua mensagem na cruz de Jesus e
experimentam a cruz daquEle que proclamam.
O Lemingue e o Salmão
O lemingue e o salmão prestam-se a um estudo de contraste. Algo acontece na
população de lemingues, na Noruega, a cada quatro anos, e toda a colônia de lemingues
migra em busca de comida enquanto os outros permanecem no local. Eles migram pelos
lagos e rios, atravessam cadeias de montanhas e comem toda a vegetação que encontram
em seu caminho. Por fim, alguns alcançam o mar. Eles se afogam, ao tentar nadar no
mar como se fosse um lago ou rio.
O mote do lemingue poderia ser.- "Se todo mundo está fazendo isso, como isso poderia
estar errado?" No entanto, eles prosseguem e mergulham para a morte, como se
pertencessem a uma seita que apregoa o suicídio coletivo. Eles são um tipo de criatura
que denominamos " Maria-vai-com-as-outras", reminiscente de tanta acomodação feita
à cultura e à sociedade por muitos líderes e grande parte da igreja. Alguns tipos de
líderes, do tipo lemingues, são convencidos de que o sofrimento é desnecessário e sem
atrativos. Eles parecem não ter consciência de que não conseguem ouvir o Senhor, pois
estão ensurdecidos pelo vozerio da cultura à sua volta.
Em total contraste está a viagem anual e heróica do salmão. Esse peixe magnífico nada
cio oceano, rio acima, por cerca de cento e sessenta quilômetros para cumprir a
programação alojada profundamente em seu DNA. No outono, em Nimbus Dam, no
norte da Califórnia, próximo de onde cresci, você pode ver centenas dessas criaturas
corajosas batalhar contra a corrente debatendo-se para transpor os obstáculos até onde
depositarão suas ovas para, a seguir, morrer. O custo da jornada não os detêm, e a forte
correnteza contra a qual eles têm de nadar não representa um obstáculo intransponível.
Eles seguem na direção que foram designados a ir, contra a corrente, indiferentes ao
preço que têm de pagar.
O lemingue e o salmão são metáforas maravilhosas para dois tipos de líderes. A batida
do tambor que escutam é diferente, mas cada um deles marcha de acordo com a batida
de seu respectivo tambor. Os líderes-lemingue triangulam o mundo à sua volta e
cumprem a verdade sábia do provérbio: "Há caminho que ao homem parece direito, mas
o fim dele são os caminhos da morte" (Pv 14.12). Os líderes-salmão são modelos de
liderança cristã fiel para a igreja e para o Rei dos reis. Como Jesus diz:
Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, esiga-me.
Porque qualquer que quiser salvar a sua vidaperdê-la-ã, mas qualquer que perder a
sua vida por amor de mim e do evangelho, esse a salvará. Pois que aproveitaria ao
homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma? Ou que daria o homem pelo resgate
da sua alma? Porquanto qualquer que, entre esta geração adúltera e pecadora, se

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envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Pilho do Homem se
envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai, com os santos anjos (Mc 8.34-38;
veja também Ml 6.24; Lc 9.23).

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Se somos líderes que se rendem, se submetem e seguem ao Senhor Jesus, então
pagaremos o preço. Devemos sentir que estamos nadando rio acima, como se a maioria
das pessoas estivesse seguindo na direção oposta. Como Jesus, todos que seguem seus
passos devem estar dispostos a pagar o preço da obediência. Qualquer peixe morto pode
flutuar rio abaixo. Nenhum lemingue chama nossa atenção por correr com a multidão.
Paulo Pagou o Preço
Paulo pagou o preço. Para seguir fielmente a Jesus é preciso pagar o preço, batalhar,
sofrer, encontrar oposição na direção que tomamos. Isso não era mais fácil de
compreender naquela época do que é hoje.
Timóteo não captara completamente essa premissa, embora tenha sido o discípulo e
amigo mais próximo de Paulo, pois ficou arrasado quando Paulo, próximo do final de
sua vida, foi preso. Se lermos a segunda epístola de Paulo a Timóteo, perceberemos nas
entrelinhas que esse jovem discípulo estava tendo lutas internas em relação a tudo que
acontecera a Paulo. Este estava isolado na prisão, suportando toda a vergonha e estigma
social que acompanhava tal fato (2 Tm 1.8). Paulo fora traído e abandonado por todos
naquela região (2 Tm 1.15). Ele não menciona com que tipo de aflição física estava se
defrontando, mas diz reiteradas vezes que estava sofrendo (2 Tm 1.8,12; 2.3,9; 3.11;
4.5). Podemos apenas imaginar que Paulo estava sofrendo punições físicas e lutando
contra pensamentos desesperadores nos momentos mais obscuros, assim como suas
emoções estavam sendo constantemente corroídas por sua solidão.
Apesar disso tudo, Paulo convida Timóteo a juntar-se a ele: "... antes, participa das
aflições do evangelho, segundo o poder de Deus" (2 Tm 1.8); "... quantas perseguições
sofri, e o Senhor de todas me livrou. E também todos os que piamente querem viver em
Cristo Jesus padecerão perseguições" (2 Tm 3-11,12). Essas palavras sucintas têm um
tom prático. Na verdade, a sinceridade de Paulo é chocante. "Todos" significa qualquer
um e estende-se a você e a mim. Não podemos escapar dessa descrição inclusiva do que
significa seguir a Jesus. Tampouco, podemos ser evasivos quando tivermos que explicar
como serão nossas perseguições. "Perseguição" é uma palavra abrangente que incluí
experiências de todos os tipos: de oposição, de injúria, de antagonismo, de pressão e de
dor. Seguir a Jesus é nadar contra a corrente deste mundo caído. As palavras de Paulo a
Timóteo refletem meramente o aviso honesto de Jesus a todos que quiserem seguir seus
passos para o Reino de Deus, a saber, que precisam carregar a cruz do sofrimento como
Ele o fez. Todos, sem exceção.
Por que algumas Vezes É tão Difícil Servir a Jesus?
Alguns anos atrás, minha esposa e eu supervisionamos a implantação de uma nova
equipe em uma igreja na Inglaterra. A equipe era jovem, o líder inexperiente, e a
situação era tão difícil e tão desafiadora quanto qualquer grupo de missionários pudesse
enfrentar. Essa era uma antiga área de mineração de carvão, em que o desemprego esta-
va sempre acima de 50% e havia gerações que o alcoolismo e os abusos eram comuns.
Os britânicos poderiam chamar essas pessoas de "brutas", mas para nós seria similar às
circunstâncias encontradas em algumas favelas perigosas. "Dificuldade" e "exigência"
não são palavras suficientemente fortes para descrever essa situação.
Alguns meses após a implantação da igreja, houve um momento em que a lua-de-mel
dos bons sentimentos e do idealismo ingênuo já havia acabado, e a equipe estava
enfrentando tensões tão profundas que chegou a se dividir. Nesse momento obscuro e
difícil, minha esposa e eu fomos chamados para reverter a crise que fermentava entre
eles. Jamais esquecerei o que uma das pessoas da equipe me perguntou certo dia: "Se
Jesus quer que seu povo lhe sirva, por que Ele torna as coisas tão difíceis?"
Por que algumas vezes é tão difícil servir a Jesus? Se tentasse racionalizar a questão ao
sugerir que os seres humanos estavam causando sofrimento, isso não teria contribuído

40
em nada para a situação. Meus jovens colegas de trabalho não teriam comprado essa
idéia. O sofrimento e a batalha deles provinham diretamente da obediência a Deus.
Cada passo de obediência que tomavam parecia ser acompanhado por oposição e
batalhas. Era difícil fazer o que Deus queria que fosse feito. Será que isso significava
que havia algo errado com o que estavam fazendo?
O sofrimento, para aqueles que lideram e raciocinam "segundo a carne", é um sinal de
que algo está errado, de que alguém está falhando e de que devemos seguir uma direção
distinta. Os líderes carnais, como os amigos de Jó, interpretam batalhas como um sinal
de que há algo errado com o ministério. Para aqueles de nós que aprendemos a liderar
no Espírito, é possível reconhecer que o sofrimento e as batalhas são freqüentemente
sinais de que estamos no caminho certo, de que estamos seguindo a direção correta e de
que estamos ganhando terreno do mundo das trevas.1 Como Ernst Kásemann diz:
"Hostilidade à cruz é a principal característica do mundo".2
Ministério no Espírito Significa Sofrimento
A dor é parte do plano de Deus para a vida de líderes vivificadores e para todos aqueles
que seguem a Jesus. Devo admitir que me surpreendo quando ouço nossos
contemporâneos negarem esse ponto. Eles revertem isso para uma condição explicativa:
"Isso era naquela época, não agora". Em uma ocasião recente, quando discorria sobre o
conteúdo deste capítulo, um líder cristão no fundo da sala atingiu-me com seu sarcasmo:
"É verdade, isso realmente fará com que as pessoas queiram se juntar a nós e seguir a
Jesus!" Como se eu tivesse inventado isso! Como se Jesus não tivesse dito nada sobre
extrair poder do sofrimento da cruz: "E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei
a mim. E dizia isso significando de que morte havia de morrer" (Jo 12.32,33). Como se
Jesus não tivesse dito que a oposição é a maneira para saber se estamos no caminho
certo (isso é o que "bem-aventurados" significa):
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o
Reino dos céus; bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem, e perseguirem, e,
mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa. Exultai e alegrai-vos,
porque égrande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que
foram antes de vós (Mt 5-10-12).
Os cristãos ocidentais têm a tendência de adotar a versão de cristianismo que elimina a
cruz. A reunião municipal relatada nesse artigo de jornal, logo abaixo, pode muito bem
ser considerada como uma reunião de líderes cristãos conforme a mentalidade dos
seminários contemporâneos que advogam a remoção da cruz de nossas igrejas, pois ela
afasta muito as pessoas:
"Símbolo Religioso Agita a Disputa"
Oficiais do município de Oakland pediram a um artista que contrataram para que criasse
um mosaico da história local para que uma nova versão da Missão de São José fosse
desenhada a fim de abolir a cruz em seu telhado, lista poderia ofender as pessoas,
disseram eles.
Os supervisores disseram que a cruz faz com que a missão Fremont pareça mais com
uma igreja do que com uma missão de importância histórica.
Os supervisores disseram que gostaram da idéia de Patrick 0'Connell, funcionário
municipal, em que a cruz seria substituída por um sino, para que a conotação de uma
missão histórica ficasse mais clara.
Contudo, essa atitude não foi bem-vinda para a administradora cia missão, Dolores
Ferenz, que disse que a cruz fora colocada no teto da missão quando de sua construção
em 1809- "Nenhuma missão que eu conheça tem um sino no telhado", disse ela.3
Será que o mesmo comentário pode ser feito a respeito de muitas igrejas e líderes
cristãos de hoje? Eles substituíram a cruz por um sino — cujo efeito lembra a história

41
do flautista de Hamelin4 para chamar as pessoas sem o poder que podem extrair da cruz.
Sem vida crucificada, sem existência cruciforme, sem ministério vivificador.
Não, nossas batalhas e sofrimentos não demonstram que há algo errado conosco. Nosso
sofrimento, como a vida de Jesus, valida o fato de que há algo terrivelmente errado com
este mundo. Quando lutamos, unimo~nos a Deus naquilo que Ele está fazendo para
redimir este mundo caído. No entanto, como Eugene Peterson disse:Quando evitamos a
abordagem de sua morte, desonramos a morte de Jesus. Quando estruturamos nossa vida
para evitar a dor e o sofrimento, rejeitamos o caminho da cruz e desonramos o Filho.
[...] É comum e fácil desonrar o Filho, ao marginalizar seu sacrifício. Os antigos
chamavam isso de "gnosticismo". Nós apenas chamamos de infidelidade. [...]
Cultivamos o honrar a Jesus, o Filho, ao segui-lo até a cruz. Sacrifício. Sofrimento.
Esses são os significados da cruz. Não é nada pragmático ou prático, apenas refere-se à
razão pela qual fomos chamados por Jesus.
A Dor de Paulo, o Plano de Deus
Uma das chaves para a eficiência de Paulo como líder vivificador é o tremendo preço
que pagou em relação à dor pessoal, à oposição e às injúrias. Tenho a impressão de que
muitos líderes cristãos pensam que isso era apenas algo periférico à eficiência de Paulo,
mera coincidência, mas não essencial. Contudo, essa não é a forma como Paulo encara a
questão. Para ele, o Jesus crucificado que pregamos é congruente com a vida cruciforme
que levamos.
Porque tenho para mim que Deus a nós, apóstolos, nos pôs por últimos, como
condenados à morte; pois somos feitos espetáculo ao mundo, aos anjos e aos homens.
Nós somos loucos por amor de Cristo, e vós, sábios em Cristo; nós, fracos, e vós,
fortes; vós, ilustres, e nós, vis. Até esta presente hora, sofremos fome e sede, e estamos
nus, e recebemos bofetadas, e não temos pousada certa, e nos afa-digamos,
trabalhando com nossas próprias mãos; somos injuriados e bendizemos; somos
perseguidos e sofremos; somos blasfemados e rogamos; até ao presente, temos chegado
a ser como o lixo deste mundo e como a escória de todos (1 Co 4.9-13)-
Perceba que Paulo não coloca a culpa por seus sofrimentos "neste mundo terrível", ou
"nesse Império Romano maligno", ou "nessas pessoas mesquinhas e ciumentas". Ao
contrário, ele identifica o plano de Deus como a fonte do sofrimento. "Porque tenho
para mim que Deus a nós, apóstolos, nos pôs por últimos, como condenados à morte".
Em 2 Coríntios, Paulo utiliza um termo técnico para descrever a relação integral de seu
sofrimento com seu ministério. Em 2 Coríntios 2.14, ele escreve: "E graças a Deus, que
sempre nos faz triunfar em Cristo e, por meio de nós, manifesta em todo lugar o cheiro
do seu conhecimento". Quase todas as versões em português minimizam o uso paulino
da forma participial de thriambeuô. A versão acima pode passar a impressão de que
tudo em Cristo é doce e suave, pois participamos da celebração de sua procissão
triunfal. Mas isso é um equívoco. Na verdade, Paulo, novamente, deixa implícito o que
disse explicitamente em 1 Coríntios 4.
Os thriambolos eram um tipo muito específico de escravos. Normalmente, eram pessoas
de alta posição social, usualmente reis e governantes, que haviam sido capturados na
guerra e que eram exibidos como demonstração da invencibilidade e do poder de Roma,
um recado do resultado negativo para quem quer que se levantasse contra César.6 Paulo
adapta a metáfora e procura aplicá-la a si mesmo, como escravo de Cristo, prisioneiro e
arrastado até o fim para a exibição da glória de Cristo por todo o império. Victor Paul
Furnish traduz esse versículo de forma mais acurada: "E graças a Deus, que, em Cristo,
sempre nos coloca em exibição (como se fôssemos prisioneiros em uma procissão
triunfal) e, por meio de nós, manifesta em todo lugar o cheiro de seu conhecimento".7 A
Nova Tradução na Linguagem de Hoje é uma das poucas versões contemporâneas, em

42
português, que capta esse sentido.- "Mas dou graças a Deus porque, unidos com Cristo,
somos sempre conduzidos por Deus como prisioneiros no desfile de vitória de Cristo.
Como um perfume que se espalha por todos os lugares, somos usados por Deus para que
Cristo seja conhecido por todas as pessoas".
Isso faz com que os versículos que se seguem sejam muito mais significativos. Os
observadores têm duas respostas bem distintas a Paulo e seu ministério, dependendo de
onde estão em relação a Cristo. Para aqueles que estão em Cristo, os que têm "olhos
para ver e ouvidos para ouvir", a marcha de Paulo em direção à morte é um tributo a
Jesus, crucificado e ressurreto. Para os que andam na carne, as lutas de Paulo
confirmam a propensão carnal que têm: "Paulo não é servo de Deus". Para eles, Paulo e
seu ministério são meramente o "cheiro da morte".
Nosso Sofrimento Revela o Salvador: A Vida Cruciforme
Vir a Cristo é vir àquEle que foi crucificado e ressuscitado. O apóstolo vivificador
incorpora em si a crucificação de Jesus, nos sofrimentos e batalhas que suportou por ter
sido fiel a seu Senhor. Portanto, Paulo prega Jesus crucificado e ressurreto e incorpora
em suas batalhas o morrer de Jesus, a fim de apontar ainda mais para o Salvador. Sua
mensagem é sobre a cruz, e sua vida é cruciforme, moldada para que se pareça com a
cruz. Em uma impressionante passagem, ele diz:
Temos, porém, esse tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de
Deus e não de nós. Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas
não desanimados; perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos;
trazendo sempre por toda parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para
que a vida de Jesus se manifeste também em nossos corpos. E assim nós, que vivemos,
estamos sempre entregues à morte por amor de Jesus, para que a vida de Jesus se
manifeste também em nossa carne mortal (2 Co 4. 7-11).
Isso é certamente o que Paulo tenta transmitir em Gaiatas, quando diz: "Já estou
crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim" (Gl 2.20).
Charles Cousar explica essa concepção:
O ministério de Paulo é um exemplo do que o viver à sombra da cruz acarreta. Ele
menciona aflições, perplexidades, perseguições e coisas similares não como um
emblema especial que usa por ser apóstolo, mas como evidência daquilo com que a
igreja se depara continuamente, quando de fato compromete-se com Jesus crucificado.
A religião, de modo geral, pode ser tolerada e, até mesmo, reverenciada pela sociedade,
mas a cruz evoca rejeição.
Muitos líderes não acolhem em suas vidas esse papel crucial que o sofrimento e a
oposição desempenham em um ministério vivificador. Quando nos envolvemos com o
mundo verdadeiramente caído, pagamos o preço de buscarmos o quebrantamento. O
sofrimento é o termômetro da fidelidade e o método para comunicar nossa mensagem
sobre aquEle que foi crucificado e ressuscitado. Em nosso sofrimento, incorporamos sua
graça e seu Espírito: "Trazendo sempre por toda parte a mortificação do Senhor Jesus
no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também em nossos corpos" (2 Co
4.10). Fracassar no sofrer é fracassar no modelar a morte vivificadora de Jesus.
Esse não é um tópico menor nas epístolas de Paulo. Podemos citar afirmações de outras
epístolas, as quais apontam, aos que são fiéis ao evangelho, para essa mesma
necessidade de sofrimento.
Eu, porém, irmãos, se prego ainda a circuncisão, por que sou, pois, perseguido? Logo,
o escândalo da cruz está aniquilado (Gl 5.11).
Todos os que querem mostrar boa aparência na carne, esses vos obrigam a
circuncidar-vos, somente para não serem perseguidos por causa da cruz de Cristo (Gl
6.12).

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Portanto, vos peço que não desfaleçais nas minhas tributações por vós, que são a vossa
glória (Ef3-13).
Para conhecê-lo [a Cristo], e a virtude da sua ressurreição, e a comunicação de suas
aflições, sendo feito conforme a sua morte; para verse, de alguma maneira, eu possa
chegará ressurreição dos mortos (Fp 3-10,11).
Regozijo-me, agora, no que padeço por vós e na minha carne cumpro o resto das
aflições de Cristo, pelo seu corpo, que é a igreja (Cl 1.24).E vós fostes feitos nossos
imitadores e do Senhor, recebendo a palavra em muita tubulação, com gozo do Espírito
Santo, de maneira que fostes exemplo para todos os fiéis naMacedônia eAcaia (1 Ts
1.6, 7).
Prova clara do justo juízo de Deus, para que sejais havidos por dignos do Reino de
Deus, pelo qual também padeceis (2 Ts 1.5).
Portanto, não te envergonhes do testemunho de nosso Senhor, nem de mim, que sou
prisioneiro seu; antes, participa das aflições do evangelho, segundo o poder de Deus,
[.. jpara o que fui constituído pregador, e apóstolo, e doutor dos gentios; por cuja
causa padeço também isto, mas não me envergonho, porque eu sei em quem tenho crido
e estou certo de que époderoso para guardar o meu depósito até àquele Dia (2 Tm
1.8,11,12).
Tu, porém, tens seguido a minha doutrina, modo de viver, intenção, fé, longanimidade,
caridade, paciência, perseguições e aflições tais quais me aconteceram em Antioquia,
em Icônio e em Listra; quantas perseguições sofri, e o Senhor de todas me livrou. E
também todos os que piamente querem viverem Cristo fesus padecerão perseguições (2
Tm 3-10-12).
Neste capítulo, à exceção de 1 Timóteo, Tito e Filemom, todas as outras epístolas de
Paulo foram citadas. Cada uma das citações acima transmite mensagens profundas e
consistentes, as quais nos falam sobre a expectativa de sofrer que devemos ter, se
estivermos ministrando no Espírito. Pode parecer algo entediante, mas a lista de citações
das epístolas paulinas serve para ressaltar três pontos cruciais:
1. Sofrimento é um tema da maior importância na compreensão de como o ministério
e a liderança de Paulo eram guiados pelo Espírito.
2. O sofrimento era uma experiência compartilhada pelos cristãos primitivos.
3. O sofrimento é a medida para sabermos se, como cristãos, estamos no caminho
certo. Como Paulo objetivamente disse: "E também todos os que piamente querem viver
em Cristo Jesus padecerão perseguições" (2 Tm 3-12). Jesus diz o mesmo de forma
distinta: "Bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem, e perseguirem, e, mentindo,
disserem todo o mal contra vós, por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande
o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de
vós" (Mt 5.11,12). "Bem-aventurados" significa: "Essa é maneira como podem avaliar
se estão no caminho correto".
A Repreensão de Paulo em 2 Coríntios
Se tudo isso não for suficiente, precisamos acolher os ensinamentos de Paulo em 2
Coríntios 10-13, em que os líderes fiéis, os que sofrem, são um corretivo aos falsos
líderes e, portanto, às falsas concepções de vida cristã.
Algumas pessoas, em meio aos coríntios, levantaram dúvidas se Cristo estava realmente
falando por intermédio de Paulo (2 Co 13.3). Não é difícil descobrir a intenção deles.
Paulo tinha, até mesmo, consciência do argumento que utilizavam: "Porque as sua
cartas, dizem, são graves e fortes, mas a presença do corpo é fraca, e a palavra,
desprezível" (2 Co 10.10; cf. 11.6). Afirmavam que eles mesmos eram apóstolos "mais
excelentes" (2 Co 11.5) devido à descendência judaica (2 Co 11.22), à grande
habilidade de oratória (altamente valorizadas na cultura dos coríntios) e à capacidade de

44
operar prodígios e maravilhas (2 Co 12.12).
A questão não é simplesmente a respeito de estilos distintos de liderança — o deles
refinado, e o de Paulo, desajeitado. Paulo afirma que a abordagem deles em relação ao
ministério é algo reprovável, pois, por meio de palavras e exemplos, estavam pregando
um "outro Jesus", não aquEle que foi crucificado por nossos pecados: "Porque, se
alguém for pregar-vos outro Jesus que nós não temos pregado, ou se recebeis outro
espírito que não recebestes, ou outro evangelho que não abraçastes, com razão o
sofrereis" (2 Co 11.4).
Antes de Jesus ser crucificado, Pedro teve esse mesmo problema quando escutou, pela
primeira vez, Jesus descrever o caminho da cruz como a maneira de salvar o mundo.
Pedro certamente concebia, como muitos de seus contemporâneos, que o Messias
deveria ser um vitorioso que retiraria o poder de Roma e estabeleceria novamente a
glória dos dias do reinado de Davi. Pedro nem pôde escutar a mensagem de Jesus,
quando Ele disse que deveria ir à cruz, para ali sofrer e morrer. Pedro estava tão
convencido de sua concepção, que tomou Jesus "à parte e começou a repreendê-lo" (Mc
8.32). Jesus denomina esse impulso de satânico e diz para Pedro que este estava
raciocinando de acordo com a sabedoria humana, e não conforme o plano divino de
Deus.
Em Corinto, Paulo encontra o mesmo tipo de resposta para seu apostolado de
sofrimento. Em seu contra-argumento, afirma que os líderes fiéis sofrem como Jesus
sofreu. Os líderes fiéis aprenderam que o poder e ministério verdadeiros fluem por meio
de uma consciência completa do poder de Deus, em vez de por intermédio da perfeição
ou polidez. Portanto, Paulo afirma-. "Se convém gloriar-me, glo-riar-me-ei no que diz
respeito à minha fraqueza" (2 Co 11.30). Assim, continua ele: "Para que me não
exaltasse pelas excelências das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber,
um mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de não me exaltar. Acerca do qual
três vezes orei ao Senhor, para que se desviasse de mim. E disse-me: A minha graça te
basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei
nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer
nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor
de Cristo. Porque, quando estou fraco, então, sou forte" (2 Co 12.7-10).
Para Paulo essa concepção de liderança não é teológica, mas um imperativo que nos é
dado por Deus. Liderar de acordo com a sabedoria humana, utilizando poder e
estratégias humanas, é levar a um "outro Jesus". Levar e viver uma vida cruciforme,
uma vida conforme a cruz e o sofrimento de Jesus, é revelar por meio de nossa vida e
ensinamentos aquEle que foi crucificado. Quando Jesus morreu na cruz, Ele desfez a
forma de poder e de maquinações humanas, "despojando os principados e potestades, os
expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo [na cruz]" (Cl 2.15). O caminho de
Jesus revela a forma de liderança em que nos tornamos frágeis e totalmente dependentes
do poder e autoridade de Deus (veja Mt 20.20-27).
C.I.P.D.
O sofrimento, por ser um fator necessário, normal e esperado da liderança cristã fiel,
revela a qualidade que os líderes mais necessitam: a C.I.P.D. Isso representa uma
Capacidade Incrível Para o Desapontamento.
A dor e a oposição são extremamente desalentadoras. Essa é a razão pela qual Paulo
teve de dizer: "E não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se
não houvermos desfalecido" (Gl 6.9).
Paulo, em uma passagem reveladora e emocionante, ressalta a dificuldade humana de
suportar o peso da liderança no Reino de Cristo: "Em tudo somos atribulados, mas não
angustiados; perplexos, mas não desanimados; perseguidos, mas não desamparados;

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abatidos, mas não destruídos" (2 Co 4.8,9). Nossos problemas são temporários em
comparação ao Reino eterno que está por vir: "Por isso, não desfale-cemos; mas, ainda
que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia.
Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória
mui excelente" (2 Co 4.16,17).
É revelador enumerar, em 2 Coríntios 6.4,5,8-11, o que Paulo considerava "essa leve e
momentânea tribulação": "... recomendáveis em tudo: na muita paciência, nas aflições,
nas necessidades, nas angústias, nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos,
nas vigílias, nos jejuns, [...] por honra e por desonra, por infâmia e por boa fama, como
enganadores e sendo verdadeiros; como desconhecidos, mas sendo bem conhecidos;
como morrendo e eis que vivemos; como castigados e não mortos; como contristados,
mas sempre alegres; como pobres, mas enriquecendo a muitos; como nada tendo e
possuindo tudo". Paulo recebeu "dos judeus cinco quarentenas de açoites menos um" (2
Co 11.24), "três vezes [foi] açoitado com varas" (2 Co 11.25), "uma vez [foi]
apedrejado" (2 Co 11.25), "[naufragou] três vezes" (2 Co 11.25) e "uma noite e um dia
[passou] no abismo" (2 Co 11.25), viajou muitas vezes, enfrentou perigos de rios, de
salteadores, de seus conterrâneos, dos gentios, assim como enfrentou perigos na cidade,
no deserto, no mar e entre os falsos irmãos; "em trabalhos e fadiga, em vigílias, muitas
vezes, em fome e sede, em jejum, muitas vezes, em frio e nudez. Além das coisas
exteriores" que o oprimiam cada dia, o cuidado de todas as igrejas (2 Co 11.27,28).9
Todas essas foram as tribulações leves e momentâneas de Paulo! Elas são físicas,
emocionais, sociais, mentais e psicológicas. Não podem ser limitadas à mera dor física
ou à oposição social. Sofrimento é sofrimento. E, no entanto, ele pôde concluir
posteriormente quando escreveu aos cristãos de Roma: "Porque para mim tenho por
certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em
nós há de ser revelada. [...] Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a
angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? Como está
escrito: Por amor de ti somos entregues à morte todo o dia-, fomos reputados como
ovelhas para o matadouro. Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores,
por aquele que nos amou" (Rm 8.18,35-37). Ele sabia exatamente sobre o que falava.
Há uma parábola de um fazendeiro que possuía uma mula. A mula caiu no poço do
fazendeiro. O fazendeiro escutou a mula zurrando — ou que quer que seja que as mulas
fazem quando caem em poços. Após avaliar cuidadosamente a situação, embora o
fazendeiro se compadecesse da mula, decidiu que nem ela nem o poço valiam o trabalho
de ser salvos. Portanto, ele chamou seus vizinhos, contou-lhes o que acontecera e pediu
que o ajudassem a jogar terra para enterrar a velha mula no poço, para assim não ficar
tão penalizado.
No início, a velha mula estava histérica. Contudo, à medida que o fazendeiro e seus
vizinhos continuaram a jogar terra, e esta batia no lombo da mula, ocorreu-lhe um
pensamento. Tornou-se claro para a mula que toda vez que uma pá cheia de terra
batesse em seu lombo,

46
ela deveria sacudi-la e pisoteá-la. E assim fez, um punhado de terra após o outro.
"Sacuda e pisoteie... sacuda e pisoteie... sacuda e pisoteie", repetia ela, para que não
perdesse o ânimo. A velha mula, sem se importar o quanto aqueles golpes de terra
doíam ou o quanto a situação pudesse parecer desalentadora, lutou contra o pânico e
manteve-se firme no sacudir e pisotear.
Não demorou muito para que a velha mula, esgotada e exaurida, transpusesse
triunfantemente o muro do poço. Aquilo que parecia ser o seu fim e o que a enterraria
foi uma bênção para ela, apenas graças à maneira pela qual lidou com a adversidade.
Essas aflições que nos assolam e cuja finalidade é nos enterrar, trazem em si, com
freqüência, o potencial de nos beneficiar e abençoar, como também a outros.10
"Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória
mui excelente" (2 Co 4.17). Se formos fiéis, viveremos para receber a recompensa
naquele dia em que estaremos com todos os mártires e líderes que vieram antes de nós.
Seremos reunidos diante de toda a realeza, de todos os nobres, de todos os profetas e
sacerdotes, diante de Abraão, Moisés, Davi, na presença dos discípulos e de nossos
antepassados na fé, aos pés de Jesus Cristo com o esplendor de Deus brilhando à nossa
volta. Vivemos para aquele dia quando Deus dirá de forma que todos possam ouvir:
"Bem está, servo bom e fiel... entra no gozo do teu senhor" (Mt 25.21). Se manti-
vermos nossa capacidade incrível para o desapontamento, colheremos uma recompensa
indescritível.
Questões para Reflexão e Discussão
1. Leia 1 Pedro 4.12-14 e Marcos 13-5-27 (paralelos em Mt 24; Lc 21). Reflita e
discuta.
2. Nem todo o sofrimento é um sinal de liderança fiel. Se sofrermos por fazer a coisa
errada, isso é uma questão distinta. Algumas vezes, lutamos quando fazemos algo em
que não demonstramos ter muita habilidade. Há a presença persistente do problema do
mal, isto é, o sofrimento que não faz sentido e que não tem qualquer explicação.
Também os líderes arrogantes e obstinados, que afirmam seu poder "segundo a carne",
podem muito bem sofrer, pois não escutam nem confiam nos outros à sua volta.
Discuta.
3. Quais são os custos se você realmente abraçar a verdadeira liderança cristã? Que
tipo de oposição você pode antecipar?
4. Sua pregação e ensinamento contêm a "ofensa da cruz", ou as pressões fizeram com
que você filtrasse as verdades difíceis do evangelho? Leia 1 Coríntios 1-2 e discuta.
5. Você já pesou o que lhe custará liderar para Jesus? Você compreende que seguir a
Jesus significa buscar o caminho do servir e cia obscuridade? Leia Mateus 20.20-27 e
discuta.

47
4
O PODER DE DEUS EM VASOS TRINCADOS

Temos, porém, esse tesouro em vasos de barro, para que a excelência do


poder seja de Deus e não de nós.
2 CORÍNTIOS 4.7

Nossa fraqueza, não nossa competência, é que emociona os outros;


nossas tristezas, não nossas bênçãos, é que quebram as barreiras do
medo e da vergonha que nos mantêm separados; nossas falhas
confessadas, não nosso sucesso alardeado, é que nos une em esperança.
LARRY CRABB

O desejo que, com freqüência, ouvimos ser hoje expresso por


"figuras episcopais", "homens clericais", "personalidades com
autoridade" surge muito com freqüência de uma necessidade
espiritualmente doentia de conquistar a admiração de homens,
para o estabelecimento da autoridade humana visível, pois a
autoridade genuína do servir parece ser muito inexpressiva. Não há
nada que pareça contraditar tão veementemente esse desejo quanto
a descrição de um bispo (1 Tm 3-1ss). Ali, o indivíduo não
encontra menção alguma a respeito do charme mundano e dos
atributos brilhantes de uma personalidade espiritual. O bispo é o
homem simples e fiel, cuja vida e fé sejam irrepreensíveis e que
desempenhe honestamente suas funções na igreja. Sua autoridade
repousa no exercício de seu ministério. Não há nada para se
admirar no homem em si.
DlETRICH BONHOEFFER

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NA ÍNDIA, UM HOMEM CARREGAVA DOIS GRANDES POTES DE ÁGUA, cada um deles
pendurado nas extremidades de uma vara que carregava sobre o ombro. Um dos potes
tinha uma rachadura, e o outro era perfeito e sempre armazenava toda a água até o fim
da longa caminhada, do riacho à casa de seu mestre. O vaso trincado chegava pela
metade.
Isso acontecia diariamente, por dois anos seguidos: o homem entregava apenas um pote
e meio de água na casa de seu mestre. Obviamente, o pote perfeito ficava orgulhoso de
suas conquistas; a realização perfeita da finalidade para a qual havia sido feito.
Contudo, o pobre pote trincado tinha vergonha de sua imperfeição e infelicidade, pois
era capaz de realizar apenas metade da finalidade para a qual havia sido feito.
Após dois anos do que, conforme percebia ser uma derrota amarga, o pote trincado
disse, à beira do riacho, ao homem que o transportava:
— Tenho vergonha de mim mesmo e quero pedir-lhe desculpas.
— Por quê? — perguntou o carregador. — Do que você tem vergonha?
— Nesses dois últimos anos fui capaz de entregar apenas metade da quantidade devido
a essa rachadura lateral que faz com que a água vaze durante todo o caminho para a casa
de seu mestre. Em virtude das minhas falhas, você faz todo esse esforço, mas não recebe
o retorno total por esse trabalho — disse o pote.
O carregador sentiu compaixão por esse velho pote trincado e disse-lhe:
— Quando retornarmos à casa do mestre, quero que você perceba as lindas flores ao
longo do caminho.
À medida que subiam a montanha, o velho pote trincado percebeu o sol aquecendo as
lindas flores selvagens ao longo do caminho, e isso muito o alegrou. Contudo, no fim da
trilha, ele ainda se sentia mal, pois metade de sua carga havia vazado e, mais uma vez, o
pote desculpou-se com o carregador por sua falha.
O carregador disse ao pote:
— Você reparou que havia flores apenas do seu lado da trilha, mas não do outro? Isso
foi devido ao fato de eu sempre ter conhecido sua fraqueza e ter tirado proveito dela.
Plantei sementes de flores em seu lado da trilha e, todos os dias, enquanto retornava do
riacho você as regava. Por dois anos, pude colher essas lindas flores para decorar a mesa
de meu mestre. Se você não fosse exatamente da maneira como é, ele jamais teria essa
graciosa beleza em sua casa.
Todos os Vasos de Barro São Vasos Trincados
Essa palavra retrata claramente a imagem bíblica de 2 Coríntios 4.7. Ali, Paulo afirma
que somos potes frágeis, comuns e vulneráveis; meros vasos para o propósito, poder e
glória de Deus: "Temos, porém, esse tesouro em vasos de barro, para que a excelência
do poder seja de Deus e não de nós".
Paulo deixa explícita essa estratégia intencional de Deus para revelar sua glória. Deus
está profundamente interessado em que não con-fundamos nem de onde o poder vem
nem a quem a glória é devida. Essa é a razão pela qual há afirmação de propósito por
meio das seguintes palavras: "para que". Deus põe o tesouro do "conhecimento da glória
de Deus, na face de Cristo" (2 Co 4.6) em vasos comuns e frágeis, para que "a
excelência do poder seja de Deus e não de nós" (2 Co 4,7).
Paulo, no final de sua Segunda Epístola aos Coríntios, expande a metáfora, em que
passamos de vasos de barro para vasos trincados. Jesus disse-lhe: "A minha graça te
basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza" (2 Co 12.9). Paulo chega à
seguinte conclusão: "De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que
em mim habite o poder de Cristo" (2 Co 12.9). Paulo, com todas essas palavras, provoca
um terremoto cultural. Afirma que a glória de Deus vaza através da rachadura de nossos

49
potes, pois essa glória não pode ser vista em nosso esplendor, brilho e refinamento.
Os gregos idolatravam a oratória culta, os corpos atléticos e a forma perfeita, assim
como desprezavam o fraco, o frágil e o imperfeito. Eles valorizavam a "auto-
suficiência" (autarkeia), a habilidade de levantar-se acima de todas as circunstâncias
temporais. A mensagem de Paulo para eles, porém, é de que Deus usa as coisas que são
"fracas", para revelar sua graça e glória. A palavra usada por ele para "fracas"
(astbeneia) é o oposto de "auto-suficiência"; é extremamente abrangente e inclui
fraqueza, doença, enfermidade, falha e ineficácia. Paulo aplica a mensagem do
evangelho a seu estilo de liderança e declara que a maneira pela qual Deus trabalha por
meio de seus líderes é tal que comunica a irrupção de seu reinado em um mundo que
idolatra a criação e suas criaturas.
É esse o grande e perigoso equívoco sobre a tendência recente dos líderes cristãos, a
saber, adotar o "comprometer-se com a excelência" à moda do mundo dos negócios.
Não estou dizendo que devemos nos comprometer com o que é inferior, mas nossa
excelência não "deixa claro" que o poder vem de Deus, e não de nós. Quando
comprometer-se com a excelência significa que um indivíduo comum não mais é visto
como alguém capaz de desempenhar o ministério (como vejo essa tendência ser
praticada), tornamo-nos mais coríntios e menos cristãos em nossa liderança.
Sempre estivemos muito interessados no poder, tanto naquela época quanto hoje. Jesus
disse explicitamente à mãe de dois de seus discípulos, que o desejo dela e de seus filhos
por poder e prestígio não fazia parte do caminho do Senhor. Antes, aqueles que são
seguidores de Jesus não devem fazer-se grandes perante os outros, mas devem buscar
servir e tornar-se escravos de todos (Mt 20.20-27). O problema permanece conosco. Um
livro recente, e sucesso de vendas, demonstra que esse obscuro interesse humano pelo
poder resume-se em 48 leis do poder (de acordo com o título original, The 48Laws of
Power). Entre essas quarenta e oito leis encontramos as seguintes: "Faça com que os
outros trabalhem por você, mas sempre receba você mesmo os créditos"; "Aprenda a
fazer com que as pessoas dependam de você"; "Use a honestidade e a generosidade
seletivas para desarmar sua vítima"; e "Mantenha os outros em constante terror: cultive
uma atmosfera de imprevisibilidade".1
A estratégia de Deus é executar o escândalo da cruz na vida dos cristãos. Para este
mundo cujo foco é o poder, o prestígio e o orgulho, a conquista que coroa a obra de
Jesus foi o rebaixar-se à vergonha da cruz. É desta forma que se dá a guerra espiritual,
sendo deflagrada em oposição ao conceitos terrenos. Assim também, o Espírito executa
o evangelho no corpo de Cristo, ao escolher pessoas modestas e "fracas" — potes
trincados — para revelar a redenção de Deus em favor do menor, do último e do
perdido. Nossa fraqueza é um contraste intencional com o mundo que se consome para
obter poder, força e destaque. Os cristãos podem torcer o nariz para a filosofia de
Friedrich Nietzsche, quando define der Übermensh (o super-homem), em que o ideal de
uma alma poderosa e independente é não necessitar de ninguém mais, nem mesmo
Deus. Contudo, um observador casual pode mais facilmente comparar muito do que se
mascara de cristianismo com o poder ideal, de acordo com a definição de Nietzsche, do
que com o foco de Jesus na vulnerabilidade e no servir, ou com a convicção de Paulo de
que o poder de Deus se mostra mais freqüentemente por meio de nossas fraquezas.
A maneira de Deus é escolher o improvável e o que não merece para expor aqueles que
pensam serem merecedores e dignos de reconhecimento e salvação. Paulo escreve, em
uma passagem clara em 1 Coríntios:
Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos
salvos, é o poder de Deus. Porque está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios e
aniquilarei a inteligência dos inteligentes. Onde esta o sábio? Onde está o escriba?

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Onde está o inquiridor deste século? Porventura, não tornou Deus louca a sabedoria
deste mundo? Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não conheceu a Deus pela
sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação. Porque os
judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo
crucificado, que é escândalo para os judeus e loucura para os gregos. Mas, para os que
são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus e
sabedoria de Deus. Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a
fraqueza de Deus é mais forte do que os homens. Porque vede, irmãos, a vossa voca-
ção, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem
muitos os nobres que são chamados. Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo
para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir
as fortes. E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não
são para aniquilar as que são; para que nenhuma carne se glorie perante ele. Mas vós
sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e
santificação, e redenção; para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se
no Senhor (1 Co 1.18-31).
Deus mantém o "incógnito divino" do ministério de Jesus em nós, ao derramar seu
poder no improvável e imperfeito. Aqueles que buscam a Deus no topo não conseguem
vê-lo lá em baixo, no sopé. Os que esperam que o Messias apareça em uma reunião do
templo de poder dos acionistas ficam surpresos quando ele é encontrado na manjedoura
por pastores e astrônomos. Posteriormente, Ele vai ao templo, mas também despende
um tempo junto ao poço dos samaritanos e na casa do coletor de impostos, assim como
está sempre acompanhado por pessoas peca-doras e é por elas ungido. Deus, para
garantir que ninguém fique confuso, associa seu Reino com os fracos deste mundo. Ele
não quer que ninguém confunda sua glória com o poder do mundo.
A História de Cathy
Alguns anos atrás, esse princípio foi posto à prova para mim. Cathy2 aproximou-se de
mim e perguntou se poderia comparecer a uma das reuniões de nossa equipe do Share
Jesus! (Compartilhe Jesus) Ela fora diagnosticada com a desordem de bipolaridade e
lutava com as mudanças emocionais que iam da euforia à depressão. Havia duas razões
pelas quais Cathy se aproximou de mim. Uma delas era que progredira por meio do
aconselhamento, da terapia para livrar-se das drogas e do trabalho em grupo, embora
sentisse que viera a um bom lugar e estivesse pronta para voltar a atuar na obra de Deus
como serva cristã. A outra razão pela qual se aproximou de mim, foi o sermão que
pregara sobre esse assunto. Ela vinha de um ambiente de uma igreja perfeccionista, na
qual todos escondiam seus problemas e, para apresentarem-se como bons cristãos,
revestiam-se da "falsa bondade". Ela fora ferida naquele ambiente, pois ao procurar
ajuda do pastor, quando estava em uma unidade psiquiátrica, ficou com a impressão de
que cristãos "verdadeiros" não eram maníaco-depressivos.
Uma equipe de missão evangelística é um ambiente altamente estressante e fiquei
preocupado que a pressão do trabalho pudesse afetar adversamente Cathy. Como irmão
em Cristo, porém, estava mais preocupado com o fato de praticar algo distinto do que
aquilo que pregava, assim como temia colocar meu dedo em uma antiga ferida que a
deixara com a sensação de que era uma cristã menor e subumana. Concordamos que ela
estaria na mesma equipe que minha esposa, para que esta pudesse zelar por ela e tomar
as precauções necessárias, caso tivesse uma crise maníaco-depressiva. Jamais
compreendi os ensinamentos de Paulo em suas epístolas aos coríntios como naquela
semana em que observei Deus usar Cathy.
Cathy deu seu testemunho na terceira manhã da missão, em uma reunião dos membros
da igreja, antes que se dirigissem às escolas da vizinhança para buscar os adolescentes

51
que quisessem assistir ao culto. Cathy estava nervosa, conforme diz o ditado: "Gato
escaldado tem medo de água fria". Ela fora rejeitada anteriormente por uma igreja,
apenas por ter compartilhado suas lutas, porém decidiu que dessa vez seria honesta e
contaria como Deus a ajudara em sua batalha, como a graça ministrara as suas feridas e
como ela, de forma similar a Paulo, orara para que esse espinho fosse removido. E,
como a resposta recebida pelo apóstolo, a sua também fora negativa. Embora ela ainda
batalhasse, queria testemunhar a bondade e graça de Deus em meio à luta.
Um grupo de mulheres, que vinha se encontrando há muitos anos, compareceu a essa
reunião. Nenhuma delas admitiu e, portanto, nenhuma delas percebera que muitas
pessoas no recinto enfrentavam os mesmos problemas com aquela enfermidade, ou
tinham maridos, irmãos ou filhos por ela acometidos. Elas, há muito tempo, vinham se
encontrando para orar e buscar encorajamento, mas padeciam da "falsa bondade" e
sofriam silenciosamente, pois nunca compartilhavam as agruras mais profundas que
carregavam.
Quando Cathy compartilhou seu testemunho, o poder de Deus fez com que aquela
comunhão superficial se transformasse em um período de profunda comunhão e
afetividade. Lágrimas correram livremente e muitos sentiram o alívio de sair das
sombras e passarem a ser conhecidos e aceitos por seus irmãos em Cristo. Cathy
também, assim pareceu, foi liberta de sua profunda ferida da rejeição que aprisionava
sua alma, ao compartilhar abertamente que era fraca, mas mesmo assim a graça de Deus
estava presente. No fim da semana, ela levara três meninas de treze ou quatorze anos a
comprometerem-se com Cristo e tornarem-se membros daquela igreja. Ela jamais
voltaria a se preocupar se Deus poderia usar alguém destruído como ela. E acabou
incorporando o que Paulo escreveu aos coríntios: "Mas Deus escolheu as coisas loucas
deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo
para confundir as fortes. E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e
as que não são para aniquilar as que são; para que nenhuma carne se glorie perante ele"
(1 Co 1.27-29).
Hoje, infelizmente, muitas igrejas e líderes cristãos temem as pessoas que aparentam ser
fracas. Eles mantêm, uns para os outros, o mito do perfeccionismo e da "falsa bondade",
nunca vendo como essa sua pretensão destrói a graça e a vida que poderiam se manifes-
tar por intermédio do corpo de Cristo, se apenas fossem verdadeiros e humildes uns com
os outros. Igrejas como essa têm a tendência de ter quatro ordens invioláveis, as quais
jamais são verbalizadas, embora sejam totalmente compreendidas por todos os
membros.
Regra um: Não tenha nenhum problema.
Regra dois: Se tiver, supere-o rapidamente.
Regra três: Se não puder superá-lo, então o mascare.
Regra quatro: Se não puder superá-lo rapidamente ou mascará-lo, então fique longe de
mim. Não quero que ninguém pense que eu também tenho esse problema.
Essas são as mesmas quatro regras que guiam os alcoólatras, como também são as
mesmas leis não verbalizadas de muitas famílias disfuncionais. Alguns resumem isso
como a regra do "não verbalize" — não conte a ninguém seus problemas.
Cathy definhara em uma igreja como essa. Não havia tábuas de salvação que pudesse
agarrar, e mesmo que pudesse agarrar-se a alguma, ela não tinha forças para deixar de
ser bipolar. As quatro leis não verbalizadas das igrejas perfeccionistas ficaram bem
claras para ela, e ela compreendeu, muito bem e claramente, a mensagem: "Você não é
bem-vinda aqui".
Vivemos em um tempo em que muitas igrejas estão, de todas as formas, rapidamente se
secularizando. Quando aqueles de fora da igreja acusam os cristãos de serem hipócritas

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isso é exatamente ao que se referem. Percebem os cristãos como tendo todos as mesmas
fraquezas, problemas e lutas que eles têm, com a diferença de que eles percebem que os
cristãos fingem que não têm esses problemas. Para eles, somos como imperadores nus,
desfilando com nossas roupas da superioridade e da união, embora estas sejam
invisíveis e irreais. Na realidade, estamos tão expostos como qualquer outra pessoa.
Todos nós temos problemas óbvios que não podemos superar facilmente nem mascarar.
E é justamente em pessoas assim que Deus escolhe derramar sua glória e sua graça.
Se pensarmos nisso por um momento, o tipo de pessoa que é atraído à igreja, embora
"todos ali pareçam estar unidos por algo", ainda tem de passar por outra conversão
àquEle que foi crucificado, o qual nos chama para tomar nossa cruz e segui-lo. Alguém
que busca a perfeição pode muito bem ser atraído tanto ao mormonismo quanto ao
cristianismo, e os mórmons têm a imagem perfeita da polidez e do brilho, em que nem
um fio de cabelo está desalinhado. Isso não é realidade. O Estado de Utah tem a taxa
mais elevada de violência doméstica, e batistas e metodistas, tradicionais abstêmios
conforme as regras de suas denominações, têm as mais altas taxas de alcoolismo (judeus
e católicos têm a menor). Até mesmo o mito da moralidade da cidade pequena
comparada com a decadência urbana ruiu recentemente, com a revelação de estudos que
demonstram que o abuso de drogas e álcool por adolescentes é significantemente mais
alto nas cidades pequenas do que nas grandes áreas urbanas.3 Quer admitamos ou não,
somos todos pecadores profundamente necessitados de ajuda e da graça divina. A única
escolha de Deus para os líderes cristãos são as pessoas fracas, que têm de confiar na
força do Senhor para fazer o que este pede.
Recentemente, o governador Jesse Ventura, de Minnesota, e o magnata da mídia, Ted
Turner, apresentaram suas versões para a seguinte máxima de Karl Marx: "O
cristianismo é o ópio do povo". Um deles, ex-soldado especializado em atividades de
risco da Marinha americana e ex-lutador profissional que se tornou político, e o outro,
empresário independente e milionário, tagarelaram: "Jesus é a muleta do fraco". Ventura
disse: "A religião organizada é um logro e muleta para as pessoas de mente fraca que
precisam obter força por meio do grupo".4 O que somos tentados a responder? Se nossa
tendência for negar isso, então somos tentados a desprezar e vender o evangelho
verdadeiro. Não devemos nos envergonhar com essas críticas. Ao contrário, se formos
honestos conosco e bíblicos em nossa teologia, podemos afirmar orgulhosamente:
"Jesus é muito mais do que uma muleta; Ele é o hospital inteiro. Onde eu estaria sem
Jesus?" Hoje, alcançar as pessoas que não estão na igreja de forma efetiva é o ministério
da ala de emergência. Se essas pessoas permitirem que entremos em seu mundo para
ajudá-las, descobriremos que estão com hematomas, alquebradas e exauridas. Hoje,
Jesus clama como antes: "Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha
ajunta os seus pintos debaixo das asas [...]!" (Mt 23.37) Como Jesus teria se compa-
decido deles, pois eram ovelhas necessitadas sem um pastor!
A preocupação dos coríntios com a imagem, o poder e a perfeição, aspectos ausentes no
material que tece o corpo de Cristo, ameaçava a autenticidade do evangelho naquele
local. Primeiro, havia um grupo de pessoas que acreditava que fossem cidadãos de
segunda classe ou, até mesmo, nem fossem cidadãos. Eles foram levados a sentir que,
por não terem certos dons, não eram parte do corpo de Cristo. Sem dúvida, a maneira
como foram rudemente tratados na Ceia do Senhor (1 Co 11) sustentou a convicção de
que não eram importantes para Deus. Paulo diz a essas pessoas fracas:
Se o pé disser: Porque não sou mão, não sou do corpo; não será por isso do corpo? E,
se a orelha disser: Porque não sou olho, não sou do

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corpo; não será por isso do corpo? Se todo o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido?
Se todo fosse ouvido, onde estaria o olfato? Mas, agora, Deus colocou os membros no
corpo, cada um deles como quis (1 Co 12.15-18).
Da mesma forma, Paulo teve de punir os fortes. Não há cidadãos de segunda classe
graças à preferência de Deus de derramar sua glória e sua sabedoria em vasos fracos e
tolos. No sistema de Deus, aqueles que julgam a importância dos outros pela maneira
como se apresentam, ou pela riqueza, ou pelas muitas habilidades que têm, na verdade,
estão julgando de forma equivocada, "segundo a carne".5 No Espírito, Deus valoriza
cada pessoa igualmente e, com freqüência, nos surpreende por aquele que escolhe usar
mais:
E o olho não pode dizer à mão: Não tenho necessidade de ti; nem ainda a cabeça, aos
pés: Não tenho necessidade de vós. Antes, os membros do corpo que parecem ser os
mais fracos são necessários. E os que reputamos serem menos honrosos no corpo, a
esses honramos muito mais; e aos que em nós são menos decorosos damos muito mais
honra. Porque os que em nós são mais honestos não têm necessidade disso, mas Deus
assim formou o corpo, dando muito mais honra ao que tinha falta dela, para que não
haja divisão no corpo, mas, antes, tenham os membros igual cuidado uns dos outros.
De maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um
membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele. Ora, vós sois o corpo de
Cristo e seus membros em,particular Cl Co 12.21-27).
O que as Rachaduras em nossos Potes Comunicam
Na peça de Thorton Wilder, TheAngel that Troubled the Waters (O Anjo que Agitava a
Água), um médico vem até o tanque de cura para livrar-se de sua melancolia. A peça é
baseada na tradição sobre o tanque de Betesda 0o 5): quando o anjo agitava a água, o
primeiro que entrasse no tanque era curado. Quando o anjo vê o médico, ele lhe nega a
chance de descer à água:
Doutor, sem suas feridas onde estaria seu poder? É sua melancolia que faz com que sua
voz ressoe no coração das pessoas. Nem mesmo os anjos podem persuadir os desditosos
da terra como um ser humano que foi alquebrado pela vida. No serviço do amor,
apenas os soldados feridos podem se alistar.
Somos todos guerreiros feridos. Todos nós encontramos Deus trabalhando graciosa e
maravilhosamente por meio de nossas feridas e fraquezas. "No serviço do amor, apenas
os soldados feridos podem se alistar". Paulo modela isso em sua Primeira Carta a
Timóteo: "Esta é uma palavra fiel e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao
mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal. Mas, por isso, alcancei
misericórdia, para que em mim, que sou o principal, Jesus Cristo mostrasse toda a sua
longanimidade, para exemplo dos que haviam de crer nele para a vida eterna" (1 Tm
1.15,16).
Paulo, "o principal" dos pecadores, foi escolhido por Cristo para que Ele demonstrasse
sua "longanimidade", sua bondade e sua misericórdia. Paulo, antes um assassino e
perseguidor da igreja, é um "exemplo" para todas as outras pessoas. Se Jesus pôde
perdoar e usar Paulo, então Ele pode perdoar e usar qualquer pessoa para sua glória e
seu propósito.
A esse respeito, o recente movimento Promise Keepers (Defensores da Promessa) está
fazendo exatamente o que necessita ser feito em nosso território. O coração desse
movimento é um chamado para que os homens reconheçam sua fraqueza e debilidade
para que se ajudem mutuamente por meio do apoio de grupos que se responsabilizam
por manter um testemunho fiel e humilde em meio às tentações. Até mesmo a
organização Promise Keepers (Defensores da Promessa) está modelando esta
dependência de forma poderosa, pois passa por um momento de minimização e

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reorganização do foco cie sua missão, em vez de gastar recursos e esforços para manter
um grande prédio institucional.
Essa é a razão pela qual Jesus valoriza grandemente as crianças e diz que qualquer
pessoa que queira entrar no Reino de Deus deve ser como um de seus pequeninos. Uma
criança, como um vaso de barro. é um símbolo de fraqueza, vulnerabilidade e
fragilidade. Jesus diz que o Reino de Deus pertence a estes. Ele agrada-se em usar em
sua obra não apenas as frágeis crianças, como também mães solteiras, pessoas com
deficiências físicas ou limitações psicológicas, pessoas com problemas ou necessidades
especiais, pessoas feridas, aqueles que lutam com a raiva, o medo, o orgulho e a
concupiscência — pessoas como eu e você. Ele derrama seu poder em potes trincados
para mostrar de onde provém o poder e a quem é devida a glória.
Questões para Reflexão e Discussão
1. Você faz parte de um grupo cie comunhão, de oração, de estudo bíblico, ou participa
de classes da Escola Dominical, em que você possa compartilhar honestamente sua vida
e batalhas e receber apoio e responder por seus atos? Se a resposta for negativa, quais os
passos que pode dar para estruturar um grupo como esse?
2. Quais são as rachaduras em seu pote, suas fraquezas por meio das quais Deus torna
sua graça evidente aos outros? Temos, com freqüência, de confiar nos outros para
receber esse retorno.
3. Reflita sobre a história de Cafhy e discuta-a. De que formas sua igreja inclui ou
exclui pessoas com problemas da participação no ministério?
4. Quem pode ser deixado de lado da participação no ministério de sua igreja? Os
adolescentes? Os solteiros? Pessoas com deficiências físicas? Alguém mais?
5. O que você acha da afirmação de Thorton Wilder: "No serviço do amor, apenas os
soldados feridos podem se alistar"?
6. Reflita e discuta: "Jesus não é apenas uma muleta; Ele é o hospital inteiro".
7. Discuta as Quatro Leis das Igrejas Perfeccionistas. Até que ponto essas afirmações
são verdadeiras ou falsas em relação à sua igreja?

55
5
O PODER DO EXEMPLO PESSOAL

Em tudo, te dá por exemplo de boas obras...


TITO 2.7

Lembrai-vos dos vossos pastores, que vos falaram a palavra de Deus, a fé


dos quais imitai, atentando para sua maneira de viver.
HEBREUS 13.7

Você pode ensinar às pessoas o que sabe, mas apenas reproduz quem você
é.
ZlG ZlGLAR
Com apenas um exemplo, aprenda sobre tudo.
VIRGÍLIO

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NA IGREJA PRIMITIVA, ALGUMAS PESSOAS TINHAM A TENDÊNCIA de focar tanto a
natureza espiritual de Jesus que praticamente se esqueciam de que Ele teve uma
natureza física, negligenciando, desse modo, sua experiência humana. Eles concebiam
Jesus como um tipo de aparição espiritual que se manifestou na forma humana, porém
sem a substância material dos seres humanos. Os líderes da Igreja Primitiva
reconheceram imediatamente o perigo dessa concepção. Se Jesus não fosse realmente
humano, então não seria preciso que Ele tivesse sofrido na cruz por nossos pecados e,
assim, ainda estaríamos sob julgamento. Esses que pensavam dessa maneira eram os
gnósticos, assim chamados devido à ênfase no conhecimento de verdades especiais
(gnôsis é a palavra grega para conhecimento), mas foram estrondosamente rejeitados. A
Primeira Epístola de João enfatiza fortemente a confissão da humanidade de Cristo, a
fim de alertar aqueles que pendiam para essa tendência gnóstica: "Amados, não creiais
em todo espírito, mas provai se os espíritos são de Deus. [...] Nisto conhecereis o
Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus"
(1 Jo 4.1,2). O problema deles não era com a natureza divina de Jesus, mas com o fato
de Ele ter se tornado um ser humano real. "Totalmente Deus e totalmente humano" —
essa é nossa confissão sobre Jesus.
Havia uma conseqüência prática e ética dessa heresia na Igreja Primitiva, como ficou
evidente em outro grande tema de 1 João. As pessoas que pensam que a experiência
física não é importante têm a tendência a tornar puramente espiritual seu relacionamento
com Deus, mas essa comunhão com o Senhor, na comunidade cristã, não tem efeito
aparente nos relacionamentos com as outras pessoas. Para essas pessoas, João escreve
que não é possível amar a Deus e odiar um irmão ou irmã em Cristo. O mandamento de
amar a Deus está intrin-secamente enredado com o mandamento para que amemos uns
aos outros. Ao cultivar nosso relacionamento com outros cristãos crescemos em nosso
relacionamento com Deus e vice-versa. Jesus, por meio da encarnação, de seus
ensinamentos e de seu exemplo, demonstrou que a salvação espiritual torna-se prática
na reconciliação relacionai com os outros (veja, por exemplo, Mt 18). Deus se importa
com a matéria, mas as pessoas são mais importantes. A Igreja Primitiva foi sábia ao
rejeitar totalmente o gnosticismo e seus mestres.
iím toda a história da igreja, a heresia gnóstica sofreu mutações e reapareceu de várias
formas. Recentemente, ela manifestou-se nas concepções gnósticas de liderança, mais
bem caracterizadas pelos di-zeres de um adesivo para automóveis que comprei alguns
anos atrás: "Não me siga, siga a Cristo!"
Talvez, em uma primeira leitura esse adesivo cause algum impacto Põe Cristo no centro
e demonstra um senso de humildade, pois põe o indivíduo em seu lugar apropriado, a
saber, próximo de Cristo. Porém, como veremos a seguir, isso é exatamente o oposto do
que Paulo ensina sobre o poder do exemplo pessoal.
Na verdade, esse princípio "faça o que eu digo, mas não o que eu faço" não funciona,
pois ninguém o segue, exceto talvez alguns líde-res cristãos que tentam esquivar-se de
seu papel crucial de dar o exemplo. Não é apenas importante o que os pregadores
dizem. Quem são eles e como vivem é mais importante para sua credibilidade e os
frutos produzidos por meio de seu ministério. Por exemplo, um indivíduo pode pregar
sobre a generosidade todos os dias, mas ninguém o escutará se o líder não viver isso. Se
o tesoureiro sabe que o líder é mesquinho em suas contribuições financeiras, se o
pessoal do comitê observa um líder parcimonioso com o salário dos outros, mas que de-
pois briga pelo seu próprio salário, se o comitê de finanças observa que o líder é tímido
e controlado em relação ao uso do dinheiro, então o que foi pregado sobre esse assunto
torna-se sem sentido. A prática do líder fala tão alto que os outros mal podem escutar o

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que ele diz.
Imagine criar filhos com o princípio do "faça o que eu digo, mas não o que eu faço".
Você pode treinar tudo que quiser sobre etiqueta, mas se fala com a boca cheia de
comida, assim também farão seus filhos. Nossas ações falam tão alto que os outros,
quando há discre-pâncias, não podem escutar o que dizemos. A liderança gnóstica não
trabalha para criar filhos e não funciona na igreja. Como Zig Ziglar disse: "Você pode
ensinar às pessoas o que sabe, mas apenas reproduz quem você é". O princípio de
liderança por meio do exemplo não pode ser violado. Sempre modelamos algo, ou
positivo ou negativo.
A Imitação de Paulo
Fiquei surpreso ao descobrir que absorvi uma concepção gnóstica de liderança bem no
início de minha vida cristã. No início da década de 1980, quando estava no seminário,
procurava um livro na biblioteca, na seção reservada ao Novo Testamento, para uma
dissertação que nos fora solicitada. Quando o encontrei, fiquei chocado com o livro ao
lado, cujo título era The Imitation of Paul (A Imitação de Paulo).1 Minha primeira
reação, como bom seminarista, foi agarrar o livro para que pudesse demarcar todos seus
argumentos sub-cristãos. Todos sabem que o centro da vida cristã é a adoração e a
imitação de Jesus, não de Paulo, conforme pensei comigo mesmo.
Fui interrompido em meu objetivo assim que abri o sumário. Fiquei perplexo. Esse livro
era um estudo exegético das onze vezes em que Paulo diz: "Sejais meus imitadores", e
afirmações similares: 1 Coríntios 4.14-17; 11.1; Gaiatas 4.12; Efésios 4.32; Filipenses
3.17; 4.9; 1 Tessalonicenses 1.6,7; 2.14; 2 Tessalonicenses 3-7-9; 1 Timóteo 4.12; Tito
2.7,8. Eu havia comprado inconscientemente a mentalidade do: "Não me siga, siga a
Cristo". Essa circunstância providencial iniciou uma jornada, de uma década de
duração, que culminou com minha tese de doutorado, agora publicada como PauVs
Para-digmatic "I": Personal Example as Líterary Strategy (O "Eu" Paradigmático de
Paulo: Exemplo Pessoal como Estratégia Literária).2 Nessa pesquisa, vou além dos
textos específicos que chamam seus leitores à imitação, pois esse é um estudo, epístola
após epístola, de como Paulo continuamente fundamenta seu argumento ético e
teológico em sua prática e exemplo. Os exemplos mais celebrados são Romanos 7, 1
Coríntios 9 e Gaiatas 1-2, mas a técnica é uniformemente difundida em todas as
epístolas de Paulo para aqueles que o conheciam pessoalmente. Ele, com ousadia, liga
seus ensinamentos e preceitos a seu exemplo e modelo. Se ele não estivesse praticando
o que pregava, então parece improvável que essas epístolas tenham sido colecionadas e
canonizadas. Há muito tempo já foi reconhecida a distinção literária entre o mostre e o
fale. Como Wayne Booth bem expressa, tudo que um ator "mostrar" também serve para
"falar", e "a linha divisória, entre mostrar e falar, de algum modo, é sempre arbitrária".3
A comunicação escrita cheia de poder faz ambos, e a liderança efetiva também.
Paulo, vez após vez, deixa claro que essa é sua abordagem consciente e deliberada de
liderança. Em sua Primeira Epístola aos Coríntios, o apóstolo os lembra de que era
parente espiritual deles, e eles, portanto, deveriam "imitar" seu exemplo.
Porque, ainda que tivésseis dez mil aios em Cristo, não teríeis, contudo, muitos pais;
porque eu, pelo evangelho, vos gerei em Jesus Cristo. Admoesto-vos, portanto, a que
sejais meus imitadores. Por esta causa vos mandei Timóteo, que é meu filho amado e
fiel no Senhor, o qual vos lembrara os meus caminhos em Cristo, como por toda parte
ensino em cada igreja (1 Co 4.15-17).
Se você ler essa passagem com a visão de liderança agnóstica, pode sentir repulsa em
relação às ordens dadas a Timóteo. Este jovem teria de lembrá-los dos caminhos de
Paulo em Cristo: "Como por toda parte ensino em cada igreja". Poderíamos esperar que
Paulo dissesse: "Leia a Bíblia; aprenda com o caminhar de Jesus". Há duas razões pelas

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quais ele não poderia dizer e nào diria isso. Primeiro, o Novo Testamento ainda não fora
colecionado em um só livro, e é bem provável que todos os quatro Evangelhos SÓ
chegaram à forma final bem depois de 1 Coríntios ter sido escrita, Segundo, pelo menos
95% das pessoas em todo o Império Romano eram analfabetas. Os apóstolos e seus
líderes eram o "único evangelho" que a maioria deles havia escutado.
Timóteo, anteriormente, fora enviado para ajudá-los a lembrar o modelo de vida "em
Cristo", vivo e patente, que Paulo incorporara. Esse é um poderoso instrumento de
treinamento. Primeiro, Paulo modelou o comportamento que deveriam imitar. Segundo,
eles são "lembrados", isto é, lembrados em vez de aprender de novo o significado de
viver no Reino de Deus. Terceiro, como Paulo e Timóteo podem viver dessa maneira,
eles são encorajados, pois aprendem que também são capazes de caminhar como eles,
"em Cristo", no poder do Espírito de Deus que lhes foi confiado quando se transferiram
do reino das trevas para o Reino de seu abençoado Filho.
Paulo, no capítulo que se segue, apresenta, muitas vezes, seu exemplo pessoal como
parte de seu argumento e exortação: o que fazer com um homem que se envolve em
relações ilícitas (f Co 5.3); o que fazer com a imoralidade sexual na igreja (1 Co 6.12);
casamento (1 Co 7.7); e o que fazer sobre o problemático assunto da carne oferecida aos
ídolos (1 Co 8.13-9.27). Paulo, após apresentar seu exemplo pessoal em 1 Coríntios 4 e
expor sua exortação em 1 Coríntios 5-10, resume novamente sua técnica crucial de
liderança: "Sede meus imitadores, da mesma forma que também eu pertenço a Cristo.
Recomendo vocês, pois vocês se lembram de mim em tudo e mantêm as tradições como
as entreguei a vocês" (1 Co 11.1,2).
Acima, usei minha própria tradução, pois as versões disponíveis dão a impressão errada
com a seguinte afirmação: "Sede meus imitadores, como também eu, de Cristo". As
palavras "sede meus imitadores" não aparecem na escrita grega de Paulo. "De Cristo"
(Cbristou) é o genitivo possessivo, que traduzi como "pertenço a Cristo". O suporte para
essa tradução é extraído do uso técnico e polêmico que Paulo faz da forma possessiva
"de Cristo", como um identificador de que o indivíduo é cristão.4 Em outras palavras,
"de Cristo" faz parte da taqui-grafia de Paulo para "cristão". O exemplo mais óbvio
disso para o leitor de nossas Bíblias está em 1 Coríntios 1.12, em que Paulo tem de
corrigir a identidade, que causa divisão, daqueles que afirmam: "Eu sou de Paulo, e eu,
de Apoio, e eu, de Cefas". O que Paulo quer que saibam é que são um só corpo, pois
todos são "de Cristo". Isto é, pertencem a Cristo. Da mesma forma, em 1 Coríntios lio
termo "cie Cristo" ressoa com a mesma conotação. Paulo é o exemplo deles para
imitação, pois ele é "de Cristo", como todos eles o são.
Uma outra referência ao termo "de Cristo" encontra-se em 1 Coríntios 11.1, cujo
sinônimo, em 1 Coríntios 4.17, é "em Cristo". Estar "em Cristo" é estar na nova esfera
que opera sob o controle de Cristo, em concordância com os impulsos e a mente de
Cristo. Paulo está confiante que os coríntios são capazes de imitá-lo, pois eles também
estão "em Cristo". Paulo meramente modela o que é possível para todos que entraram na
esfera do poder e do controle de Cristo. Seu exemplo demonstra que a vida cristã é
possível, praticável e atingível. O modelo que Paulo estabelece anuncia: "Eis aqui a
maneira".
Vemos esse mesmo princípio operando em outras epístolas de Paulo:
Sede também meus imitadores, irmãos, e tende cuidado, segundo o exemplo que tendes
em nós, pelos que assim andam (Fp 3-1 D-O que também aprendestes, e recebestes, e
ouvistes, e vistes em mim, isso fazei; e o Deus de paz será convosco (Fp 4.9).
E vós fostes feitos nossos imitadores e do Senhor, recebendo a palavra em muita
tributação, com gozo do Espírito Santo, de maneira que fostes exemplo para todos os
fiéis na Macedônia eAcaia (1 Ts 1.6, 7).

59
Pelo que também damos, sem cessar, graças a Deus, pois, havendo recebido de nós a
palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra de homens, mas
(segundo é, na verdade) como palavra de Deus, a qual também opera em vós, os que
crestes. Porque, vós, irmãos, haveis sido feitos imitadores das igrejas de Deus que,
nafudéia, estão em Jesus Cristo; porquanto também padecestes de vossos próprios
concidadãos o mesmo que os judeus lhes fizeram a eles (1 Ts 2.13,14).
Mandamo-vos, porém, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis
de todo irmão que andar desordenadamente e não segundo a tradição que de nós
recebeu. Porque vós mesmos sabeis como convém imitar-nos, pois que não nos
houvemos desordenadamente entre vós, nem, de graça, comemos o pão de bomem
algum, mas com trabalho e fadiga, trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a
nenhum de vós; não porque não tivéssemos autoridade, mas para vos dar em nós
mesmos exemplo, para nos ímítardes (2 Ts 3.6-9).
Ninguém despreze a tua mocidade, mas sê o exemplo dos fiéis, na palavra, no trato, na
caridade, no espirito, na fé, na pureza. Persiste em ler, exortar e ensinar, até que eu vã.
Não desprezes o dom que há em ti, o qual te foi dado por profecia, com a imposição das
mãos dopresbitério. Medita estas coisas, ocupa-te nelas, para que o teu aproveitamento
seja manifesto a todos. Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina; persevera nestas
coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem (1 Tm
4.12-16).
Em tudo, te dá por exemplo de boas obras; na doutrina, mostra incorrupção,
gravidade, sinceridade, linguagem sã e irrepreensível, para que o adversário se
envergonhe, não tendo nenhum mal que dizer de nós (Tt 2.7,8).
O Princípio DNA: O Fazer Flui do Ser
A prática de Paulo é fundamentada no caráter, ao contrário da técnica impulsionada pelo
ensinar liderança. Sua liderança vivificadora flui da vida que Deus lhe concedeu "em
Cristo". Liderança não se resume tão-somente à capacidade de organização e eficiência
nas tarefas, habilidade de gerenciamento, visão de elenco ou administração eficiente do
tempo. Liderança diz respeito ao modelar a vida em Cristo.
J. Robert Clinton, em Etapas na Vida de um Líder, estuda extensivamente a liderança
fundamentada no caráter.5 Na verdade, ele estuda esse princípio nas vidas de
personagens bíblicos e históricos, e enfatiza o padrão incontestável que ali identifica:
Deus faz algo com seus líderes antes que faça algo por meio deles. Deus ocupa-se da
tarefa de nos tornar mais e mais parecidos com Jesus. À medida que a essência de nosso
caráter é transformada mais e mais, e mais e mais se assemelha a Cristo, tornamo-nos
mais eficientes e mais profícuos em nossa liderança. O desenvolvimento da liderança,
portanto, não é sobre o que fazemos ou como fazemos algo, mas é sobre como somos de
dentro para fora. O fazer flui do ser. Liderança efetiva flui do caráter transformado.
Chamamos isso de o princípio DNA do desenvolvimento de liderança. O velho
provérbio é verdadeiro: o cristianismo não diz respeito tanto ao ser ensinado, mas
captado. As pessoas vêem — ou não — em nós Cristo e seu Reino. O cristianismo não é
apenas cognitivo (um conjunto de crenças), ou comportamental (um conjunto de ações),
mas é emocional, espiritual e social, pois envolve tudo o que somos e todas as nossas
relações. Essa foi a razão pela qual Jesus chamou seus discípulos para que estivessem
com Ele. Eles aprenderiam tanto com o que observavam e escutavam quanto com o
registro que fizeram dos ensinamentos formais de Jesus. A dinâmica espiritual de
submissão a Cristo, de confiança em seu senhorio e obediência a Ele, da graça
transformadora e da compaixão misericordiosa, da confiança profunda na oração e da
obediência radical em todos os assuntos, e assim por diante, só pode ser absorvido se
estivermos convivendo com outros que estão "em Cristo". Afirmações corretas

60
dificilmente são capazes de transmitir tudo o que a vida cristã engloba. Apenas pais ou
mães "em Cristo" podem encarnar para nós a vida no Espírito. Os líderes cristãos devem
ser imbuídos da natureza de Cristo.
Uma outra maneira de dizer isto é que as atividades não constróem o Reino de Deus. O
Espírito de Deus é quem constrói o Reino de Deus. Cooperamos, mais e mais, com o
movimento do Espírito de Deus à medida que nos tornamos mais e mais parecidos com
Cristo, na essência de nosso ser, em nossos pensamentos, em nossos sentimentos e em
nosso comportamento. A conversão é mais do que um comportamento, portanto, a
liderança lambem precisa ser mais do que apenas essa exteriorização. O Reino cie Deus
cresce à medida que mais e mais pessoas tornam-se mais e mais submissas ao desejo e
propósito de Deus e permitem que estes fluam por intermédio delas.
A implicação prática desse ponto é que os líderes vivificadores devem focar quem
realmente são em Cristo. A oração não é apenas um acessório opcional, tampouco a
leitura pessoal da Bíblia o é. Os oradores talentosos, se não estiverem vivendo "em
Cristo", podem ser capazes de entregar mensagens cheias de energia anos a fio sem que
a vida dos que os escutam seja transformada. A liderança vivificadora flui da vida em
Cristo, do andar humildemente com Deus dia após dia. Como a eficiência do que
fazemos flui do caráter de quem somos, logo ser e tornar-se são o foco. Os comitês, os
grupos e tarefas em uma igreja vivificadora precisam prestar atenção ao DNA. O que
importa não é o que estamos fazendo ou o quanto estamos conquistando, mas o caráter
do Reino que demonstramos ao conduzir nossos negócios e a maneira como tratamos as
pessoas nesse processo.
O Poder dos Exemplos Negativos
Há três observações culturais que podemos fazer sobre nossa sociedade, que acentuam a
necessidade de líderes que modelem a vida em Cristo. Primeiro, as informações de uma
determinada geração e as gerações subseqüentes têm a tendência de focar em relaciona-
mentos transparentes e espiritualidade genuína, demonstrando pouca tolerância quanto a
pessoas ou organizações que não parecem reais ou autênticas. Segundo, em nossa
sociedade totalmente voltada para o vídeo, uma imagem vale por mil palavras. Se uma
imagem vale por mil palavras, um vídeo vale por milhões de palavras, e a vida cristã é
uma biblioteca inteira sobre o que significa viver e mover-se "em Cristo". Terceiro,
devido a alguns escândalos de alguns líderes cristãos, amplamente divulgados, e devido
à disseminação de cristãos não-autênticos, há um alto índice de resistência à hipocrisia.
Pessoas de todas as idades estão buscando exemplos que sejam reais e autênticos — o
artigo genuíno.
O ponto é o seguinte: como líderes não podemos dar-nos ao luxo de não modelar.
Sempre modelamos algo, positivo ou negativo. Se decidimos negligenciar o exemplo do
poder pessoal de Paulo, ainda precisamos lidar com as implicações de um testemunho
distinto da mensagem que proclamamos. Um mensageiro que não é muito com-
prometido tende a produzir uma audiência que escuta o evangelho, deposita dinheiro na
bandeja de ofertas e testa os programas oferecidos pela igreja (isso se tornou normal no
cristianismo estadunidense). Um líder altamente comprometido prega e vive essa
dedicação fanática a Cristo e reproduz discípulos radicais que vivem para Cristo e,
portanto, para fazer diferença no mundo.
Dallas Wíllard salienta que deveríamos explicar às pessoas o custo do não-discipulado:
servidão ao pecado, deixar escapar a liberdade que Deus oferece em Cristo, suportar o
peso da culpa e não obter a experiência eterna da vida em Cristo. Da mesma forma,
devemos considerar o custo, como líderes, do não-modelar: desunião dos seguidores,
baixo comprometimento, desconfiança, superficialidade nos relacionamentos,
inautenticidade, ausência do poder vivificador no ministério. O custo do não-modelar é

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tremendo, pois estamos sujeitos ao poder contínuo do exemplo pessoal. Como o velho
provérbio diz: "Seu caminhar fala, e seu falar caminha. Contudo, seu caminhar fala mais
do que seu falar caminha".
Questões para Reflexão e Discussão
1. Discuta a teologia de: "Não me siga, siga a Cristo!"
2. Que papel o modelar desempenha em sua liderança e ensinamento?
3. Se sua maneira de viver fosse "o único evangelho que algumas pessoas pudessem
ler", quais seriam as leituras sobre Deus e seu Reino que teriam a partir de como vêem
sua vida?
4. Que aspectos da essência de seu ser necessitam transformação para que você seja
um líder mais efetivo? E quais características-de sua igreja necessitam o mesmo?
5. Que papel a graça e o Espírito de Deus desempenham quando falhamos em modelar
Cristo para os outros?

62
6
O PODER DOS PARCEIROS

Eu plantei, Apoio regou; mas Deus deu o crescimento.


Pelo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus,
que dá o crescimento. Ora, 0 que planta e o que rega são um;
mas cada um receberá o seu galardão, segundo o seu trabalho.
Porque nós somos cooperadores de Deus;
vós sois lavoura de Deus e edifício de Deus.
1 CORÍNTIOS 3-6-9

Muito da liderança cristã é exercida por pessoas que não sabem


como desenvolver relacionamentos saudáveis e íntimos,
pessoas essas que, em vez disso, optaram pelo poder e controle.
Muitos cristãos, que construíram impérios,
são pessoas incapazes de doar e receber amor.
HENRI NOUWEN

Obviamente, equipes têm melhor desempenho do que indivíduos.


JON R. KATZKNBACH E DOUGLAS K. SMITH

63
OINERGISMO É o PRINCÍPIO QUE AFIRMA que duas ou mais pessoas trabalhando juntas, na
mesma direção, podem conquistar mais do que a soma do trabalho individual delas.
Uma ilustração famosa desse estudo foi feita com dois cavalos. O primeiro conseguia
puxar quatro mil e quinhentos quilos em um trenó. O segundo conseguia puxar seis mil
e trezentos quilos. O que você acha que os dois conseguiriam puxar arreados juntos e
puxando na mesma direção? A maioria das pessoas talvez estimasse cerca de dez mil e
oitocentos quilos, mas a resposta é vinte mil duzentos e cinqüenta quilos! A soma é
maior que a combinação das partes. Obviamente, existe a implicação negativa também.
Se for permitido que os cavalos puxem em direções distintas, a soma total do que
conseguiriam puxar é muito menor do que puxariam individualmente.
Isso funciona da mesma maneira no ministério também. Quando trabalhamos juntos na
mesma direção, a soma de nossos esforços é muito maior do que o que conseguiríamos
realizar individualmente. Paulo usa synergos, a palavra grega que dá origem a
"sinergismo", para descrever seus colegas de trabalho como aqueles que trabalham com
ele na pregação e difusão do evangelho. Ele também os chama de companheiros
(koinônos, koinônia). Para Paulo, ministério no Espírito é ministério de parceria entre
colegas de trabalho. Em um mundo onde prevalece a liderança do tipo "Cavaleiro
Solitário", Paulo nos lembra acertadamente que o ministério de poder — sinergismo no
Espírito — é alcançado quando compartilhamos o ministério, construímos equipes e
confiamos uns nos outros no poder do Espírito.
Temos muitos líderes cristãos do tipo "Cavaleiro Solitário". A imagem do homem
independente e auto-suficiente é quase um clichê para o tipo de liderança que rejeitamos
na igreja. Ainda assim, muitas pessoas concebem sua liderança em termos
exclusivamente individuais, como-. "Eu sou líder e vocês, os seguidores"; "Eu sou o
pastor aqui, e este é meu povo" (o que traz em si um problema teológico ainda maior);
"Minha visão é o que interessa, pois eu sou o líder"; "Estamos fazendo o que algumas
pessoas da igreja querem, mas isso não se ajusta à minha visão". A liderança do tipo
"Cavaleiro Solitário" ameaça muitas igrejas em nossos dias.

A Teologia Paulina do "Nós" e a Heresia do "Eu"


A considerar que essas características são verdadeiras em relação à liderança na igreja,
podemos concluir que a heresia do "eu" poluiu nossa habilidade vivificaciora. A
liderança do individualismo vigoroso reflete a fragilidade do mundo, não o plano
redentor que Deus revelou em Jesus e ordenou-nos que praticássemos por meio da
comunidade da igreja. A concepção de liderança como um cargo administrativo, cujo
ocupante pode ser um componente indispensável em programas abrangentes de
congregações nos Estados Unidos, dificilmente corresponde a um novo plano de Deus
para a liderança. Em um contexto mundano, o líder administrador, com imenso controle
e autoridade, parece-se mais com a liderança dominadora que Jesus condena em Mateus
20 do que com a liderança pautada pela humildade que Jesus modela em Filipenses 2.'
Nossa concepção de liderança no corpo de Cristo deve corresponder à teologia do "nós":
o esforço de equipe. Até mesmo escritores seculares apontam para o desafio da
construção de equipes altamente produtivas nas empresas do ocidente individualista. E
dizem ingenuamente que o individualismo é a razão pela qual a equipe não se forma: há
uma "resistência natural para transpor os papéis e as responsabilidades individuais".2
Em termos bíblicos, rotularíamos isso de resistência "da carne". A alienação, o
isolamento e a arrogância do "tudo por mim mesmo" são frutos amargos da queda de
Adão e Eva, assim como da natureza caída que cada um de nós herdamos.
Para contrastar, quando nascemos "em Cristo" — uma expressão teológica importante
em Paulo, uma de suas favoritas, e um paralelo para os demais empregos do termo

64
crucial "em Cristo" — duas coisas acontecem ao mesmo tempo: reconciliamo-nos com
Deus e tornamo-nos parte de uma nova comunidade que está revertendo os efeitos da
Queda. Começamos a ser religados. Começamos a nos tornar independentes.
Descobrimos que experimentamos um sentido mais profundo da graça e da presença de
Deus à medida que somos envolvidos no grupo de pessoas que estão "em Cristo". O
cristianismo, longe do individualismo humano, revela-se em sua essência na analogia do
apóstolo Paulo sobre o corpo humano, o qual compõe-se de diferentes e igualmente
importantes membros. Os cristãos do tipo "Cavaleiro Solitário" ou são ex-cristãos ou
estão espiritualmente doentes, pois deixam de ter o elemento indispensável da
comunhão como parte de sua vida espiritual. O princípio "fora da igreja não há
salvação" (extra ecclesium nulla salus) é um princípio bíblico, em que compreendemos
"igreja" no sentido amplo — ser parte de um corpo local —, em vez de no sentido
restrito — pertencer a um tipo de denominação específica do cristianismo.
Ser um líder cristão — liderar "em Cristo", conforme a terminologia de Paulo — é um
esforço de equipe no qual cada pessoa contribui com seus dons, e o todo é muito mais
saudável e forte do que qualquer indivíduo. Um exemplo claro desse assunto é visto na
primeira epístola de Paulo aos coríntios. Ele repudia a divisão dessa igreja em relação
aos líderes individuais como evidências de que não estavam caminhando de acordo com
a liderança vivificadora do Espírito Santo, mas caminhando "segundo a carne", um
estilo de vida que leva à morte. Ali, privilegiavam a liderança individualista mais do que
a unidade do ministério do corpo único de Cristo e, desse modo, zombavam da obra que
Cristo realizara — a redenção, a reconciliação e a religação — para reunir-nos em um
único corpo. Para eles, Paulo escreve:
Porque a respeito de vós, irmãos meus, me foi comunicado pelos da família de Cloe que
há contendas entre vós. Quero dizer, com isso, que cada um de vós diz: Eu sou de
Paulo, e eu, de Apoio, e eu, de Cefas, e eu, de Cristo. Está Cristo dividido? Foi Paulo
crucificado por vós? Oufostes vós batizados em nome de Paulo? (1 Co 1.11-13)
Paulo gasta os três primeiros capítulos dessa epístola confrontando tal atitude.
Necessitamos deixar que a magnitude dessa observação se estabeleça em nossa vida.
Ele trata disso em primeiro lugar e como o assunto mais importante, antes que aborde
questões como um caso de envolvimento ilícito (1 Co 5), o litígio judicial, a imoralidade
sexual entre os irmãos (1 Co 6), a carne oferecida aos ídolos (1 Co 8-10),abusos na
adoração (1 Co 11-14) e a compreensão altamente deficiente da ressurreição de Jesus (1
Co 15). Podemos inferir que a questão do individualismo e das facções é um problema
muito mais premente. Afinal, ninguém jamais escutará sobre o poder da ressurreição de
Jesus se o corpo de Cristo se esfacelar. Dada a importância dessas outras questões, isso
transmite a importância — para Paulo e, portanto, para nós também — do "nós", e não
meramente do "eu", na vida "em Cristo".
Paulo ataca diretamente a prática individualista de liderança:
Porque, dizendo um: Eu sou de Paulo; e outro: Eu, de Apoio; porventura, não sois
carnais? Pois quem é Paulo e quem é Apoio, senão ministros pelos quais crestes, e
conforme o que o Senhor deu a cada um? Eu plantei, Apoio regou; mas Deus deu o
crescimento. Pelo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que
dá o crescimento. Ora, o que planta e o que rega são um; mas cada um receberá o seu
galardão, segundo o seu trabalho. Porque nós somos cooperadores de Deus; vós sois
lavoura de Deus e edifício de Deus (1 Co 3-4-9).
A ênfase toda recai sobre a iniciativa e atividade de Deus no corpo de crentes. Um líder
faz a igreja? Não. Apenas Deus a faz, pois só "Deus dá o crescimento" (1 Co 3.7). Paulo
diz que aqueles que têm dons de liderança fazem parte da equipe de Deus, graças à
escolha de Deus e por meio da habilidade que Deus manifesta por meio deles. Nem

65
Paulo nem Apoio são "alguma coisa" (1 Co 3-7) se Deus não operar por intermédio
deles. Antes, os líderes servem a um propósito comum — o propósito de Deus, não de
seus planos pessoais. A razão para isso é que somos co-trabalhadores de Deus
(synergoí)? Unimo-nos a Deus naquilo que Ele realiza em sua "lavoura" e "edifício".
(Isso é o que torna tão sem fundamento a afirmação possessiva de um pastor que diz:
"Meu povo!") Portanto, Paulo pode resumir sua repreensão: "Portanto, ninguém se
glorie nos homens; porque tudo é vosso: seja Paulo, seja Apoio, seja Cefas, seja o
mundo, seja a vida, seja a morte, seja o presente, seja o futuro, tudo é vosso, e vós, de
Cristo, e Cristo, de Deus" (1 Co 3.21-23).
Os primeiros três capítulos de 1 Coríntios contêm a repreensão direta às concepções
individualistas de ministério e liderança. Em 1 Coríntios 12, Paulo discorre sobre essa
visão positiva do que significa estar "em Cristo", a saber, experimentar a presença
vivificadora de Cristo por meio da comunidade de crentes. Pois estar "em Cristo" é
inseparável de estar na comunidade e em comunhão com o povo de Cristo. Ele exorta os
coríntios a entender a unidade e a interdependência que advêm cie nosso ingresso na
vida no Espírito por meio da fé em Jesus Cristo.
Como há "diversidade" de dons, cie ministérios e de operações a serem realizados pelo
povo de Deus, é possível que os individualistas veementes pensem que seu ministério
ou operação é o mais importante de todos e que seu dom é o aspecto mais importante da
equipe. Paulo reitera o que disse em capítulos anteriores: que há apenas um Espírito e
apenas um Deus, que opera por meio de cada dom e habilidade e por meio de todos eles
(1 Co 12.4-6). Os dons individuais são dados a eles para que exercitem-nos em favor do
bem comum. A ênfase recai sobre a unidade que temos graças ao Deus único que
exercita esses dons (1 Co 12.8-11). Como Deus é o fator de união do corpo, a divisão e
o individualismo são indicadores claros de que o indivíduo não é co-trabalhador de
Deus.
Paulo retrata essa situação das mais variadas formas:
Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros, sendo
muitos, são um só corpo, assim é Cristo também. Pois todos nós fomos batizados em um
Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e
todos temos bebido de um Espírito. Porque também o corpo não é um só membro, mas
muitos (1 Co 12.12-14).
Por conseguinte, Paulo ressalta que o campo foi nivelado para todos nós. Estão
enganados todos aqueles que acham que seu ministério não é importante, pois não têm
os dons de outros, ou por não achar que o que fazem é relevante (1 Co 12.15-31). O
papel que cada um de nós desempenha no corpo é conforme a designação de Deus
segundo a vontade do Senhor (1 Co 12.18). Não importa se achamos que é relevante ou
não. Essa é a obra de Deus, portanto qualquer atribuição que nos seja dada é uma
designação divina e tem significância crucial. Logicamente, a conseqüência é que
nenhum de nós pode desprezar as outras partes do corpo ao achar que não necessitamos
dela ou que elas são desnecessárias ou dispensáveis (1 Co 12.21-31). A igreja é um
barco em que viajamos todos juntos. Seria uma tremenda tolice achar que podemos
afundar uma parte do barco sem nos molhar. O capítulo sobre o amor, que vem logo a
seguir na Bíblia (1 Co 13), não é sobre casamento, embora seja usualmente lido nessas
cerimônias. Contudo, conforme seu contexto, é aplicado aos aspectos relacionais
essenciais para a vida "em Cristo" com outros cristãos.
A teologia paulina do "nós", como aqui denominada, chama-nos a agir e liderar de
maneiras inovadoras, pois somos parte dos redimidos. A heresia do "eu" contradiz
diretamente a obra de reconciliação que Deus realiza. A Queda nos esfacelou, A
redenção devolve-nos a unidade. Líderes individualistas modelam o esfacelamento, não

66
a redenção. Apenas a liderança em equipe retraia corretamente a nova vida em Cristo e
no corpo de Cristo.'
Paulo e sua Linguagem sobre Parceria
Paulo pratica o que prega. A teologia paulina do "nós" funciona por meio da
compreensão de que o participar na igreja é compartilhar responsabilidades entre
parceiros. Koinonia tornou-se uma palavra popular na década de 1970, utilizada para
descrever o aspecto relacionai do ser cristão. Essa é uma transi iteração direta da palavra
grega koinonia. Tanto esta palavra quanto koinônos, ambas com a mesma raiz, são
traduzidas de várias formas, a saber, "comunhão", "companheirismo", "participação" e
"contribuição". Koinonia, para Paulo, é muito mais do que apenas tomar um cafezinho
com os irmãos após o culto. Paulo usa koinonia de três formas distintas, que juntas
retratam sua compreensão de que nascer em Cristo é nascer para uma parceria real com
outros que estão em Cristo.
Primeiro, koinônia tem o significado de comprometido, de relacionamentos
compartilhados. Nascer em Cristo é experimentar uma ligação real com o Senhor e com
o seu povo. Tornar-se cristão é restaurar o relacionamento com Jesus e ser chamado
para a comunidade dos redimidos: "Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a
comunhão de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor" (1 Co 1.9). Experimentar a graça e
o amor de Deus é unir-se com Ele na família de seu povo: "A graça do Senhor Jesus
Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão [koinônia] do Espírito Santo sejam com vós
todos. Amém!" (2 Co 13.13, grifo do autor) Koinônia é algo que vem de Deus e nasce
dEle por meio do Espírito Santo na comunidade.
Essa compreensão das dimensões verticais e horizontais da parceria em Cristo pode ser
mais nitidamente observada nas palavras de Paulo aos coríntios:
Porventura, o cálice de bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de
Cristo? O pão que partimos não é, porventura, a comunhão do corpo de Cristo?
Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo; porque todos participamos
do mesmo pão. Vede a Israel segundo a carne; os que comem os sacrifícios não são,
porventura, participantes do altar? Mas que digo? Que o ídolo é alguma coisa? Ou que
o sacrificado ao ídolo é alguma coisa? Antes, digo que as coisas que os gentios
sacrificam, as sacrificam aos demônios e não a Deus. E não quero que sejais
participantes com os demônios. Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos
demônios; não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demônios (1
Co 10.16-21).
Fica claro que essa é uma ligação de parceria exclusiva. Nosso relacionamento com
Jesus e seu povo não é uma parceria dentre muitas, mas aquela que é análoga à
fidelidade no casamento (veja Ef 5.21-33).
Como tornamo-nos parceiros de Jesus e de outros cristãos na comunidade dos
redimidos, Paulo pôde escrever o seguinte em sua Segunda Epístola aos Coríntios-.
"Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque que sociedade [metochç]
tem a justiça com a injustiça? E que comunhão [koinônia] tem a luz com as trevas?" (2
Co 6.14) A Bíblia Viva, neste texto, traduz koinônia por "conviver", definitivamente
uma tradução muito fraca para este termo. Paulo não está dizendo que os cristãos não
devem conviver com os infiéis, mas apenas que não devíamos ter ligações de fidelidade,
como no casamento, com eles.
A segunda maneira que Paulo usa koinônia é para se referir às implicações financeiras
acarretadas por uma parceria. Esse uso da palavra grega é paralelo ao uso da palavra
latina societas, "parceria", de acordo com a lei romana, um relacionamento legal entre
iguais.5 As igrejas são parceiras de Paulo em suas diligências missionárias, pois elas o
apoiam por meio cias orações, do envio de auxiliadores e das contribuições para a

67
continuidade do trabalho missionário. "E o que é instruído na palavra reparta
\koinôneitõ\ de todos os seus bens com aquele que o instrui" (Gl 6.6).
Os filipenses talvez sejam os parceiros mais significativos de Paulo nessa obra. O tom
de sua epístola a eles é o mais pessoal e amigável dentre todas. Ele inicia expressando o
quanto é grato pela parceria deles: "Pela vossa cooperação no evangelho desde o
primeiro dia até agora" (Fp 1.5). A expressão concreta dessa parceria foi o envio de um
auxiliador, Epafrodito (Fp 2.25), que "chegou até bem próximo da morte, não fazendo
caso da vida, para suprir para comigo a falta do vosso serviço" (Fp 2.30). Essa ajuda
concreta não é meramente espiritual, mas vincula o comprometimento financeiro deles à
obra de Paulo:
Todavia, fizestes bem em tomar parte na minha aflição. Ebem sabeís também vós, ó
filipenses, que, no princípio do evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma igreja
comunicou comigo com respeito a dar e a receber, senão vós somente. Porque também,
uma e outra vez, me mandastes o necessário a Tessalônica. Não que procure dádivas,
mas procuro o fruto que aumente a vossa conta. Mas bastante tenho recebido e tenho
abundância; cheio estou, depois que recebi de Epafrodito o que da vossa parte me foi
enviado, como cheiro de suavidade e sacrifício agradável e aprazível a Deus (Fp 4.14-
18)
Parceria não é uma realidade espiritual que pode ser separada de suas implicações
físicas e sociais. Compartilhar a comunhão no Espírito é ser parte de um corpo, cuja
implicação é que quando o indivíduo tem uma dificuldade ou necessidade, todas as
partes cio corpo a compartilham. Os filipenses compreenderam totalmente essa implica-
ção do evangelho em sua parceria tangível com Paulo e sua missão. Paulo, em outro
texto, aplica essa mesma compreensão de comunhão e parceria ao relacionamento de
suas igrejas com os cristãos pobres que estavam em Jerusalém, recolhendo ofertas para
eles (Rm 15.26,27; 2 Co 8.3-5; 9.13).
O terceiro viso que Paulo faz do termo koinônia reúne os dois outros significados no
sentido de uma parceria de trabalho real entre dois companheiros de trabalho ou sócios
de um negócio. Essa é a maneira pela qual ele compreendeu seu relacionamento com os
apóstolos em Jerusalém: "E conhecendo Tiago, Cefas e João, que eram considerados
como as colunas, a graça que se me havia dado, deram-nos as destras, em comunhão
[koinônias] comigo e com Barnabé, para que nós fôssemos aos gentios e eles, à
circuncisão" (Gl 2.9).
"Comunhão", aqui, deve ser compreendida no sentido mais profundo de uma parceria de
trabalho. Paulo, Barnabé, Tiago, Pedro e João chegaram a um acordo de trabalho que
direcionou as diligências missionárias futuras. Paulo e Barnabé deveriam focar o campo
de missão direcionado aos gentios, e as colunas — os apóstolos — deveriam focar os
judeus.
Podemos ver a mesma compreensão do compartilhar a missão juntos embasando os
relacionamentos de Paulo com outros cristãos. Paulo escreve a Filemom sobre o escravo
deste, Onésimo: "Assim, pois, se me tens por companheiro, recebe-o como a mim
mesmo" (Fm 17). Sobre Tito, ainda, escreve o apóstolo: "Quanto a Tito, é meu compa-
nheiro e cooperador para convosco-, quanto a nossos irmãos, são embaixadores das
igrejas e glória de Cristo" (2 Co 8.23).
A teologia paulina da parceria é também indicada pela maneira como ele se refere a
seus muitos companheiros. T. R. Glover foi a primeira pessoa a apontar a preferência de
Paulo por palavras com o prefixo syn, que significa "com" ou "co-". Esses componentes
lingüísticos, diz Glover, têm duas funções principais: enfatizar a união de Paulo com o
Cristo crucificado e ressurreto e enfatizar sua parceria com outros cristãos em sua
missão de propagar o evangelho.6 Paulo chamava seus parceiros do campo missionário

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de "cooperadores", "companheiros de prisão" (co-prisioneiros), "conservos" (co-
escravos), "companheiros nos combates" (co-soldados) e "colaboradores".
• Cooperadores (synergos, Rm 16.3,7,9,21; 2 Co 8.23; Fp 2.25; 4.3; Cl 4.,11-14; Fm
24)
• Companheiros de prisão [co-prisioneiros] (synaicbmalôtos, literalmente
"companheiro prisioneiro cie guerra", Cl 4.10; Fm 23)
• Conservos (syndoulos, Cl 1.7; 4.7)
• Companheiros nos combates [co-soldados] (systratiôtçs, Fp 2.25; Fm 2)
• Colaboradores (synathleô, Fm 1, ARA)
A Teologia Paulina da Parceria em Ação
A teologia paulina da parceria não era apenas uma questão de palavras; podemos
observá-la em funcionamento na maneira pela qual ele conduzia a tarefa missionária
que lhe fora confiada e a seus cooperadores. Para exemplificar, podemos mencionar o
episódio em que Paulo enviou Timóteo para lidar com a situação da igreja de Corinto
em vez de ir pessoalmente (1 Co 4.7). Timóteo, conforme a narrativa, recebeu a
incumbência de lidar com uma das situações mais explosivas da igreja do Novo
Testamento. Se Paulo estivesse operando de forma individualista, ele mesmo lidaria
com a situação. No entanto, ele envia um companheiro legítimo do trabalho missionário
para lidar com problemas complicados referentes à moralidade sexual, aos litígios
legais, às carnes sacrificadas a ídolos, à adoração desordenada e às visões equivocadas
sobre a ressurreição. Paulo, para certificar-se, envia uma epístola que Timóteo entrega à
comunidade. Contudo, responder aos problemas em questão e observar que a situação
fosse conduzida de forma apropriada cabia a Timóteo. Paulo pratica o eme ensina:
"Missão é parceria" (veja Fp 2.19-30; 1 Ts 3.2-5).
Um outro exemplo é o caso referente à maneira como Paulo se dirige a Filemom e a sua
comunidade para que tratem a questão relacionada ao escravo de Filemom, Onésimo.
Na cultura individualista em que vivemos, podemos achar estranho que Paulo escreva a
Filemom e a toda a comunidade que se reúne na casa deste para tratar de um assunto
referente a uma propriedade pessoal de Filemom — o escravo chamado Onésimo (Fm
1,2). Nosso individualismo pode nos levar a fazer o seguinte comentário: "Isso não diz
respeito à igreja. Por que Paulo inclui a igreja nesse assunto?" No entanto, este
comentário soaria igualmente bizarro a Paulo. Para ele, era óbvio que deveria escrever à
igreja. Somos todos parte de um corpo. As coisas que afetam dois de nós (Filemom e
seu escravo Onésimo) afetam todos nós. Na mente de Paulo, toda ética é uma ética da
comunidade. Nossa vida em Cristo necessariamente acarreta a aplicação comunitária de
nossa ética. Portanto, Paulo aborda essa questão da perspectiva do "nós", não da do
"eu": "Assim, pois, se me tens por companheiro, recebe-o como a mim mesmo" (Fm
17). Paulo escreve a Filemom e sua igreja, pois a igreja toda é afetada pelas decisões
éticas de seus membros individuais.
Companheiros de Paulo no Ministério
É importante observar uma outra evidência da teologia de parceria de Paulo. Nas treze
breves epístolas de Paulo, mais de cem pessoas são identificadas como seus
colaboradores e cooperadores no ministério.7 Além dos que conhecemos por nome, ele
se refere a um sem-número de amigos e colaboradores, embora não os identifique.K
Abaixo estão alguns de seus colaboradores, cujos nomes nos soam familiar.
Ananias. Primeiro parceiro de Paulo após tomar-se cristão. Paulo, em uma queda
repentina, perdeu sua posição de fariseu ao reconhecer Cristo como seu Senhor.
Nenhum cristão, devido a sua reputação de perseguidor, tinha o anseio de postar-se ao
lado de Paulo. Ananias, em virtude da insistência do Espírito Santo, postou-se ao lado
dele e deu-lhe a assistência necessária até que seus olhos fossem curados. Talvez ele

69
seja também a pessoa que batizou Paulo (At 9.18).
Barnabé. Quando Paulo foi a Jerusalém, ele fez as apresentações necessárias aos
apóstolos (At 9-27). Mais tarde, ele persuadiu Paulo a ajudá-lo em Antioquia, onde
juntos passaram frutíferos anos. Juntos também iniciaram a primeira jornada
missionária.
Silvano, chamado Silas em Atos, foi quem levou o evangelho a Tessalônica e a Corinto,
juntamente com Paulo e Timóteo. Ele é mencionado como o co-autor de 1
Tessalonicenses. Foi companheiro de sofrimento de Paulo em Filipos (1 Ts 2.2; At
16.19-24) e era o único colaborador missionário de Paulo que também era cidadão
romano (At 16.37,38).
Timóteo de Listra, o mais proeminente colaborador de Paulo, é citado na saudação de
seis das treze epístolas de Paulo, e há mais duas que lhe são especificamente
endereçadas. Ele era natural de Listra, filho de mãe judia e pai grego, mas foi educado
por sua mãe, Eunice, na fé judaica. Sua mãe provavelmente converteu-se a Cristo na
visita de Paulo a Listra (At 14.6,7), e essa é a razão por que Paulo se refere a ele como
"meu verdadeiro filho na fé" (1 Tm 1.2).
Lucas, o médico. O autor de Atos se identifica como companheiro de viagem de Paulo
nas passagens em que se refere a "nós" (que se iniciam em At 16.10; 20.5; 27.1), em que
a narrativa de Lucas na terceira pessoa ("eles", "deles") dá lugar ao registro na primeira
pessoa do plural ("nós", "nosso"). Paulo se refere a ele três vezes em suas epístolas (Cl
4.14; 2 Tm 4.11; Fm 24). Ele viajou com Paulo para vários lugares, como Filipos,
Jerusalém e Roma. Obviamente, ele tinha um bom conceito de Paulo, uma vez que este,
em Atos dos Apóstolos, é colocado como o herói central.
Priscila e Áqüila (Rm 16.3; 1 Co 16.19; 2 Tm 4.19). Priscila é mencionada primeiro, o
que sugere que talvez tivesse uma posição mais elevada. Ela pertencia a uma antiga e
ilustre família romana. "Na sociedade secular da época, quando a esposa é mencionada
antes de seu marido, isso deve-se, com freqüência, à posição social mais elevada da
mulher".9 Áqüila fazia tendas (ou talvez, skçnopoios possa ter um sentido mais amplo
do que "aquele que trabalha com o couro"). Lucas registra:
Depois disto, partiu Paulo de Atenas e chegou a Corinto. E, achando um certo judeu
por nome Áqüila, natural do Ponto, que havia pouco tinha vindo da Itália, e Priscila,
sua mulher (pois Cláudio tinha mandado que todos os judeus saíssem de Roma), se
ajuntou com eles, e, como era do mesmo ofício, ficou com eles, e trabalhava; pois
tinham por ofício fazer tendas (At 18.1-3).
A conexão de Paulo com eles era realmente fortuita. Eles, é bem provável, plantaram a
igreja em Roma e, posteriormente, forneceram uma apresentação para o apóstolo
quando este foi para a capital do império. Este os encontrou em Corinto, e eles serviram
juntos, em Éfeso, durante alguns anos difíceis.
Apoio de Alexandria. Ele provavelmente fora membro de uma grande comunidade
judaica em Alexandria, uma vez que era "varão eloqüente e poderoso nas Escrituras"
(At 18.24). Priscila e Áqüila o escutaram falar e perceberam tratar-se de um discípulo de
Jesus cujo conhecimento necessitava ser complementado em algumas lacunas.
Tito. Provavelmente um dos convertidos de Paulo (Tt 1.4); ele acompanhou Paulo e
Barnabé a Jerusalém (Gl 2.1) e, como gentio convertido, serviu como teste vivo para o
caso que defenderiam em relação aos gentios convertidos. Ele era um colaborador de
Paulo, que foi enviado a Corinto, em meio a alguns dos conflitos mais acirrados, para
resolver os problemas ali existentes.
Onésimo de Colosso. Esse escravo veio a Paulo como amicus domini (lei "amigo do
mestre") e, nesse processo, tornou-se cristão. A breve história é encontrada na Epístola a
Filemom, a menor de todas as epístolas de Paulo. Posteriormente, em Colossenses 4, em

70
uma passagem em que Paulo identifica a si mesmo e a seus colaboradores como "servos
[escravos] de Cristo", é muito relevante o fato de Paulo não se referir a Onésimo dessa
maneira. Antes, o ex-escravo tornou-se um dos colaboradores mais valiosos de Paulo e
é honrado como o "amado e fiel irmão" (Cl 4.9).
Muitos Outros
Marcos (Cl 4.10; Fm 24) Aristarco (Cl 4.10; Fm 24)
Ândrônico e Júnia, provavelmente uma equipe de marido e mulher,10 "os quais se
distinguiram entre os apóstolos" (Rm 16.7)
Filemom (Fm 1)
Epafrodito (Fp 2.25), o mesmo que Epafras (Cl 1.7; Fm 23)
Clemente (Fp 4.3)
Urbano (Rm 16.9)
Jesus, chamado Justo (Cl 4.11)
Demas (Cl 4.14; Fm 24), que posteriormente abandona Paulo (2 Tm 4.10)
Tíquico (Cl 4.7) e "os outros cooperadores, cujos nomes estão no livro da vida" (Fp 4.3)
Arquipo (Fm 2)
Evódia (Fp 4.2,3)
Síntique (Fp 4.2,3)
Tércio, a quem foi ditada a Epístola aos Romanos (Rm 16.22)
Febe (Rm 16.1)
Erasto (Rm 16.23)
Quarto (Rm 16.23)
Trifena (Rm 16.12)
Trifosa (Rm 16.12)
Pérside (Rm 16.12)
Maria (Rm 16.6)
Onesíforo (2 Tm 1.16-18)
Reprodução, não Produção
Muitos líderes cristãos têm a tendência cie conceber liderança em termos dos objetivos
alcançados ou da produção cie um programa que possa ser medido em vista do número
de pessoas que dele participaram ou da quantidade de dinheiro arrecadada e gasta por
intermédio dele. O foco da liderança vivificadora é bem distinto. Não diz respeito à
criação de um produto, mas à reprodução da vida de Cristo em indivíduos e na
congregação. O foco é a reprodução da vida do Espírito.
Você quer multiplicar seu ministério? Você quer crescer, expandir e aumentar seu
impacto para o Reino de Deus? O foco deve ser o desenvolvimento e alistamento de
parceiros para o trabalho. Paulo afirma sucintamente a Timóteo esse princípio
operacional: "Tu, pois, meu filho, fortifica-te na graça que há em Cristo Jesus. E o que
de mim, entre muitas testemunhas, ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos
para também ensinarem os outros" (2 Tm 2.1,2).
Paulo prevê o desenvolvimento de quatro gerações nessa breve exortação: a liderança de
Paulo, a liderança de Timóteo, aqueles a quem Timóteo prepara, os quais continuam a
preparar outros. Reprodução é a chave efetiva do ministério, não produção.

71
Questões para Reflexão e Discussão
1. O que melhor descreve sua filosofia de liderança — aquela que o caracteriza como
um administrador ou como responsável por um trabalho em equipe? Como os outros
descreveriam seu estilo?
2. Leia Filemom. Como você lidaria com a situação referente a Onésimo? Na
comunidade ética de Paulo, o que o entusiasma ou o preocupa?
3. Quem são seus parceiros-chave no ministério? Ultimamente, como você se mostra
agradecido a eles ou os confirma perante a comunidade?
4. Que crente você está discipulando ou mentoreando? Como você reproduz seu estilo
de liderança? E em quem?

72
7
POR MEIO DA ORAÇÃO

Por causa disso, me ponho de joelhos diante do Pai de nosso Senhor Jesus
Cristo, [...]para que, segundo as riquezas da sua glória, vos conceda que
sejais corroborados com poder pelo seu Espírito no homem interior.
EFÉSIOS 3.14,16

Dou graças a Deus, a quem, desde os meus antepassados, sirvo com uma
consciência pura, porque sem cessar faço memória de ti nas
minhas orações, noite e dia.
2 TIMÓTEO 1.3

Se Deus quiser torná-lo grandemente útil, Ele precisa ensiná-lo a orar.


CHARLES SPURGEON
O que parece estar faltando nesse labirinto desconcertante de
programas é ênfase na oração semelhante à forte dependência da ação
— como se o que realmente importasse fosse o gerenciamento,
a estratégia e os objetivos.
DAVID RAMBO
A questão central é: os líderes do futuro são verdadeiramente homens e
mulheres de Deus, pessoas com o ardente desejo de habitar na presença
de Deus, de ouvir a voz de Deus, de mirar a beleza de Deus, de tocar a
palavra encarnada de Deus e de apreciar totalmente a sua infinita
bondade?
HENRI NOUWEN

Não devemos pensar que esperar em Deus significa efetuar menos,


Quem pode efetuar mais, você ou o Deus dos céus e da terra? O
problema central de nossa geração não é o de que o mundo, ao
observar a igreja, a vê tentando efetuar o trabalho do Senhor na carne?
FRANCIS SCHAEFFER

73
CONTA-SÈ A HISTÓRIA DE UM TALENTOSO PIANISTA do leste europeu que fazia
apresentações nos Estados Unidos. Sua atuação fez com que pessoas da alta sociedade,
pertencentes aos negócios formais das grandes cidades, atravessassem o país para vê-lo.
Um casal levou seu filho cie doze anos, um jovem impetuoso, a uma dessas
apresentações. Ele, apertado em um smoking, sentia-se claramente desconfortável no
ambiente formal e esperava, entediado, enquanto a aristocracia local desfilava até suas
poltronas.
O garoto, enquanto seus pais estavam ocupados em uma conversa com um sócio,
abandonou sua poltrona e começou a explorar o auditório. Descobriu rapidamente o
caminho para o palco. Sem considerar a situação, sentou-se ao enorme piano de ébano,
bem no centro do palco, inundado com a luz dos refletores. Parece que ninguém o
notou, até que começou a tocar.
Martelou, com todo entusiasmo, a única canção que conhecia: "Sinos de Belém". A
multidão, imediatamente, ficou calada, e o olhar coletivo voltou-se para aquele insolente
garoto ao piano. Obviamente, seus pais ficaram perplexos quando perceberam que era o
seu filho. O que poderiam fazer?
No meio tempo, nos bastidores, o pianista escutou a música. Olhou através das cortinas
laterais do palco e viu o que estava acontecendo. Sem pestanejar, caminhou suavemente
até ficar atrás do garoto que tocava a singela música e debruçou-se sobre o ombro dele e
sussurrou: "Continue! Não pare". O garoto, com esse encorajamento, começou a tocar
com mais vigor e entusiasmo. O pianista continuou sussurrando: "Continue! Não pare".
Assim, o garoto continuou, e o pianista, com sua mão direita, o circundou e começou a
tocar uma contra-melodia improvisada. Alcançou o teclado com sua mão esquerda e
adicionou uma linha melódica com a clave de fá. Todo o tempo, sussurrava: "Continue!
Não pare". Eles finalizaram com um floreado e foram ovacionados em pé. A multidão
— exceto os mor-tificados pais do garoto — não tinha consciência de que isso não fora
planejado.
O pianista é uma metáfora maravilhosa para o que o Espírito Santo faz em nossa vida e
ministério quando confiamos nEle. Ele recolhe nossas orações e vida do tipo "Sinos de
Belém" e as transforma em um maravilhoso concerto, encorajando-nos o tempo todo:
"Continue! Não pare". Sem o Espírito Santo, nossa liderança é uma canção infantil sem
graça. Por meio da dependência confiante em Deus, a oração faz com que nossos
esforços se transformem em algo que Deus torna maravilhoso.
O Poder do Espírito Santo Liberado na Oração
A oração é o motor a vapor que alimentou o ministério do apóstolo Paulo. Ele aprendera
que o esforço humano é infrutífero sem a unção e o poder do Espírito. Há técnicas de
liderança e de gerenciamento que funcionam em um sentido secular, mas a liderança
vivificadora nasce por meio da oração e da contínua dependência de Deus, assim como
está imersa nesses aspectos e é conduzida por eles.
Esta compreensão não se iniciou com Paulo, pois já era característica da cultura de
liderança da Igreja Primitiva. Podemos mencionar, para exemplificar com um fato da
Igreja Primitiva, o fato de que Pedro, na época em que esteve com Jesus, aprendera, por
tentativas e erros, o poder da oração e da bancarrota dos esforços humanos sem Deus.
De início, observamos Pedro como um discípulo ávido por expressar suas idéias,
incapaz de discernir entre seus pensamentos e os de Deus, e de rapidamente jactar-se em
sua força. Depois de ter passado pela experiência da crucificação de Jesus e
testemunhado sua ressurreição, cie aprendera a não confiar em sua força ou sabedoria,
mas apenas a confiar e a depender do poder de Deus através do Espírito e em nome de
Jesus. Em Atos 3, podemos observar um exemplo primordial de

74
como Pedro crescera por meio de sua reação à cura do coxo à porta do Templo.
Ver esse homem correr e pular e louvar a Deus foi algo magnífico. Pedro e João, caso
não tivessem sido cuidadosamente discipulados, poderiam facilmente açambarcar a
glória desse milagre, recebendo o crédito por algo que Deus fizera. Pressentindo a
torrente de entusiasmo graças a esse evento espetacular, Pedro rapidamente desvia a
atenção de si, dirigindo-a para a obra de poder de Deus: "Varões israelitas, por que vos
maravilhais disto? Ou, por que olhais tanto para nós, como se por nossa própria virtude
ou santidade fizéssemos andar este homem?" (At 3-12) Líderes vivificadores
compreendem que essa é uma tendência forte de nossa carne — isto é, de nossa natureza
pecaminosa — dar crédito a seres humanos e não a Deus. Quando estamos na carne em
vez de no Espírito, naturalmente, pensamos em termos do esforço humano e da lei
natural de causa e efeito. Quando estamos no Espírito, estamos totalmente conscientes
de que a batalha é direcionar todos os olhares ao Senhor e desviá-los do orgulho huma-
no. Portanto, Pedro os instrui a observar o poder que vem por meio da oração em nome
de Jesus: "E, pela fé no seu nome, fez o seu nome fortalecer a este que vedes e
conheceis; e a fé que é por ele deu a este, na presença de todos vós, esta perfeita saúde"
(At 3-ló).
Talvez esse seja um ponto extremamente elementar para expor a leitores de um livro
sobre liderança cristã, mas minha experiência levou-me a perceber que é uma questão
fundamental na igreja impotente e sem poder de nossa cultura. O profissionalismo
substituiu a oração. Temos líderes altamente qualificados e preparados que quase nunca
oram e cujos ministério e liderança são, portanto, espiritualmente sem poder. O
empobrecimento espiritual da igreja em nossa cultura deixou-nos com uma liderança
carnal, cujo foco é a aparência e o esforço humano e, portanto, está ausente o trabalho
liderado e fortalecido pelo Espírito, o qual traz vida, alegria e salvação. Boas idéias,
como as de Pedro: "Jesus, pare de falar de sua morte dessa forma" (Mc 8), são de
origem demoníaca, conforme a repreensão que Jesus lhe fez: "Retira-te de diante de
mim, Satanás; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas as que são dos
homens" (Mc 8.33). Isso também pode ser dito em relação à pessoa que se envolve em
muitas atividades, mascaradas de ministério. Isso tem origem humana, pois falta a
unção e o fortalecimento de Deus. Líderes vivificadores têm consciência de que não
vale a pena realizar muitas boas idéias. Eles buscam a direção de Deus com a profunda
convicção de que os caminhos de Deus são mais sublimes do que os nossos e de que os
pensamentos de Deus são mais elevados do que nossos planos e esquemas.
A oração é essencial para o ministério efetivo, e a razão teológica para isso é que a
oração é um sinal indispensável de que Deus nos tornou seus filhos por intermédio do
Espírito Santo (Rm 8.12-27; Gl 4.6). Aqueles que vivem "segundo a carne" —
conforme sua força e desejo pessoais e por seus próprios propósitos — disseminam a
morte em seu ministério (Rm 8.13). Contudo, os que são "guiados pelo Espírito"
pertencem a Deus, pois são seus filhos e herdeiros (Rm 8.14). Eles são aqueles que
nasceram do Espírito e podem clamar: "Aba, Pai!" (Rm 8.15) Os que são nascidos do
Espírito são os que espalham as sementes espirituais que são colhidas em um ministério
vivificador.
Devo prevenir uma possível má interpretação da idéia que estou explanando. Para
Paulo, a oração não desloca a razão e a ação responsável. Contudo, a oração é tão
essencial na vida de Paulo quanto a razão e a ação. Ele jamais diz: "Ore, não pense".
Tampouco afirma, como diz a velha anedota sobre os cristãos irrefletidos: "Sejam trans-
formados pela remoção de sua mente". Antes, ele afirma a renovação da mente em
Cristo: "... transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que
experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus" (Rm 12.2). Porém,

75
a abordagem ministerial de Paulo contrasta totalmente com aqueles que pensam ou
agem sem orar. Paulo mantém o equilíbrio entre oração e pensar, assim como devemos
fazer: "Que farei, pois? Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento;
cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento" (1 Co 14.15).
A escolha de Paulo é "tanto-mais", não "ou-ou". Ele ora com a mente e no Espírito.
Graciosamente, quando não sabemos como orar ou agir em uma determinada
circunstância, "... o Espírito ajuda as nossas fraquezas; porque não sabemos o que
havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos
inexprimíveis" (Rm 8.26). O teólogo Oscar Cullmann diz: "O Espírito Santo é quem
intercede em oração. Essa é a verdade profunda sobre oração que devemos ao
apóstolo".1
O Ministério de Paulo, Nascido na Oração
Paulo, do início ao fim de seu ministério, modela a dependência em Deus por meio da
oração. Desde o início, os esforços missionários de Paulo nasceram na oração. Lucas
registra como a igreja de Antioquia recebeu a direção para ungir Paulo e Barnabé por
seu trabalho missionário: "E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo:
Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando, e
orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram. E assim estes, enviados pelo
Espírito Santo, desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre" (At 13-2-4).
Essa também era a prática de Paulo quando nomeava a liderança para igrejas que
fundava. Ele iniciava o ministério pela oração: "E, havendo-lhes por comum
consentimento eleito anciãos em cada igreja, orando com jejuns, os encomendaram ao
Senhor em quem haviam crido" (At 14.23). "Orando com jejuns" é a frase-chave,
reminiscência da oração de Jesus feita durante toda uma noite, antes de selecionar seus
doze discípulos.
Esses dois exemplos ilustram a importância da oração no início do ministério. Todo
ministério, desde o início, necessita nascer da oração e estar imerso nela. O clichê para
nós é orar apenas quando as coisas dão errado ou quando estamos enfrentando batalhas.
A liderança vivificadora flui da direção e da unção do Espírito Santo. Devemos inverter
o dito de: "Não fique apenas sentado, mas faça alguma coisa", para: "Não faça apenas
alguma coisa, mas sente-se!", e, por meio da súplica em oração por direção e
fortalecimento, pavimente o caminho para o ministério que produz a vida. Não é uma
questão de escolher oração em vez da ação, mas de seqüência: ore, depois faça. Caso
contrário, como diz o velho provérbio, acabaremos pedindo para que Deus ajuste nossos
planos, em vez de render-nos antecipadamente à sua direção: "Não peça que Deus
abençoe o que você está fazendo; antes, peça a Deus para mostrar-lhe como fazer o que
Ele abençoa".
A Prática Paulina de Orar pelos Outros e de Pedir para que Orem por Ele
A oração caracterizava a prática de Paulo desde o início de seu ministério, assim como
ao longo de toda a sua atuação. Lucas, vez após vez, registra, em sua experiência
pessoal com o apóstolo, a prioridade que Paulo dava à oração. Exemplos podem ser
multiplicados, e ofereço dois deles. Quando Paulo foi preso com Silas em Filipos, ele
orou: "Perto da meia-noite, Paulo e Silas oravam e cantavam hinos a Deus, e os outros
presos os escutavam" (At 16.25). Lucas novamente relata uma experiência de Paulo,
quando este abandonou os anciões da igreja de Éfeso para enfrentar oposição em
Jerusalém: "E, havendo dito isto, pôs-se de joelhos e orou com todos eles" (At 20.36). A
prioridade que Paulo dá à oração pode ser observada em suas epístolas para suas igrejas
e colaboradores.
Podemos observar a convicção de Paulo sobre a importância da oração, pois este orava
ardente e regularmente por suas igrejas. Em seu padrão de oração, ele usa termos como:

76
"sempre", "incessantemente" e "dia e noite":
Faço menção de vós, pedindo sempre em minhas orações (Rm 1.9,10; cf.Efl.16).
Não cessamos de orar por vós (Cl 1.9).
Orando abundantemente dia e noite, para que possamos ver o vosso rosto e supramos o
que falta ã vossa fé (1 Ts 3-10; cf. 2 Tm 13)-
Paulo, literalmente, queria dizer "dia e noite", conforme o registro do testemunho de
Lucas em Atos. Obviamente, ele adquirira um padrão de oração que poderia empregar
onde quer que estivesse: encarcerado em uma prisão, no trabalho manual de fazer
tendas, nas estradas enquanto caminhava, sozinho e cercado por outros. Até mesmo os
discípulos de Paulo assimilaram a importância crucial da oração regular. Portanto, Paulo
pôde escrever sobre Epafras à igreja de Colossos: "Saúda-vos Epafras, que é dos vossos,
servo de Cristo, combatendo sempre por vós em orações, para que vos conserveis
firmes, perfeitos e consumados em toda a vontade de Deus" (Cl 4.12).
É interessante observar como Paulo se refere às orações de Epafras, ao afirmar que este
"combate" em orações. Epafras, como Jacó na antigüidade, não se satisfaz a meramente
apresentar um pedido a Deus. Ele 1 engaja Deus na oração e intercede pelos
colossenses. Quase podemos j escutar as mesmas palavras de Jacó: "Não te deixarei ir,
se não os abençoares". Paulo modela a oração contínua e chama a atenção para o
exemplo positivo de um de seus discípulos que seguia essa prática.
O que Paulo pedia em oração por eles? Seus pedidos abrangiam desde coisas práticas,
como a provisão das necessidades, até o discipulado, como o crescimento deles no
conhecimento do Senhor e para que eles amassem todas as pessoas. No início de sua
Epístola aos | Efésios, Paulo escreve:
Não cesso de dar graças a Deus por vós, lembrando-me de vós nas minhas orações,
para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê em seu
conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação, tendo iluminados os olhos do
vosso entendimento, para que saibais qual seja a esperança da sua vocação e quais as
riquezas da glória da sua herança nos santos e qual a sobreexcelente grandeza do seu
poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder (Ef 1.16-
19).
Ele pede para que tenham compreensão espiritual de Deus, para que seja acesa a
esperança do evangelho, para que tenham consciên- j cia de todas as bênçãos que o
indivíduo obtém como cristão e do poder e da força imensa de Deus empregada em
favor daqueles que nEle confiam. Isso é revelador. Paulo, pregador e mestre, tinha total
consciência de que não são as palavras ou a razão humanas que I iluminam alguém. Isso
é devido ao Espírito de Deus. Antes de Paulo começar a escrever sobre outros assuntos
em sua Epístola aos Efésios, ele inicia com uma oração, pois sabe que somente Deus
pode abrir os olhos do entendimento. Isso não é anti-racional nem irracional. Antes,
Paulo leva a sério a relação entre a revelação espiritual e a compreensão racional.
Posteriormente nessa carta, Paulo ora novamente:
Para que, segundo as riquezas da sua glória, vos conceda que sejais corroborados com
poder pelo seu Espírito no homem interior; para que Cristo habite, pela fé, no vosso
coração; afim de, estando arraigados e fundados em amor, poderdes perfeitamente
compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a
profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que
sejais cheios de toda a plenitude de Deus (Ef 3.16-19).
Essa oração é pelo crescimento deles na graça. Ele pede ao Espírito que lhes conceda
poder em seu homem interior, para que Cristo habite intimamente com eles por meio da
fé e para que o amor seja o solo e o fundamento de tudo o que fazem. Ele pede que
Deus lhes dê habilidade de compreender a profundidade de Deus e de conhecer, de

77
forma plena e rica, o amor de Cristo. Como a primeira oração em Efésios, esses são os
assuntos sobre os quais Paulo discorre nessa epístola. Para que as sementes criem raízes
espirituais naqueles a quem ministra, ele calca, por meio cie oração, essas sementes no
solo de suas almas.
Quando ora por suas igrejas, ele demonstra sempre agradecimento pelo que Deus já fez,
assim como pela resposta de fé deles e a maneira como compartilham o trabalho do
evangelho e amam uns aos outros.
Dou graças ao meu Deus todas as vezes que me lembro de vós, fazendo, sempre com
alegria, oração por vós em todas as minhas súplicas, pela vossa cooperação no
evangelho desde o primeiro dia até agora (Fp 1.3-5).
Graças damos a Deus, Pai de nosso Senhor fesus Cristo, orando sempre por vós,
porquanto ouvimos da vossa fé em Cristo fesus e da caridade que tendes para com
todos os santos (Cl 1.3,4).
Sempre damos graças a Deus por vós todos, fazendo menção de vós em nossas orações,
lembrando-nos, sem cessar, da obra da vossa fé, do trabalho da caridade e da
paciência da esperança em nosso Senhor Jesus Cristo, diante de nosso Deus e Pai (1 Ts
1.2,3).
Deus é o grande libertador e auxiliador. Ele é aquEle que faz com que coisas
permanentes aconteçam; portanto todo louvor e agradecimento são corretamente
direcionados a Ele. Aos filipenses, Paulo escreve: "Nisto me regozijo e me regozijarei
ainda. Porque sei que disto me resultará salvação, pela vossa oração e pelo socorro do
Espírito de Jesus Cristo" (Fp 1.18,19). Deus faz acontecer. A oração é a maneira como
nos sintonizamos no que Deus faz.
A prática paulina de orar por suas igrejas é acompanhada por seu hábito de pedir oração
por si e por seu ministério. Paulo praticava a parceria em seu ministério. Um líder
paternalista seria meramente distante e diria: "Estou orando por você", embora nenhum
pedido por oração tenha sido feito e, tampouco, qualquer necessidade de ajuda,
verbalizada. Paulo, porém, percebe que o ministério é uma via de mão dupla. Não é algo
que ele faz por suas igrejas, mas que partilha com suas igrejas. A mentalidade da
parceria caracteriza seu padrão de oração, pois ele ora por suas igrejas e pede orações
para si e para seus colaboradores.
Aos tessalonicenses:
Irmãos, orai por nós (1 Ts 5-25). Para Filemom de Colossos:
Ejuntamente prepara-me também pousada, porque espero que, pelas vossas orações,
vos hei de ser concedido (Fm 22).
Aos cristãos romanos — alguns dos quais ele conhecia, e outros que jamais havia
encontrado —, ele abre seu coração e compartilha suas mais profundas preocupações.
E rogo-vos, irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e pelo amor do Espírito, que
combatais comigo nas vossas orações por mim a Deus, para que seja livre dos rebeldes
que estão na Judéia, e que esta minha administração, que em Jerusalém faço, seja bem
aceita pelos santos; afim de que, pela vontade de Deus, chegue a vós com alegria
epossa recrear-me convosco (Rm 1530-32).
Ele pede que orem pelos assuntos mais prementes que terá de enfrentar e pelas questões
estratégicas referentes ao ministério. À medida que acompanhamos o desenrolar da
história, no final do livro cie Atos, fica claro que Deus responde a essas orações. As
conspirações desonestas contra a vida de Paulo falham. Nem mesmo o naufrágio e a
mordida de uma víbora impediram que Paulo tivesse contato com os cristãos de Roma.
Patrick Miller observa o seguinte a respeito dessa passagem: "Fica aparente, aqui e em
outros textos, que tal exortação para que orassem em seu favor está diretamente relaci-
onada à sua missão. As orações, direta ou indiretamente, pedem sempre por seu sucesso

78
em sua missão".2 Essa é uma observação que vale a pena explorar mais a fundo.
A Relação entre a Oração e a Missão Efetiva
E. M. Bounds termina seu clássico Prayer andPrayingMen (A Oração e Homens de
Oração) com a seguinte conclusão: "Paulo sabia que seus movimentos eram impedidos
ou ajudados pela oração de seus irmãos".3 Efeitos espirituais exigem causas espirituais.
O ministério fortalecido pelo Espírito e as realizações vivificadoras acontecem graças à
operação do Espírito Santo por meio de vasos que se renderam ao Senhor e, algumas
vezes, por intermédio daqueles que ainda não se renderam. Aqueles que lideram e
ministram "segundo a carne" usualmente consideram a oração uma função mecânica e
superficial, algo que fazem apenas porque se espera isso deles, não porque sintam a
necessidade dela. Contudo, aqueles cujo desejo pessoal foi quebrantado e
compreenderam como o poder de Deus viceja por meio da fragilidade e da rendição
oram porque sabem que precisam. Se Deus não se mostrar, então os esforços deles são
em vão. Líderes fortalecidos pelo Espírito atuam a partir da consciência radical de sua
dependência do poder de Deus.
Charles Spurgeon, o grande pregador britânico do século XIX, diz o mesmo:
Um certo pregador, cujos sermões convertiam muitas almas, recebeu uma revelação de
Deus de que isso, deforma alguma, acontecia em razão de seus sermões ou obras, mas
graças às orações de um irmão analfabeto que sentava nos degraus do púlpito
implorando pelo sucesso do sermão. Pode ser que o mesmo seja dito de nós, no dia em
que tudo será revelado. Podemos achar, após trabalhar longa e exaustivamente, que
toda honra pertence a um outro construtor cujas orações eram ouro, prata e pedras
preciosas, ao passo que nossos sermões, sem a oração, não passam defeno e restolho.
Spurgeon está meramente expondo o que Paulo modelou. Este continuamente pedia por
orações para que a missão fosse efetiva. Essa atitude não decresceu à medida que se
tornou um ministro mais experiente. Paulo, durante todo o seu ministério, modelou a
dependência radical na obra graciosa de Deus. Portanto, exorta os colossenses:
Perseverai em oração, velando nela com ação de graças; orando também juntamente
por nós, para que Deus nos abra aporta da palavra, afim de falarmos do mistério de
Cristo, pelo qual estou também preso-, para que o manifeste, como me convém falar (Cl
4.2-4).
Aos efésios, disse:
[Orem]por mim; para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra com
confiança, para fazer notório o mistério do evangelho, pelo qual sou embaixador em
cadeias; pra que possa falar dele livremente, como me convém, falar (Ef 6.19,20).Aos
tessalonicenses, ele, consistentemente, mantém o padrão:
No demais, irmãos, rogai por nós, para que a palavra do Senhor tenha livre curso e
seja glorificada, como também o é entre vós (2 Ts 3.1).
Paulo, depois de todo esse tempo como missionário, ainda necessita pedir para que
orem, a fim de que uma porta seja aberta e a mensagem seja clara. Por quê? Porque os
efeitos espirituais exigem causas espirituais. Como afirma Bounds: "A força de seu
pedido por oração, centrada na pessoa dele, visava que fosse capaz de falar sem rodeios,
com força, fluência e coragem. Paulo não dependia de seus dons naturais, mas daqueles
que lhe foram acrescentados como resposta de oração".5
Na última década, trabalhei, em mais de cem distintas congregações, com missões que
buscavam alcançar outros povos. Nesse trabalho, percebi dois equívocos comuns que as
igrejas cometem em relação à missão: buscar alcançar os outros sem oração, e oração
sem buscar alcançar os outros. O primeiro equívoco resulta do caráter dos líderes de
uma dada congregação. Se estão acostumados a ministrar segundo a carne, então
passam rapidamente da oração para o planejamento, os objetivos e a ação. O outro

79
equívoco comum é muito menos freqüente, mas há os que acham que a oração substitui
o testemunho. O ministério de Paulo nasceu por meio da oração, mas sobreviveu na
audácia da linha de frente que fez com que Jesus fosse conhecido a quem quer que
escutasse sua mensagem. A oração não substitui a ação, mas dá origem, direciona e
fortalece a ação que flui do líspírito Santo. "Mais do que qualquer outra pessoa, [Paulo]
demonstra que a oração não exclui a ação, mas torna esta frutífera de maneira única".6 A
linha fundamental de missões é a seguinte: qualquer ação que você efetue funcionará se
orar. Como Jerry Smith, líder missionário com quem trabalho, gosta de dizer: "Esteja
sempre 'preparado'".7
Quando Cristo examinou a multidão que o seguia, como uma massa confusa e
desesperada de pessoas, "que andavam desgarradas e errantes como ovelhas que não
têm pastor" (Mt 936), pois necessitavam de todo tipo de ajuda, Ele teve compaixão
deles. Disse a seus discípulos que fizessem algo para suprir a necessidade deles. Ele
comparou a multidão a um campo pronto para a colheita. Contudo, sua primeira ordem
não foi para que formassem uma equipe de trabalho, nem para que mapeassem os
campos e, tampouco, para que saíssem em disparada e começassem a colheita. Ao con-
trário, Ele os incitou com as seguintes palavras: "Rogai, pois, ao Senhor da seara que
mande ceifeiros para sua seara" (Mt 938).
O Imperativo da Oração
Conforme nosso estudo sobre Paulo, não deve nos surpreender que ele utilize o próprio
exemplo para o ensinamento e a exortação de seus seguidores, para que estes percebam
que devem e precisam orar. Para os que querem produzir frutos para o Reino de Deus, a
oração não é opcional. Eis aqui seis ordens retiradas das epístolas de Paulo. Muitas
outras poderiam ser fornecidas.
Perseverai em oração, velando nela com ação de graças (Cl 4.2).
Alegrai-vos na esperança, sede pacientes na trihulação, perseverai na oração (Rm
12.12).
Orando em todo tempo com toda oração e súplica no Espírito e vigiando nisso com
toda perseverança e súplica por todos os santos (Efó.lH).
Regozijai-vos sempre. Orai sem cessar. Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de
Deus em Cristo Jesus para convosco (1 Ts 5-16-18).
Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações, orações, intercessões e
ações de graças por todos os homens. [...] Quero, pois, que os homens orem em todo o
lugar, levantando mãos santas, sem ira nem contenda (1 Tm 2.1,8).
Não estejais inquietos por coisa alguma; antes, as vossas petições sejam em tudo
conhecidas diante de Deus, pela oração e súplicas, com ação de graças (Fp 4.6).
É necessário que a deficiência em relação à oração cesse entre os líderes da igreja.
Nosso mundo está gemendo pela revelação do Reino de Deus e esperando-a. Paulo nos
ordena a orar continuamente, a orar sobre todas as coisas e a fazer tudo em atitude
confiante de oração.
Necessidade de Persistência:
O Ministério É uma Batalha Espiritual
Paulo ensina que devemos orar "sempre" e "incessantemente". Essas ordens são
recorrentes em suas epístolas.9 Por que há tamanha necessidade de oração? Além dos
efeitos espirituais exigirem causas espirituais, há também a compreensão de que existe
contínua oposição espiritual à obra fortalecida pelo Espírito. Não apenas é repelido por
forças humanas, mas também é o alvo da posição de forças e seres espirituais das trevas:
No demais, irmãos meus,fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder. Revesti-vos
de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do
diabo; porque não temos que lutar contra carne e sangue, mas, sim, contra

80
osprincipados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra
as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais. Portanto, tomai toda a
armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar
firmes. Estai, pois, firmes, tendo cingidos os vossos lombos com a verdade, e vestida a
couraça da justiça, e calçados os pés na preparação do evangelho da paz; tomando
sobretudo o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do
maligno. Tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra
de Deus, orando em todo tempo com toda oração e súplica no Espírito e vigiando nisso
com toda perseverança e súplica por todos os santos (Ef 6.10-18).
Em nossos dias é muito comum se descartar tais referências como estranhas para se
"reinterpretar" o que Paulo está dizendo a fim de excluir a existência real da oposição
demoníaca.10Para tais revisionistas, as palavras de C. S. Lewis, proferidas há mais de
meio século, ainda são contundentes:
Há dois erros, opostos e equivalentes, sobre os demônios nos quais nossa raça pode
incorrer. Um é desacreditar na existência deles. O outro é acreditar e sentir um
interesse excessivo e doentio por eles. Eles ficam igualmente felizes com ambos os erros
e aclamam, com o mesmo deleite, o materialista e o mágico.
Muito mais recentemente, Francis MacNutt, pastor experimentado em libertação
espiritual e casado com uma psicoterapeuta, diz-.
Os ministros do evangelho necessitam parar de transferira responsabilidade ao negar a
existência da opressão demoníaca ou, tão-somente, ao indicar as pessoas aos
psiquiatras ou conselheiros, quando o que é necessário é libertação. Aconselhamento e
medicação podem também ser necessários, e devemos, de todas as formas, cooperar
com os profissionais da área de saúde mental. Contudo, os ministros não devem,
continuar a negar sua responsabilidade em seu campo de atuação.
Minha experiência pessoal é parecida. Na fase inicial de meu ministério, três coisas
eram verdades-, ministrava principalmente segundo a carne, observava poucos frutos
espirituais duradouros e estava totalmente inconsciente em relação às artimanhas do
demônio que me impedia de abraçar a autoridade espiritual. Muito tempo depois,como
resultado de estar na linha de frente do evangelismo, que passou a ser o foco de meu
ministério, todas essas três coisas mudaram raciicalmente. Comecei a morrer para o
ministério segundo a carne, por intermédio da ação graciosa de Deus, que quebrantou
meu "ego". À medida que meu ego cedia terreno, comecei a ver frutos espirituais
significativos. E quer você goste ou não (para ser honesto, eu não gostava), tornei-me
consciente da ferrenha guerra espiritual que se desenrolava a meu redor para frustrar o
que Deus queria que fosse feito. Eu não estava procurando uma briga. Contudo, quando
meu ministério começou a ser uma ameaça para o reino das trevas, nesse mesmo
instante comecei a experimentar a reação espiritual desse reino tenebroso.
Eu era como um daqueles racionalista que pensam apenas com o hemisfério esquerdo
do cérebro, e não podia mais ignorar o ensinamento bíblico sobre a oposição espiritual
que inevitavelmente acompanha aqueles que seguem a Jesus. Comecei a perceber que a
oração de guerra é uma atividade crucial a ser desempenhada pelos líderes. Se for
deixada de lado, então nenhum terreno espiritual é ganho e nenhum ministério
significativo avança. Isso pode parecer desagradável, mas acredito agora que aqueles
que não acreditam no demônio real ou que jamais experimentaram um ataque espiritual,
provavelmente, estão ministrando segundo a carne e, portanto, não representam ameaça
para o reino das trevas.
A oração é a principal arma que nos é dada para participar desta guerra espiritual.
"Porque, andando na carne, não militamos segundo a carne. Porque as armas da nossa
milícia não são carnais, mas, sim, poderosas em Deus, para destruição das fortalezas" (2

81
Co 10.3,4). Essa é a razão pela qual Jesus nos ensinou "sobre o dever de orar sempre e
nunca desfalecer" (Lc 18.1), ensinamento este que Paulo modelou para nós.
Felizmente, quando andamos com Cristo somos matriculados na escola da oração.13 Ele
utiliza os desastres, as humilhações, as derrotas, as traições e as desavenças que
atravessam nosso caminho quando ocupamos a posição de liderança para quebrantar
nosso falso orgulho, para crucificar nosso desejo e para nos ensinar o dom da
dependência radical de Deus. Nós, como os discípulos, podemos pedir-lhe que nos
ensine a orar. A graça sobeja. Quando não sabemos orar como devemos, o Espírito
Santo intercede em nosso favor, de acordo com o desejo de Deus (Rm 8.26,27). Jesus,
mesmo quando passamos um período sem orar, vive "sempre para interceder" por nós
(Hb 7.25). Sempre que orarmos, qualquer que seja a forma de oração, devemos seguir o
que nos foi recomendado: "Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que
possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo
oportuno" (Hb 4.16).
Questões para Reflexão e Discussão
1. Reflita e discuta: "A questão não é: Quantas pessoas o consideram seriamente?
Quanto você realizará? Você tem resultados para mostrar? Mas: Você está apaixonado
por Jesus? Talvez, uma outra maneira de apresentar esta questão seja: Você conhece o
Deus encarnado?" (Henri Nouwen, In the Name of Jesus [Nova York: Crossroad, 1990],
p. 24).
2. Avalie sua agenda referente aos três últimos meses. Quantas reuniões, à parte dos
períodos regulares de adoração, você e seus líderes tiveram em que o único propósito
tenha sido o de oração? Quantas reuniões de negócios tiveram nesse mesmo período?
3. Você ora por seu ministério e pela mensagem, ou apenas faz planos e os executa?
4. Seja honesto consigo mesmo. Você observa o mover de Deus em seu ministério?
Qual a relação disso com sua vida de oração ou ausência dela?
5. Há algum retrocesso inexplicável em seu ministério ou oposição espiritual a ele? A
que você atribui isso?
6. Reflita e discuta: "Quando os cristãos têm reuniões, o demônio sorri. Quando os
cristãos fazem grandes planos, o demônio gargalha. Quando os cristãos oram, o
demônio estremece" (Corrie ten Boom).

82
8
A SUBLIMIDADE DA SERVIDÃO

A liderança servil é meramente a aplicação do evangelho dinâmico à


tarefa de liderança.
KLYNE SNODGRASS

Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens,- e a fraqueza


de Deus é mais forte do que os homens. Porque vede, irmãos, a vossa
vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os
poderosos, nem muitos os nobres que são chamados. Mas Deus escolheu
as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias-, e Deus escolheu
as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes. E Deus escolheu
as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são para
aniquilar as que são; para que nenhuma carne se vanglorie perante ele.
1 CORÍNTIOS 1.25-29

83
TODA CRIANÇA É ÚNICA. Nossa filha caçula tinha um temperamento forte guando era
pequena. (Uma característica que com o tempo suavizou apenas um pouco!) Ela sempre
soube o que quer e para onde ir. Ingrid, minha esposa, sempre achou que isso era um
grande desafio, uma vez que ela é bondosa, amorosa e não lutadora. Conflito é veneno
para sua vida. Certa vez, nossa filha, quando tinha cerca de três anos, engajou-se, com
minha esposa, em um combate mortal de voluntariedades. Ingrid, exasperada,
descarregou: "Você quer ser a mãe e o chefe". Nossa filha, como se já tivesse pensado a
respeito dessa questão, respondeu calmamente: "Não, só quero ser o chefe". Essa
mesma pessoa habita em todos nós. Nossa pecaminosidade, o desejo pessoal que Paulo
chama de carne, é a parte de nosso ser que quer estar no controle. A tentação no jardim
do Éden era exceder, superar Deus e lutar para que o controle deixasse de ser dEle, para
ser nosso. Em algum recanto, no íntimo de nosso ser, todos nós queremos ser o chefe e
ficar no topo. Para utilizar um exemplo recente e esclarecedor, Evander Holyfield,
boxeador peso pesado, não aplicou a teologia da cruz à sua vida. Ao discutir seu
retorno, afirma equivo-cadamente: "Deus não quer me ver em um lugar inferior. Ele
quer que eu esteja no topo. Eu sei disso".1 Como ele pode saber isso? Certamente, essa
afirmação não foi extraída do Novo Testamento. Esse desejo em si reflete nossas trevas,
não a luz de Deus que trabalha em nossa vida. Para exercitar a liderança ungida pelo
Espírito, precisamos confrontar, de cabeça erguida, este espectro de nossa alma.
Da Base para o Topo, não o Contrário
O paradigma apresentado por Paulo para o desenvolvimento da liderança cristã não se
refere a ser chefe, mas a servir como escravo. A liderança guiada pelo Espírito não diz
respeito a galgar poder, mas inclinar-se na submissão do servir. As traduções da Bíblia
camuflam a imagem de escravidão do Novo Testamento ao escolher palavras como
"servir", "serviço" e "servo", quando o sentido era de "escravo" e "escravidão" . A
maioria dos leitores da Bíblia fica surpresa ao saber que o Novo Testamento, no original
grego, utiliza cerca cie cento e noventa e uma palavras relacionadas à escravidão. A
maneira favorita para Paulo se descrever é como "escravo de Cristo".2 Até mesmo
quando se denomina "apóstolo", é isso que tem em mente, uma vez que os apóstolos
eram usualmente escravos que poderiam ser enviados em jornadas perigosas, pois
poderiam ser sacrificados por motivos estratégicos. Ademais, ele usualmente se refere a
Jesus como kyrios, algo que um conhecedor do idioma grego poderia compreender tanto
como "mestre de um escravo" quanto como "Senhor divino". Essa era uma experiência
comum para eles em todo o Império Romano, em que um terço da população era
formada por escravos (douloi), um terço por mestres (kyrioi) e um terço por ex-escravos
ou homens livres.3 Nesse contexto cultural, Paulo retrata o seguir a Jesus como ser
escravo de nosso Senhor e Mestre: "Porque o que é chamado pelo Senhor, sendo servo,
é liberto do Senhor; e, da mesma maneira, também o que é chamado, sendo livre, servo
é de Cristo. Fostes comprados por bom preço-, não vos façais servos dos homens" (1 Co
7.22,23).
Isso não é apenas para líderes; é o que significa ser seguidor de Jesus. Fomos redimidos
da escravidão do pecado, isto é, "comprados por bom preço". Fomos libertos, quando
nos tornamos escravos de Jesus. A tensão inerente nessa imagem de que somos escravos
e libertos reflete a tensão que experimentamos como indivíduos em conflito, pois,
embora tenhamos sido vivificados no Espírito, ainda mancamos devido à natureza
pecaminosa.
Os ensinamentos de Paulo, que descrevem o discipulado como uma escravidão ao
Senhor, são provenientes de Jesus. Em Mateus 20.20-28, Jesus nos dá um retrato claro e
contracultural para o exercício da autoridade quando confronta os desejos de seus
discípulos de se sentar à cabeceira da mesa.

84
A esposa de Zebedeu estava pensando em seus filhos, quando se ajoelhou diante de
Jesus e implorou-lhe: "Dize que estes meus dois filhos se assentem um à tua direita e
outro à tua esquerda, no teu Reino" (Mt 20.21). Imagino que ela não fez nada diferente
do que qualquer mãe faria para conseguir que seu filho tivesse um privilégio. Contudo,
Jesus relaciona o desejo dela e de seus filhos — estar sentado no local de honra e de
autoridade — com a maneira usual de se relacionar com os outros, em que o indivíduo
exalta a si mesmo e subjuga os outros. Portanto, Jesus disse a todos os discípulos: "Bem
sabeis que pelos príncipes dos gentios são estes dominados e que os grandes exercem
autoridade sobre eles. Não será assim entre vós" (w. 25,26). Todos nós queremos ser o
chefe, mas Jesus deixa claro que em seu Reino isso será diferente: "Não será assim entre
vós", Essas são as últimas cinco palavras de Jesus sobre se devemos ou não exercitar a
liderança cristã por meio da autoridade, tão valorizada no mundo. Em nosso íntimo, em
algum lugar, encontramos o desejo que se resume na seguinte expressão: "Eu sou o
centro". Senhores e tiranos não são apenas aberrações da história, mas fruto da
substância natural da psique humana. "Não será assim entre vós."
Jesus prossegue para virar de cabeça para baixo a compreensão mundana de autoridade,
honra e poder. No Reino em que as coisas estão invertidas, os líderes — os seguidores
de Jesus — refletem a grande reviravolta social que Jesus iniciou. Portanto, Ele
estabelece suas diretrizes fundamentais para os futuros líderes: "Mas todo aquele que
quiser, entre vós, fazer-se grande, que seja vosso serviçal [diakonosl; e qualquer que,
entre vós, quiser ser o primeiro, que seja vosso servo [doulos "escravo"], bem como o
Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e para dar a sua vida em
resgate de muitos" (Mt 20.26-28).
Esses ensinamentos estabelecem uma hierarquia, mas aquela que vai da base para o
topo, não o contrário. Jesus disse que aquele que quiser ser o segundo maior deve
buscar o servir. No entanto, os primeiros dentre os grandes são aqueles que são
"escravos" — a vida destes segue o padrão da de seu Mestre, Jesus. A exaltação não
está no topo, onde estão o poder e o prestígio. A exaltação, para os seguidores de Jesus,
está na servidão, onde a humildade, a rendição e o serviço são encontrados.
Precisamos encarar nosso lado que quer estar no comando e denominá-lo pelo que é:
trevas. Seguir a Jesus significa morrer para este aspecto demoníaco de nosso ser e viver
para ser um servo, seguindo o exemplo de Jesus. Quando comandamos os outros, evita-
mos o preço do seguir a Cristo. Porém, quando nos tornamos vulneráveis, ao entregar-
lhe o controle, confiamos que a soberania de Deus apresentará sua bondade, qualquer
que seja a situação. Esse salto cio comando para o servir e o render-se nos coloca em
uma posição cie radical dependência de Deus e confiança nEle. Passamos a depender do
desejo e do propósito de Deus — mesmo se isso incluir o sofrimento. Não mais
pensamos: "Eu sou o centro", mas: "O que quer que tu quiseres, Senhor!"Rebaixe-se
Meu pai, na maior parte de minha vida cristã, opunha-se às coisas espirituais e às
discussões sobre Deus. Esse foi um dos períodos mais longos e dolorosos cie minha
vida. O que mais queria era partilhar Jesus com ele. No entanto, ele nunca queria falar
sobre Jesus. Alguns anos atrás, foi internado em um hospital com uma série de
problemas graves cie saúde, os quais acabaram por tirar sua vida. Após uma de suas
internações na UTI, fui à Califórnia para vê-lo. Durante todo o trajeto, orei e tive
esperanças de que teria uma chance de apresentar-lhe o evangelho e que o veria receber
Jesus em sua vida.
Quando lá cheguei, ele foi áspero como sempre. Assim que entrei no quarto, vociferou:
"Faça uma salmoura para que eu ponha meu pé de molho". Toda sua vida, trabalhou
como impressor, e um de seus prazeres habituais era chegar em casa após um dia de
trabalho em pé e mergulhar seus pés na salmoura. Eu, resignadamente, caminhei até a

85
sala das enfermeiras, certo de que não seria possível atender seu pedido. A enfermeira
mostrou-se resistente (não tínhamos nem mesmo certeza se ele poderia se sentar), mas
persisti, pois achei que seria mais fácil opor-me a ela do que a meu pai. Ela cedeu à
minha pressão e deu-me dois recipientes de plástico, que, quando experimentei em meus
pés, percebi que seriam pequenos demais para os de meu pai. Retornei a seu quarto,
enchi os recipientes com água morna e o ajudei a sentar-se.
Percebi imediatamente que seria impossível para ele mergulhar seus pés por si mesmo,
portanto segurei um pedaço de pano, inclinei-me e, gentilmente, pus os pés dele nos
recipientes, espremendo o pano para que a água corresse sobre seus pés. À medida que a
água transbordava e ensopava minhas calças na altura do joelho, reclamei, ali ajoelhado,
com Deus, pois tudo que queria era partilhar Jesus com meu pai. Como? Não havia
abertura para isso. Naquele momento, em que meu pai olhava fixamente para minha
nuca, senti o Espírito Santo me chamar a atenção para que tivesse consciência de que
estava fazendo exatamente tudo que meu pai necessitava "escutar". Meu pai, sem que eu
planejasse nem usasse palavras, escutou que eu o amava e me importava com ele, assim
como viu, apesar de mim, um retrato do servo Jesus. Naquele dia, não tive a chance de
partilhar verbalmente o evangelho com ele. Contudo, as barreiras existentes caíram por
terra. Algumas semanas mais tarde, meu amigo e, depois, minha irmã, contaram-lhe
sobre o amor e o perdão que poderia obter por intermédio de Jesus. Ele aceitou a Jesus
como Senhor de sua vida, e ali mesmo no hospital o batizamos.
Apenas após refletir foi que percebi que era isto que Jesus queria dizer quando
confrontou os filhos de Zebedeu e sua mãe. Temos apenas de ser humildes, isso é tudo.
Essa é a maneira como a liderança é exercida segundo a direção de Jesus. Se eles ainda
não tivessem captado essa mensagem por meio de seus ensinamentos explícitos, Jesus
modela essa atitude para eles quando, posteriormente, lava-lhes os pés. Se me senti
rebaixado quando lavei os pés de meu pai, isso não pode se comparar, de forma alguma,
com o estigma social, na antigüidade, de lavar os pés de alguém. Essa era considerada a
parte mais vergonhosa do corpo, e tal tarefa era apenas designada ao servo (escravo)
mais desqualificado. Essa foi a razão pela qual Pedro não suportou a idéia de que Jesus
se diminuísse dessa maneira. Porém, Jesus se humilha para retratar uma liderança lúcida
por meio de suas ações contraculturais:
Jesus, sabendo que o Pai tinha depositado nas suas mãos todas as coisas, e que havia
saído de Deus, e que ia para Deus, levantou-se da ceia, tirou as vestes e, tomando uma
toalha, cingiu-se. Depois, pôs água numa bacia e começou a lavar os pés aos discípulos
e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido. Aproximou-se, pois, de Simão
Pedro, que lhe disse-. Senhor, tu lavas-me os pés a mim? Respondeu Jesus e disse-lhe:
O que eu faço, não o sabes tu, agora, mas tu o saberãs depois. Disse-lhe Pedro: Nunca
me lavarãs os pés. Respondeu-lhe Jesus-. Se eu te não lavar, não tens parte comigo.
[...] Depois que lhes lavou os pés, e tomou as suas vestes, e se assentou outra vez à
mesa, disse-lhes: Entendeis o que vos tenho feito? Vós me chamais Mestre e Senhor e
dizeis bem, porque eu o sou. Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis
também lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu
vos fiz, façais vós também. Na verdade, na verdade vos digo que não é o servo maior do
que o seu senhor, nem o enviado, maior do que aquele que o enviou. Sesabeis essas
coisas, bem-aventurados sois se asfizerdes (Jo 133-17).
Jesus, acabara de receber "nas suas mãos todas as coisas" (Jo 13-3). Ele chegara. A
tentação seria grande para que agisse de maneira soberba, para que se exibisse um
pouco e para que permitisse que as pessoas a seu redor soubessem com quem elas
andavam. Pelo menos, essa é a maneira como as almas pecadoras lidam com o poder e o
prestígio. Entretanto, como se fosse para pôr um ponto de exclamação em seu

86
ensinamento anterior, Jesus modela o seguinte: "Não será assim entre vós". "Porque eu
vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. [...] Se sabeis essas
coisas, bem-aventurados sois se as fizerdes" (Jo 13-15,17).
Não se Preocupe com o Exaltar-se
Jesus retrata o caminho da liderança ungida: "Bem-aventurados os que" se humilham e
lavam os pés de seus semelhantes como Ele o fez. Teologicamente, em Filipenses 2.5-
11, Paulo coloca esse movimento descendente em um quadro maior, a fim de descrever
a maneira como Deus opera:
De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que,
sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus. Mas aniquilou-se a
si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na
forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte e morte de cruz.
Pelo que também Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que é sobre todo o
nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, e na
terra, e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para
glória de Deus Pai.A humildade de Jesus em sua posição de servir aos outros reflete a
posição de humildade maior que se revela ao despojar-se de sua natureza divina, vindo
ao mundo como ser humano. Contudo, Ele humilha-se ainda mais: Ele é obediente "até
à morte e morte de cruz". Culturalmente, foi um choque para os discípulos passar pela
experiência em que Jesus lavou-lhes os pés. Sua crucificação foi ainda mais chocante.
Eles o abandonaram, pois não conseguiram assimilar esse evento traumático.
Emocionalmente, era angustiante devido à tortura física sangrenta e à humilhação
pública de morrer desnudo em frente de todos. No entanto, isso os perturbou mais
profundamente, pois foram ensinados que: "Porquanto o pendurado é maldito de Deus"
(Dt 21.23; cf. Gl 3.13).
A crucificação não é o fim dessa história. É meramente o fim de uma das primeiras
cenas de um drama maior que segue o surpreendente padrão "de baixo para cima". Jesus
expande o princípio para: "Tudo que temos de fazer é rebaixar-nos. Não temos que nos
preocupar com o exaltar-nos. Deus nos exaltará". Obediência resulta em vindicação,
mas no tempo e na maneira de Deus. Como Ele, em obediência, humilhou-se, "também
Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que é sobre todo o nome" (Fp 2,9).
Paulo inicia sua citação desse hino com uma exortação para que pensemos da mesma
maneira. Essa era claramente a prática ministerial de Paulo. No capítulo seguinte, ele
continua sua exposição para retratar sua própria posição de humildade e servidão como
líder:
Ainda que também podia confiar na carne; se algum outro cuida que pode confiar na
carne, ainda mais eu: circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de
Benjamim, hebreu de bebreus; segundo a lei, fui fariseu, segundo o zelo, perseguidor
da igreja-, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível. Mas o que para mim era
ganho reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as
coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a
perda de todas estas coisas e as considero como estéreo, para que possa ganhar a
Cristo (Fp 3-4-8).
Desde o momento em que encontrou a Cristo no caminho para Damasco, Paulo
gradativamente assumiu a humilde posição de servo. Os gentios tornaram-se sua missão
principal, um fato que, continuamente, lhe trouxe oposição e perseguição física. Paulo
humilhou-se para fazer amigos entre os gentios. Além disso, associou-se com mulheres
e escravos, buscando aqueles que estavam nas camadas mais baixas da sociedade, em
vez de confinar-se com a elite. Ele recusou o patronato financeiro dos poderosos (veja 1
Co 9) e trabalhou obtendo seu sustento de suas próprias mãos — um estigma social para

87
qualquer indivíduo que quisesse pertencer ao círculo da alta sociedade.
É uma constante, para alguns líderes pastorais, serem vistos socializando apenas com os
bem postos na vida e negligenciar aqueles que talvez mais necessitem de sua
companhia. Elevar-se é algo mundano, mas Jesus condena essa atitude: "Ai de vós,
fariseus, que amais os primeiros assentos nas sinagogas e as saudações nas praças!" (Lc
11.43) As pessoas percebem o interesse bem evidente que o líder demonstra por sua
segurança, seu salário, sua aposentadoria e seus benefícios. Vemos em nossos dias uma
geração inteira que não tem respeito por líderes que buscam em primeiro lugar seus
próprios interesses e negligenciam todas as necessidades à sua volta. Liderar, da
maneira como Jesus o fez, significa viver à margem da sociedade, a saber, estar no local
em que há pouco poder ou prestígio ou segurança. Tudo que temos de fazer é nos
humilharmos. Não temos de nos preocupar sobre o exaltar-nos; Deus nos exaltará.
Henri Nowen, renomado professor de Harvard, compreendeu essa dinâmica. Na fase
final de seu ministério, abandonou as torres de marfim para servir em uma residência
pertencente a uma instituição para pessoas com deficiência de desenvolvimento mental.
Essa era a posição mais baixa que ele poderia encontrar, porém ele testificou as formas
incríveis pelas quais encontrou a Deus, que o tocou por meio dos amigos que lá fez. Ele
resume suas reflexões sobre sua liderança em submissão e servidão da seguinte maneira:
Estou profundamente convencido de que o líder cristão do futuro é chamado para ser
totalmente irrelevante e estar nesse mundo com nada mais a oferecer além de seu ser
vulnerável. Essa foi a maneira através da qual Jesus veio para revelar o amor de Deus.
A grande mensagem que temos de levar, como ministros da Palavra de Deus e
seguidores de Jesus, é que Deus nos ama não graças ao que fazemos ou conquistamos,
mas graças ao fato de Deus ter-nos criado e redimido em amor e nos escolhido para
proclamar esse amor como a fonte de toda a vida humana.
Questões para Reflexão e Discussão
1. Pense no exemplo de um líder que você conhece que se humilhou e descreva o fruto
espiritual por ele produzido.
2. Quando você pensa sobre a rendição do poder, da segurança e do prestígio, do que
você teria de desistir? Como se sente a esse respeito?
3. Reflita sobre o princípio: "Tudo que temos de fazer é nos humilharmos. Não temos
de nos preocupar com o exaltar-nos; Deus nos exaltará". Qual é sua reação?
4. Quando aceitou a Jesus como Senhor, você entregou-lhe a autoridade para moldar
seus passos e direcionar sua vida. Que elementos de sua vida necessitam mais
completamente refletir sua rendição ao Senhor Jesus?
5. Os líderes ou o ministério de sua igreja são conhecidos por pertencer à elite, ou eles
são conhecidos pelo serviço e humildade sacrificial?
6. Há um livro cristão sobre liderança, The Ascent of a Leader (A Ascensão de um
Líder), lançado recentemente. À luz dos ensinamentos de Jesus em Mateus 20 e João
13, assim como seu exemplo em Filipenses 2, como você avaliaria este título?

88
9
A LIDERANÇA NECESSÁRIA É APOSTÓLICA
Pouco é que sejas o meu servo, para restaurares as tribos de jacó e
tomares a trazer os guardados de Israel; também te dei para luz dos
gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra.
ISAÍAS 49.6

Porque não ousaria dizer coisa alguma, que Cristo por mim não tenha
feito, para obediência dos gentios, por palavra epor obras; pelo poder
dos sinais e prodígios, na virtude do Espírito de Deus; de maneira que,
desde Jerusalém e arredores até ao Ilírico, tenho pregado o evangelho de
Jesus Cristo. E desta maneira me esforcei por anunciar o evangelho, não
onde Cristo houvera sido nomeado, para não edificar sobre
fundamento alheio; antes, como está escrito-. Aqueles a quem não foi
anunciado o verão, e os que não ouviram o entenderão.
ROMANOS 15.18-21

A igreja existe em função de uma missão, assim como o fogo existe em


função da combustão.
EMIL BRUNNER

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H OJE, A LIDERANÇA NECESSÁRIA É APOSTÓLICA. Apostólica significa incorporar o
DNA do cristianismo do Novo Testamento. Este livro trata da necessidade
contemporânea da atualização dos princípios do Novo Testamento em nossas igrejas e
ministérios. Os líderes apostólicos são aqueles que compreendem, incorporam e
empregam o cristianismo do Novo Testamento em seLis ensinamentos, como também
por meio de seu exemplo. Não necessitamos de mais administradores glorifica-dos.
Precisamos de líderes ungidos pelo Espírito.
Se você tem paixão apostólica, com certeza é uma das pessoas mais perigosas do
planeta. O mundo já não governa seu coração. Você já não é mais seduzido pelo obter
e ganhar, mas devota-se à propagação e à proclamação da glória de Deus às nações.
Você vive como um peregrino desapegado dos cuidados deste mundo. Você não tem
medo das perdas. Você até mesmo ousa. acreditar que pode ter o privilégio de morrer
na propagação da glória de Jesus sobre a terra. A vontade do Pai tornou-se sua
vontade. Sua satisfação e identidade estão nEle. Você crê que Ele esta sempre com
você, até mesmo no fim da vida. Você foi reservado exclusivamente para Deus, e vive
para o Cordeiro. Satanás o teme, e os anjos o aplaudem. Seu maior sonho é que o nome
de Jesus seja louvado em línguas que jamais foram escutadas nos céus. Sua
recompensa é antecipar o olhar de puro deleite que vera nos olhos dEle quando estiver
a seus pés, e a recompensa justa para os sofrimentos dEle: a adoração do redimido.
A razão pela qual os líderes apostólicos são necessários nos Estados Unidos é que este
país é um campo de missões. A época da igreja local acabou-se — a era dos postos
avançados de missão é agora. Para reiterar o que escrevi no capítulo de abertura, os
Estados Unidos são hoje a quinta nação do planeta em número de pessoas que não
freqüentam a igreja. Apenas a China, a índia, a Indonésia e a Rússia têm mais não-
cristãos do que os Estados Unidos. Conservadoramente, a China tem 150 milhões de
cristãos, em comparação com os 95 milhões de cristãos norte-americanos (uma
estimativa generosa feita por cristãos americanos). Se observarmos grupos específicos,
porções dos Estados Unidos estão quase que completamente sem o evangelho. Por
exemplo, 98% da população de surdos deste país não freqüentam a igreja. O grupo de
pessoas com menos de vinte e cinco anos se equipara a essa porcentagem em sua
necessidade por evangelização. Observou-se um declínio no número de cristãos
evangélicos na última década. Embora muitos grupos reivindiquem ganhos, a grande
maioria dos ganhos deve-se à transferência de membros, ovelhas que passam de um
grupo para outro. De modo geral, a "participação cristã no mercado" diminuiu.2
Nas últimas gerações do cristianismo norte-americano, as missões foram marcadas pelas
estratégias do "venha". Isto é, a estratégia explícita para o evangelismo utilizada pelas
igrejas é usualmente uma versão do seguinte: "Se eles vierem para nossa igreja, então
seremos hospitaleiros e amigáveis com eles". Se uma igreja empreende uma forma mais
assertiva para alcançar as pessoas, esta geralmente significa uma estratégia de mercado,
uma campanha publicitária que, em 90% dos casos, focaliza as pessoas que já são
cristãs, mas que estão buscando uma igreja. A maioria do ministério e da liderança
nessa cultura norte-americana não é apostólica. Um comentário comum entre os
missionários é este: "A igreja norte-americana é a mais disfuncional do mundo". Ser
apostólico significa compreender que fomos enviados para propagar as Boas Novas de
Jesus e de seu Reino. Literalmente, um apóstolo é "aquele que foi enviado". A natureza
da igreja revelada em seu chamado como "enviada" está refletida nas estratégias de "ir"
das missões, as quais refletem a natureza apostólica de Deus. Deus, ao ver a necessidade
desesperadora do mundo, a saber, ser salvo do pecado, enviou seu Filho. Quando o
Filho ascendeu aos céus, Ele enviou o Espírito Santo para que fosse nosso guia e conse-

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lheiro. Os judeus foram escolhidos para ser uma bênção, e nós fomos enviados para ser
luz para as nações-. "Pouco é que sejas o meu servo, para restaurares as tribos de Jacó e
tomares a trazer os guardados de Israel; também te dei para luz dos gentios, para seres a
minha salvação até à extremidade da terra" (Is 49.6). Em seu último e diretivo
mandamento à igreja, Jesus disse: "Ide". Os líderes apostólicos cultuam o Deus que
envia, pois eles escutaram seu mandamento para que fossem. Eles lideraram a igreja
para que saísse do confortável gueto cristão e acompanhasse a batida do coração de
Deus em meio ao mundo caído e ferido. Como nos diz o escritor aos Hebreus, nosso
ministério deve refletir a obra de Jesus-, "E, por isso, também Jesus, para santificar o
povo pelo seu próprio sangue, padeceu fora da porta. Saiamos, pois, a ele fora do
arraial, levando o seu vitupério" (Hb 13.12,13). Como a igreja norte-americana
necessita ser guiada para "fora do arraial" do conforto, para partilhar Jesus com aqueles
que desesperadamente necessitam dEle!
A Barreira de Vitral
Muitas pessoas da igreja parecem não ter consciência de quão irrelevante e obscuro o
cristianismo parece para a maioria dos ainda não-cristãos ao nosso redor. A maioria dos
cidadãos americanos pode jamais ter escutado o nome de Jesus mencionado de forma
reverente. Eles nunca vão à igreja, nunca ouvem uma rádio cristã, nunca compram
música cristã e nunca freqüentam uma livraria, concerto ou seminário cristãos.
Entretanto, eles podem descrever todas essas atividades, pois, para eles, a igreja criou
um campo de proteção, a saber, uma mensagem invisível de que eles não são bem-
vindos. Muitas igrejas parecem acreditar (se as ações forem reflexo da crença) que os
perdidos devem ser capazes de encontrar seu caminho para a igreja. Se assim não o
fizerem, azar deles.
Garrison Keillor, cheio de sarcasmo, descreve "Os Obscuros Luteranos", de Lake
Wobegon, uma cidade imaginária. Eles podiam facilmente descrever muito do
cristianismo não-apostólico que é tão evidente na atual igreja norte-americana:
Os Luteranos Obscuros detinham a Verdade e, portanto, eram rejeitados pelo mundo, e
o isolamento em que viviam era a prova de sua retidão. Eles cantavam:
O dom do justo é o dom de dizer não,
E separar-se de lugares que não deveria freqüentar,
Renunciar a companhia de almas impuras
E, portanto, sermos somados ao rol dos santos.
Negar, negar, este deve ser nosso deleite,
E pela separação tornar-se reto
E esperar pelo dia em que todos morreremos
E assim encontrar a verdadeira comunhão.
Esse tipo cie igreja é similar àqueles religiosos contra quem Jesus reagiu
veementemente, pois eles reclamavam que Ele recebia e comia com "publicanos e
pecadores" (Lc 15). Ele ficou tão irritado com essa reclamação, que narra três parábolas
para descrever a natureza de Deus e sua busca apaixonada pelos perdidos. O bom Pastor
abandona as noventa e nove ovelhas para buscar a perdida. A mulher que perde uma
moeda revira a casa inteira até achá-la. O gracioso e generoso pai senta-se ao portal à
espera do retorno de seu filho, após este ter se desfeito de toda a sua herança, não lhe
restando nada, a ponto de desejar comer com os porcos. Deus é um Deus que busca. Ele
busca até que ache. Ele não nos abandona no fosso, mas vem e nos ajuda a sair dali. À
sua semelhança, devemos também fazer àqueles que estão à nossa volta.
A compreensão do princípio missionário da barreira de cristal é de que muitas pessoas
jamais ouvirão o evangelho se tiverem de vir à igreja para isso. Essa é a razão pela qual
há uma forte mensagem não-verbal que os alerta de que não são bem-vindos. Se for para

91
eles ouvirem o evangelho, alguém deve ir ao mundo deles e falar com eles por meio de
palavras que possam compreender. Deus é um Deus que envia. Ele nos ordenou a ir
para que eles não fossem abandonados em seus pecados. Em nossa cultura, muitos
ministérios cristãos são como times de futebol que atrasam a bola para o goleiro, fazem
passes para cá e para lá, mas jamais finalizam. Embora, esperemos placidamente para
que as pessoas venham a nossas igrejas, o mandamento e a comissão de Deus dizem o
seguinte: "Ide ao mundo!"
A Liderança que Precisamos Tem de Crescer
A liderança que precisamos tem de crescer, ser cultivada, mentoreada e podada. Há
muitas redes apostólicas que brotaram e estão cultivando uma liderança apostólica. Para
muitos, ainda, a vida não passa de uma versão contemporânea do modelo medieval cujo
foco eram as igrejas e o clero. Depois, tivemos as catedrais e capelas, os bispos e os
padres. Agora é o prédio da igreja, o pastor e sua equipe. Para muitas pessoas que vão à
igreja tudo que conhecem é uma forma de cristianismo acadêmico, em que não passam
de meros espectadores. O pastor é o professor treinado, e os membros devem ser bons
ouvintes, assim como devem colocar seu dinheiro na bandeja de ofertas. Os seminaristas
estão incumbidos da tarefa de escutar, fazer aquilo que lhes dizem e pagar por esse
privilégio.
Se compreendermos que estamos verdadeiramente em um campo missionário, agiremos
de uma forma totalmente diferente. Não buscaremos mais qualificações seculares para
líderes, como, por exemplo, um diploma acadêmico específico. Antes, focaremos o
caráter pessoal, os dons espirituais, o chamado de Deus, além da devida preparação para
o bom desempenho do nosso trabalho e patente eficiência no ministério. É comum
escutar pastores descreverem, calmamente, o tempo que foi necessário para que
terminassem o treinamento no seminário. Isso é devido ao fato de o treinamento no
seminário não focar o desenvolvimento da liderança — e lembre-se que essa afirmação
provém de um homem que ensinou em dois seminários de renome. O velho provérbio
pode ser bem aplicado aqui: insanidade é fazer a mesma coisa, vez após vez, esperando
obter resultados distintos.
Princípios apostólicos não podem ser aprendidos nos bancos de seminários, mas devem
ser absorvidos na linha de frente das missões. A liderança apostólica é liberada quando
reconhecemos os dons, confirmamos o chamado, assim como equipamos e envolvemos
os lideres emergentes com o trabalho de missões e de ministério, de forma que possam
aprender enquanto desenvolvem este trabalho. Há lugar para o treinamento no
seminário? Muitos ainda pensam que sim. Contudo, não-seminaristas são responsáveis
por 80% das igrejas implantadas nos Estados Unidos. Um estudo em mais de mil igrejas
de cinco continentes demonstrou que há uma relação inversa entre igrejas saudáveis e
líderes treinados no seminário. Ou seja, igrejas saudáveis tendem a ter líderes sem
treinamento em seminários.4 A réplica mordaz a essa observação algumas vezes é a
seguinte: "No entanto, necessitamos de pastores que são treinados doutrinariamente".
Que evidência existe de que a educação no seminário equipa um pastor para que seja
ortodoxo? Muitos dos mais bem conceituados e prestigiados seminários nos Estados
Unidos são a sementeira do abandono contemporâneo do cristianismo clássico. Muitos
pastores aprendem ali o suficiente para torná-los menos efetivos em seus ministérios.
Essa é a relação causai entre a maneira como treinamos os líderes nos seminários e o
fim das missões cristãs nesse país.
Em virtude do treinamento, muitos líderes bem estabelecidos, que cresceram nesse
modelo de igreja, podem não ser capazes de reproduzir a liderança apostólica. Eles
podem se sentir confortáveis em seus estudos, em uma reunião do comitê e na liderança
de cultos de adoração, mas sentem-se perdidos se tiverem de partilhar Jesus com algum

92
vizinho que ainda não é cristão. Muitos líderes treinados, por anos a fio, não levam uma
outra pessoa a Cristo (se é que alguma vez o fizeram). E muitos deles não têm nenhum
relacionamento significativo com alguém que não é cristão, embora pudessem partilhar
Jesus com essa pessoa se quisessem. Não necessitamos de bons membros para o comitê,
nem de bons professores. Necessitamos de mestres ungidos, que sirvam de modelo,
demonstrando-nos um proceder à semelhança de Cristo para com o ferido, o perdido e o
solitário que estão à nossa volta.
O que Quer que tu Quiseres, Senhor!
Alguns anos atrás, fazia parte de uma equipe de cerca de cinqüenta pessoas que
trabalhavam com dez igrejas da área de Los Angeles, cujo objetivo era alcançar pessoas
ainda não-cristãs de suas vizinhanças. Havia cerca de dez de nós na equipe de
supervisão, e, durante uma semana, dormimos ao chão de um apartamento vazio.
Embora nossa equipe de supervisão, a maior parte do dia, estivesse com os outros
membros do grupo, de manhã e à noite começamos a causar um efeito nos moradores
daquele prédio. Eles nos escutavam cantar, viam-nos lendo a Bíblia e sabiam que algo
estranho estava acontecendo. Todas as manhãs, bem cedo, havia um mexicano que saía
para o trabalho e voltava tarde da noite. Começamos a desenvolver algum contato com
ele à medida que a semana progredia, e ele sempre parecia querer nos cumprimentar —
embora seu inglês fosse rudi-mentar, e nosso espanhol também deixasse muito a
desejar. Certa noite, próximo do fim dessa semana, ele e três outros colegas bateram à
porta trazendo refrigerantes. Nós os convidamos a entrar e pensamos: "Deus nos deu
uma oportunidade para ministrar a esses homens". Descobrimos, porém, que todos eles
eram cristãos e vieram para descobrir como Deus estava respondendo à oração que
fizeram por nós, assim como procuraram nos encorajar no Senhor. Eles haviam saído do
México e se instalado naquele prédio, a fim de ser em missionários para as pessoas de
origem hispânica que viviam na região. Tivemos um momento maravilhoso de
comunhão e, a seguir, lhes perguntamos como poderíamos orar por eles.
Eles estavam relutantes em pedir oração, mas finalmente um deles disse: "O que quer
que tu quiseres, Senhor!" Pressionamos para que fizessem outro pedido, mas esse foi o
único. Ele viera do México em humildade e rendição. Ele trabalhou longas horas como
operário — o seu ofício de fazer tendas — para que pudesse ser apóstolo de Deus
naquela área. E nós, em humildade e confiança, sabíamos o que pedir em oração — o
que Deus quer? Perguntamos ao segundo homem, e seu pedido em espanhol foi o
mesmo: "O que quer que tu quiseres, Senhor!" O terceiro e o quarto fizeram o mesmo
pedido.
Demos as mãos e oramos por eles com o coração alegre e agradecido, pedindo a Deus
que fizesse aquilo que quisesse com eles e os direcionasse, como também para que os
mantivesse no desejo do Senhor. Após nossa oração, eles também oraram, de forma
ungida e poderosa, para o trabalho que estávamos fazendo. Compreendi grande parte do
que disseram em oração e sabia que estavam em comunhão com o Pai, a quem
conheciam intimamente. Depois disso, eles foram embora.
Quando eles saíram, nós todos percebemos que havíamos sido visitados por
mensageiros de Deus. Esses mensageiros incorporaram o DNA apostólico que os
Estados Unidos tão desesperadamente necessitavam. Eles eram humildes e haviam se
rendido, e o foco deles era seguir o Mestre Jesus. E, para isso, eles pagaram o preço e
trabalhavam incansavelmente para obedecer ao desejo do Senhor. Eles eram homens de
oração e davam frutos, criando discípulos que criariam outros discípulos. Além disso,
sabiam tudo sobre estar na posição de servos. Como Jesus, eles se renderam, se
humilharam e descobriram que poderiam ser poderosamente usados por Deus. Que
Deus possa levantar líderes apostólicos como eles em todo o mundo.

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Apêndice
OUVINDO A DIREÇÃO DE DEUS PARA O SEU MINISTÉRIO

Se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois me é imposta essa obrigação; e ai de mim se
não anunciar o evangelho!
1 CoRÍNTIOS 9.16

E, agora, eis que, ligado eu pelo espírito, vou para Jerusalém, não
sabendo o que lá me há de acontecer.
ATOS 20.22

QUANDO BUSCAMOS DIREÇÃO PARA o FUTURO, nossa vida e nosso ministério, como
isso se realiza? Para realizar os resultados espirituais, não criamos o futuro por meio da
visualização nem pela mobilização cie pessoas a fim de ter um retrato do que o futuro
nos reserva. Estou criticando diretamente um ensinamento predominante entre escritos e
seminários cristãos sobre liderança que promovem a importância da visão. Minha crítica
a eles é a de que não usam "visão" da maneira que a Bíblia o faz, e o ensinamento deles
tende a promover atitudes carnais, em vez da liderança guiada pelo Espírito. Por
contraste, neste apêndice focarei a compreensão espiritual de fardo que Paulo tinha, a
saber, a obrigação de escravo para com seu Mestre a fim de cumprir os desejos dEle.
Essa é a linguagem que Paulo utiliza, e o padrão que ele exemplifica em sua liderança.
Deixando de Ser Conduzido para Ser Compelido
Paulo, desde muito pequeno, foi uma pessoa conduzida. À época que alcançou a
maturidade, você poderia descrevê-lo como alguém conduzido por um propósito. Sua
visão era sustentar a religião judaica e eliminar a ameaça emergente do cristianismo. Em
sua primeira aparição em um registro histórico, ele, aprobatoriamente, tomou conta dos
casacos daqueles que apedrejavam Estêvão, pois este cria em Jesus como Senhor (At
7.58-8.1).
Paulo, nesse dia, assolou a igreja. Ele, sistemática e impiedosamente, ia de casa em casa
a fim de viver seu propósito e cumprir sua visão, a saber, desmantelar aquela incipiente
ameaça cristã à sua herança e religião (At 8.3). Ironicamente, antes de se tornar cristão,
Paulo já estava servindo ao propósito maior de Deus ao dispersar os cristãos: "Mas os
que andavam dispersos iam por toda parte anunciando a palavra" (At 8.4). Embora não
estivesse consciente disso, ele estava atuando em prol do Reino de Deus, cumprindo os
planos daquEle que logo o confrontaria e o converteria no caminho de Damasco.
Paulo, até aquele momento conhecido como Saulo, permaneceu focado nesse propósito
até que fosse confrontado face a face com Jesus:
E Saulo, respirando ainda ameaças e mortes contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se
ao sumo sacerdote e pediu-lhe cartas para Damasco, para as sinagogas, afim de que,
se encontrasse alguns daquela seita, quer homens, quer mulheres, os conduzisse presos
a Jerusalém. E, indo no caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco,
subitamente o cercou um resplendor de luz do céu. E, caindo em terra, ouviu uma voz
que lhe dizia-. Saulo, Saulo, por que me persegues? E ele disse-. Quem és, Senhor? E
disse o Senhor-. Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro épara ti recalcitrar contra os
aguilhões. E ele, tremendo e atônito, disse: Senhor, que queres que faça: e disse-lhe o
Senhor: Levanta-te e entra na cidade, e lá te será dito o que te convém fazer. E os
varões, que iam com ele, pararam espantados, ouvindo a voz, mas não vendo ninguém.
E Saulo levantou-se da terra e, abrindo os olhos, não via a ninguém. E, gui-ando-o pela

94
mão, o conduziram a Damasco. E esteve três dias sem ver, e não comeu, nem bebeu (At
9.1-9).
Desse ponto em diante, a vida de Paulo mudou radicalmente; algo que inclusive pode
ser observado no fato de que deixou de ser chamado por seu nome hebreu, Saulo, para o
equivalente greco-romano, Paulo. Ele sempre olharia em retrospectiva para esse ponto
em que uma mudança crucial ocorreu em sua vida. Todo o seu ministério foi marcado
por esse evento. Paulo, desse momento em diante, sentiu-se constrangido, chamado e
compelido por Cristo. Ele, contínua e decisivamente, articulou o propósito de sua vida e
missão pessoal: "Sou apóstolo de Cristo para os gentios". Para ele, essa visão reveladora
de Jesus no caminho de Damasco estabeleceu o curso para o resto de toda a sua vida e
pregação.1
Paulo considerava esse dia como aquele em que passou a ser identificado como escravo
de Cristo. Em uma passagem reveladora, ao final de sua Epístola aos Gaiatas, ele faz
referência às "marcas do Senhor Jesus" que carregava em seu corpo (stigmata lesou; Gl
6.17). Este comentário enigmático pode ser compreendido como uma referência às
cicatrizes e problemas que Paulo tinha em razão da perseguição que sofreu. Contudo, é
impossível interpretar isso de modo mais específico como a dificuldade de enxergar,
provavelmente resultante de sua cegueira no caminho de Damasco. Talvez isso explique
por que Paulo escrevia com letra grande (Gl 6.11), e é por essa razão que os cristãos
gaiatas, se possível fora, arrancariam "os olhos" e os dariam a Paulo (Gl 4.15).2
Paulo usa a imagem do mestre e do escravo para se referir à sua compulsão, dirigida
pelo Espírito, para disseminar a mensagem de Jesus: "Se anuncio o evangelho, não
tenho de que me gloriar, pois me é imposta essa obrigação; e ai de mim se não anunciar
o evangelho!" (1 Co 9.16) A palavra traduzida aqui por obrigação refere-se à obrigação
de escravo, e a palavra grega utilizada é anankç. Ela expressa a perda de direito à
autodeterminação e à absoluta compulsão de um escravo para realizar o que quer que
seja que seu mestre ordenar (lembre-se de que a palavra grega para "Senhor" é a mesma
palavra utilizada para referir-se ao "mestre" de escravos, kyrios)? Para Filemom, Paulo
diz que não é apenas um "prisioneiro", mas "prisioneiro de Jesus Cristo" (Fm 1). Essa
imagem aparece recorrentemente nas epístolas de Paulo, quando este usualmente se
refere a si como escravo de Cristo, compelido e arrastado por todo o império para
proclamar o amor e o poder de Jesus.1 Para ilustrar esse comentário, podemos obseivar
como se apresenta aos cristãos de Roma: "Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para
apóstolo, separado para o evangelho de Deus" (Rm 1.1). Ele lembra os coríntios do
seguinte: "Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor
[kyrios]; e nós mesmos somos vossos servos, por amor de Jesus" (2 Co 4.5). Aos
gaiatas, dá uma descrição direta e clara da compreensão que tinha: "Porque persuado eu
agora a homens ou a Deus? Ou procuro agradar a homens? Se estivesse ainda agradando
aos homens, não seria servo de Cristo" (Gl 1.10). Aos filipenses, apresenta a si e a
Timóteo como trabalhadores que compartilham a submissão ao Mestre Jesus: "Paulo e
Timóteo, servos de Jesus Cristo, a todos os santos em Cristo Jesus" (Fp 1.1). A Tito, ele
faz uma conexão entre seu apos-tolado às nações e sua obrigação para com seu Mestre:
"Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo" (Tt 1.1).
As viagens missionárias de Paulo não aconteceram a partir de um planejamento-mestre
ou de planos de viagens, mas eram os planos do Mestre a ele revelados, passo a passo,
ao longo do caminho. Paulo não tinha um planejamento organizacional nem uma visão
para os dez anos seguintes. Sua direção parecia focada e ocasional: ora está indo para
Macedônia, ora dirigindo-se a Jerusalém. Dirige-se a Roma, mas foi convencido de que
Deus o queria levar à Espanha. Ele foi constrangido, empurrado para seguir adiante
conforme seu senso de ser propriedade de Jesus, que o identificou no caminho de

95
Damasco. Essa era a obrigação de Paulo, sua profunda compulsão — e, creio eu, seu
profundo desejo — para fazer o que seu Mestre, o Senhor Jesus, queria que ele fizesse.
Ore por um Fardo
Estou bem consciente de que muito da literatura sobre liderança promove uma
abordagem bastante distinta, em que a liderança visionária é exaltada. Por exemplo,
Geoge Barna afirma: "Perceba que o verdadeiro ministério inicia-se com uma visão".5
Considero essa afirmação chocante, pois rejeita atrevidamente os ensinamentos do
Novo Testamento! Se Barna estivesse no campo de missões, ele provavelmente seria
criticado por seu sincretismo, ao reinterpretar os termos e valores cristãos com
significados e valores pagãos. O que Barna quer dizer quando fala de visão?
Visão é uma imagem fixada nos olhos da mente que se refere à maneira como as coisas
devem ou poderiam ser nos dias por vir. A visão tem a conotação de uma realidade
visual, um retrato das condições que não existem atualmente. Esse retrato é
internalizado e pessoal. Não é a visão de futuro de uma outra pessoa, mas aquela que
pertence unicamente a você. Por fim, você deve pintar esse retrato mental para os
outros se deseja que a visão se materialize em sua igreja.
Esta é uma definição comum que podemos encontrar na atual literatura sobre liderança,
quer secular quer cristã. Nos círculos seculares, encontramos afirmações audaciosas de
que o controle é a motivação dos executivos para buscar esse tipo de visão. Por
exemplo, um autor diz que a necessidade que move o desejo da visão é "a necessidade
de controlar o destino da organização".7 O problema para os cristãos que desejam adotar
esse uso secular é que esse tipo de visão não existe na Bíblia. A única referência em que
esse tipo de conceito é mencionado aparece em um contexto negativo, como a história
da torre de Babel (Gn 11). A visão deles para construir uma torre ofendia a Deus, e,
portanto, o resultado foi a disciplina do Senhor. A visão de muitos líderes da atualidade
diz respeito apenas a um prédio, ou a um programa, ou a um objetivo mensurável.
Muitas dessas visões, e esse é meu temor, são extraídas da mesma fonte lamentável que
deu origem à visão que levou à construção da torre de Babel: o poço da voluntariedade
humana. Como diz o profeta Jeremias: "... falam da visão do seu coração, não da boca
do Senhor" (Jr 23.16). A Epístola de Tiago, no Novo Testamento, fornece a repreensão
necessária a essa visão controladora do futuro:
Eía, agora, vós que dizeís: Hoje ou amanhã, iremos a tal cidade, e lã passaremos um
ano, e contrataremos, e ganharemos. Digo-vos que não sabeis o que acontecera
amanhã. Porque que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco e depois se
desvanece. Em lugar do que devíeis dizer. Se o Senhor quiser, e se vivermos, faremos
isto ou aquilo. Mas, agora, vos gloriais em vossaspresun-ções; toda glória tal como
esta é maligna. Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não faz comete pecado (Tg 4.13-
17).
É claro, há também o provérbio que é muito citado: "Onde não há revelação divina, o
povo se desvia; mas como é feliz quem obedece à lei!" (Pv 29.18, NVI) Aqueles que
utilizam isso para incitar a liderança visionária parecem não ter consciência do uso
bíblico para a palavra "visão". "Visão", na Bíblia, não é "uma imagem visual que
comunica as metas e os objetivos organizacionais", ou "pensar sobre o futuro, olhar para
o porvir, em público". Essa pode ser uma boa estratégia para grandes companhias, mas
não faz parte do registro bíblico que relata como Deus lidera seu povo. A Versão
Almeida Revista e Corrigida traduz esse mesmo versículo de uma maneira que reflete
melhor a compreensão bíblica: "Não havendo profecia ["revelação", NVI], o povo se
corrompe: mas o que guarda a lei, esse é bem-aventurado" (Pv 29.18). A visão bíblica
não diz respeito à imagem arquitetada pelo líder sobre o que as pessoas devem
conquistar juntas. A visão bíblica é, clara e unicamente, uma visão profética-,

96
revelações sobrenaturais que vêm de Deus (por exemplo, Gn 15.1; 46.2; Nm 12.6; 1 Sm
3.1). Esse tipo de visão, os sonhos "e as visões", é inspirado e comunicado por Deus às
pessoas de sua escolha (por exemplo, Dn 2.28).8 Esse é o dom espiritual que, conforme
a promessa, seria restaurado na igreja,nos últimos dias, com a vinda de Cristo. Podemos
ver isso claramente quando Pedro, em Jerusalém, interpreta a atividade espiritual de
Pen-tecostes, logo depois da ressurreição de Jesus. Ele cita o profeta Joel 01 2.28):
E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, que do meu Espírito derramarei sobre toda a
carne; e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos jovens terão visões, e
os vossos velhos sonharão sonhos (At 2.17).
Aqui, como em outros textos bíblicos, fica claro que isso significa ser inspirado pelo
Espírito que nos dá sonhos e visões proféticas. Pedro continua a citar Joel: "E também
do meu Espírito derramarei sobre os meus servos e minhas servas, naqueles dias, e
profetizarão" (At 2.18). Essa é a maneira como o termo que se refere à visão é utilizado
mais de cem vezes na Bíblia.
Dietrich Bonhoeffer, martirizado sete dias antes de os aliados libertarem o campo de
prisioneiros em que se encontrava, no final da Segunda Guerra Mundial, crítica
corretamente a concepção secular de liderança visionária que contaminou a igreja.
Deus odeia os sonhos visionários, pois torna o sonhador orgulhoso epretensioso. O
homem que modela o ideal visionário de comunidade exige que este seja realizado por
Deus, pelos outros e por si mesmo. Ele se junta à comunidade de cristãos com suas
exigências, estabelece sua própria lei e julga os irmãos e até mesmo Deus. Ele
permanece inflexível, uma repreensão viva a todos os outros do círculo de irmãos.
É possível ficar mais cego do que isso? Quantos de nós já passaram pela experiência de
estar sob a direção de um líder que caiu na armadilha de sua visão pessoal? Falo com
algum remorso e arrependimento pelas vezes que meu "sonho visionário" tornou-me
"orgulhoso e pretensioso", pela condenação e reprovação dos crentes que Deus me
chamou para cuidar e pastorear. Falei com muitos pastores que pareciam contentes, pois
haviam expulsado de sua igreja as pessoas que não se ajustavam à visão que tinham.
Isso não corresponde ao coração do bom Pastor. Como Jesus pode se agradar quando
um objetivo ou programa é mais valorizado do que seu precioso rebanho, a noiva pela
qual morreu?
Antes, devemos orar por uma obrigação, a saber, realizar o que o coração de Deus quer
para o mundo ao nosso redor. Quando você tem a obrigação proveniente de Deus,
sempre sabe o que deve fazer a seguir. Quando Deus revela sua mente e seu coração a
seu povo, sua palavra e seu desejo tornam-se realidade. Todos nós somos chamados
para substituir nossas preocupações e tudo o que nos pesa pelo coração e fardo de Jesus
em relação ao mundo:
Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre
vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e
encontrareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é
leve (Mt 11.28-30).
Como muitas outras verdades de nossa vida em Deus, também essa verdade é
paradoxal. Abandonamos nossas obrigações, ou compromissos, para assumir o jugo
"suave" e "leve" de Deus. Muito embora o jugo de Deus seja um fardo para o mundo,
ele é fácil se comparado com os nossos, pois nos unimos a Jesus em sua obra. Ao nosso
lado, puxando o jugo conosco, está aquEle, o que ressuscitou e é onipotente, que carrega
o peso do mundo. É mais fácil e leve, graças àquEle que nos ajuda a carregar o peso.
Quando temos o fardo de Deus, vemos as pessoas com os olhos da compaixão, e as
pessoas em dificuldades, como nossos familiares e amigos que enfrentam problemas e
necessitam de ajuda. Quando temos um fardo, ganhamos o coração de Deus para lidar

97
com as pessoas que encontramos e conhecemos. Não mais os vemos por intermédio dos
olhos que focam o que está errado com eles. Nós os vemos por intermédio dos olhos de
Deus, cheios de misericórdia e zelo. Quando temos um fardo, as pessoas jamais são um
estorvo.
Unindo-se ao que Deus Está Fazendo
Jesus praticou esse tipo de direcionamento. Ele estava bem consciente das regras
religiosas em relação ao sábado, o dia reservado para o recolhimento em que não se
podia fazer esforço físico de qualquer sorte. Mesmo assim, esse foi o dia que Deus
escolheu para curar um homem que estava doente havia trinta e oito anos. Jesus, como
testemunho para Deus e em atitude de confiança e obediência, ordenou que esse homem
se levantasse e tomasse a sua cama (Jo 5.1-47). Em conseqüência disso, os religiosos
que guardavam a lei começaram a perseguir a Jesus, "porque fazia essas coisas no
sábado" (Jo 5.16).
Qual é a defesa de Jesus? "Mas Jesus respondeu e disse-lhes: Na verdade, na verdade
vos digo que o Filho por si mesmo não pode fazer coisa alguma, se o não vir fazer ao
Pai, porque tudo quanto ele faz, o Filho o faz igualmente" (Jo 5.19). Ele estabelece um
exemplo claro para nós. Como sabemos o que fazer? Necessitamos buscar o que Deus
quer para juntarmo-nos a Ele na realização disso.
Essa é a doutrina crucial proveniente da graça. Ela diz que Deus já está trabalhando.
Não necessitamos buscar fazer algo para Deus, pois Ele já o está fazendo. Precisamos
buscar nos unir a Deus, trabalhar com Deus naquilo que Ele já está fazendo. Paulo
descreve sua cooperação com Apoio, no ministério em Corinto, nos seguintes termos:
"Porque nós somos cooperadores de Deus; vós sois lavoura de Deus e edifício de Deus"
(1 Co 3-9); isto é, tanto a lavoura como o edifício não são de Paulo nem de Apoio. Da
mesma forma, Paulo enviou Timóteo, "nosso irmão, e ministro de Deus, e nosso
cooperador no evangelho de Cristo" (1 Ts 3-2), à igreja de Tessalônica.
Essa é uma concepção de ministério de linha de frente bastante distinta daquela que
muitos pioneiros têm. Devemos nos guardar contra o forte individualismo expresso por
meio da seguinte atitude: "Preciso ir e encontrar Deus ali". Antes, necessitamos
discernir e desvelar o que Deus já está fazendo a fim de nos unirmos à sua obra. John
Wesley, grande missionário do século XVIII, operacionalizou essa abordagem nas
primeiras conferências metodistas, quando receberam pedidos para enviar pregadores
missionários. John Wesley perguntou naquelas primeiras reuniões: "Que evidência
temos de que Deus já está trabalhando nesse local? A quem Deus já levantou para
realizar essa obra? De que forma podemos nos unir ao que Deus está fazendo?" Estas
são questões de missionários efetivos. Não somos individualistas convictos que plantam
a bandeira do cristianismo em terra nova com a seguinte pergunta: "Onde posso ir para
deixar minha marca?" Somos colaboradores de Deus, pois nos unimos a Ele naquilo que
Ele está fazendo, assim como percebemos e seguimos o vento do Espírito de Deus, para
servir ao seu propósito para nossa geração. Rick Warren chama isso de "pegar a onda":
Nossa tarefa como líderes de igreja, similar a de surfistas experimentados, é
reconhecer a onda do Espírito de Deus para surfá-la. Fazer ondas não é nossa
responsabilidade, pois apenas temos de reconhecer como Deus está trabalhando no
mundo para nos unir a Ele nesse esforço. [...] O mais surpreendente é: Quanto mais
habilidosos nos tornamos em surfar ondas de crescimento, mais ondas Deus envia.
Sinto que há muitos pastores frustrados, pois, equivocadamente, tentaram "fazer ondas",
em vez de aprender esse princípio-chave primordial referente ao identificar e "pegar a
onda" de Deus, a saber, o que Deus quer fazer. Métodos não funcionam e jamais
funcionarão se não aprendermos como ser direcionados pelo Espírito. Uma vez que
aprendamos a surfar, os métodos tornam-se um instrumento efetivo para seguir em

98
frente naquilo que Deus nos direcionou a fazer. (Há algumas sugestões no final deste
apêndice.)
Que fardo Deus lhe deu? Por quem sua alma se compadece? Desde que você saiba
responder a estas perguntas, não terá problemas em identificar o que Deus quer fazer,
para que assim possa "pegar a onda".
Uma Odisséia Pessoal
Em meu estilo de liderança que buscava uma visão, em vez de buscar o direcionamento
de Deus, um incidente marcou o final daquele triste período de meu ministério. Na
época, eu pastoreava, na Inglaterra, duas igrejas no mesmo vilarejo, enquanto concluía
minha graduação. Essas duas igrejas eram formadas por pessoas que moravam próximas
umas das outras e, basicamente, enfrentavam os mesmos problemas. Ambas as
congregações eram muito pequenas para as instalações, portanto parecia óbvio que essas
duas igrejas da mesma denominação — apenas a oitocentos metros de distância uma da
outra — devessem unir seus recursos para adorar e servir juntas conforme o princípio
"unidos venceremos, divididos cairemos".
Naquele país, muitas igrejas se uniram com sucesso, mas até hoje não tenho idéia se era
isso o que Deus queria para aquelas duas igrejas. Sinto-me envergonhado ao ter de
admitir isso, mas essa é a verdade. Sei que pensei que isso fazia sentido, assim como
pensei que refletia os valores do Reino, pois achava que dessa forma seria possível
trazer renovação da congregação mais avivada para a mais fria. Muitas pessoas dessas
duas igrejas foram a favor da união. Financeiramente, isso fazia sentido, uma vez que
com a venda dessas propriedades — os dois edifícios ineficientes —, ambas sem
estacionamento, poderíamos ter um bom início em uma instalação mais atraente e assim
por diante.
Gastamos dois anos com conversas e exploração, mas pouca oração. Isso não era culpa
deles. Toda culpa recaía sobre meus ombros, pois eu não estava seguindo o Senhor
Jesus. Não estava sendo liderado pelo Espírito. Estava seguindo as boas idéias, o
consenso e o desenrolar desse processo. Estava, no sentido secular, desempenhando
uma boa tarefa de liderança e de formação de uma equipe, mas falhei em minha
responsabilidade em relação ao seguir. Quando o momento decisivo chegou, os
compromissos obscuros e a relutância de algumas pessoas influentes em abandonar "seu
prédio" fez com que o processo submergisse. Foi então que percebi o problema que
tinha em minhas mãos, e somente nesse momento me dei conta de que não consultara ao
Senhor. Essa é uma história bastante embaraçosa para relatar, mas aprendi uma dolorosa
lição. Era como Josué, que raciocinou conforme sua própria sabedoria com os
gibeonitas, mas foi punido, pois não pediu "conselho à boca do Senhor" (Js 914).
Aprendi muito bem sobre o que Isaías falava, quando proferiu as seguintes palavras:
Ai dos filhos rebeldes, diz o Senhor, que tomaram conselho, mas não de mim! E que se
cobriram com uma cobertura, mas não do meu Espírito, para acrescentarem pecado a
pecado! Que descem ao Egito, sem perguntarem à minha boca, para se fortificarem
com a força de Faraó e para confiarem na sombra do Egito! Porque a força de Faraó
se vos tornará em vergonha, e a confiança na sombra do Egito, em confusão (Is 30.1-
3).
Corrie ten Boom, renomada cristã holandesa, disse: "Quando os cristãos têm reuniões, o
demônio sorri. Quando os cristãos fazem grandes planos, o demônio gargalha. Quando
os cristãos oram, o demônio estremece".
O próximo passo em meu crescimento aconteceu quando retornei aos Estados Unidos,
após essa estadia na Inglaterra. Tornei-me pastor de uma igreja que tinha muito
potencial, mas enfrentava tempos difíceis. Antes de assumir a responsabilidade pastoral,
encontrei os líderes da igreja para familiarizar-me com as pessoas e com os problemas

99
que enfrentavam. Certa manhã, ainda sofrendo devido à diferença de fuso horário,
acordei cedo e corri até o ponto mais alto que pude ver. No topo daquela montanha,
pude ter uma visão panorâmica da região: a oeste da bela região do delta e a leste
quilômetros de lotes demarcados, à espera da construção. Pude ver a oportunidade e
promessa do local. A igreja estava perfeitamente situada para alcançar milhares de
novas pessoas que estariam mudando para lá, e tenho uma profunda paixão por alcançar
e evangelizar as pessoas.
Algo tocou meu espírito. Era Deus. Percebi que estava repetindo o mesmo erro,
imaginando as possibilidades e planejando a visão segundo a carne. Pela graça de Deus,
parei de visualizar, e, por fim, acabei cedendo e orei: "Senhor, dá-me o fardo para essa
igreja e comunidade". Quando o sol nasceu, e a beleza daquele vale me envolveu, meu
coração se entristeceu, pois os céus se calaram.
Estava frustrado, desapontado e até mesmo duvidava se tomara a decisão correta de
aceitar ir para esse lugar. Desci a montanha e arrastei-me de volta para casa. Estava
verdadeiramente silencioso e, pela primeira vez, parei de lutar segundo a carne. Sentia-
me alquebrado e humilhado. Foi nesse momento que uma voz, que raramente escuto,
disse três palavras simples. Era a calma e suave voz de Deus.- "Reconstrua minha casa".
O que aquilo significava? Por que eu? Meu chamado era para alcançar os perdidos.
Qual era essa tarefa? Como poderia executá-la? Embora tivesse sido assolado por
questões e dúvidas, comecei a falar sobre o simples chamado que recebera, após cair do
topo da montanha por mim orquestrada. No entanto, durante aquele dia e nos dois anos
seguintes, busquei esse fardo que Deus tinha para sua igreja daquela região, e não
apenas para a congregação da qual estava me tornando pastor.
Essa congregação sofrerá duas grandes cisões nos últimos anos. A última foi liderada
por um amigo meu que pertencia ao ministério dessa igreja. Ele liderou muitos dos
melhores doadores e dos líderes mais fortes, e juntos iniciaram uma nova congregação
na mesma cidade. Falas acrimoniosas e relacionamentos desfeitos eram a norma. Jamais
vira uma igreja tão esfacelada. As instalações refletiam os dois grandes divórcios que
essa família em Cristo enfrentara.
Apesar disso, esses eram indivíduos especiais, os filhos de Deus. Eles tinham o coração
voltado para Jesus, paixão pela oração e desejo profundo de servir para alcançar os
outros. Descobri que, à medida que me tornei predominantemente conselheiro e líder
intervencionista, apoiava-me em Deus como jamais fizera anteriormente. Parecia que
tudo se esfacelara. Verdadeiramente, a casa de Deus — espiritual, relacionai e
fisicamente — necessitava ser reconstruída.
Não demorou muito para que começasse a receber o tipo mais doloroso de chamadas
telefônicas para um pastor. Alguém telefonava e dizia: "Oi, costumava ir à sua igreja.
Jamais voltarei lá, mas preciso contar-lhe algo que aconteceu com alguém ali". Quando
escutava isso, tinha de aceitar, embora minha carne quisesse negar. O eco daquela voz
calma e suave estendeu-se a todas as pedras vivas do templo do Senhor: "Reconstrua
minha casa". Esse chamado de Deus incluía ministrar àqueles que moravam em outros
aposentos da casa de Deus.
Nos primeiros seis meses que ali passei, estimo que gastei cerca de cem horas com esse
tipo de conversa. As pessoas desabafavam todos os tipos de dores e acontecimentos
inacreditáveis, e eu escutava, chorava e orava com elas. No fim, diziam: "Muito
obrigado", e, a seguir, prosseguiam para contar-me sobre a maravilhosa nova igreja que
estavam formando. Despedíamo-nos, e elas seguiam seu caminho.
Essa não era a maneira de formar uma congregação maior (pelo menos, jamais escutei
ou li alguém que afirmasse isso). No entanto, nossa congregação cresceu
significantemente à medida que Deus abençoava os passos simples de fé e de

100
obediência. Mais importante ainda, sabia que Deus se agradava da reconstrução
espiritual e relacionai do corpo de Cristo.
Isso se estendeu à cura das brechas nos relacionamentos entre nossa congregação e a
nova congregação que fora formada. Devido à graça do pastor dessa outra congregação,
muitos elos foram estabelecidos, muitos mal-entendidos foram curados e até mesmo fui
convidado a falar no culto da Sexta-feira Santa.
Parte do trabalho de reconstrução que Deus tinha para aquele local estava sendo
realizado com pastores de outras igrejas, os quais apoiavam a formação de um único
corpo de Cristo naquela cidade. Isso era algo que Deus estava realizando, e minha
chegada e tarefa faziam parte da iniciativa geral de Deus. Não me surpreendeu saber
que isso era algo que estava movendo o coração de muitos pastores dali também.
Quando nos unimos ao que Deus está fazendo, descobrimos que há outros que Deus está
movendo da mesma forma.
Fiquei nessa igreja por apenas dois anos. De início, pareceu que me tornaria um pastor
interino (uma outra coisa que jamais escolheria para mim!). Quando ali cheguei, o
paciente estava na unidade de tratamento intensivo, mas quando saí, essa congregação
estava deixando o hospital em cadeiras de rodas. Durante esse período, tornei-me um
remodelador, pois a vida e o ministério dessa congregação foram significantemente
reformados. Escutei mais, orei mais e envolvi-me em mais conflitos do que jamais
escolheria. Parece que os frutos agradáveis só foram colhidos após a minha partida.
Contudo, tenho boa consciência de que segui as diretrizes do Senhor e obedeci a Deus
quanto ao fardo que me fora dado. Posso observar as muitas coisas que Deus realizou
naquele período e agradeço ao Senhor, pois,pelo menos por uma vez, buscara
principalmente o desejo de Deus, não o de Dodd.
Suplantando as Boas Idéias
O problema é que muitos líderes cristãos de hoje lideram a partir de boas idéias. Eles
estudaram no seminário e participaram de muitos encontros; escutaram as últimas fitas
magnéticas e leram os últimos lançamentos. Onda após onda de todo tipo de modas
afligem o pensamento deles. Pegar a onda da moda é bem diferente de "pegar a onda do
Espírito de Deus". Muitas dessas idéias e tendências são úteis, mas freqüentemente
podem se tornar ídolos. O que Deus busca em uma grande e influente igreja de uma
grande cidade pode não ter nenhuma relação com o que Ele está operando em uma
vizinhança de classe média, ou o que o Espírito está movendo em uma igreja de uma
cidade pequena com uma extensa e rica herança e todo um conjunto de tradições. O
campus e os ministérios de estudantes são completamente distintos, pois mudaram
significativamente nos últimos anos. De alguma forma, precisamos abandonar o tipo de
liderança cuja direção é nossa própria mente ou boas idéias. Precisamos mais do que
otimismo ou expectativa; precisamos de um sentido do que Deus quer para que
possamos pôr o jugo sobre nós e seguir a direção dEle. Assim, o trabalho flui. Quando
Deus está realizando algo e nós nos unimos a Ele, descobrimos que desempenhamos o
trabalho com facilidade e alegria.
Devemos substituir nossas boas idéias pelas idéias de Deus.-
Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos,
os meus caminhos, diz o Senhor. Porque, assim-como os céus são mais altos do que a
terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus
pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos (Is 55-8,9)-
Quando mudamos para a postura de seguir, abandonamos as boas idéias e ansiámos
pelas idéias de Deus. Quando compreendemos completamente a bancarrota da vida
segundo a carne, quando morremos para a confiança em nós mesmos à parte de Deus,
quando não nos conformamos com o que nossas iniciativas produzem, descobrimo-nos

101
famintos da direção e da orientação de Deus. À medida que nosso desejo é mais e mais
quebrantado, tornamo-nos mais e mais capazes de receber os estímulos e a ciireção de
Deus. A voz calma e suave de Deus abafa o barulho dos impulsos do desejo próprio e da
valorização do ego.
Discernindo o Fardo de Deus para seu Ministério
Como podemos discernir a onda de Deus para pegá-la? Que fardo Deus colocou sobre
você? Discernimos a resposta a essas questões na vida de oração e em meio ao corpo de
Cristo. Os meios de discernimento não são nada novos. No processo de buscar a direção
de Deus, precisamos buscar a Deus pelo uso de disciplina espiritual que leve nossa alma
a amadurecer e crescer. Dentre essas disciplinas estão:
1. Orar por um fardo. Por quem sua alma se compadece? As estatísticas são chocantes
ao mostrar que os pastores não têm o costume de orar regularmente. Como podemos
discernir a direção de Deus quando não o consultamos? Ore por um fardo, quando Deus
o entregar a você, você certamente saberá o que fazer a seguir.
2. Jejue por direção. Ao longo da vida de Jesus, observamos a associação de oração e
de jejum com a tomada de decisão. Jejuar é uma maneira de dar espaço para Deus em
nossa rotina diária, pois retarda o passo e diminui o ego do indivíduo, de forma que
possamos nos tornar mais responsivos para discernir mais claramente o que Deus quer
fazer. Se você jamais jejuou como parte de sua disciplina espiritual, há alguns bons
fundamentos sobre o assunto. O jejum, usualmente relacionado ao receber direções
ministeriais de Deus, era uma prática de Jesus e da Igreja Primitiva:
"Na igreja que estava em Antioquia havia alguns profetas e doutores, a saber: Barnabé,
e Simeão, chamado Niger, e Lúcio, cireneu, e Manaérn, que fora criado com Herodes, o
tetrarca, e Saulo. E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo:
Apartai-me a Barúabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando,
e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram" (At 13-1-3) .
3- Consultar o corpo. Precisamos confiar na sabedoria do corpo de Cristo para descobrir
perspectivas, assim como confiar em todos os dons que Deus pôs na comunidade dos
cristãos. Discernir o que Deus quer fazer não é algo individual que os líderes fazem; é
algo comunitário que compartilhamos.
4. Buscar nas Escrituras. Há uma disciplina regular que cultiva em nós o coração
receptivo aos mandados do Reino de Deus. Um coração que não está plantado nas
Escrituras é arrogante, pois escuta com os ouvidos do ego e agrada-se da carne. As
diretrizes gerais e as aplicações específicas das Escrituras podem ajudar-nos a discernir
a mente do Senhor. Os planos de Deus para nós necessariamente se ajustarão ao desejo
de Deus, a saber, reconciliar consigo este mundo pecador. Como Andy Stanley diz:
"Para a presente era, sempre haverá alinhamento entre a visão originada divinamente e
os planos mestres de Deus. Sempre haverá uma co-relação entre o que Deus pôs em um
coração individual e o que Ele está para fazer no mundo como um todo". Uma visão
autocentrada, cujo foco é o interior, pode ser possível se a concepção for secular.
Quando tomamos o fardo de Deus, essa visão se alinhará com o foco do Senhor, que
recai sobre os menores, os últimos e os perdidos.
Um Instrumento Prático, à Medida que Oramos por um Fardo
Dirijo um ministério denominado Share Jesus! (Compartilhe Jesus) no qual trabalhamos
com igrejas e equipes de membros, por meio da oração por um fardo que nos constranja,
a fim de ajudá-los a formular estratégias efetivas para alcançar os outros. No fim de um
processo de oração e planejamento, reunimos uma equipe com cerca de dez pessoas
para trabalhar com eles para a implementação de novas estratégias que buscam alcançar
os outros. Compartilho o instrumento de planejamento que utilizamos, pois acredito que
essa abordagem pode ser adaptada para qualquer planejamento missionário da igreja, e

102
não apenas para nossas missões. (Sinta-se livre para copiar e adaptar isso para seu
contexto local.) Como você verá, não opomos oração a planejamento, mas priorizamos
orar por um fardo antes de planejar um programa. Planejar e seguir o planejamento são
necessários, mas, primeiro, devemos discernir qual é o fardo de Deus. Seguir faz parte
da carta de apresentação que enviamos aos pastores que convidam uma equipe de
missões para ajudar a sua igreja. A seguir, vem a folha de instruções que é
acompanhada pela planilha.
1. Carta de Apresentação para os Pastores
Caro pastor,
A parte mais importante de seu planejamento é o processo, não o produto. Reunir uma
equipe, assim como a oração e o discernimento, são elementos cruciais. Juntos vocês
descobrirão a direção de Deus para sua missão.
O processo do Instrumento para o Planejamento de Missões foi criado para deixar a
programação por último. Primeiro, queremos que você discirna espiritualmente em que
Deus está trabalhando em sua comunidade e como atua por meio de sua igreja. Deus já
está fazendo algo — o quê? Como você pode se unir ao que Deus já está fazendo? Para
esse fim, a oração e a "oração de inspeção" são cruciais para seu processo de
planejamento (veja a Folha de Instruções). Seu fardo e objetivos missionários fluirão a
partir disso (números dois, três e quatro da planilha). Você precisa resistir
conscientemente a algumas tentações: à tentação do olhar interno, direcionado aos
programas e às preocupações da Igreja, em vez do olhar externo, direcionado às neces-
sidades da comunidade, à tentação de planejar sem oração e à tentação de orar sem
planejamento. O discernimento do grupo
obtido por meio da oração jamais o direcionará ao equívoco!

Seus colaboradores em Cristo,


A equipe do Share Jesus! (Compartilhe Jesus)
2. Folha de Instrução
INSTRUÇÕES PARA COMPLETAR SEU INSTRUMENTO DE PLANEJAMENTO
MISSIONÁRIO
Estamos felizes por você ter decidido convidar uma equipe do Share Jesus! a ter
parceria com sua igreja. Antes que possamos determinar a liderança ou a equipe,
precisamos transmitir uma descrição clara do fardo e dos objetivos para alcançar novas
pessoas em sua comunidade. Esse instrumento fornece o passo seguinte e necessário
para planejar sua missão. Aqui estão os passos para completar efetivamente essa parte
do planejamento.
Passo um: Reúna uma equipe de planejamento. É muito importante que sua missão seja
planejada, desenvolvida e implementada por uma equipe de pessoas. Essa não é uma
tarefa que pode ser deixada somente para o pastor. Uma equipe de planejamento que
esteja envolvida e comprometida é uma parte crucial para a efetividade das missões.
Este grupo pode ser um grupo oficial (o "comitê de evangelismo" ou o "conselho
ministerial"), mas, com freqüência, é melhor uma equipe especial para o propósito de
sua missão. Quem tem um coração voltado para alcançar outras pessoas? Quem são os
formadores de opinião em sua igreja, cujo apoio é (necessário para que esse projeto seja
bem-sucedido? Você tem uma boa combinação de idade, maturidade e áreas ministeriais
em sua igreja? Quem são os novos e emergentes líderes que poderiam se envolver com
esse novo trabalho? Os jovens também participam?
Passo dois: Comprometa-se a tomar uma decisão fundamentada na oração.
As missões mais efetivas que já vimos foram concebidas e entregues por meio da
oração. Comece orando por direção e por orientação em seu planejamento de missão e

103
comprometa-se a estar aberto para a liderança de Deus nesse processo. O mais
importante é pedir a Deus que lhe dê um fardo compartilhado para tocar as pessoas não
alcançadas em sua área alvo de missões: "Senhor, quebrante nosso coração para que
alcancemos as pessoas que estão entristecendo o teu coração!"
Passo três: Faça uma "oração de inspeção"para a área alvo de suas missões.
Em grupos de dois ou mais, caminhe em oração — se estiver ao volante, procure
estacionar o veículo — enquanto inspeciona seu campo missionário em potencial.
Mantenha seus olhos e coração abertos para discernir quem são as pessoas próximas de
sua igreja que Deus está nos dando como nosso fardo. Há vizinhanças, locais (um
prédio de apartamentos ou um parque) ou grupos de pessoas (de certas nacionalidades
ou de determinadas faixas etárias) por quem sentimos o chamado para alcançá-las?
Certifique-se de que você planeje um período de questionamento para quando, os que
foram fazer o reconhecimento em oração, retornarem com as informações para toda a
equipe de planejamento. Como vocês, como grupo, percebem isso?
Passo quatro: Cheguem a um acordo sobre os objetivos missionários. Veja a planilha
detalhada.
3. Planilha
COMPARTILHE JESUS! INSTRUMENTO DE PLANEJAMENTO MISSIONÁRIO
1. Nossa área alvo de missões. Dê uma descrição de seu campo missionário imediato
após discuti-lo em grupo. (A conversa sobre esse aspecto é uma parte crucial do
processo.) Há muitas pessoas aposentadas? Crianças ou adolescentes? Que grupos
étnicos vivem na redondeza e que outras línguas são faladas ali? Há novos conjuntos de
casas, escolas, parques ou prédios de apartamentos próximos de sua igreja? A população
dessa área está crescendo, decrescendo ou sua composição está mudando? Há
empregadores proeminentes na área, ou muitas pessoas viajam longas distâncias para
trabalhar? O que mais seria necessário conhecer sobre sua área?
2. Nosso fardo missionário. Quem, em nossa comunidade, sentimos que pode ser o
fardo que nos constrange? (veja as Instruções).
3- O propósito de nossa missão. Que novas formas de alcançar e que ministérios
planejamos continuar a oferecer um ano após o início de nossa missão? Como
continuaremos a alcançar aqueles citados no item dois, acima?
4. Nossos objetivos missionários. Quais são dois ou três objetivos específicos que
queremos alcançar durante a semana de missões para lançar esse ministério ou esses
ministérios que queremos ver implementados após um ano? (Quais objetivos você quer
alcançar nessa semana em que nossa equipe estará com vocês para ajudá-los a lançar
esse novo trabalho?)
5. Quais preparativos precisam fazer? Que preparativos precisamos para atingir esses
objetivos missionários? Como podemos envolver várias pessoas e segmentos de nossa
congregação em todos os aspectos dessa missão — na oração, no planejamento e no
desenvolvimento? Quais líderes precisam ser recrutados ou desenvolvidos para que isso
seja realizado? Que treinamento ou que tipo de organização necessitamos fazer para
preparar-nos para a missão? Como podemos melhor divulgar nossas atividades
missionárias em nossa comunidade e em nossa igreja? Que custos precisamos orçar?
6. Quais são nossos planos de acompanhamento? O que precisamos fazer, planejar e
organizar para envolver efetivamente, na vida de nossa igreja, as pessoas alcançadas
durante as missões? Que novos grupos, ou categorias, precisamos lançar como resultado
de uma missão efetiva? Que novos líderes de grupo, ou categoria, precisamos recmtar e
equipar para dirigir esses novos grupos ou programas?
Questões para Reflexão e Discussão
Que fardo o constrange, o qual Deus designou a você? Sua igreja? O que é aquilo, que

104
está em seu interior, que deve fazer como cristão e como grupo de cristãos?
1. Quando você faz uma oração de inspeção em sua área, por quem você sente uma
profunda preocupação ou compaixão? O que outros líderes em sua igreja sentem?
2. A liderança cie sua igreja poderia ser descrita mais como aquela que é conduzida ou
aquela que é constrangida? Por quê?
3- O que você percebe que Deus está fazendo em sua vizinhança e comunidade? Como
você pode se unir ao que Deus está fazendo?
4. Que visão ou visões você tem que podem se tornar ídolos e precisam ser entregues no
altar de oração para que você possa escutar novamente o que o coração de Deus é para
você, sua igreja e sua comunidade?

Capítulo 1: Liderança Fortalecida pelo Espírito


The Orlando Sentinel, sábado, 10 de julho de 1999.
Entre os teólogos e estudiosos da Bíblia com quem conversei, há uma profunda
frustração com a literatura, bastante popular, sobre liderança cristã, a qual comercializa
conceitos estranhos ao cristianismo bíblico. Algumas recentes e bem-vindas exceções
são David Fischer, O Pastor do Século 21: Uma Reflexão Bíblica sobre os Desafios do
Ministério Pastoral no próximo Milênio (São Paulo: Vida, 1999); David Cannistraci,
Apostles and the Emerging Apostolic Movement: A Biblical Look at Apostleship and
How God is Using it to Bless His Church Today (Ventura, Calif.: Renew, 1996); Helen
Doohan, Leadership in Paul (Wilmington, Del.: Glazier, 1984); Robert Dale, Leading
Edge: Leadership Strategies from the New Testament (Nashville: Abingdon, 1996).
Dale, no entanto, pula de Atos dos Apóstolos para as Epístolas Pastorais,
negligenciando muitos dos exemplos de liderança de Paulo. A versão revisada de minha
dissertação foi publicada como Paul's Paradigmatic "I": Personal Example as Literary
Strategy (JSNTS 177; Sheffield: Sheffield Academic Press, 1999).
Michael Riddell, Threshold of the Future: Reforming the Church in the Post-Christian
West (Londres: SPCK, 1998), p. 3.
Apenas a China, a índia, a Indonésia e a Rússia têm menos pessoas que freqüentam a
igreja do que os Estados Unidos. Mission America, janeiro de 1998. Brian Dodd, The
Problem with Paul (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 1996). Para um estudo
aprofundado a respeito da compreensão que Paulo tinha do Espírito Santo como a
pessoa, a presença e o poder de Deus, veja a obra-prima de Gordon Fee, God's
Empowering Presence: The Holy Spirit in the Letters of Paul (Peabody, Mass.:
Hendrickson, 1994).

105
Capítulo 2: Discipulado e Rendição
Nessa passagem de 2 Coríntios há um notável problema de interpretação, a saber,
a dificuldade de decidir quem Paulo tem a intenção de incluir quando utiliza
"nós". No entanto, teologicamente, esse "nós" de Paulo inclui você e eu. Qualquer
pessoa que é apta a ministrar foi capacitada por Deus.
Essa é a suposição, reiterada, que fazem sobre Paulo. Uma leitura mais cuidadosa
de Atos desfaz essa suposição muito comum, mas equivocada.
Mike Yaconelli, Dangerous Wonder: The Adventure of Childlike Faith (Colorado
Springs: NavPress, 1998), p. 28.
"Stoichç", ExegeticaI Dictionary of the New Testament, ed. Horst Balz e Gerhard
Schneider, 3 vols. (Grand Rapids, Mich.: Eerdmans, 1993), 3:278.
Notas
James D. G. Dunn, The Theology of Paul the Apostle (Grand Rapids, Mich.: Eerdmans,
1998), p. 72.
Martinho Lutero relaciona carne e corpo da seguinte forma: "O termo 'carne' aplica-se à
pessoa que, em pensamento e de fato, vive e trabalha a serviço do corpo e da vida
temporal. O termo 'Espírito' aplica-se à pessoa que, em pensamento e de fato, vive e
trabalha a serviço do Espírito e da vida por vir. A não ser que você dê essa conotação a
esses termos, jamais compreenderá a epístola de Paulo aos Romanos, nem qualquer
outro livro das Sagradas Escrituras" (Martin Luther's Preface to the Epistle of St. Paul
to the Romans [Nashville: Discipleship Resources, 1977], p. 8). A forma como John
Wesley os chama em seu sermão assim intitulado. Esses "judaizantes" podem ter sido
gentios que temiam a Deus e depois foram circuncidados antes de se tornarem cristãos;
portanto, eles podem ter defendido bravamente a necessidade de outros gentios se
submeterem à lei judaica como os crentes judeus o fizeram.
Charles H. Spurgeon, "David's Prayer in the Cave", in Twelve Sermons on Prayer
(Grand Rapids, Mich.: Baker, 1990), p. 149. Ibid.
Para maiores informações contate o ministério Share Jesus! (Compartilhe Jesus), P.O.
Box 196548, Winter Springs, FL 32719-6548. E-mail: Info@sharejesus.oig. Além do
fato de Paulo ter ciência do uso de kyrios na Septuaginta [LXX], a tradução grega do
Antigo Testamento, também tinha ciência da tradução mais comum do nome santo de
Deus, Yahweh.
Para uma discussão mais extensa das imagens de escravidão em Paulo, veja "The Slave
of Christ and the Slaves of Antuiquity" in Brian J. Dodd, The Problem with Paul
(Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 1996), pp. 81-110. Para minha interpretação
mais extensa de Gaiatas à luz de Gaiatas 1.10, veja "Christ's Slave, People Pleasers and
Galatians 1.10",ATS 42 (1996): 90-104.

Capítulo 3: Pague o Preço, Carregue a Cruz


Em todo este capítulo estou discutindo apenas o sofrimento advindo de se buscar ser fiel
em seu ministério. Obviamente, podemos sofrer devido a nossa tolice ou desobediência.
Contudo, este capítulo não trata desse tipo de sofrimento. Ernst Kãsemann, "The Saving
Significance of the Death of Jesus in Paul", in Perspectives on Paul, trad. Margaret
Kohl (Londres: SCM Press, 1971), pp. 32-59 (37).
Sacramento Bee, 4 de fevereiro de 1999. Referência ao personagem de um conto
infantil dos irmãos Grimm (O Flautista de Hamelin), o qual, tocando sua flauta, atraía
os ratos (N do E). Eugene Peterson, Beeson Lecture at Asbury Theological Seminary,

106
18 de fevereiro de 1999.
Peter Marshall, "A Metaphor of Social Shame: ÈNÉAIÂÀÕÊÂÉÍ em 2 Cor 2:14",
NovT 25 (1983): 302-17 Victor Paul Furnish, 2 Corinhians Anchor Bible 32A (Nova
York: Doubleday, 1984). p. 173.
Charles B. Cousar, A Theology of the Cross: The Death of Jesus in the Pauline Letters
(Minneapolis: Fortress, 1990), p. 11.
A história cia igreja pode acrescentar à lista, em retrospectiva, o martírio. De acordo
com a tradição, Paulo foi decapitado em Roma.
Uma historia que meu amigo Larry Matron enviou-me por e-mail.

Capítulo 4: O Poder de Deus em Vasos Trincados


Robert Greene e joost Elffers, As 48 Leis do Poder, Rio de Janeiro: Rocco, 2000. Não é
o nome real dela.
Estudado pelo National Center on Addiction and Substance Abuse na Universidade de
Columbia, baseada primariamente em dados de 1999, AP News Service,
ABCNews.com, 26 de janeiro de 2000.
O governador de Minnesota, Jesse Ventura, citado em U.S. Catholic, em dezembro de
1999, p. 10.
Ainda estremeço quando lembro que o pastor, que me precedeu, contou-me que não
perdeu seu precioso tempo para ajudar uma mãe solteira com quatro filhos, uma vez que
"ela não daria nada de volta para a igreja". É por isso que amamos e cuidamos? Só se
houver algum retorno para a igreja? Penso que amamos por que Ele nos amou primeiro,
mesmo quando estávamos mortos em nossos pecados.

Capítulo 5: O Poder do Exemplo Pessoal


Willis Peter de Boer, The Imitation of Paul An Exegetical Study (Kampen, Holanda: J.
H. Kok, 1962).
Brian J. Dodd, Paul's Paradigmatic "I": Personal Example as Literary Strategy
(JSNTSS 177; Sheffield: Sheffield Academic Press, 1999).
Wayne C. Booth, The Rhetoric of Fiction (Chicago: University of Chicago Press, 1983),
p 20.
1 Corintios 1.1,12; 3.23; 4.1; 7.22; 15.23; cf. 2 Corintios 10.7; Gaiatas 3-29; 5.24. J.
Robert Clinton, Etapas na Vida de um Líder, tradução de Werner Fuchs e Hans Udo
Fuchs (Londrina, PR: Descoberta, 2000).

Capítulo 6: O Poder dos Parceiros


A esse respeito, a caricatura do que há de pior na literatura cristã sobre liderança
está no livro de Laurie Beth Jones, Jesus CEO: Using Ancient Wisdom for Visionary
Leadership (Nova York: Hyperion, 1995).
Jon R. Katzenbach e Douglas K. Smith, The Wisdom of Teams (Nova York: Harvard
Business School Press, 1993), p. 9.
Veja Victor Paul Furnish, "Fellow Workers in God's Service", JBL 80 (I960: 364-70.

107
Para uma abordagem completa, veja Robert Banks, Paul's Idea of Community: The
Early House Churches in Their Historical Setting (Grand Rapids, Mich.: Eerdmans,
1988). J. Paul Sampley, Pauline Partnership in Christ: Christian Community and
Commitment in Light of Roman Law (Filadélfia: Fortress, 1980). T. R. Glover, Paul of
Tarsus (Londres: SCM Press, 1925), pp 178-83.
E. Earle Ellis, "Paul and His Co-workers", NTS 17 (1971): 437-52. A melhor e mais
extensa abordagem encontra-se em alemão: Wolf-Henning Ollrog, Paulus und seine
Mitarbeiter: Untersuchungen zu Theorie und Praxis derpaulinischen Mission
(Neukirchen-Vluyn; Neukirchener Verlag, 1979).
F. F. Bruce, The Pauline Circle (Grand Rapids, Mich.: Eerdmans, 1985), pp. 8,9. "
Ibid., p. 45.
C. E. B. Cranfield, The Epistle to the Romans, 2 vols. (Edimburgo: T & T Clark, 1979),
2:788.
Capítulo 7: Por meio da Oração
Oscar Cullmann, Prayer in the New Testament (Minneapolis: Fortress, 1994), p. 73
Patrick D. Miller, They Cried to the Lord: The Form and Theology of Biblical Prayer
(Minneapolis: Fortress, 1994), p. 325.
E. M. Bounds, Prayer and Praying Men (1921; Grand Rapids, Mich.: Baker, 1977), p.
160. Citado em Bounds, Prayer and Praying Men, p. 97. Bounds, Prayer and Praying
Men, p. 151. Cullmann, Prayer in the New Testament, p. 81.
No original, há um trocadilho entre prepared (preparado) e pre-prayered (que poderia
ser traduzido por "pré-orado") (N da T). David Rambo, "Pray First", mala direta da
igreja CMA, p. 15.
Romanos 1.9; 1 Tessalonicenses 1.2; 2 Tessalonicenses 1.11; 2.13; Filipenses 1.3
Colossenses 1.3; 2 Timóteo 1.3.
Para exemplificar, Walter Wink, Naming the Powers: The Language of Power in the
New Testament (Filadélfia: Fortress, 1984). Wink embarca em uma Jornada explícita
para "desmistologizar" a linguagem demoníaca no Novo Testamento. Muitos pastores e
líderes contemporâneos atuam de acordo com essa concepção de Wink, mas de maneira
menos aberta e honesta.
C. S. Lewis, The ScrewtapeLetters (Nova York: Time, 1941), p. xxxi. Francis MacNutt,
Deliverance from Evil Spirits: A Practical Manual (Grand Rapids, Mich.: Chosen
Books, 1995), p. 23.
Para um estudo prático baseado no exemplo e no ensinamento de Jesus de como
podemos melhorar nossa vida de oração, veja Brian J. Dodd, Praying Jesus' Way: A
Guide for Beginners and Veterans (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 1997), p.
8.

Capítulo 8: A Sublimidade da Servidão


Andy Butcher, ed., "Holyfield Says He Will Win Title Rematch — and Quit at the
Top", Charisma News Service 1, n . 182, 10 de novembro de 1999. Veja, por exemplo,
Gaiatas 1.10, ondedoulos poderia ser traduzido como "escravo", em vez de "servo",
como a maioria das versões que aqui encontramos. Veja Brian J. Dodd, "Christ's Slave,
People Pleasing and Galatians 1.10", NTS 42 (1996): 90-104. Veja "The Slave of Christ
and the Slaves of Antiquity", in Brian J. Docld, The Problem with Paul (Downers
Grove, 111.: InterVarsity Press, 1996), pp. 81-110.
Henri J. M. Nouwen, In the Name of Jesus: Reflections on Christian Leadership (Nova
York: Crossroad: 1990), p. 17.
Bill Thrall, Bruce McNicol e Ken McElrath, The Ascent of a Leader: How Ordinary

108
Relationships Develop Extraordinary Character and Influence (San Francisco: Jossey-
Bass, 1999). Embora haja algum profundo e significante conteúdo nesse livro, sob a
perspectiva de liderança de Jesus e de Paulo, em que as pessoas se humilham, a escolha
do título, na verdade, foi bem infeliz (e, para ser honesto, com freqüência esse é um
assunto que está fora do controle do autor, como no caso deste livro que você está
lendo). O subtítulo do livro deles é excelente.

Capítulo 9: A Liderança Necessária É Apostólica


Floyd McClung, "What Is Apostolic Passion?" in Perspectives on the World Christian
Movement Reader, ed. Ralph D. Winters e Steven C. Hawthorne, 3 ed. (Pasadena,
Calif.: William Carey Library, 1981).
Veja Willian Chadwick, Stealing Sheep: The Church's Hiden Problems with Transfer
Growth (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 2001).
Garrison Keillor, Wobegon Boy (Nova York: Penguin, 1997), p. 137.

Christian A. Schwarz, Natural Church Development: A Guide to Eight Essential


Qualities of Healthy Churches (Carol Stream, 111.: ChurchSmart Resources, 1996). A
pesquisa realizada refere-se às igrejas americanas.

Apêndice: Ouvindo a Direção de Deus para o seu


Ministério
Para um tratamento detalhado, veja Seyoon Kim, The Origin of Paul's Gospel (Grand
Rapids, Mich.: Eerdmans, 1982).
O misterioso "espinho na carne" (2 Co 12.7) poderia ser, assim alguns pensam, seu
problema no olho. Essa identificação apresenta duas dificuldades: (1) Paulo teria
chamado esse problema de um "mensageiro de Satanás" (2 Co 12.7)? (2) Houve mais do
que duzentas propostas para o que esse "espinho na carne" pudesse ser. Isso deve nos
deixar desconfiados em relação a qualquer reivindicação de certeza sobre a identidade
desse problema.

O tratamento definitivo pode ser encontrado em alemão, por Heinz Schreckenbergj


ANANKÇ, Untersuchungen zur Gescbichte des Wortgebrauchs (Zetemata 36; Munique:
C. H. Beckesche, 1964).

A linguagem referente à escravidão no Novo Testamento foi quase completamente


obscurecida em traduções recentes que usam o termo "servo", menos ofensivo e menos
greco-romano. Para um tratamento extensivo dessa questão, veja "The Slave of Christ
and the Slaves of Antiquity", in Brian J. Dodd, The Problem with Paul (Downers
Grove, 111.: InterVarsity Press, 1996), pp. 81-110.
Geoge Barna, The Power of Vision: How You Can Capture and Apply God's Vision for
Your Ministry (Ventura, Calif.: Regal, 1992), p. 16. Ibid., p. 29.
Benjamin B. Tregoe et al., Vision in Action (Nova York: Simon & Schuster, 1989), p.
23-Compare o uso bíblico com a definição de Andy Stanley em Visioneering: "Visões
nascem na alma de pessoas que são consumidas com a tensão entre o que são e o que
poderiam ser. Qualquer indivíduo, que esteja emocionalmente envolvido — frustrado,
magoado e, quem sabe, com raiva — sobre a maneira como as coisas .são à luz daquilo
que acredita que poderiam ser, é candidato a essa visão. As visões se formam no

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coração daqueles que estão insatisfeitos com o statu quo (estado atual das coisas)".
(Sisters, Ore.: Multnomah, 1999), p. 17. De acordo com essa descrição, Paulo não era
candidato a uma visão de Jesus quando estava na estrada de Damasco. Ele não tinha
nenhuma insatisfação aparente com o judaísmo, até que fosse confrontado
soberanamente por Jesus naquela estrada. Dietrich Bonhoeffer, Life Together, trad. John
W. Doberstein (San Francisco: Harper & Row, 1954), p. 27.
Rick Warren, The Purpose Driven Church: Growth Without Compromising Your
Message and Mission (Grand Rapids, Mich.: Zondervan, 1995), pp. 14-15. Stanley,
Visioneering, p. 26.
Se quiser obter informações para convidar uma equipe do ministério Share Jesus!
(Compartilhe Jesus) contate Share Jesus! P.O. Box 6548, Winter Springs, FL 32719-
6548. E-mail: Info@sharejesus.org. Página da web <www.sharejesus.org>.

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