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7 de Janeiro de 2011

CULTUra

e VariedadeS

a SeMana

“Sperança ma un dia nu podi volta, Volta pa nôs terra, pa vive na nôs terra Volta pa nôs téra Cabo Verde, volta pa terra kê di nôs”

Volta pa nôs terra, pa vive na nôs terra Volta pa nôs téra Cabo Verde, volta
Volta pa nôs terra, pa vive na nôs terra Volta pa nôs téra Cabo Verde, volta

Até sempre

K riolidadi Suplemento Cultura Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011

S uplemento C ultura Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011 2 Em 1977 Norberto Tavares escreveu
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S uplemento C ultura Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011 2 Em 1977 Norberto Tavares escreveu

Em 1977 Norberto Tavares escreveu

Torre de Babel Mundo Baradjado”

“Na qui triste planeta n’bem naci…

…Num padass dês triste mundo danado Qui tem mais de mil terra Um terra qui tem más de mil povo Um povo cu más de mil costume Qui bem de um só costume

Cu más de mil língua

Má qui bem de um língua

Cu

más de mil stória

Cu

más de mil religião

Qui bem de um religião

Ês ta tchuman de mestiço, de preto de branco

Má mi ê ca preto, mi n’ca branco mi ê ca nada

Mi só n’sabi ma mi ê alguém

Crê pa alguém sima mi Lugar nês mundo ca tem Anton flam undi quin sta bai

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S uplemento C ultura Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011 3 Até sempre, Norberto Tavares “
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S uplemento C ultura Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011 3 Até sempre, Norberto Tavares “

Até sempre, Norberto Tavares

Se ver as portas franqueadas pelos produtores deverá custar a perda da minha identidade e liber- dade de criação prefiro mil vezes deixar as minhas composições na gaveta”, declarou um dia Norberto Tavares. E ele era assim: um revolucionário, um apaixonado pelas raízes e por isso senhor de si. Ele foi assim toda a vida: fiel às suas convicções, nunca voltou atrás na sua firme decisão. Agora que a sua voz se calou no domingo após o Natal, 26 de De- zembro de 2010 – na cidade que escolheu viver nos últimos 30 anos, New Bedford, Estados Unidos da América – resta-nos apreciar e reapreciar Nôs Cabo Verde di Sperança, Jornada di um badiu e tantos outros poemas que deixou ao país que amava mais que tudo, ao seu incondicional povo, como herança. Autor de poemas emblemáticos que são símbolos de um Cabo Verde lutador, resistente e cioso do seu valor como povo, Norberto Tavares era mais do que um músico, era o intérprete da alma cabo-verdiana

e do Cabo Verde profundo, que via na pessoa do

camponês e da mulher de lata de água na cabeça. A

densidade das suas composições – ouça-se os sete

discos que gravou a solo – despertou a curiosidade e

o interesse da etnomusicóloga norteamericana Susan

Hurley-Glowa, que lhe dedicou um documentário, Jornada de um badiu. Recebido como herói por um Parque 5 de Julho superlotado no regresso à terra natal aquando da abertura ao multipartidarismo, no início dos anos 1990 (após 17 anos de ausência na emigração em Portugal e EUA), Norberto Tavares dava vez e voz à revolta mas também à esperança dos cabo-verdianos num país melhor. Mais, em discos como “Hino di unificação”, (1992). “Dirigentes incompetentes(2000), o músico de Santa Catarina cantou o desen- canto com a política. Obras que lhe valeram uma conotação que ele nunca quis, a de activista político. Afinal, para quem tinha um hino a alimentar a crença dos cabo-verdianos numa terra “undi tud alguém ta vivi dretu”, nos mais altos patamares da dignidade humana tinha o povo com ele. “Cada um di nôs ê um Cabral…”: uma aspiração ainda por cumprir. Decepcionado e descrente no sistema de produ- ção musical, onde os produtores ditam as regras do

mercado, não admira que Norberto Tavares, como espírito livre e cioso das suas convicções, tenha durante anos deixado que centenas de composições amarelassem dentro de gavetas. Azar nosso, povo cabo-verdiano, que bebemos das suas composições como um viajante perdido no deserto bebe água fresca e devora suculentas tâmaras, alimentando corpo e alma sequiosos. Felizmente, Norberto Tavares abriu uma brecha no blindado que ergueu contra a mercantilização da arte e deixou-nos um Best Of com 17 faixas que, além dos sucessos “Mundo sta di boita”, “Nos Cabo Verdi di Sperança”, “Volta pa Fonti”, “Ingratidon do Mundo” e “N’sta farto des tchom”, inclui seis temas inéditos. Mas, além de músico de qualidade e compositor de gabarito, Norberto Tavares era um ser humano extraordinário. Embaixador da ONG CV Children,

o músico pugnava pelo bem-estar das crianças do

seu país natal, cantando em galas de recolha de fundos para ajudar meninos e meninas de Cabo Verde – o que lhe rendeu um lugar no Hall of Fame do Museu de Cabo Verde em East Providence. Hoje Cabo Verde chora o seu filho dilecto. Desde os mais

altos dignitários do país, aos emigrantes desta nação diasporizada, músicos como Tito Paris, Kim Alves

e tantos outros discípulos que Norberto Tavares

semeou no Cabo Verde di Sperança, agarram-se à Esperança, quando o corpo se foi: “Corpo cativo bâ

bô qu’é escravo”, porque a alma fica. Por tudo isto,

a morte de Norberto Tavares é “uma grande perda

para a cultura cabo-verdiana”, lamenta o presidente da República. Para Pedro Pires, Norberto Tavares “teve o mé- rito de apelar ao nacionalismo e ao patriotismo da nossa juventude”. “O conteúdo das suas mensagens demonstra o seu grande amor por Cabo Verde. Sou- be interpretar, na perfeição e de forma visionária, o sentimento do povo cabo-verdiano nos anos que se seguiram à Independência”, considera PP. Por isso, Norberto Tavares “ficará guardado na memória de todos, pela qualidade da sua obra e pelo seu legado musical, composto por discos que incluem temas antológicos como Nôs Cabo-verdi di

Sperança, Cada um di nos ê um Cabral” e “Maria”, assegura o chefe de Estado cabo-verdiano. Para o presidente da Assembleia Nacional, “a nação cabo-verdiana perdeu não apenas um dos seus ilustres artistas”, mas também “um activista social, que apelou à unidade do povo cabo-verdiano e procurou incutir nos cabo-verdianos confiança e esperança no futuro, na base de uma ética de trabalho”. Um legado que “devemos preservar e memorizar”, considera Aristides Lima. Em nome do governo, Janira Hopffer Almada, ministra da Juventude e da Presidência do Conselho de Ministros, manifestou a “profunda consternação” do executivo cabo-verdiano pelo falecimento “de um dos pilares da música cabo-verdiana contempo- rânea”. Segundo Janira Hopffer Almada, Norberto Tavares “deu um significativo contributo para o movimento do funaná na diáspora cabo-verdiana, nas décadas de 70 e 80”, graças ao seu “particular estilo de funaná”. O presidente do MpD, Carlos Veiga, considera que, com a morte de Norberto Tavares, Cabo Verde perdeu “um dos expoentes máximos da sua cultura”.

Carlos Veiga diz, por isso, esperar que os músicos

e os cabo-verdianos em geral, “particularmente os

jovens, saberão honrar a memória do inesquecível compositor e intérprete de canções que ficarão eter- namente gravadas na memória colectiva da nação”. Na hora da dor e perda, Veiga descreve Tavares como um artista de espírito crítico e perfil multifacetado”, que “contribuiu grandemente para a afirmação da cultura das ilhas”. Nesta hora de perda irreparável e dor, juntando-se às muitas vozes que choram a partida de Norberto Tavares, aos 54 anos, o colectivo de ASemana deixa as mais sentidas condolências à mãe, ao irmão Totó

e à restante família enlutada. Mas é no povo anónimo, nas Marias e Manuéis

da vida, que se encontrará a homenagem mais ge- nuína, porque brota da alma cuja pureza Norberto toda a vida procurou interpretar. Aí está na sua arte:

no cabo-verdiano que é hoje, e que será nas gera- ções vindouras erguendo para sempre o panteão de

Norberto Tavares.

TSF

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S uplemento C ultura Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011 4 Norberto sempre Mário Lúcio (músico
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Norberto

sempre

Mário Lúcio

(músico e escritor)

Particularmente fico com saudades. Não podere- mos ter novas criações dele nem a sua companhia, mas esta homenagem demonstra a vitalidade de Norberto, através da sua obra e na alma do povo. Para as novas gerações deixa lições valiosas de como é que se pode viver feliz e deixar um legado para os que vêm atrás. Ele é um homem inovador não só em termos de ideias e da lírica da escrita. Norberto revolucionou a música cabo-verdiana, muito antes dessa dinâmica ser seguida por outros grupos, ao gravar o disco “Volta pa Fonti”, no qual usa a cimboa, o ferrinho. Mas consegue refrescar a música tradicional e fazer dela uma música mo- derna. Acho que é importante que a nova geração conheça melhor a obra de Norberto Tavares porque nela estão todas as referências necessárias para o desenvolvimento da música cabo-verdiana.

para o desenvolvimento da música cabo-verdiana. Zé rui de PinA (músico da banda de Maria de
para o desenvolvimento da música cabo-verdiana. Zé rui de PinA (músico da banda de Maria de

Zé rui de PinA

(músico da banda de Maria de Barros):

Isto é algo que me toca muito dentro, porque em 1990 eu tinha 19 anos e fui convidado para partici- par na banda de Norberto Tavares, que vinha tocar pela primeira vez em Cabo Verde. Agora, regresso como integrante da banda de Maria de Barros para actuar no Hotel Praia Mar, na passagem de ano, e estou aqui, junto dos restantes músicos, para acom- panhar Norberto nesta sua última viagem à terra que o viu nascer. É inspirador assistir a esta merecida homenagem do povo, do governo e em especial dos artistas cabo-verdianos, a Norberto. As músicas dele falam. Tudo o que uma pessoa queira saber de Cabo Verde ou do próprio Norberto, ele transmite-o na sua obra musical. Ele cantou Cabo Verde e para mim é uma grande honra ter participado na sua história.

KiM ALveS

(músico)

É com bastante tristeza que assistimos a esta despedida, mas também com ale- gria pela certeza de que o Norberto vive eternamente na sua obra. Nós temos a missão de garantir a continuidade dessa obra porque, embora a viver tantos anos no estrangeiro, Norberto sempre se preocupa com o povo de Cabo Ver- de. Norberto é um porta-voz do povo, não dos políticos. Ele é um mensageiro da dor, das tristezas, das alegrias e das esperanças dos cabo-verdianos, dentro e fora do país. Por isso, deixa as suas composições e as suas músicas na boca e no coração do povo.

e as suas músicas na boca e no coração do povo. céSAr Monteiro (sociólogo) Norberto Tavares
e as suas músicas na boca e no coração do povo. céSAr Monteiro (sociólogo) Norberto Tavares

céSAr Monteiro

(sociólogo)

Norberto Tavares é uma grande figura da cultura musical cabo-verdiana. É o primeiro estilista do funaná, aquele que, de facto, impulsionou o funaná estilizado. Deixa uma obra artística de grande dimensão, como compositor e como intérprete. Norberto Tavares canta o seu país, as suas ribeiras, a sua Santa Catarina. A sua obra contém uma forte mensagem de amor, de solidariedade, de unidade nacional que chega através duma sonoridade muito particular, baseada em arranjos próprios. Estou convencido de que, apesar do seu desaparecimento físico, a obra de Norberto Tavares vai ganhar ainda uma maior dimensão, porque – além dos discos já gravados por ele – há várias criações suas inéditas que seguramente as novas gerações vão poder ouvir. Assim vão ter mais referências desse grande ícone da música crioula, pegar e seguir a sua obra que é muito rica e diversificada. O importante é que se estude e se divulgue muito mais.

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S uplemento C ultura Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011 5 Tavares, Ninguém falou dele no
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Tavares,

Ninguém falou dele no passado, todos se referem ao Norberto de hoje e que pulsa no futuro, como se a morte não fora verdade ou precisamente por isso. Não morre quem deixa a sua alma multiplicada num povo que canta à esperança. Norberto Tavares volta à sua terra natal que o acolhe agradecida. Deixa as suas composições e a sua música como testemunhos de uma vida entregue à arte e às causas justas. Fica como uma eterna presença a iluminar o espírito dos que o conheciam e dos artistas que encontram em Norberto Tavares as referências para continuar a criar.

em Norberto Tavares as referências para continuar a criar. Por Neida Lis Falcon tó ALveS (músico):

Por Neida Lis Falcon

tó ALveS

(músico):

Todo o meu respeito para Norberto Tavares. É uma honra acompanhá- lo no seu último dia sobre a terra, o dia em que deixa de estar presente de corpo, mas em que a sua obra brilha mais do que nunca. Para mim, continua a ser um grande profeta e tudo o que ele falou nas suas composições desde a juven- tude, nós podemos vê-lo agora, na realidade de Cabo Verde e do mun- do. Norberto lega-nos uma obra muito grande e rica, que eu espero continue a ser divulgada da mesma maneira que foi expressa por ele.

a ser divulgada da mesma maneira que foi expressa por ele. ZécA di nhA reinALdA (músico):
a ser divulgada da mesma maneira que foi expressa por ele. ZécA di nhA reinALdA (músico):

ZécA di nhA reinALdA

(músico):

Fisicamente o meu amigo já não está para sairmos juntos, para contarmos piadas, para apertarmos a mão. Sinto muita falta dele, mas temos a sua obra e isso mantém-nos unidos, e nos dá alegria no meio da dor. Norberto mostra- nos o caminho que os jovens devem seguir:

a luta pelo desenvolvimento do nosso país, independentemente das diferenças de religião ou partidos políticos. O seu sonho é que um dia as, os cabo-verdianos mais pobres tenham uma vida melhor, por isso canta para dar a essas pessoas coragem e esperança. As suas músicas falam de mais união, mais amizade, pede-nos para esque- cermos as nossas divergências porque o que está em causa é a vida, a sobrevivência e o futuro colectivo… a nação crioula que ele ama infini- tamente, com toda a força do seu ser. Mas tudo isso é feito através de letras e melodias originais, que só nele podem ser encontradas.

Júnior GreGor

(músico - percussionista da “Tropical Power”)

Norberto Tavares é o nosso amigo, um irmão. Homem simples, até demais. Autêntico, natural, homem que fala sempre com a verdade diante de si. Uma das coisas que mais admiro nele é a sua espiritualidade, o facto de ser um homem sem maldade, que adora as crianças, a sua família, os amigos e sobretudo a sua terra. A sua paixão por Cabo Verde é sem limites, incrível, incondicional. Quando tem uma letra, e auto- maticamente sente a inspiração da música, na maioria dos casos são canções dedicadas ao seu país natal. Por isso não é possível fazer a história de Cabo Verde sem falar de Norberto Tavares. Fico impressionado e feliz pela reacção do povo e o apoio do governo cabo- verdiano nesta despedida. Já desde os Estados Unidos a morte de Norberto foi noticiada por vários canais de televisão, jornais e sites. Artistas e músicos que par- tilharam com ele diferentes momentos da sua vida e carreira artística estiveram lá e aqui para acompanhá- lo. Estou verdadeiramente emocionado e agradecido.

lo. Estou verdadeiramente emocionado e agradecido. KAKo ALveS (músico da banda de Cesária Évora): É uma
lo. Estou verdadeiramente emocionado e agradecido. KAKo ALveS (músico da banda de Cesária Évora): É uma

KAKo ALveS

(músico da banda de Cesária Évora):

É uma perda grande. Como pessoa e como

artista, sempre vai dignificar Cabo Verde, com

a sua melodia, as suas letras. Até hoje, e nos

tempos que estão por vir, a obra de Norberto Tavares alimenta os nossos espíritos. É um exemplo, é uma escola para as gerações de artistas de hoje e do futuro, para todos nós. Norberto luta por Cabo Verde com a arma que melhor sabe usar: a música. Estamos orgulho- sos, pelo que tem feito para unir cada vez mais os cabo-verdianos do arquipélago e da diáspo- ra. Como dizemos “Cabral ka morre, Norberto ka morre”. Ele fica para sempre entre nós.

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S uplemento C ultura Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011 6 Norberto foi um músico de

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S uplemento C ultura Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011 6 Norberto foi um músico de
S uplemento C ultura Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011 6 Norberto foi um músico de

Norberto foi um músico de verdade. Nós aqui da Assomada estamos tristes demais. Mesmo sendo bem mais nova que ele, sei da importância da sua música para o todo Cabo Verde”

O adeus a que amou

Há quem diga que Norberto Tavares foi dos pouco cabo-verdianos que soube dar a verdadeira ênfase ao sentimento criolo. Soube como ninguém ver no mar o tesouro das ilhas, na política o subterfúgio dos seus direitos e na música a rede da vida. Poeta, jornalista, músico, antes de tudo, cabo-verdiano. Foi através de sua voz que Cabo Verde cantou a enunciação perene da cultura genuína que o arquipélago, à revelia da colonização, sempre produziu. Assomada, a cidade que viu nascer o pequenote Norberto também o viu em seu luto. Foi na mesma igreja em que começou

sua carreira que católicos e protestantes viram sua alma subir sem impedimentos ao caminho livre da fé. Apesar da tristeza, das pessoas vestidas de luto, do dia que parecia maior que os demais, foi com música - e por que não dizer por ela - que a tarde do dia 2 de Janeiro se despediu de Norberto Tavares pela última vez. A estudante Elisandra Silva, consternada, mesmo que a trabalhar vendendo seus “drops”, doces e sumos, projectava sua tristeza para além do pequenino banco que ocupa na praça:

Norberto foi um músico de verdade. Nós aqui da Assomada estamos tristes demais.

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Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011

S uplemento C ultura Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011 7 o homem demais a pátria
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S uplemento C ultura Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011 7 o homem demais a pátria

o homem demais a pátria

Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011 7 o homem demais a pátria Não existe funaná melhor

Não existe funaná melhor que o do Norberto”

Mesmo sendo bem mais nova que ele, sei da importância da sua música para o todo Cabo Verde”, disse baixo, como quem não queria dizer nada num dia em que o silêncio era a moldura de Nôs Cabo Verdi di Sperança, música que ecoou pela Assomada como o lamúrio de quem fica. Amâncio Gomes Lopes, sentado, quieto, de costas para a igreja, tentando disfarçar a dor, esperava mais gente na sua quieta homenagem: “Eu acho que devia ter vindo mais pessoas”, lamentou, sem saber, contu- do, que sua tristeza se alastrava até mesmo pelas suas delicadas impressões. Foi em

1990 que conheceu Norberto, durante um show no parque 5 de Julho, e, desde então, acompanhou toda a carreira do proeminente cabo-verdiano. “Não existe funaná melhor que o do Norberto”, reiterou o triste senhor, ainda de costas para a dura realidade que está diante de si: o músico despedia-se de nós. No cemitério, centenas de pessoas a acompanhar seu corpo, entre eles músicos, amigos e simpatizantes, davam o último adeus, carregado de dor. Norberto ficou sob a tarde do dia 2 de Janeiro. Autorida- des públicas, gente da diáspora, pessoas simples: todos a dividir o fim de uma vida

que será ainda, por muitos e muitos anos, um vigoroso incentivo às novas gerações. Incentivo esse esculpido na música e na convicção política. Antes de falecer, ele e o irmão – Totó Tavares – conversavam sobre alma e espiri- tualidade. Quando falaram da possibilidade de uma viagem para cá, tornando os dois às raízes, Norberto encheu-se de felicidade. Para ele, o regresso à terra pátria urgia. Iminente para Norberto que é já um eterno pedaço vivo de um país a que lega inevitáveis lições de um patriotismo cheio de vida.

Felipe Chimicatti

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S uplemento C ultura Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011 8 Sperança o legado de Norberto

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Sperança

o legado de Norberto Tavares

C éu desanuivado, sol e vento. Era a manhã

do dia 2 de Janeiro, em Assomada. Dia

em que o governo cabo-verdiano decretou

luto nacional. Transpostas as serras que dão acesso à cidade, chegámos as imediações do Centro Cultural Norberto Tavares. Não havia tumulto, nem agitação nas proximidades. So- mente fitas de isolamento policial indicavam o centro a quem chegava. As ruas fechadas, desembocavam na praça principal

– onde acontecia a cerimónia fúnebre. Para o último adeus ao

compositor de Nôs Cabo Verde di Sperança. Compenetradas, as pessoas ouviam em pé as palavras dos familiares e dirigen- tes que discursavam no alpendre do Museu Norberto Tavares durante alguns pronunciados e lúgubres minutos, ao lado do caixão semi-aberto. Falaram os irmãos do músico – entre eles, Totó Tavares –, o Presidente da Câmara Municipal, Francisco

Tavares, e o Primeiro-Ministro, José Maria Neves, que encerrou

a primeira parte da cerimónia fúnebre.

“agora, pedirei às pessoas que quiserem prestar uma última homenagem, que façam fila e não parem em frente ao caixão para não haver atraso e complicações. Daqui seguiremos para a Igreja Matriz, onde faremos a missa de corpo presente”

Foto: Felipe Chimicatti
Foto: Felipe Chimicatti

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S uplemento C ultura Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011 9 Com o fim dos discursos,

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Com o fim dos discursos, um breve si- lêncio precedeu o acto de homenagem aberto ao público. “Agora, pedirei às pessoas que quiserem prestar uma última homenagem, que façam fila e não parem em frente ao caixão para não haveratraso e complicações. daqui seguiremos para a igreja Matriz, onde faremos a missa de corpo presente”, ressoou a voz pelo microfone para as pessoas que assistiam às exéquias de Norberto Tavares. Neste momento, os familiares recuaram e dispersaram-se no alpendre, as autoridades de segurança aproximaram-se do féretro onde se erguia o caixão e os jornalistas posicionaram-se

para registar o momento que se seguiria: o último adeus dos fãs e conterrâneos de NorbertoTavares, ao som de Ave Marias e rajadas de vento. Enquanto isso, uma senhora de Santa Cata- rina, de panos e trança nos cabelos brancos, cha- mada Domingas Monteiro, confidenciou-me enquanto eu observava a movimentação: “o Norberto cantava naquela igreja ali. Tocava piano. Não era católico nem protestante, convivia com todo o mundo. Era um gran- de homem”. Depois deste desabafo, sumiu apressada na multidão que se formou durante 30 minutos para ver o corpo do músico. Norberto conseguiu, de facto, congregar pó-

los.Viu-senasolenidadequerivaisdaarenapolíti-

ca,quedificilmentepartilhariamomesmoevento, colocaram as diferenças partidárias de lado para estarem presentes no funeral do artista. Norberto que “não era político, mas fazia política”, como disse com lágrimas nos olhos um homem que se identificou como João da Cruz, compositor nas horas vagas. João que esteve emigrado durante duas décadas – fazendo “bicos” na Suiça como cozinheiro e segurança particular – parece ser um dos que viveram na pele as dificuldades dos emigrantes – tema que Norberto tantas vezes cantou nas suas composições. Emocionou-se ao lembrar da expressividade do cantor: “norberto tinha um música muito forte”. Na Igreja Matriz da Assomada, onde Norberto começou a sua trajectória religiosa, representantes de ordens espirituais distintas também se reuniram na missa de corpo presente. Pastores, nazarenos acompanharam a sublime oblação de Padre Álvaro, também músico e compositor. Atestado da unanimidade que o músico acolhe. Pouco antes, quando o corpo saía do Centro Cultural no cortejo que cruzou a praça para ganhar a nave da Igreja Matriz de Assomada, ouviu-se, pela primeira vez, os músicos amigos do compositor a badalar nos seus instrumentos, em notas contidas e vozes em hino, o “nôs cabo verde di Sperança”.

Foto: Eneias Rodrigues
Foto: Eneias Rodrigues

“a alma dos justos estará na mão de Deus”

Dentro da igreja, um cântico retumbante, acompanhado de órgão, abriu a missa. “A alma dos justos estará na mão de Deus”. A Mãe de Norberto - desolada - entrou na igreja amparada pela filha, irmã do músico. Do lado de fora, senhoras vestidas de preto dos pés à cabeça circulavam em grupo por entre os demais assistentes às exéquias:

autoridades, crianças, vendedores ambulantes, jornalistas, jovens, velhos, artistas. Para o condutor de autocarro Manuel de Jesus – que trouxe 30 pessoas de Achada-Lém, no veículo da Câmara Municipal de Santa Catarina e falou comigo enquanto aguardava o fim da cerimó- nia do lado de fora da igreja – Norberto fazia um “trabalho muito bom. Era um homem simpático. Pena que faz não estar mais neste mundo”, concluiu. Quando o corpo saiu da Matriz de Asso- mada, o silêncio voltou a dominar o local. Nada, ninguém se bulia, pessoas congelaram seus gestos, atentas ao carro funerário. Uma senhora passou entrecortando a multidão com seu choro alto em direcção à saída da cidade. Era uma dor real perante a grande perda. Então, os músicos deram continuidade ao hino que tinham interrompido com a entrada do corpo na igreja. O cortejo saiu lentamente em direcção ao cemitério de Nhagar, aos poucos a praça ia ficando vazia. Muitos iam na procissão que seguiu pela estrada que

liga Assomada ao interior de Santiago – a polícia interditara a estrada ao trânsito. An- tes do cortejo chegar, o Padre e as coroas já aguardavam o corpo de Norberto na entrada do cemitério. As batinas alvas do Sacerdote

e de suas auxiliares balançavam forte sob

a intensidade da ventania que soprava em

Assomada, mas reluziam ao sol. Enquanto não chegava o cortejo, os adianta- dos falavam do legado de Norberto. Discutiam a poesia do seu trabalho, as possíveis simbo- logias da sua passagem em tempo de eleição, de transformação. Quando finalmente o corpo chegou a Nha- gar, sempre ao som de Nôs Cabo Verde di Spe- rança, que perseverou durante o cortejo, houve os últimos dizeres, raramente ouviu-se o choro. Só um sentimento parecia dominar as pessoas que conviveram, conheceram e acompanharam de alguma forma a vida e obra de Norberto: ali estavam, dominadas pela desolação sim, mas com um misto de gratidão e reconhecimento pelo trabalho que ele desenvolveu. Pelo que legou a Cabo Verde através da música e suas mensagens: perseverança, speransa, sua marca registada.

BC

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S uplemento C ultura Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011 10 Família e artistas apelam ao

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Família e artistas apelam ao

Terminou a jornada de um “badiu”, o homem que durante 35 anos deu a volta ao mundo, empunhando a música e Cabo Verde como bandeiras. Sempre. Norberto Tavares

voltou domingo, 2 de Janeiro de 2011 à Fon-

, À sua terra da esperança, que é Assomada, é Cabo Verde. E fica a alma do Homem na sua vastíssima obra que a família quer ver preservada, para servir as futuras gerações. Muita emoção, tristeza, muitas palmas, abraços, poucas lágrimas. Mas também muita esperança nas centenas de pessoas que acompanharam o corpo de Norberto Tavares até ao cemitério de Nhagar, sempre

onde nasceu no dia 6 de Junho de 1956.

te

ao som do “Cabo Verde di Esperança

Esperança de que esta “volta à fonte” de Norberto ainda muito fará por Cabo Verde. Esperança deste povo em unidade – nacional, política e religiosa. Em representação dos músicos e artistas nacionais, Kaká Barbosa, no seu elogio fú- nebre, desafiou os investigadores nacionais para o estudo do legado de Norberto e também do património humano de Santa Catarina, concelho “onde homens valorosos deste e do tempo passado construíram a história e a grande tradição destas ilhas”. “Santa Catarina é um concelho de Cabo Verde com uma tradição riquíssima,

A

profunda, onde as crenças, mitos, e outros aspectos nos põem a acreditar que um dia podemos ser alguém” proclamava Kaká Barbosa desde a varanda do Centro Cultural Norberto Tavares, que – tendo ao centro a emblemática praça deAssomada – faz Largo com o Paços do Concelho de Santa Catarina e a Igreja Matriz da Nossa Senhora de Fátima, do outro lado da Rua. O símbolo dos quatro poderes, com o do povo no meio (a praça) numa região conhecida por homens e mu- lheres que sempre buscaram a autencidade de um povo na raiz de uma nação, na luta (revolta de Engenhos e de Rubon Manel e, mais tarde, no desígnio da Independência

Nacional) e na Resistência Cultural. Mas o tributo do músico, compositor e intérprete a Norberto Tavares não fica por aqui. Emocionado, Kaká Barbosa sugere que seja criado um memorial para lembrar, louvar e falar deste mensageiro, que deixa muita esperança, amor, união e compreensão nos corações crioulos. Afinal, Norberto é “rico em traços que vieram da nossa tradição, da vivência mais profunda de Santa Catarina, de Santiago e de Cabo Verde”, o chão que o fez homem do mundo e para o mundo, diz. É o “badiu” aqui nascido que durante o seu tempo soube impregnar a cultura da sua terra natal, afirmando as suas origens e a sua

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S uplemento C ultura Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011 11 estudo de Norberto Tavares Aos

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estudo de Norberto Tavares

7 de Janeiro de 2011 11 estudo de Norberto Tavares Aos 54 anos, o corpo do

Aos 54 anos, o corpo do autor de “Nôs Cabo Verde di Sperança”, voltou à fonte para descansar no cemitério de Nhagar, Assomada. Mas a alma de Norberto Tavares fica em cada um de nós, cabo- verdianos convictos.

identidade. Com essa vontade, criou várias composições que ficarão para a história, como “Nós Cabo Verde di Esperança”, “Volta pa fonte”, “Hino di Unificação”, “Maria”. Mais, deixa inéditos que irão marcar outras gerações, outros tempos.António Tavares, no agradecimento da família ao apoio do povo cabo-verdiano, revelou que este cultor deixa mais de 50 composições inéditas, escritas quando tinha apenas 25 anos. É obra! Agora, diz, serão reveladas para que to- dos, em casa ou na escola, na rua e em todos os cutelos, possam continuar a espalhar as mensagens deste compositor que escolheu livremente pensar a sua terra. E Totó leu uma

dessas mensagens, “Julgamento”, que faz um apelo ao arrependimento, para poder haver união, paz, amor, perdão, solidariedade e compreensão entre os homens, de lá e de cá, de hoje e de amanhã. Mas foi Carlos Tavares – o homem que doou um rim a Norberto Tavares para lhe prolongar a vida – que verbalizou a certeza que pairava no ar: “Norberto ká morré, permanecerá eternamente nas nossas memó- rias”. Aos 54 anos, o corpo do autor de “Nôs Cabo Verde di Sperança”, voltou à fonte para descansar no cemitério de Nhagar,Assomada. Mas a alma de Norberto Tavares fica em cada um de nós, cabo-verdianos convictos.

Ricardino Pedro

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Cada um di nós é um Norberto

Na terra que o viu nascer, o compositor, cantor, multi-instrumentista e poeta foi lembrado por outros homens ilustres da sua terra: José Maria Neves, o primeiro-ministro, e Francisco Tavares, presidente da Câmara Municipal de Santa Catarina. José Maria Neves recordou esta “estrela” como uma “referência” de Santa Catarina que se perde em homem, mas fica a sua “extraordinária obra”, que tão bem soube levar a todos os cantos do mundo. Obra essa que o chefe do Governo quer ver preservada, através de uma escola de música, para mostrar, estudar e dar a conhecer aos mais jovens. Mas também para continuar a criar, como Norberto fez durante os seus 54 anos. Afinal, assevera JMN, “cada um di nós é um Norberto Tavares”. Francisco Tavares também se dirigiu emocionado aos presentes, no elogio ao filho da terra e também a um “badiu” que soube dignificar a música nacional durante 35 anos, o tempo de Cabo Verde independen- te. Por isso, Tavares considera que o malogrado é um dos principais protagonistas do percurso histórico da música destas ilhas. Aliás, é com “orgulho” que cada cabo-verdiano, pontua, deve fazer tudo para preservar na memória colectiva “a sua obra”. Ela “é a herança que deixa a todos os cabo-verdianos, que, mesmo estando longe, sonham em um dia “voltá pa terra” finaliza o presidente da Câmara de Santa Catarina, um homem caldeado nas lutas e esperanças de Norberto Tavares”.

caldeado nas lutas e esperanças de Norberto Tavares ”. Nha txubinha: “ obrigada, nha povo ”
caldeado nas lutas e esperanças de Norberto Tavares ”. Nha txubinha: “ obrigada, nha povo ”

Nha txubinha:

obrigada, nha povo

Já sem forças, Nha Txubinha, que deu à luz este grande cabo- verdiano, não conseguia conter as lágrimas. Afinal, esta mãe aca- bou de ser ferida com o pior golpe: ver partir o seu maior tesouro. Mesmo assim, no meio da consternação, tristeza e dor, como boa cabo-verdiana que é, Nha Txubinha ainda foi buscar forças dentro de si para agradecer o imenso carinho que o povo das ilhas de- monstrou desde a morte do seu filho, as mensagens que chegam de todos os cantos do mundo. “Obrigada, nha povo”, saía entre soluços, abraços e lágrimas de dor. E também de orgulho – pela mobilização que o filho conseguiu na nação crioula, fazendo com que todos se unissem num grande “Cabo Verde di Sperança” na magnanimidade de um povo que é o mais solidário do mundo.

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S uplemento C ultura Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011 13 “foi a consciência social de

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S uplemento C ultura Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011 13 “foi a consciência social de

“foi a consciência social de Cabo Verde”

de 2011 13 “foi a consciência social de Cabo Verde” SuSaN HurlEy-Glowa: autora e directora do

SuSaN HurlEy-Glowa: autora e directora do documentário “Jornada de um badiu”

Durante 30 anos, Norberto Tavares agiu como a consciência social de Cabo Verde, encorajando o seu povo a avaliar a vida política e social do país, à medida que a nação fazia a transição de colónia portuguesa para uma república democrática livre”, assevera Susan Hurley-Glowa, autora e directora do documentário “Jornada de um Badiu: a História do músico cabo-verdiano-americano Norberto Tavares”. Aetnomusicóloga, que manifestou no forum do site Humanities and Social Sciences estar “triste” com o passamento de Norberto Tavares, considera ainda que o músico – com quem trabalhou desde 1990 –, “ajudou a trazer os sons rurais da ilha de Santiago, com as suas fortes raízes africanas, para a identidade nacional, e despertou a consciência da importância de votar”, exercendo o papel de “advogado social através da sua música”. Norberto Tavares, declara Susan Hurley-Glowa, “muitas vezes usou a música para expressar a sua insatisfação com as condições sociais em cabo verde”. Esta atitude granjeou-lhe, segundo a investigadora norte- americana, “a reputação de activista político, apesar de ele se considerar como um crítico de condições sociais injustas mais do que apoiante de uma específica força política partidária”. Dotado de “soberba musicalidade”, classifica a musicóloga norte- americana, Norberto Tavares, que emigrou para Portugal em 1973, “lançou o seu primeiro álbum de funaná eléctrico e batuco em 1975, ligeiramente antes de Katchás ter feito com o Bulimundo a sua versão de funaná largamente popular”. E, apesar de se ter mudado para os Estados Unidos desde 1979, as suas canções continuavam “a reflectir as preocupações e interesses do povo de Santiago: o seu povo permanecia junto do seu coração”, considera Susan Hurley-Glowa. Mas a música de Norberto Tavares também é composta, analisa Hurley Glowa, “de temas que expressam esperança numa sociedade cabo- verdiana melhor: uma sociedade que transcenda as suas diferenças raciais, económicas e étnicas e trabalha junto para construir uma nação melhor, ideais esses muito relevantes para os cabo-verdianos após a independência”. Exemplo disso é “Nôs Cabo Verde di Sperança” (1975) que, de acordo com a musicóloga da Brown University, “tornou-se no hino cabo-verdiano não oficial”. Amante do seu Santiago profundo, Norberto Tavares também nos brindou com ilustrações de temas típicos em funaná popular e acústico, usando ima- ginação pastoral: “As suas pequenas ilustrações da vida rural de Santiago são muitas vezes as favoritas do público, talvez porque elas lembram aos ouvintes as alegrias de uma existência simples”. Tanto assim é que, refere Susan Hurley Glowa, “algumas das suas canções, incluindo Mariazinha, do álbum ‘Volta pa Fonti’ (1979), tornaram-se parte do repertório fol- clórico de Santiago”. Por tudo isso, considera Hurley Glowa,“o seu contributo para um cabo Verde independente só agora começa a ser plenamente apreciado pelo seu povo e a ser escrito na história da nação”. Mas, para lá de um “grande músico e compositor”, Norberto Tavares era, declara a musicóloga, “uma pessoa especial, que nunca parava de pensar no seu povo, um gentleman, um profundo pensador, um verdadeiro humanista”. TSF

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S uplemento C ultura Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011 14 assomada vivia um dia cheio

assomada vivia um dia cheio de simbolismos: representantes de todos os partidos políticos, Câmara e assembleia de santa Catarina, Governo, assembleia Nacional se misturavam na hora da homenagem. José Maria Neves, Carlos veiga, aristides Lima, Mário silva, Jorge santos, sidónio Monteiro, Francisco tavares, José Maria Martins… todos estavam lá para prestar o seu tributo ao Grande Cabo‑verdiano. outro simbolismo: a missa foi dada na Igreja Matriz de assomada, onde o Norberto, hoje nazareno, começou a sua caminhada espiritual. Pastores e fiéis nazarenos assistiram à missa e o Padre Álvaro falou da fé magnânima, que não conhece fronteiras no caminho para Deus.

assistiram à missa e o Padre Álvaro falou da fé magnânima, que não conhece fronteiras no

Fotos: Eneias Rodrigues

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S uplemento C ultura Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011 15 O transcendental Norberto, fonte de

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S uplemento C ultura Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011 15 O transcendental Norberto, fonte de

O

transcendental

Norberto, fonte de unidade entre cabo-verdianos

“Não desejo a morte de ninguém, mas acredito que Deus quis que fosse neste momento, em que nos aproximamos de uma fase de confronto político. Por isso, Norberto morreu agora, um dia após o Natal, para fazer os cabo‑verdianos entrar no Novo ano sob um clima de paz, concórdia “pa nô djunta mon, nu kompu nôs terra”

Norberto Tavares era um ser iluminado que, além de activista social e grande compo- sitor, tinha um lado espiritual muito forte que, na hora da sua morte, uniu cabo-verdianos de todos os partidos políticos e religiões”, declara Amílcar Baptista, consternado com o passamento do músico de Santa Catarina mas, ao mesmo tem- po, consolado pelo poder que a sua obra exerce sobre os conterrâneos. Amílcar Baptista vai ainda mais longe e afir- ma que “a morte de Norberto Tavares não foi por acaso”: “Não desejo a morte de ninguém, mas acredito que deus quis que fosse neste momento, em que nos aproximamos de uma fase de confronto político. Por isso, Norberto morreu agora, um dia após o Natal, para fazer os cabo-verdianos entrar no Novo Ano sob um clima de paz, concórdia pa “nô djunta mon, nu kompu nôs terra”. Vai ver que as próximas eleições vão ser pacíficas, ordeiras porque Norberto morreu para juntar o que não pôde juntar em vida. Por isso voltou à fonte, para tornar real o Cabo Verde di Speransa. Veja que a sua morte serviu também para unir e pro- mover o espírito de concórdia entre católicos, nazarenos e outras denominações religiosas, dentro de um templo católico”.

Foi esse espírito – de paz e harmonia entre os cabo-verdianos – que Norberto Tavares sonhou ver reinar na sua terra natal e que está plasmado em toda a sua poesia. “ele tinha muita sensibi- lidade e preocupava-se com as coisas da alma, não só da sua como também da alma do povo cabo-verdiano”, considera Amílcar Baptista. Nas suas composições inéditas, por exemplo, ele diz que Jesus Cristo é o único caminho para a paz e a vida verdadeira”. Mas, mais do que confessar Jesus Cristo como a solução para uma vida plena, “Norberto Tavares exortava os seus conterrâneos a voltarpara Deus porque acreditava que não são os partidos políti- cos nem as religiões que vão salvar Cabo Verde, mas Jesus, o Princípe da Paz”, afirma Amílcar Baptista, músico com quem Totó Tavares, irmão de Norberto, partilhou a sua impressão sobre os últimosmomentosdevidadomalogradocompositor. Tudo isso, considera Amílcar Baptista, faz de Norberto Tavares “um ser único, cujo legado deve ser valorizado, preservado e divulgado para as gerações vindouras, para que junto delas também viva a esperança de unidade en- tre todos os cabo-verdianos. Um sonho por que sempre pugnou o compositor da esperança”. TSF

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S uplemento C ultura Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011 16 AGENdA cultura Homenagem a Codé

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AGENdA

cultura

ultura Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011 16 AGENdA cultura Homenagem a Codé di Dona Hoje
ultura Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011 16 AGENdA cultura Homenagem a Codé di Dona Hoje

Homenagem a Codé di Dona

Hoje e amanhã, o povoado de São Francisco, a poucos quilómetros da ca- pital, será palco de um festival de música em homenagem ao artista Codé di Dona. A localidade recorda o seu filho dilecto, falecido há um ano, num programa que inclui a actuação de vários artistas santiaguenses, bem como uma palestra sobre a vida e obra do cantor e compositor de funaná, autor de Fomi 47, Febre funaná, entre outros sucessos.

Praia night

Os primeiros shows do ano 2011 no Restaurante Palma Center vão ter em palco os artistas da casa. A cantora Lú Carvalho e os músicos da banda de Nhory Alves apresentam-se esta noite e dão bis amanhã. Sempre a partir das 21h, neste espaço de música “ao vivo” do Palmarejo.

Este sábado, a discoteca Cockpit reserva uma noite muito especial com Maria de Barros e banda, a partir das 23 h. Mais uma ocasião para se deixar cativar pela sensualidade e beleza interpretativa da cantora cabo- verdiana residentes nos EUA.

Breka e o seu grupo “Vulcânico” regressam ao restaurante Nova Luar na Rotunda de Terra Branca, para outra das suas habituais e sempre bem recebidas rabecadas. Os shows estão marcados para esta noite, sábado e domingo, a partir das 20h30.

Este fim-de-semana, o Quintal da Música aposta nos ritmos tradicio- nais. Hoje às 21h00, haverá concerto com Albertino e banda. Sábado, às 21h00, a animação será com Lutchinha Leite.

Maria de Barros no Porto Grande

23h00 desta sexta-feira: Maria de Barros e sua banda actuam ao vivo no Bar Lobby (Hotel Porto Grande), Mindelo. Vá e ouça como se cumpre a promessa de uma noite de boa músi- ca e descontracção.

promessa de uma noite de boa músi - ca e descontracção. Zero Horas com animação dos
promessa de uma noite de boa músi - ca e descontracção. Zero Horas com animação dos

Zero Horas com animação dos DJs

A discoteca Zero Horas vai estar aberta este sábado com animação dos DJs habituais, Heleno e Wilson. Na noite desta sexta-feira, o espaço fica reservado para uma festa particular.

teatro

A

peça “A lição”, dirigida por Sara Estrela, será apresentada hoje

às

21h00 na Biblioteca Nacional, cidade da Praia. Sábado e domin-

go o espectáculo será no M-EIA do Mindelo, também às 21h00.

Fotografia: primeiros passos

O Palácio da Cultura Ildo Lobo acolhe a partir de segunda-feira,10, um Módulo de Inicia- ção Fotográfica Digital ministrado por António (Tó) Gomes. O curso tem uma duração de três semanas e acontece em horário pós-laboral. As inscrições ainda estão abertas no PCIL.