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Física 2

transcrição das transparências


usadas na aula teórica

F. Salzedas

Física II 2006
MIEIC

FEUP
15 de Dezembro de 2006
As transparências aqui transcritas servem de apoio à aula teórica.
Como tal e por serem apenas um resumo, a sua consulta não dis-
pensa a consulta da bibliografia principal da disciplina.

ii
Conteúdo

1 Cargas eléctricas e campos eléctricos 3


1.1 Estrutura da matéria . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3
1.2 Condutores e isoladores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6
1.3 Electrómetros . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6
1.4 Carga induzida . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7
1.5 As equações de Maxwell . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8
1.6 Lei de Coulomb e o Princípio da Sobreposição . . . . . . . . . 9
1.7 Campo eléctrico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11

2 13
2.1 Linhas de campo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
2.2 Lei de Gauss . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
2.3 Campo dentro de um condutor . . . . . . . . . . . . . . . . . 19
2.4 Localização da carga dentro de um condutor . . . . . . . . . . 20
2.5 Condutor com uma cavidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20
2.6 Teorema de Gauss . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21

3 Energia potencial eléctrica e potencial eléctrico 23


3.1 Energia potencial eléctrica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23
3.2 Teorema de Stokes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25
3.3 Potencial eléctrico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26
3.4 Potencial eléctrico e o campo eléctrico . . . . . . . . . . . . . 27
3.5 Potencial eléctrico duma carga pontual . . . . . . . . . . . . . 28

4 Capacidade e condensadores 29
4.1 Capacidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29
4.2 Dipolo Eléctrico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30
4.3 Dieléctricos: Polarização da Matéria . . . . . . . . . . . . . . 31
4.4 Rotura eléctrica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33
4.5 Condensadores em série e paralelo . . . . . . . . . . . . . . . 34
4.6 A energia armazenada num condensador . . . . . . . . . . . . 36

iii
CONTEÚDO

5 Corrente eléctrica e resistência 39


5.1 Circuitos eléctricos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39
5.2 Lei de Ohm . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40
5.3 Resistência e resistividade - Abordagem clássica . . . . . . . . 40
5.4 Fem e resistência interna . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43
5.5 Resistências em série e em paralelo . . . . . . . . . . . . . . . 44

6 47
6.1 Leis de Kirchhoff . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
6.2 Energia em circuitos CC . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48
6.3 Potência e resistência interna . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49

7 Campo magnético 53
7.1 Magnetostática . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53
7.2 A lei de Biot-Savart . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 54
7.3 Fio longo e rectilíneo I . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55
7.4 A lei de Ampère . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57
7.5 A lei de Ampère e o Teorema de Stokes . . . . . . . . . . . . 57
7.6 Fio longo e rectilíneo II. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 58

8 61
8.1 O campo magnético dum solenóide . . . . . . . . . . . . . . . 61
8.2 A lei de Gauss para o campo magnético . . . . . . . . . . . . 62
8.3 Teorema de Gauss e o campo B . . . . . . . . . . . . . . . . . 63
8.4 A força magnética . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 64
8.5 A definição de ampere . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 64

9 67
9.1 A força de Lorentz . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67
9.2 A experiência de Thompson . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 68
9.3 Movimento de uma partícula carregada num campo B . . . . 70

10 73
10.1 Aplicações da força de Lorentz . . . . . . . . . . . . . . . . . 73
10.2 Efeito de Hall . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73
10.3 Galvanómetros . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 75
10.4 Origem do magnetismo permanente . . . . . . . . . . . . . . 77

11 Indução electromagnética 81
11.1 A lei de Faraday . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81
11.2 A lei de Lenz . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 82
11.3 As leis de Faraday(-Lenz) e as eq. de Maxwell . . . . . . . . . 83

iv
CONTEÚDO

12 Indução electromagnética 87
12.1 Um gerador simples . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87
12.2 Correntes de Foucault . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89
12.3 O gerador de corrente alternada . . . . . . . . . . . . . . . . 91

13 Indutores e indutância 93
13.1 Indutância mútua . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93
13.2 Auto-indutância . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 95
13.3 A energia armazenada num indutor . . . . . . . . . . . . . . . 96
13.4 A densidade de energia dum campo magnético . . . . . . . . 97

14 Regime transiente e circuitos CA 99


14.1 O circuito RL . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 99
14.2 O circuito RC . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 102
14.3 Circuitos de CA - Impedância . . . . . . . . . . . . . . . . . . 104
14.4 Circuitos de CA - RLC . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 107

15 113
15.1 O transformador . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 113
15.2 Ajuste de impedâncias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 116

16 Ondas electromagnéticas 119


16.1 A corrente de deslocamento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 119
16.2 Ondas electromagnéticas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 122
16.3 Energia em ondas electromagnéticas . . . . . . . . . . . . . . 125

17 Introdução á mecânica quântica 127


17.1 Probabilidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 127
17.2 A equação de Schrödinger . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 127
17.3 Partícula livre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129

18 131
18.1 Partícula num Potencial Quadrado, Unidimensional . . . . . . 131
18.2 Partícula num Potencial Quadrado, Tridimensional . . . . . . 134
18.3 Efeito de Túnel . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 137

19 141
19.1 Um sólido unidimensional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 141
19.2 Spin . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 144

v
CONTEÚDO

20 147
20.1 Condutor, isolador e semicondutor . . . . . . . . . . . . . . . 147
20.2 Efeito das Impurezas Dadoras do Tipo n . . . . . . . . . . . . 150
20.3 Efeito das Impurezas Aceitadoras do Tipo p . . . . . . . . . . 151

A Dados úteis i

vi
Ficha de disciplina da Ocorrência 2006/2007 - 1S
Disciplina: Física
Código: EIC0014
Cursos: Sigla Anos Curriculares Nº de Alunos
LEIC 2º
MIEIC 2º 113
Ano Lectivo: 2006/2007
Período: 1S
Créditos: 6
ECTS: 6
Unidade: Departamento de Física
Horas/Semanas: T: 2 TP: 2 P: 0
Docentes: Francisco José Batista Salzedas
André Gomes Coelho Gouveia
Joana Cassilda Rodrigues Espain de Oliveira

Língua de Ensino

Português

Objectivos

Transmitir aos alunos os conceitos básicos do electromagnetismo e suas aplicações tecnológicas elementares. Partindo duma breve introdução à
mecânica quântica expor o mecanismo quântico da condução de corrente eléctrica.

Programa

Estrutura atómica da matéria. Cargas eléctricas e campos eléctricos. Energia potencial eléctrica e potencial eléctrico. Capacidade e condensadores.
Corrente eléctrica e resistência. Magnetismo e campos magnéticos. Indução electromagnética. Indutores e indutância. Ondas electromagnéticas.
Breve introdução à mecânica quântica. Equação de Shrödinger. Breve introdução ao mecanismo quântico da condução de corrente eléctrica.

Bibliografia Principal

Richard Fitzpatrick;Electromagnetism and Optics , 1999 (Livro disponível em http://paginas.fe.up.pt/~fsal/EmagOptics.pdf)


Benjamin Crowell;Simple Nature , 2005 . ISBN: 0-9704670-7-9 (Livro disponível em http://fisica.fe.up.pt/eic0014/fisica2.pdf)

Bibliografia Complementar

Alonso, Marcelo;Física. ISBN: 84-7829-027-3


Feynman, Richard P.;The Feynman lectures on Physics
Nussenzveig, H. Moysés;Curso de física básica. ISBN: 85-212-0134-6 (vol. 3)
Nussenzveig, Herch Moysés;Curso de física básica. ISBN: 85-212-0163-X (vol.4)

Métodos de Ensino

- Aulas teóricas: exposição e discussão da matéria acompanhada sempre que possível de aplicações dos conceitos teóricos.
- Aulas teórico-práticas: resolução e discussão de exercícios por parte dos alunos sendo necessário explicar o(s) método(s) usados na resolução. É
estimulada a discussão dos conceitos por forma a que o aluno possa testar na aula o seu grau de conhecimento dos assuntos abordados.

Palavras Chave

Ciências Físicas > Física > Electromagnetismo


Ciências Físicas > Física > Mecânica quântica

Componentes de Avaliação e Ocupação registadas

Descrição Tipo Tempo (horas) Data de Conclusão


Aulas da disciplina (estimativa)  Aulas  56
Exame final  Teste/Exame  2 2007-02-16
Estudo para além das aulas  Estudo  63 2007-01-05
  Total: 121

Obtenção de Frequência

Serão realizados, durante as aulas teórico-práticas ao longo do semestre, três mini-testes sem aviso prévio. A duração de cada mini-teste não será
superior a 30min. Cada mini-teste consta da resolução de um problema já resolvido nas aulas teórico-práticas que decorreram até ao miniteste. Só é
admitido a exame final quem tiver nota positiva em dois dos três mini-testes.

- Exame final: escrito sem consulta, com duração não superior a 2h 30 min.

- Consultar também o Artigo 4º das "Normais Gerais de Avaliação da FEUP".

Cálculo da Classificação Final

A classificação final é a nota do exame final.

Avaliação Especial (TE, DA, ...)

- Os alunos que durante o presente ano lectivo possuem estatuto de trabalhador estudante ou militar estão dispensados de frequência. A avaliação
desta disciplina para esses alunos será feita apenas por exame final escrito.

-Consultar também o Artigo 4º das "Normais Gerais de Avaliação da FEUP".

Melhoria de Classificação Final/Distribuída

- Consultar o Artigo 10º das "Normais Gerais de Avaliação da FEUP".

Observações

-Tempo médio de estudo por semana: 4.5 horas


Página gerada em: 2006-11-14 às 11:24:29
Aula 1

Cargas eléctricas e campos eléctricos

Sumário:
- Estrutura da matéria
- Carga induzida
- As equações de Maxwell
- Lei de Coulomb e o Princípio da Sobreposição
- Campo eléctrico

1.1 Estrutura da matéria


• A electricidade revolucionou as sociedades a partir do séc. XX, mesmo
aquelas que não a usam extensivamente
• Manifestações da electricidade já eram conhecidas à já alguns milénios
como por exemplo a capacidade do âmbar (uma resina fossilizada a que os
Gregos chamavam elektron) após ser friccionado poder atrair objectos leves,
como uma pena
• Muito mais tarde descobriram-se outros materiais com propriedades
semelhantes bem como novos efeitos, e.g. ao esfregar âmbar com um pedaço
de pele com pêlos este adquire "electricidade resinosa"e esfregando vidro com
seda este adquire "electricidade vítrea"
• Foi observado o facto importante que "electricidades"do mesmo tipo
repeliam-se e de tipo diferente atraíam-se
• Foi no séc.XVIII que se desenvolveu o conceito de carga para explicar
o grande número de observações feitas em incontáveis experiências
• Concluiu-se que há dois tipos de carga: positiva e negativa
• Cargas iguais repelem-se, cargas opostas atraem-se
• Igualmente importante foi a observação que ao esfregar dois corpos é
transferida carga dum para o outro mantendo-se a carga total constante i.e.
a carga não é criada

3
1.1. ESTRUTURA DA MATÉRIA

• Num sistema fechado a soma de todas as cargas eléctricas mantém-se


constante

• No Séc. XX descobriu-se que a matéria é constituída por átomos e que


estes por sua vez eram constituídos por um núcleo em torno do qual giram
electrões, e

• Os electrões têm carga negativa e até à data não se conhece nenhuma


estrutura interna ao electrão, ou seja um electrão é uma só partícula

• Descobriu-se que o núcleo têm carga positiva e ainda que este é consti-
tuído por outras partículas, chamados protões, p, que têm carga positiva e
neutrões, n, que têm carga ZERO

• Descobriu-se ainda também que cada um destes 2 nucleões (protão e


neutrão) é constituído por 3 quarks (p = uud, n = udd)

Átomo Núcleo Nucleão

-14 -15
10 m
-10
10 m 10 m

• O quark u (up) tem carga eléctrica igual a 2/3 da carga do electrão


e o quark d (down) tem carga eléctrica igual a −1/3, daí que um protão
(p = uud) tem carga +1 e um neutrão (n = udd) tem carga 0

• Tal como o electrão crê-se que os quarks não são constituídos por outras
partículas, pois todas as experiências feitas até à data para encontrar essa
estrutura não o conseguiram fazer.

• Com estas 3 partículas elementares (electrão, quarks u e d) podem


formar-se 116 átomos, normalmente ordenados na familiar tabela periódica.

4
1.1. ESTRUTURA DA MATÉRIA

P E R I O D I C T A B L E
Group
1
IA
Atomic Properties of the Elements 18
VIIIA
1 2S1/2 Frequently used fundamental physical constants Physics Standard Reference 2 1
S0

1
H For the most accurate values of these and other constants, visit physics.nist.gov/constants
1 second = 9 192 631 770 periods of radiation corresponding to the transition
Laboratory
physics.nist.gov
Data Group
www.nist.gov/srd
He
Hydrogen Helium
1.00794 between the two hyperfine levels of the ground state of 133Cs 4.002602
1s
2 speed of light in vacuum c 299 792 458 m s
-1
(exact) Solids 13 14 15 16 17 1s
2

13.5984 IIA Planck constant h 6.6261 × 10 J s


-34
( /2 ) Liquids IIIA IVA VA VIA VIIA 24.5874
3 4 5 6 7 8 9 10
-19
2
S1/2
1
S0 elementary charge e 1.6022 × 10 C 2
P°1/2 3
P0 4
°
S3/2
3
P2
2
°
P3/2 1
S0
Gases
Li Be B C N O F Ne
-31
electron mass me 9.1094 × 10 kg
me c
2
0.5110 MeV Artificially
2 Lithium Beryllium proton mass mp 1.6726 × 10 kg
-27
Prepared Boron Carbon Nitrogen Oxygen Fluorine Neon
6.941 9.012182 10.811 12.0107 14.0067 15.9994 18.9984032 20.1797
2 2 2
fine-structure constant 1/137.036 2 2 2 2 2 2 2 3 2 2 4 2 2 5 2 2 6
1s 2s 1s 2s -1 1s 2s 2p 1s 2s 2p 1s 2s 2p 1s 2s 2p 1s 2s 2p 1s 2s 2p
Rydberg constant R 10 973 732 m
5.3917 9.3227 15 8.2980 11.2603 14.5341 13.6181 17.4228 21.5645
R c 3.289 842 × 10 Hz
11 2
S1/2 12 1
S0
R hc 13.6057 eV 13 2
°
P1/2 14 3
P0 15 4
°
S3/2 16 3
P2 17 2
°
P3/2 18 1
S0

3
Na Mg Boltzmann constant k 1.3807 × 10 J K
-23 -1
Al Si P S Cl Ar
Sodium Magnesium Aluminum Silicon Phosphorus Sulfur Chlorine Argon
22.989770 24.3050
2
3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 26.981538
2
28.0855
2 2
30.973761
2 3
32.065
2 4
35.453
2 5
39.948
2 6
[Ne] 3s [Ne] 3s [Ne]3s 3p [Ne]3s 3p [Ne]3s 3p [Ne]3s 3p [Ne]3s 3p [Ne]3s 3p
5.1391 7.6462 IIIB IVB VB VIB VIIB VIII IB IIB 5.9858 8.1517 10.4867 10.3600 12.9676 15.7596
19 2
S1/2 20 1
S0 21 2D3/2 22 3F2 23 4F3/2 24 7S3 25 6S5/2 26 5D4 27 4F9/2 28 3F4 29 2S1/2 30 1S0 31 2P1/2 ° 32 3
P0 33 4S3/2 ° 34 3
P2 35
2
° 36
P3/2 1
S0

K Ca Sc Ti V Cr Mn Fe Co Ni Cu Zn Ga Ge As Se Br Kr
Period

4 Potassium Calcium Scandium Titanium Vanadium Chromium Manganese Iron Cobalt Nickel Copper Zinc Gallium Germanium Arsenic Selenium Bromine Krypton
39.0983 40.078 44.955910 47.867 50.9415 51.9961 54.938049 55.845 58.933200 58.6934 63.546 65.409 69.723 72.64 74.92160 78.96 79.904 83.798
2 2 2 2 3 2 5 5 2 6 2 7 2 8 2 10 10 2 10 2 10 2 2 10 2 3 10 2 4 10 2 5 10 2 6
[Ar] 4s [Ar] 4s [Ar]3d 4s [Ar]3d 4s [Ar]3d 4s [Ar]3d 4s [Ar]3d 4s [Ar]3d 4s [Ar]3d 4s [Ar]3d 4s [Ar]3d 4s [Ar]3d 4s [Ar]3d 4s 4p [Ar]3d 4s 4p [Ar]3d 4s 4p [Ar]3d 4s 4p [Ar]3d 4s 4p [Ar]3d 4s 4p
4.3407 6.1132 6.5615 6.8281 6.7462 6.7665 7.4340 7.9024 7.8810 7.6398 7.7264 9.3942 5.9993 7.8994 9.7886 9.7524 11.8138 13.9996
37 2
S1/2 38 1
S0 39 2
D3/2 40 3
F2 41 6
D1/2 42 7
S3 43 6
S5/2 44 5
F5 45 4
F9/2 46 1
S0 47 2
S1/2 48 1
S0 49 2
°
P1/2 50 3
P0 51 4
°
S3/2 52 3
P2 53 2
°
P3/2 54 1
S0

5
Rb Sr Y Zr Nb Mo Tc Ru Rh Pd Ag Cd In Sn Sb Te I Xe
Rubidium Strontium Yttrium Zirconium Niobium Molybdenum Technetium Ruthenium Rhodium Palladium Silver Cadmium Indium Tin Antimony Tellurium Iodine Xenon
85.4678 87.62 88.90585 91.224 92.90638 95.94 (98) 101.07 102.90550 106.42 107.8682 112.411 114.818 118.710 121.760 127.60 126.90447 131.293
2 2 2 2 4 5 5 2 7 8 10 10 10 2 10 2 10 2 2 10 2 3 10 2 4 10 2 5 10 2 6
[Kr] 5s [Kr] 5s [Kr]4d 5s [Kr]4d 5s [Kr]4d 5s [Kr]4d 5s [Kr]4d 5s [Kr]4d 5s [Kr]4d 5s [Kr]4d [Kr]4d 5s [Kr]4d 5s [Kr]4d 5s 5p [Kr]4d 5s 5p [Kr]4d 5s 5p [Kr]4d 5s 5p [Kr]4d 5s 5p [Kr]4d 5s 5p
4.1771 5.6949 6.2173 6.6339 6.7589 7.0924 7.28 7.3605 7.4589 8.3369 7.5762 8.9938 5.7864 7.3439 8.6084 9.0096 10.4513 12.1298
55 2
S1/2 56 1
S0 72 3
F2 73 4
F3/2 74 5
D0 75 6
S5/2 76 5
D4 77 4
F9/2 78 3
D3 79 2
S1/2 80 1
S0 81 2
°
P1/2 82 3
P0 83 4
°
S3/2 84 3
P2 85 2
°
P3/2 86 1
S0

6
Cs Ba Hf Ta W Re Os Ir Pt Au Hg Tl Pb Bi Po At Rn
Cesium Barium Hafnium Tantalum Tungsten Rhenium Osmium Iridium Platinum Gold Mercury Thallium Lead Bismuth Polonium Astatine Radon
132.90545 137.327 178.49 180.9479 183.84 186.207 190.23 192.217 195.078 196.96655 200.59 204.3833 207.2 208.98038 (209) (210) (222)
2 14 2 2 14 3 2 14 4 2 14 5 2 14 6 2 14 7 2 14 9 14 10 14 10 2 2 3 4 5 6
[Xe] 6s [Xe] 6s [Xe]4f 5d 6s [Xe]4f 5d 6s [Xe]4f 5d 6s [Xe]4f 5d 6s [Xe]4f 5d 6s [Xe]4f 5d 6s [Xe]4f 5d 6s [Xe]4f 5d 6s [Xe]4f 5d 6s [Hg] 6p [Hg]6p [Hg]6p [Hg] 6p [Hg] 6p [Hg] 6p
3.8939 5.2117 6.8251 7.5496 7.8640 7.8335 8.4382 8.9670 8.9588 9.2255 10.4375 6.1082 7.4167 7.2855 8.414 10.7485
87 2
S1/2 88 1
S0 104 3
F2 ? 105 106 107 108 109 110 111 112 114 116

7
Fr Ra Rf Db Sg Bh Hs Mt Uun Uuu Uub Uuq Uuh
Francium Radium Rutherfordium Dubnium Seaborgium Bohrium Hassium Meitnerium
Ununnilium Unununium Ununbium Ununquadium Ununhexium
(223) (226) (261) (262) (266) (264) (277) (268) (281) (272) (285) (289) (292)
2 14 2 2
[Rn] 7s [Rn] 7s [Rn]5f 6d 7s ?
4.0727 5.2784 6.0 ?

Atomic Ground-state 57 2
D3/2 58 1
G°4 59 4
I9/2
° 60 5
I4 61 6
H°5/2 62 7
F0 63 8
S°7/2 64 9
D°2 65 6
H°15/2 66 5
I8 67 4
I15/2
° 68 3
H6 69 2
F°7/2 70 1
S0 71 2
D3/2
Lanthanides

Number Level
La Ce Pr Nd Pm Sm Eu Gd Tb Dy Ho Er Tm Yb Lu
Symbol 58 1
G°4 Lanthanum Cerium Praseodymium Neodymium Promethium Samarium Europium Gadolinium Terbium Dysprosium Holmium Erbium Thulium Ytterbium Lutetium

Ce
138.9055 140.116 140.90765 144.24 (145) 150.36 151.964 157.25 158.92534 162.500 164.93032 167.259 168.93421 173.04 174.967
2 2 3 2 4 2 5 2 6 2 7 2 7 2 9 2 10 2 11 2 12 2 13 2 14 2 14 2
[Xe]5d 6s [Xe]4f5d 6s [Xe]4f 6s [Xe]4f 6s [Xe]4f 6s [Xe]4f 6s [Xe]4f 6s [Xe]4f 5d6s [Xe]4f 6s [Xe]4f 6s [Xe]4f 6s [Xe]4f 6s [Xe]4f 6s [Xe]4f 6s [Xe]4f 5d6s
Name 5.5769 5.5387 5.473 5.5250 5.582 5.6437 5.6704 6.1498 5.8638 5.9389 6.0215 6.1077 6.1843 6.2542 5.4259
Cerium
140.116 89 2
D3/2 90 3
F2 91 4
K11/2 92 5
L°6 93 6
L11/2 94 7
F0 95 8
°
S7/2 96 9
D°2 97 6
H°15/2 98 5
I8 99 4
I15/2
° 100 3
H6 101 2
F°7/2 102 1
S0 103 2
P°1/2?

Ac Th Pa U Np Pu Am Cm Bk Cf Es Fm Md No Lr
Atomic
Actinides

2
Weight

[Xe]4f5d6s
5.5387 Actinium Thorium Protactinium Uranium Neptunium Plutonium Americium Curium Berkelium Californium Einsteinium Fermium Mendelevium Nobelium Lawrencium
(227) 232.0381 231.03588 238.02891 (237) (244) (243) (247) (247) (251) (252) (257) (258) (259) (262)
Ground-state Ionization [Rn] 6d7s
2 2 2
[Rn]6d 7s
2
[Rn]5f 6d7s
2 3
[Rn]5f 6d7s
2 4
[Rn]5f 6d7s
2 6 2
[Rn]5f 7s
7 2
[Rn]5f 7s
7
[Rn]5f 6d7s
2 9 2
[Rn]5f 7s
10 2
[Rn]5f 7s
11 2
[Rn]5f 7s
12 2
[Rn]5f 7s
13 2
[Rn]5f 7s
14 2
[Rn]5f 7s
14 2
[Rn]5f 7s 7p?
Configuration Energy (eV) 5.17 6.3067 5.89 6.1941 6.2657 6.0260 5.9738 5.9914 6.1979 6.2817 6.42 6.50 6.58 6.65 4.9 ?


Based upon
12
C. () indicates the mass number of the most stable isotope. For a description of the data, visit physics.nist.gov/data NIST SP 966 (September 2003)

• Os átomos mais pesados são instáveis e têm um tempo de vida curto,


partindo-se em átomos mais pequenos em processos radioactivos.
• No nosso planeta as abundâncias dos átomos não são iguais.

O Si Ca Fe
1 05
Abundâncias na Crosta Terrestre

Elementos Terras-Raras
H
1 03
(Partes por milhão)

1 01
Ag
1 0 -1

1 0 -3 He Au

1 0 -5 Ne
Kr Xe Ir Ra
1 0 -7
0 20 40 60 80 100
Número Atómico

• Os átomos por sua vez agrupam-se em moléculas ou sólidos dos mais

5
1.2. CONDUTORES E ISOLADORES

variados e exuberantes tipos, constituindo uma parte importante da Na-


tureza, incluindo nós próprios.
• Os electrões que ocupam a parte mais externa do átomo podem transitar
com mais ou menos facilidade para outros átomos, dependendo do tipo de
átomos em questão.
• Ao esfregar uma barra de vidro com seda alguns electrões transitam do
vidro para a seda, deixando o vidro com carga positiva e a seda com uma
carga igual mas negativa.
• Em circunstâncias normais a matéria é electricamente neutra,

Nelectrões = Nprotões

.
1.2 Condutores e isoladores
• Materiais que permitem a passagem de cargas eléctricas são chamados
condutores eléctricos e por oposição os materiais que não o permitem são
isoladores eléctricos.
• Todos os metais (Cobre, Ouro, Prata, Platina, Mercúrio, etc.) são
condutores pois pelo menos um electrão por átomo é livre de se mover pelo
metal.
• Toda a matéria onde os electrões estão fortemente ligados aos átomos
são isoladores (gases, o vidro, a borracha, Carbono, Silício, Quartzo, etc.).
1.3 Electrómetros
• A carga eléctrica é media com um aparelho chamado electrómetro (ver
figura).

• Ao depositar cargas eléctricas na esfera estas distribuem-se pelo instru-


mento provocando uma repulsão entre a folha de Ouro e a placa de metal
que leva a uma deflexão da leve folha de Ouro, sendo a deflexão proporcional
à carga depositada

6
1.4. CARGA INDUZIDA

• Electrómetros modernos, muito sensíveis, são construídos a partir de


FET (Transístores de Efeito de Campo)
• A unidade do Sistema Internacional (S.I) para a carga eléctrica é o
coulomb (C) ver. http://www.bipm.org
• A carga de 1 electrão são 1.602 × 10−19 C
• 1 coulomb é uma quantidade de carga muito grande

1.4 Carga induzida


• É possível medir o sinal da carga em excesso num objecto?
• Aproximando (SEM TOCAR) um objecto carregado electroestatica-
mente dum electrómetro também já carregado, se as cargas forem do mesmo
sinal a deflexão da folha de ouro aumenta, ou diminui se forem de sinal oposto
• O electrómetro consegue assim medir o sinal relativo da carga sem
alterar a quantidade de carga
• Repetindo o procedimento anterior mas com o electrómetro descar-
regado, observa-se igualmente a deflexão da folha de Ouro, permitindo assim
a detecção de objectos carregados na vizinhança do electrómetro

O que acontece se aproximarmos uma barra, carregada negativa-


mente, a um electrómetro descarregado e em contacto eléctrico com
um grande condutor externo também descarregado e em seguida in-
terrompermos o contacto eléctrico?

Os electrões em excesso na barra, repelem os electrões livres no electrómetro.


Estes electrões repelidos vão afastar-se o mais possível da barra, passando tam-
bém para o grande condutor externo. Ao interromper o contacto eléctrico o
electrómetro perde os electrões que passaram para o grande condutor externo.
O electrómetro ganha assim um excesso de carga positiva de módulo exactamente
igual à carga negativa (os electrões livres) que passou para o grande condutor
externo.
O electrómetro foi carregado por indução. Por um mecanismo análogo um ser
humano pode ser carregado electrostaticamente ao levantar-se dum sofá, ou ao
andar sobre uma alcatifa. O resultado são aqueles desagradáveis choques eléc-
tricos que todos já sentimos uma vez ou outra, quando cumprimentamos alguém
ou tocamos num puxador metálico duma porta.
• A Terra é um grande e razoável bom condutor e portanto ligando um
electrómetro à Terra este pode ser carregado por indução se estiver na viz-
inhança de um objecto carregado

O que acontece se aproximarmos uma barra carregada negativa-

7
1.5. AS EQUAÇÕES DE MAXWELL

mente dum isolador?

Os electrões da barra repelem os electrões do isolador. No entanto como estes


últimos não são livres e simplesmente giram em torno dos núcleos dos átomos o
que vai acontecer é que as suas órbitas vão ficar levemente distorcidas, afastando-
se da barra.
Diz-se que os átomos ficam polarizados. Deste modo os núcleos positivos ficam
ligeiramente mais próximos da barra e se o isolador for leve, e.g. um pedaço de
papel a força atractiva entre os núcleos e a barra é suficiente para levantar o
papel.
Este é o mecanismo que gera a acumulação de pó no vidro dos monitores CTR,
ou que permite a remoção electrostática de pequenos pelos de certos tipos de
roupa.
1.5 As equações de Maxwell
• A evolução no tempo e no espaço (vazio) do campo electromagnético é
descrita pelas seguintes 4 equações:
ρ
∇·E = (1.1)
0
∇·B = 0 (1.2)
∂B
∇×E = − (1.3)
∂t
∂E
∇ × B = µ0 j + µ0  0 (1.4)
∂t
• Estas são as equações de Maxwell onde
t é o tempo
E é o campo eléctrico
B é o campo magnético
ρ é o número de cargas eléctricas que estão num volume unitário
j é o número de cargas eléctricas que atravessam uma secção unitária numa
unidade de tempo
µ0 e 0 são constantes universais
• Nas aulas que se seguem vamos estudar estas equações e vamos usá-las
para compreender algumas das suas vastas aplicações
• Iniciaremos o estudo pelo caso mais simples em que nada depende do
tempo, o caso estático. Neste caso as equações reduzem-se a:
Electrostática:
ρ
∇·E = (1.5)
0
∇×E = 0 (1.6)

8
1.6. LEI DE COULOMB E O PRINCÍPIO DA SOBREPOSIÇÃO

Magnetostática:

∇·B = 0 (1.7)
∇ × B = µ0 j (1.8)

• No caso estático E e B não dependem um do outro, são independentes.


Só quando existem variações significativas no tempo de cargas ou correntes
E depende de B e vice versa.

1.6 Lei de Coulomb e o Princípio da Sobreposição


• As primeiras medidas precisas da força entre duas cargas foram realizadas
por Charles-Augustin de Coulomb em 1788, usando uma balança de torção
• Coulomb concluiu que a força eléctrica entre duas cargas (Q1 e
Q2 ) em repouso é directamente proporcional ao produto das cargas
e inversamente proporcional ao quadrado da distância (r) entre as
cargas, ou na forma algébrica:

1 Q1 Q2
F = r̂ (1.9)
4π0 r2

• Esta lei universal é conhecida pela lei de Coulomb


• Como qualquer força também a força eléctrica é um vector, que actua na
direcção do vector posição das duas cargas indicada aqui pelo vector unitário

• A constante universal 0 = 8.854 × 10−12 C2 N−1 m−2 é chamada permi-
tividade eléctrica do vazio (ou também constante dieléctrica do vazio como
veremos quando estudarmos os dieléctricos)
• Por vezes a lei de Coulomb surge na forma:

Q1 Q2
F = ke r̂ (1.10)
r2
onde ke = 1/(4π0 ) = 8.988 × 109 C−2 Nm2
• A força eléctrica que a carga Q1 exerce na carga Q2 tem o mesmo
módulo, a mesma direcção mas sentido oposto à força que Q2 exerce em Q1

F 12 = −F 21 (1.11)

Se além da carga Q1 e da carga Q2 houver uma terceira carga


Q3 , qual é a força total que actua em Q1 ?

9
1.6. LEI DE COULOMB E O PRINCÍPIO DA SOBREPOSIÇÃO

A força F21 não é afectada pela força F31 que a carga Q3 exerce na carga
Q1 , logo a força total é a soma VECTORIAL destas duas forças:

F 1 = F 21 + F 31

• Caso haja N cargas a força total que actua em Q1 é soma vectorial de


todas as forças
N
X
F1 = F i1 (1.12)
i=2

este é o chamado Princípio da Sobreposição.

Sabe-se que a densidade do Cobre é ρ = 8920kgm−3 . Cada


átomo de Cobre tem Z = 29 electrões e uma massa de ACobre × u =
1.05 × 10−25 kg. Considere duas esferas de Cobre, cada com um vo-
lume de 1dm3 . Se o número de electrões em cada uma das esferas
aumentar em 1%, qual a força que tem de se aplicar para manter as
esferas afastadas de 10cm?

Como as esferas são iguais basta calcular a carga numa das esferas, que é igual
a 1% do número de electrões numa esfera, Nel , vezes a carga de um electrão.

Nel = Nátomos × Z
ρ
= A×u × Volume × Z
8920×10−3 ×29
= 1.05×10−25 = 1.48 × 1027 .

Então a carga eléctrica da esfera é igual a,


1
Q= Nel × 1.6 × 10−19 = 2.36 × 106 C,
100
logo pela lei de Coulomb,
2
1 Q
F = 4π0 r
2
1 (2.36×106 )2
= 4π0 0.12
= 5.02 × 1024 N ≈ 0.5 × 1024 kgf.

Refira-se que para comparação a massa da Terra é cerca de 6 × 1024 kg, i.e.
se uma esfera estivesse pousada na Terra, para manter a outra 10cm por cima
seria necessário colocar uma massa equivalente a outra Terra por cima da esfera
superior.

10
1.7. CAMPO ELÉCTRICO

1.7 Campo eléctrico


• A força eléctrica F12 depende sempre da magnitude das duas cargas Q1 e
Q2
• Dividindo F12 por Q2 obtemos uma grandeza que é independente da
carga Q2 e que mantém a mesma direcção de F12
F 12 1 Q1
E1 = = r̂ (1.13)
Q2 4π0 r2

• À nova grandeza E1 chamamos o campo eléctrico criado pela carga Q1


num ponto do espaço à distância r de Q1 na direcção de r̂
• O campo eléctrico é assim uma força por unidade de carga, como tal é
expresso em newtons por coulomb, N/C
• Uma carga pontual produz um campo eléctrico radial que aponta para
fora da carga se esta é positiva (Fig. a) e para dentro se esta é negativa (Fig.
b)
a b

+ -

• Assim uma carga Q2 no campo E 1 produzido por uma carga Q1 sente


uma força electrostática,

F 12 = Q2 E 1 . (1.14)

• Desta expressão conclui-se naturalmente que o campo total criado por


N cargas é a soma vectorial dos campos individuais de cada uma das cargas,
em acordo com o princípio da sobreposição,
N
X
E= E i. (1.15)
i=1

11
1.7. CAMPO ELÉCTRICO

12
Aula 2

Sumário:

- Linhas de campo

- Lei de Gauss

- Campo eléctrico dentro de um condutor

- Localização da carga dentro de um condutor

- Condutor com uma cavidade

- Campo eléctrico num condutor com uma cavidade

- Teorema de Gauss

2.1 Linhas de campo


• Um campo eléctrico é uma função tridimensional e contínua no espaço
• Para melhor visualizar um campo com estas características é costume
representar apenas um conjunto de linhas com setas, chamadas linhas de
campo, segundo as seguintes regras:

- Em qualquer ponto a direcção do campo eléctrico é tangente à linha de


campo e o sentido é o indicado pelas setas.

- A magnitude do campo eléctrico é proporcional ao número de linhas


de campo que atravessam uma secção unitária perpendicular às linhas.

• Resumindo o campo aponta na direcção das setas e é intenso onde as


linhas estão muito juntas e fraco onde estão muito afastadas

13
2.1. LINHAS DE CAMPO

a b

+ -

• Deste modo as linhas do campo eléctrico criado por uma carga pontual
positiva formam um conjunto de linhas radiais, igualmente separadas pelo
mesmo ângulo sólido, que divergem da carga (Fig. a), enquanto que as linhas
de campo convergem numa carga pontual negativa (Fig. b)
• Em ambos estes casos o número de linhas de campo por unidade de
superfície perpendicular às linhas ( qual a forma desta superfície?) decresce
com 1/r2 pois o número de linhas é fixo mas a área da superfície é 4πr2 ou
seja cresce com r2
• Então, como esperado, a intensidade do campo eléctrico diminui com
o inverso do quadrado da distância à carga, 1/r2 , respeitando-se a lei de
Coulomb
• Resulta da definição que as linhas de campo eléctrico:

- Começam em cargas positivas e terminam em cargas negativas.

- No espaço vazio entre as cargas, são contínuas (o campo existe em todo


o espaço).

- Nunca se cruzam (o campo eléctrico só pode ter um valor em cada


ponto do espaço).

- Se as linhas de campo se tocam então o campo nesse ponto é nulo.

• As representações tridimensionais anteriores de campos eléctricos cri-


ados por cargas pontuais são em geral difíceis de visualizar como tal são
comuns representações bidimensionais das linhas de campo

14
2.2. LEI DE GAUSS

2.2 Lei de Gauss


• Em 1835 Karl Gauss desenvolveu uma das mais úteis ferramentas em elec-
trostática, que hoje é conhecida pela lei de Gauss,
Z
soma das cargas interiores a S
En dS = (2.1)
0
qualquer
superfície S
fechada

ou
I
Qint
E · n̂ dS = (2.2)
0
S

onde En é a componente do campo eléctrico perpendicular ao elemento de


superfície dS e Qint é a carga total que se encontra dentro da superfície S
X
Qint = qi (2.3)
interior de S

• Se a posição das cargas for descrita em termos de uma densidade de


carga ρ então cada volume elementar dV contem a carga ρdV e assim,
Z
Qint = ρ dV (2.4)
volume
interior de S

• A superfície fechada S chama-se superfície gaussiana

15
2.2. LEI DE GAUSS

H
• O integral S E · n̂ dS representa o fluxo de E através de S e é comum
representar o fluxo pela letra Φ
• Usaremos a convenção que o fluxo é positivo se o campo eléctrico aponta
para fora da superfície gaussiana e negativo se aponta para dentro.
• Assim uma forma mais compacta de escrever a lei de Gauss é
Qint
ΦE = (2.5)
0
O fluxo eléctrico através duma qualquer superfície fechada, é igual
à carga total envolvida pela superfície dividida, por 0

Calcular, usando a lei de Gauss, o módulo do campo eléctrico cri-


ado por uma carga pontual Q1 num ponto P a uma distância r de Q1

Já vimos anteriormente qual é o campo E criado por Q1 (ver 1.13). E é


esfericamente simétrico. Considerando uma superfície gaussiana esférica, de raio
r e centrada no ponto onde está Q1 , podemos tirar partido da simetria, também
esférica de E (ver figura).

Superfície
gaussiana
esférica de
raio r
n^

Assim,
I
ΦE = E · n̂ dS
S

e como E é perpendicular a S para qualquer ponto então


I
ΦE = E dS,
S

16
2.2. LEI DE GAUSS

como E é o mesmo em qualquer ponto de S vem,

I
ΦE = E dS.
S

H
Ora o integral dS = 4πr2 pois é simplesmente a área da superfície duma esfera,
S
então usando a lei de Gauss, o fluxo é dado por,

Q1
ΦE = E4πr2 =
0

e finalmente o módulo do campo eléctrico é dado por,

Q1
E=
4π0 r2

de acordo com a eq.1.13.


Note-se só foi calculado o módulo do vector E. A direcção (perpendicular a S)
e sentido (paralelo a n̂) foram deduzidos da simetria da carga.
• A lei de Gauss é válida para qualquer superfície gaussiana, no entanto
é uma ferramenta muito poderosa a simplificar o trabalho de cálculo quando
a superfície gaussiana tem a mesma simetria do campo

Verificar a validade da lei de Gauss no problema anterior, con-


siderando uma superfície gaussiana cúbica, centrada no ponto onde
está Q1 e com arestas de comprimento 2.

Este exercício mostra como o cálculo se torna muito mais complexo, só pela
escolha duma superfície gaussiana inapropriada. Repare-se que ΦE é a soma dos
fluxos que atravessam cada um dos 6 lados da superfície gaussiana e que estes
são iguais entre si (ver figura),

17
2.2. LEI DE GAUSS

Superfície
^ gaussiana
S1 n1
cúbica

S2 y
S5
x

H
ΦE = E · n̂ dS
S
R R R
= E · n̂1 dS1 + E · n̂2 dS2 + E · n̂3 dS3
S1 R S2 R S3 R
+ E · n̂4 dS4 + E · n̂5 dS5 + E · n̂6 dS6
R S4 S5 S6
= 6 E · n̂1 dS1 .
S1

Usemos um referencial cartesiano (x, y, z) cuja origem coincide com a carga Q1 .


Sem perda de generalidade podemos escolher n̂1 = k̂. Como vimos
Q1 r̂
E=
4π0 r2
e como r̂ = r/r podemos escrever
Q1 r
E= .
4π0 r3
r = x ı̂ + y ̂ + z1 k̂ é o vector posição de qualquer ponto na superfície S1 (onde
queremos calcular o campo) então r3 = (x2 + y 2 + z12 )3/2 temos que
Q1 Q1 z1
E · n̂1 = r · n̂ 1 = ,
4π0 r3 4π0 (x2 + y 2 + z12 )3/2
sendo dS = dxdy podemos então iniciar o cálculo do fluxo de E através da
superfície S1 ,
Z Zx1 Zy1
Q1 z1
Φ1 = E · n̂1 dS1 = dxdy.
4π0 (x2 + y 2 + z12 )3/2
S1 −x1 −y1

18
2.3. CAMPO DENTRO DE UM CONDUTOR

A superfície cúbica está centrada na origem e o comprimento da aresta é 2, logo


x1 = y1 = z1 = 1. Passando as constantes para fora do integral vem,

Z1 Z1
Q1 1
Φ1 = dxdy,
4π0 (x2 + y2 + 1)3/2
−1 −1

como
Z1
1 2
dx = p ,
(x2 + y2 + 1)3/2 (1 + y 2 ) 2 + y 2
−1

vem
Z1
2Q1 1
Φ1 = p dy.
4π0 (1 + y 2 ) 2 + y 2
−1

O integral
Z
1 y
p dy = arctan( p ),
(1 + y2) 2+ y2 2 + y2

logo
   
2Q1 1 1 2Q1 π −π Q1
Φ1 = arctan( √ ) − arctan( √ ) = − = .
4π0 3 3 4π0 6 6 60

Finalmente podemos calcular então o fluxo total,


Q1
ΦE = 6Φ1 = ,
0
em perfeito acordo com a lei de Gauss.
2.3 Campo dentro de um condutor
• Na presença dum campo eléctrico externo os electrões livres existentes em
qualquer condutor deslocam-se até que o campo eléctrico criado dentro do
condutor cancele totalmente o campo externo.
• As regiões do condutor com excesso de electrões ficam carregadas neg-
ativamente.
• As regiões do condutor com defeito de electrões ficam carregadas posi-
tivamente.

19
2.4. LOCALIZAÇÃO DA CARGA DENTRO DE UM CONDUTOR

• Portanto numa situação electrostática o campo dentro dum


condutor é exactamente NULO.
Eexterno

-
- +
- Einduzido +
-
+
-
+
+

2.4 Localização da carga dentro de um condutor


• Carregando negativamente (ou positivamente) um condutor onde vão as
cargas encontrar as suas posições de equilíbrio?
• Já vimos que, numa situação electrostática, o campo eléctrico dentro
de um condutor é sempre zero.
• Podemos então afirmar com segurança que o fluxo de E através de
qualquer superficie gaussiana interior ao condutor é zero.
• Assim sendo a lei de Gauss impõe que a carga no interior da superfície
gaussiana seja zero.
• Não podendo existir cargas no interior dum condutor, em regime elec-
trostático, o único local possível que resta é a superfície do condutor.
• Então qualquer carga adicionada a um condutor desloca-se para
a superfície do condutor e aí permanece.
2.5 Condutor com uma cavidade
• Considere-se que um condutor com uma cavidade é colocado numa região
onde existe um campo eléctrico.
• Pelas razões já apresentadas dentro do condutor E = 0. Então o fluxo
através de qualquer superficíe gaussiana dentro do condutor e que envolva a
cavidade tem de ser zero.
• Então a lei de Gauss garante que não há cargas na superfície da cavi-
dade, logo o E no seu interior também será zero.
Eexterno

- E=0
- +
- +
-
+
-
+
+

• Este resultado tem aplicações tecnológicas muito úteis pois indica que
um condutor oco cria uma blindagem eléctrica no seu interior.

20
2.6. TEOREMA DE GAUSS

2.6 Teorema de Gauss


• O teorema de Gauss diz que para uma superfície fechada S que envolve um
volume v o fluxo dum campo vectorial A através de S é dado por,
I Z
A · dS = ∇ · Adv (2.6)
S v

onde ∇ · A é a divergência de A, que em coordenadas cartesianas toma a


forma,
 
∂ ∂ ∂
∇·A = ı̂ + ∂y ̂ + ∂z k̂ · (Ax ı̂ + Ay ̂ + Az k̂)
 ∂x  (2.7)
∂Ax ∂Ay ∂Az
= ∂x
+ ∂y
+ ∂z

• Segundo a lei de Gauss, o fluxo através duma superfície fechada S, do


campo eléctrico E gerado por uma distribuição volumétrica de cargas de
densidade ρ é,
I Z
1
E · dS = ρdv (2.8)
S 0 v
• Aplicando o teorema de Gauss ao campo E temos,
I Z
E · dS = ∇ · Edv (2.9)
S v

• Então do teorema de Gauss e da lei de Gauss conclui-se que,


Z Z
1
∇ · Edv = ρdv (2.10)
0 v
v

então
ρ
∇·E = (2.11)
0
esta equação é a primeira das equações de Maxwell indicadas na primeira
aula (1.1 ou 1.5)

21
2.6. TEOREMA DE GAUSS

22
Aula 3

Energia potencial eléctrica e potencial eléctrico

Sumário:
- Energia potencial eléctrica
- Teorema de Stokes
- Potencial eléctrico
- A relação entre o campo eléctrico e o potencial
- Potencial eléctrico duma carga pontual

3.1 Energia potencial eléctrica


• Qual o trabalho necessário para deslocar muito lentamente por uma dis-
tância ∆r em linha recta, uma carga q sujeita a um campo E constante?
• O trabalho realizado para vencer a força electrostática (F = qE) é dado
por,

w = −F · ∆r = −F δr cos θ (3.1)

onde θ é o ângulo entre ∆r e E.


• Se o deslocamento for por um percurso qualquer entre dois pontos A e B
num campo E não uniforme então o trabalho é a soma do trabalho realizado
nos vários percursos elementares dr efectuados entre A e B e é dado pelo
seguinte integral de percurso,
ZB ZB
w=− F · dr = − qE · dr (3.2)
A A

• Movendo uma carga positiva no sentido de E o trabalho realizado é negativo


(a carga ganha energia) se o movimento for no sentido oposto a E o trabalho
é positivo (perde energia).

23
3.1. ENERGIA POTENCIAL ELÉCTRICA

• À energia que uma carga adquire em função da sua posição num campo
electrostático E chama-se energia potencial eléctrica Ep .
• Então ao deslocar q num campo E, entre dois pontos A e B, a energia
potencial eléctrica de q sofre uma variação de W Joules, i.e.:
ZB
W =− qE · dr = Ep (B) − Ep (A) (3.3)
A

• Calculemos o trabalho quando q se move no campo duma carga pontual


Q1 (ver 1.13),
ZB
W = − qE · dr
A
ZB
1 Q1
= − q r̂ · dr
4π0 r2
A
ZB
qQ1 1
= − dr
4π0 r2
A
 
qQ1 −1 −1
= − −
4π0 rB rA
= Ep (B) − Ep (A) (3.4)
• É claro do resultado anterior que se q descrever uma trajectória fechada,
partindo de A e regressando a A então o trabalho realizado nesse percurso é
zero i.e.,
H
W = − qE  · dr 
qQ1 1
= 4π 0 rA
− r1A = 0

• Se o campo E for o resultante de uma distribuição arbitrária de cargas pon-


tuais então pelo principio da sobreposição o integral de percurso correspon-
dente a cada uma dessas cargas pontuais é zero, logo para uma distribuição
arbitrária de cargas,
I
E · dr = 0 (3.5)

• Se α e β forem dois percursos diferentes entre A e B, deslocando a carga


q por α desde A até B e regressando ao ponto A por β o trabalho realizado

24
3.2. TEOREMA DE STOKES

é zero. Como α e β podem ser quaisquer, então o trabalho entre A e B é


independente do caminho seguido e só depende exclusivamente do ponto de
partida e de chegada.
• Resumindo:
- O trabalho realizado por uma carga que descreve um percurso
fechado num campo eléctrico criado por cargas fixas, é zero.
- O trabalho realizado por uma carga que descreve um percurso
entre dois pontos num campo eléctrico criado por cargas fixas,
é independente do caminho seguido entre esses dois pontos.
• Sendo W independente do percurso também o é a variação de energia po-
tencial eléctrica (W = EP (B)−EP (A)), repare-se no entanto que quer EP (A)
quer EP (B) estão definidas a menos de uma constante, pois se somarmos uma
mesma constante à energia potencial nos dois pontos a diferença continua a
ser W .
3.2 Teorema de Stokes
• O teorema de Stokes (também conhecido por teorema da circulação) diz
que o integral de percurso dum campo vectorial A ao longo dum caminho
fechado C que delimita uma superfície de área S é dado por,
I Z
A · dr = (∇ × A) · dS (3.6)
C S

onde ∇ × A é o rotacional de A, que em coordenadas cartesianas toma a


forma,

ı̂ ̂ k̂
∂ ∂ ∂

∇ × A = ∂x ∂y ∂z
(3.7)
 Ax Ay A

z  
∂Az
− ∂A ı̂ + ∂A − ∂A ̂ + ∂A − ∂A
y
 y
= ∂y ∂z ∂z
x
∂x
z
∂x ∂y
x

• Vimos atrás (Eq. 3.5) que o integral de percurso de E por um caminho


fechado é zero. Este resultado conjugado com o teorema de Stokes implica
que,
Z
(∇ × E) · dS = 0, (3.8)
S

como a superfície S pode ser qualquer, desde que seja delimitada por C então
este integral só é zero se
∇×E =0 (3.9)

25
3.3. POTENCIAL ELÉCTRICO

esta equação é outra das equações de Maxwell indicadas na primeira aula


(1.6)
• Um campo eléctrico que satisfaz esta equação, i.e. cujo integral de
percurso é independente do caminho seguido, diz-se um campo conservativo.
Chama-se a atenção que só campos eléctricos estáticos são conservativos. Se o
campo variar no tempo então a eq. de Maxwell (1.3) diz que o rotacional não
é zero, logo o integral de percurso do campo depende do caminho seguido.

3.3 Potencial eléctrico


• Além da dependência da posição a variação da energia potencial eléctrica
duma carga q também depende do valor de q (ver 3.4).
• Dividindo a energia potencial eléctrica por q obtém-se uma quantidade
chamada de potencial eléctrico que denominaremos por V , que só depende
do campo E e das posições onde o potencial é calculado.
• Então:

W
V (B) − V (A) = (3.10)
q

onde V (A) e V (B) designam o potencial eléctrico em A e B respectivamente


• Tal como a energia potencial também o potencial num ponto está
definido a menos de uma constante. Atribuindo um valor arbitrário ao po-
tencial num ponto definimos completamente o potencial em todos os outros
pontos do campo.
• Por exemplo definindo V (A) = 0 então EP (B) = qV (B).
• Quer o trabalho quer a energia potencial têm dimensões de energia,
logo as unidades do potencial eléctrico são joules por coulomb (JC−1 ) mais
conhecido por volt i.e.

1V ≡ 1JC−1 (3.11)

• Por exemplo, uma bateria de 12V gera uma diferença de potencial eléctrico
entre os seus terminais de 12V ou de 12J/C, o que implica que para mover
uma carga de +1C do terminal negativo para o positivo é necessário realizar
um trabalho de 12J contra o campo eléctrico.
• Se um electrão (q = −1.6×10−19 C) for deslocado através duma diferença
de potencial de −1V é necessário gastar 1.6×10−19 joules. A esta quantidade
de energia chama-se um electrãovolt (eV),

1eV ≡ 1.6 × 10−19 J (3.12)

26
3.4. POTENCIAL ELÉCTRICO E O CAMPO ELÉCTRICO

3.4 Potencial eléctrico e o campo eléctrico


• Voltemos à carga q que se desloca entre dois pontos considerando agora
que estes pontos se situam no eixo X, distando entre si de apenas ∆x.
• Podemos então escrever que,
W = −qE∆x cos θ = −qEx ∆x, (3.13)
por outro lado também sabemos que,
∆EP = q∆V (3.14)
• Como W = ∆EP vem que q∆V = −qEx ∆x ou que,
∆V
Ex = − (3.15)
∆x

• Se o deslocamento em x for um deslocamento infinitesimal dx então a


componente x de E escreve-se simplesmente,
∂V
Ex = − (3.16)
∂x
• A quantidade ∂V∂x
é o chamado gradiente do potencial eléctrico na direcção
de x. Se o gradiente é grande, então o potencial varia muito para uma
pequena variação de x e vice versa.
• O sinal negativo em 3.16 impõe que Ex aponte no sentido em que V
diminui. Como uma carga positiva é acelerada no sentido do campo, logo
é também acelerada no sentido em que V diminui (note-se que o contrário
acontece com as cargas negativas)
• Já tínhamos exprimido anteriormente (ver 1.13) E em unidades de N/C.
Olhando para 3.16 vemos que as unidades do campo eléctrico podem também
igualmente ser volts por metro,
1V/m ≡ 1N/C (3.17)
• Se o deslocamento da carga q for feito numa direcção qualquer, podemos
mostrar que,
 
∂V ∂V ∂V
E=− ı̂ + ̂ + k̂+ = −∇V (3.18)
∂x ∂y ∂z
esta equação mostra como o campo eléctrico E que é uma função vectorial
da posição (x, y, z) se relaciona com o potencial que é uma função escalar
também da posição.
• Tal como a força eléctrica e o campo eléctrico, também o potencial
eléctrico obedece ao princípio da sobreposição. Assim o potencial eléctrico
resultante duma distribuição estática de cargas é igual à soma do
potencial gerado por cada uma das cargas.

27
3.5. POTENCIAL ELÉCTRICO DUMA CARGA PONTUAL

3.5 Potencial eléctrico duma carga pontual


• É comum considerar que o potencial num ponto B a uma distância rB
duma carga pontual Q é o trabalho realizado contra o campo por uma carga
de teste que vem do infinito até ao ponto B. É também comum considerar
que o potencial no infinito é zero (V (∞) = 0).
• Assim de 3.4 e de 3.10 podemos rapidamente chegar à expressão para
o potencial duma carga pontual,

RB
V (B) = − E · dr

RB 1 Q
= − 4π0 r 2
r̂ · dr

Q 1
= 4π0 rB

Repare-se que o sinal de V é o mesmo de Q.


• Devido ao principio da sobreposição então o potencial gerado por uma
distribuição estática de cargas eléctricas que ocupa um volume v é dado por,

Z
1 ρ
V (B) = dv (3.19)
4π0 v r

28
Aula 4

Capacidade e condensadores

Sumário:
- Capacidade
- Dipolo Eléctrico
- Dieléctricos: Polarização da Matéria
- Rotura eléctrica
- Condensadores em série e paralelo
- A energia armazenada num condensador

4.1 Capacidade
• Consideremos dois condutores planos e paralelos, com área A, um com
carga +Q e o outro com carga −Q, separados por uma distância d  A (ver
Fig.)
área A
-σ = -Q/A
- - - - -
E d
+ + + + +
σ = Q/A
• Pela lei de Gauss, o campo eléctrico entre as placas é constante e per-
pendicular a estas, E⊥ = Q/(A0 ) e a diferença de potencial entre elas é igual
ao trabalho, por unidade de carga, necessário para levar uma pequena carga
duma placa para a outra (3.15),
Qd
V = E⊥ d = (4.1)
0 A

29
4.2. DIPOLO ELÉCTRICO

• Como se pode verificar da relação anterior a diferença de potencial V é


proporcional à carga Q.
• Esta proporcionalidade existe para qualquer par de condutores no es-
paço se houver num uma carga − e no outro outra carga + igual.
• Tal é devido à natureza linear das leis da electrostática, duplicando a
carga num condutor duplicamos o campo eléctrico e duplicamos também o
potencial, como tal a razão Q/V é uma quantidade que se mantém constante,
não dependendo nem de Q nem de V .
• Essa proporcionalidade também se pode indicar por,
Q = CV (4.2)
onde a constante C é chamada de capacidade e este conjunto de condutores
é chamado um condensador.
• Para o condensador de placas paralelas vem,
0 A
C= (4.3)
d
• A capacidade C só depende das dimensões do condutor.
• A capacidade mede-se em farads (F), sendo esta unidade equivalente a
coulombs por volt,
1F ≡ 1CV−1 (4.4)

4.2 Dipolo Eléctrico


• Um dipolo eléctrico consiste em
duas cargas com a mesma magnitude,
d
mas sinais opostos, separadas por uma
–q
distância d p=qd
+q
• Define-se o vector momento dipo- d

lar p como, p = qd onde o vector p


E0
F = –qE0
aponta da carga negativa para a posi-
tiva
F = + qE0
• Um campo eléctrico externo exerce
no dipolo uma força total zero F total =
E0
0
• No entanto como a força não é apli- p
θ

cada no mesmo ponto, o momento da Γ = pE0sinθ

força Γ (ou torque) pode não ser zero,


Γ = p × E0
• As linhas do campo eléctrico do
dipolo apontam da carga positiva para
a negativa

30
4.3. DIELÉCTRICOS: POLARIZAÇÃO DA MATÉRIA

4.3 Dieléctricos: Polarização da Matéria


Sem campo eléctrico exterior

• Um campo eléctrico exterior E 0 - -


-
perturba a distribuição de cargas em + -
-
torno do núcleo arrastando os elec- -
-

trões no sentido oposto ao de E 0 in-


duzido em todos os átomos um mo- Com campo eléctrico exterior
mento dipolar pi dado por, pi ∝ E 0 . E0
• Deste modo é induzido um mo- - -
- +
mento dipolar pi em cada átomo e -
-
estes dizem-se polarizados -
-

• Se na vizinhança de um determinado ponto o momento dipolar médio


por átomo é pi e se existem n átomos por metro cúbico, então todos estes
dipolos atómicos dão origem a um campo,
P = npi (4.5)
que é a polarização eléctrica nesse ponto.
• Portanto P é o momento dipolar por unidade de volume num determi-
nado ponto.
• P /0 tem as mesmas unidades do campo eléctrico e a sua projecção na
direcção de E 0 aponta no sentido de E 0 , somente devido à definição de pi .
• No entanto o campo eléctrico gerado pelos dipolos atómicos aponta no
sentido contrario a E 0 e como tal o efeito de P é reduzir o campo eléctrico
no vazio,
P
E+ = E0
0
onde E é o campo eléctrico total no mesmo ponto onde P está a ser consid-
erado, no interior da matéria.
• A igualdade anterior não é consistente pois o lado esquerdo refere-se ao
campo eléctrico num ponto no interior da matéria e o lado direito ao campo
num ponto situado no vazio.
• Ao campo que na matéria tem o mesmo valor de 0 E 0 chama-se deslo-
camento eléctrico D,
P D
E+ = (4.6)
0 0
• No caso simples e praticamente ideal em que sob o efeito dum campo
eléctrico não muito forte a polarização da matéria é homogénea e isotrópica

31
4.3. DIELÉCTRICOS: POLARIZAÇÃO DA MATÉRIA

tem-se que, P ∝ E e verifica-se,

D = E, (4.7)

onde  é a permitividade eléctrica do material que também é chamada de


constante dieléctrica do material.
• r = 0 é a permitividade eléctrica relativa ou constante dieléctrica
relativa. Relativa ao valor do vazio.
•  ou 0 têm as mesmas unidades (C2 N−1 m−2 ≡ Fm−1 ), r é adimen-
sional, não tem unidades.
• No vácuo r = 1 e se as cargas não oscilarem, em geral r > 1, sendo em
geral, para gases r ≈ 1.001, sólidos isoladores 1.1 . r . 10 e conductores
r = ∞
• Resumindo os materiais que no seu interior reduzem a intensidade dum
campo eléctrico externo são chamados de dieléctricos (do Gr. diá, contra +
eléctrico). Esta redução que resulta do efeito colectivo dos dipolos atómicos
é caracterizada pela constante dieléctrica do material r .
• Então em dieléctricos homogéneos e isotrópicos a lei de Coulomb pode
escrever-se,

1 Q1 Q2
F12 = r̂ (4.8)
4π r2
e o campo eléctrico,

1 Q1
E1 = r̂ (4.9)
4π r2

• Os dados na tabela indicam que Substância εr


Elementos
uma gama variada de sólidos tem Silício Si 11. 9
valores de r desde 2 a 16, que Germânio Ge 16. 0
são superiores aos valores típicos Cerâmicos
Alumina Al 2O 3 8. 5
dos gases (e.g. para o ar a 20◦ C
Titanato de Estrôncio SrTiO3 200
r = 1.000536) Zirconato de Estrôncio SrZrO 3 38
Vidros
• A cerâmica Titanato de Estrôn- Quartzo Si O 2 4. 5
Vidro Boro-Silicato Si O 2 com BO 4– 5
cio tem  = 200 um valor muito su- Cristal Si O 2 com PbO 7
perior aos restantes materiais, rev- Plásticos
elando uma polarização induzida Polietileno 2. 3
Polistireno 2. 6
pelo campo exterior muito supe- Politetrafluoretileno PTFE 2. 1
rior Poliamida Nylon 3– 4

32
4.4. ROTURA ELÉCTRICA

4.4 Rotura eléctrica

• Haverá um limite para a quantidade de carga que se pode armazenar num


condensador?
• Adicionando mais carga a um condensador aumenta a diferença de
potencial entre as placas e como tal aumenta também o campo eléctrico
entre as placas.
• Este aumento não é ilimitado. Para um certo intervalo de valores do
campo eléctrico, observa-se a rotura eléctrica do meio isolante entre as placas
ocorrendo a transferência de cargas entre as placas. O valor do campo para
o qual se observa a rotura eléctrica é denominado campo de rotura eléctrica.
• Para o ar a 25◦ C e pressão atmosférica normal 0.1013MPa a rotura
eléctrica dá-se a 3.13 × 106 V/m.
• O mecanismo da rotura eléctrica dum gás como o ar pode ser explicado
concentrando a atenção num átomo do gás recordando que este é constituído
por Z electrões em órbita dum núcleo que tem Z protões.
• Enquanto os electrões permanecerem em orbita do núcleo, não pode
haver condução de electricidade (corrente eléctrica) pelo gás.
• Se um ou mais electrões adquirirem uma energia superior à sua
energia potencial no campo eléctrico do núcleo, então podem abandonar
o átomo, deixando para trás um ião, neste caso um átomo com excesso
de carga positiva.
• Ora se não houver mais nenhum outro campo eléctrico na vizinhança do
ião, o electrão é rapidamente atraído pelo campo positivo do ião e o átomo
volta a ser neutro.
• Mas caso haja um campo eléctrico exterior E, o electrão e o ião podem
ser acelerados através do gás pelo campo.
• Antes de colidir o ião percorre uma distância λ ganhando uma ener-
gia do campo E dada por,

u = qE · dl = qEλ,
0
onde qE é a força exercida pelo o campo eléctrico.
• Se a distância λ for suficientemente longa pode adquirir energia
suficiente para arrancar outro electrão do átomo com que vai colidir,
bastando que para tal u seja igual ou superior à energia de ionização do
electrão alvo, u0 .

33
4.5. CONDENSADORES EM SÉRIE E PARALELO

Ionização dum átomo na ausência dum campo eléctrico exterior


(1) (2) electrão (3) electrão (4)

Átomo Ião Ião Átomo


neutro neutro

Ionização dum átomo na presença dum campo eléctrico exterior

(1) (2) elec tron (3)


electrão

Campo
Ião
Ião eléctrico
Átomo
neutro

• A repetição deste processo pode gerar rapidamente uma avalanche de


iões/electrões que permitem a condução de corrente eléctrica pelo gás, trans-
formando assim subitamente um gás isolador num gás condutor.
• O campo de rotura ER será aquele que permitirá a ocorrência da
avalanche ou seja,

u0 = q ER λ (4.10)

• Voltando à questão se haverá um limite para a quantidade de carga que se


pode armazenar num condensador, podemos concluir que o campo de rotura
eléctrica impõem um limite e que esse limite pode ser elevado se o campo de
rotura eléctrica for reduzido.
• A redução do campo de rotura eléctrica pode ser conseguida preen-
chendo o espaço entre as placas com um material dieléctrico de elevada cons-
tante dieléctrica o que provoca uma redução da diferença de potencial entre
as placas e um consequente aumento da capacidade do condensador.
• A capacidade dum condensador de placas paralelas com um dieléctrico
é então dada por,
A
C= . (4.11)
d
A diferença com a equação 4.3 é que a constante dieléctrica do vazio 0 foi
substituída pela constante dieléctrica do material dieléctrico colocado entre
as placas.
4.5 Condensadores em série e paralelo
• Os condensadores são um dos componentes básicos dos circuitos electróni-
cos, onde por vezes surgem em combinações complicadas.

34
4.5. CONDENSADORES EM SÉRIE E PARALELO

• É sempre possível encontrar a capacidade equivalente duma combinação


arbitrária de condensadores por aplicação repetida de duas regras simples.
• Regra 1:
A capacidade equivalente de dois condensadores ligados em paralelo
é a soma das capacidades individuais.
C1
+Q1 -Q1

V
V

+Q2 -Q2
C2

• Vejamos porquê. A diferença de potencial V aos terminais de conden-


sadores ligados em paralelo é a mesma. Se a capacidade de cada condensador
é diferente então a carga em cada condensador também diferente de modo a
manter V igual. Então a capacidade equivalente Ceq é dada por,

Q Q1 + Q2 Q1 Q2
Ceq = = = + (4.12)
V V V V
então

Ceq = C1 + C2 (4.13)

• Para N condensadores ligados em paralelo,


N
X
Ceq = Ci . (4.14)
i=1

• Regra 2:
O recíproco da capacidade equivalente de dois condensadores liga-
dos em série é a soma do recíproco das capacidades individuais.
C1 C2
+Q -Q
V
+Q -Q

V1 V2

35
4.6. A ENERGIA ARMAZENADA NUM CONDENSADOR

• Vejamos porquê. A diferença de potencial aos terminais de conden-


sadores ligados em série não é a mesma mas a sua soma tem de ser igual a V .
Contudo a carga em cada condensador é a mesma porque a placa negativa
do condensador 1 está ligada à placa positiva do condensador 2. Então a
capacidade equivalente Ceq é dada por,
1 V V1 + V2 V1 V2
= = = + (4.15)
Ceq Q Q Q Q
então
1 1 1
= + (4.16)
Ceq C1 C2
• Para N condensadores ligados em série,
N
1 X 1
= . (4.17)
Ceq i=1
Ci

4.6 A energia armazenada num condensador


• Consideremos o processo de carga dum condensador descarregado. Ao
transferir uma carga Q duma placa para a outra, uma das placas fica com
excesso +Q de carga e a outra com −Q. Esta diferença de cargas estabelece
de imediato um campo eléctrico da placa positiva para a negativa que se
opõem a nova transferência de carga.
• Para continuar a carregar o condensador é necessário realizar trabalho
contra este campo eléctrico, tornando-se este trabalho em energia armazenada
no condensador.
• Se o condensador tiver uma carga Q quando a diferença de potencial
entre as placas for V , o trabalho para transferir uma carga elementar dQ da
placa − para a placa + é dado por,
dW = V dQ (4.18)
• Da definição de capacidade (4.2) temos que,
Q
dW = dQ,
C
integrando,
Z Z
Q
W = dW = dQ
C
Q2
= , (4.19)
2C

36
4.6. A ENERGIA ARMAZENADA NUM CONDENSADOR

obtendo assim a energia armazenada no condensador.


• Usando mais uma vez a definição de capacidade (4.2) podemos reescre-
ver a energia armazenada nas seguintes formas, todas equivalentes,

Q2 CV 2 QV
W = = = . (4.20)
2C 2 2
• Usando as equações 4.3 e 4.1, a energia armazenada num condensador
de placas paralelas é dada por,

CV 2 0 AE 2 d2 0 E 2 Ad
W = = = , (4.21)
2 2d 2
como Ad é o volume entre as placas do condensador podemos escrever a
energia por unidade de volume (densidade de energia) w,

0 E 2
w= . (4.22)
2
• Esta expressão não é válida apenas para o campo eléctrico na região
entre placas dum condensador de placas paralelas, mas aplica-se a qualquer
campo eléctrico.
• A energia contida num campo eléctrico que ocupa um volume v pode
ser calculada de forma geral por,

0 E 2
Z Z
W = wdv = dv, (4.23)
v v 2
é como se o volume v fosse dividido em paralelepípedos com volume elementar
dv e somássemos a energia de todos esses pequeníssimos paralelepípedos para
obter a energia total no volume v.
• Num meio dieléctrico a densidade de energia do campo eléctrico é dada
por,

E 2
w= . (4.24)
2
onde  é a constante dieléctrica do meio.

37
4.6. A ENERGIA ARMAZENADA NUM CONDENSADOR

38
Aula 5

Corrente eléctrica e resistência

Sumário:

- Circuitos eléctricos

- Lei de Ohm

- Resistência e resistividade - Abordagem clássica

- Fem e resistência interna

- Resistências em série e em paralelo

5.1 Circuitos eléctricos


• Uma bateria é um aparelho com dois terminais, um positivo e outro
negativo, entre os quais existe uma diferença de potencial, e portanto um
campo eléctrico. Normalmente esta diferença de potencial é mantida por
uma reacção química que faz com que cargas positivas migrem para o termi-
nal positivo e as negativas para o terminal negativo.
• Um circuito eléctrico consiste num conjunto de condutores ligados entre
si e exteriores à bateria, que permitem a circulação (condução) de cargas entre
os dois terminais da bateria.
• O trabalho realizado pelo campo eléctrico da bateria para levar uma
carga Q do terminal − para o + é QV e é independente do caminho seguido
pela carga.
• Assim a característica mais importante da bateria é a sua diferença de
potencial que nos permite que a analise de circuitos eléctricos incida sobre-
tudo na conversão de energia (como ela se transforma no circuito). Não é
preciso mapear o campo eléctrico no circuito para determinar a energia que
é dada a uma carga que flui no circuito.
• De momento vamos apenas considerar circuitos eléctricos estacionários
alimentados por baterias com tensão constante.

39
5.2. LEI DE OHM

• Diferença de potencial, voltagem ou tensão são sinónimos.


• Se num determinado ponto dum circuito flui uma quantidade de carga
dQ num pequeno intervalo de tempo dt a corrente eléctrica I que flui nesse
ponto é definida como,
dQ
I= (5.1)
dt
• Por convenção o sentido da corrente é aquele em que cargas positivas
se movem na diferença de potencial da bateria, do + para o − (na realidade
as cargas moveis são electrões livres que se movem no sentido oposto).
• Nos circuitos estacionários a corrente em qualquer ponto do circuito
permanece constante no tempo. Estes são os circuitos de corrente directa
(dc) do Inglês direct current ou circuitos de corrente contínua (CC).
• A corrente eléctrica é medida em amperes (A), que são equivalentes a
coulombes por segundo,

1A ≡ 1Cs−1 (5.2)

dada a enorme facilidade em medir amperes comparado com a grande dificul-


dade em medir coulombes, o ampere é uma das unidades base do SI, sendo
o coulomb definido em função do ampere.
• Qual é um circuito mecânico análogo a um circuito eléctrico?
5.2 Lei de Ohm
• Qual é a relação entre a intensidade da corrente I que flui num fio condutor
e a diferença de potencial V aplicada entre as pontas do fio?
• O físico Alemão Georg Ohm foi o primeiro a descobrir que I é directa-
mente proporcional a V ,

V = RI (5.3)

onde a constante de proporcionalidade R é denominada a resistência eléctrica


do fio.
• A unidade de resistência eléctrica é o ohm (Ω) e é equivalente a volt
por ampere,

1Ω ≡ 1VA−1 . (5.4)

5.3 Resistência e resistividade - Abordagem clássica


• Vamos em seguida calcular a resistência eléctrica usando uma abordagem
clássica e depois faremos o mesmo cálculo tendo em conta as restrições im-
postas pela mecânica quântica à dinâmica dos electrões.

40
5.3. RESISTÊNCIA E RESISTIVIDADE - ABORDAGEM CLÁSSICA

• A corrente eléctrica é transportada por electrões livres.


• Consideremos um fio metálico de comprimento L e secção A sujeito a
uma diferença de potencial V . Então o campo eléctrico longitudinal dentro
do fio é E = V /L.
• Consideremos um electrão livre no fio, com carga −e e massa me .
• O campo eléctrico no fio exerce uma força Fe = −eE no electrão
provocando-lhe uma aceleração a = −eE/m na direcção do fio.
• O electrão não acelera indefinidamente, acabando por colidir com um
dos átomos do fio. Sendo os átomos muito mais pesados o electrão perde
todo o seu momento na colisão.
• Assim além da força electrica Fe o electrão está também sujeito a uma
força de atrito Fa , resultante das colisões que sofre ao longo do seu movi-
mento.
• Por simplicidade vamos assumir que essa força é proporcional à veloci-
m
dade do electrão Fa = − ∆t v sendo ∆t o tempo médio entre colisões
• Usando a lei de Newton temos:
X dv m dv
F = ma ⇔ Fe + Fa = m ⇔ −eE − v=m (5.5)
dt ∆t dt

dv
• Estamos interessados numa solução estacionária i.e. dt
= 0 logo,

−eE
v= ∆t = vd . (5.6)
m

Esta é a chamada velocidade de deriva, vd que os electrões livres num metal


adquirem, quando sujeitos à acção dum campo eléctrico. O sinal − indica
que os electrões derivam no sentido oposto ao do campo E.
• Como calcular então a corrente eléctrica gerada por um campo E?
• A corrente eléctrica num dado ponto do fio é o número de cargas ∆Q
que nesse ponto atravessam uma superfície A por unidade de tempo.
• Seja ne o número de electrões livres por unidade de volume existentes
no fio, que derivam pelo fio com velocidade vd .
Vo lume = A vd ∆t
• Tal como é ilustrado na figura a
carga procurada ∆Q é igual à carga
dum electrão vezes o número de elec-
vd ∆t
trões livres no volume Avd ∆t Corrente
eléctrica I

∆Q = −ene Avd ∆t. (5.7) Secção com


área , A

41
5.3. RESISTÊNCIA E RESISTIVIDADE - ABORDAGEM CLÁSSICA

• A corrente eléctrica que passa no fio é então dada por,

∆Q
I =
∆t
= −ene Avd
e2 ne ∆t A
= V. (5.8)
me L

Comparando esta expressão com a lei de Ohm (I = V /R) obtemos uma


expressão microscópica para R,

me L
R= (5.9)
e2 ne ∆t A

• A quantidade,

me
ρ= , (5.10)
e2 ne ∆t

é a resitividade ρ do material e não depende das dimensões do material. As


unidades da resistividade são ohm-metros (Ωm).
• A resistência relaciona-se com a resistividade por,

L
R=ρ . (5.11)
A

A resistência depende das dimensões do fio, sendo proporcional ao seu com-


primento e inversamente proporcional à sua secção, sendo a resistividade a
constante de proporcionalidade.
• O gráfico mostra a resistividade em função da massa atómica dos ele-
mentos da tabela periódica. Os melhores condutores são a Prata (1.59 ×
10−8 Ωm), Cobre 1.67 × 10−8 Ωm, e Ouro (2.35 × 10−8 Ωm), metais nobres,
seguidos por perto pelo Alumínio (2.66 × 10−8 Ωm).

42
5.4. FEM E RESISTÊNCIA INTERNA

2 10 - 6
Mn

Pu
1.5 10 - 6 Gd Po
Resistividade ( Ω m )

1 10 - 6 Hg

Sc
Y
5 10 - 7

0
Al Cu Ag Au
0 20 40 60 80 100
Número atómico
• Os dados experimentais mostram que a resistividade depende linear-
mente da temperatura, diminuindo a temperaturas baixas.
35

30
Resistividade ( x 10 –8 Ω m )

Pt
25

20

15

10 Au
Cu
Al
5
Ag
0
0 200 400 600 800 1000
Temperatura (K)

5.4 Fem e resistência interna


• As baterias são feitas de materiais com resistividade não nula como tal as
baterias possuem resistência interna não sendo fontes de voltagem puras.
• A uma fonte de voltagem pura chama-se força electromotriz (fem).
• Uma bateria real pode ser representada por uma força electromotriz E
em série com uma resistência r que representa a sua resistência interna tal

43
5.5. RESISTÊNCIAS EM SÉRIE E EM PARALELO

como indicado na figura entre os terminais A e B.


bateria
B - + A
ε ri

• A voltagem V duma bateria é a diferença de potencial eléctrico entre os


terminais A (positivo) e B (negativo). Indo de B para A o potencial aumenta
de +E volts na fem e depois diminui de Iri volts na resistência interna ri logo,

V = E − Iri . (5.12)

• Sendo E constante a voltagem V aos terminais da bateria diminui


quando a corrente I solicitada à bateria aumenta. Logo só quando I é de-
sprezável V ≈ E.
• A corrente solicitada à bateria não pode superar o valor crítico,

E
I0 = (5.13)
ri

caso contrário V ficaria negativo e para I manter o mesmo sentido ri teria


que ser negativo, o que é impossível.
• As baterias são caracterizadas pela voltagem a corrente zero, E, e pela
corrente máxima I0 que pode fornecer.

5.5 Resistências em série e em paralelo


• As resistências são os componentes mais usuais dos circuitos electrónicos,
onde por vezes surgem em combinações complicadas.
• É sempre possível encontrar a resistência equivalente duma combinação
arbitrária de resistências por aplicação repetida de duas regras simples.
• Regra 1:
O recíproco da resistência equivalente de duas resistências ligadas
em paralelo é a soma dos recíprocos das resistências individuais.

44
5.5. RESISTÊNCIAS EM SÉRIE E EM PARALELO

I1 R1

V
B I A
V
V
I2
R2

• Vejamos porquê. A diferença de potencial V aos terminais de resistên-


cias ligadas em paralelo é a mesma. Sendo as resistências diferentes então a
corrente que passa em cada uma também é diferente embora I1 + I2 = I caso
contrário dar-se ia uma acumulação de carga nos nós do circuito. Então a
resistência equivalente Req é dada por,
1 I I1 + I2 I1 I2
= = = + (5.14)
Req V V V V
então
1 1 1
= + (5.15)
Req R1 R2
• Para N resistências ligadas em paralelo,
N
1 X 1
= . (5.16)
Req i=1
Ri

• Regra 2:
A resistência equivalente de duas resistências ligadas em série é a
soma das resistências individuais.

B I R1 R2 A
V
V1 V2
• Vejamos porquê. A diferença de potencial aos terminais de resistências
ligadas em série não é a mesma mas a sua soma tem de ser igual a V . Contudo

45
5.5. RESISTÊNCIAS EM SÉRIE E EM PARALELO

a corrente que passa em cada resistência é a mesma porque não há nós que
criem mais ramos no circuito. Então a resistência equivalente Req é dada
por,
V V1 + V2 V1 V2
Req = = = + (5.17)
I I I I
então

Req = R1 + R2 (5.18)

• Para N resistências ligadas em série,


N
X
Req = Ri . (5.19)
i=1

46
Aula 6

Sumário:

- Leis de Kirchhoff

- Energia em circuitos CC

- Potência e resistência interna

6.1 Leis de Kirchhoff


• O físico Alemão Gustav Kirchhoff identificou duas leis que simplificam a
análise dum circuito eléctrico.
• As leis de Kirchhoff são as leis fundamentais da teoria de circuitos e
a sua aplicação é geral, sendo válidas tanto em circuitos lineares como não
lineares ou quando a corrente ou voltagem depende do tempo. De alguma
forma, todos os teoremas de circuitos derivam destas duas leis.
• O seu enunciado é relativamente intuitivo:

- Lei de Kirchhoff para a corrente:


A soma de todas as correntes que entram num nó é igual à
soma de todas as correntes que saem do nó.

I3
I1
I4
I2

I1+I4=I2+I3

47
6.2. ENERGIA EM CIRCUITOS CC

- Lei de Kirchhoff para a voltagem:


A soma das diferenças de potencial (voltagem) ao longo dum
percurso fechado é zero.
- + R1 I1 I3 R3

R2
I2

R4

ε − R1I1 − R2I2 = 0 R2I2 − R3I3 − R4I3 = 0

• Se a lei da corrente não fosse verificada, então dava-se a acumulação


de carga no nó em causa. Um nó por definição tem capacidade zero rela-
tivamente à terra, caso contrário esse condensador tem de ser indicado no
circuito como um ramo separado entre esse ponto e a terra.
• Quanto à lei para a voltagem, já vimos que o trabalho para mover uma
carga q ao longo dum percurso fechado num campo electrostático é zero.
Como o trabalho é igual ao produto de q pela diferença de potencial ∆V
entre os terminais do percurso fechado, esta diferença tem de ser zero.
• Nas fem E que são atravessadas ao longo do percurso, dum potencial
mais baixo para outro mais elevado a voltagem é +E, se o potencial diminuir
então a voltagem é −E.
• De igual modo a diferença de potencial aos terminais duma resistência
R sujeita a uma corrente I que é atravessada no sentido da corrente é −IR
e vice-versa.
6.2 Energia em circuitos CC
• Num circuito simples onde uma bateria com tensão V força uma corrente
I através duma resistência R, qual é o trabalho realizado pela bateria por
unidade de tempo?
• O potencial duma carga (positiva) q que é elevada pela bateria do
terminal negativo para o positivo, aumenta V volts então o trabalho realizado
é qV . Como por definição a corrente I que flúi pela bateria é igual à carga
por unidade de tempo então o trabalho feito pela bateria por unidade de
tempo (potência) é simplesmente,

P = V I, (6.1)

onde P representa a potência da bateria.

48
6.3. POTÊNCIA E RESISTÊNCIA INTERNA

• Esta expressão é geral e aplica-se sempre que uma corrente I fui por
um componente dum circuito através do qual há uma queda de potencial V
na direcção de I. Então esse componente ganha V I joules por unidade de
tempo.
• A unidade de potência é o watt (W),
1W ≡ 1Js−1 ≡ 1V · 1A. (6.2)
• De acordo com a lei de Ohm a energia por unidade de tempo ganha por
uma resistência R que é atravessada por uma corrente I é,
V2
P = V I = I 2R = , (6.3)
R
esta energia é dissipada dentro da resistência na forma de calor.
• Este é o chamado efeito de Joule, onde energia eléctrica é convertida em
calor. O aumento da temperatura da resistência deve-se à transferência de
energia dos electrões para os átomos durante as colisões que ocorrem entre
estes dois tipos de partículas durante a deriva dos electrões forçada pelo
campo eléctrico aplicado à resistência.
• A conta mensal da electricidade que pagamos à EDP, depende da quan-
tidade de energia eléctrica que é consumida nas nossas casas. A unidade em
que essa energia é medida é o kilowatthora. Um electrodoméstico que durante
1 hora consome energia à taxa de 1 kW consome 1 kilowatthora (kWh) de
energia,
1kWh = 1000 × 60 × 60 = 3.6 × 106 J. (6.4)

6.3 Potência e resistência interna


• No circuito simples da figura a resistência externa R é normalmente chamada
resistência de carga (pode representar uma lâmpada, um aquecedor eléctrico
ou qualquer máquina eléctrica).
bateria
B - + A
ε ri

49
6.3. POTÊNCIA E RESISTÊNCIA INTERNA

• Basicamente neste circuito é transferida energia da bateria para a carga,


onde realiza algo útil para nós. Qual a interferência da resistência interna ri
da beteria neste processo de transferência de energia?
• Calculemos a potência transferida para a carga R bem como a potência
dissipada na resistência interna ri .
• Aplicando a lei de Kirchhoff para a tensão ao circuito vem,

E − Iri − IR = 0
E
I = (6.5)
ri + R
• A potência de saída da fem E é,

E2
PE = EI = . (6.6)
ri + R
• A potência dissipada em calor pela resistência interna é,

E 2 ri
Pr i = I 2 r i = . (6.7)
(ri + R)2
• A potência transferida para a carga é,

E 2R
PR = I 2 R = , (6.8)
(ri + R)2
verificando-se que PE = Pri + PR , ou seja uma parte da potência da bateria é
logo dissipada pela sua resistência interna e a restante é transmitida à carga
R.
• Usando as variáveis y = PR /(E 2 /ri ) e x = R/ri podemos rescrever a
equação 6.8 como,
x
y= . (6.9)
(1 + x)2

0.25

0.2
y(x)

0.15

0.1

0.05

1 2 3 4 5
x = R/ri

50
6.3. POTÊNCIA E RESISTÊNCIA INTERNA

• A função y(x) tem um máximo em x = 1, ou seja, como E e ri são


constantes, a potência transferida para a carga PR é máxima quando R = ri ,

E2
(PR )max = , (6.10)
4ri
este resultado é muito importante em engenharia electrotécnica pois indica
que a transferência de potência entre uma fonte de tensão e uma
carga externa é mais eficiente, i.e. é máxima, quando a resistência
da carga é igual à resistência interna da fonte de tensão.
• Se a resistência da carga é muito baixa então a maioria da energia é
dissipada na resistência interna.
• Se a resistência da carga é muito alta então corrente que flúi no circuito
é demasiado baixa para transferir energia para a carga a uma taxa apreciável.
• No caso óptimo R = ri só metade da potência da fonte é transferida
para a carga sendo o resto dissipado na resistência interna.
• Ao processo de ajustar a resistência da carga à resistência interna
chama-se ajuste de impedâncias (como veremos à frente impedância é sinó-
nimo de resistência).

51
6.3. POTÊNCIA E RESISTÊNCIA INTERNA

52
Aula 7

Campo magnético

Sumário:

- Magnetostática

- A lei de Biot-Savart

- Fio longo e rectilíneo I

- A lei de Ampère

- A lei de Ampère e o Teorema de Stokes

- Fio longo e rectilíneo II

7.1 Magnetostática
• Exceptuando os circuitos eléctricos, até aqui estudámos a interacção de
cargas eléctricas com posições fixas ou movendo-se lentamente. Vimos que
estas cargas interagem através dos campos eléctricos estáticos que criam à
sua volta.
• Vimos também que em electrostática o campo é descrito apenas pelas
duas equações de Maxwell (1.5 e 1.6),
ρ
∇·E =
0
∇×E = 0

• Cargas eléctricas em movimento produzem campos magnéticos. Vamos


agora iniciar o estudo dos campos magnéticos produzidos por correntes eléc-
tricas constantes. Tais campos magnéticos não variam no tempo i.e., são
também estáticos.

53
7.2. A LEI DE BIOT-SAVART

• Veremos que neste caso também apenas as duas equações de Maxwell


(1.7 e 1.8) descrevem o comportamento do campo magetoestático,

∇·B = 0
∇ × B = µ0 j

7.2 A lei de Biot-Savart

dl
dB ^
r
r
P
C
- + I

• Uma corrente eléctrica constante I que percorre um circuito eléctrico


C cria em todo o espaço um campo magnético. A lei de Biot-Savart indica
que num ponto P qualquer do espaço o campo magnético B é dado por,

dl × r̂
I
µ0 I
B= , (7.1)
4π r2
C

onde dl é um comprimento elementar do circuito C que cria um campo com


intensidade dB no ponto P , r̂ é o versor que aponta de dl para o ponto P
que está à distância r de dl e µ0 é a permeabilidade do vazio,

µ0 = 4π × 10−7 NA−2 . (7.2)

• A unidade em que se exprime o campo magnético é o tesla (T) que é o


mesmo que newton por ampere por metro,

1 T ≡ 1 NA−1 m−1 . (7.3)

• Nesta forma da lei de Biot-Savart é assumido que uma corrente I flúi por
um fio fino. Se a corrente flúi por um volume finito de secção A, substitui-se
jdA por I ficando,

j × r̂
I
µ0
B= dv, (7.4)
4π r2
v

onde j é a densidade de corrente (em A/m2 ) num ponto do volume elementar


dv.

54
7.3. FIO LONGO E RECTILÍNEO I

• A lei de Biot-Savart estabelece o campo magnético num ponto P , em


função da distância entre a corrente fonte do campo e o ponto P , de forma
análoga à equação 1.13 que estabelece o campo eléctrico num ponto P em
função da distância entre a carga fonte do campo e o ponto P onde se quer
determinar o campo.
• Chama-se a atenção que enquanto o campo eléctrico E é um vector
colinear com o vector posição do ponto P relativamente à carga fonte, o
vector campo magnético B não é colinear com o vector posição do ponto P
relativamente à corrente fonte que percorre dl.
• A direcção do campo magnético que um elemento de corrente Idl cria
num ponto P é dada pelo produto vectorial, dl × r̂ entre o elemento de
corrente e o vector posição do ponto P . Se o polegar da mão direita apontar
no sentido de dl e o dedo indicador no sentido de r̂ o dedo médio (ou a palma
da mão) indica o sentido do campo tal como mostra a figura,
dl
r^

• De modo análogo ás linhas de E, as linhas de B apontam sempre no


sentido de B e a densidade das linhas é proporcional à magnitude do campo
B.
• O princípio da sobreposição também se aplica aos campos magnéticos.
Logo se existem várias correntes eléctricas, o campo total B é a soma dos
campos magnéticos individuais criados por cada uma das correntes.
7.3 Fio longo e rectilíneo I
• Vamos calcular, usando a lei de Biot-Savart, o campo magnético B cri-
ado num ponto P afastado de uma distância d dum fio longo e rectilíneo
percorrido por uma corrente constante I.
dB
P
f^ a r
d q r^
I
dl
l

55
7.3. FIO LONGO E RECTILÍNEO I

• Tal como indicado na figura o elemento de corrente Idl cria no ponto


P que está a uma distância r de dl, o campo magnético elementar dB,
µ0 I dl × r̂
dB =
4π r2
µ0 I dl sin θ
= φ̂. (7.5)
4π r2
(7.6)

• l e d estão relacionados trignometricamente,

l
= tan α, (7.7)
d
diferenciando vem,


dl = d , (7.8)
cos2 α
como cos α = d/r vem,


dl = r2 , (7.9)
d
então podemos prosseguir o cálculo de dB,

µ0 I r2 dα
d
cos α
dB = φ̂
4π r2
µ0 I
= cos α dα φ̂,
4πd
onde se usou sin θ = cos α. Para levar em conta a contribuição de todos os
elementos de corrente para o campo total B em P temos de integrar sobre
todo o fio,

Z Zπ/2
µ0 I
B= dB = cos α dα φ̂
4πd
−π/2
µ0 I π/2
= [sin α]−π/2 φ̂
4πd
µ0 I
= φ̂, (7.10)
2πd
a intensidade do campo B só depende do inverso da distância na perpendi-
cular ao fio d.

56
7.4. A LEI DE AMPÈRE

7.4 A lei de Ampère

C S

dl

• Consideremos uma curva fechada C. A lei de Ampère afirma que o


integral de B · dl ao longo da curva C é proporcional à corrente eléctrica que
atravessa a superfície S circunscrita por C,
I
B · dl = µ0 I. (7.11)
C

• Se a corrente I que atravessa a superfície S, for dada em função da


densidade de corrente eléctrica j a lei de Ampère toma a forma,
I Z
B · dl = µ0 j · dS. (7.12)
C S

• A lei de Ampère tem em magnetostática um papel análogo à lei de


Gauss na electrostática (2.2), no sentido em que permite calcular facilmente
B quando B é uniforme ao longo da curva C, tal como a lei de Gauss permite
calcular E quando este é uniforme na superfície gaussiana.
• Chamaremos à curva C caminho de ampère ou caminho amperiano.
7.5 A lei de Ampère e o Teorema de Stokes
• Aplicando o teorema de Stokes (3.6) ao campo B obtemos,
I Z
B · dl = (∇ × B) · dS. (7.13)
C S

• Contudo a lei de Ampère afirma que o integral de caminho de B ao


longo da curva C é igual a µ0 I logo,
Z
(∇ × B) · dS = µ0 I. (7.14)
S

57
7.6. FIO LONGO E RECTILÍNEO II.

• Se a corrente eléctrica total I que atravessa a superfície S, for dada em


função da densidade de corrente eléctrica j a equação 7.14 fica,
Z Z
(∇ × B) · dS = µ0 j · dS, (7.15)
S S

sendo este resultado independente da superfície S vem que,

∇ × B = µ0 j, (7.16)

que é a equação de Maxwell (1.8), ou seja esta equação de Maxwell é a lei de


Ampère para um campo magnético estático.
• Por outras palavras a lei de Ampère (7.11) só é válida para um campo
magnético estático. Se B variar no tempo então a forma correcta do rota-
cional de B é dada pela equação de Maxwell (1.4).
7.6 Fio longo e rectilíneo II.
• Vamos repetir o cálculo, usando a lei de Ampère, do campo magnético B
criado num ponto P afastado de uma distância d dum fio longo e rectilíneo
percorrido por uma corrente constante I.
• Da resolução anterior deste problema usando a lei de Biot-Savart con-
cluímos que B num ponto P é perpendicular ao fio e a sua intensidade é
constante em qualquer ponto à mesma distância de P (na perpendicular) ao
fio.
• Tendo a corrente I simetria cilíndrica podemos tirar as mesmas con-
clusões pela análise do campo elementar dB criado por dois elementos de
corrente Idl em posições opostas ao ponto de intersecção da perpendicular
de P ao fio.

B
dl
P

d
I

• Nestas circunstâncias o caminho de Ampère adequado à resolução deste


problema é um circulo centrado no eixo do fio e que passa por P (com raio

58
7.6. FIO LONGO E RECTILÍNEO II.

d) onde B é constante. A lei de Ampère 7.11 impõe então que,


I
B · dl = µ0 I
C
I
B dl = µ0 I
C
B2πd = µ0 I
µ0 I
B = , (7.17)
2πd
note-se que a lei de Ampère só permite calcular o módulo do vector B tal
como na electrostática a lei de Gauss só permitia calcular o módulo do vector
E. A direcção e o sentido do vector são inferidos pela análise da simetria do
campo.
• Concluimos ainda que as linhas do campo magnético criado por um fio
rectilíneo infinto são circulos centrados no eixo do fio e perpendiculares ao
fio.

59
7.6. FIO LONGO E RECTILÍNEO II.

60
Aula 8

Sumário:

- O campo magnético dum solenóide

- A lei de Gauss para o campo magnético

- Teorema de Gauss e o campo B

- A força magnética

- A definição de ampere

8.1 O campo magnético dum solenóide


• Um solenóide (do Grego solenoidés, em forma de tubo) é um fio metálico
enrolado em hélice formando um tubo com um diâmetro pequeno comparado
com seu comprimento. O enrolamento é apertado por forma a que cada volta
seja comparável a um circulo perpendicular ao eixo do solenóide.

I I
N d c S
a C b
L

61
8.2. A LEI DE GAUSS PARA O CAMPO MAGNÉTICO

• O campo B no centro dum solenóide, que é percorrido por uma corrente


eléctrica, é praticamente uniforme e aponta no sentido do eixo do solenoide
(ver figura). Fora do solenóide B é muito mais fraco.
• Se o fio der n voltas por unidade axial de comprimento dum solenóide
percorrido por uma corrente I, qual é a intensidade do campo magnético B
no interior do solenoide?
• Considerando o caminho de Ampère rectangular, C, indicado na figura
a lei de Ampère diz que o integral de caminho de B · dl ao longo de C é igual
à corrente total que cruza a superfície limitada por C.
• Sendo L o comprimento do rectângulo C então a corrente total que
atravessa este rectângulo é nLI.
• Falta calcular o integral de caminho,
I Zb Zc Zd Za
B · dl = B · dl + B · dl + B · dl + B · dl. (8.1)
C a b c d

• O integral entre a a b é praticamente nulo, pois nessa região B ≈ 0.


• Os integrais entre b e c e entre d e a são nulos, pois nessa região B ⊥ dl,
logo o produto escalar entre eles é zero.
• Entre c e d, B k dl e sendo B uniforme vem,
Zd Zd Zd
B · dl = Bdl = B dl = BL. (8.2)
c c c

• Logo pela lei de Ampère,


I
B · dl = µ0 Itotal
C
BL = µ0 nLI
B = µ0 nI, (8.3)
este resultado é exacto no limite em que o comprimento do solenóide é muito
maior que o seu diâmetro.
8.2 A lei de Gauss para o campo magnético
• De forma análoga à equação 2.5 onde se definiu o fluxo do campo eléctrico
podemos definir o fluxo do campo magnético através duma superfície com
área S como,
Z
ΦB = B · dS. (8.4)
S

62
8.3. TEOREMA DE GAUSS E O CAMPO B

• Em homenagem ao físico Alemão Wilhelm Weber a unidade no S.I. do


fluxo magnético é o weber (Wb), lê-se veber em Português. Um weber é
portanto igual a um tesla vezes um metro quadrado,

1 Wb = 1 Tm2 . (8.5)

• Dos cálculos anteriores dos campos magnéticos criados, quer por um


fio rectilíneo infinito, quer por um solenóide, concluiu-se que todas as linhas
de campo magnético eram linhas fechadas. Este resultado é mais geral e as
linhas de campo magnético criado por qualquer corrente são sempre fechadas.
• Acresce ainda que se calcularmos o fluxo do campo magnético através
duma superfície fechada, verifica-se que é nulo. Isto significa que o número
de linhas de campo que entram numa superfície fechada é exacta-
mente igual ao número de linhas de campo que saem. Estas são duas
formas equivalentes de enunciar a lei de Gauss que na forma matemática é,
I
B · dS = 0, (8.6)
S

onde S é uma superfície qualquer fechada.


8.3 Teorema de Gauss e o campo B
• Aplicando o teorema de Gauss 2.6 ao campo magnético B vem,
I Z
B · dS = ∇ · Bdv. (8.7)
S v

• Segundo a lei de Gauss para o campo magnético, o fluxo através duma


superfície fechada S do campo B é nulo. Então
I
B · dS = o (8.8)
S

• Assim do teorema de Gauss e da lei de Gauss resulta para B que,


Z
∇ · Bdv = 0, (8.9)
v

como este resultado é independente do volume v conclui-se que,

∇ · B = 0, (8.10)

esta é a última das equações de Maxwell (1.7) para a magnetostática que nos
faltava mostrar.

63
8.4. A FORÇA MAGNÉTICA

• Resumindo quando quer os campos quer as fontes dos campos são in-
dependentes do tempo, i.e. são estáticas, verificamos que as equações de
Maxwell são equivalentes às seguintes leis por nós estudadas:
∇ · E = ρ0 Lei de Gauss para E
∇·B = 0 Lei de Gauss para B
∇ × B = µ0 j Lei de Ampère,
a equação ∇ × E = 0 implica que o campo electrostático é conservativo.
8.4 A força magnética
• Andre Marie Ampère levou a cabo uma série de experiências para estudar a
interacção entre um campo magnético estático B e um elemento de corrente
eléctrica I1 dl. A sua conclusão foi que o campo magnético exerce uma força
dF1 no elemento de corrente que é correctamente descrita por,
dF1 = I1 dl × B. (8.11)
• Desta equação é claro que o campo magnético é uma força por unidade
de elemento de corrente, tal como já tínhamos visto na definição da unidade
tesla 7.3.
• A força magnética por unidade de comprimento num fio por onde circula
uma corrente I1 é I1 × B.
• A força total que B exerce num circuito fechado c por onde circula uma
corrente eléctrica I1 é a soma de todas as forças elementares,
Z I
F1 = dF1 = I1 dl × B, (8.12)
c

se B é uniforme a força magnética total é zero.


8.5 A definição de ampere
• Calculemos a força magnética exercida por duas correntes I1 e I2 que cir-
culam em dois fios longos e rectilíneos separados por uma distância d.

B1
I2
dI1 dF d
1
^
I1 d

64
8.5. A DEFINIÇÃO DE AMPERE

• O campo magnético criado por I1 em I2 é dado por (ver 7.17),

µ0 I1
B1 = , (8.13)
2πd
então a força por unidade de comprimento F que I1 exerce em I2 é,

F = I 2 × B1, (8.14)

como I 2 ⊥ B 1 vem,
µ0 I1 I2 ˆ
F =− d, (8.15)
2πd

onde dˆ é o vector unitário que aponta do fio 1 para o 2.


• Portanto se as correntes têm o mesmo sentido a força é atractiva e se
têm sentidos opostos a força entre elas é repulsiva.
• A força magnética 8.15 é desprezável para correntes normais, mesmo
assim é usada no S.I. para definir a unidade de corrente eléctrica o ampere,
quando a força magnética por metro, entre dois fios longos e par-
alelos é exactamente 2 × 10−7 N, a intensidade de corrente eléctrica
que flúi em cada fio é um ampere.
• É por esta razão que µ0 = 4π × 10−7 .

65
8.5. A DEFINIÇÃO DE AMPERE

66
Aula 9

Sumário:
- A Força de Lorentz

- A experiência de Thompson

- Movimento de uma partícula carregada num campo B

9.1 A força de Lorentz


• A corrente eléctrica num fio resulta do movimento de cargas eléctricas
(electrões). Assim a força magnética que um campo B exerce num circuito
por onde circula uma corrente I1 deve resultar da força que B exerce nos
electrões (ou quaisquer outras cargas que transportem a corrente eléctrica).
Foi esta ideia que Hendrick Lorentz desenvolveu da forma a seguir ilustrada.
• Mostrámos anteriormente (eq. 5.8) que num condutor com n cargas q
por unidade de volume, microscopicamente a corrente eléctrica I que atrav-
essa uma secção A desse condutor é devida à deriva com velocidade, vd das
cargas livres. A expressão da corrente é,

I = qnAv d , (9.1)

note-se que direcção da corrente é a mesma que a direcção da velocidade de


deriva.
• Substituindo esta expressão na equação 8.11 vem,

dF = qnAvd dl × B = qnAdlvd × B (9.2)

• Esta é a força magnética que actua em todas as nAdl cargas que estão
no volume elementar Adl. Assim a força magnética que actua em cada uma
das cargas é,

F = qvd × B (9.3)

67
9.2. A EXPERIÊNCIA DE THOMPSON

• Lorentz combinou esta força com a força eléctrica 1.14 e chegou assim
à seguinte expressão para a força que actua numa carga q que se move com
uma velocidade v num campo E e B,

F = qE + qv × B, (9.4)

esta é a chamada força de Lorentz.


• A força eléctrica é paralela a E, mas a força magnética é perpendicular
a B e v.
• A força magnética só actua em cargas em movimento. Se v = 0 a força
magnética é zero.
• O trabalho feito por uma força F que faz uma partícula deslocar-se
uma distância r é F · r = F r cos θ. Para uma partícula sujeita a uma força
magnética o deslocamento da partícula faz sempre um ângulo de 90◦ com
a força. Logo um campo magnético não realiza trabalho sobre uma carga
eléctrica.
• Uma carga eléctrica nunca ganha ou perde energia quando interage com
um campo magnético.
• Os campos magnéticos são usados para alterar a direcção do
movimento das cargas, mas estas só ganham energia sob a acção
dum campo eléctrico.
• Da lei de Newton e da força de Lorentz pode escrever-se a equação do
movimento duma partícula com carga q e massa m que se move num campo
E e B,

ma = qE + qv × B, (9.5)

sendo a a aceleração que a partícula adquire sob a acção da força de Lorentz.


9.2 A experiência de Thompson
• Em 1897 Thompson deu um contributo importante para o esclarecimento
da natureza do electrão. Até essa altura sabia-se que um filamento de metal
quente mantido a um potencial negativo elevado (cátodo) emitia uma forma
de radiação desconhecida a que se chamava simplesmente raios catódicos.
• Thomson defendia que os raios catódicos consistiam em partículas car-
regadas e para o demonstrar fez passar um feixe de raios catódicos por um
campo E e um campo B perpendiculares entre si.
• Direccionando o feixe segundo o eixo X, o campo E foi aplicado no
sentido do eixo Z e o campo B no sentido −Y . Assim aplicando a equação 9.5
obtem-se para a componente da aceleração segundo Z,

maz = q(Ez − vx By ). (9.6)

68
9.2. A EXPERIÊNCIA DE THOMPSON

• Inicialmente Thompson aplicou só o campo E aos raios catódicos e


mediu a deflexão d do feixe na direcção Z que segundo a equação anterior é
dada por,
qEz
az = integrando no tempo,
m
vz = az t integrando no tempo mais uma vez,
t2
d = az .
2
• Portanto se o feixe é constituído por partículas que se movem com
velocidade vx , o feixe percorre num tempo t uma distância l na direcção X
e é deflectido na direcção Z uma distância d,

qEz t2 q Ez l2
d= = , (9.7)
m 2 m 2vx2

onde t = l/vx . Este resultado só é válido quando d  l.


• Em seguida Thompson aplicou simultaneamente o campo B regulando
a sua intensidade até anular a deflexão d. O valor de B que anula a deflexão,
ou seja cancela a força eléctrica, obtêm-se da equação 9.6,
Ez
By = . (9.8)
vx
• Desta forma Thompson mostrou que os raios catódicos eram partículas
com carga negativa (pois deflectiam na direcção oposta a Ez ).
• Das equações 9.7 e 9.8 Thomson conseguiu ainda calcular a razão entre
a carga e a massa dessas partículas,
q 2dE
= 2 2, (9.9)
m l B
obtendo um valor de −1.7 × 1011 Ckg−1 . A partir desta convincente demons-
tração experimental os raios catódicos passaram a ser partículas.
• Dez anos mais tarde Robert MilliKan medindo a velocidade que gotícu-
las de óleo electrizadas, e em queda através duma região onde existe um
campo eléctrico, concluiu que essas gotículas adquiriam sempre carga em
múltiplos de −1.6 × 10−19 C. Assumindo que se trava da mesma partícula
que constituía os raios catódicos, foi possível calcular uma massa para essas
partículas de 9.4 × 10−31 kg. O electrão começava a ganhar forma. Experiên-
cias mais precisas revelam um valor para a massa do electrão de 9.109534 ×
10−31 kg.

69
9.3. MOVIMENTO DE UMA PARTÍCULA CARREGADA NUM CAMPO B

9.3 Movimento de uma partícula carregada num


campo B
• É conhecido que a aceleração duma partícula com massa m que se move
numa órbita circular de raio r, com uma velocidade constante v tem o valor,

v2
an = , (9.10)
r
e é sempre dirigida para o centro da órbita, i.e. é perpendicular à velocidade.
• A força magnética que actua numa carga q que se move com velocidade
v é também sempre perpendicular a v. Se o campo magnético for constante
então a força magnética obriga a carga a descrever uma trajectória circular.

X B X
r v
T

v T X B
X X

• Se a partícula com carga q tiver uma massa m, e se v ⊥ B então das


eq. 9.3 e eq. 9.10 vem,

mv 2
qvB = (9.11)
r
e o raio da órbita é dado por,
mv
r= , (9.12)
qB
também conhecido por raio de Larmor.
• A frequência angular (ω) de rotação da partícula (i.e. o número de
radianos que a partícula descreve num segundo) é dado por,

v qB
ω= = , (9.13)
r m
também conhecida pela frequência ciclotrónica.
• No mesmo campo magnético cargas positivas descrevem órbitas com o
sentido oposto ao das cargas negativas mas com o mesmo raio de Larmor.

70
9.3. MOVIMENTO DE UMA PARTÍCULA CARREGADA NUM CAMPO B

• A medição da frequência ciclotrónica pode ser usada para determinar


também a razão entre a carga e massa duma carga.
• Conhecendo q/m e medindo o raio de Larmor é possível determinar v,
ou vice versa.
• O movimento mais geral duma carga num campo B constante é um
movimento em hélice, pois se a velocidade da carga tiver uma componente
paralela a B além da componente perpendicular (v = v ⊥ +v k ), a carga move-
se também na direcção do campo B descrevendo uma trajectória helicodal.

Trajectória
helicoidal

v||
vT B

71
9.3. MOVIMENTO DE UMA PARTÍCULA CARREGADA NUM CAMPO B

72
Aula 10

Sumário:

- Aplicações da força de Lorentz

- Efeito de Hall

- Galvanómetros

- Origem do magnetismo permanente

10.1 Aplicações da força de Lorentz


• O vento solar, a magnetosfera e as auroras boreais.
• O confinamento magnético, a fusão termonuclear controlada.
10.2 Efeito de Hall
• Edwin Hall observou que se uma barra condutora achatada, percorrida por
uma corrente eléctrica I (ver figura) for colocada num campo magnético B
perpendicular à direcção da corrente, surge uma diferença de potencial na
barra numa direcção perpendicular a B e I (entre o topo e base). Chama-se
efeito de Hall a esta tendência das partículas transportadoras de corrente
derivarem na transversal do campo magnético B.
Campo magnético
externo B
l l
Corrente +qvd x B Corrente -qvd x B
eléctrica I h eléctrica I h
B vd
+q -q B
+ + + + + + I - - - - - - I
vd
+qEH -qEH
EH EH

- - - - - - + + + + + +

Efeito de Hall em cargas livres positivas Efeito de Hall em cargas livres negativas

73
10.2. EFEITO DE HALL

• À medida que as cargas derivam na direcção transversal a diferença de


potencial aumenta até o campo eléctrico transversal ser suficiente para parar
essa deriva. A este campo eléctrico transversal chama-se o campo de Hall
EH e a diferença de potencial que gera EH chama-se a tensão de Hall VH .
• Na configuração da figura anterior, a corrente e o campo magnético
mantêm o mesmo sentido. Apenas muda o sinal da carga que transporta a
corrente I.
• Nesta configuração tanto as cargas livres positivas +q como as negativas
−q são deflectidas para a base da barra, pela força magnética qv d × B.
• No caso em que as cargas livres +q são deflectidas para a base, pela
força magnética, a acumulação de uma carga positiva na base induz uma
carga igual negativa no topo da barra, gerando um campo eléctrico de Hall
EH que aponta da base para o topo.
• No caso em que as cargas livres −q são deflectidas para a base, pela
força magnética, a acumulação de uma carga negativa na base induz uma
carga igual positiva no topo da barra, gerando um campo eléctrico de Hall
EH que aponta do topo para a base.
• Consequentemente medindo a diferença de potencial entre o topo e
a base é possível determinar o sinal das cargas livres que transportam a
corrente.
• Se a barra for feita de um material metálico, esta experiência mostra
que as cargas livres são negativas (electrões).
• Se a barra for feita de semicondutores do tipo P (veremos mais à frente),
esta experiência mostra que as cargas livres são positivas.
• As cargas livres estão sujeitas aos campos B e E H e da definição de
EH a força de Lorentz (9.4) em cada carga é zero. Assim a magnitude da
tensão de Hall (e do campo de Hall EH ) é dada por,
qVH
qEH = = qvd B, (10.1)
h
logo,
VH = hvd B. (10.2)
• O facto de VH ser proporcional à magnitude de B é explorado para
medir campos magnéticos em instrumentos chamados sondas de Hall.
• Usando a definição microscópica de corrente eléctrica (5.8) que passa
numa barra com as dimensões indicadas na figura anterior (I = qnlhvd )
podemos exprimir na equação 10.2 a velocidade de deriva vd das cargas livres
em função de I ficando,
IB
VH = , (10.3)
qnl

74
10.3. GALVANÓMETROS

onde n é a densidade de cargas livres (i.e. o número de cargas livres por


unidade de volume). Desta equação é claro que uma sonda de Hall sensível
(i.e. uma sonda que produz uma grande tensão de Hall na presença dum
campo B fraco) deve ser percorrida por uma corrente elevada e ser feita de
um material de largura elevada e com baixa densidade de cargas livres n
(como um semicondutor).

10.3 Galvanómetros
• Já falámos de correntes eléctricas, diferenças de potencial e resistências.
Como podemos medir estas quantidades?
• Basicamente só a corrente eléctrica é medida directamente, diferenças
de potencial e resistências são deduzidas através da medida de correntes, que
podem ser medidas com um galvanómetro.
• Um galvanómetro consiste numa espira rectangular que pode rodar
livremente em torno dum eixo, como representado na figura. No plano da
espira é aplicado um campo magnético aproximadamente uniforme B, gerado
por um magnete permanente.

eixo de rotação

espira

B
1 4

N I S
I L

magnete magnete
permanente B
2 3 permanente
D

• Se uma corrente I percorrer a espira, quais são as forças exercidas na


espira pelo campo B?
• Usando a regra da mão direita (ver pág. 55) verifica-se que nas partes
da espira de comprimento D entre os pontos 4 e 1 e entre os pontos 2 e 3,
a força magnética aponta da direcção paralela ao eixo de rotação da espira.
Estando a espira fixa nessa direcção, estas forças não produzem movimento
da espira.
• A intensidade da força exercida na parte da espira de comprimento
L entre os pontos 1 e 2 é F = IBL e aponta para fora da página sendo
perpendicular ao eixo de rotação da espira.
• Do mesmo modo se conclui que a força magnética entre os pontos 3 e 4

75
10.3. GALVANÓMETROS

tem intensidade também igual a F = IBL e aponta para dentro da página.


• Estas duas forças exercem um momento na espira, fazendo-a rodar em
torno do seu eixo de rotação com um momento total τ ,

D
τ = 2F = IBLD = BAI, (10.4)
2
sendo A a área da espira.
• Conclui-se da equação anterior que para uma espira de área fixa, num
campo B fixo, o momento exercido na espira é proporcional à corrente I.
• Num galvanómetro a espira normalmente é suspensa num fio de torção,
que exerce um momento contrário ao da força magnética, permitindo à espira
retornar à posição inicial. A intensidade deste momento é directamente pro-
porcional ao ângulo de torção ∆θ, que por sua vez é proporcional à corrente
I quando os dois momentos estão em equilíbrio.
• Prendendo um ponteiro ao fio para observar a deflexão da espira, o gal-
vanómetro pode ser facilmente calibrado fazendo passar uma corrente eléc-
trica conhecida e registando a deflexão do ponteiro numa escala.
• Para evitar destruir o galvanómetro o fio de torção está limitado a uma
deflexão máxima a que corresponde uma corrente máxima que denominare-
mos por Idm . Estas correntes são relativamente pequenas e da ordem dos
micro amperes. Como medir correntes superiores?
• A solução é ligar o galvanómetro em paralelo com uma resistência Rinf
muito inferior à resistência interna do galvanómetro RG por onde pode passar
a maior parte da corrente.

IG RG

I I
a b

Iinf
Rinf

76
10.4. ORIGEM DO MAGNETISMO PERMANENTE

• Para medir diferenças de potencial (tensões) liga-se o galvanómetro série


com uma resistência muito superior Rsup à resistência do galvanómetro RG ,
ligando em seguida o conjunto aos dois pontos entre os quais se pretende
medir a tensão. Desta forma extrai-se uma corrente muito pequena Im do
circuito para fazer a medida.
• A tensão entre os dois pontos é dada por Im (Rsup + RG ).

a I Rsup RG b

10.4 Origem do magnetismo permanente


• Vimos anteriormente que uma corrente eléctrica gera em todo o espaço à
sua volta um campo magnético.
• Todos conhecemos o íman (um magnete permanente) e que este material
também é capaz de produzir uma campo magnético à sua volta. O campo
magnético produzido por um íman é permanente e não é necessário fazer
passar nenhuma corrente eléctrica pelo íman para produzir esse campo.
• Qual a origem deste campo? Porquê nem todos os materiais produzem
campos magnéticos permanentes?
• Espalhando um pouco de limalha na vizinhança dum íman podemos
visualizar a forma das linhas de campo.

• As linhas de campo do campo magnético dum íman em forma de barra


são semelhantes às linhas do campo magnético geradas por um solenóide.

77
10.4. ORIGEM DO MAGNETISMO PERMANENTE

I
N

B B

S
Campo magnético dum solenoide Campo magnético dum íman em forma de barra

• Partindo ao meio um íman obtemos dois ímanes e as linhas do campo


magnético gerado por cada um deles são análogas às geradas pelo íman ori-
ginal.
• Ampère foi o primeiro a sugerir que no interior dum íman há correntes
circulares que geram linhas de campo magnético solenoidais, daí essas cor-
rentes serem por vezes chamadas correntes amperianas. Mas qual é a origem
destas correntes?
• Imaginemos um corte transversal num íman em que o pólo sul aponta
para fora do papel. Como ilustrado em baixo se em cada um dos áto-
mos do íman circular uma corrente no sentido dos ponteiros do relógio, o
efeito macroscópico de todas estas correntes é tal que as correntes interiores
cancelam-se praticamente umas com as outras, restando apenas uma corrente
exterior que circula na superfície do íman.
Correntes internas
cancelam-se

Corrente resultante
no sentido dos ponteiros
do relógio

• Deste modo são produzidas as correntes solenoidais necessárias para


gerar um campo B com linhas de campo da forma atrás ilustrada.
• Qual a origem destas correntes atómicas? Um átomo consiste de elec-

78
10.4. ORIGEM DO MAGNETISMO PERMANENTE

trões (carregados negativamente) que orbitam em torno dum núcleo (car-


regado positivamente). Como uma carga em movimento constitui uma cor-
rente eléctrica, a cada electrão está associada uma corrente.
• Na maior parte dos átomos estas correntes cancelam-se todas entre si,
mas em átomos de materiais ferromagnéticos (e.g. ferro, cobalto, níquel) o
cancelamento não é total e portanto esses átomos têm uma corrente circular
finita.
• Outra questão pertinente é porque é que nos materiais feromagnéti-
cos átomos vizinhos alinham facilmente as suas correntes atómicas? Uma
resposta completa a essa questão requer o uso da mecânica quântica. No
volume 2 das Feynman Lectures on Physics (ver bibilografia complementar)
esta questão é discutida numa forma mais detalhada.
• Como todos já observamos nem todos os pedaços de ferro se comportam
como ímanes. Na realidade num bocado de ferro, existem grupos de átomos,
chamados domínios, em que todos os átomos têm as suas correntes circulares
alinhadas. No entanto os domínios entre si estão desalinhados cancelando
assim os campos magnéticos gerados por cada domínio.
• Uma forma de alinhar todos (ou quase todos) os domínios entre si, é
pela aplicação dum campo magnético externo forte ao ferro. Desta forma o
alinhamento dos domínios leva a que os campos de cada um se adicionem
criando um campo macroscópico que perdura mesmo depois de desligado o
campo externo. O ferro diz-se então magnetizado e forma-se assim um íman
permanente.
• Concluindo, deve ser enfatizado que a magnetização dum íman de ferro
é um efeito criado por todos os átomos do íman e não apenas por um átomo
de ferro.

79
10.4. ORIGEM DO MAGNETISMO PERMANENTE

80
Aula 11

Indução electromagnética

Sumário:
- A lei de Faraday
- A lei de Lenz
- As leis de Faraday-Lenz e as eq. de Maxwell

11.1 A lei de Faraday


• Consideremos um fio condutor eléctrico C, fechado, que é colocado numa
região onde existe um campo magnético B. A superfície delimitada pelo fio
tem uma área S.

linhas de
B campo
magnético
I

S
C

fio condutor
fechado
• Faraday descobriu que se o campo magnético variar no tempo então
é induzida uma fem (força electromotriz) no fio, sendo a magnitude da fem
directamente proporcional à taxa de variação de B com o tempo.
• Faraday também descobriu que é induzida uma fem no fio se o fio se
mover duma região onde B é pequeno para outra onde B é grande ou vice

81
11.2. A LEI DE LENZ

versa, sendo a fem directamente proporcional à velocidade com que o fio se


move entre as duas regiões.
• Faraday descobriu ainda que é induzida uma fem no fio se este rodar
numa região onde B é uniforme e constante.
• Para explicar todas estas observações Faraday propôs uma lei a que
hoje chamamos a lei da indução electromagnética de Faraday que afirma,
A fem induzida num circuito é proporcional a taxa de variação em
relação ao tempo do fluxo magnético através do circuito,
ou algebricamente,
dΦB
E =− , (11.1)
dt
onde ΦB representa o fluxo magnético através da superfície S delimitada pelo
circuito (ver 8.4) e t o tempo. O sinal menos foi adicionado por Heinrich Lenz
(ver próxima secção). R
• O fluxo magnético ( B · dS) que atravessa um circuito pode variar de
várias formas. Ou porque,

- a intensidade do campo magnético B varia.

- a direcção do campo magnético B varia.

- a posição do circuito C varia.

- a forma do circuito varia.

- a superfície circunscrita pelo circuito S varia.

- a orientação do circuito varia.

A lei de Faraday afirma que todas estas formas de variar o fluxo são equiva-
lentes no que respeita à indução de uma fem no circuito.
11.2 A lei de Lenz
• Faraday não especificou em que sentido actua a fem induzida no fio.
• Foi Lenz que primeiro especificou essa direcção naquela que hoje con-
hecemos por lei de Lenz,
A fem induzida num circuito eléctrico actua sempre num sentido
tal que a corrente gerada por essa fem crie um campo magnético
que se oponha ao campo magnético externo que gerou a fem.
• Deste modo foi introduzido o sinal menos em 11.1 para lembrar que a
fem actua sempre de modo a se opor a variação do fluxo magnético externo
que gera essa fem.

82
11.3. AS LEIS DE FARADAY(-LENZ) E AS EQ. DE MAXWELL

• A lei de Lenz faz todo o sentido e é bastante intuitiva. O que aconteceria


se esta lei não se verificasse? Se a fem gerada no circuito contribuísse para
o aumento do fluxo então com um campo B e dois circuitos podiam gerar-se
campos magnéticos cada vez maiores apartir do nada, o que é irrealista.

11.3 As leis de Faraday(-Lenz) e as eq. de Maxwell


• Como é produzida a fem na lei de Faraday(-Lenz) 11.1?
• Uma força electromotriz é uma diferença de potencial. Mede-se em volt
ou seja em joule por coulomb. Uma fem é portanto uma energia por unidade
de carga.
• Assim quando a lei de Faraday(-Lenz) 11.1 afirma que uma fem E é
induzida num circuito fechado C, está implicitamente também a afirmar que
a energia duma carga q que circula ao longo de C varia de qE. De onde vem
esta energia?
• Como já vimos atrás um campo magnético não consegue realizar tra-
balho numa carga, então a variação de energia deve vir dum campo eléctrico
E.
• Se a carga q se mover uma distância dl no campo E o trabalho que este
campo realiza na carga é dW = qE · dl.
• Se a carga q se mover dum ponto a para um ponto b ao longo do caminho
C então podemos dividir o caminho C em muitos e pequeníssimos bocados
de tamanho dl e somar o trabalho em cada um deles,

Zb
W =q E · dl
a

• Se o ponto b coincidir com o ponto a, isto é se a carga der uma volta


completa ao circuito C então o trabalho é dado por,
I
W =q E · dl = qE, (11.2)
C

logo,
I
E= E · dl. (11.3)
C

• Com a equação anterior podemos escrever a lei de Faraday como,


I
dΦB
E · dl = − . (11.4)
C dt

83
11.3. AS LEIS DE FARADAY(-LENZ) E AS EQ. DE MAXWELL

• Recordando o teorema de Stokes 3.6 podemos também escrever a ex-


pressão 11.3 como,
I Z
E= E · dl = (∇ × E) · dS, (11.5)
C S

onde S é a superfície aberta circunscrita por C. R


• Recordemos também que o fluxo de B através de S é dado por S B·dS,
logo a lei de Faraday e o teorema de Stokes implicam que,
Z I
(∇ × E) · dS = E · dl
S C
dΦB
= −
Zdt
∂B
= − · dS, (11.6)
S ∂t
como esta igualdade é válida para qualquer superfície S (desde que limitada
por C), então concluímos que,
∂B
∇×E =− , (11.7)
∂t
que é uma das equações de Maxwell (eq. 1.3) que vimos logo na primeira aula.
Portanto esta equação de Maxwell é simplesmente a lei de Faraday(-Lenz).
Recordemos que as outras equações eram as leis de Gauss para E (2.2) e B
(8.6) e a lei de Ampère (7.11).
• A lei de Faraday(-Lenz) não se aplica só quando o circuito C é um
circuito conductor. Esta lei é válida num circuito fechado arbitrário no es-
paço. Para mostrar que assim é dum modo simplista, note-se que a corrente
I induzida num circuito C pela E é segundo a lei de Ohm igual a I = E/R,
sendo R a resistência do circuito. Num circuito C com R arbitrariamente
grande, não circula corrente e não invalida a lei de Faraday. Logo esta lei
pode se aplicar a qualquer circuito fechado no espaço.
• Da lei de Faraday na forma 11.4 ou 11.7 vemos que a variação dum
campo magnético no tempo gera um campo eléctrico no espaço.
B B

E E

Campo B aumentando no tempo. Campo B diminuindo no tempo.

84
11.3. AS LEIS DE FARADAY(-LENZ) E AS EQ. DE MAXWELL

• As linhas deste campo eléctrico E formam caminhos fechados no plano


perpendicular a B e é este campo eléctrico que origina a fem em torno do
circuito. A natureza deste campo E é distinta do campo electrostático gerado
por cargas eléctricas, cujas linhas de campo são abertas e vão das cargas
positivas para as cargas negativas.
• As linhas do campo eléctrico geradas por indução magnética
não têm princípio nem fim, são linhas fechadas.
• Antes de terminar este ponto chama-se também à atenção que o campo
eléctrico induzido não é conservativo porque existe uma fem diferente de zero
(rever Sec. 3.2 na página 26). Assim o conceito de potencial eléctrico (V )
como o definimos em electrostática não é válido para este campo induzido,
pois já não depende só da posição mas varia também no tempo.

85
11.3. AS LEIS DE FARADAY(-LENZ) E AS EQ. DE MAXWELL

86
Aula 12

Indução electromagnética

Sumário:

- Um gerador simples

- Correntes de Foucault

- O gerador de corrente alternada

- O gerador de corrente contínua

- O motor de corrente alternada

- O motor de corrente contínua

12.1 Um gerador simples


• Normalmente um gerador eléctrico transforma energia mecânica em energia
eléctrica, movendo fios condutores numa direcção perpendicular a um campo
magnético. Um gerador muito simples mas nada prático está ilustrado na
figura e consiste numa barra condutora de comprimento l que desliza sobre
um condutor em forma de C que está envolto num campo magnético B,
perpendicular ao plano do circuito

87
12.1. UM GERADOR SIMPLES

Campo magnético B
aponta para dentro
da página

+++
I E0 = v x B
+q
v l

I
---
x ∆x

• Se B apontar para dentro da página o fluxo magnético através da parte


fechada do circuito é dado por,

ΦB = Blx, (12.1)

e se deslocarmos a barra com velocidade v, no intervalo de tempo ∆t a barra


percorre a distância ∆x = v∆t e ΦB aumenta de,

∆ΦB = Bl∆x = Blv∆t. (12.2)

• Assim a lei de Faraday implica que é gerada uma fem no circuito de


magnitude,

∆ΦB
E =− = −Blv. (12.3)
∆t
• Como o fluxo aumenta a corrente induzida I pela fem gera por sua vez
um campo magnético que aponta no sentido oposto ao campo B externo,
como tal a corrente induzida tem que circular no sentido oposto ao dos pon-
teiros do relógio. Quanto menor for a resistência R do circuito maior é a
corrente I = E/R.
• Qual a origem desta fem que actua em torno do circuito?
• Recordemos que uma fem (força electromotriz) é uma diferença de po-
tencial e como tal se uma carga q circula em trono do circuito devido a esta
força electromotriz essa carga ganha uma energia igual a qE.
• A carga circula muito devagar (porque a velocidade de deriva vd é muito
baixa) logo na parte em C do circuito a força magnética é muito pequena.
Contudo quando q atravessa a barra, que está em movimento, uma força

88
12.2. CORRENTES DE FOUCAULT

magnética Fm = qvB empurra q para cima se for uma carga positiva e então
o trabalho realizado por esta força é,

W = qvBl = qE. (12.4)

• Contrariamente ao que possa parecer, a carga q não adquire a energia


do campo B, pois recordemos que um campo magnético não pode realizar
trabalho numa carga eléctrica (ver Sec.9.1, Pág.68). Então donde vem a
energia?
• Repare-se que no referencial da barra a carga deriva muito lentamente
com a velocidade vd (não confundir com v a velocidade da barra), assim
neste referencial a força magnética é desprezável. Só um campo eléctrico
consegue fazer uma força significativa numa carga que se move lentamente e
para produzir a fem observada q tem de ser empurrada por uma força qvB,
portanto tal só é possível se a carga sentir um campo eléctrico que aponta
para cima e tem uma magnitude,

E0 = vB, (12.5)

note-se que E0 não existe no referencial do laboratório, mas existe apenas no


referencial da barra em movimento.
• De um modo geral, se um condutor se move com velocidade v no ref-
erencial do laboratório, na presença dum campo B então uma carga dentro
do condutor sente uma força magnética f = qv × B. No referencial do con-
dutor a mesma força toma a forma duma força eléctrica f = qE 0 onde E 0 é
o campo eléctrico no referencial do condutor e é dado por,

E 0 = v × B, (12.6)

e é este o campo eléctrico que origina todas as fem geradas sempre que um
circuito se move relativamente a um campo magnético.
• Concluímos então que a lei de Faraday é devida aparentemente à com-
binação de dois efeitos distintos. O primeiro é o campo eléctrico gerado no
espaço por um campo magnético variável no tempo (ver Sec.11.3, Pág.84).
O segundo é o campo eléctrico gerado dentro dum condutor quando se move
através dum campo magnético. Estes dois efeitos são dois aspectos dum
mesmo fenómeno e a lei de Faraday não faz distinção entre eles.
12.2 Correntes de Foucault
• Vimos anteriormente que sempre que um condutor se move num campo
magnético externo B é induzida uma corrente eléctrica I nesse condutor.
• Se o condutor tiver uma resistência R a corrente induzida aquece o
condutor pois dissipa-se no condutor uma energia RI 2 por unidade de tempo.

89
12.2. CORRENTES DE FOUCAULT

• Por outro lado o campo magnético externo B interage com a corrente


induzida exercendo uma força magnética por unidade de comprimento no
condutor I × B.
• Léon Foucault foi a primeiro a descobrir estas correntes induzidas que
circulam dentro de um condutor que se move num campo magnético estático
ou num condutor que está parado num campo magnético variável. Como tal
chamam-se correntes de Foucault.
• Considere-se o seguinte exemplo em que um disco de metal roda num
campo magnético localizado de modo a que apenas uma pequena secção do
disco sente o campo magnético (ver ilustração).
Vista de topo Vista de lado

Sentido de rotação
do disco metálico eixo de rotação

N
disco metálico
Campo magnético B
aponta para dentro S
da página +++ +++

íman que cria


--- --- um campo magnético B
localizado
Corrente de Foucault

• A fem induzida na região do disco sob o efeito de B actua na direção


v × B, sendo v a velocidade do disco. No caso ilustrado essa fem é composta
duma diferença de potencial no sentido do centro para a periferia do disco
gerando uma corrente eléctrica também no mesmo sentido. No entanto como
a carga não se pode acumular no disco, estas correntes têm de ser fechadas e
como tal circulam para trás pela parte do disco exterior ao campo magnético.
• Este movimento circular fechado tem a forma dum vórtice (ou dum
remoinho).
• Pela regra da mão direita facilmente se descobre que na região onde está
o campo, as correntes de Foucault originam uma força magnética no disco
que se opõem ao movimento de rotação do disco.
• Se o disco não for mantido a rodar por uma força externa as correntes
de Foucault levam à paragem do disco devido à energia de rotação do disco
estar a ser continuamente dissipada em calor pelas correntes de Foucault.
• Alguns exemplos do uso das correntes de Foucault são:
- Levitação magnética.
- Detectores de metais.
- Travões electromagnéticos.
- Fornos por indução.

90
12.3. O GERADOR DE CORRENTE ALTERNADA

12.3 O gerador de corrente alternada


• Analisemos agora o mecanismo dum simples gerador eléctrico de corrente
alternada, como o indicado na figura, que converte a energia mecânica de
rotação duma espira rectangular num campo magnético uniforme, em energia
eléctrica.
R

espira eixo de rotação B


sentido
de rotação
B
1 4
q espira

N I S
I L

magnete magnete
permanente B
2 3 permanente
D

vista de lado vista de topo

• Se A for a área da espira e θ o ângulo entre o campo B e a normal ao


plano da espira, então o fluxo magnético de B através da espira é dado por,

ΦB = BA cos θ. (12.7)

• Se a espira for forçada a rodar com velocidade angular constante ω então


a variação de θ no tempo é θ = ωt e pela lei de Faraday(-Lenz) é induzida
na espira uma fem,
dΦB d
E =− = − (BA cos(ωt)), (12.8)
dt dt
logo,

E = BAω sin(ωt). (12.9)

• Caso haja N espiras, então o fluxo será N vezes superior e portanto,

E = N BAω sin(ωt). (12.10)

• Usando a relação ω = 2πf entre a frequência angular ω e a frequência


f , podemos escrever a equação anterior como,

E = EM ax sin(2πf t), (12.11)

91
12.3. O GERADOR DE CORRENTE ALTERNADA

onde,

EM ax = 2πN BAf, (12.12)

é o valor máximo da força electromotriz gerada, que como se vê, é propor-


cional à área da espira, ao número de espiras, ao número de voltas que as
espiras dão num segundo (f ) e ao módulo do campo magnético.
• Esta fem é sinusoidal no tempo, atingindo os valores extremos quando o
plano da espira é paralelo ao campo magnético (quando o fluxo varia mais) e
é zero quando o plano da espira é perpendicular ao campo magnético (quando
o fluxo varia menos), invertendo o sinal a cada meio período de rotação da
espira.
• Ligando uma resistência de carga R à espira então de acordo com a lei
de Ohm a corrente I que flúi por R é,
E EM ax
I= = sin(2πf t), (12.13)
R R
esta corrente I também flúi pela espira.

92
Aula 13

Indutores e indutância

Sumário:

- Indutância mútua

- Auto-indutância

- A energia armazenada num indutor

- A densidade de energia dum campo magnético

13.1 Indutância mútua

B1
I1
I2

circuito 1 B1
circuito 2
• Consideremos dois circuitos eléctricos fechados 1 e 2, como os ilustrados
em cima.
• A corrente I1 no circuito 1 gera um campo magnético B 1 que passa
pelo circuito 2, provocando um fluxo magnético ΦB12 neste circuito.
• Se I1 duplicar, então B1 também duplica em todo o espaço e portanto
também o fluxo magnético ΦB12 gerado por I1 e que atravessa o circuito 2,
duplica. Esta é uma consequência da linearidade das leis da magnetostática
e da definição de fluxo magnético.

93
13.1. INDUTÂNCIA MÚTUA

• É também claro que ΦB12 é zero se I1 = 0.


• O fluxo ΦB12 através do circuito 2 é directamente proporcional à corrente
I1 no circuito 1 e como tal podemos escrever,
ΦB12 = M21 I1 , (13.1)
onde a constante M21 é a chamada indutância mútua do circuito 2 relativa-
mente ao circuito 1.
• Por um raciocínio semelhante concluímos que o fluxo magnético ΦB21
através do circuito 1 devido a uma corrente I2 que circula pelo circuito 2 é
dado por,
ΦB21 = M12 I2 , (13.2)
onde a constante M12 é a chamada indutância mútua do circuito 1 relativa-
mente ao circuito 2.
• Pode mostrar-se matematicamente que independentemente da forma,
das posições ou orientações relativas dos circuitos, M12 = M21 e então,
M = M12 = M21 , (13.3)
onde M é a indutância mútua dos dois circuitos, uma quantidade puramente
geométrica que só depende da forma, das posições e orientações relativas dos
circuitos.
• No Sistema Internacional a unidade da indutância mútua é o Henry
(H). Um henry é igual a um volt-segundo por ampere,
1H ≡ 1VsA−1 , (13.4)
que é uma unidade um pouco desproporcionada, pois as indutâncias mútuas
típicas dos circuitos comuns são da ordem dos mili-henry.
• A um instrumento com dois circuitos desenhado para ter indutância
mútua chama-se um indutor mútuo ou transformador.
• Das equações (13.1) e (13.3), se a corrente que flúi no circuito 1 varia
no intervalo de tempo dt de dI1 então o fluxo que atravessa o circuito 2 varia
no mesmo intervalo de tempo de dΦB12 = M dI1 , o que gera uma fem no
circuito 2,
dΦB12 dI1
E2 = − = −M . (13.5)
dt dt
• De forma análoga se a corrente que flúi no circuito 2 varia no intervalo
de tempo dt de dI2 então a fem gerada no circuito 1 é dada por,
dI2
E1 = −M . (13.6)
dt

94
13.2. AUTO-INDUTÂNCIA

• Enfatiza-se que este acoplamento entre os dois circuitos ocorre


sem nenhum contacto físico. O acoplamento é realizado apenas pelo
campo magnético.

Como exemplo calculemos a indutância mútua de dois solenóides


1 e 2 de comprimento l enrolados um por cima do outro, ficando no
interior o solenóide 1. O solenóide 1 tem uma secção de área A e N1
espiras e o solenóide 2 (exterior) tem N2 espiras.

Se uma corrente I1 flúi pelo solenóide 1, então no seu núcleo é gerado um


campo magnético com intensidade B1 = µ0 N1 I1 /l (ver eq. 8.3). O campo mag-
nético no exterior do solenóide 1 é desprezável.
O fluxo através duma espira do solenóide 2 é B1 A, logo através das N2 espi-
ras o fluxo é, ΦB12 = N2 B1 A = µ0 N2 N1 I1 A/l. Então a indutância mútua do
solenóide 2 relativamente ao 1 é,
ΦB12 µ0 N2 N1 A
M21 = = . (13.7)
I1 l
Por outro lado quando passa uma corrente I2 pelo solenóide 2 este gera um fluxo
através do solenóide 1 ΦB21 = N1 B2 A = µ0 N1 N2 I2 A/l, pois B2 = µ0 N2 I2 /l.
Então a indutância mútua do solenóide 1 relativamente ao 2 é,
ΦB21 µ0 N1 N2 A
M12 = = . (13.8)
I2 l
Concluímos então que M21 = M12 logo,
µ0 N1 N2 A
M= , (13.9)
l
onde se vê claramente que a indutância mútua destes dois circuitos é uma quanti-
dade geométrica, independente das correntes eléctricas e dos campos magnéticos,
só dependendo das dimensões dos solenóides e do número de espiras da cada um.
13.2 Auto-indutância
• Um só circuito fechado por onde circula uma corrente I também interage
com ele próprio, pois é atravessado pelo seu próprio fluxo magnético ΦB .
Dada a natureza linear das leis da magnetostática e da definição de fluxo
magnético resulta que o fluxo ΦB é proporcional à corrente I logo,
ΦB = LI, (13.10)
onde a constante de proporcionalidade L é a chamada auto-indutância do
circuito.

95
13.3. A ENERGIA ARMAZENADA NUM INDUTOR

• Tal como a indutância mútua, a auto-indutância dum circuito mede-se


em henry e é uma quantidade puramente geométrica.
• Se a corrente I que flúi no circuito varia no intervalo de tempo dt de
dI então o fluxo que atravessa o circuito varia no mesmo intervalo de tempo
de dΦB = LdI, gerando pela lei de Faraday(-Lenz) uma fem no circuito,
dΦB dI
E =− = −L , (13.11)
dt dt
ou seja, se uma corrente que flúi num circuito fechado aumenta no tempo é
induzida no próprio circuito uma fem que se opõe ao aumento da corrente (e
vice versa).
• Como já vimos anteriormente na lei de Lenz, a fem induzida nunca
poderia reforçar a corrente indutora, caso contrário a corrente não pararia de
aumentar, o que é irrealista e violaria o principio da conservação da energia.
Então a auto-indutância L dum circuito é sempre uma quantidade
positiva ao contrário das indutâncias mútuas que podem ser positivas ou
negativas.
13.3 A energia armazenada num indutor
• Consideremos um indutor com indutância L que é ligado a uma fonte de
tensão variável, de forma a que uma corrente eléctrica i flua pelo indutor
desde zero até um valor final I.
• Ao aumentar a corrente no indutor é gerada uma fem E = −Ldi/dt que
se opõe ao aumento de i. Então a fonte de tensão tem de realizar trabalho
contra esta fem de modo a conseguir aumentar a corrente i no circuito. O
trabalho realizado no intervalo dt é,
di
dW = P dt = −Ei = iL dt = Lidi, (13.12)
dt
onde P = −Ei é a taxa por unidade de tempo à qual a fonte de tensão realiza
trabalho (potência dada pela fonte de tensão) contra a fem no indutor.
• Então o trabalho total realizado para estabelecer a corrente I é,
Z ZI
W = dW = Lidi, (13.13)
0

logo a energia armazenada no indutor que é igual ao trabalho total realizado


para estabelecer a corrente I é dada por,
1
W = LI 2 . (13.14)
2

96
13.4. A DENSIDADE DE ENERGIA DUM CAMPO MAGNÉTICO

Como exemplo calculemos a auto-indutância dum solenóide de


comprimento l com uma secção de área A e N espiras.

Quando uma corrente I flúi pelo solenóide no seu núcleo é gerado um campo
magnético com intensidade (ver eq. 8.3),

B = µ0 N I/l. (13.15)

O campo magnético no exterior do solenóide é desprezável.


O fluxo através duma só espira do solenóide é BA, logo através das N espiras o
fluxo é,

ΦB = N BA = µ0 N 2 IA/l. (13.16)

Então a auto-indutância do solenóide é dada por,

ΦB µ0 N 2 A
L= = , (13.17)
I l
onde se vê claramente que a auto-indutância L é uma quantidade positiva, in-
dependente da corrente eléctrica e do campo magnético, só dependendo da di-
mensão do solenóide e do número de espiras.
13.4 A densidade de energia dum campo magnético
• Das equações (13.15), (13.16) e (13.17) a energia armazenada num solenóide
pode escrever-se como,
2
1 2 µ0 N 2 A Bl

W = LI = , (13.18)
2 2l µ0 N

simplificando vem,

B2
W = lA, (13.19)
2µ0
como lA é o volume do núcleo do solenóide a energia por unidade de volume,
ou seja a densidade de energia é,

B2
w= . (13.20)
2µ0

• Esta expressão não é válida apenas para o campo magnético no interior


dum solenóide, mas aplica-se a qualquer campo magnético.

97
13.4. A DENSIDADE DE ENERGIA DUM CAMPO MAGNÉTICO

• A energia contida num campo magnético que ocupa um volume v pode


ser calculada de forma geral por,

B2
Z Z
W = wdv = dv, (13.21)
v v 2µ0

é como se o volume v fosse dividido em cilindros com volume elementar dv


(no interior dos quais o campo é aproximadamente uniforme) e somássemos
a energia de todos esses pequeníssimos cilindros para obter a energia total
no volume v.
• Quando existem conjuntamente campos eléctricos e magnéticos no es-
paço as equações (4.22) e (13.20) podem ser combinadas para obter a densi-
dade de energia total contida nos campos,

0 E 2 B2
w= + . (13.22)
2 2µ0

98
Aula 14

Regime transiente e circuitos CA

Sumário:

- O circuito RL

- O circuito RC

- Circuitos de CA - Impedância

- Circuitos de CA - RLC

14.1 O circuito RL

R L

+ -
interruptor V
• No circuito ilustrado uma resistência R está ligada em série com um
indutor de indutância L e com uma fonte de alimentação com uma fem V .
Este circuito chama-se circuito RL.

99
14.1. O CIRCUITO RL

• Quando o interruptor está aberto a corrente no circuito é zero. Quando


o interruptor é fechado a corrente aumenta gradualmente e estabiliza num
valor limite I. Neste período transitório em que a corrente vai aumentando,
de acordo com a equação (13.11) estabelece-se no indutor uma fem LdI/dt
que se opõe à variação de corrente.
• Aplicando no circuito a lei de Kirchoff para a tensão temos,

dI
V −L − RI = 0 (14.1)
dt
V L dI
−I = .
R R dt
• Podemos separar as variáveis I e t ficando,

R dI
dt = V
L R
−I
integrando vem,
Zt ZI
R dI
dt = V
L R
−I
0 0
 I
R V
t = − ln −I
L R
  0  
V V
= − ln − I + ln
R R
 
R
= − ln 1 − I
V
x
usando ln e = x obtemos,
R R
e− L t = 1 − I
V
V  R

I(t) = 1 − e− L t , (14.2)
R
• A equação anterior especifica I(t) para um instante t após o interruptor
ser fechado e dela se conclui que a corrente aumenta gradualmente atingindo
63% do seu valor final após um tempo,

L
τ= , (14.3)
R
e quando t = 5τ a corrente já é superior a mais de 99% do valor final I = V /R.
Ao tempo τ chama-se a constante de tempo do circuito (ver figura).

100
14.1. O CIRCUITO RL

I=V/R
I(t)=V/R(1 - e-Rt/L)

0.5V/R

I(t)=V/R e-Rt/L
0
0 5τ 10τ

• Após o regime transiente atrás descrito que dura aproximadamente 5τ


segundos o circuito entra num regime estacionário. A corrente que flúi no
circuito é I = V /R e não havendo variação de fluxo o indutor não influencia
o circuito e no que diz respeito ao comportamento eléctrico do circuito o
indutor desaparece.
• Se a bateria for retirada do circuito e substituída por um fio, a corrente
decai para zero. A forma como tal ocorre pode ser obtida calculando I(t) de
forma análoga à anterior.
• A equação do circuito é,

dI
−L − RI = 0 (14.4)
dt
R dI
− I = ,
L dt

e seguindo os mesmos passos dados anteriormente facilmente se conclui que,

I(t) = I0 e−Rt/L , (14.5)

ou seja o decaimento é exponencial e após um tempo igual a 5R/L a corrente


é já inferior a 1% do valor inicial I0 .

101
14.2. O CIRCUITO RC

14.2 O circuito RC

R C

+ -
interruptor V
• No circuito ilustrado uma resistência R está ligada em série com um
condensador com capacidade C e com uma fonte de alimentação com uma
fem V . Este circuito chama-se circuito RC.
• Aproveitamos para discutir o circuito RC neste ponto pois apesar de
não ter nada a ver com indutores a análise do seu comportamento é muito
semelhante à do circuito RL.
• Quando o interruptor está aberto a carga no condensador é zero. Quando
o interruptor é fechado a carga aumenta gradualmente e estabiliza num valor
limite Q. Neste período transitório em que a carga vai aumentando, de
acordo com a equação (4.2) estabelece-se entre as placas do condensador
uma diferença de potencial Q/C.
• Aplicando no circuito a lei de Kirchoff para a tensão e relembrando que
I = dQ/dt temos,

Q
V − − RI = 0 (14.6)
C
Q dQ
V − = .
C dt

102
14.2. O CIRCUITO RC

• Podemos separar as variáveis Q e t ficando,


dt dQ
=
RC VC −Q
integrando vem,
Zt ZQ
dt dQ
=
RC VC −Q
0 0
1
t = − ln (V C − Q)]Q
0
RC  
Q
= − ln 1 −
VC
x
usando ln e = x obtemos,
 t

Q(t) = V C 1 − e− RC , (14.7)

• A equação anterior especifica Q(t) para um instante t após o interruptor


ser fechado e dela se conclui que a carga nas placas do condensador aumenta
gradualmente atingindo 63% do seu valor final após um tempo,

τ = RC, (14.8)

e quando t = 5τ a carga já é superior a mais de 99% do valor final Q = V C.


Ao tempo τ chama-se a constante de tempo do circuito (ver figura).

Q=VC
Q(t)=VC(1 - e-t/(RC))

0.5VC

Q(t)=VC e-t/(RC)
0
0 5τ 10τ

• Podemos obter facilmente a corrente que flúi no circuito derivando a


carga em ordem ao tempo,
dQ V t
I(t) = = e− RC . (14.9)
dt R
• Imediatamente após o interruptor ser fechado flúi no circuito a corrente
I = V /R que seria a corrente se o condensador não estivesse no circuito. No

103
14.3. CIRCUITOS DE CA - IMPEDÂNCIA

entanto esta corrente é transiente e decai para menos de 1% do valor inicial


em apenas 5RC segundos.
• Após este regime transiente que dura aproximadamente 5τ segundos o
não flúi corrente no circuito. O condensador funciona como um interruptor
aberto.
• Se a bateria for retirada do circuito e substituída por um fio, a carga
decai para zero. A forma como tal ocorre pode ser obtida calculando Q(t)
de forma análoga à anterior.
• A equação do circuito é,
Q dQ
− −R = 0 (14.10)
C dt
dt dQ
− = ,
RC Q
e seguindo os mesmos passos dados anteriormente facilmente se conclui que,
t
Q(t) = Q0 e− RC , (14.11)
t
− RC
I(t) = I0 e , (14.12)
ou seja o decaimento é exponencial e após um tempo igual a 5R/L a corrente
é já inferior a 1% do valor inicial I0 .
14.3 Circuitos de CA - Impedância
• A maioria dos aparelhos eléctricos e magnéticos opera com correntes os-
cilantes ou alternadas. Duas razões para tal são,
- o facto da potência eléctrica poder ser distribuída num qualquer valor
de tensão conveniente usando transformadores, que funcionam apenas
com correntes oscilantes.
- correntes oscilantes ou alternadas podem transportar informação. Um
microfone transforma a informação contida numa palavra falada numa
complicada corrente oscilante.
• Neste estudo assumiremos que as tensões, correntes e cargas são todas
funções sinusoidais do tempo, com as fases apropriadas.
• Em analogia com a lei de Ohm para circuitos de corrente contínua para
circuitos de corrente alternada tem-se,
V
I= , (14.13)
Z
onde tanto I como V são grandezas que variam no tempo e Z é a impedância
do circuito que se mede em ohm (Ω) tal como a resistência.

104
14.3. CIRCUITOS DE CA - IMPEDÂNCIA

• Para o cálculo da impedância equivalente de associações de impedâncias


em série ou em paralelo num circuito aplicam-se as mesmas regras usadas nas
resistências.
• A impedância é normalmente uma grandeza imaginária com a forma,

Z = R + iX (14.14)

onde a X se chama a reactância.


• Calculemos a impedância duma resistência. Para tal consideremos um
circuito em que uma fonte de tensão alternada está ligada em série a uma
resistência R.

~
V=Vp cos(ωt)

• Seja a tensão fornecida pela fonte,

V = Vp cos(ωt), (14.15)

onde Vp é a amplitude máxima da tensão (valor de pico) e ω = 2πf é a fre-


quência angular em radianos e f a frequência em hertz (ciclos por segundo).
• Da lei de Kirchoff para a tensão,

Vp cos(ωt) = RI, (14.16)

logo I = Ip cos(ωt) com Ip = Vp /R e da eq. (14.13) temos,

V Vp
Z= = = R, (14.17)
I Ip

portanto a impedância duma resistência é simplesmente igual à resistência.


• Calculemos agora a impedância dum indutor. Para tal consideremos
um circuito em que a mesma fonte de tensão alternada está ligada em série
a um indutor com indutância L.

105
14.3. CIRCUITOS DE CA - IMPEDÂNCIA

~
V=Vp cos(ωt)

• Da lei de Kirchoff para a tensão,

dI
Vp cos(ωt) = L . (14.18)
dt

• Usando notação complexa podemos escrever a tensão V como a parte


real de V0 eiωt . Desta forma a resolução da equação diferencial anterior é
imediata,

dI
V0 eiωt = L
dt
V0 iωt
I = e , (14.19)
Liω

logo da eq. (14.13) temos,

V
Z =
I
V0 eiωt
= V0 iωt
Liω
e
= iLω. (14.20)

• Calculemos por último a impedância dum condensador. Para tal con-


sideremos um circuito em que a mesma fonte de tensão alternada está ligada
em série a um condensador com capacidade C.

106
14.4. CIRCUITOS DE CA - RLC

~
V=Vp cos(ωt)

• Usando a notação complexa, da lei de Kirchoff para a tensão vem,

Q
V0 eiωt =
, (14.21)
C
R
mas como Q = Idt vem,
R
Idt
V0 eiωt = (14.22)
C

• A solução desta equação integral é imediata,


R
Idt
V0 eiωt =
C
I = CiωV0 eiωt , (14.23)

logo da eq. (14.13) temos,

V
Z =
I
V0 eiωt
=
CiωV0 eiωt
1
= . (14.24)
iCω

14.4 Circuitos de CA - RLC


• Analisemos agora um circuito um pouco mais elaborado, que consiste duma
resistência em série com um indutor e um condensador, alimentados por uma
fonte de tensão alternada V com amplitude máxima Vp e frequência ω.

107
14.4. CIRCUITOS DE CA - RLC

R C

~
V=Vp cos(ωt)
• A equação do circuito obtém-se mais uma vez aplicando a lei de Kirchoff
para a tensão,
R
dI Idt
V − IR − L − = 0. (14.25)
dt C
• A solução duma equação integro-diferencial não é trivial. No entanto,
no caso particular como tanto a tensão como a corrente oscilam com uma
frequência fixa podemos usar novamente a notação complexa para representar
novamente estas quantidades como,

V (t) = V0 eiωt (14.26)


I(t) = I0 ei(ωt−θ) (14.27)

em que a solução física é apenas a parte real destes números complexos. A


vantagem desta notação complexa é que devido à facilidade em integrar e
diferenciar a função exponencial, esta equação integro-diferencial é rapida-
mente transformada numa equação algébrica. Vejamos como,
R
dI Idt
V − IR − L − = 0
dt C
I
V − IR − iωLI − = 0
iωC
1
I(R + iωL + ) = V
iωC
V
I = 1
 . (14.28)
(R + i ωL − ωC )

108
14.4. CIRCUITOS DE CA - RLC

• Rapidamente se conclui que a impedância deste circuito é igual a,

V 1
Z= = R + iωL + , (14.29)
I iωC

que é simplesmente a soma das impedâncias de cada um dos elementos do


circuito (ver equações (14.17), (14.20), (14.24)).
• Para determinar o valor real da corrente basta extrair apenas a parte
real da eq. (14.28),

V
I = 1

(R + i ωL − ωC
)
V0 eiωt
=
reiθ
V0 i(ωt−θ)
= e , (14.30)
r
 
onde r = R2 + (ωL − 1/(ωC))2 e θ = arctan ωL−1/(ωC)
p
R
. A parte real da
equação (14.30) é então dada por,

I(t) = I0 cos(ωt − θ), (14.31)

onde,

V0 V0
I0 = =p , (14.32)
r R2 + (ωL − 1/(ωC))2

note-se que o valor máximo da amplitude da corrente eléctrica I0 varia com o


valor de ω. Tal pode ser mais facilmente visualizado se reescrevermos (14.32)
em função das quantidades adimensionais Q = ωr L/R e ω 0 = ω/ωr ,

V0 1
I0 = p , (14.33)
R 1 + Q2 (ω 0 − 1/ω 0 )2

onde ωr = 1/ LC é a chamada frequência de resonãncia do oscilador.
• A figura seguinte exemplifica o significado da frequência de ressonância,
onde se pode ver que quando ω = ωr a amplitude da corrente I0 tem o valor
máximo e que o máximo é tanto mais bem definido quanto maior é Q (a que
se chama o factor de qualidade do oscilador).

109
14.4. CIRCUITOS DE CA - RLC

I0 (ω)

V0 /R
Q=1

0.5V0 /R
Q = 10

Q = 100
0
0 ωr 2ωr 3ωr
ω

• Este comportamento ressonante do circuito RLC é usado para sintonizar


sinais de rádio, numa frequência escolhida. A selecção dum canal no rádio
ou na televisão pode ser feita variando a capacidade do condensador num
circuito RLC para escolher uma nova frequência de ressonância. Os canais
emitidos em frequências diferentes são rejeitados.
• Escrevendo também o ângulo θ (que indica o desfasamento da corrente
em relação à tensão) em função das quantidades adimensionais Q e ω 0 obte-
mos,
θ = arctan (Q [ω 0 − 1/ω 0 ]) , (14.34)
esta expressão está ilustrada na seguinte figura,

π/2
Q = 100
Q = 10
θ(ω)
0 Q=1

−π/2
0 ωr 2ωr 3ωr
ω
onde se pode observar claramente que o desfasamento varia de −π/2
quando a frequência ω é significativamente inferior à frequência de ressonân-
cia ωr , até π/2 para frequências significativamente superiores a ωr . Para

110
14.4. CIRCUITOS DE CA - RLC

ω = ωr a corrente está em fase com tensão.


• A Potência instantânea de saída da fem é,

P = V (t)I(t). (14.35)

• A Potência média de saída da fem é obtida calculando a média da


potência instantânea ao longo dum período T de oscilação,
P = V (t)I(t)
ZT
1
= V0 cos(ωt)I0 cos(ωt − θ)dt
T
0
ZT
1
= V0 I0 cos(ωt) (cos(ωt) cos(θ) + sin(ωt) sin(θ)) dt
T
0
 
 
 ZT ZT 
1  2

= V0 I0  cos(θ) cos(ωt) dt + sin(θ) cos(ωt) sin(ωt)dt
T 



 0 0
| {z } | {z }
T 0
2

V0 I0
= cos(θ) (14.36)
2
• Usando a notação complexa (equações (14.26) e (14.27)) conseguimos
obter o mesmo resultado duma forma mais rápida e com muito menos cálculos
tendo em atenção que,
1
P = Re(V I ∗ ) (14.37)
2
1
Re V0 ei(ωt) I0 e−i(ωt−θ)

=
2
V0 I0
= cos(θ), (14.38)
2
idêntico a (14.36).
• Usando a eq.(14.13) podemos reescrever a eq.(14.37) num forma equiv-
alente,
1 1
P = Re(ZII ∗ ) = Re(Z)|I|2 , (14.39)
2 2
esta expressão mostra que a potência de saída da fem é igual à potência
dissipada, estando associada com a parte real da impedância do circuito. No

111
14.4. CIRCUITOS DE CA - RLC

caso do circuito RLC,


1
P = RI02 , (14.40)
2
ou seja só a resistência dissipa energia neste circuito. O condensador e o
indutor armazenam energia, devolvendo-a eventualmente ao circuito sem dis-
sipação.

112
Aula 15

Sumário:

- O transformador

- Ajuste de impedâncias

15.1 O transformador
secção
com área A

Corrente
Fluxo Corrente
primária magnético IS secundária
IP
+ -

Tensão
l primária
Tensão
VP secundária
VS l
-
Núcleo do
Transformador
+
Enrolamento
primário Enrolamento
NP espiras secundário
NS espiras

• Um transformador consegue aumentar ou diminuir uma tensão alter-


nada. Este aparelho tem um papel crucial no transporte de energia eléctrica
desde o local onde é gerada (barragens, centrais termoeléctricas, geradores
eólicos, centrais nucleares, etc.) até às nossas casas onde é consumida.
• Como ilustra a figura, num transformador dois solenóides, o primário e
o secundário, trocam fluxo magnético entre si. Não há ligação física directa

113
15.1. O TRANSFORMADOR

entre os enrolamentos destes solenóides, que são enrolados em volta dum


núcleo de ferro comum.
• O núcleo de ferro serve apenas para conduzir a maior quantidade pos-
sível de fluxo magnético, gerado pela corrente que flúi no primário, até ao
enrolamento secundário, aumentando a interacção entre os dois enrolamen-
tos.
• Consideremos um transformador ideal, que não tem perdas de energia
(normalmente causadas por correntes de Foucault induzidas no núcleo de
ferro) e onde o fluxo gerado no primário é igual ao que atravessa o secundário.
Consideremos que ambos os enrolamentos têm comprimento l e secção de
área A e que NP e NS são o número de espiras dos enrolamentos primário e
secundário, respectivamente.
• Se uma tensão alternada com frequência angular ω,

VP = VP0 cos(ωt), (15.1)

é aplicada ao primário e a corrente é,

IP = IP0 sin(ωt), (15.2)

então IP gera por indução no secundário uma fem também alternada,

VS = VS0 cos(ωt), (15.3)

e se o secundário estiver ligado a uma resistência a tensão VS produz uma


corrente,

IS = IS0 sin(ωt), (15.4)

no enrolamento secundário.
• Pela lei de Kirchoff para a tensão, a equação do circuito primário fica,
dIP dIS
VP − LP −M = 0
dt dt
VP0 − LP ωIP0 − M ωIS0 = 0, (15.5)

onde o segundo termo é a fem auto-induzida no enrolamento primário e o


terceiro termo é a fem resultante da indutância mútua M dos enrolamentos
primários e secundários.
• Por razões semelhantes a equação do circuito secundário fica,
dIS dIP
VS − LS −M = 0
dt dt
VS0 − LS ωIS0 − M ωIP0 = 0, (15.6)

114
15.1. O TRANSFORMADOR

• Sendo o transformador ideal, a energia por unidade de tempo transferida


indutivamente do primário para o secundário não sofre quaisquer perdas logo,

IP VP = IS VS
IP0 VP0 = IS0 VS0 . (15.7)

• Então das equações (15.5), (15.6) e (15.7) vem,

IP0 VP0 = ω(LP IP20 + M IP0 IS0 ) = ω(LS IS20 + M IS0 IP0 ) = IS0 VS0
LP IP20 = LS IS20
r
IP0 LS
= (15.8)
IS0 LP
• Combinando as equações (15.7) e (15.8) obtemos,
r
VP0 LP
= (15.9)
VS0 LS

• Da expressão para a auto-indutância dum solenóide eq. (13.17) vem que


µ N2 A µ N2A
LP = 0 l P e LS = 0 l S logo
 2
LP NP
= , (15.10)
LS NS

e então,
VP0 IS NP
= 0 = , (15.11)
VS0 IP0 NS

que indica que a razão entre a amplitude máxima das tensões e correntes,
no primário e no secundário é igual à razão entre o número de espiras no
primário e no secundário.
• Se o enrolamento secundário tiver mais espiras que o primário então a
amplitude máxima da tensão no secundário é superior à amplitude máxima
da tensão no primário, tendo a corrente um comportamento inverso. Portanto
um transformador que aumenta a tensão diminui a corrente e vice versa.
• Da expressão anterior podia-se pensar que basta então um primário com
uma espira e um secundário com dez espiras para obter um factor de 10 na
tensão de saída relativamente à de entrada. Tal não é correcto pois com uma
espira o acoplamento entre os dois circuitos é muito fraco, ou seja, perde-se
muito fluxo magnético entre os dois circuitos. Para aumentar o acoplamento
usam-se mais espiras.

115
15.2. AJUSTE DE IMPEDÂNCIAS

• Os geradores eléctricos geram electricidade com tensões alternadas cuja


máxima amplitude é próxima do valor que dispomos nas nossas casas (220
V).
• No entanto esta electricidade é transportada através de linhas de alta
tensão (> 60 kV) dos geradores até às cidades. Tal deve-se à inferior perda de
energia no transporte quando este é feito em alta tensão. Vejamos como: Se
uma potência P é transportada numa linha de alta tensão com uma corrente
I e uma tensão V então P = V I. Contudo a linha tem uma resistência R não
desprezável devido ao seu comprimento considerável, logo é dissipada uma
energia por unidade de tempo igual a

RP 2
2
PR = RI = . (15.12)
V2

• Então se a potência P transmitida é constante, tal como a resistência


R da linha, da expressão anterior vê-se que a potência dissipada na linha é
tanto menor quanto maior for V . Tensões muito elevadas aumentam o risco
de rotura eléctrica na linha, necessitando de postes de maiores dimensões
para aumentarem o afastamento entre os cabos. É portanto necessário um
compromisso entre custos de perdas de energia e custos de construção e
segurança da linha de transporte. Mesmo assim, devido às grandes distâncias
das centrais geradoras eléctricas as perdas de energia podem chegar aos 20%.
Se esta energia fosse transportada à tensão de consumo 220 V, as perdas
seriam tão grandes que nenhuma energia chegava às nossas casas.
• Como já foi referido, e é agora mais claro porquê, os transformadores
têm um papel crucial no transporte da energia eléctrica, pois permitem fazê-lo
à tensão elevada mais conveniente, voltando a baixa-la para o valor doméstico
uma vez chegada às nossas casas. A corrente alternada é essencial para o
funcionamento dos transformadores. Refira-se ainda que os transformadores
conseguem multiplicar e desmultiplicar tensões com uma eficiência muito
elevada, minimizando assim as perdas de energia nesses processos.

15.2 Ajuste de impedâncias


• Uma outra aplicação importante dos transformadores é no ajuste de impedân-
cias entre dois aparelhos eléctricos.
• Como vimos na página 51 a transferência de potência entre uma fonte
de tensão e uma carga externa é mais eficiente, i.e. é máxima, quando a
resistência da carga é igual à resistência interna da fonte de tensão. Este
ajuste pode ser feito por um transformador.
• Inserindo um transformador entre a fonte tensão e a resistência de carga

116
15.2. AJUSTE DE IMPEDÂNCIAS

R vem R = VS0 /IS0 , e da eq. (15.11) temos,

NP
VP0 = VS (15.13)
NS 0
e
NS
IP0 = IS . (15.14)
NP 0
• Destas duas equações vemos facilmente que a resistência efectiva R0 da
carga no enrolamento primário é dada por,
 2
0 VP0 NP VS0
R = = , (15.15)
IP0 NS IS0

ou simplesmente,
 2
0 NP
R = R, (15.16)
NS

deste modo a resistência efectiva da carga R0 pode ser feita igual à da fonte
de tensão independentemente do valor de R. A este processo de igualar as
resistências chama-se ajuste de impedâncias.

117
15.2. AJUSTE DE IMPEDÂNCIAS

118
Aula 16

Ondas electromagnéticas

Sumário:

- A corrente de deslocamento

- Ondas electromagnéticas

- Energia em ondas electromagnéticas

16.1 A corrente de deslocamento


• Na primeira aula enunciámos as equações de Maxwell e ao longo destas
semanas temos vindo a mostrar que estas equações resumem as leis de Gauss
para E (2.2) e B (8.6), a lei de Faraday(-Lenz) (eq. 11.7) e a lei de Ampère
(7.11).
• No entanto quando Maxwell tentou resumir tudo o que era conhecido
na altura sobre campos eléctricos e magnéticos apercebeu-se que duma in-
consistência na lei de Ampère.
• Maxwell acabou por descobrir que a inconsistência desaparecia adicio-
nando uma nova corrente à lei de Ampère a que chamou corrente de deslo-
camento.
• Vejamos uma explicação heurística da corrente de deslocamento. Para
tal consideremos um circuito RC, onde um condensador com capacidade C
está em série com uma resistência R e uma fonte de alimentação contínua
que produz uma fem V .

119
16.1. A CORRENTE DE DESLOCAMENTO

condensador
de placas paralelas
s2 e capacidade C

caminho ID
amperiano s1
circular R
c d

+ -
interruptor V

• Seja A a área das placas do condensador que estão separadas por


uma distância d. Quando atrás estudámos este circuito RC, concluímos que
após fechar o interruptor, a corrente no circuito decresce exponencialmente
(eq. 14.9) enquanto a carga no condensador cresce desde zero até ao valor V C.
Consequentemente a diferença de potencial entre as placas do condensador
V = Q(t)/C também aumenta.
• Podemos também exprimir a carga no condensador em função do campo
eléctrico entre as placas do condensador, que é aproximadamente uniforme,
perpendicular às placas e aponta da placa positiva para a negativa, com
magnitude E = V/d. Assim vem,

Q(t) = CV = CdE. (16.1)

• A capacidade é uma constante C = 0 A/d (ver eq. (4.3)) tal como a


distância d entre as placas. Então derivando a carga em ordem ao tempo
obtemos,
dQ(t) dE
= Cd
dt dt
dE
I(t) = A0 , (16.2)
dt
esta equação relaciona a corrente que flúi no circuito com a taxa de variação
do campo eléctrico entre as placas do condensador.
• De acordo com a lei de Ampère (eq. 7.11) o integral de B ao longo do
caminho amperiano c é igual a µ0 vezes a corrente que atravessa a superfície
S circunscrita por c. Se S = S1 então a corrente que atravessa S1 é a corrente

120
16.1. A CORRENTE DE DESLOCAMENTO

I que flúi no circuito. Se S = S2 então nenhuma corrente atravessa S2 pois


não há movimento de cargas entre as placas do condensador.
• Assim para garantir a unicidade da lei de Ampère, Maxwell sugeriu
que deve existir uma corrente que fluí entre as placas do condensador. A
essa corrente chama-se corrente de deslocamento (por ser igual à derivada
em ordem ao tempo do vector deslocamento eléctrico D, ver eq. (4.7)) e é
igual a,
∂E
ID = A0 , (16.3)
∂t
que se pode também escrever em função do fluxo eléctrico ΦE ,
∂ΦE
ID = 0 , (16.4)
∂t
ou sobre a forma duma densidade de corrente,
∂E
jD =  0 , (16.5)
∂t
onde foram introduzidas derivadas parciais pois em geral o campo E depende
também de x, y e z.
• Apesar desta derivação heurística da corrente de deslocamento a vali-
dade da eq. (16.3) é geral .
• É então necessário modificar a lei de Ampère de modo a incluir a cor-
rente de deslocamento,
I
B · dl = µ0 (I + ID ), (16.6)
C

ou na forma diferencial (usando o teorema de Stokes),

∇ × B = µ0 (j + j D ). (16.7)

• A seguinte tabela relembra as 4 equações de Maxwell, na forma difer-


encial e integral,

Forma diferencial HForma integral


∇ · E = ρ0 E · dS = Qint
0
Lei de Gauss para E
SH
∇·B =0 B · dS = 0 Lei de Gauss para B
HS
∇ × E = − ∂B
∂t
E · dl = − dΦ
dt
B
Lei de Faraday-Lenz
C
∇ × B = µ0 j + 0 ∂E
 H
dt
B · dl = µ0 (I + ID ) Lei de Ampère-Maxwell
C

121
16.2. ONDAS ELECTROMAGNÉTICAS

• Como curiosidade menciona-se que Maxwell escreveu estas leis numa forma
bastante mais complexa, usando 20 equações. As equações na forma com-
pacta da notação vectorial, como as conhecemos hoje, foram pela primeira
vez escritas por Olivier Heaviside.
16.2 Ondas electromagnéticas
• Maxwell sabia que as equações que descreviam a dinâmica dos fluidos tin-
ham soluções ondulatórias que descreviam o movimento de ondas nos fluidos,
então investigou se as suas 4 equações também tinham soluções ondulatórias.
Assim sendo existiriam então um tipo completamente novo de ondas, a que
ele chamou de ondas electromagnéticas.
• Começou pela tarefa mais simples de investigar a existência de ondas
electromagnéticas que se propagassem no vazio, i.e. numa região sem cargas
nem correntes.
• Na forma diferencial as equações de Maxwell no vazio ficam,
∇·E = 0 (16.8)
∇·B = 0 (16.9)
∂B
∇×E = − (16.10)
∂t
∂E
∇ × B = µ0  0 , (16.11)
∂t
chama-se a atenção para a simetria entre campos eléctricos e magnéticos
destas equações para o vazio.
• Verifiquemos se estas equações admitem como solução um campo E e
B perpendiculares um ao outro, tais que E só tem componente segundo o
eixo X e B só tem componente segundo o eixo Y ou seja,
E = Ex ı̂ portanto Ey = Ez = 0 (16.12)
B = By ̂ portanto Bx = Bz = 0. (16.13)
• Recordemos as definições da divergência e do rotacional (ver eq. (2.7) e
eq. (3.7)) e introduzamos as equações (16.12) e (16.13) nas equações (16.8)-
(16.11),
(a) Equação (16.8),
 
∂ ∂ ∂
ı̂ + ̂ + k̂ · Ex ı̂ = 0
∂x ∂y ∂z
∂Ex
= 0 (16.14)
∂x

122
16.2. ONDAS ELECTROMAGNÉTICAS

(b) Equação (16.9),


 
∂ ∂ ∂
ı̂ + ̂ + k̂ · By ̂ = 0
∂x ∂y ∂z
∂By
= 0 (16.15)
∂y

(c) Equação (16.10),

∂Ex ∂Ex ∂By


̂ + − k̂ = − ̂,
∂z ∂y ∂t
logo

∂Ex ∂By
= − (16.16)
∂z ∂t
∂Ex
= 0, (16.17)
∂y

(d) Equação (16.11),

∂By ∂By ∂Ex


− ı̂ + k̂ = µ0 0 ı̂
∂z ∂x ∂t
logo

∂By ∂Ex
− = µ0  0 (16.18)
∂z ∂t
∂By
= 0, (16.19)
∂x

• Podemos então concluir rapidamente de (16.14), (16.15), (16.17) e


(16.19) que Ex e By não dependem nem de x nem de y.
• Por outro lado derivando (16.16) em ordem ao tempo e (16.18) em
ordem a z vem,

∂ 2 Ex ∂ 2 By ∂ 2 By ∂ 2 Ex
=− 2 ∧ − 2 = µ0  0 ,
∂t∂z ∂ t ∂ z ∂z∂t
combinando os resultados obtemos,

∂ 2 By ∂ 2 By
= µ 
0 0 . (16.20)
∂2z ∂2t

123
16.2. ONDAS ELECTROMAGNÉTICAS

• De forma análoga derivando (16.16) em ordem a z e (16.18) em ordem


a t obteriamos,
∂ 2 Ex ∂ 2 Ex
= µ0  0 2 . (16.21)
∂2z ∂ t
• Podemos verificar rapidamente que as funções,
h z i h z i
By = B0 cos 2π( − f t) , Ex = E0 cos 2π( − f t) , (16.22)
λ λ
são soluções das equações (16.20) e (16.21) respectivamente e que tanto o
campo E como o campo B são duas ondas que se propagam ao longo do eixo
dos Z com velocidade
1
c = fλ = √ , (16.23)
µ0  0
onde f é a frequência da onda que se mede em hertz (Hz) e λ é o comprimento
de onda que se mede em metros e representa a distância entre dois máximos
consecutivos da onda (ver figura).
ExB

Ex
λ Z

X
By

Y Onda electromagnética
linearmente polarizada sengundo X

• Podemos também verificar facilmente que,


E0 = cB0 . (16.24)
• Para evitar estar sempre a escrever o factor 2π que surge nas eqs. (16.22)
é costume defenir a ferquência angular ω = 2πf que se mede em radianos por
segundo (rad s−1 ) e o número de onda k = 2π/λ que se mede em (m−1 ). As
funções do tipo (16.22) podem assim escrever-se numa forma mais compacta,
By = B0 cos(kz − ωt), Ex = E0 cos(kz − ωt),
repare-se que de (16.23) se conclui facilmente que,
ω
c= . (16.25)
k
• Podemos estabelecer as seguintes propriedades das ondas electromag-
néticas (EM)

124
16.3. ENERGIA EM ONDAS ELECTROMAGNÉTICAS

1. O campo magnético oscila em fase com o campo eléctrico.

2. O campo magnético é sempre perpendicular ao campo eléctrico e ambos


os campos são perpendiculares à direcção de propagação da onda que
é dada pela direcção do vector E × B.

3. Numa onda que se propaga segundo Z, o campo E pode oscilar em


qualquer direcção no plano XY. A direcção em que E oscila é denom-
inada a polarização da onda. Se a direcção de E não varia então a
polarização diz-se linear. Se a direcção de E gira em redor da direcção
de propagação a polarização diz-se circular. Estando um observador de
frente para a onda, a polarização circular é negativa se E gira no sentido
horário e positiva se gira no sentido oposto. Assim as equações (16.12)
e (16.22) representam uma onda que se propaga segundo Z e está lin-
earmente polarizada segundo a direcção X.

4. A amplitude máxima dos campos eléctrico e magnético estão rela-


cionadas via, E0 = cB0

5. Não existem limites para a frequência ou o comprimento das ondas EM,


contudo a velocidade com que se propagam é fixa e igual a,

c = 2.99792458 × 108 ms−1 (16.26)

6. As ondas electromagnéticas não necessitam de nenhum meio para se


propagarem. Podem assim propagar-se no vazio.

• Chama-se a atenção que a corrente de deslocamento tem um papel


crucial na propagação das ondas EM. Sem ela não é possível o ciclo em
que a variação de B gera E e a variação de E gera B.
• Influenciado pelos estudos de Fizeau e Foucault que mediram a veloci-
dade da luz, Maxwell lançou a hipótese de que a luz é uma onda electromag-
néticas. Concluiu ainda que existem outras ondas electromagnéticas com
frequências muito diferentes da luz visível.

16.3 Energia em ondas electromagnéticas


• Vimos que a energia armazenada num campo electromagnético é dada pela
equação 13.22,

0 E 2 B2
w= + . (16.27)
2 2µ0

125
16.3. ENERGIA EM ONDAS ELECTROMAGNÉTICAS


• Como numa onda EM E = cB e c = 1/ µ0 0 , a densidade de energia
pode ser escrita como,
0 E 2 E2 0 E 2 0 E 2
w= + = + = 0 E 2 . (16.28)
2 2µ0 c2 2 2

• De modo análogo,
0 c2 B 2 B2 B2 B2 B2
w= + = + = . (16.29)
2 2µ0 2µ0 2µ0 µ0
• Ou seja metade da energia é transportada pelo campo eléctrico e a outra
metade pelo campo magnético.
• Seja P a potência por unidade de área (perpendicular à direcção de
propagação) transportada por uma onda electromagnética que viaja na di-
recção do eixo Z. Num intervalo de tempo dt a onda percorre uma distância
cdt.
• Então uma secção com área A na frente de onda (portanto perpendicular
a Z) varre um volume elementar dV = Acdt que contém uma energia,
dW = wdV = 0 E 2 Acdt. (16.30)
• Então da definição de P ,
dW 0 E 2 Acdt
P = = ,
Adt Adt
logo
P = 0 E 2 c, (16.31)
usando o facto de que E = cB podemos escrever,
EB
P = 0 cEcB = 0 c2 EB = , (16.32)
µ0
que indica a potência instantânea por unidade de área transportada por uma
onda EM.
• A potência máxima é dada por,
E0 B0
P0 = , (16.33)
µ0
onde E0 e B0 são respectivamente as amplitudes máximas de E e B.
• A potência média (chamada a intensidade da onda) é dada por,
E0 B0 0 cE02 cB 2
S=P = = = . (16.34)
2µ0 2 2µ0

126
Aula 17

Introdução á mecânica quântica

Sumário:
- Probabilidade
- A função de onda e a equação de Schrödinger
- Descrição duma partícula livre
A hipótese de De Broglie

17.1 Probabilidade
• Em mecânica clássica, conhecidas as forças que actuam numa partícula
a evolução no tempo da sua posição é dada pela equação F = ma (em
certos casos, o mesmo é possível se se conhecer a energia total da partícula,
Et = Ec + Ep )
• Por outras palavras a equação do movimento permite encontrar a posição
da partícula no instante t
• Em mecânica quântica conhecida a energia duma partícula tudo o
que se consegue calcular é a probabilidade de encontrar a partícula
numa determinada posição e num determinado instante t
• A probabilidade de no instante t, encontrar a partícula no volume
dxdydz que fica na vizinhaça do ponto (x, y, z) é dada por,
|Ψ(x, y, z, t)|2 dxdydz (17.1)
onde Ψ é a chamada função de onda da partícula
17.2 A equação de Schrödinger
• A evolução da função de onda Ψ(x, y, z, t) de uma partícula de massa m
sujeita a um potencial V , é dada pela equação de Schröndinger,
h2 h ∂Ψ
− 2
∇2 Ψ + V Ψ = i (17.2)
8mπ 2π ∂t

127
17.2. A EQUAÇÃO DE SCHRÖDINGER

ou numa forma mais explícita,

h2 ∂2 ∂2 ∂2
 
h ∂Ψ
− + + Ψ+VΨ=i (17.3)
8mπ 2 ∂x2 ∂y 2 ∂z 2 2π ∂t

onde h = 6.626 × 10−34 Js é a constante de Planck


• Podemos perguntar porquê esta equação? De onde veio? A resposta é
semelhante à pergunta análoga, mas raramente feita, de onde veio a equação
F = ma?
• Na realidade cada uma destas equações saiu da cabeça do seu autor
Schröndinger e Newton, respectivamente. O porquê da sua forma ninguém
sabe mas continuam a ser usadas porque na sua esfera de validade continuam
a prever números que estão de acordo com os outros números que se medem
na Natureza, ou seja descrevem correctamente as propriedades da
matéria duma forma quantitativa.
• Não o faremos, mas pode-se mostrar que a estrutura da equação de
Schröndinger é igual à da energia total de uma partícula, ou seja Ecinética +
Epotencial = Etotal , deste modo temos as seguintes correspondências,

h2
− ∇2 Ψ −→ Ecinética ,
8mπ 2
V Ψ −→ Epotencial ,
h ∂Ψ
i −→ Etotal .
2π ∂t

• Uma pequena nota sobre o facto da equação de Schrödinger dependente



do tempo, ser uma equação complexa (devido à presença de i = −1). A
função de onda Ψ é composta por duas partes, uma real a outra imaginária.
• Nesta disciplina não vamos necessitar de estudar a evolução temporal
da função de onda, assim a equação de Schrödinger independente do
tempo e a uma dimensão tem a forma mais simples,

h2 d2
− Ψ + V Ψ = EΨ (17.4)
8mπ 2 dx2

onde E é a energia total da partícula.

128
17.3. PARTÍCULA LIVRE

|Ψ(x)|2
• Conhecida a forma da energia po-
tencial V da partícula podemos usar
a equação anterior para determinar a x1 x2 x
sua função de onda, e concomitante-
mente a probabilidade de encontrar a Área debaixo
partícula na vizinhança dx dum qual- |Ψ(x)| 2
da curva é igual a 1

quer ponto x x =+

8
! |Ψ(x)|2 dx=1
x=-

8
x

• Vamos em seguida estudar três exemplos que ilustram o cálculo de Ψ,


para uma partícula livre, uma partícula que se move num potencial
quadrado em 1D e em 3D.

17.3 Partícula livre


• Uma partícula livre que se move sem a influência de qualquer
campo de força tem uma energia potencial constante, que por simpli-
cidade faremos igual a zero. Neste caso a eq. de Schrödinger é dada por,

h2 d2
− Ψ = EΨ
8mπ 2 dx2
d2 8mπ 2
 
Ψ = − E Ψ
dx2 h2
d2
Ψ = −k 2 Ψ (17.5)
dx2
onde k é uma constante dada por,
r
8mπ 2
k= E (17.6)
h2
• Uma função que derivada duas vezes é proporcional a ela própria é a função
cos (ou sin), e como tal,

Ψ(x) = A cos(kx), (17.7)

é uma solução da equação (17.5).


• Na figura estão representadas algumas funções de onda para diferentes
valores de E. Quanto maior a energia E da partícula livre menor é o compri-
mento de onda λ da sua função de onda Ψ(x). A energia duma partícula
livre pode variar continuamente.

129
17.3. PARTÍCULA LIVRE

comprimento de onda diminui


Ψ(x, 9E0) 0
x
-A

energia aumenta
Ψ(x, 4E0) 0
x
-A
A
Ψ(x, E0) 0
x
-A

• A hipótese de De Broglie afirma que a (função de) onda associada


a uma partícula com momento p tem um comprimento de onda dado por,

λ = h/p. (17.8)

• Recordando que o número de onda k é definido por, k = 2π/λ podemos


escrever,
r
hk h 8mπ 2 √
p= = E = 2mE (17.9)
2π 2π h2
2
p 2
• Como Ec = mv2 = 2m verifica-se que a energia total da partícula é igual
à sua energia cinética, como seria de esperar

130
Aula 18

Sumário:
- Movimento duma partícula num tubo (1D)

- Movimento duma partícula num cubo (3D)

- Efeito de túnel

18.1 Partícula num Potencial Quadrado,


Unidimensional
Poço de potencial 1D

V(x)

V0

Electrão com
energia E < V0

-L/2 L/2 x

Região II Região I Região III


V(x)= V0 V(x)= 0 V(x)= V0

• Consideremos uma partícula que se move num tubo de comprimento L.


A partícula move-se livremente no interior do tubo excepto nas extremidades,
onde actua na partícula uma força que a empurra de novo para o interior do
tubo. Podemos descrever a acção desta força através do seguinte potencial:

0 −L/2 < x < L/2
V (x) =
V0 x < −L/2, x > L/2

131
18.1. PARTÍCULA NUM POTENCIAL QUADRADO, UNIDIMENSIONAL

• Podemos então dividir o espaço em três regiões e resolver a eq. de


Schrödinger para cada uma delas.
• Na região I (−L/2 < x < L/2) como V = 0 o comportamento é
igual ao descrito anteriormente duma partícula livre, donde se recorda que
Ψ(x) = A cos(kx) era uma solução da equação de onda. Outra solução é
Ψ(x) = B sin(kx) e uma solução geral pode ser escrita combinando estas
duas soluções

Ψ(x) = A cos(kx) + B sin(kx). (18.1)

• Na região II (x < −L/2) como V = V0 temos,


h2 d2
− Ψ + V0 Ψ = EΨ
8mπ 2 dx2
d2 8mπ 2
 
Ψ = (V0 − E) Ψ
dx2 h2
d2
2
Ψ = α2 Ψ, (18.2)
dx
onde α é uma constante dada por,
r
8mπ 2
α= (V0 − E). (18.3)
h2
• Comparando esta equação diferencial com a eq. (17.5) vemos que têm
a mesma forma excepto o sinal −, o que implica que as funções cos, ou sin
já não possam ser suas soluções.
• No entanto as funções Ceαx ou De−αx são soluções possíveis (pois
a segunda derivada é proporcional à própria função) e tal como anterior-
mente uma combinação destas duas descreve uma solução geral da equação
de Schrödinger na região II,

Ψ(x) = Ceαx + De−αx (18.4)

• Analisando esta função observa-se que quando x → −∞, De−αx diverge o


que não se pode verificar pois caso contrário a probabilidade de encontrar a
partícula nessa região também divergiria, então D = 0.
• Na região III (x > L/2) como V = V0 temos um comportamento
semelhante ao da região II com uma solução dada por,

Ψ(x) = F eαx + Ge−αx , (18.5)

e por razões análogas F = 0.

132
18.1. PARTÍCULA NUM POTENCIAL QUADRADO, UNIDIMENSIONAL

• A função de onda válida nas 3 regiões é então dada por,



 Ceαx x < −L/2
Ψ(x) = A cos(kx) + B sin(kx) −L/2 < x < L/2 , (18.6)
Ge−αx x > L/2

q q
2 8mπ 2
onde α = 8mπ h2
(V0 − E) e k = h2
E.
• Se V0 → ∞ então α → ∞ e ambas as exponenciais se anulam, ficando
só,

 0 x < −L/2
Ψ(x) = A cos(kx) + B sin(kx) −L/2 < x < L/2 (18.7)
0 x > L/2

• De modo a garantir a continuidade da função de onda na fronteira entre


as regiões temos que,
 
ΨI (−L/2) = ΨII (−L/2) A cos(−kL/2) + B sin(−kL/2) = 0

ΨI (L/2) = ΨIII (L/2) A cos(kL/2) + B sin(kL/2) = 0

da soma e da diferença das duas equações conclui-se respectivamente que,



cos(kL/2) = 0
,
sin(kL/2) = 0

logo

kL/2 = nπ/2 n ímpar π
⇔k=n com n = 1, 2, 3, 4, . . . (18.8)
kL/2 = nπ/2 n par L
q
8mπ 2
• Recordando que k = h2
E podemos escrever,
r
8mπ 2 nπ
2
E =
h L
(nh)2
E = (18.9)
8mL2
• Concluímos então que a energia duma partícula confinada por um
potencial quadrado infinito só pode ter alguns valores discretos, i.e está
quantificada, En=1 = h2 /8mL2 , En=2 = 4h2 /8mL2 , . . . ,

E n = n2 E 1 (18.10)

133
18.2. PARTÍCULA NUM POTENCIAL QUADRADO, TRIDIMENSIONAL

• Estes valores de energia correspondem às funções de onda cujos com-


primentos de onda são dados por,

λ = 2L/n com n = 1, 2, 3, 4, . . . (18.11)

ou seja as funções de onda são ondas estacionárias.


• Como ilustra a figura seguinte no estado quântico de energia mais baixa
(também chamado o estado fundamental) a probabilidade (o quadrado da
função de onda) é máxima para x = 0. Já no segundo estado quântico de
energia a probabilidade é máxima para x = ±L/4.
Estado quântico #1 Estado quântico #2
2
h h2
E = 1× E =4×
8mL2 8mL2

Ψ(x)
1 Ψ(x)
2

2 2
|Ψ(x)|
1
|Ψ(x)|
2

x=–L/2 x=0 x=+L/2 x=–L/2 x=0 x=+L/2

• Usando uma escala de cinzentos para indicar a variação da probabili-


dade, onde mais escuro é igual a mais provável e vice versa, podemos repre-
sentar a mesma informação em 1D como na figura seguinte.

2º estado quântico En=2 = 4h2/(8m L2)

Estado fundamental En=1 = h2/(8m L2)

• Ou seja se a partícula estiver no estado fundamental com energia E1 é


mais provável encontrá-la no meio do tubo. Se a partícula tiver energia E2 é
mais provável encontrá-la a 1/4 e a 3/4 do comprimento do tubo, etc.
18.2 Partícula num Potencial Quadrado,
Tridimensional
• Consideremos uma partícula que se move numa caixa cúbica de lado L. A
partícula move-se livremente no interior do cubo excepto nas paredes, onde
actua na partícula uma força que a empurra de novo para o interior do cubo.

134
18.2. PARTÍCULA NUM POTENCIAL QUADRADO, TRIDIMENSIONAL

Podemos descrever a acção desta força através dum potencial tridimensional


V (x, y, z) que é zero em todo espaço excepto nas paredes da caixa.
• Da resolução da eq. de Schrödinger em três dimensões, obtém-se a
seguinte função de onda dentro da caixa,
 n πx   n πy   n πz 
x y z
Ψnx ,ny ,nz (x, y, z)) = A sin sin sin , (18.12)
L L L
onde os números quânticos nx , ny e nz são inteiros que variam entre 1 e ∞,
que resultam de 3 números de onda distintos, um para cada dimensão, kx , ky
e kz e quantificados,
π
ki = n i com n inteiro, (18.13)
L
sendo i = x, y ou z.
• A figura seguinte ilustra |Ψ|2 ou seja a probabilidade de encontrar a
partícula dentro do cubo, para três estados quânticos distintos com {nx , ny , nz }
igual a {1, 1, 1}, {1, 2, 1}, {1, 1, 2} e {1, 1, 2}. Cada um destes estados tem
uma função de onda distinta.
Z Probabilidades de encontrar uma partícula
numa caixa de potencial de lado L, nos 3
primeiros estados quânticos
{nx, ny, nz} = {1,1,1}
|Ψ111(x,y,z)|2
= {2,1,1}
Y
= {1,2,1}
= {1,1,2}

A probabilidade é maxima nas zonas mais


escuras.
X
Z Z
Z

Y Y

|Ψ112(x,y,z)|2 |Ψ211(x,y,z)|2
X X |Ψ121(x,y,z)|2

• Tal como no caso 1D as zonas mais escuras assinalam onde a probabil-


idade é maior e as mais claras onde é menor.
• Assim quando a partícula se encontra no estado quântico {1,1,1} a
probabilidade de a encontrar é máxima no centro da caixa. No estado {2, 1, 1}
há duas zonas distintas ao longo do eixo x com probabilidade máxima e para
o estado {1, 2, 1} essas duas zonas são ao longo do eixo y e ao longo do eixo
z para o estado {1, 1, 2}.
• Da resolução da eq. de Schrödinger resulta também a seguinte expressão

135
18.2. PARTÍCULA NUM POTENCIAL QUADRADO, TRIDIMENSIONAL

para a energia de cada estado da partícula,

h2
n2x + n2y + n2z .

E(nx , ny , nz ) = 2
(18.14)
8mL

• A dependência da energia de 3 valores inteiros nx , ny e nz conjugada com


a simetria do cubo permite a existência de diferentes estados quânticos
com a mesma energia, a que se chamam estados degenerados.
• Vejamos a energia do estado fundamental é,

h2 2 2 2
 3h2
E(1, 1, 1) = 1 + 1 + 1 = , (18.15)
8mL2 8mL2

enquanto que os três estados {2, 1, 1}, {1, 2, 1} e {1, 2, 1} têm a mesma energia

h2 2 2 2
 6h2
E(2, 1, 1) = E(1, 2, 1) = E(1, 1, 2) = 2 + 1 + 1 = , (18.16)
8mL2 8mL2

• A simetria é crucial para a ocorrência de degenerescência. Se o cubo


fosse esticado na direcção de x, formando-se um paralelepípedo, a energia do
estado {2, 1, 1} seria diferente (e inferior) da dos estados {1, 2, 1} e {1, 1, 2}.
• Na figura seguinte está indicada a degenerescência dos 66 primeiros esta-
dos de energia do poço de potencial cúbico. A energia varia desde 3h2 /(8mL2 )
até 34h2 /(8mL2 ).
7
(3,1,1) (2,2,2)
(2,2,1) (1,3,1)
6 (2,1,2) (1,1,3)
(1,2,2)
5
Degenerescência

(2,1,1)
(1,2,1)
4 (1,1,2)

2 (1,1,1)

0
0 5 10 15 20 25 30 35
Energia em unidades de h2/8mL 2

136
18.3. EFEITO DE TÚNEL

• Usando a eq. (18.13) podemos escrever a eq. (18.14) na seguinte forma,


h2
n2x + n2y + n2z

E(nx , ny , nz ) = 2
8mL
h2 π 2 2 2 2

= n x + n y + n z
8mπ 2 L2
h2 2 2 2

= k + k + k
8mπ 2 x y z
2
h
= k2, (18.17)
8mπ 2
onde k 2 = kx2 + ky2 + kz2 é o número de onda da função de onda. Usando
a hipótese de De Broglie (17.8) podemos ainda simplificar mais a expressão
anterior,
 2
1 hk
E =
2m 2π
1 2
= p
2m
1 2
= mv , (18.18)
2
que é a energia cinética duma partícula com massa m e velocidade v i.e., a
energia duma partícula que se move dentro do cubo é só energia cinética.
No entanto ao contrário da partícula quântica livre, a energia cinética da
partícula quântica presa no cubo não pode ter qualquer valor. Apenas são
permitidos os valores discretos dados pela eq. (18.14).
18.3 Efeito de Túnel
• O que prevê a mecânica quântica quando uma partícula livre, encontra
uma barreira de potencial?
• Como vimos já anteriormente, é pela equação de Schrödinger que pode-
mos descrever o estado da partícula, calculando a sua função de onda. A
resolução deste problema tem muitas semelhanças com o poço de potencial
rectangular.
Região I Região II Região III
• Assim começa-se por dividir o
espaço em 3 regiões calculando a V(x) Barreira
função de onda em cada uma delas de
potencial
ΨI (x), ΨII (x) e ΨIII (x), e depois Electrão
com energia E
assegura-se que na fronteira entre V0
duas regiões a função de onda é V(x) =0 V(x)= 0
suave e continua.
0 d x

137
18.3. EFEITO DE TÚNEL

• O potencial ilustrado na figura anterior pode escrever-se como



 0 x<0
V (x) = V0 0 < x < d (18.19)
0 x>d

• Inserindo este potencial na eq. de Schrödinger independente do tempo,

h2 d2
− Ψ(x) + V (x)Ψ(x) = EΨ(x) (18.20)
8π 2 m dx2
• Temos que na região I, o electrão se move como uma partícula livre (i.e
V (x) = 0) com energia total E e como pode ser reflectido pela barreira de
potencial, verifica-se que é correctamente descrito por uma função de onda
que é a soma duma onda incidente com outra reflectida,
q
2
ΨI (x) = Aeikx + Be−ikx onde k = 8πhmE2

incidente ref lectida (18.21)


→ ←

• Na região II, dentro da barreira, o potencial é V (x) = V0 e como também


pode haver reflexão à saída da barreira em x = d, verifica-se que uma solução
correcta é também dada por uma função de onda algo semelhante à anterior,

q
ik0 x −ik0 x 0 8π 2 m(E−V0 )
ΨII (x) = Ce + De onde k = h2 (18.22)
→ ←

• Note-se que k 0 é um número imaginário devido a E < V0 e como tal


ΨII é apenas uma soma de duas exponenciais reais, pois escrevendo k 0 = iα
vem,

ΨII (x) = Ceαx + De−αx (18.23)

• Finalmente na região III, V (x) = 0, o electrão move-se outra vez como


uma partícula livre, mas não havendo nenhuma zona de transição que cause
reflexões, verifica-se que a descrição correcta é dada por uma função de onda
que se propaga só para a direita,
q
2
ΨIII (x) = F e ikx
onde k = 8πhmE 2
(18.24)

138
18.3. EFEITO DE TÚNEL

• Resumindo os resultados obtidos temos,



 Aeikx + Be−ikx x < 0
Ψ(x) = Ceαx + De−αx 0 < x < d , (18.25)
ikx
Fe x>d

q q
2
0 −E)
onde k = 8π 2 mE
h2
e α = 8π m(V h2
.
• Os coeficientes B, C, D e F podem escrever-se em função de A, garantindo
que nas zonas de transição (x = 0 e x = d) a função de onda é

continua −→ ΨI (0) = ΨII (0) e ΨII (d) = ΨIII (d)

e suave −→ Ψ0I (0) = Ψ0II (0) e Ψ0II (d) = Ψ0III (d)

• Depois de algumas contas para encontrar os coeficientes B, C, D e F ,


podemos calcular a probabilidade de transmissão Ptr que indica a proba-
bilidade dum electrão com energia total E atravessar a barreira de potencial
V0 ,

|F |2 4 VE0 (1 − VE0 ) x −x
Ptr = = h 2 i Nota: sinh(x)= e −e
2
|A|2 sinh2 8π m(V0 −E)
d + 4 VE0 (1 − E
)
h V0

(18.26)
1
Probabilidade de transmissão

• A dependência deste parâmetro com 0.8


d = 1A
o

E/V0 está ilustrada ao lado para 3 bar- 0.6

reiras de potencial de altura V0 = 1eV 0.4


o
d = 4A

mas de larguras 10−10 m, 4 × 10−10 m 0.2


o
d = 8A

e 8 × 10−10 m, respectivamente.
0 1 2 3 4 5
E/V0 com V0 = 1 eV

• Para d = 1Angstrom = 10−10 m, um electrão com energia de apenas


10% V0 , tem 60% de probabilidade de passar a barreira de potencial.
• A probabilidade de passagem quando E < V0 é substancialmente re-
duzida para as barreiras mais largas, mas repare-se no exemplo dado onde
ainda continua diferente de zero quando a largura aumenta 4 ou 8 vezes.
• Note-se que este efeito é puramente quântico pois classicamente o
electrão seria totalmente reflectido.
• Quando E < V0 é como se o electrão passasse por um ‘túnel’, daí
o nome Efeito de Túnel para este fenómeno quântico onde as energias do

139
18.3. EFEITO DE TÚNEL

electrão E, e da barreira V0 , são bem definidas, não sendo este efeito


devido a nenhuma flutuação misteriosa de energia que permita ao
electrão ‘passar por cima’.
• Também se pode calcular uma probabilidade de reflexão, que é facil-
mente visualizada no gráfico anterior pois a soma da probabilidade de reflexão
com a probabilidade de transmissão tem de ser igual a 1.
• Por outras palavras, sempre que no gráfico anterior Ptr 6= 1 significa
que uma parte da função de onda foi reflectida pela barreira de potencial.
• Repare-se noutro efeito quântico quando E > V0 onde ainda é possível
que o electrão seja reflectido pela barreira de potencial, apesar de
ter uma energia superior a esta, o que nunca poderia acontecer se a descrição
do movimento do electrão fosse clássica.

140
Aula 19

Sumário:
- Um electrão de valência num sólido:

- Um sólido unidimensional
- Bandas de energia

- Muitos electrões de valência num sólido:

Spin
O princípio de exclusão de Pauli

19.1 Um sólido unidimensional


• Na aula anterior vimos que quando o movimento duma partícula é confinado
a uma região limitada do espaço, a mecânica quântica prevê que a energia
total da partícula não pode variar continuamente.
• No movimento num tubo 1D a energia da partícula (eq. 18.9) depende
quadraticamente do número de onda k,
h2 2
E= k , (19.1)
8mπ 2
sendo k um número discreto.
• Graficamente podemos representar a dependência de k da energia como,
E(k)

141
19.1. UM SÓLIDO UNIDIMENSIONAL

• Pretendemos agora estudar o que se passa com um electrão de valência


no interior sólido. Também o movimento deste electrão está no máximo
limitado ao volume do sólido, e no mínimo à orbita em torno do átomo a que
pertence.

• O problema a 3D é muito complexo. No entanto podemos aprender


muitas das características do movimento do electrão num sólido, estudando
o que se passa num modelo ideal dum sólido em 1D.

• Recordemos que os electrões de valência são aqueles que estão mais


afastados do núcleo do átomo.

• Da (eq. 3.4) vemos que a energia potencial eléctrica dum electrão de


valência é inversamente proporcional à distância do electrão ao núcleo, ten-
dendo para −∞ quando r tende para zero. A figura seguinte ilustra esta
dependência,

Ep(r)=-Ze2/(4π ε0 r)

0
r

• Se dois átomos isolados se aproximarem, o electrão de valência do átomo


1, além do campo eléctrico deste átomo sente também a influência do campo
eléctrico do átomo 2. Para distâncias inter-atómicas suficientemente peque-
nas a energia potencial dos dois átomos reduz-se na região entre eles. Se
mais átomos se aproximarem uns dos outros para formar um sólido em 1D a
energia potencial na região inter-atómica baixa ainda mais. A figura seguinte
ilustra este processo.

142
19.1. UM SÓLIDO UNIDIMENSIONAL

Ep(r) Ep(r)

r r

2 átomos 3 átomos

Ep(r) Ep(r)

r r

4 átomos 30 átomos

• Para modelar um sólido 1D é necessário introduzir na equação de


Schrödinger a energia potencial do tipo indicado na figura anterior. Contudo
a obtenção duma solução da eq. de Schrödinger é mais expedita matemati-
camente considerando uma energia potencial mais simples, como ilustra a
figura seguinte, que é uma sucessão de barreiras de potencial quadradas de
largura b intercaladas por poços de potencial quadrados de largura a. Este é
o modelo de Kronig-Penney.
Ep(r)

V0

Electrão
com
energia
E < V0

0
-(a+b) -b 0 a a+b r

• Após resolver a eq. de Schrödinger em cada uma destas regiões (poço


e barreira) em separado, impõe-se que as funções de onda obtidas sejam
continuas e suaves na fronteira das duas regiões (tal como fizemos anterior-
mente). Mesmo neste modelo ideal os cálculos são algo mais elaborados do

143
19.2. SPIN

que os exemplos da aula anterior. Diremos apenas que a função de onda dum
electrão que se move neste potencial periódico tem a forma,
Ψ(x) = eikx uk (x), (19.2)
o termo eikx refere-se a uma onda que se move pelo cristal, enquanto que o
termo uk (x) é uma função de período (a + b) que resulta do electrão se mover
no potencial periódico do cristal.
• A figura seguinte ilustra a forma da energia do electrão em função de k
que se obtém destes cálculos.

E(k)

banda
permitida

banda
proibida

Energia em função de k
dum electrão que se
move num cristal 1D,
segundo o modelo
de Kronig-Penney

4π 3π 2π π 0 π 2π 3π 4π k
− a − a − a −a a a a a

• Uma conclusão muito importante, e que é de validade geral, é que agora


existem bandas de energia que não são permitidas, ou seja o electrão não pode
estar em nenhum estado quântico cuja energia pertença a uma das bandas
proibidas de energia.
• Enquanto um electrão que se move num só poço de potencial quadrado
tem níveis de energia que crescem quadraticamente com k, e que estão tanto
mais próximos uns dos outros quanto maior for a largura do poço (Ek ∝ 1/L),
num cristal devido ao potencial iónico regular, os estados de energia permi-
tidos são agrupados em bandas permitidas, sendo estas bandas intercaladas
perto de k = nπ/a, por bandas proibidas. Isto significa que funções de onda
com um comprimento de onda múltiplo de 2a/n não se podem propagar no
cristal.
19.2 Spin
• Sem nos debruçarmos muito sobre o conceito de spin, diremos apenas
que classicamente pode parecer como uma propriedade relacionada com uma

144
19.2. SPIN

rotação intrínseca da partícula, no entanto após analisar as características do


spin verifica-se que não se encontra nenhum paralelo com a rotação clássica.
• O spinp é o momento angular intrínseco duma partícula quântica cujo
h
módulo é s(s + 1) 2π sendo s (também chamada de spin) uma constante
sem dimensões específica de cada partícula, por exemplo para um electrão
s = 1/2, para um fotão (o quanta de energia duma onda electromagnética)
s = 1.
• Tratando-se dum momento angular, o spin é um vector.
• Por exemplo um electrão pode ter spin + 12 ou spin − 12 significando que
a componente segundo o eixo z aponta para cima ou para baixo.
Spin + 1_
S = "3_ h_
2

S = "3_ h_
Sz = 1_ h_
2 2π 2 2π
2 2π Sz = -1
_ _h
2 2π
Spin - 1_
2

• O spin é uma propriedade crucial para explicar o comporta-


mento de sistemas com muitas partículas.
• As partículas cujo spin é metade de um inteiro, s = 12 , 32 , . . .,
chamam-se fermiões.
• As partículas cujo spin é inteiro, s = 0, 1, 2, . . ., chamam-se bosões.
• Verificou-se que quando muitas partículas quânticas estão confinadas
num poço de potencial estas distribuiem-se pelos diferentes níveis de energia
de maneiras diferentes consoante o valor do seu spin.
• O príncipio de exclusão de Pauli diz que dois fermiões indis-
tinguiveis não podem ocupar o mesmo estado quântico.
• Este princípio não se aplica aos bosões podendo um número arbitrário
destas partículas ocupar o mesmo estado quântico.
• Relembra-se que N particulas num mesmo estado quântico são N partícu-
las que são descritas exactamente pela mesma função de onda.

145
19.2. SPIN

146
Aula 20

Sumário:

- Condutor, isolador e semicondutor

- Semicondutor intrínseco e extrínseco

20.1 Condutor, isolador e semicondutor


• Vimos antes que, segundo a equação de Schrödinger, a energia dum electrão
de valência que se move num sólido só pode ter certos valores que se situam
dentro de bandas de energia permitidas e que estas bandas estão intercaladas
por bandas de energia proibida.
• Seguidamente coloca-se a questão como se comportam todos os electrões
de valência do sólido. Ocupam todos o estado de energia fundamental ou
distribuem-se pelos vários níveis de energia? Se ocupam vários níveis, como
é feita essa ocupação?
• É conveniente termos uma noção do número, ou melhor da ordem de
grandeza típica de electrões de valência num sólido. Logo na Pág.10 da
Sec.1.6 fizemos um cálculo muito semelhante para o Cobre. Vejamos então
quantos electrões de valência há no Cobre.

Sabe-se que a densidade do Cobre é ρ = 8920kgm−3 . Cada


átomo de Cobre tem 1 electrão de valência e uma massa atómica
ACu = 63.546. Qual a densidade electrões de valência no Cobre e
quantos destes electrões existem num cm3 ?

Como cada átomo tem 1 electrão de valência calculando a densidade do número


de átomos nátomos , i.e. o número de átomos por unidade de volume, obtemos a

147
20.1. CONDUTOR, ISOLADOR E SEMICONDUTOR

densidade do número de electrões de valência Nev ,

ρ
nátomos =
ACu u
8920
=
63.546 1.66 × 10−27
= 8.47 × 1028 átomos/m3 , (20.1)

logo existem 8.47 × 1028 electrões de valência por metro cúbico de Cobre. Assim
num cm cúbico há 8.47 × 1022 electrões de valência.
• Modelando um cubo de Cobre com 1 cm de lado com um poço de
potencial cúbico é necessário distribuir da ordem de 1022 partículas pelos
níveis de energia desse cubo.
• Pelo Princípio de Exclusão de Pauli, dois electrões só podem ter a
mesma função de onda se tiverem spins opostos. Um electrão tem que ter
spin +1/2 e o outro spin −1/2. Só deste modo podem ocupar o estado
quântico caracterizado pelos mesmos números quânticos {nx , ny , nz }.
• Tal implica que a ocupação electrónica dos primeiros 6 níveis de energia
decorra como ilustrado na seguinte tabela,
Número de electrões capazes
Números Energia em Número de electrões capazes de ser acomodados com energia
quânticos unidades de Número de de ser acomodados com esta inferior ou igual à energia
nx , ny , nz h2/8mL 2 estados energia (incluindo spin) deste nível
(1,1,1) 3 1 2 2
(1,1,2) (1,2,1)
6 3 6 2+6=8
(2,1,1 )
(1,2,2) (2,1,2)
9 3 6 2+ 6 + 6 = 14
(2,2,1)
(1,1,3) (1,3,1)
11 3 6 2 + 6 + 6 + 6 = 20
(3,1,1)
(2,2,2) 12 1 2 2 + 6 + 6 + 6 + 2 =22
(1,2,3) (1,3,2)
(2,1,3) (2,3,1) 14 6 12 2 + 6 + 6 + 6 + 2 + 12 = 34
(3,2,1) (3,1,2)

• A distribuição atrás exemplificada só pode ocorrer nas bandas de energia


permitida.
• Sendo esta distribuição feita à temperatura de zero kelvin, a energia do
último estado a ser preenchido distingue-se pelo nome de energia de fermi
EF . Este nível de energia tem direito a um nome próprio por ter um efeito
muito importante nas propriedades eléctricas dos sólidos (bem como noutras
propriedades).
• A figura seguinte ilustra o preenchimento das bandas de energia em três
tipos de sólidos, nomeadamente condutores, isoladores e semicondutores.

148
20.1. CONDUTOR, ISOLADOR E SEMICONDUTOR

Banda de Banda de
EF condução condução Banda de
condução
Banda Banda
EF Banda
proibida proibida ~3 eV EF ~1 eV
proibida
Energia

Banda de Banda de Banda de


valência valência valência

Banda Banda Banda


proibida proibida proibida

Banda Banda Banda


interior interior interior
completa completa completa

Condutor Isolador semicondutor

• Nela se vê que nos condutores a última banda de energia contendo elec-


trões não está totalmente preenchida. Tal implica que logo acima do nível de
fermi há níveis de energia que estão vazios. Sujeitando um condutor à acção
dum campo eléctrico a energia ∆E que esse campo vai dar aos electrões de
valência (electrões livres pois podem mover-se livremente pelo sólido metálico
como reflecte a eq. (19.2)) não pode ser absorvida por qualquer um destes
electrões.
• Apenas os electrões cuja diferença de energia entre o nível que ocupam
e o nível vazio mais próximo seja igual a ∆E podem absorver a energia do
campo eléctrico e participar assim no transporte de corrente eléctrica.
• Todos os electrões que estejam mais afastados, do próximo nível de
energia desocupado do que ∆E não podem absorver a energia do campo
eléctrico pois, tal implicaria que teriam de passar para um estado quântico
que já está ocupado, o que é proibido pelo principio de exclusão de Pauli.
• Resumindo só os electrões que estão afastados de ∆E do nível fermi EF
ou seja que EF − E 6 ∆E, é que podem conduzir corrente eléctrica.
• Os isoladores não conduzem corrente eléctrica, precisamente porque a
última banda de energia que contém electrões, está totalmente preenchida
e a largura da banda proibida que a separa da próxima banda permitida, é
muito superior a ∆E.
• Os semicondutores são um caso particular de isoladores em que a largura
da banda proibida é cerca de 3 vezes inferior à largura típica (3 eV) dum
isolador.
• Uma banda proibida bastante mais estreita permite que, quando a

149
20.2. EFEITO DAS IMPUREZAS DADORAS DO TIPO N

temperatura é superior a zero kelvin, alguns electrões da banda de valência


ganhem energia térmica suficiente para passar para a banda de condução. O
número de electrões que conseguem fazer esta transição, apesar de aumentar
exponencialmente com a temperatura, é contudo muito reduzido. O semi-
condutor puro, ou intrínseco, é sempre um mau condutor e em simultâneo
um mau isolador.

• Para aumentar a condutividade dum semicondutor intrínseco, procede-


se à sua dopagem com impurezas especificas.

• Na Natureza nunca se encontram quantidades significativas de matéria


no seu estado puro. Por exemplo, a areia duma praia contém enormes quan-
tidades de Silício, que é um semicondutor. No entanto o Silício na areia está
misturado com muitos outros elementos.

• Antes de se dopar um semicondutor, é necessário limpá-lo do maior


número possível de impurezas. A purificação do Silício tem de ser bastante
elevada. A maioria das substâncias é considerada extremamente pura se
contiver 1 átomo de impureza por cada milhão de átomos dessa substância.
No entanto o comportamento electrónico intrínseco do Silício só é observado
se a sua pureza for um milhão de vezes superior. A purificação do Silício é
um processo muito dispendioso e requer um considerável uso de energia.

• A dopagem do Silício (SI) extra-puro é um processo em que uma im-


pureza é adicionada ao Si de forma a que um átomo de Si da rede cristalina
é substituído pelo átomo da impureza. Então os estados quânticos na viz-
inhança da impureza alteram-se criando um electrão num nível de energia
muito próximo da banda de condução (chamada impureza do tipo N), ou
criando uma lacuna num nível de energia muito próximo do topo da banda
de valência (chamada impureza do tipo P). A um semicondutor dopado tam-
bém se chama extrínseco.

20.2 Efeito das Impurezas Dadoras do Tipo n

• A substituição dum átomo de Silício por outro de Fósforo (que tem mais
um electrão de valência que o Si, i.e. 5, e mais um protão) leva a que o
electrão extra do P ocupe o próximo estado de energia livre, que difere de
∆Ed dos estados de condução vazios do Si

150
20.3. EFEITO DAS IMPUREZAS ACEITADORAS DO TIPO P

(1)
• ∆Ed ≈ 0.044eV é muito inferior à ∆E d

largura da banda proibida ≈ 1eV que ∆E


é a energia necessária para um electrão kB T

de valência do Si passar para a banda Si Si Si P Si Si Si

de condução à temperatura ambiente.


(2)
• Deste modo a probabilidade do elec- ∆E d

trão do átomo de P transitar para os ∆E


estados de condução é muito elevada, kB T

dando ao Si um electrão de condução. Si Si Si P


+
Si Si Si

20.3 Efeito das Impurezas Aceitadoras do Tipo p


• A substituição dum átomo de Silício por outro de Alumínio (que tem menos
um electrão de valência que o Si, i.e. 3, e menos um protão) leva a que seja
criado um estado de valência vazio pelo Al, que difere de ∆Ea dos estados
ocupados de valência do Si
(1)

• ∆Ea ≈ 0.057eV também muito infe- kB T


∆E
rior à largura da banda proibida.
• Deste modo a probabilidade dum ∆E a
Si Si Si Al Si Si Si
electrão dum átomo de Si à tempera-
tura ambiente transitar para este es- (2)

tado aceitador é muito elevada, e o Si kB T


∆E
ganha uma lacuna na banda de valên-
cia. ∆E a
Si Si Si Al Si Si Si

• Qualquer dos casos gera um electrão capaz de transportar corrente


eléctrica. Assim se a adição de impurezas por dopagem for de 1 átomo
de impureza por 109 átomos de Silício, geram-se cerca de 1000 vezes mais
transportadores de carga do que os que ocorrem no Si intrínseco.
• O Silício dopado do tipo P ou do tipo N é crucial para a construção de
díodos, transístores bem como todos os componentes electrónicos de semi-
condutores.

151
Apêndice A

Dados úteis

Equivalência
Alfabeto Grego em Português
A α Alfa A
B β Beta B
Γ γ Gama G
∆ δ Delta D
E  Épsilon É
Z ζ Zeta DZ
H η Eta Ê
Θ θ Teta TH
I ι Iota I
K κ Capa C
Λ λ Lambda L
M µ Miu M
N ν Niu N
Ξ ξ Csi CS
O o Omicron Ó
Π π Pi P
P ρ Rô R
Σ σ Sigma S
T τ Tau T
Υ υ Ypsilon U
Φ φ Fi F
X χ Qui Q
Ψ ψ Psi PS
Ω ω Ómega Ô