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A banalidade do mal e as possibilidades da

educação moral: contribuições arendtianas

Marcelo Andrade
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Departamento de Educação

Introdução não são novos” e “não constituem uma raridade na


história”. No entanto,
Talvez se tenha tornado comum afirmar que vive-
mos em tempos difíceis ou, para usar uma expressão [...] mesmo no tempo mais sombrio temos o direito de
arendtiana, em “tempos sombrios”. Crise econômica esperar alguma iluminação, e que tal iluminação pode bem
e do sistema financeiro, crise de confiança nas ins- provir, menos das teorias e conceitos, e mais da luz incerta,
tituições, crise de valores, crise energética, crise de bruxuleante e frequentemente fraca que alguns homens e
sustentabilidade, mudanças climáticas e catástrofes mulheres, nas suas vidas e obras, farão brilhar em quase
ambientais, crises dos paradigmas, mudanças epis- todas as circunstâncias e irradiarão pelo tempo que lhes foi
temológicas, guerras e terrorismos, intolerâncias dado na terra (idem, ibidem).
religiosas e, não menos grave, crise do sistema edu-
cativo. Tempos tão difíceis ou sombrios que talvez já É com esse ponto de vista que gostaria de su-
tenhamos escutado a expressão crise de época, para gerir a retomada de um episódio marcante na vida
sinalizar que não vivemos simplesmente mais uma dessa pensadora perspicaz: o julgamento do oficial
época de crises. nazista Adolf Eichmann. Diante de um estranho
Seria legítimo, então, perguntar-nos sobre que réu, Hannah Arendt confrontou-se com as sombras
papel poderia desempenhar, nesses tempos sombrios, e as dificuldades de seu tempo. Talvez ela também
o pensamento educacional ou como ele nos poderia tenha pistas – luzes incertas – para pensar nossas
ajudar a compreender e a superar os desafios que se sombras; talvez possamos repensar com ela a tarefa
impõem. Arendt (1987, p. 7), ao analisar os horrores educativa, principalmente no que tange ao ensino e
do século passado, afirmava que os “tempos sombrios à difusão de valores morais. É nessa perspectiva que

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tratarei de analisar a obra arendtiana, com especial terem punido funcionários da burocracia nazista que
atenção aos livros Eichmann em Jerusalém e A vida ainda trabalhavam em órgãos do governo; a juventude
do espírito. alemã, acusada de teatralizar uma culpa coletiva. Fo-
ram necessários, a partir da segunda edição, revisões
Um conceito e muitas polêmicas e um pós-escrito para eliminar algumas passagens
mais duras ou mais difíceis de serem defendidas.
Eichmann em Jerusalém (Arendt, 1999) é resul- Ela foi “impelida a reconsiderar e repensar” (Kohn,
tado de um relato sobre o processo e o julgamento 2001, p. 15).
de Adolf Eichmann, realizado em Jerusalém em Registrar essa controvérsia tem como finalidade
1961. Talvez esta tenha sido a obra mais polêmica deixar claro que estamos entrando em uma discussão
de Hannah Arendt. Depois do célebre As origens do polêmica, envolvente e marcada por contradições.
totalitarismo (Arendt, 1989), Eichmann em Jerusalém No entanto, gostaria de destacar que “Hannah Arendt
significou sua perda de prestígio na intelectualidade não se reduz à banalidade do mal e ao processo Eich-
judaica em Israel, na Europa e nos Estados Unidos. Foi mann” (Kristeva, 2002, p.15) e que talvez a polêmica
considerado o livro mais polêmico em língua inglesa tenha sido “uma reação típica dos judeus alemães”
da década de 1960, levando em conta o número de (Correia, 2004, p. 88), tendo em vista principalmente
artigos, cartas públicas, debates, réplicas, tréplicas, a gravidade das afirmações e nem tanto algum erro
defensores e detratores que a obra envolveu (Assy, de interpretação.
2001a, p. 156).
Hannah Arendt tentou manter-se afastada dessa O “homem na cabine de vidro”:
repercussão. Ela respondeu apenas às críticas de ami- monstro ou palhaço?
gos próximos e de intelectuais que respeitava, como
foi o caso de Gershom Scholem, respeitado historiador A personalidade de Adolf Eichmann foi um dos
judeu que ela tanto apreciava. Scholem publicou uma pontos mais controvertidos enfrentados por Hannah
carta aberta, na qual afirma que Arendt não possuía Arendt, que o considerava um novo tipo de criminoso,
“amor pelo povo judeu” (Watson, 2001, p. 80). Ela um hosti humani generis (inimigo do gênero humano),
respondeu de maneira categórica, afirmando que não participante de um novo tipo de crime: assassinatos
havia negado sua identidade judaica, mas também não em massa num sistema totalitário. Esse novo tipo de
a apresentou como uma condição especial: criminoso só pode ser entendido a partir de uma nova
profissão: o burocrata. Para um burocrata, a função que
Sempre entendi minha condição de judia como um fato lhe é própria não é a de responsabilidade, mas sim a
inegável da minha vida e jamais pretendi mudar isso ou de execução (Correia, 2004, p. 93). Daí a reiterada
rejeitar tal condição. Nesse sentido, eu não “amo” os judeus, afirmação burocrática: eu só cumpro ordens.
nem “acredito” neles: simplesmente pertenço ao judaísmo, Esse foi o principal argumento de Eichmann:
naturalmente, para além de qualquer controvérsia ou con- “Não sou o monstro que fazem de mim. Sou uma víti-
testação. (Arendt apud Young-Bruehl, 1997, p. 299) ma da falácia” (Arendt, 1999, p. 269). O advogado de
defesa trabalhou com a hipótese de que “sua culpa [de
Lafer (2003) e Watson (idem) concordam que Eichmann] provinha de sua obediência, e a obediência
Hannah Arendt desagradou a muitos: o povo judeu, é louvada como virtude. Sua virtude tinha sido abusada
acusado de falta de resistência e passividade; a elite pelos líderes nazistas. Mas ele não era membro do
judaica, acusada de ingenuidade e cumplicidade; o grupo dominante, ele era uma vítima, e só os líderes
povo alemão, acusado de omissão e conivência; os mereciam punição” (idem, ibidem). Obviamente, os
políticos alemães do pós-guerra, acusados de não juízes, a promotoria, a imprensa nem Arendt estavam

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A banalidade do mal e as possibilidades da educação moral

convencidos do argumento, mesmo que ele possa Esta é a tese central da autora com o conceito de
parecer plausível num primeiro momento. banalidade do mal. Arendt recusou de maneira firme
Eichmann apresentou-se como um homem virtuo­ qualquer explicação do nazismo que derivasse do
so – “minha honra é minha lealdade” (idem, p. 121) – e comportamento moral dos indivíduos ou da socieda-
seu único erro teria sido o de obedecer ordens e seguir de alemã. Entender a personalidade daquele oficial
leis, pois ele sempre tomou o cuidado de agir conforme nazista foi fundamental para Arendt negar qualquer
determinações superiores, comprovadas pelas normas ontologia ou patologia como teorias explicativas para
legais (idem, p. 109). Eichmann agia dentro dos res- o mal cometido.
tritos limites que as leis permitiam e supostamente
não entendia porque naquele tribunal era acusado de Há alguns anos, em relato sobre o julgamento de Eichmann
ser um criminoso. Para o réu, tudo não passava de um em Jerusalém, mencionei a “banalidade do mal”. Não quis,
golpe de azar, pois tinha sido um bom cidadão, porém com a expressão, referir-me a teoria ou doutrina de qualquer
num Estado assassino. Sorte teria, em sua lógica, um espécie, mas antes a algo bastante factual, o fenômeno dos
bom cidadão num Estado justo. atos maus, cometidos em proporções gigantescas – atos
De fato, Eichmann era um cumpridor de seus cuja raiz não iremos encontrar em uma especial maldade,
deveres; não se corrompia nem desrespeitava as patologia ou convicção ideológica do agente; sua perso-
normas vigentes; cumpria com eficiência o seu de- nalidade destacava-se unicamente por uma extraordinária
ver: encaminhar de maneira eficiente milhares de superficialidade. (Arendt, 1993, p. 145)
judeus para a morte. Hannah Arendt, ao enfatizar
essas características do réu, procurava demonstrar A normalidade de Eichmann assustou Arendt e
a construção de uma personalidade condicionada e colocou-a em busca de outros modelos explicativos
sem motivação aparente e, por isso mesmo, capaz para o mal, para além do determinismo histórico e da
das maiores barbaridades. “Eichmann [...] realizou o distorção ideológica do nazismo, negando as teorias
exercício da livre escolha como se fosse um animal do mal como patologia, possessão demoníaca, de-
condicionado, não agiu espontaneamente ou tomou terminismo histórico ou alienação ideológica. “Por
iniciativa, ele evitou a responsabilidade e não julgou. trás desta expressão não procurei sustentar nenhuma
Ele agiu como se fosse condicionado” (Kohn, 2001, tese ou doutrina, muito embora estivesse vagamente
p. 14). Outro traço marcante do réu era o seu apego consciente de que ela se opunha à nossa tradição de
às regras de bom comportamento, mostrando-se en- pensamento – literário, teológico ou filosófico – sobre
vergonhado e constrangido diante da lembrança de o fenômeno do mal” (Arendt, 1995, p. 5).
pequenos deslizes ou desobediências. Mesmo que Assim, Arendt inicia um longo percurso para
as desobediências significassem salvar vidas huma- demonstrar que o mal não pode ser explicado como
nas, Eichmann ficava visivelmente constrangido em uma fatalidade, mas sim caracterizado como uma
admiti-las (Souki, 1998, p. 93). possibilidade da liberdade humana. Nesse sentido,
Esses aspectos da personalidade de Eichmann ela demonstra o descompasso entre a personalidade
levaram Hannah Arendt a se convencer de uma das comum do réu e as dimensões monstruosas do mal por
afirmações do acusado: ele não era um monstro. Ao ele perpetrado. Eichmann não era um monstro, ainda
contrário, era um homem comum. E o mais assustador: que os resultados de suas ações fossem monstruosa-
tão comum quanto muitos outros. “O problema de mente macabros. Segundo psicólogos e sacerdotes
Eichmann era exatamente que muitos eram como ele, que examinaram Eichmann, o seu comportamento
e muitos não eram nem pervertidos, nem sádicos, mas “não é apenas normal, mas inteiramente desejável”,
eram e ainda são terrível e assustadoramente normais” “um homem de ideias muito positivas” (Arendt, 1999,
(Arendt, 1999, p. 299). p. 37). Essa era a revelação inesperada sobre aquele

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homem na cabine de vidro. Ele não era só normal, mente a dificuldade de se expressar espontaneamente
mas um bom pai de família, um filho exemplar e um e os clichês.
irmão dedicado.
A ideia de burocratas assassinos como dedicados Clichês, frases feitas, adesão a códigos de expressão e con-
pais de família era – e ainda é – uma constatação di- duta convencionais e padronizados têm função socialmente
fícil de ser aceita. Hannah Arendt confessou diversas reconhecida de nos proteger da realidade, ou seja, da exigên-
vezes que ficou perplexa com essa realidade (Arendt, cia do pensamento feita por todos os fatos e acontecimentos
1993, 1995, 1999). No entanto, ela preferiu trabalhar em virtude de sua mera existência. Se respondêssemos todo
com essa hipótese ao invés de considerá-la infame ou tempo a esta exigência, logo estaríamos exaustos; Eichmann
peça de cinismo. Eichmann poderia muito bem ser se distinguia do comum dos homens unicamente porque ele,
apresentado como um burocrata dócil e um assassino como ficava evidente, nunca havia tomado conhecimento
eficiente. de tal exigência. (Arendt, 1995, p. 6)

O governo nazista seria uma organização burocrática Eichmann admitia suas dificuldades de expressão:
cuidadosamente estruturada para absorver a solicitude do “Minha única língua é o oficialês” (Arendt, 1999,
pai de família na realização de quaisquer tarefas que lhe p. 61). Hannah Arendt, ironicamente, registra “a luta
fossem atribuídas e para dissolver a responsabilidade em heroica que Eichmann trava com a língua alemã, que
procedimentos de extermínio em que o perpetrador de um invariavelmente o derrota” (idem, ibidem). Através
assassinato era apenas a extremidade de um grupo de traba- do caso Eichmann, aprendemos “a lição da temível
lho. O pai de família, que despertaria em nós admiração e banalidade do mal, que desafia as palavras e o pen-
ternura em sua concentração no interesse dos seus, em sua samento” (idem, p. 274). No seu repertório de frases
consagração firme à mulher e aos filhos, em sua solicitude, feitas, Eichmann escondia-se na incomunicabilidade
preocupado basicamente com a segurança, teria se tornado com o pensamento alheio. Ele era incapaz de pensar e
um aventureiro. (Correia, 2004, p. 87) entender o ponto de vista do outro (Kohn, 2001, p. 14).
“Sua mente parecia repleta de sentenças prontas, ba-
A tarefa de Eichmann era organizar as deporta- seadas em uma lógica autoexplicativa, desencadeada
ções de judeus, levando-os diretamente para os campos em raciocínios dedutivos, mas que, todavia, andavam
de concentração. Era conhecido como um especialista em descompasso com o percurso da própria realidade”
na questão judaica. (Assy, 2001a, p. 139). As dificuldades de Eichmann
com a fala despertaram a ironia de Hannah Arendt
O homem Eichmann era o perfeito instrumento para levar (idem, p. 67): “Apesar de todos os esforços da pro-
a cabo a “solução final”: organizado, regular e eficiente motoria, todo mundo percebia que esse homem não
tal qual a empreitada de que ele estava encarregado. Na era um ‘monstro’, mas era difícil não desconfiar que
sua função de encarregado de transporte, ele era normal e fosse um palhaço”. “De minha parte, estava efetiva-
medíocre e, no entanto, perfeitamente adaptado ao trabalho mente convencida de que Eichmann era um palhaço:
que consistia em “fazer as rodas deslizarem suavemente”, no li com atenção seu interrogatório na polícia, de 3.600
sentido literal e figurativo. Sua função era tornar a “solução páginas, e não poderia dizer quantas vezes ri, ri às
final” normal. [...] Eichmann representava o melhor exemplo gargalhadas!” (Arendt, 1993, p. 137). No entanto,
de um assassino de massa que era, ao mesmo tempo, um Arendt (1999, p. 67) estava convencida de que “era
perfeito homem de família. (Souki, 1998, p. 92) essencial que ele fosse levado a sério”.
Afinal, quem era o homem naquela cabine de
Outra característica do réu chama a atenção de vidro? Bom cidadão, leal, obediente, responsável,
Hannah Arendt: a sua linguagem, mais especifica- eficiente, regular, organizado, burocrata, comum,

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normal, banal, superficial, incapaz para o pensamen- concepção kantiana, ainda que recuse uma condição de
to, acrítico, condicionado, desolado, desagregado, teoria ou doutrina para o seu novo conceito. Isso fica
deslocado, fracassado, frio, não emotivo, calculista, claro na carta em resposta às críticas de Sholem:
vaidoso, ambicioso, medíocre, mentiroso, cínico,
pervertido, sádico, inimigo do gênero humano, encar- É, sim, a minha opinião agora que o mal nunca é radical,
nação do nazismo, assassino ou monstro? São muitas que é apenas extremo e que não tem nem profundidade
as características que se poderia atribuir a Eichmann. nem sequer uma dimensão demoníaca. Apenas o bem tem
De um polo a outro, Hannah Arendt enfatiza as marcas profundidade e pode ser radical [...]. De fato você tem razão,
de caráter que se encontram no ponto mediano desses eu mudei de opinião e não falo mais de mal radical. (Arendt
contrastes, isto é, o burocrata, comum, normal, banal apud Souki, 1998, p. 101)1
e superficial. A percepção de que Eichmann era um
homem comum, de superficialidade e mediocridade O objetivo deste artigo não é analisar os movi-
aparentes, deixou Hannah Arendt atônita, ao avaliar mentos que levaram Arendt a essa mudança concei-
a proporção do mal por ele cometido. É a partir tual.2 O que importa é registrar que Hannah Arendt
dessa percepção que ela formula a sua concepção de estava convencida de que o mal não tem raízes, não
banalidade do mal. tem profundidade. O mal “é como um fungo, não
tem raiz, nem semente” (Kohn, 2001, p. 14), mas
O mal sem motivos, sem raízes, espalha-se sobre uma superfície específica, a massa
sem explicações de cidadãos inaptos para a capacidade de pensar e
incapazes de dar significado aos acontecimentos e aos
A controvérsia que Hannah Arendt traz para o próprios atos (Assy, 2001a, p. 152). Em Eichmann em
campo do pensamento moral passa, sem dúvida, pela Jerusalém, o mal não é radical, mas pode ser extremo;
afirmação de que o mal é algo banal. O tema fica ele é superficial, ainda que suas consequências sejam
ainda mais complexo porque ela abandona a consa- incalculavelmente desastrosas e monstruosas (Souki,
grada formulação kantiana de mal radical, defendida 1998; Assy, 2001b).
anteriormente. É importante notar também que a banalidade
do mal está circunscrita a um tipo de personalidade,
Hannah Arendt discutiu o ineditismo do problema do mal no tipificada em Eichmann. “Ele não era particularmente
século XX em As origens do totalitarismo, em termos do mal estúpido, nem moralmente insano, nem criminosamen-
radical. Subsequentemente retomou o tema do ineditismo te motivado, nem ideologicamente antissemita, nem
do mal na vigência do totalitarismo na sua análise do caso em qualquer sentido psicologicamente ‘anormal’”
Eichmann, expondo a sua visão sobre a banalidade do mal. (Kohn, 2001, p. 15). Eichmann não é um assassino
(Lafer, 2003, p. 187) ­convicto. O mal encontrado nele é banal porque não
tem explicação convincente, não tem motivação
Hannah Arendt formula um novo conceito e con- alguma, nem ideológica, nem patológica, nem demo-
traria uma tradição consolidada no pensamento moral níaca. Por isso, Hannah Arendt diz-se “vagamente
da qual ela se considerava profundamente devedora. consciente” (Arendt, 1995, p. 5) de que seu novo
Lafer (idem, p. 188) e Souki (1998, p. 133) afirmam
que há mais complementaridade do que oposição entre 1
  Esse mesmo trecho da carta aparece em Watson (2001,
a concepção de mal radical discutida em As origens p. 82).
do totalitarismo e a novidade da banalidade do mal 2
  Para entender a relação entre o mal radical e a banalidade
apresentada em Eichmann em Jerusalém. A meu ver, do mal no pensamento de Arendt, veja, em especial, os trabalhos
há evidências de que Arendt realmente abandona a de Bernstein (2002, 2004).

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conceito contradiz nossa tradição de pensamento sobre Primeiro, a expressão banalidade do mal não
o fenômeno do mal. quer ser uma justificativa para as monstruosidades
de Eichmann nem significa que Arendt negligencie a
A questão do mal não é, assim, uma questão ontológica, imputabilidade do réu (Assy, 2001b). Hannah Arendt
uma vez que não se apreende uma essência do mal, mas estava convencida de que Eichmann era responsável
uma questão da ética e da política. [...] O problema do mal pelos seus crimes e deveria ser punido. Ao descrever
sai, verdadeiramente, dos âmbitos teológico, sociológico e Eichmann como banal, ela não visava torná-lo menos
psicológico e passa a ser focado na sua dimensão política. imputável, “não estava buscando isentá-lo dos atos
(Souki, 1998, p. 104) ilícitos que efetivamente cometeu, mas compreender
o tipo de mentalidade que poderia contribuir para o
O novo conceito de Hannah Arendt apresenta um surgimento de indivíduos como ele” (Correia, 2004,
mal sem inspiração própria, porém não menos mons- p. 95). O conceito de banalidade não quer abrir pre-
truoso em suas consequências. Esse abismo entre a cedentes para uma suposta inocência do réu, mas tão
gravidade dos atos e a superficialidade das motivações somente entender um fenômeno.
a leva a cunhar um novo significado para a banalidade Segundo, banalidade não quer significar algo
(Assy, 2001b). Lechte (2002, p. 206) afirma que a sem importância, tampouco algo que possa ser as-
banalidade do mal se tornou uma das mais famosas sumido como normal. Em sua resposta a Sholem,
conceituações arendtianas, porque conseguiu perce- Hannah Arendt afirma que banalidade não significa
ber que o ineditismo do mal efetivado pelo nazismo uma bagatela nem uma coisa que se produza fre-
era, além de monstruoso, banal e burocrático e, ao quentemente (Souki, 1998, p. 103). Arendt distingue
mesmo tempo, sistemático e eficiente. Assy (2001a, banal de lugar-comum (Assy, 2001a, p. 143). Lugar-
p. 87) e Souki (idem, p. 12) também concordam que, comum diz respeito a um fenômeno que é comum,
diante do mal como fenômeno surgido a partir da trivial, cotidiano, que acontece com frequência, com
experiência totalitária, burocraticamente eficiente, constância, com regularidade. Banal, por sua vez,
Hannah Arendt é levada a pensar sobre um mal sem não pressupõe algo que seja comum, mas algo que
precedentes e desconhecido. Para esse mal, não há esteja ocupando o espaço do que é comum. Um ato
modelos nem padrões – políticos, históricos, teoló- mau torna-se banal não por ser comum, mas por ser
gicos, psicológicos ou filosóficos – de entendimento. vivenciado como se fosse algo comum. A banalida-
“Todavia nem sequer temos uma palavra para o que de não é normalidade, mas passa-se por ela, ocupa
estamos nos referindo” (Arendt apud Assy, 2001a, p. indevidamente o lugar da normalidade. “O mal por
88), registrou em manuscritos de 1966. No entanto, si nunca é trivial, embora ele possa se manifestar de
ela estava consciente do “desamparo que os juízes tal maneira que passe a ocupar o lugar daquilo que é
experimentaram quando se viram confrontados com comum” (Assy, 2001a, p. 144).
a tarefa de que menos podiam escapar, a tarefa de en- Mas como o mal pode tornar-se banal? Como a
tender o criminoso que tinham vindo julgar” (Arendt, monstruosidade dos assassinatos em massa puderam
1999, p. 299). tornar-se fatos corriqueiros, trivializados, como se
Hannah Arendt estava diante de um fenômeno fossem comuns? Como o mal pôde ocupar o lugar da
inédito e para isso procurou cunhar um novo modelo normalidade e esconder o seu próprio horror?
de entendimento. Assim, ela inicia, por força de tan- Para responder a essas questões, recorro a duas
tas reações, vários esclarecimentos. Vale a pena aqui características que Arendt aponta para a sociedade de
retomar ao menos dois: 1) a banalidade de Eichmann massas: a superficialidade e a superfluidade. Podemos
não significa a sua inocência; e 2) banalidade não esclarecer, ainda que de maneira breve e preliminar,
significa normalidade. que o mal se torna banal porque os seus agentes são

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A banalidade do mal e as possibilidades da educação moral

superficiais e suas vítimas são consideradas supérfluas. Baeck – tinham fracassado em compreender o verda-
“Quanto mais superficial alguém for, mais provável será deiro significado do nazismo na Alemanha.
que ele ceda ao mal. Uma indicação de tal superficia- O julgamento de Eichmann não proporcionou a
lidade é o uso de clichês, e Eichmann era um exemplo ela somente o entendimento sobre aquele burocrata
perfeito” (Assy, 2001a, p. 145). Quanto à superfluidade banal na cabine de vidro, mas também a possibilidade
da vida humana, Arendt (1989, p. 510) afirma que este de repensar as tradicionais formas de entender a nossa
tem sido um fenômeno decorrente do sentido extrema- formação moral, quase sempre baseadas na convic-
mente utilitário das sociedades de massa: ção de que os valores morais devem ser fortemente
difundidos através de conteúdos específicos e como
Grandes massas de pessoas constantemente se tornam um antídoto ao mal. Arendt não parece convencida de
supérfluas se continuamos a pensar em nosso mundo em que a simples difusão voluntarista de conhecimentos
termos utilitários. [...] Os acontecimentos políticos, sociais morais será condição suficiente e necessária para a
e econômicos de toda parte conspiram silenciosamente escolha e a prática do bem. A possibilidade que sua
com os instrumentos totalitários para tornar os homens reflexão nos oferece é para além da educação moral
supérfluos. através de conteúdos moralizantes, mas uma abertura
para uma prática marcada pelo pensamento, como
Para além da defesa do argumento de Arendt, não tentarei demonstrar adiante.
há como negar que o conceito de banalidade do mal Nesse sentido, duas indagações são motivadoras
revela a sua imprecisão ao lidar com um fenômeno e estão implícitas na tentativa de Arendt em entender
surpreendente. o totalitarismo e o fenômeno que Eichmann tão bem
exemplifica. Primeiro: Por que aconteceu? Segundo:
O “conceito” de banalidade do mal, apesar de todo o seu Como foi possível acontecer? Essas questões nascem
valor polêmico, parece não ter sido devidamente delimitado, da perplexidade diante do fenômeno que ela vivenciou
não deixando, por isso, de ter valor filosófico. Ele parece e foi obrigada a pensar. Arendt buscou respondê-las
estar em uma posição particular na obra da autora e, por amplamente, com incursões no campo da economia,
sua fertilidade e valor polêmico, se mostra mais provocador da teoria política, das estratégias militares e da juris-
de reflexão e definidor de questões fundamentais do que prudência. Interessam-me aqui as repostas formuladas
propriamente um conceito formalizado. A nosso ver, esta no campo da moral e suas implicações para repensar
particularidade não diminui o valor do conceito, mas o a educação em valores.
ressalta na sua fecundidade. (Souki, 1998, p. 105) Vale a pena retomar que o verdadeiro horror do
totalitarismo está “no profundo servilismo de seus
agentes, não em nenhuma explicação psicológica
A banalidade do mal e suas implicações morais profunda ou qualquer vontade política vertiginosa”
(Lechte, 2002, p. 207). De fato, o servilismo – como
O julgamento de Eichmann envolvia mais do que o valor supostamente moral da obediência – foi cons-
constrangimentos jurídicos. A maior polêmica estava tatado por Hannah Arendt não só naquele réu intrigan-
na análise sobre a capacidade humana de julgar, isto é, te, mas em todas as formas sociais de totalitarismo.
aquela faculdade que permite discernir sobre o que é A obediência como virtude foi a base da condição
certo e errado. Hannah Arendt (2004, p. 288) demons- verdadeiramente abjeta da possibilidade do nazismo
trou, mais de uma vez, sua perplexidade diante do fato enquanto um modelo de assassinatos em massa.
de que desastrosamente quase todos os homens em Hannah Arendt buscou fugir da controvérsia
alta posição pública – e em alguns casos com sólida sobre se o nazismo fazia ou não parte do caráter do
formação moral, como o papa Pio XII e o rabino Leo povo alemão, pois ela achava que havia usos abusivos

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do termo. Dessa forma, é válido afirmar que ela não Entre os líderes da resistência alemã, havia antissemitas
atribuía ao caráter de um povo, em sua globalidade, convictos, que não discordavam do Terceiro Reich no
alguma característica específica. No entanto, também é que diz respeito ao tratamento dispensado aos judeus.
verdade que ela se impressionou muito com o adesismo Se Arendt se esquivou do debate sobre se o servilismo
inquestionável de parcelas significativas da sociedade fazia parte ou não do caráter do povo alemão, o mesmo
alemã, mesmo aquelas altamente formadas nos princí- não se observa quando o tema é o apego à mentira e
pios morais mais sofisticados. O que tudo indica é que, ao autoengano. Ela (idem, p. 65) afirma que “ainda é
no caso do nazismo alemão, o alto nível instrucional difícil às vezes não acreditar que a hipocrisia passou a
de boa parte da sociedade e as especulações filosóficas ser parte integrante do caráter nacional alemão”.
mais sofisticadas sobre ética e moral de alguns emi- Em um de seus mais famosos discursos, Hitler bra-
nentes pensadores alemães não foram suficientemente dava aos soldados: “Atrás de nós marcha a Alemanha!”
fortes para conter a barbárie que se instaurou. A terrível Talvez fosse pura retórica, a fim de animar as tropas,
e simples verdade era que o nacional-socialismo tinha mas, segundo Arendt, tudo leva a crer que, se atrás do
aprovação da maioria da sociedade alemã: “A situação Führer não marchavam 80 milhões de soldados, ao
era tão simples quanto desesperada: a esmagadora menos caminhava silenciosa a maioria esmagadora
maioria do povo alemão acreditava em Hitler” (Arendt, dos alemães, bem educados e moralmente formados
1999, p. 114), por mais educada e moralmente formada nos princípios mais elevados da religião e da filosofia
que fosse essa sociedade. ocidentais. A omissão da boa sociedade foi a permissão
É óbvio que havia oposições a Hitler. Aqueles necessária para a marcha nazista. Tendo em vista essa
que eram contra o nazismo apontavam a catástrofe maioria silenciosa – e também os seis milhões de judeus
do regime e o fracasso moral da sociedade alemã. No assassinados – é que Arendt (idem, p. 268) classifica o
entanto, eles não tinham nem plano nem intenção de Holocausto como um crime de massas,3
efetivar uma oposição consistente. No que se refere à
situação dos judeus, Arendt (idem, p. 126) ainda é mais [...] pois estes crimes foram cometidos em massa, não só
crítica sobre o papel dos oposicionistas ao regime: em relação ao número de vítimas, mas também no que diz
respeito ao número daqueles que perpetraram o crime e à
Muitas vezes se disse que a asfixia dos doentes mentais teve medida que qualquer dos criminosos estava próximo ou
de ser suspensa na Alemanha por causa dos protestos da distante do efetivo assassinato da vítima nada significa no
população e de uns poucos dignitários corajosos das igrejas; que tange à medida de sua responsabilidade
no entanto, nenhum protesto desse tipo foi feito quando o
programa voltou-se para a asfixia de judeus, embora alguns Vale a pena lembrar que Hannah Arendt considera
centros de extermínio estivessem localizados no que era a massa assassina como assustadoramente normal e
então território alemão, cercados por populações alemãs. desprovida da capacidade de pensar. Segundo Souki
(1998, p. 61), uma sociedade torna-se cúmplice da
Sobre o papel da oposição a Hitler, Arendt (idem, demência totalitária do Estado na medida em que
p. 116) é categórica: aqueles que se opuseram a Hitler partilha as mentiras do sistema não por ser enganada,
foram corajosos, mas a coragem deles “não foi inspira- mas por se recusar a perscrutar a verdade dos fatos.
da por indignação moral ou por aquilo que sabiam que
outras pessoas tinham sofrido; eles foram motivados
quase exclusivamente por sua certeza da iminente der- 3
O controvertido conceito arendtiano de crime de massas é
rota e ruína da Alemanha”. As divergências com Hitler um dos temas mais comentados pela literatura especializada. Veja,
dentro da Alemanha foram quase sempre por questões por exemplo, Correia (2004, p. 94), Assy (2001a, p. 87), Souki
políticas ou militares, e não por convicções morais. (1998, p. 61) e Lafer (2003, p. 136).

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A banalidade do mal e as possibilidades da educação moral

Para Lafer (2003, p. 136), a cumplicidade da massa As críticas de Hannah Arendt ao comportamento
circunstante foi fundamental para o êxito do nazismo, moral de judeus e alemães tiveram como objetivo
pois tornava a solução final normal, isto é, a sociedade desconstruir algumas argumentações vigentes à época,
alemã conferia, por sua omissão, caráter de normali- que tentavam explicar o fracasso moral vivenciado
dade aos assassinatos em massa. na Europa daqueles tempos sombrios. Dentre tais
Quanto ao povo judeu, Hannah Arendt apre- argumentações, destacarei três: 1) a teoria da peça de
senta basicamente duas críticas: a falta de reação e a engrenagem; 2) a teoria da culpa coletiva; e 3) a teoria
conivência dos conselhos de judeus com as políticas da voz da consciência.
nazistas. Com relação à primeira crítica, ela a consi- A teoria da peça de engrenagem foi utilizada
derava erroneamente tratada no julgamento, pois dava tanto pela defesa de Eichmann quanto pela acusa-
margem a entendimentos de que a não beligerância ção. Segundo a defesa, Eichmann era apenas uma
das vítimas diminuísse em algo a responsabilidade dos pequena engrenagem na maquinaria chamada so-
assassinos. Para Arendt (1999), o tema foi trazido ao lução final para a questão judaica. A promotoria,
tribunal tão somente para marcar a diferença entre o seguindo a mesma lógica, via naquele homem não
heroísmo israelense e a passividade dos judeus euro- uma engrenagem, mas o motor do Holocausto.
peus. Quanto à segunda crítica, é importante registrar Para Arendt, aquele homem tolo, sem iniciativas,
que havia muitas divisões entre os judeus europeus. de mediocridade e superficialidade aparentes, um
Havia pensamentos divergentes no que tange a como oficial subalterno, que sempre agia ancorado por leis
deveria ser o relacionamento dos judeus com os e memorandos, não era motor de coisa alguma. No
Estados nacionais. Entre ortodoxos, sionistas e assi- entanto, ela estava de acordo que, para as ciências
milados, estes últimos eram os mais desorganizados políticas, era importante entender que “a essência do
e discriminados pelos próprios judeus. Os conselhos governo totalitário, e talvez a natureza burocrática,
de judeus, dominados por sionistas e ortodoxos, seja transformar homens em funcionários e meras en-
“acreditavam que se era uma questão de selecionar grenagens, assim os desumanizando” (Arendt, 1999,
judeus para a sobrevivência, os próprios judeus é que p. 312). Hannah Arendt também estava convencida
deviam fazer a seleção” (Arendt, 1999, p. 75), com do fato de Eichmann pertencer a uma estrutura orga-
claros prejuízos para os assimilados. De fato, os ofi- nizacional e de que poderia ser trocado, como uma
ciais do Terceiro Reich deram aos conselhos de judeus peça, por outro burocrata qualquer, que faria a mes-
a incumbência de organizar as listas de deportação e míssima coisa em seu lugar, pois afinal não se tratava
dos que deveriam ir para os campos de concentração, de uma maldade específica (demoníaca, patológica
organizando inclusive uma polícia judaica. Para ou ideológica), mas do cumprimento de funções
Arendt, essa situação levou a maioria dos judeus a de Estado. Tal realidade não desresponsabilizava,
ter dois inimigos objetivos: as autoridades nazistas e em hipótese alguma, essa pequena engrenagem dos
as autoridades judaicas. Para Young-Bruehl (1997, p. atos monstruosos que foram cometidos. Na medida
302), Arendt não dedica mais do que 12 páginas, em em que a pequena engrenagem comete crimes, num
meio a 300, para refletir sobre a passividade dos judeus tribunal sua ação deve ser julgada como uma ação
assimilados e as responsabilidades das autoridades supostamente criminosa até que se prove o contrário,
judaicas. Mas foram, sem dúvida, essas 12 páginas
que a levaram para o meio de um turbilhão de críticas, Heidegger, que chegou a ser reitor da Universidade de Freiburg
difamações, ataques e inimizades.4 entre 1933 e 1934, com apoio do Partido Nacional Socialista,
também foi um dos motivos das campanhas difamatórias de setores
  Não podemos esquecer que o contato pessoal e profissional
4
da intelectualidade judaica contra ela. Sobre isso, veja o trabalho
que Hannah Arendt manteve, no período pós-guerra, com Martin de Ettinger (1996).

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pois Eichmann, como qualquer outro burocrata, tinha, nada tinham a ver com a guerra. Para Correia (2004,
sim, responsabilidades, pois tinha a possibilidade de p. 93), “[...] é importante distinguir entre culpa e res-
escolha, inerente à sua condição humana. Ainda que ponsabilidade, tanto porque muitos se sentem culpados
levasse em conta tal teoria, a tentativa da defesa era sem terem qualquer envolvimento, como por muitos
estupidamente equivocada, pois seria difícil, senão serem responsáveis sem se sentirem culpados – en-
impossível, encontrar atenuantes para os seus crimes. quanto os efetivamente responsáveis que se sentem
A fidelidade ao trabalho realizado, tantas vezes de- culpados são muito poucos”.
clarada pelo réu, era um agravante. Se ele se tivesse Para Arendt, a culpabilidade é algo individual,
apresentado à corte dizendo que era obrigado a fazer por isso passível de penalidades jurídicas. Já “a res-
o que fazia, mas procurava não cumprir plenamente ponsabilidade coletiva é mais um termo da categoria
as ordens recebidas a fim de salvar vidas, ele ainda política do que jurídica ou moral” (Souki, 1998, p. 90).
assim seria responsável, mas talvez pudesse contar Arendt faz então uma distinção entre culpa (individual)
com alguns atenuantes. Porém Eichmann dizia-se um e responsabilidade (coletiva), por considerar que “onde
cumpridor fiel das ordens, que seu ideal de vida era todos são culpados, ninguém é” (Correia, 2004, p. 93),
cumprir seu dever e fazer seu trabalho com precisão ou seja, se todos têm culpa, ninguém efetivamente
e eficiência e, ainda mais, sentia-se envergonhado pode ser julgado. Se ninguém pode ser julgado, nin-
quando no tribunal era levado a admitir que não guém é imputável pelos crimes. No entanto, ela não
cumpria algumas ordens recebidas, ainda que essa negligencia a atribuição de culpabilidade ao réu pelo
desobediência tivesse significado salvar centenas de fato de ele não ser o único responsável por aquilo que
vidas humanas. “A ‘teoria da engrenagem’, ainda que fazia. Quanto à responsabilidade coletiva, ela afirma
possa ser útil à ciência política, passa à margem da que ainda faltava ao povo alemão uma definitiva de-
questão da responsabilidade pessoal” (Correia, 2004, monstração pública de responsabilidade pelos crimes
p. 94). E esse era um tema ético central para Hannah cometidos em seu nome (Assy, 2001b). Assumir essa
Arendt (2004, p. 87), pois a responsabilidade pessoal responsabilidade coletivamente teria efeitos políticos
não pode ser transferida para um sistema, ainda que e morais, mas, obviamente, não poderia ser passível
se trabalhe sob uma ditadura. Ao rebater essa teoria, de penalidades jurídicas. Mais uma vez, a autora ar-
a autora insiste na liberdade que caracteriza funda- gumenta a favor da condição humana, enquanto quali-
mentalmente a ação humana, que funda e exige toda dade de ser livre e único, por isso mesmo responsável
e qualquer formação moral. por seus atos e pelas consequências deles.
A teoria da culpa coletiva surgiu no julgamento A terceira teoria – a voz da consciência – ques-
pela declaração de inocência do acusado, que buscava tionava se Eichmann tinha consciência do que estava
a absolvição jurídica assumindo publicamente suas fazendo. Para Arendt (1999, p. 45), o réu “não tinha
supostas falhas morais. A defesa havia declarado: “Ei- tempo, e muito menos vontade de se informar ade-
chmann se considera culpado perante Deus, não perante quadamente, jamais conheceu o programa do Partido
a lei” (Arendt, 1999, p. 32). No tribunal, Eichmann [Nacional Socialista], nunca leu Mein Kampf”. O
declarou-se “inocente no sentido da acusação”, mas ponto mais importante não é sobre a consciência no
também disposto a “ser enforcado publicamente como sentido de ter conhecimento do que efetivamente era
exemplo para todos antissemitas da terra” (idem, p. 36). o nazismo, em suas ideologias e programas. O ponto
A vocação de Eichmann para o martírio revelou-se fundamental é se Eichmann podia ouvir essa voz que
depois de ele saber que setores da juventude alemã, chamamos de consciência, se ele podia acessar um
motivados possivelmente pela repercussão dos re- conjunto de valores morais que lhe informasse sobre
sultados dos julgamentos de Nuremberg, se sentiam o horror do qual ele fazia parte. Se ele era perturbado
culpados pelo Holocausto. No entanto, aqueles jovens por esse outro que nos habita, que às vezes somos nós

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A banalidade do mal e as possibilidades da educação moral

mesmos e outras vezes um outro moralmente significa- a responsabilidade coletiva. Grüber era moralmente
tivo que nos fala. Hannah Arendt estava convencida de responsável. Eichmann, juridicamente culpado, um
que a resposta era sim, pois Eichmann declarou várias criminoso. Dentro de determinadas condições, eles
vezes que estava com a consciência tranquila, pois agiram humanamente, o que significa dizer com algum
cumprira seu dever e sabia que era isso que deveria nível de liberdade de escolha. Nesse sentido, o fato de
fazer. Sabe-se que a voz da consciência não é algo Eichmann ter participado do assassinato de milhares de
dado naturalmente, mas sim algo construído coletiva judeus, ainda que com a aceitação e a respeitabilidade
e intersubjetivamente. da boa sociedade, fazia dele um criminoso, e por isso
ele devia ser punido.
Sua consciência ficou efetivamente tranquila quanto ele viu O caso Eichmann representou um fenômeno
o zelo e o empenho com que a “boa sociedade” de todas as sobre o qual Hannah Arendt se debruçou em várias
partes reagia ao que ele fazia. Ele não precisava “cerrar os outras oportunidades. Não só porque ela foi impe-
ouvidos para a voz da consciência”, como diz o preceito, não lida a repensar o conceito de banalidade do mal,
porque ele não tivesse nenhuma consciência, mas porque sua devido às críticas recebidas, mas pela perplexidade
consciência falava com a “voz respeitável”, com a voz da que o tema lhe causara. O fato de ela retornar ao
sociedade respeitável à sua volta. (Arendt, 1999, p. 143) caso Eichmann em diferentes momentos demonstra
três preocupações recorrentes: 1) entender a menta-
A voz respeitável da boa sociedade esteve presen- lidade de um novo tipo de criminoso; 2) alertar para
te no tribunal na pessoa de Heinrich Grüber, um minis- a possibilidade de repetição do fenômeno testemu-
tro protestante. O pastor Grüber “pertencera ao grupo nhado como inédito; e 3) discutir as possibilidades
numericamente pequeno e politicamente irrelevante de evitá-lo.
de pessoas que se opuseram a Hitler por princípio e Vale o alerta de Arendt (1999, p. 295-296) sobre
não por considerações nacionalistas e cuja posição a possibilidade bastante incômoda, mas inegável,
na questão judaica era inequívoca” (idem, p. 146). O de que crimes similares possam ser cometidos no
advogado de defesa fez-lhe uma pergunta altamente futuro:
pertinente: “O senhor tentou influenciá-lo? Tentou,
como religioso, apelar para os sentimentos dele, fazer Faz parte da própria natureza das coisas humanas que cada
um sermão para ele e lhe dizer que sua conduta era ato cometido e registrado pela história da humanidade fique
contrária à moralidade?” (idem, p. 148). As respostas com a humanidade como uma potencialidade, muito depois
embaraçosas do pastor indicavam que ele não havia de sua efetividade ter se tornado do passado. Nenhum castigo
sido uma voz consciente de alerta ou empecilho às jamais possuiu poder suficiente para impedir a perpetração
atitudes de Eichmann, mas que tinha sido mais uma de crimes. Ao contrário, a despeito do castigo, uma vez
voz respeitável com sinais claros de cumplicidade. Tão que um crime específico apareceu pela primeira vez, sua
significativo quanto à pergunta da defesa foi o depoi- reaparição é mais provável do que poderia ter sido a sua
mento de Eichmann: “Ninguém veio até mim e me emergência inicial.
censurou por nada no desempenho de meus deveres,
nem o pastor Grüber disse uma coisa dessas. Ele veio Se o castigo não pode impedir a banalidade do
até mim e pediu alívio para o sofrimento, mas não ob- mal de emergir novamente em nossa história, o que,
jetou de fato o desempenho de meus deveres enquanto então, poderia? A resposta arendtiana é instigante
tais” (idem, ibidem). A teoria da voz da consciência e talvez uma pista para os que querem repensar a
também deve ser rebatida com os argumentos apresen- educação moral. Seguirei, então, a hipótese que ela
tados anteriormente sobre a condição humana marcada mesma traçou, em A vida do espírito (Arendt, 1995,
pela liberdade de ação e pela culpabilidade pessoal e p. 6), para tentar responder a essa questão:

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Seria possível que a atividade do pensamento como tal – o ato mau (patologia psicológica, possessão demoníaca,
hábito de examinar o que quer que aconteça ou chame a alienação ideológica, determinismo histórico ou des-
atenção independente de resultados e conteúdo específi- conhecimento de causa) e apresenta como possível
co – estivesse dentre as condições que levam os homens a alternativa a ausência do pensamento (Pessoa, 1998;
se abster de fazer o mal, ou mesmo que ela realmente os Duarte, 2000). Nessa perspectiva, ela examina a re-
“condicione” contra ele? lação entre o pensamento e o juízo. A sua proposição
é que a incapacidade de pensar oferece um ambiente
privilegiado para o fracasso moral. A hipótese de
O vazio do pensamento e a tarefa educativa Arendt é que o ato de pensar poderia – pois não há
garantias ou certezas – condicionar os seres humanos
Como demonstrado com os argumentos aren- a não praticar o mal. Nesse sentido, o pensamento,
dtianos, as barbáries cometidas por Eichmann não na concepção arendtiana, traz em si mais possibili-
se fundamentam na inveja, no ódio, na cobiça nem dades do que seguranças ou determinações. Algumas
mesmo na estupidez (desconhecimento), mas sim na dessas possibilidades seriam os efeitos liberadores do
irreflexão. Essa é hipótese central de Hannah Arendt pensamento sobre o juízo e os efeitos preventivos no
em A vida do espírito (Arendt, 1995). Nessa obra, ela que se relaciona ao fenômeno do mal (Assy, 2004,
delineia a relação entre a banalidade do mal e o vazio p. 165). Daí a minha aposta, neste trabalho, de rela-
do pensamento (Pessoa, 1998). cionar a banalidade do mal, o vazio do pensamento e
O que deixou Hannah Arendt mais impressionada os imperativos de uma tarefa educativa que se queira
foi a superficialidade de Eichmann. Aquele homem não moral.
era monstruoso, enfermo ou demoníaco; nele também Arendt (1995, p. 98-107) revisita a tradição
não se encontravam grandes convicções ideológicas metafísica sobre o estatuto do pensamento e busca
ou partidárias. Entre todas as características daquele as respostas ao longo da história da filosofia para a
estranho réu em Jerusalém, a mais determinante para questão: O que é o pensar?5 A perspectiva histórica
explicar seu comportamento era a sua incapacidade apresenta, na releitura de Arendt, clara oposição en-
para o pensar. O que tornava Eichmann uma aberração tre o mundo da ação e o mundo do pensamento, ou
era o fato de ele nunca haver experimentado as exi- seja, na tradição metafísica, o pensamento sempre
gências do pensamento diante dos acontecimentos. A foi marcado pela quietude, pela contemplação e pela
questão que a filósofa se propõe a aprofundar, então, é passividade. Hannah Arendt reconhece que a tradição,
a ausência do pensamento e sua possível relação com ao tratar da passividade do pensamento, aponta para
os atos maus (Duarte, 2000). uma importante característica do pensar (Pessoa, 1998,
O primeiro volume da obra A vida do espírito p. 42). Assim, a tradição, mesmo que nebulosamente,
busca entender o estatuto do pensamento. No entanto, toca no polêmico tema da incompatibilidade entre o
a motivação inicial é o julgar. O ponto de partida do agir no mundo e o ato de pensar. Mas, para além dessa
livro está profundamente marcado pelas preocupações primeira e mais conhecida visão sobre o pensar, Arendt
da autora com a faculdade do juízo. No clássico ensaio (idem, p. 8) quer investigar o pensamento como ativi-
Pensamento e considerações morais, ela, motivada dade, como a mais pura atividade humana: “Nunca um
pelo caso Eichmann, já se perguntava: “Será que nossa
capacidade de julgar, de distinguir o certo do errado, o 5
  Desde que havia escrito A condição humana (Arendt, 2001),
belo do feio depende de nossa capacidade de pensar?” obra na qual analisa especificamente as questões relacionadas à vida
(Arendt, 1993, p. 146). ativa, Hannah Arendt buscava entender como o pensamento – a
Em A vida do espírito, Hannah Arendt desquali- vida contemplativa – tinha sido compreendido pelas distintas
fica as tradicionais explicações sobre o que motiva o tradições filosóficas.

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A banalidade do mal e as possibilidades da educação moral

homem está mais ativo do que quando nada faz, nunca poderia incorporar em sua prática tanto uma denún-
está menos só do que a sós consigo mesmo”. cia à banalidade, enquanto mal sem motivos, quanto
Inicialmente, Arendt (idem, p. 55) acata a con- um anúncio das responsabilidades morais diante do
cepção metafísica de que o pensamento é uma saí- estranhamento necessário com o mundo cotidiano.
da – e não subterfúgio – do mundo. No entanto, para A perspectiva arendtiana revelaria, assim, a crise do
ela, isso nada teria a ver com fuga do mundo e dos pensamento metafísico, garantiria a autonomia do
seus problemas, até porque esse tipo de interpretação âmbito do pensamento enquanto campo específico da
entraria em contradição com as suas concepções em vida do espírito e indicaria as possibilidades de uma
filosofia política (Arendt, 1993). Essa saída do mundo educação que se relacione com o pensamento. Esta
seria, então, a capacidade de romper com o cotidiano, quer ser a aposta mais firme deste artigo.
uma descontinuidade própria da vida humana, uma Não é minha intenção neste trabalho oferecer um
parada, uma re-flexão, o ato de voltar-se sobre os projeto pedagógico contra a banalidade do mal, mas
acontecimentos a fim de dar significados a eles. E é tão somente – se é que isso seja pouca coisa – refletir
isso que Eichmann não tinha; ele vivia num mundo sobre alguns fundamentos para a tarefa educativa que
de contínuos clichês. A atividade de pensar significa se queira comprometida com o respeito e a abertura
rompimento com o mundo, mas não é trocar esse aos valores morais mais fundamentais, como justiça,
mundo por um melhor, mais puro ou mais profundo igualdade, liberdade, solidariedade, diálogo e tole-
(Arendt, 1995), como erroneamente indicou a tradição rância.
metafísica. A perspectiva inovadora de Hannah Arendt sobre
Apesar de romper com a tradição, principalmente o estatuto do pensamento ajuda a entender a banali-
quando ela dá um estatuto ontológico ao mundo invisí- dade do mal que uma educação em valores – e por
vel, Arendt (idem, p, 57) reconhece que os metafísicos isso mesmo moral – deve enfrentar. Mais importante,
descobriram algo muito importante: “pensar é estar no entanto, será pensar tais fundamentos numa pers-
fora do mundo”. Essa retirada é uma distração total. pectiva assertiva. Assim, considerando o estatuto do
É como se a experiência do pensamento se originasse pensamento revisitado por Arendt (1995), retomo três
numa sensação de estranhamento, principalmente com contribuições que considero centrais para o campo da
as coisas mais cotidianas. educação moral.
Se, como Eichmann, homens e mulheres em Em primeiro lugar, não se pode esquecer de que
tempos sombrios experimentam o fracasso moral e Hannah Arendt quer entender se existe alguma relação
se esse fracasso se relaciona com a incapacidade de entre a incapacidade de pensar – o não estar atento
pensar, com a incapacidade de retirar-se do mundo e aos fatos, às coisas e aos significados do mundo – e a
significá-lo, então poderíamos agora perguntar: Pode- prática do mal (Assy, 2001a; Souki, 1998). Eichmann
ria a educação ser propícia ao pensamento enquanto é seu bizarro exemplo. No entanto, Eichmann não é
estranhamento das coisas cotidianas? Se o que está em um caso episódico; ele é apenas modelar para tantos
crise é a maneira como tradicionalmente pensamos e de nós.
não a nossa capacidade de pensar, então é provável Em segundo lugar, é mister ter presente as frontei-
que haja um tipo de educação que seja possível na ras e as diferenças que Hannah Arendt apresenta entre
perspectiva do rompimento e da significação? pensar e conhecer; entre a atividade do significado e
A meu juízo, a educação moral ou educação a pretensa atividade da verdade. Conhecer é a busca
em valores deve ajudar a desfazer as continuidades do intelecto pela verdade. O conhecimento cumpre
irrefletidas existentes entre o mundo cotidiano e o sua finalidade alcançando resultados que podem ser
mundo dos clichês, no qual podemos, com perigosa acumulados. O pensamento não busca a verdade; ele
facilidade, habitar. Uma educação em valores, então, lida com os significados, com os sentidos atribuídos

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ao mundo, aos fatos, às pessoas. O pensamento não de Arendt. No entanto, tal aposta lhe apresenta um
se interessa pela verdade das coisas, mas sim pelo que complicador. Como entender o pensamento sabendo
elas significam para nós (Arendt, 1995, p. 42-51). Está que ele não aparece? Como defender o pensamento
claro, a meu juízo, que Hannah Arendt quer marcar e ao mesmo tempo negar-lhe existência ontológica?
uma distinção entre pensar e estar no mundo, ou seja, Neste trabalho, o complicador é de outra ordem:
entre pensar e dominar o mundo pelo conhecimento Como se posicionar a favor de uma educação moral
meramente instrumental. O pensamento é uma aber- que tenha presente a perspectiva do pensamento, tal
tura que se caracteriza por ir além da atividade de como o entende Arendt em sua contradição entre ser
conhecer, de manipular, de instrumentalizar o mundo. e aparecer? O pensamento, na perspectiva arendtiana,
O conhecimento deixa um rastro: o saber que pode ser é uma atividade invisível, como já havia afirmado a
acumulado (idem, ibidem). Em contrapartida, podemos tradição metafísica. No entanto, Arendt (idem, p. 125)
dizer que o pensamento nos deixa de mãos vazias; ele absorve essa intuição da tradição e marca sua dife-
não tem poder de acumular significados, pois os signi- rença. Para ela, o pensamento – o inteligível – não é
ficados são experiências únicas e irreproduzíveis. As- uma recusa ou uma fuga do mundo sensível, mas uma
sim, quanto aos resultados, o pensamento está liberado retirada do mundo para um diálogo silencioso do eu
dos interesses da acumulação, e, quanto à finalidade, consigo mesmo (idem, ibidem), a fim, sobretudo, de
ele é significativo e desvencilhado da chamada verdade dar significado ao mundo. Nesse sentido, Sócrates é
neutra e objetiva. O pensamento, na concepção aren- apresentado como o modelo de filósofo que soube
dtiana, não pretende uma aproximação manipuladora – manter-se nesse diálogo, interno e significador do
tal como o conhecimento – com as coisas do mundo, mundo. Ele conseguiu unir o agir e o pensar, man-
mas busca os sentidos de cada coisa ser no mundo. “O tendo com cada experiência a intimidade necessária
pensamento retira-se – radicalmente e por sua própria para entender que o pensar é um distanciamento do
conta – deste mundo e de sua natureza evidencial, ao mundo e uma reaproximação sempre renovada para
passo que a ciência se beneficia de uma possível retira- entendê-lo (idem, p. 55-62).
da em função de resultados específicos” (idem, p. 44).
Daí parece claro que uma educação moral não deve Durante toda a sua vida e até a hora da morte, Sócrates não
estar preocupada apenas com conteúdos moralizantes fez mais do que se colocar no meio desta correnteza, desta
a serem incluídos no currículo escolar. Na perspectiva ventania [do pensamento], e nela manter-se. Eis por que ele
arendtiana, uma educação que se queira moral deve, é o pensador mais puro do Ocidente. Eis por que ele não
sobretudo, apostar – sem garantias ou certezas – no escreveu nada. Pois quem sai do pensamento e começa a
pensamento enquanto exercício de descontinuidade escrever tem que se parecer com as pessoas que se refugiam,
com o cotidiano e significação do mundo. em um abrigo, de um vento muito forte para elas [...]. Todos
Em terceiro lugar, retomo uma importante afirma- os pensadores posteriores a Sócrates, apesar de sua grandeza,
ção de A vida do espírito: “ser e aparecer coincidem” são como estes refugiados. (idem, p. 131)
(idem, p. 17). Arendt (idem, p. 18) rejeita o dualismo
entre as aparências e as essências, bem como o des- É importante notar que a oposição entre o pensa-
prezo dos filósofos pelas coisas do mundo. Aqui ficam mento e o que aparece se mantém. O pensamento não
claras as opções de Arendt pela fenomenologia e seu aparece; logo, ele não é, no sentido ontológico. E, para
estratégico afastamento das ontologias morais. Para Arendt, ser é o que aparece. Mas o pensamento em
ela, ser percebido e reconhecido pelos sentidos do ou- sua atividade é o que dá significado ao mundo, aquilo
tro – ou seja, aparecer – é a condição básica para algo que aparece e é. O mundo, para Arendt, é algo pura-
garantir sua própria existência (idem, p. 20). Somos mente objetivo, mas o seu significado está fora dele
porque aparecemos: esta é a aposta fenomenológica mesmo e só é possível na atividade do pensamento,

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A banalidade do mal e as possibilidades da educação moral

na qual nada aparece de modo objetivo ou ontoló- Quando estou pensando não me encontro onde realmente
gico. Assim, Hannah Arendt define o pensamento a estou; estou cercada não por objetos sensíveis, mas por
partir de um ponto de vista liberado de interesses, de imagens invisíveis para os outros. É como se eu tivesse me
instrumentalizações, de acúmulos ou de verdades. retirado para uma terra dos invisíveis, da qual nada poderia
Esse ponto de vista desinteressado – tipicamente saber, não fosse esta faculdade que tenho de lembrar e ima-
arendtiano – significa uma nova mirada ao mundo, e ginar. O pensamento anula distâncias temporais e espaciais.
não critérios morais ou normativos que surjam fora Posso antecipar o futuro, pensá-lo como se já fosse presente,
do mundo. Olhar desinteressadamente o pensamento e lembrar do passado como se ele não tivesse desaparecido.
é saber que ele não é código de conduta nem critério de (idem, p. 67)
conhecimento ou de manipulação para a vida prática.
O pensamento, na perspectiva de Arendt, não é nor- Com Hannah Arendt, quero afirmar que o pensar
mativa, mas tão somente possibilidade. Hannah Arendt não tem caráter fundador, mas apenas preparador. O
compreende o pensamento como reconciliação com o pensamento é de possibilidade indefinida, de advento
mundo, ao mesmo tempo que reconhece algo inegá- incerto e sem garantias a dar. Com isso, a autora desar-
vel da tradição metafísica: o estatuto do pensamento ma uma postura interessada e aponta para um pensar
tem como característica a suspensão – retirada – do reconciliado com o mundo. Mesmo que a faculdade do
mundo. Suspensão e reconciliação do mundo – eis o pensar não gere nenhum código específico de conduta,
ponto forte para definir o pensamento na perspectiva ou seja, o pensamento não funda um marco normativo,
arendtiana (idem, p. 152) e, quem sabe, repensar a Hannah Arendt está firme na certeza de que o pensar
educação moral. deva ser uma atividade atribuída a todos e não somente
Seguindo a argumentação arendtiana, a atividade a alguns. O pensamento não fundamenta ontologica-
do pensar consistiria em um distanciar-se do mundo, mente o agir moral, mas talvez seja fundamental para
mas não é trocá-lo por um mundo inteligível em busca ele. Apesar de o pensamento lidar com o invisível e ser
de critérios e normas para o mundo sensível. Pensar fora da ordem, talvez ele seja, na sua busca incessante
é a possibilidade de ver o mundo, desde fora, desde de experiências e na destruição de critérios preestabe-
uma posição privilegiada para ver a ação cotidiana, lecidos, a possibilidade de favorecer um ambiente que
ressignificando-a (Pessoa, 1998, p. 85). A retirada do desenvolva a incapacidade de fazer o mal e, assim, um
mundo é uma distração total, é como se a experiên- ambiente propício para a educação moral.
cia do pensamento se originasse numa sensação de Diante da banalidade do mal, concretizada em
estranhamento, sobre a qual nós não temos nenhum inúmeros casos de injustiças, violências e intolerâncias
controle (Arendt, 1995, p. 71). Retirar-se do mundo desses tempos sombrios, acredito que os/as educa-
traz em si um aparente dualismo, equivocadamente dores/as se encontrem diante de um grande desafio:
reforçado pela metafísica. Mesmo porque a dupla educar para e no pensamento e, consequentemente,
morada humana é uma constatação da realidade: ha- para e em valores. Educar na perspectiva do pensa-
bitamos o mundo e não o habitamos quando pensamos mento e ressignificar o mundo que habitamos é uma
(idem, p. 149). urgência. Sendo assim, o que deve ser valorizado na
Nesse sentido, o pensamento para Arendt não é atividade do pensar, a fim de oferecer um ambiente
passividade, mas a pura atividade humana. Não é a propício para uma proposta de educação moral com
inação, mas o máximo da ação. O pensamento não tais características?
é uma atividade de outro mundo, mas deste mundo. Educar para o pensamento é cultivar em nós e em
Não é fuga nem abandono, mas um distanciamento nossas relações educativas atitudes que possibilitem
que possibilita reaproximar-se do objeto pensado com o diálogo interno como uma atividade inerente à vida
um olhar totalmente revigorado. humana. Só o diálogo silencioso do pensamento – e

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Marcelo Andrade

Sócrates aqui é o modelo arendtiano por excelência – o significado de tudo o que aconteceu na vida e nos ocorre
talvez possa proteger-nos do mundo dos clichês. Nesse enquanto estamos vivos. (Arendt, 1995, p. 134)
sentido, o pensamento enquanto diálogo interno deve-
ria ter espaço privilegiado nos processos educativos Transmitir conhecimentos é imprescindível, mas
que se queiram morais. Não obstante, é importante educar para o pensamento – com abertura, impreci-
observar que nos processos pedagógicos geralmente são e sem garantias – parece ser uma urgência para
o silêncio para o pensamento é raramente valorizado. os nossos tempos difíceis. Apesar de a atividade do
Privilegia-se a fala, a leitura, o trabalho de grupo. pensamento lidar com o invisível e ser fora da ordem,
Contudo, não quero aqui desvalorizar o diálogo com talvez ela seja a possibilidade de favorecer um ambien-
o outro (o educador, o texto, o grupo). Toda conversa te que nos proteja da banalidade do mal; talvez seja
dialógica – entre educador/a e educando, educando e a possibilidade de construção de um ambiente des-
texto e educandos entre si – deveria levar ao silêncio, favorável para as intolerâncias assassinas de tempos
isto é, deveria instigar o educando para o seu diálogo tão sombrios. Educar na perspectiva do pensamento,
consigo mesmo. O que quero dizer é que toda aula, então, seria despertar a si mesmo e os outros do sono
texto, pesquisa ou trabalho de grupo deveria colocar-se de irreflexão, abortando nossas opiniões vazias e irre-
no campo de possibilidades que propiciam, naquele e fletidas. Educar para o pensamento seria uma atitude
naquela que se educa, uma reflexão pessoal e interna, consciente de abrir nossas janelas conceituais para
desinteressada e capaz de dar significados ao mundo o vento do pensamento. Quiçá sejamos capazes de
que habitamos. formar mais Sócrates do que Eichmanns, mas com
Recorrendo ainda a outra imagem arendtiana, a uma única convicção: educar para e no pensamento
educação em valores poderia também ser entendida é colocar-se no campo das possibilidades, e não das
como a possibilidade de se expor ao vento do pensa- certezas.
mento (Arendt, 1995, p. 3, 12), como fazia Sócrates.
Todos podemos e devemos expor-nos a esse vento Referências bibliográficas
para que ele possa desarrumar nossas pequenas cer-
tezas e abrir outras possibilidades, apesar dos riscos Arendt, Hannah. Homens em tempos sombrios. Trad. Denise
evidentes. O pensamento interrompe todas as nossas Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
atividades, deixa-nos inseguros quando percebemos ________. As origens do totalitarismo: antissemitismo, imperia-
que duvidamos de coisas que antes nos davam uma lismo, totalitarismo. Trad. Roberto Raposo. São Paulo: Companhia
segurança irrefletida. Educar em valores, na perspecti- das Letras, 1989.
va do pensamento arendtiano, é provocar essa descon- ________. A dignidade da política: ensaios e conferências. Trad.
tinuidade, uma ruptura com o mundo cotidiano para Antonio Abranches. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1993.
reconciliar-se com ele num novo significado. Abertura ________. A vida do espírito: o pensar, o querer, o julgar. Trad.
e imprecisão são as características próprias da ativida- Antonio Abranches. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1995.
de do pensamento que precisam ser assumidas como ________. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade
necessárias na prática educativa, principalmente se do mal. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das
essa prática desejar ser moralmente significativa. Letras, 1999.
________. A condição humana. 10. ed. Trad. Roberto Raposo. Rio
Ou, em outras palavras: pensar e estar completamente vivo são de Janeiro: Forense Universitária, 2001.
a mesma coisa, e isto implica que o pensamento tem sempre ________. Responsabilidade e julgamento. Trad. Rosaura Eichen-
que começar de novo; é uma atividade que acompanha a vida berg. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
e tem a ver com conceitos como justiça, felicidade e virtude, ASSY, bethânia. Eichmann, banalidade do mal e pensamento em
que nos são oferecidos pela própria linguagem, expressando Hannah Arendt. In: MORAES, Eduardo J.; BIGNOTTO, Newton

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A banalidade do mal e as possibilidades da educação moral

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Resumos/Abstracts/Resumens

buscan influenciar conductas y actitu- The banality of evil and the Palabras claves: Hannah Arendt;
des en relación a la diferencia. Fueron possibilities of moral education: banalidad del mal; vacío del pensa-
analizados textos colaterales de 21 tí- Hannah Arendt’s contribution miento; educación moral; educación
tulos y se estudiaron dos discursos que We face today the crisis of an era en valores.
estaban presentes en ellos: el discurso rather than an era of crisis, in which
multicultural y el discurso científico in- education has a fundamental role to Marlos Bessa Mendes da Rocha
formativo. Se concluye que las diferen- perform. In this sense, this paper re-
cias van siendo constituidas y con sig- visits the work of Hannah Arendt, a O ensino elementar no Decreto
nificados de múltiples maneras, como philosopher who thought and lived in Leôncio de Carvalho: “visão de
próximas o exóticas o como experien- dark times, in order to understand bet- mundo” herdada pelo tempo
cias a ser realizadas, se nota que, en ter some fundamental concepts neces- republicano?
buena parte, los argumentos utilizados O artigo aponta para o predomínio de
sary for rethinking moral education or
para informar, persuadir y cautivar al uma ideia que surgiu ao final do Im-
education in values. Based on analysis
lector entrelazan los discursos citados. pério no Brasil, a de incúria do povo,
of two of Hannah Arendt’s studies, en-
En los textos colaterales, son compues- e que, na República que se seguiu, se
titled Eichmann in Jerusalem: a report
tas determinadas maneras de hablar transformou em insuficiência cívica
on the banality of evil and The life of
de los sujetos diferentes alineadas a la desse mesmo povo. A ideia de incúria
the mind, this paper seeks to compre-
preocupación de autores y editores en do povo não perpassou o Império;
hend how and why Hannah Arendt
actuar en una cierta educación para la ela surgiu nos últimos 15 anos deste,
coined the concept of banality of evil.
diferencia. mudando a velha matriz imperial de
This paper also seeks to understand in
Palabras claves: literatura infantil; culpar o fracasso das políticas às falhas
what sense this concept relates to both
diferencia; texto colateral. das instituições. Para demonstrar o
the emptiness of thought and to a pro-
predomínio dessa nova ideia nessa fase
posal for education in values.
final do Império, que mudou o vilão da
Marcelo Andrade Key words: Hannah Arendt; banality
história, toma-se a política de educação
of evil; emptiness of thought; moral
A banalidade do mal e as na forma como se expressou no minis-
education; education in values.
possibilidades da educação moral: tro Liberato Barroso e nos projetos de
contribuições arendtianas La banalidad del mal y las lei que são debatidos na Assembleia
Mais do que uma época de crises, posibilidades de la educación moral: Geral do Império (Paulino de Souza e
enfrentamos hoje uma crise de época, contribuciones arendtianas João Alfredo), bem como no Decreto-
na qual a educação tem papel funda- Más que una época de crisis, enfren- Lei Leôncio de Carvalho, sempre no
mental a desempenhar. Nesse sentido, tamos hoy una crisis de época en la contraponto com a tradição advinda do
o trabalho revisita a obra de Hannah cual la educación desempeña un papel Decreto-Lei Couto Ferraz, de 1854. A
Arendt, filósofa que pensou e viveu fundamental. En este sentido, el pre- ideia de incúria do povo é o suposto
em tempos sombrios, a fim de enten- sente trabajo es una relectura de la que aparece quando da nova ênfase
der alguns conceitos fundamentais obra de Hannah Arendt, filósofa que dada à obrigatoriedade escolar, justo
para repensar hoje a educação moral pensó y vivió en tiempos sombríos, con quando também predomina a ideia
ou a educação em valores. Com pes- el fin de aclarar algunos conceptos de ensino livre. Busca-se caracterizar
quisa centrada nas obras Eichmann que son fundamentales para que hoy uma certa “visão de mundo”, no velho
em Jerusalém: um relato sobre a bana- pueda repensarse la educación moral conceito de Dilthey, que será herdada
lidade do mal e A vida do espírito, o o la educación en valores. A través de pela República. O trabalho funda-se
trabalho visa compreender como e por un estudio centrado en las obras Eich- interpretativamente no resgate da tra-
que Hannah Arendt cunhou o conceito mann en Jerusalén: un estudio sobre dição e na emergência do novo a partir
de banalidade do mal e em que sen- la banalidad del mal y La vida del es- dos impasses da tradição diante das
tido ele se relaciona com o vazio do píritu, este trabajo busca comprender questões do novo tempo, recorrendo a
pensamento e com uma proposta de cómo y por qué Hannah Arendt acuñó um procedimento hermenêutico sobre
educação em valores. el concepto banalidad del mal y en qué os discursos dos ministros do Império,
Palavras-chave: Hannah Arendt; bana- sentido este se relaciona con el vacío bem como sobre os textos dos projetos
lidade do mal; vazio do pensamento; del pensamiento y con una propuesta e decretos. Recorre-se exaustivamente
educação moral; educação em valores. de educación en valores. à obra de Primitivo Moacyr na trans-

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