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COLÉGIO MÃE DE DEUS

A (In)Disciplina Na Escola: Cartografando O “Fenômeno”1


Maria Teresa Ceron Trevisol
UNOESC/Joaçaba-SC
mariateresa.trevisol@unoesc.edu.br

1. INTRODUÇÃO

A indisciplina representa um dos principais fenômenos que geram dificuldades


no contexto escolar. Este fato vem se agravando de tal forma que nem a escola e
nem a família conseguem solucionar o problema.
O fenômeno a que estamos nos referindo é caracterizado de diversas formas,
porém as ideias acerca desse tema estão longe de serem consensuais. Isso se
deve, particularmente, à complexidade do assunto, à ausência de resultados de
pesquisas, e também à multiplicidade de interpretações que o tema encerra. Além
da falta de clareza e consenso a respeito do significado do termo indisciplina ou, até
mesmo de disciplina, a maior parte da revisão bibliográfica e das análises sobre
esse tema expressa as marcas de um discurso impregnado por preconceitos e mitos
do senso comum.
O fenômeno indisciplina possui em sua essência uma rede de elementos e/ou
fatores, por isso se desejamos conhecê-los/compreendê-los necessitamos
conhecer/pensar as dimensões das partes constituintes dessa rede e a
junção das mesmas em um todo, e vice-versa. Nesse sentido, recorremos
ao princípio de Pascal (apud MORIN, 2003, p.88) para nos auxiliar a pensar
essa implicação recíproca:
como todas as coisas são causadas e causadoras, ajudadas e ajudantes,
mediatas e imediatas, e todas são sustentadas por um elo natural e
imperceptível, que liga as mais distantes e as mais diferentes, considero
impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, tanto quanto conhecer
o todo sem conhecer, particularmente, as partes.

Em síntese, há necessidade de um pensamento que compreenda a


interdependência entre o conhecimento das partes e o conhecimento do todo; “que
reconheça e examine os fenômenos multidimensionais, em vez de isolar, de maneira
mutiladora, cada uma de suas dimensões; que reconheça e trate as realidades, que
são concomitantemente solidárias e conflituosas; que respeite a diferença, enquanto
reconhece a unicidade” (MORIN, 2003, p.89). Para podermos compreender e nos
posicionar diante dos dilemas envolvendo a indisciplina nas instituições educativas
necessitamos cartografar a rede de elementos e/ou fatores que estão na base do
problema e apresentam-se como interatuantes. Além disso, cabe considerar que
estes elementos e/ou fatores são representativos de diferentes naturezas: social,
institucional, familiar, interpessoal/intrapessoal, afetiva, entre outros.
O presente artigo busca analisar os sentidos atribuídos ao fenômeno
“indisciplina escolar” por alunos da 5ª a 8ª série do ensino fundamental, na faixa de
idade entre 10 aos 15 anos, de diferentes instituições de ensino, particulares e
públicas, localizadas no oeste catarinense. Partimos do pressuposto de que se
desejamos intervir na realidade educacional, devemos conhecer, de antemão, a
forma como os sujeitos que estão envolvidos nessa realidade compreendem os
dilemas que vivenciam. Como saber o que o aluno pensa se não nos aproximamos
de seu pensamento? Por isso da opção por esse recorte de análise relacionado ao
aluno, pois consideramos que é essencial compreender seu olhar sobre a questão,
autorizá-lo a traduzir sua leitura do cotidiano escolar, possibilitando “voz e vez” a
esse personagem. A partir destes dados poderemos promover o encaminhamento
de ações visando resolver e/ou amenizar esses dilemas.
A base empírica que serviu de sustentação a esse artigo foi um estudo
exploratório de natureza qualitativa realizado no decorrer do ano de 2005. A amostra
foi composta por trinta e dois alunos, na faixa de idade entre 10 a 15 anos, de quatro
escolas particulares e públicas dos municípios localizados no Oeste Catarinense.
Como procedimento para a coleta dos dados foi utilizado à exposição visual (através
de desenhos ilustrativos) e oral de “cenas do cotidiano escolar” revelando conflitos
interpessoais, entre alunos; professor – aluno; e professor – aluno – direção. A
discussão destas cenas se deu em sessões por grupos utilizando a técnica dos
grupos de discussão e/ou grupo focal. Como procedimento de análise dos dados, foi
utilizado à técnica de análise de conteúdo.

2. CARTOGRAFANDO O FENÔMENO INDISCIPLINA

Com o objetivo de iniciarmos a cartografia desse fenômeno buscaremos, a


partir de uma breve revisão bibliográfica (LA TAILLE, 1996; 1999; 2002; 2005; 2006;
ARAÚJO, 1996; AQUINO, 1996; 1998; 1999; 2002; DEMO; LA TAILLE;
HOFFMANN, 2002; REBELO, 2002; REGO, 1996; 2007; GUILLOT, 2008a; 2008b;
BUEB, 2008) contextualizar a problemática que envolve o problema da indisciplina
escolar, alguns significados que são atribuídos, especialmente, no meio educacional
a esse problema. Segundo Ferreira (1986, p.595), o termo indisciplina pode ser
definido como “procedimento, ato ou dito contrário à disciplina; desobediência;
desordem; rebelião”. Indisciplinado é aquele que “se insurge contra a disciplina”. A
indisciplina manifesta por um indivíduo ou um grupo, é compreendida, normalmente,
como um comportamento inadequado, um sinal de rebeldia, intransigência,
desacato, traduzida na “falta de educação ou de respeito pelas autoridades, na
bagunça ou agitação motora”. O conceito de indisciplina está associado, também, à
tirania, a opressão e enquadramento. Sendo assim, “apresentar condutas
indisciplinadas pode ser entendido como uma virtude: desafiar os padrões vigentes,
se opor à tirania muitas vezes presente no cotidiano escolar” (REGO, 1996, p. 85).
Além destes aspectos, é importante, novamente, enfatizar que o modo como
interpretamos a indisciplina (ou a disciplina) acarreta uma série de implicações à
prática pedagógica, pois interfere não somente nos tipos de interações
estabelecidas com os alunos e na definição de critérios para avaliar seu
desempenho na escola, como também no estabelecimento dos objetivos que se
quer alcançar.
A vida em sociedade pressupõe a criação e o cumprimento de regras e
preceitos capazes de nortear as relações entre os indivíduos, possibilitar o diálogo, a
cooperação e a troca entre os membros deste grupo social. A escola, por sua vez,
também precisa de regras e normas orientadoras do seu funcionamento e da
convivência entre os diferentes elementos que nela atuam. Nesse sentido, as
normas deixam de assumir a característica de instrumentos de castração e, passam
a ser compreendidas como condição necessária ao convívio social. Neste modelo, o
disciplinador é aquele que educa, oferece parâmetros e estabelece limites (REGO,
1996).
Em consonância com este argumento, La Taille (1996, p.9) analisa que
[...] crianças precisam sim aderir a regras e estas somente podem vir de
seus educadores, pais ou professores. Os ‘limites’ implicados por estas
regras não devem ser apenas interpretados no seu sentido negativo: o que
não poderia ser feito ou ultrapassado. Devem também ser entendidos no
seu sentido positivo: o limite situa, dá consciência de posição ocupada
dentro de algum espaço social – a família, a escola, e a sociedade como um
todo.

A indisciplina no contexto escolar é comumente caracterizada por


comportamentos inadequados e/ou manifestações do aluno, de rebeldia, oposição e
desrespeito às regras escolares e sociais; ausência de limites; conflitos pessoais
relacionados à ausência de projetos de vida: inconsistência na organização das
respostas às questões: “Quem em sou? Para que eu sirvo?”. Ao contrário do que se
apregoa de que o fenômeno indisciplina se refere somente ao aluno, objetivamos
discutir esse fenômeno redimensionando o olhar sobre o mesmo, a partir da
inserção de outros fatores que compreendemos estão diretamente relacionados à
indisciplina, como:

a) Indisciplina do professor: pode-se afirmar que este profissional também assume


o “lugar de indisciplinado” quando se omite a exercer seu papel de educador,
inclusive de mediador do processo de disciplina dos alunos, ou está destituído de
sua função de autoridade de saber. Apresenta-se desmotivado, desinteressado pelo
processo educativo (métodos e técnicas ultrapassados) e pela sua condição de
aprendiz (não se atualiza, não busca formação continuada). Os alunos não atribuem
sentimentos de confiança1 a esse profissional, sem deixar de considerar o elemento
“expectativas” em relação a seu trabalho e aos alunos, que norteiam todo o
entusiasmo ou abnegação da atividade pedagógica. O rendimento dessa sala se vê
comprometido por essa postura do professor.
A indisciplina parece ser uma resposta clara ao abandono à habilidade das
funções docentes em sala de aula, porque é só a partir do seu papel
evidenciado corretamente na ação em sala de aula que os alunos podem ter
clareza quanto ao seu próprio papel, complementar ao do professor
(AQUINO, 1998, p.8).

Nesse tipo de postura do professor, descomprometida diante de seus alunos,


evidenciamos outro sentido para a indisciplina, identificada como uma “atitude
indisciplinada na postura do professor”. Entretanto, é importante considerar que
muitos profissionais desistiram de assumir seu papel de professores em virtude de
uma situação de “mal-estar” diante da situação e dos problemas do cotidiano
escolar. A ausência de alternativas de mudança deste quadro os faz enfraquecer e
desistirem de buscar mudanças.

b) Indisciplina da escola: pode-se afirmar que a instituição escolar também assume o


“lugar de indisciplinada”, particularmente no que se refere à organização e exposição
das regras de funcionamento desta instituição e no acompanhamento das mesmas.
Da mesma forma, quando não há clareza com relação ao
papel/objetivos/princípios2/função da escola e das intervenções produzidas nesse
contexto: relacionados à formação humana, à construção de conhecimentos, ao
cuidado do aluno e do atendimento de suas necessidades, às questões
disciplinares, entre outras, boas intenções acabam perdendo sua finalidade.
1
Segundo La Taille (2006, p.110-111) o sentimento de confiança é complementar ao binômio
medo/amor, pois a referência não se coloca no confiar em si mesmo, mas sim no confiar nas figuras
de autoridade. Ou seja, para depositarmos confiança em alguém, além de fazermos hipóteses a
respeito da qualidade de suas ações também fazemos hipótese sobre suas qualidades enquanto
pessoa moral. Em suma, a confiança implica a dimensão moral.
2
PRINCÍPIO: substantivo comum, do latim principium, derivado de princeps; o que é primeiro no
sentido de que está na origem. A origem diz respeito ao fundamento, e não às fundações: o
fundamento de um edifício é o projeto que permite, ao mesmo tempo, sua concepção, sua construção
e a definição das condições de seu uso [...] (MEIRIEU, 2005, p.21).
Segundo Meirieu (2005, p. 22-30) “a escola não é apenas um serviço, mas uma
instituição [...]. A escola deve
ser instituída, por isso da necessidade de haver princípios claros que a
fundamentam. Para fazer progredir a Escola, é preciso saber como fazer a escola. E
o professor que “faz a escola” deve, simultaneamente, “fazer a escola”. A instituição
escolar só existe hoje se os atores incorporarem no dia-a-dia os princípios que a
inspiram (MEIRIEU, 2005, p.24).
A escola não pode ser compreendida como a “terra de ninguém”, onde não há
vínculos institucionais, profissionais, afetivos que se estruturam e são estruturados
no decorrer do processo; da mesma forma não pode ser entendida como a “terra do
nunca”, construção fictícia, imaginada, no plano do ideal. O desafio é de construção
de uma escola real, com um projeto de escola que se interroga continuamente sobre
o professor, sua formação, os currículos e os programas, as estratégias
pedagógicas e as metodologias, mas sobremaneira, também sobre a organização
do trabalho na escola: a definição dos espaços e dos tempos letivos, agrupamento
dos alunos e das disciplinas, modalidades de ligação à “vida ativa”, gestão dos ciclos
de aprendizagem. Enfim, uma educação que não se esgota no espaço-tempo da
sala de aula, mas que se projeta em múltiplos lugares e ocasiões de formação
(NÓVOA, 2002).

c) Indisciplina da família: pode-se afirmar que esta instituição social também


assume o “lugar de indisciplinada” quando se exime de uma de suas grandes
funções sociais que é oportunizar a construção da base moral, das regras e limites,
permitindo que seus filhos possam viver e relacionar-se com outros sociais em
diferentes ambientes que não somente o familiar.
Os limites, segundo La Taille (2002) representam “fronteiras entre o permitido
e o proibido”. No que se referem aos limites normativos (que levantam questões
políticas, éticas, existenciais), estes instituem e/ou demarcam o que pode e o que
não pode ser feito; assumem papel de fronteira entre o desejo e o dever. Partimos
da pressuposição de que as crianças não nascem detentoras deste conjunto de
conhecimentos sociais, éticos e morais necessários para viver em sociedade,
necessitam construí-los, apropriar-se dos mesmos, vivenciá-los e, principalmente,
atribuir valor a eles, desde a mais tenra idade, em sua família.
Nesse sentido, os pais, no contexto familiar, são os principais educadores. Às
vezes, ficam meio confusos frente à atitude dos filhos, e não sabem como agir, o
que é correto ou não em determinados momentos; não querendo assumir uma
posição autoritária acabam por permitir tudo com medo que o filho venha a sofrer
algum tipo de frustração e/ou trauma. Sem deixar de considerar que a
permissividade exagerada enquanto a criança é pequena, dificulta mais tarde, a
retirada dessas concessões. Dessa forma, assumindo atitudes como estas, não
somente geram indisciplina, mas são indisciplinados por não fornecer subsídios para
que a criança tenha comportamentos adequados no convívio com outras pessoas.
No processo educativo familiar, os pais não podem deixar de assumir seu
papel de autoridade, de educadores e da condição de adultos (alguém que possui
mais conhecimento e experiência de vida e, por isto, está autorizado a apresentar o
mundo para a criança), esta posição possui um em sua essência o respeito e o amor
pela criança que está em processo de construção. Os adultos que estão a sua volta
possuem a obrigação de permitir o conhecimento das regras e o acompanhamento
no exercício da aplicação das mesmas no dia a dia. Se a família não utilizar de seu
papel de acompanhamento e de controle, há outras instituições, outros adultos e/ou
outras crianças, outros meios de comunicação e acesso à informação que
assumirão este papel.
Após a explanação destes fatores que estão relacionados à indisciplina
verificou-se que há uma situação de crise de autoridade dos personagens que estão
vinculados ao processo educativo. É importante questionar sobre o sentido desta
crise de autoridade por parte das instituições e de seus representantes: pais;
professores; outros agentes educacionais. Segundo Guillot (2008a, p. 186)
a autoridade – cuja função é autorizar a ser, a crescer, a aprender, a se
tornar uma pessoa responsável – não deve se tornar a criada dos caprichos
e das paixões na confusão. Autorizar a se tornar alguém, autor de si
mesmo, exige a inscrição da educação em uma temporalidade longa. Mas
autorizar a se tornar alguém não significa autorizar a fazer qualquer coisa, o
que se quer, como se quer, quando se quer!

Esta situação de crise não é algo que configura somente o contexto escolar,
mas é o reflexo de mudanças ocorridas na sociedade e que possuem implicação
direta no pensar e agir dos indivíduos, na escola e em outros contextos. Essa crise
de autoridade será verificada nos argumentos emitidos pelos alunos diante das
questões que constituíram o procedimento de coleta de dados.

2. SENTIDOS ATRIBUÍDOS À INDISCIPLINA ESCOLAR POR ALUNOS

Passaremos, a seguir, a apresentar alguns dados representativos da


compreensão dos alunos pesquisados sobre a questão: “O que você entende por
indisciplina escolar?”. Efetuamos um recorte dos argumentos dos alunos por escola
que compôs a amostra dessa investigação.

3.1. ESCOLA “A”:


Identificamos nas respostas dos alunos a relação entre indisciplina e alguns
comportamentos, por exemplo: não estudar, brigar, bagunçar o espaço da sala de
aula. Entretanto, esses comportamentos foram compreendidos como desrespeito
aos outros (professores e colegas) e às regras.
Os alunos apontaram que as manifestações de indisciplina atrapalham
bastante a aula, pois o professor gasta muito tempo chamando a atenção dos
alunos, reclamam que quando um colega tem um comportamento indisciplinado os
demais além de perderem tempo de aula, ainda precisam ouvir o “xingão” dado pelo
professor. Para alguns alunos o professor deveria ter pulso firme para resolver os
conflitos que surgem em sala de aula. “O professor tem que ter mais autoridade
sobre os alunos, como a orientadora tem, os professores também deveriam ter.”
(A8S) Mas a maioria do grupo sugere que chamar a orientadora ou a direção é o
recurso que mais obtém resultados positivos, pois segundo eles, os alunos
respeitam mais alguém que não está diretamente em sala de aula e afirmam que a
orientadora e a direção têm mais autoridade, e os alunos sentem-se intimidados por
estas pessoas, pois elas podem dar advertência e chamar os pais. “A orientadora
pedagógica tem uma maior autoridade, que as professoras”(A6S). “O professor tem
autoridade, mas chamando a direção, não sei se o aluno tem medo da direção que
pode dar suspensão, ligar para os pais, mas o aluno se fraga mais rápido” (A7S).
Outro aspecto destacado pelos alunos se refere à ausência de respeito pelo
professor “na maioria das vezes a professora não consegue ter autoridade com a
turma, os alunos não levam a sério o que o professor fala. O professor está
perdendo sua autoridade, os alunos não respeitam mais nem o professor nem os
colegas”(A8S). Na opinião do grupo o respeito entre professor e alunos é
fundamental para que a indisciplina seja eliminada da sala de aula. O aluno deve se
conscientizar que a sala de aula é para estudar e o intervalo para conversar e
brincar, respeitando desta forma o professor e seus colegas. E os professores
devem respeitar os alunos e seus limites, para que também seja respeitado, pois
quando o aluno sente que é respeitado, ele passa a respeitar também. “Se você
respeita uma pessoa é impossível ela não respeitar você.” (A7S) Portanto, deve
existir respeito mútuo entre professor e aluno para que a indisciplina não esteja
presente, um relacionamento tranqüilo entre professor e aluno baseado no respeito,
e não no medo ou autoritarismo, resolveria muito o problema da indisciplina.
Segundo Guillot (2008a, p.176) “exercer a autoridade e estabelecer a
disciplina são duas atitudes radicalmente diferentes, mesmo que pareçam ligadas
em certos momentos. É a autoridade que dá um sentido à disciplina, não é a
disciplina que faz a autoridade”. Os professores que gritam, se irritam, castigam,
fazem isto por falta de autoridade. A autoridade reconhecida e respeitada favorece a
disciplina. A autoridade imposta suscita submissão e revolta.
Além deste aspecto verificou-se a relação entre indisciplina e descumprimento
de regras, e consideram que quem segue as regras tornam-se pessoas melhores.
“Se você infringe essas regras, você está sendo uma pessoa indisciplinada.
Infringindo um determinado grupo de regras de uma determinada instituição.” (A7S)
“Se o colega não respeitar as regras ele não está só prejudicando ele mesmo, mas a
professora e os outros colegas também” (A2S). Alguns alunos do grupo comentaram
que as regras devem ser questionadas, pois elas nem sempre estão certas e às
vezes até podem prejudicar as pessoas a elas submetidas. As regras para estes
alunos limitam a pessoa e isso pode prejudicar seu desenvolvimento.
Segundo Vinha (2009, p.6-7) para o professor, o conflito é um fenômeno
danoso, quando poderia ser uma oportunidade de aprender. Diante das situações de
conflito, comumente a escola toma duas direções: ou tenta conter o problema, ou
tenta punir ou cria uma nova regra. De situação em situação, a escola cria uma
soma de regras para evitar conflitos, e os alunos crescem despreparados para as
relações interpessoais. “A educação de hoje tem um efeito nocivo para a sociedade
não pela indisciplina, mas por preparar pessoas que não conseguem perceber
perspectivas diferentes sem se sentir ameaçadas, pessoas que não sabem debater,
argumentar”.
Para este grupo de alunos quem é indisciplinado possivelmente irá ter mais
dificuldades no aprender, porém este dado pode variar, pois tem alunos que fazem
bagunça, mas se saem bem na escola, em casa eles estudam. “Tem aluno que na
sala ele se dispersa com o que acontece, ele quer estar por dentro, mas em casa
sozinho, só ele mesmo consegue se concentrar”. (A7S) Cada pessoa tem um jeito
de estudar, alguns em sala se dispersam facilmente com os colegas e até mesmo
com os barulhos existentes em sala de aula, ou seja, nem todo aluno que é
indisciplinado em sala de aula irá ter dificuldades de aprendizagem. A ideia de que o
aluno indisciplinado para ir bem deve ser pressionado é criticada pela maioria do
grupo. “Sobre pressão a gente fica mais nervoso, porque tem que fazer aquilo que
estão pedindo, que estão mandando, e se não fizer, você vai sair ou perder alguma
coisa, acho que não é correto fazer isso” (A6S). “Se você for pressionado, sempre
que tiver que fazer alguma coisa, vai precisar ser pressionado” (A7S). “Não faz por
iniciativa dele, faz por pressão dos outros”(A4S). Para o grupo de alunos, as
pessoas devem ter consciência de seus deveres e assumi-los não por pressão de
outros, mas por ser uma pessoa responsável e que deseja ter sucesso, afinal
quando o aluno crescer e constituir uma família não haverá alguém lhe falando
sobre suas responsabilidades, mas será preciso dar conta delas. O que está
implícito a estas manifestações é segundo Piaget (1977) a moral da heteronomia,
baseada na obediência (à autoridade), da regra, do dever. A regra está no outro, é
necessário que este outro determine o que deverá ser feito. Desta forma, o germe
da autonomia não se instalará tão cedo.

3.2. ESCOLA “B”:


Para o grupo, os comportamentos indisciplinados atrapalham o professor e os
alunos que querem estudar, segundo eles o próprio aluno indisciplinado é
prejudicado, pois não consegue prestar atenção na explicação, enfim a indisciplina
em sala de aula atrapalha muito. “Atrapalha o professor, que quer ensinar o aluno.”
(A3C) “Quem fica brincando na sala perde a concentração” (A4C). Apontam que o
professor deve buscar as alternativas para resolver as situações envolvendo a
indisciplina em sala, antes de passar para a direção e afirmam que os professores
deveriam se impor mais, não deixando que os alunos tomem conta da sala, é
preciso impor limites, pois se o professor não toma nenhuma atitude diante das
cenas de indisciplina que ocorrem no meio escolar, elas tornam-se cada vez mais
freqüentes e até mais violentas, ou seja, o professor deve se manifestar com o
intuito de eliminar a indisciplina logo que ela inicia, pois se deixar os alunos vão
tomar conta e será mais complicado. O professor deve mostrar aos alunos que ele é
a autoridade na sala de aula. “Eu também acho que o professor tem que se
manifestar” (A8C). “Se o aluno conseguir bagunçar uma vez, depois eles vão tomar
conta”(A2C). Novamente, está em foco à necessidade de o professor ser autoridade,
não deixar passar a oportunidade de educar.

3.3. ESCOLA “C”:


Um aspecto importante abordado pelo grupo é com relação ao respeito na
escola e em sala de aula, pois para eles, é preciso que o mesmo esteja presente
entre professores e alunos: “Os alunos precisariam respeitar a professora, como os
alunos tratassem a professora, ela também deveria tratar os alunos”, enfatiza o
aluno (A5CS). Aquino (1999) já havia alertado para a importância da relação
professor-aluno. Para o autor, a visibilidade do aluno quanto ao seu papel é
diretamente proporcional à do professor quanto ao seu, ou seja, o aluno sente
quando o professor está empenhado na sua tarefa, sendo que o mesmo pode
acontecer com o professor em relação ao aluno. O respeito é um elemento
fundamental, tanto por parte do aluno quanto do professor, para que se possa
chegar ao aprendizado.
Para esse grupo de alunos a indisciplina está relacionada a comportamentos
que podem partir do professor: “é quando os professores não ensinam bem para as
crianças (...) algumas professoras que trazem os problemas de casa para descontar
nos alunos”, afirma (A9CS).
Outro aspecto importante se refere à relação entre indisciplina e postura dos
pais no processo educativo: “tem alguns pais que não ensinam isso para os filhos,
daí quando eles chegam à escola são mal educados”, comenta (A9CS). O grupo de
alunos também diz que os pais devem ensinar a educação e o respeito aos filhos: “o
respeito e a educação vem de casa”, afirma (A4Cs). Quando tentam atribuir a
indisciplina aos pais acabam confirmando que acreditam que a origem do problema
pode ser familiar.
Estes mesmo alunos apresentam várias falas atribuindo a indisciplina aos
próprios alunos: “é a criança mal educada”, diz (A4CS), “é a criança que não estuda
que não respeita as pessoas”, afirma (A1CS) “é a criança que tem bastante
problema”, conclui (A6CS). Evidenciamos na opinião dos alunos a indisciplina
caracterizada, também como mau comportamento do aluno, falta de educação,
desrespeito, entre outros.

3.4. ESCOLA “D”


Nesse grupo também se verificou a atribuição da relação entre indisciplina e a
influência familiar “acho que vai do que é influenciado em casa. Depende muito dos
pais, do que eles passaram”, conclui (A4SJ).
Da mesma forma como nos outros grupos identificamos a ênfase ao fator
autoridade: “o aluno indisciplinado quer se colocar acima do professor e isso gera
bastante conflitos”, fala (A4SJ); “os alunos querem mostrar que não têm medo do
professor”, relata (A7SJ). Aquino (1998) nos lembra da educação de antigamente,
de cunho autoritário, de acordo com uma Ditadura Militar. Hoje se sabe que o uso de
coerção e autoritarismo somente prejudica o aprendizado do aluno. Para não fazer
uso de autoritarismo e conduzir bem a aula é fundamental que o professor busque
compreender os motivos do comportamento do aluno, não se sentir lesado ou
pessoalmente ofendido, construindo um vínculo com o aluno que permitirá de forma
eficaz sua intervenção.
Ao serem questionados sobre o significado do termo indisciplina, os alunos
dizem entender como sendo as brigas que acontecem no cotidiano escolar, o
desrespeito ao regulamento da escola, contrária à disciplina, além de desrespeito
aos colegas e demais pessoas, podemos identificar isso nas falas a seguir: “seriam
as brigas que foram mostradas nas cenas, não respeitar o regulamento da escola,
seria sair da disciplina”, “não respeitar os outros, brigar”, afirma (A4SJ).
É importante ressaltar nos argumentos deste grupo a necessidade que os
alunos possuem de ser atendidos em suas demandas, alguém que se aproxime
deles, se interesse por eles, os conheçam e busque auxiliá-los. Muitas das
manifestações de indisciplina representam o chamar atenção do outro para suas
necessidades, muitas vezes um apelo afetivo, a solicitação de ajuda. É necessário
que o entorno destes indivíduos se torne sensível a estas manifestações, não
somente assumindo o papel coercitivo e regulador de comportamentos. Este
aspecto é verificado nos argumentos “a resolução dos problemas com indisciplina
seriam as conversas, chamava para conversar e diria para ele se comportar na sala;
iria pedir o que está acontecendo com você”, comenta (A8SJ); “eu faria entender
que está ali para aprender e se mesmo assim não resolvesse, eu pediria para
chamar os pais para eles tentarem reeducar os filhos deles”, afirma (A7SJ).

4.CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Há um ditado chinês que diz que, ‘se dois homens vêm andando por uma
estrada, cada um carregando um pão, e, ao se encontrarem, eles trocam os
pães, cada homem vai embora com um; porém, se dois homens vêm
andando por uma estrada, cada um carregando uma ideia e, ao se
encontrarem, eles trocam as ideias, cada homem vai embora com duas’.
Quem sabe é esse mesmo o sentido do nosso fazer: repartir ideias, para
todos terem pão [...] (CORTELLA, 1998, p. 159).

O trabalho de investigação que realizamos, por meio da cartografia dos


sentidos atribuídos por alunos do ensino fundamental à indisciplina, nos permitiu
compreender, um pouco mais, sobre o fenômeno indisciplina. Fenômeno este que
produz inúmeras dificuldades sejam elas, relacionadas à relação professor e aluno,
entre alunos, entre direção e alunos. Justamente por consistir um fenômeno que
interfere no cotidiano escolar, e em outros contextos, torna-se fundamental
possuirmos clareza co relação à rede de elementos e relações que o produzem.
Além disso, não nos esquecermos do papel que assumimos enquanto educadores,
pais, enfim, responsáveis pelo desenvolvimento da criança, visto que quando nos
eximimos de nosso papel, também assumimos o lugar de indisciplinados. Nesse
sentido, vale reafirmar que não há o melhor, nem o tempo ideal para educar um
aluno/criança, todas as oportunidades devem merecer atenção e ser foco de
educação.
A escola não pode se eximir de sua tarefa educativa no que se refere à
disciplina. Se um de seus objetivos é que os alunos aprendam as posturas
valorizadas na nossa cultura, a prática escolar cotidiana deve dar condições para
que eles não somente conheçam estas expectativas, mas também construam e
interiorizem tais valores e, principalmente, desenvolvam mecanismos auto-
reguladores de sua conduta.
Entretanto, caso a indisciplina esteja instaurada em determinada prática, suas
causas, assim como as possíveis soluções para esse fenômeno, devem ser
buscadas nos fatores intra-escolares, os quais incluem, porém extrapolam o espaço
da sala de aula, já que envolvem a escola como um todo. Assim, mais do que
esperar a transformação das famílias ou de lamentar os traços comportamentais que
cada aluno apresenta ao ingressar na escola, é necessário que os educadores
concebam tais antecedentes e façam uma análise dos fatores responsáveis pela
ocorrência da indisciplina em sala de aula (REGO, 2007, p. 24).
Em consonância com estes elementos, Guillot (2008b, p.7) enfatiza que
educar as crianças requer que os adultos ousem assumir sua autoridade de “adultos
do cotidiano”, o que ele designa como autoridade de bons-tratos. Esta tem como
principal função autorizar a ser, a existir, a crescer, a expressar emoções, a criar.
Implica o respeito, a priori e incondicional, à pessoa da criança. Trata-se de uma
postura ética, cuja existência suprema é promover a condição humana. Porém,
autorizar a ser não autoriza a fazer o que quiser: proibições, limites e regras são
indispensáveis, com a condição de incidirem sobre o que as crianças fazem, jamais
sobre o que elas são. A autoridade de bons tratos é projeto. As famílias e a escola
devem, com sua especificidade respectiva, implantá-la. Os pais devem fazê-lo no
envolvimento afetivo, entretanto, sem renunciar à sua autoridade. Os professores
devem fazê-lo com um profissionalismo pedagógico, que requer uma formação que
não seja unicamente de instrumentação, mas também de reflexão sobre o sentido e
os efeitos de suas práticas (GUILLOT, 2008a, p.186).
A crise de autoridade identificada nos dados coletados e na posição dos
autores consultados, não é especificamente escolar, mas é social. Sair da crise de
autoridade não é restaurar um velho autoritarismo, tão pouco, o abandono da
autoridade pelos acordos desmedidos e interesseiros seria a solução, nem tudo
pode ser negociado, e o adulto tem por responsabilidade estabelecer os limites do
negociável. “A autoridade dos bons tratos é um princípio fundador, mas também
uma postura diária: ela se pensa e se pratica ao mesmo tempo. [...] A autoridade dos
bons tratos, isto é, a autoridade bem compreendida, não é uma autoridade de
circunstâncias: a educação não deve ser absolutamente servil, mas fértil!”
(GUILLOT, 2008a, p.187).
Enfim, educar é um ato contínuo, os mediadores deste processo devem
primar por ações transparentes e convictas, de enfrentamento diante dos dilemas e,
não contando com o auxílio de nenhum manual de procedimentos de como fazer ou
mudar a situação, continuar buscando, ensaiando, analisando as estratégias
utilizadas, fazendo-se valer de suas experiências. Cada aluno e cada situação nos
colocam novos desafios. Os sujeitos que estão sob nossa responsabilidade (filhos,
alunos menores e maiores), necessitam de referência, de orientação e, por vezes,
chamadas de atenção mais severas, manifestação de desagrado com determinado
conjunto de atitudes também são esperadas/desejadas pelo aluno/criança. Muitas
vezes é isto mesmo que ele espera de quem está a sua volta, que se manifeste, que
ajude a pensar, a se situar enquanto pessoa. É importante que alguém coloque a
regra, até que, efetivamente convicto deste conjunto de princípios de ação, o sujeito
possa gerenciá-las, e de forma autônoma viver bem. Nesse sentido, para finalizar,
nos valemos da afirmação de Aquino ( 2002, p.70) “disciplina é efeito, e nunca
causa”.

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