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LABORATÓRIO

A bússola do
escrever: sobre a
função da
orientação de
teses e
dissertações 1 Pesquisador e/ou orientador? Ou
gato por lebre
RESUMO
No presente artigo se trata de chamar a atenção para a im- A ORIENTAÇÃO DE TESES e dissertações é um
portância da função de orientação na produção de conheci- tema que se insere evidentemente no terre-
mentos e na formação dos pesquisadores, apontando para a no da pós-graduação e diz respeito à im-
lacuna existente nos estudos sobre esta temática. A orienta- portante questão da formação e capacitação de
ção de teses e dissertações é realizada, na maioria dos casos, docentes. Reinaldo Guimarães e Nádia Ca-
por doutores que passaram por atividades de pesquisa pelo ruso, no seu artigo “Capacitação docente: o
menos durante seu mestrado e doutorado. Entretanto, ter lado escuro da pós-graduação”, observam
recebido orientação e propor-se a praticá-la, por si só não que a “capacitação docente é um dos capí-
garante o domínio dos processos, procedimentos e estratégi- tulos da pós-graduação onde a bibliografia
as que podem levar a bom termo uma tese ou dissertação. é mais escassa” ou “muito pouco se escre-
Boa parte deste trabalho implica ler e escrever, dar forma veu a seu respeito” (CAPES 1996, 121). O
escrita às idéias, experiências e leituras realizadas, atividade tema que abordamos, a função do orientador,
para a qual ainda não contamos com uma formação eficaz nos parece estar justamente no coração da
específica. Colocar em circulação e debate os sucessos e fra- especificidade da formação e da capacita-
cassos dos orientadores é urgente e fundamental para quali- ção de docentes na pós-graduação, sendo
ficar a academia. um tópico que, fazendo parte do quotidia-
no dos docentes de pós-graduação, rara-
ABSTRACT mente é tomado como objeto de estudo en-
quanto tal.
PALAVRAS-CHAVE Sabemos que o Brasil se encontra ain-
- Texto da em fase deficitária quanto ao contingen-
- Metodologia te de pesquisadores, havendo, no pais,
- Interpretação uma demanda muito superior à oferta de
doutores. Segundo Guimarães e Caruso, o
Brasil precisaria de 5000 novos doutores
por ano e as estatísticas indicam apenas
2000 novos doutores disponíveis anual-
mente (CAPES 1996 : 121). Esforços vêm
sendo feitos, por órgãos como a CAPES e o
CNPq, no sentido de avaliar e acompanhar,
da forma mais eficaz possível, a criação de
novos cursos de pós-graduação e o anda-
Ana Maria Netto Machado mento daqueles que já tem um certo tempo
Psicanalista, Dra. em Ciências da Linguagem
Universidade Paris X de percurso, no intuito de satisfazer às ne-
Coordenadora do 1o Laboratório de Escrita do RS cessidades do país. O caderno da CAPES,

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de 1996, revela muitas das preocupações nem quais são os seus procedimentos mais
em pauta, quando se trata de examinar a freqüentes. As atividades que levam a esse
situação da pós-graduação brasileira e pro- resultado são atualmente de difícil acesso,
mover seu rápido desenvolvimento, dentro uma vez que poucos autores têm se detido
de bons padrões de qualidade. a estudar especificamente esta temática.
Como instrumento fundamental para Entretanto, de certa forma está-se a pensar
zelar pela excelência da pós-graduação bra- que a avaliação da produção científica de
sileira, aparece – proposta pela maioria dos um docente é reveladora de suas qualida-
autores que escreve sobre a questão – a des como orientador. É o que deixa claro
avaliação dos cursos e, mais especificamen- Krieger na seguinte formulação:
te, a avaliação do desempenho dos seus res-
ponsáveis, isto é, o conjunto de mestres e “Há boa experiência acumulada se-
doutores de cada curso. Todos parecem guindo critérios universalmente acei-
convergir no sentido de que a qualidade da tos de como se avalia o desempenho
pós-graduação depende, em grande parte, científico de um pesquisador baseada
do trabalho dos mestres e doutores, princi- na análise de suas linhas de pesquisa
palmente daquilo que se passa entre os dis- e de sua produção científica (número
centes e os docentes. e qualidade dos trabalhos publica-
Um dos pontos sugeridos por Eduar- dos). Atualmente com o auxílio de
do Moacyr Krieger, quanto à avaliação da bancos de dados que contém os traba-
CAPES, é “que ela se torne cada vez mais lhos publicados em revistas inde-
individualizada e que a qualificação dos cur- xadas pode-se facilmente acompanhar
sos claramente reflita a soma do desempe- a produção científica e mesmo a qua-
nho dos seus orientadores” (In CAPES 1996: lidade da produção, de cada um dos
“Avaliando a avaliação da CAPES: Proble- orientadores“ (Krieger, in CAPES 1996:
mas e alternativas”, p. 18). 17).
Chamamos a atenção para o fato de
que, nessa fórmula, se está privilegiando Pode-se avaliar desta maneira a pro-
uma função exercida pelos docentes da pós- dução dos orientadores enquanto pesqui-
graduação que é a orientação. Reconhece-se sadores, mas não exatamente na sua função
também, nessa afirmação, a singularidade de orientadores. Será que estes dados são
dessa interação entre orientador e orientan- efetivamente eloqüentes quanto à qualida-
do e a conseqüente necessidade de fazer de das práticas de orientação dos orienta-
uma avaliação menos padronizada, que dores? A produção está sendo medida tan-
possa dar conta dessa singularidade. No to pela quantidade de publicações em re-
entanto, quando verificamos quais estão vistas especializadas, consideradas de bom
sendo, de fato, os critérios para avaliar esta nível, como pelo número de participações
interação tão particular, percebemos que em congressos regionais, nacionais e inter-
são os resultados do trabalho que entram no nacionais. Também se fala em qualidade
mérito da avaliação. Ou seja, a produção, em da produção, mas esta é, sem dúvida, bem
especial a produção escrita, o que é sem dú- mais difícil de ser estimada. Supõe-se que
vida uma parcela relevante do fazer destes boas revistas têm boas equipes de triagem
profissionais. Mas é preciso chamar a aten- de artigos e aceitam apenas trabalhos de
ção para o fato desta avaliação ser indireta, qualidade. Mas certas reservas precisam
à medida que o trabalho efetivamente reali- ser mantidas quanto a este critério pois sa-
zado pelos docentes e que resulta na pro- bemos que existem, dentro do mercado de
dução avaliada, a orientação em si, não está publicações e convites para eventos, outro
sendo examinado, até porque não se sabe tipo de influências de poder, de caráter
exatamente o que se passa nesse processo, muito menos científico do que político. É

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interessante sublinhar que, no início da ci- demorado pode ser esse processo.
tação acima, fala-se em critérios para avali- Ser professor é então diferente de ser pes-
ar o pesquisador e no final da frase é do orien- quisador, embora uma mesma pessoa possa
tador que se trata. De um termo se escorre- exercer ambas atividades ou funções. Esta
ga para o outro como se fossem sinônimos. afirmação pode parecer desnecessária e até
Os mesmos critérios são considerados banal. Mas se pensarmos no orientador, ve-
igualmente válidos para avaliar pesquisa- remos que esta aparente obviedade não é
dores e orientadores. Mas, trata-se efetiva- tão simples como parece. Como diz Miriam
mente de uma mesma atividade ou função ? Warde, “o óbvio é sempre o mais funda-
Cabe levantar a questão. Se ao avaliar ti- mental”, pois com freqüência deixa de ser
vermos em mente que estamos avaliando explicitado, podendo levar à inúmeras con-
um professor X, que exerce a pesquisa e fusões.
também a orientação, um único procedi- O que nos autoriza a acreditar que o
mento de avaliação pode parecer válido. simples fato de pesquisarmos nos capacita
No entanto, nesse caso, estaremos para orientar? Assim como ensinar é dife-
avaliando o professor, e estaremos conside- rente de pesquisar, e ninguém questionaria
rando como pressuposto que, se ele é um a necessidade de uma formação específica
bom pesquisador será necessariamente um para fazer de um professor um pesquisa-
bom orientador ou vice-versa. Em última dor, por quê razão a orientação seria uma
análise, por trás dessa atitude subjaz a atividade espontânea e natural? Nada pare-
idéia de que todas as atividades que um ce mais lógico do que esperar que uma for-
“bom profissional” desenvolverá serão mação específica deva entrar em cena, tam-
bem realizadas. Mas será que podemos bém na transformação de um pesquisador
sustentar essa afirmação? em orientador. Em que consistiria essa for-
Na citação acima, bastaram ao pesqui- mação é uma questão que nos interessa e
sador umas poucas linhas para se transfor- para a qual estamos empenhados em de-
mar, num deslizamento mágico, em orien- senvolver respostas, que serão apenas assi-
tador. Se encaramos a questão com a serie- naladas na parte final deste trabalho. Mas o
dade que ela merece, somos levados a nos fato é que, de modo geral, temos encarado
perguntar: como se faz essa passagem de pes- a função do orientador como se fosse uma
quisador a orientador ? atividade simples, praticamente inerente
É preciso dizer que orientar e pesquisar ao pesquisador, a qual ele deveria desde
estão longe de fundir-se numa única atividade. sempre dominar.
Certamente não é a obtenção das insígnias Promovem Gatti e Grzybwski a idéia
de mestre ou doutor que fazem, por um de que aprende-se a pesquisar pesquisan-
rito iniciático, de um pesquisador um ori- do (In Warde ...: 69). Poderíamos, parafra-
entador. Um professor, pelo simples fato seando estes autores, ceder à tentação de
de exercer atividades docentes não é um dizer que aprende-se a orientar orientando.
pesquisador. E de modo geral, não se espe- E talvez esta seja uma afirmação próxima
ra de um docente que ele saiba pesquisar, da verdade. Mas o paralelismo pode ser
embora nos dias atuais se encoraje cada forçado e simplista, pois as diferenças são
vez mais os professores à pesquisa. Sabe-se gritantes. Um orientador, por exemplo,
que para tornar-se um pesquisador ele tem passou necessariamente pela experiência
um longo percurso a trilhar. Os cursos de de orientando, enquanto que um pesquisa-
mestrado e doutorado, entre outras possi- dor, não necessariamente foi um “pesqui-
bilidades especiais, têm a sua razão de sado”, isto é sujeito da pesquisa de um ou-
existir justamente para promover esta pas- tro pesquisador. Na formação de um pes-
sagem, e sabemos, todos aqueles que fize- quisador não tem sido abordada a necessi-
mos essa travessia, quão difícil, sofrido e dade de passar pela experiência de “pes-

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quisado”. Já no caso do orientador, a expe- na bússola do novo orientador, instrumento
riência de ter sido orientado parece ser o aliás fundamental, pois ele se encontrará
melhor guia com o qual ele conta para o inúmeras vezes, como capitão de um barco
exercício dessa função. Esta diferença suge- à deriva no meio do oceano.
re diferenças importantes entre pesquisar e De modo que, tateando e de maneira
orientar, que merecem ser investigadas. bastante intuitiva, cada um de nós terá de
Mas o que parece-nos fundamental e dese- desenvolver alguma modalidade para
jável, num momento mais imediato, é que acompanhar seu orientando e, o que é mais
esta prática repetida e acumulada de orien- decisivo, fazer com que ele consiga apre-
tação possa, assim como tantas outras prá- sentar um bom resultado, isto é, conclua e
ticas, ser tomada como objeto de estudo ou defenda satisfatoriamente sua tese ou dis-
tema de pesquisa, dela resultando, num sertação. Até porque, na prática é, basica-
dado momento, teoria. mente, pelo resultado apresentado pelo
Não resta dúvida que durante o mes- orientando, que o orientador será julgado
trado e o doutorado existe uma experiência ótimo, bom ou medíocre. Entre o momento
de orientação, mas desde o lugar do orien- em que a relação de orientação se estabele-
tando, o que absolutamente não quer dizer ce e a tese ou dissertação é defendida, en-
que se absorve automaticamente a experi- contram-se as mais variadas modalidades
ência da outra parte, isto é, a do orientador. de orientação, das quais infelizmente con-
O que de fato parece acontecer normalmen- tamos com pouquíssimos registros, relatos
te, e sobre o qual pouco se tem questiona- e muito menos pesquisas que elucidem e
do e refletido, é que o orientando defende explicitem estas ações.
sua dissertação e/ou sua tese e, subitamen- É possível que muitas vezes o resulta-
te, vê-se diante de um outro orientando. De do positivo legitime a orientação aconteci-
uma hora para outra ele perde seu lugar de da. A partir desse sucesso podemos querer
orientando, para passar a ocupar o prestigi- julgar se um orientador é bom ou não. Se
oso, mas as vezes incômodo lugar de orien- bem que orientar um mestrando ou douto-
tador. A partir desse momento, supõe-se rando, com sucesso, não implica necessari-
que o novo mestre ou doutor, munido de amente num bom orientador. Pode também
seu título, deve saber levar a bom termo ser o mérito de um excelente orientando,
essa misteriosa atividade que é orientar. que fez um excelente trabalho apesar do ori-
Uma das poucas referências que esta- entador. De qualquer maneira, continua-
rá disponível para o orientador debutante mos sem saber como o sucesso se deu, como
será a de evitar aqueles procedimentos que a orientação operou nesse caso particular e,
julgou inapropriados no seu próprio orien- o que é ainda mais sério, sem poder apro-
tador, mas que não teve outra alternativa veitar essa experiência para melhorar a
que suportar. Ele também poderá tomar ação dos demais orientadores, isto é socia-
como modelo aquelas atitudes do orienta- lizá-la.
dor que o auxiliaram a desenvolver sua Pouco se fala entre os orientadores
própria tese. Isto, considerando que a in- sobre o tema da orientação, pouco se troca,
tencionalidade do novo orientador domine pouco se escreve e consequentemente pou-
a cena, o que é bastante improvável. É pre- co se lê, enfim... trata-se de uma atividade
ciso lembrar, fazendo juz a nossa época, que constitui o quotidiano dos professores
que o ideal da racionalidade cai por terra de pós-graduação, mas que permanece “in-
quando consideramos, com Freud, a exis- visível”, para a qual ainda temos muito
tência do inconsciente. Um balanço entre os poucas palavras. Reconhece-se que é nesse
prós e os contras da experiência vivida en- lugar, nessa relação, entre orientador e ori-
quanto orientando, entre muitas outras ex- entando, que se dá o fundamental da forma-
periências pessoais subjetivas, resultarão ção do pesquisador, como afirma Krieger:

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“Como a pós-graduação visa primei- ou em quê seus métodos se diferenciam?
ramente à formação científica, a intera- Quais são os modos mais eficazes de ope-
ção do aluno com o orientador e as condi- rar em matéria de orientação, etc. Podemos
ções que este oferece para o treinamento perceber que há um enorme caminho a per-
científico de bom nível, são os ele- correr nesta área específica, na qual encon-
mentos que devem ser prioritaria- tramos escasso material bibliográfico.
mente considerados em qualquer ava-
liação” (Krieger; 17).
2 A trinca da pós-graduação
Mas que condições são essas? Qual o
leque de variação dessas condições? Estas Afim de começar a sistematizar alguns
continuam sendo perguntas a demandar pontos fundamentais, diremos que a um
estudos e respostas. O que se passa nesse professor de pós-graduação cabe, como
espaço interativo, íntimo e privado, precisa missão principal, a formação de pesquisadores,
receber mais atenção, precisa ser dessacra- o que para nós incluiria três categorias bási-
lizado e não ficar apenas entregue ao bom cas distintas de atividades ou funções propri-
senso e ao talento, ou quem sabe, ao mau amente pedagógicas. A tradicional ativida-
caráter eventual de um professor. de de docência, bem desenvolvida em nos-
Como poderíamos aceitar que, justa- sas universidades, a função de pesquisador,
mente, o procedimento nobre sobre o qual na qual a tônica e os investimentos atuais
repousa o processo de ensino-aprendizagem da se concentram, e a função de orientador,
pesquisa não seja, ele mesmo, alvo de pesquisa? É para a qual começa-se a olhar de maneira
paradoxal que no ápice da pirâmide da ainda muito tímida. Deixamos aqui de lado
produção de conhecimento, este seja regi- funções administrativas ou atividades ex-
do basicamente pela intuição. Vale lem- ternas aos cursos, limitando-nos a distin-
brar as palavras de César Zucco, da UFSC guir o que nos parece constituir o tripé, no
(In CAPES 1996: 83), segundo o qual, na qual pode se apoiar solidamente um bom
graduação, se transmitiria conhecimento e trabalho da pós-graduação.
na pós-graduação se construiria conheci- Estas três funções podem ser exerci-
mento. Apesar desta visão ser talvez ques- das por um mesmo profissional, mas a
tionável, ela nos dá a ocasião de dizer que competência em uma delas não garante ab-
urge, senão construir conhecimentos sobre solutamente a competência em qualquer
o que seja orientar, ao menos começar a sis- uma das outras. Cada uma requer habilida-
tematizar os procedimentos mais ou menos des e preparo especial. Um excelente pro-
intuitivos, que de fato intervém, até o pre- fessor de sala de aula não será necessaria-
sente momento, na atividade prática dos mente um excelente pesquisador, e um
diferentes orientadores. De modo que pos- pesquisador não será necessariamente um
samos compreender as situações às quais ótimo professor na sala de aula. Temos que
nos vemos confrontados e agir sobre elas reconhecer que além do preparo para o
com o rigor compatível com sua importân- exercício dessas funções, um fator pessoal
cia e complexidade. e subjetivo, que muitos chamam de talento,
O fato é que, de maneira mais ou me- intervém no resultado obtido por cada um.
nos eficaz, uns e outros terminam por con- Um orientador deverá ter passado ne-
seguir seus objetivos. Teses e dissertações cessariamente por uma experiência de pes-
estão constantemente sendo aprovadas. O quisa, sua própria tese, mas ele poderá ser
que não sabemos, insistimos, é como ope- eventualmente mais feliz nas suas orienta-
ram os diversos orientadores ou, mais pre- ções do que nas suas próprias pesquisas.
cisamente, como funciona a orientação. O Queremos com isto insistir no fato de que
que diferentes orientadores têm em comum se trata de funções nitidamente diferentes,

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e de mostrar o interesse existente em evi- roso levantamento bibliográfico, nenhuma
denciar e aprofundar estas distinções, bem obra portando o título de orientação (de te-
como, em desenvolver pesquisas específi- ses ou dissertações) foi localizada. Entre
cas sobre cada uma delas. Obteremos as- pouco mais de 70 obras dedicadas à pes-
sim maior clareza, evitaremos confusões e quisa e à metodologia de pesquisa, em lín-
frustrações desnecessárias. gua portuguesa, encontramos apenas 06
Estas três funções podem ser aprendi- que incluem, no seu índice, itens referidos
das, aperfeiçoadas, e não é preciso exigir-se à pós-graduação, mestrado ou doutorado
um desempenho exemplar numa atividade (levantamento feito na biblioteca da PU-
na qual se estréia e para a qual não se teve CRS). Ou seja, menos de 10%. É um dado
uma formação especifica. Referimo-nos intrigante se confrontado com as atuais dis-
neste caso especificamente à orientação, ati- cussões sobre a relevância da pesquisa e
vidade para a qual os novos doutores são sua íntima ligação com as instâncias forma-
empurrados, sem nunca ter lido um artigo doras de pesquisadores, isto é, os cursos
sobre o tema ou escutado alguns esclareci- de mestrado e doutorado. Destas 06 obras
mentos básicos, até porque muito pouco que dedicam certo espaço às teses e disser-
material encontra-se disponível. tações, apenas 02 explicitam subtítulos
Se compararmos a quantidade de lei- mencionando a orientação. O livro de Um-
tura e de trabalhos que um aluno de pós berto Eco, Como se faz uma tese, e o livro de
graduação é solicitado a consultar e elabo- Antônio Joaquim Severino, Metodologia do
rar, na sua formação de pesquisador, com a trabalho científico. O primeiro, traz um item –
inexistência absoluta de preparo para tor- “Como evitar ser explorado pelo orienta-
nar-se orientador, não é de surpreender dor”– com apenas duas páginas, dentro do ca-
que os novos orientadores sintam-se “deso- pítulo intitulado “A escolha do tema”. O
rientados”. No entanto, estando hierarqui- livro de Severino, inclui um único item, de
camente no topo da pirâmide acadêmica, três páginas, sobre orientação: “O processo
fica difícil para estes profissionais admitir de orientação”. Não um capítulo, mas ape-
seu despreparo, até porque o profissional, nas um sub-item, dentro do item “Quali-
na prática, não saberia a quem recorrer aci- dade e formas dos trabalhos exigidos nos
ma dele. cursos de pós-graduação”, que se insere
Sobre o ensino-aprendizagem conta- por sua vez no capítulo “Observações me-
mos com uma vasta bibliografia, proveni- todológicas referentes aos trabalhos de
ente de uma longa tradição, assim como pós-graduação”. Este espacinho reduzido e
uma produção contemporânea contínua. A minúsculo, reservado para a orientação, é
maior parte destinada ao ensino em geral revelador de que não estamos ainda inves-
ou aos níveis mais elementares de ensino, tindo nessa questão, que talvez ainda não
mas que pode ser aproveitada também, em esteja sendo percebida como a questão
algumas dimensões, para o ensino superior central na formação dos pesquisadores. É
e a pós-graduação. de chamar-se a atenção para o fato de que,
Sobre pesquisa e metodologia de pes- dessas seis obras, que abordam os proble-
quisa encontramos também abundante ma- mas de teses e dissertações, três são de
terial. E sobre orientação, o que encontra- 1993, uma de 1992, uma de 1985 e apenas o
mos? conhecido livro de Umberto Eco, Como se
faz uma tese, dos anos 1970. Este último é
por sinal a única obra estrangeira, dentre os
3 O grande ausente na bibliogra- 06 apontados que consultamos. Ou seja, a
fia sobre pesquisa pesquisa, vista como fundamentalmente li-
gada aos cursos de formação de pesquisa-
Num rápido, mas não por isso pouco rigo- dores, mestrados e doutorados, é bastante

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recente, principalmente no Brasil. versidade de Uberlândia. Afirma este
Além deste único item de Severino so- autor que a orientação é em geral uma ati-
bre orientação, alguns poucos documentos vidade solta, sem grandes exigências, e que
abordando o tema foram encontrados. Nos termina por ficar em segundo plano nos
Anais do 1° Simpósio de Pós-graduação realiza- programas de pós-graduação. As causas se-
do na UNICAMP em 1985, encontramos um riam um certo desvio dos objetivos da pós-
trabalho de Sérgio Vasconcelos de Luna, graduação, que acaba apenas preenchendo
denominado “Análise de dificuldades na lacunas deixadas pela graduação, ao invés
elaboração de teses e de dissertações a par- de efetivamente formar pesquisadores, no
tir da identificação de prováveis contingên- dizer de Silva. Pareceria que tem sido mais
cias que controlam essa atividade do alu- fácil investir no campo no qual já se tem
no”. Neste trabalho, temas muito interes- vasta tradição e experiência, ou seja, na do-
santes como A escolha do orientador, Dificul- cência, carregando os cursos de mestrado e
dades do orientador e A relação entre orientador- doutorado com inúmeras e variadas disci-
orientando, foram utilizados como critérios plinas, do que realmente investir no perso-
para a análise dos resultados da pesquisa, nagem candidato à pesquisador, o que re-
mas não foram efetivamente explorados. quer um trabalho muito mais individuali-
Nota-se neste autor a preocupação com o zado, personalizado, de interação, que tra-
tema, mas o trabalho parece prometer mais balha fundamentalmente sobre a matéria
do que de fato oferece, sendo pouco con- trazida pelo orientando. O espaço da orien-
tundente nas suas conclusões. tação serviria justamente para investir no
Na obra de Adivaldo Boaventura, estudante para que ele venha a amadurecer
Universidade em mudança, de 1971, encontra- e se tornar um pesquisador autônomo.
mos um capítulo, de oito páginas, denomi- Silva relata certas modificações reali-
nado “Orientação metodológica para estu- zadas no Mestrado de Educação de Uber-
do”. Embora o autor não trate exatamente lândia, visando privilegiar o verdadeiro
da orientação na pós-graduação, ele traz objetivo da pós-graduação. Um currículo
uma série de desenvolvimentos interessan- menos rígido, organização de atividades
tes, colocando essa função do orientar em em Núcleos de pesquisa e, o que nos inte-
destaque, como fundamental para a melho- ressa mais particularmente, um lugar privi-
ria da qualidade do ensino no Brasil. Os legiado para a orientação. Diz o autor que:
itens deste capítulo procuram analisar a re-
lação entre o professor e o aluno, fora da “A orientação consiste em um traba-
sala de aula. Este autor reivindica mais es- lho sistemático de pesquisa, planeja-
paço, formal e reconhecido (não apenas no do pelo aluno com seu orientador res-
corredor) para sediar e promover esta rela- ponsável. As sessões de orientação
ção entre os discentes e docentes, que ele são, regulares, com calendário e horá-
caracteriza como orientação. Suas reflexões rio definidos, cujos resultados são
nos parecem úteis para situar a função do avaliados semestralmente pelo orien-
orientador no caso de teses e dissertações, tador, com atribuição de créditos.“
e serão proximamente, por nós trabalhadas. (In: 19a Reunião Anual da ANPED, 22
Entre um grande número de artigos e a 26 de setembro 1996, p. 198)
comunicações apresentados na ANPED de
1996, apenas um revela preocupações em Apreciamos neste autor o fato de reco-
torno da formação de docentes no terceiro nhecer na orientação a atividade régia da
grau, colocando a orientação em lugar de des- formação de pesquisadores. Mas constata-
taque. Jefferson Ildefonso da Silva analisa o mos que ele tampouco tem muito a dizer
problema a partir de uma experiência espe- sobre a orientação em si, enquanto proces-
cífica, no mestrado de Pedagogia da Uni- so ou procedimentos. Ele reconhece que é

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fundamental, e por isso lhe consagra espa- conhecimento, a orientação opera em torno
ço e tempo. Mas isto é insuficiente, pois de uma produção ou criação (produção escri-
sabemos que muitos desses encontros fre- ta), que esta profundamente ancorada na
qüentes, as vezes semanais ou quinzenais, subjetividade e mergulhada na emocionali-
acabam se burocratizando ou sendo apenas dade do orientando. Não resta dúvidas que
um agradável encontro informal de cama- há fortes razões para a manutenção do si-
radagem, regado a chimarrão, chá ou cafe- lencio que paira sobre atividade tão sus-
zinho, no qual nem orientador nem orien- peita !
tando sabem muito bem o que fazer. A de-
sorientação na orientação parece ser ainda a
regra em vigor.
Diluídas no tratamento de problemas
em torno de teses e dissertações vemos por
vezes aparecer algumas menções à orienta-
ção, quase sempre rápidas e pouco apro-
fundadas. Essas referências fugazes, consti-
tuem um material precioso com o qual con-
tamos, e cuja análise possibilitaria traçar
um quadro de base, a partir do qual pode-
ríamos avançar na reflexão do tema. Não
discutiremos aqui esses dados. Adiantare-
mos apenas, que fala-se mais do que o ori-
entador não deve ser, ou não deve fazer, do
que sobre o que ele de fato faz. Também
fala-se de um certo perfil esperado pelo
orientador com relação ao orientando e
que, em geral, é frustrado, pois este ficaria
aquém desse ideal. Porém, deixaremos a
apresentação desta análise, na qual traba-
lhamos presentemente mas ainda não con-
cluímos, para um próximo artigo.
Para finalizar, diremos que este tem-
po e este espaço próprios da orientação
tem características peculiares. Trata-se de
um espaço de intimidade, onde duas pes-
soas se debruçam sobre um objeto em cons-
trução (a pesquisa) que por vezes se con-
funde com um sujeito em construção (o pes-
quisador), algo que ainda não existe, mas
que foi concebido e que esta sendo gesta-
do, desenvolvido e deverá nascer desses
encontros entre orientando e orientador. Se
pensarmos no orientador como uma partei-
ra ou um obstetra, associados à criação de
algo tão íntimo como uma dissertação ou
tese, podemos compreender mais facilmen-
te porque fala-se tão pouco do que se passa
nesses encontros. Desenvolvida num con-
texto de aparente racionalidade e de puro

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