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Carta a uma Nação Cristã

Sam Harris

Índice
Prefácio........................................................................2
Nota ao leitor...............................................................6
Carta a uma nação cristã...........................................11
A Sabedoria da Bíblia.................................................15
A Verdadeira Moralidade...........................................27
Fazendo o Bem em Nome de Deus.............................35
Os Ateus São Maus?...................................................40
Quem Coloca a Bondade no Bom Livro?....................47
A Bondade Divina.......................................................51
O Poder da Profecia...................................................57
O Choque entre Ciência e Religião............................61
Os Fatos da Vida.........................................................66
Religião, Violência e o Futuro da Civilização.............75
Conclusão...................................................................82
Dez livros que recomendo..........................................86

1
Prefácio
Richard Dawkins
Sam Harris não é amigo de divagações sem rumo. Ele
escreve diretamente para o seu leitor cristão,
chamando-o de “você”, e lhe dá a honra de levar a
sério as crenças que “você” defende: “[...] se um de
nós está certo, o outro está errado [...] Com o
decorrer do tempo, um dos dois lados vai realmente
vencer essa discussão, e o outro lado realmente sairá
derrotado”. Mas você não precisa (como posso atestar
pessoalmente) se encaixar no perfil desse “você” para
desfrutar este maravilhoso livrinho. Cada palavra sai
zunindo como uma elegante flecha, desferida de uma
corda tensionada ao máximo, e voa veloz, traçando um
gracioso arco e atingindo o alvo bem no centro, para
grande satisfação do leitor.
Se você faz parte do alvo, desafio-o a ler este livro.
Será um teste saudável para a sua fé. Se você
conseguir sobreviver à barragem da argumentação de
Sam Harris, poderá enfrentar o mundo inteiro com
equanimidade. Mas perdoe-me se duvido: Harris
nunca erra o alvo, nem eta uma única frase, e é por
isso que este livro tão breve tem um poder devastador
tão desproporcional. Se você já compartilha das
dúvidas de Harris, e minhas, acerca da fé religiosa e
não faz parte desse alvo, este livro lhe dará armas
poderosas para argumentar contra o outro lado. Ou
talvez você seja cristão, mas não faca parte do alvo.
Este livro reconhece que existem cristãos que adotam,
segundo eles próprios creem, uma visão mais
nuançada: “I...] os cristãos liberais e moderados nem
sempre vão reconhecer a si mesmos nesse ‘cristão’ a

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quem me dirijo. Mas com certeza reconhecerão
muitos de seus vizinhos — e mais de 150 milhões de
americanos”.
E este é o ponto principal. Foi a ameaça desses 150
milhões que motivou este livro. Se as crenças
religiosas que você adota são tão vagas e nebulosas
que até as flechadas mais certeiras ricocheteiam sem
ser notadas, Harris não está escrevendo diretamente
para você. Mesmo assim, você deveria se preocupar
com essa situação de emergência que tanto preocupa
a ele — e também a mim. Enquanto eu, como
educador científico, fico desalentado ao constatar que
50% da população americana acredita que o mundo
tem 6 mil anos de idade (o equivalente a acreditar que
a distancia entre Nova York e San Francisco é menor
que um campo de críquete), Sam Harris se preocupa
com outras crenças desses mesmos 50%:
Portanto, não é exagero dizer que, se Londres,
Sydney ou Nova York de repente virassem uma
grande bola de fogo, uma porcentagem
significativa da população americana veria um
lado auspicioso na nuvem em forma de
cogumelo que se seguiria. Para essas pessoas,
seria o sinal de que a melhor coisa que jamais
vai acontecer no mundo está prestes a
acontecer: a volta de Jesus Cristo. Deveria ser
óbvio e evidente que crenças desse tipo pouco
ajudam a humanidade a criar para si mesma um
futuro duradouro seja na esfera social,
econômica, ambiental ou geopolítica. Imagine as
consequências se algum componente
significativo do governo americano realmente
acreditasse que o mundo está prestes a acabar,

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e que o fim do mundo será glorioso. O fato de
que quase a metade da população americana
acredita nisso, puramente com base em um
dogma religioso, deve ser considerado uma
emergência moral e intelectual.
A nação cristã para quem o livro foi originalmente
escrito é, naturalmente, os Estados Unidos. Mas seria
descaso e loucura se descartássemos a questão como
se fosse apenas um problema americano. Os Estados
Unidos ao menos são protegidos por uma esclarecida
separação, colocada por Jefferson, entre Igreja e
Estado. Já na Grã-Bretanha a religião faz parte,
historicamente, do nosso establishment oficial; neste
momento a liderança política do nosso país, a mais
piedosa desde Gladstone, está decidida a apoiar as
“escolas religiosas” E não são apenas as escolas
cristãs tradicionais, note-se, pois nosso governo,
açulado por um herdeiro ao trono que deseja ser
conhecido como “Defensor da Fé” tem simpatia ativa
pelas outras “comunidades de fé” que vão balindo
“nós também”, ansiosas para obter uma doutrinação
religiosa para seus filhos subsidiada pelo Estado.
Seria possível conceber uma fórmula educacional
mais capaz de gerar dissensão e discórdia? E, o mais
importante, a única superpotência mundial da
atualidade está perto de ser dominada por eleitores
que acreditam que o universo inteiro começou depois
da domesticação do cão. Acreditam também que serão
pessoalmente "arrebatados" para as alturas celestiais
ainda durante seu tempo de vida, fato que será
seguido por um Armagedom muito bem-vindo como
arauto do Segundo Advento de Cristo. Mesmo aqui do
outro lado do Atlântico, a expressão de Sam Harris,
“emergência moral e intelectual”, já começa a parecer

4
até moderada.
Comecei dizendo que Sam Harris não é amigo de
divagações sem rumo. Um dos seus argumentos é que
nenhum de nós pode se dar a esse luxo. Carta a uma
nação cristã vai perturbar você. Seja para incentivá-lo
a uma ação defensiva ou ofensiva, este livro com
certeza vai exercer uma mudança em você, de alguma
maneira. Leia, nem que seja a última coisa que vá
fazer na vida. E com a esperança de que não seja a
última.

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Nota ao leitor
Desde a publicação do meu primeiro livro, The end of
faith: Religion, terror, and the future of reason [O fim
da fé: religião, terror e o futuro da razão], milhares de
pessoas já me escreveram para dizer que estou errado
em não acreditar em Deus. As mensagens mais hostis
vêm de cristãos. É uma ironia, pois os cristãos em
geral imaginam que nenhuma religião transmite tão
bem como a sua as virtudes do amor e do perdão. A
verdade é que muitos que afirmam ter sido
transformados pelo amor de Cristo são intolerantes à
crítica — de uma intolerância profunda, até assassina.
Podemos atribuir isso à natureza humana, mas é claro
que tal ódio recebe considerável apoio da Bíblia. E
como eu sei disso? Entre os meus correspondentes, os
mais mentalmente perturbados sempre citam
capítulos e versículos bíblicos.
Embora se destine a pessoas de todas as religiões,
este livro foi escrito sob a forma de uma carta aos
cristãos dos Estados Unidos. Nele, respondo a muitos
dos argumentos que os cristãos conservadores
apresentai em defesa de suas crenças religiosas.
Assim, o "cristão" a quem me dirijo ao longo do texto é
um cristão em um sentido limitado da palavra. Uma
pessoa assim acredita, pelo menos, que a Bíblia é a
palavra de Deus, escrita por inspiração divina, e que
apenas os que acreditam na divindade de Jesus Cristo
terão a salvação depois da morte. Dezenas de
pesquisas de opinião, realizadas de maneira científica,
superem que mais da metade da população americana
acredita nesses postulados.1 É claro que essas crenças
1 Não faltam dados de pesquisas de opinião que atestam como é

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metafísicas não se limitam a nenhuma nacionalidade e
a nenhuma denominação especial do cristianismo. Os
cristãos conservadores de todos os países e de todas
as seitas — católicos, protestantes de linhas
majoritárias, evangélicos, batistas, pentecostais,
testemunhas de jeová e assim por diante — estão
todos igualmente implicados na minha argumentação.
Embora nenhum outro país desenvolvido se iguale aos
Estados Unidos em termos de religiosidade, hoje
todos os países precisam conviver com as
consequências de tudo em que meus compatriotas
americanos acreditam. Como é bem sabido,
atualmente as crenças dos cristãos conservadores
exercem uma influência extraordinária sobre o
discurso público neste país — em nossos tribunais,
nossas escolas e em todas as esferas do governo. Se o
propósito mais amplo do meu trabalho é dar munição
aos secularistas de todas as sociedades contra seus
opositores, cada vez mais fervorosos, em Carta a uma
nação cristã me propus especificamente a demolir as
pretensões intelectuais e morais do cristianismo em
suas formas mais ardorosas. Assim, os cristãos
liberais e moderados nem sempre vão reconhecer a si
mesmos nesse “cristão” a quem me dirijo. Mas com
certeza reconhecerão muitos de seus vizinhos — e
mais de 150 milhões de americanos.
Não tenho dúvida de que muitos cristãos que vivem
fora dos Estados Unidos se sentirão tão perturbados
como eu por essas bizarras convicções da direita
cristã. É minha esperança, porém, que eles também

profundo e real o sentimento religioso dos americanos. PEW


(www.people-press.org) e Gallup (www.gallup.com) continuam
sendo excelentes fontes para essas informações.

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comecem a perceber que o respeito que concedem às
crenças religiosas eta geral acaba por dar abrigo a
extremistas de todas as religiões. Embora a maioria
dos crentes não arremesse aviões contra edifícios,
nem organize sua vida com base nas profecias
apocalípticas, poucos questionam a legitimidade de
criar e educar um filho de forma que ele acredite que
é cristão, muçulmano ou judeu. Assim, até as religiões
mais progressistas dão seu apoio tático para as
divisões religiosas do nosso mundo. Contudo, em
Carta a uma nação cristã me dirijo à cristandade em
seu aspecto mais desagregador, destrutivo e
retrógrado. Nesse aspecto, tanto liberais e moderados
como não-crentes podem reconhecer uma causa em
comum.
Segundo uma pesquisa recente da Gallup, apenas 12%
Los americanos acreditam que a vida na Terra evoluiu
através de um processo natural, sem a interferência
de uma divindade. Para 31%, a evolução foi “guiada
por Deus”.2 Se a nossa visão do mundo fosse
submetida a um plebiscito, os conceitos de “design
inteligente” derrotariam a ciência da biologia por
quase três votos a um. E isso é perturbador, pois a
natureza não apresenta nenhuma prova convincente
da existência de um "designer inteligente" e apresenta
incontáveis exemplos de “design não-inteligente”. Mas
a atual polêmica sobre o chamado “design inteligente”
não deve nos impedir de perceber as verdadeiras
dimensões da confusão e ignorância dos americanos
religiosos no alvorecer do século XXI. A mesma
pesquisa da Gallup revelou que 53% dos americanos
são, na verdade, criacionistas. Isso significa que,
2 www.editorandpublisher.com/eandp/news/article_display.jsp?
vnu_content_id=1002154704

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apesar de um século inteiro de descobertas científicas
que atestam como é antiga a vida na Terra, e mais
antigo ainda o nosso planeta, mais da metade da
população americana acredita que o cosmos inteiro foi
criado há 6 mil anos. Diga-se de passagem que mil
anos antes disso os sumários já tinham inventado a
cola. Os que têm o poder de eleger presidentes,
deputados e senadores — e muitos dos que são eleitos
— acreditam que os dinossauros sobreviveram aos
pares na arca de Noé, que a luz de galáxias distantes
foi criada a caminho da Terra e que os primeiros
membros da nossa espécie foram modelados a partir
do barro e do hálito divino, em um jardim com uma
cobra falante, pela mão de um Deus invisível.
Entre os países desenvolvidos, os Estados Unidos
estão sozinhos ao adotar essas convicções. De fato,
tenho a dolorosa consciência de que meu país hoje
parece, como em nenhum outro momento da sua
história, um gigante belicoso, desengonçado e
mentalmente obtuso. Qualquer pessoa que se
preocupe com o destino da civilização faria bem em
reconhecer que a combinação de um grande poder
com uma grande estupidez é simplesmente
aterrorizaste, até para os amigos.
A verdade, porem, é que muitos de meus compatriotas
talvez não se preocupem com o destino da civilização.
Nada menos que 44% da população americana está
convencida de que Jesus vai voltar para julgar os vivos
e os mortos, em algum momento dos próximos
cinquenta anos. E, segundo a interpretação mais
comum da profecia bíblica, Jesus só vai voltar depois
que as coisas derem errado — terrivelmente errado —
aqui na Terra. Portanto, não é exagero dizer que se

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Londres, Sydney ou Nova York de repente virassem
uma grande bola de fogo, uma porcentagem
significativa da população americana veria um lado
auspicioso na nuvem em forma de cogumelo que se
seguiria. Para essas pessoas, seria o sinal de que a
melhor coisa que jamais vai acontecer no mundo está
prestes a acontecer: a volta de Jesus Cristo. Deveria
ser óbvio e evidente que crenças desse tipo pouco
ajudam a humanidade a criar para si mesma um
futuro duradouro — seja na esfera social, econômica,
ambientar ou geopolítica. Imagine as consequências
se algum componente significativo do governo
americano realmente acreditasse que o mundo está
prestes a acabar e que o fim do mundo será glorioso.
O fato de que quase a metade da população
americana acredita nisso, puramente com base em um
dogma religioso, deve ser considerado uma
emergência moral e intelectual. O livro que você
agora vai ler c minha resposta a essa situação de
emergência. Meu sincero desejo é que para você ele
seja útil.
Sam Harris
1º de novembro de 2006
Nova York

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Carta a uma nação cristã
Você acredita que a Bíblia é a palavra de Deus, que
Jesus é o filho de Deus e que apenas aqueles que têm
fé em Jesus alcançarão a salvação após a morte. Como
cristão, você acredita nessas afirmações não porque
elas o fazem sentir-se bem, mas porque crê que são
verdadeiras. Antes de apontar alguns problemas que
essas crenças apresentam, eu gostaria de reconhecer
que há muitos pontos em que concordo com você. Nós
concordamos, por exemplo, que se um de nós está
certo, o outro está errado. Ou a Bíblia é a palavra de
Deus, não é. Ou Jesus oferece à humanidade o único
verdadeiro caminho para a salvação (João 14, 6), ou
não oferece. Concordamos que ser um bom cristão é
acreditar que todas as outras religiões estão erradas,
e profundamente erradas. Se o cristianismo está
correto, e eu persistir na minha descrença, devo
esperar que um dia sofrerei os tormentos do inferno.
Pior ainda, já convenci outras pessoas, muitas delas
próximas a mim, a rejeitar a própria ideia da
existência de Deus. Elas também padecerão no “fogo
eterno” (Mateus 25, 41). Se a doutrina básica do
cristianismo está correta, então desperdicei a minha
vida da pior maneira que se possa conceber. Eu
reconheço isso, sem restrição alguma. O fato de que a
minha rejeição do cristianismo, pública e contínua,
não me preocupa nem um pouco já demonstra o
quanto considero inadequadas as suas razões para ser
cristão.
É claro que há cristãos que não concordam nem
comigo, nem com você. Há cristãos que veem outras
religiões como caminhos igualmente válidos para a

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salvação. Há cristãos que não têm medo do inferno e
que não acreditam na ressurreição física de Jesus.
Esses cristãos costumam se definir como “religiosos
liberais” ou “religiosos moderados”. Do ponto de vista
deles, tanto você como eu não compreendemos
corretamente o que significa ser uma pessoa de fé.
Existe, pelo que eles nos garantem, um vasto e belo
território entre o ateísmo e o fundamentalismo
religioso que muitas gerações de cristãos ponderados
já exploraram discretamente. Segundo os liberais e os
moderados, a fé se baseia não só no mistério e no
significado, mas também na comunidade e no amor.
As pessoas elaboram a religião a partir de todo o
tecido de suas vidas, e não apenas de suas crenças.
Já escrevi em outros textos sobre os problemas que
vejo no liberalismo religioso e na moderação religiosa.
Aqui só precisamos observar que o problema é mais
simples e, ao mesmo tempo, mais urgente do que os
liberais e moderados costumam reconhecer. Ou a
Bíblia é apenas um livro comum, escrito por mortais,
ou não é. Ou Cristo era divino, ou não era. Se a Bíblia
é um livro comum, e Cristo era um homem comum,
então a doutrina básica do cristianismo é falsa. Se a
Bíblia é um livro comum, e Cristo era um homem
comum, então a história da teologia cristã é a história
de homens estudiosos dissecando uma ilusão coletiva.
E se os princípios básicos do cristianismo são
verdadeiros, então há surpresas extremamente
desagradáveis à espera de descrentes como, eu. isso
você compreende. Pelo menos a metade da população
americana compreende. Assim, sejamos honestos:
com o decorrer do tempo, um dos dois lados vai
realmente vencer essa discussão, e o outro lado
realmente sairá derrotado.

12
Pense nisto: cada muçulmano devoto tem as mesmas
razões para ser muçulmano que você tem para ser
cristão. E, no entanto, você não acha essas razões
convincentes. O Corão declara repetidas vezes ser a
palavra perfeita do criador do universo. Os
muçulmanos acreditam nisso tão piamente quanto
você acredita na definição da Bíblia sobre ela própria.
Há uma vasta literatura relatando a vida de Maomé
que, do ponto de vista do islã, prova que ele foi o mais
recente dos profetas de Deus. Maomé também
garantiu aos seus seguidores que Jesus não era divino
(Corão 5, 71-75; 19, 30-38), e que qualquer pessoa
que pense diferente passará a eternidade no inferno.
Os muçulmanos estão certos de que a opinião de
Maomé a respeito desse assunto, assim como de todos
os outros, é infalível.
E por que você não perde o sono pensando se deve ou
não se converter ao islamismo? Você é capaz de
provar que Alá não é o único e verdadeiro Deus? Você
é capaz de provar que o arcanjo Gabriel não visitou
Maomé em sua caverna? Claro que não. Mas você não
precisa provar nada disso para rejeitar as crenças
muçulmanas, considerando-as absurdas. Recai sobre
os muçulmanos o ônus da prova de que suas crenças
acerca de Deus e de Maomé são válidas. E até agora
eles não fizeram isso. Eles não podem fazer isso. As
afirmações feitas por eles acerca da realidade
simplesmente são impossíveis de ser comprovadas. E
isso é perfeitamente claro e óbvio para qualquer um
que não tenha se anestesiado com o dogma do islã.
A verdade é que você sabe exatamente como é ser
ateu, em relação às crenças dos muçulmanos. Pois não
é óbvio que os muçulmanos estão enganando a si

13
mesmos? Não é óbvio que qualquer um que considere
o Corão a palavra perfeita do criador do universo não
leu o livro de maneira crítica? Não é óbvio que a
doutrina do islã representa uma barreira
praticamente perfeita para a investigarão honesta?
Sim, tudo isso é óbvio. Compreenda, então, que a
maneira como você vê o islamismo é exatamente a
mesma como os muçulmanos devotes veem o
cristianismo. E é dessa maneira que eu vejo todas as
religiões.

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A Sabedoria da Bíblia
Você acredita que o cristianismo é uma fonte
inigualável de bondade humana. Você acredita que
Jesus ensinou as virtudes do amor, da compaixão e do
altruísmo melhor do que qualquer outro mestre que já
viveu. Você acredita que a Bíblia é o livro mais
profundo jamais escrito, e que seu conteúdo suportou
tão bem o teste do tempo que só pode ter sido escrito
por inspirarão divina. Todas essas crenças são falsas.
As questões morais são questões de felicidade e
sofrimento. É por isso que eu e você não temos
obrigações morais em m relação às pedras. Até onde
nossas ações podem afetar a experiência de outras
criaturas, de maneira positiva ou negativa, as
questões de moral se aplicam. A ideia de que a Bíblia
guia perfeito para a moralidade é simplesmente
espantosa em vista do conteúdo do livro. Não há
dúvida de que o conselho de Deus para os pais é
direto e claro: sempre que os filhos saem da linha,
devemos bater neles com uma vara ( Provérbios 13,
24; 20,30; e 23,13-14). Se eles tiverem a pouca-
vergonha de nos responder com insolência, devemos
matá-los (Êxodo 21,15, Levítico 20, 9, Deuteronômio
21,18-21, Marcos 7, 9-13, Mateus 15, 4-7) Também
devemos apedrejar pessoas até a morte por heresia,
adultério, homossexualismo, por trabalhar no sábado,
adorar imagens, praticar feitiçaria e mais uma ampla
variedade de crimes imaginários. Eis aqui apenas um
exemplo da sabedoria eterna de Deus:
Se teu irmão, filho de tua mãe, ou teu filho, ou
tua filha, ou a mulher do teu amor, ou teu amigo
que amas como à tua própria alma te incitar em

15
segredo, dizendo: “Vamos e sirvamos a outros
deuses” [...] não concordarás com ele, nem o
ouvirás; não o olharás com piedade, não o
pouparás, nem o esconderás, mas, certamente,
o matarás A tua mão será a primeira contra ele,
para o matar, e depois a mão de todo o povo
Apedreja-lo-á até que morra, pois te procurou
apartar do SENHOR, teu Deus, que te tirou da
terra do Egito, da casa da servidão [...] Quando
em alguma das tuas cidades que o SENHOR, teu
Deus, te dá, para ali habitares, ouvires dizer que
homens malignos saíram do meio de ti e
incitaram os moradores da sua cidade, dizendo:
“Vamos e sirvamos a outros deuses” que não
conheceste, então, inquirirás, investigarás e,
com diligência, perguntarás; e eis que, se for
verdade e certo que tal abominação se cometeu
no meio de ti, então, certamente, ferirás a fio de
espada os moradores daquela cidade,
destruindo-a completamente e tudo o que nela
houver, até os animais.
Deuteronômio 13, 6, 8 15
Muitos cristãos acreditam que Jesus acabou com toda
essa barbárie, nos termos mais claros imagináveis, e
pregou uma doutrina de puro amor e tolerância. Mas
não foi assim. Em vários pontos do Novo Testamento
se pode ler que Jesus confirmou integralmente a lei do
Velho Testamento.
Porque em verdade vos digo até que o céu e a
terra passem, nem um i ou um til jamais passará
da Lei, até que tudo se cumpra. Aquele, pois,
que violar um destes mandamentos, posto que
dos menores, e assim ensinar aos homens, será

16
considerado mínimo no reino dos céus; aquele,
porém, que os observar e ensinar, esse será
considerado grande no reino dos céus Porque
vos digo que, se a vossa justiça não exceder em
muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis
no reino dos céus.
Mateus 5, 18-20
Os apóstolos repetiram várias vezes esse tema (por
exemplo, veja 2 Timóteo 3, 16-17). É verdade, claro,
que Jesus disse coisas profundas sobre o amor, a
caridade e o perdão. A Regra de Ouroa é realmente
um preceito moral maravilhoso. Mas numerosos
mestres já deram essa mesma orientação séculos
antes de Jesus (Zoroastro, Buda, Confucio,
Epicteto...), incontáveis escrituras discutem a
importância do amor que transcende o próprio eu de
maneira mais articulada do que a Bíblia, sem serem
maculadas pelas obscenas celebrações de violência
que encontramos em abundância tanto no Velho como
no Novo Testamento. Se você acha que o cristianismo
é a expressão mais direta e pura de amor e compaixão
que o mundo já viu, é porque não conhece bem as
outras religiões.
Veja, por exemplo, o jainismo. Essa religião prega a
doutrina da absoluta não-violência. É verdade que os
jainistas acreditam em muitas coisas improváveis
acerca do universo; mas não do tipo de coisas que

a Regra de Ouro: versículo do Sermão da Montanha (Mateus


7,12) “Tudo aquilo, portanto, que quereis que os homens vos
faca n, fazei-o vós a eles, pois esta é a Lei e os Profetas”. Ao
mencionar a lei e os profetas, Jesus se refere ao preceito já
citado no Velho Testamento “Amarás o teu próximo como a ti
mesmo” (Levítico 19, 18). (N.T.)

17
acenderam as fogueiras da inquisição. Você
provavelmente pensa que a Inquisição foi uma
perversão do “verdadeiro” espírito do cristianismo.
Talvez tenha sido. O problema, porém, é que os
ensinamentos da Bíblia são tão confusos e
contraditórios que foi possível para os cristãos
queimar alegremente os heréticos nas fogueiras,
durante cinco longos séculos. Inclusive foi possível
para os mais venerados patriarcas da Igreja, como
santo Agostinho e santo Tomás de Aquino, concluir
que os heréticos deviam ser torturados (santo
Agostinho)3 ou mortos logo de uma vez (santo Tomás
de Aquino).4 Martinho Lutero e João Calvino
defendiam o assassinato em massa de heréticos,
apóstatas, judeus e feiticeiras.5 Naturalmente, você é
livre para interpretar a Bíblia de outra maneira — mas
não é espantoso que você tenha conseguido discernir
os verdadeiros ensinamentos do cristianismo,
enquanto os mais influentes pensadores na história da
religião cristã falharam nesse ponto? É claro que
muitos cristãos acreditam que uma pessoa inofensiva
como Martin Luther King Jr. é o melhor exemplo da
religião cristã. Mas isso apresenta um sério problema,
pois a doutrina do jainismo é, objetivamente, uma
orientarão melhor do que a doutrina do cristianismo
para quem deseja ser como Martin Luther King Jr.
Não há dúvida de que King se considerava um cristão
devoto, mas ele assumiu seu compromisso com a não-
violência basicamente a partir dos escritos de
3 P Johnson, “A history of Christianity” (New York: Simon &
Schuster, 1976), pp. 116-7
4 Suma teológica, artigo 3 da questão 11 da “Secunda
Secundae”
5 W. Manchester, “A world lit only by fire: The medieval mind
and the Renaissance” (Boston: Little, Brown, 1992), passim

18
Mohandas K. Gandhi. Em 1959, King até viajou para a
índia a fim de aprender os princípios do protesto
social não-violento diretamente com os discípulos de
Gandhi. E com quem Gandhi, um hinduísta, aprendeu
a doutrina da não-violência? Com os jainistas.
Se você acredita que Jesus ensinou apenas a Regra de
Ouro e o amor ao próximo, deve reler o Novo
Testamento. Preste atenção especial à moralidade que
ficará em evidência quando Jesus voltar à terra,
deixando um rastão de nuvens de glória:
Se, de fato, é justo para com Deus que ele dê em
paga tribulação aos que vos atribulam [...]
quando do céu se manifestar o Senhor Jesus
com os anjos do seu poder, em chama de fogo,
tomando vingança contra os que não conhecem
a Deus e contra os que não obedecem ao
evangelho de nosso Senhor Jesus. Estes sofrerão
penalidade de eterna destruição, banidos da
face do Senhor e da glória do seu poder.
2 Tessalonicenses I, 6-9
Se alguém não permanecer em mim, será
tarifado fora, à semelhança do ramo, e secará; e
o apanham, lançam no fogo e o queimam.
João 15, 6
Se levarmos em conta a metade das afirmações de
Jesus, podemos facilmente justificar as ações de são
Francisco de Assis ou Martin Luther King Jr. Levando
em conta a outra metade, podemos justificar a
Inquisição. Qualquer pessoa que acredite que a Bíblia
oferece a melhor orientação possível em assuntos de
moralidade tem ideias muito estranhas — ou sobre
orientação, ou sobre moralidade.

19
Ao avaliar a sabedoria moral da Bíblia, é útil
considerar questões morais que já foram resolvidas
para satisfação geral. Considere a questão da
escravidão. Hoje, o mundo civilizado inteiro concorda
que escravidão é uma abominação. Que instrução
moral recebemos do Deus de Abraão a esse respeito?
Consulte a Bíblia e você descobrirá que o criador do
universo espera, claramente, que nós tenhamos
escravos:
Quanto aos escravos ou escravas que tiverdes,
virão das nações ao vosso derredor; delas
comprareis escravos e escravas. Também os
comprareis dos filhos dos forasteiros que
peregrinam entre vós, deles e das suas famílias
que estiverem convosco, que nasceram na vossa
terra; e vos serão por possessão. Deixá-los-ei
por herança para vossos filhos depois de vós,
para os haverem corno possessão;
perpetuamente os fareis servir, mas sobre
vossos irmãos, os filhos de Israel, não vos
assenhoreareis com tirania, um sobre os outros.
Levítico 25, 44-46
A Bíblia também deixa claro que todo homem tem
liberdade de vender sua filha como escrava sexual —
apesar de que nesse caso se aplicam certas restrições
sutis:
Se um homem vender sua filha para ser escrava,
esta não lhe sairá como saem os escravos. Se
ela não agradar ao seu senhor, que se
comprometeu a desposada, ele terá de permitir-
lhe o resgate; não poderá vendê-la a um povo
estranho, pois será isso deslealdade para com

20
ela. Mas, se a casar com seu filho, trata-la-á
como se tratam as filhas. Se ele der ao filho
outra mulher, não diminuirá o mantimento da
primeira, nem os seus vestidos, nem os seus
direitos conjugais. Se não lhe fizer estas três
coisas, ela sairá sem retribuição, nem
pagamento em dinheiro.
Êxodo 21, 7-11
A única verdadeira restrição que Deus aconselha
acerca da escravidão é que não devemos bater nos
nossos escravos tão severamente a ponto de ferir seus
olhos ou seus dentes (Êxodo 21, 26-27). Nem é preciso
dizer que esse não é o tipo de orientação moral que
conseguiu abolir a escravidão nos Estados Unidos.
Em nenhum ponto do Novo Testamento Jesus faz
objeção à prática da escravidão. São Paulo até exorta
os escravos a servirem bem aos seus senhores — e
especialmente bem aos seus senhores cristãos:
Quanto a vós outros, servos, obedecei a vossos
senhores segundo a carne com temor e tremor,
na sinceridade do vosso coração, como a Cristo
[...] servindo de boa vontade, como ao Senhor, e
não como a homens.
Efésios 6, 5-7
Todos os servos que estão debaixo de jugo
considerem dignos de toda honra os próprios
senhores, para que o nome de Deus e a doutrina
não sejam blasfemados. Também os que têm
senhores fiéis não os tratem com desrespeito,
porque são irmãos; pelo contrário, trabalhem
ainda mais, pois eles, que partilham do seu bom
serviço, são crentes e amados. Ensina e

21
recomenda estas coisas. Se alguém ensina outra
doutrina e não concorda com as sós palavras de
nosso Senhor Jesus Cristo, e com o ensino
segundo a piedade, é enfatuado, nada entende,
mas tem mania por questões e contendas de
palavras, de que nascem inveja, provocação,
difamações, suspeitas malignas […]
1 Timóteo 6,1-4
Deve ficar bem claro a partir dessas passagens que,
embora os abolicionistas do século XIX estivessem
moralmente certos, estavam do lado perdedor da
discussão teológica. Como disse o reverendo Richard
Fuller em 1845, “Aquilo que Deus autorizou no Velho
Testamento, e permitiu no Novo, não pode ser
pecado”.6 Aqui o bondoso reverendo pisava em
terreno firme. Não há nada na teologia cristã que
busque remediar as espantosas deficiências da Bíblia
acerca dessa questão moral, talvez a maior — e a mais
fácil — que nossa sociedade já teve de enfrentar.
Em resposta, cristãos como você muitas vezes notam
que também os abolicionistas obtiveram na Bíblia uma
considerável inspiração. Claro que sim. Há milênios as
pessoas escolhem a dedo determinadas passagens
bíblicas para justificar cada um de seus impulsos,
sejam morais ou não. Isso não significa, porém, que
aceitar a Bíblia como a palavra de Deus seja a melhor
maneira de descobrir que sequestrar e escravizar
milhões de homens, mulheres e crianças inocentes é
moralmente errado. Com certeza não é a melhor
maneira de chegar a essa conclusão, em vista do que
a Bíblia realmente diz sobre esse assunto. O fato de
6 F. G. Wood, “The arrogance of faith” (New York: A. A. Knopf,
1990), p. 59

22
que alguns abolicionistas usaram certos trechos
bíblicos para repudiar outros trechos não indica que a
Bíblia seja um bom guia para a moralidade. Tampouco
sugere que os seres humanos precisam consultar um
livro para resolver questões morais desse tipo. No
momento em que uma pessoa reconhecer que
escravos são seres humanos como ela própria, com a
mesma capacidade de sentir o sofrimento e a
felicidade, ela compreenderá que, obviamente, é
crueldade possuí-los e tratá-los como se fossem
equipamentos agrícolas. É notavelmente fácil para
qualquer pessoa chegar a essa brilhante conclusão —
e, contudo, ela teve de ser difundida a ponta de
baioneta em todo o Sul dos Estados Unidos, entre os
cristãos mais piedosos que este país já conheceu.
Os Dez Mandamentos também merecem alguma
reflexão nesse contexto, pois, ao que parece, a
maioria dos americanos acredita que eles são
indispensáveis, tanto do ponto de vista moral como do
legal.7 E verdade que a Constituição americana não
contém nem uma única menção a Deus e que foi
amplamente condenada, na época de sua elaborarão,
por ser um documento não-religioso. Mesmo assim,
muitos cristãos acreditam que nosso país foi fundado
sobre “princípios judaico-cristãos”. É estranho, mas os
Dez Mandamentos muitas vezes são citados como
prova incontestável desse fato. Se a relevância desses
mandamentos para a história dos Estados Unidos é
questionável, nossa reverência por eles não é
acidental. Afinal, essa é a única passagem bíblica tão
profunda que o criador do universo sentiu
7 72% dos americanos aprovam que se coloquem os Dez
Mandamentos em lugares públicos, http://pew
forum.org/press/index.php?ReleaseID=32

23
necessidade de escrever fisicamente, ele próprio,
gravando os mandamentos na pedra. Sendo assim,
poderíamos esperar que estas fossem as frases mais
grandiosas jamais escritas, sobre qualquer assunto,
qualquer idioma. Aqui estão eles. Prepare-se...
1. Não terás outros deuses diante de mim.
2. Não farás para ti imagens esculpidas.
3. Não tomarás o nome do SENHOR, teu Deus, em
vão.
4. Lembra-te do dia de sábado para santificá-lo.
5. Honra teu pai e tua mãe.
6. Não matarás.
7. Não cometerás adultério.
8. Não roubarás.
9. Não apresentarás falso testemunho contra o teu
próximo.
10. Não cobiçarás a casa do teu próximo, não
cobiçarás a sua mulher, nem o seu escravo, nem
a sua escrava, nem o seu boi, nem o seu
jumento, nem coisa alguma que pertença a teu
próximo.
Desses preceitos (Êxodo 20, 2-17), os primeiros
quatro não tem nada a ver com a moral. Tal como são
expressos, proíbem a prática de qualquer religião que
não seja a judaico-cristã (como o hinduísmo), a maior
parte da arte religiosa, o uso de expressões com a
palavra “Deus” e a execução de todo e qualquer
trabalho corriqueiro durante o sábado — tudo isso sob
pena de morte. Podemos nos perguntar até que ponto

24
esses preceitos são vitais para a manutenção da
civilização.
Os mandamentos de 5 a 9 de fato tratam da moral,
embora não se saiba quantas pessoas já honraram
seus pais ou se abstiveram de cometer assassinato,
adultério, roubo ou perjúrio por causa desses
preceitos. Admoestações desse tipo são encontradas
em praticamente todas as culturas, em toda a história
humana registrada. Não há nada de especialmente
incisivo na maneira como são apresentadas na Bíblia.
Existem razões biológicas óbvias pelas quais as
pessoas tendem a tratar bem seus pais, e a fazer mau
juízo dos assassinos, adúlteros, ladrões e mentirosos.
É um fato científico que emoções morais — tais como
o senso de justiça ou o horror à crueldade —
precedem qualquer contato com as escrituras. De
fato, estudos sobre o comportamento dos primatas
revelam que essas emoções (em alguma forma)
precedem a existência da própria humanidade. Todos
os primatas, nossos primos, demonstram parcialidade
para com sua própria família ou tribo, e de modo geral
não toleram o assassinato e o roubo. Também não
gostam, de modo geral, de trapaça nem de traição
sexual. Os chimpanzés, em especial, demonstram
muitas das complexas preocupações sociais que
esperaríamos ver em nossos parentes mais próximos
no mundo natural. Assim, parece bastante improvável
que o americano médio receba a instrução moral
necessária ao ver esses preceitos inscritos no
mármore sempre que entra em um tribunal. E o que
devemos pensar do fato de que, ao encerrar seu
tratado, o criador do nosso universo não conseguiu
pensar em nenhuma preocupação humana mais
premente e duradoura do que cobiçar escravos e

25
animais domésticos?
Se formos levar a sério o Deus da Bíblia, devemos
admitir que Ele nunca nos dá a liberdade para seguir
os mandamentos dos quais gostamos e negligenciar os
demais. Ele tampouco nos diz que podemos relaxar
nas penalidades que Ele impôs por desrespeitá-los.
Se você acha que seria impossível melhorar os Dez
Mandamentos como afirmação de moralidade, você
realmente deveria fazer um favor a si mesmo e ler as
escrituras de algumas religiões. Mais uma vez, não
precisamos ir mais longe do que os jainistas;
Mahavira, o patriarca jainista, superou a moralidade
da Bíblia como uma única frase: “Não ferir, abusar,
oprimir, escravizar, insultar, atormentar, torturar ou
matar nenhuma criatura ou ser vivo”. imagine como o
nosso mundo poderia ser diferente se a Bíblia
contivesse essa frase como preceito central. Os
cristãos abusaram, oprimiram, escravizaram,
insultaram, atormentaram, torturaram e mataram
pessoas em nome de Deus durante séculos, com base
em uma leitura teologicamente defensável da Bíblia. É
impossível se comportar dessa maneira aderindo aos
princípios do jainismo. Como, então, você pode
argumentar que a Bíblia oferece a expressão mais
clara de moralidade que o mundo já viu?

26
A Verdadeira Moralidade
Você acredita que, se a Bíblia não for aceita como a
palavra de Deus, não pode haver um padrão universal
de moralidade. Mas podemos facilmente pensar em
fontes objetivas de ordem moral que não requerem a
existência de um Deus legislador. Para que haja
verdades morais objetivas que valha a pena conhecer,
é necessário que haja apenas maneiras melhores e
piores de buscar a felicidade neste mundo. Se existem
leis psicológicas que governam o bem-estar humano,
conhecer essas leis nos proporcionaria uma base
duradoura para uma moralidade objetiva. É verdade
que não temos nada que se assemelhe a uma
compreensão final e científica da anã alidade humana;
mas parece seguro dizer que estuprar e matar nosso
próximo não estão entre seus elementos básicos. Tudo
na experiência humana sugere que o amor conduz à
felicidade mais do que o ódio. Essa é uma afirmação
objetiva acerca da mente humana, da dinâmica das
relações sociais e da ordem moral do nosso mundo.
Sem dúvida é possível dizer que alguém como Hitler
estava errado em termos morais, sem ser preciso nos
referirmos às escrituras.
Se sentir amor pelos outros é, com certeza, uma das
maiores fontes da nossa própria felicidade, também
acarreta uma preocuparão profunda pela felicidade e
pelo sofrimento daqueles que amamos. Assim, nossa
própria busca de felicidade nos dá um motivo
fundamental para o auto-sacrifício e a abnegação. Não
há dúvida de que existem ocasiões em que fazer
enormes sacrifícios pelo bem dos outros é essencial
para o nosso próprio bem-estar mais profundo. Não é

27
necessário acreditar em nada, sem provas
convincentes, para que as pessoas formem vínculos
desse tipo. Em vários pontos dos evangelhos, Jesus
nos diz claramente que o amor pode transformar a
vida humana. Para assimilar esses ensinamentos em
nosso coração, não precisamos acreditar que ele
nasceu de uma virgem, ou que ele voltará para a terra
como um super-herói.
Um dos efeitos mais perniciosos da religião é que ela
tende a divorciar a moral da realidade do sofrimento
dos seres humanos e dos animais. A religião permite
que as pessoas imaginem que suas preocupações são
morais quando não são— isto é, quando elas não têm
nada a ver com o sofrimento ou com o alívio do
sofrimento. De fato, a religião permite que as pessoas
imaginem que suas preocupações são morais quando,
na verdade, são altamente imorais — isto é, quando
insistir nessas preocupações inflige um sofrimento
atroz e necessário em seres humanos inocentes. Isso
explica por que cristãos como você gastam mais
energia “moral” fazendo oposição ao aborto do que
lutando contra o genocídio. Explica porque você está
mais preocupado com os embriões humanos do que
com a possibilidade de salvar vidas, oferecida pela
pesquisa com células-tronco. E explica por que você é
capaz de pregar contra o uso da camisinha na África
subsaariana, enquanto milhões de pessoas morrem de
AIDS nessa região a cada ano.
Você acredita que as suas preocupações religiosas a
respeito de sexo, tão imensas e tão cansativas, têm
algo a ver com a moralidade. E, contudo, seus
esforços para reprimir o comportamento sexual de
adultos que agem por livre e espontânea vontade — e

28
até para desencorajar seus próprios filhos e filhas
fazerem sexo antes do casamento — quase nunca se
destinam ao alívio do sofrimento humano. Ao que
parece, aliviar o sofrimento está bem lá embaixo na
sua lista de prioridades. Pelo visto, a sua principal
preocupação é que o criador do universo ficará
ofendido com algo que as pessoas fazem quando estão
nuas. E essa sua mentalidade pudica contribui,
diariamente, para o excesso de infelicidade humana.
Considere, por exemplo, o papilomavírus humano
(HPV, na cm inglês). O HPV é hoje a doença
sexualmente transmissível mais comum nos Estados
Unidos. Esse vírus infecta mais da metade da
populacho americana, causando a morte de quase 5
mil mulheres a cada ano, de câncer cervical. O Centro
para Controle de Doenças (Center for Disease Control
— CDC) estima que mais de 200 mil mulheres morrem
anualmente dessa doença no mundo inteiro. Hoje
temos uma vacina para o HPV que parece ser segura e
eficiente. A vacina produziu uma imunidade de 100%
nas 6 mil mulheres que a receberam como parte de
um teste clínico.8 Contudo, os conservadores cristãos
no governo americano opõem resistência ao programa
de vacinação, alegando que o HPV é um impedimento
valioso contra o sexo antes do casamento. Esses
homens e mulheres piedosos desejam preservar o
câncer cervical como incentivo para a abstinência
sexual, embora ele tire a vida de milhares de
mulheres a cada ano.
Não há nada de errado em incentivar os adolescentes
a se abster de sexo. Mas nós já sabemos, fora de

8 “Forbidden vaccine”, The New York Times, 30/12/2005


(editorial)

29
qualquer dúvida, que apenas ensinar a abstinência
não é uma boa maneira de reduzir a gravidez na
adolescência nem a disseminação de doenças
sexualmente transmissíveis. Na verdade, os
adolescentes que só recebem lições de abstinência
têm menos probabilidades de usar métodos
anticoncepcionais quando fazem sexo — colho muitos
deles vão fazer, inevitavelmente. Um estudo descobriu
que as “promessas de virgindade” promovidas pelo
governo americano adiam o ato sexual por dezoito
meses, em média — e que, durante esse período,
esses adolescentes virgens têm mais probabilidade do
que os demais de fazer sexo oral e anal. 9 Os
adolescentes americanos fazem sexo tanto quanto os
adolescentes do resto do mundo desenvolvido; mas as
jovens americanas têm quatro a cinco vezes mais
probabilidade de engravidar, dar à luz ou fazer aborto.
Os jovens americanos também têm muito mais
probabilidade de ser infectados pelo HIV e outras
doenças sexualmente transmissíveis. O índice de
gonorreia entre adolescentes americanos é setenta
vezes maior do que entre os adolescentes da Holanda
e da Franca.10 O fato de que 30% de nossos programas
de educação sexual ensinam apenas a abstinência (a
um custo anual de mais de 200 milhões de dólares)
com certeza tem algo a ver com isso.
O problema é que cristãos como você não estão
preocupados com a gravidez adolescente e a
disseminarão de doenças. Isto é, você não está
preocupado com o sofrimento causado pelo sexo; você

9 M. Goldberg, “Kingdom coming The rise of Christian


nationalism” (New York: W. W. Norton, 2006), y. 137
10 N. D. Kristof, “Bush’s sex scandal”, The New York Times,
16/2/2005

30
está preocupado com o sexo. E, como se este fato
precisasse ainda mais de comprovação, o evangélico
Reginald Finger, membro do Comitê Consultor de
Práticas de Imunização do CDC, anunciou
recentemente que pensa em se opor a uma vacina
contra o HIV — condenando, assim, milhões de
homens e mulheres a morrer de AIDS a cada ano,
desnecessariamente —, já que tal vacina incentivaria
o sexo antes do casamento, por torná-lo menos
arriscado.11 Este é um dos muitos aspectos em que
suas crenças religiosas se tornam genuinamente
letais.
Seus escrúpulos acerca da pesquisa com células-
tronco são igualmente obscenos. Aqui estão os fatos: a
pesquisa com células tronco é um dos avanços mais
promissores da medicina no último século. Pode
oferecer avanços revolucionários no tratamento de
todas as doenças e processos perniciosos que atingem
o ser humano — pela simples razão de que as células-
tronco dos embriões podem se transformar em
qualquer tecido do corpo humano. Essa pesquisa
também pode ser essencial para a nossa compreensão
do câncer e de uma vasta t ama de doenças do
desenvolvimento. Em vista tais fatos, é quase
impossível exagerar as perspectivas promissoras
dessa pesquisa. É verdade, claro, que a pesquisa tom
células-tronco embrionárias acarreta a destruição de
embriões humanos de três dias de idade. É com isso
que você se preocupa.
Vejamos os detalhes. Um embrião humano é um
agrupamento de 150 células chamado blastocisto.

11 M. Specter, “Political science”, The New Yorker, 13/3/2006, pp.


58-69

31
Existem, para efeito de comparação, mais de 100 mil
células no cérebro de uma mosca. Os embriões
humanos que são destruídos nas pesquisas com
células-tronco não têm cérebro, nem sequer
neurônios. Assim, não há razão para acreditar que
eles possam sentir qualquer tipo de sofrimento com a
sua destruição, de maneira alguma. Nesse contexto,
vale lembrar que, quando ocorre a morte cerebral,
atualmente julgamos aceitável extrair os órgãos da
pessoa (desde que ela os tenha doado para esse fim) e
enterrá-la. Se é aceitável tratar uma pessoa cujo
cérebro morreu como algo menos que um ser humano,
deveria ser aceitável tratar do mesmo modo um
blastocisto. Se você está preocupado com o sofrimento
que ocorre neste universo, matar uma mosca deveria
lhe apresentar dificuldades morais maiores do que
matar um blastocisto humano.
Talvez você ache que a diferença crucial entre uma
mosca e um blastocisto humano está no potencial
deste último de tornar se um ser humano plenamente
desenvolvido. Mas, em vista dos nossos recentes
avanços em engenharia genética, quase toda célula do
corpo humano é um ser humano em potencial. Cada
vez que você coça o nariz, já cometeu um holocausto
de seres humanos em potencial. Isso é um fato. O
argumento que fala do potencial das células não leva
a absolutamente nada.
Mas vamos admitir, por enquanto, que cada embrião
humano de três dias de idade tenha uma alma
merecedora da nossa preocupação moral. Os
embriões nesse estágio por vezes se dividem,
tornando-se duas pessoas separadas (gêmeos
idênticos). Será que nesse caso uma só alma se dividiu

32
em duas? Por outro lado, às vezes dois embriões se
fundem em um único indivíduo, chamado “quimera”
Talvez você, ou alguém que você conhece, tenha se
desenvolvido dessa maneira. Não há dúvida de que em
algum lugar, neste momento, há teólogos etc
esforçando para decidir o que acontece com a alma
humana em um caso assim.
Será que já não é hora de reconhecermos que essa
aritmética de almas não faz nenhum sentido? A ideia
ingênua de que existem almas em uma placa de Petri
é intelectualmente impossível de defender. É também
moralmente indefensável, considerando-se que ela
está obstruindo pesquisas entre as mais promissoras
da história da medicina. As suas crenças a respeito da
alma humana estão, neste exato momento,
prolongando o sofrimento atroz de dezenas de milhões
de seres humanos.
Você acredita que “a vida começa no momento da
concepção”. Você acredita que existem almas em cada
um desses blastocistos e que os interesses de uma
alma — digamos, a alma uma menininha com
queimaduras em 75% do corpo — não podem
predominar sobre os interesses de outra alma, mesmo
que essa alma viva dentro de um tubo de ensaio.
Considerando todas as concessões que já fizemos para
acomodar a irracionalidade baseada na fé no nosso
discurso público, muitos afirmam — inclusive
defensores da pesquisa com células-tronco — que a
posição que você adota nesse assunto tem certo grau
de legitimidade moral. Mas não tem. Sua resistência à
pesquisa com células-tronco embrionárias é, na
melhor das hipóteses, mal informada. Na verdade, não
existe nenhuma razão moral para a má vontade do

33
governo federal americano em financiar esse trabalho.
Nós deveríamos investir recursos imensos em
pesquisas com células-tronco, e deveríamos fazê-lo
imediatamente. Mas, por causa das crenças de
cristãos como você a respeito de almas, não estamos
fazendo isso. Na verdade, vários estados americanos
já tornaram essa pesquisa ilegal.12 Em Dacota do Sul,
por exemplo, quem fizer experiências com blastocistos
se arrisca a passar anos na prisão.13
A verdade moral aqui é óbvia: qualquer pessoa que
creia que os interesses de um blastocisto podem
prevalecer sobre os interesses de uma criança com
urna lesão na espinha dorsal está com seu senso
moral cegado pela metafísica religiosa. O vínculo
entre a religião e a “moral” — tão proclamado e tão
poucas vezes demonstrado — fica aqui totalmente
desmascarado, tal como acontece sempre que o
dogma religioso prevalece sobre o raciocínio moral e a
compaixão genuína.

12 “The states confront stem cells”, The New York Times,


31/3/2006
13 www.usccb.org/prolifelissues/bioethic/statelaw.htm

34
Fazendo o Bem em Nome de Deus
O que dizer de todas as coisas boas que são feitas em
nome de Deus? É inegável que muitas pessoas de fé
fazem sacrifícios heroicos para aliviar o sofrimento de
outros seres humanos. Mas será que é necessário
acreditar em qualquer coisa, sem ter provas
suficientes, para agir dessa maneira? Se a compaixão
realmente dependesse do dogmatismo religioso, como
explicar o trabalho de médicos não-religiosos que
aluam no mundo em desenvolvimento, nas regiões
mais destrocadas pelas guerras? Há muitos médicos
motivados simplesmente pelo desejo de aliviar o
sofrimento humano, sem nenhum pensamento acerca
de Deus. Não há dúvida de que missionários cristãos
também são movidos pelo desejo de aliviar o
sofrimento humano; mas eles abordam essa tarefa
carregando o pesado fardo de uma mitologia perigosa
e causadora de desavenças. Os missionários no mundo
em desenvolvimento desperdicem muito tempo e
dinheiro (sem falar na boa vontade dos não-cristãos)
fazendo proselitismo com os necessitados; eles
divulgam informações inexatas a respeito de métodos
anticoncepcionais e doenças sexualmente
transmissíveis, e se recusam a divulgar informações
precisas. Se é verdade que os missionários fazem
muitas coisas nobres, com grandes riscos para si
mesmos,o fato é que seu dogmatismo dissemina a
ignorância e a morte. Em contraste, voluntários de
organizações seculares, como a Médicos Sem
Fronteiras, não desperdiçam tempo algum falando
com as pessoas sobre o nascimento virginal de Jesus.
Tampouco dizem à populacho da África subsaariana —

35
onde quase 4 milhões de pessoas morrem de AIDS a
cada ano — que é pecado usar camisinha. Sabe-se de
casos em que missionários cristãos pregaram que usar
preservativo é pecado, em localidades onde não há
nenhuma outra informação acerca do assunto. Esse
tipo de crença é genocida.b Também podemos nos
perguntar, de passagem, o que é mais moral: ajudar
as pessoas puramente pela preocuparão com o
sofrimento delas, ou ajudá-las porque você acha que o
criador do universo vai recompensá-lo por isso?
Madre Teresa de Calcutá é um exemplo perfeito da
maneira como uma boa pessoa, impelida a ajudar os
outros, pode ter sua intuição moral perturbada pela fé
religiosa. Christopher Hitchens expressa isso com sua
característica franqueza:
[Madre Teresa] não era a amiga dos pobres. Era
amiga da pobreza. Ela afirmou que o sofrimento
era um presente de Deus. Passou toda a sua
vida se opondo à única cura conhecida para a
pobreza, que é dar poder e emancipação às
mulheres, para que elas saiam de uma situação
de animais domésticos com reprodução
compulsória.14
b É difícil acreditar, mas o Vaticano atualmente se opõe ao uso
da camisinha, até para evitar a contaminação por HIV entre
marido e mulher. Há rumores de que o papa está
reconsiderando essa orientação. O cardeal Javier Lozano
Barragán, presidente do Pontifício Conselho para a Pastoral da
Saúde anunciou na Rádio Vaticano que seu departamento está
“realizando um estudo científico técnico e moral muito
profundo” dessa questão (!). Nem é preciso dizer que se a
doutrina da Igreja mudar em consequência dessas piedosas
deliberações isso não será sinal de que a fé é sábia e sim de
que um de seus dogmas se tornou insustentável.
14 “Mommie dearest”, 20/10/2003, www.slate.com/idl 2090083/

36
Embora em essência eu concorde com Hitchens nesse
ponto, não se pode negar que madre Teresa foi uma
grande forca pela compaixão. Sem dúvida foi
motivada pelo sofrimento humano, e fez muita coisa
para despertar outras pessoas para a realidade desse
sofrimento. O problema, porém, é que a sua
compaixão foi canalizada para o seu estreito
dogmatismo religioso. Em seu discurso ao aceitar o
prêmio Nobel, ela disse:
O principal destruidor da paz é o aborto [...].
Muitas pessoas se preocupam muitíssimo com
as crianças da índia, com as crianças da África,
onde um grande número morre, talvez de
desnutrição, de fome e assim por diante, mas
milhões estão morrendo, deliberadamente, pela
vontade de suas mães. E é esse o maior
destruidor da paz hoje em dia. Pois, se uma mãe
é capaz de matar o próprio filho, o que impede
que eu mate você e você me mate? Não há
nenhum impedimento.15
Como diagnóstico dos problemas do mundo, essas
observações estão espantosamente equivocadas.
Como afirmações de moral, não são melhores. A
compaixão de madre Teresa estava muito mal
calibrada, se matar um feto no primeiro trimestre a
perturbava mais do que todo o sofrimento que ela
testemunhou nesta Terra. É verdade que o aborto é
uma feia realidade, e todos nós devemos ter
esperança de que surjam avanços nos métodos
anticoncepcionais, reduzindo a necessidade dessa
prática; mesmo assim, é razoável duvidar de que a
maioria dos fetos abortados sofra com sua destruição,

15 nobelprize.org/peace/laureates/1979/teresa-lecture.html

37
em qualquer nível que seja. Contudo, essa dúvida não
seria razoável quando se trata dos milhões de homens,
mulheres e crianças que suportam os tormentos da
guerra, da fome, da tortura política ou da doença
mental. Neste exato momento, milhões de seres
sensíveis à dor . chio sofrendo aflições físicas e
mentais inimagináveis, em circunstancias em que não
se vê em parte alguma a compaixão divina, e a
compaixão humana é com bastante frequência
prejudicada por ideias ridículas a respeito do pecado e
da salvação. Se você se preocupa com o sofrimento
humano, o aborto deveria ficar bem no fim da sua lista
de preocupações.
Enquanto o aborto continua sendo uma questão
ridiculamente polêmica nos Estados Unidos, a posição
“moral” da Igreja nesse assunto está hoje plenamente
— e horrivelmente — encarnada em El Salvador Nesse
país, o aborto é hoje ilegal sob quaisquer
circunstâncias. Não há exceções para o estupro ou o
incesto. No momento em que uma mulher chega a um
hospital com o útero perfurado, indicando que fez um
aborto caseiro em algum beco, ela é algemada à cama
do hospital e seu corpo é tratado como uma cena de
crime. Médicos forenses chegam para examinar seu
útero. Há mulheres hoje cumprindo penas de trinta ar
os de prisão pelo crime de interromper sua gravidez.16
Imagine tal cenário em um país que também
estigmatiza o uso de anticoncepcionais e os vê como
um pecado contra Deus. E, contudo, é exatamente
esse tipo de política que adoraríamos se
concordássemos com Madre Teresa em sua avaliação
do sofrimento humano. De fato, o arcebispo de San
16 J. Hitt, “Pro-life nation”, The New York Times Magazine,
9/4/2006

38
Salvador fez uma campanha ativa nesse sentido. Ele
foi auxiliado em seus esforços pelo papa João Paulo II,
que declarou, em uma visita à Cidade do México em
1999, que “a Igreja precisa proclamar o evangelho da
vida, e falar com forca profética contra a cultura da
morte. Possa o continente da esperança ser também o
continente da vida!”.
É claro que a posição da igreja a respeito do aborto
não leva em conta os detalhes da biologia, assim como
não leva em conta a realidade do sofrimento humano.
Já foi estimado que 50% de todas as concepções
humanas terminam em aborto espontâneo, em geral
sem que a mulher sequer perceba que estava grávida.
Na verdade, 20% de todos os casos de gravidez
reconhecidos terminam em aborto espontâneo.17
Existe aqui uma verdade óbvia e gritante: se Deus
existe, ele é o mais prolífico de todos os praticantes de
abortos.

17 C. P Griebel et al., “Management of spontaneous abortion”,


American Family Physician, vol. 72, n° 7 (1/10/2005), pp.
1243-50

39
Os Ateus São Maus?
Se você tem razão ao acreditar que a fé religiosa
oferece a única base real para a imoralidade, então os
ateus deveriam ser menos morais do que as pessoas
de fé. Na verdade, os ateus deveriam ser totalmente
imorais. Será que são mesmo? Será que os membros
das organizações de ateus nos Estados Unidos
cometem crimes violentos em proporção maior que a
média? Será que os membros da Academia Nacional
de Ciências, dos quais 93% não aceitam a ideia de
Deus, mentem, enganam e roubam deslavadamente?
Podemos estar razoavelmente seguros de que esses
grupos se comportam pelo meno tão bem quanto a
populacho em geral. E, contudo, os ateus são a
minoria mais vilipendiada dos Estados Unidos. As
pesquisas de opinião indicam que ser ateu é um
impedimento perfeito para se candidatar a qualquer
alto posto no nosso país (enquanto ser negro,
muçulmano ou homossexual não é). Recentemente,
multidões com milhares de pessoas se reuniram em
todo o mundo muçulmano — queimando embaixadas
europeias, fazendo ameaças, tomando reféns, até
matando pessoas — em protesto contra doze
caricaturas representando o profeta Maomé,
publicadas em um jornal dinamarquês. Quando será
que ocorreu o último levante dos ateus? Será que
existe algum jornal neste planeta que hesitaria em
publicar caricaturas sobre o ateísmo, temendo que
seus editores fossem sequestrados ou assassinados
em represália?
Cristãos como você invariavelmente declaram que
monstros como Adolf Hitler, Josef Stálin, Mao Tse-

40
tung, Pol Pot e Kim Il Sung surgem do ventre do
ateísmo. É verdade que tais homens por vezes são
inimigos da religião organizada, mas nunca são muito
racionais.c De fato, os pronunciamentos públicos
desses homens muitas vezes são totalmente
delirantes, nos assuntos mais variados: raça,
economia, identidade nacional, a marcha da história,
os perigos morais do intelectualismo. O problema
desses tiranos não é que eles rejeitam o dogma da
religião, e sim que adotam outros mitos destruidores
da vida. A maioria se torna o centro de um culto da
personalidade quase religioso, que exige o uso
contínuo da propaganda para se manter. Há uma
diferença entre a propaganda e a disseminação
honesta de informações que nós (em geral) esperamos
de uma democracia liberal. Tiranos que organizam
genocídios, ou que reinam alegremente enquanto seu
povo morre de fome, também costumam ser homens
profundamente idiossincráticos, e não defensores da
razão. Kim Il Sung, por exemplo, exigia que suas
c E parece que o ateísmo de Hitler foi seriamente exagerado.
“Como cristão meu sentimento me mostra meu Senhor e
Salvador como um combatente Mostra-me aquele homem de
outrora que sozinho rodeado por apenas alguns seguido rãs
reconheceu o que eram verdadeiramente aqueles judeus e
conclamou os homens a lutar contra eles e que pela verdade
de Deus!, foi maior não sofredor mas como lutador. Em amor
ilimitado como cristão e como homem leio a passagem que
nos conta como o Senhor por fim se levantou em todo o Seu
poder e tomou na mão um chicote para expulsar do templo a
ninhada de víboras e serpentes. Como foi terrível a sua luta
em prol do mundo contra o veneno judaico [...] como cristão
também tenho um dever para com meu próprio povo”. Hitler
afamou isso em um discurso pronunciado em 12 de abril de
1922 (Norman H. Baynes ed. The speeches of Adolf Hitler,
April 1922-August 1939 Vol. 1 de 2 pp 19-20 Oxford University
Press 1942).

41
camas, em suas diversas residências, fossem situadas
exatamente a quinhentos metros acima do nível do
mar. Seus acolchoados tinham de ser feitos com a
penugem mais macia que se possa imaginar. E qual é
a penugem mais macia que se possa imaginar?
Segundo consta, ela vem do papo do pardal. Era
necessário matar 700 mil pardais para encher um
único acolchoado. Em vista da profundidade de suas
preocupações esotéricas, podemos nos perguntar até
que ponto Kim Il Sung era um homem movido pela
razão.
Veja o Holocausto: o antissemitismo que construiu os
campos de morte dos nazistas foi herança direta do
cristianismo medieval. Durante séculos os europeus
cristãos tinham considerado os judeus a pior espécie
de heréticos, e atribuído todos os males da sociedade
à sua contínua presença entre os fiéis. Embora o ódio
aos judeus na Alemanha se expressasse de maneira
sobretudo secular, suas raízes eram religiosas, e a
demonização explicitamente religiosa dos judeus da
Europa foi contínua durante esse período. O próprio
Vaticano perpetuou a calúnia de sangue em seus
jornais até 1914.d E tanto a igreja católica como a
protestante têm um Assado vergonhoso de
cumplicidade com O genocídio nazista.18
Auschwitz, os gulags soviéticos e os campos de morte
do Camboja não são exemplos do que acontece
quando as pessoas se tornam demasiado adeptas da
d A “calúnia de sangue” (em relação aos judeus) consiste na
falsa acusação de que judeus matam não judeus a fim de obter
sangue para rituais religiosos Essa crença continua muito
difundida em todo o mundo muçulmano.
18 J. I. Kertzer, “The modern use of ancient lies”, The New York
Times, 9/5/2002

42
razão. Ao contrário, esses horrores atestam os perigos
do dogmatismo político e raial. Já é hora de cristãos
como você pararem de fingir que uma rejeição
racional da sua fé acarreta a adoção cega do ateísmo
como dogma. Não é necessário aceitar nada sem ter
provas suficientes para concluir que o nascimento
virginal de Jesus é uma ideia absurda. O problema da
religião — assim como do nazismo, do stalinismo ou
de qualquer outra mitologia totalitária — é o problema
do dogma em si. Não conheço nenhuma sociedade na
história humana que jamais tenha sofrido porque seu
povo passou a ansiar por provas concretas para suas
crenças fundamentais.
Embora você acredite que acabar com a religião é um
objetivo impossível, é importante perceber que ele já
foi alcançado por boa parte do mundo desenvolvido.
Noruega, Islândia, Austrália, Canadá, Suécia, Suíça,
Bélgica, Japão, Holanda, Dinamarca e o Reino Unido
estão entre as sociedades menos religiosas da Terra.
De acordo com o Relatório do Desenvolvimento
Humano das Nações Unidas (2005), essas sociedades
também são as mais saudáveis, segundo os
indicadores de expectativa de vida, alfabetização,
renda per capita, nível educacional, igualdade entre
os sexos, taxa de homicídios e mortalidade infantil.19
Até onde há um problema de crime na Europa
ocidental ele é, sobretudo, produto da imigração. Na
França, por exemplo, 70% dos detentos nas prisões
são muçulmanos. Os muçulmanos da Europa ocidental
em geral não são ateus. Inversamente, os cinquenta
países que ocupam os lugares mais baixos, segundo o
19 P Zuckerman, “Atheism: Contemporary rates and patterns”,
The Cambridge companion to atheism, Michael Martin, ed.
(Cambridge, England: Cambridge University Press).

43
índice de desenvolvimento humano das Nações
Unidas, são inabalavelmente religiosos.
Outras análises pintam o mesmo quadro: os Estados
Unidos são o único país, entre as democracias ricas,
com alto nível de adesão à religião; e também o que
mais sofre com altos índices de homicídio, aborto,
gravidez adolescente, doenças sexualmente
transmissíveis e mortalidade infantil. A mesma
comparação é verdadeira dentro do próprio país: os
estados do Sul e do Meio-Oeste, caracterizados pelos
mais altos níveis de literatismo religioso, são
especialmente atingidos pelas disfunções sociais,
segundo os indicadores acima, ao passo que os
estados relativamente seculares do Nordeste eito país
têm uma situação semelhante à europeia.20
Embora nos Estados Unidos a filiação a um partido
político não seja um indicador perfeito de
religiosidade, não é segredo que os estados
“vermelhos” [republicanos são vermelhos sobretudo
devido à influência política avassaladora dos cristãos
conservadores.21 Se existisse uma forte correlação
entre o conservadorismo cristão e a saúde da
sociedade, poderíamos ver algum sinal disso nesses
estados. Mas não vemos. Das 25 cidades americanas
com os mais baixos índices de crimes violentos, 62%
ficam em estados “azuis” [democratas] e 38% em
estados “vermelhos”. Das 25 cidades mais perigosas,

20 G. S. Paul. “Cross-national correlations of quantifiable societal


health with popular religiosity and secularism in the
prosperous democracies”, Journal of Religion and Society, vol.
7 (2005);
R. Gledhill, “Societies worse off when they have God on their
side”, The Times (UK), 27/9/2005
21 people-press.org/commentary/display.php3?AnalysisID=103

44
76% ficam em estados vermelhos e 24% em estados
azuis.22 Aliás, três das cinco cidades mais perigosas
dos Estados Unidos ficam no piedoso estado do
Texas.23 Os doze estados com os mais altos índices de
assaltos a residências são vermelhos. Dos 29 estados
com os mais altos índices de roubo, 24 são vermelhos.
Dos 22 estados com os mais altos índices de
assassinatos, dezessete são vermelhos.24
É claro que correlações desse tipo não esclarecem
questões de causalidade — a crença em Deus talvez
leve à disfunção social; ou a disjunção social talvez
estimule a crença em Deus; cada um desses fatores
pode estimular o outro; ou talvez ambos derivem de
algum fator nocivo mais profundo. Colhudo, deixando
de lado a questão de causa e efeito, essas estatísticas
provam que o ateísmo é compatível com as aspirações
básicas de uma sociedade civil; e também provam, de
maneira conclusiva, que a crença generalizada em
Deus não garante a saúde de uma sociedade.
Os países com altos níveis de ateísmo também são os
mais caridosos, em termos da porcentagem de sua
riqueza que dedicam a programas internos de bem
estar social e ajuda aos países pobres.25 A duvidosa
relação entre os valores cristãos e a crença literal na
Bíblia cristã é desmentida por outros índices de
igualdade social. Considere a proporção entre a
remuneração dos executivos de mais alto escalão e o
salário médio pago aos funcionários das mesmas
22 www.morganquitno.com/cito6pop.htm#25
23 www.fbi.gov/ucr/ucr.htm
24 www.itaffectsyou.org/blog/?p=200
25 www.globalissues.org/TradeRelated/Debt/USAid.asp
#ForeignAidNumbersinChartsandGraphs;
www.oecd. org

45
empresas: na Grã-Bretanha, é de 24:1; na Franca,
15:1; na Suécia, 13:1; e nos Estados Unidos, onde
80% da populacho espera ser chamada diante de Deus
no Dia do Juízo Final, é de 475:1.26 Pelo visto, parece
que muitos camelos esperam passar com facilidade
pelo buraco de uma agulha.

26 www.nybooks.com/articles/17726

46
Quem Coloca a Bondade no Bom
Livro?e
Mesmo que a crença em Deus exercesse um efeito
positivo confiável sobre o comportamento humano,
isso não seria motivo para acreditar em Deus. Uma
pessoa só pode crer em Deus se acreditar que Deus
realmente existe. Mesmo que o ateísmo levasse
diretamente ao caos moral, isso não indicaria que a
doutrina do cristianismo é verdadeira. O islã poderia
ser verdadeiro, nesse caso. Ou, talvez, todas as
religiões poderiam agir como placebos. Como
descrição do universo poderiam ser totalmente falsas,
mas, mesmo assim, úteis. Contudo, as provas indicam
que as religiões são não apenas falsas como também
perigosas.
Quando você fala nas boas consequências que as suas
crenças exercem sobre a moral humana, está
seguindo o exemplo dos religiosos liberais e
moderados. Em vez de dizer que acreditam em Deus
porque determinadas profecias bíblicas se realizaram,
ou porque os milagres narrados nos evangelhos Ao
convincentes, os liberais e moderados costumam falar
nas boas consequências de se acreditar, tal como eles
acreditam. Esses crentes muitas vezes dizem que
acreditam em Deus porque isso “dá sentido às suas
vidas”. Quando um tsunami matou centenas de
milhares de pessoas no dia seguinte ao Natal de 2004,
muitos cristãos conservadores viram nessa catástrofe
uma prova da ira divina. Aparentemente, Deus estava
enviando mais uma mensagem em código sobre os
e Em inglês, costuma-se chamar a Bíblia de “the Good Book” (“o
Bom Livro”). (N.T.)

47
males do aborto, da idolatria e do homossexualismo.
Embora eu considere essa interpretação dos
acontecimentos absolutamente repugnante, ela tem,
pelo menos, a virtude de ser razoável quando se
assume um dado conjunto de hipóteses básicas. Os
liberais e moderados, por outro lado, se recusam
atirar qualquer conclusão que seja a respeito de Deus
a partir das obras dele. Deus permanece um mistério
absoluto, uma mera fonte de consolo que é compatível
com todos os males, até os mais devastadores. Logo
após o tsunami na Ásia, liberais e moderados
admoestaram uns aos outros para que procurassem
Deus “não no poder que moveu a onda, mas sim na
resposta que a humanidade deu à onda”.27 Creio que
podemos concordar, provavelmente, que é a
benevolência humana — e não a divina — que fica à
mostra a cada vez que os corpos inchados mortos são
trazidos do mar para serem enterrados. Se em um
único dia mais de 100 mil crianças foram arrancadas
dos braços de suas mães e afogadas com total
displicência, a teologia liberal deve ser vista bem
claramente, tal como ela é: a mais pura falsidade que
um mortal possa conceber. A teologia da ira tem muito
mais imérito intelectual. Se Deus existe e tem um
interesse nos assuntos dos seres humanos, sua
vontade não é inescrutável. Aqui a única coisa
inescrutável é que tantos homens e mulheres, que em
outros aspectos são racionais, conseguem negar o
horror implacável desses acontecimentos e julgar que
esse é o ápice da sabedoria moral.
Assim como a maioria dos cristãos, você acredita que
simples mortais como nós não podem rejeitar a

27 www.thetablet.co.uk/sample04.shtml

48
imoralidade da Bíblia. Não podemos dizer, por
exemplo, que Deus estava errado quando afogou a
maior parte da humanidade no dilúvio narrado no
Gênesis, pois isso é apenas a maneira como as coisas
parecem ser, a partir do nosso limitado ponto de vista.
E, contudo, você se acha com capacidade de julgar
que Jesus é o Filho de Deus, que a Regra de Ouro é o
ápice da sabedoria moral e que a Bíblia não está
transbordando de mentiras. Você usa a sua própria
intuição moral para autenticar a sabedoria da Bíblia —
e no, entanto, no momento seguinte você afirma que
nós, seres humanos, não podemos, de forma alguma,
confiar na nossa própria intuição para nos guiar
corretamente no mundo; em vez disso, temos de
depender das prescrições da Bíblia. Ou seja, você usa
a sua própria intuição moral para concluir que a Bíblia
é a garantia apropriada da sua intuição moral. Suas
intuições continuam sendo primárias, e o seu
raciocínio é circular.
Nós decidimos o que é bom no “Bom Livro”. Lemos a
Regra de Ouro e achamos que ela desfila, de maneira
brilhante, muitos de nossos impulsos éticos. E, em
seguida, encontramos mais um dos ensinamentos de
Deus sobre a moral: se um homem descobrir, em sua
noite de núpcias, que sua noiva não é virgem, ele deve
levá-la até a soleira da porta do pai dela e apedrejá-la
até a morte (Deuteronômio 22,13-21). Se somos
civilizados, rejeitaremos isso como o ato mais lunático
e mais vil que se possa imaginar. Mas para isso
precisamos exercer nossa própria intuição moral.
Acreditar que a Bíblia é a palavra de Deus não nos
ajuda de maneira alguma.
A escolha que temos pela frente é simples: podemos

49
ter uma conversa do século XXI acerca da moral e do
bem-estar humano — uma conversa na qual
recorremos a todas as descobertas científicas e
argumentos filosóficos acumulados nos últimos 2 mil
anos de discurso humano — ou então podemos nos
confinar a uma conversa do século I, tal como
preservada na Bíblia. Por que alguém haveria de
querer adotar a segunda opção?

50
A Bondade Divina
Em algum lugar do mundo, um homem acaba de
sequestrar uma garotinha Logo mais ele vai estuprá-
la, torturá-la e matá-la. Se uma atrocidade desse tipo
não está ocorrendo neste exato momento, vai ocorrer
dentro de poucas horas, ou no máximo de alguns dias.
É essa certeza que podemos obter a partir das leis
estatísticas que governam a vida de 6 bilhões de seres
humanos Essas mesmas estatísticas também sugerem
que os pais dessa garotinha acreditam — tal como
você acredita — que um Deus todo-poderoso e cheio
de amor infinito está velando por eles e pela sua
família. Eles estão certos ao acreditar nisso? É bom
que eles acreditem nisso?
Não.
O ateísmo em sua totalidade está contido nessa
resposta. O ateísmo não é uma filosofia; não é sequer
uma visão do mundo; é simplesmente o
reconhecimento do óbvio. Na verdade, ateísmo é um
termo que nem deveria existir. Ninguém precisa se
identificar como “não-astrólogo” ou “não-alquimista”
Não temos palavras para definir pessoas que duvidam
de que Elvis Presley continua vivo, ou de que
alienígenas atravessaram a galáxia só para incomodar
fazendeiros e seu gado. O ateísmo nada mais é do que
os ruídos que pessoas razoáveis fazem diante de
crenças religiosas não justificadas. Um ateu é
simplesmente uma pessoa que acredita que os 260
milhões de americanos (87% da população) que
afirmam “nunca duvidar da existência de Deus”
deveriam ser obrigados a apresentar as provas da
existência dele — e, aliás, também da benevolência

51
desse Deus, em vista da implacável destruição de
seres humanos inocentes que testemunhamos neste
mundo todos os dias. Um ateu é uma pessoa que
acredita que o assassinato de uma única menininha —
mesmo que ocorra uma vez em 1 milhão de anos —
lança dúvidas sobre a ideia da existência de um Deus
benevolente.
As provas de que Deus não protege a humanidade
estão por toda parte. A cidade de Nova Orleans, por
exemplo, foi recentemente destruída por um furacão.
Mais de mil pessoas morreram; dezenas de milhares
perderam tudo o que tinham; e quase I milhão se
tornaram refugiadas. Podemos dizer com bastante
segurança que quase todas as pessoas que afloravam
em Nova Orleans no momento em que o furacão
latrina as atingiu acreditavam, como você, em um
Deus onipotente, onisciente e misericordioso. Mas o
que estava Deus batendo enquanto o Katrina
devastava a cidade? Com certeza Ele ouviu as orações
daqueles homens e mulheres idosos rua fugiram da
enchente buscando segurança no sótão de suas asas,
e ali lentamente se afogaram. Eram gente de fé. Eram
boas pessoas, que tinham orado durante toda a vida.
Será que você tem coragem de reconhecer o óbvio?
Essa pobre gente morreu falando com um amigo
imaginário.
É claro que houve numerosos alertas de que uma
tempestade “de proporções bíblicas” atingiria Nova
Orleans, e a resposta humana ao desastre que se
seguiu foi de uma ineficiência trágica. Mas foi
ineficiente apenas à luz da ciência. A religião não
ofereceu absolutamente nenhuma base para uma
ação. Os alertas que foram dados previamente,

52
traçando a trajetória do Katrina, foram arrancados da
muda Natureza por meio de cálculos meteorológicos e
imagens de satélite. Deus não contou seus planos para
ninguém. Se os moradores de Nova Orleans se
contentassem em confiar na benevolência divina, não
ficariam sabendo que um furacão assassino viria
atacá-los, até sentirem as primeiras rajadas de vento
no rosto. E, contudo, como não deve ser surpresa para
você, u anã pesquisa feita pelo The Washington Post
descobriu que 80% dos sobreviventes do Katrina
afirmam que esse acontecimento só serviu para
fortalecer sua fé em Deus.
Enquanto o furacão Katrina devorava Nova Orleans,
quase mil peregrinos xiitas foram pisoteados e mortos
em uma ponte no Iraque. Esses peregrines tinham
uma fé poderosa no Deus do Corão. Suas vidas eram
organizadas em torno do fato indiscutível da
existência desse Deus; as mulheres usavam véus
diante dele; os homens regularmente assassinavam
uns aos outros devido a interpretações divergentes da
palavra dele. Seria notável se um único sobreviveste
dessa tragédia tivesse perdido a fé. O mais provável é
que os sobreviventes imaginem que foram poupados
pela graça divina.
Já é hora de reconhecermos o ilimitado narcisismo e
auto-engano desses que foram salvos. Já é hora de
reconhecermos que é uma verdadeira desgraça que os
sobreviventes de uma catástrofe acreditem que foram
poupados por um Deus amoroso, enquanto esse
mesmo Deus afogava bebês em seus berços. Quando
parar de revestir a realidade do sofrimento do mundo
com fantasias religiosas, você sentirá até os ossos
como a vida é preciosa — e que é uma grande

53
infelicidade que milhões de seres humanos sofram
tanto quando sua felicidade é abruptamente cortada,
das maneiras mais horríveis, sem nenhum bom
motivo.
É de se pensar quão vasta e gratuita teria de ser urna
catástrofe para abalar a fé das pessoas. O Holocausto
não obteve esse efeito. Tampouco o genocídio em
Ruanda — mesmo contando entre os assassinos
padres católicos brandindo suas machadinhas. No
século XX, nada menos que sob milhões de pessoas
morreram de varíola, em boa parte crianças. Os
caminhos de Deus são, de fato, inescrutáveis. Parece
que qualquer fato, por mais infeliz que seja, pode ser
considerado compatível com a fé religiosa.
E claro que pessoas de todas as religiões sempre
garantem umas às outras que Deus não é responsável
pelo sofrimento humano Mas, então, como
compreender a afirmação de que Deus é, ao mesmo
tempo, onisciente e onipotente? Esse é o problema
antiquíssimo da teodiceia,f é claro, e devemos
considerá-lo solucionado. Se Deus existe, ou Ele não
pode fazer nada para impedir as mais terríveis
calamidades, ou então Ele não tem interesse nisso.
Portanto, ou Deus é impotente, ou então é mau. Você
pode agora ser tentado a executar a seguinte pirueta:
Deus não pode ser julgado pelos critérios humanos de
moral. Mas já vimos que os critérios humanos de
moral são exatamente aqueles que você utiliza para
afirmar a bondade de Deus. E qualquer Deus que se
preocupe com coisas tão triviais como o casamento
gay, ou o nome pelo qual Ele deve ser chamado nas

f Teodiceia: justificativa da crença na onipotência e na bondade


de Deus, diante da existência do mal no mundo. (N.T.)

54
orações, não é Ido inescrutável assim.
Existe outra possibilidade, claro, que é ao mesmo
tempo a mais razoável e a menos odiosa: o Deus
bíblico é uma ficção, tal como Zeus e milhares de
outros deuses mortos que maioria dos seres humanos
mentalmente sãos hoje ignora. Você consegue provar
que Zeus não existe? Claro que não. E, contudo,
imagine se nós vivêssemos em uma sociedade em que
as pessoas gastassem dezenas de bilhões de dólares
de sua renda pessoal a cada ano a tino de propiciar os
deuses no monte Olimpo, em que o governo gastasse
outros bilhões tirados dos impostos dos cidadãos para
sustentar instituições dedicadas a esses deuses, em
que outros incontáveis bilhões em subsídios fiscais
fossem doados para templos pagãos, em que as
autoridades eleitas se esforçassem ao máximo para
impedir pesquisas médicas por respeito à Ilíada e à
Odisseia, e em que cada debate sobre políticas
públicas fosse subvertido para satisfazer os caprichos
de antigos autores que até escreviam bem, mas não
conheciam o suficiente sobre a realidade nem para
separar seus excrementos de sua comida. Isso seria
uma aplicação horrivelmente equivocada dos nossos
recursos materiais, morais e intelectuais. E, contudo,
é exatamente essa a sociedade em que estamos
vivendo. E este o mundo tristemente irracional que
você e seus companheiros cristãos trabalham
incansavelmente para criar.
É terrível pensar que todos nós morremos e perdemos
Lido que amamos; é duplamente terrível que tantos
seres humanos sofram desnecessariamente enquanto
estão vivos. O fato de que uma parte tão grande desse
sofrimento pode ser atribuída diretamente à religião

55
— aos ódios religiosos, às guerras religiosas, aos
tabus religiosos, aos desvios religiosos de recursos
escassos — é o que torna a crítica honesta da fé
religiosa uma necessidade moral e intelectual.
Infelizmente, expressar essa crítica coloca o não-
crente nas margens da sociedade. Só por estar em
constato com a realidade, ele parece
vergonhosamente fora de contato com a vida
fantasiosa de seus vizinhos.

56
O Poder da Profecia
Costuma-se dizer que é razoável acreditar que a Bíblia
é a palavra de Deus porque muitos acontecimentos
narrados no Novo Testamento confirmam profecias do
Velho Testamento Mas faca esta pergunta a você
mesmo: que dificuldade teriam os autores dos
evangelhos em narrar a vida de Jesus de modo a fazê-
la conformar-se às profecias do Velho Testamento?
Não estaria dentro do poder de qualquer mortal
escrever um livro que confirmasse as previsões de um
livro anterior? E, de fato, sabemos com base nas
evidências textuais que foi isso que fizeram os autores
dos evangelhos.28
Os autores dos livros de Lucas e de Mateus, por
exemplo, declaram que Maria concebeu virgem,
adorando a versão grega de Isaías 7,14. Contudo, o
texto hebraico de Isaías usa a palavra “almá”, que
significa simplesmente “uma jovem” sem nenhuma
implicarão de virgindade. Parece praticamente certo
que o dogma do nascimento virginal, e boa parte da
consequente ansiedade no mundo cristão a respeito
do sexo, c produto de uma tradução errada do texto
hebraico. Outro golpe contra a doutrina do
nascimento virginal é que os outros dois evangelistas
não ouviram falar a respeito. Tanto Marcos como João
parecem constrangidos com as acusações da
ilegitimidade de Jesus, mas nunca mencionam sua
28 Veja J. Pelikan, Jesus through the centuries (New York: Harper
& Row,1987);
A. N. Wilson, Jesus: A life (New York: W. W Norton, 1992); e
B. M. Metzger e M. D. Coogan, eds., The Oxford companion to
the Bible (Oxford, England: Oxford University Press, 1993),
pp. 789-90

57
origem milagrosa. São Paulo afirma que Jesus “nasceu
da semente de Davi, de acordo com a carne” e “foi
nascido de mulher”, sem nenhuma referência à
virgindade de Maria.
Os evangelistas também cometeram outros erros em
suas referências ao Velho Testamento. Mateus 27, 9-
10, por exemplo, alega cumprir uma afirmação que
atribui a Jeremias. Na verdade, essa afirmarão
aparece em Zacarias 11,12-13. Os evangelhos também
contradizem uns aos outros muitas vezes.29 João nos
diz que Jesus foi crucificado na véspera da ceia de
Páscoa; Marcos diz que foi no dia seguinte. À luz de
tais discrepâncias, como é possível que você acredite
que a Bíblia é perfeita em todas as suas partes? O que
você acha dos muçulmanos, mórmons e sikhs, que
também ignoram contradições semelhantes em seus
respectivos livros sagrados? Esses fiéis também dizem
coisas como “O Espírito Santo só tem olhos para a
substancia e não é limitado pelas palavras” (Martinho
Lutero). Será que isso torna você minimamente mais
predisposto a aceitar as escrituras dessas outras
religiões como a palavra perfeita do criador do
universo?
Os cristãos costumam afirmar que a Bíblia prevê
eventos históricos futuros. Por exemplo,
Deuteronômio 28, 64 diz: “O SENHOR vos espalhará
entre todos os povos, de uma até a outra extremidade
da terra”. Jesus diz, em Lucas 19, 43-44: “Pois sobre ti
virão dias em que os teus inimigos te cercarão de
trincheiras e, por todos os lados, te apertarão o cerco;
e te arrasarão e aos teus filhos dentro de ti; não

29 Muitas fontes secundárias apontam essas contradições. Um


clássico é Self-contradictions of the Bible (1860), de Burr

58
deixarão em ti pedra sobre pedra porque não
reconheceste a oportunidade da tua visitação”.
Segundo os cristãos, temos de acreditar que essas
afirmações preveem a história subsequente dos
judeus de uma maneira tão espantosa, tão específica,
que só pode admitir uma explicação sobrenatural.
Mas imagine como seria específica e impressionante
uma obra de profecia, se fosse realmente produto da
onisciência. Se a Bíblia fosse um livro assim, ela faria
previsões perfeitamente exaras sobre os
acontecimentos humanos. Poderíamos esperar que ela
contivesse uma passagem tal como: “Na segunda
metade do século XX, a humanidade vai desenvolver
um sistema de computadores interligados
globalmente — cujos princípios estabeleci no Levítico
— e esse sistema será chamado internet”. A Bíblia não
contém nada desse tipos Na verdade, ela não contém
nem uma única frase que não pudesse ser escrita por
um homem ou mulher que vivesse no século I. Isso
deveria perturbar você.
Um livro escrito por um ser onisciente poderia conter,
por exemplo, um capitulo sobre matemática que,
depois de 2 mil anos de uso contínuo, ainda seria a
mais rica fonte de sabedoria matemática que a
humanidade já viu. Em vez disso, não há na Bíblia
nenhuma discussão formal da matemática, e ela
contém alguns erros matemáticos. Em dois lugares,
por exemplo, o Bom Livro afirma que a proporção
entre a circunferência de um círculo e o seu diâmetro
é de 3:1 (1 Reis 7, 23-26 e 2 Crônicas 4, 2-5). Como
aproximação da constante π (pi), não é nada
impressionante. A expansão decimal de π vai até o
infinito — 3,1415926535... —, e os computadores

59
modernos hoje nos permitem calculá-la até qualquer
grau de exatidão que possamos desejar. Mas tanto os
egípcios como os babilônios aproximaram π em
algumas casas decimais vários séculos antes que os
livros mais antigos da Bíblia fossem escritos. A Bíblia
nos oferece uma aproximação extremamente
rudimentar, mesmo pelos padrões da Antiguidade.
Como já podemos imaginar, os fiéis encontraram
maneiras de racionalizar tudo isso; mas essas
racionalizações não conseguem esconder as óbvias
deficiências da Bíblia como fonte de conhecimentos
matemáticos. É absolutamente verdadeiro dizer que
se o matemático grego Arquimedes tivesse escrito as
passagens relativas ao π em 1 Reis e 2 Crônicas, o
texto apresentaria muito mais provas da “onisciência”
do autor.
Por que a Bíblia não diz nada sobre a eletricidade, ou
sobre O DNA, OU sobre a verdadeira idade e extensão
do universo? E o que dizer de uma cura para o
câncer? Quando compreendermos plenamente a
biologia do câncer, esses fatos serão facilmente
resumidos em algumas páginas de texto. Por que
essas páginas, ou algo remotamente parecido, não se
encontram na Bíblia? Pessoas boas e piedosas estão
neste exato momento morrendo de câncer, sofrendo
horrivelmente, e muitas delas são crianças. A Bíblia é
um livro muito grande. Deus teve espaço suficiente
para nos instruir em detalhes sobre a maneira de
manter escravos e de sacrificar diversos animais. Para
alguém que está fora da fé cristã, é espantoso como
um livro pode ter um conteúdo tão trivial e, mesmo
assim, ser considerado produto da onisciência.

60
O Choque entre Ciência e Religião
Embora hoje seja uma necessidade moral para os
cientistas falar honestamente sobre o conflito entre
ciência e religião, até a Academia Nacional de
Ciências dos Estados Unidos declarou que esse
conflito é ilusório:
Na raiz do aparente condito entre algumas
religiões e a evolução está uma compreensão
equivocada da diferença crítica entre o modo de
conhecimento religioso e o científico. As
religiões e a ciência respondem a perguntas
diferentes sobre o mundo. Se existe um
propósito no universo ou um propósito para a
existência humana, essas não são perguntas
para a ciência. O modo de conhecimento
religioso e o científico representaram, e
continuarão a representar, papéis significativos
na história humana [...]. A ciência é uma
maneira de conhecer o mundo natural. Ela se
lunita a explicar o mundo natural através de
causas naturais. A ciência não pode dizer na da
acerca do sobrenatural. Se Deus existe ou não é
uma questão sobre a qual a ciência é neutra.30
Esta afirmação é espantosa por sua falta de
sinceridade. É claro que os cientistas vivem com um
perpétuo medo de perder as verbas públicas, de modo
que a Academia Nacional de Ciências talvez tenha
expressado apenas seu puro terror da ira dos
contribuintes. A verdade, porem, é que o conflito
30 National Academy of Sciences, Teaching about evolution and
the nature of science (1998), p.58;
www.nap.edu/catalog5787.html

61
entre religião e ciência é inevitável. O sucesso da
ciência muitas vezes vem às expensas do dogma
religioso; a manutenção do dogma religioso sempre
vêm às expensas da ciência. Nossas religiões não se
limitam simplesmente a falar sobre “o propósito da
existência humana”. Tal como a ciência, cada religião
faz afirmações específicas sobre o mundo. Essas
afirmações alegam tratar de fatos — o criador do
universo pode ouvir (e ocasionalmente atender) suas
preces; a alma entra no zigoto no momento da
concepção; quem não acredita nas coisas certas a
respeito de Deus vai passar por sofrimentos terríveis
depois da morte. Essas afirmações estão
intrinsecamente em conflito com as afirmações da
ciência, pois são feitas a partir de provas
terrivelmente insatisfatórios.
No sentido mais amplo, a “ciência” (do latim scire,
“saber”) representa os nossos melhores esforces para
saber o que c verdade sobre o nosso mundo. Aqui não
precisamos distinguir entre ciências "exalas" e
"humanas", ou entre a ciência e um ramo das
humanidades como a história. É um fato histórico, por
exemplo, que os japoneses bombardearam Pearl
Harbor em 7 de dezembro de 1941. Em consequência,
este lato faz parte da visão de mundo adotada pela
racionalidade científica. Em vista das abundantes
provas que atestam tal fato, qualquer um que acredite
que ele aconteceu em alguma outra data, ou que na
verdade foram os egípcios que lançaram as bombas,
precisaria dar muitas explicações. O cerne da ciência
não são as experiências controladas, nem os modelos
matemáticos; é a honestidade intelectual. Já é hora de
reconhecermos uma característica básica do discurso
humano: quando se considera a verdade de uma

62
afirmação, ou a pessoa está empenhada em avaliar
honestamente as provas e os argumentos lógicos, ou
não está. A religião é a única área da nossa vida na
qual as pessoas imaginam que se aplica algum outro
padrão de integridade intelectual.
Considere as recentes deliberações da igreja católica
romana sobre a doutrina do limbo. Trinta teólogos de
alto escalão do mundo todo se reuniram recentemente
no Vaticano para discutir a questão do que acontece
aos bebés que morrem sem ter passado pelo sagrado
rito do batismo. Desde a Idade Média, os católicos
acreditam que esses bebes vão para um estado de
limbo, onde desfrutam para todo o sempre do que
santo Tomás de Aquino denominou “felicidade
natural” Tal noção contrastava com as opiniões de
santo Agostinho, que acreditava que essas infelizes
almas infantis passariam a eternidade no inferno.
Apesar de o limbo não ter nenhum fundamento real na
escritura, e de nunca ter sido uma doutrina oficial da
Igreja, há séculos vem sendo uma parte importante da
tradição católica. Em 1905, o papa Pio X endossou-a
plenamente: “As crianças que morrem sem batismo
vão para o limbo, onde não desfrutam da presença de
Deus, mas também não sofrem”. Agora as grandes
mentes da Igreja se reuniram para reconsiderar o
assunto.
É possível conceber algum projeto que seja
intelectualmente mais infeliz e inútil do que este?
Imagine como devem ser essas deliberações. Será que
existe a menor possibilidade de que alguém apresente
provas indicando qual o destino eterno das crianças
não balizadas após a morte? Como pode uma pessoa
instruída julgar tal debate se não como uma hilária,

63
aterrorizante e exorbitante perda de tempo? Quando
se considera o fato de que essa mesma instituição
produz e abriga um exército de elite de molestadores
de crianças, todo esse empreendimento começa a
exalar uma aura realmente diabólica de energia
humana desperdiçada.
O conflito entre ciência e religião pode reduzir-se a
um simples fato da cognição e do discurso humano: ou
uma pessoa tem bons motivos para acreditar naquilo
que acredita, ou não tem. Se houvesse boas razões
para acreditar que Jesus nasceu de uma mulher
virgem, ou que Maomé voou para o céu em um cavalo
alado, essas crenças necessariamente fariam parte da
nossa descrição racional do universo. Todos
reconhecem que confiar na "fé" para decidir sobre
questões específicas de fatos históricos é ridículo —
isto é, até que a conversa se volte para a origem de
livros como a Bíblia e o Corão, a ressurreição de
Jesus, as conversas de Maomé com o arcanjo Gabriel
ou qualquer outro dogma religioso. Já é hora de
reconhecermos que a "fé" não é nada mais do que a
licença que as pessoas religiosas dão umas às outras
para continuar acreditando, quando não há razões
para acreditar
Embora acreditar firmemente em algo, sem ter
provas, seja considerado um sinal de loucura ou
estupidez em qualquer outra área de nossa vida, a fé
em Deus continua mantendo imenso prestígio na
nossa sociedade. A religião é a única área do nosso
discurso na qual se considera nobre fingir ter certeza
— certeza acerca de coisas das quais nenhum ser
humano pode ter certeza. É significativo que essa
aura de nobreza alcance apenas aquelas religiões que

64
continuam tendo muitos adeptos. Qualquer pessoa
que for surpreendida adorando Poseidon, mesmo no
meio do oceano, será considerada insana.g

g Verdade seja dita, venho recebendo e-mails de protesto de


pessoas que afirmam, aparentemente com toda a sinceridade,
acreditar que Poseidon e outros deuses da mitologia grega são
reais.

65
Os Fatos da Vida
Todas as formas complexas de vida na Terra se
desenvolveram a partir de formas de vida mais
simples, ao longo de bilhões de anos. Este é um fato
que não admite mais disputas inteligentes. Se você
duvida de que o ser humano evoluiu a partir de
espécies anteriores, também pode duvidar de que o
Sol é uma estrela. É verdade que o Sol não parece
uma estrela, mas nós sabemos que ele é uma estrela
que, por acaso, está relativamente perto da Terra.
Imagine como você ficaria envergonhado se sua fé
religiosa dependesse da hipótese de que o Sol não é,
de forma alguma, uma estrela. Imagine milhões de
cristãos nos Estados Unidos gastando centenas de
milhões de dólares a cada ano para combater os
astrônomos e astrofísicos descrentes acerca deste
ponto. Imagine como eles trabalhariam com fervor
para conseguir que suas ideias acerca do Sol — ideias
sem nenhum fundamento — fossem ensinadas nas
escolas do nosso país. Pois é exatamente essa a
situação em que você está agora no que se refere à
evolução.
Os cristãos que duvidam da Verdade da evolução
costumam dizer coisas como “A evolução é apenas
uma teoria, não um fato”. Tal afirmação revela uma
séria falta de compreensão sobre a maneira como o
termo “teoria” é usado no discurso científico. Na
ciência, os fatos devem ser explicados com referência
a outros fatos. Esses modelos explicativos mais
amplos são “teorias” As teorias fazem previsões e
podem, em princípio, ser testadas. A expressão “teoria
da evolução” não sugere, de maneira nenhuma, que a

66
evolução não é um fato. Pode-se falar na “teoria da
origem microbiana das doenças” ou na “teoria da
gravidade” sem lançar dúvidas sobre a doença ou a
gravidade como fatos da natureza.
Também vale notar que é possível obter um doutorado
em qualquer ramo da ciência com a única finalidade
de fazer um uso cínico da linguagem científica, no
esforço de racionalizar as gritantes deficiências da
Bíblia. Parece que um punhado de cristãos já fez isso;
alguns até conseguiram diplomas de universidades de
prestígio. Sem dúvida, outros seguirão seus passos.
Embora essas pessoas sejam, tecnicamente,
“cientistas”, não estão se portando como cientistas.
Elas simplesmente não estão empenhadas em uma
pesquisa honesta sobre a natureza do universo. E as
suas afirmações acerca de Deus e das falhas do
darwinismo não significam, em absoluto, que haja
uma polêmica científica legítima acerca da evolução.
Em 2005 foi realizada uma pesquisa em 34 países, que
mediu a porcentagem de adultos que aceitam a
evolução. Os Estados Unidos ficaram na posição
número 33, logo acima da Turquia. Enquanto isso, os
estudantes secundaristas nos Estados Unidos se
classificam abaixo dos estudantes de todos os países
europeus e asiáticos em testes de compreensão de
matemática e ciências.31 Esses dados são inequívocos:
estamos construindo uma civilização da ignorância.
Eis aqui o que sabemos. Sabemos que o universo é
muito mais antigo do que a Bíblia sugere. Sabemos
31 L. Gross, Scientific illiteracy and the partisan takeover of
biology, PLoS Biol 4(5): el67. DOI 10.1371/journal.
Pbio.0040167 (2006);
biology-plosjournals. org/perlserv?
request=getdocument&doi=10.1371/journal.pbio.0040167.

67
que todos os organismos complexos que há na Terra,
inclusive nós mesmos, evoluíram a partir de
organismo, mais antigos ao longo de bilhões de anos.
As provas são absolutamente esmagadoras. Não existe
nenhuma dúvida de que a diversidade da vida que
vemos ao nosso redor é a expressão de um código
genético escrito na molécula do DNA, que o DNA
passa por mutações aleatórias, e que algumas
mutações aumentam as chances de um organismo
sobreviver e se reproduzir num dado ambiente. Esse
processo de mutação e seleção natural permitiu que
populações isoladas de indivíduos se reproduzissem e,
ao longo de vastas extensões de tempo, formassem
novas espécies. Não há dúvida alguma de que os seres
humanos evoluíram desta maneira a partir de
ancestrais não-humanos. Sabemos, a partir de
evidências genéticas, que compartilhamos um
ancestral comum com os símios e os macacos, e que
esse ancestral, por sua vez, tinha um ancestral em
comum com os morcegos e os lêmures voadores.
Existe uma árvore da vida extremamente ramificada,
cuja forma e caráter básicos são hoje muito bem
compreendidos. Assim, não há nenhuma razão para
acreditar que cada espécie foi criada em sua forma
atual. De que modo começou o processo da evolução
continua sendo um mistério, mas isso não indica, de
forma alguma, que provavelmente existe alguma
divindade à espreita por trás de tudo isso. Qualquer
leitura honesta do relato bíblico da criarão sugere que
Deus criou todos os animais e plantas tais como nós os
vemos agora. Não há dúvida alguma de que a Bíblia
está errada acerca disso.
Muitos cristãos que desejam lançar dúvidas sobre a
verdade da evolução agora defendem algo chamado

68
"Design Inteligente" (DI), ou "Projeto Inteligente" O
problema do DI é que ele não passa de um programa
de defesa de ideias políticas e religiosas, disfarçado
de ciência. Uma vez que a crença no Deus bíblico não
encontra nenhuma sustentarão na nossa crescente
compreensão científica do mundo, os teóricos do DI
invariavelmente escoram suas afirmações nas áreas
onde há ignorância científica.
A argumentação a favor do Dl prossegue em muitas
frentes ao mesmo tempo. Tal como incontáveis teístas
que vieram antes, os adeptos do Dl costumam
argumentar que o próprio fato de que o universo
existe prova a existência de Deus. Esse argumento se
desenvolve mais ou menos assim: tudo o que existe
tem uma causa; o espaço e o tempo existem; portanto,
o espaço e o tempo devem ter sido causados por
alguma coisa que fica fora do espaço e do tempo; e a
única coisa que transcende o espaço e o tempo, e,
contudo, mantém o poder de criar, é Deus. Muitos
cristãos como você acham esse argumento
convincente. No entanto, mesmo que concordemos
coto as afirmações básicas desse argumento (cada
uma das quais exige muito mais discussão do que os
teóricos do DI reconhecem), a conclusão final não se
segue logicamente. Quem pode dizer que a única
coisa capaz de fazer surgir o espaço e o tempo é um
ser supremo? Mesmo que aceitássemos que o nosso
universo simplesmente tinha de ser projetado por um
“projetista”, isso não indicaria que esse projetista é o
Deus bíblico, nem que Ele aprova o cristianismo. Se
nosso universo foi criado por um projeto inteligente,
talvez ele esteja sendo executado como uma
simulação em um supercomputador alienígena. Ou
talvez seja obra de um Deus malvado, ou ainda de dois

69
deuses malvados, jogando cabo-de-guerra em um
cosmos ainda maior.
Como muitos críticos da religião já notaram, a noção
de um criador coloca um problema imediato de
regressão infinita. Se Deus criou o universo, o que
criou Deus? Dizer que Deus, por definição, não foi
criado, é simplesmente esquivar-se da questão.
Qualquer ser capaz de criar um mundo complexo deve
ser, ele próprio, muito complexo. Como o biólogo
Richard Dawkins já observou repetidas vezes, o único
processo natural conhecido que já conseguiu produzir
um ser capaz de projetar coisas é a evolução.
A verdade é que ninguém sabe como ou por que o flui
verso começou a existir. Nem sequer é claro se
podemos falar com coerência sobre a criação do
universo, já que tal fato só pode ser concebido com
referência ao tempo, e aqui estamos falando sobre o
nascimento do próprio espaço-tempo.h Qualquer
pessoa dotada de honestidade intelectual vai
reconhecer que não sabe por que o universo existe. Os
cientistas, é claro, reconhecem prontamente sua
ignorância sobre esse ponto. Não é o que fazem os
crentes religiosos. Uma das monumentais ironias do
discurso religioso pane c lia frequência com que as
pessoas de fé elogiam a si mesmas por sua humildade,
ao mesmo tempo que condenam os cientistas e outros
não-crentes por sua arrogância intelectual. Na
verdade, não existe uma visão do mundo mais
repreensível em sua arrogância do que a visão de um
crente religioso: o criador do universo se interessa

h O físico Stephen Hawking por exemplo imagina o espaço-


tempo como uma superfície fechada com quatro dimensões
sem começo nem fim (semelhante a superfície de uma esfera).

70
por mim, me aprova, me ama e vai me recompensar
depois da minha morte. Minhas crenças atuais, vindas
das escrituras, continuarão sendo a melhor expressão
da verdade até o fim do mundo; todos os quê
discordam de mim passarão a eternidade no inferno...
Um cristão médio, numa igreja média, ouvindo um
sermão dominical médio, chega a um nível de
arrogância simplesmente inimaginável no discurso
científico — mesmo considerando que houve alguns
cientistas extremamente arrogantes.
Mais de 99% das espécies que já caminharam, voaram
ou se arrastaram sobre este planeta hoje estão
extintas. Só esse fato já exclui o design inteligente.
Quando olhamos o inundo natural, vemos uma
complexidade extraordinária, mas não vemos um
design perfeito ou mais vantajoso. O que vemos são
redundâncias, regressões e complicações
desnecessárias; vemos ineficiências espantosas, que
resultam em sofrimento e morte. Vemos aves que não
voam e cobras que têm pélvis. Vemos espécies de
peixes, salamandras e crustáceos que têm olhos não-
funcionais, porque continuaram a evoluir na escuridão
durante milhões de anos. Vemos baleias que
produzem dentes durante o desenvolvimento fetal,
mas os reabsorvem na idade adulta. Tais
características do nosso mundo são totalmente
misteriosas se Deus criou todas as espécies de vida na
terra de maneira “inteligente”; nenhuma delas nos
deixa perplexos à luz da evolução.
Conta-se que o biólogo J. B. S. Haldane disse que, se
existe um Deus, “Ele tem uma predileção
extraordinária pelos besouros”. Seria de se esperar
que uma observação tão devastadora já tivesse

71
encerrado o argumento do criacionismo para todo o
sempre. Mas a verdade é que, embora haja cerca de
350 mil espécies conhecidas de besouros, parece que
Deus tem uma predileção ainda maior pelos vírus. Os
biólogos avaliam que existem pelo menos dez cepas
de vírus para cada espécie animal da Terra. Muitos
vírus são benignos claro, e alguns vírus antigos talvez
tenham desempenhado um papel importante no
surgimento de organismos complexos. Só que os vírus
usam organismos como eu e você como seus órgãos
reprodutivos. Muitos deles invadem nossas células
para destruí-las e, nesse processo, nos destroem — de
maneira horrível, implacável e sem tréguas. Vírus
como o HIV, assim como um amplo espectro de
bactérias nocivas, podem ser vistos em seu processo
de evolução bem debaixo do nosso nariz,
desenvolvendo resistência às drogas antivirais e
antibióticos, para prejuízo de todos nós. A evolução
prevê e explica esse fenômeno; já o livro do Gênesis,
não. Como você pode imaginar que a fé religiosa
oferece a melhor explicarão dessas realidades, ou que
estas indicam algum propósito mais profundo e
misericordioso de um ser onisciente ?
Nosso próprio corpo é testemunha dos caprichos e
incompetências do criador. Na nossa fase de
embriões, produzimos cauda, guelras e toda uma
pelagem semelhante à dos macacos. Felizmente, a
maioria de nós perde esses encantadores acessórios
antes de nascer. Essa bizarra sequência morfológica é
facilmente interpretada em termos evolucionários e
genéticos; se somos produto do design inteligente, é
um mistério total. Outro exemplo: os homens têm um
canal urinário que corre diretamente através da
próstata, e essa glândula tende a inchar durante toda

72
a vida. Assim a maioria dos homens com mais de
sessenta anos pode atestar que pelo menos um
design, nesta verdejante terra de Deus deixa muito a
desejar. A pélvis da mulher também não foi projetada
com tanta inteligência como poderia ter sido para
facilitar o milagre do nascimento. Assim, a cada ano
centenas de milhares de mulheres sofrem com um
trabalho de parto prolongado e difícil, resultando
causando uma ruptura conhecida como fístula
obstétrica. No mundo em desenvolvimento, as vitimas
dessa doença passam a sofrer de incontinência
urinária, e com frequência são abandonadas pelo
marido e expulsas de sua comunidade. O Fundo
Populacional das Nações Unidas avalia que mais de 2
milhões de mulheres sofrem de fístula nos nossos
dias.i
Os exemplos de design não-inteligente na natureza
são tão numerosos que se poderia escrever um livro
inteiro apenas fazendo uma lista deles. Vou me
permitir citar apenas mais um exemplo. O aparelho

i A cura da fistula obstétrica é, na verdade, uma simples


cirurgia —não a oração Embora muitas pessoas de fé pareçam
convencidas de que as orações podem curar muitas doenças
(apesar do que dizem as melhores pesquisas científicas) é
curioso que só se acredita que a oração funciona para doenças
e ferimentos que podem terminar depois de determinado
período. Ninguém espera seriamente por exemplo que a
oração faça crescer de novo um membro amputado. E por que
não? As salamandras fazem isso como procedimento de rotina
presumivelmente sem orações. Se é que Deus de fato atende
às preces por que Ele não haveria de curar ocasionalmente
um amputado merecedor dessa graça? E por que as pessoas
de fé não esperam que a oração funcione em casos assim? Há
um site muito inteligente que explora este mistério;
www.whydoesgodhateamputees.com (Por mine Deus Odeia os
Amputados).

73
respiratório e o aparelho digestivo do ser humano se
encontram na faringe, onde compartilham uma
pequena parte das suas tubulações. Só nos Estados
Unidos, esse design “inteligente” manda dezenas de
milhares de crianças para o pronto-socorro todos os
anos. Centenas morrem asfixiadas ao engasgar, e
muitas outras sofrem danos cerebrais irreparáveis.
Isso serve para qual finalidade misericordiosa? É claro
que podemos imaginar um propósito misericordioso:
talvez os pais dessas crianças precisem aprender uma
lição; ou quem sabe Deus preparou uma recompensa
especial no céu para cada criança que morre asfixiada
com uma tampinha de garrafa. O problema, porém, é
que cosa explicações imaginárias são compatíveis com
qualquer estado em que o mundo se encontre. Qual
horrenda tragédia um poderia ser racionalizada dessa
forma? E por que você se inclinaria a pensar assim?
De que modo essa linha de pensa mento é moral?

74
Religião, Violência e o Futuro da
Civilização
Bilhões de pessoas acreditam, como você, que o
criador do universo escreveu (ou ditou) um dos nossos
livros. Infelizmente, há muitos livros que alegam ter
autoria divina, e fazem afirmações incompatíveis
entre si acerca de como nós todos devemos viver.
Doutrinas religiosas rivais fragmentaram o nosso
mundo em comunidades morais separadas, e essas
divisões se tornaram uma causa incessante de
conflitos humanos.
Em resposta a essa situação, muitas pessoas sensatas
defendem algo chamado tolerância religiosa. Não há
dúvida de que a tolerância religiosa é melhor do que a
guerra religiosa, mas ela não deixa de ter seus
problemas. Nosso meio de provocar o ódio religioso
nos faz relutar, e assim, deixamos de criticar ideias
que são cada vez mais mal adaptadas à realidade e
obviamente ridículas. Esse medo também nos obriga a
mentir para nós mesmos — repetidas vezes e nos
níveis mais elevados do discurso — sobre a
compatibilidade entre a fé religiosa e a racionalidade
científica. Nossas certezas religiosas, todas rivais
umas das outras, estão impedindo o surgimento de
uma civilização global viável. A fé religiosa — a fé na
existência de um Deus que se importa com o nome
pelo qual é chamado, a fé que proclama que Jesus está
voltando para a Terra, ou que os mártires muçulmanos
vão ditem para o Paraíso — está do lado de uma
guerra de ideias, hoje em plena escalada.
A religião agrava e exacerba os conflitos humanos

75
muito mais do que o tribalismo, o racismo ou a
política jamais poderiam fazer. É uma das formas de
pensamento que dividem as pessoas entre os de
dentro e os de tora do grupo; mas é a única que
coloca essa diferença em termos de recompensa
eterna ou punição eterna. Uma das patologias
duradouras da cultura humana é a tendência a criar
os filhos ensinando-os a temer e demonizar outros
seres humanos com base na fé religiosa. Em
consequência, a fé inspira a violência de duas
maneiras, pelo menos. Primeiro, as pessoas muitas
vezes matam outros seres humanos porque acreditam
que o criador do universo deseja que elas façam isso.
O terrorismo islâmico é um exemplo recente desse
tipo de comportamento. Segundo, pessoas em número
muito maior ainda entram em conflito umas com as
outras porque definem sua comunidade moral com
base em sua filiarão religiosa: os muçulmanos tomam
partido de outros muçulmanos, os protestantes de
outros protestantes, os católicos de outros católicos.
Esses conflitos nem sempre são explicitamente
religiosos. Mas o sectarismo, a intolerância e o ódio
que separam uma comunidade da outra muitas vezes
são produto de suas identidades religiosas. Assim,
muitos conflitos que parecem motivados apenas por
preocupações territoriais são profundamente
enraizados na religião. Vemos exemplos recentes nas
lutas que hoje atormentam a Palestina (judeus contra
muçulmanos), os Bálcãs (sérvios ortodoxos contra
croatas católicos; sérvios ortodoxos contra
muçulmanos bósnios e albaneses), Irlanda do Norte
(protestantes contra católicos), Caxemira
(muçulmanos contra hindus), Sudão (muçulmanos

76
contra cristãos e animistas),j Nigéria (muçulmanos
contra cristãos), Etiópia e Eritreia (muçulmanos
contra cristãos), Costa do Marfim (muçulmanos contra
cristãos), Sri Lanka (cingaleses budistas contra tameis
hinduístas), Filipinas (muçulmanos contra cristãos),
Irã e Iraque (muçulmanos xiitas contra muçulmanos
sunitas) e o Cáucaso (russos ortodoxos contra
muçulmanos chechenos; muçulmanos do Azerbaidjão
contra armênios católicos e armênios ortodoxos).
E, contudo, embora as divisões religiosas do nosso
mundo sejam claras e evidentes, muitos continuam
imaginando que os conflitos religiosos são sempre
causados pela falta de instrução, pela pobreza ou pela
política. A maioria dos não-crentes, liberais e
moderados parece não acreditar que real mente
existem pessoas que sacrificam sua vida, ou a vida dos
outros, devido às suas crenças religiosas. Eles não
sabem qual é a sensação de ter certeza da existência
do Paraíso; assim, não conseguem acreditar que
alguém de fato tenha certeza da existência do Paraíso.
Vale a pena lembrar que os sequestradores dos aviões
de 11 de Setembro de 2001 eram homens de classe
média e educação universitária, que não tinham
nenhuma experiência de opressão política. Contudo,
passavam um tempo enorme em sua mesquita, falando
sobre a depravação dos infiéis e sobre os prazeres que
aguardam os mártires no Paraíso. Quantos arquitetos
e engenheiros ainda precisam se chocar contra
edifícios a seiscentos quilômetros por hora até que
reconhecemos, para nós mesmos, que a violência da
jihad não é apenas questão de educação, pobreza ou
política? A verdade, a espantosa verdade, é a
j Essa longa guerra civil é distinta do genocídio que hoje ocorre
no Sudão, na região de Darfur

77
seguinte: em pleno ano de 2006, uma pessoa pode ter
recursos intelectuais e materiais suficientes para
construir uma bomba nuclear, e mesmo assim
continuar acreditando que vai ganhar 72 virgens
como prêmio no Paraíso. Aqui no Ocidente os
secularistas, liberais e moderados estão demorando
muito para compreender esse fato. A causa da sua
confusão é simples: eles não sabem o que é acreditar,
realmente, em Deus.
Vamos considerar brevemente aonde as nossas
certezas religiosas divergentes estão nos levando, em
uma escala global. A Terra hoje abriga cerca de 1,4
bilhão de muçulmanos, muitos dos quais acreditam
que algum dia eu e você vamos ou nos converter ao
islamismo, ou viver subjugados a um califado
muçulmano, ou então ser condenados à morte pela
nossa descrença. O islã é hoje a religião que mais
cresce na Europa. A taxa de natalidade dos
muçulmanos europeus é três vezes maior do que a de
seus vizinhos não-muçulmanos. Se continuarem as
tendências atuais, a França será um pais de maioria
muçulmana dentro de 25 anos — isso, se a imigração
parasse amanhã. Em toda a Europa, muitas
comunidades muçulmanas se mostram pouco
inclinadas a adquirir os valores seculares e cívicos dos
países que as recebem; e, contudo, elas exploram
esses valores ao máximo, exigindo tolerância para a
sua misoginia, seu antissemitismo e o ódio religioso
constantemente pregado em suas mesquitas.
Casamentos forçados, assassinatos em nome da
honra, estupros coletivos realizados como punição e
um ódio homicida aos homossexuais hoje são
realidades de uma Europa que em outros aspectos é

78
secular, por obra e graça do islã.k A mentalidade
“politicamente correta” e o medo do racismo fazem
com que muitos europeus relutem em se opor aos
aterrorizantes princípios religiosos dos extremistas
em seu meio. Com poucas exceções, as únicas figuras
públicas que tiveram a coragem de falar
honestamente sobre a ameaça que o islã hoje
apresenta para a sociedade europeia parecem ser
fascistas. Isso não é um bom prenúncio para o futuro
da civilização.
A ideia de que o islã é uma "religião de paz que foi
dominada por extremistas" é uma fantasia — e agora
uma fantasia especialmente perigosa. Não é claro, de
modo algum, de que forma devemos agir em nosso
diálogo com o mundo muçulmano, mas tentar iludir a
nós mesmos coto eufemismos não é a resposta. Hoje é
um truísmo nos círculos de política externa que uma
verdadeira reforma do mundo muçulmano não pode
ser imposta de fora. Mas é importante reconhecer por
que isso é assim — isso é assim porque muitos
muçulmanos estão totalmente ensandecidos pela sua
k Considera se que uma mulher “desonra” sua família ao
recusar um casamento arranjado, pedir o divórcio, cometer
adultério e até por ser estuprada ou sofrer alguma outra
forma de ataque sexual. Mulheres nessas situações com
frequência são assassinadas pelo pai marido ou irmão às vezes
com a colaboração de outras mulheres. O assassinato em
nome da honra talvez seja mais bem compreendido como um
fenômeno cultural (e não estritamente religioso), e não é
exclusivo do mundo muçulmano. Contudo, tal prática encontra
considerável apoio no islã, já que essa religião considera
explicitamente a mulher como propriedade do homem, e vê o
adultério como uma ofensa capital. Em todo o mundo
muçulmano uma mulher que denuncia ter sido estuprada
corre o risco de ser assassinada com “adúltera” afinal ela
reconheceu que fez sexo fora do casamento.

79
fé religiosa. Os muçulmanos tendem a encarar as
questões de política pública e conflitos globais em
termos da sua filiarão ao islã. E os muçulmanos que
não enxergam o mundo nesses termos se arriscam a
ser tachados de apóstatas e assassinados por outros
muçulmanos.
Mas como podemos ter esperança de dialogar
racionalmente com o mundo muçulmano se nós
mesmos não somos racionais? Não leva a nada
simplesmente declarar que "todos nós adoramos o
mesmo Deus" Todos nós não adoramos o mesmo Deus,
e nada atesta esse fato com tanta eloquência como
nossa longa história de derramamento de sangue
devido à religião. Mesmo dentro do islã, xiitas e
sunitas não conseguem sequer concordar em adorar o
mesmo Deus da mesma maneira, e por causa disso
matam uns aos outros há séculos.
Parece profundamente improvável que consigamos
curar as divisões no nosso mundo através do diálogo
inter-religioso. Os muçulmanos devotos estão
convencidos — tanto quanto você — de que a religião
deles é perfeita e que qualquer desvio leva
diretamente ao inferno. É fácil, claro, para os
representantes das principais religiões se reunirem
ocasionalmente e concordarem que deveria haver paz
na terra, ou que a compaixão é o fio que une todas as
religiões do mundo. Mas não há como escapar do fato
de que as crenças religiosas de uma pessoa
determinam, de modo único, suas opiniões sobre a
utilidade da paz, ou sobre o significado de um termo
como "compaixão" Há milhões — talvez centenas de
milhões — de muçulmanos que estariam dispostos a
morrer para não permitir que a versão de compaixão

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adorada por você ganhe terreno na península Arábica.
Como pode o diálogo inter-religioso, mesmo no nível
mais elevado, reconciliar visões de mundo que são
fundamentalmente incompatíveis e, por princípio,
imunes a revisões? A verdade é que realmente teta
muita importância saber no que acreditam bilhões de
seres humanos, e por que eles acreditam nisso.

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Conclusão
Um dos maiores desafios da civilização no século XXI
é que os seres humanos aprendam a falar sobre suas
preocupações pessoais mais profundas — sobre a
ética, a experiência espiritual e a inevitabilidade do
sofrimento humano — de maneiras que não sejam
flagrantemente irracionais. Precisamos
desesperadamente de um discurso público que
incentive o pensamento crítico e a honestidade
intelectual.
Nada obstrui mais esse projeto do que o respeito que
concedemos à fé religiosa.
Eu seria o primeiro reconhecer que as perspectivas de
erradicar a religião na nossa época não parecem boas.
Contudo, o mesmo poderia ser dito sobre os esforços
para abolir a escravidão no final do século XVIII.
Qualquer um que falasse com convicção em erradicar
a escravidão nos Estados Unidos no ano de 1775
decerto pareceria estar desperdiçando seu tempo, e
também correndo perigo. A analogia não é perfeita,
mas é sugestivo. Se algum dia chegarmos a
transcender nossa confusão religiosa, lembraremos
deste período da história humana com horror e
espanto. Como foi possível que as pessoas
acreditassem em coisas assim em pleno século XXI?
Como foi possível que deixassem suas sociedades se
tornarem tão perigosamente fragmentadas por ideias
vazias acerca de Deus e do Paraíso? A verdade é que
algumas das crenças que você mais acalenta são tão
constrangedoras quanto aquelas que enviaram o
último navio negreiro para a América no ano de 1859
(o mesmo ano em que Darwin publicou A origem das

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espécies).
Está bem claro que já é hora de aprendermos a
satisfazer nossas necessidades emocionais sem adorar
crenças absurdas e ilógicas. Precisamos encontrar
maneiras de invocar o poder do ritual e de marcar as
transições em cada vida humana que exigem
profundidade — o nascimento, o casamento, a morte
— sem mentir para nós mesmos a respeito da
realidade. Só então o costume de criar nossos filhos
para que acreditem que são cristãos, muçulmanos ou
judeus será considerado como aquilo que ele
realmente é: uma prática obscena e ridícula. E só
então teremos chance de curar as fraturas mais
profundas e mais perigosas do nosso mundo.
Não tenho dúvidas de que sua aceitação de Cristo
coincidiu com algumas mudanças muito positivas na
sua vida. Talvez você agora ame as outras pessoas de
uma maneira que nunca imaginou ser possível. Você
pode até experimentar sentimentos de bem-
aventurança enquanto reza. Não desejo denegrir
nenhuma dessas experiências. Gostaria de observar,
porém, que bilhões de outros seres humanos, em
todas as épocas e lugares, tiveram experiências
semelhantes — mas enquanto pensavam em Krishna,
Alá ou Buda, ou enquanto faziam arte ou música, ou
contemplavam a beleza da natureza. Não há dúvida de
que as pessoas podem passar por experiências
profundamente transformadores. E não há dúvida de
que elas podem interpretar erradamente essas
experiências, e iludir-se mais ainda acerca da
natureza da realidade. Você tem razão, é claro, ao
acreditar que existe algo mais na vida do que
simplesmente compreender a estrutura e o conteúdo

83
do universo. Mas isso não torna mais respeitáveis as
afirmações injustificadas (e injustificáveis) acerca
dessa estrutura e desse conteúdo.
É importante perceber que a distinção entre ciência e
religião não implica excluir nossas intuições éticas e
nossas experiências espirituais da nossa conversa
sobre o mundo; implica sermos honestos sobre o que
podemos sensatamente concluir a partir delas. Há
boas razões para acreditar que pessoas como Jesus e
Buda não estavam dizendo bobagens quando falaram
sobre nossa capacidade, como seres humanos, de
transformar nossa vida de maneiras raras e belas.
Mas qualquer investigação genuína da ética ou da
vida contemplativa exige o mesmo nível de sensatez e
autocrítica que anima todo discurso intelectual.
Como fenômeno biológico, a religião é produto de
processos cognitivos que têm profundas raízes no
nosso passado evolucionário. Alguns pesquisadores já
especularam que a religião pode ter desempenhado
um papel importante ao fazer com que grandes
grupos de seres humanos pré-históricos adquirissem
uma coesão social. Se isso é verdade, podemos dizer
que a religião já serviu a um propósito importante.
Isso não indica, porém, que ela sirva a um propósito
importante hoje. Afinal, não existe nada mais natural
do que o estupro. Mas ninguém haveria de
argumentar que o estupro é bom, ou compatível com
uma sociedade civilizada, porque talvez tenha dado
vantagens evolucionárias aos nossos antepassados. O
fato de que a religião pode nos ter servido para
alguma função necessária no passado não exclui a
possibilidade de que hoje ela seja o maior
impedimento para a construção de uma civilizarão

84
global.
Esta carta é o produto do fracasso — o fracasso dos
numerosos e brilhantes ataques à religião que vieram
antes, o fracasso das nossas escolas em anunciar a
morte de Deus de um modo que cada nova geração
possa compreendê-la, o fracasso da média em criticar
as abjetas certezas religiosas das nossas figuras
públicas, fracassos grandes e pequenas que vêm
mantendo quase todas as sociedades deste planeta
imersas nas suas confusões mentais acerca de Deus e
desprezando todos os que tem confusões diferentes.
Não-crentes como eu se postam junto a você, mudos
de espanto diante das bordas muçulmanas que gritam
slogans pedindo a morte para países inteiros,
habitados por pessoas vivas. Mas também nos
pastamos mudos de espanto diante de coce — pela
maneira como você nega a realidade tangível, pelo
sofrimento que cria ao servir aos seus mitos religiosos
e pelo seu apego a um Deus imaginário. Esta carta foi
uma manifestação desse espanto — e, talvez, de um
pouquinho de esperança.

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Dez livros que recomendo
1. Deus, um delírio, de Richard Dawkins
2. Quebrando o encanto: A religião como
fenômeno natural, de Daniel C. Dennett
3. O que Jesus disse? O que Jesus não disse?:
Quem mudou a Bíblia e por quê, de Bart D.
Ehrman
4. Kingdom coming The rise of Christian
nationalism, de Michelle Goldberg
5. The end of days, de Gershom Gorenberg
6. Freethinkers: A history of American secularism,
de Susan Jacoby
7. Ilusões populares e a loucura das massas, de
Charles Mackay
8. “Por que não sou cristão” e outros ensaios sobre
religião e assuntos correlatos, de Bertrand
Russell
9. God, the Devil, and Darwin, de Niall Shanks
10. Atheism: The case against God, de George H.
Smith

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