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Manual COMO A BÍBLIA FOI ESCRITA

Manual COMO A BÍBLIA FOI ESCRITA INTRODUÇÃO ao ANTIGO TESTAMENTO e ao NOVO TESTAMENTO Segundo Pierre

INTRODUÇÃO ao ANTIGO TESTAMENTO e ao NOVO TESTAMENTO Segundo Pierre Gibert

Transcrição e Reprodução Eletrônica:

Luiz Edgar de Carvalho

“Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas”. Mário Quintana

Mens Sana Publicações eletrônicas para ler e pensar

2011

Sumário

Apresentação Prólogo Escolher uma Bíblia Como utilizar uma Bíblia?

Primeira parte O ANTIGO TESTAMENTO

I

ANTES DE ABRIR O LIVRO Essas Escrituras citadas por Cristo Em quais língua e escritura?

II

UMA BIBLIOTECA VARIADA A Lei ou Pentateuco Profetas "anteriores" Profetas "posteriores" Os Escritos

III

UMA LONGA HISTÓRIA As condições da escritura Sobre as Escrituras Sagradas Da "Teoria Documentária" ao Antigo Testamento Do aramaico ao grego O cânon das Escrituras

Segunda parte O NOVO TESTAMENTO

I

ANTES DE ABRIR O LIVRO No início, Jesus Cristo Em quais língua e escritura?

II

UMA BIBLIOTECA VARIADA Os quatro evangelhos Apresentação Uma escrita particular da história

Os Atos dos Apóstolos As Cartas O Apocalipse

III

LENTA E LTIPLA ESCRITURA Cristãos pouco apressados em escrever

O despertar para a história Uma história simples e complexa A fixação do cânon

Conclusão Pequeno glossário

Apresentação

Este manual Como a Bíblia foi Escrita, Introdução ao Antigo Testamento e ao Novo Testamento, em formato de Livro Eletrônico (e-book), destina-se tanto ao leitor habitu- al da Bíblia como ao principiante que abre a Bíblia pela primeira vez. Seu conteúdo pretende apenas ajudar a abrir a Bíblia. Nada mais que isso. Outros estudos podem, oportunamente, ser feitos no sentido de aprofundar o conhecimento da Bíblia.

O presente manual, portanto, não tem senão uma finalidade precípua: permitir à Escritura abrir-nos seus sentidos, deixar que a Palavra nos interpele, consentir que o Espírito nos conduza nesta aventura de Jesus que se tornou a nossa: a duma existên- cia vivida no encontro com o Deus vivo.

Muitas pessoas desejam ler a Bíblia, mas não têm tempo ou não sabem por onde começar. Este manual foi preparado com a intenção de ajudar o leitor a se orientar num livro tão grande e também tão importante como é a Bíblia.

O texto da Bíblia é um só, mas pode ser lido de várias maneiras. Ressaltamos que a questão dos modos ou métodos de ler a Bíblia é muito variada: leitura espontâ-

nea, popular, a partir da vida; leituras científicas; histórico-críticas, estruturais, socioló-

gicas; leitura a partir de determinados pontos de vista um livro, mas, uma biblioteca.

Em seu conjunto, este manual é bastante amplo e rico. Muitas outras coisas po- deriam ser ditas ou acrescentadas e outros pontos de vista ser considerados. Entre- tanto, como em todo manual, procuramos dar ao seu conteúdo uma ordem pedagógi- ca, que seja estimulante e forneça pistas muito ricas para um aprofundamento da leitu- ra e do estudo da Bíblia. Acreditamos também que será um subsídio particularmente útil para a formação de todos quantos desejam ler a Bíblia com mais proveito.

Não há melhor introdução à leitura da Bíblia do que mostrar como o texto bíblico foi escrito e fixado. Essa convicção forma o eixo deste Manual, compilado com os tex- tos transcritos do livro “Como a Bíblia foi Escrita”, de Pierre Gibert, um dos grandes exegetas da atualidade, publicado por Edições Paulinas. De forma original e apaixo- nante este Manual responde a porque e em que circunstâncias um povo, Israel, de- pendente de sua fé num Deus único, dotou-se de tal biblioteca entre os séculos XIII e I antes de nossa era.

Por fim, duas frases de Isaías ajudam a entender as razões maiores de ser deste Manual. A primeira frase o profeta a endereça a Jerusalém que está para dar à luz

multidões: “Aumente o espaço de sua tenda, ligeira estenda a lona, estique as cordas,

.” (Is

finque as estacas, porque você vai se estender para a direita e para a

54,2-3a). Aumentar o espaço da tenda e estender-se para todos os lados como resul- tado da fecundidade que vem de Deus: essa a primeira razão.

A segunda frase dirige-se a todos os que se consideram filhos e filhas de Jerusa-

lém: “Vocês poderão amamentar-se nela até ficarem satisfeitos com a consolação que

(Is 66,11). A Bíblia é

ela tem; sugarão com satisfação a abundância do seu

nosso livro comum. E quanto mais a conhecemos, mais dela nos alimentamos e vive- mos. Eis a segunda razão.

Mas, o melhor momento da razão de ser deste Manual é quando o leitor o deixa de lado, para ficar a sós com o texto da própria Bíblia. Esta é a hora da verdade e da vida.

Recomenda-se, para a leitura dos textos bíblicos, a Bíblia - Tradução Ecumênica (TEB), publicada pela Edições Loyola, São Paulo. (LEC)

Afinal, a Bíblia não é somente

PRÓLOGO

O que é a Bíblia? Como ler esse “livro” que, desde as primeiras páginas, nos descon- certa descrevendo as origens do universo e da humanidade de um ponto de vista que a ciência contesta? Ensinar a conhecer a Bíblia, ensinar a ler a Bíblia é justamente a proposta deste Manual “Para Conhecer a Bíblia”, em formato eletrônico.

Mas será realmente possível introduzir alguém à leitura da Bíblia? Semelhante pergunta, apresentada no prólogo de uma obra que tem esse objetivo, pode parecer uma contradição. Mas é uma pergunta que merece ser feita.

O que é realmente a Bíblia?

Sua aparência faz dela um “livro”. E seguramente pode-se introduzir alguém a

um livro

Pois a Bíblia é uma biblioteca concebida, como veremos, durante vários séculos, mais

de um milênio

curtos capítulos, uma introdução a tantos livros produzidos durante numerosos sécu- los? Seria o mesmo que se propor a fazer uma introdução à literatura portuguesa para um chinês que a desconhecesse totalmente.

mas é possível introduzir alguém, e do mesmo modo, a uma biblioteca?

Nessas condições, seria possível fazer, em poucas páginas ou em

É por isso que, tendo-nos proposto a fazer uma “introdução” à Bíblia, é preciso

definir sua exata acepção e a finalidade para tentar escapar à ilusão de se obter co-

nhecimentos máximos mediante um mínimo de meios

duzir alguém à Bíblia como tal, mas a cada um de seus livros ou de seus conjuntos de livros, e isso implica um trabalho de grande fôlego.

Entretanto, pode-se tomar a Bíblia nas mãos e abrir esse livro, em geral conside- rado como o livro por excelência. Depara-se, então, com uma escritura, ou antes, com uma história feita de diferentes atos de escritura. Não se fala da Escritura ou das Es- crituras para designar a Bíblia? Assim, as palavras Bíblia, Livro, Escritura e Escrituras são freqüentemente tomadas como sinônimas pelos leitores, sobretudo se eles crêem em Deus, embora alguns percebam que tais expressões não são exatamente equiva- lentes, o que confirma, complicando um pouco mais as coisas, a existência de outra designação, a de Palavra de Deus.

Dizer como a Bíblia foi escrita parece, portanto, num primeiro momento, um ca- minho para a solução do problema levantado pela existência de tão diversas designa- ções e pela questão de sua introdução. A Bíblia, na sua materialidade de livro palpá- vel, que pode ser tomado, aberto e lido, nos leva, em um momento ou em outro, a nos interrogarmos sobre a forma pela qual foi elaborada nessa mesma materialidade, ain- da que seja forte em nosso espírito a convicção de que ela foi “inspirada”, de que é “obra divina” ou “Palavra de Deus”. E aqui se apresenta um caminho particularmente adequado para se fazer uma introdução à Bíblia.

A obra que apresentamos nesta edição eletrônica se propõe, em primeiro lugar,

atingir a materialidade desse livro chamado Bíblia. É por isso que, num primeiro mo- mento, ela apresentará essa mesma Bíblia tal como a oferece o índice na multiplicida- de de seus livros. E, como só se aprende a conhecer aquilo a que se é submetido ou confrontado, a apresentação desses diferentes livros é pontuada de orientações e de guias de leitura. Para cada um dos livros, foram assinalados alguns textos importantes ou mais significativos da obra, constituindo-se assim numa como que primeira antolo- gia bíblica.

Esta obra observa a ordem da subdivisão geral da Bíblia em Antigo e Novo Tes- tamentos, bem como a ordem de cada um de seus livros, como apresentada na Tra- dução Ecumênica da Bíblia, abreviatura TEB. Trata-se, portanto, de uma “introdução à Bíblia” no sentido mais comum do termo.

Na verdade, não pode intro-

Ao mesmo tempo, este manual descreve o modo pelo qual as Escrituras foram elaboradas. Apresenta uma espécie de história da composição da Bíblia em seu con- junto, o que se chama o estabelecimento do cânon, e também em cada uma de suas grandes partes, que não coincidem necessariamente com a distinção dos diferentes livros.

Dividimos esta obra em duas partes, compreendendo a primeira o Antigo Testa- mento, e a segunda, o Novo Testamento. Ttrata-se de uma introdução à Bíblia na sua integralidade, embora a perspectiva desse gênero de obra, que apela para conheci- mentos mais aprofundados de cada um dos livros, seja realmente limitada.

Escolher uma Bíblia

Dispor de uma boa Bíblia, isto é, de uma boa tradução da Bíblia, faz parte do mínimo requerido. Traduções não faltam, o que deveria impedir que se desviasse para uma edição qualquer, especialmente para essas Bíblias ou trechos escolhidos da Bí- blia que encontramos às vezes no fundo de nossos armários, difundidos pelo zelo in-

Poder-se-ia

definir a escolha entre uma das obras mais difundidas no Brasil que propomos a seguir

e cujas características apresentamos sumariamente.

Bíblia – Tradução Ecumênica, TEB, Edições Loyola, São Paulo. Um projeto e- cumênico devido ao trabalho conjunto de católicos e protestantes em cada livro. Origi- nalmente editada pela “Sociedade Bíblica da França”. Os livros “apócrifos” ou “deute- rocanônicos” do cânon católico foram colocados no final do Antigo Testamento. Na elaboração deste Manual “Como a Bíblia foi Escrita”, esta foi a Bíblia utilizada, motivo por que sugerimos também sua utilização para leitura.

discreto e voluntário de muitas pessoas ou entidades

Bíblia de Jerusalém, BJ, Edições Paulus, São Paulo. Deve seu nome à Escola bíblica e arqueológica francesa, mantida pelos dominicanos, que foram os responsá- veis pela obra original. É produto da colaboração de numerosos tradutores. Segundo os entendidos, trata-se da melhor tradução em termo de valor de conjunto.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral, tradução dos originais, numa linguagem popu- lar. Paulus, São Paulo.

Bíblia Sagrada, da tradução francesa dos Monges de Maredsous (Bélgica). Edi- tora Ave Maria, São Paulo.

Bíblia Sagrada, Co-edição de Editora Vozes, Petrópolis (RJ), e Editora Santuá- rio, Aparecida (SP).

Bíblia Sagrada, Nova Tradução na Linguagem de Hoje, SBB – Sociedade Bíbili- ca do Brasil, São Paulo.

Como utilizar uma Bíblia?

Nossas Bíblias apresentam-se em geral num só volume dividido em duas partes de extensão desigual, o Antigo e o Novo Testamentos. Um índice, colocado no início ou no final, apresenta a ordem dos livros, que poderá variar de uma edição para outra.

Os diferentes livros bíblicos estão divididos em capítulos, e cada capítulo em versículos, dentro de um sistema hoje universalmente aceito nas diferentes confissões e em todas línguas.

Esse sistema de divisão, que evidentemente não data dos autores bíblicos, é bastante arbitrário. Não se pode confiar nele para determinar a unidade de sentido ou para justificar um mudança da narrativa ou da idéia, ainda que, às vezes, haja uma coincidência com tais mudanças. Seu único mérito é ser cômodo e universalmente reconhecido.

Em geral, o número do capítulo é indicado por algarismos maiores e os versícu- los, por pequenos algarismos.

Para designar determinada passagem da Bíblia, será utilizada uma abreviatura (indicada em toda edição) e dois algarismos para o capítulo e o versículo. Assim, Gn 10,12 significará: Gênesis, capítulo 10, versículo 12.

Para indicar uma passagem que comporte vários versículos, escrever-se-á, por exemplo, Ex 5,15-28, o que significará: Êxodo, capítulo 5, do versículo 15 ao versículo 28 inclusive. E para indicar-se uma passagem que se estenda por vários cap´tiulos e versículos específicos, escrever-se-á, por exemplo, Is 2,13–5,6, o que significará: Isaí- as, do capítulo 2, versículo 13, ao capítulo 5, versículo 6 inclusive.

Para indicar-se versículos que se encontrem fora de seqüência, por exemplo, I- saías, capítulo 20, versículos 2, 5 e 13, escrever-se-á: Is 20,2.5.13.

Os limites de uma edição como esta e a orientação que pretendemos dar a estas páginas nos impedem de entrar em detalhes importantes. Para suprir isso, sugerimos ao leitor se reportar a outras obras de introdução disponíveis, que lhes permitirão a- vançar mais rapidamente no conhecimento da Bíblia e no aprofundamento dos estu- dos bíblicos.

PRIMEIRA PARTE O ANTIGO TESTAMENTO

I – ANTES DE ABRIR O

O Antigo Testamento, ou Velho Testamento, como era chamado no século XVII,

parece levar-nos, pela sua própria designação, a um passado que um outro Testamen- to, o Novo, iria ultrapassar ou abolir.

Jogo de palavras ou expressão que alguns gostariam de evitar, utilizando em seu lugar, por exemplo, o termo “Primeiro Testamento”? No entanto, trata-se de pala- vras e expressões consagradas pelo uso, ainda que não cheguem a evocar exatamen- te uma antiquíssima tradição, nem possuam o caráter oficial de uma designação.

O que queremos dizer quando falamos de “Antigo Testamento”?

Se o qualificativo “Antigo” opõe-se a “Novo” e remete especificamente a um “No- vo Testamento”, não se encontrará, contudo, no “Novo Testamento” uma expressão que designe dessa forma o “Antigo Testamento”. Todavia, na segunda carta de Paulo aos Coríntios, aparece um termo em grego que se pode traduzir por “antigo testamen- to”:

“Sim, até hoje, quando eles lêem o Antigo Testamento, esse mesmo véu permance; não é retirado, porque é em Cristo que ele desaparece”

(2Cor 3,14).

A palavra “lêem”, empregada num contexto que critica a recusa de Cristo pelos judeus, remete naturalmente não só ao uso litúrgico das Escrituras por esses mesmos judeus, mas também a um uso mais amplo de seu estudo. Portanto, a expressão utili- zada aqui por Paulo designa claramente o que chamamos hoje de “Antigo Testamen- to”.

No entanto, o contexto não implica outras “Escrituras”, estas novas, que corres- ponderiam ao nosso “Novo Testamento” e aboliriam o Antigo. Na verdade, se Paulo pretende falar de algo novo, não é de “Escrituras novas”, mas antes de “aliança nova” entre Deus e aqueles que reconheceram seu filho. Não se trata assim de se opor um corpus literário “antigo” a um corpus” literário “novo”, mas de denunciar uma atitude de espírito que se obscurece quando pretende ler o “Antigo Testamento” fora de Cristo, que é o único a lhe desvendar o verdadeiro sentido.

Isso não impediu que a expressão fosse lançada, e foram os Padrs da Igreja, no fim do século II, que consagraram o uso que conhecemos desde então, distinguindo o Antigo e o Novo Testamento. São Jerônimo, traduzindo no século IV a Bíblia para o latim, emporega, no lugar da palavra grega que significa tanto “aliança” como “disposi- ção testamentária”, o vocábulo “Testamentum”, que não tem propriamente nada a ver com um “testamento” no sentido comum do termo, mesmo que o conceito de aliança bíblica entre Deus e os homens suponha, como em toda disposição de direito, estabe- lecimento e respeito de cláusulas.

ESCRITURAS CITADAS POR

Uma designação não é suficiente, contudo, para definir alguma coisa e menos ainda para descrevê-la ou explicá-la. Assim, designar o “Antigo Testamento” só servi- rá, de início, como já dissemos, para uni-lo ou opô-lo a um “Novo Testamento”.

Em outras palavras, por que razão devemos nos ineressar por um Antigo Testa- mento? Ou seja, o que faz com que nós, como cristãos, possamos e devamos nos interessar por ele?

“No início era o Verbo”, isto é, Cristo.

Todo cristão se define antes de tudo pela fé em Jesus Cristo, pela aceitação de seu ensinamento e do mistério da Salvação, que envolve sua morte e ressurreição. Dessa forma, se o Antigo Testamento apresenta algum interesse para ele, só será em relação a Jesus, que não se reduz a uma figura e a uma vida terrestres, mas cuja figu- ra e vida ultrapassam largamente o testemunho humano.

Assim foi para são Paulo, lembrando aos cristãos de Corinto o que ele próprio ti- nha “recebido”:

“Por primeiro, eu lhes transmiti aquilo que eu mesmo recebi, isto é: Cristo morreu por nossos pecados, conforme as Escrituras; ele foi sepultado, res-

suscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras (

)” (1Cor 15,3-4).

Por duas vezes aparece aí a expressão “conforme as Escrituras”. Paulo limita-se

a observar, sem nada explicitar, que o acontecimento da morte de Cristo “por nossos

pecados” e sua ressurreição “no terceiro dia” estão de acordo com as “Escrituras”, ou ainda explicados por essas mesmas Escrituras. Ele reconhece, portanto, nos textos que o precedem bem como precedem a Cristo, uma autoridade que garante a autenti- cidade ou a verdade dos fatos que narra.

Fica claro assim que existiam Escrituras que confirmam e interpretam o duplo acontecimenmto da morte e ressurreição de Cristo. E fica evidente também que tais Escrituras deviam ser bem conhecidas por seus leitores, uma vez que o Apóstolo se contenta em utilizar em sua narrativa i, simples jogo de alusões.

Assim uma designação diferente daquela de “Antigo Testamento” nos é ofereci- da pela lembrança dessa primeira prédica cristã, que não poderia abster-se da re- fer|ência, ainda que alusiva, às “Escrituras”.

Ora, muitas vezes o próprio Jesus precisa, se se pode dizer assim, essa aproxi- mação com “as Escrituras”, indicando as passagens que fazem referência à sua morte

e ressurreição.

A uma pergunta provocadora dos escribas e fariseus, ele responde:

“Uma geração má e adúltera busca um sinal, mas nenhum sinal lhe será dado, a não ser o sinal do profeta Jonas. De fato, assim como Jonas pas- sou três dias e três noites no ventre da baleia, assim também o filho do Homem passará três dias e três noites no seio da terra” (Mt 12,39-40).

A palavra de Jesus remete seus interlocutores a uma pitoresca narrativa do Anti-

go Testamento, a da história de Jonas que, por não ter obedecido a Deus que lhe or- denou que fosse predizer o castigo à cidade pecadora de Nínive, se vê obrigado a ir

até

De outro modo, Pedro, na ocasião da primeira pregação aos judeus após Pente- costes, evoca um salmo para justificar a morte de Cristo seguida de sua estupenda

ressurreição:

no ventre de uma baleia!

“Homens de Israel, escutem estas palavras: Jesus de Nazaré foi um ho-

mem que Deus confirmou entre vocês (

mataram, pregando-o numa cruz. Deus, porém, ressuscitou Jesus, liber- tando-o das cadeias da morte, porque não era possível que ela o dominas- se. De fato, Davi assim falou a respeito de Jesus: ‘Eu via sempre o Senhor diante de mim, porque ele está à minha direita, para que eu não vacile. Por isso, meu coração se alegra, minha língua exulta e minha carne repousa em esperança. Porque não me abandonarás na região dos mortos, nem

permitirás que o teu santo conheça a corrupção’ “ (At 2,22-27)

)

e vocês, através de ímpios, o

Nessa passagem de seu discurso, Pedro remete seus ouvintes a um texto que conheciam bem, pois fazia parte de um conjunto de preces, o livro dos Salmos, tradi- cionalmente atribuído ao rei Davi. E acrescenta:

“Irmãos, quanto ao patriarca Davi, permitam que eu lhes diga com fran- queza: ele morreu, foi sepultado e seu túmulo está entre nós até hoje. Mas ele era profeta, e sabia que Deus lhe havia jurado solenemente fazer com que um descendente seu lhe sucedesse no trono. Por isso, previu a res- surreição de Cristo e falou: ‘ele não foi abandonado na região dos mortos e sua carne não conheceu a corrupção’ “

Que importa uma argumentação que temos certa dificuldade de seguir com nos- sa mentalidade moderna? O que conta é que, para o judeu Pedro, que se dirige a ju- deus e fala do duplo acontecimento da morte e ressurreição de Jesus, um caminho de

entendimento e de prova se impõe: a referência ao rei Davi, apresentado como profeta

e autor de salmos, nos quais pode se ler “antecipadamente” e, portanto, como um fato anunciado e posteriormente realizado, a ressurreição de Cristo.

Assim, quando Paulo, dirigindo-se aos coríntios, lembra-lhes que Cristo foi morto “pelos nossos pecados” e ressustiou no terceiro dia “de acordo com as Escrituras”, quando Pedro cita uma passagem dessas Escrituras, o salmo 16, e quando o próprio Cristo censura duramente os escribas e os fariseus em nome da realização da “figura de Jonas” em sua morte e ressurreição, nesses três casos o acontecimento é dito, relido e interpretado à luz de Escrituras antecedentes.

Para o cristão haverá sempre um momento em que o conhecimento e o estudo dessas Escrituras se impõem. O Antigo Testamento, que as expressa doravante, deve tornar-se uma leitura cristã, mesmo que esta não possa sempre ser feita de acordo com o modo de leitura das primeiras gerações das quais testemunham Pedro, Paulo e

o próprio Cristo.

O ANTIGO TESTAMENTO NO NOVO

Os evangelhos estão repletos de citações explícitas do Antigo Testamento (sem falar das citações implícitas, às vezes assinaladas em nossas Bíblias mediante referências colocadas à margem). Toda boa edição da Bíblia põe tais citações em itálico e fornece referências precisas em notas ou à mar- gem. É preciso, no entanto, observar que a maior parte dos textos do Antigo Testamento citados no Novo, o são em sua versão grega, que se afasta, às vezes, sensivelmente do original hebraico. Não é de se espantar, por- tanto, que nem sempre se possa reconhecer com exatidão o texto portu- guês do Antigo Testamento traduzido diretamente do hebraico. Poder-se-á verificar esse jogo de citações do Antigo Testamento nos se- guintes textos:

o evangelho da infância segundo são Mateus, Mt 1,18-2,23;

— O encontro de Jesus com João Batista e a narração das tentações no deserto, Mt 3,1-4,17;

— a iniciação de Jesus na vida pública, Lc 4,16-22;

— alguns episódios de sua vida, Mc 7,1-13; 11,15-19; 12,1-2;

— sobre o anúncio de sua morte, Lc 11,29-32;

— sobre sua morte, Jo 19,16-37;

— sobre a ressurreição, At 2,14-36; 3,11-26.

Mais espantosa poderá parecer a maneira de argumentar de Paulo, em

suas cartas, para fundamentar sua teologia da justificação do fiel pela mor-

te de Cristo: Gl 3,6-14; ou ainda o paralelo que ele estabelece entre a anti-

ga e a nova Aliança para distinguir (e opor) cristãos e judeus: Gl 4,22-31.

EM QUAIS LÍNGUA E ESCRITURA?

A primeira parte da Bíblia cristã, o Antigo Testamento, apresenta-se como um li-

vro, ainda que seja mais exatamente um conjunto de livros, uma biblioteca. É geral- mente considerado o conjunto das “Escrituras sagradas” dos cristãos e dos judeus.

Mas é preciso desde já afastar alguns mal-entendidos que não raro as expres- sões que acabamos de utilizar podem gerar.

Desde que Maomé falou, no Alcaroão, das religiões “do Livro” para designar o Is- lamismo, o Cristianismo e o Judaísmo, tornou-se um hábito colocar quase no mesmo plano e confundir numa mesma concepção as “Escrituras” que fundamentam de algum

modo essas três grandes religiões. Se, efetivamente o Islamismo pode colocar no seu fundamentop um livro, o Alcorão, não se pode dizer o mesmo do Judaísmo nem do Cristianismo. Além disso, os “Livros” do Judaísmo e do Cristianismo, ainda que te- nham inspirado em parte Maomé, estão longe de ter nessas religiões o estatuto que o Alcorão tem no Islamismo. E sobretudo estão longe, em sua natureza, da constituição

e da composição deste último.

A Bíblia, Antigo ou Novo Testamentos, por mais importante que seja, não consti-

tui de forma alguma um livro original ou fundador. Apresentando-se sob a forma de uma biblioteca, é produto de uma longa e complexa história, embora depreenda-se de sua útlima organização certa unidade, não somente de ordem literária ou textual, mas sobretudo de ordem doutrinal.

O Antigo Testamento, na versão de sua língua original, o hebraico, divide-se em

três partes intituladas a Lei, os Profetas e os Escritos. Essa divisão tripartida, porém,

não é original nem exclusiva; existem outras que testemunham sua história complexa

e sobretudo as línguas nas quais ele foi escrito e transmitido.

Em que línguas o Antigo Testamento foi realmente composto?

A pergunta deve ser feita no plural, pois são três línguas que entram em sua re-

dação: o hebraico, o aramaico e o grego, sem falar de uma importante tradução do conjunto feita em grego cerca de três séculos antes de nossa era e da qual falaremos posteriormente. Entretanto, o hebraico é a principal e naturalmente a mais antiga lín-

gua de redação.

1.

Em hebraico

Tal como a conhecemos por meio da Bíblia, essa língua é relativamente recente, sua escrita alfabética é posterior à invenção e à difusão da escritura alfabética no anti- go Oriente-Próximo, ou seja, bem depois do século XV a.C. Assim, a Bíblia não pode assegurar textos anteriores ao século XII e as primeiras grandes redações (ciclos de narrativas, códigos legislativos ou compilações de textos de sabedoria) não são real- mente plausíveis antes do século IX a.C.

Em resumo, em suas partes mais antigas, o Antigo Testamento só oferece al- guns textos que podem remontar aos séculos XII e XI a.C; já os textos mais desenvol- vidos só são datáveis dos séculos X-IX, e o essencial de uma redação mais organiza- da situa-se entre os séculos VIII e III a.C.

Essas datas vão consequentemente estabelecer uma distância importante entre os mais antigos escritos que podemos levantar e os acontecimentos neles relatados, fundadores ou não. Assim, é preciso registrar, às vezes, espaços de cinco a oito sécu- los entre determinada personagem ou acontecimento e a referência escrita que o texto hebraico do Antigo Testamento apresenta sobre ela. Se se acrescentar a isso o fato de que as personagens mais antigas, os Patriarcas, em geral situados entre os sécu- los XVIII e XVI a.C., sem dúvida não falavam o hebraico, pois essa língua é relativa- mente tardia, pode-se pressentir aí um dos maiores problemas que grande parte da redação do Antigo Testamento apresenta para o leitor: que grau de confiabilidade po- de se conceder a tais narrativas?

Como quer que seja, o hebraico foi utilizado como língua de redação do Antigo Testamento durante uma dezena de séculos.

2. Em aramaico

A introdução da segunda língua bíblica, o aramaico, é naturalmente tardia, em-

bora se trate de uma língua falada há muitos séculos por alguns povos vizinhos de

Israel, pelo reino de Damasio ao norte e sobretudo pela Assíria a leste.

É somente após o Exílio na Babilônia que Israel começará a utlizar essa língua,

que era, na época, a língua diplomática e comercial do Oriente-Próximo. O aramaixo, bastante próximo do hebraico com o qual partilha uma língua ancestral, contribuirá para fazer esquecer o hebraico no uso cotidiano, possibilitando a transição para uma

língua ainda mais universal, embora totalmente diferente, o grego.

O Antigo Testamento só conserva alguns textos e partes de livros em aramaico,

todos datáveis dos séculos III e II a.C.

DO HEBRAICO AO ARAMAICO

O hebraico, como o lemos hoje na forma de suas letras (chamado he- braico quadrado), depende do aramaico. Até o Exílio, isto é, até o século V a.C., os documentos arqueológicos de que dispomos mostram outra forma do hebraico no “paleo-hebraico”.

3. Em grego

Temos atualmente a tendência de esquecer, fazendo uma leitura unilateral ou excessivamente limitada da história de Israel, que o grego foi, ao lado do hebraico e

do aramaico, uma das três línguas judaicas antigas! Durante os dois séculos que pre- cederam a nossa era e, portanto, no tempo de Cristo, o grego foi a língua judaica de uma grande parte do povo de Israel, talvez sua parte mais dinâmica, mais viva. O Ju- daísmo egípcio e mais especificamente o de Alexandria, o Judaísmo da diáspora e uma parte do Judaísmo palestino utilizavam a língua grega, às vezes exclusivamente, embora o hebraico provavelmentge tivesse permanecido como a língua litúrgica, so- bretudo para a leitura na sinagoga.

O acontecimento que marca a integração do grego à cultura de Israel é a tradu- ção nessa língua do corpus bíblico existente no fim do século III a.C. Essa tradução, feita nos meios judaicos de Alexandria, assinala não somente a importância do grego nesses meios, mas também consagrava ou canonizava pela primeira vez de maneira bastante clara um conjunto de livros que se tornaria um dia “O Antigo Testamento”.

Após essa tradução, conhecida como “Bíblia de Alexandria”, designada também com o nome de Septuaginta, proveniente da lenda de seus setenta tradutores, novos livros serão acrescentados, dos quais alguns escritos diretamente em grego, ao passo que outros subsistirão apenas nessa língua. Entre estes útlimos, encontra-se o primei- ro livro dos Macabeus e o livro do Sirácida ou Eclesiástico, provenientes de original hebraico, o livro de Tobias, que provavelmente originou-se de um texto aramaico, e, entre os livros escritos diretamente em grego, Judite, o segundo livro dos Macabeus e o livro da Sabedoria.

Assim, o Antigo Testamento, na forma como o recebemos na tradição católica (as tradições judaica e protestante vão ser um pouco diferentes), é o resultado de uma reunião bastante complexa de livros, complexidade essa devida, em grande parte, às diferentes línguas em que foi redigido, traduzido e divulgado.

Hoje ele geralmente é lido em traduções feitas diretamente das línguas de reda- ção, isto é, em sua maior parte o hebraico, mas também o aramico e o grego. É preci- so, no entanto, saber que, na maior parte das Igrejas cristãs, a Bíblia foi por muito tempo recebida em tradução. Assim, a Igreja latina privilegiava a Vulgata, ou tradução feita por são Jerônimo no século IV de nossa era. Já as Igrejas orientais mantinham a tradição da tradução grega, as Igrejas etíopes e armênias, sobretudo, utilizavam tra- duções em suas respectivas línguas, feitas não a partir do hebraico mas do grego.

Essa relativa facilidade em aceitar, tanto no Judaísmo pré-cristão como na Igreja antiga, as traduções do texto sagrado, mostra que o que importava sobretudo era que as pessoas dessas religiões pudessem compreender o que liam ou ouviam. Certamen- te, essa intenção não vai gerar traduções de imediato, nem durante todo o tempo. Em Israel após o Exílio, desde 538 a.C. até o início da era cristã, contentar-se-á, por e- xemplo, com o processo “targúmico”, que consistia em introduzir no texto glosas em aramaico, que se destinavam a atualizá-lo e torná-lo assim compreensível a pessoas para quem o hebraico já não era familiar. Compreende-se por aí que, ainda que o he- braico não tivesse jamais sido esquecido nem no Judaísmo nem no Cristianismo, ele nunca constituiu aquela língua “sagrada” ou “divina”, fora da qual não haveria um ver- dadeiro entendimento do texto. Embora o hebraico tenha permanecido a língua da liturgia e embora, no fim do século I, como veremos, ele será consagrado como a lín- gua “canônica” da Bíblia judaica, o cuidado com o entendimento dos fiéis sempre pre- valeceu sobre a idéia de pureza original e definitiva ligada a uma língua original.

II - UMA BIBLIOTECA VARIADA

A Escritura do Antigo Testamento, conhecida por meio de suas diferentes lín-

guas de redação, embora sempre com a predominância do hebraico, já nos faz pres- sentir de maneira concreta a riqueza da história dessa redação. De início, é preciso entrar nessa riquíssima biblioteca. Como ela se apresenta hoje? De que é feita? Para isso o caminho mais simples é o de seu índice.

Porém, a organização e a distribuição do índice podem variar da Bíblia católica para a protestante, ou para a ecumênica, sem falar da Bíblia judaica. Assim, pareceu- nos mais simples partir da organização do índice utilizada pela Bíblia hebraica e trazer, sempre que necessário, a compçlementação de nossas Bíblias cristãs atuais.

A Bíblia hebraica divide-se em três grandes partes: a Lei (ou Pentateuco), os

Profetas e os Escritos (ou hagiografias). Veremos, contudo, que esses termos não

recobrem o que designam habitualmente e trazem uma forte carga simbólica.

A LEI OU PENTATEUCO

A Lei designa a primeira parte do Antigo Tgestamento e abrange o que explicita

o nome de origem grega, Pentateuco, ou seja, cinco livros: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronônio.

Mas, por que distinguir esses cinco primeiros livros dos seguintes, se, como ve- remos, há uma relação de continuidade com a segunda parte do Antigo Testamento?

É justamente a designação tradicional desses cinco livros como Lei (em he-

braico, Torá), portadora de uma forte carga simbólica, que permite justificar o agrupa- mento desses cinco livros. No “Pentateuco” Israel vai reencontrar tudo o que fornece as bases para uma comunidade religiosa e nacional, os ancestrais e primeiros guias, os princípios doutrinais e um corpus propriamente legislativo. Nesse sentido, a palavra “Lei”, tomada em sentido bastante amplo, define bem esse conjunto de livros e ao mesmo tempo o delimita sem, contudo, cortar sua ligação com os outros livros.

1. O primeiro livro, o Gênesis, trata, como seu nome indica, da “gênese” do mundo (universo e humanidade) e da “genese” do povo de Israel, de seus ancestrais longínquos e, sobretudo, do ancestral por excelência, Abraão. Porém, a “geneses” de Israel” a partir de Abraão ocupa a maior parte do livro, ou seja, trinta e oito capítulos a partir do capítulo 12; os onze primeiros capítulos constituem uma espécia de conjunto consagrado aos diferentes inícios (opu reinícios) da humanidade. Isso já mostra a in- tenção dominante da “genese”: baseia-se na escolha feita por Deus de um povo capaz de reconhecê-lo como o único Deus verdadeiro. Esse Deus é designado de maneiras diferentes, El, Elohim, Javé (às vezes escrito YHWH), e saudado com títulos diversos. El-Shadaï,

SOBRE A DESIGNAÇÃO DE DEUS

A questão da denominação bem como a das qualificações de Deus no Antigo Testamento é bastante complexa. De modo ge- ral, pode se dizer que a designação mais geral e mais comum de

Deus, “El” ( o plural, “Elohim”, que significa normalmente “deuses”,

é igualmente utilizada para o Deus único de Israel ) provém de uma

raiz comum a todas as línguas semíticas (lembre-se do árabe “Al-

lah”). Na origem, esse termo servia para designar um deus particu- lar.

O nome de Javé ou YHWH, mais característico da fé e da teologia de Israel, possui uma significação mais complexa. Embora se possa suspeitar que esse termo tenha designado uma antiga di- vindade pré-israelita, não deixará de ser por isso o nome divino por excelência. Um texto de revelação do livro do Êxodo propõe uma espé- cie de etimologia do termo (cf. Ex 3,14). Essa etimologia, muito difí- cil de ser interpretada hoje, é posterior ao primitivo uso e se acres- centa, portanto, a um nome cuja significação original nos escapa. No hebraico de nossas Bíblias, o nome Javé é formado por um conjunto de quatro consoantes ( de onde a grafia YHWH), real- mente impronunciável e fonetizado pelos pontos vogais que servem para designar “Senhor”, Adonai. Isso explica o erro cometido no sé- culo XIX, quando se adquiriu o costume de escrever “Jeová” por confusão dos dois nomes. YHWH e Adonai, por assim dizer, super- postos.

As qualificações que lhe são atribuidas podem ser primitivas ou arcaicas (por exemplo YHWH-Sabaot ou YHWH dos exércitos celestes ou militares), ou podem relacionar-se com uma teologia mais evoluída. Em nossas traduções da Bíblia encontra-se uma das três designações ou escritas, Javé, YHWH ou Senhor.

Origens do universo e da humanidade segundo o livro do Gênesis

O acontecimento que abre o livro do Gênesis é naturalmente a criação do uni- verso e da humanidade. Uma primeira cobrança, por assim dizer, aparece na narrativa da tentação do primeiro casal humano e de sua transgressão à proibição difina. A par- tir daí uma série de episódios felizes e infelizes envolverão o destino da humanidade até que, num primeiro momento, Deus, decepcionado com a criatura humana, decide aniquilá-la com o Dilúvio. No entanto, um justo será poupado, Noé, com a família e todos os animais que puder fazer entrar numa arca insubmersível, garantindo assim, por uma espécie de nova criação, o reinício da humanidade. A seguir as gerações nos levarão a Abraão, o eleito de Deus por excelência que, pela fé, confiança em Deus e obediência, será digno de tornar-se o ancestral do povo que ele quis constituir.

Não é novidade reconhecer as dificuldades que esses primeiros capítulos do Gênesis, que tratam das origens do universo, da vida e da humanidade, apresentam ainda hoje para os nossos contemporâneos. Será bom, entretanto, tentar ler esses onze primeiros capítulos sem se deixar deter de início pelas objeções ou impressões negativas que eles possam provocar no espírito do leitor nutrido por concepções da ciência moderna. Na verdade, os autores expressaram aí a fé em um Deus criador de tudo, "decepcionado" pelo uso que os homens fizeram da inteligência, da razão e da liberdade que ele lhes concedera. Assim se explicam a narrativa da desobediência de Adão e Eva (cf. Gn 3), seu castigo, a inveja de Caim em relação a Abel e seu ódio fratricida (cf. Gn 4, 1 -16), as causas do Dilúvio e seus efeitos, a multiplicação das lín- guas por ocasião do projeto da torre de BabeI (cf. Gn 11,1-19).

Para uma primeira compreensão desses textos, deve-se levar em conta os se- guintes dados:

a) Com referência às "narrativas da criação", o livro do Gênesis apresenta dois textos de conteúdo bastante diferentes (cf. Gn 1,1-2,4a e 2,4b-25), quando a própria natureza das coisas, o único começo de tudo, exigiria um só. Isso mostra que nessa

matéria Israel procedeu como todas as culturas de todas as épocas, inclusive a nossa:

baseou-se em concepções e conhecimentos do momento para "deduzir" o cenário das origens. Assim, entre os séculos IX e VI a.C., Israel elaborou a história de Adão e Eva, utilizando representações, elementos míticos que circulavam por todo o antigo Orien- te-Próximo havia dois milênios. Um pouco mais tarde, entre os séculos V e IV a.C., explorando novos conhecimentos e concepções, elaborou o capítulo 1. Entretanto, a todo momento e até à concepção da criação "a partir do nada" no século II a.C. (se- gundo 2Mc 7) manterá que essa criação, qualquer que seja o modo, é fruto da vonta- de boa de Deus e que ele a quis para o homem.

b) No conjunto das narrativas que se seguem, que tratam de diferentes origens

(da rivalidade entre pastores de pequeno rebanho e de agricultores através da história

de Caim e de Abel, do fratricídio, da cultura da vinha e do vinho com Noé, da disper- são das línguas), pode-se encontrar, lembrando histórias semelhantes existentes no antigo Oriente-Próximo e também em outras áreas geográficas, uma série de explica- ções comuns a todas as culturas e necessárias para a sua compreensão do universo.

É

lhas histórias e explicações na orientação da fé de Israel num Deus único e bom. E

interessante observar ainda o modo pelo qual os autores "converteram" essas ve-

apesar da "cólera" que os homens podem provocar nele, o conjunto dos aconte- cimentos leva finalmente à salvação após o castigo.

c) Através desses textos, há naturalmente expressões sucessivas e portanto

diferentes da fé de Israel, expressões que conhecerão sempre purificações de lingua- gem até no Novo Testamento. A esse respeito será bom ler, por exemplo, o início do

Evangelho segundo são João

.Jo 1,1-8) e o hino citado na carta aos Colossenses

(cf. CI 1,15-20); são ambos "releituras" conscientes, à luz de Cristo, dos três primei- ros capítulos do Gênesis

(cf.

Reconhecer os patriarcas

Embora não seja o caso de entrar em todos os detalhes de uma rica história que permanece sempre muito familiar em seu objeto e estilo, o livro do Gênesis cons- titui, de certa forma, a partir do capítulo 12, os primeiros arquivos do povo de Israel. São arquivos que lhe permitem situar-se na existência não só em relação à criação do universo e da humanidade, mas também em relação aos outros povos por meio de ancestrais nos quais se reconhece. Esse reconhecimento vem de início pelo nome:

Israel é o "cognome" dado por Deus a Jacó, neto de Abraão, mas vem também pela fé que anima esses grandes ancestrais, e por suas ações, ainda que essas ações nem sempre estejam dentro dos limites de uma moral mais rigorosa. Mas, sobretudo, poder dizer-se "filho de Abraão" constituirá até Cristo e até hoje essa garantia de identidade.

Portanto, não se trata apenas da questão da "Lei" no conjunto desse livro, feito

sobretudo de narrativas frequentemente pitorescas e de manifestações muitas vezes aterradoras de Deus a homens que finalmente ele tranquiliza e cumula de promessas

e nquezas.

" Eu sou YHWH, Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó

"

É nesses termos que muitas vezes, Deus se apresenta no decorrer do Antigo

e

trais de seu povo, Israel, que ele mesmo traz o nome, recentemente dado a Jacó num

episódio famoso, sua luta misteriosa com "Alguém" (cf. Gn 32,23-33).

Esses três ancestrais são apresentados segundo a ordem de filiação: Abraão gerou Isaac, Isaac gerou Jacó, que teve por sua vez doze filhos que deram origem às doze tribos que formam Israel.

mesmo do Novo Testamento, marcando com um selo especial os grandes ances-

Como todas as figuras e acontecimentos de origem, os Patriarcas e os grandes episódios de suas vidas dificilmente poderão ser apreendidos em linguagem de histo- riador, isto é, segundo as leis da pesquisa histórica e da crítica das fontes. De certa forma, trata-se de personagens e de acontecimentos que "se perdem na noite dos tempos" a despeito das inúmeras tentativas de datação. Entretanto, ao se ler o texto do Gênesis a partir do capítulo 12 e apesar dos problemas que essa leitura apresenta ao leitor atento, as figuras dos Patriarcas revelam uma força extraordinária que não provém apenas do caráter pitoresco de suas aventuras (a esse respeito leia-se, por exemplo, a negociação de Abraão para a compra do terreno de seu túmulo em Gn 23, ou a forma pela qual Jacó adquire um rebanho à custa de seu sogro em Gn 30,25-43). É uma força que provém sobretudo do caráter das relações que esses homens man- têm com Deus, relações que os tornam figuras exemplares e justificam a referência a Deus como Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó.

É portanto na fé que é preciso se ater em primeiro lugar, fé que põe Abraão

em ação mesmo quando as garantias que tinha pareciam apenas promessas impossí- veis: ter um filho numa idade muito avançada e dispor de um território que fará de sua descendência uma nação! É essa mesma fé que fará Jacó submeter-se a Deus, erigir- lhe altares e abençoar os filhos no momento de sua morte, quando sua esperteza e habilidade, nos limites frequentemente ultrapassados de sua desonestidade, teriam podido fazê-lo crer que ele próprio já possuía tudo o que lhe seria necessário para sair-se bem por si mesmo dos maus passos.

A vida desses homens não se reduz, portanto, ao anedótico dos episódios que pontuam seu itinerário. Porém, é esse mesmo itinerário que se torna exemplar, simbó- lico daquilo que toda pessoa que crê tem para viver no curso de sua existência: fé em Deus sobretudo no âmago do incompreensível, confiança naquele que guia todos os seres, mas que, ao mesmo tempo, respeita a liberdade, a iniciativa e os limites pesso-

Nessa perspectiva, leia-se:

a narrativa do chamamento a Abraão, Gn 12,1-9; o sacrifício de Abraão, Gn 22,1-19; as origens de Jacó, Gn 24,19-34; o episódio da bênção de Jacó, Gn 27,1-46; o sonho de Jacó, Gn 28,10-22.

2. O segundo livro, o Êxodo, apresenta-se ao mesmo tempo em continuidade com o livro do Gênesis e em ruptura com ele. O Êxodo encaminha o leitor mais dire- tamente para essa "legislação" que justifica a denominação de Lei para o conjunto do Pentateuco. Mas o faz mediante a da narrativa de acontecimentos, o que leva a ruptu- ras no desenrolar da narração, rupturas essas que às vezes chegam a surpreender.

O livro do Gênesis havia, por assim dizer, fechado o leitor numa história de

família.

Mas o sucesso social de um membro dessa família originária de Abraão, um dos mais novos, José, explica como essa família tornou-se um grande povo na terra do Egito. O livro do Êxodo vai tratar dessa nova situação e, ao mesmo tempo, da o- pressão que vitima esse povo nascente:

"No Egito sobe ao poder um novo rei que não havia conhecido José

"

Haverá, portanto, necessidade de uma libertação, de um "êxodo" do Egito em direção à Terra outrora prometida a Abraão, para que a história iniciada no Gênesis continue, conduzida sempre pela providência divina.

Como no primeiro livro, uma personagem vai dominar a história, porém agora não se trata mais de um ancestral do povo a partir da geração, mas do chefe desse povo, Moisés.

Confidente de Deus, embaixador junto ao Faraó em favor da libertação de Is- rael, organizador da liturgia no Egito e, em seguida, organizador da fuga do povo atra- vés do deserto, ele é o mediador entre Deus e o povo, sobretudo nos dois aconteci- mentos decisivos: a travessia do mar Vermelho e a dádiva da Lei divina no Sinai.

Trata-se, portanto, de uma nova história quanto ao conteúdo e estilo, não mais uma história de família e familiar. Porém, trata-se agora da história de um povo em busca de sua identidade cultural, comunitária e religiosa, de sua lei e de uma terra que ele levará tempo para conquistar. O errar pelo deserto durante "quarenta anos”, cifra simbólica que significa várias gerações, confirma ao mesmo tempo a busca e a natu- reza dessa história nacional.

Enfim, esse livro permanece dominado pela dádiva da Lei. Revela uma carac- terística que é própria do Pentateuco e de Israel, ou seja, que a Lei foi dada no de- curso de uma história em que Deus se revela e se manifesta. Essa história continua- rá naturalmente nos livros que se seguem. Mas, ao mesmo tempo, como toda Lei tem necessidade de ser continuamente relembrada e sobretudo readaptada, assim os ou- tros livros, na seqüência do Êxodo, vão constituir seus complementos necessários.

ABRIR O LIVRO DO ÊXODO

Como o Gênesis, pode se ler o livro do Êxodo em sua continuidade, pe-

lo menos nas partes narrativas: (l, 1 a 20,21 ; 32, I a 34,35); já as par-

tes legislativas e rituais (20,22 a 31,18; 35, I a 40) são mais áridas.

A título de primeiro contato, pode se ler:

1.a narrativa da vocação de Moisés: 3,1-7; 2.as reações do Faraó: 5,1 a 6, I; 3.oêxodo: 13,17 a 15,21; 4.o Sinai: 19,1 a 20,21:

5.o bezerro de ouro e a renovação da Aliança: 32, I a 34,35.

Consultar um quadro cronológico

Mesmo que seja bastante frágil a cronologia dos acontecimentos narra-

é útil tomar conhecimento dos

marcos tradicionalmente propostos. Para isso deve-se observar as indi-

cações e quadros cronológicos comparativos apresentados no fim da Bíblia ou em um atlas bíblico.

dos nos livros do Gênesis e do Êxodo,

Páscoa, Lei e Aliança

O livro do Êxodo fornece os fundamentos, por assim dizer, para esses três

grandes elementos básicos da vida e da compreensão do povo de Israel.

A festa da Páscoa, comemorando a saída do Egito e cujo ritual é descrito no Ex 12,1-28, é a maior festa do ano. Abrindo caminho para o prodígio do mar Vermelho

(Ex 14), lembra a ação salvadora de Deus em termos de verdadeira criação (segundo sobretudo os termos fundamentais do primeiro capítulo do Gênesis), pois é um Israel novo que vai surgir do meio das águas separadas, contidas pelo vento do leste, para chegar à Palavra de Deus, no Sinai.

Essa Palavra se concretiza numa Lei. Novamente aqui o prodígio marca a ma- nifestação divina (cf. Ex 19,16ss) ao ponto de aterrorizar o povo que irá preferir que

seja Moisés a lhe falar dali em diante e não o próprio Deus (cf. Ex 20,18-21). Essa Lei, introduzida pelo "Decálogo" (ou "as Dez Palavras", cf. Ex 20,1-17), trata, portanto, pri- meiro da natureza de Deus, do respeito que se deve ter em relação a ele, dos deveres gerais do homem para com seu próximo. Em seguida ela se concretizará tanto em

) como em

indicações do tipo ritual (para a liturgia, as festas religiosas, os sacrifícios indicações de tipo legislativo, habitual em toda comunidade nacional.

Mas essa Lei se inscreve por sua vez num conjunto, a Aliança.

A Aliança descreve de maneira mais clara e forte a relação entre Deus e Israel. Ela é expressa, por certo, mediante narrativas, principalmente daquela que fala da proclamação da Lei no Sinai (cf. Ex 19,3ss), mas também por meio de uma constru- ção litúrgica que talvez tenha servido para a elaboração de uma parte do livro do Êxo- do.

Dessa forma, em diversos momentos de sua historia, Israel renovará a Aliança com Deus mediante cerimônias que obedecem ao seguinte esquema: 1) convocação

do povo; 2) proclamação de YHWH; 3) lembrança dos prodígios realizados por YHWH para seu povo durante o curso da história; 4) proclamação da lei divina seguida das cláusulas de bênção (para a fidelidade) e de maldição (para a infidelidade); 5) adesão

do povo; 6) rito (sacrifício, elevação de um altar, aspersão do povo do povo.

); 7) despedida

Pode-se levantar em linhas gerais esse esquema em Ex 19,1 a 24,8.

Para um modelo de cerimônia de renovação da Aliança, pode se reportar ao capítulo 24 do livro de Josué.

3. O terceiro livro do Pentateuco, o Levitico, trata principalmente, como o nome

indica, da codificação das funções, cargos, costumes e papel da casta sacerdotal, os Levitas. Entretanto, não se pode reduzi-lo a tal codificação, pois descreve também a chamada "lei da santidade", ou seja, conjunto de leis, preceitos, conselhos diversos destinados à santificação dos membros do povo.

4. O quarto livro, ou livro dos Números é assim chamado porque contém o re-

censeamento e a enumeração dos membros do povo durante o seu errar pelo deserto. Liga-se também à história iniciada no livro do Êxodo do qual constitui a sequência normal.

LER ALGUMAS PÁGINAS

Devido à austeridade e dificuldade desses livros, limitar-nos-ernos, an- tes de uma séria introdução a seu estudo, a propor algumas sondagens.

I) No Levitico:

Motivação das Leis, 18,1-6; prescrições, 19,1-37; promessas de bên- çãos e de maldições, 26,1-46.

2) No livro dos Números:

Incidentes no deserto, 11,4-30; reconhecimento da Terra prometida, 13,1-33; 14,1-45;22,1 a 24,25.

origem grega, uma espécie de repetição ou desdobramento dos ensinamentos legisla- tivos do livro do Êxodo e do livro do Levítico sob a forma de um grande discurso atri- buído a Moisés.

De fato, trata-se de uma espécie de adaptação da legislação do Sinai, elabora- da sete ou oito séculos após os acontecimentos relatados no livro do Êxodo. É uma adaptação feita por um povo agora largamente urbanizado e mais complexo em sua cultura, em suas instituições e também em sua fé religiosa, embora esta última tenha se tornado, de certa forma, menos ardente.

Apesar de sua austeridade aparente, a austeridade de um longo discurso, não se poderia insistir muito na importância desse livro e da corrente religiosa e teológica a partir da qual foi produzido, induzindo a uma fé e a comportamentos em confor- midade perfeita com o espírito da Aliança.

Insistindo sobre o "hoje" (uma palavra que aparece cerca de trinta vezes no li- vro) da prática da Lei, ele é ao mesmo tempo um convite à compreensão da história de Israel. Esta é, com efeito, marcada pela desobediência à Lei, pela infidelidade à Aliança, em uma palavra, pelo pecado. Pode-se dizer que, no conjunto, os "livros his- tóricos" sobre os quais falaremos, dependem, em relação ao espírito final de sua composição, do espírito do Deuteronôrnio.

PROFETAS "ANTERIORES"

Os "Profetas", que designam a segunda parte da Bíblia hebraica, dividem-se em "profetas anteriores" e "profetas posteriores", cobrindo duas categorias bem dife- rentes de livros. Os primeiros são na realidade "livros históricos", enquanto que os segundos correspondem aos diferentes conjuntos de prédicas e de elementos biográ- ficos e autobiográficos dessas personagens típicas de Israel que foram os profetas. O estudo dos "profetas posteriores" nos permitirá observar a natureza e o papel dessas personagens. Veremos além disso que a designação geral de "Profetas" para todos esses livros está longe de ser falaciosa ou arbitrária.

Por enquanto, o exame dos "profetas anteriores" nos mantém na continuidade da linha histórica iniciada no Pentateuco.

Vimos que, desde Abraão, o povo de Israel esperava a realização da dupla promessa divina feita ao Patriarca, a de uma descendência incontável e a de uma ter- ra. A promessa da descendência tem primeiro sua realização no próprio filho de Abra- ão, Isaac, e depois nos doze filhos do filho de Isaac, Jacó. E é sobretudo a multiplica- ção dessa descendência no Egito após José, que conduziria Israel, depois de quaren- ta anos a errar pelo deserto, à Terra que lhe fora prometida.

1. O primeiro livro dos "profetas anteriores", o livro de Josué, que traz o nome do sucessor de Moisés, estrutura-se por assim dizer em três acontecimentos: a entra- da do povo na Terra pela travessia extraordinária do Jordão "a pé enxuto", a con- quis- ta dessa terra, a terra de Canaã, que não era então desabita- da e a renovação da Aliança com Javé.

A personagem de Josué aparece como o digno sucessor de Moisés, sobretudo por sua santidade e submissão a Deus. Mas ele é, mais do que Moisés, um chefe guerreiro, um conquistador e não ocupará jamais no coração de Israel o lugar que o- cupou o legislador e o mediador Moisés.

LER O LIVRO DE JOSUÉ

Com o livro de Josué, entramos na seqüência dos livros históricos que pode ser lida sem interrupção até o fim do se- gundo livro dos Reis. O vigor e o pitoresco da narração tomam sua leitura fácil.

Para uma primeira abordagem: a) a preparação para a entrada na Terra prometida: 2,1 a 4,24; b) a passagem extraor- dinária pelo Jordão: 3,1 a 4,24; c) a tomada de Jericó: 6,1-25; d) a renovação da Aliança com Deus: 24,1-28.

2. O livro dos Juizes apresenta-se hoje como a seqüência do livro de Josué. Dominado por essas figuras carismáticas que lhe dão o nome, ele focaliza de algum modo a conquista de Israel sobre uma terra que apresenta ainda mais obstáculos e inimigos diversos a vencer. Os Juízes, ao mesmo tempo juízes de paz (em tempo de paz) e chefes de guerra, dependem da eleição e da assistência divina para sua ação belicosa. Porém, vê-se ao mesmo tempo despontar uma espécie de leitura teológica da história de Israel: se Israel é vítima de seus inimigos, é por causa de seus pecados;

e se Deus aceita libertá-Ia por intermédio de um juiz que ele lhe suscita, é por pura misericórdia, ao ouvir seus gritos e gemidos.

Na história, ou mais exatamente no conjunto das histórias relatadas no livro, a-

pesar do quadro teológico austero e rigoroso, não falta o caráter pitoresco. As figuras que animam o livro, Débora (pois houve mulheres juízes !), Gedeão, Jetfé, Sansão, constituem uma das mais vigorosas galerias de retratos do Antigo Testamento. Seu caráter, suas aventuras, o realismo de seus altos feitos, tomam-nos semelhantes a todos os grandes heróis de todas as culturas, mais próximos, em suas façanhas, de "valentias e farsas" do que de ações de um grande capitão ou de um grande rei como Josué ou Davi. É apenas por sua referência a Deus que se aproximam destes últimos

e se distinguem dos primeiros!

Em todo caso, no fim desses capítulos particularmente movimentados de sua história, que são os livros de Josué e dos Juízes, Israel está suficientemente reconhe- cido em seu território para que possa encarar, numa nova e grande etapa dessa histó- ria, a instituição da monarquia.

Mas a designação de "livros históricos" como o anúncio da instituição da mo- narquia nos forçam aqui, bem mais do que nos tempos longínquos do Pentateuco, a dizer uma palavra sobre o contexto histórico, desta vez mais definido pelos historiado- res desses livros. Ou seja, com os livros de Josué e dos Juízes e sobretudo com os livros de Samuel, entramos nos tempos verdadeiramente históricos de Israel, para os quais é possível e necessário se colocar marcos, graças à história contemporânea desses tempos.

LEITURA DO LIVRO DOS JUÍZES

Lendo-se esse livro in extenso, pode se seguir a aventu- ra de um desses juízes, aventura que se apresenta como um "ciclo", constituindo um todo em si mesmo e enquadrado pelas mesmas fórmulas que lembram o pecado de Israel, o castigo de Deus e sua decisão de salvação. Essa série de ciclos, en- tremeada por rápidas notícias sobre um ou outro juiz, sobre os quais a história quase nada registrou, encontra-se entre os ca- pítulos 3 e 16. Pode se ler, por exemplo, o ciclo de Gedeão (6 a 8) ou o de Sansão (13 a 16).

Embora ainda seja difícil determinar, fora das indicações do livro, as condições de vida, a organização e as instituições de um Israel invasor no tempo de Josué, e embora o livro dos Juízes permaneça marcado, como acabamos de dizer, por certo espírito "heróico", depreender-se entretanto, de suas narrativas, que a Palestina entre os séculos XII e X a.c. não era exatamente um deserto! Populações muito diversifica- das ocupavam o solo; algumas presentes "desde sempre", outras consideradas como estrangeiras, como por exemplo os filisteus, outras ainda possu- indo costumes nôma- des ou semi-nômades e consideradas perigosas pelos agricultores sedentários.

Nesse cenário, os "hebreus" do livro de Josué e os "israelitas" do livro dos Juí- zes vão desempenhar o papel consecutiva- mente de invasores e de sedentários, que devem lutar para im- por e depois conservar os seus direitos.

É claro que, devido à natureza dos episódios e das personagens relatados nesses livros (ataques, narrativas e personagens "heróico-populares"), não se deve esperar que se encontre na história da época referências ou detalhes precisos que os confirmem. O historiador é obrigado a confiar nos dados apresentados por esses livros para compor determinada situação política, econômica e social da Palestina. Para tan- to, o próprio caráter fragmentário do livro dos Juízes garante, de certa forma, a veros- similhança de um contexto imediatamente anterior a uma organização nacional e à vontade política e militar que presidiu sua instauração. Em outros termos; como mostra o episódio da entrevista dos anciãos de Israel com Samuel (capítulo 8 do pri-meiro livro de Samuel), o livro dos Juízes já deixa entrever que Israel não sobreviveria muito tempo em condições tão aleatórias. Ou organizaria uma instituição que lhe asseguras- se a sobrevivência, ou desapareceria rapidamente por esgotamento. Nos termos polí- tico-religiosos do século X a.C., essa instituição chamava-se monarquia.

A instauração da monarquia, relatada no primeiro livro de Samuel com supre- ma ignorância do contexto internacional, vai ser, segundo a perspectiva bíblica, obra ao mesmo tempo divina e humana. Porém, aqui o historiador pode também levar em conta a situação de Israel "entre as nações".

Consultando um mapa do antigo Oriente-Próximo, pode se perceber a vulnera- bilidade da posição geográfica de Israel. Verdadeira encruzilhada de caravanas, o que não deixa de ser excelente para o comércio e intercâmbio cultural, esse território é ao mesmo tempo aberto a todas as possibilidades de invasão. O livro dos Juízes fala o bastante de sua vulnerabilidade aos nômades e semi-nômades dos desertos do Sul e do Leste que, entre duas estações, vinham refazer uma saúde material e física pilhan- do colheitas e reservas.

Mais grave e realmente nunca reduzido era o risco de dominação pelas gran- des potências que contornavam o conjunto do Oriente-Próximo, o Egito a sudoeste e os diferentes impérios que se sucederam a noroeste e a leste, na Mesopotâmia. Cha- mem-se Assíria, Babilônia ou Nínive, sejam portanto assírios, babilônios ou persas, esses impérios partilhavam com o Egito não só um comparável poderio territorial, eco- nômico, político e militar, como também a mesma ambição, a hegemonia em todo o Oriente-Próximo: excluindo o único rival digno de cada um deles, isto é, o outro, e ig- norando por desprezo os pequenos reinos e principados que os separam e que sub- meterão a seus tributos antes de aniqui-los.

Em tais condições, a existência e a fortiori a criação de pequenos estados se-

riam totalmente impossíveis se, de tempos em tempos, essas nações não passassem

por crises internas (guerras civis, golpes de Estado, rivalidades de poderes

) que,

enfra- quecendo-as, permitiam que esses pequenos países se organi-zassem. É pre- cisamente de um desses cochilos das grandes potências do Sul e do Leste que Israel iria se beneficiar no século X a.c. para se constituir como nação sob a autoridade de um soberano. E o enfraquecimento tanto do Egito como da Assíria duraria tempo sufi- ciente para permitir que a jovem nação não apenas se organizasse militar e politica-

mente, como também se estabilizasse durante os reinados de Davi e de Salomão.

A partir daí, pode se dizer que o destino de Israel, qual- quer que seja o julga- mento que se faça sobre sua história, sobre- tudo a partir da teologia deuteronômica e sua concepção do pecado, vai depender sempre do posicionamento dessas grandes potências, de suas rivalidades, seu estado político e militar: a paz do povo de Deus dependerá também de seu enfraquecimento. Para se ler os livros históricos, não só os de Samuel e dos Reis, mas também os de Esdras e Neemias, deve se ter em mente, ou melhor, sob os olhos, o mapa desse antigo Oriente- Próximo submetido às pres- sões recíprocas dessas grandes potências até a conquista de Alexandre em 334 e a invao romana no primeiro século antes de nossa era.

3. As o livro dos Juízes, entre os quais Samuel ainda é contado pelo redator do primeiro livro que traz seu nome, o primeiro e segundo livros de Samuel constituem a história da instituição da monarquia.

Embora se trate sempre de uma história santa, que se passa entre Israel e seu Deus, entramos aqui, mais do que com o livro de Josué ou dos Juízes, numa leitura mais objetiva dos fatos. Ou seja, com a instituição da monarquia, Israel integra-se na história no sentido clássico do termo. E, de fato, os dois livros de Samuel constituem uma espécie de nascimento em ato da historiografia e uma obra prima da literatura de Israel.

Essa nova etapa começa bastante mal. A idéia de um rei fora imposta pela pressão dos fatos aos anciãos de Israel, que vieram procurar aquele em quem ainda reconheciam uma grande autoridade moral, o juiz Samuel, para que ele designasse um rei. O objetivo era acabar com a instabilidade política do tempo dos Juízes e ade- quar-se a essa lei de constituição dos estados que é a única que assegura o reconhe- cimento e a existência de uma nação, a instituição monárquica. Tais eram os imperati- vos e as evidências do contexto. No entanto "não agradou a Samuel a frase que eles disseram: '-nos um rei’ “.

Na verdade, as causas desse "desagrado" o complexas: recusa da comuni- dade em reconhecer a autoridade de seus próprios filhos, o não-reconhecimento de Javé como o "único verdadeiro rei" de Israel, mas dependem também de uma tradição do povo hebreu que nunca deixou de encarar essa instituição com certa restrição. Até o desaparecimento da monarquia em 587, Israel vai sempre oscilar entre uma atitude favorável e uma atitude de oposição, ao mesmo tempo em que construía aos poucos a expectativa de um rei ideal na pessoa do messias*.

O primeiro livro de Samuel narra em linhas gerais as origens da monarquia, a escolha de Saul como o primeiro rei, suas batalhas para construir um reino digno des- se nome, seu abandono por Deus em conseqüência de suas faltas, ao mesmo tempo em que já surgia um rival, o jovem Davi, logo beneficiado pelos favores divinos e con- sagrado por Samuel, que lhe levaria a unção.

LER O PRIMEIRO LIVRO DE SAMUEL

Mais do que qualquer outro, este livro, bem como o se- gundo livro de Samuel, pede uma leitura contínua. É sem dúvi- da brilhante não só pela qualidade da narrativa como pelo inte- resse que seus protagonistas despertam. Trata-se de uma his- tória ao mesmo tempo pitoresca, tgica, edificante, triste, co- mo vente, porém em nenhum momento tediosa.

Pode-se escolher:

a) o chamamento de Samuel feito por Deus, 3,1 a 4,1a; b) a instituição da monarquia, 8,1-22; 11,17-27;

c) a rejeição de Saul, 15,10-35;

d) a sagração de Davi, 16,1-13;

e) a morte de Saul, 31,1-13.

4. Encerrando-se com a morte heróica do rei Saul, o primeiro livro não se distin- gue verdadeiramente do segundo, que se inicia com a consagração efetiva de Davi como rei, o qual já havia escolhido sua capital, Hebron, local da sepultura dos Patriar- cas.

O segundo livro trata sobretudo do reinado de Davi, que se envolve em sombra e luzes: as sombras dos pecados pessoais do rei, da traição de seu filho Absalão; as luzes de seu arrependimento e de sua coragem, a luz sobretudo do estabelecimento de Jerusalém como capital. Finalmente a velhice, enfraquecendo-lhe as energias, to- ma-o um joguete das intrigas de sucessão.

DO SEGUNDO LIVRO DE SAMUEL AO PRIMEIRO LIVRO DOS REIS

a) Davi recebe a notícia da morte de Saul, 2Sm 1,1-27;

b)

a profecia de Natã, 2Sm 7,1-29;

c)

o pecado de Davi, 2Sm 11,1 a 12,25;

d)

velhice, morte e sucessão de Davi, 1 Rs 1,1 a 2,11.

As intrigas da sucessão explodem no início do primeiro livro dos Reis que é uma continuação do segundo livro de Samuel. Dois capítulos serão suficientes para que seja resolvida uma nova etapa dessa história: a elevação a rei, por meio do compro- metimento e do crime, do sucessor de Davi, seu próprio filho, Salomão, em rivalidade com outros pretendentes.

5. É, no entanto, com Salomão que o primeiro livro dos Reis nos oferece em oi- to capítulos o modelo do rei ideal. Dotado por Deus de sabedoria e poder real, exce- lente administrador, construtor do Templo do Deus único, Saloo é o rei por exce- lência, isto é, sábio por excelência. Porém, a história terminará mal, com Salomão se deixando perder na idolatria por suas concubinas estrangeiras, enquanto um de seus oficiais, Jeroboão, tentava um golpe de estado.

O golpe realmente ocorreu após a morte do rei e com ele terminou a unidade inicial do reino de Davi. Daquela época em diante o povo único do Deus único se veria dividido em dois reinos de importância desigual: o reino do Norte, governado por Jero- boão, também chamado de reino de Israel, econômica e culturalmente mais rico do que o reino do Sul, ou reino de Judá, governado por Roboão, filho de Salomão. O cisma nascido dessa divisão constituiria antes do Exílio de 587 a grande provação da história de Israel até a queda do reino do Norte em 721. A partir daí o reino do Sul se- ria o único a representar o povo de Deus diante das nações vizinhas cada vez mais ameaçadoras nas fronteiras de um território exíguo demais.

A história relatada nos dois livros dos Reis e que termina com o episódio da queda de Jerusalém em 587 atacada pela Babilônia, já não apresenta mais o vigor narrativo e aquela espécie de regozijo característico dos livros de Samuel. A narrativa assemelha-se, em sua forma, a uma espécie de ladainha desolada de reis pecadores que "fizeram o que é mal diante dos olhos de Javé".

Esses diferentes reinados, narrados em poucos parágrafos, às vezes em al- gumas linhas apenas, são julgados sobretudo pela fidelidade ou mais freqüentemente pela infidelidade do rei a Deus e à Aliança. A causa da queda dos dois reinos é expli- cada pelos respectivos pecados.

OS DOIS LIVROS DOS REIS

a) Salomão, o sábio, lRs 3,1-27;

b) sobre o cisma dos dois reinos, 1Rs 11,1-43: 12,1-33;

c) a história de Elias, 1 Rs 17,1 a 19,21;

d) o fim do reino do Norte, 2Rs 17,5-23.

O SEGUNDO LIVRO DOS REIS

a) o reinado de Ezequias, 18-20;

b) o reinado dos reis ímpios, 21;

c) o reinado de Josias, o reformador, 22,1 a 23,30;

d) o fim de Jerusalém, 25,8-30.

Nesse ponto se detém a primeira seção da segunda parte dos livros da Bíblia hebraica. Por várias razões oriundas do próprio caráter de biblioteca do Antigo Testa- mento e, portanto, dos azares da história complexa de sua redação (cf. a seguir, cap. III, pp. 67ss.), a continuação dessa história só vai ser encontrada na terceira parte, os Escritos. Por enquanto, devemos tratar da segunda seção desta segunda parte, que marca a primeira verdadeira ruptura da continuidade histórica observada nos livros enumerados até aqui.

PROFETAS "POSTERIORES"

A segunda seção dos "Profetas" é chamada "Profetas posteriores". Como já

observamos, os "Profetas posteriores" reúnem na realidade as compilações de prega-

ções e de anotações biográficas e autobiográficas dessas personagens fascinantes que foram os Profetas de Israel.

1. Como sucede com muitos termos da língua corrente, a palavra "profeta" vem sendo comumente utilizada num sentido diverso do original. Em nossa cultura, "profe- ta" dá idéia de predição, e portanto de conhecimento do futuro, o que o toma quase sinônimo de "adivinho" ou de "cartomante". Embora os profetas tenham chegado em determinados momentos a "falar sobre o futuro" sem no entanto garantir a fiabilidade de seu presságio, o papel que desempenharam sobretudo originalmente estava bem distante da predição.

O profeta era na realidade um mensageiro de Deus encarregado de denunciar

o pecado de Israel e eventualmente adverti-lo da eminência do castigo divino, em geral sob forma de uma invasão estrangeira. Na verdade ele terá às vezes de "predizer o futuro", mas esse futuro poderá se modificar se, nesse meio tempo, o povo se arre- pender de sua má conduta.

Tal pregação supõe naturalmente a familiaridade com Deus, familiaridade que

o

tervenções: "Assim fala o Senhor

próprio profeta marca pela fórmula com que abre e fecha a maior parte de suas in- "

feroz defensor da Aliança, como uma espécie de arauto da honra de Deus injuriada por seu povo.

Correlativamente, o profeta aparece como um

Ao mesmo tempo ele se manifesta como um leitor ou mais exatamente um re- leitor da história de Israel desde suas origens, seja desde Abraão e Jacó, seja mais freqüentemente desde o Êxodo, a saída do Egito, o vaguear pelo deserto. A história lhe serve ora para lembrar a fidelidade passada de Israel ora a constância de suas infidelidades presentes.

O conjunto que designa os "Profetas posteriores" é constituído por três "gran- des profetas" Isaías, Jeremias e Ezequiel (aos quais as tradições grega e latina acres- centam Daniel, apresenta- do, no entanto, pela Bíblia hebraica no livro dos "Escritos"), e por doze "pequenos profetas". É preciso observar o caráter artificial da designação "grandes / pequenos", que se baseia apenas na diferente extensão da narrativa. É necessário, portanto, ignorar essa classificação ou distinção para entender melhor a natureza desses textos, cuja abordagem, ao contrário da maior parte dos livros estu- dados até aqui, vai ser bastante difícil.

Embora, por razões complexas de se determinar, somente a partir do século VIU possa ser assinalado o registro escrito da pregação de alguns desses profetas, o fenômeno profético surgiu na verdade bem anteriormente, tanto é que os livros de Samuel e dos Reis se referem a eles em vários momentos.

Contudo, são os livros proféticos que asseguram o teste- munho mais claro do grande profetismo de Israel, que, na verdade e com mais propriedade do que a classi- ficação arbitrária que todas as nossas Bíblias apresentam, divide-se em profetas pré- exilicos, profetas exílicos e profetas pôs-exilicos.

NAS ORIGENS DO PROFETISMO

Sobre as origens do profetismo em Israel, pode se ler as seguintes passagens dos "Profetas anteriores" (ou "Livros históricos"):

1. um "profetismo" contagioso e suspeito, lSm 10,9-13;

2. o papel de Natã junto a Davi, 2Sm 7,1-17;

3. um homem de Deus e um profeta no tempo de Jero-

boão, 1Rs 13,11-34.

Os profetas pré-exílicos, isto é, Amós, Oséias, Miquéias, o primeiro Isaías, So- fonias (talvez Habacuc), Naum e Jeremias pregaram do século VIII até a véspera da queda de Jerusalém em 587.

Ezequiel, embora tenha iniciado seu ministério antes des- sa queda, exerceu a maior parte dele durante o exílio e pode, portanto, ser colocado entre os profetas exíli- cos, sobretudo como o segundo Isaías.

Entre os profetas pós-exílicos contaremos Ageu, Abdias, Zacarias, Malaquias e Joel; já o livro de Jonas pertence a um gênero literário específico do tipo edificante.

Falar dos livros proféticos em sua global idade e especifi- cidade é uma propos- ta que ultrapassaria os limites de nossa obra, não apenas por causa do grande núme- ro desses livros, mas principalmente porque isso exigiria minuciosa introdução histó- rica. Os livros proféticos, estendendo-se do século VIII ao III, repletos de alusões ao contexto da época, tomam-se uma leitura árdua, embora haja páginas brilhantes, cheias de extraordinária força de expressão poética. Limitar-nos-emos, portanto, em apontar para leitura alguns dos mais importantes entre eles. Todos testemunham, no entanto, uma forte densidade teológica, o que traz um sério problema.

Os profetas seriam, em princípio, apenas os servidores de Deus, de sua Pala- vra, de sua Lei, cujos preceitos devem estar sempre a relembrar a um povo pecador. Porém, na realidade, eles desenvolveram, ao longo de cinco ou seis séculos em que se manifestaram constantemente, algo mais do que uma simples lembrança da Lei ou dos conhecimentos elementares sobre Deus e a relação de Israel com sua Aliança. Verdadeiros teólogos, manifestando poderosa capacidade de reflexão, constituíram, ao longo das décadas, um corpus de idéias, de conceitos e mesmo de práticas que é difícil de se considerar como exclusivamente anteriores à sua intervenção. Assim é de se perguntar se os profetas, pelo desenvolvimento que imprimiram à religião de Israel, não seriam seus verdadeiros elaboradores, se não em seu princípio e em sua fonte, ao menos em sua riqueza posterior.

2. Amós é o primeiro dentre esses "profetas-escritores", como são chamados às vezes, embora na verdade tenham sido seus discípulos que em geral redigiram o que lemos hoje de sua pregação. Se bem que originário do reino do Sul, ou Judá, A- mós pregou no reino do Norte, sob o reinado de Jeroboão II. Em seu ministério foi a- companhado por Oséias, natural da região.

Nesses dois profetas encontramos os traços essenciais do grande profetismo de Israel, que parece terem sido eles a inaugurar. O estilo de sua pregação, seus te- mas serão aliás retomados por outros profetas de Israel. É possível, contudo, que ou- tros profetas tenham sido esquecidos, como se pode perceber muitas vezes nos livros dos Reis que no entanto nos legaram as admiráveis figuras de Elias e Eliseu.

Amós apresenta-se como de origem humilde (Am 7,10- 17), porém, a formação ao mesmo tempo teológica e literária que transparece em sua mensagem e na men- sagem de todos os profetas coloca uma intrigante pergunta: onde esses homens ad- quiriram tal formação? Pois, ao contrário do que se acredita às vezes, nada existe de menos improvisado do que um profeta. E, se a inspiração divina e os dons pessoais de cada um podem explicar algumas coisas, sobretudo a paixão de sua mensagem ao serviço de Deus e de Israel, seus conhecimentos não somente religiosos mas até polí- tico-econômicos, em nível nacional e internacional, mostram freqüentemente uma possibilidade de informação e de julgamento que devia escapar ao comum dos israelitas. A origem desses conhecimentos até hoje nos escapa.

ALGUNS TEXTOS CARACTERÍSTICOS

Os livros proféticos por sua forma, esquemas e trechos de pregações são de acesso difícil a quem não tenha pelo me- nos uma formação básica do contexto histórico. Pode-se, no entanto, formar uma idéia da consciência que os profetas teri- am de si mesmos, conhecendo as chamadas "narrativas de vo- cação" sejam biográficas ou autobiográficas. Pode-se em se- guida conhecer sua mensagem e as formas de sua ação medi- ante os seguintes textos:

1)Narrativas de vocação: Am 7,10-17; Is 6; 2) Alguns textos: a) o irresistível apelo de Deus, Am 3,3-8; b) In- vectivas, Am 4,1-12; c) as "visões" de Amós, Am 8,1-3 e 9,1-4; d) o "processo" de Oséias, Os 2,4-25; e) o castigo, Os 9,7; f) a deso- lação de YHWH, Os 10,11 a 11,6.

3. Pouco tempo depois de Amós e Oséias, ainda no século VIII, porém agora em Jerusalém, Isaías revelará admirável senso poético aliado a invejável conhecimen- to da situação política, nacional e internacional de seu tempo, naturalmente ao serviço da mensagem divina. Entretanto, antes de falar um pouco mais sobre aquele que per- manecerá o grande profeta do anúncio do Messias sob o nome simbólico de Emanuel (que significa literalmente "Deus conosco"), é preciso dizer algo sobre o estado atual de seu livro, o mais longo de todos os livros proféticos, o que justifica que seja coloca- do como o primeiro de todos.

Se os livros de Amós e de Oséias, apesar da dificuldade de leitura, registram o essencial de sua pregação, o mesmo não ocorre com o de Isaías, que apresenta pelo menos três profetas, que pregaram em três épocas diferentes. Como os dois últimos permaneceram anônimos, fala-se, a partir do capítulo 40, do segundo Isaías e depois do terceiro Isaías.

Esse fenômeno, muito complexo para ser convenientemente explicado aqui, testemunha a releitura dos escritos proféticos e a preocupação não apenas de conser- var sua pregação e ensinamentos, mas também de atualizá-I os e adaptá-los. Habi- tualmente, como ocorreu em Amós e Oséias, a adaptação era feita por meio de acrés- cimos e de comentários. Porém, no livro de Isaías (e também no livro de Zacarias), o procedimento vai ser a junção da mensagem de um profeta posterior que apresenta evidente semelhança de pensamento com Isaías, mas cujo nome é omitido.

Isaías, que numa busca de maior precisão é às vezes chamado "primeiro Isaí- as" (Is 1,39), pertence a uma época que oscila entre períodos de tensão e de calma. Essa instabilidade liga-se em primeiro lugar à situação precária do reino do Norte cuja capital, Samaria, irá logo cair sob o ataque do poder asrio (em 721). Além disso, re- laciona-se também com as ameaças diretamente dirigidas ao reino de Judá, reforça- das pela queda do reino do Norte e que culminarão com o cerco de Jerusalém durante o reinado de Ezequias, cerco felizmente interrompido antes do desfecho fatal. O rei, aconselhado por Isaías, passará para a posteridade como um rei reformador dentro do espírito do profetismo.

Nem tudo foi fácil para Isaías, muito provavelmente saído de um meio social que lhe facilitava acesso fácil ao rei, que este lhe tenha sido favorável, como Ezequias, ou desfavorável como Acaz.

Mas é evidentemente a força de sua mensagem que faz de Isaías o grande profeta que conhecemos. Obsecado pela santidade de Deus, como exprime sua mag- fica "narrativa de vocação" (Is 6), não cessa de denunciar o pecado do povo e de seus govemantes aos quais promete os piores castigos mediante a invasão militar que aniquilará a nação e a reduzirá a um território de nômades! Porém, ao mesmo tempo, para além desses castigos, anuncia uma extraordinária salvação que irá se concre- tizar progressivamente com o advento da misteriosa figura de um filho do rei

DESCOBRIR A MENSAGEM DE ISAÍAS

Após a leitura da "narrativa de vocação" (Is 6), pode se escolher alguns textos que darão uma idéia do sentimento poé- tico do profeta, do conteúdo da sua mensagem e de sua teolo- gia:

lamentação por Jerusalém, 1,21-28; 3,16 a 4,1;

— o "canto da vinha", 5,1-7;

o prenúncio do Emanuel, 7,1-17; 11,1-16;

4. Atravessando quase dois séculos, chegamos ao profeta Jeremias.

O século VI, que veseu ministério se estender por cerca de quatro décadas, é sem dúvida um dos mais trágicos da história do povo eleito, pois o conduzirá em 587 à queda da capital, Jerusalém, ao incêndio do Templo, à deportação maciça da popu- lão para a Babilônia

Esse ministério, no entanto, começa sob os bons auspícios do santo rei refor- mador, Josias, infelizmente morto na batalha de Megido em 609, ao tentar barrar a desafiadora travessia de seu território pelo faraó Necao.

Seria realmente temerário pretender imaginar os sentimentos do jovem profeta diante desse fracasso. Que isso nos impeça pelo menos de perpetuar a estúpida iden- tificação de sua atitude, linguagem e mensagem às famosas "Jeremíadas". As melodi- as floridas nas quais eram cantadas as "lamentações" da Semana Santa (que são na verdade poemas bem posteriores a Jeremias), com seu estilo próprio ao qual se a- crescenta às vezes a caricatura de seus cantores, contribuíram muito para difundir a idéia de um Jeremias lamentador para não dizer choramingas

Embora a mensagem de Jeremias assuma freqüentemente um tom trágico, embora o profeta, segundo sua própria narrativa de vocação, tenha mesmo ousado recusar-se perante Deus e revoltar-se contra o peso da mensagem que deveria trans- mitir, ele não mostrará em momento algum a fragilidade que poderia lhe ser atribuída. "Coluna de ferro e muralha de bronze contra o país inteiro" (Jr 1,18), Jeremias nos deixou uma linguagem das mais vigorosas.

A isso é preciso acrescentar a boa fortuna que teve de ser servido por um dis- cípulo secretário inigualável. Baruc esteve ao seu lado durante a maior parte de seu ministério, e após sua morte, foi aquele que nos assegurou não só o maior número de detalhes sobre a vida do profeta como também uma excepcional conservação de sua mensagem.

DESCOBRIR JEREMIAS

Apesar da qualidade de seu secretário, o livro de Jere- mias não foi poupado pelo trabalho de redatores posteriores e, portanto, não escapou às complicações próprias dos livros pro- féticos (dobletes, caracteres alusivos etc.). Porém esse livro, mais que os anteriores nos dá a possibilidade de fazermos uma idéia do destino e da mensagem dos profetas. Podem ser lidos os seguintes textos:

a narrativa da vocação e as primeiras "visões", Jr

1,4-19;

a (muito provável) primeira pregação, Jr 2,1-37;

contra o Templo, Jr 7,1-20;

— a "revolta" de Jeremias, Jr 15,10-21; 20,7-18;

os riscos a que incorreu, Jr 26,1-24; 28,1-17; 36,1-

39,14.

5. Ezequiel apresenta um caso um tanto bizarro, não apenas por causa do ca- ráter quase fantástico de certo número de seus textos, mas também pelo fato de que transita por duas épocas, dois modos de expressão literária e dois tipos de profetismo:

o "profetismo de ameaça", característico da época imediatamente anterior ao Exílio e o "profetismo de consolação", característico do tempo do Exílio.

Embora seja difícil situar sua "vocação" relatada numa extraordinária visão no início do livro, sabe-se, no entanto, que o profeta fez parte da primeira deportação em

597, dez anos antes da queda de Jerusalém, quando os notáveis do reino de Judá foram conduzidos, com um pesado tributo, à Babilônia. Ezequiel foi, portanto, incluído entre esses notáveis, sem dúvida por causa de seu caráter sacerdotal.

A situação de Exílio explica uma das grandes particularidades de sua mensa- gem: o fato de ter sido, em grande parte, não falada mas diretamente escrita. Envia- dos de Jerusalém vinham buscar a "mensagem" que o profeta devia transmitir aos compatriotas que tinham permanecido no país. Porém, mais tarde, quando esses compatriotas deportados reúnem-se por sua vez a ele na Babilônia, Ezequiel se toma o "profeta da consolação", como o segundo Isaías.

O contexto social da época e a limitão decorrente do fato de tratar-se de um texto escrito, explicam por que Ezequiel ultrapassa a expressão profética tradicional.

É por isso que, mais do que seus predecessores, ele está ligado à origem de

um gênero literário novo, que terá posteriormente muito sucesso no Judaísmo pré- cristão e no cristianismo nascente, o gênero apocalíptico (cf. pp. 62-63). Esse gênero, baseado na visão, apresenta forte elaboração literária, ao ponto de muitas vezes pare- cer hermético para os próprios contemporâneos, e às vezes continuar assim nas épo- cas posteriores que perderam o código simbólico, embora se apóie largamente na releitura de figuras e acontecimentos do passado, em vista de uma compreensão mais aprofundada dos acontecimentos do presente.

Ezequiel, profeta da esperança, elaborará no exílio o projeto de um Templo i- deal, com que encerra o seu livro.

PARA UM PRIMEIRO ENCONTRO COM EZEQUIEL

Como encontramos um pouco de todos os gêneros pro- féticos em Ezequiel, é preciso que não nos deixemos deter pe- lo caráter às vezes esotérico de alguns de seus tex-tos, que fo- ram tomados ainda mais complicados por algum redator poste-

rior, movido pela intenção de esclarecê-lo.

É o caso da visão

original (cf. Ez 1,1 a 3,21). Apreciaremos também a qualidade das imagens, mais desenvolvidas aí do que em qualquer outro profeta, ao ponto de o próprio Ezequiel chegar a lamentar a qualidade literária que corria o risco de velar a proposta e as exigências de sua pregação (cf. Ez 33,30-33)!

os "gestos" proféticos, Ez 3,22 a 5,17; 12,1-20; — a casuística *, Ez 18,1-32;

sobre a queda de Jerusalém, Ez 24,1-27;

uma visão de esperança, Ez 37,1-14.

6. Mesmo que seja preciso deixar na sombra os profetas do pós-exílio, não po- deríamos terminar esta introdução aos profetas sem falar do segundo Isaías. Voz anô- nima a clamar no deserto, muito embora apresente sua "narrativa de vocação" (Is 40,3), esse profeta, provavelmente um sacerdote, deixou uma mensagem original. Adaptado à situação dos exilados, propõe- se de início a uma mensagem de consola- ção (Is 40,1-2).

É uma consolação que vai concretizar-se no reconheci- mento de um "servidor"

que primeiro toma a figura do conquistador da Babilônia, Ciro, o qual como soberano pagão vai autorizar Israel a regressar para Jerusalém. Mais tarde esse servidor tomará

progressivamente o perfil de uma figura de sofrimento redentor, ultrapassando todas as representações já feitas sobre a personagem que estaria para chegar, na figura do Messias.

O segundo Isaías, como seus predecessores, ou talvez ainda mais que estes, faz a releitura da história e vai insistir na originalidade do novo Êxodo que Israel terá de efetuar para voltar à sua Terra!

ALGUNS TEXTOS DO SEGUNDO ISAÍAS

— A vocação do profeta e o "programa" de YHWH, Is

40,1-12;

— o castigo da Babilônia e o novo Êxodo, Is 43,14-21;

— Ciro, instrumento de Deus, Is 45,1-7; o Servidor, Is 52,13 a 53,12.

OS ESCRITOS

Após a relativa particularidade das duas primeiras partes do Antigo Testamen- to, o próprio título da terceira, "os Escritos", corre o risco de fazê-Ia parecer como um fourre-tout do que podia entrar nas duas outras. De fato, a enumeração desses livros é bastante heteróclita, tanto mais que, embora certo número deles não possa integrar- se nas duas primeiras partes, outros, ao contrário, tais como Esdras e Neemias, entra- riam normalmente na lista dos livros dos "Profetas anteriores", enquanto que Treno ou Lamentações de Jeremias e o livro de Daniel poderiam entrar, e efetivamente entram nas Bíblias cristãs, na categoria dos "Profetas" (ou "Profetas posteriores" segundo a Bíblia hebraica)

1. Os Salmos, para começar, colocam-nos ao mesmo tempo dentro da literatu- ra poética e da prece de Israel. Coleção de cento e cinqüenta textos em geral curtos, constituem um conjunto de preces para os diferentes momentos e circunstâncias da vida comunitária e individual. São formados de dois conjuntos principais, um dos quais atribuído ao rei Davi e outro aos "filhos de Coré", além de algumas outras atribuições.

Ligados à liturgia do Templo de Jerusalém e às grandes festas do ano litúrgico, testemunham ao mesmo tempo a piedade individual de Israel e a releitura de sua his- tória em relação à ação divina.

Os Salmos caracterizam-se pela natureza poética, que se mostra não só medi- ante técnicas específicas (por exemplo, salmos cuja ordem dos versículos é indicada pelas letras do alfabeto que iniciam cada um deles; ritmos, assonâncias etc.) como também por meio de imagens, comparações e metáforas.

A variedade dos salmos ao lado de certas recorrências de formas e de temas levaram os exegetas a propor sistemas de classificação. A título de exemplo, citamos o da tradução ecumênica da Bíblia (TEB, edição de 1988, em um volume, com uma excelente introdução).

Tal classificação não pretende absolutamente dar conta de todos os salmos. Muitos podem relacionar-se a gêneros diferentes. A solução seria utilizá-los de acordo com as próprias situações e intenções; a maior parte das edições dos Salmos dá indi- cações nesse sentido. Essa é a melhor maneira de entende-los e praticá-los.

A NUMERAÇÃO DOS SALMOS

É bom saber que a numerão pode variar de uma edi- ção para outra. Isso se prende ao fato de que a Bíblia hebraica distingue os salmos 9 e 10 que não se distinguem na tradução grega dos Setenta nem na tradução latina de são Jerônimo. Há, portanto, uma diferença de numeração a partir do salmo 11, assim numerado em hebraico, porém que não é mais do que o salmo 10 em grego e em latim. O mesmo ocorre com o salmo 147 que constitui em grego e em latim dois salmos, os salmos 146 e 147. Assim, a partir do salmo 148, as três ver- sões, hebraica, grega e latina, retomam a mesma numeração, encerrando o conjunto com o salmo 150. Nós nos ativemos à numeração hebraica que é em geral adotada em nossas Bí- blias, exceto na liturgia que permanece fiel à tradição latina.

AS FAMÍLIAS DE SALMOS

1) Os louvores:

a) os hinos ao Senhor da Aliaa (8; 19; 33; 100; 103;

104; 111; 113; 114; 117; 135; 136; 145-150); b) os cantos do "Reinado" (93; 96-99):

c) os cânticos de Sião, isto é, Jerusalém e seu Templo ( 46; 48;76; 84; 87; 122).

2) Preces de pedido de aulio, de confiança e de reco-

nhecimento:

a) pedidos de auxílio individuais (5; 6; 7; 13; 17; 22; 25;

26; 28; 31; 35; 36;