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O Direito japonês anterior à grande reforma realizada sob o jugo americano após a
Segunda Grande Guerra foi muito pouco estudado pelo restante do mundo. Todavia, por
se tratar de uma sociedade   que se manteve hermética às influências
ocidentais por séculos, o estudo da história do Direito no Japão Medieval se apresenta
como um tema de relevante interesse. É possível vislumbrar a evolução de um sistema
jurídico que, apesar de guardar certas semelhanças com os sistemas romanista e insular
(fruto, possivelmente, do caráter geral dos princípios do Direito), é perfeitamente
distinto desses.

Ressalte-se o fato de que, durante todo o período medieval japonês, a despeito de


eventuais insurgências legiferantes, a principal fonte de Direito sempre foi a tradição. O
 
(caminho do  ) era [01] um código de ética legalmente reconhecido e
aplicado, estruturado a partir da observância de práticas como a frugalidade, militarismo
e disciplina, entre outros. O  
é a referência a toda discussão sobre Ética e
Justiça, inclusive para determinar o padrão de comportamento tido por adequado e
correto, bem como as formas de punição para a sua inobservância.

De maneira a estruturar o escopo desse artigo, optou-se por delimitar os aspectos


considerados relevantes para compreender a estrutura sócio-jurídica feudal japonesa.
São elas: a estrutura do 
 e o Shogunato de Tokugawa.

A estrutura do 
 surgiu paralelamente ao enfraquecimento do governo imperial
nos campos, como conseqüência das Reformas  . Essas Reformas visavam,
primeiramente, levar a autoridade do governo central, bem como efetivar a taxação, ao
longo de todo o território nacional, de maneira muito similar ao que aconteceu no
ocidente. Foram criados, com esse intuito, postos em províncias distantes do palácio
imperial, cujos governantes locais mantinham relevante poder e prestígio dentro de seus

.

Inicialmente, a proposta [02] era que as áreas em que fossem efetivadas as Reformas
deveriam ser redistribuídas a cada seis anos, de maneira a evitar a concentração de
terras e a identificação do governante com a região. Entretanto, a proposta foi logo
modificada para doze anos, em 834 d.C., e, por fim, sequer se falava em redistribuição.

Os 
 (vila de fazendas, ou vila de terras cultiváveis) eram, portanto, áreas de terras
cultiváveis concedidas pelo governo imperial a civis (nobres) para que estes a
administrassem, livres de impostos. Interessante notar que era permitido aos senhores
dos 
 (
 
 ) que impedissem a entrada de oficiais ou agentes do
governo em suas terras. Livres dessa fiscalização, os senhores 
 ficaram livres
para exercer completa autoridade política e judicial em suas terras [03], o que terá
extrema importância para a evolução dessa estrutura.

O declínio sucessivo da autoridade do governo central imperial, o crescente poderio dos



 
 e a autoridade incontestável destes em seus respectivos 
,
desencadearam uma espiral de conflitos políticos que culminaram na total fragmentação
do Japão. Criaram-se, inclusive, milícias particulares para que os 
 pudessem
manter a ordem dentro de suas províncias. Esses guerreiros eram considerados meros
agentes da administração. Com o tempo, passaram a se destacar podendo, inclusive,
auxiliar de maneira mais incisiva a administração do 
, formando a casta dos
   , que teve grande destaque durante o período do governo de Kamakura.

Fazendo um grande salto, passando pelo governo de Ashikaga (que fracassou em


repreender as  ), observa-se que a estrutura dos 
 se deteriorou, dando
lugar aos chamados     [04] (terras comandas por alguns  
) em que,
embora consciente de sua identidade cultural, não se poderia reconhecer o Japão como
uma unidade nacional, salvo o respeito e deferência dada ao Imperador, segundo a
sistemática do .

 se refere ao sistema de governo em que as decisões de Estado eram tomadas por
um soberano abdicado. Ele conduzia a política de seu palácio de retiro, que era
guardado por seu próprio corpo de guerreiros e em que estava localizado o seu I


, ou escritório de ex-soberano(...) [05].

Reflexo da própria estrutura administrativa dos 


 do Kamakura   (ditadura
militar de Kamakura), 
(administrador de terras militar) e Shugo (governador
militar). À medida que o   (direito subjetivo disponível de receber proveitos dos

, vinculado à posição hierárquica de seu detentor) foi se distanciando de sua
função originária, também ocorreram mudanças na base da estrutura social dos 
.

Os 
e os 
 (principal oficial militar do 
, nomeado pelo 
 )
começaram a exceder sua própria função dentro dos 
, usurpando a estrutura  
e minando a autoridade do 
 
 . Com o tempo o  
e os 
passaram a
recrutar os membros hierarquicamente superiores dentro da casta trabalhadora como
seus vassalos, facilitando o processo de destituição do 
 de seu  .

(...)Como resultado do conflito após a queda do Kamakura   , o governo civil


perdeu sua viabilidade política. Ele perdeu a habilidade de garantir os fragmentados e
hierárquicos direitos   do 
, e também o 
   , espinha dorsal da
estrutura, se quedou insustentável. [06]

A estrutura do 
 foi substituída pela do 
 
cuja principal diferença
em relação àquele é a sua total independência do governo imperial e soberania completa
do  
 
em suas terras. Sucedeu-se, então, guerras civis por décadas que só
foram efetivamente suplantadas com a ascensão de Tokugawa Ieyasu a 
 (ditador
militar supremo).

Paralelamente ao declínio das estruturas fundiárias japonesas, na Europa ocorria o


fenômeno das Grandes Navegações que culminaram na chegada dos portugueses à
região portuária de Nagasaki. Esse contato alienígena de culturas ampliaram a noção de
mundo dos japoneses ± que jamais expandiram além da baía chinesa. Ademais, a
Companhia de Jesus, que sempre acompanhava essas empreitadas, conseguiram
doutrinar boa parte da população japonesa, até a perseguição comandada por Ieyasu.

O principal nome do cristianismo no Japão medieval foi Francis Xavier, que liderou a
primeira campanha de missionários no Japão. Por se tratar de código de ética e de
comportamento de escravos que se fundamenta na igualdade entre os homens, logo se
tornou inviável a convivência da estrutura político-social de castas a que o Japão estava
submetido e os valores cristãos insurgentes. A sociedade inteira estava submetida a um
conceito de relacionamento hierárquico cuja mobilidade vertical era extremamente
restrita, quando não impossível. Os oficiais do governo tinham poderes arbitrários para
atuarem como reguladores sobre o resto da sociedade e a casta dos    , como um
todo, detinha amplos poderes sobre todo o resto. Ieyasu lidera, então, uma grande
perseguição religiosa o que culminou em milhares de banidos, torturados, crucificados e
mortos. [07]

Com a efetiva ascensão de Tokugawa ao poder e seu conseqüente título de 


 , o
Japão conseguiu atingir condição  
para a estruturação de um sistema
judiciário de ordem nacional. Explica-se, o modelo judiciário que admite, como fonte de
Direito, leis promulgadas, pressupõe uma centralização de poder regular em
contraposição ao exercício arbitrário das razões pelos governantes locais.

A lei para o homem comum significava submissão à vontade de todos que lhe estavam
acima. A classe superior justificava sua autoridade por meio de uma ordem moral que se
fundava em uma lei natural, o princípio básico de que os homens não eram iguais. [08]

Todavia, a despeito de vários decretos e preceitos terem sido editados e proferidos pelo

 , não houve a preocupação em sistematizá-los ou organizá-los. A primeira
tentativa de organização legislativa foi feita pelo 
  Yoshimune ao editar o Código
dos Cem Artigos, que continha cento e três artigos. Tal como observado em outras
sociedades cuja cultura jurídica está começando a se desenvolver, a maioria dos crimes
eram punidos com a morte. Interessante destacar que, não somente o criminoso era
punido, mas seus pais, irmãos, esposa, filhos e, em alguns casos, até sobrinhos.

Dessa prática de vincular os membros da família à punição do criminoso, surgiu um


importante instituto, a deserção ou degradação, em que os membros que porventura
ofendessem os costumes e a ética  
eram expulsos do círculo familiar a que
pertenciam. Essa prática visava proteger o restante dos membros de uma família, de
eventuais atos cometidos por um único membro.

Um interessante exemplo de como a morte era encarada no Japão medieval se dá pela


própria história de Tokugawa Ieyasu. Nobunaga, quando ainda estava no poder, ordenou
ao seu principal general, Ieyasu, que assassinasse sua esposa e primogênito por
suspeitar de possível ameaça de traição. Ieyasu então, pessoalmente, decapitou sua
esposa e assistiu ao  de seu primogênito, pois não cabia a ele contestar uma
ordem direta de seu   (espécie de ditador civil). Entretanto, quando Ieyasu
tomou o poder, seguindo a prática já mencionada, assassinou toda a família de
Nobunaga, amigos, parentes e aliados, poupando apenas dois filhos os quais ele adotou.

Como toda estrutura de castas sociais, a ascensão vertical era extremamente restrita.
Todavia, o instituto da adoção já era muito mais desenvolvido do que o encontrado em
vários outros momentos históricos ocidentais. O adotado não era visto como um pária,
ou como alguém diferente do restante da família, mas era aceito como parente de
sangue ganhando, inclusive, direitos sucessórios em pé de igualdade formal e material
com os outros filhos.

Com relação à estrutura administrativo-judiciária, todos os oficiais do Shogunato


podiam executar atividades judiciais e, em alguns casos especiais, se organizar em
órgãos colegiados provisórios. Aos homens comuns, era negada a possibilidade de se
dirigir diretamente aos oficiais para reclamar eventuais direitos ofendidos, ficando
inteiramente submetidos aos arbítrios de seus superiores sociais.

Os camponeses tinham, entretanto, seu próprio sistema de resolução de disputas


referentes a assuntos comuns de cunho, majoritariamente, comercial e de atividades da
comunidade, mas eram vedadas as punições capitais entre esses.

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O Direito Civil do Japão. A sua ocidentalização





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47
"Meiji foi o nome adotado pelo Imperador Mutsuhito (1852-1912), que substituiu o regime feudal por
uma monarquia constitucional. A denominada Época de Meiji vai de 1868 a 1912, quando se produziu
uma rápida modernização do Japão, graças, em parte, à sua abertura para o Ocidente.
48
A dificuldade aumentava com o fato de não existir um dicionário francês ± japonês.
49
O Código de Processo Penal de 1852 foi substituído, com ligeiras modificações, por outro do ano de
1890 que, por sua vez, foi derrogado pelo Código de 1922, de inspiração alemã. Depois da Constituição
japonesa de 1947, foi promulgado um novo Código de Processo Penal (Lei 131, de 10.7.1948), em
conformidade com os novos princípios constitucionais, que entrou em vigor em 1º. 1.1949.

O Código Penal promulgado pela Lei 45, de 24.7.1907, continua em vigor, sendo que sua última reforma
se deu pela Lei 91, de 12.5.1995, sendo inspirado nas idéias de Franz Von Lizt, jurista alemão (1851-
1919).
50
Esse Manifesto centrava sua crítica, entre outros, nos seguintes pontos: a) o Código havia desprezado
os antigos costumes referentes à organização familiar japonesa; b) que se inspirava em princípios do
Cristianismo ± que não era a religião do país ± defensores da igualdade de todos os seres humanos,
independentemente, da sua posição social; c) dava mais importância à disciplina concernente aos bens,
que às pessoas; d) admitia um Direito Natural anterior ao Direito Positivo (Rafael Domingo, "Código
Civil Japonês", Estudo Preliminar, Ed. Marcial Pons, Madrid, 2000, p. 27).
51
A redação do novo Código Civil levou em conta mais de trinta Códigos, inclusive o espanhol de 1889.
Assim sendo, em alguns capítulos foram adotadas regras do Código Civil francês, em outros, os
princípios do direito anglo-saxão, bem como o do Código das Obrigações da Suíça e de distintas
repúblicas sul-americanas (Chile, Uruguai, Argentina, Venezuela e Colombia).
52
Em fevereiro de 1946, o general MacArthur ordenou, "manu militari" , fosse promulgada uma nova
Constituição democrática, em substituição à de 1889, contendo os princípios da denominada, "doutrina
MacArthur: a)soberania popular; b) renúncia do direito à guerra; c) supressão da nobreza e dos
privilégios". A Constituição foi promulgada em 3.11.1946 e entrou em vigor em 3.5.1947.
53
O matrimônio passou a ser considerado um convênio em igualdade de condições entre os cônjuges.
Assim foi suprimida a autorização paterna como requisito de validade do consentimento matrimonial do
marido menor de 30 anos e da mulher menor de 25 anos; protegeu a separação de bens entre os cônjuges
que assim o desejaram (art. 762), bem como a liberdade para a escolha dos apelidos de família (art.750).
No campo do Direito das Sucessões foram suprimidos os privilégios sucessórios do primogênito,
excetuada a propriedade dos documentos genealógicos e instrumentos de ritos funerários e sepulturas (art.
897). Conserva, porém, a distinção entre filho legítimo e ilegítimo e outorga a este último a metade dos
bens correspondentes àquele (art. 900).

Em tema de divórcio, foi mantido o divórcio consensual e eliminou as causas do divórcio judicial, que
atentavam contra o princípio da igualdade entre os sexos.

A reforma do Livro IV do Código Civil sobre o Direito de Família foi completada pelas Leis 152, de
6.12.47, que regula os conflitos familiares e a Lei 224, de 22.12.47 sobre o registro civil familiar. A
primeira aprovou, junto dos divórcios convencional e judicial, dois novos tipos: o divórcio por ato de
conciliação na presença de um juiz de família e com mediador entre os cônjuges e o divórcio por
resolução do tribunal de família, com o poder de impor um convênio regulador para a quebra do vínculo
matrimonial. Esses dois processos, em princípio, poderiam constituir um freio ao divórcio livre "sine
causa" do antigo Código (art. 808 do CC de 1898), que escondia, em verdade, o repúdio da mulher, só
formalmente consentido por ela, mas tal não aconteceu. Para cem casos de divórcio, noventa seguem
sendo convencionais, pela razão de que o povo japonês ama a justiça, mas não os litígios. É a razão pela
qual há um número escasso de juízes, fiscais e advogados no Japão (Rafael Domingo, ob. Cit., PP 42 e
43).

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