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O silenciamento do povo e a mortficação cotidiana

A capa da Revista Caros Amigos de janeiro, não traz figuras conhecidas. Nem ativistas,
nem políticos ou escritores, tampouco artistas engajados.Nada disto. Em uma capa que
chama atenção pela justeza dos termos e imagens, coisas rara no jornalismo atual, Caros
Amigos retrata a dor e a dignidade de um pai de família. O pai, Carlos Arnaldi, morador
do bairro Cecap em Piracicaba, São Paulo,trabalha estocando pneus para ressolar.O filho,
Henrique Arnaldi,filho único do casal, foi morto em outubro de 2008, por dois policiais
militares, em uma blitz realizada no bairro. Testemunhas locais alegam que não houve
chance para Henrique.Os policiais dispararam pelas costas. No confuso boletim de
ocorrência, tentam incriminar o jovem Henrique que trabalhava com carteira assinada e
nunca teve envolvimento com crimes.A alegação oficial é de que ao receber o sinal para
parada, “eles aceleraram e vieram na direção do sargento,tendo sido feito dois disparos por
eles”. A versão é confusa. Como dezenas de milhares de versões sobre autos de resistência
na cidade do Rio de Janeiro. Como acontece em Pernambuco, com as versões dadas por
policiais militares que “confundem” jovens negros com bandidos, praticam tortura e
assassinato.
Uma das justificativas para continuidade destes fatos no Brasil, foi exemplarmente usada
no caso do Morro da Providência, pelo tenente que entregou os três adolescentes para que
fossem mortos no Morro da Mineira. Ao ser indagado por um dos sargentos de seu
grupo,teria dito “ não vai dar nada”. Podemos dizer que neste, como em caso recente na
Maré, que acertou fatalmente um menino de 9 anos, a justificativa não faz sentido? O que
ocorreu com estes homens do Estado?
No momento em que projetos de qualificação profissional são implementados em todo o
Brasil, com cursos de especialização que discutem a segurança pública, direitos humanos e
formas de policiamento para a paz, como entender estes casos que pela sua regularidade
recebem o título de “ política de extermínio”? Que estranho descompasso é este?
Cabe apresentar texto parcial sobre a estrutura do PRONASCI, para que esta reflexão
avance: “ Entre os principais eixos do Pronasci destacam-se a valorização dos profissionais
de segurança pública; a reestruturação do sistema penitenciário; o combate à corrupção
policial e o envolvimento da comunidade na prevenção da violência. Para o
desenvolvimento do Programa, o governo federal investirá R$ 6,707 bilhões até o fim de
2012”
O discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no lançamento do Programa Nacional
de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), em cerimônia no Palácio do Planalto,
no dia 20 de agosto de 2007 deve ser lido no sítio do Pronasci.Não há espaço neste texto
para discutir todos os pontos, mas um deles e decisivo e merece uma trascrição: “ Por que,
o que significa, na verdade? Por que essa combinação de tantos ministros participando da
elaboração de um programa de segurança pública? Por que o Patrus Ananias tinha que
participar, por que o Dulci tinha que participar, por que a Dilma tinha que participar, por
que a Caixa Econômica tinha que participar, por que os Direitos Humanos tinham que
participar, por que a Matilde, da Secretaria da Desigualdade Racial, por que a Nilcéa? É
porque, no fundo, no fundo, essa é uma experiência, Tarso, que nós precisamos fazer dar
certo. Por enquanto, nós temos uma idéia que vai ser transformada em leis, em decretos, e
nós precisamos provar que, ao urbanizar uma favela, se a gente não cuidar de levar, junto
com a urbanização e junto com a idéia da segurança pública, a escola, o posto médico, a
área de lazer e outros programas sociais do governo, você não dará conta de resolver os
problemas que o Pronasci detectou e que, portanto, são o objetivo prioritário a ser
resolvido”
O quadro inicial para discussão e este. De um lado,movimento sociais acuados, aumento
(mesmo que este dado seja tomado como não oficial) do número de adolescentes mortos no
Brasil, continuidade de tortura em instituições prisionais, mães adoecidas e mortificadas
pela perda de seus filhos, maridos, irmãos, amigos. De outro, R$ 6,707 bilhões para
investimento na área de segurança pública. Que avaliação podemos ter, do que já foi
implementado, através do número de policiais formados nestes cursos?Qual o reflexo desta
política pública no cotidiano das relações entre Estado e sociedade civil no Brasil? A
pergunta não é ingênua. É feita a partir de um quadro muito delineado de investimentos
públicos e permanência de graves violações dos direitos humanos.Que, como professora,
permitam-me dizer mais uma vez, não são “ coisa de bandido”. Gostaria de dissolver este
mantra sedutor e mistificador no qual alguns policiais parecem crer.
Seguirei discutindo este tema em textos posteriores. Lendo alguns documentos para redigi-
lo, encontrei discussão central sobre a Segunda Guerra Mundial, feita por Hannah Arendt
sobre a banalização do mal. A filósofa defende que o homem deve compreender os fatos
vividos, pois só assim haverá uma “ reconciliação com o mundo”. Se esta banalização do
mal representa “a naturalização da perversidade, integrada à conduta social como
condicionante histórico e inevitável”, que políticas públicas seriam capazes de alterar uma
cultura baseada no uso da força como forma única de regulação social? Se não
conseguimos sequer tratar com coragem dos crimes cometidos pela ditadura militar,o que
esperar destas políticas públicas?Que produzam milagrosamente através dos cursos de
especialização, uma compreensão sobre a dignidade humana? Dignidade assegurada na
Declaração Universal dos Direitos do Homem, mas atravessada no Brasil pela classe, raça,
gênero, opção sexual, entre outras variáveis que hierarquizam o tipo de cidadania a ser
vivida em nosso país?

Luciane Soares é doutoranda em sociologia pela UFRJ


lucianecoltrane@gmail.com