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SOBRE A RETÓRICA E OS SOFISTAS*

  • 1 A retórica é a arte de convencer os outros pelo discurso, convencer de que sou eu

quem carrega a melhor opinião, de que minha opinião é a mais justa. Não por acaso, é na

Grécia Antiga que a retórica conhece seu primeiro desenvolvimento, em meio à democracia que nascia. Basta a referência às Assembleias e aos tribunais para verificarmos como a palavra passa a ocupar um lugar central na vida em sociedade, tal como os gre- gos a praticaram.

Contexto histórico A democracia grega criou uma nova forma de relação entre os homens, em que pouco importava a classe social do cidadão, se era membro da aristocracia guerreira, que antes detinha todo o poder de mando sobre a pólis, ou se era um simples artesão, comerciante ou agricultor: eles são todos iguais, igualmente cidadãos, e todos os cida- dãos têm o mesmo direito de tomar a palavra na Assembleia onde discutem os destinos da cidade. É importante lembrarmos entretanto que apenas eram considerados “cidadãos”, com direito a voz e voto, os homens adultos nascidos na cidade (pólis) que em Atenas, o berço da democracia, correspondia a um décimo da população. Os outros 90% estavam exclu- ídos dos direitos de cidadania: obviamente os escra- vos, os metecos (estrangeiros, nascidos em outra cidade), as mulheres e as crianças.

Seja como for, é neste chão democrático que a “arte da palavra” que se desenvolve. Todos podem expres- sar suas opiniões sobre o mundo e sobre os rumos da cidade. A questão é conseguir, a partir do próprio discurso, convencer os demais cidadãos da sua jus- teza, de sua verdade. Ser convincente. Mas se cada um tem uma opinião diferente, cada um argumenta como pode, em favor de sua própria opinião e contra as opiniões alheias. E o mesmo ocorre nos tribunais, quando uma parte acusa e outra se defende, em um combate de discursos que querem convencer os jurados sobre uma ou outra versão dos fatos.

É neste contexto que devemos entender o surgimen- to dos sofistas: eram mestres da retórica, da arte do

* Registro das aulas no primeiro semestre de 2010 para as turmas de 2º e 3º anos do ensino médio e publicado no blog CRÔNICAS DE ESCOLA:

Eduardo Amaral

discurso, de como compor um discurso conveniente às circunstâncias e convincente para o público. E isto, ensinavam a quem quisesse e, sobretudo, pu- desse pagá-los. Quando a palavra toma lugar central no modo pelo qual a sociedade se organiza, a retóri- ca torna-se um instrumento importante para quem pretenda êxito nos debates da Assembleia, influenci- ar nas decisões a serem tomadas, conquistar a ade- são do público à sua opinião.

Os sofistas silenciados Contudo e antes de mais nada, é necessário mencionarmos aqui a má fama que envolve os sofistas. A visão que a tradição da história da Filosofia nos legou dos sofistas é a ima- gem de um charlatão, manipulador, de alguém que usa da ignorância alheia em prol de si mesmo, fazen- do prevalecer uma aparente verdade em detrimento da própria verdade. Sofisma tornou-se sinônimo de

burla, de enganação: “argumento ou raciocínio con- cebido com o objetivo de produzir a ilusão da verda- de, que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta, na realidade, uma estrutura inter- na inconsistente, incorreta e deliberadamente enga- nosa”; e sofista, “aquele que utiliza a habilidade retó- rica no intuito de defender argumentos especiosos

ou logicamente inconsistentes” (Dicionário Houaiss).

Tal imagem negativa se deve em grande parte ao combate às ideias dos sofistas feita por Platão e, depois dele, Aristóteles. É deles aquele julgamento que prevaleceu na história da Filosofia. Além disso, os textos produzidos pelos sofistas se perderam e a maior parte das referências que dispomos sobre o que eles pensaram e produziram nos chegou sempre por vias indiretas, na obra de seus acusadores. Di- gamos então que no tribunal da história, venceram os filósofos e foram vencidos os sofistas, condenados assim ao silêncio.

São bastante recentes, desde um renovado interesse pela retórica clássica no século XIX, as tentativas de recuperar o ideário sofístico, depurando-o das críti- cas que lhe foram feitas. O que parece hoje incontes- tável é que, como nenhuma outra obra elaborada no período clássico, é nos sofistas que encontraremos a formação de um ideário deliberadamente compro- missado com uma visão-de-mundo a um só tempo humanística e democrática, enraizada no contexto histórico que o engendrou.

Os sábios sofistas Mais do que apenas ensinar retórica, eram considerados “sábios” — e por isso eram chamados de sofistas. A palavra grega para designá-los, sophistés, deriva etimologicamente de sophos (sábio) e sophia (sabedoria); é que a sabe- doria que os sofistas detinham era distinta daquela do sophos. Expliquemo-nos melhor. Sophos se refere primeiramente àquele que detém um saber prático, um “saber-fazer”; a “sabedoria”, neste caso, se refere antes ao domínio de uma técnica. Neste sentido, o artesão é sábio (sophos) por saber-fazer com destre- za a sua arte, seja ela qual for.

Assim, por exemplo, um tecelão é sábio e sua sabe- doria é fazer tecido: sabe com destreza trançar os fios, amarrá-los, ou mesmo operar o tear. O sofista é sábio também pelo domínio de uma arte, ele sabe- fazer discursos. Contudo,sophistés é também “espe- cialista no saber, possuidor de muitos saberes”. É que, na arte de compor discursos, os sofistas acumu- lavam toda a sabedoria da época e eram capazes de discorrer sobre todas as artes e técnicas com a mes- ma eloquência. Dito de outro modo e voltando ao nosso exemplo: diferentemente do tecelão que sabe- fazer tecido, o sofista sabe falar de tecidos, sobre o processo de sua fabricação, sua história desde a origem da técnica de traçar os fios de algodão, dos diferentes usos e costumes das vestimentas em dife- rentes culturas tudo isso ele fala com mais elo- quência do que o mais hábil dos tecelões, que não saberá falar com a mesma desenvoltura sobre aquilo que ele mesmo faz.

O mesmo vale para as outras técnicas, inclusive a- quelas consideradas e mais estimadas na vida públi- ca, na política. A arte da guerra, a estratégia militar, as variadas legislações das diferentes cidades, a en- genharia e arquitetura sobre todos os assuntos, os sofistas buscavam conhecer, detendo deste modo um vasto saber. Mais do que ensinar retórica, pela retó- rica ensinavam também sobre os assuntos de inte- resse comum. Os sofistas eram cultos, eruditos, ver- sados em vários assuntos, de “cultura geral”, da arte e da literatura, dos mitos e histórias, das técnicas, das leis e tudo o mais. Eram, ao seu tempo, enciclo- pedistas e sobretudo educadores. Este o maior projeto da sofística: tornar acessível a todos os cida- dãos a sabedoria que os homens acumularam ao longo de sua história.

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  • 2 Relativismo como visão-de-mundo A retórica, já dissemos, é a arte de produzir

o convencimento através do discurso; trata- se de saber como convencer os outros de que sua opinião é a mais justa e verdadeira. É por isto que, para os sofistas, a verdade é sempre “relativa”, ou seja, ela sempre dependerá do êxito no exercício de convencimento; uma vez que os outros se conven- çam de que a verdade é isto e não aquilo, isto é ver- dadeiro e aquilo é falso.

O quadrinho abaixo nos apresenta uma situação assim. Em um primeiro momento, há uma multidão que segue o um que fala: estão convencidos de que ele é portador de uma verdade. Contudo, o outro que fala consegue com seu discurso “engolir” o discurso do primeiro, e assim vai conquistando adeptos ao seu discurso, à sua opinião vale dizer, à sua verda- de até que aquele seja vencido no debate.

Os sábios sofistas — Mais do que apenas ensinar retórica, eram conside rados “sábios” — e

(C) QUINO

Para os sofistas, não há verdade fora do discurso. Não há uma “verdade do mundo”, a não ser por aqui- lo que é dito sobre o mundo, o que julgaremos ser verdadeiro ou falso. O discurso é verdadeiro, se con- forme minha percepção dos fatos, ou ele é falso, se contraria meu modo de ver o mundo. A palavra hu- mana é a única portadora da verdade e não há

verdade que exista para além dos discurso, e por isso ela é “relativa” à compreensão da multidão so- bre a adequação do discurso a sua própria percepção do mundo.

Assim, não existe apenas uma, mas várias verdades contraditórias e concorrentes entre si, tal como são contraditórios os discursos de dois opositores con- correntes numa assembleia. Não há critério suficien- te para estabelecer de modo indiscutível entre os dois quem é o verdadeiro portador da verdade, pois tampouco existe essa verdade para além dos discur- sos. Antes, tudo é discutível: o que existe é o conflito, a disputa entre discursos para saber qual deles irá convencer mais ouvintes e convencê-los melhor. Por isto se diz que a verdade é uma “convenção”, porque somos convencidos dela.

Como chegam os homens a serem convencidos de que algo que é dito é verdadeiro? Essa é a questão central da retórica, compreender que a partir do discurso, se ele é corretamente composto, os homens são levados a acreditar nisto ou naquilo. Portanto, a retórica apoia-se não em uma “verdade absoluta”, mas apenas na crença, naquilo que é considerado verdadeiro, aquilo que parece ser verdadeiro, aquilo em que os homens creem.

Em que creem os homens? Em primeiro lugar, cre- mos que aquilo que percebemos, pelo simples fato de assim o percebermos, é verdadeiro: nossas sensa- ções, o que captamos ou podemos captar do mundo pela nossa sensibilidade. Por isso, de um modo geral, consideram os sofistas que o discurso, se quer con- vencer, não pode contrariar a percepção comum dos homens. Afinal, julgamos algo algo que é enuncia- do, que é dito por alguém por verdadeiro quando isto que é dito parece estar de acordo com aquilo nós mesmos percebemos, ou aquilo que qualquer um pode perceber.

Para os sofistas, é justo afirmar que o ser é ser perce- bido. Por outro lado, nem por isso as percepções são verdadeiramente verdadeiras, pois cada um pode perceber as coisas de um modo diferente. É que a opinião baseia-se naquilo que percebemos na nos- sa percepção, portanto. É como percebemos algo, um fato, uma coisa qualquer, o mundo. É porque perce- bemos de um determinado modo que temos a opini- ão que temos. É mais justo dizer então que a opinião que temos é um ponto de vista sobre um fato, uma coisa, o “mundo”.

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Então, o homem, cada homem particular, como dizi- a Protágoras, é “a medida de todas as coisas”, que ele crê serem verdadeiras ou falsas. A verdade não se fixa: está em permanente transformação, a de- pender de das circunstâncias e de quem fala, se con- vence ou não. A verdade torna-se mundana, do ta- manho dos homens, com a qual os homens fazem sua própria história, tão contraditória quanto cheia de equívocos, mas a história dos homens, a qual só eles podem ser responsabilizados.

verdade que exista para além dos discurso, e por isso ela é “relativa” à compreensão d
  • 3 Acerca de Protágoras Feita uma brevíssima expo-

sição sobre os sofistas, exa- minemos um caso exemplar, daquele que foi talvez um dos mais afamados representantes da sofísti- ca, Protágoras de Abdera. Contudo, não vamos nos deter aqui a aspectos da biografia do personagem, mas apenas interpretar um pequeno fragmento seu, também conhecidíssimo da tradição, do “homem-medida”, como uma síntese possível de uma certa visão-de-mundo defendida pelos sofistas. Então, tenha em mente o que já discutimos sobre os sofistas, retome a leitura dos dois textos anteriores para prosseguir.

O fragmento ao qual nos referimos é o seguinte:

O homem é a medida de todas as coisas; das

coisas que são, enquanto são, e das que não são, enquanto não são.

Protágoras de Abdera

“Homem” aqui se refere ao “homem particular”, o “indivíduo”. Cada um de nós, tomado isoladamente, é senhor daquilo que julga ser verdadeiro ou falso. Cada um de nós, portanto, é “a medida de todas as coisas”: cada um percebe o mundo como quer ou como pode, segundo suas convicções e suas crenças, bem como sua formação e cada um possui assim uma verdade, absolutamente pessoal, particu- lar. É neste sentido que poderemos afirmar que cada um possui uma “verdade”, que nem sempre corres- ponde a “verdade” do outro.

Cada um é que define “o que uma coisa é”: determina então para si mesmo o que considera ser “verdadei- ro”, e assim para todas as coisas que existem, das coisas que “são enquanto são” (e vale dizer, elas são assim para mim, se assim as percebo). O mesmo vale também para as coisas que “não são”, isto é, as coisas

que julgo serem falsas ou as coisas que jamais tenha visto, ou nem isso: trata-se também das coisas que

não possuem existência para mim pelo simples fato de que sequer ouvi falar delas. Essas coisas “não são”

enquanto eu não estabelecer algum contato com

elas, seja através da percepção, seja por “ouvir falar”.

Até então, não poderei formar qualquer juízo sobre elas, nem para dizer que sejam verdadeiras, nem falsas.

Cada um possui uma verdade? Sim, é isso. Esta “ver- dade”, então, corresponde à opinião que cada um forma sobre as coisas do mundo. Verdade e opinião aqui se equivalem. Se cada um tem sua opinião sobre o mundo, muito bem!, cada um é cada um. Cada um possui uma “verdade”, absolutamente pessoal. Mas como estabelecer entre nós algum acordo sobre as coisas? Um acordo é necessário, caso contrário não seria possível sequer a convivência: viveríamos cada um em seu próprio mundo particular, sem janelas nem portas para os outros, sem nenhuma comunica- ção possível. É através do discurso que nossas opini- ões, nossas percepções, aquilo que julgamos ou mesmo sentimos enfim, “nossas verdades” podem ser comunicadas para os outros, a fim de partilhar de um mundo comum a nós.

Ora, uma verdade que valha apenas para mim tem pouco efeito sobre o todo; mas se uma verdade vale a uma multidão, pelo contrário, ela determina a lei, se a lei é definida em assembleia, tal como ocorria na democracia grega. Retomando nossa discussão ante- rior, podemos avaliar a importância que os sofistas davam à educação: com efeito, trata-se de partilhar um mundo que nos seja comum, para que seja possí- vel também um acordo. Daí a importância do discur- so e da retórica, que para os sofistas ocupa um lugar central.

O discurso que diz a “verdade” — isto é, o discurso que convence mais gente sobre sua verdade e passa a ser a opinião comum é um discurso forte e tem poder de mover os homens, orientá-los em sua con- duta, sobre o que fazer ou deixar de fazer. O discurso que apenas para mim é verdadeiro é um discurso

fraco. Se ele é “forte”, isto é, se o discurso é capaz de alcançar os homens para que eles acreditem no que é dito, então é estabelecido entre os homens um

acordo, uma “convenção”, porque são convencidos

da existência e da verdade acerca do discurso. Caso

contrário, pouco valerá ter um discurso ao qual nin- guém dá crédito.

SOBRE A RETÓRICA E OS SOFISTAS

O homem é o “ser-que-fala” e o seu mundo é o discurso Com efeito, cada qual reconstrói o mun-

do para si mesmo pelo seu discurso a fim de comuni- cá-lo aos outros homens. O mundo é o discurso hu- mano, tudo aquilo que podemos expressar, e por isso é que não há verdade para fora do discurso. O que é indizível não participa do mundo, não ganha exis- tência para o conjunto dos homens; a única existên- cia que o homem pode conceber e partilhar entre os outros homens se dá através da fala. O indizível não é partilhável; e o que não é dito, então, não se torna comum aos homens, porque tampouco se comuni- ca. Sabe aquilo do qual você nunca ouviu falar? Não? Pois é: porque um discurso que não pode ser ouvido, quando ninguém nem terá conhecimento dele e, portanto, por não ser partilhado, tampouco poderá ser julgado pelos outros em sua verdade, o que no

caso equivale a não existir. As coisas que “não são, enquanto não são”, como dizia Protágoras.

Ao definirmos o homem como “ser-que-fala” leva- mos em conta o que diferencia os homens de qual- quer outro ser da natureza, isto é, a capacidade hu- mana de produzir um discurso. Isto não nos distancia da definição do homem como ser racional: é que na língua grega, a palavra lógos a um só tempo quer dizer discurso e razão. Para os sofistas, seria ade- quado dizer que encontramos a razão das coisas no discurso.

  • 4 À guisa de conclusão: O homem em relação à natureza

Nas últimas aulas chegamos a definir o ho- mem como o único caso na natureza de um “ser-que- fala”, isto é, é o único animal capaz de “produzir um discurso” – e, segundo penso, tal definição tem van- tagens em relação àquela que aprendemos na escola e herdamos da tradição da filosofia ocidental, que define o homem como “ser racional”, dotado de ra- zão. Não se trata, todavia, de negar que o homem seja o único ser racional, mas de ampliar o escopo da definição.

Ocorre que a expressão “ser racional” talvez não seja

uma ideia tão simples para ser facilmente apreendi- da. Afinal de contas, quando perguntamos o que é a razão, não encontraremos uma resposta inequívoca, tampouco indiscutível. Com efeito, as ideias de ra- zão, racionalidade ou raciocínio, elas também foram produzidas ao longo da história; trocando em miú- dos, a ideia de razão de um grego da antiguidade é diferente daquela que temos hoje e que foi elaborada

a partir da modernidade. Por outro lado, se a expres-

são “razão” tem um sentido profundo para o filósofo,

ela é de uso raso e ao rés do chão para qualquer outro que a fale. Mas estas são outras discussões, das quais não nos ocuparemos agora.

Seja como for, discutíamos Protágoras e os sofistas e portanto, a nossa referência é à Grécia Antiga. Apenas para explicitar, voltemos ao ponto. Na língua grega, discurso se diz lógos, a mesma palavra da qual deriva a palavra lógica. É que lógos quer dizer, a um mesmo tempo, três coisas que em português dize- mos por palavras diferentes. Lógos é ‘palavra, dis- curso, argumento’ e, porque é pelo discurso que enunciamos aquilo que pensamos, lógos é também consideração, avaliação, reflexão e juízo (discerni- mento)’, ou seja, a nossa capacidade de pensar ra- cionalmente. Lógos também pode ser traduzido por razão e assim, em nada perdemos para a defini- ção que aprendemos na escola. Mas para um grego, estas duas coisas são inseparáveis: o discurso para ser produzido depende da razão tanto quanto a ra- zão só se desenvolve no discurso.

Há um discurso que não depende da razão: o mito, um discurso que tem mais a ver com fabula- ção ou imaginação. O mito (em grego, mythos) não tem nada a ver com lógos: este é discurso racional, argumentação, explicitação de razões; aquele é “nar- ração”, mais ou menos fabulosa ou imaginada. Con- tudo, em nada a lembrança desta modalidade de discurso afasta-nos da definição do homem enquan- to “ser-que-fala”; antes, a confirma. Com efeito, o homem é o ser-que-fala, capaz de discurso: pelo discurso, o homem cria o seu mundo, e tanto faz se este discurso corresponde ou não a um “outro mun- do externo ao discurso”. O mundo criado pelo dis- curso pode ser uma ficção e não haveremos uma

única espécie a não ser a dos homens que seja capaz dessa fabulação, que só é possível pelo discurso. Só ao homem é dada a capacidade de mentir inventar pelo discurso um “outro mundo”, semelhante a este

(caso contrário, ele não seria capaz de convencer ninguém de que a mentira fosse verdadeira), mas cuja ordem é modificada, ampliada, reduzida ou omitida.

Mas ainda há um terceiro sentido para a palavra lógos, assim como para a palavra razão: ‘medida, cálculo, relação, ordeme, por extensão, fundamen- to, razão-de-ser de algo’. Não se trata apenas das capacidades de pensar e de falar. Existe razão nas coisas, quando apresentamos o porque e as causas

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delas serem o que são. Expliquemo-nos melhor. Na

palavra biologia, por exemplo, este “-logiaderiva-se da mesma palavra grega que discutíamos, lógos. Vocês dirão que biologia é ‘a ciência que estuda dos

seres vivos’. Mas o nome, para sermos fiéis à etimo- logia, dá outro sentido, mais preciso: trata-se do discurso (‘-logia’) sobre os seres vivos (biós). Ora, não se trata apenas de ‘estudar’, verificar e investi- gar os seres vivos, mas sim de produzir um discurso sobre o que foi verificado e investigado. É no discur- so da biologia que encontramos o lógos dos seres vivos; é na produção deste discurso que determina- mos a razão das coisas serem o que são, ou, voltando

a Protágoras, são os homens que, ao falar, dão a me- dida do que os seres vivos são. É assim, pelo discur- so, que os homens produzem o seu próprio mundo,

aquilo que reconhecem como “verdade”.

Daí aquela ideia: o mundo humano é mediado pelo discurso. Tudo o que cada um vivencia, sente, pensa, só ganha existência para além de si mesmo, ou seja, para o mundo dos homens quando transformados em discurso. Por isso, o homem é o ser-que-fala. Imaginemos então o que seria dos homens se fossem impedidos de falar, se não pudessem mais produzir discursos, se não mais pudessem compartilhar suas experiências, sentimentos e pensamentos. Se o ho- mem é por definição o ser-que-fala, então é negada a sua condição humana se ele é calado. A liberdade de expressão liberdade de falar, enfim é o direito humano mais fundamental, sem o qual o homem vira bicho, sem poder participar do mundo dos homens e partilhar com os outros aquilo que ele vivencia, sen- te e pensa.

O reino da natureza e o reino dos homens A natureza não fala; os animais, tampouco; entre estes, até há algum tipo de comunicação, mas que não se faz através da produção de discurso, coisa que é ape- nas dos homens. Sem a fala, o homem se reduz à mesma condição dos outros animais do reino da natureza.

Indicações bibliográficas

Giovanni REALE. Sofistas, Sócrates e Socráticos Meno- res (História da Filosofia Grega e Romana, vol. II). São Paulo: Edições Loyola, 9ª ed., 2009.