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A ANALÍTICA DO PODER EM MICHEL FOUCAULT

Maria de Lourdes Faria dos Santos Paniago

Em conversa com Giles Deleuze (FOUCAULT, 2001d, p. 75), Michel


Foucault declarou que nossa dificuldade em encontrar as formas de luta
adequadas pode derivar justamente do fato de não sabermos ainda e
exatamente o que é o poder. Para ele, assim como tivemos que aguardar
a chegada do século XIX para que conhecêssemos a exploração, talvez
ainda não saibamos o que é o poder, e, provavelmente, Marx e Freud não
sejam suficientes para nos ajudar nessa empreitada.
Em entrevista concedida em outubro de 1977, Foucault (2003,
p. 227) declara que não tem uma concepção global e geral do poder e
que acredita que outro, depois dele, a desenvolva. Dreyfus e Rabinow
(1995, p. 202) reforçam que a análise de Foucault sobre o poder não
tem a pretensão de ser uma teoria, porque não se trata de uma
“descrição acontextual, a-histórica, objetiva”, que pudesse ser
aplicada generalizadamente. Ao invés de propor uma teoria, Foucault
propõe uma “analítica do poder”, pois,

Se tentarmos construir uma teoria do poder, será


necessário sempre descrevê-lo como algo que emerge
num lugar e num tempo dados, e daí deduzir e
reconstruir a gênese. Mas se o poder é, na
realidade, um conjunto de relações abertas, mais ou
menos coordenadas (e, de fato, mal coordenadas),
então o único problema consiste em se munir de uma
rede de análise que torne possível uma analítica
das relações de poder. (FOUCAULT, [1980?], apud
DRYEFUS; RABINOW, 1995, p. 202)1.

Seja como for, o conceito de poder desenvolvido por Foucault


é bastante distinto das idéias das teorias clássicas, como as da

1
Foucault, M. “Confession of de Flesh”, [1980?], p. 199.
releitura althusseriana do marxismo, por exemplo. O poder, para
Foucault, não é algo que se possa possuir, porque não é um bem
alienável do qual se possa ter a propriedade. Por isso, qualquer que
seja a sociedade, não existe divisão entre os que têm e os que não têm
poder. No entanto, o poder sempre é exercido em determinada direção,
com uns de um lado e outros de outro (FOUCAULT, 2001d, p. 75). Ou
seja, embora não haja um titular, um dono do poder, o poder é exercido
sempre em determinado sentido, não necessariamente de cima para baixo.
O poder, em outras palavras, não se possui, o poder se exerce ou se
pratica.
Resumindo, Foucault afirma que “o poder não existe”
(FOUCAULT, 2001e, p. 248), o que existem são práticas, relações de
poder. Machado (2001, p. XIV), na introdução que fez para o livro
Microfísica do poder (FOUCAULT, 2001b), sintetiza muito bem as idéias
do filósofo sobre o poder:

[...] ele é luta, afrontamento, relação de força,


situação estratégica. Não é um lugar, que se ocupa,
nem um objeto, que se possui. Ele se exerce, se
disputa. (MACHADO, 2001, p. XV).

Essa caracterização, para Veiga-Neto (2003, p. 147), deixa


claro que o pensamento de Foucault sobre o poder não é
substancialista, mas relacional. O poder, então, circula. No contexto
escolar, por exemplo, não são apenas os professores e diretores que
exercem o poder. Os estudantes, os pais, os diretores, os funcionários
da secretaria também o exercem. Ou seja, não se deve falar em poder,
mas em poderes.

Nous ne pouvons pas, alors, parler du pouvoir, si


nous voulons faire une analyse du pouvoir, mais
nous devons parler des pouvoirs et essayer de les
localiser dans leur spécificité historique et
géographique. (FOUCAULT, 1981, p.187).

Foucault afirma que essa noção de múltiplos poderes já está


presente no Capítulo 2 de o Capital. Para o filósofo francês, Marx
insiste muito sobre a especificidade do poder exercido pelo patrão em
uma oficina em relação ao poder de tipo jurídico que emanaria de um
poder central. Há, portanto, regiões de poder já que “la société est
un archipel de pouvoirs différents” (FOUCAULT, 1981, p. 187).
Foucault não deixa dúvidas de que faz uma leitura distinta
das teses marxistas em relação àquela feita por outros teóricos, que
compreendem esses poderes locais como sendo simplesmente uma derivação
de um poder central. Segundo Foucault, Marx não reconhece o que o
primeiro chamou de “le schéma des juristes” (esquema de juristas),
que significaria dizer que foi a existência de um ponto central de
soberania que possibilitou a organização do corpo social e que
permitiu em seguida a proliferação de poderes locais e regionais. Para
Foucault, Marx mostra justamente o contrário: como a partir da
existência primeira de pequenas regiões de poder – como a propriedade,
a escravatura, a oficina, o exército – os grandes aparelhos de estado
puderam se formar. Ou seja, para Foucault – discordando de Grotius,
Pufendorf ou de Rousseau – as teses marxistas dão conta da existência
de uma unidade estatal que, no fundo, é secundária em relação à
existência primeira de poderes regionais e específicos (FOUCAULT,
1981, p. 187)2. Nas palavras de Veiga-Neto,

O estado não é a fonte central do poder, mas sim


uma matriz de individualização ‘sobre’ a qual
cada um tem construída a sua subjetividade, vive

2
Nas palavras de Foucault: Marx, implicitement, ne reconnaît pas ce schéma. Il montre, au
contraire, comment, à partir de l’existence initiale et primitive de ces petites régions de
pouvoir – comme la propriété, l’esclavage, l’atelier et aussi l’armée - , a pu se former, petit à
petit, des grands appareils d’État.
sua vida e pratica suas ações. O poder se exerce no
Estado, mas não deriva dele; pelo contrário, o
poder se estatizou ao se abrigar e se legitimar sob
a tutela das instituições estatais. (VEIGA-NETO,
2003, P. 145, grifos do autor).

Segundo Dosse (2001), o conceito de poder em Foucault “dilui


a dimensão política, dispersando-a ad infinitum”, justamente porque

[...] ele o poder deixa de ser atribuível a uma


classe que o detenha. Circula, a partir de uma
rede, entre os indivíduos; funciona em cadeias;
transita em cada um antes de se agregar num todo.
(DOSSE, 2001, p. 223).

Para Foucault, então, privilegiar o aparelho de Estado, a


função de conservação, a superestrutura jurídica, é, no fundo,
“rousseaunizar” Marx. E essa postura supostamente marxista não é
surpreendente, já que objetivava saber como fazer funcionar Marx no
interior do sistema jurídico da época.
Por dominação, Foucault (2001c, p. 181) não entende um ato
global de um sobre os outros, mas “as múltiplas formas de dominação”
que podem ser exercidas na sociedade. Assim, Foucault não busca
analisar “o rei em sua posição central, mas os súditos em suas
relações recíprocas”.
Ele chega, então, ao que chama de micropráticas do poder.
Esse aspecto da teoria foucaultiana não foi recebido sem contestação,
já que se constitui em uma proposta de abandono de muitas teses em
voga na época, inclusive as althusserianas – tão largamente aceitas –
que afirmam que todo poder emana do Estado para seus Aparelhos
Ideológicos. Para Foucault, a possibilidade de existência do poder

[...] não deve ser procurada na existência primeira


de um ponto central, num foco único de soberania de
onde partiriam formas derivadas e descendentes.
(FOUCAULT, 2001a, p. 89).

O objetivo de Foucault não era minimizar a função do Estado,


mas apenas divergir da idéia bastante aceita na época de que todo o
poder emanava dele. O que Foucault queria deixar claro é que as
relações de poder se prolongam além dos limites do Estado.
A análise de Foucault sobre o Estado liga-se a dois
princípios. O primeiro diz que o Estado, apesar de sua grandiosidade,
não é capaz de ocupar todo o campo de reais relações de poder; e o
segundo diz respeito diretamente ao fato de que o Estado somente pode
agir baseando-se nas outras relações de poder. Nesse sentido, o estado
seria a

[...] superestrutura em relação a toda uma série de


redes de poder que investem o corpo, sexualidade,
família, parentesco, conhecimento, tecnologia etc.
(FOUCAULT, 1980, apud MAIA 1995, p. 88)3.

Ou seja, para Foucault, quem acredita no papel exagerado do


Estado corre o risco de deixar escapar todos os mecanismos e efeitos
de poder que não passam diretamente por ele. A intenção de Foucault
era detectar a existência de poder que não se originava no Estado ou
em seus “aparelhos”. Para ele, inclusive, não haverá mudança na
sociedade se não houver modificação nos mecanismos de poder externos
aos aparelhos de Estado, “a um nível muito mais elementar,
quotidiano” (FOUCAULT, 2001f, p. 150). Mas, se isso a priori indica
uma mudança do foco de análise do centro para a periferia, não
significa que esse filósofo acredite que o poder possa estar
localizado em outro lugar que não o Estado, o centro. É condição sine

3
FOUCAULT, M. L’impossible prison, recherches sur le systeme pénitentiaire au XIX siècle.
Paris, Éd. du Seuil. 1980, p. 122.
qua non para a compreensão das teses foucaultianas tomar o poder como
não localizável em nenhum ponto específico da estrutura social. Para
Foucault, o poder funciona como uma rede que incluiu todos, ou seja,
da qual ninguém pode esquivar-se, para a qual não existe nada que lhe
possa ser exterior. Foucault, entretanto, preocupa-se em esclarecer
que, mesmo em instituições fortemente hierarquizadas – o exército por
exemplo –, em que a rede de poder possua uma forma piramidal, o
“ápice” não é a “fonte” ou o “princípio” de onde todo o poder
emana, porque o vértice (os comandantes) e a base (os comandados) da
hierarquia se apóiam e se condicionam reciprocamente (FOUCAULT, 2001g,
p. 221).
Perceber a microfísica do poder não se traduz apenas em
deslocar a análise do ponto de vista espacial, mas principalmente
analisar o nível em que ela ocorre. Ou seja, não basta concluir que
não há um ponto central de onde o poder irradia toda a sua fortaleza;
é preciso compreender que analisar a microfísica do poder significa
entender os procedimentos técnicos que têm por objetivo o controle
minucioso do corpo. Não apenas o produto, mas todo o processo é alvo
do micropoder, seus mais detalhados gestos. Foucault preocupa-se com a
existência capilar do poder, porque

[...] o poder encontra o próprio grânulo dos


indivíduos, atinge seus corpos, vem inserir-se em
seus gestos, suas atitudes, seus discursos, sua
aprendizagem, sua vida cotidiana. (MOTTA, 2003
, p. XIX).

Para Foucault, é uma concepção simplesmente jurídica que


subjaz à análise do poder pela repressão, ou seja, estar-se-ia
identificando o poder basicamente a uma lei que é sempre proibidora,
preocupada continuamente em dizer não. Ele classifica essa noção
puramente negativa do poder como “estreita” e “esquelética”,
argumentando que, se assim fosse, se o poder não fizesse outra coisa a
não ser dizer não, ele não seria obedecido. Ou seja, para esse
filósofo, o que faz com que o poder seja aceito é justamente o fato de
que ele não é apenas uma intolerável carga da qual não se possa
escapar, mas, na verdade, ele atravessa toda a sociedade, produzindo
coisas, induzindo ao prazer, formando saber, produzindo discursos.
Deve-se, portanto,

[...] considerá-lo como uma rede produtiva que


atravessa todo o corpo social muito mais do que uma
instância negativa que tem por função reprimir.
(FOUCAULT, 2001h, p. 8).

Como se vê, Foucault desenvolveu uma concepção não-jurídica


do poder. Ou seja, a premissa básica de Foucault é que as relações de
poder não se dão fundamentalmente nem no nível do direito, nem no
nível da violência. Dessa forma, “nem são basicamente contratuais nem
unicamente repressivas” (MACHADO, 2001, p. XV). O modelo jurídico,
que faz da lei a manifestação essencial do poder, pressupondo o
indivíduo como sujeito de direitos naturais ou poderes primitivos,
deve ser abandonado para que se consiga fazer uma análise concreta das
relações de poder (FOUCAULT, 1997, p. 62), já que, para ele, a redução
a uma lei de interdição dá à concepção de poder três características
principais: permite ver o poder como homogêneo, permite só analisar o
poder em termos negativos; e permite pensar a operação essencial do
poder como um ato de fala (a enunciação da lei) (FOUCAULT, 2003h, p.
247).
A preocupação de Foucault não é tanto responder a questão
amplamente teórica do que é o poder, mas refletir sobre os mecanismos,
os efeitos, em suas relações, dos diversos dispositivos de poder que
são exercidos nos diferentes níveis da sociedade. Ele preocupa-se em
responder se se pode dizer que a análise do poder (ou dos poderes)
pode ser deduzida da economia (FOUCAULT, 2001i, p. 174). E concluiu
que dispomos de poucos instrumentos para fazer uma análise não
econômica do poder. Segundo ele, dispomos de duas afirmações: a) o
poder não é um bem que se possa possuir e portanto só ocorre em ação;
e b) o poder não é principalmente manutenção das relações econômicas,
mas essencialmente uma relação de força. A partir dessas duas
afirmações, Foucault se coloca a seguinte questão: se o poder se
exerce, o que é este exercício, em que consiste e qual é a sua
mecânica? Foucault responde a essa questão, afirmando que o poder não
é essencialmente repressivo. (FOUCAULT, 2001i, p. 175)
Daí podemos concluir que o poder não é sempre negativo. A
essa concepção, tão absolutamente enraizada na sociedade ocidental,
principalmente a partir dos escritos althusserianos, Foucault
acrescenta uma outra, muito mais polêmica. Para Foucault, o poder
produz e transforma, e é essa característica que faz com que seja não
apenas negativo. Foucault pretende mostrar que o poder não deve ser
visto essencialmente ligado à dominação e à repressão. O poder
“incita, suscita, produz; ele não é simplesmente orelha e olho; ele
faz agir e falar” (FOUCAULT, 2003g, p.220).
Foucault afirma, entretanto, que essa concepção de poder como
algo positivo é anterior a suas teorias, podendo ser encontrada em
alguns textos: nos trabalhos de Bentham e nos escritos de Marx,
especificamente no livro 2 de o Capital. E é justamente por possuir
essa eficácia produtiva que o poder volta-se para o sujeito, ou mais
especificamente, para o corpo do sujeito, não essencialmente para
reprimi-lo, mas para adestrá-lo, torná-lo dócil e útil para a
sociedade (FOUCAULT, 2002).
Explicar o poder apenas a partir de sua função repressiva
significa omitir da análise seu âmago, sua essência. Ao poder não
interessa a simples repressão e dominação dos homens. Ao invés disso,
importa que suas mais detalhadas atividades sejam geridas, para fazer
com que se tornem sempre mais úteis.
Para Deleuze (1998, p. 46), Foucault foi o primeiro a
inventar uma nova concepção de poder que era há muito procurada. Com a
ajuda de Deleuze, podemos resumir a concepção de poder para Foucault a
partir dos seis postulados que devem ser abandonados, e que marcam a
posição da esquerda tradicional (DELEUZE, 1998, p. 47).
a) postulado da propriedade – uma determinada classe teria
conquistado o poder, portanto, o poder seria propriedade
dela. Foucault nos mostra, no entanto, que o poder só
existe em ação. Ele “exerce-se, mais do que se possui”.
b) postulado da localização – o poder estaria localizado
centralizadamente no Estado, a tal ponto que se
consideraria que mesmo os poderes em princípio
considerados privados seriam emanados de aparelhos de
Estado especiais. Foucault afirma, entretanto, que, ao
contrário de ser a fonte do poder, o Estado é um efeito ou
uma resultante de múltiplas engrenagens e focos que formam
uma microfísica. Ou seja, o poder é local mas não está
localizado em um só local. Deve-se, aqui, estar atento
para os sentidos que tomam a palavra “local”: “o poder
é local porque nunca é global, mas não é local ou
localizável porque é difuso”.
c) postulado da subordinação – o poder do Estado estaria
subordinado a um modo de produção, a uma infra-estrutura.
Foucault ressalta, no entanto, que as relações de poder
não estão nem acima nem abaixo de outros tipos de
relacionamento, porque não são exteriores a eles.
d) postulado da essência ou do atributo – o poder seria uma
essência, e conseqüentemente seria um atributo capaz de
qualificar quem o possui (dominantes) e desqualificar quem
não o possui (dominados). Foucault mostra, por outro lado,
que o poder é operatório, não essência; é relacionamento,
não atributo. A relação de poder é então o conjunto dos
relacionamentos de forças que passa tanto pelas forças
dominantes como pelas dominadas.
e) postulado da modalidade – o modo de ação do poder seria
exclusivamente pela violência ou pela ideologia,
reprimindo ou fazendo crer. Foucault afirma, entretanto,
que o poder não age necessariamente pela violência ou pela
repressão. E é justamente o fato de não ser sempre
repressivo que faz com que o poder seja aceito. O poder,
na verdade, é produtivo.
f) postulado da legalidade – o poder do estado seria expresso
na lei, concebida ou como um estado de paz imposto a
forças revoltas ou como resultado de uma guerra vencida
pelos mais fortes. Segundo Deleuze, um dos aspectos mais
profundos da obra de Foucault diz respeito à substituição
que ele propõe à dicotomia “lei–ilegalidade” por
“ilegalismos-leis”. Foucault mostra que a lei não é nem
o estado de paz imposto nem o resultado da guerra, mas a
própria guerra. Da mesma forma, o poder não é um bem
conquistado pela classe dominante, mas o exercício mesmo
da sua estratégia.
Como conseqüência dessa concepção de poder, Foucault acredita
que se deva substituir a questão da soberania e da obediência, tão
cara ao direito, pela questão da dominação e da sujeição. Com essa
preocupação, Foucault propõe algumas precauções metodológicas para a
análise das relações de poder (FOUCAULT, 2001c, p. 182/186):
a) não se deve analisar as formas regulamentares e legítimas
do poder a partir de seu centro. Mas se deve, ao
contrário, tentar compreendê-lo em suas extremidades, onde
ele se torna “capilar”.
b) não se deve analisar o poder no plano da intenção, que
constituiria seu lado interno. Deve-se, por outro lado,
analisá-lo a partir de “práticas reais e efetivas”. Ou
seja, a partir de seu lado externo, onde ele se relaciona
diretamente com o que pode ser chamado de objeto, alvo,
campo de aplicação. Foucault propõe que voltemos nossa
atenção para a sujeição enquanto constituidora de
sujeitos.
c) não se deve considerar o poder como um bloco de dominação
homogêneo de uma pessoa sobre outra, ou de um grupo sobre
outro. Deve-se, ao contrário, analisar o poder como
circulante, ou, em outras palavras, como algo que só
funciona em rede. Nas malhas do poder, os indivíduos estão
sempre em posição de exercerem ou de sofrerem sua ação;
“nunca são o alvo inerte ou consentido do poder, são
sempre centros de transmissão”.
d) não se deve fazer uma análise descendente do poder, ou
seja, uma análise que, a partir do centro, procurasse ver
até onde se alonga para baixo, até atingir seu nível
capilar. Ao contrário, é preciso fazer uma análise
ascendente, que examina a história, partindo de baixo,
para que se perceba de que forma os mecanismos de controle
puderam funcionar, procurando como agentes desse poder não
a burguesia em geral, mas seus agentes reais (família,
vizinhança, pais, médicos, professores, padres), e a
maneira como esses procedimentos de poder, em um momento
preciso e em determinada conjuntura, tornaram-se
economicamente e politicamente vantajosos.
e) Não se deve partir das ideologias; deve-se, por outro
lado, partir daquilo que está na base (instrumentos reais
de formação e acumulação do saber, métodos e procedimentos
de pesquisa, registro e inquérito). Foucault admite a
possibilidade de que as grandes estruturas de poder tenham
sido acompanhadas de produções ideológicas, fazendo com
que tenha havido (haja), por exemplo, uma ideologia da
educação, mas ele diz que não é essa ideologia que está na
base do processo.
O próprio Foucault se encarrega de recapitular suas cinco
preocupações metodológicas:

Em vez de orientar a pesquisa sobre o poder no


sentido do edifício jurídico da soberania, dos
aparelhos de Estado e das ideologias que o
acompanham, deve-se orientá-la para a dominação, os
operadores materiais, as formas de sujeição, os
usos e as conexões da sujeição pelos sistemas
locais e dispositivos estratégicos. (FOUCAULT,
2001c, p. 186).

Este texto (Soberania e Disciplina) foi escrito para aula do


curso do Collège de France de 14 de janeiro de 1976. Antes disso,
porém, Foucault já havia se encarregado de alertar sobre suas
preocupações metodológicas na análise do poder; isso ocorreu em Vigiar
e Punir, obra publicada originalmente em 1975 (FOUCAULT, 2002). Essa
obra, apesar do subtítulo Nascimento da Prisão, não tem como objeto de
estudo a prisão, mas toda uma tecnologia disciplinar. Manoel Barros da
Motta (2003), na apresentação do volume IV da edição brasileira dos
Ditos e Escritos, encarrega-se de resumir e sistematizar as idéias do
filósofo francês a respeito das três regras metódicas apresentadas
naquela época:
a) a primeira refere-se à preocupação em não concentrar a
análise apenas nos efeitos repressivos e negativos do
poder; é preciso captar do poder também os efeitos
positivos que ele pode induzir;
b) a segunda diz respeito aos castigos. Não se deve tomá-los
simplesmente como conseqüências do direito; é preciso
enxergá-los como mecanismos integrantes das técnicas de
poder;
c) a terceira procura articular a história do direito penal e
a das ciências humanas. Foucault afirma que são as
tecnologias de poder que estão na base tanto da
humanização da pena (história do direito penal) como do
conhecimento do homem (história das ciências humanas).
Qualquer trabalho de pesquisa que queira se sustentar sobre o
edifício teórico proposto por Michel Foucault deve ter presente todas
essas preocupações metodológicas. Pois, se o poder não é uma coisa que
se possa apreender, a tarefa da análise deve ser a de identificar de
que forma ele opera. Por isso, para compreender o poder presente nas
práticas de subjetivação desenvolvidas pelos diversos dispositivos
disciplinares da sociedade de controle em que vivemos, é
imprescindível voltar-se para o funcionamento diuturno no poder, para
as suas micropráticas. Pois, se não se examina a microfísica do poder
em seu funcionamento material, corre-se o velho risco da ilusão de que
o poder ocorre sempre de cima para baixo.

Referências

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Carrero. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.

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