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PORTUGAL

NOTÍCIAS
01 Setembro 2008
Publicação trimestral • Série V • P.V.P €1.75

DOSSIER
O Relatório Anual 2008
Os Direitos Humanos no Mundo

MULHERES DE CONFORTO IMIGRAÇÃO


Sobreviventes de escravatura sexual Em conversa com a Alta Comissária para
continuam à espera de Justiça a Imigração e Diálogo Intercultural
ÍNDICE
03. 10.
EDITORIAL DOSSIER 25.
O Relatório Anual da Amnistia PRESTAÇÃO DE CONTAS
04. Internacional apresenta dados 26.
ENTREVISTA sobre o estado dos Direitos BOAS NOTÍCIAS
Rosário Farmhouse, Alta Humanos no mundo e refere
Comissária para a Imigração as quatro situações mais 27.
e Diálogo Intercultural, fala problemáticas em Portugal. APELOS MUNDIAIS
dos acontecimentos recentes Especialistas nestas áreas
completam a informação
com imigrantes e sobre as 32.
migrações em Portugal AGENDA
18.
07. EM ACÇÃO INTERNACIONAL
33.
RETRATO Há seis décadas o Exército
CARTOON
Peter Pack, Presidente do Imperial Japonês capturou
Comité Executivo Internacional milhares de mulheres e raparigas,
da Amnistia Internacional, muitas menores de idade, que 34.
foram usadas como escravas CRÓNICA
explica o trabalho da
organização e conta como sexuais durante a Segunda Rui Tavares Guedes, jornalista
passou de activista a dirigente Guerra Mundial. As sobreviventes e Director-Adjunto da revisão
de uma ONG continuam à espera de Justiça Visão, fala sobre os Direitos
Humanos na China e a situação
09. 20. particular dos Jogos Olímpicos
EM ACÇÃO NACIONAL de Pequim
EM FOCO

23.
EM ACÇÃO JÚNIOR
Jovens de todo o país vão dedicar
quatro dias aos Direitos Humanos

FICHA TÉCNICA teiro, Carlos Coelho, Cláudia Köver, Elisabete


Brasil, José de Almeida Brites, José de Melo
• Propriedade: Amnistia Internacional Alexandrino, Laura Bastos, Lucília José Jus-
Portugal tino, Raquel Pinheiro, Rui Tavares Guedes Avenida Infante Santo, 42 – 2.º
• Director: Presidente da Direcção • Revisão: Armando Borlido, Cátia Silva, 1350-179 Lisboa
Tel.: 213 861 652
• Equipa Editorial: Armando Borlido, Irene Rodrigues, Luísa Marques Fax: 213 861 782
Cátia Silva, Irene Rodrigues, Pedro • Concepção Gráfica e Paginação: Maria Email: boletim@amnistia-internacional.pt
Krupenski João Bóia D’Arnaud Pereira
Os artigos assinados são da exclusiva respon-
• Colaboram neste número: Ana Mon- • Impressão: Relgráfica Artes Gráficas sabilidade dos seus signatários.
Notícias • Amnistia Internacional 03

EDITORIAL
A Amnistia Internacional e os Direitos Humanos
Por Lucília José Justino, Presidente da Direcção

mo de referência para minorias cultas e amarelo – cor associada a situações de

“TEMOS DE NOS urbanas, as nossas campanhas já não


se dirigem apenas a prisioneiros indivi-
alarme, à acção – procurando comunicar
melhor, com maior diversidade e abertura,

TORNAR NA duais, detidos por razões de consciência.


Os direitos humanos também se globa-
com técnicas de trabalho mais adaptadas
ao nosso tempo e às novas realidades.

MUDANÇA QUE lizaram, as suas violações atingem po-


pulações inteiras (de gente de grupos na-
O Notícias AI, esta nossa publicação, é
parte desse processo. Porque a secção
QUEREMOS VER” cionais, de grupos étnicos, de confissões
religiosas). Essas violações incluem o
portuguesa tem de ser uma voz na mu-
dança que queremos ter.
Gandhi genocídio, as limpezas étnicas, massa-
cres e torturas, mas também a guerra, Mas há coisas que não mudarão: a trans-
as deslocações forçadas de populações, parência de processos, a independência,
Como repararão, este Notícias AI está di- a destruição de culturas e do Ambiente, a a integridade e objectividade da orga-
ferente. fome e a pobreza. Os violadores não são nização, a democracia interna, a abertu-
apenas ditaduras obscuras e distantes, ra ao mundo, o activismo centrado em vo-
Ele é parte de um processo de mudança mas também podem ser os grupos de luntários - porque não queremos.
que se vive na Amnistia Internacional. oposição, dirigentes religiosos ou chefes
Pode perguntar-se: O que nos faz mudar? tribais.
Mudar para onde? A violência doméstica pode ter como
As respostas podem não ser simples, violador e vítima de direitos humanos o
nem completas, mas a mudança faz par- nosso vizinho – e cada vez mais todos
te da cultura da AI. O mundo tem sofrido estes direitos humanos dizem respeito ao
grandes mudanças, os direitos humanos trabalho da AI.
– e as suas violações – são hoje rela- A Amnistia Internacional também se
tivamente diferentes do tempo em que, globalizou, inevitavelmente. Dizer Uma
em plena Guerra Fria, há mais de quatro Amnistia, ou One Amnesty, é disso que
décadas, foi lançada a Amnistia como se trata. É uma Amnistia global, em pro-
uma Conspiração de Esperança. cesso de mudança e transformação por
Os direitos humanos já não são um ter- todo o mundo. Com uma imagem nova, a
04 Notícias • Amnistia Internacional

ENTREVISTA
Rosário Farmhouse, Alta Comissária para a Imigração e Diálogo Intercultural
Rosário Farmhouse foi nomeada Alta Comissária para a Imigração e Diálogo Intercultural (ACIDI) em Fe-
vereiro de 2008 pelo Primeiro-Ministro José Sócrates. Antes tinha estado oito anos a trabalhar no Serviço
Jesuíta aos Refugiados de Portugal, do qual foi directora. Perita em questões de imigração, falou com a
AI Portugal
Por Cátia Silva

AMNISTIA INTERNACIONAL (AI): Fala-se


muito de imigração, mas os imigrantes
em Portugal representam menos de
5% da população nacional, abaixo da
média europeia que é de 11%.
ROSÁRIO FARMHOUSE (RF): É verdade.
Portugal tem imigrações, mas esta é uma
realidade relativamente recente compa-
rando com outros países da Europa.
AI: Sendo assim, será que temos as nos-
sas fronteiras abertas, como afirmou na
entrevista ao jornal Sol, ao contrário do
que se passa no resto da Europa?
RF: O que queria dizer não é que estamos
com as fronteiras mais abertas do que
os outros países, mas temos uma atitu-
de perante a imigração bastante mais
aberta. Vemos na imigração uma opor-
tunidade para todos.
AI: Mesmo depois dos acontecimentos
do último Verão, de que é exemplo o as-
salto ao BES por dois brasileiros a 7 de
Agosto...
RF: Estes acontecimentos vieram preju-
dicar um pouco todo o trabalho que tem
sido feito. Algumas situações foram com
imigrantes, mas outras não. Não se deve
generalizar. As pessoas que escolhem o
caminho do crime têm de ser responsabili-
zadas, mas a maior parte dos estrangeiros
querem o caminho da integração.
“Os países capazes de AI: Porém, o próprio ex-Ministro da Ad-
viver a interculturalidade ministração Interna, Dr. Ângelo Correia,
disse na edição de 4 de Setembro da re-
vão ser países de paz” vista Visão, que vivemos “uma onda de
© AI Portugal
violência inusitada” que se deve “em
Notícias • Amnistia Internacional 05

grande parte, à vinda a, ou para, Portu-


gal de estrangeiros oriundos de países
onde o crime é mais sofisticado”...
RF: Eu acho que a frase deve ter sido ti-
rada do contexto, porque realmente não
é assim. Se a criminalidade aumentou
no último ano, na verdade esta foi uma
altura em que nem tivemos grande im-
pacto de imigrantes. Estamos é numa
fase muito mais mediática de tudo o que
é a criminalidade, o que dá a sensação
de que há muito mais crimes.
AI: Continuando nas generalizações,
várias pessoas associam a criminali-
dade não apenas aos imigrantes mas
aos imigrantes ilegais. Somos um país
com problemas a este nível e no que diz
respeito ao tráfico de seres humanos?
RF: Portugal não é um país referenciado
como tal. Mesmo ao nível dos imigran-
tes ilegais, eu acho que já tivemos mais.
Por isso, não tem sido necessário, como
© AI Portugal
noutros países, tomar medidas tão nega-
tivas em relação à imigração.
emigrantes e, por isso, tudo o que sempre gostam muito dos portugueses.
“Os imigrantes são apenas defendemos para os nossos, é aquilo que AI: Quais são as principais comunidades
devemos defender para quem cá vem. de imigrantes em Portugal?
5% da população, mas são
AI: Mas será que o fazemos? Penso, por
quase 10% da população exemplo, na população brasileira. A
RF: A primeira é a Brasileira, a segunda
é a Cabo Verdiana e a terceira é a Ucra-
activa” Cônsul Geral do Brasil no Porto, Cláudia niana.
d’Angelo, disse numa entrevista ao por-
tal de informação JPN (Jornalismo Porto AI: Será então que são os números que
AI: Na sua opinião, a nova Lei de En-
Net): “não tenho como julgar o motivo explicam a maior ligação entre os imi-
trada, Permanência e Saída de Es-
de o português discriminar racialmen- grantes brasileiros e a criminalidade?
trangeiros, de 4 de Julho de 2007, veio
facilitar ou inibir o processo de lega- te, mas é um facto [que discrimina os RF: Sim, acho que se deve apenas ao facto
lização de imigrantes? brasileiros]”... de esta ser a população mais numerosa.
RF: Eu acho que, infelizmente, esta é Obviamente que, tendo muito mais gente,
RF: Eu acho que veio facilitar, embora as
uma população que tem sofrido e está maior a probabilidade de acontecer al-
coisas acabem por ser muito mais fáceis
a sofrer bastante discriminação, muitas guma coisa.
teoricamente do que depois na prática.
A meu ver, esta lei talvez seja, de todas vezes via a dita generalização e via uma
as leis, a que conseguiu um equilíbrio má utilização da informação por parte “Temos uma história de
maior. Sem ter uma regularização ex- dos média.
traordinária – pois não podemos estar
emigrantes e, por isso, tudo
AI: Temos então uma sociedade racis-
constantemente a criar regularizações ta?
o que sempre defendemos
extraordinárias, senão, sem querer, es- para os nossos, é aquilo
taríamos a fomentar a ilegalidade -, tem RF: Eu acho não, que a sociedade portu-
guesa não é racista, embora exista em que devemos defender para
uma janela de oportunidade para quem
quer integrar-se. algumas pessoas um racismo latente. quem cá vem”
AI: Mas algumas pessoas optam por não AI: Sendo assim, não se estará a tor-
se legalizar. Será por medo de serem nar mais racista com acontecimentos AI: Já quanto aos imigrantes de Leste,
deportadas? como os referidos? não existem grandes registos de crimi-
nalidade, quando estes, ao contrário
RF: Até aqui não conheço grandes situa- RF: Está a tornar-se mais fechada. Se
dos que vêm dos PALOP, não têm fortes
ções destas. A postura de Portugal tem aquilo que nós sentimos pelos imigran-
ligações a Portugal...
sido sempre de ajudar, se a pessoa não tes fosse igual àquilo que eles sentem
se desleixar, claro. Temos uma história de por nós, estávamos bem, porque eles RF: Na verdade foram das comunidades
06 Notícias • Amnistia Internacional

que melhor se integraram. res), em Julho, que trouxe a ideia de RF: O ACIDI tem uma parceria com As-
que nos bairros onde há mais imigran- sociações de Imigrantes, que estão no
AI: Por outro lado, há um outro fenó-
tes e minorias étnicas se vive como no terreno, para desenvolverem projectos
meno, se assim podemos chamar, que
faroeste... nessa área. E tem também o programa
é o da comunidade chinesa. Não se ou-
Escolhas, que trabalha, neste momento,
vem problemas relacionados com eles RF: Também não é verdade. Eu estive
com 121 projectos de combate à exclusão
e nem sequer são uma população muito na Quinta da Fonte mesmo a seguir ao
social. Depois temos o Observatório da
numerosa (10.000 pessoas), mas há mi- acontecimento e todos me diziam que e-
Imigração, um Gabinete que trabalha a
tos que são criados em torno deles... xistem situações tensas mas não por se-
Interculturalidade com as Escolas,...
rem de uma comunidade ou da outra, é
RF: Eu acho que esta é uma forma de dis-
com determinada pessoa. As relações AI: O objectivo é então integrar pela
criminação também. Há boatos que sur-
de vizinhança não são fáceis em lado interculturalidade e não pela assimila-
gem na Internet que são completamente
nenhum. ção...
irreais. Ou as pessoas se irritam ou têm
alguma inveja e arranjam maneira de os AI: Porém, o próprio Observatório da RF: Exactamente. Somos defensores
querer destruir... Imigração indicou que o bairro da Quin- acérrimos da interculturalidade, que tem
ta da Fonte alojava 500 famílias quando como base o respeito mútuo. Tal como a
AI: É talvez importante que os portugue-
foi construído para 130... multiculturalidade, mas vai mais além.
ses percebam que a vida do imigrante
Respeitamo-nos mas também interagi-
não é fácil... RF: Juntar populações de contextos so-
mos uns com os outros e queremos trans-
cioeconómicos vulneráveis num bairro de
RF: Se fizermos um exercício de memória formar-nos com o melhor de cada um.
grandes dimensões faz com que as rela-
e nos lembrarmos do sofrimento que foi a
ções sejam mais tensas. AI: Até porque, como vimos, há vanta-
partida dos nossos emigrantes, nos anos
gens nisso...
60 e 70, percebemos que não é fácil lar- AI: Mas durante muito tempo alojaram-
gar tudo e partir para o desconhecido. Só -se os imigrantes e as minorias étnicas RF: É bom termos uma sociedade plural.
a grande expectativa de uma vida melhor em bairros sociais, em guetos. Ao longo da História, os nossos poetas
é que poderá dar essa força. Quem vem, – Fernando Pessoa, António Gedeão,
RF: Sim, mas hoje a ideia é diferente,
apenas quer encontrar melhores con- Padre António Vieira – defenderam uma
um pouco por todo o mundo, eu acho. Por
dições para si e para os seus e ser feliz, sociedade intercultural. Eu acho que
todo o mundo, mas principalmente por
que é o que todos nós andamos à procura, esse é o caminho. Os países que forem
toda a Europa, houve um bocado a ten-
penso eu. capazes de viver a interculturalidade vão
dência de fazer guetos. Agora essa teoria
ser países de paz.
AI: É importante acrescentar que alguns foi abandonada.
analistas defendem que sem imigrantes Entrevista completa em:
a Europa não poderá renovar-se, devido
às baixas taxas de natalidade...
“As pessoas que escolhem www.amnistia-internacional.pt
o caminho do crime têm
RF: Os imigrantes são apenas 5% da IMIGRAÇÃO EM PORTUGAL
população, mas são quase 10% da de ser responsabilizadas, • População estrangeira: 435.736 pes-
população activa. São pessoas que vêm mas a maior parte dos soas
• 12 Principais países de origem dos
para contribuir. E se calhar são eles que estrangeiros querem o imigrantes legais: Brasil (66.000 pes-
vão possibilitar que daqui a uns anos
nós portugueses tenhamos reformas, caminho da integração” soas), Cabo Verde (63.000), Ucrânia
(39.000), Angola (32.000), Reino Unido
porque as contribuições que dão para a (23.000), Guiné-Bissau (23.000), Roménia
Segurança Social vêm equilibrar a nossa AI: Uma boa notícia é Portugal estar em (19.000), Espanha (18.000), Moldávia
balança. (14.000), China (10.000), França (10.000),
segundo lugar no ranking dos países
S. Tomé e Príncipe (10.000).
AI: Recorde-se até a situação de Vila de europeus com melhores políticas de
Rei, em 2006, quando a Presidente da integração, segundo o Migration Inte- Dados do Relatório de Actividades 2007:
Câmara, Irene Barata, considerou ser gration Policy Índex 2006, lançado em Imigração, Fronteiras e Asilo, do Serviço de
2007. O que temos para integrar os imi- Estrangeiros e Fronteiras
importante a vinda de imigrantes para
combater a desertificação... grantes?

RF: Foi uma ideia e há outras autarquias RF: O ACIDI, sempre em parceria, tem PARA INFORMAÇÕES CONTACTAR:
várias áreas. Uma muito importante é a Centros Nacionais de Apoio ao Imigrante
a tentarem avançar com mecanismos de Em Lisboa: Rua Álvaro Coutinho, 14
atracção de gente nova. Devo dizer que informação. Há pessoas que não sabiam
1150-025 Lisboa. Tel.: 21 810 61 00
há aldeias no Alentejo que renasceram que se tinham de ir regularizar e alguém No Porto: Rua do Pinheiro, 9
com a vinda dos imigrantes, de Leste, lhes disse para não o fazerem porque se- 4050-484 Porto. Tel.: 22 207 38 10
por exemplo. riam presas, o que não é verdade. LINHA SOS IMIGRANTE
808 257 257 (rede fixa)
AI: Já nas grandes cidades temos situa- AI: E quanto a medidas concretas de 21 810 61 91 (rede móvel)
ções como a da Quinta da Fonte (Lou- integração? WWW.ACIME.GOV.PT
Notícias • Amnistia Internacional 07

RETRATO
Peter Pack, Presidente do Comité Executivo Internacional da Amnistia
Internacional - Um exemplo de activismo
O percurso de Peter Pack poderia bem ser o de qualquer um de nós, dependendo tão-somente de entrega
e dedicação. De defensor dos direitos humanos, passou a membro da Amnistia Internacional e hoje está
à frente dos destinos daquela que é uma das maiores ONG do mundo. Um ano depois de ter assumido a
presidência do Comité Executivo Internacional, Peter Pack conta-nos a sua história
Por Cátia Silva

independência, mas para o activista foi Primeiro, foi membro da Direcção da sec-
quando conheceu a Amnistia Interna- ção do Reino Unido da AI, tinha então
cional. “Lembro-me de, quando era a- pouco mais de vinte anos. Quando entrou
dolescente, ver muitos programas de na casa dos trinta, envolveu-se na cria-
televisão sobre tortura em diferentes ção de uma rede internacional de forma-
países”, conta, referindo como exemplo ção para os elementos da organização e
um sobre a ditadura na Grécia, nos anos dedicou os anos 90 à profissionalização
60 e 70. “Isto teve um grande impacto da Amnistia Internacional. A sua proac-
sobre mim”, confessa. E o acaso tratou tividade contribuiu para que, em 1998,
do resto. “Nos primeiros dias de Facul- fosse indicado para o Comité que estu-
dade ouvi um conferencista da secção dava a missão e o mandato da AI. Foi
holandesa da AI que estava de visita a aqui que viveu a passagem do milénio,
Inglaterra”. Incentivado por ele, juntou- tendo sido uma peça-chave na mudança
-se ao grupo universitário da Amnistia estrutural que então se deu na Amnistia
Internacional, porque esta lhe pareceu Internacional. As publicidades a preto e
© Amnistia Internacional ser “uma organização eficaz na ajuda a branco, que eram a imagem de marca da
pessoas que sofrem terríveis violações organização, deram lugar a uma postura
O britânico Peter Pack tem hoje 48 anos. dos direitos humanos”. mais positiva e optimista, reproduzida
Casado e pai de dois filhos, foi enge- no já conhecido post it amarelo3.
nheiro de motores a jacto, professor e
actualmente é director adjunto de uma OS PRIMEIROS PASSOS
escola secundária. Podia facilmente en- O COMITÉ EXECUTIVO INTERNACIONAL
Em pouco tempo, Peter Pack percebeu a
tregar-se a uma vida pacata na cidade influência da Amnistia Internacional na Depois de ter contribuído para a lufada
inglesa de Shrewbury, dedicando-se ao vida das pessoas e, desde então, nunca de ar fresco que se sentiu na Amnistia
ciclismo, de que tanto gosta, e aos pas- mais deixou a organização. À identifica- Internacional, Peter Pack reunia a expe-
seios pelo meio rural. No entanto, nunca ção com a missão da AI juntou-se desde riência necessária para se candidatar a
foi pessoa de cruzar os braços perante logo o espírito de iniciativa e de lideran- um dos mais altos organismos governa-
os problemas do mundo e em Setem- ça do então jovem universitário. Em pou- tivos da AI: o Comité Executivo Interna-
bro de 2007 assumiu a presidência do cos dias tornou-se presidente do grupo cional. Os seus membros são voluntários
Comité Executivo Internacional da Am- da faculdade e alguns anos mais tarde, e eleitos de dois em dois anos durante
nistia Internacional (AI), um dos prin- já como engenheiro de silenciadores de a reunião bienal da organização, que
cipais órgãos decisórios e governativos motores a jacto, integrou um dos grupos reúne as várias secções da Amnistia
da organização. Até chegar aqui traçou locais da AI no Reino Unido1. Residiu de- Internacional, provenientes de todos os
um longo caminho de luta pelos direitos pois em vários pontos do país, mas man- cantos do mundo. O processo é simples:
humanos. teve-se sempre ligado aos grupos locais, os membros da AI candidatam-se indi-
Tudo começou quando Peter Pack entrou até que, nos anos 80, percebeu que podia vidualmente, são sujeitos a entrevistas e
na Universidade. A maioria dos jovens contribuir de forma mais activa para a depois cada secção vota.
associa esta fase da vida a uma maior definição de políticas da organização2.
08 Notícias • Amnistia Internacional

1. Recorde-se que a Amnistia Internacio-


nal tem sede em Londres, mas ramifica-
-se em várias secções espalhadas por
todo o mundo. Dentro de cada secção,
como na Portuguesa, há grupos locais
por todo o país que ajudam a divulgar
os problemas de direitos humanos. Mais
informações sobre os grupos locais da
secção portuguesa da AI na rubrica “Em
Acção Nacional”.

2. Todos os órgãos decisórios e gover-


nativos da Amnistia Internacional são
constituídos por voluntários, pretenden-
© Amnistia Internacional do-se com isto trazer transparência e
Peter Pack conversa com George A. B. Aggrey da AI Gana, durante a Reunião do Conselho Internacional de 2007. democracia aos processos de tomada de
decisões da organização. Isto acontece
Da votação saem as nove pessoas que tos emails e telefonemas trocados entre não apenas ao nível da sede da AI, mas
até à Reunião seguinte vão conduzir os os nove membros do Comité, saem con- também nas suas secções nos diversos
destinos da Amnistia Internacional. São clusões sobre a forma como a Amnistia países, que são dirigidas por um grupo
sempre membros de países diferentes e Internacional se tem mostrado ao mundo de voluntários eleitos entre os membros
podem ter-se candidatado pela primeira e como deve fazê-lo. Sintetizando, Peter da ONG.
vez ou recandidatarem-se (até um máxi- Pack enumera três tarefas principais
mo de três vezes consecutivas). Em 2007 desenvolvidas no último ano. Primeiro,
Peter Pack candidatou-se e foi um dos cumprir as orientações da reunião bie- 3. A Amnistia Internacional foi criada por
eleitos, bem como a sueca Christine nal, como executar o plano estratégico Peter Benenson em 1961 e a sua imagem
Pamp, o norte-americano David Stamps, integrado, monitorizar a democracia no começou por estar associada aos prisi
a canadiana Deborah L. Smith, o turco seio da organização e conceber um novo oneiros de consciência. Perante a ideia
Levent Korkut, a holandesa Lilian Gon- sistema financeiro para a AI. Em segun- das prisões, foi criado como logótipo
çalves-Ho Kang You, o italiano Pietro An- do lugar, o Comité teve de acompanhar uma vela colocada sobre um fundo ne-
tonioli, a argentina Soledad Garcia Muñoz o Secretariado Internacional4, a parte gro. Na mudança de século, a Amnistia
e o neo-zelandês Vanushi Sitanjali Raja- operacional da ONG, e a sua Secretária- Internacional percebeu que era preciso
nayagam. Foram eles que escolheram o Geral, Irene Khan, na aplicação do seu olhar o mundo de uma forma diferente.
britânico para presidir aos trabalhos do plano anual. Por último, foi preciso o Há direitos humanos que continuam a
Comité. Comité organizar-se melhor e encontrar ser violados, mas a sociedade está hoje
formas eficazes de comunicação interna. mais atenta e as novas tecnologias per-
EM JEITO DE BALANÇO Depois de tudo isto, muita coisa está fei- mitem que um pessoa em Portugal con-
ta, mas muito ficou ainda por fazer. Neste siga ajudar um prisioneiro do outro lado
Numa altura em que passa um ano desde do mundo. Assim surgiu a imagem do
segundo ano de mandato, Peter Pack tem
que assumiu a Presidência do Comité post it amarelo, que nos relembra todos
à sua frente um projecto ambicioso da
Executivo Internacional, em Setembro de os dias da necessidade e urgência de
Amnistia Internacional: a grande cam-
2007, Peter Pack afirma que a maior mu- agirmos individualmente, enquanto ci-
panha de 2009, centrada na Dignidade
dança que sentiu, “pessoalmente, foi ter dadãos do mundo.
Humana e na Pobreza, que são também
de focar-me na estratégia organizacio-
fortes violações aos direitos humanos. O
nal da AI, ao invés de me concentrar na
Comité tem agora de definir prioridades
política de direitos humanos, que tinha 4. A Amnistia Internacional pode ser di-
e, perante isto, avizinham-se muito mais
sido a minha especialidade”. Isto porque vidida em duas estruturas principais,
horas de trabalho voluntário, que não de-
o papel do Comité é, essencialmente, o totalmente interdependentes. Por um la-
movem o activista. “Felizmente, a minha
de providenciar orientação e liderança ao do, há a parte política e de definição de
família já se habitou a que dedique mui-
movimento da AI em todo o mundo. Na estratégias, desenvolvida por membros
to tempo à AI”, congratula-se, e a escola
prática, explica, isto traduz-se em muitas voluntários da AI, como é o caso do Co-
onde trabalha percebe a importância do
horas de debate de ideias. Os membros mité Executivo Internacional. Por outro,
seu papel. Peter Pack promete então
do Comité reúnem-se pelo menos quatro há a parte operacional, contratada, de-
manter a dedicação e o empenho à causa
vezes por ano, para “ouvir relatos sobre nominada de Secretariado Internacional,
da Amnistia Internacional, sendo um ver-
acontecimentos do mundo exterior, bem que executa as directivas dos órgãos de-
dadeiro exemplo para todos os cidadãos
como sobre o progresso dentro da AI. A cisórios. Isto acontece tanto na sede da
do mundo.
partir daí, decidimos”. AI, como nas suas secções nacionais.
Destas e de outras reuniões, e dos mui-
Notícias • Amnistia Internacional 09

EM FOCO
ANGOLA: NA MIRA DOS
DIREITOS HUMANOS
No início de Setembro os angolanos pu- activistas de direitos humanos. Em 2006
deram votar, pela primeira vez em 16 a- chegou mesmo a encerrar a Organização
nos, para eleger os seus representantes Não Governamental Mpalabanda, acu-
Parlamentares. Aquele que podia ser um sando-a de incitar à violência, e em Abril
marco positivo para Angola, permitiu, deste ano mandou fechar o Alto Comis-
pelo contrário, levantar o véu que cobria sariado da ONU para os Direitos Huma-
violações graves do direito nacional e in- nos.
ternacional, denunciou a Amnistia Inter- Em meados de Setembro, Angola tornou
nacional. a captar as atenções mundiais ao conde-
Tendo em vista a transparência do pro- nar o ex-correspondente da rádio “Voz da
cesso eleitoral, em final de Agosto a AI América”, José Fernando Lelo, a 12 anos
apelou aos observadores internacionais de prisão. Detido em Novembro de 2007,
no terreno e a todos os candidatos parla- esteve preso até Março deste ano sem
mentares que tivessem em linha de conta qualquer acusação formal, tendo então
os direitos humanos. Na manhã da vota- sido acusado de atentar contra a segu-
ção, a 5 de Setembro, a chefe da missão rança nacional e instigar revoltas. Num
da UE denunciou problemas organizacio- julgamento onde nada ficou provado, o
nais graves, mas algumas horas depois a réu foi declarado culpado. A Amnistia In-
situação foi dada como normalizada. ternacional acredita que José Fernando
Lelo é um prisioneiro de consciência, a
Importa acrescentar que o processo
cumprir pena por expressar a sua opinião
eleitoral esteve envolto em polémica an-
de forma pacífica.
tes mesmo de ter começado, quando veio
a público que o executivo violava normas
internacionais, como a liberdade de as-
sociação e de expressão, ao perseguir © Amnistia Internacional

ARGENTINA PÕE FIM À PENA DE ITÁLIA CONTINUA A DISCRIMI- dades. Perante a situação, a Amnistia
MORTE NAR ETNIA CIGANA Internacional vai enviar uma petição ao
Ministro do Interior Italiano, que está dis-
Em Agosto o Parlamento Argentino de- As autoridades italianas têm vindo a ponível na parte do Notícias AI no nosso
cidiu, por unanimidade, pôr fim ao Códi- adoptar medidas que discriminam a mi- site, em www.amnistia-internacional.pt.
go de Justiça Militar de 1951, acabando noria étnica dos ciganos, conhecidos por
com a pena de morte mesmo para crimes Roma, com base numa alegada política
cometidos por militares. de segurança e de redução da criminali-
dade.
Apesar da última execução no país datar
de 1916, só a revogação da lei represen-
Entre as mais controversas inclui-se a
ta o fechar de um ciclo, acabando com os
recolha de impressões digitais entre a
Tribunais Militares e transportando todos
comunidade Roma, que já foi criticada © Amnistia Internacional
os crimes para os Tribunais Civis.
pelo Parlamento Europeu. A retórica
A Argentina faz assim subir para 137 o anti-ciganos aumentou de tom com a
número de países que já aboliram a pena reeleição de Silvio Berlusconi, em Abril
de morte, na lei ou na prática, servindo deste ano, e tem espalhado o ódio entre
de exemplo a estados americanos como os civis, que nos últimos meses incen-
os Estados Unidos da América, a Guate- diaram os campos habitados por esta
mala e vários países do Caribe. minoria, nos arredores das grandes ci- © Amnistia Internacional
10 Notícias • Amnistia Internacional

DOSSIER
Relatório Anual 2008 - Os Direitos Humanos no Mundo
A Amnistia Internacional publica anualmente um relatório onde revela as condições de direitos humanos
em 150 países e territórios, com base no trabalho desenvolvido durante esse ano pelos seus investiga-
dores para as diferentes regiões. Resumimos aqui os principais problemas de cada continente entre
Janeiro e Dezembro de 2007
Por Laura Bastos

EUROPA E ÁSIA CENTRAL


Direitos humanos
manchados por voos de
rendição
AMÉRICAS
A “Guerra ao terrorismo” ÁSIA-PACÍFICO
Economia não ajuda os
direitos humanos

ÁFRICA MÉDIO ORIENTE E


Direitos humanos NORTE DE ÁFRICA
permanecem um Iraque mantém-se no
sonho centro das atenções

ÁFRICA larmente jornalistas, vítimas de intimi- presidente Bush autorizou mesmo a con-
DIREITOS HUMANOS PERMANECEM UM dação e assédio. tinuação deste programa, que vai contra
SONHO os princípios da Declaração Universal
Não houve melhorias ao nível da violên-
dos Direitos Humanos.
cia sobre as mulheres, que é frequente
A luta pelo poder continua a dominar a em tempo de paz mas mais visível nos A América Latina continuou a dar passos
vida política africana, apesar de alguns países em conflito, como no Burundi, largos para acabar com a violência sobre
países terem dado passos em direcção na Costa do Marfim, na Serra Leoa e no as mulheres e alcançar a igualdade en-
à democracia. Em 2007, os conflitos ar- Uganda. Em vários estados há registos tre os géneros. Contudo, a discriminação
mados internos assolavam grande parte de violência policial e é também comum passou a sentir-se com base na raça,
do continente, acompanhados por sérios a impunidade para os violadores dos di- etnia, orientação sexual e estrato social.
atentados aos direitos humanos, como reitos humanos. Em África há apenas a São disto exemplo os povos indígenas,
assassinatos, torturas e violações. Uma registar a boa notícia relativa à abolição que continuam a ver os seus direitos se-
das situações mais graves viveu-se na da pena de morte no Ruanda. rem violados. Isto apesar dos governos
Somália, tendo milhares de pessoas ten- Latino-americanos e Caribenhos terem
tado fugir do país. Porém, as autoridades sido pressionados a combater as desi-
Quenianas fecharam as suas fronteiras AMÉRICAS gualdades sociais, tendo implementado
e enviaram de volta os refugiados que A “GUERRA AO TERRORISMO” alguns programas de redução da pobreza
tinham conseguido entrar no país, vio- bem-sucedidos.
lando o direito internacional. Depois de seis anos de “guerra ao terro- Noutros países, como o Brasil, El Salva-
Em África, os Direitos Económicos e So- rismo”, que começou com o 11 de Se- dor, Guatemala, Haiti e Jamaica, man-
ciais continuam uma ilusão. Em vários tembro, os Estados Unidos da América tém-se a impunidade para as violações
países suprimiram-se todas as formas continuaram em 2007 a manter pesso- de direitos humanos perpetrados por a-
de dissidência e em muitos a liberdade as em detenção militar por períodos in- gentes estatais, numa clara evidência
de expressão é reprimida, sendo os de- definidos, sem acusações formadas ou de sistemas judiciais corruptos. No que
fensores dos direitos humanos, particu- julgamentos justos. No mês de Julho, o respeita à pena de morte, os Estados
Notícias • Amnistia Internacional 11

Unidos mantiveram-se contra a onda EUROPA E ÁSIA CENTRAL aumentado, no seio da “guerra ao terro-
abolicionista do resto do continente, DIREITOS HUMANOS MANCHADOS POR rismo”, as detenções forçadas sem di-
apesar de Nova Jérsia se ter tornado, VOOS DE RENDIÇÃO reito a julgamento. Mais de 60.000 pes-
a 17 de Dezembro, no primeiro estado soas foram detidas em 2007 no Iraque, e
(desde 1965) a abolir esta prática. Para noutros países – como o Qatar, a Arábia
além dos Estados Unidos, foram impos- Os principais atentados aos direitos hu- Saudita e os Emirados Árabes Unidos
tas sentenças de morte nas Bahamas e manos na Europa e na Ásia Central pren- – são comuns os castigos cruéis e de-
em Trindade e Tobago, mas só os norte- deram-se com a cumplicidade com os sumanos contra os alegados terroristas.
-americanos cumpriram as execuções. voos de rendição norte-americanos e,
consequentemente, com a prática de tor- Há ainda a destacar o conflito armado
tura, maus tratos e desaparecimentos nos territórios disputados pela Palestina
e por Israel, com atentados de ambos os
ÁSIA-PACÍFICO forçados. A “guerra ao terrorismo” e a
lados a provocarem feridos e mortos en-
ECONOMIA NÃO AJUDA OS DIREITOS segurança têm justificado também res-
trições à imigração e aos direitos dos tre os civis. No ano passado, com a ocu-
HUMANOS
refugiados. Consequentemente, cresce o pação da Faixa de Gaza pelo Hamas,
número de imigrantes ilegais e o tráfico a comunidade internacional cessou a
O crescimento económico desenfreado de seres humanos. ajuda humanitária e Israel montou um
foi a característica mais marcante na cerco, deixando 1,5 milhões de pessoas
Ásia-Pacífico em 2007, mas este boom Em países como a Turquia, o Uzbe- sem acesso a alimentação e a medica-
não trouxe melhorias para os direitos hu- quistão, a Bielorrússia, o Azerbeijão e a mentos.
manos, tendo mesmo contribuído para o Rússia, o espaço para as vozes dissiden-
tes diminuiu, sendo comuns as fortes A maioria dos governos do Médio Oriente
aumento do fosso entre ricos e pobres, o
ameaças à liberdade de expressão e de e do Norte de África mantiveram em 2007
que tem originado tensão social e uma
associação. Na Ásia Central e na Europa restrições à liberdade de expressão, sen-
maior marginalização dos menos afor-
persistiu a discriminação, comummente do também prática comum a violência
tunados. Além disso, a crescente explo-
dirigida à etnia Roma (ciganos), mas sobre as mulheres, que continua enrai-
ração dos recursos naturais tem levado
também, por vezes, tendo por base a zada.
a despejos forçados, causando milhares
de sem abrigo. orientação sexual. Nos dois continentes
continuam a registar-se elevados índices
A região permaneceu na linha da frente de violência doméstica, principalmente
na “guerra ao terrorismo” norte-ameri- contra as mulheres, sendo que só em al-
cana, o que tem precipitado conflitos guns países se tem caminhado para leis
armados que afectam muitos civis. É que protejam as vítimas.
disto exemplo o Paquistão, cujo processo
eleitoral ficou manchado de sangue, ten- Em 2007 continuou a impunidade para
do culminado no assassinato de Benazir os crimes cometidos na ex-Jugoslávia
Bhutto. A escalada da violência, a inse- durante os anos 90 (só em 2008 foi cap-
gurança, a repressão política e a res- turado Radovan Karadzic). Houve, no
trição da liberdade de expressão foram entanto, progressos ao nível da pena de
uma constante em vários países, como morte. Em Maio, o Kazaquistão e o Ta-
prova a mediática situação no Myanmar. jiquistão diminuíram o número de acu-
sações passíveis de serem julgadas co-
A violência sobre as mulheres continua mo crimes capitais. E um mês depois o
também a ser uma realidade em toda a Quirguizistão e o Uzbequistão substi-
região, enquanto os seus perpetradores, tuíram a pena de morte pela prisão per-
incluindo agentes policiais e pessoas pétua. A Bielorrússia manteve-se o único
no poder, permanecem impunes face país europeu onde esta forma de conde-
à justiça. De Janeiro a Outubro, só na nação persiste.
província de Sindh (Paquistão) 183 mu-
lheres foram mortas por “mancharem
a honra da família”. A pena de morte é
aplicada em muitos estados, sendo par-
MÉDIO ORIENTE E NORTE
ticularmente preocupante o secretismo DE ÁFRICA
em seu redor. Por exemplo, os dados so- IRAQUE MANTÉM-SE NO CENTRO DAS Para informações mais detalhadas sobre
ATENÇÕES os Direitos Humanos no mundo, consultar
bre a execução penal na China são con- o sítio do Relatório Anual de 2008 da
siderados segredo de estado, o que faz Amnistia Internacional em:
com que o número real de execuções pos- O principal problema na região continua http://report2008.amnesty.org/
sa ser muito maior que as 407 divulga- a ser o conflito no Iraque, que tem pro- Aqui poderá encontrar dados pormeno-
das em 2007. rizados sobre cada um dos 150 países e
vocado assassinatos, torturas e milhões territórios investigados.
de refugiados e deslocados. Têm também
12 Notícias • Amnistia Internacional

O RELATÓRIO
ANUAL INTERNACIONAL
DA AMNISTIA
A situação dos Direitos Humanos em Portugal
Por Armando Borlido

© Organização das Nações Unidas


Eleanor Roosevelt, activista dos direitos humanos e esposa do presidente norte-americano Franklin Roosevelt, segura um poster da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adoptada a 10 de Dezembro de
1948 pelas Nações Unidas.

Todos os anos, em Maio, a Amnistia Inter- Portugal é um dos estados que ainda da associação “O Companheiro” escreve
nacional publica o seu Relatório Anual. tem muito que trilhar no que respeita sobre a Violência policial nas prisões.
Nele cabe apenas uma ínfima parte das aos Direitos Humanos. Ano após ano, o Elisabete Brasil, da UMAR, traz-nos um
violações de direitos humanos no mundo nosso país continua a ser referenciado depoimento sobre Violência sobre as
– apenas são relatadas as situações que nos relatórios da AI e 2007, infelizmente, mulheres. Carlos Coelho, deputado ao
objectivamente os investigadores da AI não foge à regra. A violência policial nas Parlamento Europeu, apresenta-nos um
puderam analisar e comprovar. prisões, a violência sobre as mulheres, a texto a propósito da “guerra ao terro-
“guerra ao terrorismo” e as migrações rismo”. Finalmente, José de Melo Ale-
O Relatório da AI é, pois, uma espécie
constituem os temas focados no Relatório xandrino, professor da Faculdade de Di-
de barómetro dos Direitos Humanos no
relativo ao ano passado. reito da Universidade de Lisboa, aborda
Mundo. E no ano em que se comemoram
a temática das Migrações.
os 60 anos da aprovação da Declara- Por se tratarem de questões que mere-
ção Universal dos Direitos Humanos, o cem a atenção e reflexão por parte das Com a publicação destes artigos procu-
documento mostra-nos que ainda há um autoridades e da sociedade em geral, ramos, assim, incluir a perspectiva de
longo caminho a percorrer na maioria convidámos quatro especialistas a es- pessoas externas à Amnistia Internacio-
dos países. crever sobre cada um desses temas. nal que se debruçam sobre as questões
José de Almeida Brites, administrador de Direitos Humanos.
Notícias • Amnistia Internacional 13

VIOLÊNCIA POLICIAL NAS PRISÕES


Do isolamento à autonomia do recluso
Por José de Almeida Brites, Administrador da Associação O COMPANHEIRO

© Anjum Naveed/AP/PA Photo

Longínquo vai o tempo em que o isola- terpessoal, responsabilização e promo- associados ao mundo urbano, um mundo
mento do indivíduo, como medida re- vendo a autonomia do recluso; Alteração em que o tempo não mais tem a base
pressiva, era entendido, como a única ao teor substantivo e material da lei da ampulheta, nada estagna, tudo se
forma de castigar e punir. Na passagem (Código Penal) e adjectivo (Código Pro- desenvolve através de variações adap-
dos últimos anos, orquestraram-se po- cesso Penal), visando a minimização do tativas do homem em relação ao seu
tenciais encenações de mudança num sofrimento (do recluso) e maximização meio, uma adaptação que por vezes não
Sistema Penitenciário que se pretende do lucro (da sociedade). encontra significado na família urbana,
mais igualitário, humanizado e ressoci- onde o espaço territorial, a prisão, ONG´s,
A materialização destas medidas revela-
alizador, objectivando a inclusão – numa IPSS´s e outros é momentâneo, de redu-
-se, no entanto, num olhar suslaio do ci-
clara assumpção do que se designa ou zida durabilidade, sem integração numa
dadão anónimo, insuficiente e em muitos
pretende designar de Justiça Restaura- rede social que jaz nas memórias de ge-
aspectos infrutífera no desenvolvimento
tiva. rações anteriores.
e na promoção das próprias competên-
Novas medidas foram estudadas e im- cias do recluso que, além da privação Residirá então aqui o epicentro da razão
plementadas: Nova humanização do es- da liberdade, se vê num sistema per si pelo qual continuamos a assistir a uma
paço de reclusão, agora, mais atractivo coarctado a potenciais mudanças numa violência física e psicológica gratuita,
e menos desumanizante e estigmati- previsibilidade de reincidência. camuflada nas nossas prisões? O que
zante; Formação especializada e técnica mudou?... É suficiente para pensar que
Nunca antes o homem moderno se cons-
aos principais agentes nas prisões, in- estamos no caminho certo? E o paradigma
ciencializou tanto para que a existência
terventores na segurança, educação e da (im)punidade que assiste aos polícias
da utopia se torne real, a própria anti-
formação dos reclusos, versando maior e guardas prisionais? E a ética e os direi-
-utopia terá forçosamente de existir e
harmonia no relacionamento intra e in- tos humanos? E o que falta fazer?...
com ela toda a criminalidade e distúrbios
14 Notícias • Amnistia Internacional

São todavia, demasiadas perguntas para creditar que o meio é úbere na criação e
uma resposta única e em uníssono; onde estimulação de experiências diversas, o UNIVERSO PRISIONAL PORTUGUÊS
(no segundo trimestre de 2008)
interagem variadíssimos actores soci- que constitui um desafio crucial às ca-
ais, com sensibilidades que nem sem- pacidades adaptativas do homem e que • 11.152 pessoas: 10.427 homens e 725
pre convergem naquilo que será a nosso o fenómeno carceral, além de cimentar os mulheres
ver o objectivo da reinserção, balizados factores intrínsecos, per si não justifica
por inúmeros: Tratados prisionais (ONU, nem conduz à ontogenia da violência mas Dados da Direcção-Geral dos Serviços
1957); Regras Penitenciárias (Conselho que na combinação com os factores exter- Prisionais
da Europa em 2006); Medidas Privativas nos, desajustados e desadaptados: con-
de Liberdade (Dec.-Lei nº 265/79 de 01 duzem ao crime. A urgência de profundas
Um relatório do Comité Europeu para
de Agosto com alterações ao DL nº 49/80 alterações colapsam na sua maioria em a Prevenção da Tortura e das Pe-
de 22 Março); Lei Orgânica, manuais e medidas estruturais enquistadas numa nas ou Tratamentos Desumanos ou
regulamentos internos dos Estabeleci- legislação, elaborada com fins inclusivos Degradantes, publicado a 25 de Janeiro
mentos Prisionais; Comunicação social, e com práticas punitivas, secundarizando de 2007, denuncia casos de violência
mediatização e seu respectivo ruído so- a promoção de competências pessoais e policial nas visitas realizadas em 2003
às instalações prisionais portuguesas.
cial… Enfim! Resta apregoar o excesso sociais do recluso. Tornam-se, deste modo
de “zelo” policial, infinitas vezes des- emergentes metodologias de intervenção, Relatório disponível em www.cpt.coe.
mesurado e incompreensível; denúncias visando um maior aproveitamento das int/documents/prt/2007-13-inf-fra.
de maus tratos e as condições desuma- capacidades intrínsecas do indivíduo, htm#_Toc78181879
nas em que alguns reclusos permanecem potenciando mudança e maior probidade
nos EP´s – Espaço de gerações de conflito nas políticas sociais.
e gestão de equilíbrios.
Anos de trabalho diário com reclusos, ex-
reclusos e suas famílias, permitem-nos WWW.COMPANHEIRO.ORG

VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES


Violência Doméstica
Por Elisabete Brasil, da UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta

das mulheres, quer ocorra no espaço pú- Porém, é sobre a violência doméstica que
blico, quer privado, situando o tema da a intervenção em Portugal se tem centra-
violência contra as mulheres muito além do e na qual o investimento do Estado e
da que é praticada nas relações de in- das políticas sociais se têm desenvolvi-
timidade ou familiares. do, criando respostas de atendimento
e acolhimento, assim como legislação,
É esta a perspectiva da UMAR que en-
planos nacionais e campanhas de sen-
tende a violência exercida contra as mu-
sibilização.
lheres como um fenómeno estrutural,
Não podemos falar de violência contra um facto social e não apenas como um Neste contexto, faz pois sentido par-
as mulheres e de violência de género, fenómeno baseado em comportamentos ticularizar a violência exercida contra as
sem falar daquela que contra as mu- individuais. Por este facto, estrutura a mulheres no espaço doméstico, vulgo vi-
lheres ocorre no espaço doméstico, uma sua acção e discurso no conceito de vio- olência doméstica. Ao que a esta diz res-
vez que continua a ser importante dar lência de género, justificando a violência peito verificamos em Portugal, em espe-
visibilidade aos maus tratos perpetra- contra as mulheres independentemente cial após 2000, ano em que este tipo de
dos contra as mulheres na esfera do- do espaço em que a mesma ocorra, em crime assumiu natureza pública, a um
méstica, pelos maridos e companheiros. factores que assentam em estereóti- acréscimo de visibilidade do fenómeno
Não obstante, não podemos olvidar que pos, identificação de papéis e valores para o que concorrem a acção das ONG,
quando falamos de violência contra as sociais de género que desempoderam e o enfoque dos média sobre a temática,
mulheres, esta compreende qualquer discriminam as mulheres e que criam e estudos e investigações académicas, a
acto de violência baseada no género que perpetuam as desigualdades que sobre aprovação e implementação de Planos
resulte, ou possa resultar, em danos ou elas ainda persistem, pelo simples facto Nacionais Contra a Violência doméstica,
sofrimentos físicos, sexuais ou psíquicos de terem nascido mulheres. campanhas de prevenção, assim como o
aumento dos recursos nesta área.
Notícias • Amnistia Internacional 15

© Craig Hull
Poster a propósito da campanha “Acabar com a Violência sobre as Mulheres”, criado pela secção húngara da Amnistia Internacional.

Correspondentemente a este somatório, Neste sentido, defendemos a continu- ção, ao desenraizamento social, cultural,
tem-se assistido a um aumento na pro- ação e aprofundamento das demandas e laboral e familiar, oferecendo ao perpe-
cura dos serviços de apoio e protecção, acção em torno da violência doméstica, trador do crime, o recato do lar.
assim como a um aumento nos registos de defesa de direitos humanos funda-
das forças policiais no que a este tipo de mentais e à sua plena fruição. Defende-
crime diz respeito. Contudo, não existem mos ainda o ajustamento do código de WWW.UMARFEMINISMOS.ORG
indicadores que nos permitam concluir processo penal português que, a não ser
que este é um fenómeno em escalada, corrigido, perpetuará o recurso às casas
mas antes que existe uma maior confi- de abrigo como única forma eficaz de
ança no sistema de apoio e uma maior protecção de milhares de mulheres e cri-
percepção da violência como crime, não anças, votando-as a uma dupla vitima- José Félix Duque, Assessor Técnico da Di-
como um fado. recção, Associação Portuguesa de Apoio à
Vítima (APAV), a propósito de Violência so-
bre as mulheres e Violência Doméstica
“A visibilidade da violência doméstica
*Dados retirados do Memorando Síntese: Resultados do Inquérito à Violência de Género, de 2008. Um estudo coordenado tem aumentado na última década, em
por Manuel Lisboa e realizado pela SociNova/CesNova, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova Portugal. Não significa necessariamen-
de Lisboa. te que a violência doméstica, em si,
tenha aumentado. Se, numa sociedade,
a violência doméstica passa a ser um
DADOS SOBRE VIOLÊNCIA CONTRA AS DADOS SOBRE VIOLÊNCIA CONTRA OS crime público e se há um debate cons-
MULHERES (DE 2007) * HOMENS (DE 2007) * tante sobre os seus mais variados
aspectos, é natural que as vítimas sin-
• Uma em cada três mulheres indica ter • 49,7% dos inquiridos dizem ter sido víti- tam maior segurança e estejam mais
sido vítima de violência, ou seja, 38,1% mas de violência (com mais de 18 anos). informadas sobre os seus direitos. Daí
das inquiridas (com mais de 18 anos, no Porém, esta é uma violência de natureza que denunciem, elas próprias, o crime,
Continente) diferente da exercida sobre as mulheres, ou crimes, de que foram ou estão a ser
não se baseando no género vítimas.
• Tipo de violência exercida: física
(22,6%), sexual (19,1%), psicológica • Tipo de violência exercida sobre os Os dados da APAV, que desde 1990
(53,9%) e discriminação social (52,9%) homens: física (41,7%), sexual (6%), tem vindo a recolher e a publicar da-
psicológica (60,8%) e discriminação dos estatísticos fidedignos, apontam
• Metade das mulheres que sofrem violên-
social (18,7%) para um crescendo da visibilidade e
cia recebem-na sob a forma de violência
doméstica, ou seja, é em casa que há • A probabilidade de violência doméstica não do aumento da violência domésti-
maior probabilidade de serem vítimas de sobre os homens é três vezes menor do ca. Os dados disponíveis quanto ao
violência que sobre as mulheres. Os locais mais primeiro semestre de 2008, indicam
prováveis de ocorrer violência sobre os que continua a existir uma maioria de
• Principais autores da violência sobre mulheres vítimas (86%) em 3.659 pro-
homens são os espaços públicos ou o local
as mulheres: os homens (mais de 75% cessos de apoio iniciados. Nestes pro-
de trabalho
dos casos), predominantemente os côn- cessos, foram maioritários os crimes
juges, companheiros ou namorados (ou ex) • Principais autores da violência sobre de violência doméstica: 7803 crimes
os homens: homens ou mulheres, em (89,7%)”.
igual percentagem, predominantemente
desconhecidos e colegas Site Oficial: WWW.APAV.PT
16 Notícias • Amnistia Internacional

LUTA CONTRA O TERRORISMO


E protecção dos direitos fundamentais
Por Carlos Coelho, Deputado ao Parlamento Europeu

• a existência de prisões secretas; às instituições europeias a capacidade


• a utilização de tortura. de verificar a existência de um risco um
risco manifesto de violação grave de al-
O Parlamento Europeu apurou que, ao
gum desses princípios por parte de um
contrário do que alguns tentaram afir-
Estado-Membro definindo os procedi-
mar (numa lógica de seguidismo cego
mentos e as sanções aplicáveis).
face a Administração Bush), houve mes-
mo ilegalidades cometidas na Europa em
nome da oportunidade da luta contra o
terrorismo. Mesmo com a má vontade e
recusa de colaboração de alguns Go-
O primado da dignidade humana e a pro- vernos, o Parlamento Europeu investigou
tecção dos seus direitos fundamentais e chegou a conclusões.
não admite relutâncias ou hesitações.
Quando se começa a ceder sabe-se como Houve países europeus e responsáveis
começa mas não se sabe como termina. políticos, juristas, polícias e agentes dos
serviços secretos envolvidos em prisões
E a luta contra o terrorismo, tal como a secretas, em práticas de tortura e em de-
luta contra todas as outras formas de ac- saparecimentos forçados violando a lei
tividade criminosa deve ser feita dentro internacional e o direito nacional.
dos mecanismos do Estado de Direito,
respeitando a Lei e não desprezando os Com uma confortável maioria, o Parla-
Direitos Humanos. mento Europeu aprovou diversas reco-
mendações às Instituições europeias e
Atropelar os Direitos Fundamentais gera aos Estados-Membros para garantir que © Steve Dupont
o arbítrio, maltrata inocentes, desacredi- o mesmo atropelo aos Direitos Funda- Um guerrilheiro talibã no Afeganistão.
ta a Justiça e leva agentes das forças da mentais não se possa repetir.
ordem a violarem a Lei.
O que urge agora fazer é muito simples: • Pelo menos 1.245 voos operados pela
Invocar a eficácia da luta contra o ter- CIA sobrevoaram o espaço aéreo europeu
rorismo para justificar a violação dos Di- Analisar em que medida as instituições ou fizeram escala em aeroportos europeus,
reitos Humanos é conceder uma primeira europeias e os Estados-Membros deram entre o final de 2001 e o final de 2005.
vitória aos terroristas que nos obrigariam ou não consequência ao que aprovámos
• Em Portugal registaram-se 91 escalas
a ceder os nossos valores essenciais e a em Fevereiro de 2007 e, no caso em que de aeronaves operadas pela CIA e foi
baixar o nível de respeito pelas pessoas nada ou pouco foi feito, perguntar sim- demonstrada uma profunda preocupação
aos patamares de desrespeito de que eles plesmente: porquê? pelo propósito de tais voos. Pelo menos
são um expoente. Também aqui temos de três provinham ou destinavam-se a
Sei que algumas vozes se irão levantar Guantánamo.
manter o princípio de que os fins não questionando a nossa decisão de inter-
justificam os meios. pelar países e instituições mas estou de
Dados do relatório final do Parlamento
Foi em nome destes princípios comuns consciência tranquila: as pessoas para Europeu sobre a alegada utilização dos
que o Parlamento Europeu investigou mim estão no centro da actividade po- países europeus pela CIA para trans-
o que se passou com o programa desi- lítica. É delas que recebemos o mandato, porte e detenção ilegal de prisioneiros
gnado por “Extraordinary Renditions” e é para elas que temos de trabalhar, são (aprovado em Fevereiro de 2007).
as acções da CIA na Europa. os seus direitos que temos que proteger e
é algo para que os Tratados nos dão com-
Procurámos apurar o que de facto acon- petência (os artigos 6.º e 7º TUE recor-
Informação sobre as Detenções Secretas
teceu e assegurar que medidas e pre- norte-americanas e o papel da Europa, no
dam que a União assenta nos princípios relatório da Amnistia Internacional “State
cauções sejam adoptadas de forma a da liberdade, da democracia, do res- of Denial: Europe’s Role in Rendition and
impedir (ou tornar muito mais difícil) que peito pelos direitos do Homem e pelas Secret Detention”, de Junho de 2008.
o mesmo ocorra novamente no futuro. liberdades fundamentais, bem como do Acessível em:
www.amnesty.org/en/library/info/
Em causa estiveram: Estado de direito, princípios que são co-
EUR01/003/2008/en
• o transporte ilegal de prisioneiros; muns aos Estados-Membros e atribuem
Notícias • Amnistia Internacional 17

MIGRAÇÕES
Por José de Melo Alexandrino, Professor na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

© Refugee Solidarity Committee


Este contentor foi usado para deter imigrantes ilegais na Grécia, num tratamento cruel, desumano e degradante.

No quadro da União Europeia, foi só após posto nas condições de integração, no


preventiva, a previsão de limites à expul-
a entrada em vigor do Tratado de Ames- combate ao tráfico de pessoas e na igual-
são e a proibição de expulsão para país
terdão (1999) que se definiu a neces- dade de tratamento, bem como o esta-
onde a pessoa possa ser perseguida ou
sidade de estabelecer uma abordagem belecimento de regras e mecanismos de
sofrer tortura, tratamento desumano ou
coerente das políticas de asilo e de imi- cooperação entre os Estados membros;
degradante) e sobretudo o novo regime
gração. de sinal contrário são um evidente fecha-
de protecção concedido às vítimas de
mento da Europa e um excesso de dureza
Foram deste modo desenhados e aprova- tráfico de seres humanos e, em geral, a
no que se refere à imigração ilegal (por
dos, na última década, diversos instru- atenção dada aos menores.
via da burocratização nas admissões, de
mentos tendentes à adopção de princípios
uma certa tendência criminalizadora ou Entre os seus pontos fracos contam-se
e procedimentos comuns em matéria de
do regime de detenção). todavia o excesso de regulação, a in-
asilo, gestão dos fluxos migratórios, inte-
flação de regimes especiais (o que vem
gração de cidadãos de países terceiros e Tal como no plano político, também as
agravar a amplitude dos poderes discri-
luta contra a imigração ilegal – sem que leis de imigração portuguesas denotam
cionários da administração) e a tradicio-
se possa todavia falar de uma “lei eu- uma franca sintonia com as estratégias
nal debilidade de articulação entre a lei
ropeia da imigração”, desenvolvendo a europeias, sobretudo no que respeita ao
e as estruturas sociais.
União Europeia uma acção complemen- padrão de resposta ao problema da imi-
tar da acção dos Estados (mesmo após o gração ilegal.
Tratado de Lisboa). • A 4 de Julho de 2007 foi aprovada em
Induzida pelo Direito europeu e marcada Portugal a Lei n.º 23/2007, que regula a
Embora procurando adoptar uma pers- por uma intenção de flexibilizar as regras Entrada, Permanência, Saída e Afastamen-
pectiva abrangente dos problemas, nos e os procedimentos aplicáveis, a nova lei to de cidadãos estrangeiros, comummente
conhecida como a nova Lei da Imigração.
últimos anos o acento tónico parece ter de imigração (Lei n.º 23/2007, de 4 de
sido posto na definição de uma política Julho) tem entre os seus pontos fortes a • A 18 de Junho de 2008, o Parlamento
de afastamento e repatriamento (cul- redução do número dos títulos de residên- Europeu aprovou a Directiva do Retorno
de imigrantes ilegais, que representa um
minando na aprovação pelo Parlamento cia, a criação de um único tipo de visto
primeiro passo para a adopção de uma
Europeu, já em 2008, da muito contesta- para fixação de residência (ainda que política única de imigração na Europa.
da Directiva de Retorno) e não tanto na condicionado a um contingente global, A Directiva visa promover o regresso
articulação com a ajuda ao desenvolvi- que não se tem revelado particularmente voluntário ao país de origem e estabelecer
mento ou na concertação de esforços exequível), o favorecimento do reagrupa- normas comuns para esse retorno. Entre
com os países de origem (como parecia mento familiar (estendido a membros da as medidas mais controversas está a
possibilidade dos estados deterem, até
decorrer das decisões saídas da Decla- família que se encontrem em território seis meses, os cidadãos estrangeiros em
ração de Tripoli). nacional, mesmo em situação irregular), situação ilegal, e o facto de, num prazo de
a consagração de uma série de garantias cinco anos, os ilegais identificados ficarem
Elementos positivos das políticas euro-
(nomeadamente a proibição da prisão interditos de entrar na União Europeia.
peias de imigração têm sido o cuidado
18 Notícias • Amnistia Internacional

EM ACÇÃO
Mulheres de Conforto - 60 anos à
Os crimes sexuais são armas de Guerra altamente eficazes: minam a moral do inimigo e deixam sequelas
espera de Justiça
INTERNACIONAL

silenciosas, mas graves, que duram uma vida inteira. Há seis décadas, o Exército Imperial Japonês cap-
turou milhares de mulheres que foram indiscriminadamente abusadas e violadas. Esta é a sua história
Por Raquel Pinheiro

© Arquivos Nacionais dos EUA


Algumas Mulheres de Conforto, no ano de 1943, na China, junto a um soldado do Exército Imperial Japonês. Uma delas está visivelmente nos últimos meses de gravidez.

São conhecidas as histórias de violência Um dos exemplos mais flagrantes é o das do Pacífico). Algumas iam aliciadas com
sexual durante os tempos de Guerra: este “Mulheres de Conforto”, expressão eu- propostas de trabalho em zonas longín-
tipo de crime é tão antigo e comum como femística que designa um sistema insti- quas, tentando ajudar a família perante
a impunidade que lhes está na maior tucionalizado durante a Segunda Guerra a crise económica que se fazia sentir. Ou-
parte das vezes associada. De facto, Mundial que levou perto de 200 mil mu- tras eram simplesmente raptadas à porta
numa época em que é cada vez maior a lheres à escravidão sexual. Desde o ano da escola ou em casa.
sensibilidade da comunidade internacio- de 1932 até ao final da Guerra, estas mu-
nal para com a necessidade de proteger lheres viveram, sob conivência do estado
os Direitos Humanos, as vítimas dos cri- japonês, em Estações de Conforto, es-
mes sexuais perpetrados em contexto de A VIDA NAS ESTAÇÕES DE CONFORTO
trategicamente distribuídas nas regiões
Guerra continuam, na maior parte das ocupadas pelo Exército Imperial Nipónico Menen Medina-Castillo, de 79 anos,
vezes, a ver negado o acesso à justiça. (Ásia Ocidental, Sudoeste Asiático e Ilhas tinha apenas 13 quando um grupo de sol-
Notícias • Amnistia Internacional 19

dados entrou na sua casa, nas Filipinas, família. No entanto, muitas conseguiram a verdade ou oferecer um pedido de
e a levou para uma Estação de Conforto: refazer as suas vidas, dentro do possí- desculpas sincero. E uma compensa-
“Uma manhã, em 1942, estava a brin- vel. A maior parte vive ainda hoje numa ção não tem qualquer valor sem um
car no jardim quando as tropas japone- situação de pobreza extrema, sem apoio pedido de desculpas oficial. Além disso,
sas invadiram a nossa vila. As pessoas médico ou financeiro do estado. E seis mesmo que o fizessem, não iriam curar
começaram a correr e a esconder-se e décadas depois de tudo acabar, muitas os nossos corpos ou devolver as nossas
eu fiz o mesmo. Os soldados entraram, permanecem entregues ao silêncio e ao vidas”, diz Gil Won Ok.
revistaram a casa e encontraram-me no esquecimento, com receio de que o so-
A campanha “Acabar com a Violência so-
quarto. Agarraram-me pelos braços e frimento e a humilhação por que pas-
bre as Mulheres”, da Amnistia Interna-
pelas pernas, como um porco, e obriga- saram dê origem ao estigma da “mulher
cional, veio em 2004 ajudar a dar voz a
ram-me a entrar num jipe estacionado impura”.
estas mulheres que lutam para que atro-
à porta de casa. Tudo o que conseguia
Gil Won Ok só contou a sua história de- cidades como a de que foram vítimas não
ouvir eram ameaças e pensava que ia
pois de fazer 60 anos. “Senti vergonha sejam esquecidas. Até porque, reconhece
ser executada”.
do que o meu filho adoptivo pudesse Gil Won Ok, “sei hoje que há muito mais
Menen foi colocada numa Estação de pensar e tive medo de que perdesse o mulheres como nós no mundo”. A recusa
Conforto. Durante o dia, trabalhava: ser- respeito por mim”, diz. Hoje participa de justiça aumenta a humilhação das
via comida, limpava, lavava a loiça e a vítimas e o silêncio permite que tragédias
roupa dos soldados. À noite era violada, como esta continuem a acontecer.
por vezes, por mais de cinquenta homens
Gil Won Ok e Menen Castillo são apenas
diferentes. “Sempre que tentava resistir
duas das muitas Mulheres de Conforto
era agredida e as feridas nunca chega-
que sofreram nas mãos do Exército Im-
vam a sarar. Entrei em choque devido ao
perial Japonês. Dando voz a todas elas,
trauma e à minha pouca idade. Adoeci
apelam aos portugueses: “em nome da
ao quarto dia”, recorda. As Estações de
paz, da justiça e de todas as que não
Conforto funcionavam de forma diferente
sobreviveram, não permitam que a nos-
consoante a sua localização, mas o in-
sa história seja esquecida.
tuito era sempre o mesmo. Na China, por
exemplo, as mulheres não trabalhavam,
mas tinham de se preparar durante a
manhã para receberem os soldados de
tarde. Eram quase sempre raparigas
menores de idade e fugir era impensável.
“Algumas tentavam”, conta Gil Won Ok,
de 81 anos, natural da Coreia, “mas se © Amnistia Internacional
uma escapava, as outras eram castiga- Menen Castillo, hoje com 79 anos, e Gil Won Ok, de 81 anos, AJUDE-NOS A DAR VOZ ÀS MULHERES DE
das e sofriam ainda mais.” numa acção da Amnistia Internacional.
CONFORTO:
activamente nas manifestações das “Lo- • enviando uma carta ao Embaixa-
las Kampanyera para sa Kapayapaan at dor Japonês em Portugal (em inglês)
SOBREVIVER AO CHOQUE apelando a que exija ao governo do Japão
Kumpensasyon” (ou “Avós em Campanha
Gil Won Ok chegou a uma Estação de um pedido oficial de desculpa, para: His
pela Paz e Compensação”), um movimen-
Excellency Ambassador Satoshi Hara,
Conforto na China com 12 anos, tendo to iniciado nos anos 90 por sobreviventes Avenida da Liberdade, 245 - 6.º, 1269-
sido iludida com promessas de emprego. do sistema das Mulheres de Conforto que 033 Lisboa. Carta-tipo em www.amnistia-
Aqui permaneceu durante quatro anos, quebraram o silêncio na tentativa de ob- internacional.pt, na área dedicada às
durante os quais viu a sua saúde ficar ter justiça. É nas gerações mais novas “Mulheres” na rubrica “Campanhas”;
cada vez mais frágil. Em clausura, sofreu que depositam toda a sua esperança. • enviando cartas e postais de solidarie-
de sífilis, de cancro nos ovários e aos 16 dade para as Mulheres de Conforto (em
anos já era infértil. No entanto, nada im- inglês), para os endereços disponíveis no
pediu que fosse diariamente molestada. O MOVIMENTO INTERNACIONAL mesmo local.
Isto até um dia do ano de 1945, quando Apesar da existência de documentos e
os supervisores da Estação de Conforto relatórios que comprovam a conivência Para saber mais sobre as Mulheres
onde se encontrava, desapareceram. A do estado nipónico no sistema de escra- de Conforto, a sua história, factos e
Guerra tinha acabado, mas só alguns vatura sexual, esta realidade nunca foi números, ver o relatório da Amnistia
dias depois as Mulheres de Conforto per- oficialmente reconhecida pelo governo
Internacional intitulado Japan: Still Wait-
ceberam que podiam fugir. ing After 60 years: Justice for Survivors of
japonês. As vítimas ainda não receberam Japan’s Military Sexual Slavery System,
Algumas raparigas foram proibidas de qualquer satisfação pelos crimes co- de 2005, disponível em:
entrar na sua vila, por serem conside- metidos, compensação ou apoio finan- www.amnesty.org/en/library/info/
radas impuras e trazerem vergonha à ceiro. “Eles continuam a recusar dizer ASA22/012/2005
20 Notícias • Amnistia Internacional

NACIONAL
A importância dos Grupos e Núcleos Locais da Amnistia Internacional
A Amnistia Internacional é um movimento que está presente em todo o mundo. Com sede em Londres, tem
em cada país uma secção que visa alertar a opinião pública e os governos para os problemas de direitos
humanos. A AI Portugal está sedeada em Lisboa e conta com a ajuda de grupos e núcleos locais para
fazer chegar os direitos humanos a todos os cantos do país. Vamos em cada número do Notícias da AI dar
destaque a algumas das suas acções

Os membros do Núcleo de Crianças, de


Vila Nova de Famalicão, dedicam-se ex-
clusivamente à formação dos mais no-
vos e a 31 de Maio, Dia Mundial da Cri-
ança, promoveram uma actividade bem
original: construir o Dragão dos Direitos
Humanos, com pequenos rectângulos de
tecido.

SENSIBILIZAR A
OPINIÃO PÚBLICA
Diz o ditado popular que “duas cabeças
pensam melhor do que uma”. É também
esse o entendimento da AI Portugal, que
ramificada em grupos e núcleos, engloba
mais de uma centena de activistas que
contribuem com novas ideias para levar
mais longe a voz dos direitos humanos.
A PROMOÇÃO DO DEBATE organiza regularmente. A última versou Poderíamos apresentar muitos exemplos,
sobre os problemas ambientais. O Grupo mas vamos centrar-nos em duas formas
PÚBLICO Local 6, do Porto, promoveu também a diferentes, mas igualmente importantes,
Os grupos e núcleos têm ajudado a Am- discussão pública tendo por base os Jo- de intervenção.
nistia Internacional a promover o de- gos Olímpicos de Pequim e o Aniversário
Uma é aquela que tradicionalmente se
bate em torno de questões de direitos do Dalai Lama.
associa à AI, ou seja, as acções de rua.
humanos, procurando assim sensibili-
A este nível temos necessariamente de
zar a sociedade para estas temáticas.
EDUCAÇÃO PARA OS DIREITOS referir o Co-Grupo da China, que com o
Destacamos o papel do Núcleo de Ma-
aproximar dos Jogos Olímpicos de Pequim
tosinhos, que completou um ano de exis- HUMANOS saiu várias vezes às ruas, ajudado por
tência e está de parabéns pelas suas
Os grupos locais são um importante alguns grupos locais, para lembrar que
muitas iniciativas. Entre elas contam-
aliado da Amnistia Internacional numa são violados direitos humanos na China,
-se palestras, jantares e outros eventos
das suas mais importantes funções - a particularmente no que diz respeito à
que têm estimulado o debate público em
educação para os direitos humanos. Des- liberdade de expressão. Uma outra forma
torno de temas como a discriminação e a
tacamos a este nível a sessão que o Nú- de chegar à sociedade é a que adoptou
violência sobre as mulheres.
cleo de Estremoz realizou, em Junho, na o Grupo de Estudantes da Faculdade de
É ainda de referir, neste âmbito, o pa- Escola Básica Sebastião da Gama, tendo Direito de Lisboa, ao criar a Newsletter
pel do Grupo Local 22, de Aveiro, que já sido convidado por uma aluna do 5.º ano, “Amnistia-te” e o blog www.amnistia-
se tornou conhecido pelas tertúlias que que tinha feito um trabalho sobre a AI. te.blogspot.com.
Notícias • Amnistia Internacional 21

GRUPO DE ESTUDANTES mitiu um momento único de partilha e de PODE CONTACTAR OS GRUPOS E NÚCLEOS DA
interacção entre os jovens e os adultos AMNISTIA INTERNACIONAL ATRAVÉS DE:
DE ERMESINDE PARTILHA presentes, numa forma inovadora de (Coordenadores e emails/blogs)
EXPERIÊNCIAS educação para os direitos humanos. GRUPO LOCAL 03 - Oeiras • Lucília José Justino,
O Grupo de Estudantes da Amnistia In- A iniciativa partiu da Federação das As- zjustino@gmail.com
GRUPO LOCAL 06 - Porto • Virgínia Silva,
ternacional da Escola Secundária de Er- sociações Juvenis do Distrito do Porto amnistia-internacional-porto@googlegroups.com
mesinde teve um último dia de aulas bem (FAJDP), que nos meses de Maio e Junho / aiporto.blogspot.com
diferente, quando a 6 de Junho os jovens percorreu as escolas do distrito com esta GRUPO LOCAL 14 - Lourosa • Valdemar Mota,
se sentaram à sombra das árvores para biblioteca itinerante. aigrupo14@gmail.com
aprender com a Biblioteca Humana pela GRUPO LOCAL 16 - Ribatejo Norte •Yvonne Wolf,
Igualdade de Oportunidades e Intercul- yvonne_wolff@adsl.xl.pt
turalidade. A Amnistia Internacional Portu- GRUPO LOCAL 18 - Braga • José Luís Gomes,
gal realizou no passado dia 27 ai18braga@gmail.com
O objectivo era estimular a reflexão so- GRUPO LOCAL 19 - Sintra • Fernando Sousa,
de Setembro o exercício anual ai.grupo19@gmail.com / grupo19aisp.no.sapo.pt
bre estas temáticas e para tal criou-se de auto-avaliação, procurando GRUPO LOCAL 24 - Viana do Castelo • Luís
uma biblioteca que tinha como particu- assim detectar as suas principais Braga, luismbraga@sapo.pt
laridade o facto de ser “humana”. Ou fraquezas e colmatá-las. Tal só foi GRUPO LOCAL 32 - Leiria • Maria Fernanda
seja, os tradicionais livros em papel de- possível graças à Escola Supe- Ruivo, fernanda.ruivo@sapo.pt
ram lugar a pessoas que representavam GRUPO LOCAL 33 - Aveiro • Joana Valente,
rior de Comunicação Social, que
grupos que são vítimas de preconceitos, amnistiaveiro@gmail.com /
amavelmente nos cedeu uma sala. amnistiaveiro.blogspot.com
discriminação e exclusão social. Isto per- GRUPO SECTORIAL EDUCAÇÃO PARA OS DIREI-
TOS HUMANOS • Fernanda Sousa,
mfpsousa@sapo.pt
NÚCLEO DE ALMADA • Marlene Oliveira da
Conceição, ai.nucleoalmada@gmail.com /
ai-nucleoalmada.blogspot.com
NÚCLEO DO OESTE - Caldas da Rainha • Teresa
Mendes, ai.nucleooeste@gmail.com
NÚCLEO DE CASTELO BRANCO • Ana Catarina
Neves, ai_nucleo_castelobranco@yahoo.com /
amnistiacastelobranco.blogspot.com
NÚCLEO DE CRIANÇAS-Vila Nova de Famalicão •
Vitória Triães, ainuc@sapo.pt
NÚCLEO DE ESTREMOZ • Maria do Céu Pires,
amnistiaetz@gmail.com
NÚCLEO DE TORRES VEDRAS • Ana Lopes, aitor-
resvedras@gmail.com /
aitorresvedras.blog.comunidades.net
NÚCLEO DE MATOSINHOS • Otília Gradim
Reisinho, amnistia.matosinhos@gmail.com /
nucleodematosinhos.blogspot.com
NÚCLEO DE GUIMARÃES • Cristina Lima,
© FAJDP
amnistia.guimaraes@gmail.com
CO-GRUPO DA CHINA • Maria Teresa Nogueira,
nogueiramariateresa@gmail.com
CO-GRUPO DA PENA DE MORTE • Raul Gaião,
raullealg@gmail.com
GRUPO DE JURISTAS • Sónia Pires,
sonia.c.pires@gmail.com
GRUPO DE ESTUDANTES DA ESC. SEC. DE ER-
MESINDE • Maria Arminda Sousa,
ai-ese@sapo.pt / ai_ese.blogs.sapo.pt
GRUPO DE ESTUDANTES DA ESC. SEC. FILIPA DE
VILHENA • Carla Ferreira,
carlafariaferreira@hotmail.com
GRUPO DE ESTUDANTES DO ISCTE • Ana Mon-
teiro, amnistiaiscte@yahoo.com
GRUPO DE ESTUDANTES DA ESC. SEC. ANTERO DE
QUENTAL • Fernanda Vicente,
antero.quental@mail.telepac.pt
GRUPO DE ESTUDANTES DO COLÉGIO DE SÃO
MIGUEL • Prof. Sérgio, ai_csm@live.com.pt
GRUPO DE ESTUDANTES DA FACULDADE DE
DIREITO DE LISBOA • Ana Matos Ferreira,
© FAJDP nucleoai.fdul@gmail.com
22 Notícias • Amnistia Internacional

Prémio Amnistia Internacional no INDIELISBOA


Decorreu de 24 de Abril a 4 de Maio a 5ª edição do IndieLisboa – Festival de Cinema Independente de
Lisboa, onde foi atribuído o prémio Amnistia, que resulta da parceria estabelecida com aquele festival e
pretende distinguir o filme que melhor retrate aspectos relacionados com o trabalho da AI. Este ano o júri
composto pela actriz e modelo Soraia Chaves, o actor Mário Redondo e a jornalista Laurinda Alves atri-
buiu o prémio ao filme “Dom Roberto’s Shadow”. Reflectindo a qualidade dos filmes candidatos, houve
ainda duas menções honrosas: “Terra Sonâmbula”, de Teresa Prata, e “Import Export”, de Ulrich Seidi.
Pela segunda vez o prémio monetário foi patrocinado pela Fundação Serra Henriques
Por Irene Rodrigues
HE - Sim, que os guardas eram quase
tão prisioneiros como os prisioneiros.
Eram rapazes jovens das redondezas
sem educação, a cumprirem o serviço
militar e a obedecerem a ordens. Não se
tinham juntado ao exército por razões
políticas. Isto não quer dizer que não se-
jam responsáveis pelos seus actos. Quer
dizer que a vida é frequentemente mais
complexa e nem sempre é fácil assumir
as rédeas do próprio destino.
AI - Porquê o titulo “Dom Roberto’s
Håkan Engström (HE), um dos realiza- AI - Como foi filmar em Chacambuco?
Shadow” (A Sombra de Don Roberto)?
dores do “Dom Roberto’s Shadow” falou Como é que Saldivar reagiu?
com a AI sobre o filme e o prémio. HE - Sombras da história, sombras da
HE - Começámos as filmagens em Maio
memória, sombras dos mineiros que vi-
AI - Como surgiu a ideia para o filme? de 2003, quase um ano depois de termos
veram naquele local antes do Saldivar,
HE - Basicamente queríamos fazer um desenvolvido a ideia. Uns meses antes,
as próprias sombras no filme e a sensa-
filme. Já tinha trabalhado com o Juan Diego e Annika Busch, a directora de
ção que o Saldivar tem de que vive um
Diego Spoerer em documentários para fotografia, visitaram Chacambuco. O
outro homem com ele lado a lado, como
rádio. O Diego ouviu falar de um eremita Saldivar é um actor nato, não estranhou
se fosse a sua própria sombra. Existem
que vivia numa mina abandonada, e este que uma equipa de cinema vinda do outro
simplesmente demasiadas sombra neste
foi o ponto de partida. lado do mundo estivesse interessada em
filme.
escutar o que ele quisesse dizer. Foi fan-
AI - Queriam filmar algum aspecto da tástico trabalhar com ele. AI - Como foi ganhar este prémio de
história recente do Chile? direitos humanos que privilegia mais o
AI - O júri justificou o prémio com
HE - Atraiu-nos o aspecto geral da activismo?
“...a descoberta do sentido mais pro-
história, que podia ocorrer em qualquer fundo da liberdade, e, finalmente, o HE - Foi bom. Não acho que seja muito
lado. O espectador não precisa de saber encontro consigo mesmo na solidão diferente dos prémios normais porque
muito sobre a história do Chile para per- de uma extrema lucidez quase tornada frequentemente nos documentários é
ceber o filme. É um filme sobre memórias, loucura”. Concorda com esta interpre- difícil separar a realização da escrita.
sobre a vida, sobre as escolhas e sobre tação? Grande parte da escrita do guião é feita
como escolhemos viver a nossa vida. É na sala de montagem, mas também
também sobre a culpa, e talvez também HE - As palavras são muito motivadoras
durante as filmagens e essa é parte da
sobre a reconciliação ou talvez sobre a e concordo com a afirmação. Não o te-
magia do documentário, não consegues
impossibilidade da reconciliação. ria dito tão bem. É difícil dizer qual era
verdadeiramente controlar a acção.
a nossa intenção. A Annika é uma fotó-
AI - Qual foi a reacção do protagonista, grafa fantástica e sabíamos que o filme AI – Gostou de ter feito este filme?
Roberto Saldivar, ao filme? de certa forma seria muito baseado na HE - O que me deixa verdadeiramente fe-
HE - Quando o filme foi exibido em An- imagem. Falámos da estrutura, de como liz é o facto de Saldivar ter visto o filme.
tofagasta, em Agosto de 2008, o Saldi- a história nos influenciava emocional-
Entrevista completa em:
var e a família estiveram presentes. Os mente. Era mais comunicação com o es- www.amnistia-internacional.pt (Aprender/Boletim)
relatos que me chegaram falam de um tômago, como a música.
A Amnistia Internacional Portugal quer agradecer
momento muito comovente, um momento AI - Considera que aprendeu alguma à Fundação Serra Henriques o apoio financeiro
de muito orgulho para Saldivar. coisa com este filme? para o Prémio Amnistia Internacional.
Notícias • Amnistia Internacional 23

EM ACÇÃO
9º Campo de Trabalho da Amnistia Internacional
JÚNIOR

© Amnistia Internacional Portugal


Participantes do campo de trabalho da Amnistia Internacional do ano passado, em São Pedro do Sul.

Entre os dias 31 de Outubro e 3 de No- com a Câmara Municipal. Os trabalhos


vembro a Amnistia Internacional Portugal serão realizados no recentemente inau- “O campo de trabalho acaba por
vai organizar, pela nona vez, um Campo gurado Espaço Multiusos e os jovens irão nos abrir os olhos, torna-nos mais
de Trabalho. Durante quatro dias, jovens ficar alojados no Inatel. A inscrição tem perspicazes e curiosos sobre
de todo o país, com idades compreendi- um custo de 30 euros por participante, o aquilo que está à nossa volta, para
das entre os 15 e os 18 anos, vão poder que inclui materiais, alimentação, aloja- depois nós próprios construirmos
dedicar-se exclusivamente ao debate de mento e transporte no local. as nossas opiniões”.
ideias sobre temas relacionados com os
Este projecto de educação para os di- Francisco, 16 anos
Direitos Humanos.
reitos humanos surgiu no virar do século, Participante no 5º Campo de Trabalho
A Declaração Universal, que este ano numa aposta da Amnistia Internacional
celebra 60 anos, o trabalho da Amnistia Portugal nas gerações mais novas. É a
Internacional e o papel dos Jovens no primeira vez que se realiza na zona sul
activismo são alguns dos temas a serem do país, procurando assim dinamizar a
abordados. Haverá ainda tempo para população local para as questões de di-
pensar sobre problemas mais concretos reitos humanos. Informações e inscrições no site da Amnistia
Internacional Portugal, em:
de Direitos Humanos, como a Dignidade
Vem aprender mais sobre os problemas www.amnistia-internacional.pt
e a Pobreza – aos quais a Amnistia In-
que se vivem no Mundo e perceber como ou pelo email:
ternacional se vai dedicar de forma mais campodetrabalho@amnistia-internacional.
todos nós podemos fazer a diferença.
premente no próximo ano –, e ao tema pt.
sempre quente da Pena de Morte. Inscreve-te até ao dia 24 de Outubro e Para esclarecimentos adicionais contactar
participa! (programa na página 22) Luísa Marques ou Fernando Marques pelo
Este ano o Campo de Trabalho vai realizar- 213 861 652.
-se na cidade de Albufeira, numa parceria
24 Notícias • Amnistia Internacional

CÂMARA MUNICIPAL DE ALBUFEIRA


PROGRAMA Este ano o Campo de Trabalho vai ter como
parceira a Câmara Municipal de Albufeira,
que desde o início se mostrou muito recep-
tiva a este projecto educativo. Tentámos
SEXTA, 31 DE OUTUBRO DOMINGO, 2 DE NOVEMBRO perceber porquê, num curta entrevista com
13h-14h30 • Chegada e Aloja- 10h • Pena de Morte – Justiça ou o Vice–Presidente da Câmara Municipal de
Albufeira, José Carlos Rolo.
mento Crueldade? (1ª Parte)
AI: Qual a importância de se falar com os
15h • Sessão de abertura 11h15 • Coffee break
jovens sobre direitos humanos?
15h30 • Apresentação do Campo 11h30 • Pena de Morte – Justiça ou CMA: A educação é o alicerce de qualquer so-
Crueldade? (2ª Parte) ciedade! Uma cidade com qualidade de vida
16h30 • Coffee Break
13h-14h30 • Almoço é uma cidade com elevados índices de edu-
16h45 • A Amnistia Internacional cação e só se pode falar de educação se esta
Visão e Missão 14h45 • “Discriminar Não é for inclusiva. A inclusão pressupõe sempre o
Humano!” (1ª Parte) respeito pela diferença.
19h-21h • Jantar
16h30 • Coffee break AI: Este campo de trabalho insere-se numa
21h15 • Noite de Jogos
função educativa muitos julgam ser da ex-
16h45 •“Discriminar Não é
clusiva responsabilidade dos governos...
Humano!” (2ª Parte)
CMA: Consideramos que os apoios não podem
18h30 • Chill out ser da responsabilidade exclusiva de nin-
SÁBADO, 1 DE NOVEMBRO guém. Cada vez mais consideramos que os
19h30-21h • Jantar
10h • Activismo Juvenil projectos que melhor funcionam são aqueles
21h30 • Festa dos Direitos Humanos em que existe cooperação entre várias insti-
11h15 • Coffee break tuições, sejam elas particulares, sejam do
11h30 • 60 anos da Declaração estado.
Universal dos Direitos Humanos AI: Que papel tem desempenhado a Câmara
SEGUNDA, 3 DE NOVEMBRO Municipal de Albufeira ao nível da educa-
12h30/14h • Almoço
ção?
10h • Actividade Lúdica –Espaço
14h15 • “Campanha Global pela CMA: A Câmara tem procurado ao longo dos
para troca de impressões
Dignidade Humana” (1ª Parte) anos seguir uma linha no âmbito da educa-
11h • Avaliação do Campo ção que procura ir de encontro às necessi-
16h30 • Coffee break
12h30/14h • Almoço dades do Município. Através de planos de dia-
16h45 • “Campanha Global pela gnóstico, tem-se apostado na formação e na
Dignidade Humana” (2ª Parte) 14h • Despedidas melhoria dos espaços escolares, quer ao nível
19h30-21h • Jantar físico, quer ao nível dos recursos humanos. O
nosso objectivo, ou até a nossa missão, é a
21h30 • Noite de Actividades * Este programa poderá sofrer alterações a de poder humildemente contribuir para que a
(Apresentação dos trabalhos nível de horários e sessões. sociedade se torne mais forte, mais tolerante
desenvolvidos) e mais participativa, tentando caminhar para
uma “Albufeira – Cidade Educadora”.

REDE JOVEM 19 meses, foi a primeira pessoa com este


tipo de incapacidade a terminar a univer-
Rede Jovem, uma rede que pretende juntar
os jovens da Amnistia Internacional na
Estamos à tua espera sidade e lutou para conseguir falar pelas defesa dos Direitos Humanos, promovendo
Por Ana Monteiro pessoas a quem eram negados direitos um ambiente de interajuda e colaboração
tão essenciais como a igualdade e a paz. na participação em campanhas, apelos e
“Não posso fazer tudo, mas Foi uma das muitas pessoas que ajudou acções.
posso fazer alguma coisa e, por a mudar o mundo para melhor. Mesmo
A rede ainda não está totalmente opera-
não poder fazer tudo, não me não tendo conseguido realizar tudo o que
cional, mas está a ser dinamizada de modo
recusarei a fazer algo.” queria ou ambicionava, tentou sempre
a que isso aconteça muito em breve.
Helen Keller
fazer o que lhe era possível.
Junta-te a nós. Informa-te e inscreve-te
É isso que te propomos: fazeres o que for
na Rede Jovem através do email redejo-
Estas são as palavras de Helen Keller, possível para ajudares a proteger os Di-
vem@sapo.pt. Milhares de pessoas em
activista e escritora que, apesar de reitos Humanos e a falar por quem não
todo o mundo contam connosco!
ter ficado cega e surda com apenas pode usar a sua voz. E como? Através da
Notícias • Amnistia Internacional 25

PRESTAÇÃO DE CONTAS
SITUAÇÃO ECONÓMICA E FINANCEIRA canismos necessários à sua recuperação EVOLUÇÃO DE MEMBROS E APOIANTES
(a 31 de Agosto de 2008) a tempo do fecho contabilístico do ano (em Julho e Agosto de 2008)
fiscal.
Estando em cumprimento com as respon- O gráfico que aqui apresentamos vem
sabilidades para com fornecedores, Se- Os valores supra apresentados são es- comprovar a importância do Projecto
cretariado Internacional e Assembleia da timados em função das análises dos “Face to Face” enquanto método de re-
União Europeia, a AI Portugal apresenta resultados mensais de tesouraria. Como crutamento de membros e apoiantes da AI
resultados positivos de cerca de 70.000 atesta o quadro, o Orçame nto Anual tem Portugal e, consequentemente, enquanto
Euros, como demonstra o quadro. vindo a ser cumprido, destacando-se uma forma de angariação de fundos, uma vez
redução substancial da despesa, devido que as receitas da organização são na sua
Devido à implementação do novo Software ao facto dos custos com o Projecto “Face totalidade oriundas dos donativos e quo-
de Gestão “Primavera”, da sua ligação à to Face” terem sido inferiores ao orçamen- tas destes elementos. Durante os meses
nova Base de Dados de gestão de mem- tado (por nunca se ter conseguido esta- de Julho e Agosto, o “Face to Face” não
bros e apoiantes (Salesforce) e respectiva bilizar os 25 recrutadores previstos). Esta saiu para as ruas e o resultado é bem
integração com o sistema de débito di- situação também explica o ligeiro desvio visível: somente 26 membros e apoiantes
recto do Montepio Geral/SIBS, a contabi- da receita, que contava com os resultados angariados.
lidade corrente da AI Portugal encontra-se desses mesmos recrutadores.
atrasada, tendo já sido accionados os me-

RECEITAS DESPESAS BALANÇO


Insc. via Internet 2
Janeiro 68.914,23 € 46.197,31 € 22.716,92 € Insc. via “Face to Face”/
Fevereiro 71.944,83 € 45.045,99 € 26.898,84 € Rec. Telefone 16
Março 69.088,77 € 46.123,34 € 22.965,43 € Insc. via Grupos e Núcleos 1
Abril 71.476,84 € 52.047,61 € 19.429,23 € Insc. via CTT 5
Maio 51.001,00 € 42.282,11 € 8.718,89 € Reinscrição 2
Junho 68.198,02 € 54.883,04 € 13.314,98 € TOTAL 26
Julho 58.775,37 € 65.007,44 € - 6.232,07 € EVOLUÇÃO DE MEMBROS E APOIANTES
nos meses de Julho e Agosto
Agosto 53.645,66 € 37.948,45 € 15.697,21 €

VALOR ACUMULADO 530.600,00 € 453.953,77 € 76.646,23 €


(Janeiro a Agosto)

ORÇAMENTO PREVISTO 513.044,72€ 389.535,29 € 123.509,43 €
(Janeiro a Agosto)
QUADRO DE CONTROLO ORÇAMENTAL

PROJECTO “FACE TO FACE”

A 6ª Fase do Projecto “Face to Face” teve Recorde-se que o “Face to Face” teve a
início no passado dia 15 de Setembro, sua 5ª fase entre Fevereiro e Junho de
nas cidades de Braga, Guimarães e Porto, 2008, nas cidades de Lisboa, Portalegre,
onde três equipas de recrutadores estão, Évora, Castelo Branco, Caldas da Rainha
mais uma vez, a divulgar “cara a cara” e Covilhã. Ao longo dos 4 meses e meio de
o trabalho da Amnistia Internacional, trabalho, as equipas de recrutadores an-
convidando mais pessoas a colaborar gariaram mais de 1.800 novos apoiantes,
activamente no nosso movimento. Neste na sequência da abordagem e sensibili-
segundo período de 2008 pretendemos zação directa feita nas ruas.
ainda regressar a Lisboa, bem como
percorrer novas cidades até meados de © Amnistia Internacional Portugal

Dezembro. Equipa do Projecto Face to Face nas ruas de Braga.


26 Notícias • Amnistia Internacional

BOAS NOTÍCIAS
MYANMAR - LIBERTADO UM DOS U Win Tin, de 78 anos, era um dos mais -se que o prisioneiro recusou sempre as
MAIS ANTIGOS PRISIONEIROS antigos prisioneiros de consciência do amnistias governamentais, justificando
Myanmar quando foi libertado em meados que ao aceitá-las estaria a admitir a sua
DE CONSCIÊNCIA de Setembro, após ter cumprido 19 anos culpa.
de prisão. Recorde-se que o ex-jornalista e
Para além de U Win Tin, foram na mesma
militante do principal partido da oposição
altura libertados mais seis prisioneiros
no país, a Liga Nacional para a Democra-
de consciência, pertencentes ao mesmo
cia, tinha sido preso em 1989 e condenado
partido político da oposição. Porém, um
inicialmente a 12 anos de prisão.
deles foi novamente preso algumas horas
A pena foi agravada quando o prisioneiro depois de ter sido libertado. Acrescente-
escreveu às Nações Unidas a descrever -se que existem actualmente no Myan-
a tortura a que era submetido e quando mar mais de dois mil presos políticos.
distribuiu junto dos prisioneiros panfle-
tos anti-governamentais. Nessa altura,
U Win Tin foi transferido para uma cela
sem cama, destinada aos cães militares,
e esteve durante longos períodos privado
© Private de comida, água e visitas. Acrescente-

MARROCOS - BLOGGER LIBER- FAIXA DE GAZA


TADO E SENTENÇA ANULADA MAIS ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS LIBERTADOS

© Private

A 18 de Setembro de 2008 o Tribunal de


Segunda Instância da cidade de Aga-
dir, em Marrocos, revogou a pena im-
posta pela Primeira Instância ao jovem
Mohamed Erraji. Com 29 anos de idade, © Khalil Hamra/AP/PA Photos
tinha-se tornado no primeiro detentor de
um blog a ser formalmente acusado em Durante o mês de Setembro foi permitida e saídas na região, provocando assim
tribunal, tendo sido condenado a dois a saída a mais sete estudantes pales- uma grave crise humanitária, pautada
anos de prisão e a uma coima de cinco tinianos que se encontravam retidos, pela carência de bens alimentares e de
mil dinares (cerca de 440 euros). desde o Verão, na Faixa de Gaza, o que medicamentos.
Refira-se que Mohamed Erraji foi acusa- os impossibilitava de regressarem (ou Recorde-se que no final do mês de Julho
do de faltar ao respeito ao Rei marroqui- começarem) os estudos noutros países. eram 44 os jovens que pretendiam voltar
no num artigo publicado online. A pena O bloqueio ao enclave, decretado por à Universidade após o período de férias,
foi retirada e o processo judicial consi- Israel há mais de um ano (depois do estando agora 23 à espera de permissão
derado irregular, mas esta é mais uma Hamas ter vencido as eleições palestini- para sair da Faixa de Gaza.
prova da falta de liberdade de expressão anas), tem impossibilitado as entradas
existente no país.
Notícias • Amnistia Internacional 27

APELOS MUNDIAIS
O movimento da Amnistia Internacional começou com a indignação do advogado londrino Peter Benenson
perante a notícia de prisão de dois jovens portugueses, que no início dos anos 60 brindaram “Viva à Liber-
dade”. Hoje Portugal está longe desta realidade, mas em muitos países do mundo há milhares pessoas
que continuam a ser injustamente presas ou condenadas. Elas precisam da nossa ajuda. Apresentamos
aqui seis casos urgentes, para os quais pode contribuir enviando cartas aos responsáveis políticos, para
as moradas indicadas. Está nas nossas mãos ...
28 Notícias • Amnistia Internacional

ARÁBIA SAUDITA CAMBOJA


Siti Rupa condenada em julgamento ilegal Prisioneiros injustamente acusados

© Documentação do CIMW © Heng Sinith

Siti Zainab Binti Duhri Rupa encontra-se KING ABDULLAH BIN´ABDUL ‘AZIZ AL-SAUD Sok Sam Ouem e Born Samnang, de 38 e
detida na prisão de Medina, na Arábia Saudi- OFFICE OF HIS MAJESTY THE KING 25 anos, respectivamente, foram detidos em
ta, desde 1999, onde aguarda que seja cum- ROYAL COURT Janeiro de 2004 pelo assassinato do sindica-
prida a sua sentença de morte. A imigrante Riyadh, Saudi Arabia lista Chea Vichea e condenados a 20 anos de
Indonésia, mãe de dois filhos, terá confes- prisão. O julgamento terá sido conduzido de
sado o assassinato da sua empregadora. No Your Majesty, forma irregular, não tendo sido apresentadas
entanto, há indícios de que Siti Rupa sofre de provas para além de uma confissão obtida
problemas psiquiátricos que poderão invali- I would like to urge you to immediately com- através de tortura. Novos relatos apontam
dar a sua confissão. mute the death sentence against Siti Zainab para a sua inocência e tudo indica que terão
Segundo relatos, a detida manteve-se in- Binti Duhri Rupa, a mother of two, and state sido usados como bodes expiatórios.
vulgarmente calma durante todo o período that the death penalty is the ultimate viola- A indignação dos cidadãos cambojanos pe-
de detenção e admitiu ter esfaqueado a sua tion of the right to life. rante o assassinato de Chea Vichea, em
patroa devido aos maus-tratos físicos e psi- I also urge you to give to Siti Rupa full and 2004, levou o governo a uma investigação
cológicos que esta lhe infligia. A jovem in- immediate access to legal representation, marcada pela necessidade de culpados. Sok
donésia, chegada à Arábia Saudita em 1998 consular assistance, adequate translation Ouem e Born Samnang foram presos e, em
para trabalhar como doméstica, terá enviado facilities and medical assistance, if neces- contradição com a presunção da inocência,
cartas à família nas quais relatava estes sary. declarados culpados na televisão. Durante
abusos. I also wish to appeal for all the other de- o primeiro julgamento, o juiz declarou não
Porém, segundo a resolução 2004/67 da fendants facing death penalty to be tried in haver provas suficientes para a sua conde-
Comissão das Nações Unidas para os Di- compliance with international standards for nação e admitiu ter sido vítima de pressões
reitos Humanos, “a pena de morte não deve fair trial, including full access to legal repre- políticas. Levados a julgamento novamente,
ser aplicada a nenhum indivíduo que sofra sentation, with adequate time, and facilities os dois homens foram condenados a 20 anos
de doenças ou desequilíbrios psicológicos”. to prepare their defense. de prisão.
Além disso, a validade da alegada confissão Lastly I call for all the detainees sentenced to Mais recentemente, relatos indicam que
é questionável, visto não ter estado presente death to have their sentences commuted and não havia indícios para a detenção dos in-
nesse momento um advogado ou um repre- for no further death sentences to be imposed divíduos, considerando-os bodes expiatórios
sentante consular. E também durante o jul- in Saudi Arabia. e apontando a intimidação de testemunhas
gamento Siti Rupa não foi acompanhada por durante o julgamento. Apesar dos factos,
nenhum advogado ou tradutor. Yours sincerely, continua a ser adiada a fixação de um novo
Na Arábia Saudita são os filhos da vítima, em julgamento, mas os prisioneiros mantêm a
última instância, que decidem se a pena de Nome --------------------------------------- esperança. “Saber que as pessoas se lem-
morte ditada pelo tribunal deve ser aplicada. Cidade -------------------------------------- bram de nós mantém-me vivo. Queremos
Siti Rupa continua a aguardar a maioridade País ----------------------------------------- agradecer a todas as organizações que nos
da criança para que esta possa decidir. Data ----------------------------------------- têm ajudado”, disse Sok Ouem à Amnistia
Desconhece-se a sua idade, mas a Amnistia Internacional.
Internacional teme que a crescente onda de A AI apela a um maior respeito por parte do
execuções na Arábia Saudita conduza tam- governo Cambojano pelos procedimentos ju-
bém à execução de Siti Rupa sem que o seu rídicos, como a presunção da inocência, e à
estado psicológico seja avaliado e o seu caso não utilização da tortura para obtenção de
revisto. confissões.

Junte-se a nós neste apelo em nome de Junte-se a nós neste apelo em nome de Sok
Siti Rupa, enviando um apelo ao governo da Sam Ouem e Born Samnang, escrevendo ao
Arábia Saudita. Para tal pode usar a seguinte Primeiro-ministro Cambojano Hun Sen. Para
carta-tipo: tal pode usar a seguinte carta-tipo:
Notícias • Amnistia Internacional 29

GUANTÁNAMO
Binyam Mohamed aguarda julgamento

© Private

PRIME MINISTER HUN SEN Binyam Mohamed, etíope de 29 anos, foi de- RT HON DAVID MILIBAND MP
OFFICE OF THE PRIME MINISTER tido em Abril de 2004 no aeroporto de Karachi, SECRETARY OF STATE FOR FOREIGN AND
Phnom Penh, Kingdom of Cambodia no Paquistão, e desde então encontra-se na COMMONWEALTH AFFAIRES
Fax: 00 855 23 360 666 conhecida prisão de alta segurança Campo 5 FOREIGN AND COMMONWEALTH OFFICE
de Guantánamo, onde continua a aguardar King Charles Street
Your Excellency, julgamento. É acusado de conspiração com London SW1A 2AH, United Kingdom
a Al Qaeda e de fornecer apoio material ao Email: Sosfa-action@fco.gov.uk
I write you on behalf of Sok Sam Ouem and terrorismo. Fax: 0044 207 008 2141
Born Samnang, imprisoned since 2004 for Segundo relatos da sua advogada, a saúde
the killing of trade unionist leader Chea Vi- física e mental do detido está extremamente Dear Secretary of State,
chea. I call you to order their immediate re- debilitada, apresentando indícios de com-
lease, considering reports of alleged torture, portamento suicida. No entanto, todos os I write you in the name of Binyam Mohamed,
intimidation of witnesses and political inter- pedidos apresentados para que seja feito um a former British resident with Ethiopian ori-
ferences within the judicial process. These exame médico independente ao detido foram gin who is currently detained in Camp 5 of
accusations must be investigated without até hoje negados. Guantanamo Bay.
delay. Tendo Binyam Mohamed vivido já no Reino Binyam´s lawyer has expressed serious con-
I also urge you to order an immediate and im- Unido, o governo britânico fez um pedido cern about his physical and mental health.
partial investigation into the murder of Chea formal aos Estados Unidos para que libertas- Also, several reports refer to torture in the US
Vichea, which meets international standards sem o etíope, mas este foi negado alegada- maximum-security prison of Guantanamo.
of fairness, so that the true murderers can mente porque Binyam é considerado um risco We are very pleased that the British authori-
be brought to justice. At the same time, the para a segurança nacional dos EUA. ties already asked for Binyam´s extradition.
names of Sok Sam Ouem and Born Samnang Recordamos que existem vários relatórios Still we urge you to redouble your efforts be-
must be cleared, unless there is sufficient das Nações Unidas que evidenciam a prática fore the detainee imprisonment leads him to
evidence to bring new charges against them. de tortura a prisioneiros em Guantánamo, suicide.
Finally, we ask you to end the prevailing cli- tais como técnicas de interrogação coerci- We also urge you to guarantee Binyam
mate of impunity and continuing lack of jus- vas, utilização de jaulas para transporte de Mohamed´s human rights, especially his
tice for people in Cambodia. prisioneiros e a impossibilidade destes con- right to health and to a fair trial.
tactarem com as suas famílias.
Respectfully, Binyam encontra-se em greve de fome, in- Yours Sincerely,
gerindo apenas quantidades minúsculas de
Nome --------------------------------------- comida para não submetido à dolorosa práti- Nome ---------------------------------------
Cidade -------------------------------------- ca de alimentação forçada. Apenas a ajuda Cidade --------------------------------------
País ----------------------------------------- internacional poderá salvar o prisioneiro e País -----------------------------------------
Data ----------------------------------------- dar-lhe acesso a um julgamento justo. Data -----------------------------------------

Junte-se a nós neste apelo em nome de


Binyam Mohamed, escrevendo uma carta,
fax ou email às autoridades do Reino Unido.
Para tal pode usar a seguinte carta-tipo:
30 Notícias • Amnistia Internacional

IRÃO IRAQUE
Farzad Kamangar condenado à morte Nathum al-´Ani e Ahmed al-Salihi desaparecidos

© Private © Private

O professor e activista curdo Farzad Kaman- Nathum Mohammad Isma´il al-´Ani, e o seu
gar, de 33 anos, foi condenado à morte a 25 de AYATOLLAH MAHMOUD HASHEMI SHAHROUDI cunhado Ahmed ´Abbas Khurshid al-Salihi,
Fevereiro de 2008, acusado de atentar contra MINISTRY OF JUSTICE desapareceram no dia 21 de Dezembro de
o Estado Iraniano e, consequentemente, por Ministry of Justice Building 2005, quando forças de segurança Iraqui-
ser considerado “inimigo de Deus”. Panzdah-khordad Square anas forçaram a entrada na casa do primeiro
Conhecido activista na defesa das minorias Tehran, Islamic Republic of Iran por suspeita de envolvimento com grupos
curdas, Farzad foi acusado de pertencer ao E-mail: info@dadgostary-tehran.ir (Subject: armados da oposição. Ahmed al-Salihi, resi-
Partido dos Trabalhadores do Curdistão, um FAO Ayatollah Shahroudi) dente na Irlanda, encontrava-se em Bagdade
dos grupos armados que alegadamente pro- de visita a familiares.
curam derrubar o estado islâmico Iraniano. Your Excellency, Nathum al-´Ani e Ahmed al-Salihi foram
Recorde-se que os curdos do Irão correspon- vendados, algemados e levados, juntamente
dem a 7% da população total e vivem essen- I would like to urge the authorities to com- com outras 18 pessoas, para local desconhe-
cialmente na zona oeste do país, procurando mute Farzad Kamangar’s death sentence cido. Dias depois os dois homens terão sido
manter viva a sua cultura e combatendo to- immediately. I know that governments have deixados numa propriedade privada, durante
das as tentativas de assimilação por parte a responsibility to bring to justice those sus- 15 dias, num quarto com 1.5 m². A Amnistia
do governo. pected of criminal offences in proceedings Internacional alerta para relatos de tortura e
Farzad Kamangar foi detido em Julho de 2006 that adhere to international standards of fair maus-tratos por parte das forças de segu-
com outros dois indivíduos de etnia curda trial, but I state my unconditional opposition rança Iraquianas, nomeadamente privação
ao chegar a Teerão, onde ia acompanhar o to the death penalty, as the ultimate cruel, de alimentação e tentativas de sufocação, de
tratamento médico do seu irmão. A investi- inhuman and degrading punishment and forma a obter confissões.
gação das autoridades refere a ligação de violation of the right to live. Em Janeiro de 2006, depois dos prisioneiros
Kamangar aos dois homens a quem tinha Furthermore, I wish to ask for full details of terem sido novamente levados para o local
dado boleia e terá sido essa a causa da sua the charges against Farzad Kamangar, and original de detenção, Ahmed al-Salihi foi
detenção. Farzad esteve incomunicável du- the two men arrested with him, Ali Heydariyan libertado, provavelmente pelo seu estatuto
rante meses e mesmo durante o julgamento and Farhad Vakili. I am also concerned that de residente Irlandês. Encontrava-se trau-
o contacto com o seu advogado foi sempre Farzad’s trial may not have met international matizado e com fracturas visíveis. No final
reduzido. Numa carta escrita da prisão, em standards of fair trial, which are essential in desse mesmo mês o corpo de outro detido
Outubro de 2007, dava conta de ter sofrido capital cases. foi encontrado e a sua autópsia indicou es-
diversas torturas que, em última instância, o I am calling on the authorities to grant Far- trangulamento e tortura. Não há notícias de
terão levado a confessar os “crimes” de que zad Kamangar immediate and regular access Nathum al-´Ani e dos restantes prisioneiros.
é acusado. to his family and lawyer and to grant him any A utilização da força e de tortura por parte
A namorada do prisioneiro e outros membros medical treatment he might require. I would das Forças Iraquianas tem de ser combatida
da sua família foram também detidos e tudo like to express my deepest concern at reports interna e externamente. Para despoletar uma
indica que Farzad Kamangar será executado that Kamangar was tortured, and I urge the mudança é imprescindível que se inicie uma
nas próximas semanas. authorities to investigate those reports fully, investigação para descobrir o paradeiro de
with those responsible being brought to jus- Nathum al-´Ani e dos restantes 15 detidos.
Junte-se a nós neste apelo em nome do tice. Finally, I am calling on the Iranian au-
professor Farzad Kamangar, enviando uma thorities to ensure that none of the three men Junte-se a nós neste apelo em nome dos
carta ou um email ao Ministro da Justiça Ira- is tortured or ill-treated. detidos Iraquianos, enviando um email ao
niano. Para tal pode usar a seguinte carta- Presidente do Iraque. Para tal pode usar a
tipo: Respectfully, seguinte carta-tipo:

Nome ---------------------------------------
Cidade --------------------------------------
País -----------------------------------------
Notícias • Amnistia Internacional 31

UCRÂNIA
Eduard Furman detido sem provas

© Private

PRESIDENT OF IRAQ O jovem Ucraniano Eduard Furman, de 27 OLEKSANDER MEDVEDKO


JALAL TALABANI anos, casado e pai de um filho, foi detido de Riznitska Str. 13/15
E-mail: questions@iraqipresidency.net forma inesperada em casa de um amigo, a 01601 Kyiv
11 de Abril de 2007, e forçado a confessar, Ukraine
Your Excellency, por meio de tortura, diversos assassinatos
alegadamente cometidos na cidade de Dni- Your Excellency,
Please allow me to draw your attention to the propetrovsk, onde reside, e em Kiev, na capi-
case of 18 men who were arrested in Decem- tal Ucraniana. I wish to express my concern for Eduard Fur-
ber 2005, apparently on suspicion of involve- Levado pelas tropas do Ministério do Interior man, arrested in April 2007. He is currently
ment with armed groups opposed to the Iraqi Ucraniano para os escritórios dos Serviços de held in pre-trial detention, and has allegedly
government. Segurança estatais, foi interrogado e alega- been tortured while in police detention.
Two of those men, Nathum Mohammad damente torturado, com recurso a tentativas
Isma´il al-´Ani and Ahmed ´Abbas Khurshid de sufocação e à electrocussão, o que, em I call on the authorities to conduct an urgent
al-Salihi, were arrested on 21st December última instância, o terá levado a confessar and independent investigation into reports
2005. Ahmed al-Salihi was released on 4 os crimes de que foi formalmente acusado that Eduard Furman has been tortured and
January 2006, possibly due to his Irish’s resi- a 24 de Abril. Encontra-se, assim, há mais ill treated, and to bring those responsible to
dency. His nose and shoulder were fractured de um ano em prisão preventiva, a aguardar justice.
and he suffered psychological trauma. julgamento.
At the end of January 2006, the body of Niras Durante os dias que se seguiram à sua de- Yours Sincerely,
Naji ´Abid Mikhlaf, one of the detainees, was tenção, Eduard Furman esteve impedido de
found in Baghdad. It showed signs of torture contactar o seu advogado e a sua família. Nome ---------------------------------------
and strangulation. The whereabouts of Na- Foi localizado 13 dias depois, no seguimento Cidade --------------------------------------
thum al-´Ani and the other 15 men are still dos esforços desenvolvidos pela sua mulher, País -----------------------------------------
unknown. filho e advogado. Eduard Furman foi também Data -----------------------------------------
I urge you to disclose the whereabouts of impedido, durante meses, de escolher livre-
these men and to inform their relatives mente um advogado.
whether they are alive or dead. I fear that Apesar das queixas de maus-tratos evocados
some may have been tortured and so I call perante um juiz, o detido não foi submetido
for an urgent and impartial investigation into a nenhum exame médico e até hoje foi-lhe
these cases and for those responsible to be negado o direito a um julgamento justo,
brought to justice. relembrando-nos a recorrente violação dos
direitos humanos em alguns países da ex-
Yours Sincerely, União Soviética.

Nome --------------------------------------- Junte-se a nós neste apelo em nome de


Cidade -------------------------------------- Eduard Furman, enviando a carta-tipo ao
País ----------------------------------------- Procurador-Geral da Ucrânia.
Data -----------------------------------------

As cartas-tipo e contactos que aqui apre-


sentámos estão também disponíveis para
cópia na parte do nosso site dedicada ao
Notícias AI. Visite www.amnistia-interna-
cional.pt (em Aprender/Boletim)
32 Notícias • Amnistia Internacional

AGENDA
CIDADES PARA A VIDA mente aos direitos humanos, no 9.º Cam- No ano em que se celebra o sexagésimo
E CONTRA A PENA DE MORTE po de Trabalho da AI Portugal, que este aniversário de um dos mais importantes
ano vai decorrer na cidade de Albufeira, documentos internacionais, a Declara-
no Algarve. Mais informações nas pági- ção Universal dos Direitos Humanos, a
nas 23 e 24 deste Notícias da AI. Amnistia Internacional tem vindo a or-
ganizar diversos eventos e a participar
em acções com os seus parceiros. Com
LEVANTA-TE o aproximar do 10 de Dezembro, quando
a Declaração foi adoptada e proclamada
pelas Nações Unidas, em 1948, é ur-
gente relembrar os direitos humanos.
Neste âmbito, a AI Portugal vai ter várias
acções de comemoração, que serão di-
vulgadas em WWW.AMNISTIA-INTER-
NACIONAL.PT, e fique também atento à
revista CAIS, que em Dezembro vai pu-
A 17 DE OUTUBRO é urgente lembrar as
blicar uma edição especial dedicada aos
cerca de 50 mil pessoas que morrem to-
direitos humanos.
dos os dias por viverem abaixo do limiar
da pobreza. Naquele que é considerado o
São pouco mais de 60 os países que ain- Dia Mundial pela Erradicação da Pobreza, PORTUGUESES VÃO A
da não aboliram a pena de morte, uma é tempo de exigir ao governo português JULGAMENTO
forma cruel, desumana e degradante de e aos governantes de todo o mundo que
punição. O primeiro estado europeu a cumpram as promessas de acabar com
tomar a iniciativa foi o então chamado a pobreza extrema feitas no ano 2000,
Grão-Ducado da Toscana, a Norte de quando foram delineados os Objectivos
Itália, a 30 de Novembro de 1786. Este dia de Desenvolvimento do Milénio. Por todo
inspirou a Comunidade de Sant’Egidio, o mundo, e de norte a sul do país, estão
que anualmente convida as cidades de a ser organizados eventos para os dias
todo o mundo a participarem no evento 17, 18 e 19. No ano passado, 43 milhões
A Plataforma “EU ACUSO” (WWW.EUA-
“Cidades para a Vida”, em oposição à de pessoas ergueram-se para exigir o fim
CUSO.COM.PT), da qual a AI faz parte,
pena de morte. O que se pede aos mu- do fosso entre ricos e pobres e este ano
vai sentar no banco dos réus o Governo,
nicípios é que iluminem simbolicamente pretende-se chegar aos 100 milhões. Le-
a Assembleia da República, a Comunica-
um edifício público, pelourinho ou edifício vanta-te! Actua! Mais Informações em
ção Social e a Sociedade Civil. O objec-
de igual significado histórico, apelando WWW.POBREZAZERO.ORG.
tivo é simular um julgamento, simbólico,
ao fim da pena capital. No ano passado,
onde se pretende discutir se estão a ser
700 cidades aderiram à causa, sendo 30
OS 60 ANOS DA DECLARAÇÃO cumpridos os compromissos assumidos
delas portuguesas. Este ano a AI Portugal,
UNIVERSAL DOS DIREITOS na Cimeira Europa-Àfrica e no Fórum da
enquanto membro da Coligação Mundial
HUMANOS Sociedade Civil, que tiveram lugar du-
contra a Pena de Morte, torna a pedir aos
rante a Presidência Portuguesa da União
autarcas de todo o país que ajudem a ilu-
Europeia, em 2007. No final do julga-
minar esta ideia. Mais informações com
mento será proclamado o “veredicto” e
Luísa Marques pelo 213 861 652.
os réus “condenados” ou “absolvidos”. O
evento decorrerá no dia 9 DE DEZEMBRO,
CAMPO DE TRABALHO data do primeiro aniversário da Cimeira
UE-África, na sala 1 da Fundação Ca-
Durante quatro dias – de 31 DE OUTU- louste Gulbenkian.
BRO A 3 DE NOVEMBRO – jovens de todo
o país, com idades entre os 15 e os 18
anos, vão poder dedicar-se exclusiva-
Notícias • Amnistia Internacional 33

Dia mundial contra a pena de morte, 10 de Outubro Por Luís Afonso

BD AMADORA CONCURSO PARA CARTAZ CON-


TRA DISCRIMINAÇÃO RACIAL LEITURAS
A Comissão para a Igualdade e contra a TODOS NÓS NASCEMOS LIVRES
Discriminação Racial abriu um concurso Edições Paulinas, em associação
para a elaboração de um Cartaz contra a com a AI Portugal, 2008
Discriminação Racial. O vencedor terá di-
reito a um prémio no valor de 1.500 euros
e a ver o seu trabalho ser distribuído por
Para os amantes das histórias aos qua- todo o país. Os candidatos devem enviar
dradinhos, vai decorrer entre os dias 24 os projectos até ao dia 15 DE NOVEM-
DE OUTUBRO E 9 DE NOVEMBRO mais BRO. Mais informações e regulamento
um Festival de BD da Amadora, no Fórum em WWW.CICDR.PT.
Luís de Camões (Brandoa). A AI Portugal
vai estar presente com uma exposição de
banda desenhada alusiva aos direitos
TOME NOTA
humanos e com a transmissão de um
filme que evoca a Declaração Universal • 17 DE OUTUBRO No próximo mês de Novembro vai
dos Direitos Humanos. Dia da Erradicação da Pobreza ser lançada a versão portuguesa
• 16 DE NOVEMBRO ilustrada da Declaração Universal
Dia da Tolerância dos Direitos Humanos, para miúdos
PORTO CARTOON • 25 DE NOVEMBRO e graúdos.
Dia da Eliminação da Violência sobre as Os trinta artigos do documento fo-
No âmbito dos 60 Anos da Declaração
Mulheres ram desenhados por 28 artistas de
Universal dos Direitos Humanos, a déci-
• 2 DE DEZEMBRO todo o mundo.
ma edição do Porto Cartoon traz à cidade
Dia da Abolição da Escravatura
invicta uma exposição de cartoons de
• 3 DE DEZEMBRO
todo o mundo, centrados nos direitos hu-
Dia das Pessoas com Deficiência
manos. A AI Portugal integra a exposição
• 5 DE DEZEMBRO
com ilustrações sobre os trinta artigos do
Dia do Voluntariado
documento. Para ver ATÉ 31 DE DEZEM-
• 10 DE DEZEMBRO
BRO, no Museu Nacional da Imprensa
Dia Internacional dos Direitos
(Galeria Internacional do Cartoon), na
Humanos
cidade do Porto.
34 Notícias • Amnistia Internacional

CRÓNICA
A Cicatriz Olímpica
Por Rui Tavares Guedes*, Director-Adjunto da revista Visão

As notas impressas pelo Banco da China Oitenta e sete mil!


não se distinguem apenas pelos alga-
rismos e os caracteres chineses. Nelas, Durante as semanas dos Jogos Olím-
o que chama mesmo a atenção é a efí- picos, Pequim esteve no centro do mun-
gie, sempre repetida, de Mao Zedong, do, sobretudo por causa do seu povo.
com uma expressão serena e patriarcal, As pessoas, genuinamente, queriam aju-
decalcada do retrato que continua a do- dar a China a ficar bem na fotografia.
minar a Praça Tianamen, coração sim- Não era o regime que estava em causa
bólico do poder de Pequim. – mesmo que fosse o grande beneficiado.
Mas uma das coisas que se descobre O importante para os milhares de volun-
rapidamente na capital chinesa é que
© Pieter Fannes tários e para os milhões de habitantes da
Cartoon alusivo à censura na Internet na China.
nem sempre permanece igual o rosto do cidade foi sempre o de poder demonstrar
homem que fundou a República Popular mos ao nosso alcance. Sejamos claros: a o orgulho de ser chinês e, em simultâneo,
da China, a 1 de Outubro de 1949. sociedade chinesa não é formada nem por mostrar uma imagem afável ao mundo,
um colectivo de autómatos obedientes um espírito alegre e simpático. Foi essa
Aprendi-o com Li Cheng, uma estudante nem por uma multidão de oprimidos por a imagem que ficou gravada em todos os
universitária que me retirou uma nota de um regime. A realidade é muito diferente, que andaram em Pequim durante os Jogos
10 yuans das mãos e a começou a do- nada estereotipada e, se quisermos, Olímpicos. E, no mínimo, é essa imagem
brar, meticulosamente, com um plano muito mais banal: os chineses têm que tem que continuar a ser preservada
definido. Depois exibiu-ma. E, conforme opiniões diversas, interessam-se pelos pelo regime, para poder sobreviver. Qual-
abria e fechava a nota, mostrava-me as mais diversos assuntos e, sem ser às quer retrocesso poderá redundar em de-
metamorfoses no rosto de Mao: a chorar escondidas, também já sabem contar sastre.
e a rir, a chorar e a rir. anedotas sobre os seus dirigentes. Mesmo que fosse só aparente, os dias
«É este o limite da liberdade de expressão É um país livre? Claro que não. Mas é, Olímpicos deixaram uma imagem de
na China – podermos brincar, como se de certeza, muito mais livre hoje do simpatia e de alguma liberdade no país.
fossemos crianças, com a cara de um que era há 10 anos. Até porque existem E isso ficará como uma espécie de cicatriz
Presidente morto», diz-me, depois, a rir. diferenças que não podem ser escamo- na História da China: pode ser disfarçada,
O episódio é simples, mas não inocente. teadas: há casos de corrupção que são mas nunca será apagada.
Há dez anos seria completamente impos- publicamente denunciados; os exageros
sível ver um comportamento semelhante da comissão de censura nos filmes são
por parte de uma jovem chinesa. Ainda objecto de diversos fóruns na Internet,
para mais com um estrangeiro que tinha onde as pessoas criticam sem receio de
conhecido na véspera. Mas agora esse represálias; as denúncias do crescimento
tipo de atitude é perfeitamente comum. E das desigualdades sociais chegam cada
só nos revela o tão pouco que conhecemos vez mais alto e, mais importante do que * O jornalista esteve durante um mês na
sobre a China e os chineses, apesar das tudo, é o próprio regime a reconhecer China, na altura dos Jogos Olímpicos de
toneladas de literatura, de relatos e que, em 2007, registaram-se 87 mil ma- Pequim, e é conhecedor da situação que
relatórios, em papel ou na net, que te- nifestações e protestos em todo o país. se vive no país.
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