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CORAÇÃO CONQUISTADO

The conqueror

Kris Kennedy

Inglaterra, 1153
Da vingança à paixão

Quando o país é assolado por uma sangrenta guerra civil, e a propriedade e os bens da
família de Griffyn Sauvage são usurpados, o coração dele endurece com a dor da traição e
o desejo de vingança. Griffyn será capaz de qualquer extremo para vingar-se, até mesmo
formar uma aliança com seu mais odiado inimigo, casando-se com a filha dele, lady
Guinevere de l'Ami. Porém, quando pousa os olhos em Gwyn, Griffyn fica completamente
desarmado...
À medida que a guerra avança, Gwyn se vê sozinha para lutar contra os inimigos que
querem dominar as terras de seus ancestrais. Quando Griffyn surge em seu socorro, ela
fica grata pelo fato de o valente e misterioso cavaleiro ter arriscado a própria vida para
proteger a sua. A cada dia que passa, Gwyn se sente mais atraída por ele, mesmo
pressentindo que Griffyn esconde dela um segredo sombrio. E quando outro perigoso
inimigo fecha o cerco sobre ambos, a confiança e o amor de Griffyn e Gwyn um pelo outro
são submetidos à mais dura das provas...

Digitalização: Crysty
Revisão: Ana Ribeiro
CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Querida leitora,

Você vai se encantar e se emocionar com esta história de um homem e uma mulher
que, embora inimigos de morte, se apaixonam perdidamente um pelo outro. Lutas,
vingança e muita paixão esperam por você nas próximas páginas!
Leonice Pompônio Editora

Copyright ©2009 by Kris Kennedy

Originalmente publicado em 2009 pela Kensington Publishing Corp.


PUBLICADO SOB ACORDO COM KENSINGTON PUBLISHING CORP.
NY,NY-USA

Todos os direitos reservados.


Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas
vivas ou mortas terá sido mera coincidência.

TÍTULO ORIGINAL: THE CONQUEROR

EDITORA Leonice Pomponio

ASSISTENTES EDITORIAIS
Patrícia Chaves
Vânia Canto Buchala

EDIÇÃO/TEXTO Tradução: Tina Jeronymo


Revisão: Leonice Pomponio
ARTE Biônica Maldoriado
MARKETING/COMERCIAL Andréa Riccelli
PRODUÇÃO GRÁFICA Sônia Sassi
PAGINAÇÃO Ana Beatriz Pádua

Copyright© 2010 Editora Nova Cultural Ltda.


Rua Butantã, 500 — 10° andar — CEP 05424-000 — São Paulo — SP
www.novacultural.com.br
Impressão e acabamento: RR Donnelley

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Prólogo

Docas de Barfieur, Normandia, França 1 de abril de 1152

― Quanto é? O capitão do navio olhou desconfiado para o homem de ar intimidante


à sua frente. A chuva caía de lado nas docas vazias de Barfieur e estava escuro, um
pesado silêncio pairando no ar. Mais assustador, porém, era o modo como o capuz do
homem, puxado para a frente, cobria-lhe parcialmente o rosto com sombras, onde apenas
os olhos cinzentos se viam, brilhando feito brasas meio acesas.
— Mais do que um tipo como você pode pagar — resmungou o capitão, fazendo
menção de se afastar.
Uma mão se fechou em torno do braço dele.
— Posso pagar mais do que um tipo como você já sonhou em ver. — Um saco de
moedas foi atirado na mão calejada. — Isso é o suficiente?
O capitão arqueou as sobrancelhas grossas e, então, abriu bruscamente o saco.
Moedas de ouro e cobre se esparramaram, tilintando alto no silêncio das docas molhadas.
Ele olhou na direção da tabuleta torta de uma taverna, vários metros adiante no cais e,
em seguida, guardou rapidamente as moedas de volta no saco e amarrou-o.
— Eu farei o serviço.
Um riso baixo, zombeteiro, foi a resposta.
Ele guardou o saco debaixo do manto. Estreitou os olhos de encontro ao brilho
intenso da luz proveniente das tochas que se refletia no chão escorregadio das docas. Ò
manto do homem esvoaçava sob a chuva fina. Era difícil distingui-lo como uma figura
sólida. Parecia etéreo e sombrio no vento escuro.
O capitão tocou a barba grisalha.
— Quantos de vocês falou que havia?
— Treze.
Ele se inclinou para a frente, tentando distinguir um rosto, mas a noite e o capuz o
ocultavam. Até o cavalo do homem, parado a um metro ou dois era tão preto que teria
ofuscado uma tocha.
— Sim, um número de azar, para se fazer coisas que trazem azar, sem dúvida.
Músculos se avolumaram quando o homem cruzou os braços sobre o peito.
— Sem dúvida. Mas não tanto azar quanto você terá se falar sobre isto a alguém.
O capitão tocou o saco de moedas sob o manto.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Bem, quando eu estiver me divertindo com muita comida, bebida... e mulheres —


riu ele —, não terei necessidade de contar histórias.
Os velados olhos cinzentos observaram-no fixamente, e o capitão parou de rir e
pigarreou.
— Para onde querem ir?
— Meia légua a oeste de Wareham. Ele gelou.
— O quê? É perigoso demais navegar por aquela enseada. Não posso correr o
risco...
Com gestos ágeis, o Homem enfiou a mão no manto do capitão e pegou de volta o
saco de moedas de ouro.
— Outro alguém correrá o risco, então. E ficará com o dinheiro.
— Não, senhor, está certo. — O capitão umedeceu os lábios, observando o saco de
dinheiro.— Não disse que não o farei, apenas que não é prudente é que não posso ser
responsabilizado por nenhum infortúnio.
A figura grande e encapuzada sorriu com ar um tanto sombrio.
— Farei muitas coisas imprudentes, capitão, e não lhe pedirei que responda por
nenhuma delas. Amanhã cedo estarei aqui com os meus homens.
— Combinado — resmungou o capitão, tornando a guardar o dinheiro com um
suspiro de alívio.
O vulto fez menção de se afastar.
— E nós temos cavalos.
Quando o capitão se virou, já era tarde demais.
— Bem, o que... — Ele parou de falar, percebendo que já estava sozinho.

Capítulo I

Seis meses depois.

Londres, quatrocentos quilômetros a sul do castelo principal do condado de


Everoot, o Ninho.

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A aglomeração de pessoas era imensa. Podiam ser nobres, mas eram barulhentas e
mal-comportadas como uma multidão de bêbados.
Ela usava um vestido verde. Tecido com seda rara e cara, reluzia feito uma cascata
esmeralda. O corpete era justo assim como as mangas, até que se alargavam na altura
dos cotovelos e debruavam graciosamente. Cachos negros cascateavam por suas costas
com algumas mechas soltas e encaracoladas dançando em torno do rosto. Uma tiara de
prata prendia-lhe um leve véu de um verde muito claro à fronte. Por fora, apresentava
uma figura de criação nobre, apropriada, e beleza incomum.
Por dentro, era um caldeirão fervente de nervos.
Guinevere de l'Ami, filha do ilustre conde de Everoot, encontrava-se junto à parede
de pedra do grande salão real de Londres e segurava o cálice vazio de vinho com tanta
força que os nós dos dedos estavam esbranquiçados. Sorriu vagamente para um barão
que passava e que desviou em sua direção com um sorriso bem menos vago que revelou
dentes escuros. Gwyn sentiu uma onda de repulsa e ficou grata quando um serviçal
passou com uma jarra de vinho, a qual pegou das mãos dele e afastou-se para um lugar
mais tranqüilo. Achando a reentrância de uma janela, tentou fazer duas coisas ao mesmo
tempo: confundir-se com a parede de pedra e embriagar-se. Preenchendo seu cálice,
sorveu um longo gole de vinho.
Havia poucos lugares melhores, ou, mais precisamente, mais grandiosos, para se
fortificar com vinho. Aquela era â festa do rei, oferecida ao final de uma semana longa e
árdua de reuniões entre o monarca e seus conselheiros poderosos. Homens como o rico
conde de Warwick e o poderoso conde de Leicester. Homens com a posição do pai dela.
Os poucos e valiosos leais em meio à terrível e sangrenta guerra civil.
Havia dezesseis anos que a nobreza da Inglaterra estava dividida ao meio. Famílias
tinham sido arruinadas, amizades, destruídas, legados perdidos. Assaltantes dominavam
as estradas, e bandidos saqueavam os vilarejos. E, agora, as coisas estavam piores.
As notícias já se espalhavam: o poderoso conde de Everoot havia morrido. Sua
herdeira, Guinevere de l'Ami, era uma mulher sozinha.
Gwyn tomou mais uma golada de vinho e tornou a encher o cálice. Normalmente,
não estaria se comportando assim, mas presumiu que, depois de perder o pai adorado,
menos de duas semanas antes, não estava no melhor de si. O fato de seu castelo ter sido
sitiado só piorava as coisas, naturalmente, mesmo que ela estivesse em segurança na
festa de um rei, a quatrocentos quilômetros de lá.
Deveria ter imaginado.
Quando Marcus FitzMiles, lorde d'Endshire passara uma semana após a morte do
pai dela demonstrando apenas solicitude e preocupações, ela deveria ter previsto que
algo terrível estaria para acontecer. Marcus FitzMiles era seu vizinho mais próximo, aliado
do pai dela e o barão mais ambicioso no reino dividido pela guerra do rei Estevão,
apossando-se de propriedades menores sem hesitar. E até o momento em que Gwyn
chegara a Londres na noite anterior, ele era o único que sabia que seu pai tinha morrido.
O único que sabia como Everoot estava indefeso. Como Guinevere estava indefesa.
Ela deveria ter imaginado.
Erguendo o queixo, observou fixamente o salão com os olhos ardendo. Não podia
deixar aquilo acontecer. Não tão em seguida após a morte do pai. Engoliu em seco para
vencer o nó na garganta, Não agora.
Havia prometido.
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Mas, afinal, refletiu, infeliz, havia feito tantas promessas junto ao leito de morte dele
que não entendia. Contudo, uma filha não discutia com um pai moribundo quando ele lhe
pedia para guardar um baú com cartas de amor entre ele e a falecida esposa e quando
dizia que estava errado, terrivelmente errado e implorava a ela para "Cas. Gui. Sal." O
que quer que aquilo quisesse dizer. Ela se ajoelhara no chão de pedra ao lado da cama
dele e prometera tudo.
Gwyn tornou a encher o cálice e deixou a jarra vazia num aparador ao lado. Onde
estava o rei, afinal? Cada minuto que passava era um minuto a mais que FitzMiles tinha
para abocanhar sua maior porção até então, o lar dela.
Decidindo deixar a janela, acabou colidindo com o próprio Marcus FitzMiles, no
salão apinhado.
— Santo Deus!
— Lady Guinevere — disse ele num tom tranqüilo, tirando-lhe o cálice que
transbordava da mão.
— Dê-me isso. — Gwyn pegou-o de volta.
— Ora, pode ficar com ele, milady. — Marcus sorriu com ar divertido.
— Obrigada por me devolver o que já é meu. Inclusive o Ninho.
— Ah. Você ouviu.
— Ouvi? Ouvi?
Marcus correu os olhos com ar corriqueiro em torno do salão.
— Sim. Ouviu. Assim como todos ouvirão se mantiver sua voz baixa.
— Manter minha voz baixa? Tenha certeza, Marcus, minha voz se elevará tanto para
o rei... e para quem mais queira ouvir... que suas orelhas pegarão fogo.
Ele percorreu-a com um olhar calculado.
— Acontece que é você que pode acabar saindo queimada, Gwyn.
Ela apertou o cálice com mais força e seus olhos faiscaram.
— Eu? Queimada?
― Vai repetir tudo o que eu digo?
— Que tal, então, se você repetir o que eu digo, para que haja total entendimento —
retrucou ela. — Você jamais terá o Ninho.
Marcus sacudiu a cabeça com um leve sorriso, como se corrigisse o engano de uma
criança.
— Não, milady, é você que não entende. Julguei que seu castelo precisava de
reforços enquanto você estava ausente como tantos dos cavaleiros de lá.
— Enviou seu exército para o Ninho para a minha proteção!
— Na verdade, Guinevere, você mesma parecia bem protegida, com tantos
soldados na escolta. Uma esplêndida demonstração, se me permite dizer, durante a sua
entrada na cidade. E uma sábia decisão, para assegurar a qualquer um que pudesse
questionar a força de Everoot, com a morte tão recente de seu senhor. Não, de fato, você
parecia bem protegida. — Ele tornou a sorrir. — Era o seu castelo que não estava.
Ela comprimiu os lábios por um momento.
— Sei o que você pretende fazer e o meu rei ouvirá a respeito.

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— Lembre-se de que ele também é o meu rei.


As palavras soaram como uma ameaça que deixou o -ar ainda mais carregado de
tensão.
— Tenho certeza de que o rei Estevão ouvirá a mim.
— Talvez já tenha ouvido a mim.
Gwyn sentiu a cabeça girar e pousou a mão na parede de pedra.
— O que, quer dizer? Ele não concordou... Ele não deixará você simplesmente
tomar as minhas terras!
— Talvez ele tenha me permitido começar pela sua mão. Em casamento.
Ela deixou o cálice de vinho cair.
— Jamais — sussurrou, recuando, horrorizada. — Eu jamais me casaria com você.
— Nem mesmo se o seu castelo estivesse... em jogo?
— Santo Deus!
— É claro que, com a minha boa vontade, seria uma simples questão de cuidar do
bem-estar do seu povo. O que poderia ser assegurado com a senhora deles também
cuidando do meu bem-estar.
— Você é louco. O que quer que meu pai visse em você era uma mentira.
— Ele via um aliado. Um que não seria nada sensato contrariar.
— Enviei meus cavaleiros de volta para proteger-o Ninho.
— Eu sei. O que deixa você aqui. Comigo.
Gwyn cobriu a boca com a mão incapaz de crer naquele pesadelo. Empalidecendo,
sentiu o suor frio cobrir sua fronte. Santo Deus, Marcus pretendia se casar com ela ali em
Londres! Nunca tivera a intenção de tomar o Ninho à força, mas através do casamento. O
cerco fora uma manobra para levá-la a fazer exatamente o que fizera: ficar desprotegida e
à mercê dele.
Ela sentiu-se nauseada. Não outra vez. Dez anos de penitência imposta a si mesma
a fim de não tornar a errar tão imperdoavelmente como fizera antes, haviam trazido
mudanças. Dez anos negando cada momento de intuição, controlando cada emoção e,
ainda assim, no final, elas acabavam governando suas ações. Impulsivas, descuidadas...
Quantas pessoas mais teriam de morrer por causa dela?
Virando-se, deu apenas dois passos antes de parar ao avistar o rei Estevão. Ele
caminhava em sua direção, a multidão abrindo caminho respeitosamente. Gwyn sentiu os
joelhos amolecer, a mente num turbilhão.
Parando diante de Gwyn, Estevão de Blois dirigiu um leve sorriso a Marcus e, então,
pegou a mão dela e beijou-a.
Gwyn fez uma mesura ao monarca.
— Lady Guinevere.
— Majestade — disse, reverente. O pai falara sobre esse homem durante dezesseis
anos, contando como ele assumira a coroa quando o rei Henrique Beauclerc morrera;
como a designação de Matilde, herdeira do trono, como rainha causara uma insurreição
popular e Estevão vencera as tropas mais habilidosas da Inglaterra e se tornara o rei
quase duas décadas antes. Agora, ele estava a uma pequena distância e beijava sua

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mão.
— O seu presente foi bem recebido — declarou o rei, indicando um pequeno feixe
feito com pétalas de rosas secas preso à parte interna de suas vestes. Gwyn enviara a
rara rosa dupla vermelha, que era símbolo de Everoot, junto com o pagamento de seus
tributos quando o pai morrera.
Ela ergueu os olhos repletos de admiração.
— Foi enviado com toda a honra, Majestade — balbuciou.
— Veio com uma mensagem.
— Sim — murmurou ela, tornando a baixar a cabeça.
— Que falava da eterna lealdade da herdeira de l'Ami. Gwyn curvou ainda mais a
cabeça.
— Foi apenas um tímido símbolo de toda a devoção e constância de sua província
do Norte, Majestade.
— E um muito bonito. Um do qual me lembrarei quando a necessidade surgir. — Ele
a fez erguer-se com um leve toque em sua mão; — A lealdade de seu pai era absoluta e
sentirei a falta dele. Era meu amigo.
— E também o é o nosso nome.
— De l’Ami — disse o rei com um leve sorriso. — Um amigo, e tal ele o era.
— Meu pai teria ficado honrado em ouvir suas palavras. O fato de que ele se foi me
causa grande dor, mas a chance de servir Vossa Majestade a abranda. Estarei sempre ao
seu dispor.
O rei estudou a cabeça curvada dela atentamente.
— Eu me lembrarei disso.
— Majestade. — Gwyn empalideceu quando endireitou as costas. Não houve
chance de solicitar uma audiência; o rei já desaparecia no meio da multidão. Afastara-se,
ou havia sido conduzido dali, com espantosa rapidez.
Ela deparou com o olhar satisfeito de Marcus e foi tomada por uma onda de pavor.
— Sabe, Gwyn, o rei pensa que a sua lealdade me unirá à causa dele também.
Quem sabe não fará isso mesmo, minha cara? Com uma beldade me esperando no
nosso lar... — Ele pegou uma mecha do cabelo dela, acariciando-a entre os dedos. —
...talvez eu possa encontrar certa dose de lealdade no meu coração.
— Quer dizer que ele permitiu mesmo um casamento entre nós?
O sorriso triunfante de Marcus foi toda a resposta que Gwyn precisou. Sem hesitar,
ela pisou com seu salto com toda a força sobre a bota dele e fugiu.
Somente depois de vasculhar a multidão repetidas vezes atrás da beldade de olhos
verdes, Marcus foi obrigado a admitir que ela havia saído. A tolinha.
Ela achava que se livraria dele tão facilmente? Não com um condado tão valioso em
jogo. Até mesmo se ela fosse um ogro, a condessa de Everoot teria valido completamente
o sacrifício.
Quando Ionnes de l’Ami morrera uma quinzena antes, ele começara a traçar seus
planos imediatamente, sabendo que lady Guinevere se tornara tentadora demais.
Ele tivera de aguardar o momento oportuno, e era agora, quando os leais cavaleiros
dela estavam longe. O rei Estevão não concordara com a petição dele para se casar com

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Guinevere, tolo como era, mas enquanto a condessa acreditasse que sim, as coisas
seriam mais fáceis. Ela seria sua esposa. O império de Everoot tinha algumas das raízes
mais profundas em toda a Inglaterra, ramificações que se estendiam numa série de
mansões senhoriais e propriedades desde a Escócia até o Mar da Irlanda. E o Ninho na
Nortúmbria era o coração desse mundo.
E nesse coração, havia um tesouro espetacular demais para ser imaginado.
Marcus examinou a multidão uma última vez e cerrou os dentes. Foi ao encontro de
um de seus homens do lado de fora das imensas portas de madeira.
— Encontre a condessa de Everoot. Ela provavelmente está em sua casa em
Westcheap. Mantenha-a lá até que eu chegue. E mande buscar o padre.
Vinte minutos depois, Marcus abriu com um chute a porta que dava para a entrada
principal da casa em Westcheap. Retirando o manto, deteve-se momentaneamente sob a
chama da tocha e, então, olhou para o guarda de expressão grave parado ao lado da
porta.
— Ela se foi, De Louth? —perguntou.
O lugar estava um caos, como se uma tempestade tivesse passado por ali. As
prateleiras haviam sido esvaziadas e o conteúdo delas, esparramado pelo chão. Roupas
estavam espalhadas pelo chão e bancos e havia uma mesa tombada nas sombras. A
tapeçaria que antes adornara a parede tinha sido arrancada e atirada de lado. Mas não
havia mulher alguma ali.
De Louth meneou a cabeça com ar soturno.
— Ela deixou tudo para trás. — Para enfatizar o que dizia, pegou a ponta de um véu
de seda, largado ao pé da escada. Marcus mal olhou para o tecido delicado. —- Já tinha
ido quando chegamos, milorde. Não encontramos nem a mulher, nem os guardas...
— E nem os baús, imagino?
— Baús?
— Cofres. Baús. Pequenas caixas de madeira, homem!
— Ela saiu às pressas, mas não vi onde possa ter deixado algum baú pequeno,
além daquele grande ao pé da cama dela. Mas está vazio. Já o revistamos. Veja por si
mesmo.
Marcus subiu dois degraus de cada vez. O quarto estava em desordem maior do
que o andar de baixo. Vestidos e túnicas estavam espalhados ao redor, objetos,
revirados. Ele olhou para o grande baú aberto, onde havia apenas peças de roupas,
várias para fora. Examinou-o, mas não continha mais nada. Maldição!
— Você não encontrou mais nada? De Louth engoliu em seco.
— Isto. — Estendeu uma pequena chave prateada numa corrente. — Eu a encontrei
no chão, milorde. Parece que caiu quando ela fugiu.
— Meu Deus — murmurou Marcus, quase reverente, estudando a chave de aço. —
Uma das chaves que formavam a chave principal. — Eu me lembro de ter visto isto, anos
atrás. Existem três, sabe?
— Não, milorde. Eu não sabia. Marcus ergueu a cabeça abruptamente.
— Encontre lady Guinevere. Esta noite. Agora.

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Gwyn instigava cada vez mais o cavalo que já ia a pleno galope. Anoitecera por
completo, e ela mal estava a três quilômetros de Londres e do perigo que lá havia.
Quando chegara a casa em Westcheap, ninguém estivera presente, nem mesmo
Eduard e Hugh, os dois jovens cavaleiros deixados para protegê-la enquanto os demais
tinham sido enviados para acabar com o cerco ao castelo. A casa estivera
assustadoramente silenciosa. Ela correra pelos cômodos escuros, parando de joelhos em
frente ao imenso baú de carvalho ao pé de sua cama.
Arrancou tudo de dentro, atirando vestidos, roupas de cama e cortes de tecido no ar,
buscando freneticamente uma das "promessas": o pequeno baú entalhado que o pai
confiara a ela em seu leito de morte. Ali continha cartas de amor que seu pai enviara a
sua mãe quando estivera nas Cruzadas.
Não poderia tê-lo deixado para trás. Em seu desespero o baú caiu de suas mãos e a
tampa se abriu, espalhando os pergaminhos pelo chão. Ela os recolheu rapidamente de
volta ao baú, enfiou-o num grosso saco de feltro e amarrou-o à cintura, junto com outro
saco que deixara na casa com seu dinheiro restante em moedas. Sem tempo a perder e
não encontrando mais ninguém, correu, aflita, para o estábulo e selou o cavalo recém-
adquirido de Hugh, partindo menos de dez minutos depois de ter voltado para casa. Antes
de ter escapado da festa, ainda tentara encontrar o rei, mas um de seus conselheiros lhe
dissera que ele estava ocupado e prometera uma audiência apenas para a manhã
seguinte. Ela não pudera esperar, não com Marcus à espera de dar o golpe. Só lhe
restara fugir até encontrar um meio seguro de contar ao rei sobre o ardil de Marcus. Ela
achava improvável que Estevão tivesse dado sua permissão para que Marcus a
desposasse, como ele a levara a acreditar, e esperava estar certa em sua suposição.
Agora, ela galopava velozmente com apenas o som do vento e dos poderosos
cascos retumbando em seus ouvidos. Uma suave neblina encobria o chão até uma altura
de quase meio metro, mas o cavalo a cortava firmemente com sua passagem rápida.
De repente, ele se atirou no ar, afundando as patas traseiras na terra, a cabeça
balançando furiosamente diante das mensagens conflitantes enviadas pelo freio e pelas
esporas. Gwyn puxou as rédeas com mais força e lançou um olhar aterrorizado por sobre
o ombro. Não podia ser. Não tão depressa.
Cascos. Na estrada atrás dela. Aproximando-se a um galope veloz.
Ela bateu com as rédeas no dorso do cavalo, fazendo-o saltar e prosseguir no
mesmo ritmo. Quando arriscou um novo olhar, deparou com uma visão horrível: cinco
cavaleiros e seus monstruosos garanhões no alto de uma pequena colina.
Afundou as esporas no cavalo. A estrada irregular já era perigosa à luz do dia, mas
um exercício de pura insanidade à noite. Por essa razão foi com uma imprecação que ela
quase foi arremessada por cima da cabeça do cavalo quando ele caiu de joelhos com os
cascos virados em quatro direções diferentes e uma onda de lama avançou por cima da
sela.
Ela deslizou para fora da sela. O cavalo atirou a cabeça no ar com os olhos
assustados e, então, conseguiu se levantar e correu na direção de um arvoredo, deixando
Gwyn de joelhos no meio de uma grande poça de lama na estrada, derrotada e
completamente só.
— Meus Deus, salve-me porque é impossível que eu o faça sozinha — ela
sussurrou, esforçando-se para conseguir se levantar.
A lua surgia, e ela conseguiu ver apenas as espadas cruzadas que anunciavam o
intento dos enviados de Marcus, enquanto os cinco soldados avançavam. Um deles ela
reconheceu como membro da guarda pessoal de Marcus: De Louth. Os demais eram
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soldados usando cotas de malha e elmos. Levantou-se, limpando lama do queixo e do


peito.
O som dos cascos dos cavalos ficou abafado quando eles entraram na beirada do
lamaçal que fizera sua própria montaria tombar. Ela fixou o olhar em De Louth, que seguia
um pouco adiante dos demais. Cinco contra uma.
— Milady Guinevere?
A voz dele soou ameaçadora na escuridão. O grupo estava a uns vinte passos de
distância.
— Milady? Lorde Endshire nos enviou à sua procura.
— Pode dizer a ele que me encontrou muito bem e o agradeça por sua
preocupação.
O cavaleiro fez uma pausa, detendo sua montaria por um momento. Os demais
pararam atrás, como reflexos escuros num espelho. De Louth pigarreou. — Ele nos
enviou para garantir a sua segurança.
— Pois eu sei que lorde Marcus os enviou para garantir a riqueza dele.
De Louth tocou os flancos do cavalo de leve e começou a se aproximar devagar
novamente. Ela engoliu em seco, tentando lutar contra a onda de medo. Com o cabelo
emplastrado em parte do rosto sujo de lama, ergueu o queixo.
— Estou perfeitamente a salvo e gostaria de ser deixada a sós para prosseguir em
meu caminho.
— Que tolice é essa, milady? — disse o homem com ar surpreso. — Deixamos a
corte do rei para trás, onde tais gentilezas valem de algo. Está sozinha, sem um cavalo,
numa estrada deserta. E se julga a salvo?
— Acho que estou mais a salvo do que com o seu senhor e ficarei aqui até que o
meu cavalo volte.
O cavaleiro soltou um riso baixo e divertido enquanto os demais avançavam
lentamente com ele pelo nevoeiro.
— Sabia, milady, que ouvimos um rumor ainda ontem de manhã sobre haver um dos
espiões de Henrique Plantageneta escondido neste exato trecho da estrada? O que acha
que ele faria se a encontrasse?
— Talvez o mesmo que você, que me atiraria em cima de um cavalo e me levaria
para onde não quero ir. — Pisando sem muita firmeza sobre a lama, ela sacudiu a barra
do vestido na medida do possível. — Já ficou bem claro o que me espera com lorde
Marcus e prefiro arriscar minhas chances com o malfeitor normando.
— Não terá de arriscar chances com milorde. É uma certeza o que acontecerá.
— Apenas se vocês me levarem de volta.
De Louth continuou guiando seus homens, parando vez : ou outra como se ela fosse
um animal ferido que quisessem acuar.
Gwyn olhou freneticamente ao redor, vendo apenas a floresta densa que ladeava a
estrada vazia. Não havia meio de escapar. Apavorada, pegou um punhado de pedras e
deu um passo atrás. Eles continuaram avançando em meio à neblina. Recuando mais, ela
colidiu com uma árvore.
— Isto não está saindo como você planejou, não é? — Ela ouviu alguém dizer.
Com um calafrio de medo subindo por sua espinha, ela ergueu o rosto e viu um vulto
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encapuzado que mantinha os olhos fixos nos homens de Endshire.


— Vá para detrás de mim, senhora.
— O quê?
— Fique atrás de mim se quiser se salvar. Por que eles a querem?
— Sabe quem são?
— Sim. Gwyn olhou para a fileira parada de soldados. Olhavam perplexos para o
vulto que aparecera repentinamente, o que a fez sentir o primeiro fio de esperança.
Com um gesto ágil, ele se colocou na frente dela.
— Por que esses homens a querem? — perguntou calmamente.
— Não são eles, mas lorde Endshire.
Um brilho indecifrável passou pelos olhos cinzentos que a fitaram por um instante.
— Marcus FitzMiles quer você?
— Não exatamente. Quer o meu dinheiro.
— Ah! — disse ele em tom de cumplicidade, com os olhos agora nos cavaleiros que
avançavam com as espadas empunho. — Ele sempre foi previsível.
— Quem se atreve a interpelar a noiva do meu senhor? — indagou De Louth
ameaçadoramente.
— Não sou noiva dele! — gritou Gwyn por sobre o ombro de seu salvador e, então,
baixou a voz. — Marcus enviou seus homens para me "convencer" a casar com ele,
agora que meu pai morreu.
— Parece que não tiveram muito êxito nisso até o momento.
— Caso estes falhassem, ele mandou um exército para fazer um cerco ao meu
castelo e obter êxito.
— Previsível, como falei. — Rapidamente, o homem agachou-se diante de um
carvalho e ergueu o maior arco que ela já vira. Pegou uma das três flechas com ponta de
aço que levava à cintura e posicionou-a no arco.
De Louth estendeu o braço para o lado, detendo seus homens.
— Queremos apenas a dama, normando. Você não será levado à lei, nem ferido de
forma alguma. Tem minha palavra quanto a isso. Apenas nos entregue a mulher.
O estranho soltou uma sonora gargalhada.
— E você tem minha palavra quanto a isto: sairão daqui sem a dama. Se tentarem
levá-la, o sangue de vocês se esparramará pela estrada do falso rei. E ainda irão sem ela.
Agora, vão embora!
Gwyn franziu a testa. Estrada do falso rei?
— Não sem a mulher.
O estranho apontou o arco.
— A dama fica.
Um dos cavaleiros de De Louth avançou em sua montaria e foi atingido em cheio
pela flecha no pescoço, caindo do cavalo, ensangüentado e morto na estrada.
Os outros quatro olharam em puro aturdimento, mas o homem ao lado dela já estava
com outra flecha preparada. O silêncio pairou. Os termos eram claros. Nenhuma flecha

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

mais seria arremessada se eles se fossem. Contudo, eles não iriam.


De Louth tirou o pé do estribo e chutou o homem morto, deixando-o de costas.
Inclinando-se, arrancou a flecha com ponta de aço do pescoço dele e examinou-a. Dirigiu-
se, então, a seus homens, falando numa voz baixa. Os quatro desmontaram em seguida.
A essa altura, o estranho encapuzado já largara o arco, desembainhara a espada e
afastara Gwyn para longe do semicírculo de soldados que se fechava em torno dele, com
a floresta densa atrás.
Apesar de estar em desvantagem, ele não parecia nem um pouco desesperado.
Mantinha os olhos atentos e movia-se com a agilidade e a elegância de anos de prática.
Um dos soldados adiantou-se, abrindo-lhe a túnica com a espadavantes que ele saltasse
para trás. O manto e a túnica caíram, revelando uma cota de malha. Ele usava uma
armadura. Uma armadura cara e bem ajustada e brandia uma espada reluzente que
custaria o mesmo que uma pequena propriedade senhorial.
Quem era aquele rico e destemido cavaleiro que andava à espreita em estradas
desertas e salvava donzelas em apuros, mesmo arriscando seu pescoço obviamente
nobre? Mais sons de aço colidindo, e outro dos soldados de De Louth caiu morto na
estrada. Todos recuaram cautelosamente e, quando tornaram a avançar, atacaram em
fila, segurando as espadas com ambas as mãos, agitando-as diante do corpo.
Protegendo-se detrás de uma árvore, Gwyn viu seu salvador sendo obrigado a
recuar até a orla da floresta. Ele tropeçou e caiu em cima de um joelho dobrado.
— Olhem aqui! —- gritou ela.
Três pares de olhos viraram-se em sua direção. Gwyn começou a correr.
Um dos soldados saltou sobre o cavalo e foi atrás dela. De Louth e o outro fizeram
uma pausa, momentaneamente distraídos. Nesse meio tempo, o estranho aproveitou sua
chance. Apoiando-se no outro joelho, apanhou o arco e atirou duas flechas em rápida
seqüência.
A segunda atingiu seu alvo primeiro, fincando-se profundamente na coxa de De
Louth, que caiu no chão, urrando. A primeira flecha foi mais longe, penetrando pela
armadura de couro que protegia o peito do cavaleiro no momento em que ele se inclinava,
preparando-se para apanhar Gwyn. Ele desabou para trás, inerte e sem vida.
Gwyn desviou-se do cavalo que saiu em disparada e tropeçou, caindo. Seu salvador
surgiu do nada e pegou-a pelo pulso, ajudando-a a levantar. Nesse instante, o último
soldado arremessou um punhal de seu cinto na direção dele. Gwyn soltou um grito.
Seu salvador a empurrou para um lado e saltou para o outro, mas o gesto o deixou
mais vulnerável para o soldado que avançava na direção dele, brandindo a espada,
pronto para atingi-lo mortalmente. O estranho rolou sobre o próprio corpo num movimento
rápido e a espada fincou-se no chão. Ele levantou-se depressa e, apanhando a espada
do soldado do chão, desfechou-lhe um golpe fatal.
Com o coração aos saltos, Gwyn viu o soldado mercenário desabar a seu lado e
soltou um grito de horror. Ele estava todo ensangüentado, com a cabeça rachada ao
meio. Na distância, o ruído de passos foi se dissipando. De Louth, apesar do ferimento,
estava fugindo. Seu salvador virou-se como se fosse sair numa perseguição, mas, então,
com algumas palavras abafadas, pareceu mudar de idéia.
— Ele está morto? — sussurrou ela, como se o combate de um momento atrás não
tivesse acontecido.
Olhos velados dirigiram-se ao último soldado inerte.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Sim, está.
— Realmente morto? — disse ela, ainda pálida feito cera.
Ele olhou ao redor.
— Todos os quatro estão.
— Diga-me, matou tantos homens assim que mais alguns não fazem diferença?
Ele sorriu com ar soturno.
— E você esteve em tão poucas estradas que não conhece o perigo de cavalgar por
elas sozinha?
Gwyn entreabriu ps lábios para dizer algo, mas tornou a fechá-los.
— E sabe tão pouco sobre os homens que acharia que esses quatro não estão
mortos?
— Sei apenas que estou exausta e gostaria de estar em casa.
Enquanto ele falava, arrastou rapidamente os quatro corpos para dentro da floresta
e, quando tornou a se reunir a ela, já havia recolhido seu arco, as flechas e embainhado a
espada.
— Não podemos perder tempo. Endshire saberá o que aconteceu tão logo De Louth
conseguir chegar a Londres e, então, virá atrás de você.
Soltou um assobio, e um imenso cavalo preto apareceu vindo pelo meio de dois
carvalhos gigantes. Afagou-lhe o pescoço quando o animal se aproximou, murmurando
palavras num tom afetuoso.
Gwyn pensou na própria montaria, que fugira assustada. O que deveria fazer agora?
Seu destino original, planejado tão rapidamente enquanto galopara pelas ruas de
Londres, tinha sido a abadia de Saint Alban. Mas os monges estavam a uns trinta
quilômetros e, sem um cavalo, aquela se tornara uma distância impraticável.
Encontrou os olhos do estranho, que a observava com uma expressão velada e, o
que havia sido euforia por ser salva transformou-se em súbito medo.
— E então? O que vou fazer com você?
Um calafrio percorreu-a. O que o guerreiro queria dizer com "fazer com ela"? Não
passara boa parte do início daquela noite assegurando-se que nenhum homem fizesse
nada com ela?
— Obrigada por me salvar, senhor, mas não há nada que precise ou deva fazer
comigo. Sou realmente grata pelos riscos que correu aqui, porém...
Ele apenas arqueou uma sobrancelha, e ela pigarreou. Não tinha muitas opções,
afinal.
— Por acaso não estaria indo na direção da abadia de Saint Alban, estaria?
— Não.
— Foi o que imaginei. — Gwyn respirou fundo. Havia outra opção, bem mais
próxima, embora ela própria não soubesse o caminho. No entanto, talvez aquele cavaleiro
o conhecesse. Evidentemente, não era a alternativa mais segura. O pai sempre lhe
dissera que lorde Aubrey de Hippingthorpe, que tinha uma propriedade por perto, era um
homem com um nome ridículo e um temperamento dos mais perigosos.
Bem, ponderou, perigo era algo bastante relativo agora, não era?

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Olhou para seu salvador.


— Estaria em condições de me levar a Hippingthorpe Hall?
Uma ligeira sombra passou pelos olhos dele. — Vai citar cada ponto de parada ao
longo da estrada até York?— perguntou com frieza.
Gwyn recuou um passo, ajeitando melhor o manto amarfanhado em torno dos
ombros e, jogando para trás os cabelos que haviam se soltado por completo, ergueu o
queixo.
— Não, é claro que não. Minhas desculpas por todos os... inconvenientes. Posso
recompensá-lo? — Pegou o saco de moedas que levava amarrado em torno da cintura,
deixando o outro preso no lugar.
— Não.
— Tem certeza? Sua túnica foi rasgada e...
— Absoluta.
— Está certo, então.
Gwyn girou nos calcanhares e, com grande dignidade, começou a caminhar pela
estrada, como se a lama nos sapatos e na barra do vestido não estivessem atrapalhando
nem um pouco seus movimentos.
Atrás dela, Griffyn "Pagão" Sauvage permaneceu por um longo tempo, olhando para
a estrada. A última coisa de que precisava no mundo era outro fardo. Em especial
naquela noite.
Sua missão era clara e direta: preparar a Inglaterra para a invasão. Atrair os
poderosos, convocar os mercadores, persuadir os sábios e subornar os tolos. Mas fosse
como fosse, deixaria o caminho livre, porque Henrique Plantageneta, conde de Anjou,
duque da Normandia e o rei de direito da Inglaterra estava preparado para avançar pelo
país feito uma tempestade e conquistá-la de um extremo a outro.
Aportando no litoral da Inglaterra em segredo seis meses antes, Griffyn encontrara
dezenas de lordes cansados da guerra e conseguira convencê-los de que Henrique era a
melhor solução para os problemas de todos, de que ele traria paz e a prosperidade
novamente ao país. Ele fizera coisas que nenhum outro homem conseguira fazer e
planejava fazê-las uma última vez, naquela noite, na reunião mais vital de sua missão
inteira. Numa propriedade senhorial isolada a meio quilômetro da estrada do rei. Uma
reunião cuidadosamente arranjada com o barão mais poderoso do reino de Estevão, o
conde de Leicester, Robert Beaumont. Bastaria convertê-lo e teriam o país nas mãos.
O nome daquela propriedade? Hippingthorpe. O exato lugar onde a dama pedira
para ir.
Era possível que ela estivesse literalmente no seu caminho?
O destino de dois reinos dependia dessa reunião. Se Beaumont fosse convencido a
mudar de lado, a Inglaterra estaria em poder deles.
E ele poderia finalmente voltar para casa.
Sentiu uma ponta de dor no peito. Abrandada pelo tempo, estava sempre ali, um
anseio profundo: seu lar.
Ele não precisava de uma distração. Nem naquela noite, nem nunca.
Observou a figura de Gwyn diminuir na distância por mais um momento e, então,
praguejando baixinho, montou em seu cavalo, Noir.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Gwyn fungou e olhou com otimismo para a estrada, franzindo a testa. Saint Alban
não parecia estar mais perto. Por outro lado, fazia apenas uns dez minutos que estava
caminhando.
— Acho que terei de dormir num tronco oco de árvore esta noite e esperar que os
javalis não me achem tentadora demais para resistir.
Olhou para o céu, percebendo que grossas nuvens se aproximavam, e adquiriu uma
expressão zangada.
— Perfeito. Eu devia ter previsto uma tempestade.
É claro que tinha de chover. Por que não mandam logo uma nuvem de gafanhotos e
me atiram água fervendo em seguida? Seria o final ideal para esta maldita noite.
Ela tremia da cabeça aos pés encharcados, tanto de frio quanto pelo desgaste
emocional. Erguendo a mão, esfregou os olhos que começavam a ficar marejados.
— Oh, nada de choro! — ordenou num sussurro furioso. — Você causou isto a si
mesma. — Garota teimosa e tola!
Continuou caminhando, afundando os pés em poças de lama, as pernas
bambeando, ameaçando ceder. Jamais se sentira com tanto frio é tão só em sua vida.
— Aonde pensa que vai?
Sobressaltada, Gwyn virou-se e deparou com seu salvador no alto de sua montaria,
parecendo ainda mais misterioso do que quando saíra da floresta e a salvara.
— Estou indo para o norte. — Ela continha as lágrimas a custo àquela altura.
— É uma área bastante abrangente.
— Bem, é para onde vou.
— Você não está segura na estrada e, certamente, não sozinha.
Gwyn sentiu as lágrimas aflorando em seus olhos.
— É uma pena porque é como e onde estou. A voz dele soou mais gentil dessa vez:
— Então, venha comigo.
— Não sei para onde você vai. Ele soltou um riso.
— Não sabe para onde eu vou? Ora, vou para um lugar quente e aconchegante, ao
passo que você rumará para o perigo certo, se continuar sozinha.
— Estou acostumada a estar sozinha. Só não estou acostumada a sentir tanta dor
nos pés e a ficar toda enlameada deste jeito e... Oh, maldição! — Ela tropeçou numa raiz
grossa incrustada no chão, e ele desceu do cavalo de imediato, ajudando-a a levantar.
— Sei que posso prosseguir se conseguir encontrar meu cavalo.
Ele a amparou, passando o braço em torno de sua cintura, e ela começou a se
libertar, pois o calor daquele corpo musculoso junto ao seu era perturbador demais.
— Está se sentindo bem?
— Claro. Não foi nada. — De repente, as imagens daquela noite sangrenta surgiram
em sua mente com súbito impacto, deixando-a zonza.
Ele observou-a por um longo momento, enquanto ela afastava os cabelos da fronte,
e notou como lhe emolduravam o rosto bonito, caseateando em cachos suaves.
— Você poderia simplesmente ter voado.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— C-Como?
— Você poderia ter voado para escapar. Seu cabelo é macio como a pluma de uma
ave e negro como um corvo.
— Um corvo?
— Sim, mas se prefere algo mais poético, eu diria que tem cabelos de ébano.
— Oh, obrigada. — Ela sentiu uma onda de náusea. — Eu... Minha cabeça está
começando a latejar.
— Não é de admirar, considerando tudo o que passou.
— Santo Deus, como fui tola.
— Todos somos tolos vez ou outra. Gwyn sentiu o estômago se revirando.
— Oh, acho que estou nauseada...
Ele a ajudou a se agachar, e ela se apoiou nas mãos e nos joelhos, inclinando-se
com um gemido.
— Vá em frente. — Seu salvador segurou-lhe os cabelos para trás, afastando-os de
seu rosto.
— Não consigo — gritou ela, mas esvaziou o conteúdo do estômago logo em
seguida.
Ele, então, levou-a até um tronco Oco de árvore, cheio de água fresca de chuva.
Ajudou-a a lavar rosto e as mãos e a refrescar a cabeça e a fez rir duas vezes, o que era
mais do que se poderia esperar, levando-se em conta as circunstâncias.
— Bem — disse Gwyn numa voz trêmula, depois que a náusea passou, — Acho que
estamos prontos para a batalha agora.
Ele a encarou boquiaberto por um momento e, então, revelou dentes brancos e
iguais quando desatou a rir.
— Claro, uma batalha. Ninguém teria chance contra nós, Olhos Verdes.
Ela soltou um riso fraco.
— Não mesmo. — E, então, desmaiou.
Quando recobrou os sentidos, Gwyn estava sentada sobre algo macio. Musgo.
Correu os dedos sobre ele e percebeu que se apoiava num tronco de árvore. Endireitando
as costas, viu que seu salvador estava agachado diante dela, observando-a.
— Por quanto tempo? — sussurrou. Ele deu de ombros.
— Um momento. Dois.
— Deus do Céu! Minhas desculpas. Ele se levantou.
— Não tem do que se desculpar. Você foi perseguida e abordada na estrada,
passou por um grande susto vendo uma luta nada agradável e quase se casou. É o
bastante para fazer qualquer donzela desmaiar.
Empertigando-se, Gwyn tratou de se levantar o mais depressa que pôde.
— Saiba que isso nunca me aconteceu antes.
— Hum.
Ela o encarou com ar mal-humorado.
— O que foi agora?
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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Ele emitiu um estalido com a língua para chamar o grande cavalo preto parado por
perto e, quando o animal se aproximou, montou com destreza. Inclinando-se, estendeu a
mão grande.
— Sua opinião sobre os homens não é das melhores, Olhos Verdes, mas suas
opções são limitadas. Não levarei você contra a sua vontade...
— Mas...
— Mas não a deixarei.
Dessa vez, nada teria contido as lágrimas que rolaram copiosamente pelo rosto de
Gwyn. Não protestou quando foi erguida no ar e acomodada diante dele no cavalo.
— Tenho de chegar em casa — balbuciou por entre as lágrimas.
— E onde fica?
— Em Saint Alban.
— Você é uma monja. Eu jamais teria adivinhado. Ela sorriu de leve.
— Bem, a abadia fica longe demais, em especial com uma tempestade se
aproximando e com os homens de Endshire prestes a surgir na estrada. E eu tenho
lugares para ir. Levarei você para um lugar seguro, quente e seco.
— Mas...
— E depois, eu assegurarei que chegue a Saint Alban.
— Tenho sua palavra? Não faz idéia de como preciso chegar em casa.
— Tem a minha mais solene palavra. Entendo muito sobre a necessidade de se
estar em casa.
— Jamais terei como retribuir.
— Não será necessário. Mas você está pensando em entrar para um convento, ou
havia alguma outra razão para estar indo para a abadia?
Gwyn riu ligeiramente, tendo conseguido controlar o pranto àquela altura.
— Não. Era apenas um... meio de fuga. Um jeito de escapar da cidade, de Marcus.
— Entendo.
— Acha que os homens de Marcus já estão me procurando a esta altura?
— Provavelmente. Mas não se preocupe. Conheço vários caminhos e meios de
despistá-los facilmente.
O medo que ia se aplacando e a exaustão a fizeram esquecer o recato e a sensatez,
e ela aninhou-se junto ao corpo musculoso, pousando a cabeça em seu peito e passando
um braço em torno de seu pescoço para se apoiar. Ele a envolvia com braços protetores,
segurando as rédeas de Noir e guiando-o a um trote rápido.
Gwyn começou a conversar com ele porque não queria pensar no horror enfrentado
naquela noite longa e escura. Não contou nada realmente importante, sentiu-se bem
falando dos detalhes corriqueiros de seu dia a dia. Falou sobre como detestava negociar
com mercadores e como adorava cogumelos refogados e cortes de seda azul. Falou
sobre como sentia falta da mãe, como às vezes era irritante e persistente com os amigos
quando, na verdade, só queria ajudar; mencionou que se sentia só e desamparada
demais agora que o pai também morrera, tendo apenas William, seu velho senescal, para
ajudá-la na organização de tudo. Ele murmurava em assentimento, talvez atento à sua
tagarelice, talvez apenas sendo educado e querendo ajudá-la a relaxar, mas o fato foi que

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Gwyn se sentiu bem melhor, até mergulhar num silêncio tranqüilo. Ergueu um pouco a
cabeça para observá-lo a um dado momento e percebeu que ele olhava para o céu
carregado. Aproveitou para estudar um rosto que se revelava extremamente bonito, com
seus traços nobres e marcantes, os olhos expressivos, as sobrancelhas tão escuras
quanto seus cabelos curtos. Não que ela se importasse, obviamente. Ainda assim, era
impossível não notar... Sem aviso, ele baixou os olhos.
— Como se chama, jovem dama?
A pergunta deixou-a tensa. Esse homem a salvara, correndo sérios riscos. Não era
um raptor e, embora parecesse perigoso, era de um modo diferente que nem sequer
conseguia definir, não de um que representasse risco à sua vida.
— Guinevere — respondeu, por fim.
Se ele notou a ausência de sobrenome ou títulos que a identificassem, não
demonstrou.
— É um prazer conhecê-la. Gwyn esboçou um sorriso.
— Sim, imagino. E você?
Foi a vez de ele prolongar o silêncio antes de responder.
— Sou conhecido como Pagão.
Como não acrescentasse mais nada, ela deu de ombros e não o questionou.
— Se Deus decidiu atender minhas preces com um pagão, que assim seja. Quem
sou eu para discutir?
Ele sorriu.
— Acho que, pelo seu jeito, você discutiria com o próprio Deus, se achasse preciso.
Griffyn tivera uma pequena mostra daquilo. Estivera cavalgando para a reunião mais
importante de toda a sua estada na Inglaterra, com os pensamentos perdidos em sonhos
assustadores do futuro, quando ouvira uma discussão. Uma voz feminina, contendo
medo, mas proferindo palavras desafiadoras. Corajosas, porém desesperançadas. A
mulher determinada que as dissera era digna de uma batalha. Embora ele não tivesse
tempo para travá-la, foi em seu socorro. Devia estar entediado. Ou fora de seu juízo
perfeito.
Ela era diferente de qualquer pessoa que ele já conhecera e apanhara-o
completamente desprevenido.
No entanto não era um menino. Com quase vinte e seis anos de idade, tendo
enfrentado praticamente dezessete anos de exílio, sob disfarce e arriscando
constantemente sua vida, era um espião de seu rei. As coisas que já fizera no
cumprimento desses deveres eram, sem dúvida, mais desafiadoras do que lidar com uma
donzela em perigo, não importando o quanto fosse linda, vivaz e determinada e... bem,
simplesmente não importando nada.
E, ainda assim, ali estava ela, à sua frente em seu cavalo, distraindo-o.
Nunca se deixara distrair por nada.
De repente, deu-se conta de que ela voltara a falar.
— ...e não consegui pensar com clareza quando os vi lá, os homens de Marcus.
Tudo o que soube era que eu estava perdida.
— Você não pareceu achar que toda a esperança havia acabado, jovem dama, pela
maneira como estava parada corajosamente no meio da estrada, ordenando-lhes que
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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

fossem embora.
— Eu estava zangada. Tudo não passou de raiva e falsa coragem. Mas eu sabia
que não havia escapatória. Então, você apareceu e me salvou.
Griffyn se mexeu na sela, pouco à vontade. Sua missão nunca estivera relacionada
a salvar ninguém de nada. Tinha mais a ver com acertar antigas contas, com retomar o
que era seu. Com conquista. A última coisa de que precisava era de uma mulher em
apuros, especialmente uma cujo corpo trêmulo, macio e quente estava aninhado junto ao
seu, o braço em torno de seu pescoço.
— Não sou um salvador, dama — resmungou.
— Ora, você me salvou.
— Digamos que salvamos um ao outro, então.
— Você não precisaria ter sido salvo de nada se não fosse por mim, Pagão.
Ele curvou os lábios.
— É verdade.
— Então, estou em dívida com você. Ele baixou os olhos para fitá-la.
— Guinevere, falo sério. É melhor que não me veja como salvador de nada.
Griffyn percebeu que o corpo dela ficou rígido e começou a ser tomado por
tremores. Maldição, o que dissera, afinal? Ela estivera tranqüila e relaxada, e ele tivera de
inquietá-la com palavras desnecessárias. Era só uma questão de tempo até que a
deixasse em segurança e não tivesse mais que se preocupar com ela. Parou Noir.
— Você está tremendo.
— Foi só um calafrio — sussurrou ela. — As roupas ainda não secaram por
completo.
Griffyn desmontou e remexeu dentro de seu alforje, tirando um frasco. Abrindo a
tampa, estendeu-o até ela.
— Deus do céu, cavaleiro! — exclamou Gwyn, virando o rosto. — O que há aí
dentro?
— Digamos que é um "remédio" que vai ajudá-la a se sentir melhor e espantar o frio.
Lançando-lhe um olhar desconfiado, Gwyn tornou a cheirar o frasco.
— Parece algo que o meu cavalo vomitaria. Ele riu, divertido.
— Você é impagável. Agora, beba.
Com um olhar duvidoso ao frasco, Gwyn levou-o aos lábios e bebeu. O líquido
desceu queimando sua garganta.
Griffyn viu-a escorregar da sela e segurou-a de imediato pelos quadris. O espaço
entre ambos era mínimo, e ela deslizou inevitavelmente devagar de encontro ao seu
corpo. Por um instante, ele foi tomado por uma irresistível onda de desejo, sentindo as
curvas macias e femininas junto a si, produzindo um fogo que se alastrou por suas veias.
Pousando-a no chão, fitou o rosto bonito, observando os expressivos olhos verdes,
agora arregalados, os lábios entreabertos. Ela estava ofegante, o peito arfante revelando
curvas tentadoras no decote e pele acetinada. Ele teve de ordenar a si mesmo para soltá-
la e sair daquela espécie de transe.
Era algo perturbador, pois conduzia sua mente em direções que não queria ir. Era

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

puro erotismo... Pudera observá-la antes e, mesmo na escuridão da noite e sob toda
aquela lama e desalinho, havia uma verdadeira deusa.
— O que é isso? — perguntou ela, ainda ofegante. Ele sorriu lentamente.
— Diga-me você.
Gwyn olhou para o frasco, depois para ele, e um sorriso espalhou-se por seu rosto,
transformando os traços já perfeitos numa visão adorável.
— Bom.
Além de inconscientemente sedutora, aquela era a mulher mais divertida e
surpreendente que ele já conhecera. E ele corria o risco de se perder em meio à imagem
de si mesmo como salvador daquela donzela desamparada.
— Fico contente que tenha gostado. — Tornou a sentá-la na sela, dessa vez
ignorando a deliciosa sensação de segurá-la pelos quadris. Em seguida montou atrás
dela.
Retomaram a cavalgada e percebeu que ela voltava a relaxar com as curvas macias
junto a seu corpo. Teve de cerrar os dentes para não pensar naquelas curvas, para
esquecer o desejo que o tomara de assalto. Na verdade, seria mais fácil esquecer de tudo
mais, em vez dela, pensou por um momento.
O que era inaceitável.
Lembre-se de sua missão, ordenou a si mesmo.
E não a missão que cumpria para Henrique. Havia também uma vingança mais
pessoal e pungente, uma que preparava fazia dezessete anos: destruir a Casa de l'Ami.
Após certo tempo, pararam numa clareira cercada pela floresta densa e escura, e
em cujo centro enfileiravam-se umas cinco ou seis choupanas de taipa. Diante do
semicírculo que formavam, ardia uma imensa fogueira.
Gwyn suspirou de alívio e, depois, examinou melhor o lugar. Havia um bocado de
lenha queimando tão desnecessariamente. Uma lembrança vaga passou por sua mente.
Olhou para Pagão.
— Para que é a fogueira?
— Para a Véspera de Todos os Santos.
A noite em que o portal entre o Outro Mundo e este era aberto, a única noite do ano.
A magia fluía, os espíritos se detinham ali. Eram crenças antigas, claro, que ela ouvira
desde criança, meras crendices populares.
Ele a fitou com olhos indecifráveis no escuro da noite.
— Trouxe-a para um lugar quente, seguro e seco.
— Se é o que diz, acredito.
— E procure não falar demais, nem discutir com ninguém.
Ela baixo a cabeça.
— Claro.
— Ótimo. E amanhã poderá ir para a sua abadia.
— Você me levará?
Ele desmontou de Noir no momento em que a porta da choupana maior se abriu.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Não. Eles.
Grandes vultos apareceram à porta e pareciam estar segurando armas de algum
tipo. Pagão disse algo no idioma saxônio e foi o que bastou. Os homens corpulentos
baixaram as armas e aproximaram-se com gestos de boas-vindas. Gwyn manteve-se no
cavalo, afagando-lhe o pescoço, sem compreender nada da conversa, mas ficou claro
que Pagão não estava preocupado.
Ele, enfim, ajudou-a a desmontar e caminharam juntos até a choupana, onde umas
oito pessoas estavam sentadas em torno de um caldeirão que fervia com algo de aroma
agradável no fogo cercado de pedras no centro.
Gwyn sorriu, notando que todos a observaram e, embora não houvesse retribuição
calorosa ao seu cumprimento, ninguém tampouco se mostrou hostil.
A mulher mais velha indicou que se sentasse à mesa e não demorou a colocar
diante dela uma tigela com guisado e um pedaço de pão de centeio.
— Obrigada — disse ela, realmente grata.
— Deixarei você aqui — anunciou Pagão.
— Claro! — exclamou Gwyn, mas tentou ocultar sua perplexidade em seguida. Com
certeza, ele tinha coisas mais importantes a fazer.
— Amanhã de manhã, Clid ali... — ele apontou para um dos homens que os haviam
recebido — ...escoltará você até Saint Alban.
— Nem sei como expressar minha gratidão — ela falou, pois Pagão já recuava na
direção da porta. — Devo-lhe mais do que jamais poderei retribuir. Você salvou minha
vida.
— Sua virtude, mais provavelmente. Não creio que sua vida estivesse em perigo.
— Na verdade, estava. Pois eu teria me matado antes de casar com Marcus
FitzMiles.
Ele fez uma pausa junto à porta e sorriu por sobre o ombro.
— Eu também.
Gwyn levantou-se do banco, sem poder se conter, e adiantou-se até a porta,
pegando o saco de moedas preso à cintura. Ficou chocada com a súbita vontade de
chorar e reprimiu-a a custo.
— Ora, por favor. — Com ligeira impaciência na voz, Pagão virou-se e saiu da
cabana.
— Estou apenas buscando um meio de recompensá-lo — insistiu ela, seguindo-o.
Ele se virou e fitou-a por um longo momento, afastando-lhe uma mecha de cabelo
do rosto.
— Sorria.
Gwyn sentiu uma onda de calor percorrendo-a.
— Sorria para mim.
Ela sorriu, hesitante, achando naquele instante que não poderia ter-lhe negado
praticamente nada.
— Fui recompensado.
Uma seqüência de arrepios subiu pela espinha dela, em especial quando ele

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

inclinou-se para sussurrar palavras que perdiam importância diante das estranhas
emoções que a dominavam.
— Tenha cuidado, Olhos Verdes. Não fale demais. Não faça muitas perguntas.
Esconda esse saco de dinheiro e o que quer que carregue no outro.
Ele correu o dedo indicador pelo maxilar dela. Foi um gesto corriqueiro, mas o
bastante para fazê-la estremecer de um jeito especial, inesperado.
— Não vá. Ainda. Por favor...
E, de um momento para o outro, Griffyn sentiu em seu íntimo algo que não
experimentava havia um longo tempo. Pegou-a pela mão, levando-a até detrás de Noir,
usando o cavalo como uma barreira entre ambos e as cabanas. Sua intenção era clara e
mal se atrevia a respirar, à espera da recusa dela. Se ela recuasse o mínimo que fosse,
ele iria embora, esqueceria aquilo tudo, interpretaria a respiração ofegante dela como
medo, seus tremores como fadiga.
Silenciosamente, porém, fez uma prece para que Guinevere não recuasse nem
sequer um pouquinho.
Por que o sangue fervia em suas veias? Mal a tocara e haviam sido toques
extremamente inocentes. Por que se sentia dessa maneira?
Porque algo naquela mulher delicada e corajosa estava alcançando os recantos de
um desejo que ele não soubera existir com tamanha intensidade.
Sem pensar em mais nada, segurou-a com gentileza pela nuca e curvou-se,
tomando-lhe os lábios com um beijo suave. Com a ponta da língua, traçou o contorno dos
lábios macios, entreabrindo-os de leve.
Gwyn deixou a cabeça pender para trás, atordoada com o ardor que a percorreu.
Correspondeu ao beijo instintivamente, mal se dando conta de que o abraçava pelo
pescoço, puxando-o para si. Ele explorou-lhe a boca com a língua, segurando seu rosto
com uma mão, levando a outra à cintura dela para estreitá-la mais junto a si.
— Oh, Pagão — sussurrou Gwyn, tomada por sensações que nunca experimentara
antes. Deixou que a guiassem e, sem pensar, arqueou seu corpo na direção do dele,
como num convite.
Ele a ergueu do chão, moldando-a ao calor de seu corpo, tomando seus lábios com
aquele beijo que se tornava cada vez mais faminto. Naquele instante, o cavalo se moveu,
e Griffyn despertou de seu arroubo de paixão. Estendendo a mão, agarrou as rédeas.
Baixando os olhos, observou o rosto afogueado pela paixão de Guinevere e soltou-a
depressa. Ofegante, com o próprio sangue ebulindo nas veias, mal pôde acreditar no que
fizera. Santo Deus, quase violentara uma aristocrata como se fosse uma sirigaita, de
encontro a seu cavalo e, por pouco, não lhe erguera as saias! Abandonara realmente a
sua missão na véspera de sua execução? O que se tornara? Um homem que se distraía
facilmente? Um homem movido pelo desejo carnal? Um imprudente?
Com o corpo latejando, o coração aos saltos, afastou-a mais de si.
— Isso foi errado da minha parte, Guinevere. Fui um tolo e lamento.
Ela manteve os olhos baixos.
— Você não foi o único tolo aqui.
— Eu nunca... — Ele esfregou o rosto com a mão. — Eu errei. Por favor, perdoe-me.
— Você nunca o quê?

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Nunca forcei uma mulher... que não quisesse... Lamento.


Gwyn endireitou-se e fitou-o nos olhos.
— Não me forçou a nada. Não fiz nada que não quisesse. — Mesmo corando, ela
abriu aquele sorriso encantador que o fez esquecer que não tinha coração. Inquietou-se
em se dar conta de que poderia ficar ali a noite inteira, vendo-a sorrir, beijando-a,
fazendo-a gemer e se entregar...
— E agora você tem de ir — prosseguiu ela, dizendo o que ele deveria ter feito dez
minutos antes.
— Sim.
— Tem coisas a fazer. Como eu. — O tom de Gwyn era frio, seco.— Assim, por
favor, vá.
Griffyn beijou-a rapidamente nos lábios e, então, montou em Noir, desaparecendo
floresta adentro, sem olhar para trás.
Gwyn deteve-se ali por um longo momento, recobrando o fôlego, até ouvir o som
dos cascos de Noir desaparecer na distância, dando lugar ao silêncio. Enveredara por um
caminho bastante perigoso naquela noite, sem dúvida. Era um descuido estar tão
concentrada num cavaleiro errante enquanto seu amado lar estava em risco.
Mas, agora, ele se fora. E nunca mais o veria. Gwyn reprimiu as lágrimas
indesejáveis e adiantou-se de volta até a choupana. Era o momento de se concentrar no
que importava. Tinha de encontrar algum meio de enviar uma mensagem ao rei o mais
depressa possível para avisá-lo sobre o cerco de Marcus a Everoot. E, por isso, não podia
perder tempo. Não podia ficar naquele vilarejo pacato, enquanto havia tanto em jogo.
Nunca mais tornarei a ver Pagão. O pensamento surpreendeu-a uma vez que se
determinara a esquecê-lo. Mas ficou chocada com a emoção que se seguiu: desespero.
Ela abriu a porta, e os aldeões ergueram os olhos.
— Preciso de um cavalo — anunciou.

Griffyn ergueu os olhos enquanto o assobio agudo de aviso atravessava o ar da


noite escura. Assobiou de volta; três assobios breves e um mais longo. Houve silêncio e,
então, no alto da colina, os portões da mansão senhorial se abriram. Hippingthorpe Hall
permitia acesso ao seu convidado.
Era uma noite fria de outono, com o céu claro e estrelado acima, mas nuvens se
avolumando cada vez mais ameaçadoramente a oeste.
O coração dele ainda disparava, o desejo o consumia, porém jamais teria levado
Guinevere até ali, como ela pedira inicialmente, nem mesmo se ela tivesse implorado.
Hipping era um tolo perigoso, e ninguém sabia que ele já mudara de lado, renegando
secretamente seu juramento ao rei Estevão e se reunindo à causa de Henrique.
Alguns chamariam isso de traição. Griffyn talvez até tivesse chamado, em
circunstâncias diferentes, mas preferia denominar aquilo de prudência. Acima de tudo, era
um segredo. Ninguém sabia que Hipping mudara de lado, mas ele assim fizera e era um
oportunista. Uma nobre herdeira leal a Estevão poderia estar em verdadeiro perigo ali.
Griffyn conduziu Noir pelos portões, ciente dos guardas que apontavam flechas em
sua direção. Parando o cavalo no centro do pátio escuro, desmontou no chão de pedra. A

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

figura obesa de Hipping, com cabelos longos e grisalhos, apareceu no alto da escadaria,
iluminada pelas tochas nas paredes.
— Bem-vindo, Pagão — exclamou, segurando o antebraço de Griffyn num
cumprimento. — Achamos que talvez você tivesse mudado de idéia. Estava por aí
cometendo atos obscuros e clandestinos, sem dúvida.
Griffyn sorriu de leve,
— Sem dúvida.
— Do jeito que eu gosto! — gargalhou Hipping. — Mas seu convidado especial está
soltando fogo pelas ventas. Griffyn arqueou uma sobrancelha.
— Nunca vi Robert Beaumont soltar fogo por lugar algum.
— Não andou olhando direito, meu rapaz! — Riu Hipping.— Do outro lado do Canal,
é difícil ver, admito. De onde estou, vejo cada movimento dos figurões.
Conduziu-o ao interior da construção até o salão principal, onde Robert Beaumont,
conde de Leicester, se levantou. O conde de meia-idade contornou a mesa e
cumprimentou Griffyn calorosamente segurando.
— Milorde, é um prazer.
— Não, o prazer é meu — disse o conde mais poderoso do reino. Após uma pausa
proposital, acrescentou: — Milorde.
Griffyn ficou imóvel.
— É bom estar de volta à sua terra natal, Pagão? Faz um longo tempo.
Ele baixou a cabeça, pensativo por um momento e, então, tornou a fitá-lo.
— Não fazia idéia que você soubesse. Beaumont sorriu.
— E como não saberia? Você tem os olhos dele.
— Ah!
O conde lançou um olhar a Hipping, que parará perto da porta para falar com um
serviçal, e baixou a voz.
— Seu pai jamais teria adivinhado, Pagão.
— O quê?
— Que você seria o astuto homem a separar o joio do trigo na Inglaterra para
Henrique FitzEmpress. Talvez tivesse ficado orgulhoso.
Griffyn sorriu com amargura.
— Tenho minhas dúvidas.
— Seu pai foi um grande homem, Pagão. Conde d'Everoot. Senhor da mais alta
honra no reino, capitão de grandes homens, conselheiro de reis.
— Essa é uma das maneiras de se lembrar dele.
Beaumont meneou a cabeça devagar e voltou a sentar-se à mesa, indicando que se
reunisse a ele. Ergueu a jarra e cerveja no centro da mesa e começou a encher as
canecas.
— Seu pai tornou o condado de Everoot algo mais poderoso do que qualquer um
poderia sonhar, Pagão. Então, ele mudou. Ou melhor, algo o mudou.
— Sim. A cobiça. Beaumont sacudiu a cabeça.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Nem seu pai, nem de l’Ami nunca falaram muito a respeito disso, mas sempre
suspeitei. O coração de Griffyn acelerou-se.
— Suspeitou do quê?
— Nenhum homem voltou da Cruzada como eles dois. Ionnes de Kent, um pobre
cavaleiro com nada além de um novo nome, de l'Ami, tornou-se mais rico do que jamais
sonhou. Irmão de sangue de um dos nobres mais elevados do reino, Christian Sauvage,
conde d'Everoot. O próprio poder do seu pai se espalhando feito um furacão, os dois mais
próximos do que irmãos e, então... — Beaumont estalou os dedos. — Acabou. A amizade
terminou, Ghristian Sauvage partiu; lonnes de l'Ami se tornou o novo conde de Everoot.
Ora, algo não cheira bem. Há alguma coisa nessa história.
— O quê? — perguntou Griffyn, cauteloso.
— Alguma coisa que seu pai e lonnes de l'Ami trouxeram da Terra Santa.
— E o que poderia ser?
— Tesouros — sussurrou Beaumont. Griffyn sentiu o sangue gelar. .
— Um tesouro? Que tesouro?
— Tesouro? — O conde arqueou as sobrancelhas. — Eu disse tesouros, Pagão. No
plural. Os despojos das Cruzadas são lendários. E seu pai e lonnes de l'Ami trouxeram
alguns deles. Segundo rumores, estão escondidos nos subterrâneos do Ninho.
Griffyn sentiu os músculos relaxar instantaneamente. Beaumont não sabia. Ninguém
sabia, apesar de todos os rumores que giravam em torno dos iniciados. E Robert
Beaumont, sendo o conde de Leicester ou rei de Jerusalém, não era um deles. Não
passavam de suposições e especulações, como as pessoas eram propensas a fazer
quando dinheiro ou mistério estavam envolvidos.
Suposições silenciosas, na maioria. Poucos ousavam manifestar suas especulações
em voz alta. Ninguém nunca havia mencionado em voz alta um tesouro sagrado com
mais de mil anos. E fosse em voz alta ou em sonhos, ninguém sabia que Griffyn era seu
guardião.
Ninguém, exceto lonnes de l'Ami.
Ele havia sido o confidente mais próximo da família deles, o amigo mais estimado,
companheiro de Cruzada e irmão de armas de Christian Sauvage, o pai de Griffyn. Então,
com um golpe maligno, traíra a todos e partira o coração do filho. A cobiça destruíra
Christian Sauvage e sorrateiramente tomara conta de Ionnes de l'Ami também.
Aquele que quebrara o juramento. O ladrão.
Griffyn fechou a mão em torno da pequena chave de ferro pendurada em seu
pescoço desde a morte de seu pai, num gesto instintivo.
— O único tesouro que me importa é Everoot, milorde— declarou numa voz tensa.
O conde sustentou-lhe o olhar com ar perspicaz por um momento e, enquanto
Hipping começava a se adiantar pelo salão, concluiu:
— Que assim seja.
— Tem tudo o que precisa, milorde?
— Sim, obrigado, Hipping — respondeu Beaumont.
— Pode nos deixar. Chegou o momento, Pagão — disse ele, enquanto Hipping se
retirava. — Convença-me de que devo ficar com os meus homens e castelos à espera de
Henrique Plantageneta e do lado dele.
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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Hippingthorpe Hall fica perto daqui? — perguntou Gwyn, incrédula.


— A cerca de meia hora de caminhada rápida ao longo do rio — disse o homem que
Pagão chamara de Clid, enquanto comia o guisado à mesa. — Por que Pagão não a
levou até lá diretamente, já que era onde pretendia estar?
Gwyn, porém, não estava ouvindo. Sentiu um fio de esperança e se concentrou em
outras considerações, tais como de que maneira chegar lá e se seria sensato.
— Sem mencionar que aquele velhaco Hipping e seus malditos cavaleiros são uns
arruaceiros. Saem por aí incendiando, violando e tomando o que é dos outros, e o seu rei
não faz nada para impedi-los. Não seria nada seguro para milady. A menos que conheça
Leicester e vá procurá-lo diretamente em Hippingthorpe, mas...
Gwyn franziu a testa, confusa. —- Robert Beaumont?
— Sim.
— O conde de Leicester está em Hippingthorpe?, Clid confirmou com um gesto de
cabeça, continuando a comer com apetite.
O conde Robert Beaumont, o nobre mais poderoso do reino, achava-se na
residência de um barão de menor importância e péssima reputação? Não estivera na
festa do rei apenas poucas horas antes? Não, percebeu ela. O conde estivera
estranhamente ausente.
— Chegou há algumas horas.
Por que ela não o vira, nem ninguém de sua comitiva na estrada do rei?
— Existem atalhos para todos os lugares — acrescentou Clid, parecendo ler seus
pensamentos.
— Leve-me até lá, por favor.
— Já lhe disse, Pagão não ia gostar nada de saber que saiu daqui desse jeito, não
da maneira como me instruiu.
Ela pegou um dos sacos que levava amarrados à cintura e despejou o volumoso
conteúdo. Moedas de ouro e prata cintilaram sobre a mesa. Viu o brilho de surpresa e de
interesse nos olhos de Clid, mas ele se mostrou irredutível, alegando que teria de cumprir
as ordens de Pagão à risca. E, provavelmente, acabaria ficando com as moedas de
qualquer maneira.
— Está certo — disse Gwyn, tendo uma idéia de repente; talvez a única que
pudesse tirá-la dali. — Bem, preciso usar a casinha lá fora.
Glid riu e, então, ordenou à mulher mais velha que a acompanhasse.
— Elfrida, leve-a até a "casinha". — A choupana inteira explodiu em risos.
Enquanto a corpulenta mulher a conduzia para uma área atrás da cabana, Gwyn
observou o único cavalo amarrado junto a um cercado onde ficavam os demais animais,
atrás da última cabana.
— Pronto. Aí está a "casinha". — Riu Elfrida, indicando a floresta inteira. — Pode ir.
Vou esperar aqui. Mas não tente nada — avisou-a.
— Ora, o que eu poderia tentar sozinha, nesta floresta escura? — perguntou Gwyn
com ar de inocência, aparentando estar com medo de entrar na floresta, enquanto a outra

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

soltava um grunhido e cruzava os braços com ar entediado.


Assim que entrou na floresta, Gwyn embrenhou-se silenciosamente, seguindo em
sentido lateral, até sair na outra extremidade, onde ficava o cercado dos animais.
— Ei! Por que está demorando tanto? — Elfrida chamava-a e entrava rapidamente
no trecho de floresta por onde ela se embrenhara em princípio.
Sem demora, Gwyn desamarrou o cavalo, montou e saiu a pleno galope noite
adentro.
Depois do que Clid dissera, ela não teve dificuldade em encontrar Hippingthorpe Hall
e foi conduzida a seu interior sob a mira de um punhal. Uma lâmina que foi abaixada tão
logo souberam a identidade dela, mas não embainhada por completo, o que Gwyn achou
bastante estranho. Era uma nobre em óbvias dificuldades, suja, rasgada. O que, afinal, a
sua presença em tão grande desalinho poderia colocar em risco?
— Lady Guinevere. — O próprio Hippingthorpe saudou-a, beijando sua mão.
Gwyn abriu um sorriso caloroso, ignorando o calafrio causado por aquele toque. Ele
podia ser um tanto repulsivo e ter um passado manchado em questões de lealdade, mas
era um meio para ela se comunicar com o rei e teria feito quase qualquer coisa para ficar
nas boas graças do homem.
— A quem devo agradecer por essa inesperada visita, milady? Onde está seu pai?
— Ele olhou ao redor como se esperasse que uma comitiva inteira dos de l'Ami
aparecesse de repente.
— Ele... não está aqui.
— Ah. — Hipping fitou-a com uma expressão dura nos olhos. — É claro que não.
Em vinte anos, seu pai nunca esteve a um quilômetro de mim, nem passou uma hora
sequer comigo. E, ainda assim, aqui está você, sua única filha. Mal posso crer que ele a
enviou em alguma missão sórdida em benefício próprio. — Ele deu uma sonora
gargalhada. —Sempre foi bom demais para os barões menos elevados, certo? Aliás,
todos estão abaixo do poderoso lorde d'Everoot.
Gwyn esforçou-se para manter o sorriso no lugar.
— Imagine, milorde. Meu pai sempre respeitou todos os homens do rei. Mas, uma
vez que mencionou, de fato estou numa pequena missão.
Ele percorreu-a de alto a baixo, espantando-se com o estado do vestido manchado,
rasgado e sujo por baixo do manto.
— Cruzes, milady, o que aconteceu?
― Isto é obra de Marcus FitzMiles.
— Santo Deus! Endshire? Ele a atacou?
Gwyn meneou a cabeça, sentindo uma onda de alívio.
Hipping deixava muito a desejar em boas maneiras, mas ainda era um nobre e,
como tal, a ajudaria. Sem mencionar que se, de fato, o conde de Leicester se encontrasse
ali, ela estaria completamente a salvo, enfim.
— Que demônio o possuiu para atacá-la? Seu pai vai querer a cabeça dele.
— Meu pai morreu. Hipping arregalou os olhos.
— Ionnes de l'Ami está morto?!
— Sim. Papa... o conde faleceu há uma quinzena, que Deus o tenha. Acabei de dar

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

a notícia ao rei e ao seu conselho ontem. Como pode ver, FitzMiles não lamentou por
muito tempo.
— Não — respondeu Hipping distraidamente. Seu olhar ficou distante por um
momento e, em seguida, estalou os dedos chamando uma criada e mandando que
providenciasse um banho.
Gwyn sentiu o alívio aumentar. O próprio Hipping conduziu-a depressa por uma
escada até um dos quartos no segundo andar.
— Obrigada. Está perfeito.
— Agora, diga-me, qual é essa sua missão? Como posso ajudar?
— Tenho de avisar o rei sobre o que está acontecendo. Marcus me levou a acreditar
que o rei Estevão havia aprovado a união entre ele e a Casa de Everoot, mas acredito
que meu rei jamais aprovaria tal união. Só que não tive mais chance de falar com ele para
esclarecer tudo.
— Não — concordou Hipping. — Ele não aprovaria uma união entre a herdeira de
l'Ami com nenhum barão de nível inferior.
Gwyn sentiu uma ponta de preocupação, mas forçou um sorriso.
— Um relato de sua ajuda será muito bem visto pelo rei, milorde. Eu me certificarei
disso.
— É mesmo? Quanta generosidade. — Ele pegou-a pela mão e sentou-a na cama,
recuando alguns passos.
— Diga-me, lady Guinevere, como está lidando com todo esse fardo?
— Bem, milorde. Essas coisas são sempre difíceis, mas nós... Estou me arranjando.
— Sim, mas seu pai deve ter deixado algumas coisas importantes e de grande
responsabilidade nas suas costas, como herdeira. — Hipping baixou o olhar para o único
saco que ela levava amarrado à cintura.
Gwyn acompanhou o olhar dele.
— São apenas algumas cartas de papai — disse num tom jovial.
Ele a fitou no mesmo instante.
— Cartas?
— Sim. São cartas particulares de lorde Everoot à minha mãe, a condessa,
enquanto esteve fora.
— Na Cruzada?
— Sim.
— Tem certeza de que só há cartas aí dentro?
— Como assim?
— Não há... objetos?
— Objetos?
— De origem desconhecida. Originários da... Terra Santa.
— É claro que não. Ele ergueu as mãos.
— Que seja. Só perguntei porque há rumores de um tesouro ligado a Everoot, mas
Endshire não encontrou nada.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

O sangue de Gwyn gelou.


— Endshire? Não encontrou nada? Onde? — Levantando-se da cama, declarou
num tom grave: — Acho que a lealdade de lorde Endshire está em questão aqui, lorde
Hipping.
— É mesmo? — disse ele num tom divertido. Recostando-se na parede, cruzou os
braços sobre o peito. — Que tal me deixar ver essas cartas do seu pai?
Ela sorriu amargamente, percebendo que o momento solidário passara; se era que,
de fato, existira. A situação toda envolvia poder.
Ajeitando o manto em torno dos ombros, ergueu o queixo com o máximo de altivez
que conseguiu.
— Estou com frio e quase em farrapos. Se deseja negociar comigo, só o farei se
estiver seca e confortável.
Ele a estudou por um longo momento.
— Muito bem, lady Gwyn. Enviarei comida e um banho. — Tornou a pousar os olhos
no volumoso saco de feltro. — Tão logo tivermos lido essas cartas.
Quando se retirou, trancou a porta.

— Seus aposentos estão prontos. E mais uma vez, congratulações, milorde.


Griffyn meneou a cabeça pelo que esperava ser a última vez naquela noite. Estava
tarde e Robert Beaumont já tinha se recolhido aos próprios aposentos, satisfeito com as
negociações terminadas. Henrique tinha seu aliado essencial.
— Mas não deseja ficar para um último drinque? — perguntou Hipping mais uma
vez.
— Obrigado, mas estou cansado e tenho uma longa cavalgada pela frente amanhã.
— A fadiga não era um mero pretexto. Griffyn assegurara a lealdade de um dos mais
vitais aliados que Henrique precisaria e tudo que sentia era cansaço. Estava cansado da
espionagem, da guerra, de todas as maquinações do mundo. Precisava de outra donzela
espirituosa em apuros para animá-lo, pensou, contendo um bocejo.
Algo se quebrou com um estrondo no andar acima do salão principal. Ele e Hipping
olharam para o teto.
— É a minha noiva — explicou Hipping com um sorriso malicioso. — Acaba de
chegar.
— Ah, parabéns.
— Ainda está se acomodando e deve ter deixado algo cair — disse Hipping com um
riso um tanto forçado demais. — Não a incomodarei com as minhas atenções hoje à
noite. O padre já foi chamado. Haverá tempo o bastante para isso amanhã.
Griffyn sentiu uma estranha inquietação. Não devia interferir. Não era de sua conta.
As coisas que ficassem como estavam.
Ele sentiu imenso alívio quando, enfim, foi conduzido a seus aposentos por um
criado. Um novo ruído chamou sua atenção quando ficou a sós. Sem poder evitar, saiu
para o corredor a fim de tentar ao menos identificá-lo. O que descobriu foi que alguém

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

batia violentamente à porta num aposento no final do corredor. Deviam ser os tais
assuntos "românticos" de Hipping e aquilo, de fato, não era da sua conta. De repente,
tudo ficou silencioso. Melhor assim. Ele precisava apenas de uma boa noite de sono. Já
perdera tempo demais com assuntos que não eram de sua conta.
Por alguma razão se deteve diante da porta.
— Porque sou um tolo — murmurou.
Notou que, estranhamente, havia uma chave do lado de fora na fechadura. Bem,
havia uma razão qualquer para aquilo e quem quer que estivesse no quarto, devia ter
decidido dormir. Assim, sentiu-se impelido a girar a chave. Mais silêncio. Nada aconteceu.
— Claro que não —-murmurou. — Porque nada disso é da minha conta.
A porta se abriu bruscamente e Guinevere caiu nos seus braços.
Eles caíram de encontro à parede do corredor, Griffyn. sendo empurrado para trás
pelo corpo de Gwyn. Apoiando-se nos joelhos, ele tapou a boca que ela fez menção de
abrir para gritar.
— Não posso acreditar — ele disse, retirando a mão quando, enfim, viu que ela não
gritaria.
— Oh, graças a Deus — sussurrou Gwyn. — Pagão! Como veio parar aqui? Temos
de sair daqui...
— Nós? O que você está fazendo aqui?
— ...pois tenho bem pouco tempo até que ele venha à minha procura.
— Venha à sua procura? Do que está falando? Deixei você com Clid, num abrigo
seguro, e agora está aqui? — Encarou-a por um momento, até que compreendeu a
situação. —Você é a noiva de Hipping.
— Não sou!
— Mal posso acreditar! Raptada, duas vezes em uma noite.
Ela franziu a testa.
— Deixei o vilarejo...
— Por quê? Estava quente, seco e...
— Sim, sim. Mas eu tinha de vir até aqui. Conheço a reputação de Hipping, é claro,
e sei dos problemas que anda causando ao meu rei. Ele está me mantendo aqui contra a
minha vontade.
— Para quê?
— Não importa agora. Por razões políticas.
Griffyn quis fazer mais perguntas, mas não havia tempo. De repente, sua maior
preocupação não era expandir as fronteiras de Henrique, mas tirar dali aquela bela mulher
que precisava ser salva.
— Odeio ser um estorvo outra vez... Ele a segurou pelo braço.
— Vamos.
Examinando rapidamente o quarto, pegou uma vela num castiçal e seguiu com
Guinevere pelo corredor escuro e as escadarias. Apagando a vela, levou-a diretamente
até os estábulos sem que ninguém os visse ou ouvisse. Ventava muito e ninguém teria
ouvido um exército se aproximar acima do ruído. Apesar da escuridão, ele estalou a

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

língua para Noir e não demorou a encontrá-lo, colocando-lhe a sela.


— Não estou vendo o cavalo em que vim do vilarejo. Pretendia devolvê-lo de algum
modo, mas... — Gwyn deu de ombros. — Bem, acho que deixei dinheiro mais do que o
suficiente para comprarem outro lá.
— Parece que você fez exatamente tudo o que eu lhe disse, não é mesmo? —
retrucou Griffyn, irônico.
Instruiu-a para que segurasse a porta com força do estábulo, a fim de que não
batesse com o vento, enquanto passava com Noir. Ajudou-a a montar em seguida, diante
de si.
— Recoste-se em mim e fique o mais imóvel possível. Cobrirei a nós dois com o
meu manto. Ninguém sairá para nos examinar muito de perto, e o vento e a escuridão não
permitirão que nos vejam com muita nitidez. Vim até aqui e, agora, estou de saída. Vamos
esperar que encarem a situação dessa forma. Mas se os guardas se aproximarem, não
grite se eu tiver de matá-los.
Ajeitou melhor seu manto e o capuz e seguiu devagar pelo pátio e sob os portões
internos, que ainda estavam levantados, o que era um bom sinal. Aquele guarda não tinha
sido avisado de que ele passaria a noite ali. Talvez os demais também não.
Ninguém nem sequer pareceu notar que ele estava passando e, quando chegou aos
portões externos, os guardas fizeram um gesto para que prosseguisse, mal olhando em
sua direção.
Em poucos minutos, estavam a salvo numa trilha na floresta, ele com uma missão a
cumprir, ela escondida sob seu manto.
Noir seguia silenciosamente pelo caminho de terra fofa por entre as árvores da
floresta. Griffyn andava a seu lado, tentando entender a espantosa virada nos
acontecimentos daquela noite, desde a inesperada luta até o encontro com a donzela
desprotegida que agora montava seu cavalo.
A referida donzela, admitia ele a contragosto, era uma companhia agradável. Muito
mais do que isso. Não era nada daquilo que ele poderia ter esperado. Escapando de um
dos barões mais sanguinários da Inglaterra de Estevão, ela não se acovardara. Nem
desmaiara. Nem tampouco gritara, nem ficara choramingando. Havia ficado ao lado dele,
destemida como qualquer guerreiro, e sorrira.
Sorrira, Deus do Céu!
E era por essa razão que ele estava fazendo aquilo, supunha.
Mas e quanto ela?
— Diga-me, por que não ficou no vilarejo como eu disse? O que, afinal, veio fazer na
casa de Hippingthorpe? Parece que você não tem mesmo noção de perigo.
— Pensei que ele pudesse me ajudar junto ao rei nessa questão relacionada a
Marcus, no cerco que fez ao meu castelo depois da morte do meu pai — retrucou Gwyn,
indignada. — Não achei que ele fosse tentar me raptar também! — Percebendo que
elevara a voz, ela esforçou-se para se acalmar. ― Desculpe. Você tem sido apenas meu
salvador em tudo isso. Não queria parecer ingrata. Acontece que...
Gwyn deixou a voz morrer, enquanto o cavalo prosseguia devagar no silêncio da
noite. Como poderia fazê-lo entender? Ninguém entenderia. Havia muito tempo que ela
não dava vazão às emoções como naquela noite e sua vida tinha sido muito mais
tranqüila ao longo dos dez anos anteriores. Bem melhor. Quem poderia dizer em
contrário? Fazendo o que lhe diziam, seguindo sábios conselhos, reprimindo impulsos e

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

instintos que arruinavam tudo. Havia sido para o seu próprio bem.
O problema era o fato de que, agora, com seus quase vinte anos de idade, não
importando o quanto se comportasse bem, ninguém podia trazer sua mãe de volta. Nem
Roger. Sim, já haviam se passado dez anos desde... E seu pai estava morto também.
A impulsividade tinha seu preço. Mas por que tantos outros tinham de pagar?
A conhecida sensação de vazio recomeçou e a dor insuportável dominou-a, aquele
poço de desespero que se abrira dez anos antes, no dia em que seu irmão, o muito
amado herdeiro do condado de Everoot, havia sido morto. Por ela.
A mãe morrera três meses depois, com o coração despedaçado. O pai seguira em
diante, claro. Como uma concha.
Ela olhou para o saco de feltro que continha o pequeno baú que havia amarrado à
sela de Noir.
Os tremores começaram a percorrer seu corpo como sempre acontecia quando as
lembranças voltavam. Oh, mamãe. Sinto tanto a sua falta. Foi um terrível acidente. Falei
isso a papai muitas vezes.
— Descanse um pouco. — Sem que ela percebesse, Pagão parará o cavalo e a
ajudava a descer. Estendeu-lhe seu frasco. — Está tremendo muito. Deve ser o frio. Beba
um pouco disso. É aquela mesma bebida que já dei a você antes.
Ela fez um esforço para afastar os pensamentos sombrios e aceitou o frasco com
certa relutância. Tomou um gole da bebida já sabendo que queimaria sua garganta e
tossiu um pouco, mas teve de admitir que o calor instantâneo que se espalhou por seu
corpo a fez sentir-se melhor.
— Obrigada.
Após uma pausa, tomou coragem para fazer a pergunta que a estivera intrigando
desde que haviam deixado Hippingthorpe Hall.
— O que você estava fazendo lá, Pagão?
— Onde?
— Na casa de Hipping.
Um ligeiro sorriso curvou os lábios dele, mas a expressão em seu rosto devia ter
servido de aviso.
— Você não quer me perguntar isso.
— Não. — Ela baixou a voz até que não passasse de um sussurro. — Parece algo
imprudente.
— Eu a aconselharia a não perguntar.
— E eu não aconselharia ninguém a nada do que fizemos esta noite.
Houve uma longa pausa.
— Mas você ainda não passou por tudo, Olhos Verdes.
Gwyn sentiu-se cativada pelo tom vibrante e másculo da voz dele, pela intensidade
de seu olhar. Ao mesmo tempo, sentia algo muito semelhante ao medo percorrendo-a por
inteiro. Porém não era medo dele.
— Aonde está me levando, Pagão?
— Conheço uma estalagem.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— E eu conheço uma abadia. — Aquilo soou tão desesperado quanto ela se


sentia? — Uma estalagem não parece... prudente também, certo?
— Devo estar esquecendo um pouco a prudência no momento — admitiu ele num
tom baixo:
— Acredito que a minha se foi por completo por ora.
E era verdade. Tudo o que ela conseguia se concentrar era no calor que se irradiava
do corpo dele, tão próximo e viril, da excitação que estimulava os pontos mais sensíveis
de seu corpo. Ergueu a mão para tocar-lhe o rosto, deslizando a ponta dos dedos pelos
contornos másculos. Ele se manteve imóvel, fitando-a até que, a um determinado
momento tocou os dedos dela com a ponta da língua.
— Oh... — Gwyn estremeceu.
Ele pegou sua mão, ainda fitando-a nos olhos, e acariciou o centro da palma com a
língua. Ela sentiu as pernas amolecendo.
Ele a segurou pela cintura e, no momento em que Gwyn soube que devia estar
gritando e empurrando-o, pendia a cabeça para trás e entreabria os lábios, deixando que
Pagão explorasse sua boca com a língua. Abraçou-o pelos ombros, correspondendo ao
beijo sôfrego, até que apenas o desejo premente pulsasse entre ambos. Ele a segurou
pelos quadris e ergueu-a de encontro a si, movendo-os junto aos seus.
— Oh, Pagão — sussurrou Gwyn, nunca tendo experimentado sensações tão
deliciosas.
Griffyn continuou a beijá-la com volúpia, tomado por um desejo incontrolável. Enfim,
deslizou os lábios até o pescoço delicado e, mantendo-a bem junto a si, insinuou a mão
sob as saias dela, afagando a coxa quente e macia. A reação de Gwyn foi dobrar o joelho,
e o gesto pressionou o centro de sua feminilidade contra a ereção dele. Um tremor de
desejo percorreu-o com uma intensidade que o surpreendeu. Desejava-a tanto que
chegava a doer. E ela também o queria, gemendo, ofegando, sussurrando seu nome.
Por que aquilo importava tanto?
A pergunta teve tanto impacto em sua mente que o fez recobrar o bom-senso.
Usando cada resquício de controle, afastou as mãos do corpo dela e deu um passo atrás.
— Acho que não consigo parar de fazer isso — ele resmungou.
Gwyn cambaleou para trás, segurando-se ao tronco de uma árvore. Tinha os
cabelos longos em completo desalinho, o rosto afogueado e os lábios entreabertos. Havia
um misto de desejo e apreensão em seu rosto e, ali no meio da floresta escura e densa,
parecia uma linda ninfa.
— Eu não deveria ter feito isso — disse Griffyn, embora o desejo ainda o
percorresse com espantosa intensidade. — Outra vez.
Pousando as mãos sobre Noir, ele baixou a cabeça. Perdera a cabeça, a razão e
seu senso de honra, tudo numa questão de horas depois que conhecera aquela mulher, e
o preço se elevava, incluindo captura e morte, caso Marcus d'Endshire ou Aubrey
Hippingthorpe descobrissem seu paradeiro.
O caminho que agora usavam e o antigo forte para onde a conduzia estavam
escondidos, mas não a ponto de que alguns soldados bisbilhotando pela floresta não
pudessem encontrar ao acaso. Ele a estava levando para lá, até seu grupo de espiões
rebeldes. Como um tolo. Como um homem embriagado. Como um homem apaixonado,
cujo discernimento era afetado por afeição e imagens vividas de paixão. O que ele não
era. Nada dessas coisas.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Então, por que estava fazendo aquilo?


Por causa do sorriso dela. Porque era encantadora, irresistível...
Griffyn tentou reprimir o desejo que latejava em suas veias e esfregou o rosto com
ambas as mãos.
— Desculpe, Guinevere. Nunca mais precisa ter medo de mim dessa maneira.
— Não estou com medo...
Ele interrompeu-a abruptamente.
— Para onde quer ir então, donzela?
— Como assim, para onde quero ir? Ele abriu um sorriso enigmático.
— Eu mencionei uma estalagem.
— E eu mencionei uma abadia.
— Você insiste para que nos embrenhemos pela floresta em direção ao retiro dos
monges, encontrando mais perigo conforme a noite avança, agindo cada vez mais
estupidamente a cada hora que passa.
— Fale por si mesmo.
— Não é hora para se ficar perambulando pela floresta, em especial com a
aproximação de uma tempestade. — Ali, o vento era menos intenso, mas as ocasionais
rajadas carregavam o cheiro de chuva no ar. — Seria mais sensato irmos para a
estalagem, onde poderá se lavar, comer algo e descansar. Acordará bem mais disposta e,
então, eu a levarei para sua abadia.
Gwyn ainda hesitou por um momento, embora soubesse que ele tinha razão.
Admitia que tinha mais medo das emoções que ele lhe despertava do que da misteriosa
escuridão da floresta. Mas também estava exausta e ele era sua única esperança.
— Iremos para a tal estalagem.
Prosseguiram por quase uma hora pela floresta, com Gwyn montada no cavalo, e
Griffyn caminhando a seu lado, conduzindo-a por trilhas estreitas por entre as árvores.
Chegaram a uma clareira, dominada por uma grande construção. Era alta, com uns três
andares e, embora parecesse sólida, toda construída de pedra, tinha um estranho
aspecto desolado como se estivesse abandonada.
— Pensei que você tivesse dito que nos traria a uma estalagem.
— Isso é uma estalagem.
Ele a ajudou a desmontar, e ela desamarrou seu inseparável saco de feltro da sela,
tornando a colocá-lo em torno da cintura.
— Se é o que você diz... Onde está o estalajadeiro? Nesse momento, um homem se
adiantou na direção de ambos. Pagão apressou o passo para encontrá-lo na metade dá
clareira, e Gwyn os observou conversando rapidamente, sem ouvir o que diziam. O
homem pegou as rédeas de Noir e desapareceu na direção de uma construção menor e
mais distante.
Pagão voltou para buscá-la com uma expressão séria.
— Venha.
— Acho que eles não devem ter muitos fregueses — comentou Gwyn, caminhando
ao lado dele. — Quero dizer, uma estalagem aqui no meio do nada, tão distante da
estrada.

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— Eles têm fregueses o bastante.


Gwyn não disse mais nada, perplexa com a súbita mudança no comportamento
dele. Pagão passara de um misterioso e cativante salvador a um perigoso e irresistível
sedutor e, agora, a um homem taciturno e seco. E, de repente, ela estava numa
estalagem isolada com ele. Que surpresas a noite ainda reservaria?

Capítulo II

A chuva que estivera ameaçando cair havia muito era torrencial, as grossas gotas
atingindo o rosto e as roupas deles em cheio. Relâmpagos rasgaram o céu, seguidos de
um estrondoso trovão, e Gwyn e Pagão entraram na construção com água escorrendo
das pontas dos dedos.
Afastando o capuz para trás, Gwyn ouviu vozes reverberando através das paredes,
mas não viu ninguém. Risos ecoaram de um cômodo distante e, então, se dissiparam. O
lugar era limpo, notou, com espaços amplos. Até a escada era larga e reta, não estreita e
em caracol como no Ninho. Era estranho que não se vissem viajantes ali. O local parecia
confortável o bastante para passarem a noite.
Um rosto pequeno, de mulher, espiou-os das sombras. Foi peculiar que ela os
observasse escondida, como se não quisesse ser vista. Ela sorriu para Gwyn, que
retribuiu o gesto. A moça olhou para Pagão.
— Meu se...
— Precisamos de um banho — declarou ele com firmeza, conduzindo Gwyn pela
escada à sua frente. —- É a mulher do estalajadeiro — explicou quando ela olhou por
sobre o ombro com ar inquiridor.
Subiram o restante da escada em silêncio, passando por uma escuridão
abrandada por tochas acesas em arandelas de ferro nas paredes.
— Meu quarto — disse ele, indicando uma porta à direita.
— E onde ficarei?
— Este é o único quarto disponível.
Gwyn não soube o que dizer, aguardando enquanto Pagão abria a porta. Alguém
preparara o aposento para o retorno dele, notou. Era pequeno e limpo, contendo uma
antecâmara e, logo além, o quarto propriamente dito. Paredes revestidas de madeira
refletiam o brilho dourado do fogo aceso num braseiro, e tapeçarias vermelho-escuras,

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

gastas, mas limpas, cobriam duas paredes.


— Em primeiro lugar, um banho — anunciou ele.
— O quê?
Houve uma batida à porta e seguiu-se uma breve seqüência de criados carregando
uma tina redonda de madeira e baldes fumegantes. Sem demora, o banho estava
preparado, e os criados tinham-nos deixado novamente a sós.
Gwyn olhou fixamente para a tina, de costas para ele. Podia sentir a presença
máscula mesmo em silêncio, seus olhos penetrantes observando-a.
— Guinevere.
— O quê?
— Entre na banheira.
A banheira cheia, com o vapor se desprendendo da água quente e as tapeçarias
vermelhas ao fundo eram convidativas o bastante. Ela mal podia desviar os olhos dali.
— Você...
— Estou de saída. — A porta se abriu. — Mas voltarei.
— Espere, por favor — disse Gwyn, virando-se e encontrando os olhos intensos.
Procurou não se concentrar no tremor que subia por sua espinha é, sim, no assunto
crucial que continuava inquietando-a. — Sei que é improvável neste lugar afastado, mas
haveria algum meio de arranjarmos um mensageiro?
— O filho do estalajadeiro atua como mensageiro às vezes. Ele levará sua
mensagem.
— Mesmo com este tempo inclemente?
— Ele já deve ter enfrentado coisas piores. Para quem é a mensagem?
— Para o marido de Mary, uma amiga minha, lorde John de Cantebrigge — disse
Gwyn com um misto de esperança e alívio.
— E qual é a mensagem?
— O mensageiro deve dizer a John que fui atacada por Endshire, que quer obrigar-
me a casar com ele para usurpar meu lar. Que fui salva por um milagre e que pretendo
buscar refúgio na abadia de Saint Alban. John deve falar com o rei e providenciar para
que eu tenha uma audiência em segurança com ele. — Ela escolheu as palavras com
cuidado para transmitir o que precisava sem revelar nada importante, caso a mensagem,
ou o mensageiro, caísse em mãos erradas.
— Fique tranqüila. Providenciarei para que sua mensagem seja levada.
Gwyn fez menção de agradecer, mas ele já havia saído.
John era senhor de um feudo pequeno, mas estrategicamente importante, onde ela
planejara parar na sua viagem de volta para casa antes que todo o horror começasse.
Embora fosse improvável que o rei estivesse de acordo com FitzMiles, ela decidiu não
correr riscos. Não enviaria a mensagem diretamente ao rei, revelando onde estava.
Precisava de um intermediário. John de Cantebrigge era favorecido pelo rei Estevão e
saberia o que fazer.
Soltou um profundo suspiro.
Embora mal pudesse esperar para mergulhar na banheira, adiantou-se até a mesa
de canto, desamarrou o saco de feltro de sua cintura e tirou o pequeno baú do pai dali de

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dentro. Estava intacto, felizmente, apesar de toda a agitação daquela noite. Tocou com
suavidade o emblema de prata incrustado na madeira da tampa com a inconfundível rosa
dupla de Everoot. A caixa era uma linda peça. Possuía um estranho atrativo, e fazia com
que uma pessoa desejasse tocá-la. Mas, além de sua beleza rara, era preciosa porque,
no último momento de sua vida, o pai a julgara a coisa mais importante para lhe confiar. A
pequena caixa com as cartas de amor trocadas com a esposa. O pai amara tanto sua
mãe, ponderou Gwyn pela centésima vez.
E ela fora responsável por sua morte tanto quanto se tivesse atravessado seu
coração com um punhal. Sentiu um aperto no peito. Passara a última década tentando
compensar o pai, mas em vão. Obviamente, ser a responsável pela morte do irmã& e da
mãe tinha suas conseqüências. Como o ódio do pai.
Gwyn correu a mão pelo baú e abriu a tampa. Os rolos de pergaminho com as
cartas dos pais estavam ali dentro. Tocou-os com reverência, como de costume e, então,
correu a mão pelo fundo. Gelando, retirou os pergaminhos e examinou o fundo. Oh, Santo
Deus!
Ela se fora!
Gwyn engoliu em seco. Além do baú, o pai lhe dera duas pequenas chaves, uma de
ouro, outra de aço. A frenética insistência dele para que protegesse esses itens havia sido
um mistério, uma vez que nenhuma das chaves abria uma única fechadura no castelo
inteiro. Ela sabia, pois tentara usá-las em todas as portas desde então, mas sem êxito. De
qualquer modo, fizera sua promessa, de joelhos, junto ao leito de morte do pai.
Agora, a chave de aço tinha sumido. Levou a mão trêmula aos lábios. Sim, devia ter
sido. Quando deixara o baú cair em Londres e a tampa se abrira, a chave devia ter ficado
no chão, embora tivesse recolhido o restante.
Mas por que se sentir tão desolada? Eram apenas peças remanescentes do
passado, sem valor algum. Contudo, tinham significado muito para o pai, e foi como uma
nova dor.
Levou a mão instintivamente ao vestido, tocando a pequena peça metálica
costurada num saco na parte interna de suas saias. Ao menos, a pequena chave de ouro
estava a salvo.
Que importância podia haver que tivesse perdido a de aço?
Ela se levantou abruptamente e guardou o baú de volta no saco de feltro, atando-lhe
os cordões. Aproximando-se da banheira, começou a se despir. Lançou mais um olhar ao
saco na mesa. O pai havia sido um homem letrado — algo incomum num guerreiro — e
sua mãe aprendera com ele. Era estranho que o pai tivesse negado com tanta veemência
tal habilidade à própria filha. Mas assim havia sido, e as cartas permaneciam sem ser
lidas. Com certeza, ela podia ter pedido ao seu querido e velho administrador William que
as decifrasse, mas tivera um forte sentimento, de que eram particulares, apenas para os
seus olhos. Olhara as cartas, obviamente, correra os dedos pelas palavras nos
pergaminhos antigos, mas não pudera, ler uma linha sequer. Um dia, aprenderia a ler.
E, então, talvez, pudesse descobrir o mistério que havia nas cartas, num
compartimento secreto trancado na parte debaixo do baú com uma tampa de aço que
nem sequer fogo podia abrir.

Griffyn desceu a escadaria até o salão principal da construção que não era, nem
nunca fora, uma estalagem.
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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Havia sido um forte para sentinelas saxônias noventa anos antes, na véspera da
invasão de Guilherme, o Bastardo. Não deixara também de servir a seu propósito.
Homens ainda se reuniam entre suas paredes e tramavam a derrubada de impérios.
Homens como Griffyn e seu grupo de cavaleiros criados em campos de batalha na
Normandia.
Quando ele havia entregado Noir ao soldado que saíra depressa,no momento da
chegada deles, também mandara um recado para que os homens se reunissem no salão
principal em meia hora.
Doze homens e uma mulher sentavam-se em torno de duas mesas de madeira
rústica com as mãos calejadas segurando canecas de cerveja, aguardando seu senhor.
Havia um braseiro aceso no centro e três ou quatro velas em cada mesa.
Griffyn contou-lhes o que acontecera com palavras breves, sucintas. Primeiro o
encontro e o acordo com Beaumont, a questão mais importante entre todas, mas ele logo
descobriu que aquilo ficara em segundo plano em comparação às demais. Muito mais
interessante tinha sido a história do quase rapto de Guinevere, luta de espada e
subsequente resgate. Duas vezes.
Ele atraiu uma série de olhares céticos, alguns grunhidos desdenhosos e
praguejamentos quando relatou a batalha que havia travado com os homens de Endshire.
— Então, estão mortos — perguntou um cavaleiro normando, Damelran.
Griffyn desviou os olhos do fogo devagar.
— Nem todos. De Louth escapou.
— Isso me deixa muito confortado — disse o cavaleiro, irônico, enquanto erguia a
caneca de cerveja para mais um gole.
Griffyn o olhou atravessado.
— É um prazer estar ao dispor.
Observou os risinhos zombeteiros em torno do salão e franziu a testa.
— O que vocês teriam feito? Ela estava sozinha e correndo perigo.
Agora, os homens gargalhavam a valer, o que o deixou ainda mais aborrecido. Eram
todos homens a quem confiaria sua vida. Mas não aquele tipo de relato. Apenas o
transformaria em algo que não era e se divertiriam à sua custa. O que já estava
acontecendo.
Homens batiam uns nas costas dos outros e erguiam as canecas em brindes
desajeitados. Alexander, seu segundo em comando, observava-o em silêncio de uma
mesa menor a um canto e era o único que não tomava parte na algazarra.
Griffyn encontrou seu olhar e deu de ombros. Alex sacudiu a cabeça e tomou um
gole de cerveja. O restante do salão permanecia em diferentes estados de espírito.
Hervé Fairess, um corpulento cavaleiro angevino com um malicioso senso de humor,
lutava tanto para conter o riso que os olhos lacrimejavam e o rosto estava muito vermelho.
O estalajadeiro e sua esposa, Maude, não tinham tais reservas. Riam abertamente com
os demais e se seguravam um ao outro como se fossem cair do banco. Griffyn lançou um
olhar contrariado em torno das mesas. Ninguém prestou atenção.
Ele pigarreou e o salão mergulhou rapidamente, em silêncio.
— Como falei, ela estava em perigo.
— Não em tanto perigo quanto estaremos quando Endshire vier à procura de um

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cavaleiro misterioso que surgiu do nada e levou sua noiva embora — observou Hervé
Fairess.
— Concordo — disse Alex num tom calmo e baixo de sua mesa nos fundos.
Griffyn sacudiu a cabeça.
— Sairemos deste lugar ao amanhecer e da Inglaterra dentro de dois dias. Logo
estaremos na Normandia e não mais aqui para sermos importunados por Endshire. E —
acrescentou com impaciência — ela não era noiva dele.
Aquilo desencadeou nova onda de gargalhadas. Alex falou em meio aos risos dos
demais:
— Podia não ser, Pagão, mas o que isso importa? Está em nosso acampamento
agora. E se descobrir quem somos, ou o que estamos fazendo?
— Não descobrirá. Ela acordará amanhã e encontrará uma estalagem vazia e,
então, seguirá seu caminho. — Ele olhou em torno do salão e sacudiu a cabeça,
desgostoso. — Tudo o que temos de fazer é atravessar uma noite com uma mulher entre
nós. Não somos capazes de algo tão simples?
Quando os companheiros explodiram em risos outra vez, desistiu de argumentar e
foi se reunir a Alex em sua mesa na parte dos fundos. A tempestade continuava lá fora, e
o fogo crepitava, aquecendo relativamente o salão. As vozes dos homens foram dando
lugar a murmúrios e, então, silenciando, conforme eles se dispersaram e começaram a
adormecer, cada um no canto onde estava acostumado, perto do fogo.
Griffyn tomou um longo gole de cerveja e dirigiu um olhar inquiridor a Alex, que o
fitou com um ar duvidoso em resposta.
— Tem algo mais a dizer?
— Sim.
— Foi o que achei — resmungou Griffyn, mas tornou a dar de ombros. — Bem, eu
não poderia ter sido mais claro. Eu a levarei daqui de manhã e esse assunto estará
encerrado.
— Estará mesmo?
— Não é a primeira vez que conheço uma mulher, nem que ajudo uma donzela em
apuros. Alguns que conheço teriam feito o mesmo.
— Então, é do que se trata tudo isso? Os seus votos de honra e cavalheirismo? Era
o que estava fazendo lá, Pagão? Sendo um honroso cavalheiro?
Griffyn soltou um suspiro já sabendo aonde Alex queria chegar.
— Apenas fiz o que julguei ser o certo. Chame como quiser.
— O que não entendo é por que ela está aqui. Você tem coisas mais importantes a
fazer — lembrou-o Alex num tom baixo, de modo que ninguém mais os ouvisse. —
Qualquer coisa que o distraia é prejudicial. Por que ela está aqui, Pagão? O que está
acontecendo?
— Com o que está preocupado? Você me conhece.
― Sim, mas não a ela. — Quando o silêncio se prolongou, Alex continuou: —Você
tem um destino, Griffyn. É da linhagem de sangue, o Guardião. O Herdeiro. — Notando a
expressão inflexível dele, sacudiu a cabeça.
— Não cabe a mim convencer, nem instruir você.

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— É mesmo? Então, por que persiste nesse mesmo assunto de tempos em tempos?
O rosto de Alex endureceu.
— Porque há um tesouro que deve ser protegido. Ou você não acredita?
Griffyn lançou um olhar na direção dos homens adormecidos diante do fogo e
inclinou-se por sobre a mesa.
— Vou dizer no que acredito — sussurrou. — Acredito que a cobiça e o medo
existem e que é isso que motiva os homens. Santidade não existe, ou é muito rara.
Lendas de tesouros escondidos entusiasmam os homens como nada mais consegue e os
fazem atacar. Não quero nada disso. Não quero o que essa coisa faz os homens se
tornar.
— Em você, fluem mil anos de sangue. É algo importante demais para se ignorar.
Sua vida não lhe pertence.
— Minhas escolhas, sim.
— Você é o Guardião, Griffyn. Tem de aceitar isso.
— E você é uma Sentinela, Alex. Não o meu pai.
— Sim. Sou uma Sentinela. Protejo você. Cumpro o meu dever.
Griffyn sorriu.
— Chame de dever, se quiser. Todos fazemos nossas escolhas.
— E a sua tem sido a de rejeitar seu destino desde o dia que seu pai morreu. Acha
que isso o fará desaparecer?
— Não, infelizmente nada o fará.
Nada faria com que a terrível verdade de quem ele, era destinado a se tornar
desaparecesse. O tesouro escondido nos subterrâneos de Everoot tinha um longo legado
de destruição. Era poderoso o bastante para instigar disputas e loucura, sagrado para
fazer reis se prostrar de joelhos; Simplesmente esmagara seu pai e Ionnes de l'Ami sob o
peso da cobiça.
Sua existência mal era comentada em voz alta nas reuniões secretas daqueles que
suspeitavam, mas os rumores persistiam. No Egito. Em Languedoc. Em Jerusalém!
Ninguém tinha certeza de que sequer existia, quanto mais de sua localização.
Ninguém imaginava que o tesouro estava num remoto castelo da Inglaterra,
desprovido de qualquer glória e até da luz do dia.
E Griffyn era seu Guardião.
Ele olhou fixamente para a superfície de madeira da mesa sem enxergá-la, mas
vendo o rosto furioso, insano de seu pai. Não queria ser como Christian Sauvage. Porém,
em seu coração, sabia que não poderia ser outra coisa.
Brutal, pecaminoso, consumido pela cobiça. Esse era seu destino.
— Griffyn.
A voz de Alex tirou-o do devaneio, e ele olhou para seu amigo de uma vida inteira.
Alex cobriu seu punho cerrado sobre á mesa com a mão.
— Não sei por que você acha que importa o que nós queremos, meu amigo. Você é
o que foi criado para ser. O herdeiro de Carlos Magno. Você carrega a responsabilidade:
Guardião dos Sagrados. E por bem ou por mal, Griffyn, nossa esperança repousa em
você.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Ele libertou a mão.


— Por favor, me chame de Pagão quando ela estiver por perto.
Apanhando sua caneca, afastou-se.

Ah, havia algo mais perfeito do que um banho? Do que o vapor fragrante
desprendendo-se da água quente que chegava até a altura do colo e do queixo? Do que a
sensação de estar limpa outra vez?
Gwyn concluiu que não. Recostando a cabeça na tina de madeira, fechou os olhos.
O quarto era de Pagão, sem dúvida. Continha seu odor másculo e almiscarado. A
constatação de que era algo agradável a fez abrir os olhos de repente.
Por que não estava com medo, mergulhada numa tina no quarto de estalagem de
um estranho? A noite era como uma versão estranhamente prolongada da realidade que
mudava conforme ela a enfrentava.
No entanto, havia algo especial em Pagão, algo que parecia honroso, íntegro. Na
verdade, ele parecia...
Parecia estar subindo a escada.
Gwyn saiu nua da tina, com água escorrendo por seu corpo, e olhou rapidamente
em torno do quarto. Suas roupas, sujas, rasgadas, estavam perto da porta. Se corresse
para pegá-las, não teria tempo para colocá-las; seria apanhada. O que poderia usar?
Griffyn abriu a porta com um leve chute e entrou no quarto com duas canecas de
cerveja numa bandeja. Depois de vinte minutos escovando Noir, conseguira finalmente
dissipar os remanescentes do turbilhão de emoções conflitantes que se seguira à sua
conversa com Alex. Voltando sob o vento cortante e a chuva, dera-se conta de que tudo o
que queria era sentar-se com Guinevere. Apenas sentar e esquecer o mundo por algum
tempo. Talvez fazê-la rir.
Equilibrando a bandeja, olhou ao redor até que a encontrou. Ela voltava do quarto
anexo para a antessala, com os cabelos molhados e enrolada numa das mantas de pele
que devia ter apanhado da pilha sobre a cama.
— Desculpe — disse com um sorriso tímido. — Eu não tinha nada para usar.
Ele a observou por um momento e, então, colocou a bandeja sobre a mesa, voltando
por um instante para fechar a porta. Era, de fato, bem melhor estar ali, com a beleza dela,
do que no andar debaixo, com lembranças sombrias.
— Venha, sente-se aqui comigo — disse, puxando um dos bancos junto à mesa. —
A propósito, sua mensagem já foi enviada. — Ele refletira a respeito e enviara um de seus
homens a Cantebrigge, não vendo nada na mensagem verbal que pudesse colocar
alguém ali em risco. Seu cavaleiro recebera ordens para não voltar, mas para aguardá-los
em algum esconderijo nas docas depois que tivesse transmitido sua mensagem. Parecera
realmente importante para Gwyn. .
— Oh, obrigada. — Enquanto ela se aproximava, houve uma batida à porta, e ele
lhe indicou que voltasse para o interior do quarto. Era Maude com uma bandeja de
comida que deixou rapidamente sobre a mesa e se retirou, fechando a porta.
Griffyn sorriu quando Guinevere se sentou com ele à mesa e deliciou-se com a
comida simples como se fosse um banquete. Livre da sujeira de antes, seu rosto revelava
traços delicados e extremamente belos, realçados pelos olhos de intenso verde e os

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

cabelos lustrosos e negros que iam se cacheando mais à medida que começavam a
secar. Só em observá-la, sentiu o desejo se reavivar com súbito impacto. Era uma
emoção tão poderosa que não se lembrava de já tê-la sentido com tamanha intensidade
antes. Podia imaginá-la deitada sobre seu corpo na cama macia, com os cabelos
espalhados nos travesseiros.
— Jamais esperei algo como tudo isto que aconteceu hoje — comentou Gwyn com
um sorriso antes de levar a caneca de cerveja aos lábios e tomar um longo gole. — E
você?
— Não, jamais esperei nada como você.
— Acho que concordamos.
— E sem termos um pingo de bom-senso nisso.
— Nenhum.
Ele adquiriu uma expressão séria.
— Acho melhor você recobrar o seu, Olhos Verdes, antes que algo aconteça de que
você se arrependa.
— Arrepender-me? — Gwyn sacudiu a cabeça e, então, seu sorriso dissipou-se. —
Acho que não. Tenho alguns arrependimentos, claro, mas...
— Eu também e não gostaria que esta noite se tornasse um. Portanto, acho melhor
me dar ouvidos agora. Tenha cuidado.
— Bom-senso, é o que quer dizer.
— Sem dúvida.
Gwyn fez uma pausa, e ele achou por um momento que escaparia ileso. Que ela
tomaria a atitude prudente e o pouparia de seu desejo desenfreado. Mas suas próximas
palavras liquidaram a tênue esperança.
— O bom-senso é apenas uma maneira de vermos uma coisa, Pagão — sussurrou
ela. — Tenho certeza de que poderíamos encontrar outra.
Num gesto rápido, Griffyn se levantou, contornou a mesa e abraçou-a pela cintura,
erguendo-a do chão.
— Que Deus me perdoe — murmurou e, então, beijou-a em cheio na boca.
Seus lábios se uniram num beijo faminto, desesperado. Gwyn não sabia de nada a
não ser que sua vida estava mudada para sempre. Ele devorava seus lábios com paixão,
estimulando-os, acariciando-lhe a língua numa dança erótica, despertando sensações
novas, incríveis, anseios incontroláveis. Foi levando-a para trás com gentileza e, quando
ela encostou na mesa, colocou-se entre seus joelhos. Erguendo-a do chão, sentou-a na
beirada da mesa, seu corpo irradiando calor, os músculos sólidos tocando-a através da
frágil barreira da manta de peles que não ficaria por muito tempo no lugar. Acariciava-a
com mãos impacientes, fazendo-a arquear os quadris num ritmo inconsciente. Puxando-a
para si, beijou-a com volúpia, até que os seios delicados encostassem em seu peito. Seu
membro estava rijo e chegando cada vez mais próximo do centro quente e úmido da
feminilidade dela.
— Sabe o que quero fazer com você? — sussurrou ele, rouco. Ela meneou a
cabeça, não sabendo de nada, certa de tudo.
Griffyn deslizou a mão por baixo da manta e fechou-a em torno do seio macio,
afagando-o demoradamente. Gwyn sentiu a mente rodopiar. Ele era um mago, sabia

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exatamente o prazer que estava lhe causando, provocando-a com carícias hábeis,
fazendo-a gemer de anseio por algum tipo de extravasamento desconhecido. Jamais
sentira um calor como o de agora, fervendo no seu sangue, latejando entre suas pernas.
Ele a tocou através da manta, seduzindo-a, estimulando-a com tamanho ardor, que seu
corpo reagia involuntariamente.
Quando um espasmo percorreu o corpo de Gwyn, ele quase a possuiu ali mesmo.
Quis abrir-lhe mais as pernas com o joelho e penetrá-la. O lugar quente entre as coxas
acariciava seu membro ereto, incitando, provocando, prometendo o prazer absoluto.
Beijou-a na boca com todo p erotismo que o percorria, ansiando por entreabrir-lhe as
pernas e fazê-la preencher o quarto com seus gemidos de prazer: Ela o abraçava pelo
pescoço, as pernas tremiam sobre a mesa, e arqueava o corpo para a frente à espera da
invasão. Estava pronta para ele.
Um ruído forte interrompeu-os.
Alguém batia à porta com insistência.
Ele afastou os lábios dos de Gwyn.
— Deixe-nos! — berrou, mas a porta já havia sido aberta antes que as palavras
saíssem.
— Pagão! — Alex adentrou depressa no quarto. — Há notícias!
Griffyn virou-se de imediato, colocando seu corpo na frente do de Gwyn, sua mão
indo num reflexo até uma espada inexistente.
Alex parou abruptamente e evitou olhar para além do ombro de Griffyn.
— Pagão? —disse num tom mais baixo e hesitante. — Trouxeram notícias.
Griffyn meneou a cabeça, mas suas palavras soaram carregadas de contrariedade.
— Vá. Agora!
— Senhor. — Alex inclinou a cabeça e retirou-se, fechando a porta.
Gwyn sentou-se. Ambos ficaram paralisados em suas posições por um instante e,
então, ela se moveu atrás de si.
— Eu deveria simplesmente morrer neste momento — murmurou.
Griffyn virou-se. Péssima idéia. Ela ainda estava trêmula de desejo. A manta de
peles começava a se entreabrir revelando parte das coxas acetinadas...
Ele girou nos calcanhares e adiantou-se até o lado oposto do quarto, onde apoiou as
mãos na parede, tentando aquietar a respiração. Olhando para trás, viu-a descer da
mesa.
— Acredito que é a minha vez de pedir desculpas — disse ela.
Griffyn desviou os olhos e sacudiu a cabeça.
— Não. Sou eu novamente que estou errado.
— Não. — Ele a ouviu se aproximar, arrastando a beirada da manta no chão de
madeira. — Você me disse — persistiu. — Você me avisou.
— E eu sabia que você não dava ouvidos a ninguém. Deveria tê-la deixado aqui e
saído.
Gwyn tocou-lhe o braço de leve por um momento.
— Eu sabia o que estava acontecendo. — Ruborizou.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Quero dizer, não sabia, mas... Desculpe. Serei... boa. Sentindo um ligeiro alívio
diante do fato de estarem conversando em vez de em meio a um abraço dos mais
ardentes, ele a fitou com ceticismo.
— Isso significa ser obediente? Ela abriu seu sorriso encantador.
— Espero que não, mas podemos manter a esperança. Griffyn não conteve um riso.
— Se um dia você se tornar dócil e obediente, que Deus tenha piedade das nossas
almas.
— Com certeza, Ele poupará um pagão.
— Ele vai me amaldiçoar pelo que eu estava prestes a fazer.
— Mas eu não o amaldiçoaria.
Sem dúvida, ela era perfeita. Corajosa, inteligente, determinada, divertida e com o
rosto de um anjo e um corpo de uma sedutora. Não era como ninguém que já conhecera.
Não era para ele.
Griffyn adiantou-se na direção da porta e saiu.
Gwyn observou-o deixar o quarto, enquanto seu coração ainda batia
descompassado. Adormeceu na cama com um sorriso nos lábios e nenhuma dor pela
primeira vez em dez anos.

Alexander estava à espera quando ele saiu para o corredor estreito. Griffyn não
disse nada enquanto fechava a porta atrás de si e seguia pelo corredor. Alex alcançou-o.
— Há quanto tempo você estava à porta?
— Eu não estava aporta, mas, sim, lá embaixo, ocupado com assuntos... sagrados.
Griffyn lançou-lhe um olhar de soslaio, enquanto desciam a escada.
— Sagrados? Parece algo sério. Eu não teria esperado isso da sua parte.
— Sou conhecido por isso.
— Pelo quê?
— Pelo que todos nós fazemos... buscar redenção. Ou vingança — acrescentou
Alex quanto entravam no salão principal.
Os homens tinham sido acordados e sentavam-se num pequeno círculo diante de
um braseiro, tentando se manter aquecidos sob a umidade que permeava o lugar. Do lado
de fora, a tempestade castigava as paredes, um vento intermitente uivava.
Griffyn colocou uma manta sobre os ombros e sentou-se num banco entre os
homens. Todos o observaram, estranhamente quietos. Estudou o rosto de cada um.
— Redenção ou vingança. — Virou-se para Alex. — Por que tenho a sensação de
que você espera ou uma coisa ou outra de mim esta noite?
— Chegaram notícias.
— Quais?
— Ionnes de l'Ami morreu.
Griffyn segurou sua caneca de cerveja com tanta força que os nós dos dedos
embranqueceram.
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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Quando?
— Há uma quinzena. Eles estiveram tentando manter sigilo em torno do fato.
— "Eles" quem? — A voz de Griffyn soou desprovida de emoção. Aquele maldito
traidor, o foco de sua silenciosa inimizade ao longo dos dezessete anos anteriores estava
morto? O homem que havia traído seu pai, quebrado um juramento, usurpado seu lar e
partido seu coração, estava morto? E não havia sido por suas próprias mãos?
— A herdeira dele.
— Herdeira? Se me lembro, ele tinha um filho e, pelo que soube, morreu há vários
anos.
— Há uma filha. Griffyn olhou para o fogo.
— Eu havia esquecido. Qual é o nome dela?
— Guinevere.

Ele entrou no quarto muito tempo depois e observou-a dormir. Os cabelos se


espalhavam pelos travesseiros como uma exótica seda negra, o corpo esplêndido
aninhava-se sob as mantas de pele na cama.
A filha de l'Ami.
O destino era cruel. Ionnes de l'Ami tivera muitas coisas a seu favor. Uma vez
salvara a vida do pai de Griffyn na Palestina. Fora o homem a quem ele chamará de "tio"
e a quem julgara um herói. Até que...
Griffyn desabou num banco perto da cama e inclinou-se para a frente, apoiando os
cotovelos nas pernas, observando Gwyn, sem, no entanto, vê-la.
Era muito novo na época, com menos de oito anos para contrabalançar o destino
datando de séculos que o aguardava, quando costumava chamar de l’Ami de "tio".
O sorridente Ionnes de barba grisalha sabia sobre o destino de Griffyn e se
importava com ele muito mais do que o próprio pai. Ensinou-lhe as primeiras lições: como
manusear uma espada, a entalhar, a importância de saber rir de si mesmo.
O violador de juramentos.
Mentiroso.
Traidor.
Ele tocou a chave em torno de seu pescoço.
Sua herança. Lamento muito, sussurrara seu pai ao morrer. E já não foi sem tempo.
Passou da hora, aliás.
Os acessos de cólera e desvarios do pai naqueles últimos anos tinham sido terríveis
e inacreditáveis. Sua violência fora ainda pior.
Griffyn não tinha mais tempo para a ira de velhos homens, estimulada por cobiça.
Everoot era sua herança e aquela pequena peça de ferro em torno de seu pescoço
certamente não era a chave do castelo. Sua herança dependia de seu nome e de sua
espada. E bastava de pessoas interferindo em seu caminho.
Cerrou os punhos com força. O que fazer? Ionnes de l'Ami estava morto e, portanto,
ele devia impingir sua vingança numa mulher que contava com apenas dois anos de

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

idade na época da traição?


Com qual finalidade? Não havia sido ela que o magoara.
Olhou fixamente para seus punhos.
Cada verdade em que acreditara, cada pessoa em quem confiara, cada lição que
aprendera haviam acabado se revelando falsas. Como ela poderia ser a exceção?
Todos tinham sido contagiados por uma doença na alma. Todos os que sabiam
sobre o tesouro sagrado escondido em Everoot tinham sido corrompidos, deturpados.
Arruinados.
O que o fazia se lembrar de Marcus FitzMiles. Então, era Everoot que Endshire
andava farejando? Se os melhores homens podiam se tornar gananciosos e corruptos,
FitzMiles era um verme no estrume. Ele que tentasse conquistar o Ninho... o lugar tinha
defesas com as quais nem sequer sonhara.
Griffyn recostou-se e cruzou os braços sobre o peito, os olhos perdidos na chamas
de velas. O velho rei Henrique havia concedido ao pai de Marcus, o baronato, pois o
monarca vira a vantagem de manter seus inimigos ao alcance. Era um gesto prudente.
Mas não prudente o bastante.
Primeiro pai e, depois filho, haviam feito vários votos de jurar fidelidade a Matilde,
filha do antigo rei Henrique — morto em 1135 por intoxicação alimentar — como sua
sucessora de direto, como fizera o restante da nobreza inglesa. Então, quando fora
conveniente a seus propósitos, Marcus ficara do lado do rei Estevão. Como fizera o
restante. E quando lhe fora mais conveniente ainda, determinara-se a aprisionar mulheres
bonitas a fim de abastecer mais seus cofres.
Henrique FitzEmpress tomaria de volta terras de traidores exatamente como
Endshire.
Griffyn decidiu de repente que pediria para tomar parte na caravana no dia em que o
exército fosse para o norte e incendiasse o castelo de FitzMiles.
Seus olhos voltaram a pousar na beldade adormecida em sua cama. Quando fora a
última vez que ele rira do fundo de sua alma? Que sentira uma paixão tão perfeita e pura?
Que fora surpreendido, cativado, impressionado por uma mulher? Em nenhum dos longos
dias de sua vida.
Endshire pagaria pelo que fizera.
Meia hora depois, com as pálpebras já pesadas e os pensamentos ainda distantes,
viu Guinevere abrir os olhos.
Gwyn abriu os olhos, despertada pelo estrondo de um trovão. Havia uma iluminação
fraca no quarto, mas ainda não era a do amanhecer. Era a única certeza que tinha. Onde
estava, afinal? Ergueu as mãos no ar, e observou seus contornos sob a luz do fogo que
abrandava ligeiramente a escuridão.
— Onde estou? — sussurrou.
— A salvo — foi a resposta em forma de murmúrio. Ela olhou para a sua direita.
Havia um vulto recostado num banco contra a parede, e seus olhos brilhavam enquanto a
observava. Tudo voltou numa enxurrada de lembranças.
O Ninho sendo sitiado, a proposta absurda e perigosa de Marcus, o ataque na
estrada, seu salvador, saxões e Hipping... vagavam como nos sonhos, através de
caminhos ocultos. Uma noite misteriosa, tomada por fantasmas e heróis. E beijos
ardentes que chegaram até o fundo de sua alma.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

O último pensamento dissipou a confusão por completo. Afastando as pesadas


cobertas de peles, sentou-se. Os músculos doloridos haviam se retesado enquanto
dormira, e o movimento repentino os fez protestar. Deitou-se de volta no travesseiro com
um gemido.
Griffyn observou-a do banco sem se mover.
— Fique deitada. Você está cansada, mas vai ficar bem.
— Sim.― Ela olhou ao redor do quarto confortável.
— Jamais poderei pagá-lo por isso.
— Não quero nada de você — declarou ele num tom sério e levantou-se,
começando a andar de um lado ao outro do quarto.
Gwyn acompanhou-o com o olhar, notando que havia algo diferente em Pagão, uma
estranha inquietação, uma expressão grave. Ele parou de repente ao lado da cama e
fitou-a nos olhos.
— Então, quem é você, jovem dama, e como acabou parando sozinha na estrada do
rei?
— Já disse. Lorde Endshire é um pretendente ávido demais.
— E você ia para a abadia para esperar ser salva?
— Já fui salva.
— O que acha que Endshire queria com você?
— Meu dinheiro, com certeza.
— Você tem tanto assim?
— Não mais.
Ele a estudava com um olhar felino, predatório, e uma parte dela sentia medo e
excitação ao mesmo tempo.
— Você o esbanjou? Marcus vai bufar de raiva quando souber.
— As guerras acabaram com ele.
— As guerras acabam com vidas.
— Sim, de fato. Com o dinheiro, com vidas, deixando apenas os lamentos das
mulheres, cujos maridos morreram.
— Perdeu um marido?
— Não. Nenhum teria ficado satisfeito comigo.
Ele desviou o olhar para a janela fechada, ainda castigada pela chuva.
— Um pai, talvez?
Gwyn sentou-se na cama, puxando as cobertas até o pescoço, usando por baixo
apenas um lençol que encontrara e amarrara em torno de si como uma camisola
improvisada.
— Sim. Como sabe?
— Lembrei que você chegou a mencionar isso na estrada.
— Oh, é claro. Bem, mas quanto às guerras, há homens que as julgam gloriosas. Eu
as acho terríveis e não me importo nem um pouco com elas.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Talvez se importasse caso elas lhe tirassem seu lar — declarou Pagão com
frieza.
— Como Marcus tentou, é o que quer dizer? Acredite, não preciso de uma guerra
para despertar a ambição dos homens em relação a mim ou ao que é meu. É uma sina
que as mulheres carregam até nos tempos mais pacíficos.
Ele se adiantou até o braseiro, alimentando e atiçando o fogo que ajudava a manter
o quarto aquecido enquanto a tempestade lá fora ainda não dava sinais de abrandar.
— E, ainda assim, aqui está você, não com FitzMiles.
— Afastando-se do fogo, atravessou o quarto até a ante-câmara e voltou com uma
jarra de vinho. Despejando o líquido em duas canecas que encimavam uma mesinha a
um canto, aproximou-se e entregou uma a ela. — Às damas, acho eu.
Gwyn riu, contente com o pequeno brinde. Pagão devia ter apenas experimentado
um mau humor passageiro, causado por alguma preocupação ou pensamento ruim, como
acontecia com ela mesma às vezes. Ela relaxou de encontro aos travesseiros e aceitou o
vinho.
— Aos cavaleiros valentes e às donzelas assustadas. Travamos uma luta e tanto
naquela estrada, não?
Ele riu, sentando-se no banco comprido.
— Admito que, sem sua ajuda, eu não teria conseguido.Foi muito corajosa quando
desviou a atenção daqueles mercenários na estrada.
— Eu é que não teria conseguido sem você. — Ela ergueu a caneca. — Meus
agradecimentos.
— Quero que pare de me agradecer.
— Foi a última vez. Prometo. Gwyn sorveu um longo gole de vinho.
— Eu deveria tomar um vinho mais fraco do que este.
— Por quê?
— Digamos que fiquei um tanto... descontrolada quando tomei sua poção na
floresta.
Ele abriu um sorriso divertido, e Gwyn estremeceu, observando seu rosto sensual,
relembrando os beijos ardentes que haviam trocado.
— Aquilo não era uma poção e não tem nada a temer desse vinho.
Ela tomou mais um pouco.
— É muito bom.
O silêncio prolongou-se por alguns minutos, mas foi agradável, cheio de
cumplicidade.
— E quanto a você, Pagão? — perguntou ela, enfim. — O que está fazendo aqui?
— Estou sentado em sua companhia.
— Quero dizer nessa estalagem.
— Sentado em sua companhia.
Gwyn respirou fundo antes de perguntar:
— O que estava fazendo na estrada sozinho, àquela hora?

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Preferiria que eu estivesse acompanhado? Ela riu.


— Não, acho que não. — Estudou-o atentamente. — Não vai responder. Está
acostumado a lidar com o poder. Só aqueles que estão conseguem se desviar de
perguntas com tanta facilidade.
— Pergunte o que quiser.
Gwyn refletiu por um momento, certa de que o que ele estivera fazendo na estrada
do rei, ou na residência de Hipping, não tinha nenhuma relação com ela e era um assunto
que não estava aberto à discussão. De nada adiantaria tentar extrair informações a
respeito. Ele apenas as daria quando e se julgasse conveniente.
— Sei que não vou tirar nada de você — admitiu. — Só conseguirei saber o que
você desejar partilhar e, portanto, acho que não perguntarei mais nada.
Griffyn levantou-se por um momento para tornar a encher as canecas de ambos com
vinho.
— Estradas ou salões de casas — disse de repente, tornando a se sentar. — Há
sempre coisas a serem vistas e ouvidas nesses lugares se uma pessoa está vigilante,
atenta.
Ela o encarou com surpresa. Então, Pagão estava respondendo. De certo modo.
— E era o que você estava fazendo? Observando e ouvindo?
— Um pouco.
— Em tempos como estes...
— Em tempos como estes — interrompeu-a ele —, lindas damas não deveriam
cavalgar por estradas sozinhas. Podem encontrar homens perigosos.
— Você já demonstrou que não é um.
Pagão tornou a adquirir uma expressão soturna e distante por um momento.
— Não para você — disse por fim.
— Sorte a minha.
— Pode ter certeza.
— Então, é perigoso para quem? Ele riu, sacudindo a cabeça.
— Nada consegue parar você.
— A maioria acha mais fácil se render.
— Não sou como a maioria. Pagão estava certo, ponderou Gwyn, avaliando-o por
sobre a caneca de vinho. Não era mesmo como a maioria, não era como ninguém. Era
único. E havia sido capaz de lhe despertar uma paixão, um desejo premente, como não
soubera que existissem. Era como se pudesse dividir sua vida em antes e depois de tê-lo
conhecido. Ela mesma não era quem julgava ter sido. Tudo o que queria era que ele
tornasse a beijá-la.
— Eu... costumava cavalgar sob a chuva — disse, mais para romper a súbita tensão
que a dominou. — Não em meio a tempestades como essa, claro, mas adorava montar
meu cavalo, Windstalker, e sentir as gotas de chuva no rosto. É uma pena que não pude
trazê-lo a Londres. Ele certamente não teria me abandonado na estrada. Cavalos se
afeiçoam a seus donos e são muito leais. Veja como Noir e você se entendem.
— É verdade. É o melhor cavalo que existe — concordou Griffyn, pensativo. — Tive
outro assim quando era pequeno.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Aqueles que temos na infância são inesquecíveis. Ganhei Windstalker quando


tinha quase oito anos. Ainda era um potrinho para que eu o criasse! Eu me lembro que
passava cada momento com Wind.
— O meu se chamava Rebel.
Gwyn riu, meneando a cabeça, compreensiva.
— Wind está em seu auge com quase doze anos de idade. Eu o monto a cada
chance que tenho. É o meu melhor companheiro. E você, ainda cavalga com o seu
Rebel?
Uma expressão soturna passou pelo semblante dele.
— Rebel morreu antes de completar um ano. Num incêndio. Os estábulos
queimaram.
— Oh! Lamento muito. Quando?
— Quando eu tinha oito anos.
Gwyn manteve-se em silêncio. Uma perda dolorosa, sem dúvida. O fato de alguém
tão forte e poderoso sentir tanto a perda de um cavalo estimado, depois de todos aqueles
anos, revelava muito sobre ele.
Como era possível, perguntou-se, que após uma noite e algumas conversas
reveladoras, mas breves, soubesse mais sobre esse homem do que soubera sobre o
irmão, o pai ou qualquer de seus amigos em tantos anos de convivência?
— Sentirei terrivelmente a falta de Wind depois que ele se for — comentou num tom
sério. — Coisas assim não podem ser reparadas.
— De fato, não. — Após uma longa pausa, ele pediu inesperadamente: — Conte-me
algo mais sobre o seu lar, Olhos Verdes. Deixei o meu há tanto tempo que seria bom
ouvir sobre um que é amado.
Gwyn fitou-o na penumbra e não hesitou. Podia confiar nele. Era seu salvador. E
preenchia aquele vazio deixado pela antiga dor...
Uma onda de certeza tomou conta dela. Sentando-se na cama, afastou os cabelos
do rosto.
— Certa vez, convenci o escriba do meu pai a caminhar comigo por uma boa
extensão da Muralha de Adriano. Foi uma longa jornada e estávamos exaustos quando
terminamos nosso vasto trecho.
Um leve sorriso curvou os lábios dele.
— Ao longo da fronteira com a Escócia. Você é uma mulher persuasiva.
— Menina. Eu tinha nove anos.
Ele sorriu mais amplamente e ergueu a caneca num brinde.
— Meu pai ficou furioso quando voltei.
— Sem dúvida. E quando foi?
— Três dias depois.
Ele começou a rir, e ela contou-lhe sobre mais algumas de suas travessuras de
criança e adorou fazê-lo rir mais. Se fazê-lo rir dava-lhe tanta satisfação, como seria fazê-
lo amar? O pensamento quase a fez derrubar a caneca de vinho e acabou de tomar a
bebida, deixando-a no chão ao lado da cama e tornando a se aninhar sob as cobertas.
Falou mais sobre Windstalker e suas cavalgadas à meia-noite. E sobre como costumava

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

andar pelas muralhas sob a chuva quando todos dormiam. Revelou sobre a solidão que
sempre a acompanhara e de como a dominara, apesar de lutar contra ela. Sobre a
dificuldade em dirigir seu castelo em tempos de guerra e de como quase sucumbira ao
desespero quando o pai havia morrido.
Não mencionou o nome do castelo nem o seu, mas contou-lhe tudo o que a tornou
quem ela era, tudo desde os cinco anos de idade até agora: a solidão, a perda da mãe, a
dor.
Santo Deus! Gwyn conteve-se antes de entrar em detalhes. Não podia falar sobre
aquilo. Era doloroso demais.
— Eu entendo — murmurou ele.
Griffyn falou de onde estava sentado no canto escuro do quarto, mas sentia-se leve
e contente. A imagem daquela mulher caminhando numa muralha deserta, com os
cabelos esvoaçando, era atraente demais. Ela tocara o quarto com sua presença e o
transformara. Ele não sabia que estava escuro, que havia sido cativado. Estava ciente
apenas dela.
Gwyn olhou através das sombras para ele com lágrimas rolando por seu rosto
delicado.
— Não chore, linda avezinha.
Um riso soluçante ecoou pelo quarto.
— É uma péssima comparação. Se eu pudesse... — Ela engoliu em seco, tomada
pela emoção. — Eu teria voado para longe muitas vezes.
— Mas não voou.
— Apenas porque não tinha asas.
— Você não tinha. E, mesmo que as tivesse, não teria voado.
Ela assentiu com um gesto de cabeça e respirou fundo, tentando conter as lágrimas
e se recompor.
— Amo tanto o meu lar que chega à doer — disse, segurando o punho junto ao
peito.— Mas todas aquelas, coisas que fiz....― Sua voz morreu na garganta, mas tornou
a ficar firme para prosseguir: — Todas as coisas que já fiz na vida foram desejando
apenas esta única coisa.
O coração de Griffyn disparou.
— O quê?
— Você.
Como num sonho, ele se levantou.
— E eu, com você, Guinevere. — Ajoelhando-se ao lado da cama, pegou a mão
delicada e levou-a aos lábios.
Por um momento, Gwyn esforçou-se para se controlar. Sua escolha era ir em frente,
ou recuar. Abraçar a situação, ou esmagar a esperança nela contida.
Jamais. Havia quanto tempo esperava por aquela alquimia que encontrava com
Pagão?
Sua vida inteira.
Estendendo a mão, tocou-lhe a face.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Não me importa qual é o seu nome, ou o que tenha feito. O mundo está distante
no momento e eu quero que permaneça assim durante esta noite.
Griffyn inclinou-se e tomou os lábios dela com um beijo faminto que a deixou quase
sem fôlego. Apoiando o joelho na cama, afastou as mantas de peles e deitou-se sobre
ela, continuando a beijá-a, cobrindo-a com seu corpo quente e musculoso. Gwyn abraçou-
o pelo pescoço, puxando-o mais para si, correspondendo com ardor, arqueando o corpo
de modo que os seios envoltos pelo frágil lençol se comprimissem contra o peito dele.
Ele a ergueu pelos quadris, unindo-os aos seus num contato ardente, fazendo-a
ansiar por mais. Muito mais.
E ele sabia daquilo. Pela maneira como ela retribuía seus beijos, soltando gemidos
abafados, arqueando os quadris. Seguiam por um caminho vertiginoso que maravilhava e
assustava a ambos com sua intensidade e que não teria volta. Teriam de parar agora, ou
nunca.
Gwyn sussurrou ao ouvido dele e chamou-o de seu salvador.
Nunca.
Griffyn despiu freneticamente sua calça justa e a túnica. Desatou em seguida o nó
do lençol que envolvia o corpo de Guinevere e percorreu-o com suas mãos quentes e
ávidas, extasiado com a perfeição. Afagou os seios arredondados e estimulou os mamilos
eretos com o polegar até ouvi-la gemer de prazer e suplicar por mais. Cobriu um dos
seios com a boca, sugando o bico rosado, acariciando-o com a ponta da língua.
Deslizou a mão por seu corpo, que se contorcia de prazer, até a parte interna da
coxa, roçando de leve com a ponta dos dedos o centro de sua feminilidade. Fez com que
escorregassem pelas dobras molhadas e ardentes até chegar ao ponto mais sensível,
afagando-a com habilidade. Ergueu a cabeça para observá-la. Ela tinha os olhos
semicerrados e ofegava e gemia enquanto seus quadris se arqueavam.
— O que está fazendo comigo? — sussurrou.
— Tornando você minha — disse Griffyn, a voz rouca e carregada de satisfação. —
E você está pronta.
Entreabriu-lhe as pernas com gentileza, e ela ergueu os quadris em sua direção,
movendo-se num ritmo natural que o fez sentir um desejo tão premente que teve de parar
por um momento e cerrar os dentes.
— Por favor... — A doce súplica quase o fez perder o controle.
— Você andou a cavalo a vida inteira, não foi?
— Sim.
— Então, talvez esta sua primeira vez seja sem dor — sussurrou Griffyn,
posicionando-a para recebê-lo. A idéia de ser o primeiro a possuí-la sem causar dor
alguma era poderosa, inebriante.
Começou a penetrá-la lentamente, observando-lhe o rosto afogueado, vendo as
reações de prazer enquanto ele próprio era envolvido pelas carnes úmidas e pulsantes
dela.
— Oh, Pagão...
Era uma súplica por mais e ele a penetrou mais fundo. Era uma deliciosa tortura, e
Griffyn se continha a custo.
— Isso é bom — sussurrou ela com um suspiro de prazer e ergueu os quadris.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

A paixão desesperadora dominou-os e não demorou para que, instintivamente,


Guinevere o estivesse acompanhando nos movimentos ritmados e seus corpos
ondulassem como se fossem um só.
— Oh, Pagão! — exclamou ela quando os espasmos de prazer percorreram seu
corpo. Fitou-o com olhos inebriados pela paixão e deixou a cabeça pender para trás, as
mãos agarrando-o pelos ombros.
A medida que ela pulsou em torno dele e os tremores envolveram seu membro rijo,
Griffyn também não teve mais como se conter. Entregou-se com abandono ao orgasmo
que o envolvia simultaneamente, e os corpos de ambos vibraram juntos, tomados por
espasmo após espasmo de prazer. Ela sussurrava seu nome sem parar entre gemidos
deliciados. Ele deu-se conta de uma emoção que nunca experimentará antes, um
sentimento desconhecido em que mergulhava de cabeça, mas ao qual não ousava dar
um nome.
Levou um longo tempo para que o ritmo de seus corações voltasse ao normal.
Permaneceram com braços e pernas entrelaçados, trocando murmúrios, beijos e carícias
suaves, ternos. A mente de cada um tentando assimilar a importância do que acabara de
acontecer.
Enfim, Griffyn apoiou-se num cotovelo e observou o rosto de Gwyn em busca de
uma reação. Mas ela tinha os olhos fechados e dormia serenamente com um leve sorriso
nos lábios.
Antes do amanhecer, Griffyn atravessava a clareira diante do forte saxônio sob a
chuva que ainda caía, rodeado pelos homens que se preparavam para montar. Trocava
uma ou outra palavra com eles sobre os planos, repassando-os num tom manso, dando
tapinhas em braços.
— Está tudo pronto? — perguntou, enfim. — Muito bem. Eu me reunirei a vocês nas
docas de Wareham dentro de um dia.
Alex lançou um breve olhar na direção da janela no alto do forte.
— Depois de deixá-la em Saint Alban? Griffyn confirmou com um aceno de cabeça.
— Isso é prudente?
Ele apertou os lábios e olhou para o céu nublado.
— É bem possível que não seja. Alex estudou-o atentamente.
— Ela sabe quem você é? Griffyn arqueou uma sobrancelha.
— Você sabe quem eu sou? Alex ignorou a ameaça velada.
— Porque sabe o que poderia acontecer se ela revelasse quem você é, ou onde
está, correto?
Era evidente que ele sabia. Morte. Mutilação. Todos os tipos de coisas terríveis.
Griffyn franziu a testa, principalmente porque não haviam sido essas considerações
que o tinham feito ficar calado com Guinevere. Na verdade, um instinto frio e vingativo
impelira-o a revelar a verdade. Algo bem mais terno, porém, persuadira-o a guardá-la
para si.
— Não se preocupe — disse num tom seco que encerrava o assunto. — Irei ao
encontro de vocês enquanto os cavalos estiverem sendo embarcados no navio.
Alex tinha uma expressão incrédula.
— Você irá até a abadia de Saint Alban, deixará lá a sua protegida e estará nas

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

docas de Wareham no mesmo dia que nós, que estamos partindo diretamente para as
docas agora?
— Sim.
Alex sacudiu a cabeça e chamou Hervé Fairess.
— O que foi? — indagou ele, ajeitando a armadura de couro enquanto se
aproximava.
Alex apontou para Griffyn.
— Pagão irá primeiro até a abadia de Saint Alban. Fairess olhou para o antigo forte.
— Por causa da garota? Bem, ela não pode ficar aqui. Eu mesmo já fiz umas tolices
pelas damas.
— E nós dois vamos esperar aqui por ele — prosseguiu Alex. — Os demais podem
ir à frente.
Griffyn sacudiu a cabeça.
— Não. Vocês todos irão.
— Não — persistiu Alex no mesmo tom de urgência.
— Hervé e eu esperaremos aqui.
— A idéia de Alex é boa, milorde, se me permite opinar — acrescentou Hervé.
Griffyn soltou um suspiro de impaciência.
— Ou mesmo se não permitir.
Hervé tinha uma expressão determinada no rosto molhado de chuva e subitamente
vermelho.
— Nunca me pediu para dobrar a língua, Pagão.
— E se eu começasse agora?
— Acho que seria um pouco tarde — ponderou Hervé, sentindo-se pouco à vontade.
— Mas, como eu ia dizendo, é você quem dá as ordens e sempre falei que deveria ser
mesmo...
— Obrigado.
— ...mas se está pensando em ir a algum lugar sozinho, especialmente, às docas, é
uma má idéia, se me permite dizer.
Griffyn cocou o queixo. Hervé nunca pretendera ser insubordinado, mas, de alguma
forma, sempre acabava sendo.
— Foi o que eu falei — acrescentou Alex. — Se isto sair errado...
— Se isto sair errado — interrompeu-o Hervé, olhando para Griffyn com tanta
intensidade que a única coisa que faltava era sacudir o dedo diante de sua cara —, a
última pessoa que precisamos que seja capturada é você. A nós, eles trocarão por
resgates, caso se dêem ao trabalho de nos capturar. Mas e você? — Ele apertou os
lábios e passou o dedo indicador rapidamente pelo pescoço.
Griffyn soltou uma gargalhada.
— Não sou criança e você não vai conseguir me assustar com essa conversa.
— Não é do seu medo que estou falando, Pagão. E do meu e do dos homens. Não é
sensato arriscar o seu pescoço. E — acrescentou o angevino significativamente —

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Henrique FitzEmpress certamente vai querer a nossa cabeça se algo acontecer com a
sua.
Alex cruzou os braços sobre o peito.
— Ele tem razão.
— Pode ser — declarou Griffyn com firmeza — mas vocês simplesmente terão de
lidar com o humor de Henrique. Se eu morrer, sugiro que lhe contem a notícia depois que
ele tiver tomado alguns cálices de vinho e estado com lady Leonor.
Hervé franziu a testa.
— Esse não é um assunto para se brincar, milorde.
— Realmente não é, e, portanto, não arriscarei nenhum de vocês, que são tão
importantes para mim, por algo que assumi sozinho. Não é responsabilidade de vocês.
Irão com os homens. Preciso de vocês lá.
— Nós precisamos de você lá —-retrucou Alex.
— E é onde estarei. Dentro de um dia. Agora, ponham-se a caminho.
Os dois cavaleiros não pareceram contentes, mas seus protestos cessaram. O
restante do grupo, após uma última repassada em planos de reserva, montou seus
cavalos e trotou floresta adentro sob a chuva. Alex e Hervé permaneceram em suas
montadas no centro da clareira. Griffyn apontou na direção que os demais haviam
rumado.
Os dois cavaleiros seguiram na direção dos companheiros, mas pararam debaixo de
uma árvore frondosa, tão logo saíram do raio de visão de Griffyn.
— Eu sei o que Pagão disse, mas.., — começou Alex.
— ...nos esperaremos — terminou Hervé. Alex meneou a cabeça.
— Ele voltará por este caminho, de qualquer modo, quando retornar da abadia. —
Olhou por sobre o ombro. — Aquela garota é sinal de problemas. Posso sentir isso em
meus ossos.
Hervé também olhou na direção do forte.
—- Que mal pode haver? Ela é apenas uma mulher.
— É mais do que isso,
— Como assim?
— Não sei, apenas sinto.
Ambos seguiram pela floresta a fim de se esconderem até que Griffyn partisse.
Griffyn voltou ao interior do antigo forte, ciente de algo novo: sem aviso, a fúria de
dezessete anos estava se dissipando.
lonnes de l'Ami se tornara tão ganancioso e obstinado quanto Christian Sauvage.
Com certeza, então, Guinevere também sabia o que era o desespero de testemunhar
uma mudança para muito pior do próprio pai.
Aquela libertação era surpreendentemente bem-vinda. O ódio moldara suas atitudes
por anos, levando-o a seguir adiante, tornando-o amigo de reis e condes, mas também
fazendo com que se tornasse um indivíduo que não era natural. Talvez fosse tempo de
concentrar suas energias em outra coisa.
Logo, retomariam o país e ele iria para casa. Para o Ninho. Talvez, considerando

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

que a mulher no andar de cima estaria lá também e seria um dia sua esposa, ele devesse
focar essa nova coisa: uma família.
Não precisava continuar vivendo como nos dezessete anos anteriores, nem tinha de
ser como tudo terminara para o seu pai. Era possível que as coisas fossem como as
vislumbrara na noite anterior. Havia apenas um meio de descobrir.

O sol começava a se pôr quando chegaram à abadia de Saint Alban. Gwyn ia


montada atrás de Griffyn em Noir, ciente de sua figura forte tão próxima. Permaneceram
em silêncio na montaria, ocultos pelas árvores, a algumas dezenas de passos dos muros
da abadia.
Havia um punhado de monges em frente, gesticulando e conversando. Gwyn
encostou o rosto nas costas de Pagão e permaneceu quieta, absorvendo seu calor e
solidez.
Ele virou-se para trás em silêncio e pegou-lhe o pulso. Ela sabia o que aquilo
significava: uma despedida. Não que devesse importar, repreendeu a si mesma. Não
sabia quem ele era, nem de onde vinha, mas, bem no fundo, sabia o que ele era e, por
isso, importava tanto. Seu coração estava dilacerado.
A voz de um dos monges elevou-se, distinguindo-se entre as dos demais que
estavam diante da abadia.
— Eles estão vindo!
Do alto de uma colina, um grupo de cavaleiros se aproximava. Usavam túnicas de
seda com grandes quadriculados diagonais em vermelho e dourado.
— Lorde John — disse um dos monges, adiantando-se depressa para saudar o
grupo.
— Ora, aquele é John! — admirou-se Gwyn. — Àquele para quem enviei a
mensagem ontem à noite. Como chegou aqui tão depressa?
John de Cantebrigge desmontou do cavalo, passou pelos monges e adiantou-se
diretamente até o abade, que se achava do lado de dentro dos portões. Tirou o elmo
enquanto prosseguia e puxou o clérigo de lado, o que levou a ambos mais para perto de
onde Gwyn e Pagão estavam ocultos nos arvoredos.
— Não pensei que fosse conseguir chegar tão depressa — disse o abade, Robert de
Gorham.
— Então, o meu mensageiro chegou? — indagou John.
— Há cerca de uma hora. — O abade fez um gesto, indicando aos demais que
entrassem. Monges e homens de armaduras começaram a se adiantar até o interior do
pátio murado da abadia. — Devemos entrar, milorde. Este é um lugar perigoso...
— Sim, com Endshire por aí — completou John num tom soturno. Passou o braço
pelo rosto suado. — Eu estava voltando para casa do conselho de Londres quando um
cavaleiro me alcançou, levando-me uma mensagem de lady Guinevere dizendo que ela
viria para cá.
— Mas como?
— Não sei. Eu não conhecia o mensageiro. Ele não usava emblema algum, não deu
nenhuma informação adicional e desapareceu antes que meus homens pudessem detê-lo

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

para questioná-lo. Achei estranho e que talvez até pudesse ser uma armadilha.
— Nada que eu saiba a respeito — assegurou o abade. — Mas a condessa não está
aqui.
— Maldição!
— Milorde! — exclamou o abade em tom de reprimenda.
— Perdoe-me. Mas onde será que ela está? Não ouviu, nem viu nada?
— Nada.
— Enviarei meus homens para vasculhar a floresta. Talvez ela esteja perdida, ou
ainda a caminho — declarou John, enquanto ambos caminhavam de volta na direção da
abadia.
Gwyn se encolheu cada vez mais junto às costas de Pagão durante a conversa,
como se estivesse se escondendo, o que era estranho, pois aquele não havia sido seu
destino durante o dia inteiro e desde a noite anterior? E aquele não era seu próprio amigo,
que tinha ido salvá-la?
Por que, então, tinha a sensação de que estava sendo caçada?
— É melhor você ir, Olhos Verdes.
— Sim — concordou ela num tom neutro, enquanto ambos desmontavam de Noir.—
E quanto a você? — perguntou, preocupada. — O que lhe acontecerá? Para onde irá
agora?
Pagão não disse nada. Ela conteve um soluço, enquanto recuava devagar do meio
das árvores. O mundo parecia estar ruindo à sua volta, envolvendo-a num turbilhão de
emoções.
—Pagão...
Ele estendeu a mão, e Gwyn ficou com a respiração em suspenso, nutrindo a
esperança de que, de algum modo, ele pudesse mudar o que tinha de ser. Mas não o fez.
Tocou-lhe o rosto e, então, deu um passo pára trás, ocultando-se nas sombras, os olhos
fitando-a com intensidade, como se quisesse memorizar cada traço seu:.
Nada importou a não ser a expressão nos olhos dele. Nem John, nem o abade, nem
o rei e suas guerras, nem o falecido pai. Nada a não ser a expressão dos olhos de Pagão.
Alguém gritou seu nome e ela se virou. Alguém a estava chamando. Fora vista.
Pagão ocultou-se no meio das árvores. Gwyn olhou por sobre o ombro. Um dos
homens de John chamava e corria para seu cavalo.
Ela se virou desesperadamente. O vulto de Pagão sumia na penumbra da floresta.
Outro grito ecoou do lado de fora dos portões da abadia. Gwyn virou-se outra vez.
Lá estavam os homens de John de Cantebrigge e, então, viu outros. Muitos outros, com
figuras de espadas vermelhas cruzadas nas túnicas cavalgando sob os portões da
abadia. Marcus d'Endshire.
Gwyn sentiu o sangue gelar e recuou para trás rapidamente. Algo sólido bateu
contra sua coxa. Olhou ao redor freneticamente. O baú do pai no saco amarrado à sua
cintura. Calafrios percorrem-na. Se entrasse com o baú, Marcus o pegaria. As cartas e o
que havia no compartimento secreto.
O cavaleiro da abadia galopava em sua direção.
Ela fez uma escolha. Sua única escolha. Intuitiva, perigosa.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Enfiou-se de volta no meio das árvores.


— Nem sequer conheço você — sussurrou mais para si mesma.
Griffyn desviou os olhos dos homens de Marcus e fitou o rosto adorável, assustado
dela.
— Você me conhece, Olhos Verdes.
Gwyn arrancou o saco de feltro com o baú da cintura e empurrou-o contra as mãos
dele.
— Fique com isto.
Ele segurou o saco num gesto reflexivo.
— O que é?
— Relíquias de família. Por favor, guarde-as! Griffyn amarrou o saco à sela de Noir e
sentiu-se como se estivesse numa encruzilhada. Obviamente, Guinevere não achava que
o interior da abadia fosse seguro e, no fundo, ele também sabia daquilo. Mas nem
tampouco Everoot estaria seguro se ela não estivesse lá para guardá-lo até que ele
retornasse. Assim, deixou-a ir.
— Você me encontrará? — perguntou ela, pálida e assustada.
Ele pegou-lhe a mão e levou-a ao peito.
— Sim.
— Prometa — insistiu ela com lágrimas nos olhos.
— Juro pela minha vida.
Ele segurou seu rosto entre as mãos e beijou-a com paixão. Apontou para os
portões da abadia e montou em Noir.
— Vá!
Gwyn virou-se na direção da abadia, mal conseguindo enxergar através das
lágrimas. Passou sob um galho baixo e olhou por sobre o ombro.
— Você prometeu — sussurrou.
Ouviu-se um grito da abadia. Dois homens saíam pelos portões abertos. Pagão
desapareceu nas sombras. Ela ainda o viu erguer a mão e, então, se foi com Noir.
Gwyn caminhou desajeitadamente sob escuridão da noite que ia chegando,
tropeçando vez ou outra em raízes e tufos de capim seco nos jardins externos da abadia.
O último cavalo da comitiva de Marcus acabara de desaparecer pelo portão quando um
cavaleiro a galope a alcançou.
Ela suspirou ao ser, mais uma vez, puxada para cima de um cavalo por um
estranho. Ele avançou velozmente pelo portão externo, que foi fechado depois que
passaram, e atravessou os pomares e labirinto de construções que se agrupavam do lado
de dentro da muralha protetora da abadia. Casa de reunião do cabido, a clausura, um
corredor largo e coberto ligando a clausura ao cemitério, estábulos, salão de jantar dos
monges. Finalmente, chegaram à casa do abade no lado oeste da igreja da abadia.
Foi levada ao salão do abade, onde foi recebida pelo próprio John de Cantebrigge,
que andava de um lado ao outro diante de um braseiro. O abade virou-se, atônito,
gelando no ato de estender um pergaminho a Marcus FitzMiles, que retirava suas luvas.
Os três observaram-na boquiabertos. O pergaminho caiu, esquecido no chão. Ela
tentou olhar para John, mas foi o olhar glacial de Marcus que prendeu sua atenção.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Que bom. Você está a salvo — observou ele com frieza.


— Oh, sim — retrucou ela, recobrando a voz e adiantando-se pelo salão. —
Mas não graças aos seus esforços.
John adiantou-se depressa até ela, abraçou-a e, depois, segurou-a com gentileza
pelos ombros, estudando seu rosto com atenção.
— Gwyn. Você está bem?
— Sim. — Ela fez um gesto brusco com a cabeça na direção de Marcus. — Por que
lorde d'Endshire está aqui?
O abade da ilustre abadia aproximou-se.
— Lady Guinevere — disse, pegando sua mão. — Estávamos preocupados demais.
Graças a Deus, chegou a salvo até nós.
— Milorde abade, eu daria graças a Deus se tivesse chegado a salvo até o senhor,
mas por que, pergunto outra vez, vim parar nas mãos dele?
Gwyn tornou a apontar para Marcus, que abriu um sorriso calmo e se adiantou para
beijar-lhe a mão.
— Uma das razões para eu estar aqui é porque me preocupo com você, agora que
seu pai se foi e não há ninguém para protegê-la. Aliás, todos nós nos preocupamos.
— Tem toda a razão, lorde Endshire — declarou o abade, olhando para Gwyn como
se fosse uma garotinha desamparada. — E apreciamos muito a sua preocupação. Sem o
seu aviso, talvez nem sequer soubéssemos que a dama desaparecera e estava em
apuros.
— Você enviou mensagem à abadia de que eu havia desaparecido? — retrucou ela,
olhando de volta para Marcus.
— Sim, minha cara. Achei que talvez você viesse para cá, depois de ter deixado
Londres tão repentinamente ontem à noite.
Gwyn mal podia acreditar naquela encenação toda dele.
— Saí repentinamente porque você ameaçou se casar comigo contra a minha
vontade.
— Apenas cogitei a possibilidade com você. Não foi minha intenção que se
ofendesse com a minha sugestão.
— Sugestão? Você cogitou? Ora, você me ameaçou!
— Eu expliquei os benefícios de tal união.
— Você enviou tropas para o Ninho...
— Para a sua defesa.
— ...e disse que se eu não me casasse com você...
— Que, ao menos, você teria alguma proteção contra as forças se formando contra
você — terminou Marcus com ar solícito. — Meus homens estão lá para a defesa de
Everoot. Estamos em tempos perigosos, Gwyn e, com a morte tão recente de seu pai, há
aqueles que conspiram contra a Casa de Everoot.
— Sem dúvida? Estando você entre os piores!
Gwyn se virou para John, mas o ar preocupado do amigo deu lugar a uma
expressão inquieta. O abade, por sua vez, meneava a cabeça com ar condescendente.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Ela quis se entregar a um acesso de fúria.


— Milady ― interveio John num tom manso. Pegou sua mão com ar bondoso. —
Precisa se limpar, fazer uma boa refeição e descansar.
Gwyn olhou fixamente para uma parede, a realidade atingindo-a em cheio. Não
acreditavam nela. Achavam que era como Marcus dissera — ou isso, ou era mais
conveniente acreditar nele. Achavam que ela fugira feito uma criança impetuosa, sem
discernimento do que era melhor para ela e seu lar. Julgavam-na... incapaz.
Sentindo-se um tanto entorpecida, deixou que John a conduzisse até aporta.
— Onde conseguiu esse manto, milady?
A voz de Marcus a fez gelar. Embora Gwyn ainda usasse seu vestido manchado e
um tanto rasgado por baixo, Pagão lhe dera um manto limpo para usar no lugar do seu
que ficara imprestável.
Ela se virou para o velho amigo.
— John, talvez eu esteja mesmo cansada. Foi uma noite terrível, e um dia longo de
cavalgada. Eu gostaria...
— Fique mais um pouco — ordenou Marcus. — Ainda precisamos conversar.
Ela o fitou com um olhar fulminante.
— Milady — interveio o abade num tom razoável —, lorde Endshire não apenas
enviou notícias de que você estava em perigo, algo pelo que você deve dar graças a
Deus — acrescentou, enfático —, mas também traz a informação de que o rei está
pensando em colocá-la sob a tutela de lorde Endshire, para assegurar a sua proteção e a
de suas propriedades.
Gwyn ficou boquiaberta.
— Meu rei não faria isso! — exclamou, veemente. Virou-se para John. — Estevão
fez uma promessa ao meu pai! Ele prometeu que não... que não me daria a ninguém sem
o meu consentimento!
— O rei Estevão tem outros súditos além de você. Súditos que têm de ficar
contentes, como você mesma. — Marcus sorriu. — Eu me empenharei ao máximo. De
qualquer modo, nosso rei sentiu a necessidade de proteger seus interesses, ou seja
Everoot.
— Você quer dizer Endshire. Você ameaçou o meu rei.
— Lady Guinevere — disse o abade em tom de reprovação.
— É verdade. Você vendeu a sua lealdade em troca de uma tutela, Marcus.
— Você valerá a pena, milady.
— Não está decidido ainda, não é?— indagou Gwyn, virando-se para John.
Ele sacudiu a cabeça tristemente, mas o abade interrompeu:
— Por suas atitudes será determinado se tal coisa se faz necessária a meu ver, fica
cada vez mais claro que é preciso que haja tal proteção. De fato, parece imprescindível.
Gwyn sentiu o salão girar e apoiou-se no braço de John. Aquilo não podia estar
acontecendo. Engoliu em seco, tentando conter o pânico.
—Talvez você deva ficar e conversar com lorde Marcus — disse John num tom
encorajador.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Ela umedeceu os lábios. Ele faria perguntas que ela não poderia responder.
Perguntas sobre onde arranjara o manto, onde passara a noite. Com quem. Cada
resposta revelada representaria perigo para Pagão. Assim como cada resposta negada
selaria o destino de Everoot.
— Sim, John. Ficarei mais um pouco. Marcus sorriu.
John e o abade se retiraram, deixando-os a sós. Marcus indicou-lhe uma cadeira
trabalhada perto do braseiro e ela não viu razão para argumentar, sentando-se.
— Ficamos todos tão preocupados.
— Pare de fingir. Todos já se foram. Ele riu.
— Seu gênio será a sua ruína algum dia.
— Ou a sua. Marcus adquiriu uma expressão séria.
— Onde conseguiu esse manto?
— E do que isso importa?
Ele se inclinou sobre a cadeira com ar ameaçador. — Onde o conseguiu?
— É meu.
— Duvido muito.
— No que isso vai ajudar?
— O que ajudará é que você responda minhas perguntas.
Apesar do temor que a envolvia, ela cruzou os braços e ergueu o queixo, desviando
o rosto do dele, que estava tão próximo. A melhor maneira de lidar com Marcus FitzMiles
era não se deixando intimidar, mostrando-se firme e insolente.
— Não vejo como minhas roupas possam interessar a um homem. Ainda assim,
poderei lhe enviar minha modista para conversarem já que o meu manto, feito por ela, o
interessou tanto.
— Eu sei que o manto não é seu — retrucou ele por entre dentes.
O abade voltou ao salão, observando-os de soslaio. Marcus afastou-se da cadeira e
adiantou-se até a parede oposta, enquanto John retornava, seguido logo por dois criados.
Um carregava uma bandeja com vinho e comida, o outro levava mantas de peles para
Gwyn.
O abade conduziu Marcus à mesa a um canto e começou a falar num tom baixo, a
cabeça inclinada sobre o pergaminho que havia caído quando ela chegara.
Marcus olhava diretamente para ela.
Gwyn manteve-se na cadeira, envolta por mantas de peles e sorvendo vinho quente.
Quase uma hora se passara e, em torno dela, o abade, John e Marcus ainda falavam
sobre as mais recentes notícias que haviam se disseminado pelo país dividido pela
guerra.
— Estevão tem a confirmação de que o rumor do espião de Henrique é verdadeiro.
O rei teme que ele possa ter se infiltrado em algumas casas nobres durante as reuniões
do conselho em Londres.
Marcus e o abade ouviam, enquanto John relatava as preocupações do rei, Marcus
bocejando, o abade mantendo uma expressão apreensiva.
— Tive esperança de que ele já tivesse sido morto — declarou este. — Não

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

recebemos confirmação de ninguém sobre o assunto, mas não perdemos mais lordes
para a causa angevina.
— Ainda — concluiu Marcus. — Não seria sensato da parte deles anunciarem sua
deserção enquanto ainda em Londres. Saberemos das notícias dentro de algumas
semanas, quando eles estiverem em segurança atrás de muralhas de castelos e a
colheita tiver sido recolhida.
John sacudiu a cabeça, seu rosto de traços rústicos e agradáveis exibindo uma
expressão séria.
— Não podemos simplesmente ficar à espera de que ele se manifeste, Marcus. O
tempo está do lado dele. Se o espião estiver aqui, temos de liquidá-lo antes que
encontremos Henrique Plantageneta montando acampamento na nossa costa na
primavera.
— No inverno, eu arriscaria — declarou Marcus calmamente. — Mais um ou dois
nobres a favor de sua causa e Henrique não demorará a vir tomar a Inglaterra. E Pagão
Sauvage é um homem convincente.
Gwyn levantou-se abruptamente da cadeira.
— Pagão?
Todos se viraram para ela. Marcus ficou imóvel. Abriu, então, um sorriso maldoso
enquanto a encarava.
— Prepare seus homens, Cantebrigge. Ela saiu da floresta a sul da abadia.
Ele e John já se adiantavam até a porta, falando rapidamente sobre cavalos e
trilhas.
— Não! — gritou Gwyn, seguindo-os. — Não! Você não pode fazer isso!
Marcus fez uma pausa apenas para sussurrar ao ouvido dela:
— Eu imaginava.
Ele, então, prosseguiu com o abade nos calcanhares. Ela fez menção de segui-los
outra vez, mas John pôs a mão em seu braço, detendo-a.
— Gwyn! O que há de errado com você? Esse é o espião que andamos caçando.
Por causa dele, o seu rei talvez perca a coroa!
— Ele salvou minha vida!
John adquiriu uma expressão desgostosa.
— Sabe quem ele é, esse seu Pagão?— indagou, furioso.
— N-Não.
Ele fez um gesto de impaciência com a mão.
— Pagão é Griffyn Sauvage, Guinevere. O filho de Christian Sauvage. Herdeiro de
Everoot.
Gwyn empalideceu.
— O pai de Pagão e o seu foram amigos no passado. Grandes amigos que
partilhavam tudo. Iam a todos os lugares juntos. Todos os lugares — repetiu John em tom
significativo.
— À Terra Santa? — sussurrou ela, atordoada.
— Sim. E o pai de Marcus estava lá também. Os três. Não se esqueça disso.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— O quê?
— Seu pai não contou nada a você? Marcus era o pajem de seu pai, há muitos
anos...
— Como?
— ...muito antes de você ter nascido. Seu pai foi obrigado a aceitá-lo como pajem
por insistência de Miles, pai de Marcus. Griffyn Sauvage deveria ter ido para o seu pai
como escudeiro também, mas algo aconteceu. Não sei como, nem por que, nem nada
sobre o emaranhado, mas algo interliga essas três famílias, algo ruim. Sauvage, FitzMiles
e os de l’Ami.
— Marcus conhece Pagão? — perguntou Gwyn num fio de voz.
— Marcus conhecia o pai dele e, sim, conhece o filho. E Marcus tem tanta razão
para odiá-lo quanto os de l’Ami.
Ódio, pensou ela, arregalando os olhos. Eu devo odiá-lo?
— O que está dizendo?
— O que estou dizendo é que, se você discutir com Marcus mais uma vez, estará
condenada. Everoot irá para ele através de tutela e você também. E, então, ele a tomará
por esposa.
Gwyn levou a mão aos lábios, tomada por uma onda de temor. O gesto pareceu
enfurecer John.
— A sua noite com Pagão foi assim tão preciosa que você trocaria Everoot por ela?
— perguntou ele, colérico. — Por que não mencionou nada sobre o seu salvador? — Seu
rosto ficou pálido. — Oh, por Deus, Gwynnie. Você não sabia de nada, não é?
Ela sacudiu a cabeça com veemência, embora em seu íntimo, uma voz gritasse:
Sim, eu sabia que ele não era o que parecia ser e isso deveria ter sido o bastante.
Cobriu o rosto com as mãos, desesperada.
— Não tenho tempo para contar histórias agora. Se quer que Everoot seja seu,
então terá de ser seu. Acima de tudo mais. Você me entende? Seu pai não lhe ensinou
nem sequer isso?
Gwyn segurou-se ao braço de John, sentindo que as pernas ameaçavam fraquejar.
Seu pai conhecera Pagão. E o odiara. Havia algo ruim ligando essas famílias.
John tocou-lhe a mão trêmula, abrandando sua raiva, voltando a ser o amigo gentil
de muitos anos. Aquele que poderia explicar toda aquela loucura.
Mas não o fez.
Um de seus homens apareceu no final do corredor, chamando-o.
— Tenho de ir, Gwyn. E melhor dessa maneira.
Ela afundou na cadeira que ocupara antes, sentindo-se como se seu mundo inteiro
tivesse ruído. O pai lhe deixara duas coisas, as únicas duas coisas que ela mais
estimava... Everoot e o pequeno baú de cartas. Dera uma a um pagão ao qual amara
durante um dia. A outra seria perdida se tentasse salvá-lo.
Levantando da cadeira, correu até a porta, escancarando-a e colidiu com um dos
cavaleiros de Marcus. Era De Louth. Santo Deus, estava cercada por pesadelos.
— Solte-me! — gritou, debatendo-se contra as mãos que, de repente, a seguravam.
— Acalme-se, milady — falou De Louth com firmeza, mancando, mas colocando-a

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

de volta no interior do salão sem dificuldade. Começou a fechar a porta, onde montava
guarda. — Ele disse que deve ficar aí dentro.

Griffyn cavalgou velozmente na direção de Londres, usando atalhos e caminhos


secundários. Atravessava a floresta traiçoeira perto do forte saxônio quando o
encontraram e foi travada uma luta de espadas em mais uma noite.
Dez homens foram demais para um, e ele foi arrastado de lá, preso por correntes.
Em sua ira, eles se esqueceram de capturar Noir, que saiu em disparada pela floresta
com um saco de feltro preso à sela. Mais tarde, Hervé e Alex, que haviam mesmo
decidido ficar para trás e esperá-lo, apesar das ordens de Griffyn, saíram das sombras da
floresta e pegaram o cavalo. Os dois seguiram silenciosamente o grupo que capturara
Griffyn, sem que pudessem ter feito nada, até as imediações de Londres e, depois,
cavalgaram como o vento até o porto de Gloucester, onde os demais esperavam.
Griffyn foi aprisionado na Torre de Londres, surrado diariamente, ameaçado com
decapitação e chicoteado nas costas. Apenas a intervenção de Henrique, trocando-o por
um refém importante capturado na última campanha, devolveu-lhe a liberdade seis
semanas depois.
Ao longo do aprisionamento, a única coisa que o impediu de enlouquecer foram
pensamentos sobre Guinevere. As lembranças de seu riso, da expressão em seus olhos
quando prometera encontrá-la. O pensamento de que o mundo poderia se encher de luz e
não das trevas causadas pelo pai. De que poderia voltar pára casa. De que tinha um lar
para ir, onde Gwyn estaria à sua espera.
Os horrores daquela prisão infestada de ratos não eram tão vividos quanto esses
devaneios com ela, e foi a esperança que fizeram nascer em seu íntimo o que o sustentou
naquele inferno.
Então, Griffyn ouviu dois guardas conversando uma semana antes de ser solto,
quando seu corpo havia sido surrado vezes demais para contar e, de repente, seus
sonhos, foram despedaçados em um milhão de fragmentos.
— Bem, e o que se podia esperar? — disse um dos guardas ao outro, perto da cela
dele numa noite. — Foi uma mulher que delatou esse aí dentro. Devíamos começar a
convocar rameiras como espiãs. Homens não conseguem arrancar tudo o que é preciso.
— Sim, tem razão. Eu não me importaria que fizessem um pouco de espionagem
desse tipo comigo, se fosse tão apetitosa quanto dizem que foi essa. Mas não foi uma
rameira, Dunnar. Foi a condessa.
Griffyn abriu um olho inchado e olhou pela fresta de luminosidade sob a porta.
— É verdade, ouvi dizer que ela foi muito bem recompensada. Parece que o rei vai
aumentar as terras dela, sendo a herdeira e tudo mais.
— Ora, como se Everoot já não fosse grande o bastante para ela cuidar. Ninguém
nos recompensa pelo que fazemos aqui durante todos esses anos — grunhiu o guarda. —
Agora, a condessa de Everoot depara com um espião procurado e só porque o entrega
ganha mais terras e privilégios do que nem em sonhos nós poderíamos ter.
Griffyn gelara por inteiro, alheio às correntes que o prendiam, à dor física, ao cheiro
fétido daquelas paredes úmidas. A agonia da descoberta causava uma dor muito mais
profunda, lancinante, como nunca sentira.
Durante algum tempo, naquela noite de tempestade, havia imaginado que

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

encontrara o amor. Em vez disso, fora traição, a verdade que estava sempre presente.
Bateu uma vez a cabeça na parede de pedra, lutando contra a vontade, quase
incontrolável de se entregar a um ataque de fúria e ódio.
Traidora, fingida, dissimulada.
Filha de traidor.
Ninguém nunca mudava. Estava no sangue.
Seu coração estava se despedaçando e endurecendo ao mesmo tempo e foi o novo
ódio que acabou reprimindo a dor para uma parte, bem profunda de sua alma quando foi
libertado sete dias depois.

Do Inverno ao Verão, 1153 Inglaterra Inteira

Os exércitos de Henrique FitzEmpress marcharam sobre a terra seca da Inglaterra e


a devastaram. Castelos, guarnições, vilarejos, propriedades; tudo foi dizimado.
O rei Estevão lutou, juntamente com seu filho combativo, petulante, o príncipe
Eustáquio de Blois. Alguns diziam que o rei foi persuadido a lutar por aqueles que temiam
a ira de Henrique FitzEmpress, ou talvez pela obrigação de seguir, cansado agora, um
caminho havia muito escolhido. Havia muito mais em jogo para o príncipe: um reino.
Mas, para a maioria, a verdade estava clara. A guerra civil terminaria tão logo
Henrique FitzEmpress fosse coroado rei.
Ainda assim, uns poucos vassalos leais mantiveram seus castelos, preservaram
suas guarniçoes. Mantiveram sua fé. Morreriam, evidentemente. Pela espada *ou de
fome, morreriam ou seriam derrotados.
Os capitães de Henrique Plantageneta avançavam diante do exército principal feito
gafanhotos num campo. Devastavam a área rural e tudo foi tomado por sua passagem. O
que era bom ou mau, o joio e o trigo, e todos já haviam perdido a conta.
Então, em agosto, a notícia se espalhou: o príncipe Eustáquio de Blois, herdeiro do
trono, estava morto.

Agosto de 1153

O Ninho, Nortúmbria, Inglaterra

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Tudo se foi, milady. A colheita inteira. Trigo e centeio; ambas as colheitas,


arruinadas.
Gwyn olhou para William, seu calvo e adorado senescal, sentado do lado oposto da
mesa. Ele olhava de testa franzida para o pergaminho que segurava, o relatório que
acabara de chegar dos feudos do leste. Estava simplesmente repetindo o que já havia
dito... umas três vezes.
Ela meneou a cabeça com ar cansado e olhou pela janela. Nenhuma brisa entrava
pela ampla janela do quarto andar, apenas ar seco e quente e vozes de crianças
brincando de algum jogo.
— Venda as harpas — declarou sem hesitar.
— Milady! Eram de sua mãe!
— Peça a Gilbert que prepare a carroça. Para Ipsile-upon-Tyne — instruiu Gwyn,
referindo-se a uma das cidades pertencentes ao condado de Everoot. Leve as harpas
para Agardly, o ourives, cujo auxiliar também transporta mercadorias e que conhece cada
menestrel desde o rio Clyde até o Tâmisa. Eles conseguirão um bom preço.
— Será o bastante para o trigo do ano — murmurou William. — Se ambas forem
vendidas.
Gwyn assentiu. Esperava que sim, pois não havia mais nada a vender. Continuou
olhando pela janela, envergonhada com a constatação de que essa preocupação não era
a coisa que afetava seu coração mais profundamente. A dor mais profunda originava-se
do fato de saber que havia traído Pagão um ano antes.
Um suborno aos guardas da prisão uma semana após o retorno dela a Everoot
resultará na devolução de metade do dinheiro em moedas e nenhuma notícia dele.
— Morto — disse o mensageiro. — Com certeza, está morto.
A notícia quase a matou. O que deveria ter acontecido... olho por olho.
Esqueça!
Gwyn segurou a beirada da mesa com força. Só Deus sabia como tentara banir as
lembranças daquela noite de quase um ano antes, quando o mundo ficara repleto de
magia e um pagão invadira sua alma, mas seus sonhos tinham sido despedaçados. Mas
eles a acordavam a cada manhã, com o desejo pulsando em suas veias e a dor
perfurando seu coração.
Por favor, Deus, dê-me alguma penitência para fazer que pague todas essas
dívidas.
— Ou me deixe morrer — sussurrou. William ergueu os olhos.
— Milady?
Gwyn sacudiu a cabeça. Era tudo morte e destruição naquele verão quente e árido.
Os exércitos de Henrique FitzEmpress haviam invadido o país no inverno, como Marcus
previra, e devastaram o campo, cortando um caminho implacável e deliberado através do
sul e do oeste, exigindo submissão conforme avançaram.
O sul, o oeste e o leste, o mundo que ela conhecia desabava em pedaços
sangrentos sob a escada de uma arma que se movia lenta e inexoravelmente em direção
ao norte. A Everoot.
E ela não podia fazer nada. Animais tinham de ser alimentados, peixes, pescados e
plantações, cuidadas, embora a maioria dos homens mais fortes tivesse sido enviada

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

para reforçar os exércitos do rei.


Restou às mulheres e aos mais jovens fazer a colheita, prepará-la e estocá-la para o
inverno seguinte. Que já anunciava que seria muito longo. Os dias escaldantes de julho
chegaram impiedosamente. Talvez matassem tantos quanto a guerra. A poeira se elevava
mediante o simples pensamento de se caminhar, e o trigo se esfarelava nas mãos
daqueles que tentavam fazer a colheita.
Podia ser pior, Gwyn lembrou a si mesma com firmeza. Podia estar enfrentando tudo
aquilo casada com Marcus FitzMiles. Ou sob a tutela dele.
Felizmente, a cavalheiresca e antiga promessa do rei ao pai dela fora mantida
firmemente um ano antes, a despeito das terríveis ameaças de Marcus. Ou talvez por
causa delas. O orgulho era um poderoso motivador mesmo para o galante rei.
Não importando como tenha sido, porém, Everoot ainda estava nas mãos de
Guinevere, ao menos enquanto pudessem resistir. A aridez do verão estava acabando
com os recursos já escassos do condado. Até mesmo as harpas da mãe seriam como um
mero balde de água contra um incêndio.
Ela soltou um profundo suspiro.
— E ainda houve notícias sobre o problema na fronteira de Gales — anunciou
William num tom mais sombrio do que o costume. — Outro senescal se foi do feudo na
fronteira galesa perto de Ipsile.
As propriedades na fronteira com Gales eram notórias pela perda de
administradores. Ou sumiam, ou morriam e ninguém sabia a razão.
— Está morto? — perguntou Gwyn com ar cansado. —- Não. Simplesmente se foi.
Ela se levantou, afastando os rolos de pergaminho e os pedaços de cera para lacres
espalhados em torno da grande mesa.
— Bem, isso é tudo por ora, William. Eu encontrarei outro senescal para lá... mais
tarde.
A câmara onde se tratavam os assuntos administrativos ficava no alto das muralhas,
onde nem brisa, nem vento entravam, mas nos dias opressivos do verão, era fresca.
William seguiu-a pelo corredor quando saíram.
— Prossiga com o seu plano de substituir as redes de pesca no alto do rio — disse-
lhe. — Você está certo. Sofreram vandalismo e não apanham nada a não ser vegetação
aquática.
Ela seguiu, então, sozinha para o solar voltado para o norte, onde suas damas de
companhia a aguardavam. Era ali que reservava uma hora por dia para conversar com as
mulheres e costurar e bordar; era o único tempo que podia se permitir despender.
Seu grupo de damas de companhia crescera de modo alarmante ao longo dos seis
meses anteriores, mas o que podia fazer? Quando as filhas de leais vassalos e nobres do
sul precisaram de um lugar seguro onde se refugiar, ela poderia ter se recusado a acolhê-
las?
De modo algum. Era apenas no extremo norte, nas terras de Everoot, que um
refúgio seguro ainda existia. A notícia se espalhou: Guinevere de l'Ami era uma das leais.
Mas não eram apenas pessoas da nobreza que precisavam de um santuário seguro,
descobriu Gwyn quando o mês da fome de julho começou a fazer suas vítimas — mais do
que o costume com os homens ausentes na guerra. Garotas do vilarejo precisavam de
abrigo também, sua necessidade não sendo menor por causa de sua casta humilde. E o

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

que podia fazer com elas? Deixá-las morrer?


Com certeza não. Não era tudo sacrifício, refletiu ela, lançando um olhar ao
numeroso grupo que conversava e costurava animadamente. As garotas alegravam um
pouco seus dias e, naqueles tempos tão difíceis, preço algum era alto demais por isso.
— Milady?
Ela ergueu os olhos de um bordado. Seu pequeno pajem, Duncan, mais um
refugiado das guerras, estava parado à porta do solar. Atrás dele, havia um vulto
irreconhecível.
O menino deu um passo ao lado, revelando um mensageiro coberto de poeira e
rosto soturno que se adiantou até a soleira. Lançou um olhar cauteloso em torno da sala.
Quando viu apenas tecidos de cores vibrantes e mulheres rindo e conversando, pareceu
aliviado.
— Milady?
Gwyn se levantou, deixando o bordado de lado. — Gostaria de lhe falar. Um
calafrio, estranho naquele tempo tão quente, percorreu-a.
— Garotas — disse, sem desviar os olhos do estranho —, é hora da caminhada da
tarde de vocês.
As damas de companhia se levantaram obedientemente e deixaram a sala por outra
porta. O silêncio se prolongou por alguns preciosos momentos.
— Milady, trago notícias.
— Está vindo da parte do rei Estevão — declarou ela num tom desprovido de
emoção.
Quando o mensageiro confirmou com um gesto de cabeça, ela não pôde conter as
lágrimas que marejaram seus olhos. Santo Deus, o que o homem poderia dizer que a
magoaria mais agora?
— O rei perdera a guerra.
Gwyn sacudiu a cabeça. Negação, cansaço, não soube a razão. Todos aqueles
anos de guerra e sofrimento para quê?
— Não podemos enviar mais soldados? Mais homens, mais dinheiro?
— Que dinheiro? —- Ele sorriu com amargura e adiantou-se mais pela sala banhada
pelo sol, uma figura esgotada e cheia de desespero. — Que homens? Que soldados?
Todos estão mudando para o lado de Henrique. Acham que seu destino estará melhor
nas mãos dele do que nas do nosso rei.
— São tolos — retrucou ela, passando as costas da mão pelos lábios trêmulos.
— Dizem que o filho do rei está morto.
Gwyn deu um passo involuntário atrás e caiu de encontro à sua cadeira.
— Tenho algo para milady. — O mensageiro se aproximou, ajoelhando-se diante
dela. Tirou algo de dentro da túnica, estendendo a mão fechada diante dela.
— O que é isso?
Ele abriu a mão, e na palma calejada e suja de poeira havia pétalas secas de rosa, a
cor vermelha ainda vívida: Gwyn estava boquiaberta.
— Essa é a minha rosa. A rosa dupla de Everoot.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Sim. E Sua Majestade agora pede que milady se lembre de seu juramento a ele,
como se lembrou do que fez à senhora.
— Eu me coloquei à disposição quando a necessidade surgisse — murmurou ela,
olhando para as pétalas secas. Lembrou dos conselhos em Londres e de seu encontro
com o rei, quando toda a confusão com Marcus começara e ela perdera Pagão. Quanto
tempo se passara? Cem anos? Mil? Quanto havia envelhecido?
— A necessidade é imensa, milady, è o momento é agora.
— O que ele precisa que eu faça?
— Que esconda o príncipe em segurança.
— Você falou que... ele estava morto.
— Não. Falei que é o que dizem. Mas ele não está. Ainda não.
— Ainda não?
— Ele está doente e talvez não haja cura. Precisa de cuidados, senão certamente
morrerá.
— Deus do Céu, onde ele está?
— Aqui.
Gwyn se levantou depressa, quase fazendo o mensageiro ajoelhado cair para trás.
— Com mil demônios, homem, está com o príncipe aqui?
Ele se ergueu e sorriu ligeiramente diante da reação perplexa dela, uma expressão
que não afastou o ar desolado de seu rosto.
— Eu me recordo bem de seu pai, milady. Sempre foi leal ao rei e, neste momento,
me faz lembrar dele.
— Neste momento, eu daria qualquer coisa para te-lo aqui — suspirou ela. — Onde
está o príncipe?
— Envolto em panos e atravessado sobre o dorso do meu cavalo como se fosse
uma saca de trigo.
— Em quantos vocês estão? — perguntou Gwyn depressa, caminhando na direção
da porta principal. O mensageiro seguiu-a depressa, e ambos desceram a escada circular
sem demora, conversando baixinho.
— Apenas três. O príncipe, meu escudeiro e eu.
— E você é?
— Adam de Gloucester. ,
— Quem mais sabe sobre isso? — Apenas eu. E milady.
Acabaram de descer os vários lances de escada, chegando ao salão principal, onde
criados circulavam cuidando de variadas tarefas. Não querendo que ninguém os visse,
Gwyn conduziu-o por um longo corredor que passava diante da porta da cozinha e seguia
além.
— Por aqui. — Apontou, enfim, para uma porta e ambos saíram para o sol
inclemente do verão.
Seguiram até a entrada principal do castelo, onde havia um par de cavalos à sombra
e um rapaz magro e tão empoeirado quanto o mensageiro olhava com ar desconfiado ao
redor.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— William, esta é lady Guinevere — anunciou Adam num tom manso.


O escudeiro fez uma reverência que Gwyn mal notou, pois tinha os olhos fixos no
volume atravessado detrás da sela de um dos cavalos.
— Cavalgamos muito e depressa para chegar até aqui, milady — disse Adam. — Ele
está sofrendo demais neste calor. Precisa de um lugar fresco e de muitos cuidados. Além
de extrema privacidade, acima de tudo — acrescentou, olhando-a com intensidade.
— Eu poderia colocá-lo nos meus aposentos, mas seria arriscado. Alguém poderia
vê-lo. Há sempre gente entrando e saindo de lá.
— Claro — concordou o cavaleiro. — Acho que o lugar mais seguro seria nos
porões do castelo.
Gwyn arregalou os olhos.
― Colocar Sua Alteza nos porões!
— É o melhor — persistiu Adam.
Ela o guiou com o escudeiro e os cavalos até uma entrada pouco usada na ala norte
do castelo, onde afastou um amontoado de hera que subia pela parede, revelando uma
imensa porta de carvalho. Do molho de chaves preso à cintura, procurou a que precisava
com certa demora para achá-la, mas, enfim, destrancou a porta. Colocou-se de lado,
enquanto Adam e seu escudeiro tiravam o príncipe envolto em panos do cavalo e o
levavam para dentro. Fechou a porta atrás de si com firmeza, tornando a trancá-la.
Apesar da escuridão, conhecia bem a antiga passagem, que nos tempos de fartura,
tinha sido muito utilizada para que os animais transportassem suprimentos até os
depósitos nos porões. Achara melhor que aqueles homens deixassem os cavalos para
trás para não levantarem ainda mais suspeitas, caso deparassem com alguém, embora
fosse improvável. Além do mais, os animais poderiam ter se assustado no escuro e os
atrasado mais. E ela pretendia, depois, tirar os cavaleiros de lá pelas escadarias internas,
o que seria mais rápido.
Apoiando-se nas paredes para se orientar, ela conduziu-os devagar, o coração aos
saltos. Pareceu levar uma eternidade para atravessarem o túnel, até que chegaram a
outro na transversal. Era uma passagem subterrânea de importância estratégica que
levava a um ponto distante para além do castelo. Com os olhos mais acostumados ao
escuro, ela prosseguiu pelo túnel em que estavam, guiando-os, até que chegaram a um
corredor que levava até as câmaras de estocagem no porão. Grãos, barris de vinho e
armamentos eram guardados ali, mas o lugar estava vazio agora. Havia muito que ela
não enviara nenhum criado até ali. Não houvera necessidade.
De qualquer modo, para o caso de alguém resolver ir até lá por alguma razão, havia
um lugar completamente seguro. Em vez de prosseguir adiante, Gwyn virou à direita.
Após um breve corredor, com um banco entalhado na pedra por perto, havia uma porta.
Apesar de imensa, ficava quase invisível no final daquele cubículo que não levava a lugar
algum, como se tivesse sido destinada a ficar escondida. E era guardada por um cadeado
do tamanho do punho dela, com formato de cabeça de dragão.
Geralmente, Gwyn estremecia e passava direto e rapidamente por ali. Com mãos
trêmulas, tirou para fora o saco de pano costurado à parte interna de suas saias, rasgou-o
e pegou dali a pequena chave de ouro.
Com o coração disparado, inseriu-a na boca do dragão. Poeira elevou-se como se
fosse fumaça saindo das ventas da figura metálica. Conseguiu girar a chave facilmente e
o cadeado foi destravado. A boca do dragão se abriu.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Ao menos a chave de ouro abria algo.


Do lado de dentro, havia apenas uma simples câmara de estocagem, como todas as
demais. Paredes de pedra, ligeiramente úmidas, frias e cheias de eco. Por que ela
estivera tão reticente em entrar?
Por que o lugar era guardado por um cadeado tão forte e de ar feroz?
Arrumaram rapidamente um lugar para o príncipe no fundo da câmera, onde
improvisaram uma cama com as pilhas de palha que Gwyn foi buscar em outras partes do
porão.
De repente, o doente ergueu o braço comprido e segurou debilmente o pulso dela, o
que a fez quase gritar.
— Quem é você? — perguntou ele com uma voz fraca, mal conseguindo manter os
olhos abertos.
— Alteza — disse ela, agachada a seu lado e um tanto trêmula. — Sou a senhora de
Everoot. Foi trazido aqui para a sua segurança...
— Salve-me — gemeu ele e deixou cair a mão, fechando os olhos.
Engolindo em seco, ela encontrou o olhar de Adam por um instante e começou a
ajeitar a palha melhor abaixo do príncipe. Teria de levar até ali lençóis limpos, preparados
medicinais e alguém para administrá-los.
Teria de tomar todas aquelas providências, ou ele morreria.
— Milady?
Gwyn tornou a olhar para o cavaleiro. Respirando fundo para se acalmar, disse:
― Percorreu um longo caminho pelo seu rei, com uma encomenda perigosa, Adam
de Gloúcester. Ele ficará grato.
O cavaleiro desviou os olhos para o príncipe doente, com uma expressão muito
preocupada.
— Isso não é nada em comparação ao que está sendo pedido a milady. — Estendeu
a mão, pegando a dela.
Depois que Gwyn se levantou, Adam segurou sua mão com mais força.
— Digo que não sabe o que estão lhe pedindo que faça, mas é conhecida como
uma dama leal, e o fará de qualquer modo, com um serviço impecável e digno de grande
honra.
Ela se espantou.
— O que quer dizer? Sei o que está sendo pedido de mim: salvar o meu príncipe e,
em conseqüência, o reino.
O cavaleiro soltou sua mão e fez uma breve reverência.
—- Milady, Qual é o melhor caminho para sairmos?
Gwyn fez um gesto na direção da área de estocagem. Mal se avistando uns vinte
metros adiante no escuro, havia o início de uma escada circular. ―Por ali. É a saída mais
próxima e discreta.
— Aonde a escada vai dar?
— Nos aposentos senhoriais, que são meus agora. Poderão, depois, ir pegar seus
cavalos junto àquela porta onde os deixamos. Acompanhem-me. — Havia outras saídas

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

por escadarias que davam em outros pontos acima no castelo, mas certamente
deparariam com alguém se as usassem. Aquela parecia ser a mais segura.
Adam e seu escudeiro, William, seguiram-na pelos diversos lances da escada em
caracol em silêncio. Enfim, chegaram ao topo, dando num pequeno patamar, escavado na
pedra. Logo adiante, havia uma porta em arco, escura e silenciosa, diante da qual
pararam.
— Deixem-me ver se o caminho está livre — sussurrou Gwyn e abriu o trinco. A
porta se abriu para fora, levando-os à extremidade do patamar.
Ela olhou para o avesso de uma tapeçaria que cobria a passagem que havia ali pelo
lado de dentro. Estava pendurada numa parede dos aposentos senhoriais retratando uma
paisagem vivida com extrema riqueza de detalhes, bordada com figuras de raposas,
lobos, colinas verdejantes e uma espiral distante de fumaça, como se o lar fosse acima
das colinas. Algo a atraíra na bela peça quando a vira dois anos antes num mercado,
quando houvera dinheiro nos cofres e esperança para o futuro. Comprara-a por impulso.
Parecera uma mensagem, chamando-a, falando de todos os prazeres de um lar e de uma
lareira esperando-a, bastando que escalasse a colina.
Agora, parecia apenas uma camada de tecido inerte entre ela e um mundo que
desmoronava à volta.
Depois que conseguiu fazer os visitantes passarem pela tapeçaria até os aposentos
e descerem ao salão principal sem serem notados, ela estava coberta de suor frio outra
vez, apesar do calor. Torcia as mãos enquanto aguardava com Adam numa saída do
salão até que o escudeiro fosse buscar os cavalos.
— Tem permissão real para fazer como julgar adequado, milady — disse Adam num
tom manso.
Ela meneou a cabeça.
— É uma honra e uma grande responsabilidade que está assumindo.
— Dei minha palavra. Everoot cumpre sua palavra. Meu pai teria assumido a
responsabilidade.— Gwyn engoliu em seco novamente para vencer o nó na garganta. —
Roger a teria assumido também. Meu irmão, Roger. O príncipe Eustáquio era amigo dele.
Se meu irmão estivesse dirigindo a propriedade, se estivesse viv... — Ela apertou os
lábios para conter as lágrimas que ameaçavam aflorar em seus olhos. — Eles teriam feito
muito mais. Não posso fazer menos.
— Ainda assim, alguns prefeririam não fazê-lo — lembrou Adam.
— Alguns preferem desfrutar os frutos do trabalho de outros e se considerar bem
alimentados — declarou Gwyn com firmeza.
O cavaleiro passou a mão pelo queixo quadrado.
— Sim. Mas, às vezes, milady, só reconhecemos a especiaria depois que comemos.
Uma pessoa deve tomar cuidado com o que tem no próprio prato.
Ela arqueou as sobrancelhas.
— Agora, está falando na forma de enigmas, Adam de Gloucester.
A expressão pensativa dissipou-se.
— Não tive a intenção. Tenha cuidado e fique a salvo e bem, milady.
Ela o acompanhou até a saída. Uns poucos olhares se dirigiram até a dupla, mas
ninguém queria realmente saber o que o soldado de expressão fechada tinha a dizer. Se

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algo importante tivesse ocorrido, eles o saberiam logo. Era apenas mais um entre muitos
mensageiros que se aventuravam até o norte para relatar notícias das guerras no sul, ou
implorar por dinheiro para iniciar mais uma. Com freqüência demais, as notícias não eram
boas.
Quando, enfim, Adam tornara a montar seu cavalo, com o escudeiro a seu lado, os
guardas dos portões principais já haviam sido alertados sobre a partida deles.
O cavaleiro ainda se curvou para lhe murmurar:
— Cuidado com o que tem no seu prato, milady. — Acenou, então, e desapareceu
com seu escudeiro no meio de uma nuvem de poeira e brilho intenso de sol.
Gwyn sentiu um tremor pelo corpo, as pernas moles. Por um momento, teve a
sensação de que iria desmaiar e, então, esforçou-se para se recobrar. Estava zonza por
causa do calor, nada mais, E havia um pequeno consolo em meio à enormidade daquela
situação toda. Pela primeira vez em quase um ano, não havia pensado em Pagão.
Uma hora de trégua, de paz, refugiando-se das perturbadoras e passionais
lembranças, do terrível e agonizante arrependimento pelas escolhas que jamais poderia
desfazer.
Com isso, era um total de três pessoas que ela matara.
De onde vinha a umidade, não sabia, mas seus olhos se encheram de lágrimas
enquanto voltava, um tanto cambaleante e com a visão anuviada, até o interior do castelo.

Capitulo III

Véspera da festa de São Miguel, 28 de setembro de 1153 Norte da Inglaterra,


cidade de Ipsile-upon-Tyne

Os conspiradores encontraram-se no beco escuro. — Quanto é? — perguntou o


primeiro, que solicitara o encontro. Era forte, musculoso, mais alto do que a média. Exceto
por seu porte, traços que o identificassem eram difíceis de distinguir sob o capuz do
manto. Algo que o destacava era uma tatuagem de uma águia, pequena, mas nítida, do
lado esquerdo do peito, a qual se evidenciou por um breve momento quando ele enfiou a
mão dentro da túnica para pegar um saco de moedas.
— Você não perde tempo — comentou o outro, olhando de volta para, o rosto de
seu freguês em potencial.
— Não tenho tempo a perder. Quero a chave. Quanto é?

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— Por que a quer?


O homem da tatuagem deu um passo à frente e disse numa voz baixa:
— Estou disposto a pagar. Muito bem. É apenas isso que precisa interessar a você.
Está com ela?
O outro meneou a cabeça com frieza.
— Vou perguntar outra vez. Para que quer a chave?
O homem da tatuagem recuou e cruzou os braços.
— Sei quem é o dono de direito dela. Vai querê-la de volta.
Ele olhou para o volumoso saco de dinheiro na mão direita do homem.
— Talvez eu consiga um preço melhor diretamente dele do que de você. Ele o
enviou aqui?
O homem tatuado inclinou-se para a frente com admirável agilidade. Segurou o
outro homem pelo pescoço e empurrou-o de encontro aos muros da cidade atrás de
ambos.
— Onde diabos ela está?
— Não a tenho aqui...
— Você disse que a tinha — disse o homem tatuado num tom baixo e ameaçador.
— Está dizendo agora que não?
O homem que possuía a chave ergueu os dedos estendidos, enfiando-os debaixo da
mão forte que o ia estrangulando. Libertou-se, furioso e ofegante.
— Maldição, eu a tenho, mas não aqui...
— Tolo.
Sem olhar para trás, o homem tatuado deu-lhe as costas e afastou-se na escuridão.
O homem com a chave recobrou o fôlego por mais alguns momentos, sozinho no
beco sombrio. Afastou-se, então, do muro de pedra. Por um instante, enfiou a mão no
bolso da túnica, tocou a pequena chave metálica e prosseguiu.
Ao freguês seguinte, pensou. Aquele estivera enlouquecido. Iria diretamente à fonte
daquela vez.

Dia seguinte à festa de São Miguel, 30 de setembro de 1153


Lado de Fora do Ninho, Nortúmbria, Inglaterra

Uma brisa fria de outono soprou no campo de batalha.


Durante meses, houvera apenas ar quente, seco — as condições secas do verão
não haviam se abrandado com a chegada do outono e a colheita — assim, o súbito
frescor chamou a atenção de todos. Griffyn mal o notou. Olhava para as muralhas
escuras do Ninho.
Casa. De algum modo, depois de dezoito anos da Anarquia e de um coração
partido, Deus o enviara para casa.
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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Acampado diante das muralhas de seu próprio castelo com um exército,


evidentemente. Ele sorriu com ar sombrio. Não eram as boas-vindas que planejara, mas,
na verdade, eram as únicas que sempre soubera que deveriam ser.
As muralhas imponentes continuavam exatamente como se lembrava. Â orla da
floresta, a duas léguas de distância, continuava tão convidativa aos seus quase vinte e
sete anos quanto havia sido quando tivera apenas oito. Ele apoiou o ombro num carvalho
e observou a escuridão avançar.
Alex subiu a colina quando a escuridão caiu por completo e colocou-se a seu lado.
Eram as únicas duas figuras de pé em toda a terra quente e escura.
O vilarejo estava oculto nas sombras nas planícies abaixo. Pequenas fogueiras
ardiam daqui e dali ao longo do acampamento do exército, mas os homens tinham se
afastado delas tão logo a comida cozinhara e, agora, dormiam deitados no chão. A
inesperada brisa de outono refrescava a noite, mas ainda fazia calor demais para
deitarem os corpos fatigados pela jornada perto do fogo.
De repente, Griffyn endireitou as costas. Um único vulto apareceu no alto das
muralhas, imóvel. Mais um sopro de brisa surgiu da floresta atrás. Ergueu o tecido do
vestido da figura, fazendo-o esvoaçar.
Uma mulher.
Ela permaneceu por mais um momento e, então, seguiu pela muralha,
desaparecendo por uma parede lateral.
— Ela entrou — disse Alex num tom manso.
Griffyn dirigiu-lhe um olhar em silêncio, sabendo que o amigo podia ler seus
pensamentos. Só pensava em um meio de puni-la e em como estava próximo disso.
Não sabia ao certo se ela o vira, mas esperava que sim. Esperava que o tivesse
visto e experimentado um momento de desespero. Esperava que se sentisse tão arrasada
quanto ele se sentira no dia em que descobrira que perdera seu lar para sempre para seu
outrora amado amigo e quase um pai, Ionnes de l'Ami, dezoito anos antes. Tão arrasada
quanto ele ficara quando descobrira que havia sido traído pela filha também.
Virou-se para Alex, tornando a se concentrar no presente com esforço.
— Quando você voltou?
— Há pouco. Cavalguei por um dia até o sul. A notícia de um exército real vindo
para atacar nossa retaguarda era apenas um rumor.
Griffyn tornou a olhar para o castelo.
— Ótimo.
Permaneceram em silêncio por alguns momentos, rompido, enfim, por Alex:
— Deveríamos atacar o lado oeste. Sei que você tem outros planos, mas...
— Não.
— Pagão, a muralha é fraca e ruíra facilmente.
— É o meu lar — murmurou ele, e Alex não disse mais nada.
Mantiveram-se dessa maneira até que a fraca luminosidade cinzenta que antecedia
o amanhecer surgiu nas extremidades do horizonte. O acampamento despertou. Uma
refeição fria e, em seguida, os homens ocuparam suas posições. Griffyn montou em Noir
tão logo os primeiros vestígios do amanhecer surgiram no céu, afastando a escuridão da
noite, e cobriu o rosto com o elmo.
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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Vamos acabar logo com isto — ordenou aos homens.

Gwyn ouviu-os antes de vê-los, embora estivesse com seu marechal e capitão da
guarda, Fulk, no topo da torre leste, à espera de que a guerra se abatesse sobre eles. O
som era como o de rajadas de vento através de árvores numa encosta.
Não havia esperança de que sobrevivessem a um cerco e, portanto, depois de
consultar Fulk e ó seu coração, ela concordara em enviar uma força de combate. Bem
poucos estavam resistindo, bem poucos se importavam em fazê-lo. Se o rei Estevão
perdesse esse castelo no norte, ele não teria mais a menor chance. Seu filho, o príncipe
herdeiro, estava à beira da morte nos porões do castelo. Ela não tinha escolha. Everoot
precisava lutar.
Os portões foram abertos e seus cavaleiros e soldados saíram em marcha, ainda
enquanto o exército invasor surgia no alto da colina mais afastada. Gwyn estreitou os
olhos para ver. Eles fizeram uma pausa, e seu líder avançou num imenso cavalo preto até
a frente de seus homens.
Ela arregalou os olhos devagar, parecendo notar algo de familiar no cavaleiro e em
sua montaria, apesar da distância.
O líder de elmo diante das tropas ergueu a mão e, então, baixou-a. Sua cavalaria
entrou em ação, avançando colina abaixo.
Gwyn sentiu um nó na garganta. O som ensurdecedor de cascos encobriu o
descompasso de seu coração, e o sol que se refletia em escudos reluzentes ofuscou seus
olhos com lágrimas. Rostos cobertos com elmos e corpos protegidos por armaduras
desciam a colina; as lanças estavam apontadas e prontas para matar — não eram
pessoas, eram armas.
Então, inesperadamente, eles pararam. Os cavaleiros puxaram as rédeas das
montarias e se detiveram bruscamente. Que truque era aquele?
O exército dela, principalmente a pé e disposto em fileiras irregulares, com um
poderio de ataque várias vezes menor, também parou. Uma súbita brisa soprou no vale,
que mergulhara num espantoso silêncio.
— Ele está nos dando uma chance de nos rendermos — observou Fulk num tom
grave. — Antes que o derramamento de sangue comece.
— Quem é ele? — indagou Gwyn, estreitando os olhos na direção do vale
ensolarado. — Quem ousa...
Seu coração disparou no peito. Santo Deus.
Pagão.
Ela levou as mãos à boca, horrorizada.
Quem mais seria a não ser ele, montado em seu grande garanhão preto no alto de
uma colina, com o elmo removido, dando a ela uma última chance? Uma última chance
de se render... a ela. Quem mais? Griffyn Sauvage, seu fantasma de paixão.
Ele olhava diretamente para ela.
Gwyn quase riu com histeria diante de toda a loucura daquilo.
Fazendo uma prece silenciosa com o coração aos saltos e o corpo inteiro trêmulo,
ela ordenou:

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Chame-os de volta. Fulk virou-se para encará-la.


— Milady?
― Chame nossos homens de volta. — Ela apontou por sobre a muralha.— Sabe
quem é aquele?
― Sim. Sauvage.
— Você o conhece — afirmou Gwyn, atônita. — Conhece Griffyn Sauvage.
Fulk deu de ombros.
— Estive com seu pai por muitos anos, milady. Antes de você ter nascido.
— Então, você sabe que existe uma história aí. Entre nossas famílias.
O capitão desviou os olhos.
— Sei um pouco dela.
— Um pouco — repetiu Gwyn, céfica. — Diga-me, como acha que podemos nos
sair, com Griffyn Sauvage e seu exército lá fora.
Fulk tornou a olhar para além das amuradas das muralhas e deu de ombros. Mas
algo em sua expressão o denunciou. Sabia qual era a situação. Eles poderiam lutar contra
Sauvage. E perderiam.
Gwyn já planejava o futuro. Abriria os portões. Era melhor do que deixar que aquele
exército os massacrasse. Uma batalha acirrada só lhe daria mais motivo para adentrar
pelo castelo feito uma tempestade, tomando posse de tudo. E ele não podia encontrar o
príncipe. Assim, ela abriria os portões. Fingiria rendição.
Fingiria, lembrou a si mesma. Não o faria de verdade. Não sucumbiria a todas
aquelas coisas que sucumbira antes: à paixão e decência dele e à esperança que a fizera
sentir que tudo ficaria bem.
Não era esse o peso de sua penitência, finalmente caindo sobre seus ombros?
Achara que seria fácil?
— Não deixarei que nossos homens morram desnecessariamente — disse a Fulk.
— E não acho sensato enfurecermos Sauvage mais do que... — Interrompeu-se. Mais do
quê? Como ele poderia odiá-la mais do que já certamente odiaria? — Diga aos nossos
homens que batam em retirada. Mande abrir os portões. Anuncie a rendição do castelo.
Fulk assentiu com uma expressão taciturna.
— Sim, milady. — Afastou-se, gritando ordens para seus comandantes.
Gwyn observou-o ir, tomada por um turbilhão de emoções. Sua mente gritava: Ele
estava supostamente morto! E seu coração cantava: Ele está vivo, ele está vivo!

Griffyn passou a cavalo pelo portão com a espada desembainhada, mas pendendo a
seu lado. Correu os olhos rapidamente pelo pátio apinhado de gente. Com certeza,
Godwin, o marechal, ou Hamish, o ferreiro, deviam ter sobrevivido aos anos.
Bufou, então, afastando o entusiasmo infantil. Apenas os fortes sobreviviam e,
eventualmente, morriam também. Quantas vezes tinha de aprender que a afeição era
perigosa e inútil?
Olhou para as muralhas torreadas no Ninho de encontro a um fundo de intenso azul

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

do céu. Quase doía manter os olhos abertos. Em casa... Estava em casa novamente.
Tudo estava extremamente quieto. Aldeões silenciosos apinhavam as extremidades
do pátio, formando um caminho colorido e irregular. A maioria inclinou a cabeça quando
Griffyn passou, alguns dobraram os joelhos. Ele ouviu sussurros:
— Sauvage.
— ...lembro do pai dele...
— ...como uma lenda, do nosso tempo...
— Graças a Deus.
Dezenas de mãos acenaram em saudação. Toucas de linho foram removidas,
desajeitadas mesuras campestres oferecidas. Gomo boas-vindas.
Devia ser uma bênção.
Griffyn conduziu Noir devagar até o pátio interno. Seus homens seguiam atrás nas
montarias com seus mantos azuis esvoaçando e revelando as cotas de malha e as
espadas afiadas. A brisa que soprou carregava o cheiro da floresta e um quê do oceano.
Quantas vezes voltara para casa quando menino com o cheiro daquela brisa,
contente após um dia caçando ou apenas cavalgando, com fome e cheio de sonhos
grandiosos, antes de tudo ter mudado?
Ainda assim, esse momento de triunfo; essa volta ao lar, parecia extremamente
vazio. Onde estava a alegria, o júbilo? Depois de todo aquele tempo, de tantas guerras, a
intensa satisfação que sentira só em imaginar esse momento estava ausente. A única
coisa que o movia era o pensamento: "Onde ela está?”
Chegaram ao centro do pátio interno, os cascos dos animais ecoando pelo chão de
pedra.
— Meu senhor conde — disse um homem calvo, aproximando-se.
— Quem é você? — indagou Griffyn do alto de Noir.
— William de York, milorde. Sou o... era o senescal... do conde.
— William de York — repetiu Griffyn. Sentia-se tão estranho. Era como se sua voz
soasse muito distante. Parecia que ela comentara algo sobre seu senescal na estalagem,
mas parecia uma época tão longínqua.
— Lorde Griffyn, lady Guinevere deseja dar ao senhor e aos seus homens as boas-
vindas ao Ninho.
— Onde?
— Milorde...
— Onde está sua senhora?
— Milorde... — balbuciou o senescal.
— Onde está Guinevere?
Uma voz melodiosa respondeu:
— Estou aqui.
Griffyn virou-se abruptamente e tudo que estivera cinzento e distorcido tornou-se
claro como um lago intocado. O mundo adquiriu uma nitidez quase dolorosa. Ele correu
os olhos pelas pessoas que não via mais e fixou-os nela. Seu coração começou a bater
novamente, forte e alto.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Eu dou as boas-vindas ao senhor e aos seus homens ao meu lar.


Griffyn desmontou, entregou as rédeas de Noir a Edmund, seu escudeiro, e
aproximou-se pelo pátio. Cada passo parecia levar uma eternidade. Os cabelos dela eram
tão negros quanto se recordava, e estavam presos numa trança grossa e longa, com
algumas mechas cacheadas soltas emoldurando seu rosto. Foi a primeira coisa que ele
notou. Isso e o fato de que a voz ainda lembrava o canto alegre de uma ave acima de um
lago congelado.
Parou diante dela e, sem poder evitar, sentiu em cheio o impacto de sua incrível
beleza.
— Milorde. Seja bem-vindo.
No pátio do castelo, pairou o silêncio absoluto, expectante. Todos mantinham a
respiração em suspenso, esperando que a vingança dele despejasse sua fúria.
— Sou bem-vindo? — repetiu ele num tom controlado. — Seu exército foi uma
demonstração de boas-vindas?
— Eu não sabia que era você — declarou ela numa voz calma o bastante, mas seus
olhos verdes fitavam-no com uma intensidade faiscante.
Griffyn notou subitamente como seu manto era novo e de um tom vibrante em
contraste com as roupas gastas e de cores apagadas dela. Só o broche com o emblema
dos Sauvage brilhava mais do que qualquer coisa que ela usasse em grande parte
percebeu, porque não tinha joia alguma.
Durante quase um ano, aquela mulher atormentara seus sonhos e, agora, estava ali,
em carne e osso.
— Agora sabe — respondeu, enfim, com frieza.
— Sei de coisas até mais importantes do que essa, milorde — disse Guinevere com
indisfarçável amargura. — Sei que essas guerras têm de terminar. Sei que meus homens
quase não comeram durante uma quinzena, enquanto os seus têm se alimentado dos
campos e celeiros de dezenas de pobres aldeões ao longo do caminho até este campo de
matança. Sei que meu exército é pequeno e que o seu é enorme. Sei que seu cavalo
provavelmente comeu melhor do que os criados da minha cozinha nesta última semana...
— Você não sabe de nada.
— Sei que podemos perder...
— Você não sabe de nada.
— ...e perder e perder novamente, e você ainda nunca terá ganhado.
— Você não sabe, de nada — tornou a repetir Griffyn num tom frio, impassível. —
Não sabe dos horrores que o meu exército preveniu...
— Que heróico.
— ...e, com certeza, não sabe o que o meu cavalo come, Guinevere.
Ambos fizeram uma pausa. — Aveia.
Ele curvou os lábios de leve sem o menor vestígio de humor.
— Você me julga uma questão simples.
— Julgo você horrível. E...
Griffyn segurou o queixo dela sem muita gentileza. — E o quê?

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— Morto — sussurrou Guinevere com a voz trêmula, o que o fez sentir-se rude e
satisfeito. — Achei que... que estivesse morto.
— Você fez o que pôde para garantir isso, não foi? Gwyn engoliu em seco.
— E quantas mortes você garantiu, com a sua espada e o seu jovem conde que
simplesmente tem de ser coroado rei?
Ele segurou-lhe o queixo com mais força.
— Sua família estava destinada a ser a minha ruína — disse por entre dentes. —
Pretendo retribuir o favor. Horrível? Você me acha horrível? Não faz nem idéia.
— Não aqui. Não agora — interrompeu uma voz atrás dele. Alex.
Griffyn voltou, de repente, ao presente. Cada par de olhos no pátio do castelo estava
sobre ele, o novo lorde, perdendo a calma e a cabeça por causa daquela feiticeira de
mulher.
Afastando a mão, respirou fundo, sabendo como chegara perto. Poderia tê-la
matado. Se Guinevere tivesse dito mais uma palavra, se Alex não tivesse interferido,
talvez tivesse continuado fazendo pressão com a mão em torno do pescoço delicado e
peçonhento dela.
Girou nos calcanhares.
— Levem-na para o solar — ordenou e, obviamente, alguém a levou, porque alguns
momentos depois, com o coração ainda disparado no peito e a mente anuviada pela fúria,
ele se reunia com seu senescal e principais oficiais. Mandou-os entrar para conhecerem
os assistentes dos de l'Ami, além de ordenar a seus soldados que inspecionassem a
guarnição e fizessem os homens jurar fidelidade ou ser banidos.
Todos se apressaram a cumprir suas ordens, e o caos irrompeu à volta. Griffyn
apanhou as rédeas de Noir e ele mesmo o levou aos estábulos, tentando esquecer, se
concentrar na vitória. Esquecer o pai. O ódio. Os anos perdidos. A mulher à qual julgara
que poderia amar. Esquecer...
Alex supervisionava a inspeção e interrogatório dos soldados dos de l'Ami com a
ajuda de Hervé Fairess, o angevino. Mantinham-se firmes em sua lealdade a Guinevere,
como esperado, porém mais se revelava naquilo que não era dito.
Eram homens fortes, mas seus traços angulosos falavam da fome que mal podia ser
saciada. Homens capazes e dedicados, mas cansados de ver suas terras sendo
devastadas por uma guerra interminável. Eram soldados acostumados à batalha e aos
estranhos caprichos dela, incluindo uma rendição honrosa quando a alternativa teria sido
perda e ruína.
Todos reconheceram Griffyn Sauvage como lorde de Everoot, e a maioria o fez de
bom grado.
Alex estava satisfeito com o resultado, mas, em seu íntimo, uma inquietação
começava a surgir. Observara com grande choque como o lendário autocontrole de
Griffyn desabara minutos antes. Griffyn era um guerreiro com todo o preparo e
treinamento para a violência, mas nunca revelara a dimensão de sua ira. Um pai que
deixara a ganância arruiná-lo, um legado roubado, matança por honra e por queda de
reis... assim fora a vida dele até então. Mas jamais deixara que suas emoções
transbordassem. Com exceção daquela noite de um ano antes.
E de alguns minutos antes.
Griffyn podia estar chegando perigosamente perto de um ódio que fora contido por

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

dezoito anos, moldado por uma rígida disciplina a serviço daquele único momento: o
conde de Everoot estava de volta em casa.
E algo estava terrivelmente errado.

No solar no terceiro andar do castelo, Gwyn olhava para o cavaleiro que a escoltara
enquanto ele se preparava para deixar o quarto. Ele apontou para uma bandeja de
comida e uma jarra de vinho.
— Para a sua comodidade, milady.
Ela replicou num tom ríspido que, se sua comodidade estivesse mesmo sendo
levada em conta, estaria melhor em seus próprios aposentos.
O cavaleiro ouviu o comentário com uma expressão impassível.
— É preferível que não esteja lá no momento, milady. Lorde Griffyn está...
convertendo-os.
Oh, sim, pensou Gwyn enquanto ele se retirava com uma discreta mesura,
convertendo-os... ou se apossando deles. De qualquer modo que fosse colocado, o
sentido era o mesmo. Ele estava tomando posse de tudo, removendo qualquer sinal da
presença dos de l'Ami. Com a exceção dela. Seria subjugada também quando tudo mais
estivesse conquistado, a última resistência, vencida.
— Eles são todos iguais — retrucou em voz alta e quase gritou quando Duncan, seu
pequeno pajem, ergueu a cabeça do lado oposto da cama.
— Duncan! — sussurrou ela, furiosa. — O que está fazendo aqui?
— Milady — sussurrou o garoto de volta, mantendo-se no seu esconderijo.—- Eu
precisava vê-la.
Gwyn contornou a cama depressa e se ajoelhou ao lado dele, correndo os dedos por
sua cabeça, costas e braços magros, à procura de ferimentos.
— Monstros. Por que machucariam um garotinho depois que abri os portões? Não
poderei esperar outra coisa senão brutalidade dos homens daqui em diante...
— Milady! — exclamou o menino, desvencilhando-se.
— Não estou machucado. Eu vim ajudar.
— Ajudar? — Gwyn teve vontade de chorar de desespero.— Como você poderia
ajudar?
Incrivelmente, o rostinho dele não estava assustado como estivera três meses antes,
quando chegara aos portões de Everoot com a irmãzinha, refugiados de guerra correndo
para salvar a vida. E ali estava agora, fitando-a com bravura, achando que ele — um
menino de dez anos podia ajudar, enquanto o mundo desabava ao redor dela.
— Posso cuidar da pessoa que milady está protegendo nos porões, seja quem for.
Gwyn ficou boquiaberta.
— Ò que disse?
Ele pareceu embaraçado.
— Tenho visto milady descer até lá três vezes ao dia ou mais. Uma vez, vi você com

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uma bandeja de comida e, depois disso, eu a segui.


— Por quê?
— Achei que talvez precisasse de ajuda algum dia, vendo como ninguém mais
parecia saber o que estava acontecendo. E sempre parece tão triste quando volta de lá.
Achei que não devia estar tão sozinha nisso.
Gwyn sentiu os olhos marejados. Inclinando-se, abraçou o menino com força.
Endireitou as costas, então, e disse numa voz suave mais jovial:
— Bem, acho que pode estar com uma ótima idéia aí. Consegue guardar segredo?
— Dou minha palavra.
— E seguir instruções?
— Melhor do que um escudeiro.
— E quanto a ficar sozinho? Você não poderia ficar descendo e subindo de lá. Teria
de ficar lá até... — Ela se interrompeu por um momento. — Até que eu disser. Podem ser
semanas. Meses.
— Lady Gwyn, ficarei por quanto tempo precisar de mim lá.
— Que assim seja, então, Duncan. Para os porões. Aqui está a chave. — Ela pesou
o saco costurado à saia e entregou a pequena chave de ouro ao menino. — Você saberá
em que câmara ele está, pois há um cadeado com uma feia cabeça de dragão na porta.
Descerei logo que puder para verificar se tudo está bem e pegar a chave de volta.
— Agora — disse Gwyn, levantando-se e olhando para a porta. — Vamos esperar
mais alguns minutos até que o guarda se afaste o bastante e, então, você poderá ir direto
até os porões.
— Sim, milady. — Duncan fez uma pausa. — Você o viu?
— Quem? — Ela começou a andar de um lado ao outro do solar em crescente
agitação.
— Ele. Sauvage!
— Pagão? — Gwyn sentou na beirada da cama. Até a simples menção do nome
dele deixava seu estômago em nós. — Sim. Eu o vi.
— Eu também — sussurrou Duncan de volta. — Ele é imenso!
— Sim.
— Grande como uma montanha. Nós estaremos a salvo? Gwyn soltou um suspiro. A
salvo? Tudo dependeria do que se quisesse dizer com "estar a salvo". A salvo da morte,
sim. Lembrava-se bem demais de como encontrara um gentil salvador pagão numa
estrada deserta, um guerreiro que ajudara em cada momento difícil, que a fizera rir.
Sim, Duncan e todas as crianças estariam a salvo. Mas e quanto a si mesma? Essa
era outra história.
Não, ela jamais ficaria a salvo do homem que deixara seu corpo em brasa e
aplacara a antiga dor, deixando uma ainda mais profunda em seu coração, um homem
que agora estava entre ela e sua ajuda para que houvesse a ascensão do filho doente do
rei ao trono da Inglaterra.
Sorriu para um preocupado Duncan.
— Tudo ficará bem. Acredite em mim.

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— Eu acredito!— exclamou o menino, feliz. Momentos depois, Gwyn abriu a porta,


olhou para ambos os lados e, então, fez um gesto para Duncan, que desceu a escadaria
correndo, desaparecendo num instante.
Ela se adiantou até a janela e olhou para o pátio do castelo. Não via violência.
Nenhum dos servos leais estava sendo arrastado para os portões ou porões. Nenhum dos
cavaleiros dos de l'Ami estava sendo separado dos demais para ser aprisionado, punido
ou banido. Na verdade, percebeu ela, esticando o pescoço, não havia fileira algema de
soldados marchando para fora do castelo, o que teria indicado aqueles que se
recusassem a jurar lealdade ao novo lorde.
Que estranho...
— Guinevere.
Ela se virou de imediato. Ali estava Pagão, preenchendo á entrada do solar com sua
figura alta e forte. Gwyn estava a sós com ele e com o ritmo frenético de seu coração.
Apesar da raiva, medo, fúria e do ódio, Gwyn não pôde negar a onda de euforia que
a percorreu quando o viu na soleira da porta. O sol que se filtrava pelas janelas que
davam para o patamar no alto da escada reluzia em seus cabelos castanho-escuros,
destacando o brilho dos olhos cinzentos e os traços sensuais do rosto.
Oh, Deus, por favor, rezou ela, não outra vez.
Ele fechou a porta atrás de si.
Devia apenas fingir rendição, lembrou a si mesma. Não se render de verdade...
— Você dirigiu bem o meu castelo —- declarou Pagão com sua voz possante,
provocando-a.
Gwyn procurou se recompor, adquirindo a expressão mais contrariada que
conseguiu.
— Seu castelo?
— Ele certamente não e mais seu.
Ela enterrou as unhas nas palmas das mãos.
— Você se assegurou disso.
— Sim. Do mesmo modo que você se assegurou que eu levasse quarenta
chicotadas nas costas e passasse semanas numa prisão infestada de ratos que eu não
teria desejado nem para o meu pai.
O pai dele?
Gwyn adiantou-se até a janela, mantendo-se de costas.
— Prisão? — disse com aparente indiferença. — Então, você foi levado para a
prisão? Não me disseram isso diretamente, mas fico contente em saber que os homens
do rei tiveram êxito.
— Não tiveram — anunciou o Pagão num tom sombrio. — Tenho o castelo dele. E
sua vassala.
Ela virou-se para encará-lo.
— Por que não me disse o seu nome no ano passado?
— Por que não me disse o seu?
— Bem, parece que nossos nomes não importaram nem um pouco.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Griffyn sorriu.
— Pois eu digo que se há algo que importa muito é um nome. — Deu um passo à
frente, e ela, atrás. — Pois foi um nome que garantiu que eu perdesse estas terras
dezoito anos atrás e foi o meu nome que me garantiu uma "acolhida calorosa" na Torre de
Londres há um ano.
— Cada frase era pontuada por mais um passo na direção dela. — Foi meu nome
que me ajudou a manter a sanidade e o meu nome que me devolveu minhas terras.
— Me pareceu que foi a sua espada.
— Você, Guinevere, demonstra uma mente aguçada. Acontece que a manterei por
perto e a usarei.
— Sua espada, ou a minha mente?
Griffyn venceu a distância entre ambos e sorriu diante do rosto furioso dela.
— Ambas.
— O seu senhor sabe bem pouco sobre o que tem de fazer para conquistar este
país de volta — declarou Gwyn com frieza.
O sorriso dele alargou-se.
— Ele sabe o bastante para enviar homens a todos os castelos rebeldes, para
casarem com as mulheres e silenciar a rebelião.
— E mesmo?
— Sim. E seria bom se você se lembrasse de uma coisa também. Você foi traída
pelo seu Estevão, não por Henrique Plantageneta.
— O rei Estevão governava por direito!
— Ele governava por uma questão de poder, e pessimamente, aliás. Você tem
vivido longe aqui no norte e talvez saiba pouco sobre o estado do reino, mas vou dizer: é
uma terra de guerra.
— Perdeu o juízo? — replicou Gwyn, zangada. — Acha que não sei que meu país
está sendo massacrado... por homens como você.
Griffyn sacudiu a cabeça.
— Todo barão e cavaleiro sabe que a maneira de acabar com a guerra civil é
permitindo que Henrique assuma o seu lugar de direito no trono. Não é segredo algum, é
apenas uma questão de tempo. O Papa nem sequer coroaria o príncipe Eustáquio; não
que importe agora que ele está morto.
Gwyn sentiu que empalidecia e que suor frio brotava em sua fronte, mas ele não
pareceu notar.
— Estevão é bondoso e cavalheiresco — conseguiu dizer por entre dentes.
— É um tolo, seja galante ou não. E ele roubou a coroa, milady, não se esqueça
disso. Ele jurou ser leal, honrar a coroa de rainha da Inglaterra de Matilde, a qual ela tinha
direito como filha do rei Henrique Beauclerc, e, então, roubou-a quando ela não estava
olhando. Onde isso se encaixa na sua idéia de cavalheirismo?
— Melhor do que na idéia que tenho de você no momento.
Griffyn abriu um sorriso perigoso.
Gwyn sentiu um anseio profundo no peito. Ainda o queria. Queria aquele sorriso, só

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para si.
E como aquilo seria possível? Lorde Griffyn no alto da torre, príncipe Eustáquio de
Blois escondido nos porões. A família que o pai dela odiara, o inimigo que seu rei a fizera
jurar a se opor. Podia ver que o futuro não lhe reservava nada de bom.
Com um suspirou, voltou até a janela.
— Estou cansada desses jogos. O que quer saber?
— Sobre a defesa. Quantos são?
— Uns doze na guarnição, talvez uns duzentos dos vilarejos ao redor e da cidade.
— Gwyn teve de vencer o nó na garganta e a dor se evidenciou em sua voz. — Não se
levando em conta os que morreram.
— Eles não serão esquecidos.
— Por você? — Gwyn soltou um riso amargo.
— Por você. — Ela ergueu a cabeça, surpresa em vê-lo tão perto outra vez. Tão
perto que podia sentir seu hálito quente na pele. —Talvez você se admire em saber
quanto respeito demonstro pela lealdade.
Gwyn tornou a desviar o rosto para a janela e manteve seu tom frio:
— Õ que mais quer saber?
— Sobre o senescal!
— Esse é o meu velho William, sobre o qual acho que comentei no passado. É leal a
mim, sem dúvida, mas, se precisar dele, é um homem de grande capacidade para os
números e devotado às suas tarefas.
— E quanto aos seus cavaleiros?
— Continuarão leais a mim, claro — declarou ela com altivez.
Griffyn não pôde conter o sorriso.
— Pois todos já juraram fidelidade a mim.
— Todos?
— Até o último deles. Gwyn estava pasma.
— Até mesmo Jeravius? E Fulk?
— Se está se referindo ao seu segundo em comando e ao seu marechal, os dois
disseram que era para a sua segurança que estava jurando fidelidade a mim.
— Para a minha segurança?
— Pareceram achar que você estava em perigo.
— E tenho certeza de que não se deu o trabalho de tranquilizá-los.
— O que a faz pensar que você não está em perigo? Gwyn sentiu um calafrio de
medo percorrendo-a, mas esforçou-se para fitá-lo com um olhar zangado, determinada a
acabar com toda aquela detestável arrogância dele.
— E estou?
— O que falei a você antes?
— Quando?
— Nos arredores de Londres, Na estalagem.

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― Aquilo não era uma estalagem.


Griffyn percorreu-a dos pés à cabeça com um olhar intenso, demorado.
— O que falei a você, Guinevere?
Gwyn engoliu em seco. Santo Deus, ele lhe dissera uma centena de coisas
sedutoras, carnais...
— Você me disse muitas coisas.— Fez um gesto distraído na direção do cinturão
dele. — Mas quando não estava com uma espada ao seu lado.
Griffyn abriu o cinturão e atirou-o no chão de madeira junto com a espada, o punhal
e sabre.
— Pergunto novamente. O que foi que lhe falei?
Dessa vez, ela sentiu uma onda de calor percorrendo seu corpo. Eram emoções tão
conflitantes e havia um turbilhão tão grande em sua mente que estava tendo dificuldade
em assimilar tudo aquilo que estava acontecendo tão depressa.
— Disse que eu não tinha nada a temer de você.
— E é verdade.
— E os meus homens? Devem acreditar que há muito a temer. O que disse a Jerv e
Fulk?
— Apenas falei o que significava ter o meu lar de volta: E o que faria com aqueles
que se opusessem a mim.
— Deus do Céu, Pagão. Você poderia tê-los torturado e teria sido a mesma coisa.
— Admito que eles ficaram com os olhos um tanto arregalados.
Ela franziu a testa.
— Aqueles são bons homens, leais e, de fato, têm grande consideração por mim. Se
você os ameaçou...
Ele se aproximou mais e se inclinou, apoiando uma mão na parede ao lado dela, o
que a fez recostar-se ali com o coração aos saltos enquanto aqueles olhos perscrutadores
pareciam ver através de sua alma.
— Não fiz ameaça alguma. Apenas disse a eles: "O castelo é meu, você é minha,
assim como tudo que há aqui dentro. Se você se opuser a mim, pagará caro".
— Você ousou me ameaçar?
— Não viu nada da minha ousadia, nem daquilo que perdi. Você é um feixe de trigo.
E eu não a ameacei, apenas deixei a minha posição clara.
— Muito bem, milorde. Agora, ouça a minha. Não empunhei uma espada numa
batalha e, portanto, ainda não lutei. Se acha que pode me pisar feito um inseto, fique
avisado. Carrego um ferrão venenoso como nenhum que tenha visto em todos esses
longos anos na Normandia.
Gwyn afastou-se abruptamente, sentindo o estômago embrulhado. Um insignificante
feixe de trigo? Era como ele considerava o que acontecera entre ambos perto de
Londres? Como algo insignificante?
— Não me esqueci das pragas da Inglaterra. Ocuparam meus pensamentos por
muito tempo.
— Refere-se ao meu pai.

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— A seu pai. E a você.


— A mim? — Ela quase gritou. — E quanto a você?
— Eu? O que fiz?
Gwyn atirou as mãos no ar.
— Já se esqueceu do exército que mandou na sua frente!
— Para recuperar o meu lar. Pelo meu lar, eu conduziria uma carruagem
diretamente do inferno.
— Nisso acredito. Por você e pelos seus, faria qualquer coisa, sem pensar no
restante. Mas saiba disto, Pagão, não pode me ameaçar, nem fazer com que eu me
acovarde. E eu não me curvo.
Um sorriso predatório curvou os lábios dele. —Já se curvou uma vez. A mim.
Gwyn quase morreu de vergonha.
— Nós nos encontramos durante uma noite. Não confunda isso com o ato de
me conhecer.
— Conheço você.
— É o que pensa. Você não sabe de nada. É um menino brincando de ser homem.
Todos os guerreiros o são, lutando por terras que suas mulheres e crianças não querem,
deixando um legado de terras queimadas e crianças sem pai para trás. Ouça, Pagão,
enquanto esclareço a minha posição. Não pretendo rastejar aos seus pés, implorando por
qualquer pequena clemência que talvez me permita erguer as saias quando eu atravessar
o estrume no pátio do estábulo. Este também é o meu lar.
― Seria preciso clemência, sem dúvida, para erguer suas saias em outro lugar,
quando estiver furiosa desse jeito.
— Então, milorde, espere me ver com essa fúria todas as noites daqui em diante e
lembre-se de não me mostrar clemência.
Pagão se aproximou, com o maxilar rijo, os olhos faiscantes, a ira mal contida, e ela
sentiu verdadeiro medo.
— Pense nisto, filha de l’Ami. Minha clemência é a única coisa que pode salvá-la
agora. Tente me contrariar e estará implorando por clemência. Assim como qualquer
outra alma que habite neste castelo.
Ele girou nos calcanhares, recolheu as armas e se retirou, batendo a porta com
força quando saiu. Gwyn permaneceu no meio do solar, a mente rodopiando. Santo Deus,
todos nos castelo? Sujeitar-se às ordens dele? Com o herdeiro ao trono no porão?
E o que aconteceria se ele descobrisse sobre isso? Ela teve uma breve visão de seu
pescoço numa forca.
— Milady? — disse uma voz do corredor um longo tempo depois. A porta se abriu
ligeiramente e um soldado enfiou a cabeça pelo vão. — Milorde deseja ficar com as
chaves do castelo — disse o rapaz, hesitante, fazendo um gesto na direção da grande
argola de ferro que ela levava presa à cintura. — E deseja vê-la no salão mais tarde,
durante o banquete.
Não restando, alternativa a Gwyn, apenas meneou a cabeça e entregou as chaves
daquele que até então havia sido o seu lar.
— Ah, e disse que se prepare para assinar os papéis do contrato de casamento logo
mais.
88
CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Ela sentou abruptamente na beirada da cama, levando a mão ao coração disparado.


Griffyn desceu a escada em caracol rapidamente, afivelando o cinturão com as
armas no caminho. Serviçais e soldados se apressavam de lá para cá, desviando-se de
mesas, tapeçarias e bancos espalhados por toda parte, enquanto o novo substituía o
velho.
Raashid, um muçulmano de meia-idade, que havia muito trabalhava para Griffyn
como administrador, reunia-se com o calvo senescal William de York num canto afastado.
Cavaleiros Sauvage entravam e saíam, apanhando comida das bandejas que passavam e
admirando as mulheres que circulavam, atarefadas. Apesar da confusão e dispersão
geral, todos pararam o que estavam fazendo e olharam quando Griffyn surgiu no salão
principal.
— E os riachos secaram, mas assim mesmo, no início deste verão, nós... — A voz
fina de William morreu em meio a seu relato sobre a renda das terras senhoriais. Virou-se,
olhando para o novo, e aparentemente enfurecido, lorde de Everoot.
Griffyn encontrou o olhar de Raashid e inclinou a cabeça na direção de William
numa indagação silenciosa. Raashid sorriu, fazendo um gesto de assentimento, ao que
Griffyn virou-se, confiante de que o muçulmano seria capaz de lidar com um velho
senescal, por mais reticente que estivesse em revelar algo importante sobre as
propriedades que haviam acabado de conquistar. Raashid tinha anos de experiência e
uma habilidade quase assustadora com números. Acompanhava Griffyn a toda parte,
ninguém sabia de onde ele vinha e nenhum dos dois nunca dizia.
Griffyn adiantou-se na direção da saída principal, pretendendo encontrar Alex e
quase colidiu com Edmund, seu dedicado escudeiro, que já cuidara de Noir e, agora,
parecia à procura do que fazer. Ele parou, pondo a mão no ombro do garoto.
— Lady Guinevere é sua incumbência, Edmund. O jovem escudeiro meneou a
cabeça prontamente.
— Ela não deve ficar confinada àquele quarto. Deve se preparar para descer para
assinar os papéis do contrato de casamento logo mais. E para o banquete. Se desejar,
ela pode planejá-lo, mas deve descer. Providencie isso, Edmund. Ah, e eu quero que lhe
peça as chaves do castelo.
— Sim, milorde.
Alex estava no pátio, onde havia permanecido depois que os demais haviam
entrado, sob o sol, esperando.
— Alexander — disse uma voz grave.
Virou-se na direção dela, e lá estava ele, o homem corpulento de décadas antes,
Fulk. Alex è ele se conheciam de longa data, de muito antes de a guerra civil ter se
abatido sobre a Inglaterra. Fulk havia sido seu mentor. E era uma Sentinela também.
Uma Sentinela falsa. Ele quebrara seu juramento dezoito anos antes, fizera algo que
nenhuma Sentinela já fizera antes, abandonara o Herdeiro, o pai de Griffyn. Havia ficado
com os de l’Ami.
Mais uma prova, se alguma ainda era necessária, de que os de l'Ami só causavam
ruína.
— Então — disse Fulk com os olhos velados. — Aí está você.
— E você.
Fulk olhou ao redor. Não eram os únicos no vasto pátio do castelo, mas estavam a

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

sós naquele canto.


— Você ainda está com ele.
— Sim. Embora você não esteja mais com o seu protegido.
— Ele não está mais entre nós.
— Não. Então, você está a serviço dela.
— Estou a serviço de lady Guinevere, se é o que quer dizer com "dela". — Fulk
mantinha-se quase imóvel com o cinturão desprovido de qualquer arma, mas Alex sabia
que o antigo mentor não precisava de armas para causar danos. E muitos.
— Levaram bastante tempo para chegar aqui.
— Fomos atrasados por dezoito anos de uma guerra civil. Agora, diga-me, onde elas
estão?
— Elas?
— As chaves.
Fulk abriu um sorriso sardônico, compreendendo.
— As chaves não são nossas. Pensei ter ensinado isso a você.
Alex prosseguiu como se não tivesse ouvido.
— Griffyn tem apenas uma. A de ferro. Presumo que as demais foram dadas a de
l'Ami antes de ele ter nos traído.
— E por que acha que ele fez isso? Por que acha que Christian Sauvage deu duas
das três chaves que abrem o portal dos Sagrados?
— Não sei. Insanidade?
— Não acho que ele enlouqueceu. Alex soltou um riso breve.
— Você não estava lá com ele no final. Christian Sauvage estava ensandecendo.
Estava com pavor de morrer.
— De l'Ami também não parecia muito ansioso para ir ao encontro do Criador. Eles
fizeram algumas coisas terríveis, e ninguém sabe disso melhor do que eu e você. Mas
não acho que foi loucura que fez Sauvage dar as chaves.
— Bem, não consigo pensar em nenhuma outra razão. Fulk franziu a testa.
— E do que isso importa agora?
— Santo Deus, somos Sentinelas! Você se esqueceu? Temos um dever para com o
Herdeiro. Por que você deixou Sauvage? Por que nos abandonou?
— Alex, meu rapaz — disse Fulk tristemente.— Não abandonei vocês...
Alex sacudiu a cabeça loira e cerrou os dentes.
— Não me trate como se eu ainda fosse um menino -— retrucou, zangado. —
Passei a entender tudo isso bem melhor com o tempo.
— Está certo. Oh, lá vem Griffyn. Preciso falar com ele.
Alex pareceu contrariado com o anúncio, mas Fulk já inclinava a cabeça, dirigindo-
se a Griffyn.
— Milorde. Sentimos a sua falta. Griffyn soltou uma gargalhada.
— É mesmo? Eu jamais teria sabido. Nem meu pai. Fulk não vacilou.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Temos de viver de acordo com a nossa consciência. Eu tive de decidir. Foi seu
pai quem me colocou a serviço de l’Ami. Eu obedecia às suas ordens, e ele me mandou
para de l’Ami, dizendo que se algo acontecesse ao seu melhor amigo Ionnes, seria um
golpe grande demais para suportar.
— Algo aconteceu a Ionnes de l'Ami — apontou Griffyn secamente. — O mesmo que
aconteceu com o meu pai. Cobiça.
— Não negarei nada do que está dizendo, milorde. O que direi é que seu pai não era
o único Guardião. Assim como você também não o é.
— Guinevere — disse Griffyn, mal conseguindo ocultar o choque.
Alex interveio num tom furioso:
— De l’Ami roubou o Ninho, Fulk, não se tornou um Herdeiro. E nem ela.
— Os Sagrados estavam aqui e não havia nenhum Sauvage por perto para protegê-
los.
― É o sangue que torna alguém Um Guardião, não a posse do tesouro. O nosso é
um dever antigo, Fulk. Viradas do destino não o mudam.
— Não houve viradas do destino aqui, Alex. Christian Sauvage sabia exatamente o
que estava fazendo quando deixou a Inglaterra sem ele.
— Não importa nada — retrucou Alex, zangado. — Essa linhagem de sangue data
de quinhentos anos, o tesouro de mil anos e mais. Se o tesouro estiver fora das nossas
vistas por alguns anos, até por uma geração, do que isso importa? Nosso dever não
muda. Sentinelas guardam a linhagem de sangue. Somos destinados a proteger o
Herdeiro. O herdeiro de Carlos Magno.
Fulk deu de ombros.
— Alguém sempre estará em posse do tesouro. E essa pessoa também precisa ser
protegida. Geralmente, é o Herdeiro. Nunca foi diferente antes.
— Mas quando é, as pessoas têm de fazer escolhas.
— E viver com elas.
— Está se arrependendo da sua, Fulk? — indagou Alex, inclinando-se com ar
ameaçador.
— Jamais — declarou o homem corpulento, aproximando mais o rosto do outro. — E
quanto a você? — indagou, estreitando os olhos. — Tem se arrependido da escolha que
levou você para tão longe do tesouro? Tem se perguntando se está seguro, hein? Tem
sonhado com ele?
Alex cerrou os punhos.
— Basta! — gritou Griffyn, colocando-se entre ambos. Alex e Fulk cambalearam
para trás, trocando olhares faiscantes. — Viram? Viram o que ele faz? — Olhou para
Alex, desgosto. — E você insiste para que eu me envolva nisso? Veja o que ele fez com
meu pai, com de l'Ami e até com vocês dois.
— Não comigo, milorde — declarou Fulk num tom manso.
— Não. Só que, quando teve escolha, você preferiu romper sua lealdade e ficar
perto do tesouro, em vez daquele com quem deveria, o meu pai.
— E lhe direi por quê.
— Então, diga.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Lady Gwynnie. Ela tinha dois anos. Não pude nem sequer imaginar as tribulações
que a aguardavam. O irmão dela estava vivo, mas havia algo terrível no que estava
acontecendo com de l'Ami, e a guerra civil piorava. Homens como Marcus e seu pai Miles
estavam agindo mal, saqueando a região, obtendo concessões de terras. Querendo
Guinevere. Ela é a razão para o que fiz. E teria feito o mesmo de novo.
Griffyn ainda mantinha a mão no peito de Alex, contendo-o, mas o amigo recuou
alguns passos e desviou o olhar, parecendo ter-se acalmado. Ele se virou para Fulk,
então.
— Guinevere sabe?
— Não. Ela não sabe de nada. Nada sobre os Sagrados, nada sobre os pais de
vocês, exceto que se odiavam. Não sabe nada também sobre o senhor, milorde, sobre o
seu destino. Nada sobre as angústias de cada alma que já portou o tesouro, o mesmo
tesouro que ela tem guardado durante todos esses anos sem fazer idéia disso. — Fulk
curvou o canto do lábio num arremedo de sorriso. — E devo dizer, parece algo um tanto
injusto. E tremendamente perigoso.

Gwyn subiu a escada na ponta dos pés até os aposentos senhoriais com o coração
disparado. Não encontrou ninguém. Nenhum guarda fora colocado lá. Pagão devia ter
achado que sua ameaça era aviso o suficiente contra a desobediência.
Ele tem muito a aprender, pensou ela, indignada.
Sua determinação não venceu seu medo, porém. Quando chegou ao corredor e um
longo e apavorado olhar ao redor assegurou que não havia ninguém por perto, suou frio
de alívio. Seus passos subsequentes pela antessala do lorde — que havia sido sua tão
recentemente — foram acompanhados de igual tensão.
Quando, enfim, abriu a porta que dava para o quarto e descobriu que estava vazio,
deu um profundo suspiro. Seus olhos pousaram de imediato na grande tapeçaria na
parede que, felizmente, não tinha sido retirada com o restante.
Que ele não quisesse permanecer com nada que tivesse sido do pai dela, Gwyn até
podia compreender levando em conta o passado; mas, e quanto aos itens pessoais e
demais coisas dela?, perguntou-se, corando. Quem os empacotara?
Afastando a pesada tapeçaria, encontrou a maçaneta da porta escondida e desceu a
escadaria no escuro, apoiando-se na parede. Ela se adiantou depressa até a câmara. O
cadeado estava aberto com a boca do dragão parecendo emitir um rugido silencioso. Ela
chamou num tom baixo, e a porta se abriu. O rosto pálido de Duncan saudou-a, iluminado
por uma tocha acesa na parede. Gwyn entrou e olhou para o príncipe, que permanecia
imóvel sobre a palha e mantas de peles e envolto por mais cobertas que o protegiam do
frio dali.
— Como ele está?
— Não tenho certeza, milady, mas a febre persiste. — O menino baixou a voz para
um sussurro: — Ele está doente demais. Acho que não vai durar muito. Está mais perto
da morte do que da vida, e isso é um fato.
Gwyn ajoelhou-se ao lado da figura prostrada do príncipe. Um fato? Que o futuro rei
não coroado poderia morrer sob seus cuidados a qualquer momento? Que o usurpador do
trono do rei podia invadir seu país e tirar-lhe o Ninho? Não enquanto ela estivesse ali e

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

tivesse forças para lutar. Não se quisesse aproveitar essa última chance para compensar
pecados passados.
— Ele falou, Duncan?
— Nada que fizesse sentido, milady. Só tem gemido e delirado.
— Vamos rezar para que ele melhore.
E, daquele modo, Griffyn Sauvage até podia comemorar sua vitória agora, mas a
sua perdição estava ali naqueles porões. Gwyn ergueu-se e pegou a chave de ouro de
volta dê Duncan. Com certeza, o rei Estevão já sabia que Griffyn retomara seu lar. Ele
enviaria uma mensagem, instruções. Ela precisava se agüentar até lá.
— Mantenha-o bem e aquecido — disse ela a seu pequeno ajudante. — E cuide-se
também, Duncan.
Um dia, Eustáquio ocuparia seu lugar de direito, aclamado por seus barões, lordes
que se levantariam em massa quando ele saísse para a luz gloriosa do dia. Até lá, ele só
precisava descansar, disse a si mesma.
Gwyn subiu as escadas o mais depressa que pôde e, no patamar, abriu a tranca da
porta. Afastando a tapeçaria, passou pelo vão, fechando a porta atrás de si. A tapeçaria
voltou ao lugar rente à parede e, depois de se curvar para soltar uma ponta da barra da
saia que havia prendido numa das botas, ela endireitou as costas e deparou diretamente
com os olhos de Griffyn Sauvage.
— Deus do Céu! — gritou Gwyn, levando a mão ao peito. — O que está fazendo
aqui?
Ele deu um longo passo além da soleira do quarto, livre de boa parte de sua
armadura agora, com uma túnica por baixo da cota de malha que realçava seus
músculos. Os cabelos estavam um tanto mais compridos que no ano anterior. Ela recuou
um passo e ele avançou mais um.
— Acho que vou fazer essa mesma pergunta.
—Eu só estava... olhando ao redor. — Gwyn tocou a beirada da tapeçaria que
escondia a passagem para os porões e, então, afastou a mão depressa.
Ele olhou para a tapeçaria antes de observar o corpo dela devagar, como se
provasse algo de sabor incerto.
— O que encontrou?
— Nada — respondeu ela num tom jovial. — Sei que eu não deveria estar aqui.
Sairei agora...
Ele fechou a porta atrás de si.
— Fique.
— Tenho de ir.
— Tem de fazer o que eu lhe digo.
Gwyn tateou atrás de si em busca de algo para se apoiar: uma mesa, uma parede,
uma arma.
— Não me disse para eu não entrar aqui?
Ele abriu um sorriso vagaroso, sensual, que a deixou com a boca seca.
— Ainda não.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Se me dissesse isso agora, acredite que eu o faria com toda a boa vontade.
— Como falei, fique.
— Eu... — Gwyn recuou mais um pouco, sentindo-se sem ação. Notou que ele
lançou mais um olhar à tapeçaria e seu coração disparou, temendo que seu segredo
fosse descoberto. Falou a primeira coisa que lhe ocorreu para desviar a atenção dele. —
Seus lacaios gostaram das minhas roupas, especialmente as de baixo, suponho?
Ele voltou a fitá-la com um ar confuso.
— Como?
— Meu armário. —- Ela apontou para o espaço vazio onde o móvel costumara ficar.
— Não está mais aqui.
— Era seu?
— De quem mais seria? — Gwyn caminhou devagar até o outro lado do quarto,
afastando-se da tapeçaria.
— Do seu pai.
A velha e conhecida dor oprimiu o peito dela.
— Ele adorava aquele antigo armário, a maneira como era lindamente entalhado.
Mas por que estou falando algo sobre o meu pai? Você sabe de tudo, não é mesmo? O
bastante para odiá-lo por cem anos.
— Eu poderia odiá-lo por muito tempo, de fato.
— Ora, que agradável para nós.
— Mas não odeio o armário. Se o quer, providenciarei para que seja trazido de volta.
— Não vejo que diferença isso possa fazer. — Gwyn adiantou-se até outro canto do
quarto, afastando-o cada vez mais da tapeçaria pendurada inocentemente na parede. ―
Presumo que tenha mandado providenciar o seu banquete, certo?
— Você poderia ter descido e feito isso. É livre para cuidar de seus afazeres como
antes. Não foi raptada.
— Como não?
— E com que finalidade teria sido raptada?
Ela se sentia tão confusa, com emoções tão conflitantes em seu íntimo que teve de
se esforçar para conter as lágrimas.
— Ouça, Pagão, eu não...
— Meu nome é Griffyn.
— No ano passado, você era Pagão para mim. E os seus homens o chamam dessa
maneira.
— Não a minha esposa.
— Oh.
Ele a observou por um longo tempo e, então, comentou:
— Há coisas piores do que sentir falta de um pai quando este morre, Gwyn.
Dessa vez, as lágrimas afloraram, abundantes.
— É mesmo? O quê?

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Ele ergueu um pouco as mãos.


— Não sentir.
Gwyn soltou um suspiro trêmulo.
— Bem, eu não havia pensado nisso. — Ficaram em silêncio por um momento. —
Não há sementes, Griffyn.
— Sementes?
— Sim, mal há o suficiente para semearmos no próximo inverno e, com certeza, não
o bastante para a primavera. Talvez consigamos atravessar o inverno. Talvez não. Não
resta mais nada para vendermos. Everoot não tem nada. Espero que você não tenha
vindo para o norte esperando encontrar riquezas — acrescentou ela com um riso triste. —
As guerras têm sido longas demais, o verão, excessivamente seco. As sobras do norte
mal valem a pena.
— Essas "sobras" são o meu lar ancestral — declarou Griffyn num tom baixo, mas
firme. — Eu nasci aqui.
Ambos se entreolharam. Griffyn observou a gama de emoções passando pelo rosto
dela.
— Bem — murmurou, enfim, quase resignada. — Vejo que estamos numa situação
difícil outra vez.
— Sim.
— E quando não estivemos?
Griffyn olhou ao redor, à procura de vinho. Mas o quarto estava vazio, exceto pela
tapeçaria ricamente bordada e de paisagem fascinante que atraíra a sua atenção e
decidira deixá-la quando ordenara que tudo mais fosse retirado dos aposentos. Tudo,
inclusive o armário com... as peças íntimas dela. Teve vontade de sorrir, mas observando
a expressão preocupada de Guinevere, esforçou-se para se conter.
Esforço ainda maior era necessário para entender as rápidas e poderosas
mudanças nas emoções a cada vez que estava perto dessa mulher. Ele correu os olhos
pelos aposentos, aborrecido. Ainda não era seu, nem era mais dela. Estava em suspenso,
numa fase de transição, contendo apenas lembranças. Nada além de más lembranças.
Nem mesmo uma jarra de vinho.
Foi ate a porta principal, escancarando-a e gritou uma ordem para algum criado.
Não demorou para que um pajem batesse hesitante à porta, segurando uma bandeja.
Griffyn dispensou-o e colocou a bandeja no peitoril da janela, preenchendo os dois cálices
que pedira com o vinho e entregando um a Gwyn.
Enquanto ela sorvia o vinho, ele observou seu perfil delicado e não pôde deixar de
lembrar-se daquela outra vez em que haviam partilhado a bebida, de como suas mãos
haviam percorrido aquele corpo tentador, de como a beijara com paixão... e a possuíra
um ano antes.
Gwyn encontrou seu olhar e pareceu ler seus pensamentos, pois o rubor espalhou-
se por suas faces e os expressivos olhos brilharam.
— Um ano passa depressa, não? — murmurou ele, confirmando o que estava
pensando. — Parece que foi ontem que você tomou vinho comigo desse jeito. E, ao
mesmo tempo, às vezes tenho a sensação de que foi há uma eternidade. .
Ela ficou ainda mais vermelha e pousou o cálice vazio na bandeja no peitoril com a
mão trêmula.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Com licença, milorde, com sua permissão, gostaria de me retirar agora.


Griffyn soltou uma sonora gargalhada. — Você havia ficado tão dócil de repente.
— Eu estava tentando ser... mais amigável.
Ele arqueou uma sobrancelha grossa numa indagação silenciosa.
— Decidi que seria mais sensato se nós nos entendêssemos, e farei a minha parte.
— O que significa?
Ela conteve a respiração por um momento.
— Que serei obediente.
Griffyn tornou a rir, e a crescente tensão que estivera no ar diminuiu um pouco.
— Guinevere, eu vi você em várias situações, das mais inesperadas, mas jamais a
vi sendo obediente. De qualquer modo, tem toda a razão. Podemos ficar atacando um ao
outro. Ou aprender a nos entendermos. Prefiro a segunda alternativa.
Ela ergueu as mãos.
-—Viu? Fizemos o nosso primeiro acordo.
— E nenhum de nós derreteu com o esforço.
— Nem explodiu de raiva.
— Nem saiu correndo e gritando do quarto. Gwyn curvou os lábios.
— Não posso imaginá-lo fazendo isso.
— Eu estava falando de você.
— Oh.
E, de algum modo, ali estavam eles, sorrindo um para o outro.
— Isto é um bom presságio,
Ele correu os olhos em torno do quarto.
— Vamos ver.

A cerimônia da assinatura do contrato de casamento foi breve, quase apagada.


Vendo o vestido da mãe, pensando em suas promessas quase incompreensíveis
junto ao leito de morte do pai e, acima de tudo, sabendo o que aconteceria entre ela e
Griffyn Sauvage depois do que tão completamente já havia sido consumado, Gwyn
sentiu-se tão sobrecarregada por emoções que mal conseguiu proferir as palavras
necessárias.
— Aceitarei você como meu marido — murmurou de cabeça baixa, fazendo a verba
de futuro, os votos para o futuro, unindo a ambos num compromisso legal e espiritual.
Foi diferente para Griffyn.
A entoação em latim do padre mal penetrou na sua consciência. Com seus cabelos
negros arrumados em cachos no alto da cabeça com uma tiara de prata, olhos verdes e
lábios rubros, Guinevere era uma visão de pura resplandecência enquanto se adiantou
pela capela para ir ao encontro dele. Perspicaz, inteligente, espirituosa, ela era muito mais
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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

do que ele já esperara numa esposa e tão diferente de sua própria mãe quanto poderia
ter imaginado.
Não, ponderou, enquanto se levantavam diante do padre, Gwyn era diferente de
qualquer mulher — qualquer pessoa — que ele já conhecera.
Se ao menos ela não o tivesse traído.
O clima no imenso salão principal ainda era de animação, mesmo agora que o
banquete para celebrar a vitória e o contrato de casamento chegava quase ao fim. Sua
noiva, notou Griffyn, observava tudo com uma expressão fechada.
Ele providenciara várias atrações, incluindo menestréis, malabaristas, dançarinas e
também uma apresentação de lutadores, que foram aplaudidos pela multidão aliviada, era
melhor ver aquela violência apenas em forma de encenação. Risos e conversas alegres
ecoavam por toda a parte. Na verdade, a noite estava tão repleta de bom humor que
Griffyn estava surpreso com o fato de Gwyn ainda não ter tentado torcer o pescoço de
cada um dos membros do castelo e vilarejo ao longo das três horas anteriores.
Mas a condessa de Everoot se mantinha rija feito uma estaca no banco, junto à
mesa principal, mal provando a comida e o vinho. Ele havia notado uma mesa em
particular cujos ocupantes mantinham-se bem mais reservados do que o restante do
salão eufórico. Eram os cavaleiros mais proeminentes, que, embora tivessem jurado
lealdade a Griffyn, mantinham-se respeitosos à sua senhora, e admirou-os ainda mais por
isso. Pelo que percebera, era verdade: eles a veneravam! De qualquer modo, sabia que
era apenas uma questão de tempo até que eles se integrassem com os seus próprios
homens e todos fizessem parte de um único exército que visaria a revitalização e
proteção do Ninho. Ele teria realmente leais a si até os mais reticentes como o intrépido e
jovem Jeravius e o carrancudo Fulk.

O salão silencioso, carregado de tensão e animosidade velada que Gwyn havia


esperado não tomou forma para além da sua imaginação. Todos pareciam de ótimo
humor; aldeões, cavaleiros, soldados e criados de Everoot sentavam-se com os homens
de Pagão e trocavam palavras cordiais durante o banquete. Não, não era simples
cordialidade. O salão estava nitidamente... alegre.
Todos haviam esquecido que ao raiar do dia tinham estado em guerra com esses
mesmos homens, prestes a combatê-los? Era o que parecia, pois conversavam
jovialmente com os homens de Pagão, partilhando cerveja e risos, além de provavelmente
segredos também. Gwyn franziu a testa, fervendo de raiva por dentro.
Vez ou outra, Pagão se levantava e mantinha uma conversa tranquila com um
aldeão ou um cavaleiro, o tempo todo atraindo olhares de admiração de várias partes do
salão principal. Era a personificação do guerreiro vitorioso. O que fazia dela a sua
conquista.
Para sua mortificação, cada vez que ele lhe lançava um olhar, mesmo não
planejando aquilo, o homem irradiava sensualidade. Ele tomara o castelo, as terras, a
senhora de Everoot e os vassalos dela e, ainda assim, a deixava simplesmente sem
fôlego.
Seu mundo estava mudado daquele dia em diante e seria através das mãos dele.
De suas mãos. Seus lábios, sua boca.
Gwyn procurou afastar os pensamentos errantes e sorveu mais um longo gole de
vinho.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Tenha cautela, esposa. Prefiro que se mantenha sóbria à mesa, ao menos por
mais algum tempo.
Ela apertou os lábios e virou-se para olhar, contrariada, para Griffyn, que acabara de
se sentar ao seu lado novamente. Ele sorria de orelha a orelha. Ora, e como não o faria?
Conquistara seu lar de volta e ainda adquirira uma esposa para tornar tudo mais fácil.
— Estou sempre sóbria, não se esqueça — retrucou por entre os dentes. — Deve
estar contente com suas realizações — observou, cáustica.
— Eu estaria se a minha linda prometida sorrisse para mim. — Ele soltou um suspiro
e deu de ombros. — Acho que nem o vinho consegue animá-la.
— O que não me anima é a derrota.
— Não mesmo. — Griffyn estudou-a por um momento.
— O que posso fazer para abrandar as coisas para você?
— Partir?
Ele riu, evidentemente disposto a tolerar o mau-humor dela. E o que lhe custava?,
pensou Gwyn, zangada. Nada além de um pouco de paciência, o que parecia ter de sobra
levando-se em conta sua espera de dezoito anos para voltar. Deixe-a ficar emburrada
quanto quiser, devia estar pensando, no final, será minha.
— O que andou dizendo aos meus cavaleiros? — perguntou abruptamente, sem
poder se conter.
— Seus ex-cavaleiros?.— sorriu ele. — Não, não precisa ficar mais nervosa. Eles
continuam leais a você, sim, e a tem em demasiada estima.
— Não está parecendo tanto assim...
— Para serem leais a mim não precisam deixar de ser leais a você. Desde que você
seja leal a mim.
Gwyn desviou os olhos com ar culpado, pensando no príncipe na câmara dos
porões. A situação ficava cada vez mais complicada. Mas tinha seu dever a cumprir em
primeiro lugar. Tomando mais um pouco de vinho, tornou a encará-lo.
— Não respondeu minha pergunta — disse, evasiva.
— O que tem conversado com os meus cavaleiros durante o banquete? Pareceram
interessados, especialmente Jerv, pelo que notei.
—Só estava perguntando a eles o que acham que deve ser feito para reforçar as
defesas do castelo, agora que trago recursos, e eles me deram algumas sugestões.
Descobri que Jerv, por exemplo, gosta de castelos e de como são construídos. Tem
algumas idéias muito boas e eu o incumbi de preparar um relatório de tudo que acha que
precisa ser feito.
— Eu mesma poderia ter contado isso a você — retrucou Gwyn secamente. — Já
sei há muito tempo. Quando ele tinha doze anos me contou sobre o seu primeiro :sonho
de construir um castelo um dia.
— Hum.
— Contou a mim — persistiu ela, como se tivesse de provar que tinha mais direito a
Jerv como leal cavaleiro do que ele.
Griffyn meneou a cabeça calmamente.
— Que ótimo.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Aquilo só a enfureceu mais.


— É não é mesmo? — disse, esforçando-se para não perder a compostura. — Você
se acha muito esperto, não é?
— Eu?
Gwyn balançou a cabeça para confirmar e se sentiu um tanto zonza. Aquele era o
seu terceiro cálice de vinho? Talvez o quarto. Mas quem se importava. Ela estava
simplesmente pasma com tudo que acontecera. Primeiro, julgara o homem morto e, de
repente, ele aparecia ali e roubava tudo. Até seus cavaleiros. Até seu coração...
Ela soltou um soluço. Ambos se entreolharam, e Gwyn tornou a soluçar. Ele sorriu,
malicioso, e percorreu-a com um olhar sugestivo. Ela sentiu uma onda de calor
envolvendo-a e levou o cálice aos lábios para não fazer algo condenável — sorrir de volta.
— De l'Ami — disse Griffyn ainda observando-a com aquele olhar provocador. —
Um amigo. É um nome estranho para o seu pai.
— Foi o rei Estevão quem lhe deu esse nome — replicou ela, tomando mais vinho.
— Não foi Estevão quem deu esse nome ao seu pai. — Ele tirou-lhe o cálice de
vinho da mão, pousando-o na mesa. — Foi o meu pai. Na Palestina.
— Não — protestou Gwyn numa voz fraca. Será que tudo em que acreditava tinha
de ser modificado por aquele homem? — Tive a impressão... de que o meu rei lhe deu o
nome. O rei Estevão achava meu pai leal e constante.
— Henrique não achava — disse ele com um súbito sorriso frio que a assustou. —
Agora, antes que você desabe em cima dessa mesa e dê um espetáculo à parte, acho
melhor que suba.
Gwyn tentou protestar, mas Griffyn já dava instruções. a dois serviçais a seu lado.
— Acompanhem lady Guinevere aos nossos aposentos.
Ele ergueu seu cálice, produzindo uma resposta imediata de cada pessoa no salão
principal. Gwyn levantou-se um tanto cambaleante e lançou um olhar atravessado ao
salão em geral, mas ninguém prestava atenção. Todos os olhares estavam em Sauvage.
— A lady Guinevere, minha noiva.
Todos vibraram e brindaram. Os sons festivos ainda acompanharam Gwyn enquanto
subia as escadas seguida dos lacaios, que, embora a conhecessem por mais de quinze
anos, tratavam-na como a uma criança, como certamente seu novo mestre havia
mandado.
Gwyn andou devagar pelos aposentos senhoriais com os braços em torno da
cintura, a mente repleta de ponderações. Todos os vestígios de embriaguez tinham se
dissipado; devia ser Pagão que a estava inebriando.
Ele estivera vagando por muitos anos, segundo sua própria admissão, mas o que
havia diante dela agora não falava do estilo de vida de um guerreiro nômade. As velas
oscilaram sob a brisa que soprou pela janela enquanto ela andava em torno do quarto.
Uma vida de campanhas a serviço de um lorde itinerante não era meio de se criar o que
via à sua frente. Para tanto, uma pessoa precisava de um lar. Ele dissera que era
Everoot. E parecia que ele estivera no caminho de volta para seu lar por um longo, longo
tempo.
De repente, e a contragosto, ela entendeu por que ele tinha ido até o Ninho com
uma espada na mão e revolta nos pensamentos, e continuou sua inspeção de um quarto
que, apenas um dia antes, havia sido seu.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Àquela altura, já havia sido completamente transformado, passando do quarto frio,


de estilo militar, o qual ela nunca tivera tempo nem dinheiro para mudar, para um lugar de
refinamento e satisfação pessoal. Arandelas de ferro tinham sido afixadas às paredes e
velas de cera de abelha, cera de abelha! — ardiam nelas, não deixando aquela fumaceira
desagradável como o sebo. Tapetes de peles cobriam o chão numa verdadeira
extravagância. Várias tapeçarias com belos bordados recobriam as paredes, mas,
felizmente, a que ocultava a porta para os porões, havia sido deixada intacta. Havia uma
grande mesa trabalhada com bancos na antessala, perto da janela, e outra no quarto.
Numa das paredes, havia um par de armários de carvalho, polidos ao ponto de brilharem.
Aquele que ela abriu timidamente, continha uma profusão de sedas, veludo e de outros
tecidos nobres que a deixou boquiaberta. Tocou a pilha luxuosa com cuidado e, para seu
espanto, descobriu que eram roupas femininas. Ele lhe levara roupas. Algumas eram
suas, percebeu, como uma túnica antiga e gasta, mas a maioria era de tecidos
maravilhosos, alguns já cortados e costurados, outros só à espera de se tornarem belas
peças. Pegando um vestido longo, segurou-o diante do corpo, confirmando que serviria
perfeitamente. Griffyn estivera fazendo planos para ela.
A idéia era perturbadora.
Guardou o vestido depressa e fechou a porta do armário, admirando um espelho
trabalhado acima da grande mesa ao lado. Nunca vira um espelho refletir a imagem com
tanta clareza. Tocando-o de leve, perguntou-se o que motivaria um guerreiro em meio a
uma guerra a levar todos aqueles tesouros a uma distante província no norte.
Griffyn Sauvage podia ter propriedades na Normandia, mas era Everoot que estivera
em seu coração durante todos aqueles anos, pelo que se podia observar ao redor. E sua
intenção também ficava clara: havia um longo tempo ele planejara fazer do Ninho o seu
lar.
Observou a imensa cama nova, coberta com uma manta macia e escura e, de
repente, acima, algo chamou sua atenção. Compridas prateleiras haviam sido colocadas
na parede com suportes de ferro. Continham uma seqüência de manuscritos de velino e
pergaminho. Ela estendeu a mão e tocou o dorso de um dos calhamaços. Em seguida,
pegou um dos grandes volumes é sentou-se na cama para examiná-lo. Surpresa,
percebeu que era a Historia Regum Britanniae. Reconheceu a obra latina porque era
como a que havia na abadia da qual os de l'Ami eram benfeitores. Quando criança,
convencera os monges a pelo menos lhe contarem as histórias, se não para provocar a
ira de seu pai ensinando-a a ler.
Correu os dedos pelas linhas tão graciosamente escritas nas páginas. Os tons de
azul, vermelho e verde eram tão vibrantes que ainda pareciam molhados. Tocou de leve
uma das ilustrações. Era de um monge com uma pena e ar compenetrado. Quanto talento
e perfeição. Gwyn sorriu e virou a página.
— O que acha?
Gwyn ergueu a cabeça repentinamente. Griffyn estava parado diante do braseiro,
aquecendo as mãos. Não o ouvira entrar. Ele lhe dirigiu um olhar casual antes de tornar a
se virar para as chamas.
Ela se levantou, segurando o livro.
— Acho que estou surpresa — admitiu.
— Com Monmouth? — indagou ele, referindo-se ao clérigo galés que escrevera a
obra.
— Com você. — Gwyn apontou para as prateleiras repletas de volumes.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Ele olhou por sobre o ombro e sorriu.


— E o que você acha da obra History of the Kings of Britain, História dos Reis
Britânicos, de Geoffrey Monmouth?
Foi impossível não retribuir o sorriso.
— Sinceramente, não sei, mas ouvi dizer que é pura invenção.
— Ah, mas foi bom para nós, os galeses, que tenhamos ganhado dela o rei Artur.
Ela o estudou com curiosidade.
— E em que parte do seu sangue você é galés? Certamente não na do seu pai.
"Sauvage" é puramente normando.
— Sim. Meu pai foi muitas coisas. Ele gostava que o julgassem normando até a raiz
dos cabelos, e certamente não desdenhou do título e das terras que tinha aqui na
Inglaterra. Mas a minha mãe era uma princesa galesa.
Gwyn arqueou as sobrancelhas e arregalou os olhos com ar de troça, fingindo estar
impressionada.
— O que mais há ali? — perguntou, indicando as prateleiras.
— Ecclesiastical History of England e Normandy, História Eclesiástica da
Inglaterra e da Normandia, a obra de Vitali, é claro. E Lives of the Abbots, Vidas dos
Abades, de Bebe — prosseguiu Griffyn, esfregando as mãos acima do braseiro com ar
pensativo. — Deixe-me ver, há o Gesta Pontificum Anglorum que Malmesbury escreveu,
que é mais uma crônica informal sobre a vida dos bispos do que uma história completa.
Mas é interessante. E útil.
Gwyn encarava-o, estupefata. Era um guerreiro, sim, sabia disso. Um sedutor, não
havia como negar. Mas um nobre letrado com uma biblioteca que não deixaria nada a
desejar a de um influente monastério? Que defesas ela tinha ali? Sem ação, sentou-se de
volta na cama macia.
— O que acha dessas outras obras, Guinevere?
— Não sei ler — declarou ela sem conseguir ocultar o seu pesar.
— Uma situação que remediaremos, se você quiser.
— Meu pai parecia achar que eu não precisava ler — contou Gwyn com um suspiro.
— Mas você achava que sim.
— Ainda acho.
Griffyn deixou o atiçador de lado e aproximou-se, observando a expressão corajosa
dela. Lembrou-se de quando a beijara na floresta naquela noite distante e de suas
reações inesperadas. Pegou sua mão delicada, observando-lhe as unhas curtas e
lascadas, a ponta dos dedos endurecida pelo trabalho.
— Você tem trabalhado arduamente — comentou.
— Como todos os demais. — Gwyn tentou libertar a mão, mas ele a segurou com
mais firmeza. — Isso não é nada. Algumas das tarefas que eu gosto. Acha tão difícil de
acreditar que gosto de trabalhar?
— Claro. A maioria das mulheres da nobreza gosta de trabalhar o mínimo possível.
— Não sou como a maioria das mulheres.
Griffyn observou sua expressão cabisbaixa e imaginou o peso do fardo que ela

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tivera de carregar ao longo do ano anterior. Sozinha, no meio de uma guerra, governando
uma vasta propriedade com bem pouco dinheiro e necessidades demais. Em todas as
conversas com os serviçais, todos tiveram um elogio a fazer sobre a senhora do castelo,
falando a seu respeito com indisfarçável afeição.
— Já viu as minhas flores?— perguntou ela com um ligeiro sorriso iluminando um
pouco seu semblante.
— Não. Cuida de uma parte do jardim?
O sorriso de Gwyn se alargou e foi como se a brisa fresca adentrasse mais pelas
janelas.
— Sim. Adoro cuidar das minhas flores. Como disse, gosto de algumas das tarefas
que faço.
— Bem — disse ele, afagando um a um, os pequenos dedos da mão que segurava
—-, deve continuar fazendo as coisas de que gosta. Quanto ao restante, arranjaremos
outros para fazer.
Gwyn tornou a adquirir uma expressão preocupada e libertou a mão dessa vez,
adiantando-se até a janela. Ventava muito lá fora e havia o cheiro de chuva no ar.
— Precisamos desesperadamente de chuva — comentou, esperançosa. —- E
sempre há tanto a fazer que não posso deixar minhas tarefas. Os campos ainda precisam
ser arados, mesmo com os homens ocupados pela guerra. Quando homens e garotos
morrem em batalha, suas mulheres vão cuidar dos campos, o que deixa o castelo com
menos gente para trabalhar, mas as coisas têm de continuar sendo feitas.
Por mim. Sozinha.
As palavras pairaram no súbito silêncio entre ambos, mas ela não as proferiu. Griffyn
foi tomado por grande empatia, seu coração sendo tocado, algo que não queria. Domínio,
soberania, lascívia: essas coisas eram conhecidas e aceitáveis. Afeição e compreensão:
eram distintamente indesejáveis.
Então, por que ele se aproximava pelo quarto para se colocar ao lado dela? Por que
se inclinava para lhe sussurrar ao ouvido?
— Não precisa mais cuidar de tudo sozinha, milady.— Começou a soltar a faixa de
seda que enrolava os cabelos dela e os mantinha presos ao longo das costas. Correu,
então, os dedos por entre as mechas macias e prosseguiu, sussurrando: — Tem um
marido agora, que poderá ajudar no que for preciso. -
— Até lavar a roupa?
Notou a voz um tanto embargada de Guinevere e decidiu que foi esse o motivo que
o fez se aproximar. Para fazer a resistência dela desmoronar, para dobrar sua força de
vontade. Para levá-la para sua cama, como uma parceira ardente, espontânea, cheia de
desejo como fora um ano antes.
— Ajudarei no que for preciso — tornou a assegurar.— Se bem que, para lavar a
roupa, não levo muito jeito, mas, não se preocupe, haverá gente de sobra.
Ela sorriu, encostando-se de leve nele e ergueu um pouco a cabeça, fitando-o nos
olhos. — E quanto aos canteiros de flores?
— Bem, não vamos extrapolar, Guinevere. Você disse que gostava de fazer isso.
Gwyn riu divertida, dessa vez. Virou-se, de forma que as mãos dele repousaram
agora nas suas costas.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Está certo, cuidarei das rosas, mas você terá que me ajudar a encontrar um
senescal para a cidade de Everoot de Ipsile-upon-Tyne, pois o anterior simplesmente
fugiu por causa da guerra. A propósito, tenho de lhe contar sobre a cidade.
— Conheço Ipsile-upon-Tyne. Na fronteira com Gales.
— Como sabe sobre Ipsile? Gu que fica na fronteira com Gales? William mencionou
a respeito?
E, de um momento para o outro, a raiva voltava a crescer dentro de Griffyn,
inevitavelmente. Como ele sabia sopre Ipsile ou Gales, uma fronteira inteira ao longo da
divisa de suas terras por direito de nascimento?
Afastando as mãos dela, deixou-as cair ao longo do corpo com os punhos cerrados
e estreitou os olhos.
— Ouça bem, Guinevere, pois é a última vez que direi isto. Cavalguei por todo este
condado antes de você ter nascido. Conheço estas terras desde York até a fronteira com
Gales, cada trilha e colina. Sonhei com elas durante dezoito anos, um sonho que se
arraigou na minha alma. Eu poderia percorrê-las no escuro, mapeá-las no meu sono e,
juro por Deus, que as conheço melhor do que a palma da minha mão. Não me pergunte
outra vez como sei algo sobre o meu lar.
Uma gama de emoções passou pelo rosto de Gwyn... confusão, medo, tristeza e
raiva. Empertigou-se.
— Então, milorde, espero que ache que tenho cuidado bem dele.
Os olhos de Griffyn faiscaram com todo o ressentimento guardado havia dezoito
anos. Cuidado bem? Ela vivera em suas terras, andara a cavalo sobre suas colinas,
respirara nas brisas de seus bosques, enquanto ele fora atirado num mundo de política e
derramamento de sangue, ansiando por seu lar.
Gwyn estudou-o com perplexidade, percebendo toda a fúria e a dor que o tomavam.
E ambos tinham de fazer um casamento dar certo?
Santo Deus, o que ela dissera? Que esperava ter cuidado bem do lar dele? Falara
na esperança de apaziguá-lo, mas tudo o que conseguira fora alimentar ainda mais a sua
ira. Não conseguia fazer nada certo aos olhos dele.
Kris Kennedy
Estavam fadados ao fracasso.
— Quantos anos você tinha quando veio para o Ninho, Gwyn? — perguntou ele,
parecendo conseguir conter a raiva com notável disciplina, mas fitando-a com uma frieza
que a gelou por dentro.
—- Eu... tinha dois anos de idade.
Griffyn segurou-a pelos ombros por um momento com surpreendente gentileza.
— Eu tinha oito quando parti. E nunca esqueci nada a respeito daqui. Nem de você.
— Soltou-a em seguida. — Vá.
— O quê?
— Vá para o seu quarto.
— Não tenho qua...
— O solar. Vá.
— Mas o que, afinal...

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Não diga nada — avisou-a ele. — Vá. Agora. Enquanto é seguro.


Gwyn saiu depressa, confusa. O que acontecera? O que estava acontecendo, com
ele, com ela, com ambos juntos?
Antes de fechar a porta atrás de si, ainda o viu olhando para o chão e cerrando e
abrindo os punhos em silenciosos momentos de angústia.
Não choveu, mas os ventos foram inclementes, castigando as paredes do castelo e
curvando grandes árvores. Gwyn estava acordada diante do braseiro aceso, agitada e
insone, com lágrimas ameaçando aflorar em seus olhos. Talvez devesse caminhar um
pouco pelas muralhas para afastar a inquietação, como costumava fazer, apesar da
ventania.
— Venha.
A palavra ecoou como um repentino trovão pelo solar. A vontade de chorar
aumentou. Como era possível que a voz de Griffyn contivesse tanto calor quando ela
tinha certeza do que a aguardava caso se virasse? Recriminações frias, raiva e
ressentimentos velados.
Ela se virou, e as saias ondularam em torno dos tornozelos, até voltarem ao lugar.
Os olhos dele continham incrível intensidade na penumbra na entrada do quarto.
— Milorde?
— Volte.
Ela se aproximou sem argumentar, caminhando lentamente.
— Só criamos problemas quando estamos juntos — disse numa voz suave, trêmula.
— Exatamente.
— E, ainda assim, me quer ao seu lado?
— Sim.
Gwyn se adiantou na frente dele, sentindo a intensidade de seu olhar, enquanto
seguia pela escada e os corredores de pedra, iluminados pelas tochas nas paredes, até
os aposentos senhoriais.
Ele passou a tranca na porta que dava para a antessala e adiantou-se até o quarto
em silêncio, onde começou a se despir.
Gwyn parou diante da janela, espiando por um vão, observando o céu escuro a
tempo de ver um relâmpago cortando-o. Quando se virou, ele estava nu. Seu corpo
musculoso e viril reluzia sob a chama da única vela acesa.
— Venha para a cama. — Como ela não se mexesse, Griffyn tornou a falar num tom
grave. — Não tocarei você. — Deitou-se sem mais uma palavra. O único som era o do
vento uivando.
Talvez tivesse se passado uma hora, talvez menos, quando Gwyn finalmente se
deitou na cama ao lado dele e mergulhou num sono sem sonhos.

Ainda estava escuro quando Griffyn acordou. Lembrou-se de imediato que estava

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em casa. Tudo era como havia sonhado. Mas havia uma sensação de vazio que era de
enfurecer. E tinha a impressão de que Guinevere era parte da causa e a principal cura.
Observou-a aninhada sob as cobertas, ainda vestida, seu rosto belo e sereno
adormecido. O que devia fazer? Estava em casa com uma missão que renegara e uma
esposa que o odiava; sem mencionar que começava a perder o controle. Guinevere tinha
um temperamento forte demais para que aquele casamento fosse tranqüilo ou previsível,
mas esse não era o problema. Ele conseguiria encontrar um equilíbrio entre o respeito e
os arroubos de paixão, senso de humor e acessos de ódio quando essas emoções
conflitantes o tomassem de assalto?
E, se não conseguisse, como seria?
Mais precisamente, o problema era que ela era a filha de l'Ami, e não sabia se algum
dia seria capaz de perdoá-la por isso.
Mas queria. Já bastava do frio distanciamento, de querer e nunca encontrar.
Guinevere era tudo que ele nunca soubera desejar.
Ele se levantou e vestiu sua túnica. O ar estava frio. Colocou mais um pedaço de
madeira no fogo e atiçou-o. Depois, espiou por uma fresta na janela. Os ventos haviam
cessado sem trazer chuva, mas deixando uma onda de calmaria em seu lugar.
Deteve-se ali por um longo momento até que uma voz suave despertou-o dos
pensamentos.
— Griffyn?
Ele virou-se ligeiramente na direção da cama sem dizer nada.
—- Está tudo certo?
A pergunta era tão abrangente com uma gama de possíveis respostas tão ampla
que ele se limitou a confirmar com um gesto de cabeça.
— Às vezes, não consigo dormir e caminho pelo alto das muralhas. — A voz dela
soou num tom manso, mas sem vestígio algum de sonolência.
Griffyn olhou por sobre o ombro.
— Com que freqüência sente a necessidade de incomodar as sentinelas?
— Muita.
Ele se virou da janela e cruzou os braços sobre o peito.
— Com tanta freqüência, aliás, que os guardas já me disseram que devo lhes levar
algo da cozinha a cada vez que o fizer — acrescentou ela. — Desse modo, pago pelo
incômodo.
Griffyn lançou um rápido olhar à janela.
— A tempestade não veio.
— Caminharia comigo, milorde?
Gwyn afastou as cobertas e levantou-se. Estava com o vestido todo amarrotado e os
cabelos cacheados soltos e em desalinho.
Griffyn acabou de se vestir rapidamente e calçou as botas. Pediu a ela com um
murmúrio que não tornasse a prender os cabelos quando a viu tentar domar os cachos
com as mãos, e ela os deixou cair em torno dos ombros e das costas. Bastou uma breve
subida até a porta que dava para o alto do castelo. A noite estava fresca e límpida. Gwyn
ajeitou melhor o manto sobre os ombros quando saíram para o topo das muralhas da ala

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norte.
— Sinto-me muito bem quanto estou aqui em cima — murmurou.
Griffyn deslizou a palma da mão pela amurada sólida enquanto caminhavam
devagar. Era um bom castelo. Um bom lar. Correu os olhos pelas planícies e campos
agora iluminados pelo luar e pelas áreas de florestas mais escuras.
Ao pé de uma colina um tanto mais distante onde seu exército estava acampado,
avistou os contornos sombreados das construções simples do vilarejo e mergulhou em
lembranças ainda nítidas de seus oito anos de idade, quando sua vida fora perfeita ali.
Era como se aquela terra sempre tivesse pulsado em suas veias e continuasse assim.
— Eu costumava me sentir desse modo também — comentou, enfim.
O anseio nas palavras dele atraiu o olhar de Gwyn, mas não disse nada.
Caminharam ao longo das muralhas em silêncio, saudando as sentinelas pelas quais
passaram com acenos de cabeça. Pararam como num acordo tácito diante de um merlão,
com o vento bem mais brando soprando em seus mantos. Gwyn olhou para as colinas
distantes, colinas que sempre julgara suas. Até uma época, não houvera questionamento
sobre o que acontecera antes de ela estar ali, de quantos outros olhares tinham
percorrido aquelas terras com a mesma sensação que a dominava. Não houvera
passado, nenhum elo com ninguém. As coisas sempre haviam sido da mesma maneira.
Agora, tudo mudara.
Griffyn também andara pelo alto dessas muralhas, muito antes dela, cavalgara pelos
campos e colinas, fora um menino alegre naquelas terras. Como eram tristes, às vezes,
as reviravoltas que o mundo dava. Se ela tivesse sido tirada daquele lugar, seu coração
teria se partido em mil pedacinhos, oprimido por uma dor que teria durado para sempre.
Ali era seu lar.
E o dele também.
— Lamento muito — disse numa voz melancólica. Griffyn virou-se para observá-la
sob o luar.
— Lamenta o quê?
— As guerras, todas as perdas. O que aconteceu a você quando teve de deixar este
lugar tão belo. — Uma lágrima escorreu pelo rosto dela.
— Ora, não é culpa sua— falou Griffyn, surpreso. — Posso ser rude às vezes, mas
ao menos disso eu sei.
— Mas se eu fosse forçada a sair — explicou ela por entre as lágrimas que agora
eram copiosas —, meu sofrimento seria tão grande que acho que eu morreria.
— É uma dor exatamente assim, mas não morri e, agora, estou em casa outra vez.
— E eu estou contente.
— Está?
— Sim. Em toda esta desgraça de mundo, o fato de um homem poder regressar
para o seu lar, é algo maravilhoso, e fico contente.
Ele observou o belo rosto banhado de lágrimas.
— Bem, você me surpreendeu outra vez.
— Outra vez?
— Sim. Como fez nos arredores de Londres, no pátio do castelo e durante o jantar.
Convivi com você pelo espaço de dois dias e já me deu mais para pensar do que eu teria
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num ano de campanhas.


Gwyn soltou um riso trêmulo.
— Talvez seja porque não há muito em que se pensar numa batalha. Só se tem de
lutar, agir por instinto e usar toda a sorte e destreza para sobreviver. Não são coisas que
exigem grandes reflexões.
— Mas você me leva a grandes reflexões — murmurou Griffyn, correndo o polegar
com gentileza pelo maxilar dela. — O que é bom. Continue sendo como é. Gosto de
conhecer você cada vez melhor.
Gwyn fitou-o com intensidade, sabendo que aqueles olhos cinzentos eram sua
perdição. Era impossível resistir àqueles bonitos olhos que transmitiam tanto do que havia
na alma dele. Griffyn a fazia sentir coisas como nunca sentira antes; exceto quando
haviam estado juntos no ano anterior.
— Griffyn. Eu não queria...
— Não queria o quê?
Ela olhou para além da muralha.
— Não queria que capturassem você.
Ele assimilou as palavras em silêncio. E, então, exclamou:
— O quê?
— Não enviei Marcus e seus homens atrás de você. Foi um terrível acidente. Não
falei seu nome a eles de propósito, nem disse onde você estava.
— Não?
Gwyn sacudiu a cabeça, ainda olhando por sobre a muralha.
— Eu tentei...
— Tentou o quê?
— Impedi-los. — Gwyn falou numa voz tão baixa que Griffyn não poderia tê-la
ouvido se não estivesse parado diretamente atrás dela... como estava.
— Você tentou impedi-los — repetiu ele num tom suave. Roçou os dedos
gentilmente pela pele sensível do pescoço dela.
Gwyn respirou fundo.
— Por quê?
— Eu não sei. Não sei de mais nada.
Griffyn pressionou os lábios quentes contra o pescoço dela, arrepiando-a por inteiro.
— Sei de uma coisa, Olhos Verdes.
— O quê? — Ela soou ofegante porque ele passou o braço por sua cintura.
— Vai gostar do que estou prestes a fazer com você.
Gwyn virou-se para fitá-lo no momento em que o vento soprou e, sob o capuz
esvoaçante, reluzentes cachos negros emolduravam seu rosto que começava a corar com
as palavras.
Griffyn afundou a mão nos cabelos sedosos e afagou-lhe a nuca. Aquela mulher
inteligente, complexa, que pulsava de paixão seria sua esposa. E, de repente, não parecia
algo assim tão terrível.

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Apoiando-lhe a nuca, beijou-a nos lábios com gentileza. Gwyn deixou a cabeça
pender para trás, entreabrindo os lábios, completamente receptiva.
Não havia mais nada a esperar. Ele intensificou o beijo de imediato, não mais
provocando ou testando, mas vapossando-se. O sangue ebulia em suas veias. Explorou
ia boca dela com a língua, arrancando suspiros e gemidos que o excitaram ainda mais.
Percorreu o corpo dela com mãos impacientes, deslizando pela curva da cintura,
afagando as nádegas firmes, puxando-a mais para si. Gwyn rendia-se a cada gesto e
carícia, correndo as mãos pelos ombros e o peito dele com idêntico ardor.
Griffyn encostou-a junto à parede, gemendo quando mordiscou seus lábios e
pescoço, fazendo-a ofegar. Seu controle contido à custo vibrava nas coxas musculosas
que a prendiam contra a parede. Ela sentiu uma poderosa pulsação no espaço entre as
pernas e arqueou os quadris contra os dele.
— Não aqui — disse Griffyn, rouco, e pegou-a pela mão.
Quanto demorou para que voltassem ao quarto, ela não fez idéia, nem sabia se
haviam passado por sentinelas. Se o castelo tivesse sido incendiado não teria percebido;
seu próprio corpo estava em chamas.
Mas quando entraram nos aposentos, tudo voltou à sua percepção. O fogo baixo, o
cheiro leve de madeira queimando, uma vela grossa ainda ardendo no castiçal. A maneira
como Griffyn olhava para ela.
Afagou seu rosto com ternura e, depois, correu a mão ao longo de seu braço, um
toque leve que a arrepiou de imediato. Levou a mão até a cintura dela e a fez subir
devagar até o seio, que afagou demoradamente por cima do vestido.
Um tanto ofegante, Gwyn fechou os olhos e deixou a cabeça pender para o lado,
entreabrindo os lábios, arqueando o corpo na direção dos deliciosos afagos.
Griffyn estudou-a, excitado, ansiando por possuí-la. Guinevere era tão desejável e
irresistível que nada poderia detê-lo; desde que ela também o quisesse.
Tocou-lhe o rosto, e ela abriu os olhos, roçando a pele macia de encontro à sua
palma calejada.
— Lembra-se do que fiz com você antes? — perguntou numa voz tentadora junto ao
ouvido dela, enquanto a abraçava pela cintura. — Na estalagem?
— Sim...
— Vou fazer aquilo outra vez. E muito mais.
Gwyn suspirou de desejo, e ele começou a despi-la, livrando-a do vestido e da
combinação longa. Segurou-lhe os seios, admirando seu formato perfeito, as auréolas
rosadas. Afagou-as com os polegares até que a ouviu gemendo baixinho. Ajoelhou-se,
então, admirando-lhe o corpo perfeito, de curvas tão tentadoras e adoráveis, prontas para
o toque de um homem. Segurando seus quadris arredondados, encostou-a na parede
próxima. Com uma mão, manteve-a junto à parede e com a outra percorreu o corpo
quente livremente, afagando o ventre liso, a perna bem-feita, a parte interna da coxa. Ela
inclinou a cabeça para trás, fechando os olhos. Mas Griffyn queria que ela observasse.
— Olhe para mim, Guinevere.
Ela abriu os olhos e baixou o rosto de leve, ofegante, com os lábios entreabertos e
as mãos afundando nos cabelos dele com gentileza.
Griffyn encostou o cotovelo na parte interna de suas coxas, persuadindo-a a se abrir
para ele. E ela o fez. Entreabriu as pernas devagar. Ainda ajoelhado, ele deslizou uma

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mão para segurar-lhe as nádegas. Inclinando-se para a frente, correu a língua pela suave
abertura no adorável triângulo diante de si.
Ela estremeceu.
— Griffyn, não!
Ele segurou-a com mais firmeza, puxando-a para si, enquanto pressionava o rosto
de encontro a ela, deliciando-se com sua doce feminilidade, movendo a ponta da língua
com mais ímpeto.
— Oh, não — gemeu Gwyn, mas, dessa vez, o seu tom era de completa rendição.
Inebriado pela vitória, Griffyn intensificou as carícias com os lábios e a mão,
desvendando-lhe as partes íntimas e sensíveis com o toque hábil de seus dedos e de sua
língua, acariciando, estimulando.
Gwyn gemia, seu corpo se retorcia de encontro à parede e, agora, ele a segurava
com firmeza pelos quadris, enquanto continuava a proporcionar-lhe um prazer incrível
com seus lábios e língua experientes.
— Gosta disto?
— Oh... sim...
Longos momentos depois, Griffyn entreabriu-lhe mais as pernas. Lambendo e
acariciando o ponto onde o prazer era mais intenso, ele deslizou um e, em seguida, dois
dedos para dentro dela, afagando-a com um terceiro. Gwyn soltou um grito de deleite e
afundou mais as mãos nos cabelos dele. Espasmos começaram a percorrer seu corpo
com a intensidade de uma onda que a arrebatou com puro enlevo.
Griffyn observou-a enquanto era tomada pelo êxtase. Ela pendia a cabeça de
encontro à parede, seu rosto de contorcia de prazer, seu corpo estremecia
incontrolavelmente em incríveis espasmos e gritava seu nome sem parar. Levou-a, enfim,
para a cama e beijou-a na boca com paixão, suas línguas se entrelaçando sensualmente.
Arrancou as próprias roupas e deitou-se acima dela, apoiando-se nos cotovelos.
.
— Você é minha — sussurrou, rouco e inclinou-se para mordiscar um mamilo rijo.
Circundou-o com a língua molhada, acariciando-o e, então, sugou-o com avidez.
Gwyn gemia, ainda extasiada, seu corpo mal tendo se recobrado quando já era
submetido a uma nova e doce tortura. Ele cobriu seu outro seio com a boca, ministrando
as mesmas eróticas carícias.
— Abra suas pernas para mim — sussurrou.
Ela obedeceu de bom grado, ansiando por prolongar o deleite. Ele posicionou-se
acima de suas coxas trêmulas.
—- Você é minha — disse outra vez e, então, penetrou-a. Foi um movimento único,
determinado. O sexo apertado, escorregadio contraiu-se em torno do membro dele,
pulsando e pulsando. — Minha,
—- Sim... Sou sua...
Ele penetrou-a novamente e começou a mover o corpo lentamente.
— Oh, Griffyn — gemeu ela, mexendo os quadris, arqueando-os, acentuando a
união de seus corpos.
Os beijos que trocaram eram famintos, seus lábios e línguas se encontrando com o
mesmo erotismo que movia seus corpos. Eles ondularam numa cadência cada vez mais

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

rápida e ritmada, até que Gwyn sentiu-se novamente à beira do precipício vertiginoso e foi
como se despencasse de repente e então flutuasse. Os espasmos de Gwyn reverberaram
pelo corpo de Griffyn e disse o nome dela também sem parar, enquanto era tomado
simultaneamente por um fabuloso orgasmo.
Ficaram deitados lá longamente, até perderem a noção do tempo, exauridos,
ofegantes, com a pele transpirando ê o coração aos saltos. Gwyn foi tomada por uma
profunda sensação de pertencer a algo como nunca conhecera antes.
Estreitando-a nos braços, Griffyn sussurrou ao seu ouvido num tom agradável:
— Acho que, talvez, consigamos fazer isto dar certo. Ela riu, contente.
— Quando começaremos a fazer bebês?
Gwyn tornou a rir e abraçou-o com mais força. — Hoje mesmo.
— Mal posso esperar para ver vários enchendo este castelo.
Por algum tempo, conversaram trocando sussurros, falando de coisas simples, até
que o sono chegou e adormeceram um nos braços do outro.

Capítulo IV

Gwyn acordou gritando. Griffyn rolou para apanhar a espada do chão antes de abrir
os olhos, mas percebeu depressa que o som estridente partira de Guinevere, que estava
sentada ereta na cama.
Ele abraçou-a e acariciou seus cabelos, murmurando palavras ternas ao seu ouvido
a fim de acalmá-la.
— Foi apenas um sonho — repetiu algumas vezes. — Já passou.
Finalmente, Gwyn permitiu que o corpo rígido e gelado relaxasse, deixando-se
envolver pelo calor dele.
— Oh, foi um pesadelo horrível. Eu sonhei com o meu pai.
Griffyn empilhou alguns travesseiros junto à cabeceira, onde se recostou e sentou-a
em seu colo, aninhando-a junto a seu peito.
— Conte como são.
— Os sonhos?
— Sim.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Quer mesmo ouvir? — perguntou ela, fitando-o com olhos cheios de medo e
tristeza.
— Sim.
— Ele veio até a mim — começou ela com a voz embargada. — Está sempre tão
pálido e sem forças, deitado lá, mal se mantendo consciente. Como um espectro. Seu
rosto está virado para mim, com os olhos arregalados e fixos em mim. Fico vendo essas
imagens, no último momento dele, nítidas como se estivessem diante de mim agora.
— Mas não estão — declarou Griffyn num tom firme mas gentil. —Você está aqui
agora, comigo, e isso passou.
— Você tem razão. Mas eu o ouço no sonho. Repetindo o que havia me dito.
— O que ele diz? — Griffyn estreitou-a mais junto ao peito, acalentando-a.
Gwyn ainda não podia conter as lágrimas. Engoliu em seco para vencer o nó na
garganta.
— Cas gui — repetiu os sons ininteligíveis. — Cas. Gui. Sal. — Sacudiu a cabeça,
confusa. — Ele falou tão devagar e com tanta dificuldade. Não consegui compreender as
palavras, apenas alguns sons. Pensei neles centenas de vezes, mas nunca significam
nada. Depois ele disse "Sa" e repetiu o som, como se o estivesse entoando. Então, sua
voz falhou e essa foi a última coisa que me disse. Sa. Dos. E, em seguida, morreu.
Griffyn ficou imóvel. Ela deve ter notado como seus músculos se retesaram porque
ergueu os olhos para fitá-lo.
— Sabe o que isso significa?
Ele sacudiu a cabeça, mas as últimas palavras chamaram sua atenção. Sa. Dos.
Sagrados.
— Isso foi tudo? — perguntou, cauteloso.
Gwyn confirmou com um gesto de cabeça e ar infeliz.
— Sim, foi. Durante anos, mal falou comigo e, então, no final, foi o que resolveu
dizer. Coisas ininteligíveis.
Ajeitou-se melhor no colo dele, e Griffyn moveu o braço sem pensar para apoiá-la.
Sua mente rodopiava. Era o primeiro indício concreto que tinha da existência do tesouro
em Everoot. Então, algo estava ali. Por que Ionnes de l'Ami teria falado de "Sagrados" em
seu leito de morte se não existisse algo real e concreto sobre o que falar?
— Consegue dormir agora?
— S-Sim.
Griffyn manteve-a em seus braços protetores.
— Conte-me sobre esses sonhos quando os tiver novamente.
Ela suspirou.
— Lamento pelas vigílias noturnas que será obrigado a suportar.
Ele beijou-lhe afronte e a ponta do nariz.
— Não me importo. Conte-me se lembrar de algo mais que seu pai possa ter dito.
— Você ouviria o que meu pai teve a dizer? — indagou Gwyn, surpresa.
— O poder das palavras dele desaparecerá se falar nelas, apenas isso.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Ela assentiu, mas seus olhos tornaram a se encher de lágrimas.


— Acho que nunca me deixarão. Já vêm me assombrando há tanto tempo.
Assim, Griffyn deitou-a a seu lado e a fez esquecer as palavras sussurradas de um
moribundo. Mais tarde, antes de adormecer, ela murmurou ao seu ouvido:
— Direi a você tudo o que lembrar.
Ele deitou-se de costas com as mãos sob a cabeça e permaneceu acordado por um
longo tempo com a mente cheia de inquietação, o coração acelerado. O tesouro estaria
mesmo escondido ali?
Que mal haveria em apenas começar a procurar?

Griffyn iniciou sua busca na manhã seguinte. Esta não foi a única coisa que fez, nem
mesmo a primeira, mas nem tampouco foi a última, fato que o aborreceu ao extremo.
Lenta e metodicamente, antes que a claridade do dia surgisse no horizonte, ele
estava na câmara onde eram guardados documentos antigos. Inúmeros baús e cofres
enfileiravam-se no chão de pedra. Depois de ter colocado várias tochas nas arandelas de
ferro nas paredes, começou a abrir um por um. Ele retirou um feixe de documentos do
primeiro baú. Sentiu um nó no estômago. Aquilo falaria sobre o tesouro? Ele sequer
conseguiria reconhecer os pergaminhos como tal.
Era onde precisava contar com Alex. Treinado e educado sobre os mistérios antigos,
Alex era uma Sentinela, um daqueles que protegiam o Guardião. Ele conhecia cada
nuança da herança indesejada de Griffyn, cada rumor, segredo, ou lenda sobre Carlos
Magno e o legado e o que Griffyn supostamente era. Griffyn levou os pergaminhos para
perto de uma tocha e posicionou-se debaixo da luz oscilante, lendo.
Um longo tempo depois, conforme o murmúrio abafado dos sinos da manhã
penetrou pelas paredes de pedra da câmara, cada baú e cofre havia sido aberto e
verificado. Não continham nada além de antigos registros de contas e papéis de
propriedades de terras, assinados com um X por homens que se haviam julgado
poderosos e, então, morrido como todo mundo.
Perplexo e exausto, Griffyn sentou no chão de pedra, encostando-se na parede, e
olhou em torno da sala gelada, vazia. Precisava conversar com Alex.
Uma balsâmica chuva fina começara a cair naquela manhã para o ânimo de todos
que iniciavam suas tarefas no castelo. Griffyn conduziu Alex até uma parte isolada no alto
das muralhas, até onde foram conversando sobre as necessárias reformas que já
começavam a ser feitas no castelo e onde poderiam, enfim, falar sobre o importante
assunto em privacidade.
— Andei procurando alguma coisa — comentou com um suspiro.
— E o que encontrou?
— Nada. Mas desconfio que há fechaduras que minha chave não abre. Não é isso?
Eu tenho uma das chaves que formam a chave principal, não é mesmo?
Alex meneou a cabeça loira.
— Existem três chaves, cada uma se encaixando dentro da outra. A sua é a de ferro,
a chave externa.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— E do lado dentro?
— São colocadas uma chave de aço e uma menor de ouro no centro.
— Por que não me disse isso antes?
— Eu não sabia que você estava procurando. Quase arrancou minha cabeça só por
eu sugerir que o fizesse. Por que não foi me chamar?
— Eu queria estar sozinho.
— Sei. E por que resolveu procurar o tesouro assim de uma hora para a outra?
Griffyn deu de ombros.
— Lady Gwyn me falou de um sonho, de coisas que o pai dela disse.
— Você acredita em Ionnes de l'Ami e não no seu próprio pai?
— Não confio em ninguém, Alex, a não ser em você.
Com certeza não nos dois homens que foram arruinados por tudo isso.
— É verdade que a cobiça motiva os homens, mas outras coisas também.
Griffyn desviou o olhar para o vale do Ninho. Na distância, camponeses seguiam
para o trabalho nos campos. Uma esposa podia motivar um homem, supôs. Ou uma
família.
— Estevão vai assinar um tratado com Henrique Plantageneta — foi o que disse,
porém.
Alex balançou a cabeça devagar, acompanhando o novo rumo da conversa.
— Pensei ter visto mesmo outro mensageiro chegando ao amanhecer. Então,
Estevão se renderá.
— Dentro de poucas semanas, no mais tardar. — Ótimo. A guerra terminará.
— Na maior parte da Inglaterra, talvez. Ainda tenho de contar a Guinevere.
Alex soltou um riso forçado que atraiu um olhar de soslaio de Griffyn.
— Não precisa me bajular no que diz respeito a Guinevere. Sei que não gosta dela.
— Não é isso, Pagão. Pelo que posso ver, ela é corajosa e determinada, admirável
como dama e líder. Não é que eu não goste de lady Guinevere. Não confio nela.

Guinevere acordou sozinha no quarto e afastou as cobertas, percebendo que o ar


estava permeado por um frescor agradável. Dormira até mais tarde do que o costume, a
julgar pela claridade que adentrava pelo quarto, mas por que tinha um ar cinzento?
Intrigada, adiantou-se até a janela, olhando pelas frestas. Estava chovendo! Ela
abriu a janela, colocando as mãos para fora, sentindo o maravilhoso toque da chuva fina
em sua pele. Estava chovendo! A seca chegara ao fim.
Vestindo-se em menos de dois minutos, desceu rapidamente do quarto, rumando
diretamente ao salão principal. Para seu desapontamento, Griffyn não se achava lá, mas
logo acabou descobrindo, através de um dos soldados, que estava no alto das muralhas.
Minutos depois, ela o avistou num dos cantos mais isolados, apoiado num merlão e
conversando com Alex. Apontava para alguns pontos das muralhas e na direção do pátio
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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

e sorria, animado, provavelmente conversando sobre o início das reformas. Uma onda de
afeição dominou-a.
Ele a avistou por sobre o ombro de Alex e continuou falando, mas agora seu olhar
repousava nela.
— Milady — sorriu-lhe com ar de cumplicidade.
— Milorde — murmurou Gwyn e, então, virou-se para responder ao cumprimento
educado de Alex. — Está chovendo! — exclamou, enfim, mal cabendo em si de
contentamento.
— De fato— sorriu Griffyn e pegou sua mão. Ela sentiu de imediato o calor do
contato espalhar-se por seu corpo, o que despertou vividas e tórridas lembranças da noite
anterior.— Venha. Olhe por sobre a beirada.
Ele indicou a base, onde os trabalhos de reforma começavam, O pai dela tivera o
dinheiro necessário, mas não o tempo para os reparos necessários no castelo, que
acabaram se acumulando. Ela própria não tivera nem uma coisa, nem outra.
— Logo, os maçons chegarão — disse Griffyn. — Além dos demais reparos, a torre
desta ala e a capela serão reconstruídas. E lá adiante, construiremos a cozinha.
— Já temos cozinha.
— Sim, mas é antiga e de madeira. Teremos uma cozinha de pedra, bem mais
ampla e funcional. Passaremos a receber convidados. Muitos. Seus serviçais vão precisar
de mais espaço.
Ela meneou a cabeça, ainda sorrindo.
— De fato, precisam. Tem razão.
Griffyn olhou para o vale com determinação.
— Este castelo será forte novamente.
— Será maravilhoso — concordou Gwyn, sorrindo, orgulhosa e, então, olhou de
relance para Alex. Ele os observava com uma expressão indecifrável nos olhos, mas
certamente não amigável. Virando-se, fez uma breve mesura a Griffyn. — Eu não os
interromperei mais. ― Milorde. Sir Alex.
Virando-se, caminhou na direção da torre sul, sabendo que ele a seguiria. Chegando
à torre, pousou as mãos na parede de pedra e ergueu o rosto para sentir a chuva fina que
caía gentilmente sobre as terras. Gostaria de não ter de entrar mais. Poderia ficar ali
longamente, sob a deliciosa chuva, e esperar por Griffyns mesmo que tivesse de ser por
cem anos.
Griffyn mal esperou um minuto inteiro antes de ir atrás de Gwyn. Quando chegou à
torre sul, encontrou-a recostada na amurada com os braços para trás e as mãos apoiadas
na borda, sob a chuva mansa.
— Você pode sentir? É como prata no ar! — exclamou ela.
Em vez de responder, ele se virou e chamou Alex. Gwyn observou enquanto ele
desceu até metade das escadas e se agachou para conversar com o amigo, que
começara a subir em resposta. Griffyn levantou-se, deu um tapinha nas costas de Alex, e
voltou até a torre.
Aproximou-se e, sem dizer nada, tomou o rosto dela entre as mãos e beijou-a com
tanta ternura que a deixou quase sem fôlego. Como uma brisa, roçou os lábios nos dela,
dois beijos, três e, então, com todo o vagar, explorou a maciez de sua boca com a língua,

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

estimulando todos os pontos sensíveis de Gwyn, onde já ansiava por ser tocada.
Abraçou-o pela cintura, deliciando-se com o contato de seu corpo sólido, viril. O
beijo se intensificou e ele foi conduzindo-a para trás, moldando-a a seu corpo. Longe de
quaisquer olhares curiosos, encostou-a na parede de pedra da torre, começando a
percorrer seu corpo com mãos insaciáveis.
— Não — sussurrou Gwyn.
— Sim — disse-lhe ele ao ouvido.
Rapidamente, as reações sensuais se apoderavam dela, o líquido do prazer já
umedecendo a área central entre suas pernas, os joelhos amolecendo.
— Não — protestou numa voz fraca.— Não aqui.
— Alex está de guarda na escada.
— Pagão, não!
Ele ergueu a cabeça.
— Ora, ainda ontem era "Griffyn" — lembrou-a com um sorriso malicioso. — Perdi
tanto em um dia?
Gwyn sacudiu a cabeça, tentando baixar a barra do vestido. Ele a estreitou mais
junto a si, correndo a mão por seu rosto. — Você é tão linda.
Fechou as mãos quentes sobre as dela em seguida, fazendo-a erguer a saia em vez
de baixá-la. Segurou seus quadris, então, nus sob o vestido e a combinação. Ela sentiu
uma prazerosa contração entre as coxas, enquanto ele mordiscava seu pescoço e
deixava uma trilha de beijos quentes e molhados na sua pele.
—- Você também quer, não é?
— Eu... — Gwyn sentia-se, de fato, muito próxima da rendição.
— Não quer? Foi por isso que veio me procurar, não foi?
Griffyn pressionou-a contra a parede, entreabrindo-lhe as pernas com o joelho,
tomando sua boca com um beijo faminto. Com facilidade, ergueu-a, fazendo com que ela
o cingisse pela cintura com as pernas. Baixou a própria roupa de modo que seu membro
ereto latejasse entre ambos. Guiou-o até o sexo dela, e Gwyn abraçou-o pelo pescoço e
começou a mover seu corpo num lento vaivém. Ele inseriu os dedos no centro de sua
feminilidade, encontrando o doce líquido do desejo.
Fitou-a com um sorriso sedutor.
— Não me diga que não quando seu corpo diz que sim.
Num movimento ágil e suave, penetrou-a com um gemido de satisfação. Apoiada de
encontro à parede e cingindo-o com as pernas, Gwyn afagou-lhe o peito musculoso,
fascinada em observá-lo no auge do desejo. Ele era magnífico com seus traços bonitos
ainda mais irresistíveis irradiando aquele desejo incrível por ela, enquanto se movia
habilmente, produzindo-lhe onda após onda de prazer.
— Oh, por favor...
— Diga-me o que quer. Diga...
— Por favor. —-Ela suplicava, seu corpo estremecendo no limiar do. êxtase.
— Diga — sussurrou ele, movendo-se mais devagar. Abraçando-o pelo pescoço, ela
deixou a cabeça pender para trás sob a deliciosa chuva fina, o corpo movendo-se no
mesmo ritmo da penetração de Griffyn, que a segurava agora pelos quadris com firmeza.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Oh...
— Diga o que quer.
Ela sussurrou as palavras que ele lhe ensinara na noite anterior.
— Me leve ao clímax.
Ele, então, intensificou o ritmo e moveu os quadris freneticamente e Gwyn sentiu o
corpo estremecer, arrebatado por puro deleite. Depois que o próprio êxtase também o
enlevou, Griffyn abraçou-a com força longamente até que seus corações voltassem ao
normal.
Colocou-a, enfim, no chão com gentileza, ajeitando as roupas dela e, depois, as
suas.
— Você gostaria de uma feira? — perguntou quando se entreolharam.
— Como?
— Um mercado, uma feira, Aqui no castelo.
— Não há feiras aqui há anos.
— Eu sei, mas estou perguntando se gostaria de uma.
— Sim, muito.
Ele sorriu, satisfeito.
— Eles estarão aqui para o casamento.
— Quem?
— Os mercadores. E artesãos. Uma feira, uma celebração, para preencher a
semana após o nosso casamento.
— Griffyn, não há nenhum...
— Haverá uma porção deles. E virão todos para uma grandiosa feira no Ninho. Para
você. Gostaria disso?
No passado, houvera feiras e mercados no Ninho, ocasiões festivas com
mercadores, artesões e camponeses de um raio de muitos quilômetros. Mercados
semanais, mercados especiais e uma grandiosa feira anual que atraíra todos para o
Ninho e, durante aquele tempo, ao menos, parecera haver paz no mundo.
Mas isso também cessara anos antes. As guerras haviam sido longas demais, o
dinheiro, escasso. Então, o pai dela morrera e não houvera mais festividade alguma.
Griffyn poderia trazer isso de volta também? Tudo estava diferente. Cada parte dela,
corpo, mente e alma, estava sendo tocada; o que curava antigas dores e renovava a
esperança para o futuro.
— Sim — respondeu com um sorriso contente. — Eu gostaria muito.
Eles voltaram abraçados na direção de seus aposentos, enquanto a chuva
continuava caindo mansamente como um manto sobre o mundo. Gwyn tinha certeza de
que experimentava a primeira paz que tivera em doze anos.
Mas durou pouco...
Aproximavam-se de uma das portas no alto que conduziam das muralhas até o
castelo. Griffyn abriu a porta pesada e a segurou, comentando no momento em que ela
passou sob seu braço estendido:

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Chegaram notícias. Talvez tenha sido o tom dele, ou algum outro meio de
comunicação que ia além das palavras, mas Gwyn soube imediatamente que o plácido
idílio não passara daquilo, apenas um breve intervalo.
— Que notícias? — perguntou com um sorriso forçado. Notando sua expressão, ele
sugeriu com ar cauteloso:
— Talvez seja melhor conversarmos no nosso quarto.
— Claro.
Tensa, Gwyn seguiu na frente rumo ao quarto, começando a ajeitar taças e outros
itens deixados fora do lugar na noite anterior. Na noite anterior, quando ele a lembrara
que o coração dela ainda não estava morto.
Ouviu os passos dele junto à porta e acabou de ajeitar um manuscrito numa
prateleira para que se mantivesse bem enfileirado com os demais volumes.
— Chegaram notícias — repetiu Griffyn, entrando devagar no quarto. Fez uma
pausa antes de acrescentar num tom cauteloso: — Notícias sobre Estevão.
Um pequeno grito de horror escapou dos lábios de Gwyn. Ele a observou com uma
expressão peculiar em vê-la tão extremamente agitada.
— O que há sobre ele?
Griffyn aproximou-se mais e cobriu-lhe as pequenas mãos com o calor da sua.
— Ele assinará um tratado com Henrique. No início de novembro, em Winchester.
Gwyn libertou as mãos e adiantou-se até a janela.
— Que tipo de tratado?
— Do tipo que faz de Estevão rei apenas no nome. Ele renderá o país, condado por
condado e acatará as decisões de Henrique em todos os assuntos de estado. Todos os
castelos ilícitos construídos durante seu reinado serão demolidos.
Gwyn meneou a cabeça devagar, parecendo aturdida.
— Então, Henrique será o rei.
— Sim.
Gwyn olhou pela janela, para a chuva mansa que ainda caía num vivido contraste
com o turbilhão que havia agora dentro de si.
— Será melhor assim — assegurou ele.
— Mas como tem certeza disso?
— Porque, é como as coisas têm de ser.
Ela balançou a cabeça com ar entorpecido, sem olhar para trás.
Ouviu o som de passos em sua direção e, então, cessaram. Após um momento,
retrocederam e Griffyn fechou a porta quando saiu.
Poucos minutos depois, gritos ecoaram pela manhã. Alguém chamava Griffyn.
Outro mensageiro acabava de chegar.
Gwyn ficou olhando pela janela durante talvez meia hora. A chuva diminuiu,
tomando a forma de garoa e, então, cessou.
O rei Estevão sabia que seu filho não estava morto. Qualquer acordo ou tratado
seria apenas uma manobra, uma estratégia para ganhar tempo, tempo para que

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Guinevere ajudasse o príncipe a sarar e o libertasse para salvar o rei dela e seu reino.
Fizera uma promessa. Dera sua palavra. O que havia de diferente agora? Nada. Seu
dever continuava sendo o mesmo, permanecia graças aos seus sentimentos, ao seu
juramento, ao fato de ter um coração.
Ele estava oprimido em seu peito pela enormidade da situação. Precisava de ajuda.
Tinha de ir fazer uma visita a Marcus.
O sol brilhante começava a se filtrar pelas nuvens que já iam se dispersando. Seria
um dia bonito.
Quando Griffyn desceu as escadarias, William de York, o senescal, conduziu-o até
uma das entradas do salão principal, onde um mensageiro o aguardava. Alex reuniu-se
logo em seguida a eles. Griffyn conduziu o jovem mensageiro até uma câmara particular
ao longo do amplo corredor e indicou a Alex que aguardasse do lado de fora, fazendo um
gesto na direção de onde um nervoso William permanecera. O semblante de Alex
endureceu, mas ele assentiu, colocando-se ao lado da porta no corredor para que
ninguém mais ouvisse ou interrompesse.
— Quais são as notícias? — perguntou Griffyn ao jovem mensageiro que se
apresentou como Richard quando estavam a sós.
— Trago uma mensagem de um cavaleiro do norte, milorde.
— De quem?
— Meu mestre deu-me ordens para dizer apenas que o senhor não o conhece.
— E qual é a mensagem?
O rapaz entregou-lhe um rolo de pergaminho. Griffyn verificou o grosso lacre de cera
vermelha, rompeu-o e abriu o pergaminho.

Lorde Everoot,
Ouvi que cavalgou para o norte para retomar o Ninho e tudo que há nele. Acabei
encontrando algo que talvez queira. Ou precise. É um objeto bem pequeno, pequeno o
bastante para caber numa fechadura. O jovem Richard tem ordens para aguardar a sua
vitória acampado e, depois, entregar esta mensagem e esperar sua resposta.
Agradeço por sua atenção.
De alguém que tem algo que o senhor quer.

O coração de Griffyn disparou, como se tivesse mantido esperança sobre essa exata
possibilidade e ela tivesse surgido agora repentinamente.
Poderia. ser um truque, evidentemente. Da parte de alguém que sabia demais.
Olhou para o mensageiro.
— Onde está esse seu mestre?
— Em Ipsile-upon-Tyne, milorde. Na taverna Galo Vermelho. Esperando sua
resposta.
— Está à minha espera?
— Sim, milorde, caso julgasse adequado... Griffyn já se adiantava até a porta.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Partiremos em breve.
Ele abriu a porta e quase colidiu com Alex. — Tenho de resolver um assunto —
disse-lhe. — Prepare a minha guarda pessoal. Irei a Ipsile-upon-Tyne. Alex observou-o
com estupefação.
— Pagão? Ipsile? Mas o que...
Griffyn já seguia pelo corredor, dando ordens por sobre o ombro.
— Partiremos dentro de uma hora. Provisões para quarenta homens. Mantenha as
muralhas reforçadas com mais de nossos homens e de Everoot. — Ele atravessava o
salão principal, com o mensageiro e Alex nos seus calcanhares. — Dê de comer e beber
ao jovem Richard e uma nova montaria, Ele irá de volta comigo. Diga a Fulk que quero
que vá também. Quanto a você, Alex, preciso que fique aqui.
Alex parou abruptamente como se alguém tivesse puxado suas rédeas. Griffyn
deteve-se ao lado dele.
— Pagão— disse num tom de urgência —-, devo ir com você. Se isto estiver
relacionado de alguma forma ao... — Lançou um olhar a William, que estava por perto
àquela altura. — Entende ao que me refiro e preciso saber a respeito. É algo da maior
importância.
— Como também o é manter no Ninho alguém em quem confio, Alex. Chegamos
aqui dois dias atrás e precisamos de um exército para entrar. Não posso deixar o castelo
desprotegido. Os homens devem ser organizados, ordens dadas e cumpridas. A presença
de Sauvage tem de ser sentida. Devo confiar isso a outro se não a você?
Alex engoliu em seco. Olhando para o chão, sacudiu a cabeça.
— Não, milorde. Cuidarei de tudo. Griffyn deu-lhe um tapa no ombro e prosseguiu.

— Você tem de ir? Griffyn subira até os aposentos senhoriais para se despedir de
Gwyn e reunir o que precisava, enquanto seu escudeiro, Edmund, preparava Noir para a
jornada.
— Sim, é preciso.
— Mas agora? — persistiu Gwyn, achando que era uma tola. Aquela não era uma
resposta divina às suas preces? Griffyn se ausentaria. Ela poderia fazer uma visita a
Marcus. Então, por que estava tentando convencê-lo a ficar? — Acontece apenas que
isso está tão próximo ao... ao...
Ele sentou-se na beirada da cama, calçando as botas.
— Próximo ao quê? Ela sacudiu a mão no ar.
— Simplesmente é um mau momento para me deixar!
— Por quê?
— Por causa do nosso casamento, acho eu.
Griffyn levantou-se e, abraçando-a pela cintura, beijou-a nos lábios.
— Seu ardor vai diminuir? — perguntou em tom de gracejo.
— Não!
— Ótimo, nem o meu, eu asseguro. — Ele estudou-a atentamente, então. — Você

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

está se sentindo bem? Não está... — Seu semblante iluminou-se de repente. — Não acha
que já está esperando uma criança, não é?
— Não! — Ela quase gritou.
Griffyn afastou-se um pouco e franziu a testa enquanto a olhava.
— Bem, não sei o que a deixou nesse estado de espírito, mas... Tenho de ir. Ei, não
está preocupada comigo e com as belas donzelas de Ipsile-upon-Tyne...
— Não!
— Foi apenas uma troça. Quer, por favor, parar de gritar comigo?
Ela meneou a cabeça e respirou fundo, soltando o ar na forma de um suspiro
trêmulo.
— Está certo. Apenas é tão cedo...
— Eu voltarei logo. Nós nos casaremos e iremos juntos a Ipsile-upon-Tyrie e a
qualquer outra cidade do norte que você deseje visitar. Temos mais de duas semanas até
o casamento. Estarei de volta dentro de dois dias. — Griffyn tornou a beijar os lábios dela
e soltou-a.
— Por favor, não vá — sussurrou Gwyn, mas ele já havia deixado o quarto.

A tabuleta gasta de madeira oscilando na escuridão do lado de fora da taverna tinha


a figura de um galo vermelho que dava nome ao lugar. Fulk e Griffyn achavam-se em
frente à taverna de ar decadente, ponderando não apenas se seria prudente entrarem,
mas também questionando a sensatez do homem que os enviara até ali. As paredes de
madeira do lugar pendiam precariamente para a direita. Ficava incrustado entre dois
outros estabelecimentos da mesma categoria inferior e tomado pelo mesmo tipo de
freguesia.
— Já estive em lugares piores — anunciou Fulk, dando de ombros.
— Eu também —- disse Griffyn e concluiu que era melhor entrarem de uma vez por
todas. Suas espadas não os desapontariam, se preciso fosse, e seus homens haviam
ficado de sobreaviso por perto.
A taverna consistia na maior parte de espaço aberto, repleta de homens em vários
estágios de embriaguez e algumas mulheres cobertas de ruge. Havia um balcão comprido
nos fundos com dois atendentes e umas sete ou oito mesas espalhadas ao redor. Ambos
ocuparam uma a um canto que acabara de ficar vazia depois que Fulk passou pelo balcão
para apanhar duas canecas de cerveja.
Após dezoito anos de guerra civil na fronteira entre duas nações hostis, foram
acompanhados por olhares cautelosos e desconfiados, mas Griffyn não se deu ao
trabalho de esclarecer que agora era, de fato, o senhor deles. Como esperara, a
curiosidade em torno da entrada deles logo se dispersou.
Poucos minutos depois, um homem abriu caminho por entre a multidão que
apinhava a taverna e se aproximou da mesa de ambos.
— Milorde — disse numa voz baixa. — Vejo que veio. —Me chame de Pagão —
respondeu Griffyn depressa e, então, quando o observou mais atentamente, sentiu um nó
no estômago, reconhecendo o homem misterioso que enviara o mensageiro.
De Louth. Era De Louth, o cúmplice de Marcus, aquele que tentara raptar Guinevere

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

na estrada de Londres e que quase matara p próprio Griffyn,


Ele se levantou, controlando a respiração e levando a mão à espada. Fulk também
se levantou, e o ar ficou carregado de tensão, preparando-os para uma luta.
— De Louth — disse Griffyn e, então, correu os olhos em torno da taverna. Havia
vários grupos de homens por toda a parte, bebendo, rindo, jogando dados em cima das
mesas. Ninguém parecia interessado naquele canto do estabelecimento. Voltou a olhar
para o homem.
— Não tem nada a temer de mim — declarou De Louth num tom manso. — Dou
minha palavra. — Manteve-se a alguns passos da mesa com as mãos espalmadas,
demonstrando que não carregava arma alguma.
— Você me enviou uma mensagem? — indagou Griffyn sem baixar a guarda.
— Sim.
— Por quê?
— É o que estou aqui para dizer.
— Em nome dele?
— Não estou aqui a serviço dele, mas por conta própria.
— Endshire não sabe que você está aqui?
— Se soubesse, cortaria minha língua. E meu membro. Griffyn esboçou um sorriso.
— Então, seu mestre não pode confiar em você, mas eu deveria?
— Pode acreditar em mim ou não. Mas que mal haverá em me ouvir?
O corpulento Fulk cruzou os braços sobre o peito.
— Haverá mal se formos atacados por trás enquanto ouvimos.
— Não é uma emboscada — assegurou De Louth. — Estou aqui sozinho. — Olhou
para Griffyn. — Quer ou não ouvir o que tenho a dizer?
Griffyn mantinha a mão no cabo da espada e a atenção redobrada. De Louth podia
ou não estar tramando algo. O único meio de descobrir era ouvindo-o.
Olhou deliberadamente na direção da coxa do cavaleiro, onde o atingira com uma
flecha na estrada do rei um ano antes. Havia um sorriso irônico no rosto dele quando
tornou a olhá-lo.
— Ainda dói, se isso o deixa feliz.
— Um pouco.
Griffyn olhou em torno da taverna uma última vez e, então, fez um gesto para que
todos se sentassem.
— E então? O que tem para mim?
De Louth tirou algo de um saco que levava à cintura e segurou-o acima da mesa.
Era uma corrente de onde pendia uma chave.
O coração de Griffyn se acelerou de imediato e a cabeça pareceu rodopiar. Uma
chave de prata. Não, era de aço. E se encaixaria. Soube que sim. Quase instintivamente.
A chave de aço se encaixaria dentro da de ferro que levava ao pescoço, e a chave
principal, aquela que abriria a porta dos Sagrados, estaria um passo mais perto de ser
completada.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Como encontrou isso? — perguntou com esforço para manter a voz inalterada.
De Louth pousou a corrente na mesa.
— Eu a peguei.
— De quem?
— Enshire.
— Marcus! Como, afinal, essa chave foi parar nas mãos de Marcus?
— Ele a roubou. Da condessa. No ano passado. Eu vi.
— Ele a tirou dela?
— Não pessoalmente. Ela já havia fugido quando chegamos lá. Mas a chave estava
caída no chão de seu quarto. Pareceu ter sido deixada para trás por acidente.
— E Marcus a encontrou — disse Griffyn devagar, tentando imaginar o momento em
que Marcus se dera conta do que tinha em seu poder. — Deve ter ficado contente.
— Sim, pareceu eufórico — concordou De Louth, torcendo os lábios. — À chave
pareceu importante demais para ele. Como parece ser para você. E para o sujeito que
tentou comprá-la de mim na semana passada.
Griffyn ficou imóvel.
— O quê?
— Alguém tentou comprá-la de mim há cerca de uma semana.
— Quem?
— Não sei. Nós nos encontramos num beco escuro. Ele não falou muito. Não
conseguiria reconhecê-lo agora, mesmo se estivesse aqui. Havia um detalhe, porém.
Percebi quando ele enfiou a mão dentro do manto para pegar o saco de dinheiro. Ele
tinha uma tatuagem de uma águia do lado esquerdo do peito, logo acima do coração.
Griffyn e Fulk se entreolharam.
— Estava disposto a pagar muito pela chave — prosseguiu De Louth.
— E por que não a vendeu a esse tal homem?
— Não confiei nele.
— Adquiriu uma consciência admirável ao longo do último ano — observou Griffyn
secamente.
De Louth deu de ombros.
— Consciência? Não sei. Eu precisava do dinheiro. E, para começar, a chave não
pertencia a Marcus.
— Então, por que não a vendeu?
O cavaleiro soltou um profundo suspiro.
— Acho que minhas respostas não estão servindo milorde, mas são as únicas que
tenho. Não confiei nele.
— Por que está fazendo isto?
— Ele a roubou da condessa. A chave é dela... ou sua, agora. Não de Enshire.
— E você está cansado de todos os roubos, não é? — As palavras de Griffyn eram
zombeteiras, mas seu tom, não. Nem tampouco bondoso. Apenas impassível.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Estou cansado de ver as pessoas sofrendo — respondeu De Louth


inesperadamente.— De ficar observando.
— Por quê?
Ele ficou vermelho e sacudiu a mão no ar.
— Eu não sei! Tive uma filha. Minha esposa morreu. Eu não sei. Apenas fique com a
maldita coisa, sim?
Griffyn pegou a chave. Fulk empurrou sua caneca de cerveja pela mesa na direção
de De Louth, que assentiu e sorveu uma longa golada.
— E por que entrou em contato comigo? — perguntou Griffyn, correndo o dedo pela
chave.
— Já disse, eu vi Endshire pegando a chave da condessa. Sabia onde era o lugar
ao qual pertencia. Foi roubada de Everoot e a Everoot está sendo devolvida.
— Mas você não enviou um mensageiro à condessa; enviou-o a mim,
De Louth observou-o com ar confuso.
— O senhor é Everoot, milorde.
— Me chame de Pagão — disse ele, embora ninguém os estivesse ouvindo, A
taverna estava cada vez mais barulhenta e tumultuada. Logo, ás brigas de bêbados
começariam. Era momento de ir.
— Conheci seu pai.
Griffyn despertou dos pensamentos com um sobressalto.
— O que disse?
— Seu pai — repetiu De Louth. — Eu o conheci. Não gostava muito de Endshire.
— Não, é verdade...Quanto quer pela chave?
De Louth esvaziou a caneca e passou as costas da mão pela boca.
— Eu ia citar um preço que o faria cair para trás. Uma quantia que me deixaria muito
bem na minha velhice. Mas acho que prefiro outra coisa. Acolha minha filha no seu
castelo quando tiver idade para ficar sob a sua tutela. Para se tornar uma das damas de
companhia quando crescer. Crie-a no caminho do bem e em segurança. Com certeza,
não consigo fazer isso. — De Louth sorriu com amargura. — Não sei nem sequer
escolher um bom mestre.
— Você poderia escolher outro agora. De Louth levantou-se e sacudiu a cabeça.
— Não. Fiz um juramento.
— Você roubou isto dele — apontou Griffyn.
— Quem disse que tirar essa coisa dele não foi lhe fazer um bem? Vi a maneira
obcecada como a queria. Como o homem da tatuagem a queria. Pareceu ser algo que
tirava a paz. Então, temos um acordo?
Griffyn assentiu.
— Um abrigo seguro para a sua filha quando tiver idade para ficar sob a tutela de
Everoot.
— Sim. Daqui a sete anos.
Griffyn ergueu os olhos com ar surpreso.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Quantos anos ela tem? De Louth colocou seu manto.


— Ela acabou de nascer. Há duas semanas. Tenho de ir.
Desapareceu, então, na multidão.
Griffyn e Fulk caminhavam lado a lado rumo a uma estalagem, depois que
encontraram alguns dos homens logo além da taverna e informaram que estava tudo em
ordem e poderiam se reunir aos demais no acampamento.
— Onde é a sua, Fulk? — disse Griffyn num tom manso.
O cavaleiro balançou a cabeça, como se estivesse esperando a pergunta. Parando
de caminhar, baixou um pouco a frente da cota de malha e da túnica, mostrando a
tatuagem de águia centralizada no alto do peito, um pouco abaixo do pescoço.
Griffyn fez um gesto de assentimento e ambos continuaram caminhando.
— Nós também caímos em tentação de vez em quando, milorde, como todo mundo.
— Todas as Sentinelas têm essa tatuagem? — perguntou Griffyn num tom soturno.
— Sim. Mas não no mesmo lugar. Nós o escolhemos, não ao dever, mas o local
onde fica marcado em nós.
— Por que aí?
— A minha fica a meio caminho entre a minha cabeça e o meu coração, que é onde
melhor está.
— Entendo. E você tem certeza que Gwyn não sabe de nada disso, Fulk?
— Absoluta. Lady Guinevere não sabe de nada.
— Desconfio que devo a você por isso.
— Não me deve nada, milorde. Eu mesmo estou pagando antigas dívidas. Talvez
não queira ouvir isto, mas se eu tivesse podido, teria contado a lady Gwyn. Acho que ela
tem o direito de saber.
— Acho que seria terrivelmente perigoso.
— Sim, para cada lado que nos viramos, há perigo. Você é o Herdeiro. É assim que
as coisas são.
O perigo era o menor dos problemas, ponderou Griffyn. Era do anseio velado que
tinha medo. Já podia senti-lo crescer em seu íntimo. Apertou a corrente com a chave,
ainda na sua mão. Agora, eram duas. Duas das chaves que formam a chave principal.
— São três, não é mesmo, Fulk? — perguntou de repente. — As três chaves que
formam a chave principal.
— Sim. Três chaves que, quando encaixadas uma na outra, abrem o portal para o
lugar de descanso dos Sagrados.
Então, por que seu pai dera as outras duas?, perguntou-se Griffyn. Por que o fizera
ir à caça de seu destino?
— O que se lembra do meu pai, Fulk?
— Bem, lembro que ele mudou. Ele se tornou uma pessoa... dura. Sei que acha que
conheceu bem o seu pai e tenho certeza que sim, mas só conhece essa parte dele..
— Que parte?
— Depois das Cruzadas. Ele foi diferente numa época. Antes disso.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Como?
— Bem, ele e sua mãe se amavam muito. Era algo muito claro.
Griffyn estava boquiaberto.
— O quê?
— Seu pai a venerava. E ele e você foram inseparáveis durante um período. — Fulk
lançou um olhar à expressão chocada de Griffyn. — Cerca de duas semanas antes do
golpe que colocou Estevão no trono, seu pai partiu para a Normandia. Não levou mais
nada além de você e de sua mãe. Por que teria feito isso? Levou vocês e deixou tudo
mais para trás.
A pergunta retórica pairou no ar entre ambos.
Uma onda de raiva tomou conta de Griffyn. De fato, o pai levara a ambos e deixara
para trás um legado tão brutal que seu nome ainda era lembrado entre os vassalos
normandos e os vizinhos nobres como algo amaldiçoado.
— E lembre-se disto — prosseguia Fulk. — Você tinha treze anos quando seu pai
morreu. E ele não queria que você fosse treinado. Não sei o que pode concluir disso, mas
esses são os fatos. E quem sabe, talvez ele estivesse certo. Durante séculos, essas
coisas ficaram quietas. Talvez por mais mil anos. É um tesouro antigo. Não há pressa.
— Não para o meu pai, com certeza — Griffyn declarou, amargo. — Ele queria
guardar tudo para si. Achou que viveria para sempre. E poderia? Há algo nos Sagrados
que poderia ter feito com que ele vivesse para sempre?
Fulk olhou ao redor da rua escura.
— Há uma porção de rumores poderosos, não é mesmo, Pagão? O máximo que
posso lhe dizer é o que já sabe: tudo é puro poder.
Aproximavam-se da estalagem quando Fulk lançou um olhar de lamento à fachada
escura de um dos estabelecimentos.
— Aqui fica Agardly, o ourives. É para onde as harpas de lady Gwyn foram trazidas.
— Harpas?
— As harpas que pertenceram à mãe dela. Tiveram de ser vendidas para a compra
de sementes.
— Passaremos lá para falar com Agardly amanhã cedo e eu comprarei as harpas de
volta antes de partirmos.
Fulk abriu um amplo sorriso, enquanto entravam na estalagem.
— Lady Gwyn ficará realmente feliz, milorde.
— Esse é o plano.
Griffyn se deu conta de que mal podia esperar para voltar para casa, para estar com
ela. Guinevere não o traíra. Era capaz de acreditar naquilo, ou teria de passar o resto da
vida desconfiando de tudo e de todos. Em metade das vezes, estivera certo. Mas em
metade, enganara-se. Se era para Gwyn ser sua esposa, ela o seria por inteiro. De corpo,
coração e alma. E esperava não estar bancando o tolo uma segunda vez, mas acreditava
que ela era honrada.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Mal havia duas horas que Griffyn partira, mas Gwyn já se encontrava nos estábulos,
preparando Windstalker para montar.
Eram três horas até Endly Hall e mais três para retornar. Ela estaria de volta em
casa na metade do dia seguinte. Muito antes que Griffyn retornasse.
Teria de ser rápida e ninguém poderia notar, nem mesmo por um momento, a sua
ausência.
Um chamado a Jerv o fizera aparecer correndo. Ela o colocara a postos no corredor
ao lado da porta de seu quarto, avisando-o para se certificar de que não fosse
incomodada por absolutamente ninguém enquanto era acometida por uma súbita e
terrível "dor de cabeça". Jerv foi instruído para não incomodá-la também. Seu amigo de
infância era o único em quem podia confiar para seguir suas instruções sem questioná-la,
e era de vital importância que ele afastasse quaisquer visitantes. Especialmente com
Alexander por perto.
— O que está fazendo? — indagou uma voz atrás dela. Contendo um grito,
Gwyn virou-se abruptamente.
Deparou com Jerv, que não estava seguindo suas instruções e parecia confuso e
zangado.
— O que está fazendo? — repetiu com ar obstinado.
— O que você está fazendo? — retorquiu ela, recompondo-se. — Devia estar a
postos diante da porta do meu quarto.
—- Por causa da sua... dor de cabeça?
— Sim. Vou apenas sair para uma cavalgada. Talvez me sinta melhor.
— Irá sozinha?
— Sim.
— Perdeu o juízo?
— Tenho cavalgado por estas redondezas durante muitos anos, desde que éramos
crianças, como sabe. Estarei a salvo.
— Eu a acompanharei.
― Não.
— O que está fazendo?
— Mantendo um juramento — retrucou ela. — Ao contrário de você, que não
consegue seguir instruções simples.
— Que tipo de juramento?
— Do tipo que se faz a um rei — disse Gwyn, pois Jerv era seu amigo e lhe devia ao
menos uma explicação, embora não pudesse envolvê-lo naquilo.
Ele estreitou os olhos. .
— O que está acontecendo?
Gwyn mal podia controlar a tensão. O medo a tentava a querer voltar atrás, mas não
podia.
— Estou mantendo minha palavra — declarou com firmeza. — Não tenho escolha.
Agora, volte para dentro e guarde a minha porta.
Jerv ainda fez menção de protestar, mas ela o interrompeu:

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Não posso quebrar meu juramento, mostrar que não sou leal ao meu rei. Mas foi
uma promessa antiga, feita antes de Griffyn ter vindo — acrescentou, esperou que aquilo
importasse a ele. A ela.
— E não pode me contar o que é?
— Não. Acredite, é para o seu próprio bem.
— Se seu juramento tem alguma coisa a ver com manter Estevão no poder,
prolongando essa guerra terrível, ele não se encaixa mais no mundo em que vivemos
agora. Nada de bom ou certo pode sair disso. A guerra terminou, Gwyn. Esqueça.
— Acha que quero mais guerra? Que quero que mais pessoas morram?
— Você quer alguma coisa, ou, do contrário, não estaria saindo assim para fazer o
que pretende, seja lá o que for.
— Eu quero... Eu quero... — Ele pareceu desgostoso. Gwyn começou a tremer de
raiva. — Não me lembro de terem me dado uma escolha. Ninguém me perguntou se eu
queria manter meu juramento, se ele se tornara inconveniente, se me arrependi de algo
que disse ou fiz, pois estaria tudo certo. — Ela se inclinou, desesperada. — Eu me
arrependo de tudo, mas do que isso importa. Lamentar nunca é o bastante.
Jerv encarou-a por um momento e, então, girou nos calcanhares. Fez uma pausa
junto à porta do estábulo e olhou para trás.
— O seu pai estava errado.
— Meu p-pai? Do que está falando?
— Foi um acidente. Ele deveria ter perdoado você. Mas isto? O que quer que esteja
prestes a fazer? Não remediará o que aconteceu. — Ele se afastou abruptamente.
Gwyn permaneceu ali por um longo momento, olhando fixamente para a porta do
estábulo. Jerv estava enganado, completamente enganado.
Aquilo não tinha nada a ver com a culpa que oprimia sua alma. Nada a ver com o
fato de que o pai jamais a perdoara por ela ter matado o filho dele e, depois, sua esposa.
Era algo completamente desvencilhado da busca desesperada dela para provar que tinha
valor, que era digna, para absolver a si mesma dos pecados do passado.
Chegando a Endly Hall, Gwyn foi escoltada até a presença de Marcus
imediatamente no salão principal.
Ele arqueou as sobrancelhas e abriu um sorriso malicioso quando a viu.
— Guinevere, que surpresa inesperada. Lembro-me vagamente de você ter dito
algo... o que foi mesmo? Algo sobre "não passar por sua porta fétida..." Esqueci o
restante.
— Nunca mais.
— Foi isso mesmo. E, então, minha porta não é mais tão fétida, ou aconteceu
alguma outra mudança?
— Griffyn Sauvage tomou posse do Ninho.
— Eu sei. E quanto a você?
— Nós vamos nos casar.
Marcus pareceu precisar de um momento para assimilar o anúncio, e ela sentiu um
calafrio quando aqueles olhos negros e astutos como os de uma ave de rapina a
observaram. Que tipo de pacto estava prestes a fazer?

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Ele a conduziu à penumbra a um canto do salão principal, onde se sentaram a uma


pequena mesa, ordenou uma bandeja de comida e bebida e, então, dispensou os
serviçais.
— Que notícias você tem do sul? Não sei de nada nestes últimos dias. Em que
situação nós estamos?
Marcus parou com um pedacinho de pão a caminho da boca.
— Percorreu toda a distância até aqui em busca de algumas notícias? — Sorriu
brevemente. — Diga-me, Gwynnie, com "nós" quer dizer Estevão?
— Quero dizer nós que juramos lealdade ao rei.
— Bem, então aqui vai como "nós" estamos. É apenas uma questão de tempo até
que Henrique Plantageneta ocupe o trono. Todos os barões estão se aliando a ele.
— Quer dizer que você está se aliando a ele.
— Não me aliei. Ainda.
— Não, ainda não. — Ali no norte, homens como Marcus tinham tempo para avaliar
a situação antes de se assumirem um compromisso.
Ele deu de ombros.
— É só uma questão de tempo até que o país seja de Henrique.
— Apenas se homens como você o entregarem a ele. Marcus arqueou uma
sobrancelha enquanto a observava e, então, baixou o olhar para cortar uma fatia de
queijo.
— Sua lealdade está em evidência, como sempre, mas não serve para propósito
algum.
— Serve para um pequeno propósito — retrucou Gwyn por entre dentes. — Posso
dormir com a consciência tranqüila a cada noite.
— E acha que eu não posso?
— A lealdade não é uma mercadoria que se compre e venda.
— É claro que é. Se não tivesse um preço, minha lealdade mal seria levada em
conta. Eu seria um tolo.
— E não podemos permitir isso.
Um brilho de raiva passou pelos olhos dele.
— Você é uma criança, Gwyn. Aqueles que recebem o tipo de lealdade que você
descreve são os únicos beneficiários. Os verdadeiramente leais são usados, descartados
e seu sacrifício é rapidamente esquecido. Acha que eu deveria ser um deles?
Francamente, você me surpreende. Achei que fosse inteligente.
— E achei que você fosse decente. Ou mais ou menos.
— Ah, não achou — riu ele. — Mas a nossa união teria sido perfeita.
Gwyn torceu os lábios.
— Como, com a sua falta de lealdade e o meu excesso dela?
— Não. Com o seu temperamento forte e a minha ambição.
— Oh, isso.— Ela respirou fundo. Era agora ou nunca. — Você tem de ir jurar
lealdade pelas terras de Everoot que detém como vassalo.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Marcus fitou-a como se ela tivesse enlouquecido.


— Sauvage enviou você aqui para me dizer isso?
— É claro que não. Você tem sorte pelo fato de Griffyn não ter vindo até aqui
pessoalmente e incendiado Endshire.
— Griffyn? — repetiu ele, admirando-se com a maneira íntima como ela usou o
primeiro nome de Sauvage.
— Ele não gosta de você.
— Ele me deve — replicou Marcus por entre dentes.
— O quê?
— São coisas do passado. Gwyn vasculhou a memória.
— Os pais de vocês se conheciam.
— Meu pai gostava de Sauvage.
— De Christian Sauvage, o pai? Marcus deu uma risada amarga:
— Nem um pouco. Ao menos não no final. Mas ele gostava do seu Griffyn.
— Oh? Mais do que de você?
Marcus ergueu a mão para desfechar um golpe e parou a um centímetro do rosto
dela, não chegando a esbofeteá-la por um triz. Gwyn empalideceu, boquiaberta. Ambos
se entreolharam, chocados.
Marcus afastou a mão como se fosse um objeto separado do qual pudesse se livrar.
— Desculpe. O que tenho com o seu noivo não é nada da sua conta para que você
se preocupe.
— Pode ser. Mas você tem de ir lá jurar sua lealdade — insistiu Gwyn, tentando
controlar o tremor na voz. — Todos os outros barões estão indo. Nosso casamento será
daqui a duas semanas. Na noite seguinte, será a cerimônia de homenagem ao conde e
senhor de Everoot. Você terá de estar lá.
Marcus sacudiu a cabeça.
— Está pedindo demais, sem nada em troca para oferecer.
— Oh, eu paguei. Você ficou com muito.
— Eu? Não fiquei com nada, ao passo que o seu Griffyn...
— Você pegou o baú do meu pai. Ele pareceu realmente confuso.
— Que baú?
— Oh, por favor, meu baú de relíquias de família. Aquele que você tirou de Griffyn
quando os seus homens o capturaram nos arredores de Londres.
— Ah.
O ar complacente dele reavivou a raiva dela.
— Fica contente em ler as cartas que os meus pais trocaram? — retrucou ela. —
Sente prazer em invadir os pensamentos particulares deles?
Marcus deu de ombros.
— Todos estamos aborrecidos hoje por causa de algo relacionado a nossos pais,
não é mesmo? — disse, evasivo. Sacudiu as migalhas das mãos. — Quanto ao nosso

129
CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

outro assunto, não vou jurar lealdade a Sauvage.


— Então, você perderá suas terras.
Ele pegou sua caneca e olhou fixamente para a imensa tapeçaria de Endshire numa
parede.
— Não nos deixemos enganar. Estevão não vai demorar a se curvar. Há notícias
sobre um tratado que está prestes a ser assinado em poucas semanas. Estevão não tem
escolha, agora que Eustáquio está morto.
Gwyn fechou os olhos.
— Eustáquio não morreu. Está sob a minha proteção. A expressão de Marcus não
mudou, mas ele empurrou sua caneca de cerveja deliberadamente da mesa, fazendo-a
espatifar-se no chão.
— É assim — disse num tom calmo, explanatório. — É com essa rapidez que as
coisas mudam. O que era não é mais. E é por isso que não me comprometo sem uma
razão. E considerável ganho. — Abriu um sorriso. — Conte-me sobre Eustáquio.
— Ele foi levado para o Ninho em meados de agosto, já doente e tem estado assim
desde então.
— Doente? É grave?
— Sim. Há semanas que ele está com uma febre incessante.
— Gostaria de falar com ele.
— Eu também. Mas Eustáquio não consegue conversar. Está lá prostrado, suando
profusamente e tudo o que pode fazer é mover um pouco a cabeça, com muito esforço.
Marcus levantou-se e começou a andar de um lado ao outro diante da mesa. Então,
parou e observou-a.
— Por que você está aqui? — perguntou como se saboreasse cada palavra.
Ali estava outra vez, aquela mente incisiva, voltada agora para ela como o súbito
objeto de sua ambição. Gwyn respirou fundo.
— Preciso de ajuda.
— Da minha ajuda?
— Sim.
— Repita isso.
Ela engoliu em seco, sentindo um gosto amargo na boca.
— Preciso da sua ajuda.
Um sorriso curvou os lábios de Marcus.
— Será uma honra.
— Preciso tirar Eustáquio do Ninho.
— Tem algum plano?
Gwyn sugeriu o único em que conseguira pensar. Seu valor repousava em sua
simplicidade, o que também podia ser seu fracasso.
— Quando os outros barões forem jurar lealdade, você também irá. Você vai estar
no castelo, jurando sua lealdade e partirá na manhã seguinte. Levando Eustáquio.
O sorriso dele alargou-se.
130
CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Quando será a cerimônia de homenagem a lorde Everoot?


— A feira começa na véspera do casamento. A cerimônia é na noite seguinte.
Marcus sentou-se e pareceu refletir a respeito por mais tempo do que era
necessário. Tinha de concordar. Se não o fizesse...
Ela se inclinou para a frente, sibilando:
— Apenas tire-o do Ninho.
— Por quê? Isso não me soa como a Gwyn devotada de sempre.
Ela desviou os olhos sem dizer nada.
— Você não quer que Sauvage seja prejudicado — declarou Marcus, sua voz
admirada e carregada com algo mais. — Você está tentando ser leal ao rei e está
apaixonada pelo inimigo dele ao mesmo tempo. — Sacudiu a cabeça com uma expressão
zombeteira. — Jamais dará certo. Você terá de escolher. Um dia. — Pode fazer o que
pedi?
— Daqui a duas semanas?
— Sim.
— Posso fazer muito mais do que isso. É um problema simples.
Podia ser para ele, pensou Gwyn com alívio, mas para ela estava sendo um
pesadelo. Amava Griffyn com todas as suas forças. Mas aprendera que uma pessoa não
seguia seu coração, mas cumpria o seu dever.
O que importava o coração? O que ele já fizera a não ser matar, assassinar,
destruir?
Seguir o coração tornava uma pessoa tola, descuidada. Outras pessoas sofriam.
Irmãos e mães. Gwyn fizera uma promessa, um juramento. Tinha reparações a fazer. Não
havia lugar para sentimentos.
E Marcus estava completamente enganado. Ela podia honrar tanto a Griffyn quanto
ao rei. O destino não seria cruel a ponto de obrigá-la a escolher entre ambos. Ou seu pai.
E as promessas dela. De deixá-la sem um meio de se redimir.
Mas Marcus estava certo quanto a uma coisa: tirar Eustáquio do castelo não era
mais algo relacionado à lealdade. Era um meio de livrar o Ninho da traição antes que
Griffyn fosse morto por causa desta.
Gwyn pretendeu cavalgar velozmente para estar de volta em casa para a refeição do
início da tarde, mas o sol forte daquele dia a obrigou a diminuir o passo algumas vezes e
parar para descansar Wind e deixá-lo beber nos regatos. De qualquer modo, ela poderia
descer até o salão principal para o jantar, anunciando que a dor de cabeça, enfim,
passara, e ninguém saberia de nada. Para chegar ao castelo sem ser vista, entrou por
uma caverna oculta na floresta e usou o túnel subterrâneo que cruzava aquele por onde
conduzira os cavaleiros de Eustáquio. Chegando a esse segundo túnel, desmontou de
Wind e guiou-o até a porta escondida por hera na ala norte do castelo. Abrindo a porta,
espiou para fora e não havia ninguém naquela área pouco utilizada. Assim, seguiu por
uma parte sombreada do pátio, esperando chegar aos estábulos com Wind antes que
alguém a notasse, ou, no máximo, achasse que resolvera dar um passeio a cavalo por
perto naquela tarde.
— Lady Guinevere? -
Ela sobressaltou-se. O jovem pajem surgira do nada.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Sim, Peter?
— Sir Alex mandou encontrá-la, pois lorde Griffyn está retornando — anunciou o
menino alegremente.
— Retornando? Hoje?
— Bem, hoje à noite — esclareceu ele. O sol não demoraria a se pôr.
Ela segurou os ombros do garoto.
— Quando?
— Logo — respondeu ele, confuso.
— Logo. — Ela baixou as mãos.
— Sim, milady. E sir Alex disse para encontrá-la... . Uma onda de temor a tomou de
assalto.
— Ele disse para... para me encontrar?
— Bem, milady — explicou o menino de sete anos, confuso quanto ao motivo de
estar recebendo tamanha atenção da bela condessa, mas contente em ser o objeto de
seu interesse —, nós todos sabíamos que milady estava em seu quarto, mas sir Alex me
disse para encontrá-la. Mas tive de entregar uma mensagem primeiro a Albeft, o ferreiro.
Ele anda tendo problemas na forja e...
— Obrigada — disse ela, ofegante, e seguiu para os estábulos.
Alex sabia. Era astuto, perspicaz. Talvez tivesse notado a longa ausência de
Windstalker nos estábulos, ocorreu a Gwyn de repente com um gélido calafrio.
Não havia pensado naquela possibilidade até o momento.
Ela se adiantou depressa na direção dos estábulos, passando pelo escudeiro de
Griffyn, Edmund, no caminho.
— Milady! — gritou ele.
Gwyn sentiu o coração disparar enquanto o garoto se aproximava correndo.
— Eu vi nos seus porões... — disse Edmund, e ela quase desmaiou — ... um saltério
abandonado. Acha que seria possível eu aprender a tocá-lo?
Ela passou as costas pela camada fina de transpiração na fronte.
— Ora, claro que sim — concordou, trêmula, tentando se concentrar no assunto
trivial. Ela se esquecera por completo do instrumento, ou, do contrário, já o teria vendido.
— Tenho certeza de que podemos encontrar alguém que ensine você a tocá-lo. Meu
escriba costumava tocar, apenas um pouco, mas talvez ainda saiba e possa lhe ensinar
algo,
O rosto de Edmund se iluminou.
— Obrigado, milady! — De repente, ele a observou com ar preocupado. — Oh,
como está sua dor de cabeça? Eu deveria ter perguntado logo de início.
— Ah, já passou, obrigada. — Ela forçou um sorriso e prosseguiu com Wind em
direção aos estábulos.
Mal havia dado quarenta passos quando um cavaleiro Sauvage se aproximou.
— Lady Guinevere?
Santo Deus, todos do castelo tinham resolvido falar com ela de repente? Virou-se

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

com um sorriso rápido. —- Milorde está à sua procura. Um calafrio de temor percorreu-a.
Ele já retornara?
— Só vou esfriar meu cavalo —- disse, engolindo em seco, tentando não soar
desesperada. — Onde está lorde Griffyn?
—- Está no salão agora, milady, mas disse que a veria nos aposentos dele.
Os aposentos dele...
Gwyn levou o tempo necessário para cuidar de Wind, tentando se acalmar. Há
quanto tempo Griffyn voltara? E quanto a Jerv? Griffyn teria deparado com ele à porta,
sido informado que ela repousava do lado de dentro e, depois, encontrado o quarto vazio?
Como, afinal, Jerv explicaria isso? Como ela explicaria?
Os pensamentos inquietantes a fizeram enxugar as mãos nas saias e marchar pelas
escadas até o castelo. Passou pelo salão principal, onde as mesas estavam sendo
dispostas para o jantar. Parou diante de uma janela estreita no patamar da escadaria e
espiou para fora. Até então, não vira Jerv em lugar algum. Era um bom sinal.
Endireitando os ombros, subiu até os aposentos senhoriais e abriu a porta.
Griffyn estava sentado no banco do quarto, mexendo num grande saco de pano.
Virou-se quando a viu entrar.
— Guinevere! Eu estava à sua procura. Por onde andou?
— Passeando um pouco a cavalo — respondeu ela com o coração aos saltos. —
Estou realmente surpresa em vê-lo de volta tão depressa.
— Como ficaram os homens. Mas eu os fiz cavalgar velozmente. — Ele percorreu-a
com um olhar demorado. — Queria chegar logo em casa.
Gwyn sentou-se na cama. Não seria atirada nos porões? Condenada? Decapitada?
Ele sequer sabia?
— Primeiro isto. — Griffyn tirou do bolso a argola de ferro com as chaves do castelo.
Seu corpo irradiava virilidade, mas foi aquele sorriso terno que deixou o coração dela
acelerado. Entregou-lhe as chaves. — Vai querer ficar com elas. Eu deveria tê-las
devolvido antes.
Gwyn fechou os olhos com força por um momento e balançou a cabeça num gesto
de agradecimento. Griffyn aceitara o pretexto para sua ausência sem questioná-la. E se
Alex desconfiara de algo, por alguma razão não comentara nada com Griffyn, como seria
de se esperar que o fizesse no primeiro instante em que o vira chegar de Ipsile.
— Venha agora. — Ele pegou sua mão, ajudando-a a levantar. — Veja o que eu
trouxe. — Tinha a voz empolgada enquanto abria o saco de pano no chão em frente ao
banco. — O que consegui para você.
Tirou dali uma das pequenas harpas da mãe dela, vendidas para a compra de trigo,
a cor de vinho. A outra, preta e reluzente, estava de lado e um tanto oculta pelos panos
que a envolviam.
As lembranças voltaram com intensidade.
— Eram da sua mãe?
Gwyn correu a mão pela madeira trabalhada.
— Sim.
— Ótimo.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Ela deslizou a ponta dos dedos pelas cordas. Sons melódicos e familiares
preencheram o quarto, deixando-a com lágrimas nos olhos.
— É maravilhoso.
Griffyn passou as costas da mão pelas lágrimas agora copiosas de Gwyn com
gentileza.
— Sei que sente falta dela.
— Todos os dias — confirmou Gwyn com um nó na garganta. E, então, sorriu,
tocando a madeira polida da harpa. — Isto ajudará.
Ele segurou seu rosto entre as mãos e beijou-a na fronte, nas faces, na ponta do
nariz. Tornou a sorrir, o que a fez sentir o calor espalhando-se novamente por seu corpo.
Tudo o que precisava fazer era fitá-la e estava pronta para ele.
— Você deveria me contar sobre sua viagem — protestou ela, sacudindo a cabeça,
mas sorrindo assim mesmo.
— Devo deitá-la na nossa cama. Ela riu.
— Griffyn.
— Gwyn.
— Estou falando a sério.
— Eu também. Não quero esperar. Minha viagem correu bem. Eu... — Ele hesitou
por um momento. — Comprei as harpas da sua mãe de volta e estou em casa outra vez,
faminto de desejo por você.
Gwyn arqueou uma sobrancelha.
— Foram notícias sobre as harpas da minha mãe que fizeram você ir correndo até
lpsile? Nada mais? — perguntou ela apenas para provocá-lo, mas ele ficou tenso.
— O que quer dizer?
O sorriso dela apagou-se.
— Nada. Era só uma brincadeira. Griffyn relaxou.
— Desculpe. Estou cansado, está calor e foi uma longa jornada. Mas uma coisa é
verdade: não pensei em praticamente mais nada além de você.
Gwyn riu.
— Assim está bem melhor.
Griffyn começou a despi-la, beijando sua pele acetinada que ia se revelando com
lábios úmidos, enquanto as roupas iam se empilhando no chão.
— E você, Olhos Verdes? — murmurou. — Pensou em mim?
— A cada momento — sussurrou ela, e era a pura verdade.
Como prometeu, Griffyn deitou-a na cama e levou-a a um delicioso orgasmo com tão
surpreendente rapidez e confiança que ela mal coube em si de tanto prazer.
E dor. O que começara como incondicional lealdade a seu rei estava se
transformando em puro desespero. Griffyn não podia ser prejudicado por aquilo. Ainda
assim, ela dependia de um. aliado bem pouco confiável para salvá-la daquela situação:
Marcus FitzMiles.
Marcus ainda refletia sobre a inesperada virada nos acontecimentos. O que Gwyn

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

lhe oferecera era bom demais para que ele deixasse passar. E proveitoso demais para
que agisse de acordo com o que ela pedira. Ir até o Ninho e sair de lá com apenas um
príncipe destronado? O que faria, então? Ele deveria pôr Eustáquio na sela de uma
montaria e empurrá-lo na direção dos exércitos de Henrique? Enquanto Griffyn Sauvage
roubasse a chance dele de ficar com a sua Guinevere?
Gwynnie era linda, divertida, astuta, mas ingênua demais em relação àqueles tipos
de coisas.
E, apesar de Griffyn Sauvage ser seu noivo, a quem ela recorrera numa hora de
necessidade? A ele. Marcus. Uma onda de orgulho invadiu-o. Gwyn fugira dele um ano
antes, agora cavalgara diretamente até seu castelo, de cabeça baixa, para implorar sua
ajuda.
Era verdade que não havia nada que ele pudesse negar a Guinevere. Era a única
culpada de não saber disso. Ela nunca lhe pedira nada.
Gwyn poderia ter pedido a ele para apoiar Estevão, Henrique, ou quem quer que
fosse. Ele teria feito qualquer coisa. Política não importava, mas Guinevere, sim, que era
tudo que se podia, querer numa mulher. Reconhecia uma joia quando via uma e todas
que já quisera estavam no Ninho.
Sauvage sairia do Ninho, no entanto. Marcus se certificaria disso. Ele o atrairia para
fora, para perto o bastante para conversar e, então, lhe daria seu ultimato, sem sequer
fingir uma rendição. Porque ele jamais se renderia. Não a um Sauvage.
E se Gwyn achava que Marcus estava com o baú que se referia aos Sagrados,
ainda melhor. A confusão seria bastante útil dentro de cerca de duas semanas.
O baú devia ter estado preso ao cavalo de Sauvage, que foi salvo, Marcus descobriu
depois, por dois dos cavaleiros de Sauvage. Um deles era uma Sentinela, Alexander. Era
melhor ficar longe delas; tinham o hábito de matar as pessoas que tentavam fazer algo
aos Herdeiros. O próprio pai de Marcus não soubera do fato?
De qualquer modo, ao que tudo indicava agora, o baú não fora recuperado. Ainda
devia estar caído na lama perto de algum ponto onde haviam capturado Sauvage. Marcus
teria de enviar alguns homens discretos àquela floresta para procurá-lo.
E, a partir de lá, seus homens poderiam prosseguir até o acampamento de Henrique
com algumas notícias interessantes.
No momento, Marcus tinha apenas uma das chaves que formavam a chave principal
para abrir o portal. Mas, da maneira como fosse, pretendia confiscar absolutamente tudo
que importava para o Herdeiro.
Tocou a chave de aço em seu pescoço. Ela estava presa em segurança em uma
corrente de aço que encomendara a um artífice e mandara De Louth ir buscar numa
viagem recente à cidade de Ipsile-upon-Tyne.
A chave era apenas o começo.
Chegara o momento para o triunfo de Endshire e a queda definitiva de Sauvage.

Ajoelhada junto à horta que abastecia a cozinha, ajudando a preparar o solo para o
inverno, Gwyn tentou esquecer a confusão na qual estava agora emaranhada. Não havia
nada que pudesse fazer a respeito. Tudo que podia fazer era esperar. E ter esperança.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

A idéia era quase hilária. Ter esperança de quê? De que o rei Estevão fosse
conquistado, ou de que lorde Griffyn , fosse liquidado? Em ambos os casos, haveria
desgraça para alguém que ela amava.
Na verdade, nem sequer havia garantia alguma de que Eustáquio sobreviveria.
Talvez morresse.
Ela ergueu a cabeça abruptamente diante do pensamento traiçoeiro. Ou melhor, da
emoção traiçoeira. O pensamento era uma realidade. A maneira como o alívio a percorreu
era o malefício.
Inquieta, levantou-se sacudindo as mãos. Não podia ficar mais mexendo na terra.
Estava agitada demais. Precisava andar pelo alto das muralhas.
Segurando as saias, começou a andar depressa naquela direção, com a cabeça
baixa, e acabou colidindo em algo sólido.
Ela ergueu os olhos, percebendo que trombara com Alex.
— Oh, desculpe, sir Alex, estava distraída. Ele ergueu a mão.
— Não foi nada, milady.
— Está um fim de tarde agradável, não é mesmo? — disse ela apenas para ser
educada, evitando fitá-lo.
A última pessoa que queria ver no momento era Alex, considerando que suas
suspeitas em relação às suspeitas dele ainda a preocupavam.
— Sim — respondeu ele num tom neutro. — Ideal para uma cavalgada. Fez alguma
muito longa recentemente?
Gwyn gelou por dentro, mas esforçou-se para manter a expressão mais calma que
conseguiu.
— Não, claro que não.
— Ah. Só me perguntei, então, se seu cavalo esteve adoentado ou fraco.
— Não, Windstalker está ótimo. Por quê?
— Nada. — Alex deu de ombros. — Notei que ele ficou bastante ausente dos
estábulos, apenas isso.
Ela estava controlando o temor que a percorria a custo.
— Gosto de passear a cavalo. De eu mesma exercitar Wind sempre que posso. Vê
algum problema nisso?
Ele sacudiu a cabeça, os olhos perscrutadores não a deixando um instante sequer.
— Não.
— Então, não vejo em que isso possa dizer respeito a você. — Gwyn ergueu a
cabeça com altivez, começando a se afastar.
— Se você o magoar, vai se arrepender, Guinevere. Gwyn parou, mas não se virou.
Alex não disse mais nada, e ela prosseguiu, lutando para não levar a mão ao peito num
gesto desesperado para tentar aquietar o coração.
— Ouvi dizer que cavalgar alivia a cabeça — disse Alex para as costas dela. —
Especialmente quando está doendo.
Gwyn precisou de toda a sua compostura para não erguer a barra da saia e sair
correndo.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Griffyn distribuiu seus homens pelo Ninho e arredores como se fossem abelhas
operárias. Alguns se dedicaram aos trabalhos preliminares de reforma e reforços das
defesas do castelo, mas a maioria foi enviada aos campos.
Outubro era reservado para se arar a terra, pela última vez no ano. Guerreiros
tendiam a lutar quando era necessário. Quando não, Griffyn usava a prática com lanças,
arcos e espadas como um recurso freqüente para afastar o tédio e manter as habilidades
de seus soldados perfeitas, mas arar era ainda melhor. Era um trabalho que exigia mais
e, mais importante, era um esforço em conjunto. Um objetivo em comum tendia a acabar
com as divisões que levavam a derramamento de sangue. Seus homens iriam viver ali.
Constituir famílias. Era melhor que começassem agora.
Como ele próprio tentava fazer.
Estava ciente da presença de Gwyn aonde quer que ela fosse: na horta ou na
cozinha com a cozinheira, conversando com Raashid e William, o senescal — o qual
insistira para que permanecesse com suas antigas incumbências sobre a adubagem de
campos ou coisas assim —, saudando um mensageiro ou, mais freqüentemente,
caminhando ou conversando com uma das inúmeras mulheres que habitavam o Ninho.
De onde vinham todas, perguntava-se ele. Parecia que Gwyn adotara cada garota
órfã ou desamparada desde o sul até ali, e todas demonstravam sua gratidão ajudando
em variadas tarefas, mas ela própria fazia questão de supervisionar tudo e de continuar
incumbida do que gostava de desempenhar.
Griffyn, por sua vez, também se dividia em variadas ocupações, mas havia uma que
passara a consumir tanto o seu tempo que o aborrecia ao extremo.
Já verificara cada sala, cômodo e aposento do castelo, desde a cozinha até o
galinheiro, abrira cada caixa e baú, examinara cada pergaminho dos de l'Ami. Em
documento algum havia o menor indício que fosse sobre a guarda de um tesouro datando
de desde antes do início da eristandade.
Era como se qualquer vestígio dele tivesse sido apagado pelo tempo. Ou por Ionnes
de l'Ami, que quisera os Sagrados acima de qualquer coisa.
E, agora, Griffyn começava a querê-los também.
Ele fez uma pausa enquanto ajudava os homens no alto da muralha e correu as
costas da mão pela testa suada. Olhou na distância para a vasta extensão de campos e
colinas férteis do Ninho. Não. Podia estar em casa novamente, mas a realização da
missão de uma vida não era mais o suficiente.
Não desde que ouvira as últimas palavras ditas por Ionnes de I'Ami em seu leito de
morte. Não desde que lhe haviam dado uma chave que poderia abrir o portal de um
tesouro.

Gwyn estava mudando. No decorrer dos dias, sentia cada vez mais isso em seu
íntimo. Tudo por causa de Griffyn, a quem amava de corpo e alma.
Chegava, até quase a esquecer. Havia dias em que se passavam horas sem que se
lembrasse do misto de lealdade e traição que mantinha nos porões. Às vezes, era como
se o príncipe Eustáquio não existisse. Até a noite em que o mensageiro chegou.
Foi mais uma tarde agradável e, ao entardecer, ela olhava do alto da muralha com
um sorriso nos lábios, ciente da movimentação ao redor. O castelo ganhara vida
novamente. Um arquiteto, Herman, e os maçons haviam chegado dias antes e todos os

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

homens acima dos dez anos estavam agora trabalhando na reforma e revitalização do
castelo, a interação entre ambos os grupos, perfeita, ao ponto de já formarem
praticamente um só. As mulheres sorriam novamente. Seus maridos e pais mortos na
guerra tornavam-se fantasmas mais distantes a cada vez que um guerreiro Sauvage
sorria para elas ou suas crianças.
Nos campos, também, a vida se renovava e não apenas graças aos dias mais frios e
úmidos que chegaram com o outono. Os homens de Griffyn aumentaram a força de
trabalho agrícola dela consideravelmente. O solo estava sendo rapidamente preparado
para o plantio e, pela primeira vez em um longo tempo, ela sentia o coração leve.
E Griffyn parecia feliz também, sempre com um sorriso pronto para ela e, embora
vivesse ocupado o dia inteiro, já a procurara duas vezes na metade do dia; uma vez no
patamar diante dos aposentos e, na outra, no pomar — em ambas as vezes levando-a a
um clímax tão intenso que a deixou nas nuvens por muito tempo depois. E quando
partilhavam um dos braços do outro a noite inteira em seus aposentos, nada mais parecia
existir além de sua paixão arrebatadora.
Ela sorriu quando o viu se aproximar, deixando um pouco atrás o grupo com quem
estivera conversando — Alex, Jerv, Fulk e alguns outros.
— O que está achando de tudo? — perguntou ele, retribuindo o sorriso.
— Maravilhoso. — Gwyn fez uma pausa antes de prosseguir. — Isto era o que o
meu pai sonhava em fazer, reconstruir, devolver ao Ninho a sua glória. Sei que não se
importa com o que ele acharia, mas saiba que teria ficado orgulhoso de tudo isto. De
você.
Griffyn apertou os lábios.
— É apenas uma combinação de pedras e homens fortes. Se seu pai tivesse
desejado, poderia ter feito o mesmo.
— Talvez. — Ela sorriu tristemente. — Mas acho que, se ele tivesse podido, o teria
feito. Houve bem pouco que lhe importou depois que... que... — Engoliu em seco,
sentindo um nó na garganta. — Depois que a minha mãe morreu. As únicas coisas que o
reanimavam um pouco eram as cartas que a minha mãe tinha lhe enviado durante a
Cruzada. Lembro-me de observá-lo, após o jantar. Ele sentava num banco diante do fogo,
noite após noite, lendo-as, até que as chamas se apagavam.
Griffyn pegou a mão dela.
— Sua mãe sabia ler e escrever?
— Oh, sim. Papai certificou-se de que ela aprendesse antes de partir para a
Cruzada. Lembra daquele pequeno baú que dei a você dentro de um saco, na abadia de
Saint Alban? Todas as cartas que ambos trocaram estavam lá. Não que eu pudesse lê-
las, mas um dia, espero...
Gwyn se interrompeu quando ele apertou sua mão com força um tanto excessiva e
adquiriu uma expressão estranha.
— O que foi?
Ele não respondeu, mas virou-se de imediato para olhar para Alex, que, de repente,
descia a escadaria depressa.
— O que foi? — repetiu ela, inquieta, quando Griffyn tornou a fitá-la com aquela
expressão vaga, estranha, ainda apertando seus dedos. Mas, no momento seguinte,
soltou sua mão, o sorriso voltando.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Desculpe. Eu me distraí por um momento. Você estava falando sobre seu pai.
Sua mãe, na verdade, e a habilidade dela de ler e escrever, algo que você não tem, mas
gostaria.
— Sim — confirmou Gwyn, ainda não entendendo o que se passou naquele breve
momento.
— Não tem nada com que se preocupar. — Dessa vez, ele levou-lhe a mão aos
lábios. — Agora, seu pai se foi, assim como se foram seus escritos. Mas eu a ensinarei a
ler e escrever.
Gwyn tornou a sorrir. Aquela seria mais uma das façanhas dele, pensou, contente.
Griffyn a fazia sentir-se segura e protegida, e era tudo o que importava. Estava dando
vitalidade ao que antes estivera esmorecendo. O pai dela não tivera coragem nem
determinação para criar o que Griffyn fazia tão facilmente, numa questão de dias, em
território inimigo. Ele simplesmente surgira e levara algo bom a todos.
E ela o trairia.
Gwyn sentiu uma ponta de dor no coração e olhou para a distância. De repente, um
pensamento novo, descuidado, ocorreu-lhe. Precisava fazer isso?
Não houvera mensagem alguma do rei Estevão. Poderia ter enviado um mensageiro
a Everoot numa questão de dias, se tivesse desejado. Por que não enviava notícias,
então? Instruções a ela?
Talvez o rei Estevão pretendesse mesmo assinar o tratado. Ela sentiu um aperto no
peito. Talvez não houvesse estratagema algum. Talvez tudo tivesse terminado, e o rei
soubesse. Ela nutrira a idéia de que era uma mentira, compreendeu de repente. E por
causa disso trairia o homem mais decente que já conhecera?
Gwyn entreabriu os lábios, tomada por uma onda de alívio. Acabara. Iria contar tudo
a ele sobre o príncipe.
— Griffyn?
Ele virou-se para fitá-la.
— Sim?
Ela sentiu o coração disparado, as mãos frias.
— Há uma coisa que tenho de contar a você.
Alex apareceu naquele momento, subindo rapidamente a escadaria até o alto da
muralha.
— Pagão — disse, ofegante, parecendo agitado. Ou entusiasmado. — Você tem de
vir comigo. Agora.
— O que foi?
— Encontrei uma coisa.
Num instante, Griffyn já se afastava, deixando-a perplexa. No alto da escadaria,
virou-se, como se tivesse se lembrado dela.
— O que você queria, Guinevere? Pode esperar? Ela meneou a cabeça com ar
tenso.
— É claro.
Alex lançou-lhe um olhar.
— Milady — disse com frieza e virou-se.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Gwyn recostou-se na amurada com as pernas trêmulas, enquanto os dois desciam,


perguntando-se se devia se sentir abandonada ou salva.
E perguntando-se também o que, afinal, fora encontrado. Que não queriam que ela
visse.
Os dois homens olhavam para o pequeno baú sobre a mesa com quase reverência.
— Você o encontrou entre as suas coisas?
— Entre as suas, Pagão — respondeu Alex. Ambos conversavam num tom baixo,
discreto, numa câmara de reuniões. — Hervé tirou-o envolto por um saco de feltro da sela
de Noir quando você foi capturado em setembro do ano passado, depois de ter deixado
Guinevere na abadia. Hervé levou-o para a Normandia, deu-o para seu escudeiro
Edmund para empacotá-lo com as suas outras coisas. Não pensei mais nele nem sequer
uma vez. Mas quando lady Guinevere acabou de mencionar as cartas do pai e um baú...
Griffyn não precisou que ele terminasse. Ficou claro o que pensou: aquele era o baú
que se referia aos Sagrados. Com certeza, teria a terceira e última chave para formar a
chave principal. Onde mais lonnes de l'Ami teria guardado algo tão precioso, mas no
próprio baú tão reverenciado?
Griffyn olhou-o fixamente. Durante vários dias, andara vasculhando o castelo,
procurando algo sem saber o que estivera procurando. A cada dia, a busca tomara mais
horas do que no anterior e mais de sua atenção. Admitia que estava se tornando uma
obsessão.
E, agora, ali estava aquele pequeno baú. Só podia ser o que procurava.
Correu os dedos pelo trinco de ferro e ele se abriu.
— Não está trancado —- observou surpreso. — Algo assim não deveria estar
trancado?
Com o coração disparado e o estômago em nós, ele abriu a tampa sob os olhos
igualmente atentos de Alex.
Pergaminhos. Uma porção deles, alguns ainda com os lacres de cera partidos. Alem
disso, não havia muito: um anel fosco, um pedacinho de tecido, o que parecia ser o cabo
de uma adaga, uma mecha de cabelo, um punhado de moedas e algumas outras
quinquilharias. Mas, na maior parte, havia aquelas cartas.
Apenas uma caixa com cartas. Como Guinevere dissera.
Nada de uma terceira chave.
Não era o baú referente aos Sagrados.
Uma espécie de fúria tomou conta dele. Era como se todas as emoções que já
reprimira estivessem vindo à tona outra vez. Respirou fundo, esforçando-se para se
recobrar. Era mais uma prova de que, quando se tratava do tesouro, um homem não
podia confiar em si mesmo. O que ele queria sobrepujava a tudo mais, incluindo a
verdade. Griffyn tivera certeza de que aquele era o baú relacionado ao tesouro. Mas não
era.
Alex remexeu os itens no baú e praguejou algo quando constatou que não havia
chave alguma ali.
— Não é ele — exclamou. — Esse não é o baú.
Griffyn ainda estava atordoado por um misto de emoções conflitantes: raiva,
frustração... alívio. Parece que estivera perto demais.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Você nunca viu o baú dos Sagrados, não é mesmo, Alex?


— Não. Os Herdeiros o recebem no ato de sua iniciação, quando se tornam
verdadeiros Guardiões. Cada um tem uma Sentinela como testemunha da cerimônia.
Griffyn estudou-o por um longo momento,
— Então, quer dizer que o privei disso também. Com a minha recusa do meu destino
durante todos esses anos, você nunca viu o baú dos Sagrados.
Uma expressão indecifrável passou pelos olhos de Alex, mas sacudiu a cabeça.
— Seu pai não quis que você fosse Treinado. Não foi opção sua. Você teria recebido
o baú, mas ele impediu você de ter o Treinamento, logo depois que partimos da
Inglaterra.
Griffyn refletiu a respeito.
— Então, esse poderia ser o baú dos Sagrados e você não teria sabido reconhecê-
lo?
— Achei que fosse o baú — admitiu Alex, irônico.
Ambos tornaram a observá-lo longamente. O turbilhão de emoções e pensamentos
se abrandava no peito de Griffyn. Confusão. Determinação. Medo, pois correra até ali tão
depressa, deixando Guinevere para trás.
Raiva. Era a emoção que permanecia mais intensa. Raiva de seu pai.
Não foi a raiva que o surpreendeu. Passara anos convivendo com ela. Era o porquê
de senti-la agora que o chocava. Estava com raiva porque o pai não o deixara ser
Treinado.
— E agora, Alex? O que devo fazer?
— Por que não lê as cartas?
Griffyn começou a rir, e a sensação foi boa. Era como as coisas costumavam ser
entre ele e Alex antes. Camaradagem, riso, amizade. Mas agora, desde que o tesouro
começara a ser mencionado, tudo havia mudado.
— Essa é a sua orientação? Acho que eu mesmo teria conseguido pensar nisso.
Alex sorriu.
— Nunca disse que era a Sentinela mais sábia, mas...
— Tenho de agüentar você — disse Griffyn, concluindo a brincadeira..
Ficaram sérios, então, e Alex fez um gesto na direção dos pergaminhos.
— O que dizem? Griffyn pegou um.
— Guinevere disse que estas eram cartas trocadas entre seus pais, enquanto de
l’Ami estava na Cruzada. Desenrolou-o, começando a ler em voz alta:
Minha amada não me casei com você para falar a seu respeito aos outros.
Desposei-a para que houvesse algo maravilhoso entre nós. Sem você, vou
pessimamente. Venha até a mim. Por que esperamos? Quero sentir seus cabelos nas
minhas mãos. Enviarei Miles para buscá-la. Poucos podem enfrentá-lo, e Miles tem você
em grande consideração. Estará a salvo com ele. Damietta cairá logo, e acho que
Jerusalém será a próxima. Meu destino está naquela Cidade e em você. Venha até a
mim.
A segunda carta era semelhante.

141
CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Minha amada, errei, em mandar buscá-la. Não posso chamar Miles de volta, mas, se
ainda não saiu, fique aí. Não venha para este inferno. O calor e os ventos são
insuportáveis, as lutas, incessantes. Fique em nossa casa, construa um lar para nós. Irei
para ele. Quero um filho e mais quantas filhas você exigir de mim. Mantenha-se a salvo
acima de tudo.
Meu amor, as coisas não vão bem para nós aqui. Rezei a Deus para que estas
cartas tenham chegado até você, para que não tenha deixado o Ninho. Temos comida o
bastante apenas para poucos dias. A água é rançosa, nossos cavalos estão morrendo.
Por favor, que você esteja em casa. Só quero ir para casa, estar com você em nosso
adorado Ninho. A única luz nestas trevas é o nosso caro Ionnes. Temos de fazer algo
especial por ele quando voltarmos. Você não pode pedir ao seu pai algumas daquelas
colinas galesas? Ionnes adoraria desbravá-las, da mesma maneira que o adoro. Ele é a
razão para eu ser capaz de suportar o bastante para rever você.
Ellie, minha amada. Nós conseguimos:
Griffyn ergueu a cabeça devagar. Aquelas cartas eram do seu pai. Para sua mãe.
De Christian Sauvage para sua esposa, Alienor, conhecida por todos como Ellie.
Então, o pai de Guinevere ficara sentado diante do fogo lendo essas cartas, noite
após noite. Cartas de amor, de Christian Sauvage para a amada esposa, falando também
da adoração dele pelo amigo de l'Ami.
Antes que tudo fosse arruinado.
Teria de l’Ami se arrependido, depois de tantos anos? O tormento consumira sua
alma, no escuro, diante do fogo?
As mãos de Griffyn se retesaram em torno dos pergaminhos. Obrigou-se a
relaxá-las. Que adequado que a última das cartas falasse apenas do tesouro. Todo o
amor parou ali. Encontraram o tesouro. Ou o haviam dado a eles. Mas, seja lá como
aconteceu, O Herdeiro de Carlos Magno, na forma de seu pai, pusera as mãos em
alguma parte do tesouro na Terra Santa. E aquele mesmo sangue corria agora nas veias
de Griffyn, fazendo-o querer aquela coisa com quase desespero.
Exatamente como o seu pai. Como o dela.
Ele se levantou abruptamente.
— Aonde vai? — exclamou Alex, atônito.
— Até Guinevere. — Griffyn escancarou a porta e se retirou.
Gwyn estava no jardim das roseiras, caminhando devagar entre os canteiros bem
cuidados. A noite estava fria, mas não se importou. Precisava aplacar a inquietação que a
dominava até que Griffyn voltasse e pudesse lhe contar a verdade. A perspectiva deixava-
a aliviada e temerosa ao mesmo tempo.
Os portões logo se fechariam durante a noite. Ela ouviu os gritos dos guardas,
alertando aqueles que ainda estivessem no vilarejo ou nos campos para retornarem ao
castelo.
Ela se agachou diante de um dos canteiros. Logo, os botões desabrochariam em
belas rosas vermelhas. Era uma beleza magnífica de se observar quando tudo mais ainda
estava tão escuro e frio.
Um vulto se aproximou pelo jardim, parando a seu lado. Era um soldado com cota
de malha, mas nada que o identificasse. Um mensageiro.
— Lady Guinevere?

142
CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Gwyn ergueu-se com o coração aos saltos.


— Sim.
— Tenho algo para a senhora — anunciou ele numa voz baixa.
— O que é? Quem o enviou?
— Fui instruído a lhe entregar isto. — O mensageiro estendeu um pequeno saco de
couro marrom na palma da mão.
— O que é?
— Não sei, milady. — Ele olhou ao redor. — Tenho de ir.
Gwyn olhou para o saco de couro. Apenas uma pessoa lhe enviaria mensagens
secretas. Apanhou-o depressa.
— E se meu marido estivesse por perto? — perguntou com um misto de raiva e
confusão.
— Disseram-me que ainda não se casou. Ela corou.
— Se lorde Griffyn estivesse por perto, milady, eu teria lhe dado apenas este. — O
mensageiro mostrou outro saco de couro, que era preto, e entregou-o a ela também.
— Milady. — Com uma mesura, afastou-se depressa, desaparecendo nas sombras
da noite.
O encontro todo não durou um minuto. Gwyn olhou para os dois sacos de couro e
abriu o preto primeiro.
Guinevere,
Muitas felicitações por suas iminentes núpcias, cara amiga! Infelizmente, não
poderei ir. O caro Estefânio ficou doente e não conseguiria fazer a viagem. Mas você o
conhece — sempre tão enfermo! Mas faz tanto tempo que não conversamos. Sinto falta
das nossas agradáveis conversas e jamais me esquecerei das que tivemos em seu jardim
de rosas. Eu me lembro das suas palavras com tanta clareza. Acredito que você também
não as tenha deixado desaparecer da sua memória. Minha grande afeição, velha
amiga! Ellspereth.
Ela não conhecia ninguém que atendesse pelo nome de Ellspereth.
Tremendo agora, abriu o outro saco e tirou de dentro dele um pequeno pedaço de
tecido que envolvia algo. Quando o desdobrou, dezenas de pétalas secas de rosas
caíram aos seus pés.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Capítulo V

Gwyn achava-se junto à janela quando Griffyn entrou no quarto de ambos e se virou.
Ele parou logo além da soleira, parecendo surpreso em vê-la de pé.
— Achei que você estivesse dormindo.
Ainda assim, tinham ido para o único lugar onde sabiam que o outro estaria.
Ela permaneceu no lugar por um momento, observando-o, com uma expressão
indecifrável nos olhos. Aproximou-se, então, com passadas largas e, sem uma palavra,
colocou-se na ponta dos pés, segurou o rosto dele entre as mãos guiando-o para si e
beijou-o.
Griffyn retribuiu com a mesma intensidade, erguendo-a do chão, segurando-a junto a
si junto com força. Beijaram-se com uma paixão súbita, desesperada. Enfim, ele a
colocou de volta no chão, mas ela continuou abraçando-o firmemente.
— O que foi? — perguntou ele com gentileza.
— Nada — murmurou Gwyn e, então, sacudiu a cabeça. — Nada.
Griffyn beijou-lhe a fronte.
— O que queria me dizer antes? Desculpe-me por eu ter precisado me afastar tão
repentinamente.
Ela aninhou-se mais junto ao peito dele.
— Não quero falar.
Nem ele queria. Qualquer que fosse o instinto que o dominava, tomava conta dela
também e só aumentava o incrível desejo entre ambos. Não a queria apenas de corpo,
mas de alma e de coração também.
— O que quer fazer, Guinevere? — perguntou num sussurro rouco.
— O que você quiser.
Gwyn abraçou-o pelo pescoço e entreabriu os lábios, ávida por seu beijo. Moldou
seu corpo no calor do dele e correspondeu ao beijo faminto com todo seu ardor, enquanto
as línguas se entrelaçavam numa cadência erótica.
Ainda beijando-a, Griffyn guiou-a para trás até fazê-la sentar na beirada da cama.
Fitando-a nos olhos em seguida, começou a desmanchar-lhe a grossa trança.
— Assim — disse quando os cabelos soltos dela cascatearam pelos ombros e
costas. — É como eu gosto.
— Então, é como deve ficar — respondeu Gwyn com uma voz igualmente carregada
de desejo. Inclinando-se para-a frente, fechou a mão em torno do membro rijo dele,
libertando-o das roupas.
Griffyn fechou os olhos, soltando um gemido, enquanto ela o afagava com
movimentos cada vez mais ritmados. Após longos momentos de deleite, ele abriu os
olhos e correu a mão pela frente do vestido dela, afagando os seios arredondados. Enfiou
a mão pelo decote até encontrar o seio quente e massageou o mamilo entre o indicador e

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

o polegar.
A paixão explodiu num frenesi arrebatador, e os dois começaram a se livrar
depressa de todas as peças de roupa em cima da cama.
— Eu te amo, Guinevere —- disse ele, rouco, Esticando-se acima do corpo trêmulo
dela. Uma lágrima escorreu pelo canto do olho dela, deixando-o zangado, e afastou-a
depressa.
Começou a lhe explorar o corpo inteiro com cadeias abrasadoras, acariciando os
seios provocantes, sugando um e, depois, o outro mamilo longamente. Enquanto ela se
retorcia de prazer sob seu corpo, deslizou a mão pela pele macia até o triângulo tentador
e tocou-a no ponto mais sensível, afagando-a languidamente, sentindo o líquido quente
que confirmava a intensidade de seu desejo.
Gwyn entreabriu as pernas e arqueou os quadris.
— Por favor — murmurou.
Ele se deliciou em observá-la, louca de desejo, seu corpo se retorcendo, os olhos
semicerrados, os lábios entreabertos, emitindo gemidos, os cabelos longos espalhados
pelos travesseiros. Era a visão mais adorável e excitante possível.
Segurando-a, enfim, pelos quadris, posicionou-a para recebê-lo e penetrou-a. Gwyn
soltou um grito de prazer e cingiu-o pela cintura com as pernas, acentuando ainda mais o
contato entre seus corpos, acompanhando-o nos movimentos frenéticos. Querendo
prolongar os momentos ao máximo, Griffyn rolou, então, na cama, levando-a consigo,
fazendo com que ela ficasse por cima de seu corpo. Gwyn controlava a situação agora,
seu corpo ondulando sensualmente. Griffyn estudou-a quase no auge do prazer, os
cabelos espalhados, os seios balançando eroticamente. Segurou-os, deliciando-se com
sua firmeza, enquanto ela arqueava seu corpo repetidamente. Deslizou uma das mãos,
então, até o centro de prazer dela, acariciando-o habilmente.
Depois, abafou os gemidos dela com seus lábios, puxando-a para si para um beijo
sôfrego. Seus corpos agora ondulavam freneticamente, e um êxtase intenso como nunca
os arrebatou quase ao mesmo tempo.
Griffyn queria mantê-la assim, em seus braços, para sempre protegê-la do que quer
que a tivesse feito derramar aquela lágrima, de qualquer tristeza que fosse lhe causar.
Queria abraçá-la e apenas amá-la, e isso nunca mais seria o bastante; não com as
mentiras que já haviam começado.
Perderam a noção do tempo, deitados um nos braços do outro na cama
aconchegante, sob a tênue claridade do braseiro, com a noite fria e silenciosa lá fora.
— Bem. Conseguimos não falar — sussurrou Gwyn. Griffyn sorriu de leve.
— Devíamos ficar “sem falar" mais vezes. Ela soltou um riso.
— Acho que já ficamos "sem falar" com freqüência o bastante.
— Eu não acho. — Ele tocou-lhe a face com ternura. — Isso é tudo o que eu quero.
Gwyn revirou os olhos e apontou para o colchão.
— Isto? Tudo o que quer é... não falar? Ele sorriu.
— Quero pequenas coisas. Uma família, a colheita, filhos.
Gwyn beijou-lhe o pescoço, desviando seus olhos. Ele levantou o queixo dela com
gentileza, vendo que tinha os olhos marejados. Gwyn abriu um sorriso por entre as
lágrimas.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

—Tenho desejado um filho desde que eu mesma era apenas uma criança. Apenas
nunca soube...
— Nunca soube o quê?
Ela sacudiu a cabeça sem dizer nada. Afagou o peito dele, enquanto se aninham
melhor sob a manta de peles.
— E quanto a você? Quais eram os seus sonhos quando menino?
— Eu tinha um sonho.
— Apenas um?
— Partimos do Ninho quando eu tinha oito anos. Costumava ficar deitado na minha
cama, na Normandia, e tudo o que eu queria era que aquilo parasse. Achava que isso
significava voltar para Casa, como se isso pudesse reparar tudo. Manter aquilo longe.
Mas era apenas um desejo de criança. Nosso passado é como nossa sombra. Ele nos
segue a toda parte. Tudo o que temos é o que fomos e o que fomos destinados a nos
tornar. Concluí que o que pretendemos nos tornar é o que mais importa.
— Também acredito nisso.
— Do contrário, estamos condenados.
— Sim. Diga-me ao que se referia quando falou "aquilo". O que você queria que
parasse, que ficasse longe? O que pararia se você voltasse para casa?
Ele olhou por um momento para janela com ar distante.
— Nada. Meu pai. Ele era conhecido como Mal Amour, amor ruim. Na Normandia,
era um monstro. As mães costumavam usar a ameaça do Mal Amour para fazer com que
os filhos se comportassem, ou ele invadiria os vilarejos decapitando os pais deles,
violentando as mães.
— Santo Deus.
— Minha mãe tinha de suportar a pior parte, acredito. Griffyn não pensava na mãe
regularmente. Ela havia sido quieta, reservada e pudera fazer pouco para proteger a si
mesma,e ao filho. Mas tudo era passado agora. Não importava mais. O pai morrera havia
treze anos, felizmente; a mãe também. E agora ele estava na própria casa, com sua
própria e incrível mulher, que logo se tornaria sua esposa. As coisas podiam ser
diferentes agora, não podiam?
— Você acha que sua mãe se empenhou ao máximo? Aquele era um pensamento
novo também.
— Sim — respondeu ele devagar. — Tenho certeza de que sim.
— E, às vezes, simplesmente não é o bastante, certo?
— E, às vezes, é. —- Griffyn estreitou-a mais em seus braços sob as cobertas.
Aquilo tudo parecia... inesperado. E o que tivera esperança de que acontecesse. Estivera
prestes a se deixar consumir pelo desejo por aquela coisa, mas, em vez disso, fora até
Gwyn. Quisera estar a seu , lado, e ela o tirara das trevas.
— Você se lembra de ter desejado filhos quando era apenas uma criança, mas eu
me lembro de ter desejado você quando mal havia me tornado um homem.
— Você não me conhecia quando era um rapaz. Griffyn beijou-a na fronte e
aninhou-a ainda mais
Junto a seu coração.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Eu sondava com você.

Griffyn encontrou Gwyn na antessala de ambos, bordando com algumas damas de


companhia, as quais ela logo dispensou com um sorriso.
Ele, então, beijou-a com gentileza nos lábios.
— Diga-me, por que tem tantas damas de companhia?
— Eu não me preocuparia muito com isso, milorde — sorriu Gwyn, abraçando-o pela
cintura. — Alguns dos homens que virão jurar lealdade a você são pais delas.
— Bem, todos estão contentes que a guerra tenha terminado, que esteja havendo
uma transição pacífica.
— É verdade. Mas aposto que esses que mencionei estão mais gratos do que os
demais porque suas filhas estão sãs e salvas.
Ele arqueou as sobrancelhas fingindo ar surpreso.
— Então, as jovens estão aqui por uma questão política?
Ela riu.
— Jamais. Especialmente porque, na maioria, não são da nobreza.
— Ah, já que estamos falando nisso, não há apenas excesso de damas de
companhia, mas tenho a impressão de que existem tantas criadas no Ninho que vivo
tropeçando nelas.
Gwyn adquiriu um ar sério.
— Os maridos delas morreram, ou seus pais e irmãos, lutando pelo meu pai e o rei.
Não têm um lar, nenhum lugar no mundo. E precisamos de mulheres para cozinhar, lavar,
ordenhar, limpar...
— Mas de uma dúzia de cada para cada tarefa?
— É claro que sim — respondeu Gwyn placidamente. — Você verá. Este lugar
estará sempre brilhando. E os seus lençóis serão os mais limpos do que qualquer um na
Nortúmbria.
— Até do que os do arcebispo? — perguntou Griffyn com um riso.
— Principalmente os dele.
— Você é impossível. — Ele beijou-a na ponta do nariz. — Venha, quero que veja
uma coisa.
Conduziu-a até o amplo patamar do lado de fora dos aposentos, onde três janelas
estreitas e profundas se destacavam nas paredes redondas da torre.
— Olhe por uma das janelas.
Gwyn assentiu, adiantando-se até a janela voltada para o nordeste, observando ao
longe uma espiral de fumaça e a movimentação de pessoas diante da fileira de árvores
que demarcavam o início do lado leste da floresta.
— Você mandou que fosse feita uma queimada num trecho de floresta, para haver
mais terra para plantar. É maravilhoso. Para o outro ano, é claro. Não teremos sementes

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

o bastante para os campos que já estejam prontas para plantar com a chegada da
primavera.
Griffyn segurou-a pelos ombros e guiou-a até a janela que dava para a face sul, por
onde ela espiou.
— Carroças?
— Quantas?
— Quatro, cinco.
— Há outras vindo, Gwyn. Olhe.
— Estou vendo. O que estão trazendo?
— O que acha?
Ela virou-se para observá-lo, cruzando os braços de leve e estreitando os olhos.
— Luxo ou coisas necessárias? Ele sorriu.
— Ambos. Algo que precisamos, mas que em tê-lo fará com que nos sintamos
realmente ricos.
— Bebês! riu Gwyn.
Griffyn também soltou um riso e tornou a apontar pela janela.
— Eles não vêm em carroças. Sua mãe deveria ter-lhe explicado melhor sobre
essas coisas. Agora, o que acha que há dentro das carroças?
— Não faço a menor idéia.
— Grãos.
Gwyn arregalou os olhos.
— O quê?
— Grãos. Para moagem e também sementes para o plantio. Trigo, centeio e cevada.
Gwyn ficou imóvel por um momento e, então, seus ombros começaram a tremer.
Griffyn abraçou-a com força e beijou o topo de sua cabeça enquanto ela chorava.

Gwyn acordou no meio da noite gritando novamente. Griffyn estreitou-a junto a si,
ajudando-a a se acalmar, e, então, perguntou com suavidade:
— Seu pai?
Ela tinha os olhos fixos e vermelhos,
— Sim.
— Por que sonha tanto com ele? Por que seus sonhos são tão terríveis?
Ele não achou que Gwyn fosse responder, mas finalmente ela disse numa voz
desolada:
— Meu pai nunca me perdoou.
— Pelo quê?
— Por ter matado meu irmão. E, depois, minha mãe. Griffyn envolveu-a com a

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

manta e puxou-a mais para si. -


— O que aconteceu? Ela respirou fundo, soltando o ar devagar, trêmula.
— Eu tinha dez anos. Estava andando a cavalo. Não deveria estar. Houve muitas
invasões e ataques mais ao norte naquela primavera. Eu não tinha permissão de deixar o
castelo sozinha. Nem mesmo para ir ao vilarejo. Sabia disso. Mas ouvi minha mãe dizer
que precisava de mais sabugueiros. Os ossos do meu pai estavam doendo com a
umidade da primavera.
Gwyn olhou fixamente ao longo do quarto até a parede oposta.
— Eu sabia exatamente onde os arbustos estavam. Havia encontrado muitos deles
antes, perto do rio, no verão anterior. Saí a cavalo para buscá-los. Eu os ouvi. Minha mãe
e Roger me chamando. Em princípio, eu os ouvi. Eu não queria ir. Mas saí a galope.
Encontrei os sabugueiros. Estava agachada no chão, então, quando...
Ela engoliu em seco.
— Saqueadores. Um grupo de saqueadores. Meia dúzia deles, vindos da Escócia.
Montei em Wind e tentei fugir, mas eles me viram. Eu os ouvi vibrando e gritando,
instigando os cavalos atrás de mim. Eu também gritei. Então, então... oh, Roger. —
Soluçava agora e lágrimas rolavam copiosamente por suas faces. — Ele e alguns de seus
melhores homens, galopando na minha direção. E me chamando. Prossegui com Wind
velozmente até eles, com os saqueadores logo atrás de mim. Os dois grupos começaram
a lutar. Foi tudo tão alto! Roger foi morto. Eu sobrevivi, mas Roger ficou lá sangrando até
a morte na relva. Oh, meu Deus, como eu gostaria de ter morrido no lugar dele.
Griffyn continuou abraçando-a, enquanto os soluços convulsivos a dominavam
depois de ter revivido todo o horror.
Mais tarde, ele afastou-lhe os cabelos do rosto molhado, beijando-a com infinita
ternura.
— E sua mãe nunca perdoou você?
— É claro que sim. E, então, morreu de desgosto. Três meses depois. Seu coração
não agüentou.
Griffyn respirou fundo.
— E quanto ao seu pai? Ele nunca perdoou você?
— Não. Por que deveria?
— Foi um acidente.
— Eu sabia o que estava fazendo — respondeu ela numa voz sombria. Começou a
tremer. — Sabia que estava agindo errado.
Ele a abraçou até que ela adormeceu, talvez uma hora depois. Permaneceu
acordado por um longo tempo, observando-a. Sentiu uma onda de culpa e foi inevitável
ficar desgostoso consigo mesmo. Não gostava de enganá-la. Não suportava a ideia de
envolver Guinevere em qualquer que tenha sido a maldita confusão que destruíra os pais
de ambos. Ela teria sido protegida daquilo, caso tivesse dependido apenas dele. O único
gesto nobre que lhe teria restado.
Levou a mão até a corrente no pescoço com a chave de ferro e com a de aço que
De Louth lhe dera.
Tivera esperança por algum tempo. De que houvesse um elo indestrutível entre os
dois. Esperança de que as coisas pudessem ser diferentes. De que o casamento de

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

ambos pudesse ser diferente. De que ele pudesse ser diferente. Mas Gwyn nunca
retribuiu suas declarações de amor, assim como o pai dele também não, e, dentro de
Griffyn, o desejo pelo tesouro aumentava.
E, assim, tudo se repetiria, a mesma triste história outra vez. Destino. Ele não podia
mais rejeitá-lo. Fora se enraizando em seu íntimo e, agora, sonhava com ele à noite. Com
um tesouro que o enalteceria, que lhe daria poder.
E sabia que era perigoso. Mas não podia recusá-lo. Ele o queria. Não
completamente, não ainda. Mas o anseio estava vindo, crescendo a cada dia.

Griffyn encontrava-se nos porões do Ninho no início da manhã seguinte. Diante dele
havia uma porta, iluminada pela tocha que ele colocara na arandela de ferro na parede ao
lado. Era praticamente uma porta escondida, ao final de um corredor curto, numa área
vazia dos porões.
Griffyn havia parado abruptamente um pouco antes da ligação principal entre os
túneis e, tateando as paredes, como se algo dos tempos de criança tivesse voltado à sua
memória, encontrara a porta. Havia sombras bruxuleantes, atestando a presença de uma
corrente de ar fresco, mas não pôde identificar de onde vinha.
Ele correu os dedos pelos cabelos.
— Eu havia esquecido durante todos esses anos e, agora, eu me lembro tão bem.
— Inclinou-se para a frente, espiando na direção do túnel longo e escuro que seguia para
a direita e prosseguia quase indefinidamente. — Há um túnel logo ali adiante que vai dar
numa caverna na floresta, se me recordo — disse mais para si mesmo do que para Alex,
que estava parado a seu lado, com as sobrancelhas arqueadas.
— Você brincava aqui em baixo? Griffyn esboçou um sorriso.
— O tempo todo.
— E Guinevere? Foi criança aqui também. Ela brincava aqui em baixo?
— Não sei — murmurou Griffyn. Sua armadura de couro estalava no espaço
apertado. Ambos tinham ido para lá diretamente do trabalho com os homens no campo de
exercícios ao amanhecer. Ele deixara Fulk e Jerv no comando, alegando trabalho demais,
prometendo se reunir ao grupo no dia seguinte.
Mas sabia o que estava realmente acontecendo. Já houvera o contágio, que se
alastrava cada vez mais. Era o filho de Christian Sauvage. Era algo que estava no
sangue.
Ai tida assim, ponderou, Gwyn não parecia nem um pouco afetada por aquela
obsessão doentia que destruíra os pais de ambos. Era diferente. De qualquer pessoa que
já conhecera.
— Mas eu gostaria de saber — disse após um momento. — Gostaria de saber se ela
brincava aqui em baixo.— Era um lugar úmido, escuro e parecia cheio de mistérios, Uma
criança imaginativa não teria deixado de explorá-lo.— Acho que sim.
Alex olhou ao redor e sacudiu a cabeça.
— Vocês são malucos — resmungou com convicção. Apontou para a porta diante de
ambos, de onde pendia um monstruoso cadeado em formato de cabeça de dragão.
— Vai abrir a porta, ou não?
— Algum dia, você vai começar só a observar de boca fechada feito uma Sentinela

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— retrucou Griffyn, sarcástico.


Concentrando-se, então, tentou usar primeiro a chave de ferro que levava ao
pescoço na fechadura e, depois, a de aço, mas nenhuma das duas serviu. Alex
praguejou.
— Por que não arrombamos a porta de uma vez?
— Não, ainda não — disse Griffyn, tendo a sensação de que aquilo seria um
sacrilégio.
— E o que faremos, então?
— Vamos esperar.
Alex dirigiu-lhe um olhar de exasperação.
— Santo Deus, Pagão, esperar o quê? Quanto tempo você pode esperar?
Griffyn esforçou-se para conter a ira inesperada.
— Muito mais do que você, ao que parece.
A expressão nos olhos de Alex tornou-se ainda mais dura.
— Ouça, tenho sido uma Sentinela por mais tempo do que você está vivo. Estive à
sua espera minha vida inteira. E, agora, tudo o que você faz é esperar. O mundo está ao
seu alcance; basta que estenda as mãos.
— Você não faz idéia — respondeu Griffyn numa voz baixa, mal conseguindo se
controlar. — Eu nunca quis essa coisa. A sua missão inteira era á de que eu passasse a
me interessar por ela e teve êxito porque, agora, eu a quero. Estou à procura dela, mas
odiando cada momento disso. Assim, prefiro esperar... alguns dias, um ano: Qual é a
diferença? No final, estarei como todos os outros. Obcecado, egoísta, deixando de lado a
minha própria vida, prejudicando-a e aos demais também.
Alex manteve-se em silêncio por um momento.
— Não foi assim para todos, Pagão.
— Não me importo! — vociferou ele, sua voz ecoando pelas paredes e túneis
cavernosos. — Não posso dizer com mais clareza do que isto: desprezo essa coisa toda.
E, agora, tudo o que posso fazer é procurá-la. Deixo minha mulher para ir atrás do menor
vestígio dela. Sonho com isso à noite.
Alex estudou-o.
— Que tipo de sonhos?
Griffyn desabou no banco de pedra que havia por perto e ponderou sobre qual seria
a melhor maneira de entrar na câmara por trás da porta de dragão.
— Deixe-me.
— Griffyn, cada passo meu tem sido destinado a servir você. Eu...
— Deixe-me.
Alex ainda se deteve por um instante, mas, então, girou nos calcanhares, e afastou-
se. Griffyn apoiou o rosto nas mãos. Pôde sentir o cheiro do metal frio das chaves nelas.
Mais uma vez estava ali, num porão, enquanto o mundo todo aguardava ao ar livre acima
dele.
Do lado de dentro da câmara fechada com a cabeça de dragão, Duncan estava de
prontidão, empunhando uma espada curta, disposto a lutar por sua senhora até o fim se

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

preciso fosse. O príncipe Eustáquio continuava entre a vida e a morte, deitado atrás dele,
mas aquela situação nunca fora motivada por um príncipe doente que mal conhecia.
Estava ali por causa da bondosa lady Gwyn e de seu sorriso radiante, afetuoso. Da dama
solidária que o acolhera ali e à sua irmãzinha, quando ele correra para Everoot
arrastando-a pela mão depois que sua aldeia fora incendiada pelos rebeldes. Seus pais
morreram, mas o pai havia mencionado uma generosa lady Gwyn, fazendo-o correr até
ela com a irmã, e tivera toda a razão. Ela os acolhera sem pensar duas vezes, dando-lhes
comida e um lar para o resto da vida.
O som abafado de vozes dissipou-se por completo, e Duncan baixou a espada com
o coração ainda disparado. Sentou-se ao lado do príncipe febril e adormecido, esperando
que lady Gwyn fosse até ali logo para lhe dizer o que estava acontecendo lá em cima. Era
verdade que nunca esperara ter uma vida longa como agora a vida no castelo prometia
ser — mas, até ter ido para ali, certamente nunca esperara uma vida tão cheia de
aventura.
Griffyn subiu dos porões até o salão principal e, de imediato, William, o senescal,
aproximou-se, agitado e nervoso como de costume. -
— Milorde. Chegou mais um mensageiro.
Griffyn olhou ao redor. Um cavaleiro musculoso, de meia-idade, estava sentado à
uma mesa, mas levantou-se depressa com a sua chegada.
— Milorde — saudou-o com um sorriso. Griffyn retribuiu o sorriso.
— Ralph — disse num tom caloroso, segurando o antebraço de um dos
mensageiros de confiança de Henrique na habitual saudação. Ele próprio usara o serviço
do cavaleiro algumas vezes, com a permissão do rei, nas missões mais delicadas. —
Quais são as novidades? E por que está trezentos quilômetros a norte de Henrique? Já
foi alimentado?
Griffyn virou-se brevemente para William fazendo-lhe um gesto, o qual, por sua vez,
acenou para um criado, que desapareceu pelo corredor que levava à cozinha. Em torno
do salão, cavaleiros e soldados que estavam de folga descansavam, conversavam ou
jogavam dados. Um pequeno grupo de mulheres costurava diante do fogo, o som de sua
conversa baixa e agradável.
Ralph tirou um documento do saco que couro que levava preso ao cinturão.
— Henrique FitzEmpress está vindo para uma visita a Everoot.
— Eu sei. — Griffyn abriu o rolo de pergaminho, verificando a mensagem. — Dentro
de algumas semanas. Logo depois que tiver assinado o tratado.
— Não. Agora. Ele estará aqui dentro de um dia. Griffyn ergueu os olhos depressa.
— O quê? Por quê?
Ralph encontrou o olhar dele.
— Henrique achou melhor vir até aqui primeiro.
— Ah. — Griffyn meneou a cabeça, completamente perplexo. Tornou a olhar para o
pergaminho e, depois, para o dia lá fora através de uma janela. Esfriara mais. Grossas
nuvens se acumulavam no horizonte.
— Por quê?
— Nosso senhor Henrique sempre fez o que queria fazer.
— De fato. Mas Ralph — persistiu Griffyn num tom manso. — Por quê!

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O mensageiro desviou o olhar.


— Henrique sempre gostou dê você.
— Nem tanto — respondeu Griffyn numa voz soturna. — Não o bastante, se está
adiando um tratado que vai lhe dar o país. — Tornou a olhar para o documento.
— Uma mensagem de FitzMiles chegou dois dias atrás — admitiu Ralph com
relutância.
Griffyn balançou a cabeça devagar, pensativo.
— Mas o que isso tem a ver comigo?

— Fulk, o que você sabe sobre Eustáquio? — perguntou Gwyn no tom mais
corriqueiro possível. O mundo estava cinzento no início daquela manhã, com uma garoa
fina e fria começando a cair.
Fulk lançou-lhe um olhar confuso.
— Eustáquio?
— Sim, o príncipe. Como homem, quero dizer. Seu comportamento e coisas assim.
Ela estava parada ao lado do marechal, enquanto uma terrível onda de ansiedade a
consumia, deixando seu estômago em nós e o coração descompassado. Desde que se
levantara naquela manhã, houvera o pressentimento de que algo ruim estava prestes a
acontecer. Talvez fosse apenas por causa dos pesadelos. Sempre a deixavam um tanto
angustiada no dia seguinte.
Mas, no fundo de seu coração, sabia que aquilo era diferente. Era a iminência de
algo ruim.
Ela estava conversando com Fulk perto do campo de exercícios mais próximo, onde
os escudeiros e os cavaleiros costumavam treinar, passando algum tempo antes de se
dedicarem a outras tarefas diárias. Jerv supervisionava os exercícios um pouco mais
adiante, enquanto Fulk fazia uma pausa para descansar. Gwyn fora até ali movida por um
impulso de ver Griffyn, pois ele levantara muito cedo e fizera o desjejum primeiro, mas
Fulk informou-a que ele já se afastara para resolver algo com Alex.
Fulk levou algum tempo para responder sua pergunta, parecendo refletir a respeito,
e ela persistiu.
— Então, Fulk, diga-me, que tipo de homem o príncipe Eustáquio é?
Ele a estudou por um momento.
— Quer dizer que tipo de homem ele era?
— Sim, isso mesmo. Era. Que tipo de homem era? Fulk encontrou o olhar
expectante dela.
— Esteve em meio a uma guerra sua vida inteira, milady. O que acha que a guerra
faz com os homens? Sejam príncipes ou não. Ela arruina, não?
— Não a todos. Não são todos que são arruinados.
— Milady estava pensando no seu pai.
Não, na verdade, ela estivera pensando em Griffyn. Agora, porém, pensava no pai,

153
CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

muito.
— Ele não era nenhum santo, Gwynnie. Tem de saber disso, depois de todo esse
tempo. Não era melhor do que o restante de algumas maneiras.
— Era pior?
A pergunta escapou dos lábios dela antes que pudesse contê-la. Fulk virou-se para
observá-la.
— Acho que é o modo como olhamos para a situação, milady. Em que lado
estamos.
— E se... — começou ela, tentando ignorar o nó no estômago. — E se eu fosse
alguém que já vivia aqui no Ninho quando meu pai veio e o conquistou?
Fulk desviou os olhos.
— Houve um incêndio. Gwyn engoliu em seco.
— Que incêndio? — Fulk não respondeu. — Que incêndio? Meu pai...
Ela se interrompeu de repente, sentindo que gelava por dentro.
O silêncio tenso, indesejável prolongou-se até que perguntou num tom frio:
— E quanto a Eustáquio, Fulk? Perguntei sobre Eustáquio, o filho do rei.
Fulk pigarreou e baixou os olhos.
— Bem, milady, ele era violento.
— O quê?
— Era genioso. Tinha opinião própria e não uma que você respeitaria, mas que mais
provavelmente acharia repulsiva.
— Oh — exclamou ela, espantada.
— E não pense que seu irmão o julgava de maneira diferente, milady.
Ela estava boquiaberta.
— Mas eles eram amigos. Fulk sacudiu a cabeça.
— Nada disso. Eustáquio iria ser o rei dele um dia, isso era tudo. Eustáquio não
passava de um encrenqueiro, e é melhor para todos nós que esteja morto... que Deus me
perdoe — acrescentou ele, olhando para o alto com ar não muito penitente.
— Mas Fulk? —indagou Gwyn, confusa. — Por que você apoiou o rei Estevão,
então, sabendo que Eustáquio seria seu sucessor ao trono?
Ele dirigiu-lhe um olhar surpreso. — Ora, eu não estava apoiando o rei, milady.
Estava apoiando você.

Griffyn estava sentado a sós no salão principal com uma caneca de cerveja,
inclinado sobre o pergaminho à sua frente na mesa, quando Guinevere entrou. Fez um
gesto para que se aproximasse.
— Gwyn. Que bom. Acabei de receber a notícia. Henrique FitzEmpress virá ao
Ninho antes do esperado. Deverá chegar aqui amanhã. Estará aqui para o casamento...
Parou de falar quando notou a maneira como ela permaneceu parada sob a
passagem em arco, com o rosto banhado por lágrimas e torcendo as mãos com
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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

nervosismo diante de si. Ele se levantou de imediato.


— O que houve?
— Quando o seu cavalo morreu, Griffyn?— ela perguntou numa voz soturna.
— O quê?
— O seu Rebel. Os estábulos. Quando se incendiaram?
— Quando eu tinha oito anos.
— Eu sei. Mas quando foi isso?
— Quando deixamos a Inglaterra. Quando as guerras começaram. Quando Estevão
subiu ao trono.
— Quando meu pai invadiu Everoot?
Griffyn manteve-se em silêncio por um momento.
— Ele incendiou tudo.
Um único soluço fez o corpo dela estremecer.
— Foi o que pude concluir. — Engoliu em seco. — Fiz uma coisa.
Ele ficou imóvel.
— O quê?
— Eu a fiz antes de você voltar, enfim, para Everoot. Griffyn a observou sem dizer
nada, um súbito frio percorrendo-lhe o corpo.
— Mas eu continuei fazendo-a depois também, que Deus me perdoe.
— O quê?
Ela recostou-se de repente no arco de perda, como se as forças ameaçassem lhe
faltar.
— Estou mantendo o filho do rei nos porões. Ele franziu a testa, confuso.
— Henrique? Ele não tem um filho.
— Estevão tem.
Griffyn encarou-a por um longo momento com olhos faiscantes, as implicações das
palavras pairando no ar carregado entre ambos. Levantou-se, então, caminhando até a
porta sem olhar para trás.
— Há um outro caminho. Ele gelou.
— Há uma passagem secreta para os porões. No nosso quarto. Atrás da tapeçaria.
Ele virou-se para fitá-la com uma expressão furiosa no rosto.
— Achou que eu não sabia sobre a passagem? — exclamou num tom duro. —
Santo Deus, Gwyn, o que estava pensando! Durante todo esse tempo, achou que eu não
soubesse sobre a passagem e deixou as coisas assim. Com a traição logo abaixo.
— Não pretendi que as coisas fossem assim — sussurrou ela, angustiada, com
lágrimas copiosas escorrendo por seu rosto.
— Agora, são.
Griffyn agarrou-a pelo pulso e puxou-a atrás de si escadaria acima.
— Alexander! — gritou, enquanto subiam freneticamente. — Alexander! Jerv...—

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Virou-se tão depressa que Gwyn colidiu contra o peito dele. — Quem mais sabe?
O olhar enfurecido deixou-a com as pernas trêmulas, e ela apoiou a mão na pedra
fria da torre em busca de apoio.
— Eu. Apenas eu. E Jerv...
— Maldição!
— Jerv não sabe! Não sobre Eustáquio. Ele suspeitou de algo. E me disse para
contar a você, o que quer que fosse.
— Ele disse a você para me contar? — falou Griffyn por entre dentes.
— S-Sim.
— E você não contou? Gwyn sacudiu a cabeça.
— Fiz um juramento — sussurrou, trêmula.
Com o rosto contorcido pela raiva, o sorriso dele assemelhou-se a uma careta.
— E daí? Do que vale a sua palavra, qualquer coisa que diga?
Ele se foi, subindo dois degraus de cada vez, retirou uma tocha acesa da parede e
desapareceu nas sombras da escada. Gwyn seguiu-o, tomada pelas lágrimas, morrendo
por dentro.
Griffyn chutou a porta do quarto e, adentrando, arrancou a tapeçaria do
lugar, revelando a porta de carvalho.
Abrindo-a bruscamente, desceu a escadaria depressa, berrando enquanto seguia:
— Alexander!
Um momento depois, Alex apareceu. Tinha a expressão agitada, os cabelos revoltos
e segurava o cinto com a espada. Gwyn apontou para a porta escancarada.
Lançando-lhe um olhar confuso, preocupado, Alex desceu rapidamente pelo escuro
também. Gwyn seguiu-o mais devagar, com o coração disparado, uma camada de suor
frio cobrindo sua fronte.
Quando ela chegou ao último degrau, Griffyn e Alex já estavam parados diante da
porta. O imenso cadeado em forma de cabeça de dragão pendia feito um guarda
taciturno, iluminado pela tocha.
— Você sabe sobre a porta — disse ela, espantada.
— Não tenho a chave — respondeu ele com frieza.
Sem dizer nada, Gwyn deu um passo à frente e, tirando a chave de ouro de seu
saquinho, inseriu-a na boca do dragão. A fechadura se abriu de imediato, e ela deu um
passo atrás.
Griffyn empurrou a porta, que se abriu, e deteve-se por um momento na soleira, com
Alex colocando-se a seu lado.
Duncan levantou-se de imediato e bloqueou o caminho deles, empunhando a
pequena espada. Nenhum dos dois cavaleiros lhe dava atenção; olhavam para o interior
da câmara, imóveis.
— Afaste-se do caminho, Duncan — ordenou Gwyn com gentileza.
Griffyn e Alex desapareceram no interior da câmara. Ela ouviu Alex dizer numa voz
baixa:

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Você sabe o que acontecerá se Henrique Plantageneta descobrir sobre isto?


Gwyn caiu sentada para trás no último degrau da escada fria e olhou fixamente na
direção da porta.
Griffyn voltou um momento depois e seus olhos brilhavam com a fúria contida.
— Ele está morto. Duncan aproximou-se.
— Ele morreu de repente há uns cinco minutos. Mas eu o mantive aquecido. Como
milady me pediu.
— Tenho certeza que sim, Duncan — sussurrou ela. Passou os braços em torno de
si, balançando de leve para a frente e para trás. Nada mais importava.
Griffyn esfregou o rosto com a mão.
— O que foi fazer conosco, Gwyn?— disse num tom soturno.
As palavras reavivaram as lágrimas dela, que rolaram copiosamente pelas faces.
— O que você teria me obrigado a fazer? Você, que preza tanto juramentos e
promessas, o que você teria feito? Se seu rei, a quem ama tanto, lhe desse a coisa mais
importante que possuísse para manter a salvo? Se você tivesse feito mal a tanta gente e
tivesse a chance de reparar as coisas?Se tivesse dado a sua palavra?
Ela desviou o rosto, incapaz de continuar vendo a angústia nos olhos dele. Griffyn
era um homem tão bom e tudo que sempre tivera fora dor, traição e perda. Não quisera
ser uma das causadoras daquilo. Inclinou-se enquanto continuou falando em meio às
lágrimas.
— E, então, surgiu o único homem a quem eu poderia amar na vida e, para honrar
meu juramento, significava que eu teria de ir contra tudo pelo qual ele estava lutando.
Diga-me, o que você teria feito?
— Teria feito o que eu quisesse fazer. — declarou ele, frio e distante. — É o que
todos nós fazemos.
Um guarda desceu a escada principal do outro lado do corredor. Avançou
rapidamente, gritando:
— Milorde! Graças a Deus, eu o encontrei. Um exército está vindo, cavalgando
depressa e diretamente até o Ninho.
Gwyn levantou-se de imediato.
— Deus tenha misericórdia de todos nós. Marcus.
Griffyn dirigiu-lhe um olhar longo, decepcionado e ainda mais furioso. Em seguida,
ele, Alex e o soldado rumaram depressa para a escada principal, deixando Gwyn com
desespero redobrado, se possível.
Griffyn olhou por sobre as muralhas para o enxame de soldados descendo as
colinas. Deus, de onde todos tinham vindo?
— Os homens estão prontos? — Ele virou-se para Alex, cujo escudeiro se movia
depressa atrás dele, ainda fechando sua armadura. Edmund estava ajoelhado aos pés de
Griffyn, colocando as grevas sobre suas pernas.
O caos reinava a toda volta. Homens e garotos gritavam uns para os outros.
Soldados armados espalhavam-se pelo alto das muralhas, ainda ajeitando elmos,
posicionando-se a cada dez passos com balestras e setas longas. Mulheres corriam pelo
pátio com crianças tropeçando à frente delas. Galinhas e cabras fugiam no meio da
confusão. Um cão latia incessantemente.
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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Griffyn viu Gwyn se aproximando. Ela correu pelo pátio apinhado, parou diante de
um grupo aterrorizado de mulheres, abraçando-as e apontando para o castelo e, depois,
continuou correndo na direção da escada para o alto da muralha.
Ele tornou a olhar para Alex.
— Aguardando suas ordens, milorde. O lado oeste do castelo, Pagão. Ainda está
fraco. Os reparos ainda mal começaram.
Olhando em torno da confusão ao redor, Griffyn assentiu.
— Eu sei. Edmund? — Baixou os olhos até seu escudeiro de catorze anos. O garoto
ergueu a cabeça; tinha o rosto muito pálido. — Estamos prontos?
— Sim, milorde — balbuciou ele, levantando-se. Griffyn pousou a mão no ombro do
garoto.
— Ficaremos bem. Já enfrentamos batalhas antes e ainda não deixei ninguém tirar
você de mim.
Edmund piscou algumas vezes.
— Sim, senhor. Quero dizer, não, senhor. Griffyn virou-se para Alex.
— Lembra daquele túnel no porão, que disse a você que vai dar numa caverna na
floresta? Há outra passagem subterrânea que vai dar direto nele. A entrada por onde
poderão levar os cavalos fica atrás do lado norte do castelo. É uma porta larga na parede,
debaixo da hera. Acenda tochas. O caminho é longo, mas largo o bastante para dois a pé,
lado a lado, puxando um cavalo por vez. Depois do cruzamento entre os túneis, quando
seguirem pelo principal, já poderão montar após um certo trecho. Leve a minha guarda
pessoal e os flancos direito e esquerdo e conduza-os pelo túnel. Ele os levará até a
pequena caverna lá adiante na floresta.
Ele apontou para uma colina, talvez a uns cem metros na distância. A floresta subia
diretamente até a beira da colina e cessava. Uma parte coberta apenas por flores
amarelas descia até o vale.
Olhou para Alex.
— Ao meu comando, desça e mate quem quer que tenha sobrado do exército
inimigo.
Alex retesou o maxilar.
— Isso significa que não vai se reunir a nós.
— Eu assumirei a vanguarda e cavalgarei pelos portões da frente.
— Mas, Pagão. Se eu levar os flancos e a sua guarda... — Ele tornou a olhar para o
exército de Marcus. Devia haver mais de quinhentos homens. — Eles vão massacrar
vocês.
— Somos a distração. Vocês são a força.
— Mantenha sua guarda com você — insistiu Alex num tom urgente, zangado.
— São os melhores guerreiros e cavaleiros. Serão necessários para o seu ataque.
Agora, vá.
Alex olhou para o chão e balançou a cabeça de leve.
— Sim.
— Você também, Edmund.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

O garoto o olhou, horrorizado.


— Não posso deixá-lo, milorde! Não deixarei!
— É o que fará. Vá.
Edmund contraiu o rosto, pesaroso, e Griffyn deu-lhe um tapa no ombro, Eles
começaram a descer a escada no momento em que Gwyn subia, encontrando-os na
metade do caminho.
— Griffyn — chamou-o, ofegante. — Espere. Há algo que precisa saber.
— Já me contou o bastante por um dia.
— Espere. Há uma passagem secreta que vai dar na floresta... ,
— Eu também sabia sobre essa, Guinevere. Ao meu comando — gritou ele para
Alex, enquanto este começava a reunir a guarda pessoal que atacaria pela colina.
Gwyn empalideceu quando compreendeu o significado das ordens.
— Griffyn, não pode mandar a sua guarda pessoal para longe de você. Eles
morreriam por você. — Ela baixou a voz. — Você será morto.
— Eles são os melhores guerreiros...
— Enfrentarão as tropas mais fracas. Os soldados mais fortes de Marcus estarão
esperando você. Não Alex, sua guarda, nem Edmund... Você será morto.
Griffyn segurou-a pelos ombros e quase a ergueu do chão até que os rostos de
ambos estivessem bem próximos.
— Para salvar Everoot para você e os seus, Guinevere, isto é uma coisa que farei
de bom grado. Ainda não consegue ver isso?
— Sim. — Ela chorou, passando os braços em torno da armadura áspera.
Ele a afastou de si e fez um gesto para um cavaleiro que estava por perto.
— Leve-a para o salão principal. — Deu-lhe as costas. — Será necessária lá.
Gwyn sentiu as pernas fraquejando. Deslizou até o chão, segurando-se à parede em
busca de apoio. O cavaleiro segurou-a pelos braços, erguendo-a.
— Milady? Lady Gwyn, por favor venha.
Ela se ergueu recorrendo a toda sua força de vontade. Endireitou as costas até que
estivessem tão retas quanto a espada que Griffyn acabara de desembainhar enquanto
caminhava adiante de seus homens. Ele lhes falava ao prosseguir, transmitindo palavras
de encorajamento e vitória, dando brevemente uma ordem a um soldado aqui e ali.
Não olhou para trás.
— Por favor, solte-me, Robert — disse ela com dignidade, virando-se para o
cavaleiro. Era tempo de fazer o que o futuro imediato reservava, não mais.
Começou a atravessar o pátio, seguindo na direção do salão principal, onde aldeões
e criados juntavam-se em pequenos grupos amedrontados que ela simplesmente
não podia salvar.
Griffyn, porém, podia.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

O pequeno exército de Everoot cavalgou sob o pórtico que abrigava os portões.


Marcus estava em sua montaria no alto da colina, observando e calculando. Abriu um
sorriso. Os rumores sobre os números de homens de Sauvage haviam sido exagerados.
Mas o que via era ainda melhor do que esperara. Mesmo contando os homens na
muralha, Marcus percebia que estava com uma vantagem de cinco para um. O
jactancioso capitão de Henrique FitzEmpress não parecia tão indestrutível, afinal.
O último dos cavaleiros de Everoot passou pelos portões. Umas poucas dezenas de
soldados a pé marchavam atrás, carregando machados e lanças. Marcus inclinou-se,
dizendo ao seu mensageiro:
— Chame a todos. Não deixaremos ninguém na retaguarda. Que venham todos
para o vale. Isto será uma diversão!
O mensageiro assentiu e levou o chifre aos lábios. Emitiu sons variados. Todo o
exército de Marcus adiantou-se em formação: primeiro os cavaleiros com seus rostos
anônimos ocultos pelos elmos; logo atrás, posicionaram-se os agrupamentos de homens
a pé, com suas fortes armaduras feitas de várias camadas de couro.
— Em frente, homens! — gritou Marcus. — A todos os que matarem, o que é deles
será de vocês. Não quero pilhagem no castelo, apenas no vilarejo. Mas esse vocês
podem incendiar. E, acima de tudo, Sauvage é meu.
Ao sinal dele, a cavalaria desceu em disparada, com o exército correndo logo atrás
para um encontro sangrento com os cavaleiros e,soldados do castelo que foram ao
encontro deles no vale. Lanças voaram, espadas colidiram e homens começaram a gritar
de dor em meio ao banho de sangue. Marcus avistou Sauvage a uns quarenta passos de
distância. Ele acabara de derrubar um dos cavaleiros de Endshire e virava o próprio
cavalo negro quando também avistou Marcus. Puxou as rédeas com força e o cavalo
resfolegou com fúria e ergueu as patas no ar.
Marcus sorriu. Griffyn olhou por sobre o ombro de Marcus e também sorriu.
Marcus arrancou seu elmo e virou-se para olhar por sobre seu ombro. Com mil
diabos!
Centenas de cavaleiros e cavalos, com flâmulas de Sauvage tremulando no ar,
desciam a colina em direção ao seu exército. Seu exército inteiro. Era uma armadilha.
Os cavaleiros recém-chegados avançaram numa onda implacável. Marcus colocou o
elmo de volta e seguiu direto pelo meio dos combatentes, na direção de Sauvage, que
girava com seu garanhão numa pequena elevação de terra, à sua espera.
— Bela estratégia— disse Marcus, meneando a cabeça na direção da nova onda de
devastação à direita.
— Matarei cada um de vocês.
— Chame-os de volta. Temos de conversar. — Cada um de vocês.
— Falo sério, Griffyn. Faça-os parar. Tenho algo. Para Guinevere.
Griffyn encarou-o por um momento. Apoiou-se, então, nos estribos para se erguer e
sacudiu a mão no ar. Sua guarda pessoal seguiu na sua direção com Alex na frente.
Moveram-se com tamanha confiança que a batalha se abriu diante deles, como um mar
se partindo ao meio. Pararam em torno de Griffyn. Doze lanças foram apontadas
diretamente para a cabeça de Marcus. Griffyn falou rapidamente com Alex e, em seguida,

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

tornou a dirigir-se a Marcus.


— Você primeiro.
Marcus fez um sinal ao mensageiro, e os homens bateram em retirada. Os pajens
de Sauvage sacudiram flâmulas no ar e, numa questão de um minuto, a luta cessou.
Cada exército recuou por lados diferentes das colinas até a metade delas e aguardou,
ofegante e suando com as armas abaixadas, observando as pequenas figuras no centro
do vale.
— Traga Guinevere até nós — ordenou Griffyn com o olhar fixo em Marcus.
Edmund saiu com o cavalo a galope na direção do castelo, já gritando por lady
Gwyn.
Gwyn ajudava a cortar tiras de tecido no salão principal para bandagens. Mal
conseguia conter os soluços de dor. O exército de Marcus parecia forte. Griffyn a odiava.
Um barulho distante a fez erguer a cabeça. Vinha do lado de fora, ficando cada vez
mais próximo e alto. Não demorou para que todos no salão principal o notassem e
começassem a olhar ao redor e murmurar.
Gwyn levantou-se com o coração disparado. Um grande estrondo reverberou pelo
salão. Mais ruídos, altos, furiosos e rápidos. Alguém berrou uma ordem:
— Abram! — Houve mais um som reverberante e, então, um relincho de cavalo que
ecoou pelo salão.
— Santo Deus — murmurou Gwyn.
Um cavalo suado apareceu no alto da escada. Edmund o montava, o escudeiro de
Griffyn. Ele subira com o cavalo pela escada externa, um ato praticamente suicida, em
vez de perder tempo vindo por dentro.
— Oh, não — sussurrou ela. — Por favor, Deus. Não Griffyn.
Edmund gritou:
— Venha, milady! Ele a está chamando.
Gwyn correu até a escada de imediato e subiu, gritando:
— Vá, vá! Para o lado de fora!
Edmund virou o cavalo assustado e o fez descer novamente a escada externa.
Gwyn apareceu no alto e desceu logo atrás, dois degraus de cada vez, até estar, um
pouco acima de Edmund, quase ao pé da escada. Ele a pegou pela mão para ajudá-la a
montar, e galoparam a toda velocidade pelo pátio na direção dos portões.
Nuvens escuras avançavam pelo céu enquanto seguiam para o vale, uma
tempestade se formando ameaçadoramente no horizonte. Segurando-se com força, Gwyn
arriscou um olhar por cima do ombro de Edmund. Chegariam a tempo? Qual era a
gravidade da situação? Quanto tempo tinham? Seu amado já estaria...
Parado ao lado de Marcus?
Ela gritou acima do som ensurdecedor do vento no ouvido de Edmund:
— Eu pensei que ele estivesse morrendo!
— Não, milady — gritou o escudeiro de volta. — Mas está pronto para matar.
Gwyn tornou a pousar o rosto nas costas dele e esforçou-se para parar de chorar de
alegria. Griffyn estava vivo. Não estava morto, nem morrendo. Ela poderia lidar com
qualquer coisa exceto com isso.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Se ao menos soubesse...
Gwyn colocou-se ao lado dos cavaleiros oponentes, ainda ofegante. Marcus olhava
para ela Griffyn não. Ele se mantinha imóvel, cornos olhos fixos no horizonte. Na verdade,
parecia perdido em pensamentos, como se nada daquilo importasse mais.
Ela se virou para Marcus, notando que tinha os olhos calmos, embora parecesse
ocultar uma agitação por trás de sua fachada serena.
— O que está pensando, Marcus? — indagou ela, ultrajada. — O que é tudo isso?
— Fez um gesto na direção dos soldados. — Perdeu o juízo? '
— Talvez. — Ele apoiou o pé no elmo, deixado no chão a seu lado e, de fato, sorriu
feito um homem insano. — Como vai Eustáquio?
Gwyn sacudiu a cabeça.
— Chegou tarde demais para me arruinar. Eu mesma fiz isso. Griffyn já sabe. Eu
contei.
— Oh, ótimo. — Marcus lançou um olhar a Griffyn, que ainda observava algum
ponto na distância. — Então, podemos negociar. Cada um de nós tem algo que o outro
quer.
— Você não tem nada que eu queira — retrucou Gwyn.
— Oh, não? E há apenas uma quinzena eu era a sua última esperança. Ora, ora.
Bem, de qualquer modo, tenho algo que talvez Pagão queira.
—- Do que está falando? — perguntou ela quando ficou claro que Griffyn não tinha
intenção de abrir a boca. — Por favor, Marcus, pare. Terminou, felizmente. Eu estava
enganada.
— Você estava enganada, mas ainda não terminou. Não ainda. Vou repetir: tenho
algo que o seu Griffyn quer.
— Você não tem nada que eu queira, Marcus, — declarou Griffyn finalmente, sem
baixar o olhar. — Poderia me matar, se ousasse. Não me importo.
— Mas Guinevere se importa.
Ela sentiu um calafrio subindo por sua espinha.
— Você se importa muito, não é mesmo, Gwyn, com o que aconteça a Griffyn?
Posso ver isso em seus olhos. Você faria quase qualquer coisa por ele. Não tudo, é
claro. — Ele sorriu. — A pequena traição nos porões. Entendi. Mas quase qualquer outra
coisa. Não quer que nada aconteça a ele, não é mesmo?
— Do que está falando? — sussurrou ela.
Marcus desviou o olhar para o perfil austero de Griffyn.
— Henrique FitzEmpress está vindo para cá. Gwyn não se abalou.
— Sabemos disso.
— Ele está cavalgando para o norte a toda a velocidade. Aposto que não sabiam
disso. Ele poderia chegar até o final do dia. Talvez antes. Está vindo para Everoot.
— Por quê? — Ela nem podia olhar para Griffyn tamanho era o desprezo por si
mesma.
Marcus simulou uma expressão de perplexidade.
— Quem pode saber? Talvez tenha recebido notícia de alguma perfídia aqui no

162
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norte.
Ela o observou com crescente horror.
— Oh, Marcus, não. Não.
— Ele sabia do seu plano? — Marcus virou-se para olhar para Griffyn com ar
zombeteiro. — Ela contou a você como me pediu para eu tirar Eustáquio de debaixo do
seu nariz?
— Pare de falar.
— Mas escolhi um caminho diferente, Guinevere. Pareceu-me mais sensato fazer
algumas manobras sobre as quais nem,você soubesse. Isso agora... — Ele fez um gesto
na direção do campo de batalha — ... parece ainda mais sensato.
Ela agarrou a grossa manga dele da cota de malha.
— O que você fez?
— Henrique saberá sobre a traição do seu amado, Gwynnie. Escondendo o príncipe
nos porões dele? — Marcus estalou a língua com ar desdenhoso. — Henrique demonstra
perdão o bastante àqueles que nunca haviam alegado lealdade a ele, mas o seu noivo? O
braço direito dele em campo, conselheiro de confiança, diplomata estimado? Espião de
primeira categoria? Amigo? — Marcus sacudiu a cabeça. — Sempre dói mais quando são
aqueles mais próximos a nós que nos apunhalam. A traição é uma coisa terrível.
Gwyn sacudia a cabeça.
— Não, Marcus. Não.
— Eu diria que dói muito mais quando uma pessoa é desmembrada viva.
Ela só não chorava porque estava prestes a gritar. Parecia que sua cabeça ia
explodir num misto de fúria, ódio de si mesma e medo.
Griffyn, que olhava para a floresta distante de braços cruzados, virou a cabeça
ligeiramente na direção de Gwyn nesse ponto, sem realmente olhar para ela.
— Isso importa a você?
— É claro — confirmou ela, angustiada. Marcus esfregou as mãos.
— Então, vamos barganhar. Estou disposto a fazer negócios. Você quer a
segurança de Griffyn.
— E o que você quer? — perguntou ela, infeliz.
— Você.
Gwyn ficou boquiaberta. Griffyn, enfim, baixou o olhar. Marcus sorriu.
— É bom ter sua atenção. Agora — prosseguiu ele em seu tom jovial —, talvez
você... — Olhou para Griffyn... — não se importe realmente se estiver vivo ou morto. Eu
não sei. Seu pai era um homem brutal, imprevisível e, talvez, isso esteja no sangue. Mas
embora talvez você não se importe muito em viver ou morrer, tenho algo com o que você
se importa mais do que tudo isso.
Griffyn sacudiu a cabeça quase imperceptivelmente.
284
Kris Kennedy
—-Você não tem nada que, eu queira, FitzMiles.

163
CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Oh, tenho, sim. Algo destinado apenas aos herdeiros de Everoot. O único e
verdadeiro Herdeiro.
Aquilo finalmente causou um brilho nos olhos de Griffyn.
Marcus baixou a voz.
— Sabe do que estou falando, não é? A coisa que esteve procurando? Oh, ouvi
dizer sobre como você renunciou ao tesouro e ao seu destino. Mas eu o conheço. E
conheço essa coisa. Tem estado à procura dela, não é? Pois está comigo e eu a darei a
você. Se me der Guinevere.
O vento forte soprava ao redor. Gwyn olhou para Griffyn, que, embora mantivesse o
rosto inexpressivo, tinha uma expressão furiosa nos olhos e um músculo se retesava em
seu maxilar. Virou-se abruptamente para Marcus.
— O que está causando a ele? Do que está falando? O que é essa coisa?
Marcus nem sequer olhou para ela.
— Diga, Griffyn, quanto ela vale para você?
O silêncio tornou a pairar. Era como se Griffyn estivesse travando uma batalha
dentro de si mesmo e continuava fulminando Marcus com seu olhar.
Gwyn sentiu as lágrimas inundando seus olhos. Um ano antes, jurou se matar antes
de se casar com Marcus. Agora, era Griffyn, não ela, que morreria se ela não se
sujeitasse. Baixou a cabeça.
— Eu concordo. Casarei com você.
Griffyn virou-se para observá-la, enfim, e Marcus também. Muitas emoções
passaram por seu rosto, mas todas pareceram fazê-lo sorrir.
— Tenho dito isso o tempo inteiro, Gwynnie: você é impetuosa, mas não estúpida —
observou com verdadeira afeição, o que a deixou atônita: — Então, temos um acordo.
— Sim.
— Não.
Ambos se viraram ao som da voz de Griffyn. Pela primeira vez desde que soubera
da traição dela, ele a fitou realmente e não desviou os olhos, nem mesmo quando disse:
— Deixe-nos, FitzMiles. Ela não vai se casar com você.
Gwyn tocou-lhe o braço.
— Oh, mas, Griffyn, tenho de fazer isso. Enforcarão você se descobrirem sobre
Eustáquio.
— Não há nada para você aqui, Marcus — declarou Griffyn, como se ela não tivesse
falado. — Nunca houve nada para você aqui. E FitzMiles — acrescentou, olhando para o
rosto vermelho de Marcus —, por essa traição, você perde as terras que tem em Everoot.
Eu o destituo de tudo.
Marcus riu, um tanto nervoso.
— Henrique FitzEmpress simplesmente me concederá outras.
— Eu duvido muito. Mas, no caso improvável de que isso aconteça, não será algo
de minha autoria — declarou Griffyn, imperturbável. — E respondo apenas pelos meus
atos. — Desviou os olhos para Alex. — Se os homens dele não tiverem deixado as
colinas em vinte minutos, mate todos.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Ele girou nos calcanhares. Gwyn olhou ao redor para os rostos chocados, cobertos
por elmos, e, então, deu um passo adiante para segui-lo.
Marcus, porém, mestre da intriga, tinha uma última revelação.
— Você nunca conseguirá abri-lo — disse para as costas de Griffyn. — Tenho uma
das chaves.
Gwyn sentiu o desespero se renovar, seu destino ficando mais uma vez em
suspenso.
Griffyn virou-se. Marcus ergueu uma corrente que levava em torno do pescoço no ar.
Dela pendia uma chave de aço. Gwyn soltou uma exclamação silenciosa. Quase avançou
para a frente para agarrá-la.
Nesse momento, Griffyn ergueu uma corrente do próprio pescoço.
— Você se refere a isto? — disse numa voz desprovida de emoção. De sua
corrente, também pendia uma chave.
Duas, na verdade, uma preta como ferro, outra prateada como aço. Marcus
arregalou os olhos e, então, estreitou-os. Ele se virou para a direita, onde estava De
Louth, seu capitão. De Louth fechou os olhos por um momento.
— Seu desgraçado — disse Marcus por entre dentes quando a verdade ficou clara.
— Você fez uma cópia da chave quando foi buscar a corrente.
Griffyn encontrou os olhos de De Louth.
— Sua filha pode enviá-la até a mim agora. Venha você também, se desejar.
Encontrará um meio de vida decente aqui.
— Mas eu ainda tenho algo que você precisa — persistiu Marcus. — Que contém as
pistas. Parece que só eu sei como desvendá-las. Já disse, eu lhe dou tudo em troca de
Guinevere.
Griffyn observou-o com desprezo.
— Não me interessa nada do que você possa ter. Guarde suas pistas para si
mesmo. Não as quero.
Ele, então, virou-se e afastou-se.
Ao redor, os imensos cavalos de Sauvage começaram a ser guiados, fazendo os
homens de Marcus recuar de volta pela colina.
Gwyn estremeceu e adiantou-se depressa até Griffyn.
— O que é? O que é que Marcus tem?
— Uma caixa — respondeu ele num tom neutro.
— Não — gritou Marcus, sabendo que não conseguiria mais chegar a lugar algum,
mas ainda fazendo mais uma tentativa para semear discórdia. — Guinevere tem a caixa,
ou a tinha, ao menos. E não se importou em achar que a deu a mim um ano atrás. É a
verdade, você não sabia?
Ele soltou um riso insano, e Griffyn parou de caminhar.
— Mas você também não a encontrou, não é mesmo? — Ele tornou a rir. — Isso
significa que você não encontrou os Sagrados ainda, não é?
Griffyn continuou caminhando.
Gwyn observou um furioso e insano Marcus por um momento.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Que Sagrados? — indagou. Ele sorriu.


— A caixa a que me refiro é o pequeno baú de seu pai, Gwynnie? Lembra disso?
Griffyn apertou o passo.
— O seu Griffyn o quer — exclamou Marcus ainda sorrindo. — Muito.
— Por favor, Griffyn — disse ela, tornando a alcançá-lo. — Deixe-me ir com ele.
Será loucura se eu ficar. A cada vez que olhar para mim, você se lembrará. Cada palavra
que eu disser será suspeita. Deixe-me ir.
Ele lançou-lhe um olhar frio.
— Não.
Os olhos dela arderam com a ameaça de lágrimas de dor e angústia.
— Deixe-me ir. Você será morto! Posso salvar você.
— Não.
Griffyn não a dispensou com um aceno, nem a convidou a se aproximar mais. Gwyn
caminhava ao lado dele e era como se estivesse a quilômetros de distância.

— Então, este é mesmo o baú dos Sagrados — disse Griffyn. — Só tive certeza
disso depois que percebi que Marcus estava blefando no final. Ele não fazia idéia de onde
o verdadeiro baú foi parar. Não sabe que estava na sela de Noir e deve ter achado que se
perdeu no meio da confusão quando me capturaram. Assim como não tem pista alguma
de nada, ou já teria tentado algo. Era tudo um blefe. Mas quis que eu achasse que ele
estava com o baú dos Sagrados.
Conversava em seu quarto com Alex horas mais tarde, depois que os feridos tinham
sido cuidados, os soldados alimentados, as crianças reconfortadas: Ambos olhavam para
o pequeno baú entalhado de Guinevere, que era como pensava nele agora, no centro da
mesa.
Ao que parecia, ele podia confiar em si mesmo.
O sol não demoraria a se pôr, e as nuvens plúmbeas de tempestade já começavam
a avançar pelo céu. Griffyn afastou-se do baú e adiantou-se até o braseiro para alimentar
e reavivar o fogo com o atiçador.
— Acho que nunca acreditei de verdade — comentou. Alex meneou a cabeça.
— Muitos acharam que seu pai esperou demais para contar a você sobre seu
destino. O leito de morte não é um bom lugar para se colocar tamanho fardo numa alma
jovem, por muitas razões.
— Antes eu teria dito que meu pai assim o fez porque queria tudo para si mesmo.
Tentando viver para sempre.
— E agora?
— Agora. — Ele largou o atiçador e voltou a sentar-se à mesa. — Agora, acho que
ele quis me afastar de tudo. Para me proteger das coisas que isso fazia com os homens.
As coisas que fez com ele. —Pegando as cartas e os objetos do baú, colocou-os na
mesa. O anel fosco, o pedacinho de tecido vermelho-arroxeado, o cabo de adaga, a
mecha de cabelo, as moedas.
— Sei o que você fez, Alex.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Pagão? — A confusão e a tensão se evidenciaram no tom dele.


— Sabia que tenho isto? — Griffyn ergueu a chave de aço.
Alex conteve a respiração por um momento.
— Onde a conseguiu?
— No mesmo lugar onde você tentou. Com De Louth. O completo silêncio pairou
atrás dele. Se quisesse, Alex poderia simplesmente dar-lhe uma pancada na cabeça e
acabar logo com aquilo.
— O que você planejava fazer com ela, se a tivesse conseguido?
Alex aproximou-se com o rosto muito pálido.
— Eu gostaria de dizer "dá-la a você". Griffyn recostou-se na parede.
— Sim. Eu também gostaria disso.
Alex pegou um banco e puxou-o para mais perto, sentando-se.
— Há tantas coisas que não lhe falei, Pagão...
— Eu sei. Por que não?
— Em princípio, foi simplesmente porque você não queria saber. Foi um tanto
insistente demais em seu desejo de não saber, durante muitos anos.
— De fato, fui. Mas você devia ser a minha proteção, não é? Uma Sentinela?
— Sim, nos vigiamos. E protegemos. Mas estamos protegendo você para que você
possa proteger o tesouro. Fizemos um juramento de proteger o tesouro.
— Não a mim? — disse Griffyn, mas não era uma pergunta.
Alex manteve-se rígido diante da acusação tácita de traição.
— Sou seu amigo, Pagão. Sempre serei seu amigo. Não preciso fazer um juramento
para isso.
— E, assim mesmo, mentiu para mim. Por que não me disse que achou que havia
encontrado uma das chaves que formam a chave principal do portal?
— Porque não pude ter certeza de que você seria um bom Guardião — revelou Alex.
— Bom? — Ele soltou um riso breve e começou a andar de um lado ao outro do quarto.
— Eu nem sequer sabia se você se tornaria um Guardião. Você herdou o Sangue, mas o
fardo, como você mesmo disse, tem de ser escolhido. Ninguém pode dá-lo a você ou
obrigar você a carregá-lo. Tem de aceitá-lo. Eu não sabia se você o aceitaria.
Ambos se entreolharam. Griffyn meneou a cabeça, acatando a acusação.
— Certo. Mas por que outro motivo você não me contou sobre a chave?
Alex corou. Passou, então, a mão pela boca e o queixo com força.
— Não sei. Era algo que eu gostava... o fato de saber, ser aquele que sabia. O
guardião da chave, suponho.
— O poder.
Alex assentiu e desviou os olhos.
— Você não levou a mim a Ipsile, mas, em vez disso, levou Fulk. Por quê?
Griffyn deu de ombros.
— Desconfiei antes disso. De Louth apenas confirmou.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Como soube?
— Você estava muito insistente, se importava demais com o que eu faria com o
tesouro. É o que ele faz. Não preciso ser erudito para saber o que ele faz. Faz com que
homens se importem com coisas que não valem a pena. Toma nossas almas.
Tomava a alma dos homens, sem dúvida. Griffyn ponderou que chegara muito perto.
Uma vez que a semente do desejo havia sido regada um pouquinho, brotara feito erva
daninha. Há quanto tempo estava no Ninho? Apenas três semanas e num prazo de dois
dias já estivera indo atrás de rumores dele até a metade da região. Deixando a Guinevere
o espaço para fazer o que fizera.
Sorriu com amargura.
— Talvez nossa família não seja forte o bastante para guardar mais essa coisa.
Ninguém parece ter levado isso em consideração.
Alex sacudiu a cabeça com firmeza.
—- Você é a prova de que não é esse o caso.
— Uma droga de prova, é o que acho.
— Você o rejeitou. No campo de batalha lá fora, antes de saber que Marcus estava
blefando, de saber que este era o baú, quando teve uma escolha, uma promessa de
pistas sobre como chegar ao tesouro, você o rejeitou.
— Não consigo ver como isso poderia manter o tesouro a salvo.
Alex soltou um suspiro.
— Não consigo ver nenhum outro meio de como as coisas possam ser.
Griffyn arqueou as sobrancelhas.
— Então, esse é o teste? Para ter o tesouro, você precisa rejeitá-lo?
— Depende da escolha que é dada a cada Guardião. Essa foi a sua. — Alex engoliu
em seco. — Ninguém mais poderia fazer isso, rejeitá-lo: Eu não conseguiria.
Griffyn inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. Olhou para o
pequeno baú de Guinevere.
— Meu pai achava que existia algo no tesouro que podia fazer com que ele vivesse
para sempre. — Virou-se para Alex. — Existe?
— Talvez.
Griffyn meneou a cabeça e voltou a observar o baú de madeira trabalhada com um
suspiro. Começava a chover forte do lado de fora e escurecia. Apenas as chamas do
braseiro iluminavam o quarto.
— E agora? — perguntou Alex. — Quero dizer, em relação a mim.
— O que acha?
Com a espinha muito rígida, Alex baixou a cabeça e sua voz soou carregada de
emoção.
— Acho que cometi um erro. Acho que esqueci que você era o meu senhor. Meu
amigo. Cheguei perto demais. Sei que me arrependo.
Griffyn tornou a balançar a cabeça e olhou para um ponto fixo no chão.
— Falo sério, Pagão. Não acontecerá outra vez.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Eu sei. Não deixarei. Alex fez uma pequena mesura.


— Milorde.
Griffyn tocou de leve os entalhes intrincados no baú e recostou-se de repente.
— Então, não terei a morte de um traidor? — perguntou Alex num tom sério.
Griffyn sorriu um pouco.
— Não. ,
— E não vai me mandar embora daqui?
— Não.
— Nem Guinevere? Griffyn sacudiu a cabeça.
Alex respirou fundo, soltando o ar devagar.
— Pensei que desejaria nos mandar para bem longe. Está mantendo mais próximos
de si aqueles que o traíram.
— Estou mantendo mais próximos os que cometeram erros e sabem disso. —
Tornou a olhar para o baú. — Talvez eu precise ser lembrado disso de tempos em
tempos.
Alex riu amargamente.
— Do quê? De que as pessoas erram?
Ele tornou a sacudir a cabeça e se levantou.
— De que a redenção é possível.

Gwyn falava com Fulk do lado de fora dos aposentos senhoriais. Havia sido
colocado como o guarda junto à porta; ou melhor, se colocara ali. Estava escuro, pois já
anoitecia e a tempestade caía lá fora.
— Lorde Griffyn não me fará mal —protestara Gwyn quase rindo, apesar de tudo.
— Eu sei, milady. — Fulk endireitou a túnica e pigarreou. — Acontece apenas que
prefiro ficar por perto.
Ela sorriu.
— Se eu fosse uma mulher melhor, eu me casaria com você, Fulk.
Ele corou.
— Tolice, milady. Eu a protejo há tanto tempo que pareceria estranho parar agora,
Gwyn encostou-se na parede perto da porta, ainda reunindo coragem para entrar.
Pretendia ficar ali mais um pouco, até que ouvisse algo de Griffyn, ou, do contrário, teria
de ir lhe falar. Mesmo ciente de que teria de fazer o que ele decidisse. Mandá-la para um
convento, para Marcus, suplicar por sua vida a Henrique; enfim...
— Acho que sei o que o meu pai queria, Fulk. Acho que queria que Griffyn ficasse
com o baú.
— Bem, com certeza que sim. Ela o encarou com surpresa.
— Oh, por que você não me contou isso antes?
— Eu não fazia idéia de que milady estava se perguntando a esse respeito —
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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

respondeu ele com o mesmo grau de indignação e surpresa. — Não sabia que achava
que fosse algo mais do que um baú.
— Eu não achava. E agora Marcus está com ele. O que quer que seja.
Fulk soltou um grunhido.
— Eu não me preocuparia muito, milady. Pagão providenciará para que tudo que
precisa seja trazido de volta para casa novamente.
— O que quer que fosse, não importa mais. Apenas esperaremos e veremos o que o
amanhã trará.
— Sim, milady.
Eles permaneceram em silêncio, olhando para a janela distante. Gwyn ouviu os sons
da tempestade e pensou naquela noite de um ano antes quando se apaixonara por Griffyn
na estalagem castigada por outra tempestade.
— Sim, você não percebe? — disse, pensativa. —"Cas. Gui. Sal." Acho que meu pai
estava tentando me dizer o nome dele e provavelmente que eu desse o baú a ele. Devia
ser isso, então. "Griffyn Sauvage". Era para entregar o baú a Griffyn Sauvage, ou algo
assim. —- Ela fez uma pausa. — Ainda não entendo o que quer dizer o "cas", é claro.
— Case-se.
Gwyn virou a cabeça devagar para olhar para Fulk.
— O quê?
— Case-se com Griffyn Sauvage.
Gwyn entrou, enfim, na antessala que dava para os aposentos senhoriais. Edmund
observou-a com ar suplicante da soleira da porta. Apesar de os dias anteriores terem sido
tão traumáticos e dramáticos, a ingenuidade e sinceridade dele foram um bálsamo para o
ânimo dela.
— Pode fazer com que as coisas fiquem bem, milady? Ela virou-se, tocou-lhe o
ombro e sorriu.
— Eu me empenharei ao máximo para isso. — Olhou de relance na direção da porta
do quarto. — Vá comer algo. E encontre meu escriba. Peça que ele lhe ensine algumas
notas no saltério. Precisamos de música neste castelo, não acha? Consegue tocar um
pouco? Edmund estufou o peito.
— Fique tranqüila, milady — prometeu e retirou-se rapidamente.
Gwyn respirou fundo e bateu à porta do quarto.
— Milorde — chamou, elevando ligeiramente a voz. — Sou eu.
Levou um momento para que a porta se abrisse. Alex estava na soleira, um tanto de
lado para lhe dar passagem.
— Entre. Eles se entreolharam por alguns instantes, adversários em meio a alguma
trégua repentina e, então, ela meneou a cabeça e passou por ele, entrando em seu
quarto, Griffyn , levantou os olhos.
Tinha os cabelos úmidos e usava uma túnica de lã sobre as calças justas. Estava
sentado à pequena mesa onde haviam jogado xadrez tantas noites, onde ele examinara
pergaminhos, onde uma vez deitara o corpo dela. Gwyn não soube de onde mais lágrimas
ainda afloraram. Já não chorara o bastante até que as suas secassem de uma vez?
— Entre, Guinevere. Ela se aproximou com passos hesitantes.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Milorde. Não pretendo incomodar. Vim apenas para... Ora, você está com o
baú do meu pai! — exclamou de repente.
— Sim.
— Quando o encontrou? Onde? Pensei que Marcus tivesse...
Griffyn deu um profundo suspiro.
— Eu o encontrei há mais de uma semana no meio das minhas coisas.
Ela refletiu sobre as várias implicações daquilo.
— E não me contou?
— Não. — Ele fitou-a nos olhos. — Perdoe-me, eu...
— Por favor. Não se desculpe. O que quer que fosse, não significa mais nada.
Nas sombras atrás dele, achava-se Alex. Que assim fosse. Tudo era à maneira de
Griffyn agora. Ela estendeu a mão e tocou o baú.
— É tão bonito — murmurou. — Encontrou as cartas do meu pai aqui dentro?
— Encontrei as cartas do meu pai.
— O quê?
— Isso mesmo.
— Mas por quê? Por que meu pai entregaria o baú a mim para que eu o protegesse
se não era...— Gwyn interrompeu-se e desabou no banco. — É claro. O baú deve ser
seu. Da sua família. Não da minha. Pertence a Everoot e nós... — Soltou um riso amargo.
— ... nunca fomos Everoot.
— Você é agora.
Novas lágrimas enchiam os olhos dela.
— Ainda não — disse num tom forçado. — Nosso casamento só se realizará
amanhã. E talvez Henrique tenha mandado me decapitar antes disso.
— Henrique não vai mandar decapitá-la. Você não cometeu traição. Contra ele.
Ela baixou os olhos para a mesa.
— Farei o que quiser que eu faça, Griffyn. Nada é mais como era antes e não sei de
mais nada. A não ser que... — acrescentou ela com certeza — ... era disto que Marcus
estava falando. O baú. O que você precisava, ou queria, está aí dentro.
— Eu sei.
Ela o fitou, sentado ali, com os olhos indecifráveis enquanto a observava. Sentiu um
arrepio subindo por sua espinha.
— Posso fazer uma pergunta, Griffyn?
— Guinevere, agora não é o momento para ficar tímida. Pode perguntar o que
quiser. Como diz, nada é mais o que era.
Gwyn assentia, concordando com qualquer coisa que o mantivesse falando com ela,
fitando-a e tendo qualquer tipo de contato, por mais distante que fosse, mas as palavras
seguintes dele a apanharam de surpresa.
— As mentiras têm de cessar. As suas. As minhas.
— Você mentiu?

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Ele indicou o baú e as coisas espalhadas ao redor sobre a mesa.


— Eu menti.
Ela soltou um riso trêmulo.
— Isso mal conta.
— Oh, conta muito.
Sobre a mesa, estavam itens que ela pegara e segurara inúmeras vezes.
Remanescentes de só Deus sabia o quê: anéis e pedacinhos de tecido, uma mecha de
cabelo e as cartas que nunca conseguira ler. Agora, a corrente que Griffyn sempre usara
no pescoço também estava na mesa, com sua pequena chave de ferro na ponta. Ao lado,
estava a chave de aço.
Ela estendeu a mão para tocá-la:
— A chave de aço. Como?
— De Louth. Gwyn quase riu.
— O quê?
Griffyn lançou um olhar a Alex.
— De Louth deu-a a mim.
— O mais vil mercenário de Marcus deu a você a chave que perdi um ano atrás em
Londres? — indagou ela, perplexa.
— Sim. Ele tem uma filha. Ela virá para cá dentro de poucos anos para se tornar
dama de companhia quando crescer.
Ela não pôde conter o riso agora.
— Mas é claro. As pessoas vêm até você com tudo o que quer. É claro que ele tinha
uma filha e deu uma chave a você.
Tocou-as brevemente.
— Então, você tem duas chaves.
— Ele é a chave — declarou Alex do meio das sombras.
— Não sei o que isso significa — disse Gwyn e não se importava. Fitando os olhos
de Griffyn, seu rosto adorado, tudo que importava era que o perdera. Enganando-o.
— Há um compartimento trancado abaixo — disse, trêmula. —, Não pode vê-lo, mas
ali, na beirada. — Estendeu a mão, apontando.
O silêncio foi absoluto, até que a voz de Griffyn soou pasma e incrédula.
— O quê?
— Sim.
— Você viu o lado de dentro, Guinevere? — Havia ainda mais incredulidade nessas
palavras.
— Claro.
— Como conseguiu fazer isso?
— Uma vez, quando era pequena, encontrei este mesmo baú e estava brincando
com ele. O compartimento do fundo simplesmente se abriu. Meu pai quase morreu
horrorizado quando me apanhou. Ele me avisou para ficar longe do baú, e eu só tornei a
vê-lo depois que o meu pai morreu.
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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Ela fez uma pausa, engolindo em seco.


— Depois disso, naqueles dias terríveis, Marcus estava sempre por perto,
especulando, insinuando sobre tesouros. E casamentos. Tentei tudo o que pude para
abrir o compartimento secreto deste baú. Não sei, apenas parecia algo importante. E
importante que Marcus nem sequer soubesse sobre a existência dele. Tentei até abri-lo
com um atiçador em brasa para queimar a tampa interna e abrir o compartimento. Nada.
Como pode ver, nem sequer ficou chamuscado.
— Então, numa noite, eu estava exausta, tocando-o... é tão bonito — tornou a dizer
num tom suave — e, de repente, lembrei do que havia feito quando criança. Coloquei
minha mão assim... — Ela abriu os dedos demonstrando e colocou-os dentro do baú — ...
e toquei toda sua volta e empurrei...
A tampa do compartimento secreto abriu-se. Alex conteve a respiração. Ela ergueu
os olhos. Griffyn observava-a.
— A desobediência tem alguns pequenos benefícios — disse, irônica.
Algo como um ar sorridente abrandou a expressão reticente no rosto dele.
— Tenho de admitir. Nunca vi a desobediência exatamente como o pecado que a
Igreja vê.
Um pequeno vestígio dele voltou naquele momento. Era como ar fresco adentrando
num lugar abafadiço. Ela sorriu, à beira das lágrimas.
— Não, Griffyn, você não veria.
Ele era perfeito para ela. Uma luz intensa, brilhante. Excelente, sem defeitos,
mesmo com seus erros. Rosto bonito, corpo sedutor, coração bondoso... simplesmente
era de roubar o fôlego.
E ela não tinha direito a mais nada daquilo.
— Era o que precisava, então? — perguntou, tomando o cuidado de manter a voz
neutra. — Saber o que havia no compartimento?
O sorriso apagou-se no rosto dele.
— Sim.
Deslizou o polegar sob a beirada aberta do baú. Todos os três se inclinaram para a
frente. Sem saber por que, Gwyn conteve a respiração quando ele abriu o compartimento
e revelou o que havia dentro.
― Mais documentos — disse num tom frustrado e fechou os olhos.— Não está aqui.
Alex recuou de volta até a parede, praguejando. Gwyn alternou um olhar confuso
entre os dois.
— O que foi? Qual é o problema?
— A terceira chave.
— Uma terceira chave?
— Precisamos de outra chave.
Apesar do desapontamento na voz dele, ela sentiu o coração disparar.
— Eu tenho uma chave. Uma pequena e de ouro. Griffyn fitou-a com súbita
intensidade, e ela meneou a cabeça, eufórica e puxou o saquinho de pano grosso
costurado diretamente na parte interna das saias.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Todas as manhãs executava aquele ritual, costurando o saquinho às saias,


assegurando que a última coisa que o pai lhe confiara estivesse segura. De dentro do
saquinho, tirou a minúscula chave de ouro, que reluzia como se refletisse o sol, e pousou-
a na mão calejada de Gríffyn.
Ele sustentou-lhe o olhar por um momento e, então, fechou a mão em torno da
chave. Pegou as outras duas chaves já na mesa, uma preta, uma prateada, e juntou-as.
Elas se reuniram com um clique. Encaixou a terceira chave no centro delas, como se
fosse um quebra-cabeça de três cores. A chave de aço encaixava-se dentro dos
contornos escuros da de ferro, parecendo um contorno prateado dentro de uma nuvem de
tempestade. A chave dela, de ouro no centro de tudo, cintilava como o fim de um arco-íris.
— Santo Deus — murmurou Alex.
— É uma chave linda — exclamou Gwyn. Griffyn soltou um profundo suspiro.
— E agora? — perguntou ela, observando-o. Ele sacudiu a cabeça.
— Não faço idéia.
Gwyn apontou para o baú, para os rolos de pergaminho que ainda estavam no
compartimento secreto.
— O que é isso?
Griffyn pegou um dos rolos.
— Velino. — Um tipo de pergaminho muito caro. Mas o rolo seguinte que ele pegou
deixou-a abismada.
— Isso é de cobre? O que são?
— Mapas — respondeu Griffyn.
— Mapas?
Ele pegou vários rolos de velino e alguns finos de metal que pareciam de bronze,
abrindo-os com cuidado sobre a mesa.
Ela os observou com ar intrigado.
— Que tipos de mapas são ? Nunca tirei nada do compartimento, achando que
fossem mais cartas.
— Mapas de tesouro — disse Alex.
Gwyn se inclinou sobre a mesa. Pôde, de fato, distinguir traçados em alguns dos
documentos que poderiam muito bem ser marcos. Viu rapidamente figuras de animais
mitológicos, cores vibrantes, escrita abundante e exótica. Observou Griffyn enquanto ele
se debruçava sobre os documentos, os lábios moviam-se silenciosamente enquanto lia os
dizeres em latim que ela reconhecia de manuscritos de monges, mas não sabia o
significado. Foi tomada também por um inexplicável senso de destino, preenchendo seu
corpo com uma energia vibrante e nem um pouco de medo.
— O que é tudo isso? — sussurrou. — Quem é você?
— O herdeiro de Carlos Magno — anunciou Alex do meio das sombras.
— O que isso significa? — perguntou ela. — O que causará a ele?
Griffyn ergueu os olhos dos documentos e fitou-a, mas sua expressão era
indecifrável. Ela sentiu outro arrepio percorrendo-a.
Mais uma vez, foi Alex quem respondeu:

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Significa que ele tem a responsabilidade e o privilégio de guardar tesouros que


têm mais de mil anos — declarou numa voz que teria chegado até o exército de Henrique,
aproximando-se ainda a várias léguas de distância, como se tivesse esperado a vida
inteira de Griffyn para dizer aquilo em voz alta. — Significa que, enquanto alguns alegam
lutar por Deus, o que realmente querem é glória e cobiça, enquanto outros, em segredo,
carregam o fardo de proteger a verdadeira riqueza de nossas almas como um todo.
Significa que o sangue de Griffyn é nobre e ilustre, de uma maneira que não pode mais
ser criado. Significa que ele é nobre e valoroso. Guardião dos Sagrados.
Gwyn olhou para Griffyn, sentindo-se desesperada.
— Que Sagrados? Que coisas sagradas?
— A Arca da Aliança. O Arma Christi, Instrumentos da Crucificação. A Santa Lança.
O Santo Sudário.
Era Griffyn quem falava agora, como se salmodiasse, num tom baixo e ritmado que
a arrepiou.
— Sim, o Sudário, o manto que cobriu o corpo de Jesus. A Coroa de Espinhos.
Calafrios subiam pela espinha de uma chocada Gwyn. Griffyn parou, mas Alex citou
mais um, olhando diretamente para ele.
— O Cálice Sagrado. Gwyn sentiu o sangue gelar.
— O Santo Graal?
Alex quase deu de ombros.
— Ele é o Herdeiro de Carlos Magno. Ele é o Herdeiro.
Ela estudou Griffyn, estupefata. Sim, acreditava que era um filho de reis. Os traços
marcantes e bem-definidos de seu rosto continham angústia o bastante para carregar tal
fardo. Com certeza, sua alma estava angustiada o bastante também.
E ela o traíra.
Com lágrimas nos olhos e escorrendo pelas faces, Gwyn baixou a cabeça e
estendeu a mão sobre a mesa. Se ele não a quisesse, tudo o que teria de fazer era
permanecer imóvel. Ou sair.
Aguardou. Ouviu som de passos se afastando. A porta se fechou. Um único soluço
fez o corpo dela estremecer.
Griffyn, então, cobriu a mão dela com a sua.
Gwyn soltou um suspiro trêmulo e recostou a fronte em seu braço estendido.
— Não tenho palavras — disse sem tentar ocultar o pranto agora. — Minha tristeza
é profunda. Nunca tive a intenção de que você sofresse. Tudo deu tão errado. Nada
importa para mim exceto que você não sofra nunca mais.
— Não foi apenas você.
— Do que está falando?
— Eu também menti. Ela extraiu consolo do calor da mão sobre a sua e ergueu os
olhos vermelhos.
— Isso não importa.
— Eu sabia que o tesouro estava aqui. Conhecia as lendas. Sabia a verdade. Sabia
que as pessoas tentariam encontrá-lo. Achei um baú que você pensou que fosse do seu
pai e não lhe contei. Cavalguei até Ipsile-upon-Tyne para encontrar um tesouro, e não

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

contei a você. Sabia de todas essas coisas e não lhe falei nada, e isso nos colocou em
perigo.
— Não! Você não me colocou em perigo...
— A nós. A nós, em perigo, e, sim, a você sozinha também. Fiz isso aqui, quando a
deixei no vilarejo saxônio, quando a deixei se afastar de mim sozinha até a abadia de
Saint Alban, sozinha. Coloquei você em perigo repetidamente, quando isso serviu aos
meus propósitos. Eu a abandonei e menti para você e peço que me perdoe.
— Não, você não tem de pedir o meu perdão.
— É o que estou fazendo. E há mais. ― Griffyn ergueu-se ligeiramente, segurou o
rosto dela com gentileza e sussurrou: — Eu perdôo você. Perdôo você.
Com um soluço convulsivo, ela deslizou do banco, colocando-se de joelhos no chão
e deitou a cabeça no colo dele, chorando por causa das palavras simples que ansiara a
vida inteira por ouvir. Ouvi-las agora, daquele homem tão bom rompeu todas as suas
barreiras. Entregou-se a um pranto longo, copioso, convulsivo.
Após algum tempo, deu-se conta de que ele afagava sua cabeça gentilmente.
Estendendo a mão às cegas, tocou-lhe o rosto. Griffyn estendeu os braços, para que ela
se sentasse em seu colo. Gwyn ergueu-se, colocando uma perna de cada lado, sentando-
se de frente para ele, seus rostos muito próximos.
— E, agora, você me dirá que também me perdoa — falou ele, rouco, como se
precisasse ouvir aquilo:
— Não importando o que diga, não há nada que você tenha feito que eu precise
perdoar. Mas eu lhe darei algo que acho que precisa mais. — Ela se inclinou mais e
sussurrou bem perto dos lábios dele: — Eu te amo. Eu te amo.
Griffyn curvou os lábios e encostou a fronte na dela, segurando-a pelos quadris.
Permaneceram assim por um longo tempo. A essa altura, a tempestade se dissipara, e
sol começava a sair, sua luminosidade filtrando-se pela janela.
— Henrique chegará aqui logo — murmurou Gwyn, enfim. — Eu me certificarei de
que você... — Deixou a voz morrer. Não tinha nada com ter concluir a frase. O que faria?
— Não se preocupe por causa de Henrique.
— Eu me preocupo por sua causa — respondeu ela com um riso trêmulo.
— Henrique e eu temos uma longa história. Ele me conhece. Não estou preocupado.
Gwyn soltou um longo suspiro.
— Diga que me ama outra vez — murmurou Griffyn junto ao pescoço dela.
— Amo você outra vez.
Ele afagou-lhe as costas.
— Seremos marido e mulher dentro de algumas horas — observou ela num tom
manso.
Griffyn entrelaçou os dedos de ambos e beijou-os.
— Nós já somos.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Epílogo

Choveu torrencialmente durante toda a cerimônia de casamento na pequena igreja.


Henrique FitzEmpress havia chegado, seu explosivo temperamento angevino à mostra,
mas, como Griffyn soubera, a mente dele era mais aguçada do que a língua e parou
rapidamente de cuspir fogo quando ouviu os pormenores.
Assim, sentaram-se no salão principal, em seguida, conversando e bebendo,
enquanto a celebração prosseguia à volta.
— Ela é inteligente — observou Henrique. — E cheia de vivacidade. É como gosto
das mulheres. Mas você terá de vigiá-la.
— Não será preciso. — Griffyn ergueu o cálice de vinho na direção do de Henrique
num brinde. — Mas você certamente terá de vigiar lady Leonor.
Henrique soltou um gargalhada enquanto encostavam os cálices um no outro.
— Terei mesmo. Escolhemos mulheres de opinião forte.
Griffyn fez uma careta, bem-humorado.
— É um dos jeitos de se chamar isso.
Pousando o cálice na mesa, olhou em torno do salão. Havia gente por toda a parte,
reunida em grupos, conversando e rindo. Um menestrel estava sentado ao lado do
palanque, tocando è cantando suavemente para um pequeno grupo. Mais tarde, cantaria
para todos, histórias de monstros ferozes, cavaleiros valentes e recém-casados ligando
Casas cuja união traria paz à Terra.
Guinevere estava sentada na beirada do palanque, cercada de crianças. Parecia
estar contando uma história. Ele sorriu de leve. As crianças a observaram expectantes,
cativadas pelo rosto animado dela e os gestos graciosos de suas mãos, descrevendo uma
história.
A voz de Henrique interrompeu:
— Fez um bom começo aqui, Pagão. As pessoas estão felizes, bem-alimentadas, e
será algo duradouro.
— Isso foi obra de Guinevere.
— Talvez. Everoot será o maior poderio aqui de todo o norte. Tem havido rumores
— acrescentou Henrique sem rodeios.
Griffyn já esperara por aquilo.
— Sobre o quê?
— Um tesouro.

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Griffyn meneou a cabeça devagar e sustentou-lhe o olhar com firmeza.


— Meu soberano, saiba de uma coisa: tudo que precisará saber, você saberá. Tudo
que lhe couber, você o terá. Everoot se mantém leal.
Henrique estudou-o por um longo momento, evidentemente ponderando se devia
permitir evasivas quando podia haver um tesouro em jogo. Mas algo o deteve.
Talvez um conhecimento secreto, passado de um avô que uma vez abrira mão de
ricas terras angevinas para casar com uma feiticeira e se tornar rei de Jerusalém.
Talvez uma percepção especial, do tipo que já o fazia falar em conceder aos
Cavaleiros Templários ricas terras em toda a Inglaterra.
Ou talvez tivesse sido o fato de se dar conta de que um tesouro enterrado no chão
não era nem de longe tão valioso quanto o tesouro de uma forte aliança. O que quer que
tenha sido, Henrique assentiu.
— Sim. Everoot se manterá leal. Sei disso. — Ele tornou a erguer o cálice. — Ou, ao
menos, você, sim.
Griffyn inclinou a cabeça.
— Milorde.
Mais tarde naquela noite, ele sentou-se na cama e observou o corpo saciado,
adormecido de Guinevere nas mantas de pele a seu lado. Nada mais de pesadelos, nem
de sono agitado. Apenas um sorriso curvando seus lábios de leve enquanto sonhava. Se
ele era em parte responsável por isso, era o bastante.
Não, admitiu um momento depois. Não era exatamente o bastante. Ajeitando as
cobertas sobre ela, virou-se. Tinha a obrigação de ao menos ler os documentos do baú de
Guinevere.
Ele reuniu os rolos de pergaminho e metal e sentou na beirada da cama, lendo,
enquanto Gwyn dormia a seu lado. Inclinou-se sobre eles sob a luz de vela, reavivando o
latim e o hebraico na memória enferrujada. Percebeu rapidamente que nem todos os
documentos eram mapas. Um, na verdade, parecia conter instruções.
Inclinou-se mais, movendo os lábios devagar, silenciosamente, durante uma hora ou
mais. Estava tão absorto pela tradução, na verdade, que, quando a verdade contida nas
palavras ficou clara, quase caiu da cama tamanha a sua perplexidade. Então, começou a
rir.
Gwyn ergueu a cabeça.
— Griffyn? — perguntou, sonolenta.
— Você sabe?
— O quê?
Ele indicou os documentos que analisara. — O que devo fazer com isto?
— O tesouro? — Ela apoiou-se nos cotovelos, — Alex disse que apenas os
Herdeiros sabem, os Guardiões.
— Posso ser o Herdeiro, mas não tenho sido um verdadeiro Guardião. Mas agora...
— Tornou a indicar os documentos —, agora, saber disto? Sim. Escolho essa
responsabilidade. Eu me tornarei um Guardião.
Gwyn virou o rosto e levou a mão ao peito.
— Gwyn?

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

— Você partirá, então. Arrumarei suas coisas amanhã cedo.


Ele observou-a com ar surpreso.
— Por quê?
Ela apontou para os documentos e mapas espalhados na cama.
— Você tem de encontrá-los, não é? Tem de encontrar os Sagrados.
Griffyn sorriu de leve.
— Não exatamente,
Ela o estudou. Ele parecia bastante satisfeito. Estava lendo aqueles documentos
antigos e parecia satisfeito. Sentou-se na cama, intrigada.
— O que quer dizer?
— Não de tenho de ir encontrá-los. Sei onde estão. Gwyn estreitou os olhos,
desconfiada.
— Onde?
— Lá embaixo.
Ela sentiu a cor se esvair de seu rosto.
— Mostrarei a você.
Gwyn vestiu-se depressa, pasma, e seguiu-o pela escada escura e circular até os
porões. Griffyn conduzia o caminho segurando uma tocha, surpreso em perceber que o
ritmo de seu coração mantinha-se normal. Sabendo o que sabia agora, sentia-se... livre.
Pararam diante da porta onde Eustáquio estivera escondido. Ele colocou a pequena
chave de Gwyn na boca do dragão, e ela se abriu. Livre de qualquer coisa que lembrasse
palha ou traição, parecia o que se destinava a ser: uma antecâmara.
Griffyn ergueu a tocha, apontando para a parede oposta. Lá, marcada por um
pequeno sulco na pedra, havia uma porta. Outra porta entalhada na própria pedra. Outra
porta imensa, elevando-se bem acima da cabeça deles. Uma porta que estaria
completamente escondida, se alguém já não soubesse da sua existência. De rocha pura,
confundia-se tão bem com a pedra em volta que não parecia diferente. Permaneceria
escondida mesmo que os exércitos de Átila invadissem os portões de Everoot.
Devia estar no sangue, pensou ele. Nunca a vira antes, apenas lera sobre ela nos
textos antigos lá em cima, ainda assim era tão familiar quanto o rosto de seu pai. Ele
tocou as beiradas com a ponta dos dedos, removendo décadas ou mais de pó, sujeira e
teias de aranha, até que os contornos de uma porta enorme, entalhada na pedra, ficaram
perfeitamente claros.
— Nunca soube a respeito — murmurou Gwyn num tom reverente.
Ele encaixou as partes da chave principal de três cores novamente e inseriu-a na
fechadura lisa e achatada na beirada. Mais uma vez, jamais teria sabido daquilo se não
tivesse lido nos documentos. E, ainda assim, também parecia algo tão familiar. Colocou,
então, as palmas de encontro à rocha fria e empurrou,
A porta abriu-se silenciosamente. Uma rajada de ar frio, antigo, saiu do interior
cavernoso.
Ele virou-se para Gwyn, que estava com a respiração em suspenso.
— Você sempre gostou de aventuras, Olhos Verdes. Ela soltou um riso trêmulo.

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— Engano seu. Detesto aventuras. Elas simplesmente vivem atrás de mim.


— Não. Eu vivo atrás de você. Gwyn estendeu a mão até a dele.
— Eu te amo.
Em vez de pegar-lhe a mão, Griffyn sorriu e lembrou-a de manter a tocha no alto.
— Venha. — Segurando a própria tocha, ele entrou na escuridão da caverna.
Gwyn respirou fundo e seguiu-o. Era como entrar numa catacumba silenciosa. As
paredes arredondadas eram excessivamente úmidas e continham limo em alguns pontos.
Sob a luz da tocha, ela conseguiu ver as inscrições nas paredes, figuras estranhas e
fantásticas que maravilhavam e não deixavam de assustar.
Foi tomada por uma lembrança vaga de repente. Estivera ali uma vez antes. Bem
pequena. Seu pai dissera algo sobre essas inscrições. Disse que tinham sido pintadas
havia um longo tempo, que a rocha havia sido transportada de muito longe. Não contou
mais do que isso, ou porque não soubesse, ou porque não quisera que ela soubesse,
Gwyn não fazia idéia. Mas porque alguém mudaria rocha de lugar?
Um pequeno ponto de luz proveniente da tocha de Griffyn brilhou adiante conforme
ele caminhou, confiante na escuridão. Havia alívio em seu rosto e determinação nos
olhos. Fez uma pausa, começando a acender com a sua outras tochas que havia nas
paredes. Chegara a uma câmara. Gwyn seguiu-o o mais depressa que ousou. De
repente, a câmara inteira estava iluminada.
— Santo Deus! — exclamou Gwyn, impressionada. O tesouro.
Uma lança comprida e quebrada estava pendurada na parede. Havia uma mesa,
arrumada quase como a mesa do escriba de um monge. Havia pequenos vasos
empilhados em cima dela, ao lado de um cinto cravejado de pedras preciosas e um cálice
simples de madeira. Tesouros. Não tantos em quantidade, mas ela sentiu-se como se
estivesse sendo cegada pela força deles. Levou a mão trêmula aos lábios.
Griffyn aguardava com seu olhar firme quando ela o fitou.
— E o que... — A voz dela falhou. — E o que você deve fazer com isso tudo?
O que pareceu uma expressão divertida passou pelo rosto dele.
— Acredito que devo dar isso.
— O quê? E quanto aos mapas? Não são... mapas de tesouro?
— Alguns. Devo devolver os tesouros. Ela encarou-o.
— A quem?
— Ao mundo.
Gwyn meneou a cabeça debilmente e sentou-se no banco do escriba antes que as
pernas fraquejassem por completo.
— Entendo. Não, não entendo. Quando eles devem ser devolvidos? Onde? Por
quê? Não entendo.
— O herdeiro de Carlos Magno tem reparações a fazer — disse ele simplesmente.
— Embora eu nunca pudesse ter adivinhado que seria isto.
Gwyn olhou fixamente para os tesouros antigos.
— É tudo tão bonito — murmurou e, então, olhou para Griffyn.— Um fardo.
Ele sacudiu a cabeça.

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— Não. Não é mais. Não se forem dados. Ela fechou os olhos.


— Quando?
— Não sei. No momento certo, no lugar certo. Tenho de ler mais, aprender mais.
Não, provavelmente não agora.
— Ele olhou para os tesouros e, então, de volta para ela. — Suspeito que nossos
filhos serão Guardiões por gerações por vir. Mas um dia, quando for o momento, os
tesouros serão devolvidos.
— Como? Como você saberá? Quem decidirá onde e quando?
— Não sei. Presumo que ficará claro para as pessoas que estiverem vivendo nas
respectivas épocas. Se depararmos com uma escolha na nossa época, Guinevere, você e
eu decidiremos o que fazer e como.
Ela se levantou, recuando um passo.
— Nós? Não posso interferir aqui, Griffyn. Você é o Guardião.
— Você também foi. — Ele estudou seu rosto pálido.
— Você me deixaria sozinho nisso?
Com os olhos se enchendo de lágrimas, Gwyn segurou a mão dele.
— Nem se o mundo inteiro viesse atrás de mim, eu sairia do seu lado — sussurrou.
— Não se você me quisesse lá.
Griffyn puxou sua mulher para si, estreitando-a em seus braços, uma mulher tão
repleta de boas intenções, força e honra que o deixava sem fôlego, e ele soube que tinha
o maior tesouro de todos.
Inclinando a cabeça, sussurrou de encontro aos lábios dela.
— Antes de qualquer coisa, Guinevere, eu teria você. Se me oferecessem uma
rainha, eu escolheria você. Se me oferecessem a ausência de dor, eu escolheria você. Se
todas as escolhas do mundo fossem colocadas diante de mim, eu escolheria você entre
todas. Escolho você acima de tudo mais.

FIM

Nota da Autora

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CHE 345 – Coração conquistado – Kris Kennedy

Existiu realmente um príncipe Eustáquio, o filho mais velho do rei Estevão. Segundo
os historiadores, ele, de fato, era violento e, ao final, quando ficou claro que jamais seria
rei, tornou-se mortífero. Ele guiou seus próprios homens numa torrente de assassinatos,
incêndios e saques, levando devastação ao campo durante semanas, inclusive à abadia
de Santo Edmundo, um santo conhecido por seu ferrenho instinto protetor.
O amargo e raivoso Eustáquio parece ter sofrido as conseqüências da ira de Santo
Edmundo quando, poucos dias depois, morreu em 17 de agosto de 1153. De qualquer
modo, talvez tenha sido um fim providencial para um homem que, por razões
completamente diferentes, poderia ter sido tão péssimo rei quanto seu galante pai foi.
Ainda assim, sempre me pergunto... o que teria acontecido se Eustáquio não tivesse
morrido naquele dia quente de agosto? Se as pessoas apenas pensassem que ele
morreu. Se alguma pessoa fosse incumbida de cuidar desse príncipe violento, enquanto o
reino desmoronava em torno dela?
Em relação ao contrato de casamento... tecnicamente, se duas pessoas contraíssem
verba de futuro, votos para se casar era algum determinado ponto no futuro ("Eu te
aceitarei" em vez de "Eu te aceito'''), mas praticassem em seguida a isso a consumação,
estariam, aos olhos da Igreja, legalmente casadas. Eu utilizei um tanto livremente esses
dados nesta história, pois precisei que Griffyn fosse decisivo em reivindicar o que era seu.
Mas também precisei que Marcus fizesse uma última tentativa de lutar pela coisa que
mais importava para ele — ou talvez, o que era mais importante e que ele tinha uma
chance de assegurar — porque ele jamais teria o Ninho e jamais seria o Herdeiro. E
jamais teria o amor do pai.

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