Anda di halaman 1dari 11

6

Agropecuária Brasileira no
Período de 1946 a 1964: ~
Crescimento Apesar da Discriminação
.-
~
--

o período de 1946 a 1964 caracteriza-se pelo predomínio das idéias cepali-


nas de que o desenvolvimento econômico deve ser liderado pela industrialização e
não pela agropecuária. Essas idéias fundamentaram o estabelecimento de planos
econômicos visando incentivar as atividades industriais via a substituição de im-
portações. Além disso, esses planos incentivaram a criação de infra-estrutura eco-
nômica necessária a suportar o crescimento econômico. Algumas das políticas eco-
nômicas estabelecidas para estimular a atividade industrial discriminaram a agro-
pecuária.
Segundo Baer (1972, p. 98), os principais instrumentos econômicos adota-
dos para estimular a industrialização foram: empréstimos subsidiados para certas
indústrias; elevadas taxas de impostos sobre as importações de bens finais, mas
não sobre as importações de matéria-prima e bens de capitais para novas indústrias;
política cambial que barateava a importação de equipamento industrial, mas des-
favorecia as exportações de produtos agropecuários; participação governamental
no capital de algumas empresas; e construção de infra-estrutura pública necessá-
fia...a-complementar a atividade industrial.
Entre essas medidas, a mais discriminatória contra a agropecuária foi a políti-
ca cambial. Três aspectos devem ser ressaltados sobre essa política: (a) houve
grandes flutuações na taxa de câmbio real, o que tomava instável as receitas em
moeda nacional dos produtos exportados (a maioria dos quais era de produtos
agropecuários); (b) houve fases em que a taxa de câmbio real sofreu grande valori-
zação; (c) mesmo nas fases de desvalorização cambial, as exportações agropecuá-
rias (principalmente de café) foram penalizadas com as quotas de contribuição.
o período em análise (1946 a 1964) presenciou três grandes regimes cam-
biais (ver Baer, 2001, p. 53-58). No período de 1946 a dezembro de 1952, houve
um sistema de taxa de câmbio nominal fixa, em que cada dólar era negociado a
Cr$ 18,72. O Banco do Brasil centralizava as operações com câmbio, estabelecen-
do algumas prioridades nas operações de importações, de modo a estabelecer o
equilíbrio entre oferta e demanda de dólares. Esse regime de câmbio nominal fixo
foi estabelecido em concordância com o Tratado de Bretton Woods. No entanto, a
diferença entre as taxas de inflação interna e externa implicou valorização real de
31% da taxa de câmbio entre 1948 e 1952 (ver Gráfico 6.1). Em outras palavras, o
exportador de produtos agropecuários deixou de receber, em 1952, cerca de 31 %
do que poderia obter caso a taxa de câmbio reaP não tivesse sido reduzida. Essa si-
tuação só não foi mais drástica porque nesse mesmo período os preços internacio-
nais do café estavam em ascensão (Bacha, 1988).

6
~ 5

"O 4
8-
3
·â
~ 2

Fonte: Ipeadata. Deflacionada pelo IPA dos EUA e IGP-DI do Brasil.


Gráfico 6.1 Taxa de câmbio real bilateral- 1948 a 2002 (a preços de dezembro de
2002).

Entre janeiro de 1953 e março de 1964, foi instituído o regime de taxas de


câmbio múltiplas2• Ao longo desse período, diversas sistemáticas foram definidas

1 A taxa de câmbio real aqui considerada é a taxa de câmbio do Brasil frente ao dólar
norte-americano, considerando o IPA-EUAe o IGP-DI do Brasil. A fórmula de cálculo dessa taxa de
• . , •. taxa de câmbio nominal x IPA _
cambIO e: taxa de cambIO real - EUA • O IPA e o IGP-DL estao na
IGP - DIBrasil
mesma base (agosto de 1994 igual a 100). Após isso, o valor calculado foi indexado pelo IGP-DI de
dezembro de 2~2. Desse modo, os valores do Gráfico 6.1 apresentam a taxa de câmbio a preços de
dezembro de 200~
2 Alguns autores usam a expressão Regime de Taxas de Câmbio Múltiplas apenas para o
período de outubro de 1953 ajulho de 1957. Ver, por exemplo, Baer (2001). No entanto, de janeiro
de 1953 a março de 1964 sempre existiu mais de uma taxa de câmbio para exportações e/ou
importações.
de modo a diferenciar as taxas de câmbio entre as operações de exportação e im-
portação e dentro de cada uma dessas operações. Por exemplo, entre janeiro e se-
tembro de 1953 vigoraram duas taxas de câmbio, uma determinada pelo governo
e outra no mercado livre. Esta última era direcionada a produtos não tradicionais
cujas exportações se desejava aumentar. Entre outubro de 1953 e julho de 1957,
ocorreram duas taxas de câmbio para exportações e cinco taxas de câmbio para
importações. Discriminavam-se as importações de acordo com sua essencialidade
no processo de industrialização brasileira, ou seja, taxas de câmbio menores eram
válidas para as importações de matérias-primas e bens de capital; e taxas de câm-
bio maiores eram válidas para as importações de bens que tinham substitutos nacio-
nais. As duas taxas de câmbio de exportação eram uma menor para café, cacau e
algodão e outra maior para os demais produtos exportados. De agosto de 1957 a
janeiro de 1961, reduziram-se de cinco para duas as taxas de câmbio para as im-
portações e mantiveram-se duas taxas de câmbio para as exportações. As importa-
ções foram classificadas em bens de capital e matéria-prima, com taxa preferencial;
e os demais produtos, com taxa de câmbio mais elevada.
Durante todo esse período de múltiplas taxas de câmbio, houve discrimina-
ção dos principais produtos agrícolas de exportação, como o café, os quais recebiam
a menor taxa de câmbio. Além disso, implementou-se o sistema de quotas de con-
tribuição, que impedia que qualquer desvalorização cambial fosse repassada total-
mente aos preços em moeda nacional dos produtos agropecuários, em especial aos
preços do café e do cacau. Por assumir que a demanda externa desses produtos é
inelástica a variações de preços,3 uma desvalorização cambial poderia levar um ex-
portador a diminuir o preço de seu produto visando aumentar a quantidade expor-
tada e sua receita em moeda nacional. No entanto, essa medida, uma vez generali-
zada, implicava redução da receita em dólar das exportações globais (ver Capítulo
3). Assim, um modo de anular para certo produto os efeitos de uma desvalorização
cambial era estabelecer um imposto provisório e específico sobre esse produto,
como era a quota de contribuição sobre as exportações de café e cacau.
Em março de 1961, houve nova reforma cambial, definindo-se apenas duas
taxas de câmbio: uma para as exportações de café e cacau e a outra, para as expor-
tações dos demais produtos e para todas as importações. Em abril de 1964, houve
a unificação das taxas de câmbio. Essas mudanças, em março de 1961 e abril de
1964, foram acompanhadas de maxidesvalorizações cambiais de 100% e 204%,
respectivamente. Essas desvalorizações de grandes proporções e esporádicas con-
tinuaram até julho de 1968. Não obstante isso, a tendência da taxa de câmbio real
foi de valorizar-se nessa fase (março de 1961 ajulho de 1968), ver o Gráfico 6.1.
A ocorrência de períodos de valorização cambial seguidos de quotas de con-
tribuição, que anulavam os efeitos das maxidesvalorizações nas exportações de

3 Ou seja, diminuição de 10% no preço do café implicará aumento de menos do que 10% na
quantidade demandada.
certos produtos agrícolas, implicaram transferência de renda da agropecuária
para o setor industrial no período de 1946 a 1964. Esse processo de transferência
foi patrocinado pelo Estado, pois esse controlava as operações com moeda estran-
geira, comprando-as a preço baixo dos exportadores de produtos agropecuários e
vendendo-as a preços também baixos para os importadores de bens necessários ao
processo de industrialização.
No período de 1946 a 1964, poucas políticas foram adotadas de modo a esti-
mular o crescimento da agropecuária. Entre elas se ressaltam: a ampliação da ma-
lha rodoviária, permitindo a expansão da fronteira agrícola; e a criação por parte
de governos estaduais, a partir do final da década de 40, das associações de crédito
e assistência técnica (Acar) e de companhias agrícolas visando à venda de insumos
e equipamentos agropecuários. Estas últimas permitiam à agropecuária tomar-se
um mercado para os produtos industriais.
As ferrovias tiveram importância crescente no transporte de cargas no Brasil
até a década de 1920/1929. A partir dessa década, a expansão da rede ferroviária
foi mais lenta do que nos períodos anteriores. Entre 1879 e 1889, foram construí-
dos 6.672 km de estradas de ferro no Brasil. Entre 1889 e 1899, a rede ferroviária
brasileira foi expandida em 5.333 km. Entre 1899 e 1909, foram acrescentados
4.325 km, e entre 1909 e 1919, mais 8.887 km de estradas de ferro foram construí-
dos. Entre 1919 e 1929, esse acréscimo foi de 3.839 km, tendo ele sido de 2.237
km entre 1929 e 1939 e de 1.766 km entre 1939 e 1949 (IBGE, 1990, p. 457).
A partir da década de 1940/1949 houve maior crescimento do transporte ro-
doviário no Brasil. Em 31-12-1938, havia 192.612 km de estradas de rodagem no
Brasil. Em 31-12-1952, elas já eram 302.147 km, e em 31-12-1964 elas eram
548.510 km.
Como conseqüência desses dinamismos distintos de criações de ferrovias e
rodovias a partir da década de 1940/1949, o transporte rodoviário ampliou sua
importância no transporte de cargas, enquanto o transporte ferroviário diminuiu
sua importância. Em 1953, 53,1% da quantidade transportada de cargas no Brasil
foram via transporte rodoviário. Em 1964, essa percentagem era 68,4%. Essas
mesmas percentagens para o transporte ferroviário foram 21,7% e 16,3%, respec-
tivamente (IBGE, 1990, p. 456).

6.1 EXPANSÃO DA AGROPECUÁRIA NO PERÍODO DE 1946


A 1964

A ampliação da malha rodoviária foi essencial para a ocupação de novas


front~ agrícolas. Isso, por sua vez, permitiu a expansão da agropecuária no
período de 1946 a 1964. Observando a Tabela 5.2 (no Capítulo 5), constata-se
que entre 1940 e 1960 foram adicionados à atividade agropecuária 52 milhões
de novos hectares, dos quais 9,9 milhões de hectares foram com culturas tempo-
lirárias e permanentes. Esses crescimentos da área plantada e da área total dos es-
tabelecimentos agropecuários vieram acompanhados do aumento do número de
•••.estab~\.~d..\.\.\.~t\.t()~
ô..'b~()~~<:'\lá!.\()~, d.~\.~ \\\.\\\.\.~~
<\\l~~ô..~~ô..~ô..\\\ ~\\\.\.q~~~~W~.~ ~
4
milhões em 1960. Conseqüentemente, nova reduçã0 da área média dos estabe-
lecimentos agropecuários ocorreu entre 1940 e 1960, tendo a mesma passado de
104 hectares em 1940 para 75 hectares em 1960.
Essa expansão da agropecuária foi possível devido à abertura de novas fronteiras
agrícolas, como foi o caso do Paraná. Esse Estado tinha, em 1940, 64.397 estabeleci-
mentos agropecuários com área total de 6.252.480 hectares. Em 1950, já eram
89.461 estabelecimentos agropecuários com área total de 8.032.743 hectares. Em
1960, eram 269.146 estabelecimentos agropecuários com área total de 11.384.934
hectares. Se consideradas apenas as áreas plantadas com lavouras temporárias e per-
manentes no Paraná, tem-se que elas eram 764.370 hectares em 1940, passando a
1.358.222 hectares em 1950 e para 3.440.971 hectares em 1960. Portanto, o direcio-
namento da atividade agropecuária para o Paraná implicou acréscimo de 593.852
hectares de lavouras temporárias e permanentes no estado entre 1940 e 1950, en-
quanto esse acréscimo para todo o Brasil foi de 259.627 hectares no mesmo período.
Em outras palavras, as lavouras se expandiram no Estado do Paraná em dimensão que
compensou reduções que ocorreram em outros estados. No período de 1950 a 1960, a
expansão da área plantada com lavouras permanentes e temporárias no Paraná foi
equivalente a 22% do aumento ocorrido em todo o Brasil.
Essa expansão da agropecuária no Paraná foi acompanhada pelo desloca-
mento do centro dinâmico da cafeicultura de São Paulo para aquele Estado e por
um fluxo migratório de Minas Gerais e São Paulo com direção ao Paraná. No perío-
do de 1945 a 1964, ocorreu grande crescimento da cafeicultura, com a área colhi-
da crescendo à taxa geométrica de 3,82% ao ano e a produtividade crescendo a
4,85% ao ano. O Paraná foi o Estado líder nessa expansão, superando São Paulo
como pólo cafeeiro. No triênio 1946/1948, o Paraná, então terceiro maior produ-
tor de café, respondeu por 9,6% da produção brasileira de café e o Estado de São
Paulo respondeu por 49,5%. No triênio 1958/1960, o Paraná respondeu por
41,7% da produção de café do Brasil, seguido pelo Estado de São Paulo, o segundo
maior produtor, com 31,6% da produção nacional de café (Bacha, 1988, p. 62).
Todavia, não foi apenas a cafeicultura que teve grande dinamismo no período
em análise.--A-Tabela 6.1 apresenta as taxas geométricas de crescimento da área e
da produtividade para certas culturas. Constata-se que todas as culturas analisa-
das (voltadas ao mercado interno ou externo) tiveram crescimento de área planta-
da. As produtividades, no entanto, apresentam comportamentos diferentes. As
culturas de mandioca, batata-inglesa, algodão, café e cana-de-açúcar aumenta-

4 Usa-se a expressão nova redução porque o tamanho médio dos estabelecimentos


agropecuáriosjá tinha se reduzido entre 1920 e 1940, passando de 270 hectares para 104 hectares,
respectivamente.
ram suas produtividades. As culturas de feijão, cacau, soja e trigo diminuíram suas
produtividades. E as culturas de arroz, milho e laranja mantiveram suas produtivi-
dades relativamente estáveis.
Os resultados apresentados sobre o comportamento da produtividade e área
na Tabela 6.1 indicam que o crescimento da agropecuária no período em análise
foi um crescimento baseado em aumento de fatores de produção (como a expan-
são da área) e com pouca melhoria tecnológica. Isso é confirmado pelos dados de
MeIo (1987, p. 10-23),5 citado por Goldin e Rezende (1993, p. 15-16), que indi-
cam que aumentos da área cultivada responderam por 72% do crescimento da
produção agropecuária nos anos 50 e por 65% nos anos 60.

Tabela 6.1 Taxas geométricas anuais de crescimento da área colhida e da produtivi-


dade para culturas específicas (valores em percentagem) - períodos
1945 a 1964, 1965 a 1986 e 1987 a 2001.
1945 a 1964 1965 a 1986 1987 a 2001
Destino
Cultura Produti- Produti·
principal Área Área Área Produti·
vidade vidade vidade
Arroz 4,99 0,10 1,41 0,46 -4,03 3,89
Feijão 3,77 -0,40 2,43 -2,58 -2,66 3,99
Mercado -1,48
Mandioca 2,79 0,74 0,83 -1,63 0,50
interno 3,48
Batata-inglesa 3,25 1,14 -1,23 -0,01 2,27
Milho 3,60 0,05 1,62 1,63 -0,66 3,94
Algodão 1,82 1,32 -1,05 1,24 -9,38 7,84
Cacau 4,27 -2,33 1,29 3,53 0,39 -5,12
Café 3,82 4,85 -1,31 1,52 -2,42 3,50
Mercado 4,41
Cana-de-açúcar 0,80 4,44 1,75 1,54 0,94
externo
Laranja 3,50 0,10 8,30 1,74 1,29 1,72
Soja 17,92 -3,70 17,83 2,46 2,35 3,28
Trigo 5,33 -1,14 6,24 1,81 -7,37 1,14

Fonte: Dados primários coletados no Anuário Estatístico do Brasil - vários números.


Nota: Calculou-se a taxa geométrica de crescimento anual através da fórmula lnY = a + bt, onde Y
é a área colhida ou produtividade de cada cultura e t é o tempo. A taxa geométrica anual de
crescimento é o anti-Iogaritmo do b. Ao tomar-se a série de área colhida de uma cultura de
1945 a 1964, está, de fato, sendo calculada a taxa de crescimento da área colhida do perío-
do de 1946 a 1964. O mesmo vale para os dois outros períodos em consideração.

Além do crescimento da produção vegetal, houve também o crescimento da


pecuária. Entre 1940 e 1960, o efetivo de bovinos cresceu 63%, o efetivo de suínos
cresceu 52% e o efetivo de aves cresceu 117% (Tabela 5.2 do Capítulo 5).
É importante ressaltar que os indicadores de mecanização e o uso de fertili-
zantes indicam uma melhoria na agropecuária. Essa melhoria, no entanto, não foi
suficiente para aumentar a produtividade da agropecuária em sua totalidade.

5 --MEtO, F. H. Export-orientated agricultural growth: the case of Brazil. World Employment


Programme Research Working Papers, Genebra, Sept. 1987.
Os dados da Tabela 5.2 mostram que a razão número de hectares de área total
por trator passou de 58,5 mil em 1940 para 27,7 mil em 1950 e para 4,07 mil em
1960. Mesmo não havendo a produção nacional de tratores até o final da década
de 1950, esses foram importados e utilizados na atividade agropecuária. Segundo
Szmrecsányi (1990, p. 80):
"... As importações desse equipamento (tratores) cresceram de 1.600
unidades em 1948 para 11.200 em 1951, e durante a década de 1950 o es-
toque de tratores do país aumentou mais de oito vezes, passando de 8.400
unidades para cerca de 70 mil unidades ... "6

Outro indicador de modernização da agropecuária é a quantidade de fertili-


zantes utilizada por cada hectare de lavouras (temporária e permanente). Esse in-
dicador passou de 3,4 kg de nutrientes/ha em 1950 para 10,6 kg de nutrientes/ha
em 1960.
Como os dados da Tabela 6.1 indicam que diversas culturas tiveram taxa de
crescimento nula ou negativa da produtividade e outras tiveram taxas positivas
entre 1946 e 1964, pode-se concluir que esse processo de modernização descrito
deve ter se concentrado em poucas culturas. Entre elas, estavam a cafeicultura, o
plantio de algodoeiro e de cana-de-açúcar. Por serem culturas de exportação, elas
geravam rentabilidade adequada ao uso de insumos modernos.
O processo de crescimento da agropecuária foi desigual entre as regiões do
Brasil. A Tabela 6.2 apresenta algumas informações sobre a distribuição da ativi-
dade agropecuária entre as regiões brasileiras. Constata-se que as regiões Sudeste
e Sul detinham, em 1950, 42% da área total dos estabelecimentos agropecuários,
65% das áreas com culturas temporárias, 79% das áreas com culturas permanen-
tes, 61% do rebanho bovino, 66% do rebanho suíno e 67% do estoque de aves.
Essas duas regiões tinham, também, 92% do total existente de tratores.
Essas duas regiões continuaram a concentrar as atividades agropecuárias em
1960. No entanto, entre 1950 e 1960 há maior crescimento da agropecuária na re-
gião Sul, em parte devido ao crescimento da atividade agropecuária, em especial
da cafeicultura no Paranâ:1\fegião Sul detinha 14,56% das áreas com lavouras
permanentes do Brasil em 1950 e passou para 24,51 % em 1960. Essas mesmas
percentagens para a Região Sudeste foram 64,54% e 42,74%, respectivamente. É
importante ressaltar que a cafeicultura é uma cultura permanente.

6 Este último dado de Szmrecsányi não confere com os dados censitários. De acordo com a
Tabela 5.2, em 1960 havia 61.345 tratores nos estabelecimentos agropecuários. Não obstante isso,
houve grande crescimento do número de tratores empregados na agropecuária entre 1950 e 1960.
Tabela 6.2 Indicadores da concentração regional da atividade agropecuária (valo-
res em percentagem do total nacional).
Valor Área Lavouras Lavouras Efetivo da pecuária
Região Ano bruto da tempo- perma· Tratores
total Bovinos Suínos
produção rárias Dentes Aves

1950 - 9,95 1,17 1,41 2,29 1,64 3,27 0,73


Norte 1960 - 9,39 1,57 1,33 2,20 2,10 3,26 0,70
(excluindo 1970 3,08 7,88 1,86 1,66 2,17 2,88 3,58 0,68
Tocantins) 1985 3,98 12,06 3,18 6,90 4,19 7,10 3,77 1,03
1995/1996 3,72 11,76 2,92 9,35 7,88 7,16 3,55 1,31

1985 0,73 4,63 1,42 0,55 2,81 1,30 0,49 0,78


Tocantins 3,41
1995/1996 0,76 4,74 0,71 0,30 0,78 0,33 0,99

1950 - 25,12 30,55 17,84 21,60 26,20 25,11 5,39


1960 - 25,21 30,90 29,04 20,62 20,65 23,28 5,10
Nordeste 1970 18,33 25,26 24,40 49,82 17,57 22,51 17,00 4,39
1985 24,55 17,04 23,87 42,95 17,49 25,83 17,95 6,27
1995/1996 22,14 14,05 22,47 35,13 14,92 22,86 14,40 6,90

1950 - 23,08 3,65 1,64 15,28 5,75 4,50 1,66


1960 - 24,01 5,64 2,39 18,79 6,60 5,61 3,58
Centro-
1970 7,46 27,78 8,69 1,80 21,96 7,96 5,67 6,23
Oeste
1985 9,75 26,44 16,12 2,39 28,21 8,36 4,63 12,96
1995/1996 15,44 30,69 18,48 3,27 33,17 8,10 5,93 14,27

1950 - 26,59 38,16 64,54 37,68 32,25 42,01 61,57


1960 - 25,79 32,08 42,74 37,54 25,39 37,28 55,64
Sudeste 1970 37,31 23,63 28,61 27,22 34,17 18,39 41,46 49,75
1985 38,47 19,53 23,17 38,10 27,91 18,39 33,52 35,92
1995/1996 36,14 18,12 21,38 43,37 23,49 16,17 36,54 34,84

1950 - 15,25 26,47 14,56 23,16 34,15 25,11 30,65


1960 - 15,61 29,80 24,51 20,84 45,27 30,58 34,98
Sul 1970 33,81 15,45 36,43 19,50 24,12 48,26 32,29 38,95
1985 30,03 12,79 32,24 9,11 19,39 39,02 39,63 43,04
1995/96 29,89 12,54 34,04 8,58 17,13 44,93 39,25 41,69

6.2 AGROPECUÁRIA E SUAS FUNÇÕES CONVENCIONAIS

No final do período em análise, em especial no início da década de 60, houve


uma discussão acadêmica sobre se a agropecuária estava ou não cumprindo sua
função de fornecedora de alimentos e de que modo a estrutura fundiária estava
impedindo a agropecuária de responder aos estímulos de preços. De um lado, esta-
vam autores como Celso Furtado, que afirmava que a oferta de alimentos era ine-
lástica a variações de preços. A causa dessa inelasticidade da oferta era a estrutura
agrária latifundiária altamente concentrada, em que a terra era mantida, em boa
parte, como reserva de valor e não para fins de produção. A solução proposta por
esse grupo era a reforma agrária. De outro lado, estavam autores como Ruy Miller
Paiva, que afirmava que a oferta de alimentos era elástica a variações de preços e
que a-agropecuária poderia ampliar a oferta de alimentos caso fossem adotadas
políticas de estímulo para esse fim.
Com o Golpe Militar de 31-3-1964, os partidários de que não havia empeci-
lhos estruturais à produção de alimentos no Brasil saíram vitoriosos do ponto de
vista de implementação de políticas econômicas.
Não entrando no mérito da questão de se a reforma agrária era ou não necessá-
ria naquele momento, ou hoje, pode-se, no entanto, avaliar de que modo a agropecuá-
ria cumpriu sua função de geradora de alimentos. O Gráfico 5.1, apresentado no Capí-
tulo 5, mostra que a produção per capita de produtos vegetais de consumo doméstico
(arroz, batata-inglesa, feijão, mandioca e trigo) foi crescente de 1946 a 1964, passan-
do de 337,6 kg/habitante em 1945 para 440,7 kg/habitante em 1964, respectivamen-
te. A produção per capita de leite também aumentou de 1949 a 1964 (ver Gráfico 5.2
no Capítulo 5), passando de 45,6litros/habitante para 78,4litros/habitante, respecti-
vamente. A produção per capita de carnes bovina e suína teve flutuações no período
em análise, mas com tendência de alta (ver Gráfico 5.3, no Capítulo 5). Essa produção
passou de 16,6 kg/habitante em 1945 para 18,9 kg/habitante em 1964. As taxas geo-
métricas anuais de crescimento per capita da produção vegetal, de leite e de carnes fo-
ram 0,88%,3,76% e 0,08%, respectivamente, nos períodos mencionados.
O fornecimento de mão-de-obra para a expansão industrial foi possível com a
migração campo-cidade. A Tabela 6.3 apresenta algumas estimativas do fluxo migra-
tório rural-urbano. Constata-se que no período de 1950 a 1960, por exemplo, cerca de
11 milhões de pessoas migraram das áreas rurais para as cidades, o que representou
32,6% da população rural existente em 1950. Pode-se, com base nesses dados, afir-
mar que a agropecuária contribuiu com o processo de industrialização fornecendo
mão-de-obra, sem que isso limitasse as possibilidades de expansão da agropecuária.
Apesar da valorização cambial ter sido prejudicial à agropecuária, esta ainda
foi a principal fonte de geração de dívidas. A Tabela 4.1 no Capítulo 4 mostra que,
no período de 1946 a 1964, a agropecuária foi responsável, no mínimo, por 74%
das exportações brasileiras. A cafeicultura foi, novamente, a principal atividade
geradora de divisas, tendo sido responsável por 56% das exportações brasileiras.

Volume de Média anual de % do volume de mlgrantes em


Período mlgrantes mlgrantes relação à população rural
(em mll habitantes) (em mll habitantes) existente no início do período
1950/1960 10.824 1.082 32,6
1960/1970 11.464 1.146 29,6
1970/1980 14.413 1.441 35,1
1980/1990 12.135 - ------- 1.213 31,5
1990/1995 5.654 1.131 29,3A

Fonte: Camarano e Abramovay (1999, p. 3).


Nota: O volume de migração rural-urbano a cada período é calculado pelo "saldo líquido migrató-
rio rural-urbano". Este último é a diferença entre o que seria a população rural esperada ao
final de cada período aplicando-se a taxa de crescimento vegetativo e a população rural real-
mente encontrada, pelo Censo, ao final de cada período.
A) taxa decenalizada para permitir a comparação com as demais.
A expansão da agropecuária e seu processo restrito de modernização criaram
mercado para produtos industriais. Esses, no entanto, eram ainda em grande parte
importados, como os tratores e os fertilizantes.
A agropecuária também transferiu capital para o setor industrial por meio de
um processo indireto patrocinado pelo Estado. Através da política cambial, o setor
industrial pôde adquirir divisas a preços baixos, com perda de rentabilidade para o
setor agropecuário.

6.3 INDUSTRIALIZAÇÃO E SUA RELAÇÃO COM A


AGROPECUÁRIA

Não obstante o grande crescimento da atividade agropecuária ocorrida no


período em análise, esse setor perdeu participação relativa no PIB. Em 1947, a
agropecuária representou 20,7% do PIB brasileiro e em 1964 essa participação foi
de 16,3%. Ao mesmo tempo, a indústria aumentou sua participação de 25,2% do
PIB em 1947 para 32,5% em 1964 (ver Tabela 1.2 no Capítulo 1). Esse crescimento
do setor industrial foi, em parte, de indústrias processadoras de produtos da agro-
pecuária.
A Tabela 6.4 apresenta a evolução do número de empresas e pessoal ocupado
nos ramos industriais brasileiros. Constata-se que várias indústrias de processa-
mento de produtos agropecuários tiveram grande crescimento no período em aná-
lise. Em 1939, havia 29.160 empresas agroindustriais (ou seja, empresas industriais
transformando produtos agropecuários), que empregavam 579.231 pessoas. Isso
representou 67,4% do número total de empresas industriais e 68% do pessoal em-
pregado no setor industrial em 1939. Em 1959, havia 71.237 empresas agroindus-
triais, que empregavam 966.381 pessoas. Isso representou 64,3% do número de
empresas e 53,7% do pessoal empregado no setor industrial em 1959.
Além da perda de importância no emprego industrial, a agroindústria tam-
bém perdeu importância no valor da produção industrial. Em 1939, a agroindús-
tria representou 70,6% do valor da produção industrial e em 1959 essa percenta-
gem foi 51,5'\10(IBGE, 1990, p. 386).
Não obs~ante a perda de importância das agroindústrias no setor industrial
brasileiro, elas ainda permaneceram como dominantes no total de estabelecimen-
tos, emprego e valor da produção. E isso foi possível porque a agropecuária cum-
priu sua função de gerar matéria-prima à indústria.
As informações supracitadas referem-se apenas ao segmento III do agronegó-
cio. Segundo Montoya e Guilhoto (1999), o agronegócio como um todo represen-
tou 53% do PIB brasileiro em 1959.
1939 1949 1959 1970

Classes e gêneros da indústria Número de Número de Número de Número Número de


Número de Número de Número de
trabalha- trabalha- trabalha- de trabalha-
empresas empresas empresas
dores dores dores empresas dores

Madeira 3.545 37.303 7.562 68.486 11.196 87.822 14.812 135.979


'"
al Mobiliário 2.069 28.785 2.882 38.802 8.160 63.471 13.127 105.322
'S Papel e papelão 228 12.318 441 24.959 764 40.925 1.178 66.994
'"
';:1
'ti
Couros e pele;2:rodutos
Têxtil
similares 1.297
2.212
14.598
233.443
2.099
2.941
21.196
338.035
2.350
4.272
24.715
328.297
2.032
5.309
26.392
342.839

I Vestuário, cal dos e artefatos de tecidos


Produtos alimentares
Bebidas
Fumo
3.203
14.905
1.523
178
49.317
173.535
16.317
13.615
5.076
32.872
4.420
252
76.464
234.311
39.253
13.008
7.639
33.534
3.044
278
97.999
266.103
43.880
13.169
8.613
46.815
4.798
144
164.512
372.401
58.619
14.509

Indústrias extrativas 2.267 35.433 1.539 36.809 2.178 45.714 3.906 65.339
-;'" Borracha 65 4.524 119 10.861 339 20.878 974 32.863
Minerais não metálicos 4.861 57.416 12.750 128.928 18.146 163.680 25.367 236.506
.g~ Metalurgia
Mecânica
1.460
327
61.338
-
2.221
762
102.826
26.600
4.850
1.692
174.279
62.148
9.681
6.744
266.928
180.431
.5 Material elétrico e comunicações 119 25.624 341 15.774 982 57.904 3.155 115.485
'Oe" Material de transporte
Química
248 -
28.605
539
1.158
20.182 2.096
1.774
81.876 3.319 158.336
- 44.656 76.518 2.645 104.367
al
Produtos farmacêuticos 1.780 9.442 547 17.533 504 27.066 522 30.801
'"O'" Perfumaria, sabões e velas - 7.549 959 11.283 1.071 14.714 1.060 19.160
b Produtos de matérias plásticas - - 104 3.057 295 9.683 1.311 42.566
;:I Editorial e gráfica 31.617 5.526
O 2.207 2.749 49.367 3.389 60.625 97.087
Outras indústrias 756 10.976 1.370 24.033 2.218 37.910 3.755 62.533

Total 43.250 851.755 83.703 1.346.423 110.771 1.799.376 164.793 2.699.969