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Eu quero ser D.

Quixote – Fernando Peixoto


Para amarmo-nos – Fernando Peixoto
Memória – Carlos Drummond de Andrade
Coletânea escolhida I – Carlos Drummond de Andrade
Coletânea escolhida II – Carlos Drummond de Andrade
Duas poesias de Gilka Machado
Eterno Vinícius de Moraes
Mário Quintana... dos meus arquivos
Quatro poesias de Giuseppe Ghiaroni
João Guimarães Rosa
Paulo Leminski
Fernando Pessoa ... coisas
Uma grande paixão – Pablo Neruda
A loucura do poeta - Fernando Peixoto
Reflexão – Fernando Peixoto
O Evangelho segundo o poeta – Fernando Peixoto
Meus oito anos – Cassimiro de Abreu
O que é Simpatia (A uma menina) - Cassimiro de Abreu
Economia – Giuseppe Guiaroni
Coletânea escolhida – J. G. de Araújo Jorge
Quatro poemas de Machado de Assis
Dois poemas de Gonçalves Dias
Três poesias de Olavo Bilac
Três poesias de Olegário Mariano
Devaneio – Nilo Entholzer Ferreira
Contraste – Pe. Antônio Tomaz
SE – Rudyard Kipling
Blues fúnebres – W. H. Auden
A voz das coisas – Menotti Del Picchia
Piedosa mentira – Menotti Del Picchia
As máscaras – Menotti Del Picchia
Oferta - Nilo Entholzer Ferreira
Duas almas – Alceu Wamosy
A um pintassilgo – Belmiro Braga
Aceitarás o amor como eu o encaro?...
Soneto XXV e Haicais de Guilherme de Almeida
Argila – Raul de Leôni
Várias poesias de Cruz e Sousa
Soneto – Fagundes Varela
O sono das águas – João Guimarães Rosa
O pássaro cativo – Olavo Bilac
Ora (direis) ouvir estrelas – Olavo Bilac
Sete de Setembro – Cruz e Sousa
Pátria Minha – Vinícius de Moraes
Intimidade – Mário Benedetti
Coletânea Escolhida – Vicente de Carvalho
O laço e o abraço – Mário Quintana
Victor Hugo – resumo biográfico, reflexões e poesias
Me encante – Pablo Neruda
Les sanglots longs – Paulo Verlaine
Os votos - Sérgio Jockyman
Para sempre – Carlos Drummond de Andrade
Elizabeth Barret Browning [quatro poemas escolhidos]
EU QUERO SER D. QUIXOTE
Vou desfiando o rosário
dos anos que vão passando.
Viro a folha ao calendário:
doze meses me esperando
acalentam novos sonhos
com dias bem mais risonhos
que os que se foram gastando
na escalada da Vida
em que sempre fui teimando.

As cores com que me acenam,


as promessas de bonança,
não serão peças que encenam
no Teatro da Esperança?
Não será o Novo Ano
mais três actos de ilusões
nesta comédia de engano
que traz, ao cair do pano,
consigo mais frustrações?

Sei que parto em desvantagem


imitando D. Quixote
pra esta incerta viagem
em busca de melhor sorte,
sei que a força é desigual
lutando contra a voragem
dos que se aliam ao Mal
para obterem vantagem.

Mas hei-de encontrar coragem


para saber distinguir
nos mistérios dos caminhos
as visões alucinantes
com que me irão confundir:
― o que vejo são gigantes
que me tentam iludir
ou não passam de moinhos?

Vou evitar enredar-me


nas malhas de nova teia
e fugir para furtar-me
ao desejo que estonteia
de, parado, extasiar-me
nesse canto de sereia
que tentará afogar-me
roubando-me a Dulcineia.

Se quero Sancho ao meu lado


é porque a sua sageza
é o saber validado
pela própria Natureza:
é saber equilibrado
a suster o desvario
chamando-me à razão
quando dela me desvio.

Rocinante há-de ensinar-me


nessa doce pacatez
a caminhar devagar:
- cada passo em sua vez.
E nessa sabedoria
que só a idade acrescenta
descobriremos a via
de que a Vida se alimenta.

Seguirei, pois, os caminhos


(por vezes os mais distantes)
que me segrede a Razão.
Que eu prefiro ver moinhos
e dar combate aos gigantes
que me toldam a visão.

Se há algo que me alicia


a tomar a decisão
de frente e de forma audaz
que, creio, serei capaz,
é não crer que é utopia
dar aos outros minha mão
para alcançarmos a Paz.

Nesta crença me renovo


E me torno inda mais forte:
Quero mesmo um ano NOVO!
EU QUERO SER D. QUIXOTE!

FERNANDO PEIXOTO

31 de Dezembro de 2007

Início
PARA AMARMO-NOS

Que sirva sobretudo o nosso amor


para mudar o que anda à nossa volta,
porque eu não posso amar com tanta dor
que acende no meu peito esta revolta.

Não quero sublimar o meu prazer


olhando para o lado, em detrimento
do que vejo, do que me faz doer,
e me traz a náusea, o sofrimento.

Para amarmo-nos temos de sentir


e traçar claramente a nossa sorte.
Para amarmo-nos temos de partir
numa luta contínua contra a morte.

Só então teremos o direito


de olhar de frente o mundo em desafio
buscando um ser mais livre e mais perfeito
terminando com este desvario.

Teremos de vencer este cansaço


que empurra o nosso corpo à letargia
e darmos nossas mãos, o nosso abraço
para erguer no Futuro um Novo Dia.

Amando desta forma travaremos


o cruel apetite da cobiça
e só das nossas mãos suspenderemos
o fiel da balança da Justiça.

FERNANDO PEIXOTO

Portugal, 06.01.2008

Início
Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido


contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas


muito mais que lindas,
essas ficarão.

Início
Além da Terra, Além do Céu
Além da Terra,

além do Céu,

no trampolim do

sem-fim das estrelas,

no rastro dos astros,

na magnólia das nebulosas.

Além, muito além do sistema solar,

até onde alcançam

o pensamento e o coração,

vamos!

vamos conjugar

o verbo fundamental essencial,

o verbo transcendente,

acima das gramáticas


e do medo e da moeda e da política,

o verbo sempre amar,

o verbo pluriamar,

razão de ser e de viver.

AUSÊNCIA
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Ainda que mal


Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprimas,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te sigas,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda que mal te pergunto,
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor

MÃOS DADAS
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos,
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,


não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

DESTRUIÇÃO
Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados


pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.

Nada. Ninguém. Amor, puro fantasma


que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.


deixaram de existir, mas o existido
continua a doer eternamente.

Início
By: Carlos Drumond de Andrade.
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,


não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,


a vida presente.

RECEITA PARA NÃO ENGORDAR SEM

NECESSIDADE DE INGERIR ARROZ

INTEGRAL E CHÁ DE JASMIN


Carlos Drummond de Andrade

In: Poesia errante

Pratique o amor integral

uma vez por dia


desde a aurora matinal

até a hora em que o mocho espia.

Não perca um minuto só

neste regime sensacional.

Pois a vida é um sonho e, se tudo é pó,

que seja pó de amor integral.

by Carlos Drummond de Andrade


―Se procurar bem você acaba encontrando.
Não a explicação (duvidosa) da vida,
Mas a poesia (inexplicável) da vida.‖

by Carlos Drummond de Andrade


"... Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada,
aconchegada nos meus braços, que rio
e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim."

AS SEM RAZÕES DO AMOR


"Eu te amo porque te amo

Não precisas ser amante,


e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,

é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse.


Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo bastante ou a mim.

Porque amor não se troca,


não se conjuga, nem se ama. Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,

e da morte vencedor, por mais que o matem (e matam)


a cada instante de amor."

AMOR E SEU TEMPO


Amor é privilégio de maduros

estendidos na mais estreita cama,


que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,


o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço terrestre,


salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,


depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

Início
Gilka Machado

(1893/1980)

Pelo telefone
Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás;
amo-te pelo enigma pertinaz
que em ti me atrai e me intimida,
por essa música mendaz
de tua voz
que alvoroçou minha audição
e me vem desviando a vida
de seu destino de solidão.

Ignoro quem tu és,


de onde vens,
aonde irás...
Fala-me sempre,
mente mais;
não te posso exprimir o pavor que me invade,
as aflições que me consomem,
ao meditar na triste realidade
de que deve ser feita
essa tua alma de homem.

Ignoro quem tu és,


de onde vens,
aonde irás,
audaz
desconhecido;
tua palavra mente ao meu ouvido,
mas não mente essa voz que me treslouca!
— Ela é o amor que me chama por tua boca,
num apelo tristonho,
de saudade;
é a exortação do sonho
à minha rara sensibilidade.
Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás:
amo a ilusão que tua voz me traz.
a falsidade em que procuro crer.

Fala-me sempre, mente mais,


que de mim só mereces tanto apreço,
ó nebuloso, porque desconheço
as humanas misérias de teu ser!

Mas nesta solidão a que me imponho,


quando quedo em silêncio
a te aguardar a voz,
como se torna teu enigma atroz,
que ânsia de estrangular este formoso sonho,
de transpor os espaços,
de bem te conhecer,
de me atirar depressa,
inteira,
nos teus braços,
de te possuir só para te esquecer!...

Lembranças
Teus retratos — figuras esmaecidas;
mostram pouco, muito pouco do que foste.
Tuas cartas — palavras em desgaste,
dizem menos, muito menos
do que outrora me diziam
teus silêncios afagantes...
Só o espelho da minha memória
conserva nítida, imutável
a projeção de tua formosura,
só nos folhos dos meus sentidos
pairam vívidas
em relevo
as frases que teu carinho
soube nelas imprimir.

Sou a urna funerária de tua beleza


que a saudade
embalsamou.

Quando chegar o meu instante derradeiro


só então, mais do que eu,
tu morrerás
em mim.

Início
"São demais os perigos desta vida

Pra quem tem paixão principalmente

Quando uma lua chega de repente

E se deixa no céu, como esquecida

E se ao luar que atua desvairado

Vem se unir uma música qualquer

Aí então é preciso ter cuidado

Porque deve andar perto uma mulher..."

A carta que não foi mandada


Paris, outono de 73
Estou no nosso bar mais uma vez
E escrevo pra dizer
Que é a mesma taça e a mesma luz
Brilhando no champanhe em vários tons azuis
No espelho em frente eu sou mais um freguês
Um homem que já foi feliz, talvez
E vejo que em seu rosto correm lágrimas de dor
Saudades, certamente, de algum grande amor

Mas ao vê-lo assim tão triste e só


Sou eu que estou chorando
Lágrimas iguais
E, a vida é assim, o tempo passa
E fica relembrando
Canções do amor demais
Sim, será mais um, mais um qualquer
Que vem de vez em quando
E olha para trás
É, existe sempre uma mulher
Pra se ficar pensando
Nem sei… nem lembro mais

ai, quem me dera


Ai quem me dera terminasse a espera
Retornasse o canto, simples e sem fim
E ouvindo o canto, se chorasse tanto
Que do mundo o pranto, se estancasse enfim

Ai quem me dera ver morrer a fera


Ver nascer o anjo, ver brotar a flor
Ai quem me dera uma manhã feliz
Ai quem me dera uma estação de amor…

Ah se as pessoas se tornassem boas


E cantassem moas e tivessem paz
E pelas ruas se abraçassem nuas
E duas a duas fossem ser casais

Ai quem me dera ao som de madrigais


Ver todo mundo para sempre afim
E a liberdade nunca ser demais
E não haver mais solidão ruim

Ai quem me dera ouvir um nunca mais


Dizer que a vida vai ser sempre assim
E ao fim da espera
Ouvir na primavera
Alguém chamar por mim

Ai quem me dera ao som de madrigais


Ver todo mundo para sempre afim
E a liberdade nunca ser demais
E não haver mais solidão ruim

Ai quem me dera ouvir um nunca mais


Dizer que a vida vai ser sempre assim
E ao fim da espera
Ouvir na primavera
Alguém chamar por mim
Menino morto pelas ladeiras de Ouro Preto

Hoje a pátina do tempo cobre também o céu de outono


Para o teu enterro de anjinho, menino morto
Menino morto pelas ladeiras de Ouro Preto.
Berçam-te o sono essas velhas pedras por onde se esforça
Teu caixãozinho trêmulo, aberto em branco e rosa.
Nem rosas para o teu sono, menino morto
Menino morto pelas ladeiras de Ouro Preto.
Nem rosas para colorir teu rosto de cera
Tuas mãozinhas em prece, teu cabelo louro cortado rente...
Abre bem teus olhos opacos, menino morto
Menino morto pelas ladeiras de Ouro Preto.
Acima de ti o céu é antigo, não te compreende.
Mas logo terás, no Cemitério das Mercês-de-Cima
Caramujos e gongolos da terra para brincar como gostavas
Nos baldios do velho córrego, menino morto
Menino morto pelas ladeiras de Ouro Preto.
Ah, pequenino cadáver a mirar o tempo
Que doçura a tua; como saíste do meu peito
Para esta negra tarde a chover cinzas...
Que miséria a tua, menino morto
Que pobrinhos os garotos que te acompanham
Empunhando flores do mato pelas ladeiras de Ouro Preto...
Que vazio restou o mundo com a tua ausência...
Que silentes as casas... que desesperado o crepúsculo
A desfolhar as primeiras pétalas de treva...

1952
in Novos Poemas (II)
in Poesia completa e prosa: "Poesia varia"

Início
PROJETO DE PREFÁCIO
―Sábias agudezas... refinamentos...
- não!
Nada disso encontrarás aqui.
Um poema não é para te distraíres
como com essas imagens mutantes de caleidoscópios.
Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe
Um poema não é também quando paras no fim,
porque um verdadeiro poema continua sempre...
Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte
não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras.‖

RECORDO AINDA

Recordo ainda... e nada mais me importa...


Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...

Mas veio um vento de Desesperança


Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...

Estrada afora após segui... Mas, aí,


Embora idade e senso eu aparente
Não vos iludais o velho que aqui vai:
Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai!...
Que envelheceu, um dia, de repente!...

INSCRIÇÃO PARA UM PORTÃO DE CEMITÉRIO


Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce - uma estrela,
Quando se morre - uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
"Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim!

BILHETE

Se tu me amas,
ama-me baixinho.

Não o grites de cima dos telhados,


deixa em paz os passarinhos.

Deixa em paz a mim!

Se me queres,
enfim,

...tem de ser bem devagarinho,


.....amada,

...que a vida é breve,


.....e o amor
z...mais breve ainda.

by Mário Quintana
―Com o tempo você vai percebendo que para ser feliz com uma outra pessoa,
você precisa, em primeiro lugar , não precisar dela. Percebe também que
aquele alguém que você ama(ou acha que ama)e que não quer nada com você,
definitivamente não o alguém da sua vida. Você aprende a gostar de você, a
cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você. O
segredo é não correr atrás das borboletas... é cuidar do jardim para que elas
venham até você. No final das contas, você vai achar não quem você estava
procurando, mas quem estava procurando por você!‖
DAS UTOPIAS
Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!
Mario Quintana - Espelho Mágico

(Mário Quintana in “A cor do invisível”)


―A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali…
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!‖

Palavras que nunca te direi…

A primeira é a carta de Catherine, atirada ao mar, três dias antes de morrer..

Arquivado em: Amor, Citações, Felicidade, Livros, Prece, Solidão

«A todos os navios no mar.


A todos os portos de abastecimento.
Para a minha Família.
E para todos os amigos e desconhecidos.

Isto é uma mensagem e uma oração.

A mensagem que as minhas viagens me ensinaram uma grande verdade.

Já tinha aquilo que todos procuram e que poucos encontram:


Aquela pessoa no mundo que nasci para amar para sempre.
Uma pessoa como eu da zona de Otter Blank, do misterioso Atlântico Azul.
Uma pessoa rica em tesouros singelos, que se fez aquilo que é.
Um porto em que estou sempre em casa.
E não há vento ou sarilho, nem mesmo uma pequena morte capaz de destruir
esta fortaleza.

A oração é a pedir que toda a gente encontre um amor assim e através dele
seja curado.
Se a minha oração for ouvida toda a culpa será apagada e todos os remorsos e
toda a raiva será extinta.
Por favor Deus.
Amén.»

Início
Giuseppe Ghiaroni

Pontos de Vista

Na minha infância,quando eu me excedia


quando eu fazia alguma coisa errada
se alguém ralhava minha mãe dizia
-Ele é uma criança,não entende nada!

Por dentro eu ria satisfeito e mudo.


Eu era um homem, entendia tudo.

Hoje que escrevo poemas


e pareço ter tido algum estudo
dizem quando me vêem com os meus problemas:
-Ele é um homem, ele entende tudo!

Por dentro, alma confusa e atarantada


eu sou criança, não entendo nada. ...

Economia

―Dá de ti. Dá de ti quanto puderes:


o talento, a energia, o coração.
Dá de ti para os homens e as mulheres
como as árvores dão e as fontes dão.
Não somente os sapatos que não queres
e a capa que não usas no verão.
Darás tudo o que fores e tiveres:
o talento, a energia, o coração.
Darás sem refletir, sem ser notado,
de modo que ninguém diga obrigado
nem te deva dinheiro ou gratidão.
E com que espanto notarás, um dia,
que viveste fazendo economia
de talento, energia e coração!‖...

Intermezzo

Um ligeiro intervalo de esperança


foi a nossa escapada da rotina:
cada dia uma glória repentina
cada noite a euforia da mudança.

Um ligeiro intervalo de esperança


e eu julguei ter achado o ouro e a mina.
Vi no teu rosto aquela luz divina,
voltei a ser poeta e a ser criança.

Foi a nossa embriaguez dos impossíveis,


ilusão de vencer os invencíveis
e de alcançar o que ninguém alcança.

Mas foi bom. Foi tão mais do que mereço,


que hoje, em desespero,eu te agradeço
um ligeiro intervalo de esperança!

PREVISÃO
Um dia, será velho

Nesse dia, tu só terás os anos e o juízo

E andarás procurando o paraíso

Numa igreja qualquer da freguesia.

Terás a boca flácida, a mão fria

O olhar tão vago, o andar tão preciso

Que as mocinhas na idade do sorriso

Te lançarão sorrisos de ironia.

Mas disso tu não sofrerás


Porquanto ainda poderás causar espanto

Contando as glórias que tivestes aqui.

E contarás numa vaidade austera

Que num ano qualquer da nossa era

Uma ‗mulher‘ morreu de amor por ti.

Início
João Guimarães Rosa

"Quando escrevo, repito o que já vivi antes.


E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo
vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser
um crocodilo porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranqüilos e escuros
como o sofrimento dos homens."

Frases escolhidas
"O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem..."

―Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre
um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de
a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das
grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar, é todos contra os
acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no
fim dá certo.‖

"Já não se encontrarão os meus olhos nos teus olhos. Já não se adoçará
junto a ti a minha dor, mas por onde for levarei o teu olhar e para onde
fores levarás a minha dor."

―Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas


não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão
sempre mudando."
―Sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega
e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na
idéia, querendo e ajudando, mas quando é destino dado, maior que o
miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear
com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois."

―(...) a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma
nunca se deve de tolerar ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é
a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o
tempo governando a idéia e o sentir da gente; o que isso era falta de
soberania, e farta bobice, e fato é."

―Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que
o bom seja bom e o ruim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o
branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da
tristeza! Quero os todos pastos demarcados... Como é que posso com
este mundo? Este mundo é muito misturado.‖

―-Adianta querer saber muita coisa? O senhor sabia, lá para cima - me


disseram. Mas, de repente chegou neste sertão, viu tudo diverso
diferente, o que nunca tinha visto. Sabença aprendida não adiantou para
nada... Serviu algum?‖

―Tudo, aliás, é a ponta de um mistério, inclusive os fatos. Ou a ausência


deles. Duvida? Quando nada acontece há um milagre que não estamos
vendo. ―

Mal-entendido
Na boda de um camarão com uma lagosta,
levantaram um brinde ao transatlântico
que passou por cima para os cumprimentar...

Falta de armas
Dois caracóis chocaram, de leve, as suas casas,
e mexeram tentáculos , um dia inteiro,
pedindo-se mil desculpas...

Reportagem - Pág-69
Eu quis chamar o homem, para lhe dar um sorriso,
mas ele ia já longe, sem se voltar nunca,
como quem não tem frente, como quem só tem costas...

GARGALHADA

Quando me disseste que não mais me amavas,

e que ias partir,

dura, precisa, bela e inabalável,

com a impassibilidade de um executor,


dilatou-se em mim o pavor das cavernas vazias...

Mas olhei-te bem nos olhos,

belos como o veludo das lagartas verdes,

e porque já houvesse lágrimas nos meus olhos,

tive pena de ti, de mim, de todos,

e me ri

da inutilidade das torturas predestinadas,

guardadas para nós, desde a treva das épocas,

quando a inexperiência dos Deuses

ainda não criara o mundo...

Início
Paulo
Leminski

"quando eu vi você Viver


tive uma idéia brilhante de noite
foi como se eu olhasse me fez
de dentro de um diamante senhor
e meu olho ganhasse do fogo...
mil faces num só instante
basta um instante A vocês
e um olhar vira romance" eu deixo
o sono.
O sonho não,
esse
eu mesmo
carrego.

‖Amor, então, Quando chove,


também, acaba? eu chovo,
Não, que eu saiba. faz sol,
O que eu sei eu faço,
é que se transforma de noite
numa matéria-prima anoiteço,
que a vida se encarrega tem deus,
de transformar em raiva. eu rezo,
Ou em rima.‖ não tem,
esqueço,
chove de novo,
de novo, chovo,
assobio no vento,
daqui me vejo,
lá vou eu,
gesto no movimento

―Abrindo um antigo caderno isso de querer


foi que eu descobri: ser exatamente aquilo
Antigamente eu era eterno.‖ que a gente é
ainda vai
nos levar além
Sujeito Indireto [tenho andado fraco]

―Quem dera eu achasse um jeito tenho andado fraco


de fazer tudo perfeito,
feito a coisa fosse o projeto levanto a mão
é uma mão de macaco
e tudo já nascesse satisfeito.
Quem dera eu visse o outro lado, tenho andado só
o lado de lá, lado meio, lembrando que sou pó
onde o triângulo é quadrado
e o torto parece direito. tenho andado tanto
Quem dera um ângulo reto. diabo querendo ser santo
Já começo a ficar cheio
de não saber quando eu falto, tenho andado cheio
o copo pelo meio
de ser, mim, indireto sujeito.‖
tenho andado sem pai
yo no creo en caminos

pero que los hay

hay

Início
Fernando Pessoa

"Segue o teu destino...


Rega as tuas plantas;
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
de árvores alheias"

" E falta sempre uma coisa, um copo, uma brisa, uma frase,e a vida dói
quanto mais se goza e quanto mais se inventa"

fernando pessoa(Álvaro de Campos)

―Passou a diligência pela estrada, e foi-se;


E a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia.
Assim é a ação humana pelo mundo fora.
Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos;
E o sol é sempre pontual todos os dias.‖

Alberto Caeiro

―PEDRAS NO CAMINHO? GUARDO TODAS, UM DIA VOU


CONSTRUIR UM CASTELO...‖

―Para ser grande, sê inteiro: nada


Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.‖
A Criança Que Ri na Rua

A CRIANÇA que ri na rua,


A música que vem no acaso,
A tela absurda, a estátua nua,
A bondade que não tem prazo -

Tudo isso excede este rigor


Que o raciocínio dá a tudo,
E tem qualquer cousa de amor,
Ainda que o amor seja mudo

Fernando Pessoa

Cancioneiro

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,


Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm

E assim nas calhas de roda


Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Da Lâmpada
(Ricardo Reis)

Da lâmpada noturna

A chama estremece

E o quarto alto ondeia.

Os deuses concedem
Aos seus calmos crentes

Que nunca lhes trema

A chama da vida

Perturbando o aspecto

Do que está em roda,

Mas firme e esguiada

Como preciosa

E antiga pedra,

Guarde a sua calma

Beleza contínua.

Início
PABLO NERUDA

Quem morre?
Morre lentamente
quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não
conhece.
Morre lentamente
quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente
quem evita uma paixão,
quem prefere o preto no branco
e os pingos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente
quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente
quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente,
quem passa os dias queixando-se da sua má sorte
ou da chuva incessante.
Morre lentamente,
quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,


recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior
que o simples fato de respirar. Somente a perseverança fará com que
conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade.

Traduction d’un discours de Pablo Néruda - Prix Nobel de


littérature 1971

Pablo Neruda

Il meurt lentement
Celui qui ne voyage pas,
Celui qui ne lit pas,
Celui qui n‘écoute pas de musique,
Celui qui ne sait pas trouver grâce à ses yeux.

Il meurt lentement
Celui qui détruit son amour-propre,
Celui qui ne se laisse jamais aider.

Il meurt lentement
Celui qui devient esclave de l‘habitude
Refaisant tous les jours les mêmes chemins,
Celui qui ne change jamais de repère,
Ne se risque jamais à changer la couleur
De ses vêtements
Ou qui ne parle jamais à un inconnu

Il meurt lentement
Celui qui évite la passion
Et son tourbillon d‘émotions
Celles qui redonnent la lumière dans les yeux
Et réparent les coeurs blessés

Il meurt lentement
Celui qui ne change pas de cap
Lorsqu‘il est malheureux
Au travail ou en amour,
Celui qui ne prend pas de risques
Pour réaliser ses rêves,
Celui qui, pas une seule fois dans sa vie,
N‘a fui les conseils sensés.

Vis maintenant !

Risque-toi aujourd‘hui !

Agis tout de suite !

Ne te laisse pas mourir lentement !


Ne te prive pas d‘être heureux ! ―

"Poema 20" de "Veinte poemas de amor y una canción


desesperada)
" De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.

Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.

Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.

Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.

Porque en noches como esta la tuve entre mis brazos,

mi alma no se contenta con haberla perdido.

Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,

y éstos sean los últimos versos que yo le escribo."

NERUDA EN FRANÇAIS
―Il reste que je ne suis qu'un homme, mais plusieurs vous diront quel
homme j'ai été. J'ai toujours lutté pour le peuple et les droits de celui-ci
de se gouverner lui-même, j'en ai frôlé la mort plus d'une fois et j'ai
même dû me sauver de chez moi pour de longues années. Mais toujours
j'ai écrit et aimé la vie. Mon oeuvre a fait le tour du monde et je suis
devenu un symbole pour une jeunesse pleine de vie. Les élèves aimeront
mon Chant général où je tente de faire sentir toute la beauté du monde.
J'aime la vie et le monde. J'ai été heureux dans ma lutte incessante.
Notez cher lecteur qu'un film fut fait sur mes relations avec un postier
lors de mon exil en Italie, un film merveilleux de tendresse mettant en
vedette Philippe Noiret: Il Postino‖
Neruda, Pablo (Neftali Reyes)
FOMOS

Enquanto as tribos e populações


arranham terra e adormecem na mina,
pescando nos espinhos desse inverno,
pregam os pregos em seus ataúdes,
edificam cidades que não moram,
semeiam o pão que amanhã não terão,
para disputar a fome e o perigo.

Se cada dia cai

―Se cada dia cai, dentro de cada noite,


há um poço
onde a claridade está presa.
há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.‖

(Últimos Poemas)

―Tu eras também uma pequena folha


que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.‖

―Dois amantes felizes não têm fim nem morte,


nascem e morrem tanta vez enquanto vivem,
são eternos como é a natureza.‖

―Se sou amado,


quanto mais amado
mais correspondo ao amor.
Se sou esquecido,
devo esquecer também,
Pois amor é feito espelho:
-tem que ter reflexo.‖
―Refugiei-me na poesia com ferocidade de tímido.‖

"Escrever é fácil.
Você começa com uma maiúscula e termina com um ponto final.
No meio, coloca idéias."

―Dá-me amor, me sorri e me ajuda a ser bom.


Não te firas em mim, seria inútil;
Não me firas a mim, porque te feres.‖

Início
A LOUCURA DO POETA
Fernando Peixoto

Que a voz do Poeta não se cale

Que os olhos do Poeta não se fechem

Que os seus versos sejam a sirene

Que alerta toda a gente à sua volta

Que o poema seja o grito inconformado

Dos braços que se erguem na revolta

Contra os braços curvados e a cerviz

Submissa ao peso da opressão

Que o poema seja sempre vertical

Um relâmpago enorme em noite escura.

Que o Poema seja uma canção

E rasgue o medo em mil pedaços


Com versos de amor e de ternura

Espalhados por mil bocas e mil braços.

Que o Poeta seja mais que um ser humano

E que tanja a lira do seu canto

Elevando a Poesia até ao céu

E que entregue aos homens o seu Fogo

Assumindo o papel de Prometeu.

Quando o Poeta escreve por Amor

A palavra torna-se a armadura

Com que o Homem vence a própria dor

E destrói o vírus da amargura.

É louco, o Poeta? Deixem lá:

O mundo precisa da loucura.

Portugal

06.08.2007

Início
REFLEXÃO
Fernando Peixoto

Não ofusques o brilho dos teus olhos


nem te deixes, sequer, entristecer
porque a Vida, apesar dos seus escolhos,
tem sempre um horizonte a renascer.
Mesmo quando a saudade nos tortura
e nos lança nos braços da tristeza
há sempre uma manhã que vem, mais pura
e que inunda de Sol a Natureza.
Não há nada mais belo que sentir,
na doce madrugada, ao acordar,
qu'inda somos capazes de sorrir,
qu'inda somos capazes de sonhar.
Ao assumirmos esta consciência
que em nós se multiplica na vontade,
penetramos no cerne da ciência
e vivemos a Vida, com Verdade!
Portugal, 15.01.2008

Início
(24/2/2004 - 11:53:26- antevéspera do Natal de 2004 – 23:00:00)
De ti pouco mais sei do que o que li
E apenas pelo que outros me disseram
Mas nunca te escutei, sequer te vi
Nos livros que os antigos escreveram.
E de tudo o que retive e que aprendi
Recordo alguns prodígios que fizeste.
Mas depois, reflectindo, concluí:
Quem foste afinal, Tu? E o que disseste?
Nenhum dos escritores te conheceu,
Nenhum deles jamais te acompanhou.
Nem ao certo se sabe onde nasceu
O Jesus que até hoje a nós chegou.
Por isso é que aprendi a duvidar
E daquilo que li pouco me importa.
Duvidando aprendi a acreditar
Porque ter Fé, sem dúvida, é Fé morta.
Que fizeste, tu, Amigo? Francamente!
Como pudeste cair em tanta asneira?
Tu, que tiveste o mundo à tua frente
E o deixaste cair desta maneira?
Tu, que divino sempre te julgaste
E como filho de Deus te assumiste,
Tu, que a própria família abandonaste
E os míseros aos ricos preferiste
Que surgiste, já homem, sem sabermos
Que fizeste na tua adolescência,
Que caminhos tomaste, sem te vermos,
Onde colheste tu tanta ciência?
Depois permaneceste errando, incerto,
Meditando em contínua oração,
Preparando, sozinho, no deserto
O caminho da tua pregação.
Partiste rumo ao mar para pescar
Com redes de palavras pescadores
Acolheste-os a todos, sem cuidar
Em separar os bons dos pecadores.
Quem eras Tu, que assim se aventurava
Em abalar um mundo instituído?
Quem eras tu, Jesus, que assim falava
De um Novo Deus de amor, desconhecido?
Quem eras tu, surgido de repente
Um pobre, natural de Nazaret,
Acompanhado assim, por tanta gente,
Pregando às multidões a nova Fé?
Que o Velho Testamento transformaste
Num novo Deus, sem fúria nem vingança,
Um novo Deus de Amor, que proclamaste,
Num Novo Testamento de esperança,
Tu, que amaste as crianças com ternura,
Como eternos símbolos de pureza,
Que trilhaste os caminhos da ventura
E foste dos humanos frágil presa,
Que a fome por milagre mitigaste
Em pão que se espalhou com abundância,
Que mesmo aos inimigos abraçaste
Com idêntico amor e tolerância,
Que à mulher conferiste a dignidade
Tornando-a tua amiga e tua irmã,
Pois do seu ventre emerge a humanidade
Que faz de cada parto uma manhã,
Que morreste sozinho, abandonado
Pelo povo que foi o teu algoz,
Exangue e por espinhos cravejado
Suportando na cruz a dor atroz
Questionaste o Pai sobre a razão
De ter-te abandonado nesse instante.
E qual foi a resposta? Um trovão,
Apenas um trovão no céu distante.
Disseram que depois ressuscitaste!
Embora já de forma não terrena,
E que aos olhos daquela a quem amaste
Te mostraste primeiro: Madalena.
Mas não creio que tal seja verdade.
E tudo não passou duma visão
Daquela, para quem a realidade
Eras Tu, inda vivo: uma ilusão.
Eras tu, Jesus, o Deus que amava,
Eras tu, Jesus, a flor eterna,
A pétala da flor que não murchava
No amoroso jardim de Madalena.
E por isso te via a todo o instante
E nunca se sentia em solidão
Porque tinha guardado o seu amante
No cofre mais secreto da paixão.
Para mim nunca foste a divindade,
Aquela que não passa dum conceito,
Foste um Homem apenas, na verdade,
Foste um Homem, apenas, mas PERFEITO.
E se hoje creio em ti desta maneira
Acredita: não é por má vontade.
É por não ver a Humanidade inteira
Seguir o teu exemplo de bondade.
Morreste torturado numa cruz
Às mãos dos que querias libertar.
Mas p‘ra mim tu és sempre esse Jesus
Que eu tanto gostaria de imitar!
Mas tão débil eu sou que não consigo
Ultrapassar os vícios que consomem
O difícil caminho que prossigo
À procura de ti, p‘ra ser um Homem.
Por isso sinto a dor tão pertinaz
De tão perto estar de ti e tão distante,
sentir-me cada vez mais incapaz
de ser igual a ti, ou semelhante.
A minha cruz é de outra natureza
E nada tem em si de misticismo:
É a pesada cruz desta fraqueza
De não poder vencer o meu egoísmo.
E só pensando em ti me tornarei
Capaz de resistir e ser mais forte
Vencendo este percurso que encetei
No dia em que nasci até à morte.
Porque a Vida, Jesus, é mesmo assim,
Um rumo que se traça e se percorre,
Que tem sempre um começo e tem um fim:
Se tudo nasce e vive, tudo morre.
E se de nada mais tenho a certeza,
Pretendo ter ao menos a ambição
De estar conforme a minha natureza
Desta frágil e humana condição.
Do Bem e da Pureza soberano
Foste o fruto de humana concepção.
Eu apenas serei um ser humano
Incapaz de atingir a perfeição.
Se como tu não passo de um mortal
E assumo por inteiro este conceito,
Eu não sou como tu, sou desigual,
Não sou como tu foste: um ser perfeito.
E por isso te quero e te encareço
E por isso te recordo e me ajoelho
Em tributo fraterno. E reconheço
Nos teus humanos actos o Evangelho.
*****

Início
MEUS OITO ANOS
Cassimiro de Abreu

Oh! que saudades que tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!

Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras

À sombra das bananeiras,

Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias

Do despontar da existência!

— Respira a alma inocência

Como perfumes a flor;


O mar é — lago sereno,

O céu — um manto azulado,

O mundo — um sonho dourado,

A vida — um hino d'amor!

Que aurora, que sol, que vida,

Que noites de melodia

Naquela doce alegria,

Naquele ingênuo folgar!

O céu bordado d'estrelas,

A terra de aromas cheia

As ondas beijando a areia

E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!

Oh! meu céu de primavera!

Que doce a vida não era

Nessa risonha manhã!

Em vez das mágoas de agora,

Eu tinha nessas delícias

De minha mãe as carícias

E beijos de minha irmã!

Livre filho das montanhas,

Eu ia bem satisfeito,

Da camisa aberta o peito,

— Pés descalços, braços nus

— Correndo pelas campinas


A roda das cachoeiras,

Atrás das asas ligeiras

Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos

Ia colher as pitangas,

Trepava a tirar as mangas,

Brincava à beira do mar;

Rezava às Ave-Marias,

Achava o céu sempre lindo.

Adormecia sorrindo

E despertava a cantar!
................................
Oh! que saudades que tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!

— Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras

À sombra das bananeiras

Debaixo dos laranjais!

Início
O QUE É - SIMPATIA

(A uma menina)

Cassimiro de Abreu

Simpatia - é o sentimento
Que nasce num só momento,
Sincero, no coração;
São dois olhares acesos
Bem juntos, unidos, presos
Numa mágica atração.
Simpatia - são dois galhos
Banhados de bons orvalhos
Nas mangueiras do jardim;
Bem longe às vezes nascidos,
Mas que se juntam crescidos
E que se abraçam por fim.
São duas almas bem gêmeas
Que riem no mesmo riso,
Que choram nos mesmos ais;
São vozes de dois amantes,
Duas liras semelhantes,
Ou dois poemas iguais.
Simpatia - meu anjinho,
É o canto do passarinho,
É o doce aroma da flor;
São nuvens dum céu d'Agosto,
É o que m'inspira teu rosto...
- Simpatia - é - quase amor!
………………………
Indaiaçu - 1857.

Início
Economia

Giuseppe Ghiaroni

“Dá de ti. Dá de ti quanto puderes:


o talento, a energia, o coração.
Dá de ti para os homens e as mulheres
como as árvores dão e as fontes dão.
Não somente os sapatos que não queres
e a capa que não usas no verão.
Darás tudo o que fores e tiveres:
o talento, a energia, o coração.
Darás sem refletir, sem ser notado,
de modo que ninguém diga obrigado
nem te deva dinheiro ou gratidão.
E com que espanto notarás, um dia,
que viveste fazendo economia
de talento, energia e coração!”...

Que 2010 seja o ano da fraternidade e da harmonia de todos para todos.

(Bouquet de Cravos & Conchavos)

Início
Dois Caminhos...
Eu queria te dar minha emoção mais pura,
associar-te ao meu sonho e dividir contigo
migalha por migalha, o pouco de ventura
que pudesse colher no caminho onde sigo...
E esse estranho desejo em que se desfigura
a palavra de amor e pureza que eu digo,
- e queria te dar essa minha ternura
que às vezes, por trair-se ao teu olhar, maldigo...
Bem que eu quis te ofertar meu destino, meu sonho,
minha vida, e até mesmo esta efêmera glória
que desperdiço a cantar nos versos que componho...
Nada quiseste... E assim, os sonhos que viviam,
se ontem, puderam ser um começo de história,
hoje, são dois caminhos que se distanciam...

Esperança
Não! A gente não morre quando quer,
Inda quando as tristezas nos consomem.
Há sempre luz no olhar de uma mulher
E sangue oculto na intenção de um homem.
Mesmo que o tempo seja apenas dor
E da desilusão se fique prisioneiro.
Vai-se um amor? Depois vem outro amor
Talvez maior do que o primeiro.
Sonho que se afogou na baixa-mar,
De novo há de erguer, cheio de fé,
Que mesmo sem ninguém o suspeitar,
Volta a encher a maré.
Não penses que jamais hás de achar fundo
Nem que entre as tuas mãos não terás outra mão.
Pode a vida matar o sonho e o sol e o mundo,
Mas não nos mata o coração.
(Poesia de Maria Helena,– extraído do livro
Concerto a 4 mãos - de JG de Araujo Jorge - 1959 )

Paradoxo
A dor que abate, e punge, e nos tortura,
que julgamos às vezes não ter cura
e o destino nos deu e nos impôs,
é pequenina, é bem menor, e até
já não é dor talvez, dor já não é
dividida por dois.
A alegria que às vezes num segundo
nos dá desejos de abraçar o mundo,
e nos põe tristes, sem querer, depois,
aumenta, cresce, e bem maior se faz,
já não é alegria, é muito mais
dividida por dois.
Estranha essa aritmética da vida,
nem parece ciência, parece arte;
compreendo a dor menor, se dividida,
não entendo é aumentar nossa alegria
se essa mesma alegria
se reparte.
(do livro- Festa de Imagens – 1948)

O verbo amar
Te amei: era de longe que te olhava
e de longe me olhavas vagamente...
Ah, quanta coisa nesse tempo a gente sente,
que a alma da gente faz escrava.
Te amava: como inquieto adolescente,
tremendo ao te enlaçar, e te enlaçava
adivinhando esse mistério ardente
do mundo, em cada beijo que te dava.
Te amo: e ao te amar assim vou conjugando
os tempos todos desse amor, enquanto
segue a vida, vivendo, e eu, vou te amando...
Te amar: é mais que em verbo é a minha lei,
e é por ti que o repito no meu canto:
te amei, te amava, te amo e te amarei!
(do livro -Bazar de Ritmos- 1935)

Desfolhando
Essa boca, pequena, e assim vermelha,
que ao botão de uma rosa se assemelha,
- quanta vez provocava os meus desejos
desabrochando em flor entre os meus beijos...
Essa boca, pequena e mentirosa,
que diz, tanta mentira cor-de-rosa,
- era a taça de amor onde eu saciava
toda a ansiedade da minha alma escrava ...
Beijando-a, compreendia que eras minha...
Meu amor transformava-te em rainha,
teu amor me fazia mais que um rei...
Agora, tu fugiste... E eu sofro, quando
vejo um outro em teus lábios desfolhando
a mesma rosa que eu desabrochei!...

Prelúdio da Gota d' água


Cheio da tua ausência me angustio
a cada hora que passa... a cada instante...
- pelo meu pensamento, como um fio,
és uma gota d'água, tremulante...
Uma gota suspensa e cintilante,
límpida e imóvel como um desafio...
Tua ausência, - é a presença triunfante
daquela gota que ficou no fio. . .
As outras todas, céleres, pingaram,
e caíram na terra onde secaram,
só tu ficaste, última gota, assim
como uma estrela sem ter firmamento,
suspensa ao fio do meu pensamento
e a brilhar, sem cair... dentro de mim...

Cacho de Uva
Vejo em teu corpo, teus seios
redondos, belos, pesados,
como ao tempo das vindimas
os cachos de uva dourados...
E tomo-os nas minhas mãos,
sazonados de calor
para meus lábios sedentos
do vinho do teu amor
Teus seios são cachos de uvas
Uvas da terra ou do céu
Sei que embriagam mais que o vinho
Que são doces mais que o mel

Noturno nº 2
Estás no pensamento,
fixa, presa,
como a estrela no céu
como a nudez da beleza
sob um véu...
Estás no pensamento,
como a espuma na vaga...
Em vão o vai e vem do mar:
ela nunca apaga...
Estás no pensamento
como , na estória, o tema;
como a palavra, no poema;
como o sopro, no vento;
como a música no instrumento;
como o marulho no rio;
como a chama no pavio;
ou o pêndulo, no movimento...

Estás no meu pensamento


como a tatuagem na epiderme;
como a forma na escultura;
como o ritmo no "ballet"...
Como no espírito inerme
a amargura
ou a fé...

Estás no meu pensamento


como o som
na corda distendida;
como, na bússola, o Norte;
como a esperança, na vida;
como na Vida
a Morte!
Volúpia
Quisera te associar à pureza e à candura
quando pensasse em ti... Mas a emoção, teimosa,
transforma sem querer toda a minha ternura
numa estranha lembrança ardente voluptuosa...
Não poderei dizer apenas que és formosa
quando a própria beleza em ti se transfigura,
- e pela tua carne há pétalas de rosa
e no teu corpo há um canto fresco de água pura!
Um sincero pudor vislumbro em teus enleios,
mas se disser que te amo com pureza, eu minto,
- no olhar trago tatuada a visão de teus seios...
E em vão tento associar-te ao céu, à fonte, à flor!
Quando falo de ti, penso em teu corpo, e sinto
que ainda estremece em mim teu último estertor!

Estranha Encruzilhada
Não sei por que cruzou com a tua a minha estrada,
o destino é inconsciente e não sabe o que faz...
- Encontro-te, e afinal, já sei que tu és amada,
encontras-me, e afinal, já é bem tarde demais...
Já não posso esquecer a existência passada,
perdi meu coração - o amor não tenho mais...
- já não tens coração, e a tua alma, coitada,
sofrendo há de ficar sem me esquecer jamais...
Até hoje nesse amor não tínhamos pensado:
é por isso talvez que em silêncio tu choras,
e em silêncio também meu pranto é derramado
Eu cheguei... Tu chegaste... Estranha encruzilhada:
se eu tenho que partir depois que tu me adoras,
se, tu tens que ficar sabendo-te adorada!...

Tonta...
Dizes que ficas tonta... quando em tua boca
ergo a taça da minha a transbordar de beijos,
e te dou a beber dessa champanha louca
que espuma nos meus lábios para os teus desejos.
Dizes... E em teu olhar incendiado talvez,
como que tonto mesmo e ardendo de calor,
vejo se refletir minha própria embriaguez
e o mundo de loucura que há no nosso amor...
E receio por ti e por mim, e receio
que um dia ao te sentir tão junto, eu enlouqueça
e aperte no meu peito a maciez do teu seio...
Dizes que ficas tonta... Hás de então ficar louca!
E eu tomando entre as mãos tua loura cabeça
hei de fazer sangrar de beijos tua boca! ...

Canto de ontem
Vamos, põe teu braço no meu braço, vamos recordar
os velhos tempos
do nosso amor.
Passeávamos assim,
e que frias eram as tuas mãos
no momento do encontro,
e que dóceis teus lábios depois da rendição.
Muitas vezes perdi-me em teus lábios e não soube voltar.
Que era o mundo senão um punhado de perspectivas
que saíam do ponto coração
e se perdiam nos teus olhos?
Tanta cousa esperamos e alguma cousa colhemos
mas que triste, amor, este todo-o-dia matando
o que esperávamos jamais ser tocado pelo tempo.
Tu me queres ainda, eu sei que te aninhas,

por hábito ou por frio

junto ao meu corpo, e esperas.


E eu te quero ainda, muito mais pelo que deixaste
nas raízes mergulhadas
e pelo que representas nas nuvens que se acumulam
do que pelo momento de tédio e ternura, elementos
do nosso coquetel cotidiano…
Vamos, põe teu braço no meu braço, como antigamente,
entrega-me docilmente os teus lábios, e pensa
que eu te beijo há mil anos, num tempo em que seremos
sempre os mesmos
e o nosso amor imortal.

Liberdade
A liberdade é o meu clarim de guerra
e eu sou, no meu viver amplo e sem véus,
como os caminhos soltos pela terra,
como os pássaros livres pelos céus.
Ela é o sol dos caminhos ! Ela é o ar
que os enche os pulmões, é o movimento,
traz num corpo irrequieto como o mar
uma alma errante e boêmia como o vento.
Minha crença, meu Deus, minha bandeira,
razão mesma de ser do meu destino,
há de ser a palavra derradeira
que há de aflorar-me aos lábios como um hino.
Liberdade: Alavanca de montanhas!
Aureolada de louros ou de espinhos
há de cingir-me a fronte nas campanhas,
há de ferir-me os pés pelos caminhos.
Sinto-a viva em meu sangue palpitando
seja utopia ou seja ideal, - que importa?
Quero viver por esse ideal lutando,
quero morrer se essa utopia é morta !

Supremo Orgulho
Nunca soube pedir...Nunca soube implorar...
Nasci, tendo este orgulho em minha lama irrequieta,
- há um brilho que incendeia o meu altivo olhar
de crente superior... de indiferente asceta...
Minha fronte, jamais, eu soube curvar
na atitude servil de uma existência abjeta...
Ninguém é mais que eu!... Ninguém... e este meu ar
de orgulho, vem da glória imensa de ser poeta...
Sou pobre - mas riqueza alguma há igual à minha,
- a mulher que eu amar terá a glória suprema
de um dia se sentir maior que uma rainha....
Terá a glória de saber o seu nome
perpetuado por mim nas estrofes de um poema,
desses que a História guarda e o Tempo não consome!

Teus seios
Teus seios... quando os sinto, quando os beijo
na ânsia febril de amante incontestado,
são pólos recebendo o meu desejo,
nos momentos sublimes de pecado...
E às manhãs... quando acaso, entre lençóis
das roupagens do leito, saltam nus,
lembram, não sei, dois lindos girassóis
fugindo à sombra e procurando a luz!...
Florações róseas de uma carne em flor
que se ostenta a tremer em dois botões
na primavera ardente de um amor
que vive para as nossas sensações...
Túmidos... cheios... palpitantes, como
dois bagos do teu corpo de sereia,
tem um rubro botão em cada pomo
como duas cerejas sobre a areia...
Quando os tenho nas mãos... Quantas delícias!...
Arrepiam-se, trêmulos , sensuais,
e ao contato nervoso das carícias
tocam-me o peito como dois punhais!...
Meu lúbrico prazer sempre consolo
na carne destas ondas revoltadas,
que são como taças emborcadas
no moreno inebriante do teu colo...
(extraído do livro Poemas do Amor Ardente - 1961)

Quando chegares…
Não sei se voltarás
sei que te espero.
Chegues quando chegares,
ainda estarei de pé, mesmo sem dia,
mesmo que seja noite, ainda estarei de pé.
A gente sempre fica acordado
nessa agonia,
à espera de um amor que acabou sendo fé...
Chegues quando chegares,
se houver tempo, colheremos ainda frutos, como ontem,
a sós;
se for tarde demais, nos deitaremos à sombra e
perguntaremos por nós...
(extraído do livro De mãos dadas- 2a edição 1966 )

Tédio
Vontade preguiçosa de apanhar meus nervos

e fechar os meus olhos, como que cansado de olhar ...

e dormir, mas dormir esse sono das pedras

que não podem sonhar ...


ser folha, folha morta, amarela, caindo embalada pelo ar ...

barco solto, sem leme, sem vela, sem nada

ao sabor inconstante do mar a boiar ...

Vontade preguiçosa de encostar a vida num canto,

para descansar ...

E soltar-me em mim mesmo, e soltar-me,

e cair e deixar-me ficar,

sem ter vontade ao menos para bocejar ...

Ah! ...

Vontade preguiçosa de não terminar

estes versos morrendo em ar ...


em ar... em ar ...

Os versos que te dou


Ouve estes versos que te dou, eu
os fiz hoje que sinto o coração contente
enquanto teu amor for meu somente,
eu farei versos...e serei feliz...
E hei de fazê-los pela vida afora,
versos de sonho e de amor, e hei depois
relembrar o passado de nós dois...
esse passado que começa agora...
Estes versos repletos de ternura são
versos meus, mas que são teus, também...
Sozinha, hás de escutá-los sem ninguém que
possa perturbar vossa ventura...
Quando o tempo branquear os teus cabelos
hás de um dia mais tarde, revivê-los nas
lembranças que a vida não desfez...
E ao lê-los...com saudade em tua dor...
hás de rever, chorando, o nosso amor,
hás de lembrar, também, de quem os fez...
Se nesse tempo eu já tiver partido e
outros versos quiseres, teu pedido deixa
ao lado da cruz para onde eu vou...
Quando lá novamente, então tu fores,
pode colher do chão todas as flores, pois
são os versos de amor que ainda te dou.
(poema acima foi extraído do livro ―Meu céu interior‖, Editora Vecchi –

Rio de Janeiro, 1934.)

***********

J. G. de Araújo Jorge (José Guilherme de Araújo Jorge) nasceu na Vila de


Tarauacá, no Estado do Acre, aos 20 de maio de 1914. Ainda jovem iniciou-se
na poesia. Estudou em Coimbra, Portugal, e fez curso de Extensão Cultural na
Universidade de Berlim, Alemanha. Além de escritor, locutor e redator de
programas radiofônicos, professor de História e Literatura, líder estudantil,
tinha política em suas veias. Foi candidato a vários cargos públicos. Elegeu-se
deputado federal pelo Estado da Guanabara, em 1970. Foi reeleito em 1974 e
1978. Mesmo combatidos pelos críticos, seus livros — em número de 36 —
tinham grande aceitação e foram publicados em diversos países. Faleceu no dia
27 de janeiro de 1987.

“A verdade é que me acomodei de tal modo em minha infelicidade, que quase


sou feliz.”

J. G. de Araújo Jorge

Início
Círculo Vicioso
Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
- Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
que arde no eterno azul, como uma eterna vela !
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

- Pudesse eu copiar o transparente lume,


que, da grega coluna á gótica janela,
contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela !
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

- Misera! Tivesse eu aquela enorme, aquela


claridade imortal, que toda a luz resume !
Mas o sol, inclinando a rutila capela:

- Pesa-me esta brilhante aureola de nume...


Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Porque não nasci eu um simples vaga-lume?

UN VIEUX PAYS [2]


...juntamente choro e rio.

CAMÕES

Il est un vieux pays, plein d'ombre et de lumière,

Où l'on rêve le jour, où l'on pleure le soir;

Un pays de blasphème, autant que de prière,

Né pour la doute et pour l'espoir.

On n'y voit point de fleurs sans un ver qui les ronge,


Point de mer sans tempête, ou de soleil sans nuit;

Le bonheur y paraît quelquefois dans un songe

Entre les bras du sombre ennui.

L'amour y va souvent, mais c'est tout un délire,

Un désespoir sans fin, une énigme sans mot;

Parfois il rit gaîment, mais de cet affreux rire

Qui n'est peut-être qu'un sanglot.

On va dans ce pays de misère et d'ivresse,

Mais on le voit à peine, on en sort, on a peur;

Je l'habit pourtant, j'y passe na jeunesse...

Hélas! ce pays, c'est mon coeur.

[2] Perdoem-se estes versos em francês; e para que de todo em todo não fique a
página aqui perdida lhes dou a tradução que fez dos meus versos o talentoso poeta
maranhense Joaquim Serra:

É um velho país, de luz e sombras,

Onde o dia traz pranto e a noite a cisma;

Um país de orações e de blasfêmia,

Nele a crença na dúvida se abisma.

Aí, mal nasce a flor, o verme a corta,

O mar é um escarcéu, e o sol sombrio;

Se a ventura num sonho transparece

A sufoca em seus braços o fastio.

Quando o amor, qual esfinge indecifrável,

Aí vai a bramir, perdido o siso...

Às vezes ri alegre, e outras vezes

É um triste soluço esse sorriso...

Vive-se nesse país com a mágoa e o riso;

Quem dele se ausentou treme a maldiz;

Mas aí, eu nele passo a mocidade,

Pois é meu coração esse país!


BONS AMIGOS
Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!

Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.


Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!

Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.


Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!

Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.


Porque amigo é a direção.
Amigo é a base quando falta o chão!

Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.


Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!

Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,


Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!

A CAROLINA
Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro


Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.

Trago-te flores, - restos arrancados


Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos


Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

Machado de Assis

Nasceu em 21 de junho de 1839 no Rio de Janeiro/Brasil.

Nacionalidade: brasileira

Faleceu aos 69 anos no dia 29 de setembro de 1908

Ocupação: romancista, contista, poeta, dramaturgo, cronista, crítico literário, teatrólogo

Assinatura

Início
Não me deixes!
Debruçada nas águas dum regato
A flor dizia em vão
À corrente, onde bela se mirava:
"Ai, não me deixes, não!
"Comigo fica ou leva-me contigo
"Dos mares à amplidão;
"Límpido ou turvo, te amarei constante;
"Mas não me deixes, não!"
E a corrente passava; novas águas
Após as outras vão;
E a flor sempre a dizer curva na fonte:
"Ai, não me deixes, não!"
E das águas que fogem incessantes
À eterna sucessão
Dizia sempre a flor, e sempre embalde:
"Ai, não me deixes, não!"
Por fim desfalecida e a cor murchada,
Quase a lamber o chão,
Buscava inda a corrente por dizer-lhe
Que a não deixasse, não.
A corrente impiedosa a flor enleia,
Leva-a do seu torrão;
A afundar-se dizia a pobrezinha:
"Não me deixaste, não!"
Canção do exílio
Kennst du das Land, wo die Citronen blühen,
Im dunkeln Laub die Gold-Orangen glühen?
Kennst du es wohl? — Dahin, dahin!
Möchtl ich... ziehn. *
Goethe
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Coimbra - julho 1843.
* - "Conheces a região onde florescem os limoeiros ?
laranjas de ouro ardem no verde escuro da folhagem;
conheces bem ? Nesse lugar,
eu desejava estar"
(Mignon, de Goethe)

Antônio Gonçalves Dias nasceu em Caxias, no Maranhão em 10 de agosto de 1823.

Faleceu em 03 de novembro de 1864.

Ocupação: poeta, professor, pesquisador e teatrólogo brasileiro. Considerado o principal poeta da primeira geração
do romantismo brasileiro.

Nacionalidade: brasileira

Jornada: estudou Direito em Coimbra, Portugal onde fez sua estréia literária com o poema dedicado à coroação do
Imperador D. Pedro II no Brasil. Depois de escrever o famoso ―Canção do Exílio‖, volta ao Brasil. ―Primeiros
Contos‖ o consagrou poeta.

Seu grande amor: Ana Amélia

Início
A pátria
Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!

Criança! não verás nenhum país como este!

Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!

A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,

É um seio de mãe a transbordar carinhos.

Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos,

Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!

Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!

Vê que grande extensão de matas,

onde impera Fecunda e luminosa,

a eterna primavera!

Boa terra! jamais negou a quem trabalha

O pão que mata a fome, o teto que agasalha...

Quem com o seu suor a fecunda e umedece,

Vê pago o seu esforço, e é feliz, e enriquece!

Criança! não verás país nenhum como este:

Imita na grandeza a terra em que nasceste!


A um poeta
Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego


Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego.

Não se mostre na fábrica o suplício


Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade,


Arte pura, inimiga do artifício,
E a força e a graça na simplicidade.

Última página
Primavera. Um sorriso aberto em tudo. Os ramos

Numa palpitação de flores e de ninhos.

Doirava o sol de outubro a areia dos caminhos

(Lembras-te, Rosa?) e ao sol de outubro nos amamos.

Verão. (Lembras-te, Dulce?) À beira-mar, sozinhos

Tentou-nos o pecado: olhaste-me... e pecamos;

E o outono desfolhava os roseirais vizinhos,

Ó Laura, a vez primeira em que nos abraçamos...

Veio o inverno. Porém, sentada em meus joelhos,

Nua, presos aos meus os teus lábios vermelhos,

(Lembras-te, Branca?) ardia a tua carne em flor...

Carne, que queres mais? Coração, que mais queres?

Passam as estações e passam as mulheres...

E eu tenho amado tanto! e não conheço o Amor!


Nascimento: 16 de dezembro de 1865 no Rio de Janeiro, Brasil.

Morte: 18 de dezembro de 1918 aos 53 anos de idade.

Nacionalidade: brasileira

Ocupação: poeta

Conhecido por sua atenção à literatura infantil e, principalmente, pela participação cívica, era republicano e
nacionalista. Bilac escreveu a letra do Hino à Bandeira.

Início
ARCO-ÍRIS
Choveu tanto esta tarde

Que as árvores estão pingando de contentes.

As crianças pobres, em grande alarde,

Molham os pés nas poças reluzentes.

A alegria da luz ainda não veio toda.

Mas há raios de sol brincando nos rosais.

As crianças cantam fazendo roda,

Fazendo roda como os tangarás:

"Chuva com sol!

Casa a raposa com o rouxinol."

De repente, no céu desfraldado em bandeira,

Quase ao alcance da nossa mão,

O Arco-da-Velha abre na tarde brasileira

A cauda em sete cores, de pavão.

— Canto da Minha Terra (1930) —

O Conselho das Árvores


Sofro, luz dos meus olhos, quando dizes
Que a vida não te alenta nem conforta.
Olha o exemplo das árvores felizes
Dentro da solidão da noite morta.

Que lhes importa a dor, que lhes importa


O drama que há no fundo das raízes?
Não sentem quando o vento os ramos corta
E as folhas leva em várias diretrizes?

Que lhes importa a maldição do outono


E os dedos envolventes da garoa,
Se dão sombra às taperas no abandono?!...

Levanta os braços para o firmamento


E canta a vida porque a vida é boa
Mesmo esmagada pelo sofrimento.

Castelos na areia
— Que iluminura é aquela, fugidia,
Que o poente à beira-mar beija e incendeia?
— É apenas a criação da fantasia: —
São castelos na areia.
Andam, tontas de sol, brincando as crianças
Como abelhas que voaram da colméia.
Erguem torreões fictícios de esperanças...
São castelos na areia.
Ao canto de um jardim adormecido:
"Por que não crês no afeto que me enleia?
E as palavras que eu disse ao teu ouvido?"
— São castelos na areia.

Olegário Mariano Carneiro da Cunha nasceu em Recufe-Pe no dia 24 de março de 1889.

Faleceu em28 de novembro de 1958 no Rio de Janeiro.

Foi um poeta, político e diplomata brasileiro. Eleito Príncipe dos Poetas Brasileiros, em substituição a Alberto de
Oliveira, detentor do título depois da morte de Olavo Bilac, o primeiro a obtê-lo.

Início
Devaneio
Nilo Entholzer Ferreira

(in memoriam)

Não quero a virgindade tola das mulheres

que não gostam de amar, nem mesmo se admiram

com folguedos de amor, serenos ou brutais...

Envoltas em tristeza, entoando misereres.

Seus homens, saciados rindo já partiram

para terras bem longe, perto do jamais...

Talvez, eu queira mais...

Talvez, eu queira mais...


Também não me apetece o amor das inocentes,

no fulgor da beleza estéril e infeliz.

Trazem no corpo adulto traços espectrais

e a beleza imatura dos adolescentes,

sem rugas...sem sinais ...sem qualquer cicatriz...

pobres meninas verdes para os esponsais...

Por certo, eu quero mais...

Por certo, eu quero mais...

Muito menos desejo a figura devassa

dessa louca das ruas e do mundaréu,

a saciar os velhos e os colegiais...

Triste lírio do lodo, caçadora e caça,

vendendo-se em retalhos, vai vivendo ao léu,

rainha dos grotões, dos becos e do cais...

Perdão, eu quero mais

Perdão, eu quero mais...

Que dizer da mulher formosa, atriz, bacante,

com porte de princesa, bela e aliciente,

na sugestão febril de gestos sensuais?

Não quero a perfeição! Nem confio na amante

que logo assume a forma e o gesto da serpente

no rastejar sombrio das traições banais...


Eu quero muito mais...

Eu quero muito mais...

Eu quero essa mulher, delicada na forma,

a mais doce e sutil, que jamais se conforma

em deixar de trazer o amante entre seus braços...

Essa mulher que, em suma, é um traço de ternura,

uma louca e vestal, sempre ardente e tão pura

a seguir junto a mim...Até o fim dos meus passos...

E nada quero mais!...

E nada quero mais!...

Bouquet de Cravos & Conchavos

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CONTRASTE

Padre Antônio Tomaz(1868-1941)

Quando partimos no verdor dos anos,


Da vida pela estrada florescente,
As esperanças vão conosco à frente,
E vão ficando atrás os desenganos.

Rindo e cantando, célebres, ufanos,


Vamos marchando descuidosamente;
Eis que chega a velhice, de repente,
Desfazendo ilusões, matando enganos.

Então, nós enxergamos claramente


Como a existência é rápida e falaz,
E vemos que sucede, exatamente,

O contrário dos tempos de rapaz:


– Os desenganos vão conosco à frente,
E as esperanças vão ficando atrás.

Início
SE

Se és capaz de manter tua calma, quando,


todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,


ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,


de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,


em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.
Se és capaz de arriscar numa única parada,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,


a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,


e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,


ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!

Rudyard Kipling
Tradução de Guilherme de Almeida

Original Inglês

IF

If you can keep your head when all about you


Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you
But make allowance for their doubting too,
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise:

If you can dream--and not make dreams your master,


If you can think--and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build 'em up with worn-out tools:

If you can make one heap of all your winnings


And risk it all on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on!"

If you can talk with crowds and keep your virtue,


Or walk with kings--nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much,
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that's in it,
And--which is more--you'll be a Man, my son!

Rudyard Kipling

Joseph Rudyard Kipling

Nascey em Bombaim, em 30 de dezembro de 1865 e faleceu em Londres em 18 de janeiro de 1936. Foi um autor
e poeta britânico.

Prêmio Nobel de Literatura (1907)

Acerca de Bombaim, Kipling escreveria:

Mãe das Cidades para mim,


Porque nasci à sua entrada,
Entre palmeiras e o mar,
Onde os navios do fim do mundo esperam.

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Blues Fúnebres

Que parem os relógios, cale o telefone,


jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.

Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,


escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.

Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto


viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.

É hora de apagar estrelas — são molestas —


guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.
W. H. Auden

(Tradução de Nelson Archer)

(Original inglês)

Funeral Blues

Stop all the clocks, cut off the telephone,

Prevent the dog from barking with a juicy bane,

Silence the pianos and with muffled drum

Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead

Scribbling on the sky the message He Is Dead,

Put crêpe bows round the white necks of the public doves,

Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,

My working week and my Sunday rest,

My noon, my midnight, my talk, my song;

I thought that love would last for ever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one;

Pack up the moon and dismantle the sun;

Paul away the ocean and sweep up the wood;

For nothing now can ever come to any good.


April1936

W. H. Auden

W. H. Auden nasceu em York, Inglaterra, em 1907. Mudou-se para Birmingham na infância e estudou no Christ's
Church, em Oxford. Quando jovem, era influenciado pelas poesias de Thomas Hardy, Robert Frost, William Blake e
Emily Dickinson.

Em 1928, Auden publicou seu primeiro livro de versos e sua coleção "Poemas", publicada em 1930, o que o colocou no
topo da nova geração de poetas. Era admirado pela sua técnica e habilidade em escrever poemas em todas as formas
imagináveis, pela incorporação em suas obras de elementos cultura popular e eventos atuais e também por seu vasto
intelecto. Sua poesia freqüentemente reconta, literal ou metaforicamente, uma jornada ou aventura, e suas viagens
acabaram servindo como rico material para seus versos.

Visitou a Alemanha, China, serviu na guerra civil espanhola e em 1939 mudou-se para os Estados Unidos, tornando-se,
mais tarde, cidadão americano. Manteve um relacionamento aberto com Chester Kallman, nada fazendo para ocultar sua
homossexualidade.

Suas crenças mudaram muito entre o período de sua jovem carreira na Inglaterra (onde era adepto do socialismo e da
psicanálise Freudiana) e sua fase posterior, na América, quando sua principal preocupação passou a ser o cristianismo e
a teologia do protestantismo.

Auden era também dramaturgo, editor e ensaísta. Considerado o maior poeta inglês do século XX, seu trabalho
influenciou as gerações seguintes, dos dois lados do Atlântico. Foi Chancellor da Academia de Poetas Americanos de
1954 a 1973 e dividiu a segunda parte da sua vida nas residências de Nova York e Áustria. Faleceu em Viena, em 1973.

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A VOZ DAS COISAS

Menotti Del Picchia

Publicado no livro Juca Mulato (1917)

E Juca ouviu a voz das coisas. Era um brado:


"Queres tu nos deixar, filho desnaturado?"

E um cedro o escarneceu: "Tu não sabes, perverso,


que foi de um galho meu que fizeram teu berço?"

E a torrente que ia rolar para o abismo:


"Juca, fui eu quem deu a água do teu batismo".

Uma estrela, a fulgir, disse da etérea altura:


"Fui eu que iluminei a tua choça escura
no dia em que nasceste. Eras franzino e doente.
E teu pai te abraçou chorando de contente...
— Será doutor! — a mãe disse, e teu pai, sensato:
— Nosso filho será um caboclo do mato,
forte como a peroba e livre como o vento! —
Desde então foste nosso e, desde esse momento, nós
te amamos, seguindo o teu incerto trilho,
com carinhos de mãe que defende seu filho!"

Juca olhou a floresta: os ramos, nos espaços,


pareciam querer apertá-lo entre os braços:

"Filho da mata, vem! Não fomos nós, ó Juca,


o arco do teu bodoque, as grades da arapuca,
o varejão do barco e essa lenha sequinha
que de noite estalou no fogo da cozinha?
Depois, homem já feito, a tua mão ansiada
não fez, de um galho tosco, um cabo para a enxada?"

"Não vás" — lhe disse o azul. "Os meus astros ideais


num forasteiro céu tu nunca os verás mais.
Hostis, ao teu olhar, estrelas ignoradas
hão de relampejar como pontas de espadas.
Suas irmãs daqui, em vão, ansiosas, logo,
irão te procurar com seus olhos de fogo...
Calcula, agora, a dor destas pobres estrelas
correndo atrás de quem anda fugindo delas..."

Juca olhou para a terra e a terra muda e fria


pela voz do silêncio ela também dizia:
"Juca Mulato, és meu! Não fujas que eu te sigo...
Onde estejam teus pés, eu estarei contigo.
Tudo é nada, ilusão! Por sobre toda a esfera
há uma cova que se abre, há meu ventre que espera...
Nesse ventre há uma noite escura e ilimitada,
e nela o mesmo sono e nele o mesmo nada.

Por isso o que vale ir fugitivo e a esmo


buscar a mesma dor que trazes em ti mesmo?
Tu queres esquecer? Não fujas ao tormento...
Só por meio da dor se alcança o esquecimento.
Não vás. Aqui serão teus dias mais serenos,
que, na terra natal, a própria dor dói menos...
E fica, que é melhor morrer (ai, bem sei eu!)
no pedaço de chão em que a gente nasceu!"
Menotti Del Picchia

20/03/1892, São Paulo (SP)


23/08/1988, São Paulo (SP)

Foi poeta, jornalista, político, romancista, contista, cronista e ensaísta. Sua obra que mais se destacou foi o poema
"Juca Mulato" (1917), considerado precursor do Movimento Modernista. No entanto, sua origem estética, ainda está no
Parnasianismo, evidente em sua poesia pela grandiloqüência e floreios verbais. Em 1982, foi proclamado Príncipe dos
Poetas Brasileiros, título que pertenceu anteriormente a Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e Olegário Mariano.

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Piedosa Mentira

Menotti del Picchia

Ontem na tarde loura e de aquarela,


alguém me perguntou: "Como vai ela?
Como vai teu amor?" - Eu respondi:
" Não sei. Uma mulher passou na minha vida,
mas não lembro... " E, nessa hora comovida,
como nunca lembrava-me de ti!

E menti por pudor... A mágoa que alvoroça


nosso peito é tão santa, tão pura, tão nossa
que se esconde aos demais.
E se uma voz indaga contristada:
" Estás sofrendo?" - "Não, não tenho nada..."
E é quando a gente sofre mais...

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As Máscaras

Menotti Del Picchia

O teu beijo é tão doce, Arlequim...


O teu sonho é tão manso, Pierrô...

Pudesse eu repartir-me
encontrar minha calma
dando a Arlequim meu corpo...
e a Pierrô, minha alma!

Quando tenho Arlequim,


quero Pierrô tristonho,
pois um dá-me prazer,
o outro dá-me o sonho!

Nessa duplicidade o amor todo se encerra:


Um me fala do céu...outro fala da terra!
Eu amo, porque amar é variar
e , em verdade, toda razão do amor
está na variedade...

Penso que morreria o desejo da gente


se Arlequim e Pierrô fossem um ser somente.

Porque a história do amor


só pode se escrever assim:
Um sonho de Pierrô
E um beijo de Arlequim!

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Oferta

Nilo Entholzer Ferreira

Mando-te flores, cheias de esperanças


num futuro que há muito, começou,
no festival de luzes e de danças
que o nosso amor, de enorme, eternizou.

Pálidas flores, perto das lembranças


desse tempo tão bom, que nem passou...
tímidas flores, resto das andanças
que esta união já solidificou.

Mando-te flores, tantas vezes quantas


meu coração pedir! E, mais me encantas,
se estou feliz e estás feliz assim...
Abençoado amor! Paixões tão mansas,
que a nós dois faz viver como crianças
transformando este mundo num jardim!

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Duas Almas
Para Coelho da Costa

Alceu Wamosy*

Livramento - RS

1895-1923

Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada,


entra, e, sob este teto encontrarás carinho:
Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,
vives sozinha sempre, e nunca foste amada...

A neve anda a branquear, lividamente, a estrada,


e a minha alcova tem a tepidez de um ninho.
Entra, ao menos até que as curvas do caminho
se banhem no esplendor nascente da alvorada.
E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,
essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
podes partir de novo, ó nômade formosa!

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:


Há de ficar comigo uma saudade tua...
Hás de levar contigo uma saudade minha...

*Nasceu em Uruguaiana (RS), em 14/02/1895 e faleceu em Livramento (RS), em 13/09/1923.


Publicou seu primeiro livro de poesia, Flâmulas, em 1913. Na época já trabalhava como
colaborador no jornal A Cidade, fundado por seu pai, em Alegrete (RS). A partir de 1917,
tornou-se proprietário do jornal O Republicano.

Lutou na Revolução Federalista, combatendo em Santa Maria Chica, Pontes do Ibirapuitá e


Ponche Verde, onde foi ferido — ferimento este que provocaria a sua morte.

Poeta simbolista, Alceu Wamosy escreveu poemas cheios de desencanto, em uma produção
que se destacou no sul do país e que é uma das obras mais significativas do Simbolismo
brasileiro, sendo o seu soneto ―Duas Almas‖ um dos mais belos produzido em língua
portuguesa.
Enedy Rodrigues Till é o pesquisador que melhor estuda a obra de Alceu Wamosy.

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A UM PINTASSILGO

Belmiro Braga

Vargem Grande - Juiz de Fora - MG

1872 - 1937

Por que vens tu cantar, ó passarinho,


Por entre as folhas úmidas de orvalho,
No flóreo jasmineiro meu vizinho
E mesmo em frente à mesa onde trabalho?

Por que não vais vigiar teu fofo ninho


(Não te zangues comigo, eu não te ralho)
A baloiçar à margem do caminho,
Qual rosa escura num recurvo galho?

Tu tens em que cuidar; por isso, voa


E deixa-me sozinho... Esse teu canto,
Embora sendo alegre, me magoa...
Não te demoras, vai! Deixa-me agora,
Que o teu gorjeio me faz mal, porquanto
Nunca se canta ao lado de quem chora...

*Belmiro Ferreira Braga (Belmiro Braga, então Vargem Grande, 7 de janeiro de 1872 — 31 de março
de 1937) foi um poeta brasileiro.

Em sua homenagem, seu local de nascimento recebeu seu nome após ser elevado à categoria de
município, passando a ser chamado Belmiro Braga.

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Aceitarás o amor como eu o encaro ?...

Mário de Andrade*

São Paulo - SP

1893-1945

Aceitarás o amor como eu o encaro ?......

Azul bem leve, um nimbo, suavemente

Guarda-te a imagem, como um anteparo

Contra estes móveis de banal presente.

Tudo o que há de melhor e de mais raro

Vive em teu corpo nu de adolescente,

A perna assim jogada e o braço, o claro


Olhar preso no meu, perdidamente.

Não exijas mais nada. Não desejo

Também mais nada, só te olhar, enquanto

A realidade é simples, e isto apenas.

Que grandeza... a evasão total do pejo

Que nasce das imperfeições. O encanto

Que nasce das adorações serenas.

*Mario de Andrade nasceu em São Paulo, no ano de 1893. Professor, crítico,


poeta, contista, romancista e músico, formou-se pelo Conservatório Dramático e
Musical de São Paulo, passando a lecionar neste mesmo local posteriormente.

Apesar de ter sido uma pessoa com inúmeras ocupações, este artista modernista
sempre tinha tempo para ajudar os escritores que ainda não eram conhecidos.

Enquanto viveu, ele lutou pela arte com seu estilo de escrita puro e verdadeiro.
Certo de que a inteligência brasileira necessitava de atualização, este escritor
modernista nunca abandonou suas maiores virtudes: a consciência artística e a
dignidade intelectual.

Foram de sua autoria os versos de Paulicéia Desvairada, considerada o marco


inicial da poesia modernista no Brasil. Uma outra obra deste artista que se
destacou por sua contribuição ao movimento modernista foi o livro Macunaíma,
romance onde é mostrado um herói que tem as qualidades e defeitos de um
brasileiro comum.

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Soneto XXV

Guilherme de Almeida*

Campinas - SP

1890-1969

O nosso ninho, a nossa casa, aquela

nossa despretensiosa água-furtada,

tinha sempre gerânios na sacada

e cortinas de tule na janela.

Dentro, rendas, cristais, flores... Em cada

canto, a mão da mulher amada e bela

punha um riso de graça. Tagarela,


teu cenário cantava à minha entrada.

Cantava... E eu te entrevia, à luz incerta,

braços cruzados, muito branca, ao fundo,

no quadro claro da janela aberta.

Vias-me. E então, num súbito tremor,

fechavas a janela para o mundo

e me abrias os braços para o amor!

Haicais

Consolo

A noite chorou
a bolha em que, sobre a folha,
o sol despertou.

Os andaimes

Na gaiola cheia
(pedreiros e carpinteiros)
o dia gorjeia.

Pescaria
Cochilo. Na linha
eu ponho a isca de um sonho.
Pesco uma estrelinha.

Romance

E cruzam-se as linhas
no fino tear do destino.
Tuas mãos nas minhas.

O haicai

Lava, escorre, agita


a areia. E enfim, na bateia,
fica uma pepita.

*Guilherme de Almeida (Guilherme de Andrade de Almeida), advogado, jornalista, poeta,


ensaísta e tradutor, nasceu em Campinas, SP, em 24 de julho de 1890, e faleceu em São
Paulo, SP, em 11 de julho de 1969. Eleito para a Cadeira nº. 15 da Academia Brasileira de
Letras, na sucessão de Amadeu Amaral, em 6 de março de 1930, foi recebido, em 21 de junho
de 1930, pelo acadêmico Olegário Mariano.
Um dos promotores da Semana de Arte Moderna, em 1922, foi fundador da Klaxon, a
principal revista dos modernistas.
Traduziu, entre outros, os poetas Paul Géraldy, Rabindranath Tagore, Charles Baudelaire,
Paul Verlaine e, ainda, Huis clos (Entre quatro paredes) de Jean Paul Sartre.

Principais obras: Nós, poesia (1917); A dança das horas, poesia (1919); Messidor, poesia
(1919); Livro de horas de Soror Dolorosa, poesia (1920); Era uma vez..., poesia (1922); A
flauta que eu perdi, poesia (1924); Meu, poesia (1925); Raça, poesia (1925); Encantamento,
poesia (1925); Do sentimento nacionalista na poesia brasileira, ensaio (1926); Ritmo,
elemento de expressão, ensaio (1926); Simplicidade, poesia (1929); Você, poesia (1931);
Poemas escolhidos (1931); Acaso, poesia (1938); Poesia vária (1947); Toda a poesia (1953).
Os haicais acima, foram extraídos do "Suplemento Cultural" do jornal "Ordem do Dia",
editado pela Câmara Municipal de Campinas (SP), datado de junho de 2004, pág. 2.

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ARGILA

Raul de Leôni*

Petrópolis - RJ

1895 - 1926

Nascemos um para o outro, dessa argila

De que são feitas as criaturas raras;

Tens legendas pagãs na carnes claras

E eu tenho a alma dos faunos na pupila...

Às belezas heróicas te comparas

E em mim a luz olímpica cintila,

Gritam em nós todas as nobres taras

Daquela Grécia esplêndida e tranqüila...


É tanta a glória que nos encaminha

Em nosso amor de seleção, profundo,

Que (ouço de longe o oráculo de Elêusis),

Se um dia eu fosse teu e fosses minha,

O nosso amor conceberia um mundo,

E do teu ventre nasceriam deuses...

*Raul de Leoni nasceu no Rio de Janeiro no ano de 1895. Faleceu no ano de 1926 no Rio de
Janeiro no bairro Itaipava com 31 anos de idade. Era formado em Ciências Jurídicas e
Sociais pela Faculdade Livre de Direito.
Admirador de esportes, participou de prova de natação e remo vencendo, pelo Clube Itaraí.
Publicou seu primeiro livro em 1919. e em 1922 lançou o livro Luz Mediterrânea, que teve
sua segunda edição em 1928.
Trechos Escolhidos foi uma antologia de poemas seus, publicada em 1961.
É considerado um poeta neoparnasiano por uns e, simbolista por outros.
Seus últimos poemas se destacam pelas abstrações filosóficas apresentando modulações
simbólicas.
Obras principais de Raul de Leoni:
- Luz Mediterrâneas,
- Trechos Escolhidos – antologia

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"Que importa que morra o poeta?
Importa que não morra o poema!"

Cruz e Sousa*

Nossa Senhora do Desterro - Florianópolis - SC

[1861 – 1898]

Escárnio perfumado

Quando no enleio
De receber umas notícias tuas,
Vou-me ao correio,
Que é lá no fim da mais cruel das ruas,

Vendo tão fartas,


D'uma fartura que ninguém colige,
As mãos dos outros, de jornais e cartas
E as minhas, nuas - isso dói, me aflige...

E em tom de mofa,
Julgo que tudo me escarnece, apoda,
Ri, me apostrofa,

Pois fico só e cabisbaixo, inerme,


A noite andar-me na cabeça, em roda,
Mais humilhado que um mendigo, um verme...

Cárcere das Almas

Ah! Toda alma num cárcere anda presa,


Soluçando nas trevas, entre as grades
Do calabouço olhando imensidades,
Mares, estrelas, tardes, natureza.

Tudo se veste de uma igual grandeza


Quando a alma entre grilhões as liberdades
Sonha e, sonhando, as imortalidades
Rasga no etéreo Espaço da Pureza.

Ó almas presas, mudas e fechadas


Nas prisões colossais e abandonadas,
Da Dor no calabouço, atroz, funéreo!

Nesses silêncios solitários, graves,


Que chaveiro do Céu possui as chaves
Para abrir-vos as portas do Mistério?!

A borboleta azul

No alegre sol de então


De uma manhã de amor,
A borboleta solta no fulgor
Da luz, lembrava um leve coração.
Ia e vinha e a voar
Gentil e trêfega, azul,
Sonoramente a percorrer pelo ar,
Como um silfo tenuíssimo e taful.

Sobre os frescos rosais


Pousava débil, sutil,
Doirando tudo de um risonho abril
Feito de beijos e de madrigais.

Que doce embriaguez


O vôo assim seguir
Da borboleta azul, correndo, a vir
Do espaço pela Etérea candidez!

Fazendo, tal e qual,


O mesmo giro assim,
O mesmo vôo límpido, sem fim,
Nos mundos virgens de qualquer ideal.

Ir como ela também


Em busca das loucas
E tropicais e fulgidas manhãs
Cheias de colibris e sol, além...

Ir com ela na luz


De mundos através,
Sem abrolhos nas mãos, cardos nos pés,
Ó alma, minha, que alegria a flux!...

No alegre sol de então


De uma manhã de amor
A borboleta solta no fulgor
Da luz, lembrava um leve coração.
Acima de tudo

Da gota d'água de um carinho agreste


Geram-se os oceanos da Bondade.
O coração que é livre e bom reveste
Tudo d'encanto e simples majestade.

Ascender para a Luz é ser celeste,


Novos astros sentir na imensidade
Da alma e ficar nessa inconsútil veste
Da divina e serena claridade.

O que é consolador e o que é supremo


Cada alma encontra no caminho extremo,
Quando atinge às estrelas da pureza.

É apenas trazer o Ser liberto


De tudo e transformar cada deserto
Num sonho virginal da Natureza!

Inefável

Nada há que me domine e que me vença


Quando a minha alma mudamente acorda...
Ela rebenta em flor, ela transborda
Nos alvoroços da emoção imensa.

Sou como um Réu de celestial sentença,


Condenado do Amor, que se recorda
Do Amor e sempre no Silêncio borda
De estrelas todo o céu em que erra e pensa.

Claros, meus olhos tornam-se mais claros


E tudo vejo dos encantos raros
E de outras mais serenas madrugadas!
Todas as vozes que procuro e chamo
Ouço-as dentro de mim porque eu as amo
Na minha alma volteando arrebatadas.

*João da Cruz e Sousa, considerado o mestre do simbolismo brasileiro, nasceu em


Desterro, hoje cidade de Florianópolis - SC, no dia 24 de novembro de 1861. Desde
pequenino foi protegido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e sua esposa, que o
acolheram como o filho que não conseguiram ter. O referido marechal havia alforriado
os pais do escritor, negros escravos. Educado na melhor escola secundária da região,
teve que abandonar os estudos e ir trabalhar, face ao falecimento de seus protetores.
Vítima de perseguições raciais foi duramente discriminado, inclusive quando foi proibido
de assumir o cargo de promotor público em Laguna - SC. Em 1890 transferiu-se para o
Rio de Janeiro, ocasião em que entrou em contato com a poesia simbolista francesa e
seus admiradores cariocas. Vivia de suas colaborações em jornais e, mesmo já bastante
conhecido após a publicação de "Missal" e "Broquéis" (1893), só conseguiu se empregar
na Estrada de Ferro Central do Brasil, no cargo de praticante de arquivista. Casou-se
com Gavita Gonçalves, também negra, em 09 de novembro de 1893. O poeta contraiu
tuberculose e mudou-se para a cidade de Sítio - MG, a procura de bom clima para se
tratar. Faleceu em 19 de março de 1898, aos 36 anos de idade, vítima da tuberculose, da
pobreza e, principalmente, do racismo e da incompreensão. Sua obra só foi reconhecida
anos depois de sua partida. Gavita, que ficou viúva, grávida, e com três filhos para criar.
Após o a morte do escritor perdeu dois filhos, vitimados também pela tuberculose. Com
problemas mentais, passou vários períodos em hospitais psiquiátricos, vindo a falecer. O
terceiro filho, com a mesma doença, faleceu logo em seguida. O único filho que
sobreviveu que tinha o nome do pai, também faleceu vitima dessa doença aos dezessete
anos de idade.

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SONETO*

Desponta a estrela d‘alva, a noite morre.


Pulam no mato alígeros cantores,
E doce a brisa no arraial das flores
Lânguidas queixas murmurando corre.

Volúvel tribo a solidão percorre


Das borboletas de brilhantes cores;
Soluça o arroio; diz a rola amores
Nas verdes balsas donde o orvalho escorre.

Tudo é luz e esplendor; tudo se esfuma


Às carícias da aurora, ao céu risonho,
Ao flóreo bafo que o sertão perfuma!

Porém minh‘alma triste e sem um sonho


Repete olhando o prado, o rio, a espuma:
- Oh! mundo encantador, tu és medonho!
*Luís Nicolau Fagundes Varella

Nascimento 17 de agosto de 1841 em Rio Claro

Morte 18 de fevereiro de 1875 (33 anos) em Niterói


Nacionalidade: Brasileiro

Poeta romântico e boêmio inveterado, Fagundes Varella foi um dos maiores expoentes
da poesia brasileira, em seu tempo. Tendo ingressado no curso de Direito (e frequentado
as faculdades de São Paulo e Recife), abandonou o curso no quarto ano. Foi a transição
entre a segunda e a terceira geração romântica.

Casando-se muito novo (aos vinte e um anos) com Alice Guilhermina Luande, filha de
dono de um circo, teve um filho que veio a morrer aos três meses. Este fato inspirou-lhe o
poema "Cântico do Calvário", expressão máxima de seus versos, tão jovem ainda. Sobre
estes versos, analisou Manuel Bandeira: "...uma das mais belas e sentidas nênias da
poesia em língua portuguesa. Nela, pela força do sentimento sincero, o Poeta atingiu aos
vinte anos uma altura que, não igualada depois, permaneceu como um cimo isolado em
toda a sua poesia."

Casou-se novamente com uma prima - Maria Belisária de Brito Lambert, sendo
novamente pai de duas meninas e um menino, também falecido prematuramente, aos 11
anos.

Embriagando-se e escrevendo, viveu até a morte ainda jovem, à custa do pai, boa parte do
tempo no campo - seu ambiente predileto.

NOTA: outra grafia, e mais correta, do sobrenome do poeta: Varella.

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O sono das águas
(Guimarães Rosa)

Há uma hora certa,

no meio da noite, uma hora morta,

em que a água dorme.

Todas as águas dormem:

no rio, na lagoa,

no açude, no brejão, nos olhos d‘água,

nos grotões fundos.

E quem ficar acordado,


na barranca, a noite inteira,

há de ouvir a cachoeira

parar a queda e o choro,

que a água foi dormir...

Águas claras, barrentas, sonolentas,

todas vão cochilar.

Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,

fios brancos, torrentes.

O orvalho sonha

nas placas da folhagem

e adormece.

Até a água fervida,

nos copos de cabeceira dos agonizantes...

Mas nem todas dormem, nessa hora

de torpor líquido e inocente.

Muitos hão de estar vigiando,

e chorando, a noite toda,

porque a água dos olhos

nunca tem sono..."

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O PÁSSARO CATIVO
Olavo Bilac

Armas, num galho de árvore, o alçapão.

E, em breve, uma avezinha descuidada, batendo as asas cai na escravidão.

Dás-lhe então, por esplêndida morada, a gaiola dourada.

Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo.

Por que é que, tendo tudo, há de ficar o passarinho

mudo, arrepiado e triste, sem cantar?

É que, criança, os pássaros não falam.

Só gorjeando a sua dor exalam, sem que os homens os possam entender.

Se os pássaros falassem,

talvez os teus ouvidos escutassem este cativo pássaro dizer:


"Não quero o teu alpiste!

Gosto mais do alimento que procuro na mata livre em que a voar me viste.

Tenho água fresca num recanto escuro.

Da selva em que nasci; da mata entre os verdores,

tenho frutos e flores, sem precisar de ti!

Não quero a tua esplêndida gaiola!

Pois nenhuma riqueza me consola de haver perdido aquilo que perdi...

Prefiro o ninho humilde, construído de folhas secas, plácido, e escondido.

Entre os galhos das árvores amigas...

Solta-me ao vento e ao sol!

Com que direito à escravidão me obrigas?

Quero saudar as pompas do arrebol!

Quero, ao cair da tarde, entoar minhas tristíssimas cantigas!

Por que me prendes? Solta-me, covarde!

Deus me deu por gaiola a imensidade!

Não me roubes a minha liberdade...

QUERO VOAR! VOAR!..."

Estas coisas o pássaro diria, se pudesse falar.

E a tua alma, criança, tremeria, vendo tanta aflição.

E a tua mão, tremendo, lhe abriria a porta da prisão...

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Ora (direis) ouvir estrelas!

Olavo Bilac

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo


Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto ...

E conversamos toda a noite, enquanto


A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!


Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!


Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."

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Sete de Setembro

Cruz e Sousa

Liberdade! Independência!...
Eis os brados grandiosos
Que quais raios luminosos
Fulguraram lá nos céus!...
Eis a mágica — Odisséia
Que duns lábios rebentando,
Foi o povo transformando,
Foi rompendo os negros véus!...

As colinas, prados, montes,


As florestas seculares
— Os sertões, os próprios mares
Exultaram com fervor!
E os brados retumbaram
Pela lúcida devesa,
Pela virgem natureza
Com homérico clangor!...
Qual artista consumado,
Qual um velho estatuário
Do Brasil no azul sacrário,
Essa data vos traçou,
— O triunfo mais pujante,
A eleita das idéias,
A major das epopéias
— Q'inda igual não se gerou!...

Mas embora, meus senhores


Se festeje a Liberdade,
A gentil Fraternidade
Não raiou de todo, não!...
E a pátria dos Andradas
Dos — Abreu, Gonçalves Dias
Inda vê nuvens sombrias,
Vê no céu fatal bulcão!...

Muito embora Rio Branco,


Esse cérebro profundo
Que passou por entre o mundo,
Do Brasil como um Tupã!...
Muito embora em catadupas
Derramasse o verbo augusto,
Da nação no enorme busto
Inda a mancha existe, há!...

É preciso com esforço,


Colossal, estranho, ingente,
Ir o cancro, de repente
Esmagar que nos corrói!...
É preciso que essa Deusa,
A excelsa Liberdade,
Raie enfim na Imensidade
Mais altiva como sói!...

Sai da larva a borboleta


Com as asas auriazuis
E um disco vai -- de luz
A deixar onde passou!
No entanto o grande berço
Das façanhas de Cabrito
Inda espera um novo grito
Como o — Basta — de Waterloo!...
Eu bem sei que Guttemberg
Que esse Fulton primoroso
Faust, Kepler grandioso
Trabalharam té vencer!
Mas embora tropeçassem
Acurando os seus eventos,
Tinham sempre tais portentos
A vontade por poder!...

Eia! sim! — p‘ra Liberdade


Irrompei qual verbo eterno,
Como o — Fiat — superno
Pelos ares a rolar!
Eia! sim! — que nossa pátria
Só precisa — mas de bravos...
E em prol desses escravos
Seu dever é trabalhar!!...

Somos filhos dessa gleba


Majestosa aonde o gênio
Como o astro do proscênio
Solta as asas, mui febril!
Dos selvagens Tiaraiús
E dos brônzeos Guaicurus...
Somos filhos do Brasil!...

Esperemos, tudo embora!...


Pois que a sã locomotiva,
Do progresso imagem viva
Não se fez a um sopro vão!.
Aguardemos o momento
Das mais altas epopéias,
Quando o gládio das idéias
Empunhar toda a nação!...

Esperemos mais um pouco


Q‘inda há almas brasileiras
Que se lembrarão, sobranceiras,
Que é preciso progredir!...
Inda há peitos valerosos
Que combatem descobertos
Por florestas, por desertos,
Mas c'os olhos no porvir!...
Inda há lúcidas falanges
Lutadores denodados
Que se erguem transportados
Burilando a sã razão!...
Inda há quem se recorde
Do Egrégio Tiradentes
Que do sangue as gotas quentes
Derramou pela nação!!...

Já nas margens do Ipiranga


Patrióticos acentos
Vão alados como os ventos
Pelos páramos azuis!!...
Vamos! Vamos! -- eia! exulta,
Jovem pátria dos renomes...
-- Vibra a lira, Carlos Gomes!
Bocaiúva, espalha luz!!...

NOTA: Neste poema de Cruz e Sousa, Sete de setembro,. depois de três


estrofes de exaltação à independência do Brasil, o jovem abolicionista
pondera à festiva assistência:

Mas, embora, meus senhores


se festeje a Liberdade,
a gentil Fraternidade
não raiou de todo, não!...

(Publicado o poema integralmente, em A Regeneração de 10-9-1882). É o


mais antigo documento do abolicionismo de Cruz e Sousa.

De outra parte, como aos abolicionistas em geral, faltou a Cruz e Sousa


uma visão integrada do problema da servidão. O que importava, era, não
somente a liberdade, mas ainda converter a servidão em direitos, como
hoje se atribui à classe trabalhadora. Ser escravo era como hoje ter
emprego; ser escravo liberto, era como hoje ser desempregado. Era preciso
não ter convertido a liberdade em desemprego, mas dar a liberdade
juntamente com o emprego. Isto não era fácil, e por isso não aconteceu.
Somente de pouco em pouco as leis sociais foram surgindo, delas
precisando principalmente os mais despreparados para o regime do
trabalho livre.

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Pátria Minha
Vinicius de Moraes*

A minha pátria é como se não fosse, é íntima


Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:


Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria


De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho


Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido


De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra


Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha


Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para


Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta


Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem


Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa


Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha


Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia


E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama...
Vinicius de Moraes."

Texto extraído do livro "Vinicius de Moraes - Poesia Completa e Prosa", Editora Nova Aguilar -
Rio de Janeiro, 1998, pág. 383.

*Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes, ou Vinicius de Moraes, (Rio de


Janeiro, 19 de outubro de 1913; Rio de Janeiro, 9 de julho de 1980) foi um
diplomata, jornalista, poeta e compositor brasileiro.

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Mario Benedetti*

Intimidade Intimidad

Sonhamos juntos Soñamos juntos


juntos despertamos juntos despertamos
o tempo faz e desfaz el tiempo hace o deshace
entretanto mientras tanto
não lhe importam teu sonho no le importan tu sueño
nem meu sonho ni mi sueño
somos trôpegos somos torpes
ou demasiados cautelosos o demasiado cautos
pensamos que não cai pensamos que no cae
essa gaivota esa gaviota
cremos que é eterno creemos que es eterno
este conjuro este conjuro
que a batalha é nossa que la batalla es nuestra
ou de nenhum o de ninguno
juntos vivemos juntos vivimos
sucumbimos juntos sucumbimos juntos
porém essa destruição pero esa destrucción
é uma brincadeira es una broma
um detalhe uma rajada un detalle una ráfaga
um vestígio un vestigio
um abrir-se e fechar-se y un abrirse y cerrarse
o paraíso el paraíso
já nossa intimidade ya nuestra intimidad
é tão imensa es tan inmensa
que a morte a esconde que la muerte la esconde
em seu vazio en su vacío
quero que me relates quiero que me relates
o duelo que te cala el duelo que te callas
por minha parte te ofereço por mi parte te ofrezco
minha última confiança mi última confianza
estás sozinha estás sola
estou sozinho estoy solo
porém às vezes pero a veces
pode a solidão puede la soledad
ser ser
uma chama. una llama

(Tradução de Maria Teresa


Almeida Pina)

*Mario Benedetti (Paso de los Toros, 14 de setembro de 1920 —


Montevidéu, 17 de maio de 2009) foi um poeta, escritor e ensaísta
uruguaio. Faleceu aos 88 anos de idade

―O esquecimento está cheio de memória‖

[ Mario Benedetti ]

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Coletânea Escolhida - VICENTE DE CARVALHO*

Mar , belo mar selvagem


Das nossas praias solitárias! Tigre
A que as brisas da terra o sono embalam,
A que o vento do largo erriça o pêlo !
Junto da espuma com que as praias bordas,
Pelo marulho acalentada, ‗a sombra
Das palmeiras que arfando se debruçam
Na beirada das ondas – a minha alma
Abriu-se para a vida como se abre
A flor da murta para o sol do estio

―Palavras ao Mar‖, ode maior ao tigre marinho.

ESPERANÇA

Só a leve esperança em toda a vida


disfarça a pena de viver, mais nada;
nem é mais a existência resumida
que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,


sonho que a traz ansiosa e embevecida,
é uma hora feliz, sempre adiada
e que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos


árvore milagrosa que sonhamos
toda arriada de dourados pomos

existe sim; mas nós não n´a encontramos,


porque está sempre apenas onde a pomos
e nunca a pomos onde nós estamos.

VELHO TEMA

Só a leve esperança em toda a vida

Disfarça a pena de viver, mais nada;

Nem é mais a existência, resumida,

Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,

Sonho que a traz ansiosa e embevecida,

É uma hora feliz, sempre adiada

E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,


Árvore milagrosa que sonhamos

Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos

Porque está sempre apenas onde a pomos

E nunca a pomos onde nós estamos

II

Eu cantarei de amor tão fortemente

Com tal celeuma e com tamanhos brados

Que afinal teus ouvidos, dominados,

Hão de à força escutar quanto eu sustente.

Quero que meu amor se te apresente

— Não andrajoso e mendigando agrados,

Mas tal como é: — risonho e sem cuidados,

Muito de altivo, um tanto de insolente.

Nem ele mais a desejar se atreve

Do que merece; eu te amo, e o meu desejo

Apenas cobra um bem que se me deve.

Clamo, e não gemo; avanço, e não rastejo;


E vou de olhos enxutos e alma leve

À galharda conquista do teu beijo.

III

Belas, airosas, pálidas, altivas,

Como tu mesma, outras mulheres vejo:

São rainhas, e segue-as num cortejo

Extensa multidão de almas cativas.

Têm a alvura do mármore; lascivas

Formas; os lábios feitos para o beijo;

E indiferente e desdenhoso as vejo

Belas, airosas, pálidas, altivas...

Por quê? Porque lhes falta a todas elas,

Mesmo às que são mais puras e mais belas,

Um detalhe sutil, um quase nada:

Falta-lhes a paixão que em mim te exalta,

E entre os encantos de que brilham, falta

O vago encanto da mulher amada.


IV

Eu não espero o bem que mais desejo:

Sou condenado, e disso convencido;

Vossas palavras, com que sou punido,

São penas e verdades que sobejo.

O que dizeis é mal muito sabido,

Pois nem se esconde nem procura ensejo,

E anda à vista naquilo que mais vejo:

Em vosso olhar, severo ou distraído.

Tudo quanto afirmais eu mesmo alego:

Ao meu amor desamparado e triste

Toda a esperança de alcançar-vos nego.

Digo-lhe quanto sei, mas ele insiste;

Conto-lhe o mal que vejo, e ele, que é cego,

Põe-se a sonhar o bem que não existe.

Alma serena e casta, que eu persigo

Com o meu sonho de amor e de pecado;


Abençoado seja, abençoado

O rigor que te salva e é meu castigo.

Assim desvies sempre do meu lado

Os teus olhos; nem ouças o que eu digo;

E assim possa morrer, morrer comigo

Esse amor criminoso e condenado.

Sê sempre pura! Eu com denodo enjeito

Uma ventura obtida com teu dano,

Bem meu que de teus males fosse feito".

Assim penso, assim quero, assim me engano

Como se não sentisse que em meu peito

Pulsa o covarde coração humano.

Dona Flor

Ela é tão meiga! Em seu olhar medroso


Vago como os crepúsculos do estio,
Treme a ternura, como sobre um rio
Treme a sombra de um bosque silencioso.

Quando, nas alvoradas da alegria,


A sua boca úmida floresce,
Naquele rosto angelical parece
Que é primavera, e que amanhece o dia.

Um rosto de anjo, límpido, radiante…


Mas, ai! sob êsse angélico semblante
Mora e se esconde uma alma de mulher

Que a rir-se esfolha os sonhos de que vivo


- Como atirando ao vento fugitivo
As folhas sem valor de um malmequer…

A FLOR E A FONTE

"Deixa-me, fonte!" Dizia

A flor, tonta de terror.

E a fonte, sonora e fria,

Cantava, levando a flor.

"Deixa-me, deixa-me, fonte!

" Dizia a flor a chorar:

"Eu fui nascida no monte...

"Não me leves para o mar".

E a fonte, rápida e fria,

Com um sussurro zombador,

Por sobre a areia corria,

Corria levando a flor.

"Ai, balanços do meu galho,

"Balanços do berço meu;

"Ai, claras gotas de orvalho

"Caídas do azul do céu!...

Chorava a flor, e gemia,

Branca, branca de terror,


E a fonte, sonora e fria

Rolava levando a flor.

"Adeus, sombra das ramadas,

"Cantigas do rouxinol;

"Ai, festa das madrugadas,

"Doçuras do pôr do sol;

"Carícia das brisas leves

"Que abrem rasgões de luar...

"Fonte, fonte, não me leves,

"Não me leves para o mar!...

" As correntezas da vida

E os restos do meu amor

Resvalam numa descida

Como a da fonte e da flor...

*Vicente de Carvalho (V. Augusto de C.), advogado, jornalista, político, magistrado, poeta e
contista, nasceu em Santos, SP, em 5 de abril de 1866, e faleceu em São Paulo, SP, em 22 de abril de
1924. Eleito em 1o de maio de 1909 para a Cadeira n. 29, na sucessão de Artur Azevedo.

Era filho do major Higino José Botelho de Carvalho e de Augusta Bueno Botelho de Carvalho. Fez o
primário na cidade natal e, aos 12 anos, seguiu para São Paulo, matriculando-se no Colégio Mamede
e, depois, no Seminário Episcopal e no Colégio Norton, onde fez os preparatórios. Aos 16 anos
matriculou-se na Faculdade de Direito. Em 1886, com 20 anos, era bacharel em Direito. Republicano
combativo, cursava ainda o 4o ano quando foi eleito membro do Diretório Republicano de Santos.
Em 1887, era delegado a Congresso Republicano, reunido em São Paulo. Em 1891, era deputado ao
Congresso Constituinte do Estado. Em 1892, na organização do primeiro governo constitucional do
Estado, foi escolhido para a Secretaria do Interior. Por ocasião do golpe de estado de Deodoro,
abandonou o cargo que vinha exercendo. Mudou-se, então, para Franca, município do interior
paulista, e tornou-se fazendeiro. Em 1901, regressou a Santos, dedicando-se à advocacia. Em 1907,
mudou-se para São Paulo, onde foi nomeado juiz de direito. Em 1914, passou a ministro do Tribunal
da Justiça do Estado.

Vicente de Carvalho foi, durante toda a sua vida, um jornalista combativo. Até 1915, sua atuação na
imprensa foi quase ininterrupta. Em 1889, era redator do Diário de Santos, fundando, no mesmo ano,
o Diário da Manhã, de Santos. Ali manteve ainda colaboração em A Tribuna e fundou, em 1905, O
Jornal. Até 1913 colaborou no Estado de S. Paulo. No fim da vida, cansou-se do jornalismo, mas
continuou em contato com seus leitores através dos versos que publicava nas páginas de A Cigarra.

Poeta lírico, ligou-se desde o início ao grupo de jovens poetas de tendência parnasiana. Foi grande
artista do verso, da fase criadora do Parnasianismo. Da sua produção poética ele próprio destacou
poemas que são de extrema beleza, como: "Palavras ao mar", "Cantigas praianas", "A ternura do
mar", "Fugindo ao cativeiro", "Rosa, rosa de amor", "Velho tema", "O pequenino morto".

Obras: Ardentias (1885); Relicário (1888); Rosa, rosa de amor (1902); Poemas e canções (1908);
Versos da mocidade (1909); Verso e prosa, incluindo o conto "Selvagem" (1909); Páginas soltas
(1911); A voz dos sinos (1916); Luizinha, contos (1924); discursos e obras políticas e jurídicas.

―A vida é para mim como a névoa de um sonho...‖


Vicente de Carvalho

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O laço e o abraço

Mário Quintana

Meu Deus! Como é engraçado!


Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço... uma fita dando voltas.
Enrosca-se, mas não se embola, vira, revira, circula e pronto: está dado o
laço.
É assim que é o abraço: coração com coração, tudo isso cercado de braço.
É assim que é o laço: um abraço no presente, no cabelo, no vestido, em
qualquer coisa onde o faço.
E quando puxo uma ponta, o que é que acontece?
Vai escorregando... devagarzinho, desmancha, desfaz o abraço.
Solta o presente, o cabelo, fica solto no vestido.
E, na fita, que curioso, não faltou nem um pedaço.
Ah! Então, é assim o amor, a amizade.
Tudo que é sentimento. Como um pedaço de fita.
Enrosca, segura um pouquinho, mas pode se desfazer a qualquer hora,
deixando livre as duas bandas do laço. Por isso é que se diz: laço afetivo,
laço de amizade.
E quando alguém briga, então se diz: romperam-se os laços.
E saem as duas partes, igual meus pedaços de fita, sem perder nenhum
pedaço.
Então o amor e a amizade são isso...
Não prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam.
Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço.

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VICTOR HUGO (VICTOR MARIE HUGO) : RESUMO
1802-1885 BIOGRÁFICO

"Logo mais, na
restauração,
Uma bandeira
tremulará em toda
parte, ao lado de
todas:

A da Paz;
Um idioma se falará
junto aos demais: O
da Fraternidade;

Um ideal se fará
presente no meio dos
outros: O do
progresso;

Uma Religião única


estabelecerá a ponte
de união
entre o Homem e
Deus:

A do Amor
Universal...."

(Vitor Hugo)

Victor Hugo (1802-1885), poeta, novelista e dramaturgo


francês cujas volumosas obras constituíram para um grande
impulso, possivelmente o maior dado por uma obra singular,
ao romantismo da França.

Hugo nasceu em 26 de fevereiro de 1802, no Besançon, e


foi educado com muitos tutores particulares e também em
escolas privadas de Paris. Era um menino precoce, que
com idade muito curta decidiu converter-se escritor. Em
1817, a Academia Francesa lhe premiou um poema, e,
cinco anos mais tarde publicou seu primeiro volume de
poemas, "Odes e poesias diversas", que fez muito sucesso.
No prefácio de seu extenso drama histórico, Cromwell
(1827), Hugo expõe uma chamada à liberação das
restrições que impunham as tradições do classicismo. Esta
chamada se converteu muito em breve no manifesto do
romantismo. A censura recaiu sobre a segunda peça teatral
de Hugo, Marion do Lorme (1829), apoiada na vida de uma
cortesã francesa do século XVII. Isso aconteceu porque a
obra era muito liberal. Hugo se ressarciu da censura em 25
de fevereiro de 1830, quando sua peça teatral em verso,
Hernani, teve uma tumultuosa estreia que assegurou o êxito
do romantismo. Hernani foi adaptada pelo compositor
italiano Giuseppe Verdi, e deu como resultado sua ópera,
Ernani (1844). O período 1829-1843 foi o mais produtivo da
carreira de Victor Hugo. Sua grande novela histórica, Nossa
Senhora de Paris (1831), um conto que se desenvolve em
Paris, no século XV, fez-lhe famoso e lhe conduziu à
nomeação de membro da Academia Francesa, em 1841.
Em outra novela desta etapa, Claude Gueux (1834),
condenou eloquentemente os sistemas penal e social da
França de seu tempo. Escreveu vários volumes de poesias
líricas, que foram muito bem recebidos. Entre elas se
destacava: Orientais (1829), Folhas de outono (1831), Os
cantos do crepúsculo (1835) e Vozes interiores (1837).
Peças teatrais de grande êxito: O rei se diverte (1832),
adaptado pelo Verdi em sua ópera Rigoletto (1851), o
drama em prosa, Lucrecia Borgia (1833) e o melodrama
Ruy Blas (1838). Em troca, sua obra, Os Burgraves (1843)
foi um enorme fracasso.

Com o desgosto de Hugo pelo fracasso desta obra, nesse


mesmo ano acontece a morte de sua irmã maior e do
marido dela, ambos afogados. Afastou-se da poesia e se
dedicou de um modo mais ativo à política. Ele, em sua
juventude, tinha sido monárquico. Em 1845 foi renomado
par da França pelo rei Luis Felipe, mas quando se produziu
a revolução de 1848, Hugo já era republicano. Em 1851,
depois do fracasso da revolta contra o presidente Luis
Napoleão, mais tarde imperador com o nome do Napoleão
III, Hugo teve que emigrar para a Bélgica. Em 1855 deu
começo ao seu comprido exílio de quinze anos na ilha de
Guernsey.

Durante estes anos, Hugo escreveu a feroz sátira, Napoleão


o pequeno (1852), os poemas satíricos, Os castigos (1853),
o livro de poemas líricos, As contemplações (1856) e o
primeiro volume de seu poema épico, A lenda dos séculos
(1859-1883). Em Guernsey completou sua mais extensa e
famosa obra, Os miseráveis (1862), uma novela que
descreve vividamente, ao tempo de condenação, a injustiça
social da França do século XIX.

Hugo retornou a França depois da queda do Segundo


Império, em 1870, e reatou sua carreira política. Foi eleito
primeiro para a Assembleia Nacional, e mais tarde para o
Senado. Entre as obras mais destacáveis de seus últimos
quinze anos, se contam, O noventa e três (1874), uma
novela sobre a Revolução Francesa; e A arte de ser avô
(1877), conjunto de poemas líricos a respeito de sua vida
familiar.

As obras do Victor Hugo marcaram um decisivo marco no


gosto poético e retórico das jovens gerações de escritores
franceses, e ainda é considerado como um dos poetas mais
importantes deste país. Depois de sua morte, na época de
22 de maio de 1885, em Paris, seu corpo permaneceu
exposto sob o Arco do Triunfo, e foi deslocado, segundo
seu desejo, em um mísero carro fúnebre, até o Panteão,
onde foi enterrado junto a alguns dos mais célebres
cidadãos franceses.

Reflexões de Victor Hugo

" Seja como os pássaros que,


ao pousarem, um instante,
sobre os ramos muito leves,
sentem-nos ceder, mas cantam!
Eles sabem que possuem asas ".

"O artista, retirando do universo as formas e as cores, com


sua sensibilidade em sua arte, procura traduzir-nos as
realidades invisíveis essenciais que estão presentes e que
nossos olhos acostumados com as aparências, muitas
vezes, não conseguem captar e admirar."

"Colocar formas e cores naquilo que sente, é sublime


revelação de sua capacidade de enxergar o invisível aos
olhos, portanto, o essencial. Um grande artista é um grande
homem... uma grande criança...”.
POEMAS DE VICTOR HUGO

ÊXTASE A FONTE

Eu estava só perto do rio, Da espalda de um


numa noite estrelada. rochedo, gota a gota
Não havia nuvens nos límpida fonte sobre o mar
céus, em oceanos sem caia,
véus. Mas, ao vê-la tombar em
Meus olhos mergulharam seu regaço:
mais longe que o mundo " O que queres de mim?"
real. O mar dizia.
E bosques, e montes, e "Eu sou da tempestade o
toda a natureza, antro escuro;
Parecia interrogar-se num "Onde termina o céu aí
sussurro confuso começo;
Rio de oceanos, os fogos "Eu que nos braços toda a
do céu. terra espreito,
E estrelas d'ouro, legiões "De ti, tão pobre e vil, de ti
infinitas, careço?...
Em voz alta, em voz baixa, No tom saudoso do
com mil harmonias, quebrar das águas
Dizendo, enquanto Ao mar, serena, a fonte
inclinavam suas coroas de assim murmura:
fogo; "A ti, que és grande e forte,
E os rios azuis que nada a pobre fonte
governa e nunca param, Vem dar-te o que não tens,
Dizendo , enquanto a dar-te a doçura!"
cristas de suas espumas
dobravam :
- É o Senhor, o Senhor
Deus!

MÃE E FILHO O HOMEM E A MULHER

Mãe ! A teu filho muitas O homem é a mais


vezes dissestes elevada das criaturas;
Que o céu tem anjos e o A mulher é o mais sublime
há dos ideais.
Só alegrias no viver O homem é o cérebro;
celeste A mulher é o coração.
E que é melhor viver por O cérebro fabrica a luz;
lá; O coração, o AMOR.
Que é um zimbório de A luz fecunda, o amor
pilastras belas, ressuscita.
Tenda de ricas cores; O homem é forte pela
Jardim de anil e lúcido de razão;
estrelas A mulher é invencível
Que se abrem como flores; pelas lágrimas.
Que é o mundo dos seres A razão convence, as
invisíveis lágrimas comovem.
Do qual Deus é o autor, O homem é capaz de
De místico azul, de todos os heroísmos;
inexauríveis A mulher, de todos os
Gozos, do eterno amor; martírios.
Que é doce lá, num êxtase O heroísmo enobrece, o
que encanta, martírio sublima.
Sentir que a alma se O homem é um código;
abrasa, A mulher é um evangelho.
E viver com Jesus e a O código corrige; o
Virgem Santa evangelho aperfeiçoa.
Numa tão linda casa... O homem é um templo; a
Mas nunca lhe disseste, mulher é o sacrário.
inconsolável Ante o templo nos
Mãe, chorosa mulher, descobrimos;
Que ele, o pequeno, te era Ante o sacrário nos
indispensável, ajoelhamos.
Que ele te era necessário; O homem pensa; a mulher
Que pelos filhos, quando sonha.
são pequenos, Pensar é ter , no crânio,
Muito as mães se uma larva;
consomem, Sonhar é ter , na fronte,
Mas que a mãe com seu uma auréola.
filho conta ao menos O homem é um oceano; a
Quando for velha, e ele mulher é um lago.
homem. O oceano tem a pérola que
Nunca disseste que no adorna;
escuro trilho O lago, a poesia que
Da vida, Deus, que é pai deslumbra.
Quer que o filho a mãe O homem é a águia que
guie, e a mãe ao filho, voa;
Pois um sem o outro cai... A mulher é o rouxinol que
Nunca disseste! e agora, canta.
morto, apertar Voar é dominar o espaço;
Nos braços teu filhinho! Cantar é conquistar a
Deixaste as portas da alma.
gaiola aberta, Enfim, o homem está
Voou o *passarinho... colocado onde termina a
terra;
A mulher, onde começa o
céu.
FONTE DEUS

Da espalda de um Redenção! Mistério! Ó


rochedo, gota a gota Grande Cristo estrelado!
límpida fonte sobre o mar ... Oh perdão! Oh piedade
caia, do azul da noite!
Mas, ao vê-la tombar em ... Clemência! palavra
seu regaço: formada de todas as
" O que queres de mim?" estrelas!
O mar dizia. Deus! Céu de todos os
"Eu sou da tempestade o olhos! porto de todas as
antro escuro; velas
"Onde termina o céu aí
começo;
"Eu que nos braços toda a
terra espreito,
"De ti, tão pobre e vil, de ti
careço?...
No tom saudoso do
quebrar das águas
Ao mar, serena, a fonte
assim murmura:
"A ti, que és grande e forte,
a pobre fonte
Vem dar-te o que não tens,
dar-te a doçura!"

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Me encante
Pablo Neruda

Me encante da maneira que você quiser, como você souber.


Me encante, para que eu possa me dar…

Me encante nos mínimos detalhes.


Saiba me sorrir: aquele sorriso malicioso,
Gostoso, inocente e carente.

Me encante com suas mãos,


Gesticule quando for preciso.
Me toque, quero correr esse risco.

Me acarinhe se quiser…
Vou fingir que não entendo,
Que nem queria esse momento.

Me encante com seus olhos…


Me olhe profundo, mas só por um segundo.
Depois desvie o seu olhar.
Como se o meu olhar,
Não tivesse conseguido te encantar…
E então, volte a me fitar.
Tão profundamente, que eu fique perdido.
Sem saber o que falar…

Me encante com suas palavras…


Me fale dos seus sonhos, dos seus prazeres.
Me conte segredos, sem medos,
E depois me diga o quanto te encantei.

Me encante com serenidade…


Mas não se esqueça também,
Que tem que ser com simplicidade,
Não pode haver maldade.

Me encante com uma certa calma,


Sem pressa. Tente entender a minha alma.

Me encante como você fez com o seu primeiro namorado…


Sem subterfúgios, sem cálculos, sem dúvidas, com certeza.

Me encante na calada da madrugada,


Na luz do sol ou embaixo da chuva….

Me encante sem dizer nada, ou até dizendo tudo.


Sorrindo ou chorando. Triste ou alegre…
Mas, me encante de verdade, com vontade…

Que depois, eu te confesso que me apaixonei,


E prometo te encantar por todos os dias…
Pelo resto das nossas vidas!!!

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Paul Marie Verlaine est un poète français, né à Metz le 30 mars 1844 et mort à Paris le
8 janvier 1896. Il y compose des poèmes emplis de mysticisme.
Verlaine prend de bonnes résolutions mais ne les tient pas : il se remet à l'alcool sitôt
sorti de prison. Sa misère matérielle et physique devient de plus en plus profonde.
Malheuresement à ce moment là, ses talents em poésie commencent à être reconnus.
En août 1894, il est couronné «Prince des poètes» à la mort de leconte de lisle et se voit
doté d'une pension.
Cela ne l'empêche pas de tomber dans une grande misère.
Il meurt en janvier 1896 d'une congestion pulmonaire à Paris.

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OS VOTOS

“ Pois, desejo primeiro que você ame e que amando, seja também amado,
E que se não o for, seja breve em esquecer e esquecendo, não guarde mágoa.

Desejo depois que não seja só, mas que se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos e que, mesmo maus e inconsequentes, sejam
corajosos e fiéis,
E que em pelo menos um deles você possa confiar, que confiando, não duvide de
sua confiança.
E porque a vida é assim, desejo ainda que você tenha inimigos, nem muitos nem
poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes, você se interpele a respeito de suas
próprias certezas
E que entre eles haja pelo menos um que seja justo, para que você não se sinta
demasiadamente seguro.

Desejo, depois, que você seja útil, não insubstituivelmente útil,


Mas razoavelmente útil. E que nos maus momentos, quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé. Desejo ainda que você seja
tolerante,
não com os que erram pouco, porque isso é fácil, mas com aqueles que erram muito
e irremediavelmente,
E que essa tolerância não se transforme em aplauso nem em permissividade,
Para que assim fazendo um bom uso dela, você dê também um exemplo para os
outros.

Desejo que você, sendo jovem, não amadureça depressa demais e que, sendo
maduro,
não insista em rejuvenescer e que, sendo velho, não se dedique a desesperar.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
é preciso deixar que eles escorram dentro de nós.

Desejo, por sinal, que você seja triste, mas não o ano todo,
nem em um mês e muito menos numa semana, mas apenas por um dia.
Mas que nesse dia de tristeza, você descubra que o riso diário é bom,
o riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra com o máximo de urgência, acima e a despeito de tudo,
Talvez agora mesmo, mas se for impossível, amanhã de manhã,
que existem oprimidos, injustiçados e infelizes,
e que estão à sua volta, porque seu pai aceitou conviver com eles.
E que eles continuarão à volta de seus filhos, se você achar a convivência inevitável.

Desejo ainda que você afague um gato, que alimente um cão


e ouça pelo menos um joão-de-barro erguer triunfante o seu canto matinal.
Porque assim você se sentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente,


por mais ridícula que seja, e acompanhe o seu crescimento dia-a-dia,
para que você saiba de quantas muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro, porque é preciso ser prático.
E que, pelo menos uma vez por ano, você ponha uma porção dele na sua frente e
diga:
Isso é meu. Só para que fique bem claro quem é dono de quem.

Desejo ainda que você seja frugal, não inteiramente frugal,


não obcecadamente frugal, mas apenas usualmente frugal.
Mas que esse frugalismo não impeça você de abusar quando o abuso se impõe.

Desejo também que nenhum dos seus afetos morra, por ele e por você.
Mas que, se morrer, você possa chorar sem se culpar e sofrer sem se lamentar.

Desejo, por fim, que sendo mulher você tenha um bom homem,
E que sendo homem, tenha uma boa mulher.
E que se amem hoje, amanhã, depois, no dia seguinte, mais uma vez,
E novamente, de agora até o próximo ano acabar,
E que quando estiverem exaustos e sorridentes,
ainda tenham amor para recomeçar.

E se isso só acontecer, não tenho mais nada para desejar. ”

( Sergio Jockymann - 1978/*** )


IMPORTANTE: esta poesia, de autoria de Sergio Jockymann, publicada em 1980 no Jornal Folha da
Tarde, de Porto Alegre-RS, circula na internet como sendo de autoria de Victor Hugo, e assim foi
publicada originalmente em nosso portal, com o título 'Desejos'. Contatados pelo verdadeiro autor,
com muito prazer desfazemos o equívoco, estabelecendo os créditos a quem de direito.

Sérgio Jockyman (Palmeira das Missões, 29 de abril de 1930 — Campinas, 16 de fevereiro de 2011)
foi um jornalista, romancista, poeta e dramaturgo brasileiro.

Seu pai, um engenheiro agrônomo e farmacêutico, e sua mãe, professora primária, tiveram uma forte
influência para que nele despertasse o gosto pela literatura.

Nas eleições de 1988 foi candidato derrotado à prefeitura de Porto Alegre pelo Partido Liberal. Nos
últimos meses morava na casa da filha em Campinas.

Faleceu aos 80 anos de idade, no Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Campinas, onde
estava internado desde 29 de dezembro do ano anterior, para tratar uma insuficiência renal crônica.
Foi cremado na cidade de São Paulo.

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PARA SEMPRE

Carlos Drummond de Andrade

Por que Deus permite


que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

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Elizabeth Barrett Browning*

(Quatro poemas escolhidos)

Como te amo?

Tradução: Manuel Bandeira

Como te amo? Deixa-me contar de quantas maneiras.


Amo-te até ao mais fundo, ao mais amplo
e ao mais alto que a minha alma pode alcançar
buscando, para além do visível dos limites
do Ser e da Graça ideal.
Amo-te até às mais ínfimas necessidades de todos
os dias à luz do sol e à luz das velas.
Amo-te com liberdade, enquanto os homens lutam
pela Justiça;
Amo-te com pureza, enquanto se afastam da lisonja.
Amo-te com a paixão das minhas velhas mágoas
e com a fé da minha infância.
Amo-te com um amor que me parecia perdido - quando
perdi os meus santos - amo-te com o fôlego, os
sorrisos, as lágrimas de toda a minha vida!
E, se Deus quiser, amar-te-ei melhor depois da morte.
SONETO XIV SONNET XIV

Tradução: Manuel Bandeira

Ama-me por amor do amor somente If thou must love me, let it be for
Não digas: «Amo-a pelo seu olhar, nought
O seu sorriso, o modo de falar Except for love's sake only. Do not
Honesto e brando. Amo-a porque se say
sente «I love her for her smile... her look...
her way
Of speaking gently,... for a trick of
thought

Minh'alma em comunhão That falls in well with mine, and


constantemente certes brought
Com a sua.» Porque pode mudar A sense of pleasant ease on such a
Isso tudo, em si mesmo, ao perpassar day» —
Do tempo, ou para ti unicamente. For these things in themselves,
Belovèd, may
Be changed, or change for thee, —
and love, so

[ wrought,

Nem me ames pelo pranto que a May be unwrought so. Neither love
bondade me for
De tuas mãos enxuga, pois se em mim Thine own dear pity's wiping my
Secar, por teu conforto, esta vontade cheeks dry, —
A creature might forget to weep, who
bore

De chorar, teu amor pode ter fim! Thy comfort long, and lose thy love
Ama-me por amor do amor, e assim thereby!
Me hás de querer por toda a But love me for love's sake, that
eternidade. evermore
Thou may'st love on, through love's
eternity.

SONETO XXVIII SONNET XXVIII

Tradução: Manuel Bandeira

As minhas cartas! Todas elas frio, My letters! all dead paper, mute and
white!

And yet they seem alive and


Mudo e morto papel! No entanto agora quivering

Lendo-as, entre as mãos trêmulas o fio Against my tremulous hands which


loose
da vida eis que retomo hora por hora.
[ the string

And let them drop down on my knee


to-night.

Nesta queria ver-me — era no estio — This said, — he wished to have me in


his sight
Como amiga a seu lado... Nesta
implora Once, as a friend: this fixed a day in
spring
Vir e as mãos me tomar... Tão simples!
Li-o To come and touch my hand... a
simple thing,
E chorei. Nesta diz quanto me adora.
Yet I wept for it! — this... the paper's
light...

Nesta confiou: sou teu, e empalidece Said, Dear I love thee; and I sank
and quailed
A tinta no papel, tanto o apertara
As if God's future thundered on my
Ao meu peito que todo inda past.
estremece!
This said, I am thine — and so its ink
has paled

Mas uma... Ó meu amor, o que me With lying at my heart that beat too
disse fast.

Não digo. Que bem mal me And this... O Love, thy words have ill
aproveitara, availed

Se o o que então me disseste eu If, what this said, I dared repeat at


repetisse... last!

PARTE, NÃO TE SEPARAS

Tradução: Manuel Bandeira

Parte: não te separas. Que jamais


Sairei de tua sombra. Por distante
Que te vás, em meu peito, a cada instante,
Juntos dois corações batem iguais.

Não ficarei mais só. Nem nunca mais


Dona de mim, a mão, quando a levante,
Deixará de sentir o toque amante
Da tua, - ao que fugi. Parte: Não sais!

Como o vinho, que às uvas donde flui


Deve saber, é quanto faço e quanto
Sonho, que assim também todo te inclui.

A ti, amor! minha outra vida, pois


Quando oro a Deus, teu nome êle ouve
e o pranto
Em meus olhos são lágrimas de dois.

*Elizabeth Barrett Browning

A poeta romântica inglesa Elizabeth Barrett Browning (1806-1861) escreveu uma


coletânea de poemas que se tornou uma das mais conhecidas da lírica amorosa
em seu idioma. Trata-se de Sonnets from the Portuguese, livro publicado em 1850
e dedicado ao marido dela, o também poeta Robert Browning.
Escritora de talento, Elizabeth desde cedo mostrou inclinação para a literatura.
Consta que ela já conhecia as peças de Shakespeare e outras obras clássicas
antes dos 10 anos de idade. Na adolescência, aprendeu grego e hebraico. Aos 20
anos, ela publicou seu primeiro livro de poemas. Em 1833, saiu sua tradução para
o inglês da peça Prometeu Acorrentado, de Ésquilo.
Em 1844, ela edita uma coletânea chamada Poems. Esse volume lhe valeu a
aproximação com Robert Browning. Os dois se casaram e se estabeleceram em
Florença, na Itália.
No Brasil, Elizabeth foi traduzida por nomes de peso, entre os quais Manuel
Bandeira.

Não há como deixar de admirar a magistral escritora que um dia colocou este amor
tamanho em sonetos no papel.

“Eu te amo não pelo que você é, mas pelo que sou quando estou com você!”

[Elizabeth Barrett Browning]

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