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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA POLÍTICA


CAMILA TRIBESS

GREVES E MOBILIZAÇÃO NUM CONTEXTO DE TRANSIÇÃO


Trabalho apresentado à disciplina de
Política Brasileira, do Programa de Pós-
Graduação em Ciência Política da UFPR,
ao Prof. Dr. Adriano Codato.

Curitiba, março de 2011.


2:
Neste artigo vou discutir a UNIDADE 3 da disciplina: CRISE POLÍTICA E
TRANSIÇÃO DE REGIME, utilizando como base os textos de NORONHA, “Ciclo de greves,
transição política e estabilização: Brasil, 1978-2007” e de ESCRIBA-FOLCH, “Participação
arriscada: manifestações e tumultos em regimes ditatoriais”, além de bibliografia complementar.
Buscarei abordar a questão da importância das mobilizações e da oposição à ditadura para o
processo de transição. Por vezes incluirei comparações com o caso da transição argentina, tornando
assim este artigo uma parte da discussão que utilizo em minha pesquisa de dissertação.

As explicações sobre participação e oposição

Existem diversas explicações para a mobilização da oposição em regimes autoritários,


especialmente para o contexto brasileiro. Podemos dividir essas explicações em alguns grupos:
a) explicação econômica – argumenta que os protestos contra o regime, bem como as
greves e o crescimento da atividade política na sociedade se dá a partir da crise econômica. No caso
do Brasil, no período do milagre econômico os protestos eram escassos, e se intensificaram quando
o crescimento econômico acabou e o país entrou em grave crise. Segundo esta teoria, os custos da
participação política, apesar da repressão, tornam-se menores do que o custo de não participar e de
aceitar a situação econômica predominante. Assim, quanto menos a população tem a perder
economicamente ao participar dos protestos, mais essa população irá se mobilizar contra a ditadura.
b) explicação cultural – argumenta que a cultura política da sociedade depende de sua
história política e cultural e que dessa cultura política define o grau de participação da sociedade em
protestos e movimentos. Nesse sentido, diversos autores argumentam que a oposição na Argentina
foi mais forte do que no Brasil justamente por estes fatores históricos e culturais, já que a política
argentina é considerada mais conflituosa e que, historicamente, possibilita a ampla mobilização
popular, enquanto que no Brasil as modificações políticas se deram basicamente por acordos
políticos que não exigiam a participação popular, inclusive dificultando a organização política da
sociedade. Por isso, na ditadura militar, a população só se organiza e passa a protestar contra a
ditadura muitos anos depois do golpe, já num contexto de abertura política.
c) explicação política – argumenta que a participação popular em movimentos de oposição
no Brasil foi menos efusiva e só se manifestou no final do regime pela estratégia de legitimação da
ditadura. O golpe foi amplamente apoiado pela classe média brasileira e o próprio aparato estatal foi
organizado de forma a institucionalizar a ditadura, incluindo atividades de regimes democráticos,
como certas eleições e julgamentos civis, buscando assim legitimação social. Dessa forma, a
oposição tinha maiores dificuldades de inserção social e só no final da década de 1980, com as
denuncias de corrupção e violência foi que os grupos de oposição, bem como sindicatos e partidos
conseguiram se organizar e mobilizar a sociedade.
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Nenhuma dessas explicações pode ser tomada de forma isolada, pois apenas sublinham
distintos aspectos de uma situação complexa. Talvez possamos considerar que uma dessas
explicações seja predominante, no entanto não defenderei nenhuma delas aqui, apenas buscarei
analisar a questão da participação política da sociedade e da oposição no regime ditatorial brasileiro,
comparando-o com o argentino. Assim, percebemos que a explicação econômica é coerente, pois
no Brasil, onde a ditadura alcançou certo sucesso econômico, a oposição só começa a se fortalecer
com o surgimento de crises econômicas. Enquanto que na Argentina, onde a ditadura não
conseguiu resolver os problemas econômicos do país, a oposição obteve muito mais foca e
influência durante todo o período de ditadura.
No entanto, a explicação cultural também mostra-se correta, pois, de fato, ao compararmos
os níveis de participação política da população em fatos importantes no Brasil e na Argentina
(desde 1930) percebemos que a participação naquele país é de fato mais intensa do que no Brasil,
onde a democracia não ampliou automaticamente a participação popular, nem mesmo após o
Estado Novo em 1945. Aqui podemos também considerar que, no momento do golpe militar no
Brasil, os militares receberam grande apoio da população, enquanto que na Argentina diversos
grupos de oposição estavam fortemente organizados e representaram uma forte oposição ao
regime, sendo controlados apenas através de forte e maciça repressão.
A explicação política também deve ser considerada, já que a forma de organização dos dois
regimes foi completamente diferente, sendo que no Brasil a legitimidade do regime e sua
conseqüente institucionalização regulou de forma a organizar a repressão utilizada, bem como
manteve um aspecto superficial democrático, o que desestimulava a participação popular e tornava
os opositores “inimigos” da nação e “terroristas”, enquanto que na Argentina essas imagens
negativas dos oposicionistas eram menos consensuais.

Greves e mobilização num contexto de transição

Os estudos comparados sobre as transições democráticas, principalmente em se tratando


dos casos na América Latina, confirmam, em grande parte, o que O´Donnell e Schmitter (1988)
propõem como causas principais das transições, que são: a) os conflitos dentro e fora do regime; b)
o início de uma liberalização, que faz com que a sociedade civil seja revitalizada politicamente; e c)
pactos entre as elites, grupos políticos organizados, forças armadas, empresários e sociedade em
geral.
Entre 1985 e 1992 o Brasil atingiu um dos maiores níveis de paralisações e greves do
ocidente, segundo Noronha. Esse período foi o culminante de uma organização sindical que se
iniciou entre 1978 e 1980, aproveitando a mínima abertura política existente e pressionando a
sociedade, empresários e governos com as pautas dos trabalhadores. Essa movimentação se deu
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principalmente nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, mas esteve presente em outros estados
brasileiros também. Para Noronha este ciclo de greves (que ele coloca como iniciado em 1978 e
terminado em 1997) esteve intimamente ligado à dinâmica da transição política, se incluindo no
segundo item proposto por O’Donnell.
Ao consultarmos a literatura que se dedica ao estudo das transições políticas no Brasil e na
Argentina (O’DONNEL, SCHIMTER e WHITEHEAD, 1988; QUIROGA, 2001; ROMERO,
2004 e FAUSTO e DEVOTO, 2004), tem-se a impressão que esta transição, em ambos os países
na época, era, de fato, uma conseqüência de uma complexidade de fatos. O contexto social,
econômico, político e cultural teve grande importância no processo de transição, mesmo que as
decisões políticas de fato sejam tomadas por uma elite política, esta é também, muitas vezes,
pressionada ou influenciada pela movimentação social causada por outros fatores. Temos exemplos
dessas pressões sociais tanto na Argentina, com as “Madres de La Plaza de Mayo”, quanto no Brasil,
com o movimento das “Diretas Já”, entre diversos outros movimentos de oposição, como greves e
organizações de esquerda – armadas ou não.
Quanto aos fatores propriamente institucionais que influenciam na ocorrência de protestos,
Escriba aponta que a cultura política do regime anterior à ditadura (se era, ou não, um regime
democrático) é importante, pois uma cultura democrática formada, que permitia partidos e
organizações, tende a permanecer no seio da sociedade. Assim, podemos analisar que a cultura
política argentina era mais propensa a conflitos de fato, pois desde 1930, com o surgimento do
Peronismo, a política argentina tornou-se dividida e tumultuada. No entanto, no que diz respeito à
democracia, a Argentina teve menos períodos democráticos do que o Brasil, mas, no entanto,
alguns autores defendem que o grau de mobilização democrática argentina era maior do que a
brasileira. O’Donnell et all (1988, p 22) colocam: “(...) Além disso, o setor popular brasileiro, por diversas
razões históricas, é fraco em termos organizacionais e pouco ativado politicamente.” Assim, poderíamos
considerar que a rotina democrática brasileira não era ampla ou socialmente legitimada o suficiente
para formar uma cultura democrática forte ao ponto de mobilizar a população contra uma ditadura.
A partir de 1978 diversas greves eclodiram no Brasil, parecendo que, a partir daí, a
oposição consegue se estruturar e as reivindicações afloram. As greves mais famosas e impactantes
ocorreram no chamado ABC Paulista, que compreende as cidades de Santo André, São Bernardo e
São Caetano, região metropolitana de São Paulo. A organização e a força social que essas greves
demonstraram estavam antes latentes pela repressão da ditadura militar. Entre 1969 e 1978, apesar
da rápida urbanização e industrialização do país, não houve registro de greves, já que elas – e os
sindicatos – foram consideradas ilegais pela ditadura. Somente em 1978 é que os sindicatos voltam
a ter força e organização e, com o inicio de eleições mais abertas em nível local, a pressão sobre os
governantes torna-se viável, principalmente para os funcionários públicos, que, com a pressão
social pela redemocratização que começa a surgir, passam a ter menores riscos de repressão e
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maiores ganhos possíveis com as greves. Essa lógica se estende à iniciativa privada também, no
entanto houve duras repressões às primeiras greves no ABC em 1980. Além disso, é neste período
que os efeitos do milagre econômico começam a desaparecer e a inflação cresce de forma
desenfreada, bem como o crescimento econômico diminui, aumentando assim as pautas de
reivindicações dos trabalhadores, no entanto, o aumento do desemprego é um desafio aos
movimentos grevistas. As condições materiais – falta de bem estar e escassez – tem sido grandes
formadoras de protestos e tumultos (ESCRIBA, 2008). Nesses casos, o ganho esperado pelos
protestos são maiores do que as possíveis perdas ou do que a aceitação do status quo, assim, a
participação é maior. Para Escriba, o crescimento econômico reduz o dissenso dentro de uma
ditadura. Além disso, “quanto mais alto o nível de redistribuição, mais baixo o nível do protesto, pois a opção de
não participar se torna mais atraente” (p. 726). Essa hipótese nos ajuda a compreender o escasso nível de
manifestações contra a ditadura no período do milagre econômico e o grande aumento de protestos
quando o crescimento econômico diminui.
No auge das greves no país, a partir de 1985, Noronha argumenta que “(...), as greves haviam-
se tornado de tal forma corriqueiras e disseminadas nas diversas regiões do país que os militares se viram diante do
dilema dos custos políticos da repressão e dos riscos da tolerância”(p.133). Assim, as greves seguem eclodindo,
aproveitando o momento político e econômico do país, bem como a crescente organização sindical.
Além disso, em 1988, com a nova constituição, o direito de greve foi reconhecido, oficializando
assim o que o governo Sarney já vinha praticando, evitando repressões aos grevistas. Os sindicatos
tornam-se a partir de então atores sociais reconhecidos e legítimos representantes dos trabalhadores
frente ao governo, o que fortalece ainda mais sua organização. Nesse período que os diversos
setores iniciam sua organização e realizam greves, tanto servidores públicos quanto funcionários de
empresas privadas. Entre 1987 e 1989, com o fracasso do Plano Cruzado, a crise financeira, a
ausência de regras e acordos sobre reajustes salariais, somados à pressão ocorrida pela aproximação
das primeiras eleições presidenciais diretas fez com que as greves e conflitos alcançassem níveis
altíssimos para o padrão ocidental. Esses conflitos vão se reduzindo gradualmente e, em 1992, com
o movimento de impeachment de Collor, a instabilidade política e econômica acabou reduzindo o
numero de greves (NORONHA, 2009). Noronha defende que esse início e auge de um ciclo de
greves está intimamente ligado à abertura política e às demandas que, apesar de sempre buscarem
aumentos de salários, buscavam também inclusão social e política dos trabalhadores.

O problema da repressão

Escriba (2008) aponta para o fato de que a repressão pode tanto diminuir quanto aumentar
a organização e a força da oposição e dos protestos. O regime autoritário reage de forma dura
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contra os protestos para que outros protestos sejam desencorajados, no entanto, em algum ponto,
essa reação extrema pode surtir o efeito inverso e fazer com que os protestos cresçam.
A repressão executada pela ditadura brasileira, em comparação à ditadura argentina, por
exemplo, é vista como uma repressão mais institucionalizada e até menos violenta. A repressão
imposta pelos militares argentinos foi mais dura e mais abrangente, segundo a maioria dos autores
que estudam o tema. Algumas interpretações nos levam a relacionar essa intensidade de repressão à
falta de legitimidade social do regime argentino, enquanto que o regime brasileiro, obtendo
legitimação por outros meios, teria menor necessidade de apelar para a repressão violenta. Outra
possibilidade de interpretação é a força que a oposição (partidos, movimentos, sindicatos, guerrilhas
e toda organização política em geral) tinha nos dois países.
Na Argentina, desde a década de 1930, como herança do movimento que levou ao
Peronismo, a política argentina encontrava-se dividida e com partidos e movimentos com ampla
base social. A guerrilha de esquerda mais conhecida da década de 1970 no país, chamados
“Montoneros” chegou a mobilizar apoio de pessoas importantes da política e da sociedade
argentinas, antes de ser completamente dizimada pelos militares que entraram no poder a partir de
1976. Além disso, o comando da repressão argentina era mantido clandestino, formando um
verdadeiro “terrorismo de Estado”. Quase todos os militares no governo tinham autorização e
liberdade para executarem torturas e assassinatos, além disso, as prisões e processos políticos eram
raros.
Os militares argentinos implementaram com a ditadura um programa que se colocava
como a solução dos conflitos na sociedade argentina, trazendo o monopólio da violência
unicamente para o Estado. Essa violência seria fortemente usada para exterminar o conflito na
sociedade. Houve cerca de 9 mil casos de “desaparecidos” confirmados e investigados, mas as
comissões de direitos humanos avaliam em 30 mil o número correto. Isso tudo em apenas 3 anos
de repressão pesada (1976/1978), depois disso já se pode considerar um período de abertura. As
organizações de milícia de esquerda, como os “Montoneros”, foram extintas, mas mesmo depois
disto a violência se estendeu a diversos líderes sindicais, religiosos, advogados, militantes de direitos
humanos, intelectuais e líderes políticos em geral.
Todos os partidos, sindicatos, agremiações e qualquer atividade de cunho político foram
proibidas, além da repressão contra artistas, escritores, intelectuais e contra a imprensa. Assim,
apenas a voz do Estado existia contra os indivíduos isolados. O ideal autoritário foi, na maioria das
vezes, internalizado e instaurou-se a cultura do medo. De 1976 até abril de 1979 os sindicatos foram
subjugados à inexistência de fato, só existiam formalmente, já que seus líderes foram presos, as
greves proibidas e as negociações salariais encerradas (cf. PALERMO e NAVARO, 2007). Apenas
em 1979, quando o regime dava seus primeiros suspiros de cansaço, é que os sindicalistas
conseguiram organizar uma greve geral, à qual os sindicalistas mais moderados não acataram, essa
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paralisação acabou com muita repressão e várias prisões. Em 1981 a CGT (“Central General de los
Trabajadores”) organizou nova paralisação geral, recebendo mais repressão e no fim de 1981
(novembro) fez uma marcha pedindo “pão, paz e trabalho”, sendo apoiados por alguns empresários
e pelos estudantes. A partir desse período as greves e paralisações começaram a surgir mais amiúde,
culminando, em 30 de março de 1982, em uma manifestação na Plaza de Mayo, que o governo
reprimiu fortemente, com cerca de 2 mil presos em Buenos Aires.
As “Madres de la Plaza de Mayo”, utilizando o apelo da maternidade e da família, que não
podiam ser negadas pelos militares nem colocadas como subversivas, logo se tornaram o centro do
questionamento ao regime, sendo foco de atenção inclusive no exterior, com um apelo comovente
e que colocava em pauta a repressão que os militares queriam esconder. Assim, os movimentos de
oposição ganhavam fôlego. As “Madres de La Plaza de Mayo” ganharam, aos poucos, repercussão
internacional, colocando o tema dos desaparecimentos e da tortura em discussão, exatamente como
os militares não queriam, o que enfraqueceu ainda mais o Regime. Com o início e derrota da
Argentina na Guerra das Malvinas (1982) a pressão social por uma abertura política e por um
regime democrático se expande e os conflitos passam a ser mais fortes. No final de 1982 os
militares já não tinham base social nem controle para negociarem a transição e são, assim, obrigados
a convocar eleições. Nesse sentido, Escriba afirma que o envolvimento em guerra aumenta a
incidência de conflitos, “O esforço de guerra pode enfraquecer a coerção do regime, ao passo que a instabilidade
política pode fazer com que a oposição perceba a existência de um contexto favorável para a mudança de regime” (p.
728).
Com a volta da democracia, já no primeiro governo eleito democraticamente, em 1983, os
militares responsáveis pelos desaparecimentos, pelos crimes e pela tortura foram a julgamento. O
mais recente destes foi em julho de 2010, com o julgamento e posterior condenação à prisão
perpétua de Jorge Videla, que, apesar de ser considerado um dos componentes da ala “branda” do
regime, foi responsabilizado.
Em contraposição, no Brasil, a perseguição política era comandada pelos postos mais altos
na hierarquia militar e as prisões eram comuns. A ditadura brasileira, a princípio, não se caracterizou
por uma violência tão explícita quanto a ditadura argentina (que foi uma das mais violentas do
continente), mas ainda assim foi marcada por prisões, desaparecimentos e torturas. Alguns autores
(cf. O’DONNELL et all, 1988; PEREIRA, 2010 e FAUSTO e DEVOTO, 2004) apontam para o
fato de que a oposição no Brasil não era tão organizada e combativa quanto na Argentina, com
algumas exceções marcantes, como a guerrilha do Araguaia, que foi brutalmente exterminada, bem
como grupos de guerrilha urbana, como o liderado pelo ex-deputado Carlos Marighella. A violência
no Brasil, inclusive a tortura, foi mais institucionalizada e legitimada pelo regime e não feita de
forma clandestina como na Argentina, mas isso não exclui a existência de inúmeros registros de
“desaparecidos” e pode, inclusive ser vista como “menor” justamente porque era mais organizada e
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institucional, atacando somente aqueles considerados como líderes de movimentos políticos. Ao
contrário, na Argentina, diversas pessoas sem envolvimento com grupos políticos foram presas e
torturadas.
Por tentar manter aparências de regime democrático, com instituições que forjavam
legitimidade ao governo, a ditadura militar passava seus presos inclusive por julgamentos em cortes
civis. Segundo Pereira (2010), no Brasil, os julgamentos eram feitos todos pela justiça, havendo
grande parceria entre civis e militares, além da enorme tentativa de legitimar a ditadura pela lei em
vigor. Já na Argentina não existia sequer algum julgamento e os presos simplesmente
“desapareciam”. Isso não significa que no Brasil houve “menos” tortura ou assassinatos, inclusive
pelo fato de que, até hoje, não conhecemos de fato o que aconteceu no que se refere a essas
prisões, julgamentos e às torturas e mortes por trás delas, já que os arquivos oficiais nunca foram
publicados.
Diversas personalidades importantes foram perseguidas, presas e torturadas, outras
conseguiram fugir para o exílio. Muitos estudantes, trabalhadores e pessoas ligadas aos movimentos
sociais e sindicatos desapareceram e outros tantos foram presos. A idéia que se tem de que no
Brasil a ditadura teria sido uma “ditabranda” provavelmente se deve à não investigação das
atrocidades cometidas, além do fato de que no Brasil, territorialmente muito maior do que a
Argentina, a perseguição se concentrou nas cidades maiores do sudeste. Com exceção da guerrilha
do Araguaia (grupo de guerrilha armada que atuou no norte do país, na região com este nome), os
outros grupos de resistência agiam principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Cronologicamente, em 1966 foi promulgado o Ato Institucional nº 5, que limitava de
forma intensa as liberdades individuais de expressão e de imprensa. Vários funcionários públicos e
políticos (professores universitários, prefeitos, governadores, deputados etc.) foram destituídos de
seus cargos ou cassados, todo tipo de manifestação era duramente reprimida e com o passar do
tempo e os vários atos institucionais que foram executados, as prisões por motivos políticos se
multiplicaram. Os chamados “anos de chumbo” da ditadura foram de 1966 até 1974, ano em que o
discurso dos generais apontava para um abrandamento do regime. A lei de Anistia só foi
promulgada em 1979 e até hoje os responsáveis pelos crimes da ditadura não foram
responsabilizados. A partir de 1979, com o crescimento da abertura política e do partido de
oposição (MDB), além do fim do bipartidarismo, os sindicatos e movimentos sociais voltam a
crescer no país, forçando maior abertura política.

Oposição e transição

A democracia alcançada por países como Argentina e Brasil era considerada, até a década
de 1990, como fraca e “em fase de consolidação”. No entanto, essas democracias tem se mostrado
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aptas a resistir às crises políticas e econômicas, ainda que não possam ser consideradas ainda
democracias com real igualdade política e social. Esses regimes democráticos se construíram por
acordos e oposições, com pressão social, mas também com forte atuação das elites políticas e
econômicas dos países em questão. A democracia, tal como a define Robert Dahl, “é fruto de um
cálculo de custos e benefícios feito por atores políticos em conflito. O ponto de partida dessa
formulação é a premissa de que todo e qualquer grupo político prefere reprimir a tolerar seus
adversários” (LIMONGI in DAHL, 1997, p. 21). Nas ditaduras, essa repressão era ampla, no
entanto, os custos dessa repressão se tornaram cada vez maiores, até que os militares saíssem do
poder e uma rotina democrática fosse instaurada, rotina esta que garante que a repressão
encontrada na sociedade não será mais (explicitamente) por conotações políticas.
O custo da repressão só aumenta a partir do momento que a sociedade deixa de considerá-
la algo normal e necessário, para enxergar a violência política como algo inaceitável. No entanto,
nos períodos de regimes ditatoriais, romper com a idéia de que a ditadura é um “mal necessário” e
fazer com que as pessoas participem em greves e manifestações sempre é uma tarefa árdua. Apesar
das críticas feitas à teoria da ação coletiva de Olson, utilizada no texto de Escriba, a questão deste
ao buscar compreender porque as pessoas se mobilizam, mesmo em regimes ditatoriais é crucial
para entendermos quando essa mobilização pode ocorrer.
Nota-se que nos períodos de abertura política, mesmo antes da transição propriamente
dita, a mobilização tende a crescer, pela percepção que as pessoas passam a ter de que a repressão
diminuiu. O’Donnell (1988) argumenta que este é o momento crucial para os acordos
democráticos, já que com a abertura política (normalmente defendida pelos grupos moderados da
ditadura e da oposição) traz maiores problemas no que diz respeito à mobilização e ao “caos social”
que os militares mais extremistas (ou “duros”) querem evitar. Assim, se acordos democráticos não
forem traçados entre líderes militares e da oposição, a chance de uma reversão na abertura política é
grande. Assim, as greves, passeatas e mobilizações devem mostrar força o suficiente para convencer
os militares extremistas de que a repressão terá um custo político e social muito alto, mas também
devem dar base às negociações entre líderes sindicais, de oposição e do regime. A pressão social é,
sem dúvida, um dos importantes componentes das transições para a democracia e deve ser pensada
sempre de forma ampla, no contexto histórico, econômico e social de cada realidade. Apesar de não
existir uma “lei sociológica” sobre a participação política, as motivações consideradas nesse artigo
devem ser tomadas em conta em estudos sobre o tema.
10:
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