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Tese radical defende que Machado não é realista

Para Gustavo Bernardo, escritos do autor não condizem com visão tradicional

José Antônio Orlando - Editor-adjunto - 18/05/2011 - 14:49

EDITORA ROCCO/DIVULGAÇÃO
O ensaísta e professor Gustavo Bernardo defende uma tese que vai
contra quase um século de crítica literária no Brasil. Em seu livro “O
Problema do Realismo de Machado de Assis” (Editora Rocco, 120
páginas, R$ 20), que está chegando às livrarias, ele argumenta que
Machado, cânone maior da literatura no Brasil, não é um escritor
realista. Em entrevista ao Hoje em Dia, o autor aponta que seu estudo,
por certo audacioso, busca mostrar que os escritos do Bruxo do Cosme
Velho não condizem com a classificação acadêmica imposta e ensinada
há décadas em salas de aula de todo o Brasil.

No livro você destaca que a ficção de mestres como Machado de Assis


estabelece um duplo caráter da linguagem, que tanto diz mais do que
queria dizer quanto não consegue dizer exatamente o que pretendia.
O mestre retratado por Gilmar Fraga
Diante de tantos paradoxos, qual é o lugar de Machado de Assis na
na capa de “O Problema do Realismo
de Machado de Assis” literatura e na cultura brasileira?

Eu quis dizer que toda a linguagem que usamos tem esse caráter duplo: sempre dizemos mais do que
queríamos dizer e nunca conseguimos expressar exatamente o que queríamos dizer. Ao contrário do que
imagina o senso comum escolar, a linguagem é fundamentalmente equívoca. A compreensão da língua de
escritores como Machado faz com que eles explorem os equívocos de linguagem da sua sociedade e do seu
tempo, em especial aqueles que confundem a realidade com os discursos sobre a realidade. Essa
circunstância faz com que possamos considerar Machado de Assis não apenas nosso maior escritor mas
também como nosso mais importante filósofo, uma vez que a sua obra até hoje parece pensar profundamente
sobre os nossos equívocos, nossos paradoxos, nossas hipocrisias.

Considerando a literatura em língua portuguesa e a literatura produzida no Brasil, o gênio de


Machado encontra algum precursor?

Não há precursor na literatura em língua portuguesa para Machado de Assis. É certo que autores como Eça
de Queirós e José de Alencar foram muito importantes para ele, mas para que escrevesse antes contra eles do
que como se os sucedesse esteticamente. “Dom Casmurro” é de certa forma uma resposta a ambos, tanto a
“O Primo Basílio”, de Eça, quanto a “Lucíola”, de Alencar: o romance machadiano desmonta tanto o
realismo do autor português quanto o romantismo do brasileiro, de tabela desconstruindo radicalmente a
visão que ambos tinham da mulher. Luísa e Lúcia/Maria da Glória começam suas histórias como
personagens femininas densas e fortes, mas os autores as enfraquecem tanto que chegam mesmo a matá-las
ao final, enquanto Capitu mantém sua força, sua densidade, sua ambiguidade e sua dignidade do princípio ao
fim do romance, morrendo não em função das ações e omissões do narrador mas sim em função da idade.
Encontro precursores verdadeiros para Machado quer no filósofo francês Michel de Montaigne quer no
escritor espanhol Miguel de Cervantes. Concordo inteiramente com o escritor mexicano Carlos Fuentes, que
considera Machado de Assis o único herdeiro literário de Cervantes em toda a América, chegando a chamá-
lo pela alcunha de “Machado de La Mancha”. Na nossa língua, o melhor sucessor de Machado, até porque
muito diferente dele, é João Guimarães Rosa, que por mágica coincidência nascia no mesmo ano em que
morria Machado de Assis. Sua Diadorim, de Grande sertão: veredas, é sem dúvida a melhor companheira de
Capitu na literatura brasileira.

E a literatura brasileira hoje? Está melhor ou pior do que há tempos passados?

Darei uma resposta categórica: não sei! Acho que não temos como responder a essa pergunta, e sempre me
incomodam aqueles que tentam, o que acontece periodicamente. Como diria o historiador Fernand Braudel,
“a fumaça dos acontecimentos nubla a visão dos contemporâneos”.

Dos tantos escritos que compõem a obra de Machado, qual você escolhe como o seu favorito?

São justamente tantos e tão bons que esta pergunta se faz a mais difícil de todas. Meu primeiro impulso é
oscilar entre “Dom Casmurro” e “O Alienista”, pela crítica devastadora que ambos os títulos fazem à
maneira moderna de pensar, mas logo me vem à mente um romance da chamada primeira fase, tão
desprestigiada e tão excepcional quanto a chamada segunda fase. Trata-se justamente do primeiro romance
de Machado, sua obra-prima nos dois sentidos do termo: “Ressurreição”. Este romance, de maneira discreta,
já contém em germe todas as qualidades estéticas e filosóficas de Machado, a começar pela excepcional
ironia contida no título: não há ressurreição alguma.

Esta ironia é um golpe de “canhões de pelica” no romantismo...

Isso mesmo. Machado é nosso escritor mais cético. Aliás, são três as qualidades de Machado que mais
incomodam nossa crítica e nossa pedagogia, e por isso seus próceres tentam negá-las quase
desesperadamente: primeiro, nosso maior escritor é negro (logo, tentam embranquecê-lo de diversas
maneiras pouco sutis); segundo, nosso maior escritor é o maior adversário do realismo (logo, tentam
sustentar o absurdo, de que ele mesmo seria não só realista como o próprio fundador do realismo no Brasil);
terceiro, nosso maior escritor é cético (logo, tentam desqualificar seu ceticismo, vendo-o equivocadamente
como pessimismo ou niilismo).

Woody Allen, em entrevistas recentes, destaca que Machado é um de seus escritores preferidos e que
ele se identifica com o estilo e as tramas do autor de “Dom Casmurro”. Você concorda que há
semelhanças entre os filmes de Woody Allen e a literatura de Machado?

Sim, sem dúvida. Primeiro, ambos são tremendamente irônicos e engraçados, apesar de não provocarem
gargalhadas mas sim sorrisos inteligentes. Segundo, ambos são mestres na arte difícil da tragicomédia, a tal
ponto que suas obras não evoluem da comédia para a tragédia, como de hábito, mas são cômicas e trágicas
do início ao fim, da primeira à última página ou cena. Terceiro, ambos são herdeiros da metaficção de
Cervantes, porque ambos quebram a cada página ou cena o contrato de ilusão realista entre autor e leitor, ou
entre diretor e espectador. Quarto, ambos questionam a raiz de todos os discursos humanos, desconfiando
sempre de que não sabemos o que temos certeza de que sabemos, o que prova que ambos são profundamente
céticos – o que não torna nem um nem outro pessimista ou niilista, mas todo o contrário. Ambos, por fim,
são príncipes da dúvida, da inteligência e da tolerância.