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APRESENTAM

paideia
revista
FÓRUM DE IDÉIAS
maio a agosto 2007
Os Realizadores
Ao propor o Projeto Paideia para os nossos parceiros apoiadores e para a sociedade carioca, a intenção era
recuperar a força do livre-pensar como uma das principais fontes de renovação dos sentidos de cada indivíduo
sobre o mundo que o cerca. Conhecer, refletir, criticar são matérias-primas essenciais para conquistar a liberdade
de ser protagonista consciente de sua própria vida e da sociedade onde trabalhamos e atuamos.

Para que esse processo fosse completo, seria preciso alongar o tempo. Assim, uma de nossas principais
premissas neste ciclo era oferecer uma dinâmica em que cada palestrante pudesse expor suas idéias e discuti-
las com o público de forma confortável. Foi o que se realizou ao longo de duas horas em cada uma das 15
conferências, durante quatro meses de evento. Também se desenvolveu um fórum virtual na revista eletrônica
que acompanhou os acontecimentos do Paideia, promovendo o acesso de um número maior de interessados às
discussões. Além da cobertura jornalística, perguntas e comentários online fizeram parte do nosso grande debate.

Com um time de palestrantes publicamente reconhecidos em suas áreas de atuação e um ambiente favorável à
discussão, esperamos que o Paideia tenha permitido incentivar a reflexão sobre os temas mais atuais e urgentes
de nossa sociedade, recolocando o pensar como valor essencial para o agir.

EXPEDIENTE

Curadoria e Supervisão: Marta Porto

Coordenação Geral: Claudia Pavese Porto

Produção: Déa Martins

Administração: Maria Betânia Monteiro

Apoio Institucional e Administrativo: Elizabeth Galvani e Manuel Thedim

Projeto Gráfico e Diagramação: Samara Tanaka e Leandro Peres

Jornalista Responsável: Janaina Medeiros

Fotos do Evento: R2comunicação

Realização: [X]BRASIL e IETS

Contatos: www.xbrasil.net/paideia

PROJETO E REALIZAÇÃO PARCERIA PATROCÍNIO

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CAIXA ECONÔMICA FEDERAL

A CAIXA apresentou o Projeto Paideia — Fórum de Idéias, um extenso e relevante ciclo de


palestras que reuniu alguns dos mais atuantes pensadores contemporâneos do país.

Dividido em quatro módulos – Logos, Pathus, Eros e Mythus – o Projeto Paideia promoveu
um amplo debate, com ativa participação do público, sobre as mais diversas questões da
atualidade, das aflições sociais por que passam diversos povos no mundo contemporâneo,
da discussão sobre as intolerâncias religiosas até a ética na política.

A CAIXA se vê inserida em todas as questões que de alguma forma apontem para


uma vida melhor e orgulhou-se em patrocinar o presente projeto, que estimulou a
discussão e a reflexão sobre temas de grande importância para o desenvolvimento da
sociedade contemporânea.

A CAIXA acredita, dessa maneira, ter contribuído para a renovação, a ampliação e o


fortalecimento da cultura nacional.

SESC RIO – Oxigênio para o Planeta

O conhecimento como instrumento de desenvolvimento crítico, reflexivo e autônomo.


Como elemento de inclusão social, aproximação entre os povos e promoção da paz. Como
catalisador do desenvolvimento humano.

A incorporação de valores e atitudes cotidianos de cidadania, cooperação, solidariedade, ética,


investigação e experimentação, além da possibilidade de acesso a temas contemporâneos e à
socialização de informações, trazem à luz da reflexão aspectos fundamentais à estruturação do
homem como ser pensante, pulsante. Cidadão planetário.

É preciso oxigenar o planeta com idéias inovadoras para uma nova estruturação social.
Independentemente do uso que se faça da rede virtual, nunca houve potencial tamanho de
transformação planetária como há hoje. Conexão de idéias construídas coletivamente quase
na velocidade do pensamento.

Os ideais do Paideia vêm ao encontro do pensamento e ação institucionais do SESC Rio.


Que este fórum estimule um novo pensar do papel humano no mundo.

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O fórum de idéias
Paideia é um fórum de idéias inspirado no conceito grego de “educação
ao longo da vida” para democratizar o acesso a temas que afligem a
sociedade atual. De 15 de maio a 28 de agosto de 2007 foram realizados
15 debates com especialistas em filosofia, ética, artes, política, religião
e outras áreas do conhecimento importantes para a compreensão da
realidade atual. Todos aconteceram às terças de maio e junho na Caixa
Cultural Rio de Janeiro e de julho e agosto no Arte SESC, ambos no
Rio de Janeiro (RJ).

O evento foi dividido em quatro módulos a partir das dimensões


do conhecimento humano propostas pelo filósofo Platão: Logos
(racionalidade, em maio), Pathus (sentimento, junho), Eros (desejo, julho)
e Mythus (o bem e o mal, agosto). Para abrir os trabalhos, dois filósofos
e um economista discutiram o conceito ordenador e dominador da
realidade através da razão, da ciência e da técnica. André Parente, Renato
Janine Ribeiro e André Urani falaram sobre visão projetada, ética na
política e desafios sociais do Brasil.

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Logos - Análise

em nome
da razão
Em 15 de maio, o módulo Logos não poderia começar falando de outro assunto senão a própria Paideia,
o conceito que exprime o processo de libertação da cegueira que nos aprisiona, dando mais importância
à percepção da realidade a partir de projeções feitas pela mente que à própria realidade em si. O filósofo e
pesquisador de novas mídias André Parente focou sua palestra na Alegoria da Caverna e lembrou que, segundo
Platão, não devemos ver o mundo de maneira sensível – e sim inteligível. Traçando um paralelo com o seu
objeto de estudo, o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) observou que tanto a produção
imagética quanto as novas tecnologias aprisionam e, ao mesmo tempo, libertam a nossa subjetividade.

Renato Janine Ribeiro trouxe à tona em 22 de maio um dos temas mais atuais em todas as manchetes de jornais:
ética na política. O filósofo observa que o discurso ético tem se adaptado aos novos tempos, em que a liberdade
de escolhas nas mais diversas áreas aumentou e, com isso, perdemos certos referenciais. Um dos pontos altos da
palestra foi a constatação de que temos nos gabado de uma vida pessoal supostamente ilibada e acusado a vida
pública como sinônimo de mentira, manipulação e fraude. Mas, para o autor e pesquisador, é preciso cautela ao
fazer tais comparações. E, sobretudo, distinguir ética de honestidade.

Na terceira e última semana do módulo de abertura do Paideia, dia 29, o economista, diretor do Instituto de
Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS) e comentarista da Rádio CBN André Urani discutiu o grande paradoxo
brasileiro: índices que constatam a redução da pobreza e uma sociedade ainda repleta de pobres. Como e por
que a desigualdade sobrevive no Brasil? Esta e outras perguntas foram colocadas em pauta no empolgante
debate, que expôs mais dois grandes entraves do desenvolvimento social: o mito das reformas e a questão das
metrópoles. Segundo Urani, é preciso que governos façam urgente as tão aclamadas reformas econômica e
política, além de reinventar as metrópoles brasileiras. E, sobretudo, é necessário que a população tome a frente
das reivindicações e pare de esperar por “soluções mágicas”. Sem dúvida, a conferência foi um primeiro passo
rumo a essa mudança de paradigma.

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entrevista

André Parente
Realidade virtual
Filósofo e pesquisador das novas mídias e tecnologias de comunicação, André Parente fez doutorado na
Universidade de Paris VIII sob a orientação do filósofo Gilles Deleuze de 1982 a 1987. Em seguida, voltou
ao Brasil e se tornou professor e pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde fundou
em 1991 o Núcleo de Tecnologia da Imagem (N-imagem). Entre 1977 e 2006, realizou inúmeros vídeos,
filmes e instalações nos quais predominam a dimensão experimental e conceitual. Já publicou diversos livros,
entre eles: Imagem-máquina (Editora 34, 1993), Sobre o cinema do simulacro (Pazulin, 1998), O virtual e
o hipertextual (Pazulin, 1999), Narrativa e modernidade (Papirus, 2000), Tramas da rede (Sulinas, 2004),
Cinema et narrativité (L’Harmattan, 2005). Em entrevista à Revista Paideia ele fala sobre sua palestra,
intitulada Diálogos e proximidades no mundo virtual: O ciberespaço e a realidade virtual estão alterando nossa
visão do mundo ou nosso modo de vida?.

Qual seria o ponto em A enxurrada de interação audiovisual tem afetado os


comum entre a Alegoria processos de assimilação cultural?
da Caverna e as novas
tecnologias? A imagem deve ter uma pedagogia própria, isto é, hoje temos os analfabetos
visuais. Por outro lado, a imagem digital possibilitou toda uma série de
Desde a Alegoria da processos que faz da imagem um equivalente de um texto, a ser codificado
Caverna de Platão, a e indexado, por exemplo. Na verdade, outrora se pensava com a ajuda de
questão hoje apresentada narrativas e de lógica. Hoje se pensa com a ajuda de simulações imagéticas,
pelas mídias e novas uma vez que a lógica analítica não é mais o instrumento adequado para
tecnologias da imagem, da se lidar com situações complexas como aquecimento global, manipulação
substituição da realidade genética, nanotecnologia, viagem à Marte, entre outras.
pela imagem, já era
colocada. Tenho estudado E quais seriam os outros impactos das novas tecnologias
essa relação há 15 anos, da imagem sobre a nossa sociedade?
tanto do ponto de vista
teórico, do desenvolvimento Não costumo me ater à questão do impacto das imagens e das novas
tecnológico e da realização tecnologias. Não digo que não são importantes. Gosto muito mais
de instalações imersivas da idéia de pensar nas mudanças de paradigma. Ou na mudança dos
e interativas. Gostaria de regimes imagéticos. Por outro lado, eu me interesso pela questão da
pensar como a crítica que relação da imagem com a produção do conhecimento. Poderia dizer
Platão fez outrora pode nos que hoje a imagem é um instrumental de análise imprescindível para
permitir pensar a imagem a ciência. A imagem, e sobretudo a simulação computacional, exerce
como novo instrumento a hoje para a ciência o papel desempenhado outrora pelas narrativas e
serviço do pensamento. pelas lógicas.

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Cobertura da Palestra

“Imagem é instrumento
a serviço do pensamento”
André Parente discute o olhar contemporâneo através do Mito
da Caverna, da arte e das novas mídias

Da Antigüidade à Pós-Modernidade. Da Alegoria da Caverna à Realidade opinião, desta para a matemática e desta para a intuição intelectual e à
Virtual. Assim o filósofo, autor, pesquisador e artista multimídia André ciência. E outro, o de descensão que é a dialética descendente, que consiste
Parente abriu o módulo Logos do Paideia com a aclamada palestra Diálogos em praticar com outros o trabalho para subir até a essência e a idéia. Aquele
e proximidades no mundo virtual: O ciberespaço e a realidade virtual estão que contemplou as idéias no mundo inteligível desce aos que ainda não as
alterando nossa visão do mundo ou nosso modo de vida?, analisando o papel contemplaram para ensinar-lhes o caminho. Por isso, desde Mênon, Platão
da visão projetada e das novas tecnologias na mudança de olhar do homem dissera que não é possível ensinar o que são as coisas, mas apenas ensinar a
contemporâneo. O ciclo de palestras, que aconteceu todas as terças-feiras de procurá-las”.
maio e agosto na Caixa Cultural Rio de Janeiro (centro do Rio), contou com
auditório lotado já na estréia. “Platão coloca o conceito da Paideia, que exprime O relato da subida e da descida expõe a Paideia como dupla violência
o processo de libertação da cegueira que nos aprisiona. Esta decorre do fato de necessária: a ascensão que é difícil, dolorosa, quase insuportável; e o retorno à
que damos mais importância às imagens do que à realidade”, instiga. caverna, uma imposição terrível à alma libertada, agora forçada a abandonar
a luz e a felicidade. “A dialética, como toda a técnica, é exercida contra
O conferencista partiu do princípio do filósofo grego Platão, de que devemos uma passividade, um esforço para concretizar seu fim forçando um ser a
olhar o mundo não com os olhos do corpo (sensível), mas com os olhos realizar sua própria natureza. No Mito da Caverna, a dialética faz a alma
do espírito (inteligível), para nos libertar da cegueira que nos aprisiona. A ver, ou conhecer, sua própria essência vendo as essências, que são objeto do
partir daí, fez uma analogia com as atuais tecnologias que produzem novas conhecimento, descobrindo seu parentesco com elas. A violência é libertadora
formas de conhecimento e subjetividade, imprimindo um estilo de vida sem porque desliga a alma do corpo, forçando-a a abandonar o sensível pelo
parâmetros na história. Segundo ele, hoje ninguém está incólume à enxurrada inteligível”, esclarece.
de imagens e informações. E, ao mesmo tempo em que ampliamos nosso
conhecimento e singularizamos nossa existência, também nos empobrecemos A caverna nas artes
através da massificação. O grande desafio contemporâneo seria não darmos
importância maior à realidade virtual que à realidade de fato. Seria preciso Pesquisador das novas mídias, o conferencista observa que Alegoria da
encontrar espaço para a subjetividade. E retomar o conceito de libertação Caverna é bastante reinterpretada nas artes até hoje. No cinema, exemplo
proposto por Platão, enfim. “A imagem é um novo instrumento a serviço do disso são a trilogia Matrix e os filmes The Truman Show, Vanilla Sky, The
pensamento. Ela exerce hoje, para a ciência, o papel desempenhado outrora Thirteenth Floor e, sobretudo, Underground – este último, vencedor da Palma
pelas narrativas e pelas lógicas”, compara. de Ouro no Festival de Cannes em 1995. Menos radical, mas igualmente
impressionante, é The Penultimate Truth, dirigido por Philip K. Dick em
Libertação e violência 1964. Transposição do Mito da Caverna para um cenário de ficção científica
durante uma guerra nuclear, a trama mostra a maior parte da humanidade se
Durante a palestra, André Parente recorreu várias vezes ao clássico Mito da refugiando em abrigos, onde trabalha em fábricas subterrâneas para sustentar
Caverna desenvolvido por Platão no Livro VII de A República, espécie de o esforço de guerra. A elite sobrevivente continua vivendo na superfície,
diálogo imaginário entre o filósofo Sócrates e os irmãos de Platão, Glauco porém silencia sobre o fim da guerra para que os outros continuem como
e Adimanto. “Sócrates conta a Glauco o famoso mito como um retrato escravos e, durante décadas, alimenta-os com notícias falsas do mundo
da ignorância humana. Pode e deve se encarada como a metáfora da nossa exterior a fim de que ninguém descubra a verdade.
vida, que, como os budistas bem sabem, é uma ilusão, um pálido reflexo da
realidade. Ela nos mostra o quão difícil é nossa ascensão, mas o quanto ela é Já na literatura, André Parente destaca a obra dos escritores José Saramago
gratificante para os que perseveram e alcançam o topo. Também nos ensina, e Jorge Luis Borges. No caso de Borges, duas alegorias servem de
através da lógica, que é muito melhor ser humilde servidor na luz do que modelo para pensar as relações do signo e da realidade em um mundo
um rei nas trevas. E também a dureza que é tentar ajudar os que ficam lá de informação – aliás, a caverna hoje seria ocasionada pelo excesso de
embaixo, por estarem eles se deleitando tão somente com aquilo, o ilusório, informação. No livro Do rigor na ciência, Borges nos descreve um império
quando há muito mais para se ver! Tudo isso é o que compõe a base moral do que desenvolveu a arte da cartografia a ponto de o mapa criado por ele
espiritismo. Sócrates poderia ser considerado o primeiro doutrinador espírita ser do tamanho do próprio império. E, em A biblioteca de Babel, um
do mundo”, afirma. bibliotecário de gênio deduz a lei da infinitude da biblioteca. Por meio da
arte combinatória dos seus símbolos e textos, ela se torna um hipertexto
O professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) lembra que infinito, no qual se podem encontrar todos os livros passados e futuros.
este mito apresenta a dialética como movimento ascendente de libertação “A biblioteca é apresentada como uma fortaleza de intertextualidade,
do olhar, que nos libera da cegueira para vermos a luz das idéias. Mas a uma autoreferência que produz um colapso de toda e qualquer referência
alegoria descreve também o retorno do prisioneiro para ensinar aos que exterior aos signos que ela contém. Tudo se passa como se a biblioteca
permaneceram na caverna como sair dela. “Há dois movimentos. Um fosse uma espécie de buraco negro pós-moderno que produz um colapso
de ascensão que é a dialética ascendente, que vai da imagem à crença ou da realidade exterior”, conclui.

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O mito
No Livro VII de A República, Platão descreve uma caverna onde seres humanos vivem acorrentados de cabeça
para baixo, geração após geração, sem poder se mover para a entrada nem se locomover, forçados a olhar
apenas a parede sem nunca terem visto o mundo exterior nem a luz do sol. Uma réstia de luz exterior faz
com que imagens externas sejam projetadas como sombras no fundo da caverna. Pessoas passam conversando
e carregando nos ombros figuras de homens, mulheres e animais. Os prisioneiros julgam que essas sombras
são as próprias coisas externas e que os artefatos projetados são os seres vivos que se movem e falam. Um dos
prisioneiros, tomado pela curiosidade, decide fugir. Ele sai da caverna e, no primeiro instante, fica totalmente
cego pela luminosidade do sol. Pouco a pouco, habitua-se à luz e começa a ver o mundo, descobrindo que,
em sua prisão, vira apenas sombras. Deseja ficar longe da caverna e só voltará a ela
para contar o que viu e libertar os demais. Assim como a subida foi penosa, porque
o caminho era íngreme e a luz ofuscante, também o retorno será penoso, pois será
preciso habituar-se novamente às trevas, o que é muito mais difícil do que se habituar
à luz. De volta à caverna, desajeitado, o prisioneiro não sabe se mover nem falar de
modo compreensível para os outros, não será acreditado por eles e corre o risco de ser
morto pelos que jamais abandonaram a caverna.

Matrix e Underground
A trilogia de filmes The Matrix (1999), The Matrix Reloaded (2003) e The Matrix Revolutions (2003)
dirigida pelos Irmãos Wachowski conta a história de Neo, o herói que descobre estar vivendo não
no mundo que imaginava e sim num universo virtual que não passa de um simulacro. Tudo que
ele conhecia como realidade é somente um reflexo criado artificialmente. Em Matrix, a Alegoria da
Caverna é sem dúvida o ponto central do roteiro. Seres humanos vivem aprisionados num universo
artificial criado por computadores, ignorantes da existência de outra realidade, seguros que a ilusão
ao seu redor é tudo que há para conhecer. Os poucos que conseguem escapar do simulacro, depois de
um período de dolorosa adaptação, tornam-se heróis platônicos capazes de levar o conhecimento da
realidade aos prisioneiros da caverna. Em Underground (1995), dirigido por Emir Kusturica, a Caverna
de Platão é também o símbolo mais forte. Na trama, as pessoas enclausuradas em um subterrâneo
possuem uma visão deformada da realidade exterior, orquestrada por Marko (representando Tito, o
grande ditador da ex-Iugoslávia). Mais do que isso, a caverna representa a nação de Tito em toda a sua
diversidade religiosa, cultural, étnica e histórica. O filme conta a história da ex-Iugoslávia como se o
país tivesse sido unificado na base da ilusão que foi gerada pelo ditador, em função da existência de
uma guerra exterior que os obrigasse a se proteger no subterrâneo. Quando, na verdade, ali eles eram
explorados, trabalhando noite e dia para produzir armas e víveres.

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entrevista
Renato Janine Ribeiro
Por uma política
mais ética
Renato Janine Ribeiro é professor
titular de Ética e Filosofia Política
na Universidade de São Paulo
(USP). Sua pesquisa inicial tratou
do filósofo inglês Thomas Hobbes,
a quem dedicou seu mestrado
(Sorbonne, 1973) e seu doutorado
(USP, 1984). Nas últimas décadas
tem se interessado em pensar uma
filosofia política que leve em conta
as sociedades de países ocidentais
tidos como dissidentes, como Brasil
e seus vizinhos do Terceiro Mundo
– que dão maior importância ao
afeto na vida pública. E tem ainda De que maneira a filosofia contribui para a política? Isso tem abalado a crença
se dedicado à análise de temas como do brasileiro numa
o caráter teatral da representação Há alguns anos procuro ver como a teoria política de melhor qualidade política ética?
política e a idéia de revolução, mundial ajuda a pensar nosso déficit brasileiro nos valores da democracia
democracia, república e cultura e da república. E, também, como a nossa cultura, que chamo de O que me interessa não é a vida
política brasileira. Entre suas obras, “ocidental dissidente”, permite questionar uma teoria política européia e dos partidos, mas o modo como
destacam-se A última razão dos norte-americana, que não dá a devida conta aos afetos no espaço político. os cidadãos vivem a política. Ora,
reis: Ensaios de filosofia e de política o problema é que eles sentem
(Companhia das Letras, 1993), Ao Como avalia a relação entre ética e política? dificuldade em acreditar nela. Isso
leitor sem medo: Hobbes escrevendo é, de certa forma, mundial. Nosso
contra o seu tempo (Editora UFMG, Para a maior parte das pessoas, ética e política são termos conflitantes. país sempre foi pouco politizado,
1999), A sociedade contra o social: O Mas há uma ética na política, que é a de contribuir para o bem da mas mesmo aqueles que têm forte
alto custo da vida pública no Brasil sociedade. Essa ética do político, que Max Weber chamou de ética tradição política, como a França
(Companhia das Letras, 2000, da responsabilidade, tem uma dívida com Maquiavel, por estranho e a Argentina, vivenciam hoje
Prêmio Jabuti na categoria Ensaio que pareça a aproximação deste último com a preocupação ética. E um desencanto com a capacidade
e Biografia de 2001), Democracia há igualmente uma ética de valores, que Weber atribuiu ao cientista e transformadora dela. A sensação
(Publifolha, 2001), República seus leitores generalizaram para os indivíduos em geral: a ética daqueles crescente é que o agir coletivo
(Publifolha, 2001), A universidade que acreditam na verdade ou no bem, a tal ponto que em nome deles não adianta muito. Esse traço,
e a vida atual: Fellini não via aceitam colocar em risco suas vantagens pessoais. Ora, isso coloca várias acentuado em nosso país, é um dos
filmes (Campus, 2003) e A ética na perguntas, inclusive a respeito da nossa sinceridade. O homem público indicadores mais preocupantes do
política (Lazuli, 2006). Foi também pode ser sincero, franco, ou são outras as qualidades dele? E, por outro tempo brasileiro atual.
professor visitante na Universidade lado, uma parte do esvaziamento do homem público não será resultado
de Columbia, em Nova Iorque do fato de que sentimos que as pessoas em público “fazem cena”,
(Estados Unidos, de 2003 a 2004) e representam um papel, em vez de dizerem o que realmente crêem?
membro do Conselho Deliberativo
do CNPq (1993 a 1997). Em 1998, E como vê o tema no Brasil de hoje?
recebeu condecoração da Ordem
Nacional do Mérito Científico. Há uma dificuldade mundial em lidar hoje com estas questões, mas
Com exclusividade à Revista essa dificuldade é agravada em nosso país porque nele a injustiça social
Paideia, ele comenta um dos é bastante acentuada e, por outro lado, sentimos que nossas intenções e
temas mais discutidos na sociedade mesmo ações não trazem resultados positivos tangíveis. Isso para não falar
brasileira hoje, Ética e política: onde na hipocrisia dos que falam uma coisa em público e outra em privado,
estamos e para onde vamos?, e que é esvaziando o espaço de discussão honesta com os outros.
título de sua palestra.

9
Cobertura da Palestra

“Ética não é igual


à honestidade”
Renato Janine Ribeiro investiga a relação do
nosso povo com a ética e o recente clamor
por ela na política

Quem nunca conheceu alguma pessoa que, em algum momento da “Faz parte do nosso discurso social afirmar ‘eu sou ético, eu sou do bem”. O
vida, tenha tido seus valores em xeque diante de um dilema? O conceito mundo está de pernas para o ar, tudo está errado, mas eu não. É a idéia de que
de ética não é passível de contestação, mas a escolha da ação ética pode eu, pessoalmente, ajo bem e sou honesto. O que queremos afinal? Cidadãos
ser relativa quando confrontada em situações de impasse. Foi este o obedientes à qualquer lei ou sujeitos éticos e decentes? O ideal seriam os
ponto de partida da conferência Ética e política: Onde estamos e para dois”, garante, lembrando que a ética trata de questões de consciência e,
onde vamos?, realizada no dia 22 de maio na Caixa Cultural Rio de portanto, é limitada. Daí o risco de julgamento ou decisão ser enorme. “A
Janeiro. Nela, o autor, pesquisador e doutor em Filosofia Renato Janine ética não perdeu o sentido hoje, mas é justamente porque não tenho certeza
Ribeiro analisa a origem do clamor da nossa sociedade atual por ética, absoluta que a pergunta ética se torna mais importante do que nunca. Não é
sobretudo na política. mais lícito uma pessoa se colocar na posição de dono da verdade. Cada um de
nós precisa ser capaz de duvidar de si próprio”, alerta.
“Um dos maiores desafios de nosso tempo é a liberdade que aumentou.
Nas escolhas políticas, nunca tantas pessoas puderam votar mais ou À beira do caos
menos livremente. Nas escolhas pessoais, nunca tantos se sentiram
à vontade para optar pela fé, pela profissão ou trabalho, pela relação De acordo com o filósofo, apesar de o Brasil continuar desigual e
amorosa de sua preferência. Mas tudo isso tem custos. Perdem-se excludente, nos últimos anos tem crescido o desejo de inclusão entre a
referenciais e precisam ser inventados outros. E surge uma preferência nossa população. “A ética não é abstrata, é um conjunto de princípios
pela vida pessoal, que seria mais ética e também mais fácil de manejar, em genéricos sem relação com a vida social, que devemos impor a todo custo.
detrimento da vida pública ou política, que se tornaria a cena da mentira, Se o Brasil hoje fala tanto em ética é porque chegamos à conclusão de que
da manipulação, da fraude. Já nos escondemos, em casa, contra o crime um mínimo de respeito ao outro é necessário para sermos, nós mesmos,
e não podemos fazer do lar o único reduto ético. Precisamos moralizar a respeitados”, afirma. “Ver o outro furar a fila ou passar na sua frente não é
vida social. Mas como?”, questiona. mais aceitável. Daí que falemos tanto em ética hoje. A nossa sociedade foi
tomando consciência de que valores como respeito, igualdade e liberdade
O dono da verdade são fundamentais. Ou eles, ou o caos”, continua.

Ao longo de duas horas de palestra e debate com o público, Renato Janine Para o pesquisador, seria esta a razão de um número crescente de cursos
Ribeiro questionou se, ao reclamarmos sobre a falta de ética na nossa voltados para filosofia e de cobrança por ética na política. “Esse é um
política, a população brasileira não estaria usando referenciais de lucro dado altamente positivo de nossa vida social. É provável que, em alguns
ou prejuízo no âmbito privado. “Estamos descontentes com a política anos, o país mude para melhor. A sociedade crê mais na ética do que
porque ela não é ética ou porque ela não resolve os nossos problemas e a elite. Um dos erros do governo passado foi não ter levado em conta
grandes desafios sociais?”, indaga. Segundo o conferencista, ao não agir o protesto ético das pessoas contra os políticos, espero que o atual
errado, haveria uma compreensão social de que entramos no terreno governo não repita isso. Mas não devemos acreditar no empenho social
da moralidade. No entanto, o filósofo enfatiza que é preciso dissecar a pela ética como se fosse apenas o resultado de inspiração moral. Temos
essência da ética. “Ética não é igual à honestidade, mas sim a capacidade percebido que, ou passamos a nos respeitar uns aos outros, ou o caos
de agir sobre os erros, a vontade e os princípios que movem a opinião tomará conta de tudo. É uma questão hoje de vida ou morte para o
pública”, observa. Brasil”, completa.

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Manifestação pública
A absolvição do presidente do Senado Renan Calheiros, julgado por quebra de decoro parlamentar no plenário
da Casa, provocou indignação e manifestações públicas de repúdio de diversas organizações da sociedade civil.
Uma delas por parte da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), cujo presidente nacional enviou nota oficial
à imprensa em 12 de setembro clamando por reformas políticas urgentes no país. Segundo Cezar Britto, o
sistema de votação secreta no Senado fere a ética e a democracia da nação. “A absolvição do senador Renan
Calheiros evidencia a urgência urgentíssima de uma reforma política profunda no país. O resultado da votação,
na contramão do clamor público, distancia ainda mais o Senado – instituição vital ao equilíbrio federativo – da
sociedade que o provê e a que deveria representar. Não apenas o resultado em si da votação, mas o ambiente que
a cercou e seu absurdo teor secreto agridem a ética, o bom senso e o mais elementar
espírito democrático”, e enfatizou na declaração, “que esse triste episódio sirva para
aprofundar, no meio político, essa reflexão. E que o corporativismo senatorial não
insista em manter na presidência de uma das mais elevadas instituições republicanas
alguém que se incompatibilizou com o cargo. Seria errar duas vezes. O país não
merece isso”. A pressão da opinião pública começou a surtir efeito pelo menos no
que concerne à transparência do voto. Em 19 de setembro, em votação simbólica
e por unanimidade, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou a
Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que acaba com o voto secreto em todas
as sessões do Congresso. A PEC segue para votação em dois turnos no plenário
do Senado e precisará de 49 votos. Depois, a proposta vai para a Câmara dos
Deputados, onde também terá que ser aprovada em duas etapas.

Lá e cá
Enquanto o Senado brasileiro ficou parado por quase seis meses de denúncias, escândalos e acusações e
tudo terminou em “pizza”, dois episódios de repercussão internacional também em 2007 mostram como
Estados Unidos e Japão divergem do Brasil no entendimento sobre ética na política. Em 17 de maio o
presidente do Banco Mundial, Paul Wolfowitz, renunciou o cargo (três anos antes do fim do mandato)
após um escândalo relacionado à promoção e ao aumento do salário de sua namorada, Shaha Riza,
também funcionária da instituição. Quando Wolfowitz assumiu a presidência em junho de 2005, Riza
foi transferida para o Departamento de Estado e seu salário, que continuou a ser pago pelo BM, passou
de US$ 133 mil para quase US$ 200 mil anuais – maior que o teto estabelecido pelo banco e que o da
própria secretária norte-americana de Estado, Condoleezza Rice. Wolfowitz alegou que a renúncia visava
atuar “de forma ética e com boa-fé no que ele achava que seria de maior interesse para a instituição”.
Dez dias depois, do outro lado do mundo, o ministro da Agricultura do Japão Toshikatsu Matsuoka foi
encontrado enforcado no seu apartamento. Ele teria cometido suicídio no dia 27 de maio por conta de
suposto envolvimento em dois escândalos políticos. Matsuoka era acusado de receber doações de um
empresário e havia pedido um reembolso de cerca de R$ 450 mil por despesas normalmente realizadas
sem custo em seu gabinete. Mas a investigação não foi encerrada com sua morte. O primeiro-ministro
japonês, Shinzo Abe, passou a ter sua conduta questionada em relação às acusações do ex-subordinado,
perdeu o apoio do povo e renunciou o cargo em 12 de setembro de 2007 – mesmo dia em que, por aqui,
o presidente da OAB manifestava sua opinião sobre a ética na política brasileira.

11
entrevista

André Urani
O paradoxo do Brasil
André Urani se doutorou em Economia pelo Delta (em Paris, França) em 1992. É diretor executivo do Instituto
de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS), organização que trabalha em pesquisa e elaboração de políticas
públicas nas áreas de pobreza, desigualdade, mercado de trabalho e desenvolvimento. Professor licenciado do
Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e comentarista da Rádio CBN, é
ex-pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Institut Européen des Affaires de
Fontainebleau (na França). Também foi consultor de importantes siglas nacionais e estrangeiras como FMI,
BID, OIT, Pnud, OCDE, Cepal, Unctad, BNDES, Sebrae, RITS, além de governos e outras instituições. Foi
ainda Secretário Municipal do Trabalho do Rio de Janeiro, comentarista da TV Futura e conselheiro da Brasil
Telecom. Em depoimento à Revista Paideia, ele destaca o grande paradoxo brasileiro de não ser um país pobre,
mas ainda ter uma grande população miserável. E foi este também o foco de sua palestra Pobreza e desigualdade:
A razão social do Brasil.

Qual seria a verdadeira razão social do Brasil? De que forma setores privados e sociedade civil poderiam
auxiliar o Estado nessa questão?
Tenho trabalhado sobre questões ligadas ao desenvolvimento com justiça
social. Com foco no desenvolvimento local (em particular das principais A redução da desigualdade de renda pode ser vista como o resultado de um
regiões metropolitanas brasileiras e latino-americanas) e no redesenho do processo de democratização do acesso a diferentes formas de capital (físico,
espaço público. A idéia é mostrar que o mal-estar metropolitano precisa humano, financeiro, social) e a serviços sociais e produtivos. Não há como
ser superado para que o Brasil como um todo seja capaz de avançar mais conduzir um processo deste tipo apenas a partir do Estado, muito menos
rapidamente na melhora da qualidade de vida de sua população. do Estado Nacional. Há a necessidade de redesenhar o espaço público
através de múltiplas e diversificadas parcerias (de base territorial) entre as
diferentes esferas de governo, setor privado e sociedade civil.

Como vê o descompasso entre discurso e prática sobre Haveria um prognóstico positivo em médio prazo para
políticas públicas para diminuir os índices de pobreza e o país?
desigualdade?
Há razões para um certo otimismo. As coisas já têm melhorado bastante
A discussão acadêmica certamente ajudou, e muito, a formular as nas últimas duas décadas, sob praticamente qualquer prisma que se tome
estratégias que estão na origem da queda da desigualdade verificada para analisar a qualidade de vida. Estamos aprofundando nosso processo
no Brasil desde o final da década de 1990. E ainda há de contribuir democrático, reduzindo desigualdade e pobreza, aumentando o poder
mais, melhorando a eficiência destas estratégias no médio e longo aquisitivo, o acesso à infra-estrutura, informação, escolaridade e esperança
prazos. Ainda há muito a ser feito em termos do redirecionamento do de vida das pessoas. Isto tudo poderia estar se dando de forma mais
Estado em favor dos mais pobres. Isto significa que é preciso retomar rápida, caso fôssemos capazes de completar o ciclo de reformas iniciado
as reformas institucionais, de maneira a redesenhar o Estado para que há uma década e meia. Para que o futuro venha mais depressa, precisamos
ele possa fazer frente, de forma mais eficiente, aos principais desafios da peitar o desafio de reinventar as nossas principais metrópoles e investir
atualidade, dentre os quais prima a questão da eqüidade social. mais e melhor em educação.
O Estado brasileiro continua sendo um instrumento de reprodução e
ampliação das desigualdades.

12
Cobertura da Palestra

“Temos que ser


capazes de nos
reinventar”
André Urani exorta reformas políticas e
audácia social e afirma que o brasileiro
precisa parar de esperar soluções mágicas

Somos um país de classe média alta no contexto mundial. Mais de ¾ demérito. Nosso erro é não nos tornarmos pró-ativos rumo a uma solução
da humanidade vivem em países que não têm a capacidade de gerar efetiva. “Temos que reconhecer a nossa queda e não esperar por soluções
recursos como o Brasil. Porém, não é o que vemos ou sentimos nas ruas. mágicas. Todos estamos nesse buraco e temos que tentar encontrar formas de
Isso porque ainda temos muita desigualdade social. Mais que gerar mais sair dele. Soluções não são fáceis, mas são possíveis. Não podemos imaginar
crescimento, o nosso grande desafio atual seria produzir menos diferenças. que o futuro do Rio ou de São Paulo vai ter que se moldar por aquilo que
Este foi o mote da instigante palestra Pobreza e desigualdade: A razão pensávamos que seria há 30 anos. Temos que rever os nossos conceitos. Temos
social do Brasil, que o economista André Urani ministrou em 29 de maio. que ser capazes de nos reinventar”, afirma.
Seguida de uma hora de debate com o público, ela encerrou o módulo
Logos do Ciclo Paideia, que aconteceu todas as terças-feiras do mês na “Não temos razão para ter vergonha de estarmos enfrentando problemas.
Caixa Cultural Rio de Janeiro. Eles são os mesmos que Barcelona, Turim, Milão, Filadélfia, Glasgow,
Londres, Nova Iorque, Chicago, Edimburgo e as grandes cidades do mundo
Segundo André Urani, o paradoxo de não sermos um país pobre – mas enfrentaram nos últimos 20 ou 30 anos. Mas não temos a capacidade de
termos um número ainda expressivo de pobres – exige que sejamos reconhecermos que estamos mal, ficamos bobamente jogando a culpa na taxa
capazes de nos integrar cada vez mais à economia mundial. “Temos que de juros, no fundo monetário ou no neoliberalismo. Não temos o mínimo
ser capazes de integrar mais pessoas à sociedade de consumo e ao processo de audácia para dizer ‘a responsabilidade é nossa, vamos tentar uma solução’ e
decisório da nossa sociedade. As questões que enfrentamos hoje são muito assumir o nosso destino. Estamos comendo a maior mosca”, observa.
mais complexas que as de 50 anos atrás. A economia brasileira se abriu,
privatizamos bastante e mudamos algumas instituições, mas elas deixaram Vanguarda versus decadência
de ser reformadas. É a agenda de reformas, que se tornou maldita. Falar
disso hoje é quase um tabu. Ano passado tivemos as eleições presidenciais, Apesar de ter apresentado dados e estatísticas preocupantes sobre a nossa
o candidato adversário foi derrotado e violentamente atacado pela questão realidade sócio-econômica nos últimos 50 anos, Urani tem perspectivas
da privatização. Ele não foi nem capaz de seguir com o discurso”, aponta. positivas. “Estamos sendo desafiados politicamente a assumirmos
atitudes mais corajosas e de aprofundar o processo democrático,
“Não faço parte de nenhum partido político. Quero simplesmente assumindo a questão metropolitana hoje. E enfrentar essa questão não
constatar que a agenda de reformas está órfã. Hoje ninguém tem interesse se faz na Esplanada dos Ministérios”, analisa o economista, propondo
por ela, como se não fosse necessária. Essas reformas são necessárias para a mobilização, conscientização e diálogo da sociedade em geral. “Não é
tornar a sociedade brasileira mais democrática, justa, competitiva e aberta, uma portaria ministerial. É algo que vai depender da capacidade de falar e
mais capaz de aproveitar as oportunidades que são geradas. Então por que de ouvir entre diferentes instâncias de governo, setor privado e sociedade
essa resistência?”, questiona Urani, usando a provocação como gancho civil. Todos estão sendo chamados a redesenhar o espaço público. O que
para debater sobre os mitos das impopulares reformas, injustamente está em jogo hoje nas nossas metrópoles é isso”, conclui.
acusadas de serem as responsáveis pela desindustrialização, mercado
informal de trabalho, taxas de desemprego, diminuição de salários, Durante a palestra, André Urani enfatizou a questão de metrópoles como
pobreza e desigualdade social. Rio e São Paulo como raiz do nosso paradoxo contemporâneo. “Não somos
egoístas ao colocar a questão metropolitana como central. O futuro do
Comendo mosca nosso país depende da nossa capacidade de enfrentarmos isso. Por definição,
em termos de desenvolvimento, qualidade de vida, inovação e estilo de
Em meio a isso tudo, o Brasil continua exaltado como o país do futuro. Fato vida, a vanguarda é metropolitana. No Brasil ou em qualquer outro país do
é que o futuro já não é mais como era antigamente, sobretudo nas principais mundo. Renunciar a vanguarda é aceitar a decadência. Com todo respeito,
capitais do país. André Urani propõe que se pare de olhar para o passado e não vai ser Macaé que vai imprimir estilo de vida. Temos aqui um papel
se comece a reinventar o futuro. Para ele, problemas metropolitanos não são simbólico e não dá para abrirmos mão”, encerra.

13
Artigo André Urani: A nossa razão social
“O Brasil não é um país pobre, mas um país que tem mais pobres do que seria normal de se esperar, segundo os
parâmetros internacionais, em um país com sua capacidade de gerar riquezas, porque tem, estruturalmente, um
excesso de desigualdade em relação aos demais países com grau semelhante de desenvolvimento.

Esta desigualdade tem, enfim, se reduzido de forma consistente ao longo da última década – movimento que
tem contribuído para uma significativa redução da pobreza. Não se trata de ‘discurso oficial’: os dados que
comprovam este fenômeno são fiáveis e incontestáveis.

Isto, entretanto, não corresponde à percepção de grande parte da opinião pública em


seu cotidiano. De onde vem este paradoxo? Como explicar a persistência do mal-
estar que, apesar de ‘as coisas estarem melhorando’ ainda aflige os brasileiros? E onde
podem estar as saídas?”

Pobreza desigual
Na segunda semana de setembro, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou o
estudo Miséria, desigualdade e políticas de renda: o Real do Lula, de autoria do economista Marcelo Néri.
Produzido pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ), a pesquisa conclui
que 6 milhões de pessoas saíram da linha de miséria no território nacional em 2006. Segundo analistas,
isso se explicaria por medidas como Bolsa Família e aumento do salário mínimo e do emprego formal.
Os dados mostram que houve um incremento de 7,2% na renda do cidadão. No entanto, o Brasil
continua sendo um país de contrastes. Cerca de 36 milhões de brasileiros ainda estão na miséria, a maior
parte deles concentrada num nordeste cada vez mais pobre contra um sul mais rico. E o aumento de
redução de pessoas incluídas na faixa de miséria foi mais intenso justamente nesta região próspera: Santa
Catarina foi o estado que apresentou maior redução relativa de pobres, 26,3%. Lá há apenas 4,68% de
pessoas nesta faixa social, o índice mais baixo do Brasil. Surpreendentemente, o Rio de Janeiro reduziu
em 24,8% o número de pessoas na linha de miséria e em 19,28% o número de pobres – o que equivale
a 600 mil pessoas melhorando o poder aquisitivo. Os números da Região Metropolitana do Rio, que
reúne 75% da população fluminense, são melhores que a média nacional e classificam os anos 2000
como a década da redução da desigualdade. Quebrando um ciclo vicioso de décadas anteriores e abrindo
novas perspectivas para reinventarmos o nosso impasse metropolitano.

14
Pathus - Análise

sentimentos à
f lor da pele

Pathus, o sentimento. Chegamos ao segundo módulo do Ciclo Paideia, que discutiu como a afetividade interfere
em assuntos diretamente ligados ao nosso cotidiano. Aglomerações públicas e histeria que causam tumultos,
construção das identidades pela arte e educação, intolerâncias que abalam a convivência e culminam em
conflitos, além das conturbadas relações familiares que afetam a dinâmica de toda a sociedade.

Em 05 de junho, o PhD em Psicologia Jacob Pinheiro Goldberg falou sobre a contradição das tribos urbanas.
Como a megalópole representa esperança e, ao mesmo tempo, paranóia. O isolamento do indivíduo que
pertence a um grupo. A solidão no meio da multidão. O escritor e pesquisador destacou este fenômeno como
o principal paradoxo dos habitantes das grandes cidades e dos usuários da Internet. E apontou como eles se
sentem e lidam com o efêmero e o imaginário.

Na semana seguinte, dia 12, foi a vez do autor, dramaturgo e diretor Alcione Araújo esquentar a discussão.
Discernindo sobre o papel da educação aliada à arte para a formação da subjetividade, ele observou uma crise
de valores na nossa sociedade. O que reflete na cultura e compromete toda a produção artística e cultural
contemporânea. Sobretudo quando o atual sistema educacional brasileiro valoriza a preparação para o mercado
de trabalho – e não as humanidades.

Já em 19 de junho, o psicólogo francês Yves de La Taille deu continuidade ao módulo dissecando a relação
psicológica entre moral e ética, passando pelas implicações educacionais de tal interação. O professor do
Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) acredita que a moral pertença à ordem dos deveres,
enquanto a ética à ordem da busca de uma “vida boa”. Para ele, somente respeita a moral alheia aquele que
interpreta este ato como auto-respeito – como elemento essencial de uma vida ética, que vale a pena ser vivida.
Ou, como diriam as nossas avós, “não faça com os outros o que você não gostaria que fizessem com você”.

Para encerrar o Pathus, o também psicólogo Luiz Alberto Py promoveu um debate no dia 26 sobre a vida
em família e seus reflexos na vida social. A importância do amor a partir da auto-estima e do amor paterno,
materno e filial. Vemos nas ruas o reflexo da falta deles. Segundo Py, é preciso rever a origem da “doença”
que se manifesta na nossa sociedade e dar início a um “círculo vicioso do bem”, uma vez que as pessoas mais
estimuladas com amor serão aquelas que mais terão tolerância, boa-vontade e benevolência com o outro. A
tempo: a palestra de Py aconteceu três dias depois que uma empregada doméstica foi brutalmente espancada por
cinco universitários num ponto de ônibus na Barra da Tijuca (zona oeste do Rio), mais um crime que chocou a
opinião pública nacional e nos fez refletir onde estaríamos errando na criação de nossos filhos.

15
entrevista

Jacob Pinheiro Goldberg

Geração google
Doutor em Psicologia e
psicanalista, Jacob Pinheiro
Goldberg é também advogado e
assistente social. Com dezenas de
Quais são suas recentes Qual é o principal interesse do tema sob o aspecto
livros e teses publicados no Brasil e
pesquisas sobre psicológico?
no exterior, sua atividade cultural
movimentos de massa e
tem sido aplaudida e contestada,
mobilização social? Sempre estive atento ao fenômeno da tribo urbana, por uma questão pessoal
dando margem a discussões pelo
de repulsa à organização que horizontaliza e por uma convicção filosófica
seu caráter multicultural. Escritor
Recentemente lancei um livro, de que a liberdade passa pelo espaço individual. Isso foi atestado nas últimas
e poeta, é autor de obras como
Cultura da agressividade, refletindo décadas pela desmoralização e desqualificação das utopias de coletivização.
Cultura da agressividade (Editora
sobre alguns pontos deste tema.
Landy, 2004) e A mágica do exílio:
O primeiro se refere aos grupos Houve mudanças na dinâmica das manifestações
Magia wignamia (Landy, 2003).
tendentes à horda, marginalidade, públicas em grandes centros urbanos nos últimos anos?
Foi professor convidado nas
crime, independentemente dos
seguintes instituições: University
seus cortes de classe social. O Os meios de comunicação e cultura de massa com seus avanços
College London Medical School
segundo ponto são grupos afins, tecnológicos substituíram o cômico em praça pública e as marchas de rua,
e University of Leicester e
desde a torcida de futebol até os com vantagens e prejuízos decorrentes. Basicamente, menor envolvimento
Middlesex University (Inglaterra);
clubes de serviços. E, por último, passional e ampliação da linguagem global e da participação singular. Por
Universidade Eotvos Liorand
as tribos indistintas e de tecido outro lado, há um nicho de enganos, erros e infâmia no espaço de uma
(Hungria); Universytet Jagielonski
comum – sejam religioso, cultural “cultura google”, que dá margem a superficialidade e a uma espécie de
e Universytet Warszawski
ou ideológico; permanentes ou arena sem códigos de civilidade nítidos.
(Polônia); Hebrew University
conjunturais.
of Jerusalém (Israel); École des
A solidão estaria marginalizada na sociedade
Hautes Études en Sciences Sociales
contemporânea?
(França); Aspirus Wausau Hospital
(Estados Unidos). No Brasil, foi
Defendo a tese antipática de que só a alienação pode provocar nosso
docente da Universidade de São
autêntico encontro final. E, na trilha de Fernando Pessoa ou Franz Kafka,
Paulo (USP), PUC-SP, PUC-
creio que somente na contramão dirigimos nosso destino. A tribo exalta,
Campinas, Universidade de Brasília
mas a graça é a solidão. Quem pertence a algum grupo social se perde
(UNB), Universidade Estadual
num “outro” antropofágico.
Paulista (UNESP) e Universidade
Presbiteriana Mackenzie. Ele fala
à Revista Paideia sobre um de
seus principais objetos de estudo,
o conflito, tema da palestra Tribos
urbanas, movimento de massas e
mobilização social: Silêncio e histeria
nas manifestações públicas.

16
Cobertura da Palestra

“O ser humano
em grupo mantém
individualidade”
Jacob Pinheiro Goldberg avalia a dinâmica
das tribos urbanas e promove reflexão sobre
silêncio e histeria de massas

No dia 5 de junho, o Ciclo Paideia entrou na sua segunda fase. Seu diferente é uma presença de santidade. Principalmente no Oriente existe
módulo Pathus, que pretende discutir a relação do homem consigo muito essa idéia de que o visitante é o dono da sua casa. Então esta é
mesmo e com os outros, foi aberto com a palestra do psicanalista e uma noção saudável de grupo. A minha suspeita é quanto à informação
autor Jacob Pinheiro Goldberg, intitulada Tribos urbanas, movimento da tribo. Há risco e perigo desse apego a essas uniões que se estabelecem
de massas e mobilização social: Silêncio e histeria nas manifestações em cima de tribo. Por exemplo, os pitboys. Uma tribo que durante o dia
públicas. Foram quase duas horas de reflexões na Caixa Cultural Rio sequer tem elementos comuns, mas à noite sai para bater e quebrar”,
de Janeiro sobre a luta pela subjetividade em meio a coletividade continua, distinguindo o conceito de grupo e tribo.
imposta socialmente.
Histeria e assimilação
“Nós nos situamos diante de uma bipolarização: o apelo do público e
o desespero do privado; a angústia do íntimo e a proposta do estímulo; Jacob Pinheiro Goldberg também aborda a histeria de fãs por ídolos
aquilo que nós temos por dentro e nos verticaliza e aquilo que sugere o carismáticos. “Gosto muito da expressão ‘pregnância’. É como se fosse
achatamento”, aponta Goldberg, acreditando que as megalópoles e as uma contaminação mesmo, sabemos que existem esses processos de
novas tecnologias têm papel fundamental nesta dinâmica. “A megalópole contaminação. E é interessante porque a histeria se estabelece tanto em
é um mundo de imigrantes e de peregrinos, um universo flutuante que linguagem de ódio quanto de amor. Você pode desencadear isso até para
desemboca na Internet. Aonde se confunde o virtual, a concretude e a vitimologia total, com vontade de morrer, como também o inverso, um
o abstrato. O simbólico e o imaginário. É da rede extraordinária que amor coletivo que chega ao orgásmico. Acho que isso faz parte da psiqué
nos promete a cada instante o mundo da fantasia. Não por acaso os humana. E dos códigos que ficam nessa linha tênue entre o racional,
programas de TV de maior audiência no mundo são aqueles projetivos, aquilo que é perceptível, e o irracional, aquilo que nós temos de mais
que encerram num universo fechado todo o hedonismo possível e infantil, que é um apelo permanente aos sentimentos mais primitivos. O
imaginário”, afirma. mesmo grupo que é capaz de aplaudir, agradar e se prostrar, é capaz de se
revoltar. Algo absolutamente xamânico”, define.
A mensagem do não-dito
No debate com a platéia, que contou com a presença da apresentadora de
Para o renomado psicanalista mineiro, ao se analisar o fenômeno de TV Maria Paula e seu marido, o compositor João Suplicy, foi levantada
tribos urbanas, uma das principais abordagens é o respeito da hierarquia ainda a questão sobre a assimilação das diferenças. Goldberg explica que
da exposição e o silêncio existente nesses grupos. “Para resistir, as tribos segmentos mais conservadores da sociedade têm incorporado minorias a
precisam muito do não-dito. O não-dito é muito importante porque em fim de sobreviver. “Existe um conceito do bode-expiatório, de que toda
grande parte é nele que existe a proteção contra o medo. E implica numa sociedade precisa dele. Contemporaneamente isso está sendo substituído
sensação de continuidade que na espécie freqüentemente se manifesta na quando notamos o ‘orgulho negro’, ‘orgulho gay’, ‘orgulho feminino’,
necessidade geracional, a vontade de ter filhos e de prosseguir”, defende. o orgulho de grupos antes tidos como minoria. O que me parece é que
grupos mais conservadores estão sendo obrigados a fazer concessões e a
“O ser humano mergulha em grupo para manter a sua individualidade. aprender a conviver com aquilo que existe dentro deles. Se não fosse isso,
A palavra ‘interesse’, etimologicamente, é inter-esse, que quer dizer ‘estar eles se explodiriam. Então é uma forma de se compor consigo mesmo.
entre’ ou ‘estar com outro’. E em muitas religiões primitivas a idéia do Essa pode ser uma grande lição democrática”, completa.

17
Artigo Jacob Pinheiro Goldberg:
Apartheid nas megalópoles
“As igrejas e grupos de superstição usando TV e rádio, manobrando multidões de centenas de milhares
de fiéis, explorando a crendice, com o uso de voto de aluguel, sistema de saúde e educacional, estrutura
espiritual. A disputa pela imaginação histérica do desespero, principalmente na periferia, induz inclusive as
instituições tradicionais a cederem aos espetáculos mágicos de persuasão, pelo instrumental de apresentadores
de TV arrebatados pelos índices do Ibope. O milagre prometido na Terra do desamparo. As escolas públicas
entregues a violência de alunos que chegam a estuprar professoras, as escolas particulares, na caça competitiva
do lucro, numa permissividade que celebra o analfabetismo e a boçalidade. O sistema de ensino, retrógrado e
ultrapassado, que paga salários miseráveis aos professores.

A medicina sucateada, com raras e riquíssimas ilhas de excelência, pelos sofisticados jogos de exploração
sistemática, armados por convênios, laboratórios e a indústria farmacêutica, levando doentes ao medo e
profissionais ao desinteresse pela pesquisa e desenvolvimento científico, na vizinhança da proletarização.

As famílias abandonam as ruas, principalmente à noite, ao vazio, com receio do assalto. Crianças e adolescentes
sem alternativa de esporte e lazer, a não ser uma TV pornográfica e comercializada até a desbragada apologia de
produtos de uso condenável, com a linguagem rasteira da sedução do sexo, principalmente o corpo feminino.

A droga como mercadoria de contato entre o crime organizado e a sociedade sem perspectivas.

Este esgarçamento de códigos e pautas de civilidade, convoca um apartheid emocional, que pode ser sintetizado
na figura anedótica, a sensação de cego no meio do tiroteio. O individualismo mal-disfarçado, em gangues
conjunturais. Torcidas de futebol, tietes de funk e rappers, ricos freqüentadores das
colunas sociais e academias de musculação, gerontocracia contra jovens, jovens
desprezando os mais velhos, homens contra mulheres. A paranóia que escolhe eles
como o inimigo. A culpa deles, sempre o outro, diferente, desconhecido, vizinho.

Megalópoles em que a lógica da convivência foi substituída pelo conflito, obrigando


o mais frágil à frase ditada numa entrevista no Parque do Ibirapuera. Moça de 28
anos de idade, babá pernambucana, humilde. Perguntada disse que era bem tratada
pela patroa. ‘Como igual, como ser humano?’. Dos olhos baixos, desce, devagar uma
lágrima. ‘Eu conheço o meu lugar’. Que a maioria começa a desconhecer.”

Tumultos em aglomerações
Shows e jogos geralmente ganham as manchetes dos jornais por motivos menos nobres que a qualidade do
som ou o resultado da partida. Não raramente estas aglomerações de jovens exaltam os ânimos da platéia
e terminam em tumulto. Pancadaria e quebra-quebra que podem até ter conseqüências ainda mais graves,
como em dois episódios que aconteceram no primeiro semestre de 2007. Em abril, um torcedor de 15
anos foi morto a tiros em Goiânia (GO), logo após o jogo de futebol entre Goiás e Vila Nova. De acordo
com a Polícia Militar, a vítima estava em meio a um grupo de torcedores do Vila Nova em um terminal
de ônibus quando houve um tumulto entre as torcidas e um homem ainda não identificado atirou pelo
menos três vezes. O rapaz foi atingido na cabeça e morreu na hora. Outras duas pessoas foram baleadas,
mas tiveram alta na mesma semana. No mês seguinte, em São Paulo, terminou em grande confusão o
show do grupo de rap Racionais MCs na Virada Cultural, em São Paulo. Tudo começou por volta das
4h50, quando fãs subiram em uma banca de jornal na Praça da Sé e a PM exigiu que saíssem. A Força
Tática entrou em ação, atirando balas de borracha e bombas de efeito moral enquanto a apresentação
ainda acontecia. A reação do público veio na forma de pedradas e garrafadas. E a violência se alastrou para
outras ruas do centro por volta das 5h30, continuando ao amanhecer. O saldo foi de cinco pessoas feridas,
11 detidas, um carro depredado e outro incendiado.

18
entrevista
Alcione Araújo
Ciências mais humanas
Alcione Araújo é escritor,
dramaturgo, roteirista de cinema
e TV e cronista semanal do Jornal
Estado de Minas e da Revista
Democracia Viva. Ex-professor
universitário, pós-graduado em
Filosofia, escreveu 13 peças teatrais,
entre elas Vagas para moças de fino
trato, Doce deleite, Em nome do pai,
A prima-dona e Muitos anos de vida
– esta última lhe rendeu o Prêmio
Molière de Melhor Autor em 1984.
Sua obra teatral está publicada
em três volumes, pela Editora Qual é o espaço para a subjetividade na sociedade Em artigos, você defende
Civilização Brasileira. Roteirizou vigiada de hoje? que o principal destinatário
ainda 12 filmes, com destaque da política cultural deveria
para Nunca fomos tão felizes; Entenda-se subjetividade como intangível realidade psíquica, emocional ser o povo, não artistas e
Jorge, Um brasileiro; Patriamada; e cognitiva do ser humano. A intangível e dinâmica interatividade entre autores. Como isso poderia
e Policarpo Quaresma, Herói do um indivíduo e o outro ou entre o indivíduo e a sociedade impõe ações ser feito?
Brasil. Ganhou os prêmios Kikito e reações às mudanças mútuas – e uma sociedade vigiada é uma brutal
e Candango de Melhor Roteirista alteração ao sentimento de liberdade. Cuidado com o andor: o santo
nos festivais de Gramado e é tão delicado que pode se
Brasília, respectivamente. Seus Haveria uma crise de valores na cultura brasileira desvanecer. Digo: o que respalda
textos seguem os mais diversos contemporânea? eticamente o Estado fomentar a
formatos. Assinou a telenovela produção cultural, não é o fato
A Idade da Loba (Bandeirantes, A crise de valores está na sociedade e, por conseqüência, na cultura; de ser o artista um semideus que
1995), o romance Nem mesmo todo entendida aqui no sentido estrito da criação artística e fruição estética, produz o sublime – é um artigo
o oceano (Editora Record, 1998, não no sentido antropológico genérico. No entanto, há uma crise da Constituição que assegura ao
finalista do Prêmio Jabuti em 1999) particular no âmbito estrito da produção cultural, que se relaciona de um cidadão o Direito de usufruir o
e os livros de crônicas Urgente é lado com a educação, a escolarização e do entendimento da arte como bem cultural. E quem produz
a vida (Record, 2004, vencedor valor humano capaz de vascularizar a subjetividade; de outro, com a o bem cultural é o artista.
do Jabuti na categoria Contos e perda da importância da arte e da cultura na sociedade. Compreendida esta lógica básica,
Crônicas em 2005) e Escritos na fica mais simples perceber a quem
água (Leitura, 2006). Atuante devem servir as políticas públicas.
no cenário intelectual brasileiro,
faz conferências, seminários e O que pensa sobre o espaço democrático que a Internet De que forma avalia a
palestras no Brasil e no exterior. oferece para novos cineastas e escritores? hegemonia do debate na
Com conhecimento de causa, imprensa sobre patrocínio
ele critica à Revista Paideia os A Internet é um abismo que mal foi desvelado, campo aberto a e leis de incentivo, em
rumos da educação e cultura no qualquer especulação, que estreitou o mundo e tornou a informação detrimento da discussão
Brasil, objeto da sua conferência tão acessível que banalizou a obsessão pela novidade. A questão de ser cultural?
Dimensão da arte e construção das ou não democrática é incerta e irrelevante. Para bem utilizar a Internet
identidades: Transgressão ou função?. é preciso ter algum discernimento – e o acesso ao discernimento não é Bem, não há debate sobre cultura
democrático. porque o entretenimento ocupou o
lugar da cultura. No lugar das idéias,
Como vê a Educação no Brasil hoje e quais seriam os modas; no lugar de intelectuais,
caminhos para as escolas ajudarem na formação de comunicadores; no lugar de artistas,
público? celebridades; é assim que a banda
hoje toca. Criadores, de fato, e
Se as escolas educassem para a vida, em vez de meramente adestrarem pensadores, de verdade, se refugiam
para a produção, resgataríamos as “humanidades”, ou sejam, as nos fundos sombrios das cavernas
possibilidades do sentir e do pensar, sepultadas pela urgência de produzir. ou relembram com nostalgia a
irrecuperável Paideia grega!

19
Cobertura da Palestra

“Há uma esquizofrenia


entre educação e cultura”
Alcione Araújo disseca a importância da arte para a
subjetividade e denuncia conseqüência da cisão entre
cultura e sistema educacional

“A arte é indispensável. Se, ao menos, soubéssemos para quê?”. Foi a partir Duas bombas
desta citação de Jean Cocteau que o autor, dramaturgo e diretor Alcione
Araújo começou sua aclamada palestra Dimensão da arte e construção das Alcione Araújo investiga as origens do sistema educacional brasileiro e em
identidades: Transgressão ou função? do Ciclo Paideia em 12 de junho, que momento houve uma dissociação entre educação e cultura. Para ele,
na Caixa Cultural Rio de Janeiro. Para o conferencista, a arte não seria duas bombas provocaram essa cisão: a entrada do modelo educacional
do domínio dos artistas – e sim uma necessidade humana. “A arte é tão americano e a indústria do entretenimento. “Quando se constrói o império
indispensável quanto é o amor, a morte, a fé e os sonhos. Porém, ela americano, o modelo educacional brasileiro cruza o Atlântico da França para
não é capturável para um objetivo, a percepção da arte é uma percepção os Estados Unidos. Largamos toda aquela riqueza impressionante da Europa
subjetiva que eu tenho daquela organização de idéias, necessidades, e fomos reproduzir o modelo americano que, naquele momento tinha como
palavras. Inteiramente subjetiva”, defende, pouco antes de analisar a falta de referência básica a tecnologia. Biologia, física, matemática, nada contra.
demanda por arte nos dias de hoje. Apenas que, devido a circunstâncias sociais, o nosso modelo passa a abrigar as
ciências e tirou do curso as disciplinas chamadas de humanidades. A educação
Alcione lembra que o papel da arte não é de mero enriquecimento da abriu mão daquilo que leva ao pensamento e à sensibilidade. E deu ênfase a
subjetividade. Mas é a partir dela que surge a democracia plena. “Porque tudo que é tecnológico”, explica.
você está explicitando o desejo oculto de um sujeito objetivo. A democracia
é a convivência do plural, que não necessariamente precisa estar dentro da “Somos 190 milhões de brasileiros. Desses, 62 milhões estão envolvidos com
moldura simplória de um partido. Ele pode não ser um partido, inclusive. educação, é a população da França inteira. Mas um romance no Brasil tem
Trata-se de estar no mundo na sua plenitude de ser humano, de indivíduo a tiragem de 3 mil exemplares, o número de moradores de um conjunto
e de cidadão. O cidadão não é pleno se o indivíduo não o for. Portanto habitacional! Há uma esquizofrenia entre educação e cultura. A educação sem
a subjetividade é muito mais um fundamento do pleno exercício da as humanidades, sem o pensar e o sentir, se transformou em adestramento para
democracia, aceitando as vitórias e as derrotas. Mas não ocultando o seu a produção. As pessoas entram nas universidades para aprender truques para
direito de sê-lo como é, exercer-se na plenitude do que é. E não encapsular- arrumar um emprego. E elas não têm culpa disso. As pessoas não têm nenhum
se nas molduras pré-formadas de alguém que construiu um projeto, não interesse pela arte porque ninguém nunca disse para elas que é importantíssimo
necessariamente seu”, aponta. para a sua subjetividade. Não vai aumentar salário, mas ela vai ser uma pessoa
melhor para ela mesma, para a realização dos seus próprios desejos, para aquilo
Arte para todos que ela entende como sua felicidade pessoal e individual”, esclarece.

O dramaturgo faz questão de enfatizar que a arte não é algo hermético Para o dramaturgo, a segunda bomba que distanciou cultura e educação foi a
e destinado apenas aos ‘entendidos’. Muito menos exigiria pressupostos. indústria do entretenimento. “Nos anos 60, houve um esforço de diálogo entre
“Não posso negar, evidentemente, que alguém que saiba, pelo instrumental cultura tradicional e cultura popular. Mas a ditadura percebeu que havia algo
de cultura, absorverá mais e melhor a arte. Mas isso não significa que muito grave, que era a aproximação das elites com as classes populares, e bloqueou
aquele que vê pouco não possa ver. Eu vejo o mundo com os meus olhos. completamente. Foi um aborto no nascedouro. Aí a televisão entra no Brasil e
Se eu desenvolver uma pedagogia do olhar, eu verei mais sobre o mundo”, ocupa o espaço vago entre essas duas culturas. Contamina de um lado a cultura
compara, observando o fenômeno da transcendência que a arte oferece de espírito e de outro a cultura popular. Regredimos do ponto de vista da Semana
ao homem. “A arte é capaz não apenas de expandir a subjetividade, como de Arte Moderna, do movimento dos anos 60 e da nossa capacidade de sentir e
também de oferecer essa experiência de sair desse mundo e entrar na obra pensar. Voltamos a um grau primário, estamos lidando com emoções primárias.
irreal e ficcional. É uma experiência muito profunda”, diz. Hoje a juventude reage como os personagens das telenovelas e têm a televisão
como os seus valores. Nós nos afastamos da criação. Temos um país que está cada
Mas por que, então, haveria hoje uma demanda cada vez menor por arte vez mais empobrecido, medíocre na sua criação cultural”.
no Brasil? Uma das origens seria a infeliz coincidência de o tardio interesse
do Estado pela educação ter sido contemporâneo à corrida tecnológica “Pode dar impressão que eu esteja demonizando a televisão. Se ficarmos
mundial. “O Brasil proclama a República em 1889 e vai começar a discutir demonizando coisas, não vamos entender um fenômeno que é muito mais
a idéia de escola pública só nos anos 1930! Era muito tarde. E nos anos complexo. Quem pode mudar esse processo, é a educação e a cultura. É a
1950 surgiu a idéia de que a tecnologia estivesse embutida na construção educação que gera consciência e sensibilidade. Mas a sociedade brasileira não
dos impérios econômicos. A tecnologia passou a ser algo fundamental e tem a educação como um valor em si, ela usa a educação para chegar a um
essencial para os estados, algo capaz de gerar os empregos. Portanto, ela emprego. Os intelectuais não têm mais nenhum papel na sociedade brasileira.
não só trazia o poder, como era capaz de resolver um problema social. Os O intelectual, o humanista, desapareceu. Ele não está na mídia, ele não está
americanos assumem isso à frente e começam a construção do império que na academia, ele não está em lugar algum. Provavelmente ele está trancado
nós conhecemos hoje”, situa. em casa sem ter com quem conversar porque está isolado. Subjetividade,
agregar a sua vida a outras vidas, isso quem estimula ou é a família ou é a
educação. Só que o Brasil é um país sem família e sem educação”, denuncia.

20
Tardia e falha
O sistema educacional brasileiro começou a ser efetivamente delineado apenas em 1930, com a criação do
Ministério da Educação e Saúde. Dois anos depois, foi publicado o Manifesto dos Pioneiros da Educação
Nova, liderado por Fernando de Azevedo (1894-1974) e assinado por 26 educadores, entre eles, Anísio
Teixeira (1900-1971). O documento defendia o ensino integral, público, laico e obrigatório. Surgia, assim, o
nosso modelo de escola pública, ratificado em 1934 graças à Constituição Federal, que instituiu pela primeira
vez a educação como direito de todos. Os saberes escolares se voltaram para conhecimentos científicos e
comportamentais, baseados em valores morais e os currículos privilegiam temas relacionados à higiene e aos
cuidados com a saúde. No entanto, o golpe do presidente Getúlio Vargas em 1937 interrompeu mudanças
educacionais que vinham sendo discutidas. Em contrapartida, surgiu um impulso na formação do magistério.
Entre 1942 e 1946 foi estabelecido o ensino profissionalizante mantido pelo Estado e pelas indústrias. Já em
1961, acontece a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
(LDB), que determinou o fim dos exames de admissão para o colegial, tornando
a escola aberta e não mais obrigatória para quem concluísse o 4º ano Primário. E
começou, então, a lenta decadência da escola pública – antes reconhecida por sua
excelência. Dez anos depois, houve uma nova reforma dos ensinos Fundamental e
Médio, ampliando a obrigatoriedade do ensino de quatro para oito anos. Uma parte
do currículo passou a contemplar a educação geral e outra, conteúdos específicos
para habilitação profissional. A partir daí, preparação para vestibular e mercado de
trabalho passaram a ser o foco do ensino. E a escola brasileira sonhada pelo educador
Paulo Freire, valorizando a cultura do aluno para sua conscientização política e
aprendizagem, ainda está longe de ser implantada.

Cultura lucrativa
Chris Smith, ex-ministro da Cultura da Inglaterra entre 1997 a 2001, visitou São Paulo em maio de
2007 a convite do British Council. Um dos principais responsáveis em transformar política cultural
em prioridade de governo e grandes investidores, Smith conseguiu que lucros da loteria do governo
financiassem as artes e instituiu entrada franca nos museus londrinos. Hoje a cultura movimenta 7% do
PIB inglês e, só em Londres, a chamada indústria criativa já é a segunda mais importante – perdendo
apenas para o mercado financeiro. Em entrevista ao Jornal Folha de S. Paulo, o ex-ministro inglês
destacou a importância de incentivar o financiamento, a Responsabilidade Social e o valor cultural. Smith
ainda aproveitou para alfinetar a Lei Rouanet. “Isenções fiscais podem ser uma boa idéia, mas deixam
inteiramente ao mercado a decisão de quem ganha patrocínio. Até certo ponto, isso pode ser bom, mas
também significa que trabalhos novos, audaciosos ou menos conhecidos terão dificuldade para conseguir
apoio. O que buscamos é um sistema de financiamento misto”, propôs. E o britânico não poupou os
PAOLA SANSÃO
nossos dirigentes. “Notei que os dirigentes culturais no Brasil trocam a toda hora, de acordo com o clima
político. Nessa área, você precisa de estabilidade, fazer coisas em médio prazo. Também faltam camadas
de profissionais da cultura que dirijam departamentos sem critérios políticos”, afirmou. Para ele, as saídas
possíveis seriam detectar talentos (“precisamos pensar em como o sistema educacional pode descobrir
talentos e preparar carreiras criativas”) e tornar a cultura uma espécie de ímã para as metrópoles brasileiras
(“a vida cultural beneficia as cidades. Quanto mais vibrante a vida cultural, mais ela atrai pessoas que
querem morar e trabalhar lá, o que provoca um efeito positivo no mundo dos negócios”).

21
A moral da educação
Yves de La Taille
entrevista

Yves de La Taille é pesquisador


em Psicologia e professor titular
do Instituto de Psicologia da
Universidade de São Paulo (USP).
Francês radicado no Brasil, é ainda
especialista em Psicologia Moral e
sua aplicações à educação moral e já
escreveu livros como Piaget, Vygotsky
e Wallon: Teorias psicogenéticas (em
co-autoria com Heloysa Dantas e
Marta Kohl de Oliveira, Summus
Editorial, 1992), Limites: Três
dimensões educacionais (Editora Ática,
2002); Vergonha, a ferida moral:
Ensaio sobre a moralidade (Vozes,
2002); Nos labirintos da moral (com
Mario Sergio Cortella, Papirus,
2005); e Moral e ética: Dimensões
intelectuais e afetivas (Artmed, 2006).
Recentemente tem dedicado suas
pesquisas a uma possível diferença Haveria nas escolas brasileiras um verdadeiro empenho Que tipo de personalidade
entre moral e ética e ao sentimento pelo desenvolvimento humano? estamos construindo
de vergonha, levando-o à conclusão
de que os seres humanos agem para as futuras gerações?
moralmente somente se tal ação for
Depende das escolas, é claro. Conheço algumas, públicas e privadas, E o que seria a ética do
coerente com as repostas que dão no
para as quais a resposta é claramente afirmativa. Infelizmente, não creio possível?
que elas representem a maioria. Muitas escolas têm preferido limitar-
plano ético. E é sobre isso e sobre
se a formar alunos aptos a brigarem pelas melhores faculdades e serem É difícil saber. Mas uma coisa
o tema de seu debate Convivência,
empreendedores de sucesso no mercado de trabalho. O resto, para elas, me parece certa: elas não
intolerâncias e conflitos urbanos: Novas
não importa. Note-se que freqüentemente são os próprios pais que estão felizes. Há sinais dessa
gerações e a ética do possível que ele
conversa com a Revista Paideia. querem e reforçam essa opção. infelicidade, que, aliás, acomete
também os adultos. Há sinais
como a busca incessante de
divertimento, essa forma atraente
Como mídia, violência e dissociação da família podem Com tantas falhas na de “esquecer da vida”. Há sinais
interferir na educação moral? educação regular, a como o consumo de drogas,
educação moral tem sido cuja produção emprega milhares
A educação das crianças e dos jovens depende não apenas da escola, mas considerada supérflua? de pessoas e movimenta somas
de todos os ingredientes da sociedade na qual vivem. A mídia tem grande astronômicas de dinheiro. Há
papel na hipertrofia de valores como vitória, sucesso e glória: afinal, Novamente, depende das escolas. sinais como o uso e abuso de
são as pessoas famosas que lá aparecem e que desejariam que todos os Mas, em linhas gerais, a maioria bebidas alcoólicas, cada vez
simples espectadores formassem uma grande massa de fãs. A violência, abdicou de realizar um trabalho de mais precoce. Há sinais como
que a própria mídia tanto divulga e, logo, banaliza, acaba pouco a pouco educação moral. Extinguiu-se, com a forte presença da depressão,
corroendo os princípios morais que a ela se opõem. Seu pior efeito é razão, a famosa e triste “Educação notadamente entre jovens. E há o
causar desconfiança e, logo, o medo. Mas desconfiança no que? Ora, na Moral e Cívica”, mas nada se sinal maior: a grande freqüência
existência de um senso moral nas pessoas. Numa sociedade vista como pôs no lugar (embora exista de suicídios entre eles. O suicídio
virtualmente violenta, fica bem mais difícil permanecer legitimando a uma proposta de trabalho nos costuma ser motivado pela
moralidade e fica bem mais difícil também convencer os jovens de que Parâmetros Curriculares Nacionais, falta de sentido da vida. Ora,
ela é importante. Alguns acabam por vê-la antes como problema do que que pouca gente conhece e menos não há ética, não há felicidade
como solução. E quem, entre outras instituições, deveria dizer em alto e ainda usa). O paradoxo é que os possível sem sentido para a vida.
bom som que a moral é importante são os pais. Mas onde estão eles? professores se queixam de falta de E se muitos jovens estão nessa
limites, de serem desrespeitados, situação de ‘penúria existencial’, é
Ética, moral e tolerância com as diferenças seriam de haver violência na escola! Ora, culpa dos adultos, é culpa nossa.
valores considerados relevantes pelos jovens de hoje? moral se aprende e se ninguém Ética do possível? Penso ser ainda
fala claramente nela, se ninguém possível construir uma sociedade
Realizei uma pesquisa junto a mais de cinco mil alunos do Ensino Médio a ensina, é claro que a sua falta se que se inspire nessa bela
da Grande São Paulo. Numa das perguntas, eles deveriam escolher entre faz sentir de forma cruel. A saída definição de ética formulada pelo
algumas virtudes, dizendo qual a mais importante para a sociedade. Eram ilusória de certos professores é filósofo francês Paul Ricoeur: “a
elas tolerância, justiça, competência profissional e responsabilidade. Venceu colocar a culpa na família, e de perspectiva ética é a perspectiva
a justiça e a tolerância ficou em último. Tal resultado, que coloca a justiça, certos pais de colocar a culpa de uma vida boa, para e com
virtude moral incontornável, no topo, é animador. Acrescentaria que, para na escola. Com essa flagrante outrem, em instituições justas”.
viver com as diferenças, justiça é mais importante que tolerância, que às “desresponsabilização” temos a Felicidade, portanto, mas uma
vezes associa-se à indiferença. Para ser tolerante, preciso antes ser justo. sociedade que merecemos. felicidade na qual o outro tenha
Tomemos o exemplo dos negros. O que precisam não é de tolerância um lugar, lugar pela cooperação
por parte das outras pessoas, é de justiça, para não serem discriminados, (com o outro), pela generosidade
rebaixados. A justiça nos fornece critérios para avaliar as diferenças. Sem (para o outro) e pela política
critério, posso ser levado a tudo tolerar, a tolerar até o intolerante. (instituições justas).

22
Cobertura da Palestra

“Politizaram a moral
e acabaram com ela”
Yves de La Taille afirma que a sociedade
criou cultura do tédio fomentada por pais
ausentes e acusa que moral tem sido politizada

Uma sociedade cada vez mais idosa, onde os mais velhos se ausentam e os depressão? É a ausência de sentido da vida. O consumo de drogas e
mais jovens têm voz. Adolescentes que recebem contraditórias mensagens de álcool é altíssimo entre os jovens e, pelas estatísticas, há um pico de
sobre moral e ética da sua família, escola e mídia. Este é o cenário que suicídios. Portanto, não somos uma sociedade feliz. É tanto álcool, é tanta
foi debatido pelo pesquisador de Psicologia da Universidade de São droga, tanta depressão, que estamos vivendo uma Cultura do Tédio. Tédio
Paulo (USP), Yves de La Taille. A conferência intitulada Convivência, é não conseguir dar sentido ao tempo. Quando tenho tédio, o que faço?
intolerâncias e conflitos urbanos: Novas gerações e a ética do possível Corro para me divertir. É uma forma de passar o tempo esquecendo.
aconteceu em 19 de junho para uma platéia lotada no auditório da Caixa E, ao meu ver, não é por acaso que temos essa enorme indústria do
Cultural Rio de Janeiro, como parte do módulo Pathus do Ciclo Paideia. divertimento. Necessidade de ir para a balada, de atender o celular,
necessidade de toda hora estar falando com alguém”, conclui.
“A matéria Educação Moral e Cívica foi extinta, que Deus a tenha.
Porém cada professor é obrigado a falar de moral. Só que cada um fala Visibilidade e silêncio
uma coisa e a criança fica totalmente desorientada. Há um analfabetismo
moral instalado hoje. A sociedade não trabalha a questão moral. Pior Yves de La Taille cita Aristóteles para mostrar a importância entre o
ainda, às vezes trabalha contra e passa mensagens contraditórias, como conceito de vida boa e moral: “pior é ser injusto ou ser injustiçado?”. “Há
nas campanhas publicitárias. Não estou dizendo que a propaganda seja apenas uma resposta moral e ética: pior é ser injusto. Mas, cá entre nós,
má, mas muitas passam mensagens de conflito”, denuncia o psicólogo. será que a nossa sociedade não tende a pensar o contrário? Ser o perdedor,
“A bandeira da moral é classicamente de direita. Trabalho, propriedade, o loser, na nossa sociedade é a maior humilhação. Por isso muitas pessoas
família. Por isso a esquerda fugiu da moralidade. Mas ética não é política, são violentas. Não porque não tenham limite ou porque são pobres e
é universal. Politizaram a moral e acabaram com ela. Na verdade, é uma precisam sobreviver. O tráfico de drogas não atrai exclusivamente pelo
grande desonestidade. Qualquer partido que se diga o grande criador da dinheiro, mas pela visibilidade. Para um garoto pobre ter visibilidade
ética está mentindo, porque a ética não é uma questão política”, continua. social, ele tem que causar medo. Então o problema não é pregar o
conceito de moral para uma pessoa dessas, mas que não há o conceito
Cultura do Tédio de uma vida boa. O projeto de vida boa é ético, com cooperação e
generosidade. Infelizmente, na nossa sociedade, vida boa é sem o outro e
Para Yves, que é especialista em Psicologia Moral, uma pessoa só se contra o outro e fora da justiça”, dispara.
submete à lei e às regras de convívio se elas fizerem sentido para o que se
considera uma “vida boa”. Caso contrário, a probabilidade de haver senso “O papel da família é se indignar. E nós adultos estamos muito
moral é nula. “Uma pessoa sem sentido na vida é uma pessoa que não dá quietos, muito parados, muito silenciosos. Nunca vi tanto velho no
mais significado à vida. A própria vida deixa de existir. Portanto ninguém mundo e nunca eles estiveram tão ausentes. Quem domina o mundo
se mata por uma questão epistemológica, mas quando a vida deixa de são os jovens. Estamos vivendo uma ausência do adulto em geral.
fazer sentido. Quando a pessoa não sabe porque acorda de manhã, porque Somos os famosos ‘pais ausentes’. Antigamente o pai ficava o dia
vai jantar, porque vai acordar de novo no dia seguinte, isso é uma porta inteiro fora, não cuidava dos filhos como hoje, e ele era muito mais
aberta para uma vida infeliz. Não necessariamente leva ao suicídio, mas presente que o pai de hoje. Lembra daquela famosa frase ‘você vai
pode levar a um suicídio em pequenas doses”, diz. ver quando o seu pai chegar’? Nada mais letal, nada mais perigoso
para a educação moral e ética de uma criança que ela reparar que em
“Vivemos num mundo fragmentado, de pequenos eventos e pequenas casa existe um discurso contrário. O exemplo das pessoas próximas
urgências. Hoje é mais importante esquecer que aprender. Das doenças convence que o valor é humanamente possível. É raro? É, mas é
mentais, a mais generalizada do mundo é a depressão. O que é a possível”, completa, otimista.

23
Valores dos jovens de hoje
Entre os meses de março e abril de 2005, Yves de La Taille e sua esposa Elizabeth Harkot de-la-Taille
coordenaram a pesquisa intitulada Valores dos jovens de São Paulo, financiada pelo Instituto SM para a
Qualidade Educativa (ISME) e aplicada e tabulada pelo Instituto de Desenvolvimento, Investigação e Avaliação
Educacional (IDÉIA). O objetivo era comprovar o reflexo do chamado “fim das utopias” nas novas gerações
e procurar entender suas causas a fim de guiar políticas públicas para a educação de crianças e jovens. Foram
consultados 5.160 alunos de instituições de Ensino Médio da Grande São Paulo, sendo 2.160 de instituições
particulares e 3 mil de públicas. A idade média dos alunos entrevistados é de 15,76 anos. No total, 10,3% dos
alunos têm 14 anos; 32,6%, 15 anos; 32,8%, 16 anos; 20,7%, 17 anos; 2,8%, 18 anos; e 0,8% tem mais de 18
anos. É importante notar que os resultados do estudo não foram influenciados pela atual crise política brasileira,
uma vez que os questionários foram aplicados antes das primeiras denúncias do mensalão. Os resultados são
surpreendentes. E, no que tange ao “vazio do sentido”, a pesquisa conclui que “o jovem parece desertar o
espaço público e recolher-se no espaço privado, pois ele não confia nas instituições
de poder, tampouco parece confiar no outro ‘anônimo’, antes visto como adversário
e agressor do que como aliado e desejoso de cooperação. Para além das fronteiras do
espaço privado, da família e dos amigos, o mundo aparece como ameaçador, como
não digno de confiança, como estranho. Ora, como tanto o progresso da sociedade
quanto a realização de uma vida que valha a pena ser vivida dependem das esferas
públicas e dos demais membros da sociedade, íntimos ou não, podemos inferir um
certo mal-estar no jovem de hoje”.

Educação Moral e Cívica


Em 1969, o Decreto Lei 869/68 instituiu as disciplinas de Educação Moral e Cívica no Ensino Primário,
Organização Social Política Brasileira (OSPB) no Médio e Estudos de Problemas Brasileiros (EPB) no
Superior. Com isso, o civismo na educação ficou diretamente associado ao regime militar. Apresentações
solenes e hasteamento da bandeira demonstravam a ordem estabelecida, em contraste com o movimento
das ruas. A partir de 1985, com a redemocratização, houve uma aversão à exaltação de valores e símbolos
nacionais. E, em 1992, as disciplinas de OSPB e EPB deixaram de ser obrigatórias. No entanto, na
década de 2000, profissionais da educação reconheceram a importância de implantar uma disciplina
moral que seja dissociada a movimentos políticos de direita. No Diário Oficial de 10 de agosto de 2007
foi publicada a lei nº 14.472, aprovada pelo prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, que estabelece a
inclusão de conceitos de ética e cidadania no currículo dos ensinos fundamental e médio nas escolas
municipais paulistas. Entre os temas sugeridos, estão: quebra de tabus sobre orientação sexual, respeito
a diferentes grupos sociais e valores ditos “fundamentais”, como “respeito mútuo, solidariedade, justiça
MANOEL SILVA - SXC
e diálogo”. Embora a Lei de Diretrizes e Bases já previsse que esses temas fossem tratados nas escolas, a
prefeitura alega que o objetivo deste decreto seja “propiciar aos educandos a possibilidade de apreensão
crítica da realidade e o convívio social para sua plena participação cidadã”. Hastear a bandeira do Brasil e
cantar o Hino Nacional serão atividades semanais obrigatórias para professores, alunos e funcionários das
escolas municipais de SP. As instituições ainda participarão da “Campanha Cívico-Educativa da Bandeira
Brasileira”, entre 05 e 19 de novembro de 2007. Será selecionada uma comissão de técnicos para realizar
as atividades, que incluem bibliotecas e medalhas como prêmios.

24
De pai para filho
Luiz Alberto Py

entrevista
Naturalidade ao tratar de tabus e assuntos complexos. Esta é a marca do psicanalista
Luiz Alberto Py, médico graduado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ), com especialização em Psiquiatria. Também é psicanalista pela Sociedade
Brasileira de Psicanálise de São Paulo; analista didata da Sociedade Brasileira de
Psicanálise; MFCC (Marriage, Family and Child Counsellor) credenciado pelo
Board of Behavioral Science Examiners (Califórnia, Estados Unidos); e membro
da Group-Analytic Society (Londres, Inglaterra). Autor de diversos livros como
Grupo sobre grupo (Editora Rocco, 1987), Mistérios da alma: Alguns pensamentos
(Centre Telemàtic Editorial SRL, 2001), O caminho da longevidade (Rocco, 2001),
Olhar acima do horizonte (Rocco, 2002, que esteve na lista dos mais vendidos por
cinco semanas consecutivas) e Saber amar (Rocco, 2006), entre outros. Ele defende
o conceito de amor a partir da auto-estima e que a vida em sociedade depende
do desenvolvimento da capacidade inata para a solidariedade. E é sobre estes e
outros pontos, temas de sua palestra Amor, cuidado e relações familiares: Pais, filhos e
sociedade, que ele conversa com a Revista Paideia.
Por que perdemos a auto-estima na infância? E de que
forma os pais podem interromper este processo?

Os pais passam recados para a criança, “não faz isso, não faz aquilo”. Na medida
em que você faz uma coisa que não é bem aceita, você se sente desvalorizado.
E a criança recebe isso como “eu não sou bom”, aí cai a auto-estima. Todo erro Quais são os prós e contras de se criar cada filho de um
e frustração repercutem sobre a auto-estima. Ao invés de dizer “eu não gosto modo diferente?
de você porque”, é melhor “eu fico triste quando”. Ficar triste tem um impacto
muito menos brutal. A auto-estima tem que ser reforçada sublinhando tudo É importante criar de modo diferente. Tem uma coisa básica que tem que ser
que há de positivo. O que é raro, porque os pais têm muito mais a tendência de igual para todos, mas cada um tem um jeito diferente de ser. Se eu tenho um
reclamar do que é errado do que aplaudir o que é certo. Esse aplaudir o que é menino que é muito explosivo, tenho que lidar com ele de uma maneira diferente
certo é mais importante. Uma criança que se sente amada e valorizada pelos pais, da que eu lido com o que é dócil. O próprio fato de a criança ser o filho mais
explicitamente em palavras e implicitamente em gestos, vai ter mais elementos velho, filho do meio ou o filho mais novo faz uma diferença enorme na maneira
para sustentar a sua auto-estima do que uma outra que está sempre sendo de ser. Gera muita diferença na personalidade a posição que ela tem na ordem dos
criticada e repreendida. filhos. Então só isso já diz que é preciso tratar de maneira diferente essas crianças.
Tem que lidar e amortecer isso. É claro que pais sensíveis não precisam ser muito
Como vê o reflexo do padrão de perfeição imposto pela técnicos. Mas é bom saber ajudar cada filho na dificuldade da posição dele na
mídia sobre a auto-estima dos adolescentes? família. Quando a criança sente que recebeu o seu quinhão de amor, de carinho,
de compreensão, ela fica muito segura e serena, não briga pelos supérfluos.
Esse padrão é uma espécie de exigência básica para ter auto-estima. Você só pode
gostar de você se for magro, bonito, inteligente, bem-sucedido. O que é um erro. É Competição e consumismo começam no âmbito familiar?
inevitável o ataque à auto-estima porque não vamos conseguir chegar a esses padrões
e mantê-los. A primeira coisa é desmistificar o padrão. É tomá-lo como referência, Acho que começa na escola, porque os amigos têm tal coisa. Os pais têm que
não como compromisso. Não precisamos ser essa figura notável para nos auto- dialogar e mostrar que não podem dar tudo. A dificuldade financeira está aí para
afirmar. O amor pelos filhos é um exemplo disso, ele é incondicional. Essa mesma todo mundo e não é uma vergonha, é um dado da nossa realidade. Acho que,
incondicionalidade é natural em nós. O grande erro é quando se vincula o gostar ou mesmo quando tem, não é para dar. Até posso fazer determinadas coisas, mas
não gostar ao resultado, ao sucesso, à inteligência, às quantidades. E a vinculação se coloco limite. Tem uma mesada e tem uma escolha. Aprender a escolher e abrir mão
faz na infância. Temos que retomar a idéia de que não deve existir uma vinculação de uma coisa para ter outra é muito enriquecedor para a vida. Porque na vida vamos
entre amar e sucesso. aprender a fazer isso. Se não for com objeto, vai ter que ser com amigos, com um
casamento. Se a pessoa não aprender que existe um processo de renúncia, ela não
Pais e mães sentem culpa pela falta de tempo e não dizem consegue se manter casada porque não consegue focar num parceiro só. Não vai
“não” aos filhos ou os enchem de presentes. Quais seriam conseguir renunciar todas as outras possibilidades sexuais e afetivas.
os perigos da ausência e dessa compensação?
E qual seria o papel dos pais no desenvolvimento de
É melhor ficar 20 minutos bons, valiosos e inesquecíveis, em vez de 8 horas solidariedade, empatia, honestidade e ética?
enchendo a criança. É uma questão de qualidade, não quantidade. Se não tenho
muito tempo para ficar com meus filhos, na hora em que eu estiver com eles, eu Solidariedade é um instinto natural. Os antigos humanos saíam para caçar e ser
vou estar com eles. Vou estar feliz de estar com eles, mostrando para eles o quanto caçados. E, se tivessem uma relação solitária, eles teriam morrido. Sobre empatia,
isso é importante para mim e como eu gosto deles. É muito diferente pôr a ênfase honestidade e ética, temos a falta de sorte de ter tido uma classe dominante muito
no positivo ou no negativo. Precisamos transmitir para a criança os nossos valores. desonesta e pouco sensível ao patriotismo. E isso já vem do Brasil-Colônia porque
Se você dá tudo, não está transmitindo valores. A criança fica sem saber o que é os colonizadores não vinham para ficar, eles vinham para enriquecer e voltar. O
importante e o que não é, o que é valioso e o que não é, o que é certo e errado, o português vinha para o Brasil para ser ladrão, muito diferente do inglês e do alemão
que é bom e mal. Porque fica tudo a mesma coisa. É em função das conseqüências que iam para os Estados Unidos para ser cidadão. Temos a cultura do ladrão. Até
que educamos uma criança. E distingüir amor e valor é muito importante. pouco tempo atrás, quando se ganhava muito dinheiro, o brasileiro depositava no
Colocar ênfase na diferença que existe entre ter valor e ser amado. Ou se amar. exterior. Não tinha essa coisa de investir aqui. E, paralelamente a isso, foi havendo
um afrouxamento moral muito grande, acho que as ditaduras contribuíram para
isso. Antigamente política era um lugar de perder dinheiro, hoje em dia é lugar de
roubar muito. É a melhor maneira de se enriquecer. As pessoas pensam “como é
bonito ser rico”. E não é. Cabe à família mostrar como este é um falso valor. Bonito
é você ser criativo e trabalhador. Ser rico é uma conseqüência eventual do trabalho.
Não conheço projeto de vida mais pobre do que querer ficar rico!

25
Cobertura da Palestra

“Alguma coisa
vai mal com
todos nós”
Luiz Alberto Py revela que “crimes gratuitos”
são sintomas de uma sociedade doente e aponta
caminhos para a criação dos filhos

Na semana em que o último tema do módulo Pathus do Ciclo Paideia é Amor, há estímulo melhor que a recompensa do amor. Qualquer adestrador de
cuidado e relações familiares: Pais, filhos e sociedade, um crime provoca indignação animais pode dizer quais são as duas maneiras de se educar um bicho:
no país. Cinco jovens de classe média alta espancam uma empregada doméstica punindo quando o animal erra ou premiando quando ele acerta. Pergunta
num ponto de ônibus na Barra da Tijuca (zona oeste do Rio) e roubam a sua qual é a melhor maneira?”, compara.
bolsa, aparentemente por puro divertimento. Manchete em todos os jornais, o
caso não poderia deixar de ser comentado pelo psicanalista Luiz Alberto Py na “Antigamente os pais podiam se dar ao luxo de serem mais rígidos, mas
palestra de 26 de junho, a última na Caixa Cultural Rio de Janeiro. “O meu não dava muito certo também, não era mais fácil antes. Hoje em dia
sentimento é que esse incidente aparece como um sintoma. Alguma coisa vai tendemos a ter menos certeza sobre como educar os filhos. Mas a certeza
mal com todos nós. Em geral, os sintomas nos dizem que alguma coisa está enlouquece. A dúvida é saudável e a certeza é enlouquecedora. Acho
errada com o organismo”, compara. muito bom que os pais de hoje tenham mais dúvidas porque eles vão
educar melhor, aprender mais e estar mais atentos para aprender. E os
“O que mobilizou a população e a mídia foi o fato de este incidente não que têm certeza estão metendo os pés pelas mãos. É complicado, porque
ser uma coisa isolada. Não foi um grupo de garotos doidos que atacou uma não tem ‘curso de pais’. Então é amor, é bom senso, é estar atento para os
pobre moça no ponto de ônibus. Se fosse isso, ninguém teria dado tanta erros, procurar conversar, tentar falar a língua dele e tentar ensinar a ele a
importância. A importância se deve ao fato de que isso avisa que alguma falar um pouco da nossa língua”, esclarece.
coisa está errada. É o sintoma. Nosso instinto diz que tem um sintoma
aí”, explica. “Crime estúpidos, gratuitos, sem sentido, são tipicamente Dívida de gratidão
brasileiros. Tocar fogo num índio, espancar uma pessoa sentada na rua,
arrastar um menino pelo carro. Aquela coisa de ‘não tem importância, é Ao longo das quase duas horas de palestra Luiz Alberto Py lembra que o
assim mesmo que é, todo mundo é assim’. A doença da nossa sociedade é amor a si próprio deve ser tão incondicional quanto o amor aos filhos. E
essa brutal inversão de valores com a qual nós convivemos”. que o amor dos filhos pelos pais é o primeiro que se aprende depois da
auto-estima, que é intuitiva e instintiva. “O amor pelos pais é um amor
A recompensa do amor que começa pela gratidão. Existe uma certa aflição de muitas pessoas em
relação ao fato de sentir gratidão, ouço a expressão ‘dívida de gratidão’.
Para Luiz Alberto Py, o primeiro elemento importante na estruturação Mas não se pode pensar em termos de dívida. O que eu posso me propor
da vida emocional é o que se chama de auto-estima, gostar de si mesmo. em fazer é: eu vou tentar dar para os meus filhos tanto ou mais que os
Mas o que deterioraria a auto-estima ao longo do tempo? “O processo de meus pais me deram para mim. Passar adiante. Isso é bonito, é a evolução
educação implica permanentemente em estar reprimindo desejos em função da humanidade. Recebi, passei adiante e espero que eles passem adiante.
da razão. Desejo é tudo aquilo que vem do instinto, do impulso, que é Aí é bacana, saudável, bonito, a humanidade está florescendo. Poder
natural, espontâneo e da emoção. E vontade se refere a coisas da razão. A conviver com a gratidão é uma dádiva”, garante.
sabedoria está em harmonizar a razão com a emoção. Na vida inteira temos
conflito entre desejo e vontade, isso começa desde a mais tenra infância”. “É uma pena quando se perde isso por causa de falsas cobranças. Os pais
jogam na cara dos filhos. Cobrar não adianta. É um passo errado, inútil e
O psicanalista enfatiza que o caminho para harmonizar seria dar uma prejudicial. Temos que ensinar para os filhos a diferença entre o que damos
conotação positiva às atitudes dos filhos, corrigindo seus erros sem abalar porque é uma obrigação e o que damos a mais. Tem muitas coisas que damos
a auto-estima. Py acredita que solidariedade e empatia façam parte do por generosidade, que não são obrigações nem compromissos. É importante
nosso DNA e que possam ser reforçados pela educação. “Se cultivarmos explicar porque senão eles pensam que tudo está no mesmo pacote da
nos nossos filhos solidariedade, empatia, respeito e consideração pelos obrigação. E aí eles não valorizam, não percebem que tem um amor ali. É
outros, estamos dando para eles instrumentos para eles gostarem mais importante que se esclareça o que se está dando por generosidade e por amor,
deles mesmos. Instrumentos de recuperação de auto-estima. As pessoas esse elemento tem que ser sublinhado. Saber que os pais foram generosos,
que melhor se dão consigo mesmas são aquelas que mais têm tolerância, além da obrigação, é uma ótima herança que levamos vida afora. Um gesto de
boa-vontade e benevolência para com os outros, para com os erros dos altruísmo, de amor grande. E, ao nos sentirmos amados, aprendemos a nos
outros. Esse é um caminho muito frutífero no sentido educacional. Não amar também. Isso estimula, levanta e nutre a auto-estima”, encerra.

26
Os casos Sirlei e Galdino
Dois crimes gratuitos e cinco coincidências: Sirlei e Galdino estavam num ponto de ônibus, foram brutalmente
atacados por cinco jovens de classe média em busca de diversão, os agressores fugiram, foram localizados graças à ajuda
de uma testemunha ocular e o crime chocou toda a nação. Mas os casos da empregada doméstica Sirlei Dias Carvalho
Pinto e do índio pataxó Galdino Jesus dos Santos aconteceram com uma década de diferença. Na manhã de 23 de
junho de 2007, Sirlei, de 32 anos, aguardava um ônibus em frente ao condomínio onde trabalha e mora na Barra da
Tijuca (zona oeste do Rio), quando cinco rapazes desceram de um carro. Os jovens começaram a xingá-la, arrancaram
a sua bolsa e a chutaram na cabeça e na barriga. A agressão foi testemunhada por um taxista e no dia seguinte a polícia
localizou os agressores, todos universitários de classe média alta, entre 19 e 21 anos de idade, e moradores do bairro.
Em depoimento, eles alegaram que só queriam “zoar as prostitutas” e pensaram que Sirlei era uma delas. No dia 28
de agosto, o Superior Tribunal de Justiça concedeu liminar permitindo que o único jovem que permaneceu dentro
do carro durante a agressão responda o processo em liberdade. Os outros quatro foram denunciados pelo Ministério
Público por roubo e lesão corporal e devem permanecer presos até o julgamento.
A história se repete. Dez anos antes, em 20 de abril de 1997, cinco rapazes de classe
média de Brasília atearam 1 litro de álcool no índio Galdino, de 44 anos, que dormia
em uma parada de ônibus na Asa Sul (bairro nobre da Capital Federal) e depois
atearam fogo nele. Um chaveiro anotou a placa do carro dos assassinos e entregou
à polícia. Horas depois, o pataxó – que tinha ido à Brasília para participar de
manifestações no Dia do Índio – morreu vítima de queimaduras em 95% do corpo.
Um dos rapazes tinha 16 anos à época e foi encaminhado para o centro de reabilitação
juvenil do Distrito Federal, mas ficou preso por apenas três meses mesmo tendo sido
condenado a um ano de reclusão. Os outros quatro tinham 18 e 19 anos, foram presos
e, em 2001, condenados por homicídio doloso a 14 anos de prisão (em regime fechado,
mas depois conseguiram benefícios). Eles também declararam em juízo que pensaram
se tratar de um mendigo e apenas queriam se divertir.

Artigo Luiz Alberto Py: O exemplo que vem de cima


“A propósito da agressão cometida por cinco jovens de classe média a uma doméstica em junho passado no
Rio de Janeiro cabe uma reflexão sobre este crime revestido de rara brutalidade. Diz um ditado chinês que
na natureza não há castigos nem recompensas, apenas conseqüências. Este incidente se mostra como uma
conseqüência do clima de impunidade e de falta de escrúpulos que assola nosso país.

Há dez anos, outro grupo de jovens bem nascidos incendiou e matou Galdino, um índio pataxó, em
Brasília. Foram levados à justiça e sofreram punições ridículas, protegidos por parentes poderosos. Outros
casos semelhantes também ocorreram como o da menina Aracelli, no Espírito Santo que foi estuprada e
assassinada. Consta que o filho de algum político estava envolvido e por isto o caso teria sido investigado
superficialmente.

Meu envolvimento emocional com este crime não é de vítima, pois não creio na probabilidade de vir a ser
agredido por um bando de vândalos, até porque minha idade funciona como uma espécie de passe livre. Mas
me sinto muito atingido em minha posição de pai, pois me vejo prejudicado no meu desejo de desenvolver
os valores morais de meus filhos. A alegria de educar nossos filhos e contribuir para sua edificação se torna
em angústia ao ver o exemplo que vem de cima, da Capital Federal, dos Três Poderes da República.

O que vemos é corrupção, desonestidade e corporativismo da pior espécie. A todo instante, a leitura
dos jornais nos informa de falcatruas e atos de corrupção praticados sem que os criminosos flagrados
sejam punidos. Quando parlamentares ou são inocentados por seus pares ou renunciam para escapar a
julgamento. Quando membros do Poder Executivo são protetoramente afastados, com afagos do Presidente
da República. Quando membros do judiciário são imunizados por seus pares. É uma revoltante onda de
podridão que desce do Planalto Central inundando, sufocando e contaminando todo o Brasil.”

27
Eros - Análise

quatro mulheres
e um desejo
Eros, a dimensão do desejo. Durante o mês de julho, o Paideia reuniu quatro escritoras de grande atuação
acadêmica e prestígio em suas respectivas áreas: Maria Rita Kehl, Heloísa Buarque de Hollanda, Marcia Tiburi
e Mirian Goldenberg. Narcisismo, consumismo, corpolatria, espetacularização e como a mídia pode seduzir
e criar novas estéticas de sedução foram os assuntos em pauta neste módulo, o primeiro a ser realizado no
auditório do Arte SESC, no Flamengo (zona sul do Rio).

Maria Rita Kehl pegou o viés do consumismo, abordando como a publicidade afeta a nossa subjetividade. Uma
auto-estima baseada na aparência física somente, em detrimento do interior. A banalização do sexo, que o torna
quase obrigatório e, portanto, desinteressante, foi um dos temas que a psicanalista abordou. Para a pesquisadora
e autora, vivemos numa sociedade contraditória: erotizada, mas não erótica. Há um grande narcisismo e um
enorme investimento em estética, porém tratam-se de processos solitários que não levam em consideração o
outro e passam longe do mistério que o verdadeiro erotismo requer.

Na segunda semana, foi a vez de Heloísa Buarque de Hollanda falar sobre a questão do desejo sob o ponto
de vista feminino. Crítica cultural e curadora independente, ela analisou a produção das mulheres brasileiras
contemporâneas na literatura e nas artes plásticas. Enquanto suas antecessoras eram auto-referentes, as artistas de
hoje olham o mundo a seu redor e são muito mais críticas e agressivas. Durante a palestra, ela ainda remontou as
características peculiares do feminismo nacional, cujo foco nunca foi discutir a sexualidade feminina. E como o
atual “pós-feminismo” reage à isso de maneira visceral, correndo contra o tempo perdido.

Coube à filósofa Marcia Tiburi, que também participa do programa de TV Saia Justa, dissecar prós e contras da
mídia. Fã de Theodor Adorno, filósofo integrante da Escola de Frankfurt e inspirador das principais teorias de
comunicação ainda vigentes, ela falou sobre a dominação da Indústria Cultural e propôs uma “descolonização”
dos nosso olhar e sentimento, passando a olhar pelo avesso. Marcia defende as novas tecnologias e a
possibilidade de dar voz às massas, tirando delas a posição passiva de mero espectador. Como exemplo, ela
citou o YouTube – site que disponibiliza vídeos na Internet e pode tornar mundialmente popular uma produção
cultural caseira.

Para encerrar o módulo, a antropóloga Mirian Goldenberg retomou parte do assunto proposto por Maria Rita
Kehl. Mirian, que pesquisa gênero, sexualidade, novas conjugalidades e novas famílias, mostrou como o corpo
pode interferir em todas estas dinâmicas. Para a autora e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ), o corpo é tido como um valor no Brasil. E é em torno dele que todas as demais relações se estabelecem.
Enquanto a mulher dos anos 1960 tinha um ideal de se casar e ter filhos, a mulher dos anos 2000 quer ter o
corpo. De Gilberto Freyre até hoje, Mirian comentou como a antropologia observa este fenômeno. O mais novo
desejo brasileiro, ao alcance da primeira academia de ginástica ou clínica de cirurgia plástica.

28
entrevista
Maria Rita Kehl
Sociedade narcísica
Maria Rita Kehl é doutora em Psicologia Clínica pela PUC/USP e psicanalista desde 1981. Ensaísta e poeta, é
autora de A mínima diferença: O masculino e o feminino na cultura (Editora Imago, 1996), Processos primários:
Poemas (Estação Liberdade, 1996), Deslocamentos do feminino: A mulher freudiana na passagem para a modernidade
(Imago, 1998), Função fraterna (Relume Dumará, 2000), Sobre ética e psicanálise (Companhia das Letras, 2002),
entre outros livros. O mais recente deles, Videologias: Ensaios sobre televisão (co-autoria com Eugênio Bucci,
Boitempo Editorial, 2006), teve noite de autógrafos no Arte SESC após sua conferência no Paideia. Escreve
artigos sobre cultura, comportamento, literatura, cinema, televisão e psicanálise desde 1974 para a imprensa
nacional, além de ser autora de ensaios em diversas coletâneas. Em entrevista para a Revista Paideia, ela reflete
sobre o tema de sua palestra, Cultura do espetáculo: Consumismo e imediatismo nas novas identidades sociais.

Até que ponto a cultura E também só é bom se tiver determinada imagem, não? E como podemos resgatar
do espetáculo e o o mistério, a sensualidade e
consumismo podem afetar Vivemos numa sociedade muito narcisista no sentido de que as a fantasia?
a sexualidade? pessoas estão muito ligadas em construir uma imagem. Não narcisista
no sentido de se amar mais, pelo contrário. Mas no sentido de Não tenho nenhuma fórmula
Não diria que afete a sexualidade, depositar muito do que a pessoa é na construção da imagem. Atingir mágica. Se tivesse, vendia. O que
mas que afeta mais a subjetividade. determinados padrões de imagem impostos pela mídia. As pessoas hoje posso sugerir é que as pessoas
Toda cultura afeta, não só esta. precisam muito de um espelho, do olhar do outro que te devolve a abram na vida dimensões fora
Mas é importante observar que o imagem. A dimensão da imagem. da imagem. Estou falando de
consumismo é uma atitude frente ao arte. Seja literatura, poesia ou até
mundo. Nem todas as pessoas têm De que forma analisa a exaltação de corpos nus na mesmo arte com imagem, mas aí
poder de consumo, só que todos estão publicidade e mídia brasileiras? é a imagem com outro estatuto.
convencidos de que devem ter acesso Mas como fazer isso, é a própria
ao consumo. E não é o consumo por Temos uma sociedade muito erotizada, com imagens de corpos bonitos pessoa é que tem que descobrir.
necessidade, é o consumo de marcas. a todo instante, poses sensuais em capas de revistas, mulheres erotizadas Afinal, a idéia é resgatar o
A fé no consumo é o que distingue a em anúncios de cerveja e de carros, valor erótico agregado na publicidade. mistério. Então que cada um entre
sociedade consumista, o sentimento Mas o efeito no erotismo é paradoxal. Vejo muita ansiedade em relação em contato com a arte e descubra
de cada um vinculado ao consumo, a sexo, respostas violentas, meninos que são rejeitados e respondem o seu próprio caminho.
de que você só é bom se consumir violentamente à rejeição porque ficam humilhados. Isso vem da
determinada marca. associação narcísica.

29
Cobertura da Palestra

“O erotismo não
é necessariamente
estético”
Maria Rita Kehl denuncia paradoxos e
deturpações da nossa sociedade consumista,
espetacularizada e narcísica

Em 03 de julho, o Paideia inaugurou o seu terceiro módulo, Eros, com uma condição infantil, no sentido freudiano, de que não precisaremos
a palestra Cultura do espetáculo: Consumismo e imediatismo nas novas mais lidar com as nossas faltas nem com as nossas insuficiências. E que
identidades sociais da psicanalista Maria Rita Kehl. O evento marcou sentido dou para a minha insatisfação? Esta aliança entre espetáculo e
a estréia das conferências semanais do Fórum de Idéias no auditório consumo. Dou o destino de comprar ou de desejar ter. A outra questão:
do Arte SESC, no Flamengo (zona sul do Rio), onde aconteceram até como é que vou entender o enigma do meu desejo? Esse universo
o final de agosto. “Parte do erotismo é aliciado para o consumismo. preenchido pelas imagens produz uma ilusão de que não haja enigma. E
E o espetáculo é uma das formas que alia a subjetividade ao poder. de que não há enigma nem naquilo que há de mais enigmático para mim,
Pela primeira vez na história da humanidade o espetáculo é produzido que é o desejo do outro”, continua.
industrialmente”, aponta.
“Acreditamos nessa oferta de imagens de corpos erotizados, perfeitos,
Durante a conferência, Maria Rita defende que vivemos numa sociedade trabalhados, malhados, siliconados. Acreditamos que, se conseguimos
que tem uma grande crença no valor dos objetos e de suas marcas, fazer o nosso corpo se identificar com aquela imagem, e parecermos o
além do valor que eles seriam capazes de nos conferir. Trata-se de uma máximo com aquela imagem, nós dominaremos o sentido da sedução.
sociedade não só consumista como também espetacularizada e narcísica. No entanto, não tem melhor frase para definir o que acontece numa
“O exemplo mais banal disso é a televisão. Nela, o espetáculo é tudo. É parceria erótica que ‘não sei o que ele viu nela’. Quando está na cara o
imagem com grande poder de sedução e de identificação. De nos mostrar que ele viu nela, é consumo. Quando não sabemos o que ele viu nela, é
uma imagem que diz ‘você está conosco, você é um de nós’. Há uma porque ela tem ali de fato algum mistério que só ele vê. O nosso desejo
convocação direta para o espectador participar, com o seu olhar, dessa se move por um encontro entre aquilo que eu não sei de mim e aquilo
espetacularização da vida”, afirma. que eu não sei do outro. Aí que se dá uma boa liga, ficamos capturados e
nos escravizamos”, esclarece.
Sexo, o valor agregado
Paradoxo sexual
A psicanalista lembra que o espetáculo produzido industrialmente tem
um poder sobre nós que Karl Marx e Sigmund Freud identificam sob a Em sua experiência de consultório, a psicanalista tem notado um número
mesma nomenclatura: fetiche. “O objeto-fetiche existe para ocultar uma crescente de jovens que se sentem obrigados a ter uma vida sexual intensa.
diferença, uma falta, algo que não é exatamente aquilo que aparece. Nós “No entanto, o desinteresse sexual se instala muito depressa. O erótico se
só suportamos viver num mundo com as nossas faltas se, de certa forma, esvazia muito depressa. Há um efeito inibidor pelo fato de que o sexo se
essa dimensão fetichista do espetáculo sacie essa nossa carência e ausência, torna quase que obrigatório. E tudo que é obrigatório é indesejável. Essa
aquilo tudo que no humano é faltante ou insuficiente”, avalia. inibição também faz sentido nessa sociedade em que ter uma vida sexual,
e mostrar que tem, é tão importante para o prestígio quanto usar um tênis
Maria Rita Kehl observa também o papel da publicidade e seu efeito de marca ou saber qual é a boate que você deve ir. Nessa sociedade, há uma
sobre nossa subjetividade. “Se a publicidade não tivesse forte influência convocação a uma potência que tem que se ostentar e tem que se exibir”.
sobre o nosso desejo, as empresas não gastariam milhões com publicidade.
E não pagariam milhões para colocá-las em certos horários da televisão. “A nossa auto-estima hoje é muito mais baseada na nossa imagem
Isso desvela de certa forma a nossa condição contemporânea. O sexo é do que quaisquer outras qualidades que possamos ter ou conquistar
valor agregado em todas as mercadorias. É preciso uma moça de biquíni ou desenvolver. Criamos uma espécie de paradoxo: uma sociedade
para você tomar uma cerveja, é preciso um gatão para você querer entrar muito erotizada, com muito investimento sobre os corpos e sobre a
num carro. Sexo é um valor agregado, mas só agregado. O verdadeiro sedução, mas onde as pessoas não estão olhando umas para as outras.
valor é a marca”, denuncia. Elas estão olhando para si mesmas. Elas estão muito mais se exibindo
do que interessadas em ver o outro. Ora, o exibicionismo deve ter em
A ilusão do não-enigma contrapartida o voyerismo. Se todos estão se exibindo, quem é que vai
olhar? Há um empobrecimento da arte erótica, que passa por modos de
As conseqüências dessa relação seriam ilusões sobre suprir suas próprias trazer prazer ao corpo do outro que não são estéticos. O erotismo não é
carências e desvendar seus enigmas. “Isso vai produzir subjetivamente necessariamente estético, é outra linguagem”, encerra.

30
Videologias
Após a palestra de 03 de julho no Paideia, Maria Rita Kehl autografou para o público presente o seu livro mais
recente, Videologias: Ensaios sobre televisão (escrito em parceria com Eugênio Bucci). Segundo lançamento da Coleção
Estado de Sítio, da Boitempo Editorial, o título é um trocadilho com a célebre obra Mitologias (de Roland Barthes)
e une visão crítica e psicanálise para dissecar as relações entre mitologias, ideologias e televisão. Com prefácio da
professora de filosofia da Universidade de São Paulo (USP) Marilena Chauí, Videologias está dividido em cinco partes
que tratam do desafio da crítica televisiva; da relação entre TV e violência; das
tênues fronteiras entre telejornalismo e teledramaturgia; do fenômeno dos reality
shows e o voyerismo; e do impacto da TV na política e no espaço público brasileiro,
particularmente o da Rede Globo. Traz ainda uma proposta política de “10 direitos
do telespectador”. O evento marcou também a mudança do local das palestras, que
em julho e agosto passaram a acontecer no auditório do Arte SESC.

Loiras geladas
Já virou até lugar comum. Uma musa aparece em comercial de cerveja, é convidada para posar nua e vira
celebridade. E, de quebra, a marca da bebida alcoólica é divulgada aos quatro cantos e todos bebem a loira
gelada ainda mais. Há quatro anos as cervejarias tinham se comprometido em diminuir a conotação sexual
nos seus anúncios, mas no verão de 2007 o Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária
(Conar) recebeu denúncias contra algumas campanhas publicitárias que voltaram a se utilizar do apelo
erótico. Frases como “vou botar para fora” com um close no decote da atriz, tatuagens como “tô dentro”
com um close no cóccix da modelo e, até mesmo, uma disputa de strip-tease entre duas apresentadoras que
terminam de biquíni foram alguns dos exemplos de exageros que invadiram os comerciais de TV este ano.
Sem qualquer sutileza, as propagandas fazem associação direta entre consumo de cerveja e conquista de belas
mulheres. De acordo com determinação do Conar, publicada em 2003, anúncios de bebidas alcoólicas “não
se utilizarão de imagens, linguagem ou idéias que sugiram ser o consumo do produto sinal de maturidade
ou que contribua para o êxito profissional, social ou sexual”. A auto-regulamentação do setor só aconteceu
após a ameaça do governo em restringir a publicidade deste tipo de produto. Segundo o órgão, o objetivo
era evitar associação entre bebida e erotismo, uma vez que poderia levar ao consumo excessivo. Já a Ambev,
que detém mais de 60% do mercado nacional de cervejas, nega que haja relação entre êxito com as mulheres
e tomar cerveja.

31
entrevista

Heloísa Buarque
de Hollanda

Mulheres pós-modernas
Professora titular de Teoria Crítica da Cultura na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio De que forma estas
de Janeiro (ECO/UFRJ), Heloísa Buarque de Hollanda é coordenadora do Programa Avançado de Cultura políticas estéticas podem
Contemporânea e da Biblioteca Virtual de Estudos Culturais (Prossiga/CNPq) além de diretora da Aeroplano reagir contra a exclusão e
Editora e Consultoria. Foi também diretora da Editora UFRJ e do Museu da Imagem (Rio de Janeiro). Tem a intolerância?
inúmeros artigos e livros nas áreas de arte, literatura e políticas culturais, entre eles: 26 poetas hoje (1976);
Macunaíma: Da literatura ao cinema (1979); Impressões de viagem (1979); Cultura e participação nos anos 60 O poder transformador da arte
(1982); Pós-modernismo e política (1991); O feminismo como crítica da cultura (1994); Horizontes plurais: Novos e, principalmente, a visibilidade
estudos de gênero no Brasil (1998); Esses poetas: Uma antologia dos anos 90 (1998); Cultura em trânsito: Da que proporciona a utopias,
repressão à abertura (escrito em parceria com Zuenir Ventura e Elio Gaspari, 1999); Correspondência incompleta: desejos e resistências culturais é
Ana Cristina César (com Armando Freitas Filho, 1999); Guia poético do Rio de Janeiro (2001) e Puentes/Pontes potencialmente um instrumento
(2003). Em entrevista à Revista Paideia, a pesquisadora e autora fala sobre como mulheres têm expressado de guerra contra a discriminação e
artisticamente, tema de sua palestra Políticas estéticas. contra a intolerância.

Como analisa o papel Quais são os avanços e retrocessos das novas gerações
do feminismo na nossa em relação à luta feminista do século passado?
sociedade hoje?
Acho que as novas gerações, que inclusive se recusam à idéia de um
Acho que o feminismo teve feminismo enquanto luta, na realidade, já nasceram num quadro onde
grandes ganhos na inserção mais muitas das demandas feministas estavam relativamente resolvidas e, sem
justa – mesmo que ainda não esteja sombra de dúvida, ainda que sem o rótulo de “feministas”, vêm dando
equiparada à dos homens, conforme um desdobramento extraordinário à valorização da mulher da sociedade.
comprovam os dados – no mercado
de trabalho e na arena política. E qual o impacto das novas políticas estéticas sobre a
Entretanto há ainda um longo nossa cultura e desejo?
caminho a ser percorrido, esse na
arena cultural, do comportamento, A estética sempre foi uma política. Mas quando seu potencial
das responsabilidades domésticas contestador e desconstrutor é descoberto pelas chamadas “minorias”,
e das representações simbólicas tornam-se um território experimental poderoso e um campo de
do que “quer uma mulher” que expressão do desejo privilegiado.
curiosamente foi colocada por um
homem especialíssimo, Sigmund
Freud, há um século atrás, mas
que parece que ainda continua
lamentavelmente em aberto no
universo masculino.

32
Cobertura da Palestra

“A arte feminina
hoje é muito
violenta e política”
Heloísa Buarque de Hollanda fala sobre a
nova expressão do desejo das mulheres nas
artes plásticas e literatura

Após uma semana de intervalo, o módulo Eros do Paideia voltou à ativa interessantíssimo. E ela ainda trabalha com sangue. Ela tinge a
em 17 de julho com a professora de Teoria Crítica da Cultura da UFRJ, linha do bordado com sangue para retratar a violência, coisa meio
pesquisadora e autora Heloísa Buarque de Hollanda, cujo tema de assustadora. Por último, a Márcia X, que incomoda porque um falo de
discussão foi Políticas estéticas. A palestra, que aconteceu no Arte SESC, sex shop deveria ficar escondido numa gaveta, não num museu. É um
apresentou trabalhos de destaque no cenário da literatura e artes plásticas deslocamento de lugar muito violento. O tema dela é o desejo sexual e
das décadas de 1990 e 2000. E dissecou, através de slides de textos e o prazer”, resume.
fotos, como as artistas brasileiras contemporâneas expressam seu novo
olhar e suas novas demandas feministas. Apesar de muitas delas não se Para a pesquisadora e autora, as políticas estéticas hoje refletem a
consideraram feministas. demanda reprimida de desejo na mulher. “Políticas estéticas são uma
forma de política interessante. Não estou falando que a arte é uma
“Ser feminista é complicado. Parece que você é contra os homens. A política, não estou falando de arte política. É o contrário, uma estética
figura mais antipática para estas novas artistas é a guerra de posição que onde você faz diferença e se comporta, toma atitude e negocia poderes
havia nos anos 1960. Foi uma hora em que as mulheres foram à luta através disso. Quando falo em políticas estéticas, falo em estratégias
numa guerra xiita, demarcando território, estabelecendo diferença e que unem linguagens – que podem ser corporais, visuais, literárias
formando identidade. Nos anos 70 e 80 já se entra numa fase de guerra ou comportamentais. As artistas hoje arrebentam, são extremamente
de manobra, uma desconstrução da chamada sensibilidade feminina. agressivas e acham que não têm nada a ver com o feminismo. O
E as mulheres dos anos 90 em diante caíram num certo enjôo geral feminismo deu um salto muito maior que qualquer uma poderia
sobre o feminismo. Continua a luta na área jurídica, mas na área teórica imaginar porque na minha geração as mulheres não eram violentas assim.
acontece um certo declínio. As palavras de ordem feministas ficam um E a arte feminina hoje, dos anos 1990 para cá, é muito mais violenta,
pouco banalizadas e sem sentido com o contexto. Até mesmo porque as afirmativa e política”, esclarece.
mulheres já conquistam posições muito interessantes”, compara.
O feminismo calado
As artistas iradas
Por fim, Heloísa Buarque de Hollanda remonta as origens do feminismo
Heloísa Buarque de Hollanda intercalou fotos de pinturas, esculturas e nacional para explicar o porquê de as mulheres brasileiras demorarem
instalações de Cristina Salgado, Ana Miguel, Rosana Palazyan e Márcia tantas décadas até se expressarem de modo tão explícito nas artes. “Nos
X com textos e poemas de Claudia Roquette-Pinto, Bruna Beber e anos 60, depois do Golpe, a Igreja era progressista. Portanto era um
Andréa Del Fuego. Segundo a palestrante, estas artistas selecionadas órgão fundamental para a resistência política: ela protegia, acobertava,
têm em comum o fato de serem explícitas e góticas no seu discurso. “As fortalecia, inspirava e agia, foi um baluarte contra a ditadura. E um
mulheres até os anos 70 eram auto-referentes, falavam da sua diferença, movimento político novo como o feminismo não ia se meter com esse
agressividade e subjetividade. Agora essas mulheres olham para fora e baluarte. Então não se fala em aborto, sexualidade nem direito ao corpo
vêem imagens estranhas, elas são muito críticas. Elas estão olhando à no feminismo brasileiro até os anos 80”, lembra.
volta e também lá dentro, como elas são vistas. Estas artistas de hoje são
as que não se consideram feministas. Se você olhar para uma arte dos “Toda a luta feminista brasileira foi pelo direito à saúde, trabalho, salário,
anos 60, não tem essa violência. Já as mulheres contemporâneas têm um justiça e igualdade, mas social. Você não podia falar do seu desejo. Era
conteúdo de violência gigantesco. Elas deformam, prendem, dizem. Elas uma demanda estrategicamente calada naquele momento. Mas isso deu
são bastante iradas”, define. um aspecto ao feminismo brasileiro muito peculiar. É estranho porque
continua um pouco desconfortável essa demanda, parece uma demanda
“Todas as imagens da Cristina Salgado são de mulheres nuas retratadas supérflua e pessoal. E a arte acompanhou um pouco isso. Nos anos 60
com salto alto e bolsa, nada mais incômodo, o retrato do mal-estar e 70, as artistas trabalham a questão da sexualidade – mas não do sexo.
do mundo. A Cristina trabalha o retrato da mulher e a Ana Miguel Você não tem isso na arte nem na literatura brasileira feminina daquela
trabalha com as coisas em volta dessa mulher. A Ana é muito aflitiva época. Você tem muitas estratégias interessantérrimas de falar sobre a
porque é bem mais perversa e venenosa, trabalha em pequena escala. mulher, mas não tem o que essas mulheres de hoje, que dizem que não
Já a Rosana Palazyan também trabalha com a escala mínima, o que são feministas, têm. Acho que isso é que é importante: a sua raiva e a sua
é muito desagradável, dá um desconforto para o espectador e acho violência, não só o seu confronto”, conclui.

33
Idiossincrasias
Crítica de arte e sócia da Aeroplano Editora e Consultoria, Heloísa Buarque de Hollanda é também curadora de
exposições e do Portal Literal, prestigiado site que alimenta o desejo pela leitura. Lançado em 2003, conta com
apoio do Ministério da Cultura do Governo Federal e abriga a Revista Idiossincrasia, que reúne novidades em
áudio, vídeo, reportagens, entrevistas e notícias, além de críticas e comentários sobre arte e literatura são alguns dos
conteúdos disponíveis. Lá é possível encontrar artigos assinados por grandes escritores nacionais, dicas culturais,
oficinas literárias online, e trechos de livros. O leitor também tem um espaço aberto
para enviar seus comentários e, até, eventuais produções literárias inéditas. E Heloísa
tem ainda uma seção chamada Diálogos, na qual sempre reproduz uma longa conversa
com personalidades do meio. O portal é uma grande síntese da produção cultural
contemporânea (ou pós-moderna), dando espaço e voz para que novas políticas
estéticas se expressem.

Mulheres radicais
As artistas citadas na palestra fizeram parte da exposição Manobras Radicais, em cartaz de agosto a outubro
de 2006 no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo. A mostra reuniu 60 artistas mulheres com o
propósito de evidenciar a força da produção feminina desde a década de 1920. Com curadoria de Paulo
Herkenhoff e Heloísa Buarque de Hollanda, Manobras Radicais investiu na abertura de um espaço para
buscar e desvendar significação nas estratégias destas mulheres no ato de fazer arte: pequenas ou grandes
manobras e discursos de silêncio forçado, exclusão, opressão e agressões. Obras multimídia (vídeo,
pintura, escultura, fotografia, têxteis) realizadas por uma lista de artistas que não poderia ser mais variada,
instigante e significativa. Desde Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Lygia Clark, Lygia Pape, Tomie Ohtake
e Leda Catunda, até Carmela Gross, Lia Mena Barreto, Rosana Paulino, Karin Lambrecht e Jac Leirner.
Impressionava a variedade de expressões contundentes e a escolha de objetos aparentemente insólitos como
suporte: peças de enxoval, vestuário, bordados, tecidos, fios e brinquedos. Destaque para Elida Tessler,
cujo universo é a memória e o tempo a partir de objetos comuns que olhamos sem ver; Rosana Palazyan,
com seus bordados belos e delicados que de perto refletem questionamentos; e Nazareth Pacheco, que tem
em seu discurso os paradoxos contemporâneos, como a invasão e estética do corpo feminino e a crise de
identidade com ele.

34
entrevista
Direito de expressão Marcia Tiburi
Marcia Tiburi é graduada em Artes e é também mestre e doutora em
Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Publicou nove livros, entre eles: As mulheres e a filosofia (Editora
Unisinos, 2002), Uma outra história da razão (Unisinos, 2003), O
corpo torturado (em co-autoria com Ivete Keil, Escritos, 2004), Filosofia
cinza: A melancolia e o corpo nas dobras da escrita (Escritos, 2004)
e os dois primeiros romances da série Trilogia Íntima – Magnólia
(Bertrand Brasil, 2005, finalista do Prêmio Jabuti 2006) e A Mulher de
Costas (Bertrand Brasil, 2006). É professora do Curso de Formação de
Escritores da Academia Internacional de Cinema da Fundação Armando
Álvares Penteado (FAAP), além de colunista de revistas, conferencista e
participante do programa semanal de TV Saia Justa – no canal a cabo
GNT (Globosat). Ela fala à Revista Paideia sobre sua palestra Retóricas
sedutoras: O desejo do saber a partir do encantamento da mídia.

Que desejo é este que a A mídia usufrui o direito Haveria ainda espaço para o desejo do saber diante da
mídia tanto exerce sobre a de ser o Quarto Poder, sedutora enxurrada de informações prontas, mastigadas
sociedade contemporânea? mas se abstém do dever de e processadas?
fomentar um pensamento
Dizer que “a mídia exerce um crítico. Quais seriam as Claro. Mas isso tem que ser visto de um ponto de vista dialético. Mesmo
desejo” não é muito correto. saídas para este impasse? na universidade, na pesquisa de ponta em ciências humanas, há quem
É mais exato dizer que o ser queira o pensamento pronto. O que dizer de quem nem tem tempo de ler
humano contemporâneo – o que A mídia é o nome geral que e pensar porque trabalha o dia todo ou nem sequer pode formar-se com
alguns chamam de pós-moderno podemos dar à instituição dignidade nas instâncias escolares? O dever do pensamento é de todos,
– descobre a cada dia a dimensão que controla e administra a mas primeiro é tarefa do intelectual e das classes que tem acesso. São elas
de seu desejo e com isso também comunicação e a expressão. Assim que têm que construir a democracia, ou seja, o acesso de todos e para
descobre que há o outro que pode como damos o nome de igreja todos. A justiça social precisa se dar pelo acesso à educação. O governo
manipulá-lo. O problema que à instituição que controla a fé e que não trabalha neste sentido com afinco é canalha. Canalha é todo
vejo é a impossibilidade de seguir a crença humanas, assim como aquele que age contra a ética, ou seja, o respeito à dignidade de si mesmo
o próprio desejo porque este foi chamamos família à instituição e do outro.
seqüestrado por alguma instância que controla o amor e exerce toda
exterior a cada um de nós. Mas, forma de poder em seu nome. A
ao mesmo tempo, o nosso desejo mídia pode ser boa, assim como a
se forja no caos da sociedade no igreja e a família. Para ser boa, ela
contato que temos com pessoas e tem de ser ética. Creio que todo o E o que pensa sobre como o Eros e a figura feminina são
instituições. Nosso desejo nunca problema do poder nas instituições retratados pelos veículos de comunicação hoje em dia?
é puro. O que, todavia, carece de desapareceria se colocássemos a
análise urgente é o uso e o abuso ética como mediadora de todas Esta é uma pergunta muito complexa que envolveria uma exposição
que as instituições, seja a mídia, as nossa relações. Ninguém dirá sobre o significado de Eros, do erotismo e do erótico. A figura feminina
seja o governo, seja a religião, que a igreja é algo que faz mal também é um termo complicado, pois se refere a uma hetero-
fazem conosco. É pelo desejo ao povo se ela tiver ética, nem a construção patriarcal, a meu ver. O “feminino” é uma invenção dos
que nos emancipamos, se ele família será condenada enquanto homens. Prefiro falar de “mulheres”. Quanto às mulheres eu sou muito
está colonizado não temos saída tal se ela for ética e, portanto, boa otimista. Se chegamos até aqui, não há como retroceder. A tendência
senão a renúncia e a crítica que para os indivíduos e a sociedade é a liberdade com tudo o que ela tem de contradição. É uma pena,
nos faça mudar nossas próprias no qual ela se insere. Precisamos porém, que nem todas as mulheres saibam da história que as trouxe
ações. A parte que cabe à mídia questionar o poder e transformá-lo até aqui e permaneçam “machistas”. Muitas vezes nem sabem que este
é a do controle de nosso olhar. em ação conjunta, em algo que se é o significado de suas posturas (quando posam nuas em revistas para
Mas, se aprendemos a ser críticos, agrega ao bem que precisa também homens, por exemplo). Os veículos de comunicação apenas refletem
podemos tomar posse novamente ser questionado. Eu não vejo a moral do senso comum. Não basta culpá-los e tentar salvar o povo.
deste território sitiado que é saída sem o fomento da força do É preciso reeducar povo e mídia, não para que ajam segundo outros
nosso olhar e, em torno dele, pensamento crítico e de projetos critérios (que podem ser ruins também), mas para que tenham liberdade
nosso corpo, suas demandas e educacionais e políticos que nos de escolha, chance de discernimento. A falta de lucidez neste país é
autênticas necessidades. movam de onde estamos. enorme. A mídia é mais um sintoma.

35
Cobertura da Palestra

“As massas não


são burras”
Marcia Tiburi defende demanda por
qualidade na mídia e propõe a desconstrução
do desejo para não sermos vítimas da perversão

No dia 24 de julho, a filósofa e autora Marcia Tiburi foi a terceira existência. Não desejamos por nada mais que continuar existindo dentro da
convidada do módulo Eros do Paideia para a palestra Retóricas sedutoras: possibilidade do desejo. E, portanto, o desejo não serve, ele não é para nos
O desejo do saber a partir do encantamento da mídia, em que apontou levar a sentido nenhum que não seja o próprio verbo intransitivo ‘desejar’.
a administração lucrativa do desejo como um dos grandes males da É só isso. Quem conhece o próprio desejo? Tenho a impressão, com toda
sociedade contemporânea. Segundo ela, as nossas emoções estão a humildade do ‘sei que nada sei’, que o desejo é uma invenção. E, como
colonizadas. E, caso não façamos uma desconstrução para olhar o avesso, todas as invenções, tem o seu lado bom e o seu lado ruim”, afirma.
o bonito pode se tornar perverso. “Perversão nada mais é que olhar pelo
verso. A perversão é a produção de um lado sendo verdadeiro e um “Desejar pode ser, para algumas mentes perversas, um grande negócio.
outro sendo falso. Sendo que o lado dado como verdadeiro acoberta o Seres humanos vivem e continuam vivendo porque têm desejo. Aqueles que
lado dado como falso. Para combatermos a perversão, temos sempre que aprendem como essa aventura pode se transformar em mercadoria ficam
mostrar os dois lados”, observa. ricos. Isso é um problema mais grave do que imaginamos. Tem sempre
um sujeito que administra a palavra desejo e esse potencial em nome da
“Porque existe a Indústria Cultural? Porque as pessoas foram reduzidas a vida e da vida que ele quer viver. E inventa roupa, bebida, droga, sapato,
nada e se contentam com qualquer coisa. Aquela qualquer coisa que passa avião, televisão, tudo. Inventa até o desejo das pessoas por filosofia. Só
pelos meus ouvidos, aquela ‘qualquer música’. Se tapou o meu ‘buraco’, desconstruindo tudo, a todo o momento, para não nos tornarmos vítimas
estou feliz, tive o meu ‘lucro’. O lucro envolve uma emoção voltada para sem saída dessa perversão. Estamos produzindo uma sociedade perversa.
ter posse sobre o próprio corpo, o próprio sexo, a própria roupa. Ficamos Se ninguém sabe o que é o desejo, como alguém pode achar que é capaz de
doentes. E para combater essa lógica, só dando. Dando tudo que não é administrar esse objeto absolutamente volátil?”, questiona.
para dar. Dê e sem esperar nada em troca”, propõe. “Vamos parar com as
relações de troca. Isso está muito errado porque a cultura está toda errada. O olho aterrador
Estamos errados dentro de uma cultura enviesada, que cresceu torta e
continua torta. O homem precisa acabar com os laços destas trocas. Ele Voltando à questão da televisão, Marcia Tiburi – que é uma das
precisa se responsabilizar diante do que fizer para poder ser feliz. Mas é integrantes do programa de TV Saia Justa (GNT/ Globosat) – tem
preciso coragem para ele saber o que quer diante da vida”. opiniões muito peculiares sobre o veículo. “O nosso olhar também é
sitiado. Aquele que quiser ser dono dos seus desejos tem que aprender
Inanição intelectual a preservar o seu olhar. A escola não oferece isso de fato. Muito menos
a mídia, é por aí que ela coloniza. A televisão é um olho aterrador.
De acordo com Marcia Tiburi, há uma espécie de “buraco” que tem Mesmo quando esclarecida, a pessoa chega em casa e liga a TV porque
sido preenchido pela Indústria Cultural, cujo maior representante é a não suporta ter que viver com o olhar que ela própria tem. Então ela
TV. “Quando falamos de discurso, falamos sempre de poder. Quem liga aquela coisa que olha para ela, como se estivesse sempre a aliviá-la.
fala está sempre autorizado e sempre tem alguém que vai escutá-lo. Descolonizar ou libertar o olhar envolveria um nível prático. As pessoas
Porque o discurso se exerce em cima do desejo de quem ouve. Então eu deveriam desenhar mais, ficar mais tempo no escuro, ler mais, ver mais
posso falar a maior imbecilidade e alguém vai acreditar. Porque sempre obras de arte, passear nas ruas e prestar atenção em tudo. Caso contrário,
haverá alguém com um ‘buraco’ tão grande que compra qualquer coisa. o que vai ser filosofia hoje? Vai ser contemplação do status quo? Ao prestar
Qualquer pérola ou qualquer lixo que possa ser dado a ele”, diz. atenção, o nosso olhar vai descolonizando. Prestar atenção significa ficar
diante de um objeto e deixar o objeto falar”, defende.
“Claro que, quando o sujeito avalia os seus pensamentos e começa
a entender como os outros se sentem, como funciona a história da “O YouTube hoje é um mecanismo de televisão e acho bárbaro. Não
humanidade em relação a isso, ele vai ficando mais livre para perder porque cada um pode fazer o seu oba-oba. Mas porque vamos quebrando
aquele ‘buraco’ que quer sempre preencher com qualquer coisa que o com as hegemonias. E a televisão, o aparelho, perde o seu potencial de
outro ofereça. Como se ele vivesse numa tal inanição intelectual que enganação. Aí se renova o potencial de ficção porque todo mundo pode
qualquer coisa que o outro diga venha então preencher o seu vazio. Quem fazer. A TV é um desfavor. Se você não vê, o coração não sente. E acho
falar de desejo tem que falar cortando sempre estas possibilidades. Do que o melhor a fazer é não ver mesmo. Você poderia tentar alimentar
contrário, entra uma pérola, o outro compra e aí ‘ohhhh meu ídolo’. Não melhor o seu estômago existencial. Descolonizar um olhar colonizado
pode. Se ele fizer isso, ele será antiético”, continua. pela imagem só com muita educação, política, arte, ruptura e vírus. ‘Ahh
mas aí não vai vender’. Não. Você torna o povo burro, você faz uma coisa
Desejo: invenção, negócio e perversão burra, aí você sustenta o sistema do emburrecimento geral porque não
tem coragem de pensar um pouco demais. Claro que tem demanda para
Para a filósofa, o nosso maior erro é achar que vamos descobrir o que é o a qualidade. As massas não são burras. O que as massas não sabem é que
desejo, onde está e para que serve. “O desejo é só o motor que move a nossa elas têm muito poder”, conclui.

36
Indústria Cultural
Batizado por Theodor W. Adorno (1903-1969) na década de 1950, o conceito de Indústria Cultural permanece
essencial para a compreensão das características e contradições da sociedade capitalista. Três dos mais importantes
ensaios do autor sobre o tema são A Indústria Cultural: O Iluminismo como mistificação das massas, de 1947, em co-
autoria com Max Horkheimer; Crítica cultural e sociedade, de 1949; e Tempo livre, de 1969. Ao lado de Horkheimer,
Walter Benjamin e Herbert Marcuse, Adorno era um dos principais representantes da Escola de Frankfurt – nome
do grupo de cientistas sociais e filósofos que emergiu no Institut für Sozialforschung
da Universidade Frankfurt am Main, na Alemanha, e que criou também a Teoria
Crítica da Sociedade. O produto derivado da Indústria Cultural é a chamada Cultura
de Massa, que tem sido acusada por teóricos da comunicação como alienante, com
objetivo único de incutir o elemento de diversão para anestesiar o público. Adorno é
um dos filósofos preferidos de Marcia Tiburi. Em 1995 ela publicou pela EDIPUCRS
o livro Crítica da razão e mímesis no pensamento de Theodor Adorno, a íntegra de sua
tese de mestrado em Filosofia, defendida em março de 1994. Dez anos depois, ela
publicou pela Editora da UFRGS o livro Metamorfoses do conceito: Ética e dialética
negativa em Theodor Adorno. Trata-se do texto revisado de sua tese de doutorado,
defendida em abril de 1999, mostrando a questão da ética e da dialética negativa em
um pensador conhecido pela sua relação com a música, a arte, a estética.

Filosofia para as massas


Marcia Tiburi integra o elenco do semanal Saia Justa desde 2005. O programa de debates, que vai ao ar
pelo canal de TV a cabo GNT há cinco anos, reúne ainda a jornalista Mônica Waldvogel, a apresentadora
e vereadora Soninha e as atrizes Betty Lago e Maitê Proença. As intervenções de Marcia fazem análises
sobre assuntos contemporâneos sob o olhar da filosofia. E a TV aberta descobriu que este filão não é
nada hermético e poderia se comunicar com as massas. Em 2006, a Globo convidou a filósofa Viviane
Mosé para fazer um quadro no programa semanal Fantástico. Intitulado Ser ou Não Ser, ele traçava um
paralelo entre situações e sentimentos que enfrentamos no dia-a-dia e o que a filosofia aborda sobre cada
um deles. O sucesso foi tão grande que em 2007 a atração ganhou uma segunda temporada, desta vez
para discutir problemas e desafios da educação no Brasil. Uma reflexão sobre o nosso sistema de ensino
composto por escolas defasadas e alunos que parecem cada vez mais despreparados. Através de análises
filosóficas ao alcance de todos, Marcia Tiburi e Viviane Mosé enchem de orgulho a mídia televisiva,
dando o ar da graça filosófica.

37
Linguagem corporal
Mirian
entrevista

Doutora em Antropologia
Social pelo Museu Nacional
da Universidade Federal do
Rio de Janeiro (UFRJ), Mirian
Goldenberg é professora do
departamento de Antropologia
Goldenberg
Cultural e do programa de
pós-graduação em Sociologia
e Antropologia do Instituto de
Filosofia e Ciências Sociais (IFCS)
da UFRJ. É autora de Toda mulher
é meio Leila Diniz, A outra, Os
novos desejos, Nu e vestido, De
perto ninguém é normal, A arte
de pesquisar e Infiel – todos pela
Editora Record. Vários de seus
textos, artigos e pesquisas podem
ser encontrados no seu site, www.
miriangoldenberg.com.br. Ela
acaba de voltar de uma viagem
de 40 dias pela Alemanha, onde
pesquisou a relação da mulher
européia com o corpo. E conversa
com a Revista Paideia sobre
o comportamento da mulher
brasileira com a estética, mote de
sua palestra Culto ao corpo, mídia e
novas formas de erotismo.

Como e quando surge esta De que forma este fenômeno implicaria uma maior E quais seriam as
demanda por exposição erotização ou prejudicaria o nosso Eros? conseqüências da insistente
de corpos na publicidade e hipervalorização da
mídia brasileiras? O ideal de corpo da mulher brasileira de hoje está associado à idéia estética perfeita para a
de sexualidade e sensualidade. As mulheres brasileiras desejam muito sociedade em geral?
Especialmente nas últimas duas mais do que serem belas, desejam serem sexy e querem seduzir e se
décadas, o corpo da mulher brasileira sentir desejadas. Neste sentido, ser objeto do desejo masculino é um A mais profunda insatisfação
passou a ser usado na publicidade grande desejo da brasileira, que precisa permanentemente do olhar e e uma evidente infantilização,
e mídia associado a produtos a da aprovação masculina. Uma enorme dependência se estabelece. A especialmente das mulheres, que
serem vendidos. A mulher “gostosa” identidade da brasileira é construída a partir desta idéia: ela é uma mulher não aceitam a própria idade e se
passou a ser um ideal de corpo, não gostosa (“comível”), sexy, sensual. E também feminina, delicada, submissa recusam a envelhecer. Mulheres
apenas para modelos ou atrizes, mas, (ou finge ser). A mídia impõe modelos ideais de comportamento sexual, que querem paralisar suas faces
também, para a mulher que não constrangendo homens e mulheres a se adaptarem a estes modelos ou se e corpos em um esforço patético
necessita do corpo em sua profissão. sentirem fracassados por não conseguirem. A sensação de fracasso ou de de parecerem ser o que já não são
Se até os anos 60 a mulher ideal insatisfação é uma constante entre os casais que tenho pesquisado, muitas mais. Uma busca desesperada de
era a dona de casa, mãe de família, separações ocorrem em função desta distância entre um padrão social ser sexy e uma enorme dependência
esposa prendada, ideal disseminado imposto de fora e a realidade concreta dos casais. e valorização da figura masculina,
na publicidade e na mídia, nos anos o que afeta a auto-estima e a
90 as mulheres sensuais passaram dignidade feminina.
a ter um espaço privilegiado nestes Como podemos nos despir da “moral da boa forma” nesta
meios. Podemos apontar como nova ditadura do culto ao corpo?
fatores para esta mudança o sucesso
das modelos brasileiras no exterior, a Tendo uma visão crítica e criativa, não aceitando a imposição dos padrões
disseminação da imagem da mulher sociais disseminados pela mídia, buscando conhecer os próprios desejos
seminua no Carnaval e, também, o e respeitando a própria vontade mesmo que esta esteja distante do que é
prestígio das atrizes globais. Hoje a considerado “normal”. Acabei de voltar de uma viagem de 40 dias pela
esposa e mãe não é mais o ideal de Alemanha, onde entrevistei mulheres que não têm nenhuma preocupação
mulher a ser imitado. O corpo da obsessiva com o corpo, mulheres que afirmam ser emancipadas e
mulher brasileira é um verdadeiro cujo principal objetivo é se libertar dos estereótipos da mulher objeto
capital no mercado de casamento, e submissa ao homem. Acredito que este é um caminho necessário:
no mercado sexual e, também, no emancipar-se, libertar-se dos papéis tradicionais e da imagem da mulher
mercado de trabalho. que é um mero objeto de desejo masculino.

38
Cobertura da Palestra

“O corpo no
Brasil é um
verdadeiro capital”
Mirian Goldenberg identifica uma nova
moralidade brasileira, em que o corpo perfeito se
torna instrumento de ascensão social
O módulo Eros do Ciclo Paideia não poderia encerrar de modo mais instigante. outro como potencialidade física”, argumenta. “Quando pensamos em imitar,
No dia 31 de julho, a aplaudidíssima palestra da antropóloga e autora Mirian não é só porque queremos imitar ou sermos iguais. Queremos imitar para
Goldenberg sobre Culto ao corpo, mídia e novas formas de erotismo apontou as conquistar o que essas pessoas, que têm o corpo como principal capital, têm e
origens da valorização das formas físicas no Brasil e traçou um panorama de como nós não temos”, diz.
a pressão pelo corpo perfeito tem influenciado as nossas relações sociais. Foram
mais de duas horas de análises teóricas de Gilberto Freyre, Marcel Mauss e Pierre “Na França, adolescentes imitam mães no sentido de ser uma pessoa adulta.
Bourdieu até exemplificações dos atuais ícones da cultura brasileira no mundo, Aqui é o contrário, mães, filhas e avós usam as mesmas marcas de roupas.
Ronaldinho Gaúcho e Gisele Bündchen. Quanto mais idade você tem, maior é a preocupação de parecer mais jovem, o
que é impensável na Europa. Ser uma mulher madura e se comportar como tal,
“O corpo no Brasil é um verdadeiro capital, uma verdadeira riqueza. Talvez a lá é um valor. Aqui é ser velha, é o oposto”, afirma. “Aqui as roupas são usadas
mais desejada, tanto pelos indivíduos das camadas médias e até das camadas mais como pretexto para exibir o busto e as nádegas. E, quanto mais trabalhado e
pobres. Porque percebem este corpo como veículo de ascensão social e, também, modificado é o corpo, mais ele deve ser exibido. A verdadeira roupa no Brasil é
um importante capital no mercado de trabalho, no mercado de casamento e, o corpo. É o corpo que é imitado. É o cabelo, é o músculo, é o peito. O silicone
principalmente no mercado sexual brasileiro. Quando você vê essas mulheres que é um bom exemplo disso”, aponta, revelando que as brasileiras são as maiores
passam o dia cuidando do corpo e fala ‘nossa, elas são tão superficiais’, você não consumidoras de tinta loira e vice-campeãs em cirurgias plásticas no mundo.
pode dizer isso. Porque, no Brasil, o corpo talvez seja o mais importante capital.
E, talvez, um dos mais importantes instrumentos de ascensão social”, provoca. Equilíbrio de antagonismos

Macaquices Mirian Goldenberg observou que houve uma mudança de paradigma entre
as mulheres brasileiras que, a partir da década de 1980, deixaram de desejar
Mirian, que também é doutora em Antropologia Social e professora da apenas se casar e ter filhos – agora elas querem casar e ter filhos, mas também
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), lembra que Gilberto Freyre já ser sexy, ficar eternamente jovens e ter o corpo. De lá para cá houve uma
analisava mudanças nos padrões de beleza brasileiros. Embora a mulher típica seja explosão de consumo na indústria da estética e cosmiatria, devido ao aumento
miscigenada e curvilínea, nos anos 1980 havia os primeiros sinais de valorização do poder aquisitivo destas mulheres que entraram no mercado de trabalho.
de uma estética européia. “Freyre dizia que a brasileira macaqueia modelos que Em contrapartida, o próprio mercado de trabalho brasileiro passou a também
não são brasileiros. Ele criticava uma cultura que elegia um modelo europeu valorizar o corpo.
de mulher a ser imitado. Isso é quase uma violência. Uma brasileira fruto da
miscigenação sexual não pode ter uma pele branca, um cabelo liso e loiro. A não “É muito comum anúncios de emprego com a frase ‘exijo boa aparência’,
ser que ela violente muito o corpo dela. É um pouco o que acontece hoje no que não é estar com cabelo branco ou gorda. Atrás desta expressão
Brasil”, compara. entra todo este modelo de corpo, que é jovem, magro, cuidado. Na
Europa, as mulheres usam roupas extremamente retas e discretas porque
Gilberto Freyre classificava Sonia Braga como o perfeito biotipo de beleza querem ser contratadas pela sua competência profissional. Aqui, se você
brasileira e via com estranheza a valorização de um padrão como o de Vera fizer um concurso e não tiver boa aparência, você vai competir com
Fischer, que começava a despontar como atriz. Desde então surgiram outros mulheres competentes e de boa aparência. E vai provavelmente ter menos
símbolos de beleza européia de grande influência na mídia, como Xuxa. “Há qualificação. Porque boa aparência é um valor, inclusive no mercado de
20 anos as crianças têm, não só a Xuxa como outras apresentadoras, como trabalho. Para não falar num mercado que é muito desfavorável para as
representantes de uma beleza européia. As crianças brasileiras nos últimos 20 mulheres brasileiras, que é o mercado de casamento”, continua.
anos têm tido este ideal de corpo, beleza e sexualidade como ideal a ser imitado”,
comenta, usando também como exemplo o polêmico Concurso Miss Brasil 2005, A antropóloga fala ainda sobre o conceito de Pierre Bourdieu de “dominação
que só apresentou candidatas loiras, altas e longilíneas – incluindo a Miss Bahia. masculina”, que influencia não só mulheres como homens. Elas querem ficar
pequenas da cintura para baixo, eles querem ficar grandes da cintura para
Imitação prestigiosa cima. E traz à tona a idéia de “equilíbrio de antagonismos” defendida por
Gilberto Freyre. “Temos uma sociedade cada vez mais individualista, mas nos
Em seguida, para investigar o crescente culto ao corpo, a antropóloga citou submetemos à pressão social desse ideal do corpo. A mulher brasileira nunca foi
o conceito de “imitação prestigiosa” de Marcel Mauss. “Toda cultura imita tão livre, mas nunca foi tão preocupada e controlada por uma idéia de corpo.
aqueles que têm prestígio, sucesso e dinheiro. Não é um fenômeno só brasileiro. Essa idéia de corpo natural e saudável, ao mesmo tempo o corpo esculpido e
E quem tem prestígio, dinheiro e sucesso no Brasil hoje? São as pessoas que moldado. E o modelo tropical de mulheres seminuas, mas usando cabelo loiro
usam o seu corpo. Ronaldinho Gaúcho e Gisele Bündchen são os únicos e liso como uma européia – e com o peito de uma norte-americana. Aqui você
brasileiros na lista de 100 pessoas mais influentes no mundo. Os dois que têm convive com essas contradições e parece que é normal. Todas somos esse poço
o seu corpo como principal capital. De formas diferentes, uma como aparência, de contradições longilíneo”, conclui.

39
Corpolatria na economia
Se o corpo é um valor no Brasil, a economia agradece. São inúmeros os empregos diretos e indiretos gerados em
função da indústria de cosmiatria e estética do país. De acordo com a última pesquisa da Sociedade Brasileira de
Cirurgia Plástica (SBCP) encomendada ao Instituto Gallup em 2004, das 616.287 cirurgias plásticas realizadas
no país em 2004, 59% foram estéticas e 41% reparadoras. Avalia-se que sejamos o segundo país do mundo que
mais faça plástica, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Em 2004, a indústria de higiene pessoal, perfumaria e
cosméticos faturou US$ 3,9 bilhões. O faturamento representou 6,5% do total da indústria química. Nos últimos
10 anos, o setor de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos cresceu a uma taxa
média de 5% ao ano, bem acima do crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) –
que é de 2,4% ao ano. Em 2006, o IBOPE divulgou pesquisa realizada para o jornal
Meio & Mensagem revelando que o Brasil é o país mais vaidoso da América Latina.
Cerca de 37% dos brasileiros se preocupam com sua aparência, contra 27% na média
da região. É também crescente o número de empresas que se especializam em parcelar
em até 36 prestações qualquer intervenção plástica. E o renome dos cirurgiões
brasileiros atrai ainda centenas de estrangeiros por mês para se operar com o bisturi
Made in Brazil. De olho neste nicho, há até empresas americanas que fazem pacotes
turísticos incluindo plásticas estéticas no Rio de Janeiro. As pacientes americanas
que já passaram pela experiência garantem que foi muito melhor enfrentar o pós-
operatório visitando belos pontos turísticos. Coisas que só acontecem no Brasil.

Corpolatria no trabalho
Horror à gordura e à velhice. Obsessão pelas formas perfeitas e pela aparência jovem. Não à toa o Brasil
é apontado como o campeão mundial do consumo de moderadores de apetite, além de vice em plásticas.
Nas bancas de jornal, são dezenas de revistas voltadas para o mercado de beleza. Todas com fotos de corpos
esculturais, reportagens que prometem milagres instantâneos e anúncios de clínicas supostamente capazes
de realizar maravilhas. O reflexo disso chega até o mercado de trabalho. A antiga “boa aparência” é muito
mais que um conceito subjetivo. É hoje algo comprovado e analisado em meios acadêmicos. De acordo
com o estudo intitulado O impacto socioeconômico da beleza divulgado por pesquisadores da Universidade
Federal Fluminense (UFF) em 2006, desde a década de 1980 a beleza se tornou aspecto fundamental no
mercado de trabalho. A pesquisa indica que pessoas tidas como “bem-cuidadas” conseguem remuneração
RUBEN SHITO - SXC
de 5% a 10% superior a de pessoas consideradas de “aparência simples”. O percentual vale para homens
e mulheres e é controlado por outras variáveis, como educação e experiência. Os critérios indicadores de
beleza usados na pesquisa foram peso, altura e deficiência física.

40
Mythus - Análise

guerrae paz
O bem e o mal. Homens pegam em armas para defender o seu deus. Empresas vestem a camisa do
politicamente correto para promover sua marca. Numa época em que mocinhos e vilões já não são mais tão
maniqueístas, não faltam assuntos para serem discutidos no módulo Mythus, o último do Paideia. Realizado
em agosto no auditório do Arte SESC, as palestras promoveram debates sobre recrudescimento religioso,
espiritualidade, competência, consciência, futuro e valores. Da guerra à paz, Antônio Carlos dos Santos,
Regina Migliori, Rosa Alegria e Lia Diskin falam da nova ordem mundial que prepara bases para uma geração
sem precedentes na história.

O ataque às torres gêmeas do World Trade Center em Nova Iorque. O mundo não seria mais o mesmo depois
de 11 de setembro de 2001, quando terroristas islâmicos seqüestraram os aviões que se chocaram contra
os prédios e mataram mais de 2 mil pessoas. O Ocidente nunca mais viu o Oriente com os mesmos olhos,
sobretudo os povos muçulmanos. O filósofo Antônio Carlos dos Santos falou sobre a origem do monoteísmo,
o fundamentalismo e o recrudescimento. E a intolerância que atingiu a Europa nos últimos anos, travando uma
luta contra cidadãos que insistam ostentar símbolos religiosos em lugares públicos ou mesmo em escolas.

Ações éticas e sustentáveis foram o alvo da segunda semana de palestra. Especialista e pesquisadora de programas
de educação centrados nestes temas, Regina Migliori nos propõe um alinhamento entre o somos, sentimos,
pensamos e fazemos: corpo, mente e consciência. Ela acredita que – através de uma reeducação rumo à
cosmovisão, à gestão de valores humanos e à expressão da espiritualidade humana – será possível tirar o melhor
proveito do mundo contemporâneo. Para ela, o grande desafio de profissionais e empresas no século 21 é
também aplicar isto ao ambiente de trabalho e negócios. Somente aqueles que estiverem afinados com esta nova
realidade serão capazes de serem bem-sucedidos nas suas atividades.

Encerrando o módulo e os quatro meses de evento, o Paideia hasteou a bandeira branca da paz. A jornalista
e co-fundadora da Fundação Palas Athenas Lia Diskin trouxe à pauta a relevância de valores como confiança,
respeito e honestidade que, por sua vez, integram a postura de cada cidadão ético. Dissecando diferenças
fundamentais entre diálogo e discussão, ela mostrou eixos para se construir uma Cultura de Paz mundial.
Segundo Lia Diskin, a sociedade deveria desviar o foco de preocupações dos temidos conflitos – uma vez
que eles só seriam nocivos quando resolvidos através da violência. E, citando exemplos de grandes pacifistas
mundiais como Nelson Mandela, ela lembrou que sempre há uma contrapartida para sentimentos extremos.
“Todo ódio é construído, conseqüentemente todo amor também pode o ser”, conclui.

41
Uma nova ordem mundial
Antônio Carlos
entrevista

Graduado em Filosofia na Pontifícia Universidade Católica de Minas


Gerais (PUC-BH), Antônio Carlos dos Santos tem mestrado na
Universidade de São Paulo (USP) e doutorado na Universidade de Paris
X. Desde 1992 leciona na Universidade Federal de Sergipe (UFS) e
hoje integra o departamento de Filosofia da instituição. Pela Editora
UFS, já publicou as obras: A política negada: Poder e corrupção em
dos Santos
Montesquieu (2002), Variações filosóficas entre a ética e a política (2004) e
História, pensamento e ação (2006). Escreveu também artigos publicados De que modo esta moral
em revistas especializadas e capítulos de livros – alguns publicados no religiosa também poderia
exterior. Em abril de 2007, lançou o livro A via de mão dupla: Tolerância e afetar a democracia e o
política em Montesquieu (Editora Unijuí/UFS) que, segundo ele, propicia poder público de um país
ao leitor brasileiro ter acesso a um tema contemporâneo e pouco estudado laico como o Brasil? E
no meio filosófico. Em entrevista à Revista Paideia ele comenta sobre o como evitar isso?
cenário político contemporâneo, guiado por crenças religiosas, discussão
que fez parte de sua palestra Poder, fundamentalismos e intolerância: Oficial e teoricamente o Brasil é
O recrudescimento dos movimentos religiosos. laico, mas não na prática. Podemos
constatar isso em vários aspectos:
1) a geografia das chamadas
“catedrais da fé”, as casas de oração
e bênção, os templos e seitas
das mais esdrúxulas em todos os
pontos das cidades brasileiras. 2)
a quantidade de TVs religiosas
no Brasil das mais diferentes
tendências. Nem na Itália há tantas
TVs como aqui. 3) as livrarias
religiosas, as rádios difusoras,
os produtos de consumo com
mensagens de cunho religioso.
Em todas as tendências e versões
Após o 11 de Setembro Que contradição é esta de uma crescente onda de religiosas há um grande pendor
foram as religiões, os ortodoxia em meio a uma já consolidada heteroxia? pelo pentecostalismo, pelo
governos ou os cidadãos tradicionalismo no pensar e no
que ficaram mais Vivemos em um mundo muito dinâmico, em que tudo está em perpétua agir. Podemos perceber este ponto
intolerantes às diferenças? mudança, construção, transformação. O velho Marx já percebia esses de forma bem mais nítida na
sintomas no século 19, a ponto de afirmar que “tudo que é sólido se quantidade de padres, pastores
Os sintomas de intolerâncias desmancha no ar”. Hoje, no século 21, fala-se que vivemos a era pós- evangélicos e leigos engajados que
vêm de muito tempo em escala moderna, alguns até chegam a afirmar “hipermoderna”, que se define se elegeram nas últimas eleições.
mundial, particularmente a partir então, como apresenta Gilles Lipovetsky na obra A era do vazio, como Tornaram-se tão agressivos no
da década de 60, com a Crise do uma época marcada pelo culto do presente, das novidades, da moda, dos poder que têm projetos ambiciosos,
Petróleo. O 11 de Setembro foi valores hedonistas e de um individualismo crescente. Nossa época é a da de forte tendência conservadora.
apenas o apogeu de um processo inconstância, em que tudo é fluido, rápido, frágil, inseguro, descartável, em São contra os direitos das minorias,
crescente. Como este foi um que nada é garantido. Nem mesmo a ciência pode dizer que detém a verdade, o contrato entre pessoas do
momento marcante, provocou pois esta é sempre provisória. Enfim, a heteroxia não está consolidada porque mesmo sexo, o aborto, o uso
reações e mudanças geopolítico- nada está consolidado. Até bem pouco tempo achávamos que se podia usar de preservativos, dentre outros
religiosas espantosas. É como se e abusar da água que consumimos: hoje sabemos que, caso o clima instável temas polêmicos. É essa tendência
aquele dia tivesse desajustado continue, podemos não ter mais água potável num breve espaço de tempo. política conservadora e moralizante
a ordem mundial, provocando que está se fortalecendo no Brasil
um desequilíbrio inimaginável Tradicionalmente simpatizante ao sincretismo, a e que pode ser um perigo para
entre países, culturas, nações e sociedade brasileira correria risco de ser atingida por a democracia se entendermos
mundo distintos. Esse clima de este novo fundamentalismo mundial? esta forma política como avanço
insegurança ou de intolerância crescente dos direitos de todos,
não só acontece entre países ou O fundamentalismo é uma forma de encarar a religião prendendo-se à sobretudo, das minorias. Ora,
culturas diretamente envolvidas letra do texto sagrado ou à sua tradição de forma rígida, ortodoxa. Ele tem como evitar? Investir cada vez
em conflitos graves, pois ultrapassa crescido em todas as grandes religiões, sobretudo. Trata-se de uma tendência mais em educação de qualidade e
fronteiras e atinge a todos. mundial e o Brasil não é exceção. É certo que temos aqui, culturalmente, em políticas públicas inclusivas;
uma verve religiosa pouco rígida. No fundo, não levamos muito a sério o motivar ações que ressaltem o
que as religiões daqui pregam. Um exemplo: o papa diz que não se pode usar valor da diversidade cultural
camisinha, mas poucos o seguem. E se a religião ficar muito exigente, tem do povo brasileiro e reprimir
gente que logo muda também de religião. Então isso, de certa forma, nos enfaticamente todo ato que colidir
ajuda a não se deixar levar pelo rigor religioso e barrar a força desmedida do com esses valores republicanos e
fundamentalismo. Mas é necessário frisar: nada está garantido. democráticos.

42
Cobertura da Palestra

“O monoteísmo já
nasce intolerante”
Antônio Carlos dos Santos acredita que
religiões monoteístas sejam intolerantes e
que recrudesceram só após os anos 70

Mythus, o último módulo do Ciclo Paideia, começou no dia 7 de agosto Recompensa dos céus
com a palestra Poder, fundamentalismos e intolerância: O recrudescimento
dos movimentos religiosos, no Arte SESC. Nela, o mestre em filosofia e Para o filósofo, que é professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS),
autor Antônio Carlos dos Santos falou sobre monoteísmo, secularização outro ponto importante de discussão seria o distanciamento entre o poder civil
e fundamentalismo. E tentou resgatar, através de elementos históricos, as e o poder religioso a partir do século 17 d.C.. “Chegamos ao século 16 com
possíveis razões para guerras e ataques terroristas em nome de Deus que a Europa cindida em guerras de religião entre católicos e protestantes. Temos
assolam o mundo contemporâneo. o Concílio de Trento que vai reconfigurar o poder da Igreja no mundo, aí
são formadas as metas através das quais o cristianismo terá uma nova cara e é
“Vemos uma proliferação exacerbada do mercado religioso. O filme formada a Companhia de Jesus, uma espécie de exército para proteger a religião.
A paixão de Cristo, de Mel Gibson, rendeu cerca de 370 milhões Foi nessa mentalidade que enviaram soldados para defender a fé cristã. No
de dólares. Nos Estados Unidos, há 250 emissoras de TV e 1,2 século 16, a Europa está totalmente cindida e, no século 17, alguns pensadores
mil rádios exclusivamente cristãs. Num país tido como secular, é vão se dedicar ao estudo da intolerância”, observa.
de estarrecer. Aqui temos o Padre Marcelo Rossi, com suas ‘show-
missas’. Percebemos no dia-a-dia a mercantilização do sagrado. O “Em 33 d.C., quando começa o cristianismo, até o século 17, há uma
sagrado virou um comércio como qualquer outro. Sem contar na união exacerbada do poder religioso e do poder civil. Isso leva à reforma
arquitetura religiosa. Em todas as cidades você se depara com as protestante. Os protestantes reivindicam um lugar ao sol e, como quem se
chamadas catedrais da fé, centros que foram ocupados justamente nos identifica com o poder não quer largar dele, ocorrem abusos. A questão vai
lugares antes ligados à cultura. Cinemas que foram transformados em tomar conta das universidades e ser tema central de filósofos de boa parte
centros de bênção. Aí a nossa paisagem vai se tornando cada vez mais dos séculos 17 e 18. E começam a questionar que o cristão age de forma
moralizante”, defende. interesseira, esperando recompensa futura, ao contrário do ateu. Quando
o ateu pratica uma caridade, é porque acha importante ir ao encontro do
Deus Todo Poderoso outro e dar um apoio, ele não espera nada em troca”, continua.

Antônio Carlos dos Santos comentou a transição do politeísmo das O grande satã
culturas babilônicas e greco-romanas para o monoteísmo. “As religiões
primárias do mundo antigo cultuavam vários deuses. Mas aí surgiram De acordo com o palestrante, ao contrário do cristianismo e do judaísmo, no
as secundárias que, para serem constituídas enquanto religião, foram islamismo não haveria espaço para a secularização. “O Alcorão é o código de
‘reveladas’ para um fundador. Só foi possível o nascimento delas graças direito, de moral e de conduta. A secularização é imprensada no mundo islâmico.
à escrita. As nossas religiões surgem com o texto sagrado. O que antes Do século 13 para cá, o islamismo passou a entrar num processo de isolamento
eram vários deuses e várias culturas disseminadas, agora passa a ser em relação ao mundo ocidental, o que só fez aumentar esse recrudescimento.
baseado num texto sagrado revelado a um fundador. As três grandes A partir dos 60, com a Crise do Petróleo, eles têm uma riqueza inesgotável e se
religiões foram fundadas desta forma: o judaísmo, o cristianismo e o dão conta de que podem controlar os países desenvolvidos com esse petróleo.
islamismo”, diz. Aí resolvem islamizar a cultura ocidental. De que forma? Violenta. Porque é
uma missão islamizar aquilo que é corrupto, que é degradante e que está
“Da passagem do sistema politeísta para o monoteísta, houve uma se corrompendo cada vez mais, que é o mundo ocidental. Sobretudo ‘o
verdadeira revolução. Como é possível uma cultura ser constituída de grande satã’, que são os Estados Unidos. Essa é a idéia”, justifica.
vários deuses e, num pouco espaço de tempo, eles serem abolidos e
aniquilados para dar lugar a um único Deus? Só por meio da violência. “O fundamentalismo é, por um lado, esse apego às letras do Alcorão tal
Ou seja, o monoteísmo já nasce intolerante. A primeira coisa que o qual foi escrito na época de Maomé. E, por outro, é hostilizar e se opor
monoteísmo fez foi introduzir o conceito de verdade. O Deus judaico radicalmente à modernidade. Os fundamentalistas se põem como os
é único e a fé é única. E não pode haver outra, os outros são falsos, só guardiões da moralidade e da religião, ignorando por completo os arranjos do
há esta verdade. Esta é a primeira mudança, a da linguagem. A segunda mundo contemporâneo. Eles não se vêem como suicidas, mas como mártires
mudança foi a expulsão dos nossos deuses das tribos, dos cultos e dos em nome de Alá. Por que há um recrudescimento? A partir dos anos 70
hábitos seculares que remontavam o século 18 antes de Cristo. Tudo isso vemos uma reforma mundial das três grandes religiões. No Vaticano, o Papa
é enormemente afetado em detrimento de um único Deus. É óbvio que João Paulo II foi eleito em 1978. Em Israel, Menachem Begin assume como
o monoteísmo é intolerante. Ele nem aceita a possibilidade de existência Primeiro-Ministro em 1977. E no Irã o Aiatolá Khomeini, em 1979, funda
do outro. É ele ou o outro. Ele é altamente excludente, portanto, a revolução islâmica, a partir da qual influenciou todo esse novo projeto de
intolerante”, alega. islamizar o mundo ocidental”, acredita.

43
O queijo da Igreja
O interesse por religião nunca esteve tão em voga e o mercado religioso nunca tão em alta. No entanto, a Igreja
Católica luta para pegar uma boa fatia deste queijo. Em maio de 2007, o Papa Bento XVI esteve em visita a São
Paulo como parte da estratégia de conter a evasão de fiéis no Brasil, tida como a maior nação católica do mundo.
De acordo com o Censo 2000, o país continua à frente do ranking, com cerca de 125 milhões de católicos. Porém,
a percentagem caiu de 83,3% em 1991 para 73,8% em 2000, enquanto a de evangélicos aumentou de 9,1% para
15,5% no mesmo período. A aversão por uma modernização e diálogo mais aberto com seus seguidores é uma das
principais críticas à religião católica. Dois meses antes de vir ao Brasil, Bento XVI
lançou o livro Jesus de Nazaré, no qual faz um mea culpa ao condenar a postura do
Império Cristão de ter tentado transformar a fé em fator político. “Ao longo dos
séculos, esta tentação se apresentou de formas diferentes, e a fé sempre correu o risco
de ser sufocada pelo abraço do poder. A fusão entre fé e poder político tem sempre
um preço”, escreveu. No entanto, na prática, a Igreja ainda hoje tenta pressionar
governos para que adotem posição conservadora em relação a assuntos como aborto,
pílula, camisinha e homossexualidade. Num dos encontros com o papa, o Presidente
Luiz Inácio Lula da Silva fez questão de deixar claro que o Brasil é um país laico e
tem total liberdade de escolha sobre suas políticas de controle de natalidade e doenças
sexualmente transmissíveis.

Símbolos de fé
Depois dos ataques de 11 de Setembro, a Europa se viu no centro de discussões sobre intolerância
religiosa. Na França, uma lei promulgada em março de 2004 proibiu o uso do véu e de outros objetos
religiosos, como a cruz católica e o solidéu judeu, em locais públicos – incluindo centros escolares. Em
outubro de 2006, a professora muçulmana Aishah Azmi, de 24 anos, que leciona inglês na escola cristã
Headfield, ao norte da Inglaterra, foi suspensa por não tirar o véu em aula e venceu um processo contra
o colégio. No mesmo mês, a britânica Nadia Eweida, de 55 anos, denunciou ter sido demitida da British
Airways por não querer tirar nem esconder um pingente de crucifixo. A companhia aérea, onde ela
trabalhava há sete anos, no entanto permite que muçulmanas usem o véu que cobre os cabelos. Depois do
incidente, a rede de TV BBC liberou que seus apresentadores de telejornais ostentem símbolos religiosos,
desde que discretos. Em pesquisa na Internet, a maioria dos espectadores se mostrou favorável a que eles
possam exibir elementos relacionados à sua identidade cultural. No mesmo ano, o desenhista francês
YAN BOECHAT - SXC René Pétillon publicou a história em quadrinhos O caso do véu, no qual um detetive recebe o encargo
de encontrar uma jovem francesa que teria se convertido ao Islã radical, grande sucesso de vendas. Uma
pesquisa publicada no Jornal Le Monde em novembro de 2006 confirmou esta tendência tolerante: 56%
dos franceses se declararam contrários à proibição de andar com o véu islâmico em locais públicos. A
polêmica toma conta até da fronteira final do continente, a Turquia – país laico que luta para entrar na
União Européia. Mais de 90% da população turca é muçulmana, mas lá também é proibido o uso do véu
em escolas e universidades. No entanto, o que se vê nas ruas é a maior parte das mulheres com a cabeça
coberta pelo hijab ou xador, por opção, uma vez acreditam ser importante resguardar a sua imagem.

44
Gestão do intangível
Regina Migliori

entrevista
Regina de Fátima Migliori é educadora, advogada, escritora e pioneira no
Brasil na criação de Programas de Educação e Gestão centrados em Ética,
Cultura de Paz e Sustentabilidade. É diretora-presidente do Instituto
Migliori e atua como consultora para governos e para a iniciativa privada,
tendo entre seus clientes Governo de Minas Gerais, Polícia Militar do
Estado de São Paulo, Banco Real ABN Amro, Grupo Votorantim, Natura
e Cia. Vale do Rio Doce. É autora de livros, programas de e-learning e
comunidades virtuais de aprendizagem. O tema escolhido para a sua
palestra é inovador – Espiritualidade, competência e conhecimento – e é
sobre esta tendência humanizada do profissional do século 21 que ela
conversa com a Revista Paideia.

De que forma e a Quais os maiores desafios


partir de que momento para empresas, governos e
espiritualidade, sociedades no século 21?
competência e
conhecimento passaram Em primeiro lugar, é preciso recuperar
a influenciar as nossas a capacidade de lidar com a gestão dos
relações? aspectos intangíveis, reconhecer que
também compõem a nossa realidade e Como avalia o desempenho empresarial brasileiro
A complementaridade entre estes embasam a forma como solucionamos quanto à Responsabilidade Social e Sustentabilidade?
aspectos é natural. A espiritualidade nossos desafios. Estamos diante de
passou a ser vinculada exclusivamente imensos desafios. Precisamos encontrar O envolvimento das empresas vem evoluindo com muita velocidade. Há cerca de
às religiões, com foco específico outras maneiras de administrar nossa 20 nos era uma novidade, quase uma excentricidade, desconhecida pela maioria.
na relação íntima consigo mesmo, relação com a vida, a natureza, os Hoje é uma necessidade. Eu diria que há algumas décadas esta pauta era “coisa de
distante da realidade cotidiana, demais seres humanos, sob pena louco”. Hoje é tido como louco aquele que não estiver buscando soluções para os
da produção do conhecimento, de comprometermos nossa própria desafios da Sustentabilidade. Porém, sinto que essa rápida evolução nos aproximou
do exercício prático das nossas sobrevivência. O modelo disponível das fronteiras do modelo de vida atual. Isso nos fará diferenciar quem de fato tem um
competências. Este distanciamento está em crise, não oferece estratégias compromisso com a Sustentabilidade, daqueles que adotam estes princípios por mera
foi enraizando nas pessoas a forte para lidar com estas circunstâncias conveniência, para não deixar de atender o que pode ser um modismo passageiro
sensação de que o mundo real está desafiadoras porque se fundamenta como tantos outros. Trata-se de uma mudança de paradigma econômico e empresarial
muito distante da dimensão espiritual. em uma dimensão materialista, que, por meio da conscientização dos tomadores de decisão, visa solucionar alguns dos
Esta percepção reforçou parâmetros de dando menor relevância às dimensões problemas críticos do capitalismo e das empresas em geral. Os atuais desafios exigem
ação alinhados às nossas inteligências “invisíveis” da realidade. Estamos este novo posicionamento, mas nada irá de fato se transformar sem que cada pessoa
e competências, à nossa capacidade buscando soluções sobre gestão do compreenda que a mudança é de caráter individual. Ou seja, não se trata somente
criativa e transformadora, mas nos conhecimento, dos relacionamentos, de alterar os modos de produção e de atendimento às necessidades sociais. Trata-se
distanciou da nossa consciência, da sobre educação e cultura, e de de alterar nosso jeito particular de viver para um novo modelo que ainda não está
dimensão ética das ações, dos valores inúmeros outros aspectos que não se totalmente concebido. Um modelo que pode vir a ser formatado a partir de princípios
humanos, e da responsabilidade adequam às formas de gestão voltadas éticos, de valores que de fato enraízem as soluções que o mundo vem exigindo de nós.
sobre os impactos que nossa atuação para as dimensões concretas da Por esta razão, neste momento é preciso ter a humildade de reconhecer que nestas
provoca no mundo. Não somos realidade com foco em indicadores da últimas décadas conseguimos no máximo mapear a dimensão dos nossos desafios e a
somente seres inteligentes, criativos, produção. Os indivíduos, empresas, necessidade de radicais transformações. Digamos que tentamos consertar aquilo que
competentes e transformadores. Só governos, e sociedades estão diante estava disponível e estamos em estado de alerta sobre o que é preciso fazer. Mas ainda
estas capacidades não nos garantem do desafio de conseguir fazer também não concebemos um novo modelo de vida, onde de fato as agressões à natureza e à
um mundo melhor, pois há muitas a “gestão do intangível”. Trata-se própria vida humana estejam de vez solucionadas.
pessoas que exercitam todas da esfera dos valores humanos, dos
estas potencialidades e provocam anseios da consciência, da expressão Há um aumento quantitativo da rede social, por conta da
impactos totalmente voltados para da espiritualidade humana. Este simultaneidade de eventos, mas nem sempre qualitativo.
uma trajetória egoísta, muitas mundo invisível invadiu os desafios Como resolver este impasse?
vezes violenta e destrutiva. Sem da atualidade em todas as sociedades.
dúvida somos todos potencialmente Estamos lidando com a necessidade Dispomos de inúmeras formas de comunicação. Nossa capacidade de formar e fortalecer
inteligentes, criativos, competentes de administrar uma infinita redes de relacionamento aumentou consideravelmente. Novas teorias nos auxiliam a
e transformadores. Mas no ser multiplicidade de conhecimentos, compreender esta movimentação e as ferramentas estão disponíveis. Mas este poder
humano, também existe um relacionamentos, emoções, coletivo ainda pode ser aprimorado. O fortalecimento das redes sociais é sem dúvida
potencial ético e benéfico. Isso não percepções. Além do bem estar físico, um fenômeno positivo. É muito bom que as pessoas se reúnam e interajam. Mas há
é utopia, é realidade. Há em nós a é de vital importância atentar para as uma questão cuja resposta não pode ser ignorada: para que? Muitos dos movimentos se
possibilidade latente de enraizarmos necessidades humanas em torno do formam só para ter um motivo de reunião, outros tantos para combater alguma coisa: a
nossas ações em valores universais, de conhecimento, das emoções, da busca fome e a miséria, o desmatamento e a destruição da natureza, a má distribuição de renda
subordinarmos nosso conhecimento de um sentido mais amplo para a e inúmeros outros aspectos, todos eles justos e verdadeiros. Mas ainda são poucas as redes
e nossas competências a princípios vida, de ideais vinculados à dimensão de fato propositivas, que tenham um eixo comum construído em torno daquilo que de
éticos vinculados à nossa consciência. espiritual, enraizados a valores fato se deseja criar e se acredita que vale à pena. Neste momento vale uma reflexão: o que
Isso está na base do que atualmente inerentes à nossa consciência. Não será eu realmente desejo? como de fato posso contribuir para um mundo melhor? Esta motivação
chamamos de Sustentabilidade, de possível lidar com os desafios do século verdadeira, quando alavancada pelas redes sociais, tem um imenso poder transformador,
Responsabilidade Social, de Cidadania 21 de forma competente e responsável, resultado da integração entre o que se sabe, o que se acredita e o que de fato se faz.
Individual ou Corporativa. Isso é o se não incorporarmos essas dimensões Constrói-se um alinhamento entre todas as dimensões do ser humano, do espiritual
que se entende como espiritualidade a todas as nossas ações. Ninguém ao pragmático. Atendendo a estes requisitos, as redes sociais sem dúvida passam a ter
na mais absoluta expressão da poderá afirmar, com tranqüilidade, que resultados extremamente positivos, contribuindo de fato para a alteração de alguns dos
dimensão humana no nosso cotidiano. vai bem em um mundo que vai mal. piores indicadores que já tivemos notícia entre os seres humanos.

45
Cobertura da Palestra

“Ninguém vai bem


num mundo que
vai mal”
Regina Migliori aponta necessidade de
alinhamento entre corpo, mente e consciência
para lidar com os desafios do século 21

No dia 14 foi a vez da educadora, advogada, escritora e consultora Regina a partir de uma perspectiva de cosmovisão. Ela nos permite lidar com
Migliori compartilhar seus conhecimentos no módulo Mythus do Paideia uma amplitude de olhar. E mais que isso. A ter uma perspectiva inclusiva.
com a instigante palestra Espiritualidade, competência e conhecimento. É a prática da perspectiva includente. Eu não vivo a sua vida. Então
Regina, que é pioneira na criação de Programas de Educação e Gestão o mínimo que eu posso fazer é acolher a sua experiência, enriquecer a
centrados em Ética, Cultura de Paz e Sustentabilidade no Brasil, discorreu minha percepção e ter aquilo como uma das matérias-primas que podem
sobre a mudança de paradigma que enfrentamos hoje. “A novidade vir a dar origem a um conhecimento múltiplo, a um relacionamento de
é falar sobre estes três aspectos ao mesmo tempo. Talvez, isto seja o respeito às diversidades”, propõe.
mais desafiador da atualidade. Como é que conseguimos manter um
alinhamento entre aquilo que sou, aquilo que penso, aquilo que sinto e “A visão fragmentada gera um determinado foco e estabelece objetivos
aquilo que faço”, enumera. para chegar lá. A cosmovisão inclui outros aspectos. É evidente que vamos
manter os nossos objetivos. Mas, por não usar o meu foco excludente, como
A palestrante enfatizou a necessidade de alinhamento entre as esferas eu incorporo inúmeros outros aspectos da dinâmica de relacionamento
somática (corpo), psíquica (mente) e espiritual (consciência) da estrutura com a realidade, não basta chegar lá. Não basta saber onde quero chegar.
humana. “É fundamental manter a fluidez de diálogo entre as esferas de É importante que eu perceba como é que estarei e como é que o mundo
ação, criação e inspiração. É assim que despertamos no mundo. A estrutura estará caso cheguemos lá. No meio do caminho ainda pode ter um bando
humana vem de fábrica, não é opcional. E é ela que nos caracteriza como de mudanças. A tal da flexibilidade. É isso que hoje se chama ‘pensamento
seres humanos. Qualquer ser humano traz uma esfera somática, psíquica estratégico’ e ‘pensamento sistêmico’. Visão complexa da realidade. Essa
e espiritual. E é isso que define a forma como nos relacionamos com a capacidade de incorporar um conjunto amplo de experiências de percepções e
realidade, é isso que nos define no nosso jeito de ser e no nosso jeito de agir, lidar com todos eles ao longo da nossa trajetória”, explica.
naquilo que chamamos de identidade. Se acionarmos essa multiplicidade de
potencialidade, vamos nos tornar muito mais competentes para lidar com Os novos desafios
um infinito conjunto de desafios”, afirma.
A consultora apontou os desafios do século 21, segundo relatório publicado
Percepção excludente pela Unesco. São eles: global X local; universal X particular; tradição X
modernidade; soluções em longo prazo X em curto prazo; igualdade de
O debate começou com um vídeo de 15” que apresentava dois grupos oportunidades X igualdade de competitividade; construção de conhecimento
realizando três manobras de basquete. A palestrante provocou a platéia X assimilação de informação; e espiritual X material. “Estamos sendo
presente no Arte SESC a descobrir quantas vezes o time da camiseta instigados a lidar com um novo patamar de desafios. Questões como
branca faria passes com a bola quicando. E a experiência resultou em ecologia, miséria humana e economia não dependem de um único indivíduo.
relatos divergentes, denunciando como estamos condicionados a um Ou a humanidade inteira se entende, ou não haverá solução. E isso é muito
modelo excludente de percepção. “Não existe nenhum responsável pela novo. É uma experiência inédita na trajetória da humanidade. Vamos ter
manutenção dele senão nós mesmos. É evidente que a minha pergunta que conseguir elaborar algumas estratégias e tecnologias para lidar com isso.
conduz à uma percepção porque busco uma resposta. Mas ela não leva Precisamos encontrar mecanismos de entendimento entre culturas, interesses,
à proibição de perceber qualquer outro aspecto. Esta decisão está no crenças e percepções diferentes. Nunca isso foi tão relevante porque é disso
modelo que cada um adotou para exercitar a sua percepção”, esclarece. que depende o encaminhamento desses novos desafios”.

“Começamos a exercitar essa percepção a partir de um foco excludente, em “Nos últimos 30 anos começamos a falar em competitividade. E
que eu valorizo determinado aspecto e simplesmente ignoro outros. Chegando chegamos a ponto de imaginar que a vida evolui por competição. O que
a ponto de dizer que o outro aspecto não existe. E a duvidar da percepção do garante a evolução da vida é a complementaridade entre as diferenças”,
outro. Exercitamos tanto isso que chegamos a um ponto em que nos tornamos revela. Para a consultora, o conceito de segmentação imposto por
insensíveis à realidade. Andamos somente por uma trajetória autorizada, empresas e veículos de comunicação deve ser repensado. “Segmentação
naquilo que lhe é permitido perceber. O que está fora dali não existe. E aí virou quase uma bíblia. Chegamos ao absurdo de segmentar tanto que
começamos a criar determinados posicionamentos”, continua. criamos valores compartilhados somente por determinado grupo. E
todo mundo celebra porque o ‘meu trabalho’, ‘o meu grupo’ e ‘a minha
Rumo à cosmovisão empresa’ estão dando certo. Mas ninguém vai bem num mundo que
vai mal. Vivemos num ambiente globalizado, onde as relações se dão
Regina Migliori lembra que o mundo de hoje nos exige que percebamos numa perspectiva de extrema complexidade e numa imensa dinâmica
vários eventos simultâneos. “Temos competência perceptiva para isso. O de velocidade. E, portanto, precisamos identificar uma esfera de valores
resultado é que começamos a estabelecer outra forma de gerenciar o nosso reconhecida como universal. Daí a expressão ‘valores humanos e
foco, de estabelecer os nossos objetivos, de produzir os nossos indicadores universais’ ter tanta força hoje”, avalia.

46
A união faz a força
Passo-a-passo, Responsabilidade Social deixa de ser sinônimo de filantropia e assistencialismo. Mas o caminho ainda é grande a ser
percorrido no Brasil. Segundo estudo realizado em 2006 pelo Instituto Ethos, as maiores preocupações das empresas brasileiras são:
meio ambiente (25%), direitos das relações de trabalho (21%), ética e transparência (16%), direitos humanos e diálogo (ambos com
11%), proteção das relações de consumo (9%) e governança corporativa (7%). Os dois primeiros setores seriam resultado de pressão da
sociedade em relação a questões prioritárias, já as demais mero interesse de destaque no processo de internacionalização. E, de acordo
com relatório apresentado na cúpula trienal do Pacto Mundial das Nações Unidas em 2007, o Brasil ficou na 56ª posição entre os 108
países com maior competitividade responsável, parâmetro que mede o grau de
Responsabilidade Social Corporativa das empresas internacionais. Na América
Latina, o Chile foi o país mais bem colocado, na 24ª posição. O relatório aponta
que as atividades relacionadas com mudança climática, problemas de gênero, direitos
humanos e combate da corrupção devem movimentar mais de US$ 750 bilhões no
mundo até 2050. Para a Organização Mundial do Comércio, a Responsabilidade
Social Corporativa impulsiona comércio e investimentos desde que haja um
justo equilíbrio entre interesses mundiais e nacionais e entre benefícios do setor
público e privado. Respeito, cuidado e responsabilidade são palavras de ordem para
companhias, cidades e países. Aqueles que seguirem à risca essa cartilha têm tudo
para abocanhar enormes fatias do mercado. E todos saem ganhando.

Geração espiritualizada
Em agosto de 2007, o canal de música norte-americano MTV divulgou estudo encomendado à empresa
Knowledge Networks para medir o grau de felicidade de 1.280 pessoas entre 13 e 24 anos.
O objetivo era detectar os fatores materiais e espirituais que influenciam seu grau de satisfação com
a vida. Os resultados indicam que 26% dos jovens americanos se sentem muito felizes com sua
vida, contra 40% que afirmam ser felizes e 4% que declaram serem infelizes. Diante dos fatores que
proporcionam felicidade, estão família, amigos, namorados e filhos. Já os que provocam o efeito
contrário são dinheiro, trabalho e escola. A vida religiosa ou espiritual torna “muito feliz” 28% dos
entrevistados; “feliz”, 23%; e “nem feliz nem infeliz”, 26%. Do total, 11% dos jovens indicam que a
religião e a espiritualidade são a “coisa mais importante em suas vidas” e 33% comentam que são uma
parte “muito significativa”. Na Europa, a valorização da religião nesta faixa etária também é crescente.
De acordo com recentes reportagens publicadas pela imprensa alemã, jovens pregadores têm atraído
pequenas multidões de jovens ouvintes em ruas e praças de Colônia (Alemanha) até altas horas da noite.
As roupas e gestuais são inspirados na cultura hip-hop, mas trata-se de uma tribo unida pela fé. Esta
re-ligação da nova geração com a espiritualidade traz a necessidade de se pertencer a uma comunidade
alinhada com corpo, mente e consciência. Um fenômeno mundial simultâneo nas mais diversas culturas.

47
O futuro à você pertence
entrevista

Rosa Alegria é futurista, com curso de mestrado em Estudos do Futuro

Rosa Alegria pela Universidade de Houston (Estados Unidos) e graduada em Letras pela
Universidade de São Paulo (USP). Trabalhou como executiva em grandes
empresas, tendo há mais de uma década criado e desenvolvido estratégias
premiadas e implementado ações inovadoras em Comunicação. Entre elas,
liderou o premiado processo da revitalização da imagem da Avon no Brasil.
É pioneira em projetos de parceria entre a iniciativa privada e o Estado,
idealizou e coordenou o premiado programa Saúde Integral da Mulher.
Também coordenou o manual O que as empresas podem fazer pela saúde da
mulher, do Instituto Ethos. É co-fundadora do Movimento Mídia da Paz,
da Sociedade dos Saberes Femininos e do Elos (Espiritualidade e Liderança
para Organizações Saudáveis). É membro das entidades americanas World
Future Society e da Association of Professional Futurists (APF). Faz parte
do conselho editorial do portal de notícias prospectivas Shaping Tomorrow,
da Inglaterra. É co-diretora do núcleo brasileiro do Projeto Millennium do
Conselho Americano da Universidade das Nações Unidas, vice-presidente
do Núcleo de Estudos do Futuro (NEF) da PUC-SP, diretora-executiva no
Brasil do programa de TV Ethical Marketplace, além de integrar o Conselho
Nacional de Propaganda e o IPAZ (Agência Internacional de Notícias pela
Paz). E é sobre o futuro e sobre sua palestra Realidade e consciência: O futuro
mais perto de você que conversamos para a Revista Paideia.

Quais são as conseqüências para o futuro de uma Qual é o verdadeiro poder da imaginação? Até onde ela
sociedade que abriu mão de sua capacidade criativa em pode nos levar?
favor de uma realidade midiática?
Estamos acostumados a viver um presente restrito. Mas nossa imaginação
O futuro não se constrói individualmente e sim através da pode alcançar tempos e espaços numa dimensão infinita e é a imaginação
capacidade coletiva. Para que a nossa sociedade se mobilize o nosso instrumento criativo. Imaginar é preciso! Somos uma espécie
na direção de um mundo sustentável, ela precisa se munir de visual. Quando podemos ver, podemos ser e podemos fazer. Como presas
positividade, optar pelas luzes e pelas soluções. A crise planetária do universo simbólico criado pela mídia de massa, a lógica passou a ser:
tem avançado a tal ponto que não nos resta mais tempo para “podemos ver, podemos ter”. É preciso reverter essa lógica através de
nos debruçarmos sobre os problemas, quanto mais os buscamos nossa imaginação coletiva, que funcione como uma fonte de resistência
mais problemas encontramos. Desde o século 20, principalmente cultural. Acessando o nosso potencial interior é que vamos conseguir
após a 2ª Guerra Mundial, vimos atrofiados nossos sonhos e nos mudar esse quadro e voltar a acreditar em nossa própria capacidade
deixamos dominar pelo medo e pela desesperança. Foram o fim das criativa. Fomos condicionados a crer que o mundo externo é mais real
utopias (séculos 15 a 19) e a ascensão das distopias (século 20) que que o interno. Na ciência moderna é justamente o contrário. Ela diz que
arruinaram os ideais coletivos e produziram uma falsa impressão do o que acontece dentro de nós é que vai criar o que acontece fora.
“fim da história”. Estando todos conectados pela mídia com poder
concentrado, nós nos deixamos levar pela TV que alcança 80% da
população mundial e todos os outros meios com noticiário sombrio
e a publicidade que cria desejos inatingíveis. Vivemos também com E de quais estratégias podemos dispor para enfrentar
medo pela ressonância das catástrofes. Esse medo é ainda mais grave os cenários da sociedade brasileira neste novo século?
do que foi gerado na ditadura. Antes tínhamos medo de falar. Hoje
temos medo de viver. Antes vivíamos pelo sentido da revolução, O grande desafio dessa passagem civilizatória é passarmos de vítimas
da igualdade, do sonho coletivo. Hoje perdemos o sentido do que a co-criadores. É um momento de evolução cultural em que nossas
somos, temos e fazemos. Essa crise do significado e esse domínio do inteligências estão sendo testadas como nunca antes aconteceu. Mas,
medo têm gerado vácuo espiritual enorme e crise de valores. para que possamos protagonizar essa mudança, precisamos dar um salto
definitivo em nossa capacidade de imaginar o mundo que queremos
e resgatar a capacidade que temos de sonhar. Teorias sociológicas
comprovam que as culturas que floresceram foram aquelas que tiveram
visões de futuro positivas através do imaginário de sua gente. A sociedade
Como vê o recente sucesso mundial de livros que tratam brasileira tem tudo para se reerguer em nome dessa convocação: acesso
sobre a chamada “lei da atração”? Seríamos, de fato, à informação, riquezas naturais, mais liberdade e uma nova situação
co-criadores do nosso destino? no cenário mundial. O Brasil, país do futuro, futuro que nunca chega,
deve criar uma visão de longo prazo, que não se fragmente e se restrinja
Estamos querendo evoluir, a evolução humana é inexorável. Somos a universos individuais e individualistas dos planejamentos engavetados
seres em busca de atalhos que nos conduzam nessa jornada evolutiva. nos gabinetes dos políticos. Não podemos construir um futuro positivo
O valor do intangível e a ligação mente-corpo começam a entrar no do qual não podemos nos apropriar e que não podemos imaginar
palco de uma nova cultura, depois de tantas décadas de separação. coletivamente. No exercício da imaginação é fundamental optar pelas
A busca pela espiritualidade dentro do ambiente de trabalho é um luzes e pelas soluções. Essa escolha poderá transformar a humanidade.
exemplo. O crescimento vertiginoso de organizações que trabalham pelo Sociedades que idealizam um futuro melhor são capazes de projetar o
desenvolvimento humano é outro exemplo. Os sistemas midiáticos até amanhã e conseguem vencer crises, guerras, epidemias e revoluções. A
então têm privilegiado os aspectos mais sombrios da realidade, mas pouco mídia, sistema nervoso do mundo, tem a maior responsabilidade nessa
a pouco vemos iniciativas da mídia como “A lei da atração”, para aliviar o questão. Poderá adotar as luzes, muito mais que as sombras, acender o
cansaço que estamos vivendo nessa cultura que faz o medo e a descrença farol de milha e não olhar somente para o espelho retrovisor. No esteio de
atravessarem nossas mentes. É um resgate, um ponto de equilíbrio para uma mídia construtiva, a sociedade brasileira poderá se fortalecer e criar
nos mantermos espiritualmente ativos. um projeto de civilização que nunca foi criado antes.

48
Cobertura da Palestra

“Criar realidade não


é uma epifania”
Rosa Alegria defende a importância de
resgatarmos a nossa capacidade de sonhar
a fim de construir um futuro melhor

A palestra do módulo Mythus do Paideia em 21 de agosto foi com a gay) têm revolucionado as duas últimas décadas. “Globalização,
futurista Rosa Alegria falando sobre Realidade e consciência: o futuro desmaterialização, convergência, comunicação, tudo isso leva à uma nova
mais perto de você. Graduada em Letras pela Universidade de São Paulo, consciência. Não há caminho mais forte e mais poderoso que o da nova
com mestrado em Estudos do Futuro pela Universidade de Houston, a consciência. Estamos vivendo as dores do parto de uma nova civilização.
conferencista enfatizou a importância de estarmos aptos a implementar Isso tudo é reflexo de uma história que faz a sua trajetória a partir de caos
mudanças e fazer projeções. “Temos que resgatar aquilo que nos foi e a partir de dor. Recorrendo a Heráclito, ele não via a mudança como
usurpado, a capacidade que temos de sonhar. Quando você está na escola, algo caótico, ele via a mudança como um princípio que dá ordem ao caos.
você não aprende a sonhar. Você aprende a apatia social, a repetir coisas e E é esta ordem que está trazendo uma nova consciência”, defende. “A
replicar velhos modelos”, afirma. premissa de criar realidade não é uma epifania, não é um devaneio. É uma
realidade científica. O seu mecanismo cerebral, na verdade, favorece criar
“Estudar o futuro é muito prático porque apreendemos muito pouco comportamentos que atraem novas realidades. Você se projeta naquilo
do que lemos e do que ouvimos. Nossa realidade se dá apenas pelo que que você gosta, naquilo que você admira e seu cérebro responde. Aquilo
vivenciamos. E não somos educados a experimentar nada. É preciso resgatar que você admira pode fazer você criar novas realidades”, alega.
a capacidade de imaginar. É preciso resgatar essa fé que temos em nós
mesmos. É preciso virar essa página desse século do medo, que passou. O “Mudança é um tema amplamente divulgado e consumido. Em 2006,
século 21 é hora de virar essa história. E não tem outra forma de apreender a Amazon Books relacionou 57 mil títulos sobre ele. Em relação ao
o que vem, de ampliar uma consciência nova, um novo olhar, que sair consumo, 90% dos produtos lançados e que estão nas prateleiras dos
daquele velho modelo e valorizar aquilo que o diferencia”, continua. supermercados morrem em menos de 10 anos. Para lidar com a mudança,
é preciso entendê-la nas suas diferentes formas: tendências, rupturas,
Infoestresse e Neofilia cíclicas e questões emergentes. Onde estão as mudanças? Aonde eu miro o
meu radar? É observar as pessoas, é uma arte poder captar os sinais do que
Apesar de otimista, Rosa Alegria lembra que nosso corpo está se está mudando”, recomenda.
adaptando à esta enxurrada de tecnologia sem precedentes na história.
“Estamos vivendo uma época de profundas mudanças, incertezas Interconectados
e possibilidades. Não há dúvida também de que este é o momento
mais importante da humanidade. Nunca tivemos tanto acúmulo de A futurista destaca a característica sistêmica da sociedade, em que
conhecimento. As grandes invenções mudaram o rumo da história e as devemos estar cada vez mais atentos às nossas atitudes. “Vivemos
relações sociais, influenciaram os modos de vida, tudo isso em 100 anos. neste mundo pós-cartesiano, em que os princípios da interconexão,
Desde 1900, as mais importantes invenções estão concentradas neste redistribuição, heterarquia, incerteza e mudança estão trazendo uma nova
período da história. É uma aceleração sem precedentes”, observa. ordem para a humanidade. Aliás, neste mundo moderno não há nada que
se possa olhar sem o princípio da interconexão, que é o olhar sistêmico.
“Hoje estamos adoecendo pelo excesso de tecnologia. Temos doenças como Tudo afeta tudo. O que acontece com a ecologia vai afetar a economia,
Infoestresse, já catalogada na medicina. Não é apenas uma palavra nova, o que acontece com a economia vai afetar a política. Infelizmente, nas
um neologismo, é uma síndrome causada pelo excesso de informação. escolas os programas acadêmicos ainda são segmentados. Mas há uma
As pessoas ficam desorientadas, deprimidas, com insônia e, até, efeitos co-criação”.
físicos e orgânicos. Outra doença nova é a Neofilia, que é a submissão
ao novo. É um impulso incontrolável de adquirir algo novo. E isso não é “Ao invés de sermos vítimas do futuro e das mudanças, temos que co-
nada de espantoso se olharmos a juventude que compra a cada minuto e é criar, temos que tomar as rédeas e nos apropriar dos desafios. Temos
assoberbada por ofertas de produtos. Principalmente no Japão, a juventude inteligência, conhecimento e evolução para que essa co-criação se realize.
está num estágio grave disso. Esse é o choque do futuro”, alerta. A realidade é esta. Mas qual desafio é mais importante? Um desafio afeta
o outro e uns são mais centrais. O primeiro é a capacidade de tomar
De Heráclito à Internet decisões diversas. O segundo é o da técnica, a forma pela qual você vê
a realidade vai fazer toda a diferença. A mudança de mentalidade traz
Através de vídeos e slides, a palestra mostrou como invenções tecnológicas um novo olhar, que traz uma nova escolha. Sustentabilidade é hoje
(Internet, celular, MP3), genéticas (decodificação do genoma), emergência, é sobrevivência. E é em torno desta sustentabilidade que se
governamentais (União Européia) e comportamentais (casamento está fazendo muito dinheiro. E ainda bem”, encerra.

49
O segredo do sucesso
Pense, acredite e receba. Estas são as três palavrinhas mágicas que ativam o gênio da
lâmpada. Pelo menos é o que prega o maior best-seller de 2007, O Segredo. Assinado
por Rhonda Byrne, o livro reúne depoimentos de americanos bem-sucedidos em meio
a citações de Albert Einstein e Jesus Cristo, além de fórmulas mágicas de pensamento
positivo. Em resumo, o fio condutor de todos é a chamada Lei da Atração, através da
qual você atrai o futuro que desejar. Bom ou mau. Excelente ou péssimo. Sua vida
seria mero reflexo de seus pensamentos. Assim como os filmes Matrix e Underground,
o livro também pode ser visto como mais uma obra de ficção inspirada no Mito da
Caverna de Platão. Tal qual nas paredes da caverna eram refletidas as sombras do
mundo exterior, Rhonda Byrne prega que pensamentos perfeitos refletem uma vida
material e física próspera. Pelo menos para ela funciona. Surgiu como um DVD,
que já tinha vendido 1,5 milhão de cópias nos Estados Unidos antes mesmo de ser
transformado em produto editorial. Quando lançada no Brasil em maio de 2007, pela
Ediouro, a publicação já tinha esgotado a primeira edição de 1,75 milhão de cópias
em apenas três meses nos Estados Unidos. E, quando entrou no forno uma segunda
edição de 2 milhões de cópias, o livro já era considerado o maior fenômeno de vendas
do mercado internacional. Ainda que associado ao gênero de auto-ajuda, O Segredo tem uma legião de fãs com
credibilidade que se destacam nas mais diversas áreas. De artistas a empresários, há quem garanta que o pensamento
positivo não teria nada de esotérico. E, sim, que se trata de um esquema de metas planejadas e alcançadas, atraindo
bons frutos para qualquer um – não só para a autora do franchising.

Síndrome do novo
Quem de nós nunca ficou obcecado por consumir a última tendência de determinada área ou não
se culpou por não ter lido todas as notícias do dia? Infoestressse e Neofilia são, de fato, doenças
reconhecidas por especialistas. O Infoestresse seria uma sub-categoria de estresse, causada pela
necessidade de saber tudo que acontece em todos os lugares ao mesmo tempo. Estima-se que haja mais
de 3 milhões de páginas na Internet – e esta quantidade desenfreada de dados atualizados em tempo
real gera uma crescente ansiedade por absorver novas informações na Era da Informática. Já a busca
incessante por adquirir novidades foi catalogada por psicólogos japoneses como Neofilia. Segundo
estudo da Universidade de Yamagata, em Tóquio, a síndrome afetaria pessoas com Q.I. e escolaridade
elevados. De acordo com o estudo, as razões deste mal seriam genéticas e o seu diagnóstico tardio por
ser confundido com um simples vício em compras. Especialistas americanos discordam e acreditam que
a Neofilia seria uma conduta de origem econômica, já que a cultura moderna depende de pessoas que
tenham um grande senso de curiosidade. Mero consumismo ou não, fato é que a indústria do Japão cria
produtos voláteis para atender a essa demanda. Anúncios de TV superproduzidos não duram mais que
um mês no ar, assim como exposições de arte não passam mais de três dias nas minigalerias da capital
japonesa. Na terra do sol nascente, onde o poder aquisitivo é alto, a Neofilia é epidêmica. Resta saber
quando o Terceiro Mundo vai decidir importar esta novidade.

50
entrevista
Lia Diskin
Cultura de paz
Jornalista, especializada em crítica literária pelo Instituto Superior de
Periodismo José Hernandez em Buenos Aires (Argentina), Lia Diskin
é pesquisadora da Cultura Indiana e se especializou nos filósofos
Nagarjuna e Kamala Shila. Estuda a Cultura Tibetana e é conselheira
para assuntos latino-americanos do Comitê Internacional Pró-Tibet
(Washington, Estados Unidos). É responsável pelas visitas do Dalai
Lama ao Brasil e à América do Sul. Recebeu da Unesco o Diploma de
Reconhecimento por suas atividades na área da Cultura de Paz durante
as comemorações dos 60 anos da entidade, em junho de 2006. É co-
fundadora da Associação Palas Athena – Centro de Estudos Filosóficos,
Editora e Lar Assistencial-Educacional e Escola de Educação de 1°
Grau. Também é consultora para instalar Conselhos Parlamentares de
Como analisa as diferentes abordagens sobre paz no Cultura de Paz em várias cidades e municípios do Brasil, além de ser
Ocidente e no Oriente? De que forma o sistema de crenças tradutora e editora de mais de 40 livros sobre mitos e símbolos na Arte
religiosas interfere nisso? e na Cultura da Índia. Todos estes temas fazem parte da nossa entrevista
à Revista Paideia sobre a palestra Valores que não têm preço: promovendo
É a partir da década de 1960 que o Ocidente passou a estudar as a cultura de paz no cotidiano.
condições que favorecem a manutenção da paz e as que a fragilizam ou
dificultam. Desse modo, iniciaram-se as investigações antropológicas e
históricas associadas à paz, que revelaram uma profundidade que sequer
se imaginava. Por exemplo, a violência tem um mínimo de cinco rostos:
a física, que é verificável e passível de quantificação; a simbólica, que
trabalha com conteúdos subjetivos e suas múltiplas reações frente ao
medo; a cultural, que carrega crenças e costumes preconceituosos que E o que estaria desviando o Qual o maior legado de
se perpetuam através da educação e do convívio diário; a estrutural, foco de atenção de conflitos pacifistas como Mahatma
que permeia as instituições de uma determinada comunidade e cria e intolerâncias? Seria o Gandhi, Martin Luther
procedimentos de mobilidade social injustos e humilhantes; por último, aumento da espiritualidade King, Nelson Mandela e
a violência estatal, que pode inviabilizar o desenvolvimento e criatividade ou uma escassez de Dalai Lama?
de um povo, reduzindo-o a orientar suas energias apenas para a recursos?
sobrevivência. Nesse sentido, Ocidente e Oriente não apresentam grandes Seu maior legado é que as
diferenças. O que merece destaque é o fato de o oriental receber uma Seria interessante resignificar mudanças individuais e coletivas
influência marcada pelas vias espirituais, convidando-o a cultivar a paz, o conceito de conflito. Este é são possíveis. Todos eles
isto é, a alimentar pensamentos, sentimentos e ações vocacionados a criar necessário, e há evidências de transformaram as dinâmicas
uma atmosfera de harmonia, convivência e parceria. que os relacionamentos que o sociais do cenário onde atuaram,
envolvem são democráticos. A a comunidade, o país e a cultura
unanimidade e o consenso não a que pertenciam não foram
Por que a humanidade demorou tantos séculos para são naturais e, na maioria das mais as mesmas após a influência
começar a refletir sobre uma efetiva Cultura de Paz? vezes, são produto das ditaduras, que exerceram dentro delas.
do autoritarismo, do terrorismo Todos eles também revelaram a
Penso que se deva ao fato de agora termos nos tornado perigosos demais emocional. Também é bom necessidade de uma disciplina
para nós mesmos e os outros seres vivos com quem partilhamos o planeta. lembrar que internamente interna de pacificação sobre a qual
Quando você sabe que as potências nucleares possuem instrumentos para vivemos em conflito: “faço isto puderam se firmar nos momentos
destruir o planeta várias vezes, a única conclusão possível é que precisamos, ou faço aquilo?”; “vou hoje ou de turbulência. Uma espécie de
com urgência, revisitar as prioridades e o repertório de valores que alicerçam amanhã?”; “tomo posição ou me fonte nutritiva da qual extraíram
nossa cultura. Autoritarismo, controle, abuso de poder, intimidação, calo?” etc. inspiração renovada. Suas lutas e
sigilo, consumo como meio de ostentação e manipulação são alguns dos conquistas encorajaram milhares
mecanismos usados em culturas de dominação – desnecessário dizer que de ativistas, e ainda o fazem, nos
a nossa se enquadra nesse tipo. O problema é que o futuro simplesmente mais diferentes espaços do saber e
desaparece como projeto de vida, tudo se torna compulsivamente do fazer humanos – as mudanças
instantâneo, sem maiores responsabilidades sobre as conseqüências das estão acontecendo e, a despeito
escolhas e dos atos. Riane Eisler, cientista social de singular perspicácia, de guerras que teimam em se
contrapõe a estas culturas de dominação as culturas de parceria, que reproduzir, hoje estamos muito
existiram no curso da história, obviamente em menor número, e que hoje mais sensíveis às injustiças, à dor e
despontam como via saudável para equilibrar as forças em ação. à exploração.

51
Cobertura da Palestra

“Não devemos
evitar o conflito”
Lia Diskin conclama o restabelecimento de
valores éticos, diálogos e conflitos salutares para
construir uma Cultura de Paz

Quatro meses e quatro módulos depois, chega ao fim o Ciclo Paideia. liberdade. E vice-versa. Quando se tem responsabilidade, se tem a capacidade
A palestra de encerramento, integrante do Mythus, aconteceu no dia 28 de poder dar respostas a determinadas questões importantes”, diz.
de agosto com a jornalista e co-fundadora da Fundação Palas Athenas,
Lia Diskin. A conferencista argentina trouxe o tema Valores que não Cultura de Paz
têm preço: Promovendo a cultura de paz no cotidiano, que mobilizou a
platéia no Arte SESC a refletir sobre responsabilidade e liberdade no O conceito paz como cultura, que inspirou o título da palestra, foi
compartilhamento do espaço físico, alimento, intimidade e cuidado. “A cunhado por Frederico Major Zaragoza na Conferência de Yamoussoukro
ética costura relações porque é o que nos permite mantê-las saudáveis e (Costa do Marfim), em 1995. Foi no documento final deste encontro
biologicamente sustentáveis. A ética é um fio invisível que permite que que se viu pela primeira vez a expressão Cultura de Paz. “Ela não é algo
esta relação cresça. Cada um alavancando o melhor do outro, cada um que nasça com um decreto, que corresponda a um estamento ou a uma
desejando o crescimento do outro, que vai ser a possibilidade de futuro lei impositiva. É algo que se trabalha, que se constrói politicamente, com
desta comunidade”, observa, lembrando três valores sem os quais não se resultados dos anseios coletivos de costumes e, por sua vez, com o respeito
pode falar de ética: confiança, respeito e honestidade. e a manutenção de tradições que herdaram, que ainda continuam sendo
significativas e valiosas. Nesse sentido de cultura, é extremamente recente o
“Confiança é contar que o outro quer o meu melhor, apostar que o seu surgimento”, explica Lia, que em 2006 recebeu da Unesco um diploma
outro também quer o meu crescimento e o meu desenvolvimento, de reconhecimento por suas atividades na área da Cultura de Paz.
fazer depositário ao outro de minha fé. Já o respeito não é de maneira
nenhuma aquilo que se destina a quem está distante. Respeito tem Segundo a conferencista, a chamada Cultura de Paz tem oito eixos:
que estar muito próximo e tem a ver com a realidade do outro, a Educação para a Paz; Desenvolvimento Sustentável; Direitos Humanos;
compreensão do espaço psicológico e geográfico que ocupa o outro. Por Igualdade entre Mulheres e Homens; Participação Democrática;
último, a honestidade é saber a que me ater num relacionamento com Entendimento, Tolerância e Solidariedade; Livre Circulação da Informação;
o outro. Um espaço pautado pelo sigilo, ocultamento e possibilidade da Paz e Segurança Internacionais. “A Cultura de Paz propõe despertar e tirar
verdadeira relação. Temos que exigir honestidade daqueles com os quais as máscaras, com menos ocultamento e menos sigilo. Criar informação.
nos relacionamos”, conclama, afirmando ser necessário tornar estes três As nossas crianças precisam saber quais são as nossas pulsões que lhe
elementos menos filosóficos e mais viscerais, em prol da convivência. impõe a vida, saber que existe algo chamado agressividade, totalmente
natural e inerente aos seres vivos, mas que não necessariamente temos que
Valorizando o diálogo desenvolver. É necessária a competência pró-ativa, mas não tem porquê
impor machucando o outro, humilhando o outro, tirando o bem do outro
Lia Diskin fez um contraponto entre diálogo e discussão. Enquanto ou, literalmente, destratando o outro”, esclarece.
o primeiro visa mostrar, estabelecer relações, compartilhar idéias,
questionar, aprender, compreender e interagir com o todo, o segundo Conflito salutar
pretende convencer, demarcar posições, defender idéias, persuadir,
ensinar, explicar e interagir com as partes em separado. “O objetivo Para a pesquisadora argentina, o conflito não seria o inimigo nº 1 da paz. “O
do diálogo é poder saber através do outro o que é significativo para que devemos evitar nunca é a diversidade de interesses e a de necessidades.
ele, o que é importante e quais são as suas necessidades. Sem o diálogo Não devemos evitar o conflito. O que devemos evitar é usar a violência como
eu não consigo conhecer a peculiaridade do outro com quem temos meio de resolver os conflitos. E a violência não é só o conflito, é também a
relação. Diálogo nunca está fechado, sempre abre questões”, pondera ameaça, o terrorismo emocional dos jovens. A violência toma muitas faces. O
a conferencista, citando recentes pesquisas sobre a paz que revelam as conflito é salutar, é sinal de que os vínculos estão sendo processados a partir
múltiplas fases da violência e novas tecnologias de convivência. de uma base democrática, que não existe acomodação no sentido de delegar
responsabilidades e decisões para alguém. Só tomem cuidado porque não é
“As novas tecnologias de consciência estão começando a permear o nosso somente violento quem está hierarquicamente acima”, diferencia.
cotidiano. Começam a falar de mediação de conflitos. Começam a falar
e perceber mediadores de pequenas causas dentro do Judiciário. E, ainda E, por fim, Lia Diskin escolheu uma citação de Nelson Mandela para
dentro do Judiciário, o que se chama de Justiça Restaurativa, como encerrar seu debate: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua
contrapeso ou balanço para uma Justiça Punitiva. Também se começa a falar, pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam
felizmente aqui no Brasil de maneira muito expressiva, de Responsabilidade aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”. “O que
Social. Que não é esta Responsabilidade Social do Governo ou da Igreja Mandela quis dizer é que todo ódio é construído, historicamente alimentado
apenas. Mas que passa a permear todas as pessoas na sociedade brasileira, e nutrido. Conseqüentemente, toda solidariedade, toda aproximação, todo
desde empresas até o cidadão. Não é suficiente que se pague impostos. amor também podem o ser. Acredito que, em última instância, tenha sido
Sempre lembrando que, depois que se tem responsabilidade, se tem esse também o objetivo de todos os encontros do fórum Paideia”, conclui.

52
Índice de felicidade
Em novembro de 2006, uma notícia inusitada surpreendeu o mundo. O governo da Tailândia divulgou sua
intenção de medir mensalmente o estado de ânimo dos cidadãos para criar um inédito “índice de felicidade”.
O intuito é restabelecer o equilíbrio entre materialismo e espiritualidade na sociedade local. Serão levados em
conta fatores como esperança de vida, satisfação trabalhista, saúde, relação familiar, segurança cidadã, liberdade
individual e igualdade de direitos para os dois sexos. A inspiração veio do reino do Butão, que nos últimos
anos tem se dedicado a analisar fórmulas para descobrir se o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB)
repercutia na melhora da qualidade de vida dos tailandeses em todas as camadas
sociais. Conhecida como a “Terra do Sorriso”, a Tailândia seria menos feliz que
seus vizinhos Vietnã e Indonésia, de acordo com relatório da Fundação para a
Nova Economia publicado em 2006. Para recuperar o sorriso, o governo tailandês
busca um crescimento econômico sustentado que seja alinhado com o conceito
budista de moderação, tradição esmagada pela febre consumista que assola a nação.
Os primeiros resultados do “Índice de Felicidade Interna Bruta” revelam que os
habitantes do nordeste da Tailândia, região mais pobre e menos desenvolvida do
país, são justamente os que têm um nível de felicidade mais alto.

60 anos depois
Seis décadas se passaram desde as bombas de Hiroshima e Nagasaki e da Independência da Índia. Dia 6
de agosto de 1945, às 08h15, o bombardeiro americano batizado de Enola Gay lançou a bomba sobre
Hiroshima e fez o planeta entrar na Era Nuclear. A bomba explodiu a 600 metros de altitude, arrasando
instantaneamente a cidade. Cerca de 140 mil pessoas – mais da metade da sua então população –
morreram imediatamente e nos meses que se seguiram, todas vítimas de radiação ou queimaduras. Três
dias depois de Hiroshima foi a vez de Nagasaki ser devastada, com saldo de 74 mil mortos. Mesmo com
toda a comoção mundial e com as cerimônias anuais que acontecem com os sobreviventes, a ameaça
nuclear continua presente hoje. As recentes crises da Coréia do Norte e do Irã colocam em risco a
segurança internacional, mediante a possibilidade de que estes países detenham tecnologia atômica.
Em 1970 entrou em vigor o Tratado de Não-Proliferação das Armas Nucleares e, com o fim da Guerra
Fria, o mundo respirou mais aliviado com o suposto fim da ameaça nuclear. Porém, sabe-se que pelo
menos oito países ainda têm um arsenal nuclear e não pretendem abrir mão dele: Estados Unidos,
Rússia, Grã-Bretanha, China, França, Índia, Israel, Paquistão e, talvez, a Coréia do Norte. O que
assola a comunidade internacional é a hipótese de armas atômicas caírem em poder de terroristas. Dois
anos depois das bombas de Hiroshima e Nagasaki, em 15 de agosto de 1947, a Índia conquistou sua
independência da Inglaterra – um marco liderado pelo pacifista Mahatma Gandhi. Mas o pai da nação
indiana preferiu não se juntar ao povo na comemoração e ficou em casa jejuando em solidariedade a
milhões de pessoas que ainda passavam fome. O seu legado permanece, no entanto pouco mudou.
Mesmo estando a caminho de se tornar uma potência mundial, e detendo poderio nuclear, a Índia
ainda tem milhões de agricultores em miséria profunda. Apesar de o mundo não mais se referir ao
país como sinônimo de pobreza e desesperança, as histórias de sucesso e prosperidade que chegam à
imprensa internacional parecem ficção para a maior parte dos indianos.

53
Público - Análise

respostas
em construção
Estudantes, professores e profissionais liberais das mais diversas áreas e faixas etárias. Este foi o perfil da
eclética platéia de cerca de 1,2 mil pessoas que acompanharam as 15 palestras semanais do Paideia durante os
meses de maio e junho na Caixa Econômica Rio de Janeiro e julho e agosto no Arte SESC, ambos no Rio de
Janeiro. Logo nas primeiras semanas, a procura superou as expectativas e as inscrições para os dois primeiros
módulos se esgotaram.

Para o economista André Urani, que integrou do módulo de abertura (Logos), o ciclo é uma iniciativa instigante
e necessária para a sociedade brasileira contemporânea. “Vivemos numa sociedade com muita ‘falância’. Treinar
os ouvidos é sempre bom e há uma predisposição do público para isso. Por isso atividades como o Paideia são
ótimas, servem para agitar e juntar olhares e perspectivas diferentes”, opina.

A cada conferência, a platéia foi parte ativa de duas horas de discussões sobre filosofia, ética, artes, política
e religião, mostrando-se bastante interessada em trocar idéias durante as conferências. E mesmo depois, via
Internet, na revista eletrônica (www.xbrasil.net/paideia) que atualizava semanalmente conteúdo jornalístico
sobre o evento. Através do fórum de idéias online, o público enviou opiniões e comentários sobre a pergunta no
ar e o que foi apresentado pelos intelectuais convidados.

E o feedback não poderia ser mais positivo. Todos expressaram seus anseios e consternações sobre crises de
moral e ética que tomam conta das páginas dos jornais, sobre a superficialidade e imediatismo dos novos valores
norteados por consumo e estética, além de conflitos urbanos e intolerâncias de ordem religiosa ou social.
Questões relacionadas à família e educação foram outro ponto alto da participação da platéia fiel durante os
quatro meses de debates. As perguntas continuam muitas e as soluções, nada fáceis. Mas, sem dúvida, todos
saem com uma percepção mais acurada sobre o país e o futuro que estamos construindo.

54
Pelos quatro cantos
Frei Betto

entrevista
Escritor, frade dominicano e
assessor de movimentos sociais,
Frei Betto estudou jornalismo,
antropologia, filosofia e teologia
e tem 54 livros publicados. Em
1982, venceu o Prêmio Jabuti na
categoria Biografia e/ou Memórias
com seu livro Batismo de Sangue
(reeditado pela Editora Rocco,
2006) – recentemente adaptado
para o cinema pelo diretor
Helvécio Ratton. Três anos depois
foi eleito Intelectual do Ano pela
União Brasileira de Escritores,
que lhe concedeu o Prêmio Juca
Pato 1985 por sua obra Fidel e a
religião (Brasiliense, 1985). Entre
outras premiações, seu livro A
noite em que Jesus nasceu (Vozes,
1998) ganhou o Prêmio de
Melhor Obra Infanto-Juvenil de
1998, concedido pela Associação De que forma avalia a questão da ética na política Como analisa o aumento
Paulista de Críticos de Arte. brasileira hoje? da espiritualidade ao
Foi coordenador da Articulação mesmo tempo em que
Nacional de Movimentos Populares A política brasileira nunca teve marcos éticos definidos. Sempre foi a crescem a intolerância e o
e Sindicais (Anampos) e participou política do compadrio, da camaradagem, do corporativismo, do pacto recrudescimento religiosos
da fundação da Central Única das elites. A esperança residia no PT, que a fraudou ao aliar-se às velhas no mundo inteiro?
dos Trabalhadores (CUT) e da raposas da politicagem e favorecer a absolvição de Renan Calheiros.
Central de Movimentos Populares Agora, não basta eleger políticos éticos (e eles existem); é preciso que a Com a crise do paradigma
(CMP). Prestou assessoria à Pastoral ética NA política se some à ética DA política. Ou seja, precisamos lutar ideológico, devido à queda do
Operária do ABC (São Paulo), ao por uma reforma política que crie uma institucionalidade governamental Muro de Berlim, as pessoas
Instituto Cidadania (São Paulo) e intrinsecamente ética, de modo que os corruptos não possam passar recorrem à espiritualidade como
às Comunidades Eclesiais de Base da intenção à ação. É um dos temas que abordo em meus livros mais fonte do sentido de vida. No
(CEBs). E, ainda, foi consultor recentes, a partir de minha experiência no Governo Lula (2003-2004) – A bazar da crendice, há para todos
do Movimento dos Trabalhadores mosca azul: Reflexões sobre o poder e Calendário do Poder, este um diário de os gostos, desde o esoterismo
Rurais Sem Terra (MST). Em minha passagem pelo governo. Ambos foram publicados pela Rocco. egocêntrico, que alivia o coração
2003 e 2004, atuou como assessor mas não o faz amar o próximo,
Especial do Presidente da República Quais seriam os principais desafios do Brasil para sanar até a mística libertária de quem
e coordenador de Mobilização a miséria e diminuir os índices de desigualdade? dá a vida para que outros
Social do Programa Fome Zero. tenham vida. Em si é positivo
Recebeu dezenas de prêmios e O principal é promover a reforma agrária. Somos a única nação das três o aumento da espiritualidade,
condecorações por seu trabalho Américas que jamais mexeu na sua estrutura fundiária. Só a reforma mas ele favorece o caldo de
em prol dos Direitos Humanos. agrária fará cessar a migração que incha as cidades, ampliará a oferta de cultura para o fanatismo, o
Atualmente se dedica à literatura, empregos, dilatará o mercado interno de gêneros de primeira necessidade, fundamentalismo e outros
colabora com os principais jornais reduzirá a miséria e o número de famílias sem-terra. E isso deve ser aliado desvios. Precisamos, pois, nos
do país e profere palestras no Brasil à educação massiva de qualidade. indagar: qual espiritualidade?
e no exterior. E foi convidado pelos qual religiosidade? A meu ver o
organizadores do Paideia a fazer Que rumos a nossa Educação deveria seguir para melhor critério é simples: como Jesus,
uma articulação entre as dimensões formar os jovens, não só do ponto de vista acadêmico, a espiritualidade que nos faz
do conhecimento humano mas também moral? aproximar do próximo e de
abordadas pelos quatro meses do Deus, com pleno respeito à
nosso ciclo – Logos (racionalidade), As escolas deveriam introduzir, em seus currículos, aulas de ética, OSPB diversidade religiosa.
Pathus (sentimento), Eros (desejo) (Organização Social e Política Brasileira), filosofia, enfim, ensinar
e Mythus (o bem e o mal) – e como os jovens a pensar, refletir, descobrir o sentido da existência. Esse
elas se manifestam no mundo processo espiritual-intelectual precisaria ser combinado com o trabalho
contemporâneo. Sua palestra de voluntário, a parceria com comunidades de baixa renda, o contato
encerramento acontece dia 09 de com movimentos sociais etc. Enfim, fazer da escola um espaço de
outubro de 2007, às 19 horas, no formação Política, para a cidadania e o aprimoramento da democracia.
Arte SESC. Confira a entrevista Sugiro aqui dois canais positivos nessa linha: o programa Escolas Irmãs
exclusiva que Frei Betto concedeu à (escolasirmas@planalto.gov.br) e o programa Jovem Voluntário, Escola
Revista Paideia e compareça! Solidária (facaparte@facaparte.org.br).

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