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O Ensino do Desenho no Design de Moda

The Education of the Drawing in Fashion Design

GRAGNATO, Luciana
Mestranda em Design pela Universidade Anhembi Morumbi

Palavras-chave: desenho de moda, ilustração de moda, ensino.

Resumo: Relato sobre o ensino do desenho em cursos profissionalizantes de design de moda. São identificados três
diferentes tipos de desenho de moda e suas importâncias mercadológicas e pedagógicas. Analisando o ensino do
desenho como parte do processo pedagógico e não apenas como disciplina ferramental descreve ainda as expectativas
do aluno com relação ao desenho e sua utilização, tanto ao longo da vida acadêmica como profissional.

Key-words: fashion drawing, fashion illustration, education.

Abstract: In this article, the intention is to describe some ways in which the education of the drawing subject happens in
professionalizing courses of fashion design. The text identifies three different types of drawing and it detaches the
importance of each one. It also analyzes the teaching of drawing not only as a discipline tool kit. The text also points out
the expectations of the students in relation with the subject of drawing as much as its effective utilization throughout
either the academic or professional life.

Introdução

Este texto apresenta um relato sobre o ensino do desenho voltado especificamente para a área de Moda, em
especial o desenho que faz parte da grade de disciplinas de cursos superiores.

Primeiramente, aponto três utilizações para o desenho determinadas mercadologicamente pela própria área
de Moda. Essas utilizações acabam por influenciar os conteúdos das disciplinas de desenho nos cursos
profissionalizantes. Tomando o mercado como referência, o ensino do desenho é segmentado e direcionado
para que possa ser utilizado pelo aluno como conhecimento instrumental de auxilio no desenvolvimento de
projetos maiores, como a criação e confecção de peças de vestuário, por exemplo. Portanto, em cada etapa
do projeto de design para moda, o desenho acontece de forma diferente e apresenta características e funções
específicas.

Em seguida, discuto as expectativas do estudante de moda com relação á disciplina e á habilidade do


desenho para a profissão de designer de moda. Baseada em experiências próprias, tanto como professora de
desenho de moda como (ex) aluna de curso superior em moda, apresento os principais questionamentos dos
estudantes quanto á habilidades e efetivas utilizações do desenho na vida profissional. Discussões sobre o
aprender a desenhar e o talento que alguns parecem simplesmente possuir permeiam o aprendizado ao longo
dos quatro anos de estudo e parecem interferir diretamente sobre o desenvolvimento tanto do desenho em si
como no aprendizado de outras disciplinas afins.

Dessa forma, considerando essas expectativas e questionamentos, o ensino do desenho é distribuído ao


longo do curso. Essa distribuição tem dois grandes objetivos: o primeiro é o de desenvolver a habilidade da
representação para que o aluno possa utilizar o desenho como forma de comunicação e expressão de idéias
e execução de planejamentos. O segundo objetivo, e não menos importante é o desenvolvimento da
habilidade de percepção subjetiva, que é uma característica que o profissional de moda deve ter para
realizar seu trabalho de captação e interpretação de informações.

1
Finalmente, aponto os projetos que o estudante de moda deve realizar que envolvem o desenho. Estes
projetos normalmente desenvolvidos ao final do curso simulam a realidade mercadológica e, ao mesmo
tempo, servem como apresentação formal do aluno ao mercado de trabalho. É neste momento que
percebemos o desenvolvimento e a formação do profissional, também através de seu traço, que sempre
carrega vestígios da personalidade e da expressão da pessoa por trás do aluno e do profissional por trás da
pessoa.

1. O Desenho Na Moda

A habilidade do desenho é de grande importância para o profissional de moda, especialmente àquele que
trabalha com o produto, seja na criação, seja no desenvolvimento de peças do vestuário, acessórios ou
joalheria.

De acordo com Riegelman (2006), no prefácio de seu livro sobre métodos e técnicas de desenho de moda, o
Desenho é uma linguagem que possibilita a expressão e comunicação de idéias visuais. No desenho de
moda, as idéias a serem expressas são sobre soluções que ainda não existem fora da mente do designer,
tanto com a finalidade de orientação sobre o produto de moda como com a finalidade de desenvolver um
processo de criação.

Assim, é através do desenho como ferramenta de comunicação, que o produto de moda nasce e, passando
por diferentes mãos, ele toma forma e tridimensionalidade. O desenho é um mapa, um projeto, o início do
produto e é também sua memória, esperando a próxima coleção para surgir e ser redesenhado e
retrabalhado.

1.1 O desenho técnico

Entendemos como desenho técnico de moda a representação planificada e bidimensional de peças de


vestuário e de peças de acessórios, como bolsas, sapatos, jóias e bijuterias.

Nesta representação, o traçado é preciso e obedece á uma espécie de legenda. Por exemplo, para demonstrar
costuras, a linha desenhada deve ser tracejada; já para representar recortes, a linha deve ser contínua. Não
há o uso de cores para o desenho técnico, na intenção de facilitar sua leitura, mas para diferenciar planos, no
caso de sobreposições de partes ou de materiais, podem ser utilizadas tonalidades claras de cinza ou
hachuras.

Figura 1 - Desenho Técnico de Moda e Ficha Técnica

Segundo Leite e Velloso (2004, p.08),


“Para o desenhista técnico de moda, a roupa deve ser entendida como um objeto que
repousa sobre o volume do corpo, obedecendo às suas formas e articulações. No
desenvolvimento de seu trabalho, o profissional precisará lembrar que suas orientações
servirão de base para a confecção da roupa e que esta, fora do corpo, é uma superfície

2
plana, mas que ganha volume quando vestida, tornando-se tridimensional. Assim, além das
medidas de altura e largura, o desenho precisa reproduzir as reentrâncias e os relevos do
corpo”.

O objetivo do desenho técnico é, portanto, demonstrar o produto de moda de forma clara e objetiva, visando
sua reprodução exata em escala industrial. É preciso lembrar que, muitas vezes a confecção do produto
passa por diferentes mãos e empresas e por isso há a necessidade de que este desenho seja preciso e
acompanhado de informações escritas, contextualizadas em Fichas Técnicas, como na figura 1.

Ainda segundo Leite e Velloso (2004, p. 08-09), os conceitos básicos que fundamentam o desenho técnico
de moda são: proporção, simetria, volume e concavidades, alturas e larguras:
“A proporção refere-se ao equilíbrio ideal de tamanho entre as partes que compõe um todo.
No desenho, a cabeça é usada como unidade de medida que fornecerá as alturas e larguras
do corpo. A simetria refere-se à semelhança entre os lados direito e esquerdo do corpo. No
desenho, o eixo de simetria é representado por uma linha vertical que vai da cabeça,
passando pelo nariz, até o espaço entre os pés. Volume e concavidades referem-se às
formas do copo: suas curvas, reentrâncias e relevos. No desenho, são as linhas sinuosas que
os representam.”
Nas larguras e alturas, a cabeça é a unidade de medida. Assim, podemos estabelecer uma grade de duas
cabeças de largura por oito de altura onde o traçado do corpo fica encaixado. Este esquema segue a
proposição de Vitruvius1 sobre a proporção do corpo humano, conhecida como Divina Proporção ou
Proporções Áureas, também utilizada como referência para o croqui de moda, como será visto mais adiante.

Dessa forma, o desenho técnico na área de moda caracteriza-se como instrumento indispensável nas
confecções e oficinas de produção e desenvolvimento de produtos de moda. Além disso, também encontra
utilização em catálogos e manuais de venda, orientando sobre os detalhes e modelo dos produtos. Conforme
aponta o editor no prefácio do livro Desenho Técnico de Roupa Feminina,
“Pode-se dizer que (o desenho técnico) é uma espécie de código genético da roupa, uma vez
que nele estão inscritas todas as informações necessárias à reprodução de cópias
absolutamente idênticas. O tipo de tecido, a posição exata das costuras, o local onde serão
colocados os detalhes, a grade de tamanhos, a seqüência de montagem das peças e até as
ferramentas que devem ser usadas para aplicação de detalhes podem ser explicitadas a partir
do desenho técnico.”
Assim, a elaboração de um desenho técnico de moda é sem dúvida complexa, mas é de extrema importância
para o processo produtivo industrial.

No mercado de trabalho e também nas escolas de moda, este tipo de desenho pode ser realizado de duas
formas: manualmente e digitalmente. Nos cursos de moda, o desenho técnico é ensinado a partir do traçado
manual, onde o aluno manuseia réguas e canetas específicas sobre papel. Acompanhando os avanços
tecnológicos, o desenho técnico também é ensinado a partir da utilização de programas de computador que
permitem a elaboração de linhas e planos bidimensionais. Existem programas desenvolvidos
especificamente para a área de moda e outros, de utilização mais ampla. Ambos oferecem ferramentas e
soluções para a elaboração do desenho técnico e sua contextualização nas Fichas Técnicas. No mercado de

1
MARCUS VITRUVIUS POLLIO, De Architectura, livro III de X, capítulo 1, "na simetria nos templos/ construções e no corpo humano”.
Esta passagem fornece também a chave da composição da arquitetura da Antiguidade (período antes da Era Cristã) e foi resgatada
firmemente no Renascimento pois enfatiza a racionalização da geometria, por meio dos números inteiros pequenos para construir a
composição – deste modo Vitruvius delineia a proporção do corpo humano masculino que Leonardo Da Vinci reproduz fielmente em seu
famoso desenho de 1490. N.A.

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trabalho, as duas técnicas são utilizadas, mas é notória a informatização das empresas do setor, mesmo nas
de pequeno porte.
De uma maneira ou de outra, o desenho técnico é obrigatoriamente utilizado nas confecções e empresas da
área de Moda e o estudante encontrará o desenho técnico na rotina de seu trabalho, tanto durante o curso
como durante sua vida profissional.

1.2 O croqui2

FIGURA 2 - Passo a passo para a realização do Desenho de Moda – Croqui

O designer de moda trabalha com projetos para a indústria, de maneira geral. Isso significa que cabe ao
designer conceber o produto de moda, vestuário ou acessórios, e estudar e propor sua viabilidade. Assim,
muita pesquisa é necessária, na qual o designer busca materiais, formas cores e efeitos para adequar o
produto ao consumidor final.

Dessa forma, o desenho é a linguagem usada pelo designer para realizar a comunicação visual de idéias que
ainda não se concretizaram. Esse desenho tem como finalidade demonstrar o efeito que o produto de moda
terá antes de sua confecção. Os traços juntamente com a técnica de colorização utilizados pelo designer de
moda devem reproduzir de maneira convincente, e, portanto bem próxima à realidade, os materiais e
acabamentos do produto. De acordo com Riegelman (p.11),
“Dentro da indústria de moda, propósito do desenho de moda (o desenho conceitual, oposto
ao desenho técnico utilizado nos estágios de fabricação das peças) é apresentar um projeto
de consideração para possível fabricação. Um desenho pode ser considerado útil, do ponto
de vista do designer, se ele apresenta o conceito do projeto da maneira mais clara e positiva
possível, representando os tecidos e materiais da maneira mais próxima do real”.

No caso de o produto de moda ser uma peça de vestuário, a representação de texturas e caimento dos
tecidos sobre o corpo deve ter atenção especial. Tudo esse esforço se deve ao fato de que este desenho
poderá decidir se o produto será ou não produzido. Por isso há a necessidade do estudo do corpo humano,
com relação a suas formas, volumes e movimentos, já que este corpo é o suporte para a roupa e o objetivo
do desenho é mostrar como a roupa se configura quando está cobrindo o suporte. Ainda de acordo com
Riegelman (p.11),
“Do ponto de vista do ‘cliente’ – aquele quem vai analisar o desenho e decidir se o produto será ou
não fabricado – a utilidade do desenho está na representação dos materiais que não apenas devem
parecer atraentes, mas principalmente devem estar representados de forma realística, para que haja
uma impressão precisa do produto e seu efeito final”.

2
Esse termo tem origem na palavra francesa croquis que significa um desenho rápido, normalmente utilizado por estilistas franceses
para apresentar suas idéias às clientes, para a decisão do que seria confeccionado (discussão de detalhes e possíveis alterações ou
ajustes).N.A.

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Assim, para a industria de moda, o desenho de moda ou croqui é de fundamental importância, uma vez que,
se bem feito, pode convencer os responsáveis a favor de sua fabricação, mesmo sem que tenha sido
realizado um protótipo do produto. Portanto, o desenho de moda bem feito, reduz custos e otimiza recursos
e tempo para a indústria.

Na figura 2 observamos o passo a passo do desenho de moda ou croqui. Como já foi citado, é importante
que o designer faça um estudo da figura do corpo humano, uma vez que a roupa ou o acessório será
colocado sobre ele. Para este estudo, são considerados três elementos fundamentais: proporção, formas e
volumes e movimentos.

Até aqui, o estudo é o mesmo realizado para a elaboração dos desenhos técnicos. Porém, existe uma
diferença de objetivo entre os dois desenhos: o desenho técnico apresenta as peças planificadas,
bidimensionais. Isto significa que a peça está fora do corpo, apesar de apresentar tamanhos e proporções
capazes de vesti-lo. Já no croqui, a mesma peça está envolvendo o corpo e, portanto apresenta as
características de volumes e formas dessa figura, assumindo inclusive os movimentos e a vida desse
suporte.

Além disso, o croqui tem a finalidade de demonstrar de forma convincente a peça, como que simulando
uma possível realidade. Para tornar essa simulação ainda mais agradável, o traçado e a composição do
“corpo/suporte” é apresentada de forma a seguir os padrões de beleza vigentes em cada época. Assim, o
desenho de moda representa certa idealização da realidade e é, de certa forma distorcido, funcionando como
estratégia visual de aceitação. Em termos práticos, essas distorções acontecem na cintura, quadril e busto da
figura feminina, de forma a acentuar as curvas do corpo e conferir maior feminilidade ao desenho, e, na
figura masculina há um exagero da musculatura dos braços e peito, de forma a enfatizar a virilidade
masculina.

FIGURA 2A- O Homem Vitruviano, Leonardo Da Vinci, 1490

Entretanto, dependendo da época e dos padrões de beleza vigentes, podemos encontrar outras alterações.
Nos desenhos de moda contemporâneos, por exemplo, como visto na figura 2, destaca-se uma silhueta
magra e alta, que muito nos faz lembrar as famosas modelos profissionais de desfiles de grifes
internacionais. No desenho, para criar a sensação de que o produto está sendo apresentado em um corpo de
modelo de passarela, a principal distorção acontece no comprimento das pernas. Quando a figura humana é
construída, utiliza-se o estudo de proporção estabelecido na Antiguidade por Vituvius3 que foi resgatado por

3
MARCUS VITRUVIUS POLLIO, arquiteto e coordenador militar romano durante o segundo Triunvirato, (seguindo a morte de Julius
Cesar e no reino adiantado de Augustus segundo Imperador de Roma, 14 a. C. até 12 d. C., depois de Otávio, quem conspirou contra
Marco Antonio e Cleópatra, em 40 a.C.), foi influenciado fortemente pelos gregos e escreveu sobre questões do estilo, da proporção, da
ornamentação, sobre os sentidos das ruas, fundações e subestruturas, inclusive métodos e materiais para construção, além de escritos
sobre invenções antigas, acústica, e harmonias estruturais.(N.A.)

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Leonardo Da Vinci no Renascimento, chamando O Homem Vitruviano (figura 2A). Este estudo considera a
cabeça como unidade de medida e comparação entre as partes que compõe o todo. Dessa forma, estabelece
que a altura do homem é igual a sete vezes e meia o tamanho de sua cabeça. Esta é uma concepção clássica,
utilizada desde o Renascimento em pinturas e esculturas de diversos artistas famosos, e que ainda é
utilizada para a representação da figura humana. Para o desenho de moda, a distorção acontece justamente
nesse parâmetro. A figura de moda, tanto feminina quanto a masculina é construída com essas nove cabeças
de altura, em vez das sete e meia. O resultado é uma figura alongada e longelínea, muito parecida com as
consideradas belas mulheres de nossa época.

1.2 A ilustração de moda

FIGURA 3 - Ilustração de Sarah Beetson, Reino Unido, para a revista Fashion 18 (2003)

Outra forma de representação gráfica de que a moda se apropria é a ilustração. Diferentemente do desenho
técnico e do croqui, objetivos e com enfoque no produto de moda, a ilustração permite uma ampliação dos
significados subjetivos. Entendida aqui como linguagem de representação visual, a ilustração de moda traz
elementos próprios deste universo e vai mais além, incorporando e interpretando elementos culturais e
sociais. De acordo com Susanne Schaller, diretora de arte, no prefácio de Fashionize:
“Quando a ilustração de moda ultrapassa os limites da função de ilustrar, ela pode trazer á
tona as estruturas das sociedades”.

Isto significa dizer que a ilustração de moda traz com sigo o “pulsar do tempo”, pois carrega traços desse
tempo, valores e comportamentos, mudanças e oscilações, que influenciam a percepção e a concepção de
novas estéticas. Ou seja, a ilustração de moda como análise e interpretação do espírito do tempo, da época.
A ilustração de moda está no campo do experimental: novas estéticas, conceitos e técnicas de comunicação
tanto de moda como de estilos de vida.

É isso que percebemos ao olhar para a figura 3: mesmo sem a informação de que se trata de um trabalho
desenvolvido para uma revista direcionada ao publico adolescente, fica claro de que o assunto é o jovem,
devidamente representado pela figura da menina que aparece e se mistura com outras informações.

Estas outras informações são lidas de acordo com o repertório do espectador. Ainda assim, é possível
perceber interferências de cores, letras e texturas que sugerem e lembram os grafites e pixações típicas de
grandes centro urbanos e características do público jovem. Não há um plano definido, nem limites como um
chão ou um teto e a figura graciosa da menina se confunde com as cores fortes e texturas em camadas em
muito lembrando a grande confusão que é a realidade na percepção de um adolescente. Estas – e outras –
associações acontecem inclusive de forma subconsciente ou subliminar na leitura de imagens desse tipo. De
acordo com o comentário de Jonathan Tran, ilustrador de moda britânico, no prefácio de Fashionize,

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“A ilustração de moda deve capturar idealismos e comportamentos. Elas devem comunicar
tudo àquilo de inatingível e subjetivo que envolve o objeto em questão”.

Quando observamos as ilustrações de moda contemporâneas, fica ainda mais claro que esse tipo de
representação recusa classificações tradicionais; ela encontra e segue seus próprios caminhos, em meio a
tendências e novas mídias. As ilustrações de moda podem ser vistas como sinais de uma nova era: ao
mesmo tempo intrigante e consciente de si mesma; autentica e universal, ao mesmo tempo.

2. O Ensino do Desenho No Curso Superior De Design De Moda

2.1 Objetivos: mito e expectativas X realidade

Antes de iniciar o curso superior em Design de Moda o aluno já tem idéias pré-concebidas sobre a área e,
especificamente, sobre as habilidades necessárias para se tornar um bom profissional. A questão do desenho
é a primeira dessas idéias. Equivocadamente, o estudante acredita que deve iniciar seus estudos já
dominando a habilidade do desenho, inclusive como única habilidade necessária. Além disso, há a crença
de que desenhar bem significa “nascer sabendo” ou, nas palavras dos próprios alunos, “ter o dom para o
desenho”. É bastante comum a atribuição de uma habilidade desenvolvida á alguma essência divina e
mágica. Como afirma Edwards (p. 29),
“Muitas pessoas acham mesmo que não devem entrar para um curso de desenho por
não saberem desenhar. Isto equivale a resolver que não de deve entrar para um
curso de francês por não saber falar a língua...”.

O pensamento desta autora é fruto de um longo estudo em função de sua vasta experiência como professora
de desenho e muito difundido e utilizado no Brasil por professores de desenho, inclusive de desenho de
moda. Edwards propõe a teoria de que a habilidade do desenho pode ser aprendida por se tratar, em resumo,
do desenvolvimento da habilidade de observação e domínio e consciência das funções e utilizações das
capacidades cerebrais, inerentes a qualquer ser humano mediano. Segundo o capitulo 1 de seu livro, o
desenho é visto como habilidade que pode ser aprendida e ensinada (p. 29),
“Aprender a desenhar é mais do que desenvolver a habilidade em si. (...) aprender a
processar a informação visual daquela maneira especial usada pelos artistas. Ela é diferente
da maneira que normalmente se usa para processar informações visuais e parece exigir que
se use o cérebro de um modo também diferente do comum. (...) E uma das coisas que você
aprenderá é que as propriedades especiais do cérebro nos permitem desenhar imagens do
que percebemos”.

Certamente essa habilidade requer treino e prática e, comprovadamente pode ser aprendida. Especialmente
quando se trata de um desenho que obedece a parâmetros fixos e objetivos, que em nada tem a ver com
percepções subjetivas e pessoais. Refiro-me aos desenhos técnicos e ao croqui de moda, ambos com
funções mercadológicas e funcionais, que sugerem aprendizado e prática muito mais do que expressão
pessoal. Evidentemente esses conceitos se entrelaçam e se confundem, dependendo da dedicação do aluno.
Assim, os conteúdos das disciplinas de desenho em um curso de Design de Moda visam o aprendizado e a
prática do desenho com enfoque para o desenho técnico e para o croqui.

Os cursos de moda iniciam o aprendizado do desenho ainda de forma geral, enfocando as técnicas de
observação, luz e sombras e materiais como grafite e lápis de cor. Como segundo passo, o desenho passa a
ser contextualizado para a moda: são propostos exercícios de representação de tecidos e peças de roupas e
acessórios, juntamente com o estudo de composição de cores e técnicas de traçado e colorização. Em
seguida é introduzido o desenho técnico, paralelamente á disciplinas específicas como modelagem e
costura. Na etapa de finalização do curso, a proposta é realizar desenhos técnicos e suas respectivas fichas

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técnicas e também o desenho de moda, colorido e finalizado de forma a representar as peças desenvolvidas,
compondo assim um caderno de pesquisa e interpretação traduzidas em desenhos e peças prontas.

Desta forma, o curso conta com a colaboração da disciplina de desenho para propor exercícios que simulam
a realidade de mercado que o aluno vai encontrar quando finalizar o curso. Assim o aluno se apresenta ao
mercado de trabalho com a segurança de ter a habilidade necessária para a realização de desenhos que, pelo
menos, servem como ferramenta de trabalho.

3. Conclusão

Como vimos, o desenho é uma ferramenta de extrema relevância no universo da moda como forma de
comunicação e expressão de idéias. Estes desenhos podem ser classificados em vários níveis de expressão.
O profissional de moda pode realizar desenhos técnicos e objetivos, passando pelo desenho representativo e
mercadológico e atingindo um nível avançado, com a ilustração subjetiva e referencial.

Todos esses tipos de desenho têm seu espaço no mundo da moda. Sua utilização vai depender dos objetivos
a serem alcançados, sejam eles relativos ao projeto do produto de moda, á sua realização ou ainda á sua
comercialização e divulgação.

Os cursos profissionalizantes da área utilizam o desenho com dois grandes objetivos: desenvolvimento da
percepção e desenvolvimento de habilidade como ferramenta de trabalho.

Assim, o desenho é introduzido de forma a ampliar e muitas vezes, de modificar o olhar do aluno com
relação principalmente aos acontecimentos sócio-culturais que afetam diretamente o trabalho do
profissional de moda. É através da observação e representação do objeto cotidiano que novas formas de
olhar e compreender a relação entre formas, linhas, materiais, cores e texturas vão sendo construídas,
transformando a percepção do aluno e preparando-o, de certa forma, á um novo relacionamento com a
profissão e com o mundo que o cerca.

Por outro lado, o desenho é abordado também como técnica e ferramental para a comunicação e expressão
de idéias e para realização de projetos, típicos exemplos da realidade que o aluno irá encontrar quando
estiver pronto para atuação no mercado de trabalho.

Bibliografia

FANTUZZI, Gabriele. VALENTINI, Cristiana. Fashionize – The Art of Fashion Ilustration selected by
Delicatessen. Ed. Happy Books, Italia. 2ª edição, 2005.

LEITE, Adriana Sampaio; VELLOSO, Marta Delgado. Desenho Técnico de roupa feminina. Rio de
Janeiro: Ed. Senac Nacional, 2004.

RIEGELMAN, Nancy. Colours for Modern Fashion – Drawing Fashion with Colored Markers. Ed.
9Heads Media, USA, 2006.

EDWARDS, Betty. Desenhando com o lado direito do cérebro. ___________. Ed Ediouro, 2000.

Luciana Gragnato lugrag@ig.com.br