Anda di halaman 1dari 4

Av.

: Alberto Magno 300 Montese


 3491.4000 - www.efivest.com.br
DISCIPLINA ASSUNTO
LIVROS DA FEDERAL UFC
SOBRINHO(A)

Os contos comoventes “potoca’, “de vera”, “tapuru de gente’, “mucuim do inferno”,


“embiocado”, “cumaru”, “canarana”, “mofumbó”, “varejão”,
de Trapiá “pega-pinto”, ton-fraco de capote”, “neu”, “desbilotada”
“maluvido”, “manga”, “baticun’, “capionga”, “cansansão”,
“mode”, “cachimbeira”, “gasguito” e “pitombeira”. Embora
não ocorra o abuso do uso desses termos e expressões
típicas na narrativa concisa, não se repetem em cada
história quando incorporados ao discurso coeso. Isso já
demonstra uma tomada de consciência crítica do contista
para evitar a presença do repetitivo, enfadonho, que em
geral ocorre no texto de natureza regionalista.
Não importa ao contista de Trapiá a transposição
da linguagem para o campo literário tal qual ela é. Nem
importa retratar a ambiência onde se passa a história como
se fosse fotografá-la nos mínimos detalhes. Passa longe o
dado sociológico transformado em matéria literária,
realidade estética, visando prevalecer o documento sobre o
subjetivo. Embora enraizado em sua região de origem,
fazendo dela muitas vezes a matéria prima de sua criação
literária, Caio Porfírio Carneiro nos contos de Trapiá
ultrapassa os limites do regionalismo dos anos 30/40, para
engajar-se em uma literatura que tem como tema o ser
humano tocado de suas verdades essenciais: tristezas e
dores.
A economia dos meios nos contos de Trapiá salta
aos olhos como uma maneira bem particular da expressão,
a se mostrar com precisão na arte implícita de forjar a
história no que pretende contar. Há uma nota especial disso
desde a fala dos personagens, passando pela ação que os
movimenta através de sua psicologia, até as observaçõese
e constatações que fazem dando uma idéia do lugar onde
acontece a intriga. Tanto no fundo como na forma há
sempre o uso dos meios de expressão com síntese,
equilíbrio, intensidade do verbo, “vazios narrativos”, tudo
Depois que João Guimarães Rosa colocou o sertão
isso manipulado com facilidade que torna o narrador
nas palavras com canto e plumagem, o regionalismo de
possuidor de uma dicção muito própria no corpo do
nossa ficção sofreu um impacto e ficou no impasse.
moderno conto brasileiro.
Continuar a experiência do autor de Sagarana (1946) seria
Para não cair no tempo lógico seqüenciado da
impossível porque bem pessoal. Em sua manifestação
narrativa, o contista recorre ao contraponto, fazendo que os
transgressora participa da subversão do léxico e sintaxe,
quadros vividos pelos personagens exibam a história com
inventa a linguagem fora dos cânones, modifica a estrutura.
um interesse eficaz capaz de prender o leitor do princípio ao
Prosseguir na linha regionalista tradicional na qual o
fim. Preenche-se de interesse o drama na medida em que
enfoque do típico e do característico, inclusive da fala,
os personagens agem. O recurso da síntese manipulado
tendo por fundo uma região refletida no conteúdo,
pelo contista consegue no final imprevisível o efeito
conferindo uma nota especial, seria repetir padrões do que
intenso.. No conto “Milho Empendoado”, por exemplo, o
já estava exaurido. A opção pelo regionalismo nordestino de
coronel revela à mulher apenas no desfecho que não pegou
30 seria incorrer na superioridade do documental
o ladrão, mas acabou com o roubo, quando mandou o
compromissado com a realidade imediata sobre o subjetivo
suspeito vigiar as galinhas. Em “O Pato do Lilico”, o pai não
sem acrescentar nada de especial em nossa novelística.
acredita que o menino tenha recebido o brinquedo de
Trapiá (1961), contos, é a estréia do cearense Caio
presente do homem na cidade. Em sua rusticidade
Porfírio Carneiro, que publicaria posteriormente mais de
estúpida, pensa revoltado que o menino havia roubado o
uma dezena de livros no gênero e seria compendiado como
brinquedo. De nada adiantava o choro e a insistência do
um dos bons valores da moderna contística brasileira.. A
filho querendo mostrar a inocência. No final, bruscamente,
leitura apressada do livro pode dar equivocada impressão
jogou o pato no chão e pisou com raiva, enquanto a mulher
de que se trata de contos regionais no sentido menor, pelo
lá da cozinha dizia para o filho se calar, não fazer isso outra
fato de que a matéria narrativa estaria presa a um contexto
vez, Nosso Senhor castiga. Em “O Gavião”, a raiva que o
cultural específico que se propõe a retratar e de onde vai
menino tem da ave que lhe roubou o canário de estimação,
haurir a sua substância. São histórias da terra áspera,
insistindo para que o pai a matasse, transforma-se em
calcinada, coronéis, arrieiros, velhos solitários, gente
admiração quando entra em contato direto com ela,
humilde do interior, meninos com a infância sofrida.
percebendo sua maneira de reinar na natureza com
A impressão de que os contos de “Trapiá” são
coragem e beleza. Comove o final quando a ave é abatida
regionais afigura-se como tal dado que a matéria narrativa
pelo pai e o menino sente. Em “Candeias”, o vadio menino
incorpora ainda no texto termos e expressões típicas como
Rafael implica a todo instante com a Velha Candoca,

www.efivest.com.br
1 (85) 3491 4000
Acredite no seu sonho, invista em você!
mandando os companheiros sujar os panos do coradouro,
chamando-a de “velha cachimbeira”. Quando retiraram do
açude o menino morto, “ na certa estaria deformado,
inchado, sem o sorriso moleque”, a velha sente água nos
olhos. Nunca ouviria mais a provocação: Velha cachimbeira!
Nas onze histórias de Trapiá, a conservar alguns elementos
clássicos do realismo, com observações exatas nas cenas
sobre seres e objetos da realidade imediata, a estrutura
tradicional da narrativa curta fragmenta-se no lugar de ser
desmembrada linearmente. A ação dos personagens que,
em pequenos blocos cruzam e se entrecruzam no DADOS PESSOAIS:
desenvolvimento da trama, retiram qualquer possibilidade
de onisciência narrativa, da qual aflora o drama sem Caio Porfírio de Castro Carneiro nasceu a 1° de julho de
desprezar a ternura. 1928 em Fortaleza, sua amada e versejada cidade de
O estilo enxuto e sintético de Caio Porfírio Carneiro origem. Bacharel em Geografia e História pela Faculdade de
projeta densidade humana forçando o leitor participar da Filosofia de Fortaleza, dedicou-se desde cedo ao Jornalismo.
história, tornar-se cúmplice do destino dos personagens Em 1955 (17 de novembro), transferiu-se para São Paulo,
com sua feição sofrida. A intensidade que emerge do onde vive oficialmente até hoje, entre idas e vindas a sua
discurso feito com observações lúcidas sustenta certa terra natal. Desde 1963, é secretário administrativo da
atmosfera que evolui em seus ângulos críticos na medida União Brasileira de Escritores de São Paulo. É sócio-
em que a história caminha para o desfecho imprevisível. O correspondente da Academia Cearense de Letras. Através
epílogo força qualquer um pensar sobre a complexidade do de ficção e crítica literária, contribui, até hoje, nos
mistério da existência. Em “Macambira”, o velho Firmo com principais suplementos do país. É autor de O Sal da Terra,
o olhar perdido no poente, conversa em silêncio ao obra traduzida para o italiano e para o árabe, ganhando,
perscrutar o tempo, o vento e sua poeira. Vê a criação se inclusive, adaptação de roteiro para cinemas. Muitos dos
esvaindo sem a ração, e ele resistindo à seca, à solidão, seus livros, como Trapiá, alcançaram várias edições devido
não atendendo ao pedido dos filhos em São Paulo para ao sucesso de vendas. Escreve também literatura juvenil.
deixar suas terras, porque um homem não se dobra ao
vazio de tudo, nem quando perde a mulher.
Nestes contos de Trapiá não se vê a intenção do
escritor em fixar tipos, linguagem, valores e costumes de
determinada região, transpondo os elementos para o
literário em seu espaço documental típico. O contista não
experimenta a linguagem, embora se mostre íntimo do
território humano que projeta, pouco a pouco, no texto
enxuto.. Não chega a forçar em algum momento as
emoções do seu fundo a sustentar o drama. A cumplicidade
que emerge do leitor em torno de alguns dos personagens
decorre da capacidade que tem Caio Porfírio Carneiro de
alcançar sentimentos verdadeiros, que são de nós
humanos, com nossas permanentes comoções. A matéria
desses contos não é outra senão a criatura humana nos
incidentes, encontros e desencontros da existência..
Assim, no eixo desses contos bem escritos de
Trapiá vemos a solidariedade inesperada latejar
sentimentos e nervos em “Mata-Pasto”,“Come Gato”; o
absurdo da incompreensão em “O Pato do Lilico”; a astúcia
do coronel em “Milho Empendoado”; a afeição intensa da
Velha Candoca em “Candeias”; a vontade feita dureza na
solidão de velho Firmo em “Ventania” e o ódio revertido em
amor pela ave de rapina em “O Gavião”.
Não é preciso ser crítico arguto para saber que nos
onze contos enfeixados no livro de estréia de Caio Porfírio
Carneiro aconteceu o nascimento de um contista moderno e
dos bons. Possuidor de dicção simples, mensagem forte em
sua grandeza humana. Dono do chão literário que pisa,
exprimindo sentimento do mundo entre o drama e a
ternura. Percebe-se facilmente em qualquer dessas Estudo Crítico e
histórias de Trapiá a união harmoniosa entre o escritor e o Contextualizado da Obra
ficcionista.
O estilo do contista flui com naturalidade, sua
A coletânea de textos de Caio Porfírio, autor
dicção desenvolve a história com uma capacidade particular
contemporâneo, profundo participante da vida intelecto-
que seduz e flagra a vida num instante que nem sempre se
literária cearense, estréia uma nova fase do conto no
esgota em si mesmo. Continua na mente do leitor. O autor
Ceará, desde 1961. Além de tudo que produziu, os 11
de Trapiá tem também uma capacidade incrível de colocar
contos de Trapiá, mais o texto de abertura, de forte
bem os diálogos no tempo necessário e, quando toca na
conotação histórico-localista, estão intitulados de modo
alma humana sob o peso da vida, nunca extrapola das
estritamente narrativos. Os títulos chegam a antecipar o
notações agudas. Sempre preenche o texto com
conteúdo de alguns dos contos.
sentimentos verdadeiros, penetrantes de luz, a evitar que
Uma espécie de prólogo intitulada “Como nasceu
se percam no anonimato e esquecimento.
Trapiá” revela a origem daquele vilarejo aos arredores de
uma típica árvore do Nordeste brasileiro. Um vocabulário
Cyro de Mattos. tipicamente regionalista já se anuncia nos nomes das
localidades próximas. O misticismo também está presente
no relato da morte de um homem, cuja alma nunca se
desprendeu da oiticica. Menciona-se a seca de 77, um

www.efivest.com.br
2
Atendimento ao Aluno: (85) 3491 4000

anúncio das temáticas nordestinas que permearão toda a Firmo, que pensa, mesmo diante das adversidades, “na
obra. E o leitor se identifica com aquele puro regionalismo alegria e na tristeza”, em sua esposa falecida, sepultada no
exposto nas expressões e nos nomes dos personagens. cemitério de Trapiá. Este conto é dedicado ao contista
Dedicado ao escritor Hélio Pólvora, famoso contista Juarez Barroso Ferreira, incluído em 1965 na Antologia do
baiano autor de Os Galos de Aurora (1950), “Milho Conto Cearense, editada pelas Edições UFC. Leva como
Empendoado” surge como o primeiro conto da coletânea a título a simbólica “Macambira”, planta recorrentemente
anunciar o uso variado dos discursos (o direto e o indireto), usada para alimentar o gado à época da seca. Fatalismo
ambos muito bem dosados. Não faltam aos olhos do leitor está em “O Padrinho”. Neste conto, mais se sugere do que
passagens em discurso indireto livre a unir reflexão à se diz. A pobreza que leva os personagens à miséria
narrativa. Trapiá, segundo o narrador, foi uma vila que justifica a tradição de dar os filhos a batizar por pessoas
nasceu em torno a “uma oiticica” (a saber: árvore típica da ricas.
vegetação brasileira, que pode atingir até 15 metros de O misticismo está em “Candeias”, onde o afogado
altura. Seu tronco, grosso, ramifica-se a pouca distância do Rafael é encontrado emaranhado nas raízes submersas de
solo), e “bem de junto à uma grota, um velho trapiazeiro” uma oiticica. Os olhares dos personagens, sempre
(árvore de tronco frondoso, rica em ramificações que reveladores e anunciadores de verdades, também se
chegam quase ao chão). Atualmente, em Pernambuco, revelam freqüente neste conto. Internamente, o foco
oficialmente há uma localidade com o nome de Trapiá, zona narrativo deste conto centra-se nas lembranças da velha
de grande incidência de turistas. Candoca. Em “O Canoeiro”, a morte de uns traz a felicidade
A expressão “caatinga” (sempre em itálico) de outros. O destino faz de seu Chico, o canoeiro
representa na obra um sentimento de grandeza, em protagonista, um homem de sentimentos mais humanos.
destaque, como se fosse um personagem Simbólicos, os urubus aparecem em “Ventania”,
(antropomorfização) entre aqueles viventes. Não raras representando a seca, climática, denotativa, e a conotativa,
vezes o leitor se depara com os homens daquelas paragens que aparece no orgulho do velho Aristides, que morreu
a olhar infinitamente para “a caatinga”. Já no plano da “assassinado pelo vento”, deixando uma misteriosa mala
linguagem, a retratação fidedigna do discurso regionalista enterrada próxima ao juazeiro.
dos personagens vive harmonicamente com a norma Este ano, a lista de obras indicadas ganha muito
padrão adotada pelo narrador. Personagens como o velho com a inclusão de Caio Porfírio que, com estilo próprio,
Camilo representam o massacre (sem violência) dos depois de dedicar anos a uma boa literatura, através de seu
menores, como Chico, que rouba por necessidade, de Trapiá ganha ainda mais destaque nas letras locais. OS
consciência pesada, validando sua honestidade, mesmo vestibulandos agradecem tal indicação.
diante das situações adversas. A extrema concisão, não só
deste, mas de todos os outros contos da coletânea,
surpreendem o leitor com a mudança brusca de cenário, de
uma página a outra. O leitor ganha, com a leitura de Trapiá,
momentos gostosos de retratação do sotaque, do
vocabulário e da variação lingüística típica do falar
nordestino.
Ao passar para o conto seguinte, “O Pato do Lilico”
(título extremamente humano pela anteposição do artigo
diante do substantivo próprio – “do Lilico”), dedicado ao
contista Ricardo Ramos, o leitor percebe que os
personagens são outros, mas o ambiente e o costumbrismo
Exercícios
retratado são os mesmos. Linhas à frente, a constatação:
os personagens também se cruzam, mesmo em ambientes
diferentes. Há devoção, religiosidade e tradição entre os 01. Sobre Caio Porfírio e sua obra, pode-se afirmar
moradores de Trapiá. A plasticidade com que o narrador corretamente que:
apresenta esses valores faz com que o leitor se transporte a) Trapiá trata-se de uma coletânea de contos de
para aquelas cenas. Fragmentos como quando Lilico, terror e mistério.
amparado pelo pai, preocupa-se com a distância até Coité b) as novelas produzidas pelo autor evitam as
nos remetem a cenas de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, temáticas policiais.
onde o caboclo Fabiano leva o pequeno filho nos braços, c) os temas ligados ao misticismo desaparecem em
morto de cansaço e fadiga. Além do narrador “oficial”, Trapiá.
outros narradores surgem, como os próprios personagens, d) seus escritos reúnem, além de contos, romances,
sem qualquer onisciência. Os contos, eivados de tensão, poesias e teatro.
revelam finais surpreendentes das narrativas, o que reforça e) a história literária situa o escritor como neo-
a técnica boa de Caio enquanto contista. realista ou contemporâneo.
Em “O Gavião”, um anúncio de um tema freqüente
em Trapiá: o universo infantil retratado em meio ao
02. O autor de Trapiá é um ficcionista conciso, uma
patriarcalismo predominante da célula de família (pai – mãe
vez que seus contos:
- filho), que ganha destaque a cada conto. Relatado “aos
a) revertem-se de uma inquietante atmosfera
pedaços” e em uma sintaxe em que prevalece o ritmo típico
sobrenatural.
da fala do nordestino, este conto é dedicado a Jorge
b) apresentam grande preocupação com o sentido
Medauar, contista e poeta, autor de Morada de Paz. As
figurado dos termos.
cenas vão se encaixando para explorar o humano final que
c) trabalham apenas com o fato não-sugerido.
aguarda o leitor. “A Dívida” (título sugestivo) comprova o
d) delimitam-se ao essencial narrativo em tempo,
costumbrismo ali predominante. O social é trabalhado, mas
espaço e enredo.
sem o tom de denúncia, pois essa não era a intenção de
e) tendem para o surrealismo e o fantástico.
Caio Porfírio. Em “Come Gato”, um quase personagem-tipo,
o suspense e a jocosidade são os temas. O destino também
tem espaço em contos como “Mata-Pasto”.
A seca não poderia faltar a esta obra. Em
“Macambira”, a estiagem a devastar as esperanças dos
agricultores é o tema. Algumas inferências como os réis
situam a narrativa na época do ciclo das secas no Nordeste.
Mas enfim a chuva vem e lava a alma e o orgulho de seu

O Cursinho dos Alunos da UECE


3
Acredite no seu sonho, invista em você!
fazenda chamada Pau Caído - mas é só o nome, viu? É uma
terra perto da terra do José Alcides Pinto, perto de Sobral e
Santana do Acaraú. Então a fazenda era uma beleza. A
margem direita do Acaraú corta a nossa fazenda. Eu tinha
ido estudar em Fortaleza, mas toda folga que aparecesse a
gente ia pra fazenda. Hoje meu irmão mora lá. A fazenda
Memórias inventadas está conosco desde 1722, quando ainda era uma sesmaria.
Henrique Araújo Portanto, todos os anos eu vou ao Ceará. Agora mesmo
especial para O POVO estou chegando aí, por volta do dia 15 de setembro. Vou
dar umas palestras sobre o livro.
Trapiá, primeiro livro do escritor Caio Porfírio Carneiro,
lançado em 1961, integra a lista de obras indicadas para o OP - O senhor nunca pensou em voltar a morar aqui?
vestibular da UFC. Em entrevista a O POVO, o autor Caio Porfírio - A minha ligação com São Paulo é muito
relembra o processo de feitura da obra forte. Sou secretário-executivo da União Brasileira dos
Escritores desde 1963. Aqui eu me aposentei como editor
do Clube do Livro.
08/09/2008 01:10
OP - Em que contexto surgiu o Trapiá?
Caio Porfírio - Eu morava em São Paulo quando escrevi o
livro. Tinha vindo pra cá por causa de uma tuberculose. Eu
era gerente do escritório da Panair do Brasil quando fiquei
doente. Ganhava três mil cruzeiros na época. Estava por
cima da carne seca. Quer dizer, se não fosse a tuberculose,
eu não teria virado o escritor que sou hoje. Claro que
escrevia antes disso, eu tinha aquele pendor para escrever.
Em Trapiá eu quis contar o meu mundo de infância. É toda
a geografia de uma época ficcionada dentro de uma
realidade da época. São fatos ficcionados. Mas as histórias
são ficcionais, é tudo invenção. A terra é aquela lá, a da
fazenda. Aquele conto das galinhas, por exemplo, Milho
Empendoado, aconteceu com meu avô. Só que, no lugar da
galinha, eram cocos. Entendeu? Então quase tudo são
histórias que ouvi falar, coisas que fui lembrando, mas
sempre ficcionadas. O Pato do Lilico, por exemplo, é uma
história inventada. Ali eu contei uma história de quem não
(Foto Lia de Paula 4/7/2006) tem Natal. Trapiá é uma espécie de vila como Santana do
Acaraú.
Trapiá (Edições UFC, 122 páginas), de Caio Porfírio
Carneiro, 80 anos, foi escrito em 1961. Seis anos antes, OP - Que tipo de regionalismo marca os contos de Trapiá?
Porfírio, pressionado por uma tuberculose, mudara-se do Caio Porfírio - Eu fiz um livro regional, mas não coloquei
Ceará para São Paulo. Não voltaria a fixar morada em uma palavra errada. A minha geração não aceitava escrever
Fortaleza. Lá escreveria o seu primeiro livro de contos, o regional errado. O Guimarães a gente gostava, a gente
ganhador de inúmeros concursos de literatura realizados admirava, mas era uma linguagem só dele. Não podíamos
naquele projeto de megalópole. Em meio aos arranha-céus imitar. O regionalismo que fizemos era renovado. O pessoal
ainda tímidos, traçou um quadro da infância na fazenda do da minha geração gostava de dizer que era todo mundo de
avô, Maximiano Carneiro, morto em 1935, aos 87 anos. uma "Barrigada Perdida". Porque a gente tinha vindo depois
Para Caio Porfírio, o lugar da memória chama-se Pau Caído do Clã. E ninguém podia fazer nada. Mas, modéstia à parte,
("Mas é só o nome, viu?!", brinca o escritor), no interior da minha geração vieram grandes escritores.
cearense. Perto de Sobral, a 238 quilômetros de Fortaleza;
perto de Santana do Acaraú, "terra de José Alcides Pinto". OP - Nesse período de preparação de Trapiá, quem eram os
autores que o senhor gostava de ler?
É essa a terra presente nos doze contos do livro. Feita de Caio Porfírio - José Lins, Rachel de Queiroz, Lúcio
encantamentos, histórias de ouvi-dizer, mal e bem-ditos Cardoso. Fora os clássicos mesmo. Meu pai tinha uma
vários, a fazendola da família Carneiro como que saltou às biblioteca grande. Ele era um intelectual frustrado. Lia
páginas do escritor. Mas redimensionada, processada. A muito. Então eu aprendi a ler muito cedo nessa biblioteca.
paisagem física, geomorfológica, cede espaço aos tipos que
povoam o real e o imaginário sertanejos. E assim Caio OP - Duas outras características marcantes do livro são a
Porfírio construiu o seu regionalismo, "renovado, sem falas oralidade e a própria estrutura da obra, que entrelaça
erradas", sem caricaturas de jagunços, mas cheio de fortemente os contos. Como foi o processo de elaboração
invenção. Distante do contorcionismo lingüístico inimitável dele?
de um Guimarães, mais próximo da secura expressiva de Caio Porfírio - Sabe de uma coisa? Eu só consigo fazer um
um Graciliano. Psicológico porque toda conduta é conto com muito diálogo. Eu não escrevo nada psicológico.
psicológica. E enxuto - quem sabe influência do curto A conduta da personagem é que diz o que é. Eu sempre
período em que trabalhou n'O Democrata, jornal do Ceará. escrevo partindo de uma idéia. Trapiá foi assim: fiz o livro
para girar em torno de três cidades: Taimbé, Trapiá e
Pitombeira. E não é que deu certo?
O POVO - O senhor mora em São Paulo há muito tempo,
desde 1955. Como é a sua relação com o Ceará?
Caio Porfírio Carneiro - Todo ano eu venho ao Ceará.
Nasci numa quinta-feira de 1928, na rua 24 de Maio, do
lado da sombra (risos). Morei dez anos na praça São
Sebastião. Todo ano, quando venho a Fortaleza, vou até a
praça e tomo uma cerveja. Só depois disso é que posso
dizer: "Estou em Fortaleza". Quer saber de uma coisa? Eu
não passo um ano sem visitar Fortaleza por causa da
saudade. A família dos meus avós paternos tinha uma

www.efivest.com.br
4