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Paidéia, 2006, 16(34), 149-159

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ABORDAGEM GESTÁLTICA E PSICOPEDAGOGIA:


UM OLHAR COMPREENSIVO PARA A TOTALIDADE CRIANÇA-ESCOLA1

Miriam Lúcia Herrera Masotti Dusi2


Marisa Maria Brito da Justa Neves
Sheila Antony
Universidade de Brasília

Resumo: O presente estudo visa estabelecer interface entre a abordagem gestáltica e a Psicopedagogia.
Focalizam-se as teorias de base, a concepção de campo holístico-relacional a teoria do Ciclo do Contato, bem
como as contribuições da Gestaltpedagogia para a compreensão do processo de aprendizagem e prática esco-
lar. Da Psicopedagogia destaca-se sua conceituação, abrangência, processo de avaliação e intervenção junto
à criança e instituição educativa; a convergência de suas bases teóricas e práticas abrangem os fenômenos
aprendizagem, avaliação e intervenção na ótica gestáltica. Tal interface visa nova compreensão e ação
interventiva do processo de aprendizagem, de modo a proporcionar o desenvolvimento da criança.
Palavras-chave: abordagem gestáltica; psicopedagogia; aprendizagem; queixas escolares.

GESTALT APPROACH AND PSYCHOPEDAGOGY: A COMPREHENSIVE LOOK TO


THE CHILD-SCHOOL TOTALITY
Abstract: The following study aims to establish an interface between gestalt approach and
Psychopedagogy. Gestaltpedagogy base theories are focused, its conception of holistic-relational field, the
Contact Cycle theory and the contributions for the learning process and school practices comprehension. From
Psychopedagogy, its conception, amplitude and processes evaluation and intervention for the child and educative
institution are pointed out; the convergence of their theoretical and practical bases enclose the learning
phenomenon, the psychopedagogy evaluation and intervention from a gestaltic standpoint. The interface seeks
a new comprehension and interventionist action to the learning process and school complaints, to collaborate to
the child development.
Key words: Gestalt approach; psychopedagogy; learning; school complaints.

Introdução do Ciclo do Contato e as contribuições da Gestaltpe-


Com o objetivo de estabelecer uma visão dagogia para a prática escolar. Da Psicopedagogia
gestáltica acerca das práticas psicopedagógicas, re- destacam-se sua conceituação, abrangência, proces-
alizou-se o presente estudo buscando identificar as so de avaliação, intervenção e os preconceitos que
contribuições das duas áreas no auxílio à compreen- permeiam o cotidiano escolar. Depois, traçam-se con-
são das demandas que se apresentam no universo siderações acerca da interface entre a abordagem
escolar. gestáltica, a Psicopedagogia, o fenômeno da aprendi-
Para melhor compreensão, apresenta-se a zagem, os processos de avaliação e intervenção
abordagem gestáltica, focalizando suas teorias de base psicopedagógicos sob a ótica gestáltica e os precon-
(Organísmica, de Campo e Psicologia da Gestalt), a ceitos do cotidiano escolar.
concepção de Campo Holístico Relacional, a teoria Abordagem Gestáltica
Gestalt é totalidade, configuração, plenitude.
1
Recebido em 27/03/06 e aceito para publicação em 23/08/06. O conceito de totalidade envolve a relação entre o
2
Endereço para correspondência: Miriam Lúcia H. M. Dusi , SQN
311, Bloco A, apto 311, CEP: 70757-010, Brasília – DF todo e suas partes, cujas interconexões harmoniosas
E-mail: miriam.dusi@globo.com e coerentes formam uma unidade significativa. A
150 Miriam Lúcia Herrera Masotti Dusi

Gestalt-Terapia originou-se com Fritz Perls (1893- lecer seu campo perceptivo-existencial, constituindo
1970) que fundou uma abordagem reunindo pressu- “um processo totalizador que colhe no imediato todas
postos teóricos e filosóficos que representam um modo as possibilidades do agir humano” (Ribeiro, 1994, p.22).
específico de observar o desenvolvimento humano A Teoria Organísmica de Kurt Goldstein, em
na sua relação com o meio. A Psicologia da Gestalt, contraposição às idéias segregativas vigentes no es-
a Teoria Organísmica e a do Campo, aliadas aos pres- tudo do ser, concebe o organismo como uma unidade,
supostos filosóficos do Humanismo, Existencialismo um todo unificado e significativo. O seu princípio bá-
e Fenomenologia, permitem uma análise do processo sico enuncia que o todo é diferente da soma das par-
de crescimento e das relações do indivíduo com o tes e que uma alteração em qualquer parte acarreta
mundo na construção de si. mudança no todo estrutural do indivíduo, que segun-
A unidade dialética organismo-ambiente do Goldstein (1995) funciona em busca de seu equilí-
explicita a influência recíproca entre os fenômenos brio organísmico via satisfação das necessidades,
internos e externos. A abordagem gestáltica não dá permitindo-lhe a busca organizada e sadia de seu de-
primazia ao indivíduo, tampouco ao meio ambiente, senvolvimento.
mas aos eventos que emergem na fronteira, no en- Kurt Lewin é o fundador da Teoria do Campo,
contro entre as necessidades dele e os objetos do que abrange um conjunto de conceitos por meio dos
meio que irão produzir a sua satisfação. O indivíduo, quais se pode representar a realidade psicológica do
no aqui e agora, age visando a sua completude, cujo indivíduo. Para Lewin (1965,1973), o campo é defini-
movimento apresenta-se em sucessivos ciclos de do como a totalidade dos fatos coexistentes em pro-
abertura e fechamento de gestalten, de necessida- cesso de mútua interdependência. Ele descreve a
des e ajustamentos criativos, que permitem o seu de- estrutura da personalidade por intermédio de esque-
senvolvimento integral em direção a sua auto-reali- mas espaciais, em que o indivíduo constitui um cam-
zação. po delimitado e inserido no ambiental, com o qual
A Psicologia da Gestalt foi iniciada por Max mantém constante interação, configurando uma rela-
Wertheimer juntamente com Wolfgang Köhler e Kurt ção parte-todo. Assim, forma-se uma realidade
Koffka. Seus primeiros estudos direcionaram-se, so- inserida em outra mais ampla, com a qual se encon-
bretudo, às áreas da percepção, aprendizagem e so- tra em inter e intra-relação, formando o chamado
lução de problemas, enfatizando a existência de leis Campo Holístico Relacional.
da organização da experiência individual. Ribeiro (1997) propõe um modelo de Campo
Nesta perspectiva, a pessoa, por meio de sua Holístico Relacional como forma de se observar e
percepção, atribui um significado existencial ao am- compreender o indivíduo por meio da sua expressão
biente observado, reestruturando seu campo em seu espaço vital. Esse modelo possibilita uma vi-
perceptual a partir do princípio figura-fundo, cuja são macro e microsistêmica dos diversos campos que
diferenciação retrata o processo pelo qual o indiví- compõem a realidade existencial do indivíduo
duo hierarquiza suas necessidades, sinalizando o que (geobiológico, psicoemocional, sócio-ambiental e sa-
é emergente e preferencial, entendendo-se a vida cro-transcendental), em que “nada que ocorra em um
campo é neutro para um outro e para o todo holístico
como uma sucessão contínua de satisfação das ne-
relacional” (Antony & Ribeiro, 2004, p.130).
cessidades emergentes.
A interação fluida entre os diversos campos
A noção do aqui e agora, oriunda do princípio
promove a ampliação da visão do ser sobre si, o outro
da contemporaneidade da Psicologia da Gestalt, refe-
e o ambiente, o que o situa em seu tempo e espaço e
re-se não só a um conceito têmporo-espacial, mas,
permite que se realize como ser no mundo.
também, a um filosófico. A situação presente, na visão
gestáltica, encerra tudo o que é necessário para o indi- O Ciclo do Contato
víduo compreender e experienciar a realidade como O humano é um ser de relação que se coloca
um todo. É no aqui e agora que está a energia em contato com a sua própria natureza, com a do
transformadora que permite a ele reestruturar e forta- outro e do meio. Contato é o processo que permite a
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relação acontecer; a experiência humana se dá entre Segundo Ribeiro (1997), o ciclo fecha uma
as vivências do indivíduo, o outro significativo e o gestalt e pode ser concebido como um modelo para
mundo. Nem toda a interação, contudo, é contato, se identificar a psicopatologia, realizar o
visto esse só ocorrer diante do novo e da diferença. psicodiagnóstico e, ao mesmo tempo, apontar o prog-
Segundo os pressupostos gestálticos, as dimensões nóstico, visando o processo de mudança e de cura,
do ser estão predispostas ao contato e todos os seus seja de um indivíduo, de um grupo ou de uma organi-
sentidos são canais entre o indivíduo e o mundo ex- zação mais ampla.
terno. A diferença vivida entre si e o outro permite o A Abordagem Gestáltica e o Fenômeno Apren-
encontro; a relação de aproximação e separação pos- dizagem
sibilita organizar sua fronteira e delimitar-se, preser-
No que se refere ao processo de aprendiza-
vando a própria identidade. A fronteira de contato é o
gem, os gestaltistas (Marx & Hillix, 1963/1973) des-
espaço limítrofe subjetivo onde os eventos psicológi-
tacaram quatro indicadores comportamentais: a tran-
cos acontecem.
sição da incapacidade para o domínio do problema, o
Segundo Ribeiro (1997), o contato real implica desempenho rápido e desembaraçado pela compre-
em que a pessoa sinta sua singularidade, identifican- ensão correta, a boa retenção e o imediatismo com
do-se como diferente do outro e percebendo-se úni- que a solução pode ser transferida para outras situa-
ca no universo; no aqui e agora experiencie o tempo ções semelhantes. s.
e o espaço em relação a si mesma, perceba-se intei-
A obra de Wertheimer (Schultz & Schultz,
ra, com consciência de sua própria realidade e da do
1992) aplica os princípios gestaltistas da aprendiza-
outro, o que proporciona a awareness1 .
gem ao pensamento criativo em seres humanos, afir-
O Ciclo do Contato proposto por Ribeiro (1997, mando que o pensamento se processa em termos de
Figura 1), representado por Bloqueios, fornece uma todos e que as resoluções só são possíveis por meio
visão das diversas possibilidades de contato realizadas da apreensão dessa totalidade. Nesse sentido, no que
pelo indivíduo; completa-se um ciclo seguindo os pas- tange à prática docente, “não somente o aprendiz
sos, que mostram formas de relacionamento com o considera a situação como um todo, mas o professor
meio: fluidez/fixação, sensação/dessensibilização, cons- deve lhe apresentar a situação como um todo” (p.314).
ciência/deflexão, mobilização/introjeção, ação/projeção,
Nesse processo, os aspectos motivacionais e
interação/proflexão, contato final/retroflexão, satisfa-
emocionais do indivíduo apontarão as figuras para as
ção/egotismo e retirada/confluência.
quais se direcionarão a atenção, a percepção e a
memória relevantes à aprendizagem e desenvolvimen-
to intelectual. Dessa forma, diante da totalidade que
compreende o ambiente social, físico e psicológico
do contexto escolar - tido como uma unidade total de
significações -, é o mundo interior da pessoa, sua per-
cepção e o significado existencial do ambiente que
determinarão a figura e o fundo no fenômeno. Em ou-
tras palavras, é o aluno que, de acordo com as suas
necessidades e interesses singulares (sua subjetivida-
de), identificará e direcionará sua percepção para as-
pectos específicos do que lhe é oferecido pela escola.
Uma vez que o processo de ensino e aprendi-
zagem se inicia nas possibilidades e necessidades dos
alunos, pode-se verificar que, numa visão gestáltica,
1
O termo awareness, para os gestaltistas, significa a consciência
Figura 1. O “Ciclo do Contato” baseado no modelo da própria consciência, a consciência emocional do ato
apresentado por Ribeiro (1997) perceptivo.
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o processo de aprendizagem inclui uma configuração familiar ou social, orienta sua atenção para o campo
de elementos (figura-fundo) que constitui o objeto de sensorial e emocional, apresentando dificuldade em
conhecimento, em que a figura aprendida será inte- atender, no plano cognitivo, as demandas escolares.
grada à totalidade do indivíduo, interferindo na sua De igual forma, dificuldades no contato dentro do con-
configuração e modificando-a. Dessa forma, a apren- texto escolar tendem a representar figuras que con-
dizagem gera mudança porque reconfigura, reorga- correm com os conteúdos trabalhados em sala de aula.
niza; e a mudança gera aprendizagem porque abre Assim como as partes influenciam o todo, esse
um novo ciclo de onde emergem figuras em busca de conteúdo não-aprendido tende a influenciar o indiví-
significado. duo em seu funcionamento, podendo vir a interferir
A aprendizagem significativa fecha a gestalt, na sua relação com o objeto de conhecimento, com o
dá sentido à experiência e organiza harmonicamente meio ou mesmo as pessoas envolvidas no contexto.
o indivíduo em sua totalidade funcional; ela, seja mon- A forma de o aprendiz se relacionar com o não sa-
tada por disciplinas escolares ou oriunda da vida coti- ber pode se manifestar, então, por meio de uma re-
diana, promove a awareness por meio da integração cusa de contato, medo de errar, vergonha de se ex-
dos sistemas cognitivo, sensório e motor, cuja figura por, dentre outras relações que apontam uma
objeto de conhecimento passa a fazer parte da to- incompletude.
talidade indivíduo, retornando ao fundo e criando con- Ressalta-se, entretanto, que tais implicações
dições para novas figuras. representam uma forma de auto-regulação e de ajus-
Goldstein (1995) aponta que, nesse processo, tamento criativo do indivíduo às situações que se apre-
o material consciente que não é necessário em deter- sentam, mesmo que os mecanismos impliquem blo-
minada situação retorna ao fundo inconsciente de onde queios do contato, visto que ele cria e experimenta
emerge quando se torna apropriado em nova situa- seu próprio poder e limites enquanto busca como to-
ção. Assim, verifica-se que os conteúdos aprendidos talidade. Na aprendizagem, ele se apresenta como
em momentos anteriores tendem a emergir em uma agente de conhecimento na medida em que se mos-
nova solução de problemas, tornando-se figura a par- tra ativo no seu processo de reestruturação e re-sig-
tir da mobilização do fundo repleto de experiências já nificação do campo perceptual. A percepção do fe-
vividas e assimiladas. A aprendizagem refere-se, nes- nômeno aprendizagem como ciclo saudável e fluido
se caso, à aquisição de respostas por meio da de formação e fechamento de gestalten, torna-se o
introvisão (insight) resultante de uma súbita altera- foco e objetivo de estratégias educacionais e
ção no campo perceptual, enquanto a solução de pro- psicopedagógicas no contexto escolar.
blemas consiste na combinação de elementos já exis- A Gestaltpedagogia
tentes. Segundo Burow e Scherpp (1985), a
Uma gestalt aberta, entretanto, caracteriza Gestaltpedagogia representa “conceitos pedagógicos
uma energia não totalmente descarregada, que ne- que se orientam nas idéias teóricas e práticas da
cessita fluir mas não flui, ficando presa em pontos Gestalt-Terapia e da Gestaltpsicologia” (p.103), que
específicos da história do indivíduo. A figura que não visam possibilitar ao indivíduo o desenvolvimento
volta totalmente ao fundo passa a competir com as completo de suas capacidades e potencialidades.
atuais, fazendo com que ele não consiga vivenciar Besems (Burow & Scherpp, 1985) apresenta
plenamente o aqui e agora, uma vez que exige maior quatro objetivos amplos da Gestaltpedagogia: 1) a
investimento de energia no controle das possibilida- autoconscientização e ampliação das próprias possi-
des do que numa ação presente. O fenômeno do não- bilidades, dos modelos de comunicação e comporta-
aprender implica o não fechamento de uma gestalt mento frente aos outros e às coisas; 2) o discernimento
em formação, a não elaboração de uma situação que sobre o próprio funcionamento e as relações históri-
permanece inacabada, fixada, incompleta. cas e sociais dele nos contextos interpessoal e social;
Pode-se identificar tal movimento em um alu- 3) a ampliação das possibilidades de escolha do indi-
no que, vivenciando sérios problemas no contexto víduo em relação a si, aos outros e ao mundo; 4) a
Abordagem Gestáltica 153

criação de premissas a fim de racionalizar o harmonização dos fatores que interferem no seu pro-
discernimento da interdependência de funções e pos- cesso de aprendizagem. O diagnóstico psicope-
sibilitar a representação ativa de interesse. dagógico passa, então, a se assentar em diversos su-
Pode-se então verificar que a abordagem es- jeitos e sistemas inter-relacionados, como escola, pro-
sencial da Gestaltpedagogia é formulada partindo-se fessor, aluno, família (Figura 2).
das necessidades dos indivíduos, tentando desenca-
dear um processo de crescimento que tem como meta
a sua modificação e do meio. Segundo Burow e
Scherpp (1985), “o processo de ensino e aprendiza-
gem não começa na matéria, mas nas possibilidades
e necessidades dos alunos. Em outras palavras, aqui-
lo que se encontra no aluno é importante e ponto de
partida de todas as reflexões” (p.123).
O ensino gestalpedagógico implica criar sem-
pre novas situações e possibilidades que permitam
uma aprendizagem repleta de sentido por meio da
vivência e da experiência.
A partir de tais fundamentações, os autores Figura 2. Sistemas Envolvidos no Diagnóstico
abordam a realidade escolar, apresentando conside- Psicopedagógico
rações acerca das práticas pedagógicas que tendem
A concepção de aluno apresentada pelos au-
a desconsiderar e dificultar o processo de aprendiza-
tores é construtiva: a criança elabora o seu conheci-
gem e desenvolvimento da criança e oferecem pro-
mento a partir da atribuição de um sentido próprio e
postas de reformulações consideradas necessárias ao
genuíno das situações que vive e com as quais apren-
alcance dos objetivos expostos.
de. As capacidades de autonomia, reflexão e interação
A Psicopedagogia constante com os outros exercem papel primordial
A Psicopedagogia é área interdisciplinar fun- no processo de crescimento da criança.
damentada em conteúdos psicológicos e pedagógi- Nessa perspectiva, todos os que se encontram
cos, bem como em contribuições da fonoaudiologia, envolvidos no processo educativo participam, de for-
lingüística, neurologia, dentre outros campos especí- ma privilegiada, do processo de humanização do su-
ficos de conhecimento (Bossa, 2000). Sua ação visa jeito: “o momento em que ele pode apropriar-se do
melhor compreensão do processo de aprendizagem conhecimento e fazer dele um instrumento de desen-
humana e suas repercussões no desenvolvimento do volvimento de suas potencialidades” (Meira, 2000,
indivíduo, identificando sua apropriação do conheci- p.67). A autora afirma que a educação, enquanto pro-
mento, evolução e fatores interferentes, propiciando cesso social e individual, representa uma das condi-
o reconhecimento, tratamento e prevenção das alte- ções fundamentais para que o homem se constitua
rações da aprendizagem que deles decorrem. como ser humanizado e humanizador. Ela ressalta a
Segundo Bossa (2000), o termo aprendizagem, necessidade de se compreender a questão do desem-
com o qual trabalha a Psicopedagogia, “remete a uma penho escolar contextualizando-o no âmbito de um
visão de homem como sujeito ativo num processo de processo maior, propondo o encontro entre o sujeito e
interação com o meio físico e social” (p.75), em cujo a educação, e não somente no indivíduo, tampouco o
processo interferem seu equipamento biológico, con- processo educacional. Apontando uma nova compre-
dições afetivo-emocionais e intelectuais. ensão das relações entre os processos psicológicos e
Bassedas e cols. (1996) ressaltam a importân- pedagógicos, configura-se e considera-se, dessa for-
cia de se encarar o aluno em sua totalidade, conside- ma, o papel da Educação na construção da subjetivi-
rando os diversos sistemas nos quais está inserido, dade humana e o papel da subjetividade na constru-
especialmente família e escola, visando ção do processo educacional.
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Weiss (1997) afirma que, na prática a questões relacionadas à saúde, classe econômica,
diagnóstica, é necessário levar em consideração a estrutura familiar e contexto social, afirmando que o
interligação de alguns aspectos relacionados à abor- sistema educacional é perfeito desde que as crianças
dagem do fracasso escolar, visto eles auxiliarem na “vivam uma vida artificial, sem nenhum tipo de pro-
construção de uma visão gestáltica da pluricausalidade blemas, enfim, que provavelmente não precisariam
do fenômeno, envolvendo aspectos orgânicos, da escola para aprender. Para a criança concreta,
cognitivos, emocionais, sociais e pedagógicos. Tal que vive neste mundo real, os professores parecem
mapeamento da interligação possibilita a compreen- considerar difícil, senão impossível, ensinar” (p.26).
são dos mecanismos utilizados pela criança nas for- Tal constatação é igualmente evidenciada na
mas de se relacionar, o que permite uma intervenção pesquisa de Patto (1999) que, apresentando discur-
promotora do desenvolvimento integral da criança, sos e ações que efetivam medidas educacionais con-
evitando transformar a investigação diagnóstica em traditórias e, em alguns aspectos, contraproducentes,
uma justaposição de dados ou em mera soma de re- ressalta o preconceito que permeia o campo social e
sultados de testes e provas. educacional, apresentando as “características psico-
Referindo-se à relação entre diagnóstico e tra- lógicas dos integrantes das classes baixas” (p.149)
tamento, Weiss (1997) ainda afirma que não há fron- cujas crianças são percebidas como “inevitavelmen-
teiras formais entre ambos e que todo o processo te rebeldes, malcriadas, carentes de afeto, apáticas,
diagnóstico é, por si, interventivo na dinâmica pessoal ladras, doentes, sujas e famintas” (p.150), oriundas
e familiar. de famílias “desestruturadas, ignorantes, desinteres-
O trabalho psicopedagógico, seja em âmbito clí- sadas” (idem). Além de trazerem uma visão
nico ou institucional, visa, portanto, promover uma com- generalizante, pouco fundamentada, tais característi-
cas são vistas como incentivo aos preconceitos já
preensão integral da criança e do contexto escolar em
existentes.
que está inserida, proporcionando o desenvolvimento
Machado (2000) afirma que o próprio aluno
individual e coletivo sob uma perspectiva interventiva
pode aparecer, sintomaticamente, como o mobilizador
e preventiva, valorizando o respeito à diversidade, pas-
de um conflito de ambigüidades escolares já existen-
sando a atuar como força impeditiva da propagação
tes previamente, tornando-se o sinalizador de que algo
dos preconceitos do cotidiano escolar.
incoerente se apresenta em um sistema maior e que
Reflexão psicopedagógica sobre as queixas necessita de reparos. Weiss (1992) ressalta que
escolares “quanto mais a escola fizer a sua auto-avaliação,
As queixas escolares pedem significados ao quanto menos mantiver estereótipos e ambigüidades,
contexto escolar, identificação das diferentes causas mais ela livrará o aluno de ser o responsável pelo
a elas vinculadas, o que tornou evidente a busca de fracasso em sua aprendizagem” (p.104). Ele, muitas
explicações para a justificativa do fracasso escolar. vezes, deixa de ser o problema para indicar um pro-
Concebendo-se as queixas como dificuldades de blema existente, o que muda o objeto de intervenção.
aprendizagem, problemas de comportamento/relaci- Segundo Souza (2000), o objetivo da Psicolo-
onamento, o processo de culpabilização do aluno, pela gia Escolar e da Psicopedagogia consiste em desve-
via da patologização dos problemas escolares, tem se lar os processos de escolarização da criança que tem
evidenciado pela acomodação de idéias e visão na apatia uma forma de comunicação, ou na
predeterminista do fracasso escolar, minimizando-se agressividade a sua maneira de se defender de práti-
os investimentos pedagógicos face às pré-idéias acer- cas pedagógicas produzidas em uma escola cujas re-
ca das “potencialidades” dos alunos. lações são atravessadas por preconceitos e estereó-
Collares e Moyses (1996), em suas pesquisas, tipos. A intervenção surge no sentido de possibilitar o
apresentam as opiniões de diretores e professores pensar e permitir a mudança da relação produtora de
sobre o cotidiano escolar e causas do fracasso. O repetência e de práticas que estigmatizam, excluem,
discurso desses atores associa a não-aprendizagem oprimem e rotulam.
Abordagem Gestáltica 155

A concepção teórica que permite analisar o indicadores importantes quanto à aproximação, aces-
processo de escolarização (e não problemas de sibilidade e permeabilidade das fronteiras, apontando
aprendizagem) desloca o eixo de análise do indiví- as áreas em que a ação interventiva deve se fazer
duo para a escola e rede de relações (institucionais, presente.
históricas, psicológicas, pedagógicas) que constituem Avaliação e Intervenção Psicopedagógicas sob
o dia-a-dia escolar. a Ótica Gestáltica
Neves e Almeida (2003), ressaltando a neces- O processo de avaliação e intervenção envol-
sidade de um desempenho efetivo na transformação ve uma concepção de desenvolvimento e das formas
da realidade escolar, propõem um modelo de proce- com que o indivíduo se apresenta diante do meio. No
dimento de avaliação de intervenção das queixas por âmbito da Psicopedagogia, busca-se identificar como
meio de encontros e escutas dirigidos, primeiramen- ele se relaciona com seu próprio processo de apren-
te, ao corpo escolar, formulador da demanda e dizagem e objetos de conhecimento, visando a uma
articulador dos discursos que permitirão uma intervenção efetiva.
conscientização dos processos subjacentes à queixa Para tanto, Meira (2000) aponta a importância
e o apontamento de novas formas de atuação promo- de se tomar como objeto de estudo e atuação o en-
toras de ações críticas e reflexivas rumo ao sucesso contro entre o sujeito humano e a educação, ou, em
da instituição escolar. Somente após a compreensão termos gestálticos, a relação que se estabelece na
e re-significação dos discursos passa-se aos níveis fronteira de contato entre o aluno e o meio escolar.
seguintes, que podem incluir o encontro com a famí- Na ótica gestáltica, a maioria das crianças ne-
lia e a própria criança, caso seja necessário. cessitadas de ajuda possuem alguma dificuldade em
Machado (2000) ainda aponta que a queixa suas funções de contato e tendem a adotar algum
escolar é constituída em uma história coletiva e avaliá- tipo de comportamento que lhes serve de defesa, seja
la implica em buscar, o quanto possível, a alteração através da timidez, do medo, do silêncio, da
dessa produção, afetando fenômenos em que ela se agressividade, da hostilidade, da hiperatividade, den-
viabiliza e redirecionando a história de aprendizagem. tre outros que constituem uma forma de ajustamen-
Considerar a diversidade do universo escolar to criativo. Conforme apresenta Oaklander (1980),
implica, portanto, em desconsiderar a pretensa oni- o trabalho junto à criança consiste em:
potência da escola de homogeneizar os indivíduos em “ construir o senso de eu da criança, para for-
seus aspectos cognitivos, afetivos e sociais. talecer as funções de contato e renovar o seu
A Abordagem Gestáltica e a Psicopedagogia: próprio contato com seus sentidos, sentimen-
tos e uso do intelecto. A sua consciência é
uma interface
redirigida para a percepção sadia de suas
A abordagem gestáltica, ressaltando a indivi- próprias funções de contato, seu próprio or-
dualidade do sujeito e sua forma peculiar de perceber ganismo, e desta maneira, em direção a com-
e apreender o mundo circundante, valoriza seu con- portamentos mais satisfatórios.” (p.75)
tato com o meio e o próprio objeto de conhecimento,
identificando como esse irá integrar sua totalidade por Pode-se verificar, dessa forma, que, na visão
meio da aprendizagem. A Psicopedagogia, preocu- gestáltica, o trabalho psicopedagógico visa à amplia-
pando-se com a forma de apropriação do conheci- ção da consciência, auxiliando a criança a redescobrir
mento e buscando compreender o ‘sujeito aprenden- seu próprio ser, habilidades e potencialidades.
do’, focaliza o processo de construção e não somen- Observa-se que um desenvolvimento saudá-
te as estruturas adquiridas. Ambas enfatizam, ainda, vel inclui fluidez dos processos que se apresentam no
a compreensão dos diferentes campos nos quais o Ciclo de Contato, adotando-se ora um, ora outro, de-
sujeito está inserido, sendo os principais (no contexto pendendo dos contextos e objetos que se apresen-
psicopedagógico) a escola e a família. Conforme afir- tam. As dificuldades surgem quando o indivíduo ten-
ma a Teoria do Campo de Kurt Lewin, a forma como de a se fixar em um mecanismo, ou mesmo atribuir-
tais campos interagem e se influenciam apresenta lhe ênfase que o impeça de perceber e lidar com o
156 Miriam Lúcia Herrera Masotti Dusi

mundo tal como se apresenta. Esse processo pode alguma justificativa para explicar sua não-aprendiza-
ser evidenciado por meio de mecanismos de fixação gem. Esse movimento aponta causas passadas e
(sentimento de incapacidade de explorar situações desconsidera o aqui e agora como o momento privile-
novas), dessensibilização (frieza no contato, sem in- giado de mudança. As informações históricas mos-
teresse por sensações novas), deflexão (evitação de tram-se importantes, porém não podem assumir o
contato), introjeção (diminuição de si diante da acei- ponto de partida do diagnóstico sob pena de incorrer
tação do outro), projeção (atribuição ao outro da res- em interpretações causais e deterministas do proces-
ponsabilidade por suas dificuldades), proflexão (ma- so. Conforme aponta Ribeiro (1985), “o passado e o
nipulação do outro para satisfação de suas necessi- corpo estão presentes, aqui e agora, na pessoa como
dades), retroflexão (ação voltada a si quando deveria um todo, e isto basta para entendê-la e para que se
ser dirigida a outrem), egotismo (colocação de si como possa lidar com ela criativamente” (p.81).
centro, exercendo controle rígido e excessivo no mun- Sendo assim, a criatividade, mais do que um
do) ou confluência (indiferenciação do que é do indi- objetivo a ser alcançado com a própria criança, pas-
víduo e do meio). A fixação em qualquer das fases do sa a ser concebida como um recurso necessário
ciclo – seja correspondente aos bloqueios do contato, ao profissional, que se utiliza do fenômeno, tal qual
aos relacionados fatores de cura - impede a sua flui- ele se apresenta, como ponto de partida das inter-
dez e pode representar dificuldade no processo do venções, que deve sob a ótica gestáltica conside-
aprender. rar, como foco de excelência, a liberdade para cri-
A pessoa, seja ela criança, adolescente ou adul- ar, oferecendo à criança as condições necessárias
ta, tende a se defender de situações de tensão e a para responder aos seus próprios questionamentos,
evitar a consciência de certas emoções ou contato permitindo-lhe conscientizar-se do seu potencial cri-
com a fonte geradora de ansiedade. Para tal, pode ativo.
adotar posturas de retraimento, negação, acusação, Nessa perspectiva, os objetivos apresentados
dentre outras que sinalizam a fixação em determina- pela Gestaltpedagogia enunciam os aspectos pelos
da fase. O processo de conscientização do indivíduo quais se deve investir em um processo de interven-
acerca de seu movimento no Ciclo do Contato em ção: auto-encontro, auto-realização/auto-satisfação,
relação a si, ao outro, ao mundo e ao objeto de co- recuperação de partes perdidas e reprimidas do alu-
nhecimento constitui o ponto de partida de uma inter- no, crescimento pessoal, desenvolvimento do poten-
venção, iniciando-se rumo à fluidez e ao aprendiza- cial humano como um todo, auto-responsabilidade,
do. Dessa forma, o modelo de Ciclo do Contato apli- estímulo à consciência, concentração sobre o aqui e
cado à prática escolar permite a identificação de uma agora, co-participação na elaboração do modelo es-
dificuldade e, de estratégias que visam o processo de colar.
mudança, seja de um aluno, de professor, de sala de
Nesse processo, algumas considerações podem
aula ou da própria instituição escolar.
ser apresentadas para se efetivar uma prática
Verifica-se, assim, conforme apontam interventiva eficaz às demandas psicopedagógicas.
Bassedas e cols. (1996), que o processo de avaliação Mister se faz considerar a unidade significativa alu-
e intervenção psicopedagógica deve incluir uma com- no-escola-família-professor como totalidade sobre a
preensão global da forma de aprender do indivíduo e qual a intervenção dar-se-á, observando-se a forma
dos desvios que nele ocorrem, buscando-se organi- promotora ou dificultadora de interação dos campos,
zar os dados de sua vida biológica, intrapsíquica, so- ressaltando-se a intercomunicação e inter-responsa-
cial, familiar e escolar de forma coerente, integrando bilidade das partes. Outros atores sociais podem par-
as partes em um todo significativo, tal como enuncia- ticipar do processo, configurando-se uma equipe
do pela Psicologia da Gestalt. multiprofissional composta por psicólogos, assisten-
Outra interface refere-se à questão da tes sociais, atores das áreas de educação e saúde,
temporalidade, tendendo-se, no diagnóstico, a se “es- que se apresentem relevantes para melhor compre-
cavar” no passado ou no desenvolvimento da criança ensão da demanda e ação conjunta.
Abordagem Gestáltica 157

Outro aspecto a ser destacado refere-se à ne- momento, um processo em que o corpo escolar colo-
cessidade de se considerar a unicidade do aprendiz e ca em evidência a figura da dificuldade e do proble-
a forma singular com que atua em seus campos, exi- ma diante do fundo.
gindo dos atores (que com ele compartilham o mo- Conforme aponta Machado (2000), tal aluno
mento de aprendizado) o olhar cuidadoso e respeito- real, entretanto, “incomoda” porque aponta os aspec-
so às diferenças. tos necessários de mudança, sinalizando, sintomati-
O aluno com queixa escolar representa uma camente, um conflito de ambigüidades existentes no
figura-sintoma denunciando um fundo disfuncional e contexto escolar. Conforme apresenta Weiss (1997):
desorganizado. Organizar as partes, de forma a pro- “Triste é a escola que não acompanha o mun-
porcionar-lhes o sentido da totalidade, é a atribuição do de hoje, ignorando aquilo que seu aluno
central dos que com o aluno caminham. vivencia fora dela. Transforma aquele que in-
Ressaltando a visão humanista que permeia a teligentemente a questiona e que saudavelmen-
concepção gestáltica, e tendo em vista que “o sujeito te se recusa a buscar um conhecimento parado
é o melhor intérprete da sua própria realidade” (Ri- no tempo num ‘portador de problema de apren-
dizagem’.” (p.18)
beiro, 1985, p.59), busca-se lidar com o potencial cri-
ativo humano, levando o homem a se criar e experi- Analisando tal situação sob a perspectiva
mentar seu próprio poder e limites, transformando a gestáltica, enquanto a criança percorre seu ciclo pe-
si e ao mundo e buscando-se como totalidade. los mecanismos de consciência, mobilização e ação,
Preconceitos do Cotidiano Escolar segundo o a instituição escolar assume um mecanismo de
Ciclo do Contato deflexão, ou seja, um processo por meio do qual evi-
Outro aspecto relevante refere-se à forma como ta o contato, realizando-o de maneira vaga e geral
é concebida a queixa escolar, levando aos citados pre- (Ribeiro, 1997). Como fator de cura institucional, há
conceitos do cotidiano escolar, que enfocam o fracas- a consciência, por meio da qual a escola dará conta
so escolar como conseqüência de questões relaciona- da realidade de maneira clara e reflexiva, atentando
das à saúde, classe econômica, estrutura familiar e para os acontecimentos e percebendo-se em relacio-
contexto social do aluno. Os preconceitos caracteri- namento recíproco com as pessoas e coisas. Como o
zam uma visão predeterminista e tendenciosa que im- corpo docente constitui e caracteriza a instituição, faz-
pede a observação do fenômeno tal como é. se necessário um processo coletivo de conscienti-
zação, apresentando as realidades e permitindo a des-
A Fenomenologia, sendo uma das filosofias de
coberta das capacidades docentes para lidar com as
base da Gestalt-terapia, constitui um método de con-
templação do fenômeno por meio da abertura à experi- diferenças.
ência para a apreensão do mundo tal qual se apresenta, Um outro mecanismo que pode caracterizar
valorizando a relação calcada no aqui e agora. um Bloqueio de Contato Escolar é o da projeção,
Uma análise generalista e uma escuta e/ou olhar processo no qual a instituição atribui aos outros a res-
tendenciosos acabam por inferir um fenômeno ao ponsabilidade pelos seus fracassos, sinalizando a difi-
invés de observar o fenômeno. O desejo de negar o culdade de se reconhecer como responsável. O fator
fenômeno e atribuir causas padronizadas e previsí- de cura refere-se ao mecanismo de ação, o proces-
veis à dificuldade escolar apontam uma postura so em que a instituição assume a responsabilidade
acomodativa que visa, muitas vezes, mascarar um pelos seus próprios atos, identificando em si mesma
outro problema existente, seja ele de ordem pedagó- as razões de seus problemas e agindo em nome pró-
gica, didática, psicológica ou de adaptação ao con- prio na busca das soluções. Conforme afirma Patto
texto. Algumas escolas estruturam-se buscando tra- (1999):
balhar com um sujeito ideal, não estando preparadas “A projeção de características negativas no
para lidar com o real: “Diante da criança real, ela se outro é um mecanismo socialmente poderoso,
coloca como vítima... de uma clientela inadequada...” na medida em que justifica a opressão. Esta
(Collares & Moyses, 1996, p.181). Verifica-se, nesse atribuição, que não se dá aleatoreamente, mas
158 Miriam Lúcia Herrera Masotti Dusi

informada por preconceitos e estereótipos so- lógicas, respeito e responsabilidades sociais, conhe-
ciais, determina a maneira como o poder será cimentos cotidianos e científicos, controle e fluidez
exercido.” (p.218) das emoções, análise e síntese, enfim, por inúmeros
Outros mecanismos que compõem o Ciclo do conteúdos e formas que, independente da fase de de-
Contato, sejam eles da ordem do bloqueio ou da cura, senvolvimento em que o indivíduo se encontre, estão
permeiam a Instituição Escolar nos contatos que essa em constante reconfiguração, reconstrução.
estabelece com os diferentes campos, envolvendo o A abordagem gestáltica e a psicopedagogia
aluno, a família, o corpo docente e as demais institui- estabelecem, portanto, uma interface teórico-prática,
ções governamentais e sociais. Verifica-se, entretan- contribuindo para a ampliação das concepções que
to, que quaisquer bloqueios de contato tendem a atu- permeiam os fenômenos aprendizagem e desenvolvi-
ar como divulgadores e cristalizadores das pré-con- mento e para a re-estruturação de campos perceptuais
cepções que caracterizam as queixas existentes, ao cristalizadores do cotidiano escolar.
passo que os processos de fluidez, sensação, consci- Ambas representam partes de uma totalidade
ência, mobilização, ação e interação tendem a atuar
possível e válida à compreensão do processo de apren-
como fatores impeditivos da propagação dos precon-
dizagem e de intervenção escolar. Por serem distin-
ceitos do cotidiano escolar.
tas, podem se assumir como complementares, desde
Salienta-se, assim, a necessidade de uma re- que as fronteiras de seus campos mostrem-se per-
significação das queixas escolares por meio da consci- meáveis. Epistemologicamente, representam conhe-
ência escolar dos próprios processos. A observação cimentos construídos pelo processo de sucessão fi-
cautelosa desse Campo Holístico Relacional permitirá gura-fundo, rumo à construção de um novo olhar
uma intervenção adequada, ao se deixar de enfocar as
psicopedagógico de base gestáltica.
partes, passa-se a descobrir a coerência existente em
um grande e integrado todo em construção. Ambas referem-se a uma visão coletiva e in-
tegrada que objetiva o crescimento, e não mais a uma
Busca-se, dessa forma, caminhar de uma po-
fragmentada, dirigida à acomodação. Vinculam-se a
sição acomodativa de rotulação do fracasso, para uma
uma mudança de postura, de paradigma, para que
posição ativa-interventiva no sentido de promover, de
cada um possa tornar-se um instrumento propulsor
forma presente e responsável, a aprendizagem e o
desenvolvimento do indivíduo. do crescimento e desenvolvimento da criança, não só
como aluno, mas como ser humano.
Considerações Finais
Desde sua origem, o indivíduo inicia o seu pro-
cesso de desenvolvimento em busca de sua totalidade. Referências
Em seu caminho, passa por diferentes fases que ca- Antony, S. & Ribeiro, J. P. (2004). A Criança
racterizam as valências e figuras peculiares construídas Hiperativa: Uma Visão da Abordagem Gestáltica.
pelas interações entre os diferentes campos. Nesse Psicologia: Teoria e Pesquisa, v. 20, n. 2, 127-134.
processo, os ajustamentos criativos e as tendências à
Bassedas, E., Huguet, T., Marrodán, M., Oliván,
auto-regulação e auto-realização constituem aliados
M., Planas, M., Rossel, M., Sequer, M. & Villela, M.
importantes, que levam o indivíduo às buscas, encon-
(1996). Intervenção Educativa e Diagnóstico
tros, abertura e fechamento de gestalten, concomitante
Psicopedagógico. Porto Alegre: Artes Médicas.
ao conhecimento de si, do outro e do mundo.
O processo de aprender implica, por sua vez, Bossa, N. (2000). A Psicopedagogia no Bra-
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Abordagem Gestáltica 159

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