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l.

hofstetter

meu sÍtio, meu pedaqinho de felicidade.

perspectivas da pequena propriidade agrÍcola

(contracapa)
este livro tem como principal objetivo servir de orientação ao pequeno proprietário agrícola, possuidor de modesta área de terra, sem saber
como aproveitá-la, vê-se muitas vezes compelido a desfazer-se da mesma por preço aviltado.
a parte técnica desenvolvida com extrema habilidade pelo autor, que é sitiante, compreensível a qualquer pessoa, aborda desde a criação
de pequenos e grandes animais, até a produção diversificada, de uma horta, de um pomar, de uma apicultura rústica, de trigo, milho, feijão,
batata, mandioca, centeio, aveia, amendoim, colza, banana, aproveitamento do leite, o uso de ferramentas, pequena mecanização,
conservação dos instrumentos de trabalho, cuidados na preservação do solo e sugestiona até a fabricação de objetos diversos bem como
pequena olaria, em lugar propício.
a administração com visão econômica, de extrema simplicidade busca o resultado financeiro, controlada por lançamentos contábeis
muito práticos - a racionalização do trabalho, o trato com os empregados e até a parte de cozinha e o uso de remédios caseiros.
as construções rurais necessárias e funcionais de extrema utilidade na propriedade, analisando-se inclusive a viabilidade da construção
de um biodigestor, do uso do gasogênio para conjuntos geradores, da produção de álcool em aparato simples.
e sem dúvida o ponto principal deste livro é a proposta do autor para uma filosofia de viver, fugindo da vida urbana, nem sempre sau-
dável para a mente e para o corpo.
ao decidirmos editar este trabalho, o fazemos com alegria, pois no mesmo encontramos o objetivo principal que norteia nossa
organização - a pequena empresa agrícola.
o editor

instituto campineiro de ensino agricola

perspectivas da pequena propriedade agricola

campinas — são paulo — brasil - caixa postal 1148

cip-brasil. catalogação-na-publicacão
câmara brasileira do livro, sp.
hofstetter, l.
h655p - perspectivas da pequena propriedade agrícola / (l. hofstetter).
campinas: instituto campineiro de ensino agrícola, 1982.

acima do titulo: instituto campineiro de ensino agrícola.

1. agricultura 2. pequenas propriedades agrícolas 3. vida no campo i. instituto campineiro de ensino agrícola.
ii. titulo.

17. e 18, cdd-630


17. -630.11
18. -630.1
17 e 18. -631
82-1567

Índices para catálogos sistemáticos:


1. agricultura 630 (17. e 18.)
2. pequenas propriedades agrícolas, agricultura 631 (17. e i8.).
3. prática agrícola 630 (17 e 18.).
4. vida no campo: agricultura 630.11 (17.).
630.1 (i8.)

direitos reservados ao
instituto campineiro de ensino agrÍcola
proibida reprodução
sujeito às penas da lei nº. 5.988. de 14 de dezembro de 1973.
reimpressão 1989

perspectivas da pequena
propriedade agrÍcola

l. hofstetter - sitiante

© 1982 copyright

equipe de trabalho desta obra

autoria — l. hofstetter planejamento editorial — gervásio s. cavalcanti


revisÃo - maria amélia marques perna firme
lustraÇÕes - maria izabel martins andrade carnio, angelina maria wiziaek takahashi.
capa — paulo felippe & sara zacharias
impresso no brasil / printed in brazil
depósito legal na biblioteca nacional, conforme decreto nº. 825 de 20 de dezembro de 1907.

digitalização gratuita – prof. dr. sylas fernandes maciel – departamento de oftalmologia e otorrinolaringologia da faculdade de medicina da
universidade de são paulo – para ser lido por deficientes visuais mediante software de voz ou ampliadores de tela.

nota explicativa

o titulo escolhido inicialmente para este livro era: “perspectivas do homem no sítio chamado terra”, com a respectiva capa ilustrada.
mas para excluir qualquer possível dúvida de plágio parcial desta capa com obra de outra autoria, o seu título foi mudado para o atual:
"perspectivas da pequena propriedade agrícola” porém, em vista do grande interesse da descrição explicativa da mencionada capa ilustrada,
não podemos deixar de incluir esta neste lugar.

declaraÇÃo importante do autor

ao escrever a presente obra, eu não tive nenhum conhecimento de temas parecidos publicados, nem da apresentação destes em livros.
uma analogia entre temas abordados, seria de se considerar como mera coincidência, resultante das condições existenciais atuais, e porque
não admitir, como sendo até parcialmente conseqüente de intuição telepática inconsciente.
agradeço a iodos, da editora e da gráfica, pela colaboração para a publicação desta obra.

descriÇÃo explicativa da capa do livro

considerando-se os diversos costumes, modos de vida e os diversos sistemas legais vigentes nas diversas nações do mundo, constata-se
o fato muito interessante de que grande parte destes permanece assentada em modos da vida dos tempos antigos, durante os quais a
agricultura e o pastoreio eram a base de existência da maioria das etnias, que devagar foram juntando-se em grupos maiores para formar as
nações.
Às vezes encontram-se imposições um tanto esquisitas, em conseqüência da dominação passageira ou prolongada por determinados
povos conquistadores, submetendo-se a eles a grande maioria dos habitantes de regiões imensas, na procura da sua quase que única possível
sobrevivência, no passado.
e os descendentes destes povos dominados, também se submeteram às leis e costumes impostos, procurando a convivência pacífica
entre si e com as etnias vizinhas. pode-se constatar pela história de que relativamente poucos povos de vida retirada em regiões montanhosas
ou das selvas, quase que impenetráveis para grandes exércitos conseguiram manter-se autônomos, não chamando muito a atenção dos
conquistadores, por não possuírem riquezas ponderáveis, nem jovens de índole de fácil submissão.
pela mistura dos diversos descendentes, tanto dos povos conquistadores como dos povos dominados, chegou-se à formação de nações às
vezes com etnias de grande disparidade racial e ideológica, parecendo-se tais nações a uma equação fracionária, na qual o produto dos
extremos nunca deve superar o produto dos médios.
para melhor se conscientizar deste fato, pode-se ilustrar uma equação ou as diversas expressões possíveis de uma equação por uma
balança com os seus pratos em equilíbrio: por ex.: (figura de duas balanças em equilíbrio).
com expressão numérica dá para entender melhor esta comparação, para o pessoal alheio à álgebra.
por exemplo: a=3 b=4; c=6 d=8. 3/4 = 6/8 = 0,75 = 0,75.
o importante é de se manter sempre o equilíbrio da balança, vigiando-se a distribuição dos pesos nos seus pratos.
para os menos acostumados no malabarismo matemático, é suficiente se lembrar, de que em uma equação fracionária, por exemplo: a/b
= c/d, são chamados de termos extremos, os mais afastados entre si na denominação enunciada, quer dizer a e d, enquanto que b e c são
chamados de termos médios.
muito interessante é de fato a constatação de que o produto dos extremos é igual ao produto dos médios: a x d = b x c.
e não é menos significativo o fato do quociente do produto dos extremos pelo produto dos médios ser igual a um, a unidade. axd/bxc =
1, ou seja, 0,75/0,75=1, ou também 24/24=1.
será que esta formulação não é também válida no comportamento das diversas facções de uma nação ou de um povo? isto significaria
que dentro de uma nação o progresso, a união, só são possíveis quando existir o equilíbrio nos diversos planos das suas etnias, para manter-
se a unidade entre os seus extremos e os seus médios (moderados). querer dar mais peso em um prato da balança, sem dar o equivalente no
outro, seria muito arriscado, como é muito arriscado de se expressar qualquer equação existente em forma muito complicada que poderia
chegar a ser até irreal e quando uma balança começa a oscilar pelo desequilíbrio dos pesos nos seus pratos, é necessário se aguardar um bom
tempo, até ela voltar à estabilidade relativa; se não tiver freio econômico eficiente para amortecer as oscilações.
quando ocorre o descontrole excessivo dos seus pesos, pode surgir o caso de um prato da balança chegar a tocar no seu apoio da base, o
que permite carregar os pesos adicionais erradamente, (se não propositalmente), no prato que se encontra no apoio, deixando-se assim em
situação crítica os pesos do outro prato que foi levado pelos ares.

(figura da balança em total desequilíbrio e respectiva representação numérica).

o quociente do produto dos (demais pesados extremos), pelo produto dos moderados não dá mais a unidade.
isto é o caso típico, quando os extremos, às vezes em pronunciada minoria, alcançam peso excessivo em relação ao peso dos moderados
em conseqüência do desinteresse ou da indiferença destes últimos!
casualidade simbólica do destino ou conseqüência lógica no comportamento das etnias ou das facções dentro de uma nação?
as discrepâncias podem chegar a provocar até a queda da balança, porque neste caso, nem equação, não existe mais e tratar de funções
às vezes imaginárias, exige conhecimentos mais aprimorados na procura das soluções. quem duvidar das analogias indicadas, pode constatar
as conseqüências resultantes quando uma nação quer procurar o seu bem estar ao dar proteção e ajuda, dizemos, só para a sua indústria,
esquecendo-se do bem estar da gente das suas lavouras, o que dá na eliminação de grande parte de possíveis compradores dos seus produtos
industrializados.
de fato, o bem estar geral de uma nação e o seu progresso contínuo, só são possíveis ao vigiar-se muito bem o equilíbrio dos valores
reais existentes, baseados não só nas suas riquezas materiais, mas também nas riquezas conseguidas pelo seu poder de trabalho criativo; quer
dizer que não adianta muito a uma nação, quando alguns dos seus cidadãos podem dormir em cima de sacos de ouro e diamantes, enquanto
que a maioria dos demais cidadãos deve levar água rio abaixo, só para não ficarem desocupados. em outras palavras: não adianta querer
produzir componentes supérfluos ou pouco comerciáveis, ou gêneros alimentícios em regiões muito distantes dos centros consumidores,
porque o seu transporte encarece em demasia o custo final destes.
mais razoável é a procura de se distribuir melhor os centros populacionais consumidores em lugares de possível futuro para as
indústrias, se possível, bem vizinhas de determinadas regiões, com terra de comprovada fertilidade para almejar uma produção agrícola
rentável e o seu escoamento a custo módico, o que permite ao pessoal da lavoura lucrar o suficiente, para poder comprar boa parte dos
produtos elaborados pelas indústrias.
analisando-se ainda melhor, as comparações possíveis das situações reais com as equações matemáticas, pode-se constatar que
determinadas nações chegaram a guardar ou a resguardar a sua unidade, só após dilapidação impensada e até após a destruição vingativa dos
bens dos seus cidadãos infelizmente divididos em grupos opostos por ideologias ou pelas dificuldades regionais para se entender. e não só os
bens materiais se foram, mas quantas vidas foram sacrificadas, por exemplo, a de um lavoisier, que foi morto, só porque o povo julgava um
cientista como sendo inútil, na época da grande revolução francesa. a expressão característica ao se reencontrar a unidade quase que no
limite da miséria geral é mesmo: (até 0/0=1).
contraposto a este fato, é interessante de se constatar como algumas etnias que permaneceram bem tímidas, ainda que sem recursos nem
bens materiais, chegaram à considerações quase que infinitas, o que se pode ilustrar pela expressão típica: (1/0= infinito), quer dizer que o
quociente da unidade pelo zero chega ao valor infinito, enquanto que o quociente inverso: (0/1=0), sempre restará sem valor absoluto, quer
dizer, igual a zero mesmo.
e na continuação destas comparações, não pode ser esquecido o fato de existirem até os números irracionais, chamados também de
imaginários, que não apresentam nenhuma alíquota comum com a unidade. encontra-se, todavia, até um denominador comum real, para eles
e para os números reais, incorporando-se os dois nos termos do numerador.
detalhamos um pouco, que a respectiva imagem é demais significativa.
multiplicando-se a unidade positiva, com a unidade negativa. teremos sempre um termo negativo: (+1) x (-l)= -1, enquanto que a
multiplicação tanto de duas unidades positivas, como de duas unidades negativas, darão sempre unidades positivas, quer dizer sempre reais:
(+1) x (+1) =+1; (-1) x (-1) = +1 (será que este fato encontra-se também nas leis de hereditariedade, no plano psíquico?).
agora, querer seguir o caminho inverso, que pode trazer os problemas a exemplo do fato de não ser tão fácil tirar a raiz quadrada de um
número negativo, porque se a raiz da unidade positiva é um, a raiz da unidade negativa não se pode extrair, ficando, assim, no seu
enunciado: (raiz quadrada de -1) e sendo denominado por i ou j na matemática.
parece existir uma porta fechada para números marcados com este signo, que sempre permanece nas respectivas expressões, por ex.:
(segue uma série de exemplos).
o caminho para lidar com estes números marcados é a sua integração nos outros termos, a exemplo do que se faz com uma equação com
número imaginário no denominador, por exemplo: a+b/c+jd.
para tornar o denominador real, não se pode simplesmente eliminar o jota, porque o valor desta equação fracionária não teria mais o seu
sentido original: É necessário multiplicar o numerador e o denominador com a expressão do denominador, mas com a sua parte imaginária
na forma oposta: a+b/c+jd x c-jd/c-jd = ac+bc-jad- jnd/a2+jcd-jcd+d2
encurtando-se assim a expressão para: ac + bc - j (ad + bd) / a2 + d2

quantas vezes a unidade de uma nação chega a ser posta em dúvida, pelo fato de não saber encontrar o denominador comum até com
“números irracionais e bem imaginários”,, mas cujas idéias podem chegar a serem proveitosas para o progresso geral, porque até críticas
bem intencionadas são de grande proveito, quando se sabe separar as expressões reais das imaginárias, a exemplo do que se faz
matematicamente para a expressão anterior, deixando-se cada termo com o denominador comum real: (ac + bc) /c2+d2; -j(ad+bd) /c2+d2
mas nunca se deve confiar nos termos enunciados, sem verificar se a fórmula é correta e aplicável para encontrar-se a solução acertada,
tanto na matemática, como para os problemas sociais, econômicos etc., porque neste mundo a ação sempre chama a reação: é a lei da
natureza e operar com números extremos é muito interessante e pode ser de grande proveito geral, desde que se disponha do correspondente
número de moderados. para manter-se o equilíbrio da balança, avaliando-se muito bem antecipadamente as prováveis conseqüências
resultantes da formulação das equações em todos os seus termos possíveis, evitando-se deste modo, o quanto puder, a introdução de maior
número de desconhecidos ou a sua presença excessiva nos diversos termos das equações mantendo-se estas. em sua forma a mais
simplificada que possível.
de fato, os povos modestos compostos na sua maioria por pessoas que vivem no campo, ainda que seja na base de uma agricultura quase
que rudimentar, não chegam ao ponto de dever enfrentar os graves problemas, como ocorre nas nações muito industrializadas, cujos
cidadãos várias vezes, perdem até a iniciativa pessoal, esperando tudo do “papai-estado” que ainda chegando a fazer quase que o impossível,
infelizmente nunca vai chegar ao ponto de poder fazer milagres, isto em qualquer lugar e continente deste mundo, porque a bolsa do tesouro
do “papai-estado” é a própria bolsa do povo, que também nos tempos modernos, muitas vezes se esquece, que após de ter tido sete vacas
gordas, pode ocorrer, de dever se contentar com muitas vacas bem magras, porque até o capim, vai se emprestando dos vizinhos, quando
tiver ainda vizinhos em condições de poder ajudar.
em especial, em tempo de guerra com os conseqüentes racionamentos, quando não existem mais nem vacas magras suficientes para
poder tirar de algumas destas ao menos o couro para fabricar calçado de qualidade duvidosa, também em tempos de crise econômica,
quando a venda destes últimos se torna difícil pela falta de possíveis compradores, devido à falta de dinheiro disponível, é que o pessoal se
lembra da utilidade do simples e modesto tamanco para proteger os pés do frio, da umidade e da sujeira.
então, pode ocorrer o caso esquisito de um par de tamancos recebido de um amigo, tornar-se presente valioso, enquanto que em tempo
de fartura, o coitado do tamanco permanece ignorado, quase ao ponto do mendigo da esquina da rua, chegar a rejeitá-lo até com desprezo,
ele que foi e será sempre muito útil e bem melhor para a saúde do homem, do que numerosos calçados modernos de plástico, que impedem a
transpiração natural dos pés, sendo estes últimos muitas vezes, hoje em dia, os únicos componentes humanos a permanecerem ligados ainda
com a mamãezinha generosa que é a terra, na qual muitos pisam até com desrespeito, não querendo saber e nem se lembrar do fato deles
próprios serem compostos também dos elementos desta, como todos os seres vivos dos diversos reinos.
ocorre que muitos destes seres vivos são ameaçados de extinção total, deixando em aberto a grande pergunta relativa às “perspectivas
do homem”, que em geral ignora as conseqüências da poluição resultante do seu progresso, poluição tão grande, que origina despesas
vultosas nas grandes cidades, deixando cada um a se perguntar se não vale mais voltar à vida do campo, muito mais simples, porém, sem
dúvida nenhuma, mais saudável, ainda que seja em condições consideradas muito rústicas, comparativamente com os atuais padrões de vida,
resguardando assim a unidade das famílias que sempre permanecerá a base da formação das nações, desde que se dê à expressão “família”, o
seu sentido verdadeiro de amor e união recíproca, sem egoísmo dominador, não se esquecendo de manter-se nela até uma boa pitada da vida
tribal antiga, cuja unidade resultará em ajuda mútua de todos e para todos, muitas vezes esquecidas em tantos lares modernos.

1º item — prefÁcio

o aumento da população mundial preocupa muito os responsáveis pelo planejamento econômico da maioria dos países, visto que a
harmonia entre os povos resulta do equilíbrio dos contrários deixando assim para já em aberto a grande pergunta: como será possível o
equilíbrio entre os países, uma vez que, a industrialização sempre mais mecanizada, a ajuda da eletrônica resulta na sua maioria em
encarecimento em vez de barateamento dos produtos, porque para produzi-los, em vez dos técnicos de hoje serão necessários os
especialistas de amanhã?
também o produto barato não paga mais as despesas da tecnologia moderna utilizada na sua fabricação.
e os encargos sociais resultantes da vida moderna pesam muito na balança do custo dos produtos ao ponto de afetar a sua
comercialização. não podendo vendê-los, surge o deficit no pagamento dos diversos compromissos pelo fabricante, entre eles os das leis
sociais (incluindo-se a aposentadoria). algumas perguntas resultantes são:
— será posivel atender às exigências dos povos tanto em seus direitos como em suas aspirações, justificados pelos deveres a eles
impostos?
— será que os dirigentes dos países terão sempre fibra, coragem e lucidez suficientes para se evitar catástrofes no desequilíbrio
econômico?
— será possível de se evitar as crises econômicas sem recorrer à produção maciça de armas, que fatalmente conduz a guerras até entre
povos muito parentes e amigos?
não pode ser esquecido o fato do mundo balançar em fases periódicas de prosperidade, crises econômicas, guerras generalizadas e
subseqüentes reconstruções etc., que são os amortecedores da sua energia e em grande parte conseqüências fatais da sua gestão econômica
desequilibrada.
É necessário para o futuro encontrar-se uma resultante entre as duas famosas características a saber:
— a do crescimento da humanidade que é exponencial,
— e a dos produtos necessários à sua alimentação e manutenção que ainda permanece linear e dificilmente acompanhará a primeira.

o problema fundamental será sempre a atribuição justa do trabalho e a sua respectiva coordenação para possibilitar a cada um ganhar o
suficiente, permitindo-lhe de comprar os produtos pata a sobrevivência dele próprio e de seus familiares.
não é de se discutir aqui as diversas formas de vida em sociedade: capitalismo, socialismo, comunismo e tantos ismos, que se quizer
com as respectivas subdivisões; sabemos hoje que todas têm as suas falhas e as suas vantagens regionais, desde que honestamente
administradas. mas em todas estas formas de vida, ao homem sempre restará nada mais do que um número em um determinado grau da
escala hierárquica. a gente esquece-se do fato do homem ser um indivíduo e como tal aspirar a esta liberdade de espírito típica que se reflete
novamente em grande parte dos jovens de hoje que, com as suas capacidades físicas e um quociente de inteligência razoavelmente elevado,
são muito aptos a se introsar na vida moderna, mas preferem um emprego de biscateiro com mais liberdades. cada um pode fazer a análise
da insegurança do emprego e do desperdício de energia humana pelas atuais formas da vida moderna, com as suas indústrias e os seus
comércios explorados em demasia, até pelos próprios governos em grau variável.
É o dragão do teatro grego antigo que come a gente, em nova figura modernizada. o são jorge! haverá ainda muitos dragões para se
enfrentar!
não é sem razão que em países muito bem civilizados, jovens da cidade procuram emprego na vida do campo com as suas condições
muito modestas, mas com esta possibilidade de se reencontrar como gente nas riquezas reais da natureza que vivificam o corpo e o espírito.
muitas pessoas da cidade gostariam de viver no campo, com animais e plantações, porque o povo em geral tem os seus gostos
enraizados nos costumes dos seus antepassados que no brasil, em grande parte são da roça. não é raro hoje se encontrar jovens com
formação universitária que gostam de lembrar que, quando crianças iam passar alguns dias no sitio dos avós ou na fazendinha de um tio.
comenta-se o sabor do leite tirado na hora, o gosto das frutas e verduras frescas, sem esquecer-se do arroz de produção local e o feijão
cozido com costelinha e linguiça de porco criado no chiqueiro da fazendinha. quando para o funcionário e o trabalhador da cidade chegar a
hora da aposentadoria, quanta gente gostaria retirar-se em um pequeno sítio adequado para desfrutar a vida do campo, mantendo-se por
muitos anos em, plena saúde de corpo e alma, tendo ocupação o suficiente para não criar-se as temidas preocupações da velhice. também
quantas pessoas de meia idade, em conseqüência de problemas de saúde, devem desistir do emprego, recebendo a ajuda da caixa-doença ou
outra; pois bem, a fuga da cidade poluída para o ar puro do campo recuperou já muitas vidas abaladas fisicamente e psiquicamente.
justificado pelos sinais evidentes da crise econômica dos últimos tempos, a pergunta de muita gente é:

— será que deveremos voltar um dia para a lavoura? e os conseqüentes anseios são: que faremos? será que dá certo? será que vai dar
para viver mesmo?
nos últimos anos, fui muitas vezes consultado por interessados para a vida do campo e graças aos conhecimentos adquiridos em vários
países, consegui resultados razoáveis também em um sítio aqui no brasil. animado por colegas de serviço e por amigos, tento juntar neste
livrinho alguns ensinamentos que julgo serem de utilidade para sitiantes, chacareiros e proprietários de fazendinhas. não quero entrar em
detalhes justificativos de tal ou tal método de cultivo ou de procedimento; também não pretendo que os métodos indicados sejam os únicos,
nem os melhores a se seguir para se alcançar produção e satisfação à altura. não, ao contrário, posso recomendar a todo jovem que tem
condições de frequentar cursos de agronomia, que o faça e que se encaminhe na vida agrícola moderna com a sua economia bem dirigida na
base dos financiamentos bancários, etc.
infelizmente todos não podem alcançar um posto de gerente ou de diretor de empresa, menos ainda, de secretária de diretoria, de modo
que é para os menos favorecidos e para os jovens de vida discreta que dedico com as melhores intenções os meus conhecimentos,
desejando-lhes ânimo, coragem e em especial paciência na obtenção dos resultados da vida no campo.
brasileiro dc coração, mas não de língua, peço desculpas pelas falhas ortográficas e lingüísticas nele contidas, permanecendo à inteira
disposição para esclarecimentos e aceitando as devidas críticas e observações.
ciente dos bons resultados obtidos por conhecidos e amigos mediante os meus conselhos, a minha satisfação toda especial será de poder
ser útil em escala bem ampliada mediante a sua generosa divulgação.
no final encontram-se algumas reflexões sobre a filosofia de vida em geral, vista por um sitiante e algumas sugestões para tentar-se
reencontrar o Éden perdido em conseqüência do desequilíbrio de muitas das equações do homem neste mundo.

2º item — anotaÇÃo importante

o brasil apresenta-se com uma diversificação topográfica e climática muito grande, não sendo possível uma consideração generalizada
global. devemos restringir a seguir o descrito como sendo aplicável para as regiões do cetitro-sul. deixaremos fora de consideração as
condições específicas do norte-nordeste, não excluindo-se todavia o fato que, com as devidas adaptações às condições locais, muitas coisas
deste livro poderão ser aplicadas também em outras regiões e países.
escolha do lugar e das terras para a formaÇÃo de um sitio

a primeira análise é referente as suas possibilidades financeiras. aconselhável é escolher um lugar em uma região com terras férteis, de
clima regular, não muito distante de uma cidade e com estradas, se possível, transitáveis o ano inteiro. mas infelizmente todas as terras do
brasil não são do tipo mogiano e também na mogiana, todas as terras não são boas (exemplo: as areias de casa branca), é necessário avaliar-
se o custo real da terra, comparativamente com as informações locais e com as possibilidades futuras não esquecendo-se que é na compra
que também se pode lucrar.
mediante a observação da vegetação natural, pode-se avaliar o bastante a fertilidade de uma terra: onde a jurubeba (flor de são joão)
cresce ainda bem viçosa, a terra é razoavelmente fértil. mas também terras esgotadas podem ser recuperadas em poucos anos. Às vezes a
diferença do preço permite a aquisição de uma gleba maior — desde que economicamente viável do ponto de vista da produção.
a vegetação natural do mato é o melhor índice da fertilidade do solo. onde tem só pau fino e torto, é melhor não comprar.
não esquecer também que o solo é de estrutura complexa e que ao lado de uma lasca de terra com cinza vulcânica mineralizada, pode
ocorrer um banco de areia ou pedregulho, dando terra seca, pouco fértil.
o tamanho de um sitio é muito discutível: em uma região com boas possibilidades de se arrumar mão de obra, pode-se prever alguns
alqueires a mas na compra, em especial em lugar retirado onde o preço das terras é em geral mais em conta e que para alcançar um lucro
certo,

é necessária uma mecanização maior, de modo a compensar mais depressa as despesas do maquinário.
para uma família com crianças, é bom prever se possível um espaço maior, desde que elas sejam em idade e com vontade de ajudar. por
exemplo, nos arredores de uma cidade de certa importância, um alqueire de terra atravessado por um bom córrego, não poluído é o
suficiente para ocupar uma família com a produção de hortaliças o ano inteiro e dará lucro bem maior do que dezenas de alqueires de
cerrado, no qual o sitiante fica à merce do intermediário para a saída dos seus produtos.
não é de se aconselhar a um aposentado a compra de grandes parcelas de terra, porque em caso de não poder mais produzir, restará
sempre a carga do imposto pago por região e por qualidade da terra conforme avaliação local.
não aconselharei também a uma família muito jovem de se retirar a centenas de quilômetros no sertão, porque após os primeiros tempos
de aventureirismo, chegam outros dias menos brilhantes que podem revelar-se um suplício para um dos cônjuges (ou para os dois), se
espiritualmente não adequadamente preparados para aquele tipo de vida, todavia não se exclui a possibilidade de participação ativa na
colonizacão de novas regiões em agro-vilas, mas seria aconselhável neste caso a formação dc um grupo de casais conhecidos, para o mesmo
empreendimento, o que pode ser de grande valia em momentos de depressão psíquica, doenças, etc.
nos arredores de são paulo e rio por exemplo, encontram-se em geral a venda parcelas de terras e sítios com uma boa baixada e encostas
nos morros, com capoeira. desde que a topografia não seja em geral demais desfavorável, estas terras se prestam bem para a formação do lar
ideal para se viver no campo e gozar das boas coisas que a natureza nos oferece.
três coisas são de se recomendar então:
— ver o acesso e as divisas certas (planta) combinadas ou determinadas com os vizinhos;
— ver as escrituras e o registro e possíveis servidões; (exigir a certidão negativa do registro de imóveis).
— conhecer a mentalidade ambiental. (um ditado francês diz: nem santo pode viver em paz se o vizinho ruim não o permite).
julgo razoável para uma família pequena a compra de um sítio de dois a quatro alqueires, se possível, com um pequeno córrego na
baixada.
quero lembrar aqui, que o proprietário de um imóvel rural pode vendê-lo “ad corpus” ou “ad mensuran”, se não existir a planta
registrada que o define perfeitamente em sua localização e na sua área.

na venda e compra de um imóvel “ad corpus”, usa-se as expressões “mais ou menos” e “aproximadamente” para a área em pauta. as
partes no caso demonstram a vontade inequívoca de vender e comprar uma gleba determinada dentro de divisas perfeitamente estremadas ou
seja, a quantidade de terras que, dentro das divisas for encontrada.
na venda “ad mensuran” é fixado um ou vários preços unitários por hectare ou alqueire para determinadas glebas de uma propriedade. o
imóvel é vendido como coisa certa em sua área. conforme artigo 1,136 do código civil da legislação brasileira, o comprador tem o direito de
exigir o complemento da área, se na medição houver diferença negativa ponderável. tolera-se por lei uma margem de erro desde que não
ultrapasse um vigésimo, quer dizer, cinco por cento da extensão total enunciada. no caso do vendedor não poder complementar a área
faltante, resta ao comprador o direito de reclamar a rescisão do contrato ou o abatimento proporcional ao preço do imóvel.

3º item — formaÇÃo das parcelas escolhidas

devemos diferenciar dois casos bem determinados:


1 — compra de um imóvel (sítio) em parte ou já totalmente formado.
2 — compra de terras para a formação de um sítio (a chamada partida do zero absoluto).
no primeiro caso, o melhor é aproveitar-se das coisas já existentes. melhorando-se a sua composição conforme a finalidade dada às
terras: pastos ou cultivo.

figura 1 — um sitio no pé da encosta do morro.

no segundo caso, o razoável aconselhado é de se dividir as terras em mais ou menos cinco partes, deixando-se uma parte para floresta
no alto dos morros ou na beira da divisa. das quatro partes restantes, destina-se duas para cultivo e duas para pastos ou para capim de corte.

figura 2 — bebedouro de água bem limpa encostado em um matação. a saída de água é no próprio solo por galeria feita em
pedras piçarras.
figura 3 — a estradinha principal de acesso às terras de plantação na parte mais plana do morro.

na escolha destas, tem-se em consideração, vários fatores importantes:


— lugar do bebedouro do gado; economia possível nos cercados dos piquetes;
— acesso às terras de cultivo e aos piquetes;
— condições climáticas e geográficas locais;
— condições topográficas.
detalhamos:
o gado gosta de beber água limpa de um bebedouro bem arrumado, se possível alimentado por uma mina de água na encosta de um
morro.
É bom analisar-se na formação do sítio esta possibilidade muito importante.
o tamanho das cercas do pasto e de piquetes depende muito da configuração possível de se dar a eles, não esquecendo-se que para uma
área determinada existe um perímetro mínimo.
Às vezes é mais vantajoso destinar uma área perdida para a plantação de capim de corte, em vez de cercar um triângulo irregular.
o acesso às terras por estradinhas é um fator muito importante na economia de tração, seja animal ou mecânica. o melhor é aproveitar-se
da topografia do terreno, escolhendo-se um traçado em aclive suave (e no máximo de 20%).
deve-se evitar se possível variações repetidas de traçado e de nível para as estradas internas de um sitio ou fazendinha, o que facilitará
bastante o trabalho tanto por tração animal como com trator.
em caso da topografia do terreno não permitir uma divisão lógica das terras em piquetes na parte destinada ao pasto, poder-se-á prever
uma area reduzida para pasto, deixando-se a área maior não cercada para o plantio de capim de corte que será aproveitado tanto em verde,
como, após secagem, em feno para a época de estiagem.
este método dá muito mais serviço do que o método dos piquetes, porém, rende também muito mais. ele é especialmente recomendável
para a obtenção de grande quantidade de esterco, prevendo-se a contenção do gado em estábulo durante grande parte do tempo, porém,
deve-se utilizar o esterco no próprio sítio, não vendê-lo a terceiros.
a divisão do sítio em parcelas para cultivo e pasto é justificada pela necessidade de se obter adubo orgânico do gado para aproveitá-lo na
lavoura e melhorar assim a terra, em contra-partida, também as sobras das plantações e o capim que cresce na beira da lavoura serão
aproveitados e ajudarão na alimentação dos animais e em especial para a formação da camada de palha do estábulo, aumentando-se assim
ponderavelmente a quantidade e a qualidade do esterco.

por condições climáticas e geográficas, entende-se também a consideração de possíveis geadas brancas em baixadas, a exposição das
terras de cultivo para o lado mais ensolarado das encostas, deixando o lado mais sombreado e assim mais fresco para pastos. um assunto
importante a ser considerado na compra de terras é a avaliação das conseqüências possíveis resultantes da sua exposição aos ventos
predominantes. não é sem razão que o gado escolhe uma barroca elevada protegida dos ventos para passar a noite nos pastos.
a escolha das terras destinadas ao cultivo e para pastos será feita também pelas condições topográficas. não é aconselhável mexer a terra
em lugar muito inclinado, porque as enxurradas de verão originam grande erosão em encostas sem a devida proteção. em caso de querer
aproveitar-se até de “perambeira”, poder-se-á fazer terraços em curva de nível segurando-se a terra com a plantação de grama e árvores. (um
parreiral de uva é indicado em uma encosta exposta para o levante, evitando-se assim a exposição dos cachos ao calor excessivo do sol da
tarde).
recomenda-se prever as terras de cultivo em assentos ou baixadas onde uma mecanização, se não total, ao menos parcial é possível para
permitir uma aração profunda por trator quando necessário. em caso do sitiante não possuí-lo próprio, sempre haverá um vizinho que o fará
mediante indenização compensadora.
a formação de um sitio é como a literatura: “o que é bem definido enuncia-se perfeitamente”.
É pelo planejamento inicial que se pode lucrar no futuro. todavia muitas correções são possíveis no decorrer do tempo. não deve-se
aborrecer por causa de erros cometidos; eles são necessários para aprender; porque só quem não faz nada é que não erra (e ele mesmo está
errado por não fazer nada: filosofia da vida).
em sítio meio formado ou mais ou menos tratado, encontram-se em geral algumas parcelas de pasto razoável que podem ser
aproveitadas desde o início.
em sitio com partida do zero absoluto, em geral o maior obstáculo para a formação do pasto são os tocos das árvores após o
desmatamento da capoeira.
muitos sitiantes novatos acreditam que deve-se providenciar o destocamento por maquinário pesado ao exemplo do dono da grande
propriedade que enfileira os tocos em determinada distância em filas em curva de nível com o trator de esteiras.
este método é viável para quem tem boas reservas financeiras, e só em terras profundas e férteis.
recomendo para lugares com camada de humo (terra de resíduos orgânicos) pouco profunda, um método testado durante dois decênios,
bastante interessante:

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— após a derrubada da capoeira, que pode também ser feita por etapas sucessivas, desde vários lugares, em avanço bem escolhido para
o aproveitamento da lenha, deixa-se crecer capim natural em pastoreio comum, providenciando-se o corte contínuo dos brotos novos nos
tocos que em geral não tardam a secar.
após dois anos, mais da metade dos tocos podem ser removidos com enxadão sem grandes dificuldades.
os tocos pesados de madeira de lei, podem ser partidos com um golpe de dinamite (vide a respectiva anotação, item 25), sendo os peda-
ços então removidos com ferramentas comuns (enxadão e machado).
este método permite economizar dinheiro que se pode aplicar em outras melhorias. há mais, dando-se uma certa disciplina no trabalho,
como faz bem para a saúde um esforço físico diário adicional, por exemplo de manhã cedo, antes do levantar do sol (vale mais do que a
ginástica do rádio ou do televisor). removendo-se em média cinco tocos (entre pequenos e grandes) todo dia, em só duzentos dias de
trabalho remover-se-ão mil tocos. quer dizer, com um pequeno esforço, o sitiante chega a ter uma boa terrinha limpa de tocos e podendo ará-
la para a formação da lavoura ou para melhorar o pasto. o importante é não se destruir a camada de humo. também a queima do mato só é
lógica em situação especial (espinheiro impenetrável).
pelo método acima descrito, surge automaticamente o fato de se prever, fora do pasto, o plantio de capim de corte. também será bom
prever o plantio de uma boa quadra de cana de açúcar para a alimentação do gado durante a estiagem. (aproveita-se também a saudável
garapa para refresco humano).
são muitas as variedades de capim de corte: napier, caneludo ou canadense, cana de burro etc. cuidado com o capim colonião e a colza
selvagem que contém substâncias tóxicas que podem originar até a morte de animais jovens.
recomendo para os novatos de se fazer amizades sérias com sitiantes vizinhos que sempre gostam de dar alguns palpites úteis. porém,
cuidado com os safados: já ocorreu a recomendação do “plantio do feijão”, em tempo completamente fora de época favorável.
uma planta recomendável de se providenciar é o rami que dá uma forragem de valor protéico maior do que a alfafa (vide mais adiante a
respectiva descrição).
com os seus quatro a seis cortes anuais, quando bem tratado e um ciclo útil de muitos anos, esta planta é de grande utilidade em especial
na criação de animais de meio porte como cabras e ovelhas.
É óbvio que em região de clima favorável, o importante é a plantação de uma boa superfície do terreno com bananas, visando várias
finalidades: 1º — melhorar as terras, 2º — ter frutas para uso na mesa e

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3º — ter folhagem para a alimentação do gado. deve-se tomar em conta o fato da bananeira sofrer os efeitos de geadas, de modo que o
seu plantio deve ser feito em encostas e não em baixadas, que são mais atingidas do que as encostas (quem se interessa para saber a razão
exata desta ocorrência pode reportar-se a respectiva anotação no fim deste livro).

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4º Ítem — escolha dos animais a se criar em sÍtio

o critério da escolha dos animais para um sítio deve ser baseado em várias considerações:
— aptidões do tratador,
— condições climáticas,
— condições botânicas locais.
detalhamos um pouco:
não adianta ter meia dúzia de vacas holandesas, se o pessoal não sabe tirar o leite convenientemente e não tem noções elementares de
ajuda ao parto dos bezerros.
seria estúpido aconselhar a criação de búfalos no topo de um morro sem água e/ou em clima muito mutável e frio.
também uma criação de cabras em meio a um ambiente de culturas só dará aborrecimentos se não for previsto o respectivo cercado que
tem de ser muito bem feito para ser eficiente. em geral, o entusiasmo inicial do sitiante o conduz a comprar uma quantidade excessiva de
animais, sem ter nem pasto formado, nem a famosa invernada com a sua reserva de capim gordura para o tempo de estiagem.
posso recomendar de se iniciar com poucos animais e aumentar o rebanho por criação própria.
em sítio pequeno, formado pelo dono no fim de semana e feriados, onde trabalha, em geral pouco, durante a semana um caseiro (muitas
vezes pinguço e mentiroso), não adianta querer criar vacas de raça. duas a três vacas “mestiças-puras” serão o suficiente para aborrecê-lo.
juntando-lhes um tourinho mestiço razoável, obtêm-se alguns bezerros e leite o suficiente para a fabricação de manteiga, queijo e
também para levar alguns litros não batizados para a cidade.
a alimentação deste gado não é muito exigente. tendo-se uma roça de milho e de mandioca, melhora-se a alimentação das vaquinhas
sem a necessidade de compra de ração balanceada, fora do sal grosso a ser-lhe dado em cocho coberto ou na manjedoura do estábulo.
tal criação permite ao dono do sítio e/ou ao seu caseiro (desde que seja de boa vontade) de familiarizar-se com os animais, permitindo-
lhes mais tarde tratar até de gado muito bom mestiço.

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os bezerros não podem ficar juntos com as vacas para não esgotá-las. tem hora marcada de mamar, o mais certo, três vezes por dia no
primeiro mês e depois, especialmente em dias curtos de inverno, só duas vezes por dia.
na baia dos bezerros, deixa-se água limpa e fresca e também farelinho de trigo e capim fresco e se possível feno (capim seco de primeira
qualidade).
acostumando-se o gado a estabulagem, com a distribuição de pequena quantidade de ração adicional (milho ou mandioca) é uma grande
satisfação de se tirar certa quantidade de leite, deixando-se os bezerros mamar o resto. este método tem várias vantagens:
— ele evita a ocorrência de mamites (inflamação do úbere) que são muito freqüentes quando o tratador não sabe tirar o leite direitinho.
— dificilmente haverá ocorrência de diarréia em bezerros que mamam leite no úbere da vaca;
- pelo contato dos animais com o tratador, acostumam-se eles a tão bonita simbiose, vivendo uns para os outros. nunca se deve chegar a
amarrar as pernas de um animal para tirar o leite.

figura 4 —- uma vaquinha mestiça com o bezerrinho de três dias.

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o importante é acostumar os bezerros ao tratador coçando-lhes as juntas entre as pernas e o corpo, retirando-lhes os carrapatos e bernes
suavemente com a raspadeira todo dia.
quero aqui fazer três observações importantes:
- nunca se deve permitir a provocação de um bezerro (seja macho ou fêmea), na cabeça, porque cedo ou tarde ele vai se defender de
uma provocação e quando adulto apresentará sério perigo para o tratador, não sabendo diferenciar a brincadeira, de um caso sério.
- não se deve bater em animais sem razão grave, só um tratador com bom conhecimento da psicologia animal, sabe diferenciar as ações
e reações dos seus queridos bichos: cada vaca tem caráter diferente e reage do seu jeito aos carinhos e às broncas do tratador.
- não considerar razoável o comportamento do tratador bárbaro de chicote, que acha que os animais devem tremer na presença do
homem. não, a minha experiência é bem diferente: com amor e paciência chega-se a melhores resultados. isto não exclui o fato de aplicar-se
mão firme quando necessário, porém, são casos raros. e quando tratar-se de um animal de caráter ruim mesmo, é melhor desfazer-se dele
antes que ocorra uma desgraça.
para evitar-se uma grande consangüinidade no gado, será bom a cada três anos mais ou menos prever a substituição do touro. uma troca
de bezerro desmamado por outro de um vizinho, em tempo oportuno permite ter um garrote feito quando será necessário de se eliminar o
touro mestre por ser muito bravo e intratável, se não já perigoso (em geral mais ou menos após os quatro anos de idade).
em clima quente e em sítios com lagoa, açude, ou um tanque com bom volume de água, posso recomendar a criação de alguns búfalos,
que são animais muito mansos e que se acostumam muito bem às pessoas, ao ponto de servir-lhes até de montaria.
se regularmente utilizado na lavoura, o búfalo é um bom animal de tração, tanto no arado como em carro de boi.
a vantagem principal do búfalo em relação ao gado comum é o fato dele aproveitar muito bem de alimentação pouco rica. em pasto
magro, onde a vaca holandesa morre, o búfalo ainda engordará. É incrível que este animal possa transformar até lignina (substância dá
lenha) em alimento assimilável. agora se lembre que búfalo não cruza com vaca. É necessário comprar animais dos dois sexos para a
procriação.
para pessoas de certa idade que dificilmente vão se acostumar a lidar com animais pesados, recomendo a criação de algumas cabras e
ovelhas em um recinto fechado dividido em piquetes e providenciando a alimentação com capim de corte.

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figura 5 - a caçamba rastadora atrelada.

figura 6 - bons companheiros de trabalho.

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figura 7 - apertando a carga de mourões que se transporta na litra. observa-se o rolo que facilita o aperto das cordas.

figura 8 - descanso para se ver o melhor caminho pelo pasto.

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não se exclui um passeio diário ou dois para pastorear à beira das estradinhas com os animais dóceis, o que faz bem a todos.
em geral, em sítio, é bom de se criar algumas cabras e ovelhas, junto com animais de grande porte ou em separado. a cabra é denomi-
nada na europa a vaca do pobre. vale lembrar de que existem raças leiteiras de cabras dando em cheia lactação seis e mais litros de leite por
dia. salienta-se a sarina, toggenhurga, a múrcia como as melhores leiteiras.
a cabra anglo-nubiana é em geral a raça de criação de cabritos.
para as ovelhas, recomendo um pasto misto de baixada e encosta para poder providenciar a ocorrência de várias plantas muito
importantes para a sua saúde.
aqui no brasil, os rebanhos de cabras e ovelhas sofrem dos efeitos da verminose, sendo necessário providenciar o tratamento contínuo
dos animais com remédios adequados e eficientes.
todavia devo recomendar muito cuidado na aplicação destes produtos, tanto na quantidade como na época a serem aplicados (houve
muitos abortos e até perdas de animais valiosos por causa de erros, por indiferença e teimosia na aplicação de remédios),
também é necessário se cuidar bem da alimentação dos animais prenhes, porque existem plantas com determinados alcalóides que
podem provocar aborto e até a morte de animais prenhes em poucas horas (por exemplo: o bulbo da batatinha do tupinambo, cuja parte fora
do chão é, todavia, uma excelente forragem e de grande utilidade em sítios).
recomendo em geral, não se plantar abertamente em sítios de criação de animais, plantas conhecidas como perigosas ou venenosas, por
exemplo, o “copo de leite”, a “comigo ninguém pode” etc., porque sempre haverá o perigo de misturar-se folhas destas com o capim de
corte.
não podemos esquecer, no sítio, da manutenção de um bom cavalo tanto para os trabalhos de lavoura, como para montaria ou charrete.
este seria o amigo nº. 1 do pessoal e a maioria das vezes o favorito das crianças.
todavia, um cavalo de porte médio é um animal bastante exigente e requer trato adicional, se possível com ração adequada, de modo que
a sua manutenção deve ser bem abalizada e pensada.
recomendo a sua manutenção em sítio de alguns alqueires onde se plantará milho ou outros cereais como centeio, cevada ou aveia.
o cavalo em geral não é adequado em clima quente, para esforços puxados e contínuos. neste caso o burro é bem mais resistente,
paciente e contentando-se com alimentação bem menor, tanto em quantidade como em qualidade.
lembro-me da consulta de um amigo, que quis fazer uma criação de

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cavalos em uma chácara de cinco mil metros quadrados. após convencê-lo de que uma égua come a ração de uma e meia vaca e que em
cinco mil metros de pasto mau tratado, ele não poderá nem manter uma vaca o ano todo, recomendei a ele modéstia, e de iniciar-se com a
criação de coelhos e galinhas até a formação de capim de corte suficiente para a manutenção de algumas cabras ou ovelhas.
devo fazer aqui, uma observação importante ainda com respeito à alimentação de aveia em geral para os animais em sítio. aveia em grão
é comida reforçada para qualquer animal, porém, em especial para cavalos, que em caso de receber ração exagerada podem sofrer de ataque
cardíaco e derrame, em conseqüência da pressão alta. em caso de dificuldade, soltar o animal em grande pasto para ter a devida
movimentação.

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5º item —adestramento de animais

em sitio de alguma importância, é bom ter um trator para os trabalhos da lavoura. o tamanho do trator a ser escolhido varia muito de
acordo com as condições topográficas, a natureza da terra e a freqüência do uso do mesmo.
em sítio pequeno, onde o uso de um trator não é economicamente viável, usa-se muito uma caçamba reboque engatada em um jipe, que
com a sua tração nas quatro rodas apresenta-se com a grande vantagem de melhor movimentação em terra solta da lavoura em relação a um
pequeno trator. também a estabilidade de um jipe em encostas inclinadas é bastante boa.
em duas pessoas, poder-se-á também manobrar o arado em terras duras.
para terras inclinadas e já bem fofas, é bom de se prever a aração com burros, cavalos ou bois (recomendo também não se desprezar o
aproveitamento do búfalo para tal fim).
o adestramento dos animais não é tão difícil desde que se lide com animais jovens e que não se abuse das suas possibilidades.
o primeiro passo é de acostumar-se o animal ao arreio, no caso do cavalo ou burro, ou à canga no caso do boi e vaca.
deixa-se o animal amarrado com corda curta em uma árvore ou em um tronco na sombra até ele se cansar de rexingar e depois de lhe
dar um pouco de bom capim e carinhos, guia-o do lado, em uma estradinha tendo a corda do cabresto na mão direita e um porrete curto na
mão esquerda.
devagar o animal acostuma-se aos comandos de “vamos” e “pare”, na língua da gente. para os menos dóceis, é necessário, ás vezes,
mostrar o porrete —— na frente do focinho, porém, evitar-se-á bater ou assustar em demasia o animal.
após o passeio durante alguns dias, dar-se-á, uma carga como rasto (se possível uma pequena tora ou um galho de árvore bem torto para
não rolar).
e após alguns dias vai-se ao serviço útil:

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- se é o arado, evitar-se-á de cortar fundo;


— se é serviço de transporte, também recomendo não abusar dos animais até perceber que eles gostam de mostrar a sua força e o
contentamento de ser útil.
só após treinamento suficiente é que se deve arriscar o timão ou as varas de uma carroça, porém, também aqui se recomenda firmeza,
bondade e paciência com os animais.
a roça de milho, após a colheita pode ser arada por duas vaquinhas adestradas, desde que o trabalho seja feito em tempo propício e divi-
dido: por exemplo, trabalhando-se todo dia com elas de manhã cedo, quando o ar está ainda bem fresco. não recomendo o uso dos animais
em horas de sol quente, nem por tempo demais prolongado (mais ou menos umas duas a três horas). evitar-se-á o uso de animais em
adiantada gestação ou de vacas em cheia lactação.
em fazendinha, um par de bois pode reduzir bastante os custos de produção pela economia de óleo diesel do trator. a mais, o trabalho
lento na aração deixa o solo bem virado, sulco após sulco, melhorando a penetração do ar que facilita muito o desenvolvimento das bactérias
aeróbias de fixação do nitrogênio.
para salientar melhor o quanto um par de bois pode ser útil em determinados casos, quero intercalar aqui o fato de que em regiões
montanhosas da frança, a aração por tração animal permite o cultivo de terras acidentadas e cheias de pedras, onde o uso do trator e da
semeadeira é impossível.
não é sem razão que o agricultor francês, nestas parcelas consegue colheitas de trigo de até cinco mil quilos por hectare, quando o
americano com a sua agricultura industrializada arruinou muitas das suas terras, ao ponto de colher nelas apenas quatrocentos a oitocentos
quilos de trigo por hectare.
quando o trabalho com os animais é quase que diário, um homem só os guia sem problema, seja na caçamba, seja no arado ou outro
implemento. quando, porém, as vaquinhas estão pouco acostumadas ao serviço, elas seguem facilmente uma pessoa que vai à frente.
não foi raro na frança ver a esposa ajudar o marido para arar a roça, com duas vaquinhas, sendo a sua única função de andar na frente
das vaquinhas e visto o fato de ter os dois braços sem ocupação, ela aproveitar o tempo para fazer malha (de certo, com lã produzida por
algumas ovelhas, criadas no sítio).

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6º Ítem — a esterqijeira e o adubo orgÂnico artificial

a divisão do sítio em terras de cultivo e de pasto especialmente de capim de corte como antecedentemente anotado, tem em especial a
finalidade de se produzir o adubo orgânico tão necessário para qualquer plantação.
É típica a expressão usada pelo sitiante na frança que denomina o esterco, o seu ouro preto ou também de manteiga preta.
para se obter um bom esterco, é necessário muito cuidado na formação da esterqueira:
1 — escolhe-se um lugar apropriado, perto do estábulo, pocilga etc. para não perder muito tempo no transporte dos resíduos, porém,
também não encostado em demasia para que as emanações gasosas da esterqueira não incomodem os animais. não esquecer de observar a
direção dos ventos principais para afastar do estábulo estas emanações bastante pronunciadas à noite.
2 — em sua forma mais rudimentar a esterqueira compor-se-á de um rebaixo (fossa) no chão de até mais ou menos um metro de
profundidade onde se recolherá a urina do estábulo (se for de piso cimentado) e depois em especial o chorume que correr do esterco. evitar-
se-á o acúmulo de água de chuva em demasia para não perder o chorume por transbordamento, mediante elevação adequada e inclinação
para fora do terreno nos arredores da esterqueira.
as dimensões da fossa dependem da quantidade do material disponível. para um sitio de uns dois alqueires, recomendo a elaboração de
uma fossa de 10x4 m., a ser utilizada em duas partes de 5 x 4 m.
no caso do solo ser muito permeável, a fossa escavada em dimensões maiores será revestida no fundo e nas paredes laterais por uma
camada de terra barrenta e depois com placas de pedra (por exemplo, por piçarras partidas).
o esterco do gado, porcos, etc. será aproveitado conjuntamente com o capim seco, sujo utilizado no piso do estábulo ou pocilga c
colocado em camadas bem distribuídas sem intervalos.

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figura 9 — o estábulo e a esterqueira na sua forma ainda muito rústica.

quem está acostumado aproveita para fazer tranças nas beiradas da esterqueira, para evitar estragos pelas galinhas, patos etc. usa-se para
isto a forca de quatro pontas para dobrar a palha ou capim seco nas beiradas de fora para dentro em um movimento alternado para a direita e
para a esquerda dando-se à esterqueira o aspecto de uma peruca trançada.
aumenta-se todo dia com esterco fresco a altura desta na metade escolhida e em dias quentes rega-se com o chorume acumulado em um
rebaixo acessível e coberto por pedaços de costaneiras. todos os resíduos de plantação em estado meio seco podem ser ajuntados na
esterqueira. também galhos finos com a sua folhagem abundante, cortados em pedaços de mais ou menos 20 cm de comprimento, podem ser
utilizados na esterqueira desde que sejam colocados em camadas alternadas com o esterco e copiosamente regados com chorume. ao
alcançar-se uma altura de mais ou menos 1,5 até 2 m. deixar-se-á a esterqueira fermentar, continuando a regá-la com chorume, se a umidade
for insuficiente. neste tempo formar-se-á a esterqueira ao lado, na outra metade da fossa, de modo idêntico ao acima descrito.

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quando a primeira metade for bem fermentada, ela estará pronta para o uso sendo então removida para adubar a lavoura, o capim de
corte, a horta, etc. após a desocupação do lugar, o mesmo será pronto para nova formação e assim em seguida a outra metade da esterqueira.
É uma rotação alternada dos lugares de formação e uso do esterco na fossa em pauta. a grande vantagem deste procedimento é o controle
contínuo do estado de fermentação da esterqueira e o aproveitamento de partes não bem curtidas das beiradas (quando mal juntadas)
jogando-as na outra metade do fosso em formação. quando o chorume incomoda, colocar-se-á capim seco da camada externa para poder
pisar neste lugar sem escorregar. em caso de acúmulo excessivo de água e chorume poder-se-á aproveitá-los para adubação líquida em
especial em capinzais, desde que a sua aplicação seja feita em dias de chuva ou devidamente diluídos com mais água para evitar a queima do
capim ou das plantas.
em um sítio pequeno com uns dois alqueires, bem tratados, tendo em estabulagem de 1/2 tempo aproximadamente duas vacas, uma
novilha, algumas cabras ou ovelhas, um porco e um cavalinho, poder-se-á conseguir formar várias toneladas de esterco por ano, quantidade
suficiente para adubar a terra de cultivo e o capinzal de corte com adubo orgânico tanto sólido como liquido (chorume).
no caso do uso de cavacos e serragem de madeira na camada do estábulo, recomendo se prever mais um espaço de 5 x 4 metros para a
formação da esterqueira em três partes distintas, em conseqüência da necessidade de se deixar curtir mais tempo o esterco antes da sua
utilização na lavoura (decomposição da serragem pela fermentação).
o acima descrito refere-se a uma esterqueira em forma rudimentar que poderá ser melhorada no decorrer do tempo mediante paredes de
pedras, de tijolos, de blocos e com piso de fundo e dos arredores cimentados.
para um sítio importante, é possível de se prever a esterqueira sem rebaixo ou em meia encosta de morro o que facilitará a mecanização
do trabalho. neste caso, se prevê uma fossa bastante grande para recolher o chorume (e água necessária à sua diluição) e a inclinação
adequada do piso da esterqueira. poder-se-á prever acima da fossa do chorume uma pequena torre para a bomba de reação da esterqueira, ou
em vez da torre em pauta, é melhor prever a construção de uma pequena casinha com caixa de água limpa fechada, em cima da casinha,
dividindo-se esta em três pequenos cômodos para uso do pessoal: vestiário, banheiro com chuveiro, pequeno depósito para ferramentas, (em
sítios modernos com meios financeiros importantes, é possível prever o aquecimento da água do chuveiro pelo calor da esterqueira, sendo
fácil de se alcançar 34 até 400 c de temperatura). um lavatório externo em baixo de um alçapão de parede do lado mais acessível é
recomendável por ser de grande utilidade e evitar ao pessoal a remoção dos calçados.
pela relação do número de animais tratados no estábulo e do número de pessoas a usar o banheiro ou chuveiro pode-se avaliar a
necessidade de

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eliminação da água de uso em separado. para umas duas a três pessoas e uma dúzia de animais, o total pode ser junto ao chorume e
aproveitado conjuntamente para regar o esterco. evita-se facilmente emanações em demasia, colocando-se uma camada de palha, cavacos de
madeira ou serragem em cima da esterqueira após a regação.
desde que os dejetos humanos não sejam misturados em demasia com água, a sua fermentação elimina o perigo de transmissão de
doenças.
a riqueza do esterco será aumentada, visto que o conteúdo em nitrogênio, fósforo e potássio dos dejetos em pauta é muito maior em
relação aos dejetos do estábulo. conforme publicação da análise química, feita na frança, referente aos dejetos de uma pessoa adulta em um
ano, a quantidade dos elementos principais úteis às plantas (a saber: nitrogênio, fósforo e potássio) corresponde ao conteúdo destes
elementos em 1.200 kg de esterco de curral aproximadamente.
vale dizer que em sítio, fazendinhas, etc. não se deve deixar perder nada (os dejetos de 30 pessoas dão para adubar um hectare de terra
no equivalente de 35 toneladas de esterco de curral).
quero salientar em especial a necessidade da escolha certa do lugar do estábulo no sítio, para facilitar os transportes não só do capim,
seja verde ou seco, porém em especial para a saída fácil do esterco, não se deve esquecer do fato do capim verde ser transportado em
quantidade razoável todo dia enquanto que o transporte do esterco ser feito em cargas muito pesadas durante alguns dias em geral nas
épocas pouco antes do plantio.
em publicações agrícolas, recomenda-se prever uma cobertura (telhado) para a esterqueira.
quero observar a este respeito que julgo tal providência razoável só em regiões com índice pluviométrico elevado o ano todo.
para o pequeno sitiante, o custo de um telhado, que em cima da esterqueira não tem grande durabilidade, é oneroso e a mais dificulta
muito o carregamento das carroças. recomendo mais o plantio de duas árvores com folhas caducas no inverno em lugares escolhidos
próximos à esterqueira para sombreá-la em dias quentes no verão. uma árvore bem adequada é a uvaia do japão, apelidada também de pé de
galinha ou também o sabugueiro.

esterco artificial

no caso de ter terras de cultura afastadas, seria desaconselhável o transporte dos resíduos após a safra até o estábulo, sendo mais prático
neste caso prever a formação de uma esterqueira temporária no lugar mesmo.
para isso a fossa deve permitir o recolhimento do chorume e levando-se o esterco fresco até o lugar para o seu aproveitamento em
camadas inter-

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caladas com os resíduos (palha de milho, de arroz, rama de mandioca, capim e mato das beiradas da lavoura, etc.).
em dias quentes, levar-se-á água (por exemplo, um ou dois tambores de 200 litros) para umedecer a esterqueira no caso do chorume
faltar.
posso recomendar fazer as beiradas desta esterqueira um pouco inclinadas, porém, só o suficiente para cobri-la com terra. para evitar-se
a grande penetração de terra na esterqueira, poder-se-á cobri-la lateralmente e em cima com folhagem verde do mato antes da colocação da
terra.
uma camada adicional de palha, em cima da terra evitará que a chuva deslave a terra, protegendo assim as bactérias aeróbias no interior
da csterqueira.
o importante é a junção regular das camadas e o seu assentamento contínuo no decorrer da fermentação para continuar esta pelas
bactérias anaeróbias.
o valor do esterco artificial depende muito dos componentes usados na sua formação.
em geral, a sua riqueza é um pouco menor do que a do esterco de curral puro. a colocação de adubos químicos na esterqueira é
discutível, por exemplo, poder-se-á prever para cada tonelada de palha e resíduos a adição de mais ou menos 70 kg de adubo composto de
45% de sulfato de amônia, 40% de carbonato de cálcio e 15% de superfosfato de cálcio, diluído em água para penetrar bem na massa a
fermentar.
não aconselho o uso de ácidos que impedem muito a fermentação e que matam as lombrigas tão úteis para a decomposição dos
resíduos.
para salientar o erro dos sitiantes que queimam os resíduos das plantações e o mato das beiradas, devo lembrar que, por exemplo, a
samambaia, em geral desprezada, por ser incômoda, contém 2,4% de nitrogênio, 0,45% de fósforo e 2,42% de potássio. ciente do valor real
dos resíduos e das plantas naturais, o sitiante poderá tirar delas grande proveito para a adubação da lavoura. e a samambaia não se apresenta
com perigo de fácil reprodução por sementes.

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7º Ítem — pesquenos animais domÉsticos

o bom sitiante deve desde o início prever a criação de pequenos animais cujas variedades são bastante diversificadas. É recomendável
iniciar-se com pequeno número de animais de uma ou duas variedades bem escolhidas, por exemplo: galinhas e coelhos.
em regra geral, o sitiante até ter uma safra razoável de milho e mandioca, tem muitos animais no quintal, obrigando-o a comprar grande
quantidade de ração, ficando quase escravo dos mesmos. assim, nunca um sítio chegará a dar lucros, ao contrário, só dará aborrecimentos.
também o sitiante deve amar todos os seus animais, sejam grandes ou pequenos, porém, amá-los tem limites e não quer dizer, deixar
viver todos os gatos e cachorros que nascem. uns dois gatos e um cachorro é mais do que o suficiente.
visando-se uma finalidade bem determinada para os pequenos animais como galinhas, coelhos etc., é desde o início necessário saber-se
que chegará logo a hora de dar uma finalidade para alguns deles: a panela ou o mercado. nunca se deve chegar a brincar com os animais ao
ponto de ter relações quase familiares porque o dia em que um deles for destinado à mesa, na forma de um assado gostoso, não é bom ter a
impressão de aproveitar-se da carne de “parente próximo”. É bem melhor pensar que haverá daqui a algum tempo, o próximo animal em
cima da mesa.
a) para as galinhas, recomendo escolher uma raça de dupla finalidade: postura e carne; por exemplo, a new hampshire. uma meia dúzia
e um galo são suficientes no início. fechando-se a horta para o cultivo da verdura, as galinhas podem ser deixadas soltas o dia inteiro, dando-
lhes de manhã uma determinada quantidade de comida e à noite um punhado de grãos de milho, no galinheiro onde elas nele se recolherem
para a noite.
É importante ter o galinheiro com fechadura, para a noite, o que evita a perda de bons animais, por cachorros, tanto do mato como
domésticos da vizinhança (e às vezes até só de duas pernas). quando a safra do sítio o permitir, poder-se-á prever duas a três dúzias de
galinhas (desde que o preço dos ovos no mercado, seja compensador e que não exista perigo, de prejudicar os vizinhos).
em vista das galinhas soltas em geral se reproduzirem facilmente (desde que as ninhadas não sejam dizimadas por animais: cachorros),

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gambás, raposas, etc.) é bom prever todo o ano a venda de parte delas, escolhendo as mais velhas e as improdutivas (destinadas para a
canja).
quando uma galinha é choca em ninho escondido no mato, é fácil de se encontrar o lugar: de manhã, ao dar a comida, em geral a galinha
choca aproveita para alimentar-se. É só ter um pouco de paciência, até ela se sentir satisfeita com a comida e água, pois voltará logo em
seguida ao ninho.
tendo-se um lugar seco, arejado, porém, protegido dos ventos e intempéries para passar a noite; a galinha cria-se facilmente em um
pasto com bom capim, por exemplo: de kikuyu, desde que ela receba água fresca e limpa todo dia. um pequeno galinheiro, com recinto
fechado na frente, é o mais indicado para sítios, prevendo-se, todavia, a soltura das aves durante boa parte do dia.
no caso de se fazer a criação de galinhas em recinto fechado, é necessário calcular 100 a 130 g.. de ração balanceada por dia e galinha.
uma redução da quantidade de ração pode ser prevista com o uso de verdura plantada no sítio ou na granja, por exemplo, com couve. para
economizar a administração de produtos vitaminados, é bom dar duas vezes por semana, limão bravo (limão amargo), seja espremido na
água ou mais simplesmente em uma caixa onde as galinhas vão bicar as frutas.
criada em regime solto, as galinhas dificilmente são sujeitas as doenças, desde que devidamente alimentadas. só em tempo chuvoso
prolongado, é bom verificar a ocorrência da coccidiose nas suas diversas formas e administrar um bom remédio, seja na água ou na comida.
neste caso, dá-se água ou comida em menor quantidade para ter a certeza que o remédio foi aproveitado e não desperdiçado (completando-se
o resto da ração no decorrer do dia). em caso de se observar pintos doentes, tristes, sem ânimo a seguir os outros, não se deve já pensar em
doença grave. quero salientar aqui a razão principal que muita gente não observa ou esquece:
— como a galinha leva os pintinhos para ciscar na esterqueira, ocorre que eles bebem chorume em grande quantidade, o que provoca
febre e inflamação dos órgãos internos. se não devidamente tratado desde o início, o pinto chega a morrer em poucos dias. para se evitar
perdas de pintos, é suficiente cobrir as valetas e as ravinas das rodas de carroças, onde se acumula chorume, com palha ou capim seco, até os
pintos terem idade suficiente para suportar até resíduos banhados acidentalmente com chorume. tendo sempre água limpa à disposição e não
muito distante, dificilmente as galinhas e os pintos bebem chorume ou água muito suja.
se as galinhas não pousarem no galinheiro, prendê-las por alguns dias, dando-se alimento seco, verdura e água. tal procedimento é tam-
bém aplicável com galinhas jovens que vão botar em sítios vizinhos. prevendo-se as devidas separações no galinheiro, poder-se-á guardar
tais galinhas presas, por exemplo, até meio-dia.

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É bom lembrar-se que galinha jovem em geral bota pela manhã, enquanto galinha mais velha bota mais pela tarde.
recomenda-se forrar os ninhos de postura com capim seco (feno) com cheiro gostoso, renovando-o quando necessário, para ter ovos
bem limpos. É bom recolher os ovos duas vezes por dia, para evitar o acúmulo destes e a conseqüente possível quebra, sempre mais
freqüente com galinhas mais velhas que botam ovos com casca mais fina.
pode-se deixar um ovo no ninho à noite, se não tiver ratos ou gambás comedores de ovos na vizinhança, porém, sempre deixar um ovo
da postura do dia, não se deixando envelhecer um só. o melhor é comprar alguns ovos de gesso especiais para essa finalidade e eliminá-los
se ficarem muito sujos, no decorrer do tempo, porque uma nova pintura não é aconselhável, porque as galinhas estranham estes ovos.
no caso da ocorrência de postura de ovo mole, controlar-se-á a necessidade da administração da casca de ostra, que é bom deixar à
disposição das galinhas em geral. todavia, em regime solto onde ocorre no solo pedrisco com malacacheta (mica) ou até com conteúdo de
calcário, em geral a galinha transforma o suficiente em elementos para a formação da casca do ovo. não resta dúvida que a casca de ostra
nunca deve faltar para galinhas criadas em recintos fechados.
quando chegar a época de chocar, a maioria das vezes haverá sobra de galinhas chocas. um método aprovado e muito usado em sítio,
para desacostumar a galinha de chocar é o seguinte:
— prende-se a galinha em um lugar escuro e fresco (em baixo de um caixote, com pouca comida, porém, com água). passada a
quarentena, a galinha tornar-se-á normal e voltará a botar mais depressa do que quando emagrecida pelo jejum quase que total durante
semanas.
para terminar, quero salientar também a influência da comida na postura:
— não se deve manter as galinhas gordas, porque a galinha gorda demais não se movimenta mais com gosto, deixando de pastorejar
durante o dia. regular-se-á bem a quantidade de comida, tanto de manhã e nunca dar milho não maduro o suficiente, porque o milho ainda
mole ou meio duro contém substâncias que chegam a cortar a postura das galinhas. também se deve evitar que galinhas quebrem ovos no
ovário ou se machuquem internamente em conseqüência de movimentações bruscas, o que ocorre em geral por perseguição de animais ou
crianças. lembrar-se-á do uso de uma escadinha para o acesso aos ninhos para as galinhas.

b) um animal que não pode faltar em um sítio é o coelho, porque ele fornece uma carne sadia, gostosa e em especial conveniente para
pessoas fracas ou de regime leve. a proliferação do coelho é tal que

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com um macho e três a quatro fêmeas, dando três e até quatro ninhadas por ano, cada uma, temos coelhos já em demasia. calculando-se
em média vinte filhotes por coelha no ano, podemos após seis meses comer toda semana um a dois coelhos. não há outro animal que dá
tanto em tão pouco tempo. das muitas raças existentes, recomendo escolher uma de tamanho médio e de hábitos rústicos com pele de
determinada coloração (em vista do seu aproveitamento para colchas bonitas e quentinhas). por ser o coelho muito guloso, a sua criação
deve ser bastante controlada, o que evitará as perdas de láparos e até de animais adultos.
devemos bem diferenciar a criação em escala industrial da criação caseira.
para a primeira dar lucro, é necessária a administração de ração balanceada, o controle rigoroso da comida e da água, mantendo-se os
recintos limpos e arejados.
para a criação caseira, é necessário também comida e tratos determinados, em recintos adequados, porém, não com grandes despesas.
todavia não se deve pensar em especialidade muito complicada para criar coelhos.
— o coelho por natureza é um animal de toca, que gosta de correr no campo, alimentando-se de plantas e raízes da sua preferência. para
o coelho de criação, resta dos seus instintos, só a possibilidade de comer fora da medida, originando assim a constipação que facilita a
coccidiose, que pode levá-lo à morte. É para evitar esta conseqüência que se deve racionar a sua alimentação.
sempre houve bom êxito na criação de coelhos dentro das seguintes observações:
— criar os coelhos em gaiolas de madeira ou de construção com tijolos e massa de cal. evitar fazer de cimento o piso; melhor é com
mistura de cal e dar boa inclinação a este para facilitar o escoamento da urina.
— evitar correnteza de ar nas gaiolas, prevendo-se só a porta de manutenção com tela de arame, porém de tamanho razoável.
— forrar as gaiolas com capim seco; o melhor é dar todo dia um punhado de feno para cada gaiola com a dupla finalidade de dar aos
coelhos a possibilidade de roer o capim seco, diminuindo-se assim os dentes incisivos e com as sobras no piso manter nova camada limpa e
seca para o coelho deitar à vontade.
— trocar todo dia a água das garrafas com o bico de chupar feito de tubeto de vidro.
— dar só determinada quantidade de alimentos para os coelhos por dia, sendo melhor manter esta abaixo das necessidades dos animais
do que de dar um exagero, o que resulta em morte de muitos animais. evitar administrar capim murcho.

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o melhor é de se dar determinada quantidade de ração fardada e um punhado de verdura ou capim verde de manhã. para as coelhas com
cria é bom dar a ração em duas a três vezes por dia, mas em quantidade bem controlada. evitar dar capim molhado que o coelho ingere com
avidez incrível, chegando em seguida a estufar. quem planta tri fólio encarnado deve cuidar de usá-lo para os coelhos só quando ele
apresenta-se com as hastes já um pouco lenhosas. pessoalmente posso dizer que o melhor é a plantação de boas quadras de couve manteiga
da qual se colhe as folhas bem formadas ao anoitecer ou de manhã cedo, todo dia, em estado bem fresco. com o punhado de feno, o coelho
se dá bem e há o equilíbrio necessário na sua alimentação.
— não deixar crianças em baixa idade mexer com os coelhos, porque não só o trato pode ser com conseqüências nefastas, mas também
ocorre facilmente a perda de ninhadas quando as coelhas ficam assustadas.
— nunca deixar ir perto da coelheira, cachorros ou gatos para não assustar os coelhos muito medrosos por instinto e não sem razão com
a presença destes bichos que gostam muito dos coelhos — até o ponto de devorá-los se a grade não for muito resistente.
para uma criação de meia importância, que pode dar um bom lucro, quando bem tratada, posso recomendar fechar as coelheiras em um
recinto bem elaborado por tela grossa a prova de cachorros. também se evita assim visitas noturnas de outros predadores como raposas e
companhia.
— para obter-se uma coelheira de criação dos filhotes a prova dos ratos e predadores menores, é bom revestir todas as paredes de tijolos
com uma camada de reboque bem lisa e se usar tela de arame de malha adequada e com fio de diâmetro respeitável para as portinholas.
— ocorre, às vezes, que uma ou outra coelha coma os filhotes ao nascer. para prevenir estes casos excepcionais, é bom dar às coelhas
em adiantado estado de gestação, de manhã pão velho dentro do leite. e se sobrar um resto de café da manhã a coelha aceita o café com leite
e pão como se fosse gente. dando-se pouca quantidade antes de dar cria, para não engordar em demasia os láparos, antes de nascer, esta
ração pode ser aumentada depois para melhorar a lactação em seguida, o que redunda em coelhos sadios e de crescimento rápido.
— na hora da cobertura da coelha, se junta esta com o macho na gaiola do macho. terminada a mesma, separam-se os dois, para não
enfraquecer o macho. boa praxe, com resultado mais do que garantido é a repetição da cobertura após um intervalo de mais ou menos doze
horas (porque o sêmen vive muito tempo nos órgãos genitais da coelha, que solta óvulos de um ou dos dois.

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ovários a cada quinze dias. É por isso que pode ocorrer a gestação dupla da coelha, que deve ser evitada.
— na desmama dos láparos, afasta-se os mais vigorosos primeiro, deixando por alguns dias ainda mamar os mais fracos para melhorar
as suas condições de resistência. quando sobrar leite no sítio, é bom dar todo dia, um bom prato de pão com leite para os láparos
desmamados, durante uns oito a quinze dias. É incrível o desenvolvimento destes bichinhos com trato reforçado, assim, sem grande perigo
de sobre-alimentação que é tão perigosa para os gulosos coelhinhos.
— substituir o macho quando necessário para evitar consangüinidade, o que resulta em doenças que facilmente se reconhece ao sa-
crificar um animal para a mesa: o fígado com manchas é sinal certo de cocciodiose hereditária e o pulmão, com caroços, ou só de cor tingida
esquisita, não deixa dúvida da ocorrência de tuberculose. cozinhando-se bem a carne à moda caçadora, por tempo bem prolongado, esta é
aproveitável, quando não atacada por manchas ou caroços. todavia, pessoalmente prefiro dar outra finalidade a esta carne, porque o apetite
pode ficar afetado só de pensar que o bicho não estava em ótimas condições de saúde.
— nunca deixar uma coelha ficar muito velha, porque esta vai perdendo as forças de reprodução e também o aproveitamento da sua
carcaça para a mesa não será mais tão desejável como aquela dos coelhos sacrificados ao alcançar o tamanho e peso ideal para o abate.
— deixar o sentimentalismo para o domingo, se quiser criar coelhos com fins lucrativos, senão é melhor nem iniciá-la, porque as des-
pesas aumentam muito depressa, com estes bichinhos demais prolíferos, se não controlados.

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8º Ítem — a horta e o pomar com apiÁrio rÚstico

a) a horta

todo sítio, fazendinha, casa de campo, etc., deve ter uma boa horta, bem acessível e com a possibilidade de rega com água limpa
mediante um sistema prático e se possível bem econômico.
a divisão da horta pode ser prevista de modo a permitir variações sucessivas dos canteiros, de modo a facilitar a limpeza das ruelas entre
os canteiros, porque não é recomendável deixá-las imutáveis, evitando-se assim, nelas, a criação de insetos ou a expansão rápida da tiririca
que porventura aqui se alojarem.
a horta deve ser fechada por uma cerca para se evitar a entrada de galinhas e de outros animais. esta cerca pode ser feita de tela de
arame com malhas de tamanho adequado, fixada em mourões de concreto ou madeira. no caso de se poder providenciar taquara, uma cerca
bem econômica será fácil de elaborar com este material, especialmente no início da formação de um sitio, podendo substituí-la mais tarde
por um cercado amurado na base e com mourões de concreto para a fixação da tela de arame.
para reduzir o tamanho da cerca, pode-se encostar a horta em construção, seja da casa, galpão ou do estábulo. o muro da construção
considerada pode ser utilizado para a colocação de um parreiral de uva ou pêra (por exemplo, de pêra williams).
o tamanho da horta é dado pelo número de pessoas que vivem do sítio (ou que cheguem ali para passar os fins de semana, etc.) e das
preferências destas para determinadas verduras.
em geral, posso recomendar para uma família de quatro a cinco pessoas; uns dez a doze canteiros de 0,90 até 1,10 m de largura por 6,00
a 10,0 m de comprimento. a divisão deve ser tal a permitir uma rua de acesso a todos os canteiros pelas passagens entre estes últimos. um
portão de largura suficiente para a passagem de um carinho a mão, dará acesso à rua central.
não recomendo a formação de uma horta muito extensa, porque a plantação de verdura na horta não exclui a formação de parcelas de
hortaliças na lavoura, por exemplo, de algumas filas de repolho, couve-nabo, couve-flor, tomate, etc., que serão semeados em canteiro na
horta, sendo depois transplantados na lavoura ao alcançar o tamanho favorável para

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o transplante. na lavoura escolhe-se o lugar favorável para poder manter as curvas de nível no terreno e inicia-se a plantação no lugar mais
baixo, subindo ano após ano, morro acima com a plantação das hortaliças. este método permite um melhor controle das infecções por
bactérias (por exemplo: da ferrugem ou do fungo preto, etc.), porque estas são veiculadas pela água e as enxurradas em vez de trazer as
doenças para as culturas, assim ao contrário, as levarão embora. após alguns anos, a operação do plantio pode ser reiniciada novamente na
parte baixa.
a orientação da horta deve ser tal a aproveitar ao máximo o sol levante, em especial nos dias curtos e mais frios do inverno.
É bom lembrar que tem hortaliças variadas para determinada época do ano:
— por exemplo: o nabo é para semear no outono ou no inverno para não provocar muito cedo a sua floração, o que prejudica a forma-
ção das suas raízes;
— também o repolho, a couve-flor, a escarola são verduras típicas de primavera e outono, permitindo muitas vezes duas safras por ano,
até no mesmo lugar, desde que a adubação orgânica seja suficiente para manter a força produtiva da terra;
— não esquecer de plantar couve-manteiga e couve-cavaleiro, todavia, umas quatro duzias de pés são o suficiente para ter couve em
abundância, para refogar e para saladas quase o ano todo.
— as plantas de condimento (por exemplo: salsa, cebolinha de corte, aipo de folhas) serão semeadas em canteiros bem acessíveis para
facilitar a colheita, porque estas plantas são de uso quase que diário.
não quero anotar aqui, as qualidades de todas as verduras possíveis de se plantar em uma horta de sítio; tudo depende do gosto do
pessoal que nele vive. todavia, basta dizer que um bom canteiro de cenoura, outro de ervilha torta, outro de vagem-cipó, sem esquecer da
alface, rúcula etc., dá para um bom início desde que plantados na época certa e devidamente tratados.
quem cuida bem da horta pode arriscar a plantação de um a dois canteiros de morango e até de aspargos.
agora vamos à obra e virar a terra com a pá-vanga, fazendo um sulco profundo de uns 30 cm no qual depositamos o esterco. com a terra
do sulco seguinte cobre-se o esterco dando-se leves batidas com um canto da pá nos torrões de terra que não querem se desmanchar. também
restos de cultura podem ser enterrados assim nos sulcos, servindo muito bem de adubo verde.
para não cansar em demasia neste serviço, existe um método simples de manobrar a pá-vanga:

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(dois desenhos mostrando como se manobra a pá).


certo - (levantar pouco a pá).
errado (quando a pá é muito levantada, assim, logo dói a coluna).

pá-vanga: figuras 10 e 11— 1 - prego rebitado. 2 - canto superior rebordado. 3 - travessa de madeira
*encontra-se mais facilmente com corte em linha reta.

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figura 12 — homem cavoucando com a pá-vanga apoiando o cotovelo no lado do joelho.

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— não fazer o seu cabo muito comprido e colocar uma travessa na parte final superior para segurá-lo com as duas mãos na hora de lhe
aplicar a pressão com o pé no canto superior rebordado da parte metálica (ver croqui). depois se dá um movimento para baixo com os braços
no cabo da pá-vanga, colocando-se em posição adequada para fazer esforço, baixando-se o corpo até permitir que o cotovelo do braço que
segura a travessa do cabo encontre-se com a parte interna do joelho do mesmo lado do corpo. com a outra mão se segura o cabo da pá-vanga
perto da parte metálica. um levantamento mínimo da pá-vanga na sua parte metálica permite dar a virada da moita de terra atingida e esta
será assim colocada sem grande movimentação no lugar certo no sulco aberto anteriormente. estranha-se a movimentação dos membros no
início, porém, logo se percebe que este método permite trabalhar horas seguidas sem ter de temer as dores nas costas, tão freqüentes quando
o pessoal não acostumado levanta todo o peso da terra a virar, pá após pá, em posição meio curvada do corpo para frente (coitada da coluna
vertebral, assim, ela sofre demais!).
amiuda-se a terra virada mediante enxada, gancho ou outro ferramental adequado.
as pessoas acima de meia idade em geral não se acostumam mais ao trabalho da pá-vanga; para estas, o uso do enxadão de largura
aumentada será mais indicado; todavia o serviço nunca será igual ao feito com a pá-vanga.
após a formação dos canteiros, amiuda-se ainda a parte superior destes com o rastelo. não recomendo prever canteiros elevados em de-
masia em relação às ruelas, porque a evaporação de água é menor quando o terreno na horta é de superfície, sem grandes saliências.
nos canteiros assim preparados, faz-se riscos longitudinais com a ponta lateral do rastelo, na hora de se semear as hortaliças cobrindo-se
as sementes nos riscos com um pouco de terra. quem está acostumado, sabe fazer este serviço também com o rastelo pressionando-se
levemente as laterais dos riscos com os dentes do rastelo. a terra bem fofa cobrirá o suficiente as sementes miúdas.
a quantidade de sementes a ser usada é muito variável e é possível de se adquirir a prática rapidamente pela observação da brotação das
plantinhas. não adianta querer dar uma descrição certa a este respeito, porque a semente de beterraba, por exemplo, contém várias sementes
no mesmo caroço. a mais, muitas vezes um maço de sementes comprado tem boa germinabilidade, enquanto outro maço contém sementes
arruinadas em parte ou totalmente pelo produto conservador (inseticida). infelizmente aqui no brasil, não temos ainda um controle suficiente
das sementes vendidas, em geral, em condições desfavoráveis: a proteção deve ser adequada contra a penetração de umidade, mas não pode
impedir o acesso

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de oxigênio necessário para a respiração das sementes dentro do respectivo invólucro.


da minha experiência, posso dizer que julgo conveniente a aquisição inicial de maços de sementes de várias procedências até encontrar-
se um determinado fornecedor sério e depois comprar só dele.
em sítio bastante produtivo, pode-se providenciar sementes de produção própria, deixando-se florescer alguns pés das plantas em pauta
e recolher as bainhas, etc., quando estas estão amarelando, quer dizer quase maduras.
consegui ótimos resultados com este método, com o nabo, brócolis e até com repolho. a conservação das sementes em papel jornal me
parece indicada colocando-se os vários maços, com a devida anotação, em uma caixa de madeira com tampa, não muito justa, no fundo da
qual será polvilhado um pouco de gesaverol para evitar-se a introdução de carunchos e outras pulgas. como a bainha do nabo é bastante
dura, não é necessário de se fazer a sua destruição, podendo-se guardar a semente perfeitamente conservada, junto dentro da bainha. na hora
de plantá-la é suficiente enterrar-se bem estas bainhas nos riscos ou sulcos da horta ou da lavoura. se por ventura as plantinhas nascem muito
juntas nos riscos, pode-se retirar uma pane delas de antemão para deixar crescer melhor as demais.
a conveniência de transplantar mudas muito miúdas depende da habilidade do jardineiro, o qual deve sempre se lembrar que uma planta
é também um ser vivo deixado ao seu dispor e sua responsabilidade.
rega-se as plantas sempre o suficiente para manter determinada umidade do terreno, necessária ao crescimento destas e lembrando-se
bem que os gotejos de água nas folhas podem formar uma lente tão ativa para queimar estas na maioria das plantas quando o sol brilha forte.
o certo é a rega das plantas à tarde, após o por do sol nos dias quentes de verão, etc. e de manhã cedo antes do levantar do sol nos dias
frios de inverno. este método é conseqüente ao aproveitamento do pouco calor do solo no inverno a ser guardado cuidadosamente para
passar a noite, enquanto que no verão, as plantas aproveitam bem a umidade à noite acumulando-a nos seus componentes para resistirem ao
calor durante o dia.
uma exceção é a alface com as suas folhas, contendo o suco leitoso o qual impede a sua queima pelo calor forte local. rega-se a alface
no maior calor do dia (em geral após o almoço); comprovadamente a formação de cabeças de alface bem fechadas é ativada pela rega no
calor.
lembrar-se-á que para as plantinhas miúdas e novinhas a rega deve ser feita com regador manual bem pertinho do solo para evitar dani-
ficar as plantinhas (dobra das suas hastes), por gotas de água caídas de grande altura.
pelo fato de uma plantinha sofrer as variações bruscas de temperatura, recomendo deixar a água em cisterna aberta ao sol (ou em
tambores)

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durante o dia, permitindo-lhe assim uma assimilação à temperatura ambiental diária antes de usá-la para rega.
quando a água é de uma mina profunda, é bem provável que a sua temperatura seja bastante igual no inverno e no verão. a água de mina
parece fresca no verão e morna no inverno, o que ajuda as plantas pelas regas vespertinas no verão e matutinas no inverno.
como acima mencionado, rega-se o suficiente para manter no solo a umidade necessária para as plantas. nunca se deve exagerar a
quantidade de água, porque a rega demais freqüente provoca a erosão do solo, levando-lhe embora os sais nutrientes e outros elementos nele
acumulados.
quero lembrar em especial a utilidade de se manter bem fofa a superfície da terra entre as plantas (respectivamente entre os riscos
semeados), para facilitar a penetração da água e do ar, necessários para o desenvolvimento e a vida das bactérias aeróbias de fixação de
nitrogênio, tão úteis para a fertilidade da terra.
um ditado típico, é no presente caso memorável “uma capinação vale para duas regas”; em outras palavras, não adianta só dar água, se o
solo não pode respirar.
a adjunção de chorume ou de adubos diluídos na água de rega pode ser útil de vez em quando, porém, só com as respectivas precauções
para se evitar a contaminação e estragos nas verduras destinadas ao consumo. já houve casos de intoxicações originadas por produtos de
adjunção à água de rega das verduras. a rega com chorume tão útil em plantações de repolho, por exemplo, pode ser feita em dia chuvoso,
com regador sem asperso, no pé de cada planta, quando esta se encontra em estado de crescimento meio desenvolvido, porém, sem alcançar
o estado de formação de cabeça. não recomendo o uso do chorume ou de adubo químico para plantas com bulbos comestíveis em contato
direto com o solo. o uso de esterco bem curtido, colocado antecedentemente na terra em relação à plantação, dará melhores resultados e
permite a obtenção de verduras sem odores desagradáveis e sem perigo de intoxicação. É novamente grande moda na europa a chamada
“biocultura" que é baseada no uso exclusivo do adubo orgânico para as verduras. tal procedimento é, sem dúvida nenhuma, viável e
justificado pelo fato de se evitar assim as conseqüências do uso excessivo e inadequado de adubos químicos.
os resíduos e as sobras das verduras são em grande parte aproveitáveis para os animais; também tendo em geral água corrente no
bebedouro perto do estábulo construído em dois andares com as paredes bastante altas, tão bonitas quando revestidas, de um parreiral, é
lógico de se prever a horta encostada no estábulo podendo assim aproveitar-se em grande quantidade do esterco bem curtido e do chorume.
porém, para evitar à dona da casa ou à cozinheira de ir na grande horta, perto do estábulo, poder-se-á prever uma pequena horta com ervas
de condimentos, perto da casa, na qual se plantará também, muitas flores para alegrar o ambiente. tal disposição evita muitas surpresas, em
especial, quando uma vez ou
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outra há uni camarada que ajuda no sítio, e que não sabe diferenciar as plantas (a salsa e o aipo em folhas são muitas vezes considerados
como sendo mato, apesar do cheiro forte que deveria chamar a atenção de qualquer pessoa, até do mais ignorante em botânica).

b) o pomar

a formação de um pomar é relativamente fácil, obedecendo-se às indicações de distância entre as árvores a serem plantadas.
o pomar moderno é bem diferente do pomar a moda do vovô, porém, em um sitio, não se deve exagerar o modernismo. É bonito ter
também um pouco de variação na vegetação, o que incentiva mais ainda o individualismo.
no pomar moderno, as árvores são podadas à altura determinada, pintados os troncos e os galhos grandes com pintura protetora, e a
sulfatação exige a passagem do trator com a carreta do tanque com produtos inseticidas: para a pulverização. o alinhamento das árvores
deverá ser tal a permitir o acesso fácil aos pés das árvores nas épocas certas, o que em geral impossibilita o uso das entrelinhas para o
cultivo de milho, mandioca, etc., quer dizer de plantas com ciclo vegetativo relativamente grande. também para evitar se danificar em
demasia as raízes das árvores, uma aração profunda não é aconselhável, por exemplo, com arado de aiveca.
por estas razões, é aconselhável deixar o terreno do pomar plantado com capim de pequena altura, por exemplo, regras, trevo encarnato
ou trevo vermelho, também com alfafa, etc. pode-se obter grande quantidade de feno, com este capim, o que ajudará muito para manter os
animais em bom estado durante o período de estiagem.
em pequeno pomar, o corte do capim, pode ser feito com o alfanje, enquanto que para pomares maiores, uma lâmina-ceifadeira
adaptável à mula mecânica é o mais indicado, porque ela é bem dirigível e melhor controlável do que um trator com a sua lâmina ceifadeira
lateral. o importante é de se evitar danificar as árvores.
a escolha das variedades de frutas possíveis de se plantar obedecerá ao gosto do pessoal e às condições climáticas existentes:
— não adianta plantar banana, em lugar de geadas; também é inútil ter dez ou vinte pés de citros com tristeza.
— o mesmo pode ser anotado para o café atacado pelo bicho mineiro.
em geral é melhor ter poucas arvores bem tratadas, do que muitas sem possibilidade de produção.
em regiões sem geadas ou sendo estas raras, pode-se formar um pomar variado, de modo a ter frutas praticamente o ano todo, por
exemplo,

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alguns pés de diversas variedades de laranja e limão, caqui, alguns pés de goiabeiras, ameixeiras, abacate, mamão, fruta do conde, etc.,
e uns pés de louro.
a variedade de frutas no brasil é bem maior em relação à de países europeus.
a disposição das árvores deve ser tal, a não sombrear em demasia o terreno; também se deve colocar as árvores de pequeno porte na
frente das demais, considerando-se um alinhamento na bissetriz (linha central) do ângulo, formado pelas duas linhas de sol nascente e
poente. como já antecedentemente anotado, para um parreiral de uva, pode-se aproveitar uma encosta em terraços com exposição
preferencial para o sol nascente. com um pouco de imaginação e fantasia forma-se um pomar muito útil. não recomendo, no início fazer
experiências custosas com a produção possível de frutas extraordinárias; em geral só os especialistas conseguem sucesso nestas. para um
sitiante, julgo mais interessante ter frutas saborosas e em quantidade suficiente para o gasto durante o ano, do que alcançar a produção de
uma variedade muito delicada, que às vezes, perece em pouco tempo.
para plantar as árvores, abre-se covas quadradas no terreno, com 60-80 ou 100 cm de cada lado e de mais ou menos 80 cm de
profundidade. coloca-se as moitas da relva de superfície e a terra subjacente em separado. espalha-se no fundo da cova uma a duas latas de
20 litros de esterco bem curtido, cobrindo-o com as moitas de superfície e depois com uma camada de terra de uns 15 cm de espessura.
coloca-se a muda bem no centro da cova, juntando-se bem a terra em redor, pisando firme nela, em toda parte da cova.
tratando-se de árvores de tamanho acima de 1,5 m, com tronco ainda fino, é bom dar uma ou duas varas tutoras. a fixação da árvore
no(s) tutor (es) pode ser feita com palha torcida, embira, etc. o importante é deixar um espaço entre o tronco e o tutor para impedir a danifi-
cação da casca da árvore quando balançada pelos ventos.
deve-se também observar a época propícia para o plantio de determinada variedade de árvore frutífera. rega-se, se necessário, porém,
sem abuso.
recomendo cobrir a superfície da terra fofa da cova, com capim seco ou verde para diminuir a evaporação da água, retida na terra da
cova.
É bom prever o plantio das árvores muito frondosas, como mangueiras, uvaia, etc., nas beiras divisoras ou em pastos, para produzir
sombra e proteção contra enxurradas, para os animais. todavia, não se pode esquecer que em dias de temporal, o melhor é recolher a tempo o
gado no estábulo, porque há sempre perigo de perda do gado atingido pelo relâmpago ao cair em árvores, cuja força de atração é muito
variável, dependendo muito da forma e da expansão do sistema radicular destas.

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em morros muito inclinados, a disposição do pomar será feita em curva de nível, mas observando-se em especial o traçado dos
caminhos de acesso para facilitar tanto o transporte do esterco para a adubação do pomar, como a coleta das caixas com as frutas na época
da safra. também é bom calcular a largura suficiente das estradinhas para a passagem da carroça, alargada para recolher o capim, seja verde
ou seco do pomar.
É milito importante em um pomar, cuidar-se bem do produto de pulverização das árvores, para se evitar a concentração de inseticida no
capim. em caso de dúvida pode-se aproveitar do capim contaminado na esterqueira ou para adubação verde, enterrando-o na lavoura com o
arado. em geral, porém, após um ou dois dias de chuva, não existe mais no capim do pomar inseticida em quantidade suficiente para
provocar intoxicações graves em animais de grande porte.
não recomendo o pastorejo de animais em pomares, uma vez que os animais de grande porte danificam as árvores pela sua força e que
cabras e ovelhas são as especialistas para descascar os troncos com os dentes incisivos, bastante cortantes.
em regiões com clima favorável, pode-se plantar alguns pés de cerejeira de variedade já adaptada. também alguns pés de oliveira não
podem ser desdenhados, desde que se escolha as variedades complementares para a polinização das flores.
em sítios, com condições rústicas, vai-se plantando algumas árvores, mediante mudas não melhoradas, que nascem de sementes às
vezes trazidas por pássaros.
quero animar os interessados a multiplicar o número das árvores mediante dois métodos em si, simples e eficientes, desde que sejam
respeitadas algumas regras gerais:
— em um lugar da horta, bastante fresco e sombreado, por exemplo, no canto de menor incidência do sol pela tarde, afofa-se a terra por
uns quinze centímetros de profundidade, formando-se um pequeno canteiro bem acessível para o seu controle. formam-se mudas de
macieira, pereira, marmeleiro, uva, caqui, na época da poda (que na região de são paulo, é o mês de julho e agosto; na lua minguante),
aproveitando-se para isso dos galhos da grossura de um dedo, cortados em pedaços de vinte a trinta centímetros com um facão bem afiado,
apoiando-se o galho em um toco de madeira para ter um corte bem determinado e sem machucar muito a casca. o corte será feito no lado
base, perto de um olho de brotação. as mudas assim formadas serão colocadas no canteiro, enfiando-as na terra fofa até alcançar, se possível
o fundo. o sentido de percurso normal da seiva no galho deve ser respeitado, porém, não é impossível que mudas invertidas brotem muito
bem. rega-se de vez cm quando o canteiro e se necessário cubra-se a terra com sapê ou palha.

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em geral, com um pouco de prática e muito cuidado consegue-se a brotação de 60 e mais por cento das mudas.
para variedades de árvores de brotação difícil, como o louro, o melhor método de formação de mudas é a fixação de galhos flexíveis dos
pés no solo, mediante forquilhas, cobrindo-se o todo com terra fofa, amontoada até uns trinta a quarenta centímetros. as ramificações das
pontas dos galhos serão deixadas à vista.
deixa-se assim os galhos semi-enterrados, durante meses, sempre unidos à planta-mãe. para forçar mais rapidamente a brotação de
raízes nos galhos em pauta, faz-se após aproximadamente um a dois meses. um inicio de corte no galho do lado da planta-mãe. após uns
dois meses este corte será aumentado em profundidade e depois de ter a certeza do encaixamento dos galhos, corta-se estes por completo,
deixando-os ainda no mesmo lugar em redor da planta-mãe.
na época favorável ao transplante, os galhos enraizados serão desenterrados e divididos em mudas conforme os brotos neles nascidos
deixando-se um comprimento suficiente do galho enraizado a cada muda. já consegui tirar vinte e duas mudas de uma planta-mãe em uma
operação. vale dizer que a formação de mudas de louro não é assim tão difícil como muitos acreditam.
quero também mencionar que a poda das árvores é importante para a sua formação conveniente, porém, não se deve ter medo de se
cometer às vezes alguns erros no início.
posso dizer que a prática e a observação dos resultados levam ao mestrado, desde que sejam respeitadas as regras primordiais.
a forma de uma árvore é obtida mediante a fixação dos seus galhos em arames, varas-guias etc. e por corte dos brotos, galhos
supérfluos.
para alargar-se uma árvore ou para aumentar-se o comprimento dos cordões de parreirais, cortar-se-á sempre o respectivo galho terminal
ascendente, perto de um olho de brotação que se encontra na parte inferior do respectivo galho. assim, por brotação simples a árvore alargar-
se-á, sem dar muito trabalho.
o bom jardineiro sabe eliminar os galhos nas árvores que porventura chegariam a cruzar-se no futuro. em caso desta ocorrência, é fácil
de eliminar até galhos de boa espessura mediante o serrote, dando um pequeno corte inicial na parte inferior do galho, bem no sentido
perpendicular a sua provável queda. depois, faz-se o corte do lado superior do galho, diminuindo a sua espessura restante por igual, de cada
lado lateral do galho, até que o peso próprio vence a resistência das fibras restantes que racham no momento da queda do galho, deixando
um corte nítido sem grande ferimento.
para terminar, quero anotar o fato dos pulgões serem afastados dos pés das árvores ao plantar aos seus arredores, capuehina, chamada
também de flor de chagas.

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no caso de invasão maciça de pulgão, por exemplo, em folhas de couve, repolho, etc., faz-se uma infusão de camomila um tanto forte,
por exemplo, um maço por litro de água, à qual se junta em mais 10 litros de água, tendo o cuidado de se diluir nesta, argila bem fina e sem
resíduos, de modo a poder utilizar um regador ou um pulverizador de bico grosso para a aplicação desta solução.
em geral, pode-se evitar a ocorrência de muitas pragas, com a plantação de determinadas ervas em pomares e na horta, por exemplo, de
alguns pés de fumo, cuja ação contra o fungo preto é inegável, de vários pés de sálvia e alecrim e sem esquecer do tomateiro-cereja que
permite também fazer doces especiais e que dificilmente será atacado por pragas, que se afastam dele só pelo seu cheiro forte, que emana
desta planta ao tocá-la só de leve.

c) apiÁrio rÚstjco

formar um pomar, sem ter abelhas por perto, corresponde a aceitar a perda de grande quantidade de frutas em conseqüência da
insuficiente fecundação das flores.
apesar de existirem muitos insetos e abelhas selvagens, que visitam as flores dos pomares, quando a floresta não é muito afastada das
plantações, devo recomendar a todos os sitiantes com um pomar de certo vulto, de se formar um pequeno apiário, ainda que seja muito
rústico, porque ele será sempre de grande utilidade, pelo fato das abelhas penetrarem melhor nas flores apenas abertas do que os insetos e
muitas vezes forçando a abertura da corola, na colheita do néctar e do pólen, elas deixam assim este último com segurança no pistilo das
flores quando ele se apresenta com o estigma apto a recebê-lo.
todavia., recomendo todo o cuidado na colocação do apiário em regiões de cultivo de hortaliças tratadas com soluções tóxicas, por
exemplo, o tomate, para se evitar a poluição do mel com possíveis conseqüências imprevisíveis.
devido ao cruzamento da abelha africana com a abelha indígena, é muito difícil e cedo demais ainda para um pronunciamento relativo
às regiões onde se pode novamente tentar a criação de abelhas legítimas ou já cruzadas, porque as muitas linhagens resultantes da
mestiçagem das abelhas de diversas procedências com a africana devem ser bem selecionadas e observadas durante tempos prolongados,
quer dizer por gerações seguidas até poder opinar sobre as suas qualidades e defeitos definitivos.
porém, para pequenos e médios sítios, a colocação de algumas colméias nos pomares, em lugares afastados o suficiente das benfeitorias
e se possível perto de um regato para ter água limpa e fresca à disposição, será o suficiente para melhorar a polinização especialmente das
variedades de frutas de árvores com flores machos ou fêmeos separadas. pode-se lucrar

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até mais de 30% no rendimento das safras praticamente com todas as frutas, mas até mais de 300% no caso típico do abacateiro.
a tendência atual é de não se considerar mais a abelha africana tão feroz e criminosa como quinze anos atrás, aproximadamente. de fato,
em muitas regiões surgem estirpes de abelhas mestiças bem menos perigosas do que a africana original.
das minhas experiências posso anotar as seguintes constatações:
— a africana é uma abelha que trabalha fora do comum no início da formação da colméia até ter um acúmulo de favos com mel e pólen,
para a procriação de enxames que não serão poucos. pessoalmente constatei a saída de quinze enxames da mesma colméia. parece que não é
fora do comum de saírem até trinta enxames de uma só colméia em um ano, o que explica a rápida propagação desta abelha por todo o
continente sul americano e que passando pela américa central e o méxico, já alcançou o sul dos estados unidos. comparativamente com os
três enxames de média anual de uma colméia das abelhas italianas ou com um enxame só da abelha preta mauense (chamada aqui de alemã),
a procriação da africana é incrível.
— a abelha africana alojada em colméia com favos direcionais no alto das molduras, chamadas também de quadros ou caixilhos, não
tem noção disto e produz favos tortos ao ponto de interligar as molduras. encontrei em uma colméia de africanas os favos construídos em
sentido quase perpendicular aos favos direcionais e também tortos de cima para baixo, apesar de ter sido diminuído o suficiente a distância
entre as molduras. parecia que os favos-guias vazios só atrapalhavam as africaninhas.
— quando a abelha africana é “bem de vida”, o enxame quase inteiro vai à guerra e pilha colméias de abelhas vizinhas no próprio apiá-
rio, o que foi a ruína de muitos apicultores.
— a vestimenta protetora de brim grosso, que se usa para a abelha comum, não é suficiente para dar proteção ao pessoal, contra as
ferroadas das africanas, cujo dardo deve ser bem mais comprido do que aquele da abelha comum, porque nem pulôver de lã em baixo do
brim foi o suficiente para impedir ao dardo de alcançar a pele.
— a africana ataca à grande distância pessoas e animais, sem motivo aparente e mesmo sem ser molestada. parece que ela quer o do-
mínio de certa área do lugar em redor da colméia. já observei e sofri o ataque das africanas a uma distância de mais de cem metros, sem o
menor motivo. o ataque ocorre por traição e por quantidades incríveis de abelhas, obrigando a gente a ficar dias, recluso dentro da casa, com
um fumiga dor feito de um balde contendo brasa no qual se queima pedaços de pano ou de roupa

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fora de uso porque senão as africanas sempre encontrarão uma fresta para penetrar até dentro da casa e atacar. e não adianta fingir de morto
porque elas sabem bem quando a gente respira. só conheço uma variedade igual à africana (se não pior) é a cipriota, que é, porém de
tamanho menor. a verdadeira expressão para qualificar a africana abastecida é “assassina”.
— a rainha da abelha africana vive no máximo dois anos, enquanto as rainhas tanto de descendência estrangeira como das estirpes
indígenas, podem alcançar longevidade de até seis anos.
do acima citado, pode-se deduzir que não adianta querer tratar a abelha africana do mesmo modo que as abelhas européias ou indígenas.
o melhor é adotar o método de trabalho da apicultura primitiva da África, especialmente da etiópia, para se chegar a um resultado
satisfatório e não perigoso em demasia até para os medrosos e os alérgicos às ferroadas: confeccionam-se caixinhas de madeira de
aproximadamente 30 cm de largura, 35 cm de comprimento e 20 ou 25 cm de altura, tipo caixa de tomate modificada. colocam-se estas
caixas em sentido invertido em cima de uma tampa-piso de 40 cm de comprimento, de modo que a parte de fora da caixa forme a plataforma
de pouso para as abelhas na frente da colméia. uma abertura de mais ou menos seis milímetros de altura por 100 mm de comprimento na
borda da caixa-colméia do lado da sua junção com a tampa-piso que forma a plataforma de pouso, dará acesso à colméia. no fundo da caixa-
colméia, quer dizer no alto da colméia (com a caixa invertida) fazem-se alguns furos com passagens das abelhas para um andar superior
formado por outra caixa superposta na primeira (porém, sem abertura de passagem das abelhas), quando a produção de mel será ótima,
senão se fechará estas aberturas com uma tábua fina, adequada e fixada por dois preguinhos finos e curtos, para poder remover esta tábua na
hora da colocação do andar superior. o teto da colméia pode ser feito de uma pequena estrutura de ripas para segurar algumas telhas em
posição pouco inclinada ou para amarrar uma camada de palha ou capim sapé que mantém a temperatura da colméia muito mais constante
do que um telhado.
alguns furos de um quarto de polegada, feito no alto da caixa invertida (o melhor na sua parte frontal, bem acima da abertura para o
acesso das abelhas), permitem melhorar a aeração na colméia, se aceitas pelas abelhas, senão elas as fecharão com própolis que é a resina
utilizada pelas abelhas para fixar a caixa-colméia na tampa-piso e para vedar frestas e outras aberturas não toleradas. pode-se apoiar a
colméia em alguns tijolos ou em pedras amontoados de modo a permitir às abelhas de desalojar ou eliminar os ratos e outros animais que
porventura procuram refúgio embaixo da colméia. também um bom mourão ou dois de madeira resistente à putrefação (por exemplo, de
gabiroba, chamada também de pau

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esteio) serve bem de assento para a colméia. para aumentar a sua estabilidade pode-se pregar nos mourões duas travessas de madeira
(pedaços de caibro).
a posição da colméia deve ser tal, a dirigir a sua abertura para o sol levante do inverno. em regiões de muita ventania, pode-se formar
um quebra-vento, com arvores de folhas perenes (por exemplo, laranjeiras bem elevadas), que será bem aceito e de grande utilidade para o
apiário.
É bom esfregar as caixas-colméia novas com erva cidreira, folhas de laranjeira ou de limoeiro, tanto na parte interna como externa, na
hora da sua colocação no pomar, o que atrai melhor os enxames.
no caso de ter um enxame já recolhido, é suficiente despejar este na caixa colméia ao anoitecer, dando-se dois ou mais calços de
madeira de um a dois centímetros de espessura entre a caixa colméia e a tampa-piso para não esmagar as abelhas. estes calços podem em
geral ser removidos no dia seguinte de manhã bem cedo.
deixa-se as abelhas produzirem os seus favos a vontade e enchê-los de crias, mel e pólen. após poucos meses, quando se percebe que as
abelhas tornaram-se bem bravas, apesar de ter mais um andar superior para o depósito adicional de mel na colméia (já cheguei a dar três
caixas superpostas), teremos de decidir entre seu sacrifício ou sua conservação:
a) no primeiro caso, que é o mais lógico, quando existirem enxames e não querer ou poder mais, o mais fácil é fechar todas as aberturas
da colméia com pelotas de barro amassado e bem aderente. em um canudo de taquara verde, coloca-se pó de enxofre, que se aquece no fogo
para desprender bastante gás. faz-se então um furo no barro da abertura da colméia com o canudo, tendo na sua ponta um pedaço de canudo
auxiliar para não tampar de barro o canudo que contém o enxofre quente. retirando-se este último o suficiente para ter certeza de que a sua
abertura na ponta seja separada do canudo auxiliar no interior da colméia, sopram-se algumas baforadas bem fortes na colméia que é assim
invadida pelos gases que não tardam a fazer o efeito procurado, asfixiando todos os seus habitantes. depois de um dia, pode-se remover a
colméia para um quarto bem vedado por tela, contra a entrada de moscas e abelhas e retirar dela o mel, a cera e o ninho de criação que assim
é infelizmente perdido. este método de apicultura bem primitivo é de se tolerar só para lidar com as abelhas africanas ou as suas estirpes que
não têm ainda noção nenhuma da construção retilínea dos favos, que misturam mel, crias e pólen no mesmo favo e quando temos enxames
muito agressivos em excesso.
b) no segundo caso, quer dizer quando se quiser conservar a colméia, pode-se retirar parte do mel com ferramentas adequadas para
recortar os respectivos favos ou partes deles na colméia – 47 -

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virada em sentido contrário, quer dizer, com o lado fechado pela tampa-piso virada ao alto, após desprender-se suavemente com um formão
a caixa-colméia da tampa-piso. o ferramental é composto de duas facas bem típicas, de lámica estreita e resistente que se pode elaborar de
um pedaço de aço redondo de 7/16 de polegada de diâmetro e de trinta e cinco centímetros de comprimento, tendo de um lado um cabo de
madeira para facilitar o seu manejo seguro. uma das facas tem na sua ponta a lâmina de modo a poder fazer cortes verticais nos favos,
longeando as paredes da caixa-colméia. a outra faca tem a sua lâmina em sentido de 90º de ângulo em relação à primeira, para poder recortar
os favos em linha paralela no fundo da caixa. o comprimento das lâminas é de 25 a 30 milímetros, sendo o melhor forjá-las do próprio aço
redondo. descendo-se devagar a lâmina da faca de fundo entre os favos, dá-se um movimento de 90º de ângulo no cabo da faca para pô-la
em determinada posição no favo ou na sua respectiva parte a ser cortada.
aplicando. se pouco antes do início do serviço, algumas baforadas de fumaça, com um fumigador tipo bico de pato bem eficiente,
acalma-se o bastante as abelhas na colméia para assim ficar menos agressivas contra a intromissão do apicultor rústico. escolhe-se sempre os
favos ou parte deles bem cheios de mel, deixando-se o tanto quanto possível conservado o ninho das crias e os favos vazios ou com muitos
alvéolos cheios de pólen em favos com mel, o que se reconhece bem pela cor menos brilhante e com a sua cobertura um tanto mais abaulada
do que aqueles com mel. não é raro nesta visita da colméia de poder observar-se a rainha de tamanho bem maior em relação às operárias e
com o abdômen mais comprido do que o dos zangões. deve-se tomar todo o cuidado de bem conservá-la e de não desalojá-la do seu lugar.
evita-se também de esmagar muitas abelhas, especialmente ao terminar o serviço, quando restos de favos recortados poderiam ruir.
recomendo providenciar de antemão, alguns pedaços de arame galvanizado bem limpos para improvisar, se necessário, suportes para os
favos recortados com pouca resistência à flexão. para repor a caixa-colméia na sua devida posição em cima da tampa-piso, toma-se todo o
cuidado possível de virá-la no sentido de maior resistência dos favos, quer dizer, no sentido do eixo longitudinal dos favos e nunca no sen-
tido do eixo transversal. o método aqui descrito é também aplicável com bons resultados para a remoção do mel e de enxames alojados em
cavidades naturais (grutas) e em tocos ocos de árvores do mato, após providenciar o devido acesso ao enxame, por exemplo, após o corte do
tronco com serra, cuidando-se da queda suave da árvore mediante uma amarração por cordas e alavancas.

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em geral, a colméia visitada se recupera muito depressa da intromissão do apicultor rústico, se a maior parte do ninho das crias for
poupada e desde que a rainha não for eliminada. pessoalmente já retirei quinze quilos de mel e cera de uma colméia improvisada por uma
caixa de tomate devidamente melhorada e reforçada. o método de substituição da caixa adicional acima da “caixa-cria”, quando se percebe
que a primeira (chamada também melgueira) está bem guarnecida de mel, é muito usado ainda hoje no maciço central da frança, por
apicultores com poucos recursos.
a vantagem deste método é de não se mexer na caixa-ninho que é separada da melgueira por uma teia, que impede a rainha o acesso a
esta última, não tendo assim nesta nem pólen, nem crias, só favos de mel que se recolhe muito puro e sem derramar.
quero salientar mais uma vez, que os dois métodos descritos em relação à abelha africana são considerados de emergência para poder
aproveitar-se destas até o dia de ter novamente espécimes mansos e ordeiros para operar com abelhas em colméias definidas e de padrão
normalizado nas suas dimensões, com os seus favos em molduras adequadas para poder centrifugá-los no extrator. não falta a devida
literatura de apicultura moderna para que os interessados possam se instruir. também a participação de cursos de apicultura em apiários
reconhecidos é de grande proveito para os principiantes nesta profissão que vai ter futuro certo desde que se dê à apicultura toda a atenção
que ela merece, em todo primeiro lugar por parte das autoridades regionais, mas também por parte dos agricultores e principalmente por
parte dos sitiantes e em geral por todos os habitantes deste brasil, tão grande, para proteger, melhorar e conservar as boas estirpes das nossas
laboriosas amiguinhas, tão úteis e generosas, desde que bem tratadas e selecionadas.
não posso deixar de mencionar aqui, que na etiópia a colméia é constituída de um pote de barro cozido em fogo aberto ou simplesmente
envernizado do lado externo, tendo uma abertura bucal na parte ovalada central de forma a não deixar penetrar a chuva. um furo na base do
pote evita o acúmulo de água de condensação ou outra nele. penduram-se estes potes-colméias em galhos nas árvores, após esfregá-los com
capim cheiroso e as abelhas vão alojar neles por conta própria, pois enxames não faltam, o tratamento dado aos potes-colméia, cheio de mel,
é idêntico ao descrito para o sacrifício da colméia em caixa de madeira sendo necessário quebrar-se o pote para recolher o mel e a cera,
procedimento só justificado pelo número enorme de enxames com as suas rainhas com pouco tempo de vida, que é característica toda
particular desta raça de abelhas de excepcional ferocidade em relação ao seu tamanho. um fator positivo resultante da quebra do pote-
colméia é a não transmissão de possíveis doenças para outros enxames ou colméias.

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9º Ítem - cultivo de gÊneros de primeira necessidade

9.1 – arroz

o cultivo do arroz, para o uso familiar, em sítio pequeno, pode ser recomendado em todas as regiões, com clima favorável, desde que
seja adequadamente tratada e escolhida uma variedade economicamente viável e de uso para a culinária.
na compra de semente, deve-se prestar atenção ao fato de existirem variedades para cultivo irrigado e outras variedades para cultivo em
encostas ou baixadas não irrigáveis. como para muitos cereais, recomendo para o arroz de se avaliar, qual a variedade que se dá bem em
determinado solo e que seja mais ou menos resistente o suficiente às pragas e doenças. em geral, para um sitiante ou fazendeiro vizinho, será
para ele uma honra vender ou até dar alguns quilogramas de sementes para um principiante.
a época do plantio em terrenos sem irrigação é no início das águas e se fará em sulcos rasos de mais ou menos cinco centímetros de
profundidade, em filete contínuo, distanciando-se os sulcos de 60 a 80 cm, considerando-se a fertilidade da terra. são necessários cerca de 30
kg de sementes por ha.
para o arroz irrigado, o plantio pode ser feito mais tarde por semeadura direta ou de transplante, sendo que este último é mais caro;
todavia economiza-se tempo de permanência dele no terreno irrigado, com a conseqüente economia de água.
quando a semeadura é direta, fazem-se fileiras separadas de 30 centímetros entre si. a jorro contínuo, calcula-se mais ou menos 100 kg
de sementes por hectares.
para o transplante, prevêem-se viveiros onde se semeia o arroz cuidando-se da eliminação das ervas daninhas. quando as plantinhas do
arroz alcançarem o tamanho certo para o transplante, coloca-se de quatro a seis mudas por cova, as quais são separadas de 20 a 30
centímetros conforme a variedade. são necessários de 30 a 35 quilogramas de sementes para obterem-se em viveiro as plantas para repicar
em um hectare.
recomendo corrigir a acidez do solo, se necessário, mediante o uso de cal (mais ou menos 800 kg por ha.) e se incorporar esterco bem
curtido, arando-se o terreno bem antecipadamente ao plantio.
as ervas daninhas que brotam, antes do plantio, são facilmente eliminadas com uma grade de disco em plantações de vulto, e
simplesmente com um gancho ou com a enxada na pequena plantação, deixando-as secarem.
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a quantidade de esterco pode ser de 10 a 20 toneladas por ha. e se a adubação for insuficiente pode-se completá-la com adubos químicos
apropriados:
— fosfáticos: de 100 a 200 kg/ha., (de ação rápida);
— potássicos: de 50 a 100 kg/ha.;
— nitrogenados: de 40 a 90 kg/ha.
durante a perfilhação do arroz, pode-se aplicar mais ainda 70 a 150 kg de adubo potássico por hectare.
É bom controlar a fertilidade do solo para o arroz de irrigação, visto que a sua maior produção exige também o maior uso de sais
minerais. aproveita-se da retirada da água necessária ao trabalho de limpeza do arrozal, para aplicar-lhe em uma ou duas doses, 100 a 180 kg
de salitre potássio ou adubo similar adequado.
o rendimento pode ser avaliado de 1.500 a 2.500 kg de arroz em lasca por hectare, dando de 800 a 1.800 kg em grão.
houve já em pequenas parcelas, rendimento de 8.000 kg/ha. para o arroz irrigado.
para o uso de um sítio, no qual vivem quatro a cinco pessoas, calculando-se cinco kg de arroz por semana, requer-se mais ou menos 250
a 300 kg de arroz ao ano, produção possível em 2.000 m2 de plantação bem tratada.
o importante é se evitar estragos por bandos de passarinhos, na hora do arroz amadurecer.
a safra do arroz em pequenas parcelas de cultivo e feita mediante o ferro, cortando-se as hastes com os cachos bem carregados, indo
batê-los em uma viga devidamente armada dentro de paredes de lona para evitar-se grande perda de grãos. após peneirar o arroz, secá-lo em
uma lona ou lençol esticado em um terreno bem ensolarado.
em caso de não existir maquinário na vizinhança, para o beneficiamento, pode-se proceder para isso, do seguinte modo: numa tarde bem
quente a casca palhuda do arroz é facilmente eliminada quando esfregado, ou levemente batido em pilão de madeira.
o arroz assim obtido é o arroz integral, no qual permanece a película de farelinho, tão recomendada nos diversos regimes vegetarianos.
a conservação do arroz pode ser feita em latas ou tambores fechados o suficiente para impedir a entrada de camundongos, ratos, baratas,
etc., porém, permitindo a entrada de pequena quantidade de ar controlada. esta última medida é muito importante quando as sementes em
casca são guardadas conjuntamente com o arroz de consumo descascado.
todavia, recomendo guardar as sementes do arroz, em separado se possível, na respectiva caixa de madeira ou metálica forrada, na qual
são guardadas as sementes das hortaliças.

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recomendo não destruir pelo fogo, a palha, nem as cascas do arroz, visto que delas se obtém um bom esterco, seja por adjunção direta à
esterqueira, ou melhor, com uso no estábulo ou na pocilga, removendo-se esta conjuntamente com o estrume para a csterqueira.
o arroz miúdo ou muito quebrado pelo pilão é a alimentação preferida para os pintos, junto com um pouco de quirera.
para terminar, quero mencionar que existem novas variedades de arroz com a produção elevadíssima, obtidas por cruzamentos
sucessivos de diversas variedades. entre os países muito interessados nestas novas variedades, citam-se as filipinas, cuja taxa de crescimento
demográfico é um pouco maior do que aquela do brasil. porém, recomendo muito cuidado no uso de variedades novas, às vezes facilmente
degeneráveis e cujo produto não é do agrado de todos, especialmente quando consumido em estado integral. estas novas variedades são
beneficiadas e trabalhadas com parafina para melhor apresentação, fato discutível em relação às possíveis conseqüências para a saúde
humana.

9.2 – feijÃo

o feijão é de plantação comum e muito conhecido quase de todos, desde criança. vale, todavia lembrar, que para se conseguir uma boa
colheita, o feijão requer uma terra fértil e bem fofa, com uma adubação orgânica, se possível feita com antecedência de uns dois meses em
relação ao plantio. o solo pode ser neutro ou levemente ácido, todavia, devem-se evitar solos infestados de fungos cinzentos, marrom ou do
fungo preto, cujos efeitos são determinados pelas condições climáticas locais. o feijão não resiste também às geadas, às secas excessivas e
sofre muito em períodos de chuva prolongados.
planta se na região de são paulo, o feijão em duas épocas bem distintas:
- no mês de setembro para o feijão das águas, cuja safra se faz em geral em dezembro (o que permite uma plantação de milho ou de bata
doce no mesmo lugar);
- fins de fevereiro ou início de março para o feijão da seca, colhendo-se este, mais ou menos, no mês de maio, antes das geadas, sendo
possível semear em seguida o nabo de inverno, que se aproveita para o gado na época de estiagem.
das muitas variedades existentes de feijão, escolhe-se uma ou duas bem produtivas e de boa aceitação.
o feijão é uma planta esgotante da terra em determinados elementos; mas ajuda a regenerar o solo em nitrogênio que se acumula nas
suas raízes em pelotinhas brancas bem características.
sendo uma leguminosa, o feijão exige uma adubação bem adequada de acordo com a composição do solo. ao manter a plantação bem
limpa de ervas daninhas, mediante a carpideira ou enxada, o feijão chega a render de 1.000 a 1.500 kg por ha. e até mais para plantação com
cuidados bem dirigidos.

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figura 13 – uma roça de feijão nascente no alto do morro.

a colheita é manual, arrancando-se as plantas inteiras quando as bainhas são de cor amarelada, sinal do inicio da maturação. na época
das águas é bom pendurar o feijão em maços pequenos, em um galpão aberto, bem arejado para ativar a secagem.
em dia bem ensolarado, expõe-se o feijão assim no ponto em um terreiro seco, virando-o uma a duas vezes, assim, no sol do após meio-
dia, o feijão está pronto para malhar com varas de pau de arco, mantidos em feixe ou individualmente nas mãos. bate-se nas plantas secas
até quebrar por completo tanto as bainhas como as hastes. após escolher a palha do feijão com a forca de quatro pontas, recolhe-se o feijão
com os resíduos finos da malhação em sacos de papel ou de juta, pronto para abaná-lo com vento favorável, mediante uma peneira de malha
média. pode-se guardar o feijão peneirado com aditivo anti-caruncho em sacos de papel ou junto com os finos antes de peneirá-lo. o caboclo
tem como praxe colocar nos sacos, um pouco de terra de formigueiro, junto com o feijão e os finos. os carunchos e as traças têm grande
respeito para componentes que cheiram a proximidade de formigas.

9.3 — batata
É bom calcular o plantio da batatinha em escala doméstica de uso no sítio, em duas épocas do ano, evitando-se os períodos de grande
calor ou de intenso frio.

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a batata é sujeita as diversas doenças e preferida por muitos insetos, de modo que cm geral a sua proteção por produtos adequados e em
quantidade certa é absolutamente necessário.
a aplicação destes produtos por pulverização ou aspersão pudica ser feita em pequena escala com sulfatadora portátil, a qual deve ser
limpa muito bem, após o uso.
também é óbvio que o tratador tomará banho logo após o tratamento, para evitar intoxicações.
em especial, posso recomendar muito cuidado com os recipientes onde se prepara o produto. já ocorreu que uma vaca solta, foi beber a
mistura e morreu umas duas horas após a ingestão, não tendo sido possível o aproveitamento de sua carne.
o preparo da terra exige a aração profunda feita em geral para enterrar o esterco e a cal de correção do ph. a batata prefere solos frescos,
permeáveis e ricos em matéria orgânica de reação pouco ácida. após gradeação, risca-se o terreno com sulcos separados de 50 a 60
centímetros, plantando-se as sementes a uma distância de 30 a 40 cm nos sulcos, cobrindo-se estas com uma camada de terra de mais ou
menos 10 cm de espessura.
a quantidade de sementes necessárias por hectare depende muito do tamanho destas e da distância na plantação. calcula-se mais ou
menos 1.500 a 1,800 kg/ha. hoje em dia, a semente de batatinha vendida aos agricultores é tratada em geral com bi cloreto de mercúrio em
solução de 1/1.000 (um por mil) ou com fungicidas modernos. o tratamento consiste em deixar as batatinhas durante uma hora e meia em
uma tina contendo solução, sendo as batatinhas após a sua remoção da tina, deixadas esgotar em grades e depois postas a secar em um
galpão bem arejado e sombreado.
como esta solução é muito tóxica, devem ser tomados cuidados com as sementes assim tratadas, as quais não poderão ser aproveitadas
para o consumo humano e nem mesmo animal.
É bom lembrar que a batatinha é uma destas culturas de rotatividade, subindo-se o morro para evitar a infestação do terreno com fungo
preto, etc..
recomendo também para o cultivo da batata, o uso de esterco em cheia fermentação aplicado com antecedência, em quantidade de 30 e
mais toneladas por hectare, dispensando-se assim fora da cal, qualquer adubação química adicional.
em caso de não ter esterco em quantidade suficiente, pode-se aplicar por hectare de 400 a 600 kg de adubo fosfatado com 20% de p2o4,
80 a 120 kg de cloreto ou sulfato de potássio e 400 a 600 kg do salitre do chile sódico ou potássico ou outro adubo equivalente.
os adubos fosfatados e os potássicos são aplicados com antecedência no fundo do sulco, evitando-se a colocação maciça local. também
a

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metade do salitre poderá ser aplicada no sulco e o restante ao lado elevado das fileiras pouco antes da “chegada da terra”, termo que designa
o acúmulo de terra no pé das batatas após carpi-ias, serviço este que se executa após uma chuva leve que afofa a terra, porém, evita-se este
serviço se a terra for muito molhada para impedir de empastá-la. em plantação pequena de alguns sulcos, todos os serviços podem ser feitos
com a enxada. em sítios maiores com plantações mais ou menos comerciais, a carpideira será de grande utilidade, com o uso de um animal
bem adestrado. o bom é exigir razoável avanço do animal para se evitar danos ao “bambar” de uma fileira à outra.
para a chegada da terra, pode-se usar o riscador devidamente regulado para manter por igual a profundidade do sulco agora feito entre
as fileiras. no fim deste serviço é bom seguir as fileiras ajudando as plantas a se liberar da terra, se forem cobertas em demasia.
não esquecer que todas as plantas são seres vivos e gostam da nossa ajuda para o seu bom desenvolvimento.
sulfata-se a batatinha em dias sem chuva, quando necessário, repetindo-se a operação sem prescrição fixa, porque às vezes a ação do
sulfato é eliminada em 80% por uma chuva passageira após a sua execução inicial.
todavia evita-se a aplicação excessiva de defensivos sempre que se possa. pela observação das plantas, é fácil de se avaliar se a
sulfatação é necessária: a ocorrência de manchas pretas nas bordas de folhas novas ou nos talos é um sinal bem determinante do fungo preto.
recomendo aos principiantes o uso correto de defensivos na base de só 60 a 80% da quantidade indicada, observando-se o efeito antes
de se aplicar outra dose, pode-se manter esta quantidade se o efeito é favorável.
assim, pode-se também evitar a morte de muitos passarinhos e insetos úteis, sem grande prejuízo no cultivo da batatinha.
a colheita é feita com gancho de dois ou três bicos e devidamente curvados para facilitar a manobra.
com um pouco de prática, fácil de se adquirir, evitar-se-á machucar as batatas, as quais são deixadas, pouco tempo, ao sol para secar e
depois armazenadas em porão fresco e sombreado, fechando-se as janelas com panos para se evitar que os tubérculos fiquem verdes,
deixando um cheiro excessivo de batatas, neles. calcula-se no brasil, safras médias de mais ou menos 5.000 kg por hectare, muito abaixo das
20 a 30 toneladas, por hectare, em países europeus e norte-americanos.
pessoalmente, consegui colher em uma safra 2.000 quilos em terra propícia perto de são paulo, em uma superfície pouco maior de um
are (= 1/10 de hectare), chegando-se assim a um rendimento de 18 toneladas por hectare aproximadamente. fora a pequena quantidade de
cal, misturada a muito esterco de curral, não usei adubos químicos, obtendo-se

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assim uma qualidade fora do comum de batatas, que foram tão bem aceitas ao ponto de amigos e conhecidos quererem comprar batatinhas
do meu sítio, anos após esta safra mencionando-se “e se possível desta mesma qualidade”!, considerada excepcional.
não houve nada de excepcional. era uma bintje de tamanho regular, com a carne firme, prestando-se muito bem para a fritura (não deve
desfazer-se no óleo quente).
atualmente, quero tentar a aclimatização de uma variedade francesa, porém, bastante rebelde (beauvaise). de três batatinhas bem sadias
e tratadas que me foram remetidas por um viajante. consegui já até 60 sementes razoáveis, fora das batatas grandes consumidas.
dcvo mencionar que após quatro anos, esta variedade não se acostumou ainda ao clima do brasil, brotando na época do ano
correspondente ao europeu. talvez, após mais uns dois ou três anos, as minhas tentativas (que faço com espírito esportivo) podem dar
resultados satisfatórios.
esta variedade é cultivada na frança, para uso na sopa de verduras. dando-lhe um gosto típico, que a gente nunca mais esquece. também
para o purê, esta batatinha é muito indicada, dando uma massa muito fina, sem grânulos. de fato, a variedade em pauta é a preferida para as
fábricas de fécula de batata, de uso muito difundido na cozinha francesa e grande produto de exportação para muitos países do mundo
inteiro.
anotei aqui esta tentativa de adaptação, no brasil, de uma variedade típica francesa, sem intenção de incentivar os sitiantes a fazer o
mesmo, porque as frustrações passageiras muitas vezes são grandes, podendo desanimar os mais teimosos. como já anotado, precisa de boa
dose de espírito esportivo e ser nascido para mexer com a lavoura, amar a natureza, considerando-se as plantinhas como irmãs que também
querem viver uns tempos nesta terra antes de ir “vibrar em outra faixa de onda”. neste conjunto harmonioso que é o universo tão grande e
bonito, que escapa ao conhecimento da maioria dos homens. bom, deixamos aqui a filosofia e voltamos ao prático do que interessa, no caso,
a batatinha.
a quantidade de batatas utilizadas no sítio é muito variável dependendo do gosto do pessoal e se as batatas miúdas são destinadas para a
engorda do porquinho no chiqueiro. em geral, a plantação de uns dois sacos de 30 quilos de sementes é o suficiente para se ter batatas de
todos os tamanhos e para as mais diversas finalidades.

9.4 - a mandioca

para as condições brasileiras, a plantação de mandioca em sítios e fazedinhas é muito indicada, uma vez que esta serve tanto para a
alimentação humana e para a criação dos animais dos diversos portes. (grandes e pequenos).
o valor alimentício da mandioca supera de muito o da batatinha e o poder calorífico é até mais elevado do que o do trigo para
quantidades iguais de fécula.

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a plantação da mandioca não exige a compra de sementes de custo elevado, porque ela se reproduz com manivas que são pedaços de 20
a 30 cm de hastes e galhos recortados com facão bem afiado. as manivas são colocadas semi-enterradas em covas ou sulcos, em solo bem
fofo e virado com arado. a distância entre os sulcos é de 80 cm a 1 metro, dependendo da variedade; no sulco deixa-se uma distância de
aproximadamente 60 a 80 cm entre os pés.
um método antigo, ainda em uso em pequenas plantações no interior, é o de manivas cruzadas em covas eqüidistantes de um metro.
pretende-se a obtenção das raízes em todos os sentidos em redor da cova, em especial em terrenos com pronunciada inclinação.
em conseqüência das falhas provocadas pela broca, que apareceu mais frequentemente nos últimos anos, recomendo o plantio da
mandioca em sulcos, colocando-se as manivas a uns 50 cm de distância. no caso de perdas de até 20 a 30% de manivas pela broca, haverá
ainda bastante pés de mandioca para cobrir o terreno e evitar o crescimento do mato em lugares desnudados. pela observação dos resultados
do replantio das mudas eliminadas pela broca, cheguei à conclusão que é melhor ter pés bem brotados na época certa, do que mudas tardias
que dificilmente alcançarão tamanho igual ás vizinhas.
o trato cultural da mandioca consiste em limpeza do mato e o acúmulo de terra nos pés crescidos, o suficiente.
a mandioca gosta de terra fértil e fofa. agrada-lhe o uso de esterco bem curtido, dando safras generosas.
para o uso doméstico, a mandioca pode ser colhida dez meses após o plantio. porém, a mandioca pode ser deixada no solo para um
segundo ciclo de brotação, durante o qual as raízes crescem muito mais ainda. todavia, não recomendo o terceiro ciclo de brotação, sempre
possível, mas com pronunciadas perdas de raízes conseqüentes do apodrecimento e danos causados por insetos. para facilitar os tratos
culturais (capinar) é bom podar o mandiocal, por exemplo, no mês de julho ou agosto, sendo este em seguida capinado, deixando-se assim o
terreno livre para os novos brotos. se necessário faz-se mais uma limpeza antes que os novos brotos cubram o terreno.
pelo fato de todo tipo de mandioca conter acido prússico em grau variável, recomendo eliminar na redondeza qualquer pé de mandioca
brava, desde que esta última não seja propositalmente plantada para fins industriais. comprovadamente na floração da mandioca mansa,
ocorre a polinização pela mandioca brava, resultando em pés de mandioca brava em mandiocal de vassourinha.
É óbvio se descascar bem a mandioca utilizada para a alimentação humana, cozinhando-a por tempo suficiente. para a fabricação de
farinha de mandioca, a raspagem da casca escura será só superficial, ralando-se

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as raízes em utensílio adequado para este trabalho, prensando-se depois esta massa para se extrair ao máximo o caldo nela contida, e em
fim torra-se esta em chapa ou tacho de ferro a fogo brando, mexendo-a continuamente para se evitar a queima excessiva. pelo aquecimento é
volatilizado o ácido prússico da mandioca. do caldo, chamado também manipoeira é obtido o polvilho mediante decantação e lavagem
sucessiva em várias trocas de água.
recomendo para os interessados, adquirirem os devidos conhecimentos do processamento do suco de mandioca, seja junto com a massa
fina deixada acidificar, seja do fluído recolhido da prensa, assistindo ao vivo a este processamento em um engenho. É necessário muito
cuidado para se evitar envenenamentos de animais pela absorção do suco durante a prensagem da mandioca.
para o uso da mandioca mansa na alimentação animal, é suficiente partir as raízes, por batidas com um pedaço de madeira, deixando-se
estas no sol quente, durante mais ou menos um dia.
para o gado e porcos adultos, não há mais perigo de intoxicação. porém, para leitões, galinhas etc., ocorre facilmente a perda de animais
ao ingerir pedaços de mandioca não devidamente secos. estes inconvenientes pedem ser evitados cozinhando-se as raízes, após lavagem em
um tacho de ferro fundido ou de chapa de aço (o tacho utilizado atualmente em meu sítio foi feito com um tanque de combustível de
caminhão devidamente recortado a 2/3 da sua altura no sentido cilíndrico). não recomendo o uso de tambores de ferro para esta finalidade
porque as raízes enegrecem muito depressa neles depois de cozidas e o tambor de ferro é de pouca durabilidade.
não se deve lavar a mandioca com antecedência de dias antes do seu uso. também, o melhor celeiro da mandioca é a própria terra onde
ela cresceu. recomendo também não cozinhar uma quantidade de mandioca acima da necessária para um dia a um dia e meio, porque a
mandioca cozida fermenta rapidamente, o que afeta muito a qualidade do leite quando consumida por animais produtivos.
É bom retirar do fluído do tacho a mandioca cozida quando está ainda quente, deixando-a secar em uma esteira, o que facilita a sua con-
servação durante horas. neste estado, a sua aceitação é muito boa quase por todos os tipos de animais criados em sítios: vacas., burros e
cavalos. porcos, galinhas, gansos, patos, etc..
pelo valor alimentício da mandioca, a sua cultura é recomendada em qualquer parcela de terra possível de se aproveitar em sítios.
também a grande quantidade de folhas e a ramagem são aproveitáveis quando devidamente tratadas, seja para a alimentação do gado ou para
uso na esterqueira, picando estas devidamente para facilitar a sua decomposição. no meu sítio não tolero o uso destes ingredientes na
alimentação animal, em vista das possíveis conseqüências nefastas, se não devidamente secas e bem conservadas.

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julgo mais conveniente o seu aproveitamento por decomposição natural, aumentando-se assim a camada de humo do solo.
É bom prever o plantio anual de determinada parcela de mandioca, para se ter mandioca do ano, para o uso na cozinha e mandioca do
segundo ano, para a alimentação dos animais em especial durante a estiagem. lembrar que durante o rebrotar da mandioca, as suas raízes
dificilmente tornar-se-ão macias; a época do uso certo da mandioca é aquela dos meses sem “r”, quer dizer maio, junho, julho e agosto.
porém, também as raízes da mandioca de dois anos, com um crescimento mais demorado são aproveitáveis em outra época do ano,
excluindo-se em geral os meses de dezembro, janeiro e fevereiro, durante os quais a nova brotação das pontas das raízes deixa-as
inaproveitáveis para o uso humano.
não quero aqui indicar todas as possibilidades do uso da mandioca na cozinha dos sítios, basta dizer que alguns pedacinhos de mandioca
cozida e reaquecida na chapa do fogão, podem substituir perfeitamente o pão do café de manhã. o seu consumo conjuntamente com doces
ou com queijo, chega a reforçar muitas guloseimas.

9.5 — milho

o milho é muito importante em sítio, onde ele serve especialmente para a alimentação das galinhas e demais aves, e também para o
gado. a roça de milho deve ser prevista em rotatividade com as demais culturas, sendo aconselhável o seu plantio para se conseguir safras
duplas em um ano, aproveitando-se assim ao máximo da terra, considerando-se o ciclo vegetativo das plantas. quero detalhar isto com dois
exemplos:
— no lugar plantado com feijão das águas, no fim de agosto ou início de setembro com a sua safra em fins de novembro e inicio de
dezembro, cabe em seguida, uma plantação de milho com colheita nos meses de abril e maio.
— também vice-versa, no lugar plantado com milho, no início de setembro com a colheita em fins de dezembro e no mês de janeiro,
caberá a plantação de feijão da seca no mês de fevereiro com colheita no mês de maio aproximadamente (e depois vai se plantando nabo).
este processo de complementação de culturas pode ser perfeitamente mantido, também com a rotação de culturas, por exemplo, com a
mandioca, centeio, amendoim, etc. em geral, o milho com a plantação variável, desde o mês de agosto até janeiro, permite o aproveitamento
de espaço desocupado sucessivamente por outra cultura. o acima citado, refere-se ao milho granífero, sendo aconselhável, plantar também
milho para uso em verde na ensilagem, que posso só aconselhar para sítios maiores. em pequena propriedade, a adjunção dos componentes
no silo, é em geral, demorada, prejudicando a boa conservação do conteúdo, se não mantiver rigorosamente as respectivas condições do
tratamento acertado.

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em regiões da serra do mar, é praxe em sítios, se plantar o milho de são joão, que se desenvolve com antecedência de um mês e até um
mês e meio em relação ao plantado no mês de setembro. todavia, as geadas em julho e agosto lhe são prejudiciais.
a tentativa é arriscada, porém, não se tratando de roça de grande importância, pode-se obter milho novo em fim de outubro e novembro,
que serve muito bem para a engorda dos animais a serem sacrificados para as festas de fim de ano.
existem muitas variedades e tipos de milho, em todas as regiões deste brasil. do tamanho quase continental. escolhe-se uma variedade
local que dá por unidade de superfície, uma quantidade de grão satisfatória. o milho de colmo grosso e não muito alto, é mais resistente aos
ventos dos temporais de verão e será bem aconselhável se as suas espigas são bem granadas, bem cobertas e se possível com nítida
tendência a pender para resistir melhor à ação da eiva e dificultar o acesso aos pássaros. mais perfeita será ainda a variedade que apresentar-
se com grãos compridos, cheios, cobrindo por complete o sabugo fino.
as variedades atualmente prezadas são em geral híbridas, com rendimentos de até 30% acima da normal das variedades comuns. da
minha experiência, posso mencionar que abandonei o cultivo destas novas variedades, muito sujeitas ao caruncho, por ter as folhas
protetoras da espiga. muito finas.
também o plantio em linhas das híbridas, produz em geral, pés muito altos, que se dobram facilmente pela ação do vento e sob as
chuvas pesadas de verão. prefiro uma planta menos produtiva, porém, com menor tendência à deterioração, como, por exemplo, o milho
chamado “caiena”. que quando devidamente plantado produz pés de até cinco espigas, três em geral. de tamanho bem acima da média. esta
variedade tem as folhas protetoras da espiga, bastante duras dando boa resistência contra a perfuração do caruncho,
em geral a boa produção do milho, reside no devido preparo do solo, incorporando-se nele por uma aração bem feita, todos os restos de
culturas quebradas, seja por foice, enxada ou grade de disco, serviço este que pode ser feito com bastante antecedência, em relação ao
plantio.
a terra deixada para descansar nos meses de inverno, transformará os vegetais em resíduos aproveitáveis, enriquecendo-se assim a terra
em elementos necessários ao crescimento da futura cultura. se houver ainda, bastante esterco na terra, juntado nesta, na cultura antecedente,
é suficiente a adjunção de 200 a 300 kg de adubo fosfatado e potássico e 80 a 100 kg de cloreto ou sulfato de potássio por hectare. estes
adubos podem ser semeados no chão, antes de ará-lo. uma adubação nitrogenada e recomendável na hora de capinar o milho, dando-se este
entre as fileiras na base de mais ou menos 100 a 150 kg por hectare.

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no caso de se fazer o plantio do milho em terra sem força e ácida, recomendo para terras mais ou menos argilosas, a correção do ph, por
cal viva na base de 700 a 900 kg por hectare, junto com o esterco na base de 10.000 a 20.000 kg por hectare, completando-se esta com
adubos fosfatados e potânicos na base de 200 a 400 kg por hectare e com 80 a 100 kg/ha. de cloreto ou sulfato de potássio.
como o milho aproveita o nitrogênio durante o seu primeiro período de desenvolvimento, pode-se aplicar 100 a 200 kg de adubo
nitrogenado antes do plantio e semeando-se igual quantidade entre as fileiras quando as plantas de milho alcançarem mais ou menos a altura
de 30 a 40 cm.
o espaço entre as covas ou entre as fileiras é muito variável, dependendo da fertilidade da terra, da variedade escolhida e da finalidade
da cultura.
em geral, para o milho granífero, o espaço é de um metro entre as fileiras e de 80 cm entre as covas nas fileiras, nas quais se coloca três
a quatro sementes. calcula-se de 20 a 30 kg de sementes para um hectare. cubra-se as sementes de 3 a 4 cm de terra.
os tratos culturais consistem na eliminação das ervas daninhas, o desbaste das plantas mais fracas e na junção de pequena quantidade de
terra nos pés de milho na hora da capina, feita em geral um mês até um mês e meio após o plantio e chamada de “chegada” de terra.
a colheita é manual, espiga por espiga, quando o colmo está perfeitamente seco e os grãos duros. juntam-se as espigas em montes mar-
cados por bandeiras (pé de milho deixado sem quebrar), partindo-se os demais ao redor, ao meio. os montes serão recolhidos na passagem
da carroça ou da caçamba e o milho colocado no paiol, o qual pode ser feito de uma estrutura de madeira ou metálica revestida por tela de
arame de tamanho adequado para impedir o acesso ás galinhas, ratos e demais roedores.
o rendimento do milho é muito variável, dependendo em grande parte das condições climáticas existentes na época da sua floração (o
tempo chuvoso contínuo impede a polinização das espigas, dando muitas espigas em parte chochas). em pequenas parcelas bem tratadas,
uma safra de 2.500 a 3.500 kg é um resultado satisfatório.
para ter uma idéia do gasto do milho em sítios, calcula-se mais ou menos 50 gramas por galinhas ao dia, o ano todo e de meio a 1 kg por
dia a cabeça, para os animais do estábulo e para os porcos.
calcular-se-á então 18 kg por ano a galinha e 260 kg, mais ou menos por ano ao animal. todavia esta indicação é só orientativa, sendo
possível prever o gasto de milho só para a época de estiagem. quer dizer que a safra do milho colhido em um hectare de terra dará para
alimentar umas quarenta galinhas, quatro vacas e uns dois a três porcos, resguardado o fato de que o milho seja considerado unicamente
como alimento

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adicional junto às demais forragens verdes e secas para melhorar a produção.


não devemos nos esquecer. que o milho é também alimento humano, entrando na culinária de maneira muito diversificada. debulhando-
se milho de espigas bem sadias, mói os grãos cm moinho adequado para a obtenção de avinha de fubá, para fazer angu, bolo e para tratar
carne com gosto um tanto forte, etc..
Às vezes existe um sitiante com o engenho para fazer farinha de milho, com o pilão movido por roda de água e o tacho de chapa rasa no
fogão. o processamento é simples. deixa-se os grãos de milho engrossar durante mais ou menos um dia em um recipiente com água. depois
colocá-los no pilão em pequena quantidade e o tempo necessário até soltar-se a casca. a separação dos grãos descascados e das suas cascas e
feita manualmente em uma peneira revestida de pano. pode-se colocar os grãos sem as cascas no pilão para amiudá-los, porém, a maioria
prefere colocar os pedaços grandes e miúdos juntos., no tacho, no qual eles se partem sob a ação do calor, de modo similar aos grãos de
pipoca. a farinha de milho assim obtida é muito pura e com o seu gosto típico que chama o apetite, não permanecendo sem as respectivas
conseqüências de o pessoal ganhar peso adicional sem se dar conta disto. assim será necessário trabalhar ainda mais para perder os quilos
suplementares ou fazer regime “coso ame” (comer só a metade). uma velha praxe do sitiante no interior é plantar o milho em fileiras dentro
da roça de feijão, melancia, mandioca. esta prática é possível em regiões com terras muito férteis e para mini-plantações elaboradas e
cuidadas no seu total com o enxadão e com a enxada, onde após arrancar um pé de mandioca, se recoloca no mesmo lugar duas manivas
cruzadas feitas dos galhos do pé arrancado, para assegurar a continuidade da plantação.
para culturas de certo vulto, é melhor, prever as roças de mandioca. milho, feijão, etc. bem em separado, em especial para o controle da
adubação em terras menos generosas requerendo grande quantidade de esterco.
quero lembrar também aqui, que o milho pipoca é uma variedade bem especial para esta finalidade e cuja plantação deve ser afastada o
suficiente da roça do milho comum para não deixar ocorrer a sua degeneração por acasalamento. recomendo a sua plantação em volume
reduzido, o suficiente para o divertimento das crianças (e para as menos crianças) nos dias de inverno, quando a gente se reúne à tarde ou à
noite em redor do fogão de lenha.

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10º Ítem — cultivo de outros cereais Úteis em sÍtios

10.1 — adlay ou trigo sarraceno

este cereal não alcançou ainda no brasil, a popularidade que ele mereceria, por ser uma planta de grande utilidade, especialmente em
sítios pequenos. o seu plantio na frança em propriedades rurais médias é muito comum, onde o adlay fornece bom alimento vitaminizado
para as galinhas nos meses de inverno, mantendo-se assim uma boa postura, que possibilita a venda de ovos frescos no período festivo de
fim de ano (ao verão do hemisfério sul, corresponde o inverno do hemisfério norte).
das diversas variedades de trigo sarraceno, salienta-se em especial o adlay de porte pequeno, (de 60 a 80 cm de altura), visto que o seu
amadurecimento é bem regular para toda a gleba plantada, permitindo o seu corte generalizado, enquanto que o adlay de porte grande (de 2 a
3 m de altura), amadurece por desigual, obrigando a se prever uma colheita gradativa com as conseqüentes dificuldades de remoção,
onerando em demasia o seu cultivo pelas respectivas despesas. e mais., o adlay de porte pequeno também chamado anão, com os seus
colmos muito flexíveis não dão apoio suficiente à pousada dos pássaros que causam grandes prejuízos em plantações de adlay de porte alto
com as suas hastes muito resistentes. todavia, não se deve esquecer que também o adlay de porte alto, às vezes chamado de adlay gigante,
tem as suas vantagens, quando o seu cultivo é destinado ao fornecimento de massa verde para silagem ou para adubo verde. pelo fato da sua
fácil rebrotarão após o corte e também pelo fato dele permanecer verde em época de estiagem, a lavoura de adlay gigante pode servir para
pastagem do gado que gosta muito das suas folhas.
devido à fácil hibridação do adlay, não é recomendável plantar variedades de porte alto e de porte pequeno muito próximos.
pessoalmente, recomendo para a região de são paulo, escolher o adlay de porte pequeno que em terras menos férteis chega a produzir
bons rendimentos com altura de só 40 a 50 centímetros.
em geral, o solo adequado para o trigo sarraceno é o mesmo que produz arroz e milho. a adubação é também na base do esterco de
curral. uma pequena adubação química adicional dá um pronunciado aumento do rendimento, sendo feita em especial na base de uns 200 a
300 kg/ha. de adubos fosfatados e potássicos, não havendo necessidade de complementação da adubação nitrogenada, desde que a
quantidade e qualidade do esterco sejam boas.

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a época do plantio do adlay de porte pequeno vai no estado de são paulo, do inicio de outubro até fins de novembro.
com um ciclo vegetativo de mais ou menos cinco meses (em regiões mais quentes, pode ser menor) a colheita é assim prevista após a
época das grandes chuvas, fins de fevereiro e no mês de março, o que permite a secagem das plantas inteiras cortadas pouco acima do solo.
semeando-se o adlay em fileiras distantes de 60 cm, são necessários mais ou menos 15 kg de sementes para o plantio de um hectare.
cubra-se as sementes com 3 a 5 cm de terra, sendo recomendado não cobri-las em demasia para não prejudicar a sua brotação. É inútil
querer semear o adlay muito compacto, por ser ele de grande perfilhação, chegando a produzir cinqüenta e mais colmos por semente
plantada. os tratos culturais se limitam às capinas iniciais para eliminar as ervas daninhas que prejudicam o crescimento. quando a folhagem
abundante do adlay cobre o terreno, não há mais necessidade de trato, deixando-se formar as panículas cujas flores de pequeno tamanho, de
formato estrelado de um branco limpo contrastam vivamente com o verde escuro da folhagem e o vermelho estriado das hastes.
reconhece-se a maturação do adlay pela passagem da coloração verde das sementes, ao marrom escuro nas panículas. corta-se as plantas
suavemente com ferro de arroz, bem afiado, perto do solo, para se evitar perdas, porque as sementes muito maduras se desprendem
facilmente.
recomendo fazer a colheita do adlay em estado médio de maturação, quando as sementes na sua maioria se deixa ainda esmagar nas
unhas dos polegares, fazendo-se feixes das plantas que se colocam em medas para amadurecimento completo sem expor em demasia as
sementes ao sol forte, medas de quatro a cinco feixes, encarapuçadas com um chapéu de palha ou de sapé, resistem bem a qualquer chuva
sem mofar, se devidamente erigidas para facilitar a aeragem. bater o adlay do mesmo modo como o arroz, após endurecimento das sementes
nas medas. este procedimento apresenta várias vantagens sobre o corte por ceifadeira-batedeira:
— as perdas de sementes são mínimas;
— as folhas secas são mais facilmente eliminadas no peneiramento;
— das sementes do adlay amadurecidas na sombra das medas, obtém-se uma farinha de gosto bem especial e de folículas muito mais
finas do que a farinha de sementes amadurecidas, quando expostas ao sol, as quais ficam muito duras e compactas, dando sêmola em vez de
farinha (é a mesma história como os trigos duros americanos e o trigo mole da frança).
o aproveitamento do adlay em sítio é totalmente local. não é necessário procurar um mercado consumidor. as galinhas e demais aves,
como os animais de grande porte e os suínos o consomem com avidez.

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devido à casca dura externa, é bom evitar o seu uso em bruto para pintos e frangos novos (pode ocorrer a perfuração do papo).
o rendimento por hectare em terra boa, adubada como para o milho, e bem preparada chega a ser de 3.000 e até mais de 4.000 kg. um
quilo de sementes chega a dar 200 a 300 quilos de grãos.
os grãos de adlay bem secos conservam-se bem em caixas metálicas ou de madeira a prova de ratos que são os piores assaltantes do
adlay.
pela sua casca bastante dura, o adlay resiste bastante tempo ao caruncho.
pela descrição precedente do adlay, pode-se acreditar que o seu uso é unicamente destinado à alimentação animal. devo mencionar aqui
que a farinha do trigo sarraceno contêm em especial, vitaminas do complexo b, impedindo as avitaminoses da carência de b1 e as
conseqüentes doenças como prisão de ventre, desarranjos intestinais, fraquezas dos órgãos digestivos, diabetes, perturbações cardíacas, etc.,
recomendada o seu uso adicional a farinha de trigo. juntando-se uma determinada quantidade de farinha de adlay à farinha de trigo,
vitaminiza-se esta última, operação esta comum em moinhos modernos: pode-se observar nos maços de farinha de trigo vitaminizada a
ocorrência de pequenas partículas pretas que são resíduos da casca das sementes de adlay.
a farinha pura de adlay não é panificável, sendo necessário para isso misturá-la até cinqüenta por cento com farinha de trigo.
o uso do adlay é em mingaus, bolos ou na forma do grão integral, cozido como o arroz, sem a casca, a qual se retira facilmente quando
bem seca, esfregando-se as sementes com a mão ou pedaço de madeira mole, em uma peneira de malha adequada.
pequenas quantidades de farinha são possíveis de se obter em um simples moinho de café, em duas operações com a devida regulagem
de junção das respectivas peças do moinho (grossa inicial e fina depois).
em vista das utilidades múltiplas do adlay em sítios, o seu cultivo, ainda que seja em escala muito restrita, é de se recomendar, em
especial porque ele é pouco sujeito a doenças etc. e não requer terras fertilíssimas para produzir razoavelmente, conjuntamente com o
centeio chamado de trigo dos pobres na frança. porém, o pobre agricultor francês, com a sua inata modéstia, sabe muito bem que é a
economia particular que conseguiu salvar os cofres públicos já em várias circunstâncias.

10,2 — o centeio

É um cereal que dá uma farinha panificável, permitindo a fabricação de um pão muito saudável, em especial, quando usada em forma
integral, quer dizer com o farelinho.
o grão de centeio é similar ao grão de trigo, sendo estes dois os únicos a conter o glúten que é uma forma de proteína que possibilita a
massa reter o gás carbônico durante a fermentação, resultando em uma massa porosa ao assá-la.

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porém, nos países nórdicos da europa, usa-se muito o centeio para a fabricação da tortilha que é em si, um pão não fermentado dando
placas chatas, chamado de “flatbread”, pelos ingleses ou “knaeckebrot” pelos suecos e alemães.
convém também lembrar que o centeio, é o produto base para a fabricação da vodca fina, na rússia, usando-se para isso o grão leitoso do
centeio (a vodca comum é feita com batatinha).
nos estados unidos da américa e na europa, o centeio é o produto base de fabricação do melhor uísque.
o centeio medra satisfatoriamente em climas muito variáveis e também em regiões com clima muito adverso: tanto em climas frescos
com um longo período vegetativo, como cm climas quentes de mudanças bruscas, com curto período vegetativo. o grão suporta
temperaturas até 25º c e germinando não morre mesmo em temperaturas de — 7º c abaixo de zero; ele germina desde + lº c até 30” c. acima
de + 30 c, o centeio entra em “repouso de calor” e em “repouso de frio”, quando a temperatura desce abaixo de + 1º c, destes fatos resulta
que a faixa de cultivo do centeio é bastante ampla no mundo.
no brasil, o seu limite de cultivo é nos planaltos de são paulo e no sul de minas gerais. uma característica bem própria do centeio é dada
pela conservação do seu poder germinativo, podendo ser secado após intumescimento, várias vezes sem ser por isso prejudicado.
o centeio é um cereal muito rústico, crescendo ainda em terras pobres; todavia, ele prefere terras frescas permeáveis, não suportando em
climas úmidos, solos argilosos. as melhores terras para o centeio são, as pobres arenosas e siliciosas, calcárias e vulcânicas. ele cresce bem
em terras ácidas com ph de 4,5 a 5, deixando de medrar em ambiente neutro. deduz-se, assim que o centeio desenvolve bem em terras onde
outras culturas não darão mais colheitas econômicas. o centeio é plantado nos países do leste europeu em derrubadas de florestas de abetes e
pinheiros com solos muito ácidos. em regiões de clima mais ameno, o centeio prefere uma terra arenosa e de brejo drenado à uma terra rica
muito humosa, na qual o centeio tão resistente a todas as doenças, especialmente à ferrugem, adoece, fica acometido de ferrugem e não
produz grão. deve-se evitar o uso de adubos na base de nitrogênio. todavia em solos muito pobres o centeio reage bem e granifica
excepcionalmente, com o uso de determinadas quantidades de adubos fosfatados e especialmente potássicos. não sendo prejudicial ao
centeio a aplicação destes últimos em quantidades excessivas.
bem que seja, o cereal mais modesto que se conhece, o centeio retira do solo, boa quantidade de nutrientes, recolhidos pelo seu sistema
radicular, muito difundido.
em terras adubadas, o suficiente, em culturas anteriores, não há necessidade de nova adubação para o plantio do centeio. quando as
terras são muito pobres, a adubação indicada é a seguinte:

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— 450 kg/ha. de superfosfato a 20%;


— 120 kg/ha. de salitre ou o similar em componentes;
— 105 kg/ha. de cloreto de potássio a 60%.
bem que seja, planta acidófila e não requerendo uma correção da acidez do solo, o centeio reage favoravelmente à aplicação de pequena
quantidade de cal, pois ele precisa de consideráveis quantidades de cal para a formação da palha bem rígida.
em sítio pequeno, prevendo-se a rotação de cultura, sempre se encontrará um espaço para a plantação de 2.000 a 3.000 m2 de centeio,
sem necessidade de adubação adicional, fora uma ajuda com potássio, que pode ser dada na forma de cinza de madeira do fogão a lenha,
guardada o ano todo para esta finalidade.
o preparo da terra consiste em uma aração pouco profunda, deixando-se a superfície bastante firme e por igual (se necessário uma
gradeagem é o suficiente). o plantio é feito por semeadura, seja com semeadeira ou seja a lanço, observando-se os seguintes pontos:
— com período vegetativo fresco e comprido, usa-se mais semente que para período vegetativo relativamente curto, de umidade
razoável e terreno relativamente permeável;
- semeadura tardia requer também mais sementes, do que semeadura precoce (porque o centeio perfila muito);
— usar sempre sementes da última colheita porque o centeio é neste ponto igual ao arroz e perde de 80 a 90% da sua força germinativa
após 12 meses de armazenamento;
— a quantidade de sementes por hectare é no brasil, de mais ou menos 70 a 80 kg com semeadeíra e de 100 a 120 kg ao lanço.
a época propícia no estado de são paulo se estende de fins, de março, a fins de abril. não é aconselhável plantar centeio após o dia 10 do
mês de maio.
tal procedimento é justificado, para se evitar que a floração do centeio ocorra em período de geada, que pode destruí-la por completo.
porém, em regiões com uma ou duas noites de geada, pode-se providenciar a formação de moitas de cisco com resíduos lenhosos nas quais
se joga de vez em quando uns dois baldes de água para formar uma densa cerração, que encobre até uma baixada bem grande, impedindo a
temperatura do ambiente, de ir abaixo de 0º c.
a semeadura se faz em linhas de 20 a 25 cm de distância. regula-se a profundidade ao mínimo, de 1 a 2 cm, porque o centeio quer ver o
céu para germinar.
o centeio germina muito depressa. vê-se as pontinhas amarelas azuladas no segundo dia, após a semeadura. se plantado cuidadosamente,
o

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centeio não precisa de tratos culturais durante o crescimento, porque a sua perfilhação é incrível, chegando a cobrir em pouco tempo todo o
terreno matando as ervas daninhas. no caso de existir alguns pés de mato rebelde, uma passeata matutina, com o ferro de arroz resolve.
dando-se alguns golpes acertados.
como centeio na frança brota muito depressa antes do período do frio, deixa-se pastorcjar as cabras e as ovelhas nele, para diminuir a
quantidade de massa verde, já formada e assim provocar mais ainda a sua perfilhação.
após e período frio, o centeio se eleva formando-se as suas hastes e nascendo as espigas que logo apresentam-se em plena florescência.
o intervalo entre a florescência e a maturação do centeio depende do período vegetativo antecedente e do tempo. em época mais ou menos
ensolarada e sem noite. muito frias, calcula-se este intervalo em seis a sete semanas, aproximadamente.
a colheita do centeio pode ser manual, mediante o uso de um ferro de arroz de maior tamanho, quando se trata de culturas de um ou dois
hectares. para culturas maiores, recomendo o uso da ceifadeira-atadeira e não da colhetadeira-batedeira, porque a colheita do centeio deve
ser feita quando os grãos estão em estado pouco acima do leitoso, quer dizer em estado mole, podendo-se esmagá-los facilmente nas unhas.
este estado não permite o uso da batedeira porque os grãos empastam e grande parte deles é destruída.
deixando-se amadurecer o centeio por completo no próprio pé, haverá muita perda de grãos que caem das espigas ao serem as plantas
eifadas pela máquina.
como para o adlay, também o centeio amadurecido na sombra das medas deixadas a secar, fornece uma farinha muito mais gostosa e o
rendimento dos grãos colhidos verdes, será melhor porque estes grãos são de tamanho maior, não havendo restrição pela secagem ao sol
quente. posso afirmar, que ainda hoje na frança, o empreiteiro guarda os dois maquinários ativos para satisfazer ao desejo das duas
exigências dos sitiantes:
— colheita reduzida de parte do centeio com a ceifadeira-atadeira. para o consumo próprio;
— colheita restante com a colhetadeira-batedeira para o centeio comerciável.
o rendimento do centeio gira em torno de 1.500 a 1.700 kg por hectare para culturas feitas no brasil.
em terras especiais da europa meridional, chegou-se a rendimentos de 3.000 a 4.000 kg por hectare para o centeio de cultivo de inverno.
para o centeio de cultivo da primavera, o rendimento é de 25 a 30% menor em relação ao centeio de inverno.
no meio da década de 30, foi plantada na frança, uma variedade de centeio importado da rússia, cujo rendimento foi triplicado em rela-
ção

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ao centeio local (maciço central). conforme as informações obtidas de plantadores há dois anos atrás, o rendimento desta variedade é ainda
hoje muito boa, não se tratando de um híbrido com possibilidade de degenerar rapidamente.
recomendo a todos os sitiantes, analisar a possibilidade de se colher anualmente ao mínimo 200 a 300 quilos de centeio para o uso na
fabricação de pão caseiro, bem melhor e mais saudável do que o pão branco da padaria com vários produtos químicos misturados à farinha,
com a finalidade de se conseguir a melhor apresentação do pão. a obtenção das sementes pode ser sucessiva ,de ano para ano, iniciando-se
com poucos quilos. em meio hectare de terra, requerendo uns 50 kg de sementes, pode-se colher até uma tonelada de centeio, desde que
plantado, tratado e colhido com os devidos cuidados. no caso de ter muita área plantada, ou quando tiver centeio com palha caída, pode-se
cortá-lo em estado verde para uso na ração dos animais ou para silagem junto com cana-de-açúcar. calcula-se 20.000 kg de massa verde por
hectare.

10.3 — aveia

a aveia é como o centeio, uma planta rústica que aproveita muito bem os elementos em solos recentemente desbravados. a aveia suporta
bem, longos períodos de seca e resiste na luta contra as más ervas invasoras da roça.
o seu plantio pode ter várias finalidades:
— uso dos grãos decortícados e esmagados para a alimentação humana, em sopas, mingaus ou no estado natural junto com frutas
diversas, adocicada e umedecida com leite;
— uso dos grãos e palha seca para a alimentação dos animais em época de estiagem;
— uso em verde para silagem ou para a alimentação ao natural para gado de estabulagem. neste caso a aveia pode ser associada com
outras plantas, por exemplo com trevo encarnado.
a aveia, cultivada para fins graníferos, se semeia no mês de março, calculando-se uns 150 a 180 kg por hectare, quando feita com a
semeadeira e uns 180 a 200 kg por hectare quando feita ao lanço.
o plantio é feito em fileiras de uns 20 cm entre elas, cobrindo-se as sementes com uns 8 cm de terra.
o rendimento em grãos é de 800 a 1.000 kg/ha. de aveia em casca.
como para o trigo adlay ou para o centeio, o cultivo da aveia pode ser feita em terras plantadas com milho, amendoim, etc., após a
respectiva safra.
sendo de altura menor do que o centeio, a aveia pode ser colhida até com alfange equipada de um implemento adicional na ponta do
cabo para enleirar os pés cortados e evitar o seu recorte e a respectiva danificação das espigas pela lâmina do alfanje. recomendo fazer a
colheita

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colheita da aveia, também quando os grãos são ainda tenros (esmagados na ponta das unhas), deixando-se terminar o amadurecimento destes
em medas.
se ocorrer da aveia amadurecer por completo no pé, para não ter muita perda de grãos, que se desprendem facilmente das panículas,
recomendo cortá-la no orvalho, de manhã ou à noite, enfeixando-a cuidadosamente e colocando-se os feixes em medas enquanto a palha
estiver úmida. as perdas de grãos são bem reduzidas com este método.
deve se evitar qualquer desperdício da palha de aveia, que é uma boa forragem para novilhas, podendo entrar na sua alimentação na
base de 50 a 60% com feno. também as cabras, ovelhas e coelhos apreciam muito, tanto a palha, como os grãos que são antianêmicos.
o uso de aveia para cavalos e burros exige cuidado para não deixar subir a pressão sanguínea destes animais; porém, uma ração
moderada de aveia para animais de tração não é desprezível quando bem controlada, porque a aveia dá muita força e um pelo brilhante aos
animais em geral (e mais ainda, um bonito cabelo, bem forte para o homem).
em plantações de grande vulto, a colheita se faz com a ceifadeira-atadeira ou com a colhetadeira-batedeira, tendo cuidado de se evitar o
sol quente do meio-dia e da tarde, se a aveia for bem madura.

10.4 — amendoim

o plantio de alguns sulcos de amendoim é recomendável em sítios, possibilitando obter um a dois sacos de amendoim em casca, que se
torra na chapa do fogão de lenha no período frio do ano. para quem se interessa no plantio, em quantidade maior para obtenção de óleo,
recomendo este procedimento na base caseira e de não esquecer de controlar durante o debulhar, para não se comer em demasia os frutos em
estado natural (sem torrar), porque conforme dizeres, o amendoim contém substâncias que podem ser nocivas à saúde.
o amendoim cresce em larga escala climática, desde a parte quente da zona temperada e nas zonas subtropical e tropical. ele prefere uma
terra leve, porosa, fresca, porém sem grande umidade. das muitas variedades, é bom escolher uma de rendimento regional comprovado, no
caso de ser feita uma plantação rendosa. no caso de plantação na esportiva, posso recomendar o amendoim gigante chamado de “japonês”,
cujo rendimento na região de são paulo é na base de 1.500 a 2.500 kg por ha.
o preparo da terra consiste em aradura, gradeação e abertura de sulcos distanciados de 60 cm. entre si. as sementes são distanciadas de
uns 10 cm nas fileiras, quando debulhadas ou de 20 a 25 cm quando plantadas com vagem inteira (sem debulhar).
a adubação, se necessária, pode ser feita no próprio sulco na hora do plantio do amendoim, evitando-se, todavia, o seu contato direto
com as sementes.

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usa-se em solo médio uns 300 kg/há. de superfosfato ou similar e mais ou menos 200 kg de salitre potássico. as sementes são cobertas
por uma leve camada de terra.
o trato cultural consiste em manter a terra limpa e fofa, até depois da floração, que é o momento muito importante de se observar para
fazer uma boa amontoa de terra nos pés de amendoim, evitando-se a danificação das plantas.
realiza-se a colheita uns quatro meses após o plantio, afrouxando-se os pés com o gancho de duas ou três pontas terminando de arrancar
as plantas à mão como o feijão, deixando-as secar no lugar, ao sol, durante vários dias.
em tempo chuvoso, a secagem pode ser feita em terreno perto de um galpão, no qual se recolherá o amendoim, evitando-se a brotação
das vagens que facilmente ocorre, quando elas permanecem juntas com as plantas muito úmidas pelas chuvas.

10.5 - colza

a colza é uma planta, da mesma família, como a couve, o brócolis, o repolho (crucíferas), cuja semente é muito miúda e fornece um óleo
que devidamente tratado é comestível. planta-se colza para forragem dos animais no tempo de estiagem, porque a sua folhagem resiste bem
ao frio (alguns graus centígrados abaixo de zero, não lhe são prejudiciais).
agora devo fazer um aviso aos apicultores vizinhos de plantações de colza, de programar a extração do mel das colméias logo após a
floração dos campos de colza, visto que o mel das flores das crucíferas cristaliza dentro dos favos poucas semanas após a sua colheita pelas
abelhas.
este mel é muito saudável e se conserva facilmente em potes ou latas adequadas à prova das formigas. o mel cristalizado nos invólucro
pode ser fluidificado, colocando-o em banho-maria, por tempo demorado, cuidando-se de não elevar a temperatura acima de 65 a 70º c para
não provocar uma forte evaporação dos sais de éster nem a destruição maciça de vitaminas.
planta-se a colza em fileiras distantes entre si de mais ou menos 60 cm, quando ela é destinada à obtenção de sementes oleaginosas.
para a colza de corte, o plantio pode ser por semeadura ao lanço, uma vez que o maquinário adequado (semeadeira de sementes miudas)
é raro e em geral é economicamente desaconselhável porque o tempo do seu uso em pequena propriedade é muito restrito.
quando plantar a colza após a safra de outra cultura, é suficiente mexer a terra com uma grade de disco e riscá-la. para evitar plantar a
culza muito densamente, tanto nas fileiras como ao lanço, podem-se misturar as sementes com areia bem seca e de grossura mais ou menos
idêntica às das sementes.

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a quantidade de sementes é muito variável, dependendo muito da fertilidade da terra. com poucos quilos semeia-se um hectare.
a época do plantio é no mês de maio para são paulo, porque assim a colza se fortifica na época fria e com a chegada da época mais
quente no mês de setembro, ela entra em cheia floração o que permite o seu amadurecimento mais ou menos por igual, em fins de outubro e
inicio de novembro.
constatei um fato muito interessante com a colza plantada em outra época: o seu crescimento é contínuo, dando sementes maduras em
pés que continuam em floração, sem chegar, todavia a se formar os tapetes amarelos como em culturas de regiões temperadas.
quando as bainhas crescidas após polinização das flores, apresentam-se bem cheias e amarelando, é o momento de se colher a colza
cortando-se as plantas por inteiras com o ferro de arroz, enfeixando-as. colocam-se os feixes, em pé, em duas filas opostas de alguns metros
de comprimento, fazendo-se um segundo e terceiro andar de filas acima das primeiras, sempre se mantendo uma boa inclinação dos feixes
para facilitar o corrimento da água de chuva.
para evitar a invasão maciça de pássaros nestas medas alongadas e elevadas, coloca-se uma cobertura feita de palha de arroz, de centeio
ou simplesmente de sapé, fixada mediante duas ou quatro varas de taquara ou de outra madeira, passando-se de vez em quando (por
exemplo: a cada metro ou 1 1/2 m), um arame ou corda fina (também atadura de embira serve), através das medas fixando-se firmemente as
varas lateralmente nas medas.
deixa-se amadurecer por completo a colza nas medas, pronta para batê-la em cima de uma lona que se estende raso à meda, com um
pedaço de pau de 60 a 70 cm de comprimento e de grossura de uns dois centímetros, dando boa energia de batida nas bainhas sem, todavia,
cansar em demasia o operador.
os feixes devem ser levados com muito cuidado das medas para a lona, porque as bainhas se abrem com o esforço de ramalhetes das
plantas presas entre si. de experiência própria do meu tempo de juventude na frança, posso afirmar que ocorrem perdas de até 50% e mais se
a colza em medas não for bem tratada. em peneira, especial (finíssima), limpam-se as sementes que se guardam em sacos de toalha do tipo
para farinha.
um operador chega a malhar até 500 kg de colza por dia ensolarado.
o rendimento na frança era de 1.500 a 2.000 kg/ha.
quem se interessa a fazer óleo em escala caseira, deve providenciar três peças importantes:
— uma mó de pedra;
— um tacho de ferro, tipo frigideira gigante;
— uma prensa rústica, seja de rosca ou de viga com o respectivo rolo de manobra por corda.

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as sementes de colza são moídas na mó até obter-se pequeninas folículas bem achatadas e não quebradiças. depois coloca-se esta massa
moída no tacho para aquecê-la no fogão, suavemente, para provocar a evaporação de grande quantidade de umidade nela contida.
deve-se sempre mexer com um rodo metálico a massa dentro do tacho para não deixá-la grudar ou queimar.
quando a massa está no ponto de suar óleo, retira-se a mesma do tacho, colocando-a quente na prensa, onde se extrairá em seguida o
óleo que será engarrafado se possível, em vidros bem transparentes. colocam-se as garrafas com rolhas em posição vertical de repouso
durante vários meses para decantar as substâncias pesadas do óleo.
mediante uma mangueira fina, retira-se o óleo limpo da garrafa, evitando-se mexer tanto nos resíduos superficiais como nos contidos no
fundo das garrafas. com serviço cuidadoso, chega-se a recolher de dois terços a três quarta partes de óleo limpo das garrafas. os resíduos
podem ser aproveitados em rações animais. também a torta da prensagem é aproveitável para a mesma finalidade, porém deve ser feito um
uso muito moderado destas tortas, porque elas contêm substâncias mais ou menos tóxicas, podendo provocar distúrbios e até a morte de
animais, se ingeridas em grande quantidade. a ocorrência destas substâncias na colza torna necessária a decantação prolongada do óleo,
como acima mencionado. não é aconselhável o seu uso imediato sem deixar decantá-lo.
para salientar melhor o bom gosto do óleo de colza de fabricação caseira, quero anotar que hoje ainda na frança é praxe juntar duas a
três colheres de óleo de colza a cada lata de óleo comprada no mercado para melhorar o gosto deste último.
o rendimento do óleo das sementes de colza é de 22 a 26% em engenho rústico, chegando-se a tirar até 36% em instalações adequadas
com prensa hidráulica. o rendimento de sementes por hectare varia muito de acordo com os tratos culturais; basta dizer que em uma parcela
de um quarto a meio hectare obtém-se óleo para muitas famílias o ano inteiro.
o uso da colza para forragem dos animais, requer também um controle contínuo destes para se evitar a provocação de diarréias em
animais sensíveis ou muito novos. posso recomendar dar colza em estado verde só após uma boa ração de feno ou de farelinho de arroz ou
trigo, etc., para dar um “fundo” seco no bucho do animal, o que absorverá os sucos da colza, sendo estes assim menos agressivos nas
paredes intestinais dos animais.
o conteúdo em vitaminas é muito grande nas sementes de colza, cuja adjunção em pequena quantidade à ração das galinhas de postura
aumenta a cor da gema do ovo, ao ponto de parecer anormal.
anoto aqui, o que me ocorreu anos atrás:
deixei secar em um galpão, alguns feixes de colza colhida em tempo chuvoso, ao abrir-se as bainhas, as sementes caiam em lugar
acessível às

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galinhas, cuja postura de ovos com gema bem laranja-vermelha era um espetáculo. porém, houve duas freguesas minhas, que devolveram os
ovos comprados, alegando tratar-se de ovos de galinhas doentes. não houve maior problema, porque estes ovos super vitaminizados foram
substituídos na hora, por ovos de galinhas velhas, meio anêmicas, de uma granja vizinha com a gema de um amarelo pálido, porém,
considerados pela maioria dos clientes, como sendo ovos normais.

10.6 – trigo

para quem se interessa no cultivo do trigo, recomendo a aquisição de livros que tratem detalhadamente deste cereal e das suas
possibilidades e doenças.
por diversos motivos, não posso recomendar o seu cultivo em pequena propriedade:
— o maquinário necessário ao cultivo racional do trigo é muito diversificado e oneroso;
— o trigo é muito sujeito à ferrugem e a sua floração delicada em relação aos caprichos climáticos;
— o trigo exige uma adubação complexa bem equilibrada na relação dos seus componentes fosfóricos e potássico, não tolerando um
excesso de adubo nitrogenado, que puxa em demasia o crescimento das folhas, das suas hastes facilitando assim, os ataques das doenças
(especialmente da ferrugem).
todavia, para um sitiante que quer tentar o seu cultivo em base da esportiva, quero anotar o método de combate à ferrugem como o
realizei, eu mesmo na frança.
um dia antes da semeadura, colocava as sementes do trigo em um lugar protegido e chão de terra batida (no porão da casa de moradia)
em um monte cônico afunilado na ponta, como se fosse um pequeno vulcão. em um balde de madeira de castanheiro (guardado unicamente
para uso de substâncias venenosas), colocava água quente derretendo nela cristais de sulfato de cobre (que se usa também para a calda
bordalesa), na proporção de 1 a 2% em peso. com uma brocha molhava o trigo em toda a superfície do monte e jogando-se certa quantidade
na cratera superior. com uma pá misturava as sementes formando depois um outro monte vizinho, continuando a molhá-lo até ter certeza da
não ocorrência de sementes secas.
após uma nova mistura do monte com a pá, recolocava o trigo assim tratado em um monte no lugar do tratamento inicial, cobrindo-o
com uma camada de sacos de juta (usar velhos sacos).
deixava o trigo à noite toda neste monte recoberto, no qual ele aquecia moderadamente, secando por completo. este processamento per-
mitia ao sulfato de cobre de penetrar nos poros do farelinho e em especial na ranhura da semente, onde fica o germe, para matar a ferrugem,
ali enraizada, porém, também houve aniquilação parcial do poder germinativo

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das sementes, sendo necessário aumentar em 10 a 12%, a quantidade de semente prevista. trigo não tratado era tão sujeito ao ataque da fer-
rugem, que ocorriam perdas de até 80 e mais por cento em relação às safras do trigo de sementes tratadas. a título informativo, anoto que no
brasil, calcula-se com 100 a 120 kg de sementes por hectare na semeadura mecanizada que se realiza nos meses de março-abril, no estado de
são paulo. em outros estados sulinos, pode-se semear o trigo até o mês de agosto (depende muito da variedade). o trigo é cultura exigente,
dando certo com a adubação bem calibrada, conforme os resultados da análise das terras. calcula-se no brasil, um rendimento médio de trigo
em redor de 800 a 1.000 kg/ha. (é pouco em relação aos 5.000 kg/ha. que se consegue na frança em pequenas parcelas).

108 — existem muitos outros cereais e plantas a ser considerados para o plantio em sítios:
— por exemplo, cevada, ervilha, fava, lentilha, etc.
para quem tem um pouco de fantasia, não custa muito tentar em escala reduzida, uma ou outra planta, colhendo com ela não só o
produto material, mas também muita experiência pessoal com um contentamento todo especial, permanecendo unido nelas por elos difíceis
de se explicar e aprendendo através delas muitas coisas, como modéstia, firmeza, coragem, audácia discreta etc.

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11º Ítem — algumas observaÇÕes gerais relativas À adubaÇÁo das culturas

a fertilidade de uma terra não depende unicamente do conteúdo desta em nitrogênio, fósforo e potássio, que são os componentes mais
conhecidos e usados na composição de adubos para a lavoura, mas também de muitos micro-elementos que agem praticamente só de modo
catalítico, quer dizer, pela sua presença e não pela sua quantidade, visto que esta última é considerada desprezível na absorção pelas plantas.
foram examinadas muitas plantas cultivadas em laboratórios com terra de determinada composição e foi constatado que, por exemplo,
os sulfetos de alumínio, de manganês, de ferro, o enxofre em pó e o silicato de sódio, influenciam bastante o crescimento de várias plantas
entre outras a batatinha e a beterraba.
o cobre pode influenciar muito na formação da espiga, respectivamente dos grãos do milho.
o lítio e chumbo têm bons efeitos no sistema radicular de muitas plantas.
por análise, foi constatado que existe uma correlação direta do conteúdo em clorofila nas folhas de diversas plantas e da presença nestas
de zinco, titânio e alumínio, o que justificaria o uso de alumina como adubo catalítico, muitas vezes prezado como adubo completo.
na cinza dos vegetais encontram-se sempre em quantidades mínimas, diversos elementos como, bromo, flúor, iodo, cobre, cobalto, etc.,
que não podem ser ignorados para a vida das plantas.
não podemos esquecer do fato do solo ter às vezes muitas reservas de minerais e elementos chamados raros, que são encapsulados e só
libertados pela presença e ação do cálcio. estes elementos são devolvidos ao solo, com a adjunção do esterco, o que justifica plenamente o
uso abundante deste na lavoura, em especial em sítios nos quais uma análise das terras não é economicamente viável.
muito importante é o uso moderado da cal nas suas diversas formas, seja viva ou extinta para se manter a fertilidade do solo ao longo
dos anos.
a expressão figurativa bem acertada é de que a cal enriquece o pai e empobrece os filhos. sim, o uso excessivo da cal libera todos os
elementos do solo sendo assim aproveitados em uma ou duas culturas, não sobrando muita coisa para culturas futuras sem a adjunção de
grandes quantidades de esterco ou outro adubo orgânico.

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em regiões de cultivo da beterraba açucareira no norte da frança, se junta até 60 e mais toneladas de esterco por hectare no solo
mediante aração profunda, quando o esterco está em plena fermentação. não resta dúvida, que em tal caso, o uso de cal na base da tonelada
por hectare dará só ação benéfica porque as reservas do solo são assim bem asseguradas para todos os elementos necessários ao crescimento
das plantas.
não podia deixar de anotar o acima mencionado, porque ele é o maior contraste que já constatei, considerando-se muitas lavouras de
arrendatários japoneses, em redor de são paulo, nas quais não cresce mais, nem mato, porque o uso excessivo da cal obrigou a terra a dar
todas as suas reservas minerais. e mais, também o uso excessivo de adubos químicos queima as lombrigas e as bactérias que são tão
importantes para a manutenção da fertilidade do solo, o que leva a dizer que adubo químico não tem grande proveito em terras com pouco
humo.
muito importante é a dosagem acertada das reservas do solo em elementos assimiláveis, da qual é dada uma imagem bem figurativa pela
dorna, na qual o nível máximo nunca vai poder elevar-se acima da aduela de menor altura.
a terra deve ser considerada na sua forma verdadeira, de um ser vivo e bem diversificado e que responde ao trato do pessoal na sua
linguagem muito compreensível, pelas plantas que dela nascem e crescem. só um agricultor com espírito cego e surdo não vai poder ver e
entender os clamores que ela às vezes emite. mas quando bem tratada, vivificada, respirando a cheio pulmão, bebendo o orvalho ao nascer
do sol, a terra dará fartas safras em cereais, frutas e verduras.
e quem não vai poder dizer de vez em quando: — obrigada mamãe terra porque ela também, não só no seu total, mas muito mais nos
seus particulares, pertence a esta força descomunal que rege os mundos.
e o homem é o convidado número um para ajudar nesta criação contínua, para a terra se transformar em um jardim esplêndido para
todos.

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12º Ítem — a bananeira

em qualquer sítio, ainda que seja muito pequeno, em chácaras etc., sempre haverá um lugar para o plantio de alguns pés de bananeira,
desde que o clima seja propício e não ocorrendo freqüentes geadas.
a bananeira gosta de qualquer terreno mais ou menos fértil.
ela cresce em perambeiras e barrocas sombreadas, na beira dos rios e córregos etc. a sua grande vantagem é de possibilitar várias
finalidades de uso, por exemplo:
— fornecimento de frutas saudáveis e ricas em proteínas;
— fornecimento de alimentos para o gado e outros animais do sítio pelas suas folhas e troncos;
— sombreamento de um terreno às vezes ressecado e pela morte de parte das suas raízes, o melhoramento do solo em humo.
para o plantio da bananeira, abrem-se covas de mais ou menos 70 x 70 cm e uns. 50 cm de profundidade, colocando-se nelas um ou dois
fragmentos de brotos cortados com enxadão no pé de uma toucetra-mãe, afasta-se as covas umas das outras de 3 a 4 metros. importante é de
se proceder ao desbaste dos brotos fracos, deixando-se por cova só os dois mais vigoroso e bem perpendiculares em relação à horizontal,
para se evitar a colocação de forquilhas de sustento, quando o cacho formado ficar muito pesado. poucas semanas antes do amadurecimento
dos cachos, pode-se deixar crescer dois novos brotos para substituir os pés a serem eliminados por corte após a colheita dos cachos.
reconhece-se o amadurecimento das frutas, quando a “mosca” da ponta (residual da flor), desprende-se facilmente deixando o “umbigo”
marrom-amarelo bem à vista. o cacho de bananas pode ser pendurado em uma viga em um galpão, em corda ou arame, na qual é enfiada a
parte do gargalo de uma garrafa quebrada, mais ou menos ao meio, para dificultar o acesso dos ratos e camundongos pela corda ou pelo
arame. cortando-se pedaços do cacho, colocá-los em caixa de madeira ou outra ou simplesmente em papel, em lugar um tanto aquecido, o
que facilita e acelera o seu amadurecimento em determinado tempo, fácil de se observar.
não recomendo o uso de carbureto ou outros produtos para este procedimento (como usado em negócios de escala comercial), para
sítios

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cuja produção é em geral na base do uso caseiro e, às vezes, para presentear aos amigos visitantes nos fins de semana.
É necessário manter o espaço entre as bananeiras livre de mato, porém, dificilmente crescerá capim ou grama neste lugar, por ser muito
sombreado. elimina-se o mato com a foice ou com o alfanje, evitando-se ferir os troncos ou as mudas nos pés das plantas.
no caso de ter muitas bananas maduras de uma só vez, é possível fazer compotas, que bem guardadas se conservam por bastante tempo,
sem fermentar. também um prato de bananas fritas, carameladas e flambadas com cachaça dá uma sobremesa a não se desdenhar.

figura 14 — um cacho de banana de tamanho razoável.

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os troncos das bananeiras podem ser partidos com um facão bem afiado, picando-os em pedacinhos de uns cinco centímetros, podendo-
se misturá-los à ração do gado, junto com cana, capim, farelinho, etc. para galinhas presas em um recinto fechado, um pedaço de tronco de
bananeira dará a oportunidade de bicá-lo à vontade e aproveitar os pedacinhos destacados.
no caso do mesmo apresentar-se murcho no corte, pode-se parti-lo mais uma vez no meio para por à vista a parte mais conservada.
das diversas variedades, julgo conveniente para sítios, o cultivo da banana maçã ou da nanica, que são de porte razoável, fácil de se
cuidar e cujas frutas são de boa aceitação pelo seu gosto e aroma. também a variedade prata é muito útil em sítio.

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13º Ítem — aproveitamento do leite produzido em sÍtios

quando a distância do sitio até a cidade mais próxima é de dois a três quilômetros ou menos, a venda do leite ao natural para uma
freguesia bem escolhida, é o mercado mais indicado para o leite produzido em sítios, desde que a sua venda a particulares seja ainda
permitida pela fiscalização local. reconhecemos sinceramente que a fiscalização é necessária, porém, não deveria ser proibido aos sitiantes
de vender bons produtos diretamente ao consumidor.
lastimavelmente, obriga-se muitas vezes aos sitiantes, a vender o leite para os laticínios, onde ocorrem demais vezes a famosa
multiplicação milagrosa e a remoção de boa parte das gorduras para a obtenção de um “produto final uniforme”, perfeitamente aceitável por
qualquer igreja, por ser devidamente batizado.
e a conservação do leite para o seu transporte, após recolhido pelo caminhão-tanque ou lateiro, é feita na base de produto químico, que
não faz diferença entre as boas e más bactérias, matando todas por igual, deixando este produto sem o seu gosto típico.
a fiscalização é necessária por equipe sanitária que deveria operar no sentido orientativo e instrutivo, para todos os interessados. por
exemplo, eu mesmo vi nos arredores de são paulo, lavar a toalha do coador de leite em um córrego aberto onde o ehorume do estábulo tinha
acesso direto. imagine-se a inoculação do leite pelas bactérias! o pior é que o dono do gado, não estava interessado em nenhuma melhoria;
para ele era só receber o dinheiro do leite entregue na sua maioria para uma pequena fábrica de sorvetes!
o mais importante para sitiantes, fazendeiros, etc., que operam com leite ou os seus produtos, é cuidar da perfeita limpeza do vasilhame,
das instalações, evitando-se o acesso de insetos aos locais onde fica guardado o produto. por exemplo, as janelas podem ser, com medidas
para permitir o uso de telas de fio de plástico de tamanho padronizado no mercado, o que facilita muito a substituição destas telas quando
ocorre a sua danificação.
em sítios de região montanhosa, com a existência de um córrego com água de mina, pode-se aproveitá-lo para a formação de uma
câmara de conservação de leite e nata, visto que em geral a água de mina mantém uma temperatura bastante constante (em geral de 10 a 15º
c.).

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permanecendo fresca no verão e também no inverno.


recomendo a construção de uma pequena câmara feita com tijolos ou blocos de, por exemplo, 2 x 1,5 m e 1.7 a 2 m de altura na qual se
pode prever a corrida suave da água em bacias sucessivas de diversos níveis, para a colocação dos latões, baldes e até de bacias de altura
menor, construídas de um lado da câmara para ter todo acesso nelas até no fundo. também a previsão de algumas prateleiras é de grande
utilidade neste quarto. não aconselho o uso de madeira ou outros produtos facilmente perecíveis para as prateleiras desta câmara, cuja
cobertura será feita de concreto armado ou lajes resistentes para cobri-la de terra. a janela pode ser prevista na parte superior da própria
porta, o que permite enterrar ainda melhor esta câmara, prevendo o seu acesso por uma trincheira numa encosta de morro, se possível.
fora o leite, nata e manteiga, não se deve guardar nesta câmara outros produtos, porque poderia ocorrer atração maciça de moscas e
outros insetos neste lugar. também o cheiro forte de diversos produtos, pode afetar o bom uso do leite e dos laticínios. menciono em
especial, que esta câmara não é frigorífica, porém, ela é o ideal para a formação do ácido butírico da nata destinada para a fabricação de
manteiga. a porta pode ser feita de madeira bem tratada, com produto impregnante especial ou simplesmente com óleo mineral. no vão
inferior, a porta terá algumas aberturas de entrada de ar e na parte superior as correspondentes aberturas para a saída do ar, as quais podem
ser desnecessárias se a janela for construída na parte superior da porta, a uma altura suficiente para possibilitar uma boa circulação de ar, que
deve alcançar facilmente o fundo da câmara.
para impossibilitar a danificação da tela fina de plástico por animais domésticos, é bom colocar uma outra tela metálica de malhas mais
grossas do lado externo e afastado da tela de plástico a uma distância de alguns centímetros.
uma caiação periódica no reboque interno da câmara é a medida mais indicada para mantê-la livre de poluição bacteriana indesejável. a
remoção da crosta calcária, às vezes solta localmente é fácil de se providenciar com o uso de uma espátula, antes da aplicação da nova
caiação. desaconselho o uso de tintas com muitos produtos químicos, para não alterar a boa qualidade da água de uma mina natural.
mais um conselho: nunca querer forçar uma mina de água a elevar o seu nível de água; bem ao contrário, aconselho fazer uma sangria
mais profunda no solo, para ter certeza de captá-la por completo. em geral, pela elevação forçada do nível de água de uma mina, obriga-se
esta a procurar outra saída na camada permeável na qual a água alcança a mina. em vez de captar a mina, assim chega-se a destruí-la.
agora vamos ao trabalho que interessa:
em primeiro lugar, vamos tirar o leite das vacas e das cabras do sítio, operação a ser feita duas vezes por dia no inverno e se necessário
três vezes em época de verão bem quente, em especial para as vacas com crias recentes.

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figura 15 — “pode dar tudo cabritinha. não te incomodes, que em casa a mamãe tem um coador". (mulher sentada num banquinho,
ordenhando uma cabra).

em caso de estabulagem, com camada de capim seco para o deitar suave das vaquinhas, remove-se o esterco na valeta, cobrindo-o com
pequena espessura de capim seco limpo. dando-se no cocho uma pequena quantidade de ração ou uma boa porção de capim, as vacas ficam
mais quietas, baixando o leite mais facilmente, desde que o ordenhador excite o úbere com toques suaves, não forçando as tetas em demasia.
evitar em especial, pressionar as tetas na parte alta junto ao úbere, o que pode originar o desligamento das glândulas mamárias, ocorrendo
feridas sanguinolentas internas e até a formação de pequenos abscessos internos no próprio úbere. também ocorreu já a obstrução dos canais
das tetas por glândulas mamárias, em parte depreendidas. imagina-se a dor provocada à vaca, por tais acidentes, fácil de se evitar, com trato
correto para tirar o leite.
o bom ordenhador sabe tirar leite, com diversos métodos, usando-se o mais adequado conforme o físico das tetas, em relação ao
tamanho das suas mãos;

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— para vacas de tetas muito curtas, a tirada do leite por puxadas alongadas nas tetas, é incômoda e ocorre desperdício de leite, por
respingos, de modo que a ordenha de punho fechado é mais indicada. fecha-se a teta entre o polegar e o dedo indicador, pouco abaixo da sua
base junto ao úbere, pressionando-a devagar com os outros dedos para fazer sair o leite, onde o pressionar da teta se comunica desde o dedo
maior até fechá-lo e em seguida igualmente no dedo anular e no fim com o dedo menor (se tiver ainda lugar). em tetas grandes, o pressionar
destas, pelos três dedos, pode ser simultâneo, desde que o polegar e o indicador impeçam o recuo de leite para o úbere. aconselho um
trabalho intermitente das duas mãos nas tetas, de frente até esgotá-las e depois passar para as tetas traseiras, também até esgotá-las, passando
novamente nas primeiras, até esgotar por completo o úbere, sem forçá-lo em demasia. para melhorar a elasticidade da pele das tetas, é bom
molha-las com a espuma que se pega no balde, de vez em quando com uma movimentação rápida dos dedos sem alcançar o leite em estado
líquido. a espuma do leite é um ungüento gorduroso muito fino, que penetra na hora nos poros da pele; bem melhor que um ungüento
comprado, cujo uso posso só recomendar em casos fora do comum, por exemplo, para a ordenha de vacas com couro duro nas tetas. o
importante na ordenha é de não provocar a vaca com movimentos bruscos e mutantes. isto não quer dizer que todas as vacas se assustam
com os movimentos fortes do ordenhador, bem ao contrário, às vezes as vacas assim soltam uma quantidade adicional de leite. porém,
cuidado, o úbere de uma vaca é um objeto delicado e deve ser tratado com toda a delicadeza possível.
— para vacas com os canais das tetas bem abertos, não requerendo muito esforço das mãos, é suficiente fechar a teta entre dois dedos,
por exemplo, como acima indicado, entre o polegar e o indicador e puxar por baixo suavemente, deixando deslizar-se a teta umedecida com
espuma de leite entre estes dedos ao esvaziar-se, este método é também possível ao fechar-se a teta entre o indicador e o dedo maior. os
ordenhadores profissionais fecham a teta dentro do indicador e dedo maior recurvados bem juntos, tendo a teta apoiada no lado externo do
polegar com a última falange dobrada a mais de 90º de ângulo. não esquecer neste caso de sempre encurtar ao máximo a unha do polegar.
em todos estes métodos, o leite é extraído por puxada suave, por baixo, deixando-se deslizar a teta na medida do seu esvaziamento.
os métodos de ordenhar as vacas acima mencionados são aplicáveis para um rebanho reduzido. de certo, que para uma a duas dúzias de
animais

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produtivos é aconselhável o uso de uma instalação de ordenha mecânica; porém, sempre haverá momentos em que o sitiante deverá tirar
leite manualmente, em especial, no caso de vaca com úbere deficiente por mamite ou pela ordenha mecânica, nesta última, é óbvio se
recomendar a fiscalização contínua da ordenha, não deixando a instalação ligada ao úbere por tempo desnecessário, após a parada do leite,
porque pode ocorrer a destruição de glândulas mamárias, até mesmo a saída de sangue, o que facilmente provoca abscessos internos,
inflamações locais, etc.
para a comodidade tanto do ordenhador, como do animal, usa-se um assento de um pé que se amarra com um cinto de couro e fivela na
devida parte corporal do ordenhador. no lado inferior do pé do assento, coloca-se uma ponta de ferro, que evita o deslize deste no piso
úmido do estábulo (concreta do). alguns sitiantes preferem o uso de um toquinho de três pés. recomendo o assento de um pé só por ser
possível com ele de acompanhar dentro de determinados limites o movimento da vaca na sua escolha da ração no cocho. segurando-se o
balde entre os joelhos, apoiando-se a sua base no lado interno de uma das pernas, a estabilidade do ordenhador é boa e pode ser ainda
melhorada ao apoiar-se a cabeça coberta com boina de couro, suavemente na vaca no rebaixo da junção muscular da perna traseira a barriga.
com este apoio, o bom ordenhador evita até coice de animais não muito confiáveis.
recomendo para a ordenha, o uso de um balde de 8 a 10 litros, bem resistente à deformação (parede grossa), seja de alumínio ou seja de
aço inoxidável. tal balde é muito adequada na ordenha de vacas mansas com úbere muito baixo.
neste caso, coloca-se o balde no chão, segurando-o nesta posição com um joelho apoiado em sua borda superior.
tal método de segurar o balde é também muito aplicado para a ordenha das cabras, o que permite ter as duas mãos livres para a operação
intermitente nas duas tetas.
o leite assim recolhido será coado em um coador de tela de aço inox de malha finíssima ou em um coador com pano removível para per-
mitir a sua esterilização por fervura em água.
o leite destinado à venda ao natural, será resfriado em seguida a ordenha, em um ou mais latões colocados em água fria, mexendo-se de
vez em quando tanto o leite, como a água (se não corrente), porém, com concha bem determinada para o seu uso exclusivo no leite e não na
água.
a entrega do leite deve ser diária e se possível não se deve misturar o leite da tarde com o leite de manhã. evita-se assim, azedá-lo
depressa.
o leite destinado ao recolhe da nata, será centrifugado em seguida á ordenha, com temperatura ainda morna, quer dizer sem resfriá-lo,

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não resta dúvida de que o uso de uma centrífuga só se justifica para uma quantidade razoável de leite (por exemplo de 60 a 80 litros
diários).
a centrífuga será desmontada e serão lavados todos os seus componentes em contato com o leite e a nata, uma vez por dia, em geral,
após a operação de manhã à tarde pode-se após o seu uso, passar um a um e meio litro de água de mais ou menos 45º c na máquina,
evitando-se todavia a mistura de água em grande quantidade com a nata, respectivamente com o leite, se porventura este for destinado à
utilização outra que para a engorda de porcos ou frangos (misturado com mandioca cozida esmagada e farelinho).
em sítio pequeno, com duas a três vacas, é muito interessante se fabricar alguns quilos de manteiga semanalmente para os quais sempre
haverá boa freguesia desde que seja de boa qualidade.
- após a ordenha das vacas, o leite é coado e colocado em várias bacias rasas com bordas amplas, deixando-se estas em lugar fresco e
ventilado (o melhor na câmara de uma mina de água) não as cobrindo por completo com tampas. a nata (que é o elemento gorduroso do
leite) se junta devagar na superfície do leite formando uma camada espessa que se recolhe em uma concha rasa em parte recortada ou
simplesmente com a devida inclinação das bacias soprando a nata para o lado baixo. (por motivo de higiene, posso recomendar o uso da
concha). a nata assim recolhida é guardada em recipientes adequados, sendo os melhores para isto, potes de cerâmica vitrificada
internamente e externamente.
a nata recolhida no pote, pode ser guardada por vários dias, juntando-se a nova nata à dos dias anteriores até ter a quantidade para
compensar o trabalho necessário à fabricação da manteiga na respectiva batedeira chamada barata (não em lembrança de determinado inseto,
mas em analogia à apelação francesa de “baratte”, deste componente).
a batedeira de nata existe em muitos modelos bem diversificados e também específicos para determinada quantidade de nata:
- para pequena quantidade de 2 a 5 litros, existem copos de vidro com tampa na parte superior, que é equipada de uma haste com
engrenagem multiplicadora acionada por manivela. a parte baixa da haste é solidária de uma paleta de madeira com alguns furos para
melhor quebrar a nata;
- para quantidade maior, por exemplo, de 10 a 20 litros semanais, a batedeira é feita de um tambor de madeira ou simplesmente de uma
caixa com as tábuas bem juntas, para vedá-las, na qual é colocado um torniquete de madeira em posição horizontal. o eixo acionador é
passante em uma parede lateral, com a devida vedação e pode ser removido para facilitar a limpeza da barata; a tampa é simplesmente
colocada no lado superior da batedeira,

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sem qualquer fixação de segurança, o que permite a sua remoção rápida e parcial para examinar o estado de transformação da nata em
manteiga pelo ácido butírico, em qualquer momento;
- para quantidades de nata de 40 a 60 litros semanais, existem baratas formadas por tambores de madeira de 80 a 100 litros de conteúdo,
cuja fixação por flanges ao eixo acionador permite a rotação do tambor no seu eixo cilíndrico ou em um eixo transversal, a maioria das
vezes com uma pequena inclinação lateral para fazer correr a nata de um lado para o outro, dentro do tambor.
É óbvio que estas baratas devem ser equipadas com tampas adequadas, com vedação eficiente, e com apertos de parafusos de roldanas
de manobra comprovada. usa-se na batedeira de tambor rotativo, no seu eixo cilíndrico, uma cruzeta de madeira para melhorar a quebra da
nata, sendo esta cruzeta fixada na abertura da tampa conjuntamente com esta última.
na barata de tambor com eixo transversal dando-se nele uma pequena inclinação, a movimentação da nata é tal que não é necessário
prever uma cruzeta interna.
devido aos fechos parafusados da tampa destas baratas, é necessário prever nelas uma pequena janela com vidro de boa espessura para
permitir a avaliação do estado de transformação da nata em manteiga. estas janelas são formadas por vidro resistente de 3 a 4 cm de
diâmetro útil, preso por armações em aço inoxidável, mantidos firmes conjuntamente por três parafusos com cabeça de aço inox na própria
tampa da barata.
para todos estes tipos de batedeira de nata, o mais importante é a sua limpeza antes e depois do uso, arejando-as em seguida o suficiente
para não deixar criar mofo e conservando-se nas suas paredes de madeira (a melhor é a de castanheiro), o ácido butírico que ajudará muito o
trabalho na formação da manteiga. É totalmente fora de cogitação o uso de produtos detergentes para a limpeza das baratas.
o mais acertado é o uso de água fervendo qae se deixa durante uns dez a quinze minutos na barata, mas cuidando-se bem da barata de
vidro que não suporta água muito quente; nesta só a peça de madeira será colocada em água fervendo.
para as baratas com tampa parafusada, é necessário equipá-las com uma torneirinha de equilíbrio de pressão, abrindo-se esta após cada
duas ou três rotações, quando o conteúdo é água quente.
também esta torneirinha será aberta de vez em quando no início do trabalho com a nata para não deixar pressão ponderável no
recipiente, o que poderia originar vazamento e até danificação total da barata de tampa parafusada. quando dispuser de energia elétrica ou
mecânica em sítios importantes, poder-se-á prever o devido acionamento da batedeira de nata, respeitando-se duas velocidades com um de
multiplicador adequado.

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da minha longa experiência, posso dizer que a rotação mais acertada é de um a um e meio giro por segundo, baixando-se esta para meio
a um giro por segundo, quando a manteiga é de formação granulada.
com temperatura ambiental equilibrada e com a temperatura da nata de 25 a 28º c, em geral, são necessários de 30 a 40 minutos de
trabalho contínuo da batedeira até a formação da manteiga. retira-se então no bujão o fluido leitoso residual da batedeira, deixando-se nela a
manteiga. côa-se o fluido leitoso (também chamado na frança de baixo-leite) na hora da sua saída do bujão. coloca-se depois água fresca e
bem limpa na batedeira e dá-se nela uma movimentação rotativa suave e desigual para facilitar o pelotas da manteiga, que é também assim
lavada do soro residual, o que facilita a sua conservação. remove-se depois a manteiga, colocando-a em lugar fresco, porém, não frio demais
para não impedir a sua elaboração em maços comerciáveis, feitos muitas vezes em moldes de madeira com as superfícies entalhadas, com as
quais se obtêm figuras artísticas de características regionais comprovando a origem da manteiga. na frança além dos moldes de quarto, meio
e de um quilo, existem também rolos entalhados para a decoração de pelotas de manteiga de três, cinco e mais quilos.
evita-se que a manteiga grude nos moldes ou nos rolos decorativos, colocando-se estes por alguns minutos em água morna, de 40 a 45º
c, que é mais ou menos a temperatura acedia do ponto de fusão da manteiga, porém, não elevada em demasia para não originar desperdício
desta.
as pelotas de manteiga assim formadas serão conservadas depois em lugar frio, se possível em geladeira, até o seu uso ou até a sua
venda, respectivamente até a sua entrega. calcula-se mais ou menos a obtenção de um quilo de manteiga com a nata recolhida de 26 a 30
litros de leite.
mais uma observação importante na fabricação da manteiga: no período frio do ano, é praxe aquecer um pouco a nata antes de colocá-la
na batedeira. todo o cuidado é pouco nesta operação para se evitar o aquecimento excessivo da nata, o que resultaria em um produto
desclassificado, de cor pálida, sem gosto, na maioria das vezes, aproveitável só como banha para a própria cozinha.
mais uma dica: quando a nata não quer “cantar bonito” na batedeira, expressão que se usa para designar a mudança do som produzido
pelo baque da nata na batedeira ao mudar o seu estado cremoso (quase de neve) para o estado mais fluido no momento da formação das
bolinhas de gordura. após uns cinqüenta minutos ou uma hora; pode ser que a causa é a sua temperatura demais baixa. neste caso, se junta à
nata mais ou menos um litro de água de mais ou menos 70º c, mexendo-se em seguida a nata com algumas rotações da barata, deixando-a
descansar por uns 5 a 10 minutos, em geral, ocorre em seguida à formação da manteiga na barata. um pouco de prática é fácil de se adquirir,
ao se assistir a fabricação da manteiga de modo caseiro em sítio ou fazendinha do interior.

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devo recomendar mais uma vez se evitar a vizinhança da manteiga com produtos cheirosos, porque a manteiga retém facilmente estes
cheiros, sendo assim depreciada na sua qualidade, ainda que seja de cor e composição satisfatórias. cuidado especial deve ser dado com o
uso de produtos químicos para lavar prateleiras, geladeiras, etc., porque o cheiro forte destes, ainda que em quantidade mínima, afeta muito
a manteiga fresca.
para a limpeza dos mencionados objetos, o mais acertado é o pano bem aquecido em água quente mexido com um alicate de madeira. se
persistir cheiro forte na geladeira, etc., coloca-se duas a três colheres de sopa de vinagre em água fria e com pano molhado, repete-se a
limpeza da geladeira.
voltando à manteiga, no ponto da sua lavagem com a água fresca e limpa, devo observar que não adianta exagerar na quantidade de
água: usa-se em água mais ou menos metade até três quarta partes da quantidade do baixo-leite ou soro de manteiga retirada da barata. evita-
se também o uso excessivo de água quente de lavagem dos utensílios, porque todas estas águas podem ser aproveitadas na alimentação dos
porcos, desde que não sejam misturadas com produtos detergentes ou sabão.
o baixo-leite ou soro de manteiga, colhido da barata, é um excelente laxativo bem leve, tanto para gente como para animal. sendo o seu
aproveitamento bem dosado, pode-se usá-lo totalmente para leitões de cria ou de engorda parcial, seja ao natural como bebida fresca ou seja
em mistura com mandioca cozida esmagada ou com farelinho.
neste estado, o soro de manteiga é muito bem aceito também pelos frangos, galinhas, patos, etc.
na alimentação humana, uma jarra de baixo-leite bem fresco é uma delícia para o jantar e vai bem com batatinhas cozidas servidas
quentes com manteiga nova e queijo velho, também com uma salada de alface ou de escarola. tal refeição é nada desprezível e já curou
muita gente de distúrbios gástricos e intestinais, porque o baixo-leite facilita a formação da flora intestinal necessária à assimilação dos
alimentos.
para quem gosta de variedades raras de queijo, posso também recomendar o uso do baixo-leite na fabricação de um tipo de queijo um
pouco quebradiço, mas de um gosto típico, um pouco acidulado, que é uma regalia para o consumo em conjunto com doces caseiros.
a sua fabricação é idêntica à do “vachard” e do “cabrion” franceses que descrevo a seguir:
o “vachard” é feito de leite integral de vaca. todavia fabrica-se este tipo com parte de leite desnatado, dando assim o "vachard magro”
em oposição ao “gorduroso”.
o “cabrion” é feito de leite de cabra, porém, juntando-lhe uma pequena quantidade de leite de vaca na base de um litro deste para cinco
a

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seis litros de leite de cabra,. para melhorar o seu gosto, que é muito picante, quando feito unicamente com leite de cabra.
a fabricação do vachard e do cabrion, é simples e idêntica, não requerendo muito tempo como a fabricação de queijos mais sofisticados
que é só justificado em escala industrial com o uso das devidas instalações.
vamos agora fabricar um bom queijo caseiro que se pode consumir tanto em estado fresco, semi-seco ou depois de envelhecido e
devidamente “sazonado”:
- o leite colhido na ordenha das vacas, cabras é coado, dosado e colocado em recipientes adequados, seja de cerâmica vitrificada, ou de
aço inoxidável.
não usar recipientes de alumínio, que pode tornar-se ácido.
pessoalmente, posso recomendar o uso dos potes de cerâmica, de 8 a 12 litros de conteúdo, porém, evita-se o intercâmbio destes
recipientes com aqueles usados para a nata, o que prejudicaria o bom gosto desta última.
neste leite ainda morno, de 28 a 35º c, coloca-se coalho na dose certa, conforme prescrição do fabricante deste produto (antigamente
usava-se extrato de bucho de bezerro ou de porco). em geral a quantidade é de uma colher de café para vinte litros de leite até uma colher de
sopa para cem litros de leite.
o coalho pode ser misturado em meio copo de água morna, para facilitar a sua diluição no leite. mexe-se com uma concha o leite assim
tratado, durante meio minuto, deixando-o depois em repouso para um meio dia até um dia em um lugar tranqüilo e de temperatura ambiental
mais ou menos 25º c. o leite prende-se em uma massa que devagar inicia o desprendimento do soro dentro do próprio recipiente.
com o coador de massas, prendem-se partes sucessivas do queijo, assim formado para encher pequenos moldes de configuração regional
variada, os quais são hoje em dia feitas de plástico (polietileno) e com grande número de furos de mais ou menos 2 mm de diâmetro para o
soro escorrer.
os moldes mais usuais são de um tronco de cone de 8 a 10 cm de diâmetro médio e de 7 a 8 cm de altura, dando as seguintes vantagens:
— embutidos durante o recolhe, no transporte e no seu armazenamento; esses ocupam pouco espaço;
— a limpeza é fácil, alcançando-se o fundo com os dedos;
— a forma cônica facilita a extração por gravidade do queijinho contido no molde ao virá-lo;
— o tamanho indicado é dado pela experiência relativa à passagem do soro através da massa do queijo, permitindo a sua pré-secagem,

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com o recolhimento da maior quantidade de soro possível.


recomendo em sítio, o uso de um baú de tábuas com ranhuras para facilitar a colheita do soro.
a tampa será guarnecida de tela de plástico prova de moscas, camundongos, etc. o espaço necessário neste baú deve ser tal a permitir a
colocação dos moldes dos queijos fabricados em dois a três dias. justifica-se este tamanho pelo fato da junção da massa de dois moldes em
um só a tarde, quando a maior parte do soro tiver escorrido da massa. em uma gaiola de prateleiras totalmente revestida de tela de plástico,
coloca-se palha escolhida de centeio, trigo ou outra; serve também na falta desta, capim sapé cortado no tamanho certo e bem seco.
a colocação desta gaiola será tal a aproveitar-se ao máximo possível do sol durante o dia.
os moldes são colocados em pé, por um meio dia, na palha. viram-se depois os moldes cuidando-se de que o queijo se desprenda do
fundo, indo pousar diretamente em contato com a palha. após mais um meio dia, o queijinho é seco o suficiente para poder retirar-se o
molde sem deixá-lo achatar. aproveita-se este momento, para salgar os queijinhos no lado superior. após mais um dia, viram-se os queijinhos
na palha, deslocando-se estes para facilitar a secagem e para salgá-los do lado oposto ao primeiro. após mais uns dois a três dias, os
queijinhos estarão bem secos podendo-se empilhá-los em lugar adequado, arejado e fresco, se é o estado desejado para o seu consumo ou a
sua venda.
para queijinhos destinados ao envelhecimento, deixam-se estes ao sol até ficarem duros como pedra. neste estado, colocá-los em um
porão com prateleiras guarnecidas de palha e se possível com folhas de nogueira ficam. se a umidade no porão é suficiente, aguarda-se a
fermentação dos queijinhos, senão rega-se um pouco a camada de palha e folhas conjuntamente com os queijinhos, com a água fresca e bem
limpa. o amadurecimento dos queijinhos se reconhece pelo seu amolecimento vagaroso, que chega ao ponto de formar-se uma massa
cremosa branquíssima dentro de uma crosta dourada de um gosto inesquecível, tão apreciado pelos “gourmet”.
estes queijinhos têm boa cotação em todas as feiras na frança e a sua fabricação é compensadora.
como acima anotado, este queijo pode ser consumido no estado fresco na forma de sobremesa cremosa, seja com um pouco de sal ou
também com açúcar. no estado semi-seco ou seco mesmo, ele é consumido com pão praticamente a cada refeição porque ele facilita muito a
digestão. porém, é no estado envelhecido que especialmente o “cabrion” adquire a sua fama. forma-se na crosta destes queijinhos um bolor

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suave que lembra um pouco o gosto do famoso cogumelo chamado “troféu” cuja colheita e só possível com animais devidamente
adestrados: cachorros e especialmente os porcos que o cheiram embaixo de boa camada de terra, onde ele cresce nas raízes dos carvalhos.
como em regiões de clima temperado, as cabras são secas no período de inverno (prenhes de cinco meses indo de fins de setembro-
outubro e novembro até fevereiro-março-abril), providencia-se a conservação do cabrion bem seco em caixas bem fechadas, forradas com
cinza de madeira, tendo o cuidado de envolver os queijinhos em maços de meia dúzia em papel celofane e depois em folha aluminizada.
durante o inverno, retira-se os queijinhos em lotes destinados ao consumo ou a venda deixando-os sazonar como acima descrito para o
envelhecimento.
não quero aqui fazer muita propaganda para o “cabrion” envelhecido, basta dizer que quem gostou, volta a querer comê-lo outras vezes.
ele é um “gueuleton” (uma refeição toda especial), quando comido com pão de centeio e acompanhado de uma garrafa de beaujolais, côtes
du rhóne ou outro vinho regional de bom nome e qualidade.
o prezado leitor pode deduzir do acima descrito, que até a criação de algumas cabras em sítio pode ser motivo de alegria, quando juntos
com amigos. degustam-se alguns queijinhos picantes ao ponto de deixar vaguear o nosso espírito em cumes montanhosos onde praticamente
só estes bichinhos corajosos, teimosos, mas ao mesmo tempo muito prudentes e sempre muito amorosos, teriam acesso.

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14º Ítem — as prin (: ipais ferramentas i) e uso no sÍtio

figura 16 – as principais ferramentas (parte).

1 — pá de cabo comprido
2 — pá-vanga de cabo curto
3 — rastel para trabalhos na horta
4 — gancho de duas pontas
5 — pá-vanga
6 forca de quatro pontas
7 — alfanje com cabo rústico
8 — gancho de três pontas
9 — enxadão de cabo curvo para a desloca
10 — ferro de ceifar arroz (serve para cortar capim)
11 — gancho de quatro pontas
12 — recipiente para a pedra de afiar
13 — enxadinha para serviço da horta
14 - forca de três pontas

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figura 17 — as principais ferramentas (parte).

15 — pé de cabra (para esticar arame farpado)


16 — enxada para aterrar
17 — talhadeiras
18 — foice leve
19 — podão
20 — ferro de cortar capim
21 — martelo
22 — faca-plaina
23 — turquesa
24 — foice pesada
25 — bigorna para bater o alfanje
26 — machadinho
27 — martelo para bater o alfanje
28 — cavadeira
29 — marreta
30 — cunhas para partir lenha
31 — enxada para capinar
32 — serra de arco
33 — machado

1. enxada — a enxada é sem dúvida, a mais usada das ferramentas na lavoura tanto para a limpeza do mato em derrubadas de capoeira,
como para capinar as plantações. de tamanho diversificado, cada enxada é destinada para determinada finalidade: em roça de feijão, não se
pode usar o tamanho maior, para alcançar melhor os espaços entre as plantas; porém, seria contraproducente o serviço de uma enxada
estreita para carpir o mato em terreno sem plantação.
o mais importante é calcular o tamanho do cabo adequado à altura do trabalhador, regulando-se também a inclinação acertada da
lâmina, no cabo para possibilitar um trabalho agradável.

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esta inclinação é escolhida de modo a permitir um movimento quase paralelo da enxada em relação ao nível do chão, não sendo o
trabalhador obrigado a fazer muito esforço:
— em termos de lavoura: a enxada tem de mexer pouco a terra, todavia, não pode correr por cima (inclinação excessiva ou errada).
recomendo ter sempre a disposição algumas enxadas de tamanho diversificado para serem usadas nos diversos serviços da roça, sendo
também costume respeitar a preferência pessoal por tal ou tal enxada, em especial para camaradas. a enxada é para ser considerada como
objeto pessoal e já a grossura do seu cabo deve obedecer ao tamanho das mãos do trabalhador que assim a segura mais firme.
2. enxadÃo — o enxadão é usado para tombar a terra com pouca profundidade, para derrubada de barrancos e em especial na destoca
do mato. a sua largura em geral é normalizada em poucos tamanhos, sendo a mais larga de utilidade comprovada só para tombar terras muito
leves.
o cabo do enxadão, quanto à grossura, deve ser maior do que a da enxada e a sua fixação acertada requer uma boa cunha, bem seca de
madeira adequada. posso recomendar para o enxadão a ser usado na destoca, um com cabo curto para facilitar a penetração do enxadão em
baixo de feixes de raízes.
em vista do fato do trabalho com enxadão ser executado já com certa inclinação, para frente do corpo, não há necessidade de se acertar
tanto o comprimento do cabo ao tamanho do trabalhador como para a enxada, todavia, respeitando-se certos limites.
também, não há necessidade de muitos enxadões em sítio, fora para o trabalho de destoca do mato.
na compra do enxadão é bom verificar duas características determinadas:
— a espessura da chapa e em especial da nervura central interna em baixo do olhal de colocação do cabo que deve ser aceitável. evitar a
compra de enxadão de chapa de aço fraco ou muito fino.
- o enxadão deve apresentar-se com leve curvatura transversal na sua parte superior e central, para lhe dar a resistência necessária ao
esforço resultante do comprimento da sua parte metálica em relação ao comprimento do seu cabo.
3. foice — a foice é usada para roçar pasto e lavoura e também para a desponta de galhos na derrubada de mato. como para a enxada, o
tamanho da foice e em especial o tamanho do seu cabo deve ser escolhido mais de acordo com o tamanho e físico do trabalhador do que
conforme o serviço.

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todavia, o caboclo gosta muito de uma foice grande e um tanto pesada para roçar, por exemplo, guaxumas, porque assim ele vence
melhor o molejo destas plantas bastante resistente ao corte à meia altura (pessoalmente prefiro fazer este serviço com um enxadão largo, um
tanto curto e bem afiado).
mas o importante na foice, é saber afiá-la corretamente em uma mola esmeril, sem desgastar em demasia a sua lâmina, operação esta
que se termina com uma pedra de afiar de porosidade adequada, o que permite obter uma superfície bem lisa nas laterais da lâmina, o que
facilita o trabalho e dá um rendimento de corte melhor. esta é a razão do uso da pedra, em vez da lima para afiar as ferramentas, tanto
enxadas, enxadões, foices, machados, ferros de arroz, facões, etc.
4. machado — para tombar árvores e mato crescido, o machado não pode faltar cm sitio; também no serviço da destoca, para o corte
das raízes de certo tamanho, ele é imprescindível, todavia, recomendo neste caso o uso de um machado um tanto usado, porque se sujeita ele
a um pronunciado desgaste, quando da operação de afiá-lo para eliminar as danificações ocorridas no seu corte, por batidas em pedras na
terra ou preso entre as raízes.
o tamanho do cabo do machado deve ser tal a permitir a sua manipulação normal segurando com uma das mãos o seu ponto extremo.
nunca se deve trabalhar no mato com o machado, deixando uma ponta do seu cabo superar a mão (seja a esquerda, seja a direita), porque
existe sempre o perigo desta ponta enroscar em cipós ou galhos e desviar o machado da sua trajetória. houve já, muitos acidentes resultantes
deste erro de manejo de um instrumento muito útil, porém, que devido à energia cinética nele acumulada, pode tornar-se uma arma perigosa
para o próprio operador. também, é bom sempre se lembrar que crianças não devem brincar com o mesmo. evitam-se alguns cortes
acidentais ao transporte do machado ao equipá-lo de um revestimento adequado, de couro que cobre a sua lâmina, precaução muito indicada
quando os ajudantes no sítio são menores de 15 e de físico não muito avantajado. também para adultos, esta precaução é recomendável,
porque um corte por machado ocorre muito depressa ao escorregar não só em perambeira, porém, em estradinhas de floresta ou do mato,
quase sempre úmidas pelo orvalho ou molhadas em tempo chuvoso.
para a corte de árvores com o machado, é bom dar um entalhe até mais ou menos, um terço do diâmetro do lado em que se julga o
mesmo cair. o fundo do corte deve ser feito de modo a se obter uma linha bem reta. depois se providencia o entalhe do lado oposto, subindo-
se um tanto, este corte em relação ao primeiro, cuidando de se manter tanto que possível a espessura da seção restante do tronco por igual
até o momento em que a arvore inclinar-se devagar. dá-se então, uma ou duas machadadas bem acertadas de uma posição segura, para recuar
no momento da queda da árvore, porque pelo molejo dos galhos, o pé do tronco pode reagir de modo imprevisto, pondo em risco o pessoal.

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o importante no trabalho do lenheiro é aprender a destacar cavacos de bom tamanho com duas batidas em sentidos inclinados opostos
no entalhe, sendo o ângulo de cima maior do que aquele de baixo, por exemplo, + 40º < e – 10º < em relação à perpendicular ao eixo longi-
tudinal do tronco da árvore, quando no fim do respectivo entalhe.
mantendo-se a seção restante por igual de um lado ao outro do tronco, dificilmente a árvore poderá desviar da direção de queda prevista,
desde que a sua coroa frondosa não seja muito desigual em relação ao eixo vertical do seu pé.
para o recorte de galhos, recomendo fazer o corte sempre um tanto inclinado (por exemplo, de 20º ou 30º <), o que evita a resistência
simultânea de todas as fibras da lenha à ação do machado. também um leve entalhe debaixo do galho ajuda a sua rápida quebra.
despontando-se com foice ou podão os galhos, recortam-se estes em tamanho de peso razoável o mais retilíneo possível. o transporte
para perto da casa ou de um galpão onde se guardará esta lenha para secar, é no estado bastante verde, um tanto incômodo, porém,
justificado pelo fato do fácil recorte dos pequenos e médios galhos com o próprio machado, não havendo necessidade de se gastar energia de
combustível ou elétrica com a serra circular. colocando-se um pedaço de tora de árvore de mais ou menos 70 cm de comprimento e 30 ou
mais cm de diâmetro, em pé, bem firme no solo, apóia-se os galhos na parte plana ou lombada superior, prevendo-se o corte inclinado
acertado pelo machado do lado oposto ao lado do galho seguro com uma das mãos. o pedaço solto pelo machado (de 20 a 30 cm de
comprimento), cairá sem voar muito pelos ares, desde que o corte seja feito no lugar de apoio do galho na borda da tora. esta tora de apoio
poderia ser deixada em posição horizontal em relação ao solo e ao seu eixo cilíndrico, porém, comprovadamente o desgaste da tora pelas
batidas sucessivas é muito rápido nesta última posição. a mais, com a tora em pé, o operador controla melhor a direção imprimida ao
machado e à posição do galho.
para galhos menores, o uso de um machadinho bem afiado é o mais indicado. com um pouco de prática é incrível o rendimento que se
pode conseguir neste trabalho, não muito cansativo, lucrando-se assim em sítios de muitas calorias ganhos na lenha, não só pelo conteúdo
energético da própria lenha no fogão da cozinha, porém, também, pelo efeito aquecedor do trabalho em dias frios de inverno, perdendo-se,
todavia o calor do susto do pagamento na compra de combustíveis caríssimos, que é assim desnecessária.

5. serra de arco, tranÇadejra, serra motorjzada — aproveito as descrições feitas acima para o trabalho do machado na derrubada de
árvores, para mencionar o uso da serra, seja a arco, seja de uma trançadeira. por fim quero fazer algumas considerações relativas ao uso de
moto-serra que só se justifica em sítio de certa importância, com bastante lenha, proveniente da poda periódica de grande pomar, do mato ou
de reflorestamento.

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a serra de arco é composta de uma lâmina de aço com os respectivos dentes bem afiados, mantida esticada pela elasticidade de um arco
feito de um tubo metálico devidamente curvado. também existem ainda no interior, serras com olhais nas duas extremidades da lâmina, nos
quais se apóiam as pontas de um arco de madeira (pau de arco), colocado após o seu corte no mato e devidamente tratado:
— assa-se devagar o cabo de pau de arco em uma fogueira a céu aberto, até poder remover a casca, mediante um pano em cada mão,
dando-se certo movimento de torção oposta na casca que assim se desprende facilmente. continuar a assar o cabo até ele suar bem nas duas
pontas. neste momento dobra-se o mesmo, devagar, em todos os sentidos, entre dois ou três mourões fincados no solo ou em uma árvore de
tronco duplo ou múltiplo. se por acaso a fibra do cabo não estiver ainda muito solta, torna-se a assá-lo um pouco mais. tal procedimento
permite a soltura de todas as fibras ao ponto de poder dobrá-lo facilmente e o suficiente para enfiar as suas pontas nos olhais da serra.
recomendo o mesmo tratamento, porém, em grau menor, para todos os cabos de enxadas, foices, forcas, excluindo-se, porém, os cabos
que devem permanecer mais rígidos, como em enxadões, machados, pá-vanga.
agora vamos usar a serra no mato, porque ela permite diminuir as perdas de lenha em forma de cavacos, especialmente no recorte de
toras e galhos importantes.
na derrubada de árvores de certo tamanho, a serra de arco é de fácil manejo: faz-se um corte no lado provável de sua queda, com a serra
até mais ou menos um terço do seu diâmetro, com o cuidado de manter-se a lâmina em posição quase perpendicular em relação ao eixo
cilíndrico do tronco.
após a remoção da serra, providencia-se o entalhe com o machado, em forma de cunha oca, para permitir a inclinação posterior do
tronco. serra-se no lado oposto, cuidando sempre de se diminuir por igual a seção restante da madeira do tronco, chegando-se muitas vezes a
menos de 2 cm de largura desta seção até a queda da árvore.
para árvores de grande diâmetro, o método de trabalho é idêntico ao acima descrito para a serra de arco, porém, usa-se a trançadeira
cuja lâmina é levemente ovalada do lado guarnecido de dentes agrupados e com interstícios entre os grupos para facilitar a saída da
serragem do corte, tendo um cabo curto de madeira a cada extremidade para o seu manejo, por duas pessoas.
para impedir que a serra seja presa dentro do próprio corte na hora de uma árvore inclinar-se neste sentido, usa-se cunhas de aço, que se
colocam na fenda do corte mediante marretadas devidamente aplicadas e com cuidado todo especial para evitar a possível danificação da
trançadeira pelas cunhas.

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em dias frios de inverno, aquecer as cunhas para não ter surpresas e acidentes com o seu recuo na hora da batida.
o trabalho cuidadoso com as cunhas de ferro permite determinar a queda exata de uma árvore, mesmo quando os galhos encontram-se
só do lado oposto ao desejado na queda. neste caso, é muito importante que a firmeza da seção restante da madeira seja o suficiente para
segurar a árvore na posição extrema oposta, quando se inicia a correção do seu ângulo favorável a sua queda acertada, momento em que será
possível diminuir ainda um pouco a seção restante com a trançadeira até que a árvore caia na direção prevista. o recorte do troco em toras é
também feito mediante a trançadeira mantida de acordo para conseguir um corte bem perpendicular em relação ao eixo cilíndrico. no caso
de desvio da trançadeira, cuja origem é o comprimento desigual dos dentes, evita-se isto com a troca de sentido das pontas da trançadeira,
após dez a vinte puxadas duplas na serra. retifica-se esta tendência na próxima afiação da serra, marcando durante o trabalho o lado do
desvio da trançadeira.
na hora do tronco ceder ao ponto de diminuir a abertura do corte dá-se uma ou duas cunhas neste corte para mantê-lo aberto o suficiente
e facilitar assim o vai-e-vem da trançadeira.
todos os trabalhos acima indicados podem ser providenciados com uma moto-serra desde que ela seja de tamanho adequado ao serviço
a ser executado. todavia a perda de madeira é bem maior no serviço da moto-serra, em relação ao serviço com uma boa trançadeira. o gasto
de combustível e de óleo de lubrificação afeta muito o custo do trabalho com a moto-serra. também a despesa para a compra desta, só é
justificada, se o seu uso é relativamente freqüente. recomendo muito cuidado no manejo destas motos-serra em especial em terreno
inclinado e úmido, porque uma queda do operador ou só o seu escorregar pode originar acidentes graves. deve-se cuidar da limpeza do
terreno, ao redor das árvores a serem derrubadas mediante moto-serra. posso dizer que a elaboração de um pequeno assento adequado, feito
com enxadão não é desprezível em perambeira. o tempo supostamente perdido para tal serviço é bem menor do que uma possível e talvez
necessária permanência por meses em hospital, devido a um acidente.
o custo de uma pequena moto-serra, justifica todo cuidado, a lhe ser dado durante o seu uso e em especial após este, sendo necessário
limpá-la muito bem e lubrificar os seus componentes conforme prescrições e recomendações. em caso de parada prolongada, a moto-serra
será guardada em lugar seguro, seco e ventilado e se possível recoberta com uma pequena lona ou pano para se evitar a poeira em demasia.
na hora de usá-la novamente, não esquecer de revisar o combustível e o óleo lubrificante. em caso de partida muito dura, não esquecer
de dar uma ou duas pequenas colheres (das de café), de combustível na aspiração do carburador e se necessário enchê-lo mediante aspiração
forçada.
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recomendo rever frequentemente se a corrente da lâmina está bem esticada, para não desviar das suas guias. se não, melhora-se esta,
conforme as instruções.
aproveitando a oportunidade, quero também lembrar aqui, que a lima para afiar os dentes de motos-serra não deve ser tocada na sua
parte ativa. É bom também passar um pano com querosene nos dentes para remover resíduos do lubrificante antes de afiá-los com a lima.
evitar afiar os dentes por desigual, com o uso de duas limas, sendo uma mais nova do que a outra as usando alternativamente nos dentes do
mesmo lado. em corrente de pronunciado desvio de corte usa-se a lima mais gasta do lado de dentes de menor altura, até perceber em
operações futuras a eliminação do desvio. evita-se afiar muito as pontas dos dentes, que é mania de principiantes.
como em tudo, um pouco de prática com boa dose de observação dá certo para retificar correntes erradamente tratadas.
e não esquecer que a moto-serra não é brinquedo para jovens meio crescidos, porém, não ainda com espírito de responsabilidade
suficiente para avaliar as vantagens, perigos, cuidados, etc., deste componente, por certo, muito útil, porém nada barato e sempre perigoso.

6. podÃo — o podão é uma ferramenta de utilidade variada, tanto no mato, como na poda de árvores frutíferas, etc. não sendo facil-
mente encontrado em lojas, pode ser feito com a lâmina de uma foice quebrada na altura do olhal do cabo. com um pedaço de tubo não
muito grosso e ovalado na morsa, pode ser elaborado um cabo que se solda na lâmina. posso recomendar fazer um corte no tubo para
prender a lâmina em um comprimento de mais ou menos dois centímetros, o que aumenta a superfície de solda que assim é bem mais
distribuída e consequentemente mais eficiente.
a ponta do podão será esmerilhada para obter-se uma curva com a parte externa não cortante. a critério do operador, na parte superior da
ponta do podão, pode-se prever uma ponta adicional muito útil para repuxar galhos com o próprio podão. de um lado da lâmina, pode ser
prevista uma lingüeta de chapa de aço, que sai do cabo, que permite pendurar o podão na cintura.
a grande utilidade do podão é comprovada no preparo da ramagem das árvores para guardá-la em feixes prontos para o seu uso em
fogão ou na lareira na época fria do ano.

7. o alfanje — É uma ferramenta com folha forjada de aço bem cortante, que se fixa em um cabo curvado e com dois punhos, que

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usa-se para diversas finalidades, sendo, todavia a principal, o corte de capim; também no corte de cereais de meia altura é feito com o alfanje
equipado com um acessório todo especial que possibilita a junção do cereal cortado em fileiras ao lado esquerdo do operador, que assim não
vai pisar nelas, tendo passagem livre para o seu avanço, passo a passo, após cada passada ativa do alfanje. importa observar, que ao alfanje
deve ser dada uma movimentação angular com os braços, em posições certas, para não esticar, nem encolher, demais os respectivos
músculos. ao exemplo de uma faca, que corta bem só com uma movimentação de vai e vem o alfanje dará um serviço correto ao ser
movimentado da direita para a esquerda em um determinado ângulo e não ao modo de capinar com uma enxada.

figura 18 — uso correio do alfanje em movimento circular parcial.

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os punhos do cabo do alfanje devem ser bem firmes. o lugar do punho elevado no cabo, para a mão direita é no ponto de equilíbrio do
conjunto em posição de trabalho. o tamanho do cabo e consequentemente as respectivas distâncias dos punhos devem corresponder ao físico
do operador. também a folha do alfanje, deve ser escolhida conforme o trabalho. aqui no brasil, o uso de um alfanje, de 20 ou 22 polegadas
de comprimento da folha é a meu ver o mais adequado, porque em geral o capim é de talo grosso e não fino como em países temperados. o
ângulo de abertura da folha cm relação ao cabo deve ser tal a obrigar a ponta da folha a acompanhar o círculo descrito pela sua parte
extrema cortante que corre no chão no lado oposta à ponta. tal observação pode ser feita mantendo-se o alfanje em uma parede e
descrevendo com ele um movimento giratório parcial, mantendo-se, todavia o punho da mão esquerda apoiado no chão.

figura 19 — regular a posição da folha do alfanje. posição do salto.

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pessoalmente, eu prefiro um cabo de alfanje feito para tal finalidade, mediante um galho escolhido no mato, a um cabo sofisticado
comprado, de medidas padronizadas, porque em geral, a abertura angular acima anotada é excessiva nestes últimos, o que exige um
movimento rotativo parcial da parte superior do corpo fora de comum, tornando-se o serviço muito cansativo.
agora o ponto essencial no uso do alfanje: bater o alfanje para endurecer o aço ao mesmo tempo em que ele se torna mais fino na parte
cortante, é um serviço que exige muita atenção para não arruinar um alfanje novo, o que seria uma grande perda, porque um bom
alfanje não é barato.

figura 20 — regular a posição da folha de alfanje a posição da ponta deve corresponder à posição do salto.

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para esta operação é usada uma pequena “bigorna” resistente que também pode ser elaborada mediante um pedaço de aço de mola de
caminhão (mais ou menos de 6 cm de comprimento), ovalado na parte superior e soldado em um tarugo com ponta, que se finca no chão. (a
altura total do bigorna é de 30 cm mais ou menos.).
coloca-se por solda a um terço da sua altura, uma cruzeta de ferro chato, como encosto no chão.
um martelo de aço com superfície pouco ovalada é a ferramenta complementar. recomendo o uso de um martelo de duas cabeças opos-
tas, usando-se um lado só para fincar a bigorna no chão, enquanto que o outro lado será usado só para as batidas no alfanje, cuidando de se
manter a sua superfície bem lisa, evitando-se assim imprimir na folha do alfanje finas nervuras que, às vezes, são a origem de rachaduras ou
quebras no fio de corte.

figuro 21 — bater o alfanje para endurecer o seu fio de corte ao afiná-lo.

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aplicar batidas bem acertadas no fio cortante do alfanje, com pouca profundidade de largura, deslocando-se a folha em um movimento
contínuo de vai e vem de pouca distância, porém, evitar bater sucessivamente no mesmo lugar, para não ondular o fio cortante, o que
resultaria em danificação comprovada do alfanje. não esquecer de manter o alfanje na devida posição em relação à bigorna. no presente
caso, seria com a nervura da folha por baixo, quer dizer, em posição invertida à posição da folha durante o seu uso. após umas duas passadas
de batidas de ponta a ponta da folha, esta última fica pronta para ser reposta no cabo no qual ela é mantida por um elo de forma combinada
entre um retângulo de um lado e semicircular do outro, e mediante uma cunha de madeira. a melhor para isto é o guatambu, porque ela
resiste bem às batidas do martelo na hora da sua colocação forçada entre o cabo e o elo de ferro na sua parte semicircular.

figura 22 — repondo a cunha no anel de fixação da folha ao cabo do alfanje.

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recomendo para principiantes, experimentar as suas aptidões em um alfanje usado. para se conseguir o acerto das batidas, é bom juntar
o cotovelo do braço bastante, ao corpo sem muito esforço, só assim de leve, para o seu melhor controle durante a movimentação de levantar
e bater do martelo.
com a outra mão se segura a folha do alfanje, na parte da nervura, sendo a folha apoiada na respectiva parte do corte na bigorna e em
uma ou nas duas pontas, em um ou nos dois joelhos do operador, conforme conveniência pessoal.
as batidas aplicadas (mais ou menos de 2 a 3 por segundo) são tais a aproveitar o recuo do martelo após cada batida, sendo neste
instante feito o deslocamento da folha na bigorna; o melhor é de um cm de avanço e meio centímetro de recuo em batidas intermitentes.
no caso de ocorrer por descuido uma pequena ondulação do fio de corte do alfanje, quero aqui dar a dica da sua possível recuperação:
com batidas bem acertadas na folha do alfanje em uma região recuada de meio cm até dois centímetros atrás do fio de corte, força-se a folha
a curvar-se levemente no mesmo sentido como a nervura, o que resulta em esticar novamente o seu fio de corte. aplicar as batidas com a
folha encostada em um pedaço de madeira não muito dura. Às vezes é necessário forçar a folha no sentido oposto à nervura, também com
batidas na folha apoiada em madeira, sendo então esta operação completada com o posicionamento acertado do fio de corte, que sempre
deve ser levemente inclinado por cima, em um ângulo de poucos graus (5 a 8º < mais ou menos).
não raras são também, as ocorrências de rachaduras na parte fina da folha e até mesmo a sua danificação em trechos de centímetros.
neste caso, o mais acertado é o uso de uma talhadeira bem afiada para recortar a folha na parte danificada e as adjacências até obter-se a
curvatura certa do fio de corte. apoiar a folha do alfanje, neste caso, em um pedaço plano de ferro ou aço. dá-se depois uma passada na mola
esmeril, na parte do corte com a talhadeira e termina-se a operação com o bater usual na bigorna, cuidando-se de não provocar ondulações
do fio.
o desgaste do fio do alfanje é inevitável durante o seu uso, sendo necessário dar uma passada no fio com uma pedra quando necessário.
não adianta querer cortar capim com um alfanje cego. o esforço é muito cansativo e o rendimento de trabalho é péssimo. conserva-se a pedra
de afiar em um recipiente com água, que se pendura na cintura, deixada um pouco frouxa. eu fiz na europa uma observação interessante
relativa ao lugar da colocação deste recipiente na cintura:

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o francês em geral, pendura na frente, o alemão, o suíço, por trás e o italiano do lado esquerdo. esta praxe tem as suas razões:
— o francês quer ter muita água no recipiente,
— o alemão se contenta com menos água,
— e o italiano ao cortar capim, em perambeiras dos “apeninos” desliza muito, tendo o recipiente em lugar mais seguro do lado esquerdo
que é mais afastado do chão ao deslizar.
de fato, de uma simples praxe, é possível adivinhar a descendência de um sitiante ou o povo com o qual ele conviveu.
para que a pedra raspe bem nos lados da folha, dando fio bonito ao alfanje, é bom colocar um pouco de vinagre na água do recipiente.

figura 23 — limpando a folha do alfanje antes de afiá-lo.

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agora cuidado: sempre se usará a pedra no seu lado estreito para afiar, porque o desgaste do seu lado largo enfraquece muito a pedra,
que depois quebra com uma leve batida, não podendo ser mais aproveitada para este serviço.
cuida-se bem da inclinação dada à pedra em relação ao fio da folha e da movimentação da pedra que será principalmente no sentido de
tirar o fio para fora e menos para tirar o fio para a ponta do alfanje. sempre providenciar a afiação do alfanje iniciando do lado largo da folha
para terminar na ponta e não ao contrário, porque assim o fio morde melhor nos talos do capim, em vez de rejeitá-los.

figura 24 — manter bem firme a pedra na devida direção ao afiar o alfanje.

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8. cavadeira — este ferramental é de bom conhecimento, bastante generalizado, sendo a meu ver desnecessário uma descrição do seu
uso correto. todavia, deve-se lembrar de rever a eficiência das suas lâminas circulares e se necessário corrigir os achatamentos nelas produ-
zidas por possíveis batidas em pedras duras ou objetos de ferro. a recuperação é fácil, mediante batidas acertadas com um bom martelo do
lado interno da lâmina que é apoiada externamente em um pedaço de ferro de bom peso, para ter uma boa inércia ao deslocamento. afiam-se
as lâminas sempre do lado interno, o melhor é com a pedra ou no caso de retificação do corte em centímetros, com uma grande lima ovalada
ou redonda, no início, terminando-se o serviço com a pedra.

9. a pa-vanga — recomendo o uso da pá-vanga de forma semicircular, em vez de reta na parte inferior, porque em terreno com raízes
um tanto resistentes, a sua penetração não requer tanto esforço do trabalhador. o cabo deve ser feito de um pedaço de boa madeira
(pessoalmente gosto de usar guatambu). respeitar mais ou menos os diâmetros da parte cônica do olhal para o cabo para não modificar muito
as características de resistência da parte metálica. fixa-se em geral o cabo com dois pinos na parte metálica tendo esta as respectivas
aberturas em sentido transversal.
rebatendo-se o bastante os pinos acima dos furos, consegue-se manter firmes as abas do olhal, o qual adquire assim uma resistência toda
especial às deformações.
para uso da pá-vanga em horta, o cabo será equipado de uma travessa na sua parte superior.
para os demais serviços, o cabo reto arredondado na parte superior é o mais comum em pá-vanga, porém, não se deve ter cabo muito
fino ou grosso para a mesma.

10. a forca-vanga — É uma ferramenta pouco conhecida aqui no brasil, porém muito usada, em geral na europa. É irmã da pá-vanga,
tendo a parte metálica forjada em quatro bicos, cujos interstícios são de duas a duas e meia vezes da largura dos dentes. o uso da forca-vanga
é de grande utilidade em terreno pedregoso, porque os bicos (dentes) com as extremidades pontudas desviam das pedras ao afundarem-se na
terra. também em terreno com muita tiririca, a forca-vanga permite afofar a terra sem recortar muito as raízes, sendo assim muito fácil o
recolhe dos bulbos desta praga.

11. a forca de quatro e de trÊs bicos — a forca de quatro bicos é muito usada em sítio, tanto no serviço do estábulo, como na roça, seja
para carregar e espalhar o esterco em estado fresco ou curtido, seja para se juntar restos da lavoura em estado verde ou seco. recomendo o
uso de um cabo levemente curvado para ajudar no equilíbrio de peso dos componentes na forca, não requerendo apertar muito o cabo com as
mãos, o que origina um esforço adicional, bastante cansativo para os braços e os dedos.

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a forca de três bicos é o instrumento ideal para mexer com capim, seja seco ou verde, porque a forma radial dos bicos laterais na sua
junção com o bico central permite a fácil soltura do capim ao descarregá-lo da forca. a curvatura dos bicos em relação ao chão é tal a
facilitar a sua corrida acima do solo ao empurrar o capim cortado até se obter a carga certa. na europa, as forcas de três bicos ou dedos, são
de diversos tamanhos padronizados conforme o seu uso bem determinado.

12. o gancho — É uma forca de quatro bicos recurvados suavemente até um ângulo de 90 a 100º, usado para juntar o cisco na lavoura e
para descarregar as caçambas com esterco. recomendo o uso de um cabo bem liso e isento de nós, para ele poder correr nas mãos do tra-
balhador, porque é bom prever o seu comprimento um tanto grande para se obter maior rendimento no serviço.

13. o gancho de arrancar batata — esta ferramenta é forjada de aço muito resistente, porém ainda flexível o suficiente para evitar a
sua quebra, se porventura for muito solicitada.
existe o gancho de dois ou três bicos.
pessoalmente gosto muito do tipo de dois bicos, um tanto compridos e de forma recurvada para trás, o que dá uma resistência adicional
aos bicos.

anotação — as ferramentas acima mencionadas são as mais usuais, porém, não ainda todas. portanto, quero mencionar aqui, que não é
só a ferramenta em si que dará o resultado certo do trabalho, mas o seu uso adequado, sem forçá-la muito.
recomendo mantê-las sempre em bom estado, cuidando-se da sua manutenção, por exemplo, lavar as pás-vanga e engraxar a parte
metálica após o uso.
para não deixar bichar os cabos de ferramentas de pouco uso, é bom no início e de vez em quando tratar estes com sebo, no qual se
mistura um inseticida de comprovada eficiência, sem ser muito tóxico (por exemplo, bhc a 3 ou 6%, também pasta bibi-tox serve). mas
nunca almoçar ou jantar, etc., sem lavar as mãos com sabão.
com um pouco de criatividade particular, o sitiante às vezes produz uma ferramenta muito útil e que mereceria uma ampla divulgação.
quero anotar também aqui um método para reconhecer as ferramentas de sua propriedade, o que é quase imprescindível, quando
trabalham no sítio, camaradas ocasionais ou caseiros de conhecida desonestidade:
— fazem-se dois a três furos na enxada, enxadão, do lado superior, perto do olhal, com uma broca de pouco uso e não de fácil
comercialização, por exemplo, de 5/16 polegadas, o que é correspondente quase a 8 mm (7,93 mm exatamente), cuidando-se bem para que a
broca de 8 mm não penetre nestes furos. em geral, os camaradas trocam as enxadas novas por um litro de pinga junto a uma velha enxada
desgastada de vizinhos. em geral, eles não reparam no significado dos furos, o que facilita o reconhecimento da barganha do camarada.

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quando eles conhecem a história que eu contei durante anos aos mesmos:
— os furinhos foram feitos para diminuir a ocorrência de rachaduras na folha da enxada, então também eles iniciaram a fazer furinhos
nas enxadas velhas de barganha, porém, sempre ou de 1/4 ou 3/8 de polegada. era só pegar a broca original de 5/16’ e verificar o diâmetro
do furo para convencer o camarada da sua sacanagem. ocorreu de poder demonstrar a um vizinho não muito distante do meu sitio que um
determinado enxadão era da minha propriedade, após pedir-lhe gentilmente, me deixar ver a boa cunha de guatambu. mas, em vez de
discutir com ele, também gentilmente dei este de presente, para se evitar que ele participasse novamente de um caso de desonestidade com o
meu caseiro, que pediu a conta na hora, o que lhe foi cedido, sem comentários da minha parte.
o método muito usado de exigir o desconto do custo de ferramentas perdidas ou extraviadas no salário do camarada é praticamente só
possível, quando o dono mora no sitio e faz o controle contínuo das ferramentas, também pode ocorrer de se cometer uma grande injustiça a
um camarada quando se exige o pagamento de, por exemplo, uma pedra ou de uma lima de afiar, já muito desgastada, que tempos antes,
custou só quarta parte do preço de um novo componente. nestes casos precisa-se ter bastante diplomacia com os camaradas e conhecê-los o
suficiente no decorrer do tempo para saber julgar se um castigo não se inverterá em prejuízo ao dono, porque em geral o camarada sério
saberá reconhecer também o ato do patrão muito melhor, que a gente imagina, e no caso de castigo, a sua obstinação poderia criar situações
muito embaraçosas, ao ponto de poder arruinar os nervos de pessoas muito sensíveis.
vale lembrar aqui, que o passarinho na gaiola não canta sempre de alegria, mas muitas vezes também de raiva.
e com o maior sorriso esticado até aos ouvidos, se resolve muitas situações embaraçosas com os camaradas. em um bate-papo
descontraído se pode chamar a atenção de um camarada para desgastar menos o fio da enxada com a lima ou a pedra, porém, mais no
serviço de carpir. também a perda de uma lima é evitada em grande parte com o uso de um cabo de reforço em madeira que encobre um lado
da lima e supera esta nas duas extremidades, o que facilita o seu manejo com as duas mãos e evita também feridas nelas por cortes
acidentais. este cabo de lima todo especial, porém de elaboração não tão complicada como poderia parecer, será pintado de cores vivas, por
exemplo, de branco com listras amarelas diagonais, o que facilita muito na procura deste componente, por acaso perdido na roça ou deixado
em uma das moitas de capim.

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15º Ítem — mecanizaÇÃo em escala reduzida em sÍtios


como já mencionado em outro capítulo anterior, a mecanização em sítio pequeno, deve ser bem pensada, senão ela só vai onerar o custo
de produção sem possibilidade de se lucrar do capital aplicado.
de fato, em regiões montanhosas, muitas vezes os gastos originados, não só pelo combustível, mas também o custo da manutenção das
estradinhas de acesso às lavouras é tão elevado até assustar quando comparado com o lucro obtido, não se justificando assim, por exemplo, a
compra de um maquinário adequado para o cultivo de determinado cereal ou demais plantas, se o seu tempo de uso é mínimo. também o
sitiante não poder por em risco a sua vida, só para arar, por exemplo, uma pequena lasca de terra, em uma pronunciada encosta de morro,
não se deve esquecer que um pequeno trator empina quando o operador insiste teimosamente em forçá-lo com o arado enroscado em raízes,
o que já originou não só muita dor de cabeça, mas até a perda da cabeça de muitos.
de fato, os custos conseqüentes da danificação de implementos agrícolas utilizados inadequadamente ou em lugar quase inacessível, em
geral são bem mais elevados do que o pouco lucro adicional pretendido.
a) se a compra de um trator está fora de cogitação, posso dizer que um jipe mais ou menos conservado mecanicamente, dará muita ajuda
no sítio, desde que devidamente tratado.
uma carreta de duas rodas, com eixo final, permite distribuir a carga de modo a apoiar boa parte desta no eixo traseiro do jipe, sendo
assim possível vencer ladeiras sem temer o desagradável deslizar das rodas motrizes principais. para os interessados, junto aqui, a vista de
minha carreta e o respectivo croqui com as medidas dos componentes principais.
quero salientar que não é preciso encontrar um eixo dianteiro forjado; também um eixo traseiro de passat, gol, corcel, etc., pode ser
adaptado desde que colocado na devida posição para alcançar maior distância entre o eixo e o solo.
com pouco custo, o sitiante consegue fabricar a sua carreta, cuja utilidade diversificada quero salientar melhor:
- o transporte de terra, esterco, serragem, etc., é feito com a carreta em forma de caçamba, sendo todos os lados amovíveis;
- para o transporte de capim seco, palha, etc., a superfície útil pode ser aumentada, colocando as tábuas laterais em sentido

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figura 25 — caneta-reboque para jipe.

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figura 26 — carreta-reboque para jipe. detalhes das peças (2).

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figura 27. – croqui da carreta-reboque.

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figura 28 — armando a caçamba-reboque para transportar terra.

figura 29 — caçamba carregada engatada no jipe.

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figura 30 — removendo as paredes laterais da caçamba, primeiro de trás apoiando-se estas no pneu da roda.

figura 31 — e depois na frente. observa-se a fácil remoção das quatro paredes do reboque.

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figura 32 — mediante uma enxada tira-se a terra da pranchada da caçamba-reboque.

transversal e completando-se a carreta com duas varas longitudinais externas às rodas e com três a cinco transversais de reforço, sendo
possível prever a fixação deste conjunto com parafusos ou mediante amarração com cordas. pessoalmente, eu uso cordas pela principal
razão que assim é possível modificar a largura deste conjunto de carreta conforme a necessidade. por exemplo, na passagem de uma porteira
de pasto, não posso carregar em largura, o que me obriga a prever maior comprimento. o caso é também existente para transitar em
estradinha estreita com barranco elevado.
não se pode esquecer de que parafusos deixados em implementos de uso esporádico cm geral somem e na hora certa não se pode exigir
do camarada que ele vá se lembrar do lugar da aplicação destes parafusos.
É certo que a estrutura adicional de complementação da caçamba em um reboque de carga volumosa, porém, leve, pode ser feita de
estrutura bem definida e com fixação parafusada às longarinas da caçamba, tendo também o montante duplo dianteiro e o traseiro simples
para a amarração da vara acima da carga que a segura com boa firmeza. este complemento é em geral equipado de um rolo de madeira para
facilitar a sua fixação rápida e se necessário o seu reapertar por uma só pessoa.
recomendo o uso de um ferro plano de reforço, tanto do lado superior como do lado inferior do timão para impedir a sua danificação
quando muito solicitado por forças torcionárias.

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figura 33 — e pronta está a carga de capim, recolhido no presente caso em estado ainda um tanto murcho devido à ameaça de chuva.

figura 34 — subindo pela estradinha de acesso à granja. observação: quando a carga é, por exemplo, capim sapê, dá para fazer cargas
muito maiores tanto em largura como em altura, chegando a ser esta última até 2.5 vezes à desta foto.

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a cabeça de engate frontal não precisa ser equipada com molejo, desde que não se acelere ou freie em demasia, o manejo manual do
reboque é muito fácil desde que se use uma travessa de madeira adequada na boca de engate segurando este com o próprio pino de engate.
no caso de ser necessário o uso desta caçamba com tração animal, pode-se usar um eixo rígido com duas rodas metálicas, no qual é
preso um timão de guia, tendo este conjunto uma placa de engate em lugar adequado no qual será engatado o timão da caçambinha. no caso
de ser necessário frear, é possível prever o respectivo mecanismo nas rodas do conjunto timão-guia.
quero salientar que o tamanho da caçambinha pode ser escolhido conforme o seu uso no sítio. quando ela é muito leve e o seu uso não é
para carga pesada, é até desnecessário prever o mecanismo do freio, sendo possível improvisá-lo com uma trave de madeira que se aplica
com força na parte externa do aro das rodas metálicas. para aumentar o raio de dirigibilidade em curvas das estradas é bom calcular a bitola
larga o suficiente para alcançar um ângulo satisfatório com o timão. todavia, tratando-se de um implemento adicional, é desnecessário
querer obter-se grande sofisticação, o que seria possível com eixo dianteiro-guia giratório a mais de 180º de ângulo. tal resultado é também
obtido com uma manobra adicional do timão em recuos e avanços sucessivos da caçamba.

b) agora vai uma dica de grande utilidade para micro, mine e sítios em perambeiras.
— arar com guincho, movido por um pequeno motor diesel ou por um motor elétrico. quero me referir aqui a um sistema de aração
mecanizada muito usado na suíça, especialmente nas regiões vinícolas do oeste e que pode ser muito bem aproveitado em pequenos sítios no
mundo inteiro.
os implementos necessários são poucos e não de custo muito elevado. anotamos:
— um arado de aiveca, tombador simples de construção resistente, porém, leve e equipado de uma roda para colocação em duas po-
sições de altura: trabalho e retorno;
— um guincho para cabo de aço de 3/8 a 1/2” de diâmetro, movido por um motor diesel ou gasolina de aproximadamente 6 a 8 cavalos,
ou por motor elétrico de 4 a 5 kw.
— um cabo de aço de tração do arado desde o guincho, cujo comprimento deve corresponder à distância extrema da lavoura a ser arada
e a metade da largura desta lavoura do lado da colocação do guincho.

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— duas roldanas-guia do cabo de tração, (em caso de terreno muito ondulado, podem-se calcular mais duas roldanas adicionais de enga-
te livre);
— alguns pedaços de cabo de aço com os devidos fechos parafusados para a fixação das roldanas e do guincho;
- alguns tarugos de ferro de no mínimo. duas polegadas de diâmetro a serem fincados no chão e nos quais se amarram as polias e o
guincho. o comprimento dos tarugos é de 70 cm a um metro.

recomendo apontar o lado do tarugo que será fincado no solo, o que facilita a sua penetração especialmente em terreno pedregoso.
o outro lado (o das batidas) apresenta-se cm geral após pouco tempo de uso, com uma saliência circular, que ir pedirá ao cabo de
escapar. todavia recomendo prever uma inclinação suficiente ao se fincar o tarugo no chão para obrigar o cabo de amarração da polia ou do
guincho a correr nele até o solo.

— alguns calços feitos com pedaços de tábua de 3/4” de espessura são de utilidade comprovada para impedir ao cabo de tração de
enroscar em raízes no solo perto das polias.
vamos ao trabalho prático:
coloca-se o guincho mais ou menos no lugar central de um lado da lavoura e recuado deste, mais ou menos três metros. amarra-se bem
o guincho em dois tarugos fincados no chão.
na frente do guincho na beira da lavoura será colocada uma polia e amarrada no tarugo em sentido oposto aos de amarração do guincho.
a outra polia será colocada perto da beira lateral da lavoura correspondente ao lado do tombador do arado.
passa-se o cabo de tração desde o guincho através das polias de modo acertado, o que é mostrado no croqui. estica-se agora o cabo até o
lado da lavoura, oposto a segunda roldana, quer dizer, a roldana lateral e não central.
agora é só engatar o arado ao cabo de tração e o lavrador guiá-lo com firmeza enquanto o seu camarada atuará o guincho. chegado ao
fim do sulco, o lavrador coloca o arado em posição de retorno, a roda apóia-se no chão e ele volta com o arado virado por cima (do modo de
arrastar carrinho), até o ponto de partida, esticando ao mesmo tempo o cabo de tração. e o serviço vai assim arando, sulco após sulco, sendo
colocada a roldana lateral na devida posição quando necessário (mais ou menos a cada quatro a seis sulcos).
ao passar o ponto central da lavoura, avança-se a roldana lateral, trecho por trecho, no lado oposto até completar o serviço de aração na
lavoura em pauta. o revezamento da pessoa no arado para o guincho e vice-versa, é favorável à obtenção de um serviço contínuo não
cansativo em excesso.

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figura 35 — arando com guincho.

no caso de geografia desproporcionada da lavoura (sendo esta, por exemplo, de forma trapezoidal, triangular, em vez de retangular) o
serviço será efetuado mediante sulcos intermediários encurtados, chegando-se ao mesmo fim do serviço. quando a largura da lavoura é
bastante grande, é recomendável então escolher um segundo ou até um terceiro lugar para a colocação do guincho. tal prática é justificada
pela lógica de diminuir o comprimento do cabo de tração, cujo atrito no solo sempre dará uma carga adicional, mas que se pode aliviar
mediante a colocação dos pedaços de tábuas em lugares estratégicos. posso recomendar alguns furos nestas tábuas com o diâmetro
correspondente à grossura de pequenos vergalhões de, por exemplo, 1/2” de diâmetro e 50 cm de comprimento, que quando fincados no solo
impedem o deslocamento dos pedaços de tábua pelo atrito do cabo.

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a primeira apreciação deste método de arar faz surgir dúvidas quanto à sua execução. todavia este método dá um rendimento muito
acima do esperado, quando o lavrador e o operador do guincho são bem entrosados nos respectivos serviços.
também o guincho é de grande utilidade para transportes em pronunciadas encostas de morros sem possibilidade de se escolher um
traçado suave para as estradinhas.
engata-se no guincho um rastador ou uma litra para fazer o transporte de esterco ou de lenha, sem o risco de se machucar animais de
tração.
em sítio pequeno abrangendo, por exemplo, uma barroca com encostas muito inclinadas, o método de transporte por guincho é
recomendável porque é possível deixar o guincho em um ponto central na baixada, colocando-se uma polia de diâmetro maior em diversos
lugares no alto, onde se quer levar o esterco, aterro, etc. no caso de ocorrência de atrito do cabo em lombada, é fácil de se prever um ou
vários rolos (pode ser feito de madeira) em um gabarito (também de madeira ou metálico), semi-enterrado no traçado da passagem do cabo
de tração. a tração de retorno da caçamba ou da litra pode ser feita com animal ou simplesmente por força humana.
para instalações de certa importância, pode ser previsto o uso de um guincho de rolo duplo para o cabo de tração, sendo assim possível
providenciar o retorno da caçamba por força mecânica. neste caso, o guincho duplo serve também para arar a lavoura com tombador
reversível em trabalho de vai-e-vem, sulco após sulco.
o cabo de tração para o retorno será passado em uma polia do lado da lavoura, oposto ao lado da colocação do guincho. recomendo
neste caso, o uso de um cabo de fixação desta polia esticado em toda a largura da lavoura e mantido firme com tarugos. a fixação regulável
da polia neste cabo pode ser providenciada com um sistema de morsa de madeira com parafusos de aperto com as suas porcas borboletas do
tamanho de tarugo, o que evita o uso de chave no aperto destas. com este sistema de guincho duplo, o rendimento do trabalho de aração é
bem melhorado em relação ao rendimento com o sistema de guincho simples. porém, não se deve esquecer que um sistema simples é em
geral menos sujeito a defeitos e o cabo de retorno pode atrapalhar o pisar do lavrador.
o mais importante no uso de sistemas mecanizados, seja por guinchos motorizados ou outros, é providenciar a manutenção adequada
destas instalações, verificando-se periodicamente todos os seus componentes e usando-se materiais resistentes e de qualidade comprovada.
insisto nesta observação por motivos de segurança e quero exemplificar, lembrando aqui de não usar correntes para a fixação de roldanas,
cabos, etc., porque um pedaço de elo de corrente pode, ao se quebrar sob grandes esforços, alcançar velocidades elevadíssimas, iguais as de
balas disparadas por armas de fogo, porém, de trajetórias imprevisíveis.

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ciente deste perigo é melhor prevenir do que remediar. cuidado também, no tratamento com pneumáticos de rodas de caçamba,
reboques, etc., que ao serem cheios demais, podem estourar, tendo vitimadas já muitas pessoas em grau variado, algumas com morte
instantânea.
constatei muitas vezes, que os pais em sítios deixam as suas crianças com baixa idade caminhar juntamente ao lado do maquinário ou
em lugar exposto em caso de acidente com caçambas, tratores, e até sentadas nos pára-lamas do trator sem proteção de segurança nenhuma
em caso de deslizar. quero aproveitar a oportunidade para chamar a atenção dos adultos para não expor os seus filhos e demais pessoas aos
possíveis perigos conseqüentes do uso do maquinário na lavoura, evitando-se, todavia o medo exagerado aos mesmos; porém, é bom
lembrar que todos somos responsáveis, às vezes, por não ter feito as devidas observações. não só o homem prevenido vale por dois, também
a criança prevenida vale, às vezes, para quatro porque as crianças gostam de brincar em grupos.

c) outro implemento simples e de grande utilidade é o chamado “diabo do mato”, ou tira-forte, cujo uso específico é a destoca de
grandes cepos tão pesados que dificilmente se pode movê-los com alavancas, porque estas deslizam com facilidade em terra já afofada pelo
enxadão. o “diabo do mato” é composto de uma alavanca de madeira na qual se coloca três ferragens bem definidas mediante parafusos ou
tirantes rosqueados bem resistentes à flexão.
uma vara de 15 cm de diâmetro e de mais ou menos 3,60 metros de comprimento, da qual se aplaina um pouco as partes laterais, a partir
do pé que é de diâmetro maior, serve perfeitamente para a alavanca. a distância entre as ferragens desde o pé, é de 40 cm, deixando-se esta a
6 cm do pé.
a ferragem mediana é determinada para a fixação da vara em uma árvore, mourão, barra de ferro fincada no solo, ou melhor, mediante
uma corda grossa de sisal, etc.
as duas ferragens laterais são equipadas com um pedaço de corrente sapir dimensionada, tendo na sua ponta um gancho.
fixa-se então uma corda no cepo a arrancar e na região do diabo do mato, coloca-se na corda um pedaço de corrente de elos bem alon-
gados e resistentes para permitir nela o engate dos ganchos das ferragens laterais da alavanca.
coloca-se a alavanca do diabo em posição extrema com a ponta de manobra tocando praticamente a corda da sua fixação firme. engata-
se então o gancho da ponta da vara na corrente atrelada ao cepo.

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figura 36 — “tira forte”, ou “diabo do mato”. vista de cima.

figura 37 — trabalhar com o tira-forte. vista de elevação.

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movimenta-se cm seguida a alavanca em sentido contrário ao anterior para dar tensão nas cordas e correntes. engata-se depois o gancho
do lado oposto à ponta da vara na corrente do cepo. o próximo movimcnto da vara sempre em sentido oposto ao anterior permite se obter
uma força descomunal exercida no cepo. um adolescente e um homem adulto conseguem com a ajuda deste implemento um rendimento
várias vezes maior em relação ao do serviço feito unicamente com as ferramentas usuais. a força conseguida é tal a arrancar até o “diabo do
inferno”, que é a expressão da qual se originou a sua denominação (também tirefort francês). não é outra coisa de que um sistema de
alavanca, cuja relação de comprimento vale para a relação das forças aplicadas e resultante. por exemplo, se o comprimento da alavanca de
manobra é de 320 cm desde o seu centro do gancho de fixação e sendo o comprimento do braço oposto de 40 cm, a força que admitimos 70
kg por um homem na alavanca será aumentada para 70 vezes 320 e dividido por 40, igual então a 560 kg. se a vara resistir e sendo aplicada
nela à força de três homens (admitimos 210 kg, a força resultante no cepo será de 1.680 kg), o que dá para arrancar muitas raízes do chão.

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16º Ítem — disciplina no trabalho do campo

no sítio ou na fazendinha, o trabalho deve ser organizado para se conseguir resultados satisfatórios, porém, dando-se uma certa margem
de liberalidade para não cair no espartanismo quase militar. quem gosta de levar vida de coruja, deitando-se tarde e os dorminhocos de
manhã, devem rever a possibilidade de se alterar o ciclismo e a periodicidade do biorritmo, senão é melhor desistir da vida no campo.
porém, não adianta querer estabelecer um programa rígido a ser rigorosamente mantido, porque ocorrem tantos imprevistos no campo,
que o melhor programador será condenado a fracassar, especialmente porque muitos trabalhos são ligados às condições climáticas, por
exemplo, seria estúpido querer roçar um pasto no sol quente em tempo seco. este serviço rende muito mais, quando o mato é umedecido
pelo orvalho de manhã cedo ou em dias de chuvisco leve.
o melhor trabalho de limpeza da roça é obtido após uma boa chuva de verão.
a programação a ser feita no sítio é referente ao horário dos trabalhos que se repetem todos os dias, por exemplo, de limpeza do
estábulo, tirar o leite, soltar o gado, as galinhas, etc., ou a alimentação dos porcos, gansos, etc..
dando-se uma distribuição racional destes serviços para o pessoal que vive no sítio ou para os camaradas, consegue-se manter um deter-
minado horário para os trabalhos na lavoura em relação às épocas do plantio e da safra dos diversos produtos. assim, não adianta querer
plantar de repente um alqueire de feijão, se na hora da capina não tiver pessoal disponível. todavia, na programação, sempre será possível
incluir algumas horas suplementares em dias de serviço puxado, porque sempre deve se lembrar que o trabalho é a melhor coisa neste
mundo, quando bem distribuído e feito com boa vontade, nunca sendo considerado como um castigo para o homem, porque ele só chega a
ser isto, quando o homem coloca-o como método de ganância infundada e estúpida, querendo alcançar status, considerações, etc., tudo
devido ao seu orgulho doentio, querendo ser muito melhor do que os demais.
bom, deixamos a cada um a sua filosofia, porém, recomendo em sítios, de se filosofar com os vizinhos só uma vez por semana,
dizemos, reservamos para isso o domingo. durante os demais dias da semana, é bom manter mais ou menos uma programação pré-
estabelecida com os seus familiares, não excluindo também de se considerar palpites de camaradas sérios, incentivando-lhes assim de
maneira incomum o seu interesse no trabalho, em vista da satisfação ao alcançar bons resultados.

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não aconselho fazer uma programação semanal, por escrito para camaradas, porque facilmente assim ocorrem fatos inéditos, como a um
vizinho meu, cujo camarada com programação rígida, sempre encontrava um motivo para se safar, por exemplo:
— programado pelo patrão: p.
p. - das oito às dez horas: buscar uma carrada de capim.
resposta do camarada c:
- não deu para fazer porque um pneu da carreta estava vazio.
p - levou para consertar?
c - não, porque não estava marcado na programação!
outra:
p - das cinco às seis horas: tirar o leite.
p - das seis às sete horas: desnatar 15 litros de leite e fazer queijo com o leite desnatado junto com o leite integral que sobrou (mais ou
menos. 20 litros).
c - não foi possível desnatar 15 litros de leite porque não teria sobrado 20 litros de leite integral, porque a “princesa” escapou no mato!
p - foi procurá-la?
c - não constava na programação.
uff! não é sem razão que até o governo russo vai novamente atribuir a cada sitiante o seu pedaço de terra, no qual ele pode plantar o que
quiser e como bem entender, para ao menos garantir a alimentação a uma parte da população para não passar fome, como ocorre em um país
de tradição agrícola submetido ao regime do colcós (fazenda coletiva).
e como estamos filosofando um pouco, quero lembrar também que a administração em sítios deve ser muito democrática e eficiente,
para incentivar todo o pessoal a dar a sua ajuda voluntariamente, sem contar com prêmios especiais que só levam os trabalhadores a
considerações errôneas. até a classificação do pessoal das fábricas e dos alunos das escolas, por notas atribuídas pelos superiores e
professores dão resultados discutíveis, porque sempre haverá, por baixo disto a jogatina humana baseada no: simpático, mais simpático,
antipático e até detestável. quantas injustiças e quantas amarguras decorrem destas classificações. quantas crianças menos favorecidas em
escolas padronizadas por métodos humanos duvidosos, foram rejeitadas pela sociedade só porque o seu sistema nervoso comunicativo não
dava a resposta no tempo determinado, sendo o seu “quociente de inteligência” considerado inferior ao valor admitido como médio.

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e quantas destas crianças pedem encontrar um sentido de utilidade ao serem adolescentes com a convivência em uma família, em sítios.
a maioria delas pode chegar a ter vida independente quando adultas e formam a sua família própria, acostumando-se à disciplina escolhida
de boa vontade, uma vez que se sente como pessoa considerada e livre. agora cuidado no tratamento dos filhos que ajudam em sítios, porque
ocorre freqüentemente que os pais são pouco tolerantes e exigem uma disciplina rígida, o que aborrece muitos adolescentes suscetíveis ao
constatar muitas vezes que a única diferença entre o filho do patrão e o camarada reside no fato do camarada receber determinado salário,
enquanto que o filho deve se contentar com promessas de futuro melhor. houve já muito abandono do campo, peles filhos de sitiantes e
fazendeiros, motivado pela desunião dos membros da mesma família. então é necessário se encontrar diplomaticamente um denominador
comum ainda que seja com “números irreais ou imaginários, tanto no sentido aritmético como figurativo”.
outro problema que surge freqüentemente em sítio é a atribuição de determinada tarefa a um filho por tempo prolongado, enquanto um
outro filho terá um trabalho mais leve. ocorre inevitavelmente que um ou outro filho se sinta rebaixado e isto é o suficiente para que uma
observação de nada faça estourar uma bomba.
É bom considerar na programação dos trabalhos uma mudança rotativa de determinados serviços, considerando-se, todavia as aptidões
do pessoal é claro. exemplifico: tenho um irmão que quando adolescente não era muito sensível para a psicologia dos animais, do qual
resultava um martírio para as cabras, quando o pai lhe atribuía a tarefa de tirar o leite destas pequenas rainhas do campo, tão afáveis e
amorosas, quando bem tratadas. o resultado era a conseqüente baixa de produção de queijinhos, o que resultou na atribuição deste serviço
unicamente para mim.
ocorre nos tempos da televisão, a preferência de um ou outro programa favorito a tal membro da família. É claro que sempre se
encontrará um jeito de se comunicar entre si e se necessário mudar o horário em uma meia hora. todavia, não se pode tolerar tudo, como
acima ponderado, é absolutamente necessário se manter certa disciplina nos serviços em sítios e em especial para o horário das refeições,
não sendo razoável moralmente, nem economicamente que a dona de casa ou a empregada fique durante horas na cozinha só para atender o
pessoal à medida que ele aparece. deve ser de praxe, todos da família e os camaradas ter hora bem determinada para as refeições. também
para a hora do descanso à tarde, ou no meio do dia em época muito quente do ano, um horário bem comunicativo, sem ser rígido, é
recomendável, deixando-se uma folguinha adicional para os adolescentes que sempre gostam de um “pequeno tempo especial”, bem aceito,
se não houver ocorrências de abusos. esta folguinha será bem compensada em dias de serviço pesado ou prolongado acima da hora, por
exemplo, para recolher o feijão no terreiro, ante a ameaça de chuva.

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mais importante do que a programação é a execução das tarefas diárias em determinado tempo, sempre mais ou menos, por igual, o que
permite lucrar bastante em outros serviços. também não aconselho incluir um serviço esporádico, porém, às vezes demorado dentro das
tarefas comuns. por exemplo, na criação de galinhas e frangos em grande quantidade, não se pode interromper o serviço da distribuição da
ração ou da lavagem dos cochos de água, só para prender e examinar alguns animais sem apetite. neste caso, marca-se na prancheta geral, a
giz, o galinheiro duvidoso e depois de terminar em tempo o serviço vai-se observar, prender, remediar animais, por ventura machucados,
doentes, etc.
outro exemplo: quando a lavoura é um tanto afastada das benfeitorias, muitas vezes é compensador programar o engate de um segundo
reboque a um só trator, desde que a topografia o permita, lucrando-se assim não só em tempo gasto nas corridas ao campo, porém, também
no combustível do trator ou jipe. ~
e sempre verificar antes da saída para lugar afastado se o pessoal não esqueceu de uma ou outra ferramenta. uma pequena programação
mental esporádica mantém a vivacidade do cérebro e permite a previsão de situações, às vezes fora do comum, requerendo o uso de uma
ferramenta deixada em casa. não quero dizer exagerar, levando para a lavoura quase o total das ferramentas. aqui justamente, é que se
percebe o espírito programador do dono do sítio.
a programação não se limita só aos serviços da lavoura e outros, mas deve englobar em especial a criação dos animais considerando-se a
época do ano mais favorável ao nascimento dos filhotes.
também o número de animais, possível de se alimentar durante a estiagem, às vezes prolongada, quando bem programado, pode ser
compensador, em especial quando do uso de sobras de lavoura na alimentação do gado neste período.
para terminar, quero anotar ainda uma vez, o já indicado em outro capitulo deste livro: a programação financeira do sítio. recomendo
modéstia, porque já muita gente importante, instruída e bons programadores foram levados “águas abaixo”, no rio financeiro. gasta-se o
necessário para obter-se uma boa alimentação, para vestir-se descentemente, ter os seus prazeres e alegrias discretas, sem exagero, nem com
mão fechada, porém, não querendo comprar o melhor animal da região, só para orgulhar-se disto. É em geral muito insensato tal
procedimento, muito pesado para o lado financeiro, tanto pela aquisição de animais caríssimos, como para a sua manutenção. certo, não se
pode fazer objeção quando o dono de um sítio consegue criar a “galinha dos ovos de ouro”. cada um é dono da sua conta bancária, que
infelizmente diminui tremendamente depressa, quando este inicia um ritmo de vida com muitas extravagâncias, sem pensar no “dia depois
da festa”.

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17º Ítem — cozinha. pratos simples e saudÁveis

não pretendo querer ensinar a cozinha para as moças, donas de casa, solteiros e meio-solteiros, que passam muitas vezes os fins de
semana sozinhos em sítios, porque a maioria das pessoas que gostam da vida do campo, sabe cozinhar muito bem e em geral, tem exímios
conhecimentos na elaboração de pratos requintados e suculentos ao ponto de ninguém resistir e comer até demais. porém, a comida diária
em sítios, pode ser simples e ao mesmo tempo nutriente, sem exagero. o importante é prever para as refeições principais um cardápio de
acordo com as verduras disponíveis, dando a possibilidade de variar este o suficiente para não cansar o apetite, evitando-se todavia a
apresentação de uma porção de pratinhos na mesa, que dá um aumento de trabalho enorme na cozinha. julgo mais conveniente calcular de
um a dois pratos principais, bem compostos e com uma quantidade razoável de comida, para não deixar sobras excessivas, porque a comida
do pessoal em sítio, para o dia a dia, deve ser de utilidade e não de banquete. assim, uma vez ou outra uma sopa de verdura, do tipo
minestrone, na qual a colher fica em pé, será bem o suficiente para o jantar, não havendo necessidade de se juntar sempre pratos adicionais.
Às vezes o complemento pode ser um pedaço de lingüiça ou queijo que se aprecia com pão e manteiga. a minha observação é reforçada pelo
fato de até a cozinha francesa moderna, não abranger mais tantas gorduras e condimentos, como meio século atrás.
quero mencionar aqui, a dica principal que deu fama à cozinha moderna francesa, porque os produtos frescos, que se pode obter em
sítios são adequados à elaboração de uma alimentação saudável de um jeito simples e não cansativo, típico da cozinha francesa moderna.
agora, devo deixar ao critério de cada um se quiser comer tudo em um prato só, ou comer cada verdura, carne, etc., em separado, como
é praxe na maior parte da frança, o que origina o conseqüente consumo de pão e vinho em grande quantidade, que é característica do
francês.
cozinhando-se um determinado tipo de verdura, por exemplo, acelga só em água com sal, parece que sem condimentos não vai dar para
comer. mas aqui, está o segredo: coloca-se por cima da verdura retirada da panela um pouco de queijo ralado e rega-se o todo com manteiga
fresca meio-derretida, o que dá a possibilidade de saborear a verdura com o seu gosto típico e não alterado com uma porção de condimentos.
anotei propositalmente “meio-derretida”, para a manteiga, porque com temperaturas acima de 60º c, a manteiga já inicia a
transformação do seu sabor fino.

131

este é o famoso segredo de muitos cozinheiros franceses.


quando o sitiante dispõe de um pato ou um coelho, limpos que não são muito novos, posso recomendar deixá-los alguns dias no gelo do
congelador ou se não for possível colocá-los no tempero só com sal, pimenta do reino e meio copo de vinagre ou suco de limão.
assa-se os pedaços de carne com ou sem ossos, na frigideira, após enxugá-los em um pano e vai-se cozinhar à caçadora em uma panela
até a carne quase desprender-se dos ossos. para melhorar o sabor destas carnes sem o uso de muitos condimentos, posso recomendar a
adjunção de um a um e meio copo de bom vinho tinto e de meio copo de café preto amargo, no fluido da panela, mais ou menos meia hora
antes de terminar de cozinhar o bichinho. não recomendo o uso de cebolas, alho e louro, que modificam neste caso, o sabor da carne, não
para melhor.
quanto ao método de amolecer a carne de um animal, um tanto de idade: mediante ingestão forçada de meio decilitro de pinga em água
antes de sacrificá-lo, devo dizer que prefiro usar pedaços de mamão, não muito maduro, macerando com a carne, quando da colocação desta
no tempero em um prato, se possível, com tampa, que se deixa alguns dias no fundo da geladeira, mexendo-se todo dia, os pedaços de carne,
para facilitar a penetração do tempero porque a carne de um animal bem descansado antes do sacrifício é mais firme e esvaziada do sangue.
ao contrário, no animal sacrificado quase em apuros, os seus músculos muito esponjosos retém o sangue e a linfa com muitos produtos
hormonais, o que deixa um gosto meio amargo, esquisito, que é bastante pronunciado em especial no cabrito abatido imediatamente após o
transporte. frangos que passam dos seis meses, podem ser aproveitados muito bem com este método, todavia em vez de vinho tinto, muitas
pessoas preferem o uso de um cepo de vinho branco e sem o café. É o famoso “coq au vin’, quer dizer galo cozido em vinho”.
anoto um outro modo do aproveitamento da carne de animais não muito jovens; seja de coelho, ganso, pato e até de boi (dizemos um
quilo de músculo).
cozinhar a carne em água com temperos idênticos ao da “carpe au bleu”, quer dizer:
- junta-se uma cebola picada, dois a três dentes de alho, duas folhas de louro, três a quatro cabecinhas de cravo da índia, sal e pimenta a
gosto, sem exagero.
quando a carne é bem cozida, retira-se esta do fluído e deixa-se esfriar em um prato. desfibra-se esta carne ou pica-a em pedacinhos,
que se usa em salada com vinagre, óleo e os condimentos usuais, todavia evitando-se o exagero destes últimos. esta salada de carne pode ser
servida com outra salada verde (alface. escarola. etc.), ou de tomate. também, uma salada de carne misturada com arroz cozido solto e frio é
uma delícia para o jantar em dias quentes de verão e dá uma variação para o arroz-feijão do almoço.
132

quando do uso de carne de boi, o caldo pode ser aproveitado tanto ao natural ou engrossado com massa, sagu ou com farinha de milho
ou mandioca.
para o caldo de outros animais, como coelho, pato, etc., é melhor destinar este para a alimentação dos porcos e cachorros, porque o
grande consumo de caldo de carne não é recomendável na alimentação humana, originando reumatismo, furúnculos, etc.
todavia, no caso de cozinhar um peixe com os condimentos acima indicados, o caldo vai servir para a elaboração de um pirão delicioso,
juntando-se nele devagar, farinha de mandioca bem peneirada, mexendo-se continuamente até obter-se a devida consistência e colocando-se
nele os respectivos condimentos adicionais.
não quero descrever a elaboração de uma boa canja de galinha, mas devo lembrar que uma canja muito deliciosa e muito favorável ao
crescimento de crianças, é feita também com a carne de pombo adulto. nunca usar para isto, animais jovens, cuja carne é bem melhor
quando assada no forno para melhor derreter as gorduras, de gosto um tanto esquisito.
de experiência própria, sei que às vezes, em dias quentes de verão, diminui o apetite antes do almoço ou do jantar e como saco vazio
não fica em pé, o único jeito é de se encontrar um modo de enchê-lo, no sentido físico é claro. posso recomendar de se elaborar para a
alimentação nestes dias, um caldo de verdura da horta, cozinhando-se estas em água com sal, porém, usando-se só o caldo coado. por
exemplo: de cinco a seis folhas de couve, duas folhas tenras de almeirão, algumas folhas de catalonha e um punhado de salsa (e também um
talo de folha de aipo; cuidado, não de aipim), cebola e alho a gosto.
este caldo pode ser aproveitado com um a dois cubos de maggi ou knorr, seja com pão dormido e picado fino (às vezes um pouco
torrado) ou com massa, arroz e outros gêneros cozidos e olhá-la nem meia hora. depois o apetite é tal, querendo-se comer arroz, feijão, etc.
também para doentes ou convalescentes este caldo abre o apetite, podendo-se usá-lo em forma de creme de verduras: bate-se um a dois
ovos com um pouco de sal, se junta leite no prato e mexe-se adicionando-lhe devagar sagu, tapioca ou farinha de trigo. esta papa é
adicionada ao caldo quente e com ele bem batida, para derretê-la sem deixar resíduos grossos. dá-se uma fervura, condimentando-o todo a
vontade e sem exagero e pronto está o creme de verdura.
uma das melhores verduras para um caldo reavivante é a acelga japonesa ou couve chinesa (pétz-ai). não é desprezível também o uso de
folhas de alface passada do tempo, de talos de agrião de água etc., para obter-se um caldo leve e benéfico, porque estas plantas contém sais
minerais utilíssimos para o bom funcionamento dos órgãos do corpo humano.

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e não esquecer de que se pode engrossar este caldo com mandioca cozida, que se esmaga cm um prato. quem não gosta das fibras finas,
pode passar o caldo em coador metálico adequado. esta sopa é bem mais gostosa e nutritiva do que uma sopa de batatinha. posso recomen-
dá-la porque até hoje não encontrei uma pessoa a recusá-la, em especial, quando se junta à sopa um ovo batido no prato.
continuando o nosso passeio pela cozinha, quero lembrar que a comida simples em sítio já curou pessoas com doenças feias. na frança,
um homem de negócios que viajava muito e comia a maioria das vezes em restaurantes, com os aperitivos diversos, chegou a ter o seu
aparelho digestivo abalado ao ponto de afetar seriamente o fígado e até os rins. o seu médico foi muito franco com ele e não lhe deu muitas
chances de escapar da fatalidade, o que induziu o viajante a ir viver ainda alguns meses tranqüilos no sítio de um primo seu. os primeiros
dias, ele cuidou um pouco de não comer muito, em vista do seu estado, porém, sempre tomando sopa de batatinha de manhã e de verduras
etc., ao meio-dia e no jantar. neste regime, tanto o sistema digestivo como fígado e rins foram curados, o que se deu em boa parte ao uso
regular e contínuo dos sucos de determinadas verduras das quais se salienta o alho, a salsa e o aipo. porém, também existem plantas
utilíssimas, que não sendo diretamente designadas por verduras, são também de grande valor para o homem, o que me incentivou a anotar
algumas neste livrinho, no capitulo seguinte.
mas não quero tirar daqui a serralha e o dente de leão, dos quais se pode compor boas saladas, tanto depurativas do sangue como
antianêmicas para as crianças. usa-se estas plantas também para infusões com a mesma finalidade, é melhor, após secagem na sombra e bem
picadas para melhor aproveitamento.
mais uma observação que faço a respeito do uso da soja na alimentação em sítios: a soja é sem dúvida uma planta de grande utilidade,
que quando devidamente preparada pode ser consumida sob diversas formas. todavia, o seu maior aproveitamento é quando cozida e
colocada em salada bem recheada com cebola crua.
para quem se interessa na elaboração de leite de soja, anoto aqui o método caseiro, o mais simples possível:
— cozinha-se a soja em uma panela com bastante água, até amolecer um pouco. passa-se então os grãos na máquina de moer carne ou
em liquidificador para obter-se uma papa que será recolocada no fluido da panela, continuando-se a fervura suave por mais uma meia hora.
côa-se o fluido, que se apresenta bem esverdeado e até leitoso. pode-se deixar decantar o fluido e adocicá-lo à vontade.
conserva-se este leite de soja, na geladeira, porém, por pouco tempo, para não temer a sua rápida acidificação.

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o uso de leite de soja deve ser de tempo intermitente e junto com o consumo de muitas frutas ou com sucos de frutas, porque conforme
observações feitas em pessoas que usam a soja tanto na alimentação, como o leite de soja em bebida, ocorrem casos de anemia, o que seria o
equivalente ao leite de cabra que se deveria usar só durante mais ou menos dois meses seguidos, intercalando-se estes em períodos mais
prolongados de abstinência dele.
na sua apresentação, o leite de soja lembra muito o soro de leite, após a remoção da caseína na fabricação do queijo.
inicialmente as crianças estranham o gosto térreo deste fluido que, todavia é regularmente aceito quando fresco.
estas anotações relativas ao leite de soja e ao seu uso são feitas neste capítulo porque ocorre em sítio que as vacas, e na maioria das
vezes as cabras, secam todas no mesmo período do ano, sendo assim, neste período de grande utilidade, o uso de leite de soja, cujo preparo,
se não diário, ao menos a cada dois dias permite obter uma boa bebida leve para crianças e adultos. o grande bem é o fato de a matéria-prima
poder ser de própria plantação no sítio, quer dizer de pouco custo, uma vez que a soja produz fartamente em terras de fertilidade regular,
desde que sejam nelas implantadas determinadas bactérias (por plantações precedentes).
não posso deixar de anotar a receita de uma sopa chamada “bechamel”, na frança, que é de real valor alimentício e fácil de se preparar,
parte desta com antecedência de dias.
os ingredientes necessários são:
— duas colheres das de sopa, bem cheias de farinha, por pessoa.
— uma colher de manteiga fresca para cada três pessoas. (na falta de manteiga, pode-se usar margarina ou óleo, porém evitar o uso de
banha).
— mais ou menos, meio litro de água fervente, para cada duas pessoas.
deixa-se derreter a manteiga em uma panela e coloca-se nela, a farinha, mexendo-se esta com uma concha ou colher de madeira até
alourar bem. coloca-se então na panela a água quente com o necessário cuidado para se evitar queimaduras nas mãos e braços. mexe-se bem
com o batedor manual até desmanchar os granulados de farinha no fluido.
deixar ferver a sopa e continuar a fervura em fogo brando, mexendo bem o fundo de vez em quando, para não deixar queimar. se o
pessoal não gostar de sopa grossa, juntar mais água quente, nunca água fria. colocar no fim, um pedaço de manteiga fresca. servir a
beehamel bem quente. pode se juntar também nos pratos leite ou vinho, nesta sopa deliciosa (parece incrível, mas na frança, é praxe juntar
meio copo de vinho, até na sopa de batatinha, que se come às oito horas da manhã, na qual foi cozido um bom pedaço de toucinho, do bom
mesmo).

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a sopa “bechamel” é muito nutriente e também de grande utilidade em uma festa de aniversário ou outra para pessoas que gostam de
consumir bebidas alcoólicas em quantidade maior do que o comum, porque a farinha diluída é capaz de reter boa quantidade do álcool no
aparelho digestivo, sem possibilidade deste caminhar por via sanguínea diretamente para os centros nervosos. pessoalmente recomendo a
sopa “bechamel” como alimento e não como freio para extravagâncias ou de anteparo para conseqüências de farras.
a farinha torrada e fria pode ser guardada seca, por bastante tempo (várias semanas), em um recipiente adequado com tampa bem
fechada, o que permite o seu uso sucessivo, conforme o capricho da cozinheira, não só para a elaboração da sopa “bechamel”, mas também
para engrossar um pouco o caldo de carne e até do feijão (muito útil quando sobra um pouco de feijão, que pode assim durar o suficiente
para não exigir já o cozimento de nova remessa).
e se num domingo, resolver-se picar o bife ou filé mignon, para o strogonoff, a farinha torrada da “beehamel”, serve também para este,
juntando-lhe cogumelos, nata e os condimentos de praxe.
fiz estas anotações no sentido de demonstrar que a cozinha em sítios, pode ser muito variada e permanecer ao mesmo tempo simples,
porque é a variação na comida que mantém o apetite e por via deste, a força de vontade e de trabalho, o bom humor e a alegria de se poder
viver livremente esta vida maravilhosa, junto aos seus seres queridos, seja do reino zoológico ou botânico.
não resta dúvida de que a responsabilidade da pessoa que toma conta da cozinha em sítios é tão grande, como aquela dos trabalhadores,
porque estes últimos gostam especialmente à tarde, de encontrar um bom jantar, que se pode caprichar com alimentos simples, mas
apresentado com muita boa vontade e porque não dizer, com muito amor.
não é coisa chata de se ouvir a pergunta de uma cozinheira: “que devo fazer para o jantar?”. não, para o almoço e para o jantar, em
sítios, temos tantas verduras e tantos produtos para se compor um cardápio variado o suficiente de modo a abrir o apetite de todos, sejam
adultos, jovens, crianças, camaradas, etc. todavia, uma boa cozinheira, mãe e esposa, sempre saberá escolher e compor os pratos de acordo
com as necessidades do pessoal em relação ao trabalho, porque também existem limites, senão logo o maridinho vai ficar um mandão,
chegando a superar ele próprio, todas as esperanças da criação, o que às vezes incentiva os vizinhos a dar sorrisos maliciosos, ao pensar
sobre determinada anedota do gordo e do magro, tendo o primeiro perguntado ao outro, certo dia, a razão dele ser tão magro assim.
- bem, respondeu o magro, isto é conseqüência das circunstâncias da minha vida.
— como assim? indaga o gordo.

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— sim, eu chego à tarde em casa, tomo banho, vou jantar na cozinha, porém, encontrando só coisas relaxadas, vou ao quarto dormir.
— É mesmo, constatou o gordo, pensativo! sabe que para mim, ocorre coisa similar, só que quando chego a casa, depois de tomar
banho, vou jantar muito bem na cozinha. depois, quando vou ao quarto e encontro ali só coisas relaxadas, volto a jantar outra vez na
cozinha.
quer dizer, cuidado dona-de-casa do sítio não se pode desprezar nem a cozinha, nem o quarto, senão o maridinho ou mandão vai respirar
bem fundo, quando na casa do sitiante vizinho se alourar as cebolas ou o alho nas panelinhas tão brilhantes de limpeza impecável. É coisa
muito natural do mundo, o pessoal ter interesse nas boas coisas desta vida, de certo sem exagero, mas para quem não se interessa por muitas
coisas, tão agradáveis seria de se aconselhar rever as suas possibilidades de desfrutar melhor destas, o que às vezes é a coisa mais simples do
mundo, não esquecendo de que também uma boa alimentação pertence a uma vida saudável e que o jejum demais prolongado só provoca
mal humor doentio.
posso dizer, que pessoalmente não me incomodo do que falam os vizinhos, nem os amigos a respeito do meu físico, nem a respeito do
meu modo de vida, porque nem sendo doente não é de se desprezar ao jantar uma sopa chamada “sopa de doentes”, que quero anotar a
seguir porque ela é a mais recomendada para os doentes do aparelho digestivo. posso dizer com toda sinceridade de que esta sopa salvou já
muitas pessoas.
o componente principal desta, é a cebola. vamos aprontar esta sopinha tão gostosa e eficiente em especial para doentes cujo estômago
ou intestinos não admite mais nem água, chá, nem leite frio: pica-se uma a duas cebolas, após descascá-las, em pedaços não muito finos, que
se aloura em óleo ou margarina (ou melhor, em manteiga para os não doentes). pica-se pão em pedaços pequenos, que se junta à cebola,
refogando-os, até que o pão fique bem mole pelo suco da cebola.
junta-se água fervida com antecedência em outra panela. mexe-se bem com a concha no fundo da panela, para não deixar nem pão, nem
cebola grudados, e deixar ferver durante dez a quinze minutos, juntando à sopa um pedaço de cubo knorr ou maggi, desde que o doente o
suporte, senão só se dá um pouco de sal. já vi tomar esta sopa, sem sal por pessoas com problemas de pressão alta. o gosto desta é muito
agradável. de certo, para as pessoas com boa saúde, é possível temperar esta sopa à vontade e até uma pitada de pimenta do reino não é
desprezível na mesma.

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18º Ítem — alguns remÉdios caseiros de grande utilidade e fÁcil aplicaÇÃo

em primeiro lugar, devo chamar a atenção de todos e de cada um dos leitores de não confiar teimosamente em si próprio e nem em
outras pessoas usando-se determinado remédio caseiro, porque errar é humano, e quem não errou e não vai mais errar?
também é necessário lembrar que a ocorrência de febre é o sinal de reação do corpo a agentes internos que devem ser reconhecidos e
tratados adequadamente. qualquer caso de dúvida requer a ajuda do médico, em especial quando a febre persiste ou quando o doente se
queixa de dores não muito bem localizadas. ocorreu já muitas vezes de uma simples crise de apendicite, originar uma peritonite generalizada
e aguda, que levou a morte precoce a muitas pessoas da roça, cujos filhos encontram-se desamparados e muitas vezes à mercê de
exploradores ou de familiares sem escrúpulos.
todavia, não vamos também exagerar no sentido oposto e recorrer ao médico por qualquer feridinha ou por pequeno mal-estar
passageiro. em geral, o pessoal da roça sabe quanto é difícil ir até ao pronto socorro, mais próximo, muitas vezes superlotado de doentes e
receber o calmante para agüentar os dias seguintes, para deixar examinar sangue, urina, fezes, muco, etc., ou aguardar o resultado da análise
do cardiograma.
o melhor de todos os remédios é sem dúvida nenhuma, aquele que não precisa tomar, por levar uma vida regular, sem exageros e
cuidando bem da sua alimentação sadia, o que é perfeitamente aplicável em sítios e fazendinhas.
e se ocorrer do pessoal precisar parar alguns dias por causa de doença ou quando machucado seriamente, a primeira coisa a fazer é não
se afobar, considerar e avaliar a situação na qual o pessoal se encontra, agir com cautela e com todo o bom senso e sem demora.
em geral, é bom saber diferenciar logo de início a origem de um mal estar, a gravidade de feridas, também o porquê da ocorrência de
febre, que muitas vezes é determinada só depois de já sanada.
em caso de mal estar, deita-se logo o doente de costa, ou de um lado e libera-o de possível opressão por vestimentas ou roupas muito
estreitas, para permitir que a circulação sanguínea seja boa e que a movimentação respiratória da sua caixa toráxica, não seja prejudicada.

138

nunca administrar bebidas a uma pessoa desmaiada, há grande perigo de afogá-la. examinar o pulso do doente e a coloração dos seus
lábios e boca:
— em caso da ocorrência de arritmia cardíaca (intervalos irregulares do pulso), não tardar para levar o doente ao médico, controlando o
seu estado durante o transporte, para aplicar-lhe se necessário respiração artificial e massagens;
— se o pulso é regular e o doente apresenta-se com os lábios azulados ou bem pálidos, não ter medo de lhe aplicar uma compressa de
pano molhado em água (não muito fria no inverno), na região do coração. todavia cobri-lo bem, com cobertura leve para guardar-lhe a
temperatura nos membros. remover a compressa logo, se o doente queixar-se do frio;
— o mal estar devido à exaustão, por exemplo, após grandes esforços, é logo curado quando o doente pode ingerir um copo de água
com açúcar e se possível com um pouco de limão. não se deve abusar na quantidade de açúcar; melhor é dar em várias vezes um meio copo
de água, com uma colher de café rasa de açúcar. este mal estar é freqüente em moças com a mania de não se alimentarem bem só para
guardar a linha do corpo. mas, para a roça, um velho provérbio diz que vale mais um burro ou uma mula bons de saúde do que um cavalo
bonito, porém doente ou sem apetite.
no caso de desmaios e mal estares freqüentes em moças, não se pode esquecer que existem outras origens que requerem muita
compreensão e muita paciência dos parentes e amigos, porque as pessoas podem sofrer muito mais psiquicamente do que fisicamente. em
qualquer caso de dúvida, é sempre recomendável a consulta médica. nunca dramatizar uma situação de curta duração e menos ainda se
esquecer de que não ocorre mal, que não vem para o bem.
quando o pessoal se acidentar, sempre considerar a coisa como sendo séria, até prova do contrário, porque uma ferida interna, por exem-
plo, por queda, pode originar uma hemorragia que pode levar à morte quando a pressão sanguínea baixar depressa.
deita-se o paciente em posição adequada em relação à sua situação, não lhe permitindo muita movimentação do corpo ou dos membros,
o que poderia agravar a hemorragia interna.
no caso do paciente se queixar da barriga, deitá-lo em posição levemente curvada lateral para relaxar os músculos em geral, tendo assim
menor afluxo de sangue nos tecidos feridos.
em caso de corte profundo em uma perna ou em um braço, colocar um garrote na coxa pouco acima do joelho (ou na região inguinal, se
o corte for à própria coxa) e no braço pouco acima do cotovelo, o garrote é sempre aplicado em parte do membro no qual existe só um osso,
porque a artéria permanece ativa quando está passando entre dois ossos. nos dedos, o uso de um pequeno garrote é de fácil aplicação para
impedir grande perda de sangue no ferimento.

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serve para isso duas voltas com um barbante ou pedaço de pano estreito, aplicando-se então o curativo.
agora, cuidado no uso do garrote que não pode permanecer aplicado por muito tempo apertado. deve-se sempre a cada três ou quatro
minutos, deixá-lo um pouco desapertado para permitir a circulação sanguínea nos músculos, para evitar o perigo de coagulação nas artérias e
veias, o que pode originar a conseqüente gangrena. para se conscientizar melhor do grande perigo da gangrena devido ao sangue
decomposto em feridas ou em músculos necrosados, quero salientar que na segunda guerra mundial, houve bem menos perdas de soldados
feridos em relação às mesmas perdas da primeira guerra mundial, pela aplicação de um método de tratamento um tanto original, porém
deduzido da simples lógica: nos músculos feridos suturava-se as artérias e as veias principais e deixavam-se as feridas abertas, regando-se
estas continuamente com água clorada o suficiente para evitar qualquer ação bacteriana ou virológica na carne viva. foi constatado que em
poucas horas apareceram já os bulbos brancos da formação de uma camada protetora nas superfícies das feridas, porque a carne assim
regada permanece viva e sem coágulos de sangue em decomposição. esta regação era mantida por dias, aplicando-se em intervalos nas
feridas cirurgias corretivas e recuperadoras.
esta anotação foi feita aqui, com o propósito de se avaliar o quanto se pode melhorar o estado de um ferido por tratamento adequado,
certo, dentro dos limites de responsabilidade bem definida. não pretendo incentivar uma ou outra pessoa a experimentar este método na
própria carne, não; recomendo a todos de deixar este serviço aos cuidados do cirurgião. também a dosagem da água clorada é um assunto de
se deixar aos cuidados dos especialistas. porém, em sítios e fazendinhas, temos a possibilidade de se aplicar um método muito simples no
tratamento de feridas que supuram:
— ferver bem, por exemplo, meio litro, até um litro de água em uma panela e colocar na mesma, flores secas de camomila que contém
antibióticos; duas colheres de chá de camomila seca por meio litro de água.
deixar na infusão uns dez minutos e coar, se quiser.
banhar a ferida neste chá de camomila ou aplicar na ferida compressa com um pano bem limpo, se possível, fervido antes em água
durante uns dez minutos.
a temperatura do chá, quando da sua aplicação na ferida é variável. recomendo manter esta em redor de 34 a 38º c, que é bem agradável.
no caso do uso de compressas, recomendo não usar plásticos em cima do pano molhado, porque além do efeito do antibiótico, temos
também o efeito resultante da própria compressa, que retira devagar calor da ferida inflamada. nunca se deve impedir por completo o acesso
de ar a uma ferida por tempo prolongado, o que facilitaria o desenvolvimento da flora bacteriana nociva.

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É bom ter sempre em casa, alguns rolos de gaze esterilizada para aplicar em feridas na medida das necessidades. agora, cuidado, nunca
remover com força, gaze que gruda em ferida, sempre umedecê-la o suficiente, o que é fácil de se conseguir no próprio banho com chá de
camomila ou pela aplicação de compressas.
quando ocorrer uma inflamação supurenta em ferida, ou quando nasce um furúnculo, abscesso, com o seu latejar típico, não adianta
querer espremer o pus, antes de deixar amadurecê-los o suficiente para que o corpo forme o zoneamento dos tecidos afetados dentro dos
tecidos sãos.
quando não tiver à disposição pasta antiflogística para ativar o amadurecimento, podemos fazer uso de um remédio caseiro de grande
utilidade:
— corta-se uma cebola em duas metades, que se deixa ferver uns cinco a dez minutos em água. aplicar uma metade quente no lugar
doente, fixando-a com um pano ou simplesmente segurando-a no lugar com a mão. renovar alternativamente os pedaços de meia cebola, que
se recolocam na panela, deixando-se esta com água mantida no ponto de início de ebulição.
durante a noite, pode-se deixar um pedaço, horas seguidas, no lugar afetado, desde que devidamente coberto para não resfriar muito. em
geral, após algumas aplicações de meia cebola, bem quente, porém, sem querer queimar a pele, esta vai amarelando no ponto de acumulação
do pus. resta agora, o cuidado de ajudar o corpo na eliminação da raiz da supuração que se apresenta como um bulbo ou caroço amarelo-
esbranquiçado. para tal fim, é possível usar uma compressa com água morna, na qual se coloca um pouco de bom vinagre, mais ou menos,
uma colher das de sopa para meio litro de água, que se ferve antecipadamente e deixá-la resfriar até mais ou menos 40º c (só a água, sem o
vinagre).
também quando se pode obter um pedaço de “barro virgem” (tirado do solo, em lugar sem contaminação) é possível fazer uma
“barbotina” deste barro, esmagando este à mão em água, até ter uma massa pegajosa que se estende em um pedaço de pano que se aplica
diretamente na ferida supurenta. deixa-se esta compressa de barro (pode ser também de terra roxa argilosa), durante horas, até o início de
secagem, chegando às vezes a formar-se uma crosta moldada na parte do corpo. não é raro constatar então, que o bulbo supurento nele adere
e é assim eliminado sem ferir os tecidos. (pessoalmente já tirei um espinho de ouriço, alojado em minha perna direita, durante quatro
meses). constata-se que a intumescência diminui depressa, permitindo a circulação sanguínea adequada, que favorece a recomposição rápida
dos tecidos destruídos.

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o modo de agir destes remédios caseiros é devido a sua ajuda lógica para a defesa do corpo contra a penetração das bactérias, que em
princípio, se encontra também nos tratados orientais de lin e yang, porém, com a grande diferença na avaliação da ajuda a se dar ao corpo,
não sendo sempre o mais adequado o uso dos contrários; a lógica é a ajuda direita à ação do corpo, desde que se avalie devidamente a
origem do mal.
a compressa de barro é um meio caseiro de fácil aplicação, desde que bem tratada e manejada dentro dos limites higiênicos, porque em
si o acetato de alumínio presente no barro é um poderoso oxidante, nada desprezível. o importante é de se usar água limpa no caso de tratar-
se de feridas abertas. (na europa, pode-se comprar o barro em estado esterilizado). uma observação: não vamos pensar que este remédio é de
monopólio do homem.
muitos animais quando feridos, vão se deitar em terra úmida ou em charco, expondo a ferida de modo a sentir nela o frescor do barro,
lodo ou da terra úmida. um exemplo típico é o comportamento do porco macho, depois de castrado, que nunca deveria ser impedido de
sentar-se no lodo. É observando o comportamento dos animais, que o homem foi aprendendo.
um fato muito interessante foi a descoberta da penicilina pelo dr. fleming, na inglaterra, que teve conhecimento de um famoso remédio
caseiro usado na roça, quando ocorria a supuração de feridas acidentais.
tomava-se uma fatia de pão, na qual passava-se manteiga, deixando-se esta no porão até apresentar-se com uma boa camada de mofo.
esmagava-se o pão com manteiga mofados, em um prato com o garfo e pronta estava uma pasta curativa que se aplicava nas feridas. o
elemento ativo era de fato a penicilina, porém, em um estado não ainda tão puro como obtida hoje, em laboratório.
quem se interessa por remédios dos tempos passados, pode ter surpresas incríveis ao conhecer a farmacologia francesa do dr. dorvaux,
por exemplo, a edição de 1848.
não resta dúvida que o pessoal destes tempos passados, usava remédios simples e eficientes, sem ter conhecimento das substâncias ativa
neles contidas. nem do grau da sua concentração.
anotei aqui estes exemplos, sem pretensão de querer discriminar um ou outro remédio moderno, bem ao contrário, quero recomendar
sempre que possível a ajuda médica e farmacêutica. porém, “sempre que possível” inclui também a parte econômica, respectivamente a
parte pecuniária. e todo mundo sabe que, o sinônimo de farmácia não é “remédio barato”. também surge o grande problema do consumo
injustificado de antibióticos modernos, até se tornarem ineficientes, porque os micróbios, vírus, etc., criaram resistências a estes. resta
reconhecer em que grau de infecção pode-se tratar quando tal resistência ocorre. de certo, isto não é um caso a se generalizar, quando do uso
de antibióticos na forma mais natural em remédios caseiros.

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vale lembrar aqui, que o homem tem mania generalizada do uso de remédios, sempre mais fortes.
e para abafar o dramático de muitas ocorrências tristes, convém lembrar-se de algumas piadas, porque também a alegria é o contrário da
tristeza, conforme iin e yang:
1 — quando uma pessoa passa mal, dá-se a ela, penicilina.
— se não melhorar depressa, dá-se aureomicina.
— se o seu estado ainda piorar, dá-se terramicina.
— e se morrer, então terra em cima.
2 — a velhinha que tomava chá de plantas respondeu ao médico que quase zombava da ação duvidosa deste chá:
não doutor, não é assim tão ruim, não; porém, sabe, assim a gente vai se acostumando ao gosto, para não estranhar demais quando for
comer o capim pela raiz.
3 — o caboclo foi ao médico, que ordenou algumas injeções, para tomar na veia. o caboclo entendeu mal, comprou o remédio, levou
para casa, deu para a mulher tomar! tempos depois, o casal encontra o médico que estranhou a disparidade do estado de saúde dos dois, ela
fortona e radiante e ele, fraquinho, cansado e tremendo.
a resposta do caboclo à pergunta do médico, se ele não tomou o remédio que lhe ordenara, foi:
— mas doutor, não foi o senhor que disse que era para “veia” tomar?
voltamos aos remédios caseiros, anotando aqui que na falta de cebola, para deixar amadurecer inchações supurentas é possível aplicar
nelas uma camada de um a dois centímetros de espessura, feita com pasta composta de pão amolecido em leite quente. deixar esta pasta por
uma a duas horas na ferida, porém, não reaproveitá-la como no caso da cebola.
quando a ferida estiver livre do pus removido pelo pão umedecido no leite, é bom aplicar algumas compressas de chá de camomila ou
banhar a parte afetada em chá de camomila.
um bom remédio contra fortes dores reumáticas é o uso de cataplasma de batatinhas cozidas e esmagadas, com um punhadinho de
farinha de mostarda, aplicadas durante várias horas. a ação chega a provocar bolhas na pele se a adjunção de farinha de mostarda for
excessiva. repetir a aplicação do cataplasma após alguns dias se necessário.
não resta dúvida, que o uso prolongado de chá, que contém salicilato, chega a curar o reumatismo, por exemplo, chá de folhas secas de
abacate; porém, cuidado no seu uso, porque o chá de folhas verdes contém um alcalóide que pode ser muito prejudicial à saúde.
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uma das razões principais da ocorrência de reumatismo do pessoal da roça é o uso quase que contínuo de botas de borracha, que
prejudicam o suor dos pés.
como medida preventiva, contra o reumatismo, posso recomendar usar as botas de borracha só para os serviços em lugar lamacento,
etc., ou para mexer na esterqueira, colocando-se outros calçados mais adequados para os respectivos serviços na roça.
também, ao comprar as botas, é bom prever um tamanho maior em relação aos pés, para permitir o uso de sola higiênica nas mesmas,
elaboradas com papelão, cordoalha ou simplesmente com capim seco mole, por exemplo, de capim kikuyu seco. devido à ação da
samambaia contra o reumatismo, é aconselhável o uso de uma mistura de folhas de samambaia, meio murcha com capim seco mole dentro
das botas, mistura que se joga na esterqueira, quando encharcada de suor da transpiração, renovando esta por uma remessa fresca.
no caso de se usar talco nas botas, recomendo de se evitar a mistura deste com formalina (uma solução de aldeído fórmico na base de
40%), que resseca em demasia a pele dos pés, impedindo o suor regular, que expele muito ácido úrico.
recomendo a troca freqüente dos calçados na roça para, se não evitar, ao menos diminuir a ocorrência de frieiras, fungos, micoses que
podem originar feridas, que se não tratadas logo, desde o início, podem ficar infeccionadas e dar bastante trabalho para tratá-las depois.
cuidado, qualquer caso de micose, deve ser levado muito a sério e em geral requer ajuda médica para a sua identificação acertada.
como é melhor prevenir do que remediar é recomendável o uso de uma solução desinfetante (por ex. de lisol) dentro de meio copo de
água após tomar banho, esparramando pelo corpo, especialmente nas axilas, nas juntas das pernas e nos pés.
quando se trata de frieira rebelde, o uso de uma pasta de vaselina, com ácido láctico, já deu bom resultado. o mesmo pode ser obtido ao
banhar-se os pés, com soro de leite (líquido residual da fabricação de queijo), aquecido ou simplesmente fazendo com ele compressas
quentes nas feridas, porém sem sal. se não tiver soro de leite, cozinhar cascas de abóbora (de qualquer variedade) em água e banhar os pés
ou fazer compressas neles. recomendo, iniciar com banho morno, aumentando-se a temperatura do mesmo devagar com a adjunção de fluido
mais quente, chegando-se na maioria dos casos a suportar perfeitamente temperaturas de 55 a 60º c e mais (porém, não abusar). a duração do
banho deve ser de no mínimo 20 minutos.
posso recomendar o soro de leite quente, também para o tratamento de dermatoses alérgicas. É incrível o poder de penetração do soro
de leite na pele, que fica limpinha até o fundo dos poros. e a infusão de casca de abóbora é mais um produto de beleza, que amacia a pele do
rosto e a estica o bastante para retardar o aparecimento das rugas e pés de galinha, nos cantos dos olhos.

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existem tantos produtos muito eficientes e baratos à nossa disposição: é só querer aproveitá-los para o nosso bem. no sítio sempre se
encontra uma folguinha à noite, para uma experiência agradável.
surge um grande porém em todas as perguntas, para os remédios caseiros: “e se não tiver leite, soro de leite, abóbora, que se pode
fazer?”
e lá vai, a resposta bem acertada: use somente água.
sim, também banhos de assento ou simplesmente compressas de pano molhado em água, são meios baratos e de fácil aplicação: para
banho de assento, não precisa senta-se na água, não; é possível sentar-se no bidê, cheio de água e molhar-se com um pano, a parte baixa do
ventre, durante dez quinze minutos consecutivos. o efeito de se resfriar esta parte, incluindo-se os terminais do aparelho digestivo e os
órgãos genitais externos, se explica em parte, pela ação da variação de temperatura sobre as glândulas endócrinas (glândulas que produzem
determinadas substâncias, que elas remetem ao próprio sangue, não tendo canais especiais para tal fim) e sem dúvida pelo baixar da
temperatura no intestino grosso, diminuindo-se assim, a fermentação excessiva do seu conteúdo, com o resultado esperado de se reduzir a
pressão sanguínea e linfática, chegando-se a eliminar até fortes dores de cabeça, conseqüentes de pressão alta.
um pano molhado, aplicado à noite na parte baixa do ventre, acalma muitas pessoas com os nervos a flor da pele, com dor de cabeça e
baixa a febre em pouco tempo (às vezes a febre abaixa, meia hora, depois da aplicação). porém, cuidado, nunca aplicar pano molhado frio
acima do umbigo, na região do fígado ou do estômago, porque o resfriamento destes órgãos, pode provocar uma indigestão.
no uso de banho de assento, o efeito é tão agradável, que muitas pessoas colocam gelo em pedaços, na água para impedir que a
temperatura aumente depressa, dando assim maior choque térmico às glândulas do corpo. É quase uma miniatura do efeito final da sauna
finlandesa, ao pular na água gélida, que reanima até meio-mortos. durante o banho de assento, cobre-se bem a parte alta do corpo, em
especial a caixa torácica, para não provocar resfriados nas vias respiratórias. não resta dúvida que a movimentação rítmica do braço, que
leva água da bacia do bidê ou outro utensílio, mediante o pano para a parte baixa do ventre ajuda a circulação sanguínea.
indiquei propositalmente “outros utensílios”, porque é sempre possível, se improvisar uma instalação adequada, quando necessário, até
de forma rudimentar, por exemplo, usando-se uma tábua estreita apoiada em duas cadeiras e colocando-se em posição elevada um balde ou
uma bacia de água fria, com alguns tijolos.. já vi feito um banquinho de meia lua oca, com três pés unidos por pedaços de ripas nas quais se
apoiava a bacia.

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como indicado inicialmente, deve-se saber avaliar a origem da febre para remediar adequadamente o doente. no caso de um resfriado,
das vias respiratórias, com tosse, o uso de banho ou compressa fria, é só recomendável por tempo muito curto e com todo o cuidado de não
se provocar uma pneumonia ou agravá-la.
quando as vias respiratórias estão muito afetadas, ajuda muito uma compressa composta de cânfora em pasta misturada com igual
quantidade de manteiga fresca, estendida em um pano, bastante grande, para embrulhar toda a caixa torácica do doente. esta compressa
pastosa pode ser deixada aplicada, durante um a dois dias. um velho remédio caseiro francês, já salvou doentes em situação desesperadora
de bronco-pneumonia, nos tempos em que não existia ainda antibióticos. como é de se considerar que estes tempos podem voltar à
atualidade, pelo fato da resistência aos antibióticos, de muitas estirpes de pneumococos, anoto aqui este remédio que se pode aplicar em
paralelo ao tratamento com os antibióticos:
fazer um cataplasma total na caixa torácica, que se deixa aplicado durante 48 horas, composto da seguinte mistura:
— pasta de cânfora (mais ou menos 200 gr, para uma pessoa adulta);
- manteiga fresca (igual quantidade, como a pasta de cânfora);
- clara de uma dúzia de ovos, bem mexida, porém, não batida em neve:
— pequenas porções de pimenta do reino;
— farinha de linhaça, até obter-se uma pasta (duas a três colheres de sopa, mais ou menos);
— farinha de mostarda em quantidade de acordo, com o físico do doente (não abusar para evitar a formação de bolhas na pele — meia a
uma colher de chá, mais ou menos).
cuidar na época fria de cobrir bem o doente e lhe administrar bebida quente para aliviar a sede, que é intensa em geral, com o perigo
dele querer beber água fria, o que deve ser rigorosamente impedido.
logo que a febre abaixe, o doente deve se alimentar, porém, só com comida leve. uma sopinha de cebola e pão, como descrito no
parágrafo anterior é a mais indicada.
lembrar que o leite pode ser de conveniência do doente, só quando o seu aparelho digestivo estiver em bom funcionamento, para evitar
vômitos, indigestão, etc. se por acaso os rins não funcionarem satisfatoriamente, uma infusão de salsa, levemente salgada pode ser de efeito
benéfico para abrir os canais das respectivas vias e em geral é bem aceita pelo doente, como variação no catálogo das muitas variedades de
infusões doces. que lhe poderão ser dadas.

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não esquecer que as crianças doentes, em geral, não tem apetite e perdem peso, muito depressa. não adianta querer forçá-las a ingerir
comida regular; é muito mais conveniente se fazer sopinhas variadas, pelas quais as crianças e doentes em geral, recebem o fluido necessário
para substituir as perdas de água do corpo, pelo suor, em conseqüência da febre.
em caso de indigestão, que ocorre facilmente, quando se força o doente a ingerir comida sólida pesada, ele pode ficar um a dois dias,
com uma dieta que pode ser resumida em chá preto e pão torrado. como bebida intermediária, é muito ativa o chá de camomila e chá de
semente de funcho ou de erva doce. também o chá de boldo ou hortelão do norte, é neste caso, um bom remédio, porque ele ativa o fígado,
desentupindo ao mesmo tempo, os canais biliares. compressas de água quente no estômago, ajudam a reavivá-lo nas suas funções digestivas.
um bom remédio, contra a fraqueza subseqüente à doença é a infusão de serralha. também o seu consumo em salada ou levemente
refogado é muito ativo, porque a serralha ao exemplo da alface contem um suco leitoso, que fortalece as artérias e veias do corpo.
quando uma criança, maior de 10 anos ou um adulto tem a tosse bronquial, é bom ter sempre xarope de caraguatá à disposição e lhes dar
em dose de colher de sopa, a cada duas horas, mais ou menos. este xarope é feito das frutas do caraguatá, bem amadurecidas no próprio pé,
na mata. após cortar as frutas da espiga, mediante uma faca de ponta bem afiada, lava-se e cozinha-se estas em boa quantidade de água,
durante mais ou menos duas horas. esmaga-se então estas frutas, à mão, dentro da água que se côa em um pano bem resistente. aproveita-se
o caldo, fervendo-se este em uma panela, juntando-lhe açúcar cristal na quantidade de mais ou menos um quilo de açúcar por litro e meio de
líquido. deixa-se ferver suavemente, mexendo-se com colher de madeira até o xarope tornar-se viscoso, em um prato frio (fazer de vez em
quando, um teste com alguns gotejos). deixa-se resfriar então e engarrafa-se o xarope fechando-se bem as garrafas com rolhas de cortiça
deixadas de molho em água quente.
quando não houver xarope de caraguatá, é possível se fazer um chá de palha de aveia, que contém também substâncias expectorantes
que aliviam a tosse.
pessoalmente, recomendo o chá de palha de aveia, em vez do xarope de caraguatá, em especial para crianças de baixa idade, porém, o
xarope de caraguatá é muito fortificante para as vias respiratórias. o chá de palha de aveia é muito usado na europa, para aliviar os ataques
de tosse comprida.
contra as diarréias, o chá de folhas de goiabeira ou de folhas de amoreira espinheira, é muito indicado. também o chá preto resseca, em
especial, quando tomado com pão e chocolate preto por ex., diamante negro).

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outro xarope muito bom contra a tosse é o de cebolas; sim, parece esquisito, mas também a cebola pode ser aproveitada para esta
finalidade:
- cozinha-se as cebolas, após passá-las pela máquina de moer carne. junta-se às mesmas, açúcar na base de quilo por quilo (quer dizer
por exemplo 250 gramas de açúcar, por quarto de quilo de cebola, que dá um “bom frasco” de xarope).
e pronto está o remédio, que se toma na base de uma colher de sopa a cada duas a três horas. quando se quiser guardar este xarope por
várias semanas, deve-se juntar-lhe algumas gotas de amoníaco, antes de engarrafá-lo, diluindo bem este no xarope (guardar só frascos
cheios).
para tirar qualquer dúvida do leitor, a respeito de possível determinado interesse ao recomendar os produtos e remédios feitos com
cebola, quero dizer que não possuo nenhuma participação, nem no plantio, nem na comercialização desta hortaliça. recomendo esta
unicamente porque a sua eficiência está comprovada e até cientistas russos conseguiram tirar dela um remédio contra a peste apiária muito
comum em regiões aonde se deve colocar as colméias enterradas no solo, para suportar a hibernação.
e para os jovens casais, com criança em idade de furar os dentinhos, aqui vai um remédio calmante de grande utilidade, para não passar
a noite cm claro:
— quando a criança choraminga, cheia de sono, esfregando a boca com os seus punhos, não resta dúvida, são os dentinhos que
atrapalham já a sua vida.
toma-se uma cebola, não muito grande, descasca-se e corta-se esta em fatias que se fritam muito pouco em óleo na frigideira. colocam-
se estas fatias em dois panos com quantidades iguais deixando-as resfriar até mais ou menos 25 a 30º c. aplicar então as cebolas na sola dos
pés da criança fixando o pano com uma meia a cada pé e se necessário pode-se enfaixar a perninha na parte baixa cada uma bem em
separado. e pronto, nem meia hora depois o nenê dorme e sonha com os anjinhos e os pais de manhã apresentam-se com um sorriso até os
ouvidos ao invés de uma cara fechada, após uma noite mal dormida. removendo-se de manhã os panos com o conteúdo acebolado, é bom
lavar em seguida os panos para eliminar o cheiro forte e penetrante das cebolas fritas. em geral, uma aplicação dá resultado positivo para
duas a três semanas. É só na próxima remessa de dentes, que em geral a criança vai sofrer novamente. de experiência própria posso afirmar
que este remédio, que me foi recomendado por uma senhora idosa, quando o filho estava nesta fase; funciona mesmo.
e falando de remédio na planta dos pés, outro remédio um tanto esquisito vai aí, no caso de pessoas idosas e mesmo ainda de meia idade
com pernas inchadas em conseqüência do mal funcionamento dos rins:

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torra-se sal grosso, em uma frigideira de ferro, até ficar crepitando forte, que é o sinal da liberação da água entre os cristais;
- deixar resfriar o suficiente e aplicar este sal na planta dos pés, mantendo-o com panos e meias durante duas a três horas consecutivas.
constata-se que o sal absorve a água acumulada nas pernas e liberta o corpo da pressão excessiva. quero mencionar aqui, que este remédio é
para ser usado só em caso quase desesperador e que se deve tentar por diuréticos o funcionamento dos rins que é essencial para a saúde do
corpo.
não posso deixar de anotar também aqui, um bom remédio caseiro a ser usado em queimaduras e pequenos ferimentos em geral, sejam
expostos ou só de contusão, porque à mais da sua ação desinfetante também alivia muito a dor.
compra-se na drogaria mais ou menos 30 gramas de aloé, que é a resina purificada da babosa. corta-se esta em pedaços e coloca-os em
uma garrafa, junto com dois a três maços de chá de camomila. expor a garrafa cheia com álcool, não muito forte (também cachaça bem forte
serve) ao sol, durante uns quinze dias, dando-lhe duas a três viradas por dia. recomendo muito cuidado no uso da rolha, que não pode ser
muito apertada na garrafa, para evitar o seu estouro, quando aquecida ao sol. também recomendo segurar a rolha em posição quase removida
ao se virar a garrafa. depois de pronta côa-se a tintura assim obtida, ela pode ser guardada em frasquinhos do tipo de mertiolato, com a
espátula de plástico na tampa, para facilitar a aplicação da tintura em feridas, em quantidades razoáveis e evitar o seu desperdício. em feridas
grandes, é bom diluir a solução com água, antecipadamente fervida.
outro remédio caseiro de grande utilidade nas contusões é o fel de boi ou de porco, que se dilui em álcool, após o seu recolhe da
vesícula biliar na matança de um animal. É possível também, procurar este em matadouro. em caso de contusão, aplica-se a mistura de fel e
álcool, em massagens leves feitas com a mão na parte afetada do corpo.
e para terminar, com uma planta no álcool, vale mencionar a arruda que é de efeito incrível contra dores de cabeça, sendo o suficiente
passar esta solução no pescoço e na fronte, cuidando-se de não deixá-la alcançar os olhos.
o preparo é sempre o mesmo: colocar certa quantidade de folhas com as hastes finas em uma garrafa e enchê-la com álcool ou pinga.
deixar macerar a mistura, durante alguns dias e pronta fica a tintura de efeito comprovado e também de custo muito modesto.

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