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Vida de Carlos Magno (c. 817-829) [1]

Einhard (770-840) [2] Trad.: Prof. Luciano Vianna e Profa. Cassandra Moutinho. Rev. e notas: Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes) Base da tradução: Medieval Sourcebook: Einhard: The Life of Charlemagne (translated by Samuel Epes Turner, New York: Harper & Brothers, 1880)

Vida de Carlos Magno (c. 817-829) [ 1 ] Einhard (770-840) [ 2 ] Trad .:Luciano Vianna e Profa. Cassandra Moutinho . Rev . e notas : Prof. Dr. Ricardo da Costa ( Ufes ) Base da tradução : Medieval Sourcebook : Einhard: The Life of Charlemagne (translated by Samuel Epes Turner, New York: Harper & Brothers, 1880) Estatueta fundida por volta de 870 e que provavelmente representa Carlos Magno (ou então seu neto e rei da França Carlos, o Calvo - 823-877) - o cavalo é anterior à imagem. Ela mostra um homem de rosto firme e com um longo bigode. Embora não dê um retrato fiel, ela mostra a altivez carolíngia. Atualmente essa estatueta se encontra no Museu do Louvre. Prefácio * Desde que me propus narrar tanto a vida pública e privada quanto os feitos de meu senhor e pai de criação, o mais recatado e recentemente purificado rei Carlos, condensei o mais breve possível os acontecimentos. Assim, fui cuidadoso em não omitir nenhum fato que chegasse ao meu conhecimento sem ser prolixo ou ofender as mentes que desprezam tudo o que é moderno, se é que é possível que alguém pudesse deixar de se ofender com um trabalhador novato que parece desprezar tanto as obras-primas da Antigüidade quanto os trabalhos dos escritores mais experientes e iluminados. Muitos deles, sem dúvida, são homens devotados a uma vida letrada e calma, e sentem que os casos da geração atual não devem ser ignorados; não consideram tudo o que é feito hoje indigno de ser mencionado e que merece estar acima do silêncio e do esquecimento. Apesar disso, são seduzidos pela luxúria da imortalidade, pois celebram os gloriosos feitos dos tempos de outrora com algum tipo de composição ao invés de privar a posteridade da menção de seus próprios nomes e não escrever nada. " id="pdf-obj-0-31" src="pdf-obj-0-31.jpg">
Vida de Carlos Magno (c. 817-829) [ 1 ] Einhard (770-840) [ 2 ] Trad .:Luciano Vianna e Profa. Cassandra Moutinho . Rev . e notas : Prof. Dr. Ricardo da Costa ( Ufes ) Base da tradução : Medieval Sourcebook : Einhard: The Life of Charlemagne (translated by Samuel Epes Turner, New York: Harper & Brothers, 1880) Estatueta fundida por volta de 870 e que provavelmente representa Carlos Magno (ou então seu neto e rei da França Carlos, o Calvo - 823-877) - o cavalo é anterior à imagem. Ela mostra um homem de rosto firme e com um longo bigode. Embora não dê um retrato fiel, ela mostra a altivez carolíngia. Atualmente essa estatueta se encontra no Museu do Louvre. Prefácio * Desde que me propus narrar tanto a vida pública e privada quanto os feitos de meu senhor e pai de criação, o mais recatado e recentemente purificado rei Carlos, condensei o mais breve possível os acontecimentos. Assim, fui cuidadoso em não omitir nenhum fato que chegasse ao meu conhecimento sem ser prolixo ou ofender as mentes que desprezam tudo o que é moderno, se é que é possível que alguém pudesse deixar de se ofender com um trabalhador novato que parece desprezar tanto as obras-primas da Antigüidade quanto os trabalhos dos escritores mais experientes e iluminados. Muitos deles, sem dúvida, são homens devotados a uma vida letrada e calma, e sentem que os casos da geração atual não devem ser ignorados; não consideram tudo o que é feito hoje indigno de ser mencionado e que merece estar acima do silêncio e do esquecimento. Apesar disso, são seduzidos pela luxúria da imortalidade, pois celebram os gloriosos feitos dos tempos de outrora com algum tipo de composição ao invés de privar a posteridade da menção de seus próprios nomes e não escrever nada. " id="pdf-obj-0-33" src="pdf-obj-0-33.jpg">

Estatueta fundida por volta de 870 e que provavelmente representa Carlos Magno (ou então seu neto e rei da França Carlos, o Calvo - 823-877) - o cavalo é anterior à imagem. Ela mostra um homem de rosto firme e com um longo bigode. Embora não dê um retrato fiel, ela mostra a altivez carolíngia. Atualmente essa estatueta se encontra no Museu do Louvre.

Prefácio

*

Desde que me propus narrar tanto a vida pública e privada quanto os feitos de meu senhor e pai de criação, o mais recatado e recentemente purificado rei Carlos, condensei o mais breve possível os acontecimentos. Assim, fui cuidadoso em não omitir nenhum fato que chegasse ao meu conhecimento sem ser prolixo ou ofender as mentes que desprezam tudo o que é moderno, se é que é possível que alguém pudesse deixar de se ofender com um trabalhador novato que parece desprezar tanto as obras-primas da Antigüidade quanto os trabalhos dos escritores mais experientes e iluminados.

Muitos deles, sem dúvida, são homens devotados a uma vida letrada e calma, e sentem que os casos da geração atual não devem ser ignorados; não consideram tudo o que é feito hoje indigno de ser mencionado e que merece estar acima do silêncio e do esquecimento. Apesar disso, são seduzidos pela luxúria da imortalidade, pois celebram os gloriosos feitos dos tempos de outrora com algum tipo de composição ao invés de privar a posteridade da menção de seus próprios nomes e não escrever nada.

Seja como for, não vejo nenhuma razão para me abster de me inscrever em uma tarefa desse gênero, já que nenhum homem pode escrever melhor e mais precisamente que eu os eventos que aconteceram comigo e os fatos relativos a eles que tive conhecimento ou ainda, como diz o ditado, o que vi com meus próprios olhos.

Assim, não tenho a intenção de averiguar se mais alguém tem conhecimento desse assunto ou não. Em qualquer evento eu preferiria comprometer a escrita da minha história e registrar para a posteridade uma parceria com outros autores do que perder e envolver na escuridão do esquecimento a vida mais gloriosa do rei mais excelente e mais maravilhoso de todos os príncipes de seu tempo e seus ilustres feitos, difíceis para homens de gerações futuras imitarem.

Mas em minha opinião há outras razões, sem desculpas ou motivos insuficientes, que me incitaram a escrever sobre esse assunto: o cuidado que o rei Carlos outorgou a mim em minha infância e minha constante amizade a ele e a seus filhos depois que passei a ter minha moradia na corte. À sua maneira, ele me atraiu fortemente e me fez ser seu devedor na vida e na morte.

Assim, lá estava eu, sem os cuidados dos benefícios conferidos a mim e mantendo silêncio a respeito dos mais gloriosos e ilustres feitos de um homem que exigiu tanto de minhas mãos e sofreu sua vida privando-se de elogios justos e de um memorial escrito como se nunca tivesse vivido. Merecidamente eu deveria parecer ingrato. Não obstante, considerando meus fracos e limitados poderes, próximos à irrealidade e não adaptados à escrita, farei seguir adiante uma Vida que irá ultrapassar a eloqüência de um Túlio. [3]

Assim submeto este livro. Ele contém a história de um grande e distinto homem. Contudo, não há nada aqui para enaltecê-lo além de seus feitos, exceto pelo fato que eu, um bárbaro muito pouco versado na língua romana, suponho ser capaz de escrever em um latim gracioso e respeitavelmente carregar minha presunção tão longe, desdenhando o sentimento que Cícero, citado no primeiro livro das Disputas dos Tusculões [4], expressou quando falou dos autores latinos.

Suas palavras são: “- Um homem comete um abuso ultrajante a seus pensamentos no tempo e na literatura quando sua escrita não tem a habilidade de arranjá-los e esclarecê-

los e não atrai leitores com charme ou estilo.” Esse ditado do famoso orador deveria ter

me impedido de escrever se eu não tivesse a certeza que é melhor arriscar-me perante as opiniões do mundo e colocar em teste meus pequenos talentos para a composição do que me desocupar e desprezar a memória de um homem tão grandioso.

A vida do Imperador Carlos I. A família merovíngia

Diz-se que a família merovíngia, de onde os francos costumavam escolher seus reis, durou até os tempos de Childerico [5], o mesmo que foi destituído, tosquiado e impelido para um mosteiro por ordem do pontífice Estevão. [6]

Porém, as aparições externas já haviam acabado com ele, pois há muito tempo ele estava sem sua força vital. Isso era visível somente através de seu comportamento e de seu epíteto real vazio, pois o poder real e a autoridade no reino se encontravam nas

mãos de um oficial chefe da corte chamado majordomus; ele era o responsável pelos contatos [7]. Não havia nada mais para o rei fazer a não ser se contentar com seu título de rei, com seus cabelos cacheados e sua longa barba [8] e sentar-se no seu trono e atuar como soberano, ouvir os embaixadores que vinham de todos os cantos e dispensá-los, como se isso fosse de sua própria responsabilidade, com palavras que eram, de fato, sugeridas ou até mesmo impostas a ele. [9]

Ele não tinha nada que pudesse declarar como próprio a não ser seu vaidoso título de rei e o precário e discreto apoio permitido pelo majordomus, além de um simples trono no país que trouxe a ele um pequeno rendimento. Ali havia uma casa e um pequeno número de serventes anexos a ela, suficientes para exercer os trabalhos necessários. Quando tinha de ir ao exterior, usava uma carroça de carga, dirigida por bois, de estilo rústico e conduzida por um lavrador. Dessa forma, ele viajava para o castelo e para a assembléia do povo que se reunia uma vez por ano para o bem-estar do reino, e depois retornava para sua casa. O majordomus ficou encarregado do governo e de tudo que tinha que ser planejado ou executado em seu país ou fora. [10]

II. Os ancestrais de Carlos Magno

No tempo da destituição de Childerico [11], Pepino, pai de Carlos [12], outorgou essa função ao majordomus pelo direito de hereditariedade; o pai de Pepino, Carlos [13], recebeu a mesma função das mãos de seu pai, Pepino, e exerceu-a com distinção. Foi esse Carlos quem acabou com os tiranos que reivindicavam governar toda a terra dos francos como se fosse deles, e repeliu totalmente os sarracenos quando estes tentaram conquistar a Gália em duas grandes batalhas uma na Aquitânia, próxima à cidade de Poitiers [14], outra no rio Berre, próximo a Narbona [15] obrigando-os a retornar à Espanha. Essa honra era geralmente conferida a homens excelentes, por nascimentos ilustres e ampla riqueza.

Durante alguns anos, aparentemente abaixo do rei Childerico, pai do rei Carlos, Pepino dividiu amigavelmente com seu irmão Carlomano [16] os deveres herdados de seu pai e de seu avô. Mais tarde, porém, por razões desconhecidas, renunciou às pesadas tribulações de uma merecida coroa e se retirou para Roma [17]. Ali, ele trocou sua vestimenta secular por uma batina e construiu um mosteiro em Oreste, próximo à igreja de São Silvestre, onde aproveitou por muitos anos a reclusão que desejava na companhia de outros que tinham o mesmo objetivo.

Contudo, tantos francos distintos fizeram peregrinação a Roma para cumprir os respeitos devidos a ele como seu antigo senhor que o repouso que ele tanto amava foi quebrado por essas freqüentes visitas, já que ele tinha se dirigido para ficar sem moradia fixa. Assim, quando percebeu que seus planos estavam frustrados por causa de seus inúmeros visitantes, ele abandonou a montanha e retirou-se para o mosteiro de São Bento, no monte Cassino, na província de Samnium [18], e passou o resto de sua vida lá no exercício da religião. [19]

III. A ascensão de Carlos Magno

Todavia, Pepino foi educado pela ordem religiosa do pontífice romano, por ordem do majordomus, para ser rei, e governou os francos sozinho por quinze anos ou mais [20]. Ele morreu de hidropisia [21], em Paris, ao fim da guerra da Aquitânia, travada durante

nove anos sucessivos contra Guilherme, duque da Aquitânia, e deixou a sucessão a seus dois filhos, Carlos e Carlomano, pelos cuidados e pela graça de Deus.

Em uma assembléia geral do povo, os francos nomearam os dois reis com a condição que dividissem igualmente todo o reino entre eles [22]; Carlos assumiria e governaria a parte pertencente a seu pai, Pepino, e Carlomano a parte que seu tio Carlomano governou.

As condições foram aceitas e cada um tomou posse da parte do reino que lhe cabia, mas a paz só foi mantida entre eles com grande dificuldade, pois aconteceram conspirações que os envolveram em uma guerra.

Porém, desses eventos, o que mostrou um perigo mais imaginário que real foi que, com a morte de Carlomano, sua viúva Gerberga fugiu sem razão com seus filhos e principais agregados para a Itália, apesar de seu cunhado ter colocado ela e seus filhos sob a proteção de Desidério, rei dos lombardos.

Carlomano sucumbiu à doença após dois anos de governo na verdade foram mais de três juntamente com seu irmão, e com sua morte, Carlos foi unanimemente eleito rei dos francos.

IV. Plano de trabalho

Seria loucura escrever uma palavra sobre o nascimento, a infância de Carlos ou mesmo de sua adolescência, pois nada foi escrito sobre esses assuntos e não existe ninguém vivo hoje para fornecer informações sobre isso. Assim, como são fatos desconhecidos, decidi passar por isso e tratar de seu caráter, de sua ação e de outros fatos de sua vida valiosos de serem contados e passados adiante. Darei importância às suas ações em seu país natal e no exterior. A seguir, tratarei de seu caráter e de suas atividades, e finalmente de sua administração e morte, sem omitir nada que valha a pena ou seja necessário saber. [23]

V. A guerra na Aquitânia

Seu primeiro trabalho militar foi a guerra da Aquitânia, iniciada por seu pai mas não concluída. [24] E como ele pensou que poderia facilmente levá-la adiante, assumiu-a enquanto seu irmão ainda estava vivo, contando com ele para socorrê-lo. Uma vez iniciada a campanha, ele conduziu-a com grande vigor, apesar de seu irmão ter se recusado a dar a assistência prometida. Não desistiu ou diminuiu o trabalho imposto a si mesmo. Com paciência e firmeza, chegou totalmente a seus objetivos: forçou Kunold [25], que havia tentado assumir a Aquitânia após a morte de Waifre [26], e renovou a guerra depois de quase concluída, abandonando a Aquitânia e fugindo para a Gasconha.

Mesmo ali, ele não teve outra opção senão atravessar o rio Garonne, construir o castelo de Fronsac e mandar embaixadores a Lobo, duque da Gasconha, para forçar a perseguição ao fugitivo e ameaçar pegá-lo à força, a menos que ele se rendesse prontamente. [27] Então Lobo escolheu o caminho mais sábio e não só entregou Kunold mas também se submeteu ao rei, juntamente com a província que governava. [28]

VI. A guerra lombarda

Após trazer o fim a essa guerra e resolver assuntos na Aquitânia, pois seu parceiro na autoridade havia passado dessa vida, [29] ele foi induzido pelos intercessores de Adriano, bispo da cidade de Roma [30], a prosseguir na guerra com os lombardos. [31] Antes dele, seu pai incumbiu-se dessa tarefa, a pedido do papa Estevão [32], porém, certos líderes francos se opuseram tão veementemente ao seu projeto de declarar guerra abertamente, que disseram que deixariam o rei e iriam para casa. Não obstante, a guerra contra Astolfo, rei da Lombardia, foi assumida e muito rapidamente concluída. [33]

Carlos parece ter tido as mesmas bases que seu pai teve para declarar guerra, a mesma guerra, porém distinta da precedente, tanto em suas dificuldades quanto em sua conclusão. Pepino, para ser exato, após assediar alguns dias em Pavia o rei Astolfo, obrigou-o a entregar reféns para restaurar as cidades romanas de tudo o que haviam perdido; obrigou-o também a prestar um juramento que não iria tentar prendê-los novamente. Mas Carlos não cedeu: após declarar guerra e fustigar o rei Desidério com um longo cerco [34], forçando-o a se entregar discretamente, coagido seu filho Adalgiso, a última esperança dos lombardos, não só de seu reino mas de toda a Itália [35], restaurou aos romanos tudo o que haviam perdido; dominou Hruodgaus, duque de Friuli [36], que tramava uma revolta. Por fim, subjugou toda a Itália ao seu poder e colocou seu filho Pepino como rei. [37]

A essa altura, eu deveria descrever a difícil passagem de Carlos para a Itália sobre os Alpes e a opressão que os francos suportaram, escalando cumes de montanhas sem trilhas, altíssimos penhascos e ásperos picos, se não fosse meu propósito nesse trabalho recordar seu modo de vida em detrimento dos incidentes da guerra que manteve. Satisfaz dizer que essa guerra terminou com a sujeição da Itália e o banimento do rei Desidério, além da expulsão de seu filho Adalgiso da Itália e a restauração das conquistas dos reis lombardos a Adriano, mentor da Igreja romana.

VII. A guerra na Saxônia

Ao fim dessa agonia, a guerra da Saxônia, que pareceu ter sido somente deixada de lado pelo tempo, foi novamente iniciada. Nenhuma guerra empreendida pela nação franca foi levada adiante com tanta persistência e pungência, ou custou tanto trabalho, pois como quase todas as tribos da Germânia, os saxões eram um povo selvagem, devoto à adoração de diabos e hostil à nossa religião, e não consideravam uma desonra transgredir e violar toda a lei, humana e divina. Então houve algumas circunstâncias peculiares que causaram diariamente uma brecha na paz. Exceto em alguns lugares, onde largas florestas ou cumeadas montanhas intervinham e faziam certas fronteiras, a linha entre nós e os saxões passa quase em toda a sua extensão por um campo aberto; assim não havia fim para os assassinatos, roubos e incêndios causados pelos dois lados.

Dessa forma, os francos tornaram-se tão amargurados que finalmente resolveram não fazer mais represálias e chegaram a uma guerra declarada contra os saxões. [38] Assim, a guerra começou e ela foi travada com uma grande fúria por trinta e três anos sucessivos, embora com mais desvantagem para os saxões que para os francos. Essa guerra poderia ter sido finalizada mais cedo, caso não houvesse falta de fé por parte dos saxões. É difícil dizer quão freqüentemente eles foram conquistados e humildemente submetidos ao rei, prometendo fazer o que lhes era imposto sem hesitação; seus reféns foram requisitados e entregues, e eles receberam os oficiais enviados pelo rei.

Algumas vezes eles se encontravam tão enfraquecidos e diminuídos que prometiam renunciar à adoração dos diabos e adotar o cristianismo, mas estavam mais preparados para violar esses termos do que aceitá-los prontamente. Assim, é impossível dizer o que se tornou mais fácil para eles fazerem; mal passou um ano desde o começo da guerra sem que tais mudanças acontecessem de sua parte. No entanto, firme tanto nos bons quanto nos maus momentos, o rei não sofreu em seu grande propósito e estabilidade quando era incomodado por alguma revolta da parte deles, ou por ser levado a desistir da tarefa que tinha assumido. Pelo contrário, nunca deixou de punir a falta de fé dos saxões, mas também assumiu pessoalmente o combate contra eles ou enviou seu conde com um exército para fazer vingança e a obter a satisfação da justiça.

Enfim, após conquistar e subjugar todos os que resistiam, ele assumiu dez mil dos que viveram nas margens do Elba e os preparou, com suas esposas e filhos, em muitas e diferentes corporações, aqui e lá na Gália e Germânia. [39] A guerra que durou tantos anos foi finalmente finalizada quando eles concordaram com os termos oferecidos pelo rei: a renúncia de sua religião oficial e da adoração dos demônios, a aceitação dos sacramentos do cristianismo, de sua fé e religião, e a união com os francos para formar um único povo. [40]

VIII. A guerra na Saxônia (continuação)

O próprio Carlos lutou apenas duas batalhas nessa guerra, mas que foram bem longas:

uma no Monte Osning [41], em um lugar chamado Detmold, e outra às margens do rio Hase, as duas num espaço de pouco mais de um mês. O inimigo foi tão derrotado e aniquilado nessas duas batalhas que nunca mais se aventurou a assumir uma resistência aos ataques do rei, a menos que estivesse protegido por uma posição forte. Muitos dos francos e a nobreza saxônica, homens que ocupavam os mais altos postos de honra, pereceram nessa guerra, que só chegou ao fim após o espaço de tempo de trinta e dois anos. [42]

Tantas e tão dolorosas foram as guerras declaradas contra os francos nesse meio-tempo e habilmente conduzidas pelo rei que uma pergunta razoável pode ser feita: o que é mais admirável, seu heroísmo ou seu bom destino? A guerra contra os saxões começou dois anos antes que a guerra italiana [43], mas prosseguiu sem interrupção; em outros lugares, as negociações não foram negligenciadas, tampouco houve diminuição de outras batalhas, igualmente árduas. O rei, que sobrepujou todos os príncipes de seu tempo em inteligência e grandiosidade da alma, não sofreu dificuldade que o detivesse ou nada que tivesse assumido sem levar adiante, pois fora treinado para sofrer e agüentar tudo sem render-se às adversidades ou confiar nos ludibriadores e abundantes auxílios do destino.

IX. A expedição na Espanha

No meio desta vigorosa e quase ininterrupta batalha contra os saxões, ele cobriu a fronteira com guarnições nos pontos apropriados e marchou sobre os Pireneus na Espanha liderando todas as forças que pôde juntar. Ele não sofreu uma derrota sequer, mas em seu retorno dos Pireneus teve motivos para lamentar a traição dos gascões. Todas as cidades e castelos que ele atacou se renderam. Aquela região estava bem adaptada a emboscadas por causa das abundantes florestas que a cobriam, e enquanto o exército avançava na longa linha de marcha necessária à estreiteza da estrada, os

gascões organizaram uma emboscada no topo de uma montanha muito alta [44] e atacaram a retaguarda da expedição, pressionando-os até o fundo de um vale. [45] Na batalha que se seguiu, eles os deceparam para homenagear um homem, saquearam a bagagem e se dispersaram com toda a velocidade para várias direções, sob a proteção da noite que se aproximava. Nessa ocasião, os gascões foram apoiados pela luminosidade de suas armaduras e pela natureza do solo da batalha, em um bom local, enquanto os francos lutavam com toda a desvantagem.

X. A submissão dos bretões e dos beneventos

Carlos também subjugou os bretões [46], que viviam na costa do mar, no extremo oeste da Gália. Quando eles se recusaram a obedecê-lo, ele mandou um exército e obrigou-os a entregar reféns e cumprir suas ordens. Depois, ele entrou pessoalmente na Itália com seu exército [47] e passou por Roma até Cápua, uma cidade na Campânia, onde acampou e ameaçou os beneventos com hostilidades, caso não se submetessem a ele. Seu duque, Aragis [48], escapou do perigo, mandando seus dois filhos, Romualdo e Grimoaldo, encontrar o rei com uma boa quantia de dinheiro, e implorar-lhe a aceitá-los como reféns, além de prometer para ele e para seu povo obediência a todas as ordens do rei, com a simples condição que sua própria presença não fosse requerida.

O rei levou a oferta do povo em consideração mais que a teimosa disposição do duque, aceitou os reféns e livrou-os da obrigação de aparecerem diante dele, em consideração a seu belo presente. Ele reteve como refém somente o filho mais novo, mandando o mais velho de volta a seu pai. Retornou à Roma e deixou representantes com Aragis para que administrassem os beneventos e exigissem o juramento de lealdade. [49] Ele ficou em Roma vários dias por causa do costume da devoção aos lugares santos, e depois voltou para a Gália. [50]

XI. Tassilo e a campanha na Bavária

Nesse momento, repentinamente começou a guerra da Bavária, que teve um rápido fim devido à arrogância e tolice do duque Tassilo. [51] Sua esposa [52], filha do rei Desidério, estava desejosa de vingar a punição de seu pai através da ação de seu marido. Assim, induziu-o a fazer uma negociação com os hunos, vizinhos dos bávaros do leste, para que não só deixassem de cumprir as ordens do rei, mas que também o desafiasse para uma guerra. O magnânimo espírito não podia suportar a insubordinação de Tassilo, pois lhe parecia transpor todos os limites. Assim, ele rapidamente convocou suas tropas para uma campanha contra a Bavária e compareceu pessoalmente com um grande exército no rio que delimita a fronteira entre os bávaros e os alemães. [53]

Após armar um acampamento na margem, ele determinou que antes de adentrar a província fosse testada a disposição dos duques através de uma embaixada. Tassilo pensou que não seria bom nem para si nem para seu próprio povo persistir. Então se rendeu ao rei, entregou os reféns exigidos e, junto com eles, seu próprio filho [54], prometendo com um juramento que não daria ouvidos a ninguém que o induzisse a se revoltar contra a sua submissão. Assim, essa guerra que parecia ser amarga acabou muito rapidamente. Porém, Tassilo foi mais tarde convocado à presença do rei e não pôde mais partir. [55] O governo da província que ele comandava não ficou mais incumbido a um duque, mas a condes. [56]

XII. A guerra eslava

Assim, após esses levantes reprimidos, foi declarada guerra contra os eslavos, normalmente conhecidos entre nós como wilzis [57], mas que em sua própria língua são chamados welabitanos. Dentre as tribos que seguiram a bandeira do rei à sua convocação, os saxões serviram nessa campanha como auxiliares, mas sua obediência era desprovida de sinceridade e devoção. Essa guerra foi declarada porque os eslavos provocavam os abodriti, antigos aliados dos francos, com contínuas invasões, apesar de todas as ordens contrárias.

Há um golfo de largura desconhecida, mas não mais que cem milhas de comprimento e limitado em muitas partes, se estende até o leste do Oceano do Norte. [58] Muitas tribos têm colônias na costa; os daneses e os suecos, a quem chamamos de “homens do norte”,

na costa do extremo norte, e em todas as ilhas adjacentes; o extremo sul é habitado pelos eslavos e pelos aïsti [59], além de muitas outras tribos. Os welabitanos, contra quem o rei agora declarou guerra, eram os chefes desses. Mas numa simples campanha [60] conduzida por ele próprio, ele os derrotou e os subjugou de tal maneira que eles não acharam apropriado mais tarde recusar obediência a seu comando.

XIII. A guerra contra os hunos

Seguiu-se a guerra contra os avaros ou hunos [61] e, exceto a guerra dos saxões, esta foi a maior guerra que ele travou, guiando-a com mais vigor que qualquer outra de suas guerras e fazendo os maiores preparativos para ela. [62] Ele próprio conduziu uma campanha na Panônia, posse dos hunos. Ele confiou todas as operações subseqüentes a seu filho Pepino e aos governadores das províncias, além de condes e tenentes. Apesar de terem dirigido a guerra com mais vigor, ela só terminou após sete anos. O total despovoamento da Panônia e o trono do palácio do rei Khan [63], agora deserto, onde nenhum vestígio de população é visível, testemunha quantas guerras foram travadas naqueles anos e quanto sangue foi derramado. Todo o corpo da nobreza huna pereceu nesse combate e toda a sua glória com ele. Todo o dinheiro e tesouro que tinham sido acumulados foi tomado e nenhuma guerra que os francos travaram que esteja ao alcance da lembrança do homem trouxe tais riquezas e espólios.

Naqueles tempos, os hunos tinham passado por um povo pobre, mas tanto ouro e prata foram encontrados no palácio de Khan e tanta pilhagem valiosa foi tomada na batalha que alguém poderia pensar que os francos tomaram dos hunos justamente o que antes eles injustamente tomaram de outras nações. Somente dois dos chefes francos morreram nessa guerra: Eric, duque de Friuli, morto em Tarsata [64], uma cidade na costa da Libúrnia, pela trincheira dos habitantes, e Geraldo, governador da Bavária, que viu sua morte na Panônia [65], com dois homens que o estavam acompanhando. Ele foi morto por uma mão desconhecida enquanto preparava suas forças para a batalha contra os hunos e cavalgava para cima e para baixo na fronteira para encorajar seus homens. De qualquer forma, esta guerra foi quase uma guerra sem sangue para os moldes dos francos, mas terminou mais satisfatoriamente por razão da sua magnitude, pois foi longamente estendida.

XIV. A guerra na Dinamarca

A guerra da Saxônia terminou quase tão bem sucedida quanto a batalha foi longa. As guerras da Boêmia [66] e da Livônia [67], que logo eclodiram, não podiam durar muito:

foram rapidamente levadas adiante pela liderança do Carlos mais jovem. A última dessas guerras foi declarada contra os homens do norte, chamados de dinamarqueses. Eles começaram sua carreira como piratas, mas com suas grandes frotas depois levaram à ruína a costa da Gália e da Germânia.

Seu rei, Godofredo, estava tão cheio de aspirações que contava conquistar impérios por toda a Germânia, e cuidou da Saxônia e Frísia como se fossem suas províncias. Ele já tinha subjugado seus vizinhos, os abodrítios, fazendo-os pagarem impostos e se vangloriado que eles iriam logo aparecer com um exército perante Aix-la-Chapelle, onde o rei mantinha sua corte. Alguma fé foi colocada em suas palavras, pois soavam sem fundamento, e se supõe que ele teria tentado isso de alguma forma caso não tivesse sido pego desprevenido por uma morte prematura. Ele foi assassinado por um de seus homens [68], e terminou sua vida e a guerra que tinha começado.

XV. Extensão das conquistas de Carlos Magno

Essas foram as guerras tão habilmente planejadas e lutadas com sucesso que esse poderoso rei travou durante seus quarenta e sete anos de reinado. Ele ampliou tão largamente o reino franco, aliás já grande e forte quando o recebeu das mãos de seu pai, que adicionou mais que o dobro de seu território anterior. A autoridade dos francos foi anteriormente delimitada à parte da Gália incluída entre os rios Reno e Loire, o Oceano e o mar Báltico, além da Germânia, habitada pelos então chamados francos do leste, e ligada pela Saxônia e pelo Danúbio, pelo Reno e pelo Saale esse extremo separa os turíngios dos sorabianos e ao país dos alemães e dos bávaros. Pelas guerras acima mencionadas, ele fez com que pagassem impostos a Aquitânia, a Gasconha e toda a região dos Pireneus até o rio Ebro, que nasce na terra dos navarros, flui pelos terrenos mais férteis da Espanha e deságua no mar Báltico, abaixo dos muros da cidade de Tortosa.

Ele quase reduziu e cobrou impostos de toda a Itália, de Aosta à Baixa Calábria, onde a fronteira de ligação passa entre os beneventos e os gregos, um território maior que mil milhas; depois a Saxônia, que constituía boa parte da Germânia e é avaliada como duas vezes mais comprida que o país habitado pelos francos, e quase igual em largura; no mais, as duas Panônias, a Dácia, além do Danúbio, e a Ístria, a Libúrnia, e a Dalmácia, exceto as cidades na costa, as quais ele deixou para o império grego, pelo bem da amizade e por causa do tratado que fez com eles. Bem, Carlos derrotou e cobrou impostos de todas as tribos selvagens e bárbaras, duelando na Germânia, entre o Reno e o Vístula, o Oceano e o Danúbio, contra todos que falavam bem a mesma língua, mas diferiam largamente em costumes e vestimentas. Os chefes entre eles são os welabitanos, os suábios, os asbodritinos e os boêmios, e ele teve que fazer guerra contra eles, mas o resto, em número bem maior, foi subjugado por seus próprios acordos.

XVI. Relações exteriores

Ele aumentou a glória do seu reino ganhando a boa vontade de muitos reis e nações. Certamente foi tão próxima a aliança do contrato com Afonso, rei da Galícia e das Astúrias [69] que, mais tarde, quando mandava cartas ou embaixadores a Carlos, invariavelmente preparava pessoalmente seus homens. Sua generosidade também

conquistou os reis da Escócia, já que eles tinham consideração aos seus desejos, pois nunca lhe deram outro título a não ser o de lorde e a eles mesmos de subalternos ou escravos: existem cartas deles nas quais esses sentimentos a seu respeito são expressos.

Suas relações com Aaron [70], rei dos persas que governou por quase todo o Oriente, exceto a Índia, eram tão amigáveis que esse príncipe preferia mais seu auxílio que todos os reis e soberanos da Terra, e considerava uma dívida para ele os sinais de honra e munificência. Assim, quando os embaixadores mandados por Carlos para visitar o mais sagrado Sepulcro e lugar de ressurreição de Nosso Senhor e Salvador se apresentaram com presentes e fizeram conhecidos os desejos de seu mestre, ele não só concedeu o que lhe pediam como deu posse daquele lugar abençoado e santo. [71] Quando retornaram, ele despachou seus embaixadores com eles e mandou magníficos presentes, além de coisas, perfumes e outros produtos ricos das terras do Oriente. Alguns anos depois, Carlos pediu a ele um elefante, e foi enviado o único que tinha.

Os imperadores de Constantinopla, Nicéforo [72], Miguel [73] e Leão [74] fizeram adiantamentos a Carlos e pediram sua amizade e aliança, afirmando que ele não poderia

ter motivo para ofensa. Na verdade, o poder dos francos foi sempre visto pelos gregos e

romanos com olhos invejosos, de onde vem o provérbio grego “tenha os francos por amigos, mas não por vizinhos.”

XVII. Trabalhos gerais

Este rei que se mostrou tão grandioso em aumentar seu império e subjugar nações, e que estava tão constantemente ocupado com planos para essa finalidade, tomou também para si muitos trabalhos para adornar e beneficiar seu reino, concluindo muitos deles. Entre esses, os mais dignos de menção são a basílica da Santa Mãe de Deus, em Aix-la- Chapelle, construída da maneira mais admirável, e uma ponte de meia milha de comprimento sobre o rio Mogúncia, da largura do rio, a essa altura. Essa ponte foi destruída pelo fogo [75] um ano antes da morte de Carlos, mas devido à sua morte tão breve, ela não pôde ser reparada depois, embora ele tenha planejado reconstruí-la em pedra. Ele iniciou dois palácios de belo artefato um próximo à sua mansão chamado Ingelheim, não distante de Mogúncia [76], outro em Nijmegen, na correnteza Waal, que banha o lado sul da ilha dos batavianos. Mas acima de tudo, os edifícios sagrados foram objeto de seu cuidado durante todo o seu reinado, e sempre que os encontrava em ruína pelo tempo ordenava aos padres e sacerdotes que tinham responsabilidade por eles que o reformassem, assegurando, através de representantes, que suas instruções fossem obedecidas.

Ele também preparou uma frota para a guerra contra os homens do norte; os navios necessários para este propósito foram construídos no rio que flui da Gália e da Germânia até o oceano do extremo norte. Além disso, como os homens do norte estavam invadindo e devastando as costas da Gália e da Germânia, ele ordenou que uma vigilância assídua fosse mantida em todos os refúgios, e que nas bocas dos rios ela fosse grande o suficiente para permitir a entrada de navios e impedir que o inimigo embarcasse. No sul, na Narbonense e na Septimânia, junto a toda a costa da Itália e em Roma, ele tomou as mesmas precauções contra os bárbaros, que tinham recentemente iniciado suas práticas de pirataria. Por conseguinte, em seu tempo, a Itália não sofreu grandes danos nas mãos dos bárbaros homens do norte, nem a Gália e a Germânia, embora os bárbaros tenham tomado posse de Civita Vecchia, cidade dos etruscos por

traição, saqueando-a, e os homens do norte tenham saqueado algumas das ilhas na Frísia, na costa germânica.

XVIII. Vida privada

Assim, Carlos defendeu, expandiu e embelezou seu reino, como é sabido; e aqui deixe expressar minha admiração por suas grandes qualidades e sua extraordinária constância, tanto no bom quanto no mau caminho. Agora vou proceder a detalhar sua vida privada e familiar.

Após a morte de seu pai, enquanto dividia o reino com seu irmão, ele suportou sua inimizade e ciúme o mais pacientemente possível, e, para maior maravilha, não podia ser provocado a se irar contra ele. Mais tarde, por insistência de sua mãe, ele se casou com a filha de Desidério, rei dos lombardos, mas a repudiou ao final de um ano por motivo desconhecido, e casou-se com Hidelgarda, uma mulher de bom berço, originária da Suábia. Ele teve três filhos dela Carlos, Pepino e Luís e também muitas filhas Huodruda, Berta e Gisela. Ele teve outras três filhas além dessas Teoderata, Hiltrude, e Ruodaida duas de sua terceira esposa, Fastrada, mulher da região leste dos francos [77], e a terceira de uma concubina, cujo nome no momento me escapa.

Com a morte de Fastrada [78], ele se casou com Liutgarda, uma mulher alemã que não lhe deu filhos. Após sua morte [79], ele teve três concubinas Gersuinda, mulher da Saxônia com quem teve Aldaltrudes; Regina, que foi a mãe de Drogo e Hugo, e Estelinda, de quem ele teve Teodorico. A mãe de Carlos, Bertrada, passou honradamente sua velhice com ele, que tinha a maior veneração por ela. Nunca houve nenhum desentendimento entre eles, exceto quando ele se divorciou da filha de Desidério, com quem se casou para agradá-la. Ela morreu logo após Hidelgarda, e após ter vivido o suficiente para ver três netos e também muitas netas na casa de seu filho. Ele a enterrou com grande pompa na Basílica de Saint-Denis, onde descansava seu pai. Ele tinha uma única irmã, Gisela, quem havia se consagrado à vida religiosa desde a infância, e ele mantinha por ela tanta afeição quanto por sua mãe. Ela também morreu poucos anos antes dele, no convento onde passou sua vida.

XIX. Carlos e a educação de seus filhos

O plano que ele adotou para a educação de seus filhos foi primeiramente para que ambos, meninos e meninas, fossem instruídos nas artes liberais [80], para as quais ele também voltou sua atenção. Assim que suas idades permitiam, conforme os costumes dos francos, os meninos tinham que aprender a cavalaria, praticar a guerra e a caça, e as meninas deveriam se familiarizar com a fabricação de roupas, a roca de fiar e o carretel, para que não crescessem indolentes pela preguiça. Ademais, ele encorajava nelas todos os sentimentos virtuosos. Ele somente perdeu três de seus filhos antes de sua morte, dois filhos e uma filha, Carlos, o mais velho, Pepino, quem tinha feito rei da Itália, e Huodruda, sua filha mais velha, quem dera em casamento a Constantino [81], imperador dos gregos. Pepino deixou um filho, chamado Bernardo, e cinco filhas, Adelaide, Atula, Guntrada, Bertraide e Teoderada. O rei deu uma notável prova de sua afeição paterna no momento da morte de Pepino [82]: indicou o neto para a sucessão de Pepino e elevou as netas ao mesmo patamar das filhas. Quando sua filha e seus filhos morreram, ele não ficou tão calmo quanto era o esperado por sua notável força de espírito, pois sua afeição era forte, e isso o levou às lágrimas.

Novamente, quando foi informado da morte de Adriano [83], pontífice romano que amava mais que todos os seus amigos, ele lamentou tanto como se tivesse perdido um irmão ou um filho muito querido. Por natureza, ele era o mais preparado para ter amizades, não apenas para fazer amigos facilmente, pois se unia a eles persistentemente, protegendo mais carinhosamente aqueles com quem tinha formado tais laços. Ele era tão cuidadoso na educação de seus filhos e filhas que nunca tinha suas refeições sem eles quando estava em casa, e nunca fez uma viagem sem eles; seus filhos cavalgavam a seu lado e suas filhas o seguiam, enquanto um bom número dos de sua escolta, formados para sua proteção, vinham na retaguarda. É estranho dizer, mas, embora elas fossem mulheres muito belas e ele as amasse muito carinhosamente, ele nunca se dispôs a casá-las com qualquer estrangeiro ou homem de sua própria nação. Assim as manteve em casa até sua morte, afirmando que não podia compartilhar a companhia deles. Embora feliz, ele experimentou a malignidade do destino, ocultando de seu conhecimento os rumores a respeito delas e as suspeitas à sua honra.

XX. Conspirações contra Carlos Magno

Ele teve um filho de uma de suas concubinas, belo de face, mas corcunda, chamado Pepino, quem eu omiti na menção da lista de seus filhos. Quando Carlos estava na guerra contra os hunos e era inverno na Bavária [84], este Pepino desonrou-o doentiamente e conspirou contra seu pai na companhia de alguns líderes francos que o seduziram com promessas vaidosas de autoridade real. Quando sua traição foi descoberta e as conspirações foram punidas, sua cabeça foi raspada e ele sofreu, conforme seu desejo, a dedicar-se a uma vida religiosa em um mosteiro em Prum. Uma formidável conspiração contra Carlos tinha sido anteriormente originada na Germânia, mas todos os traidores foram punidos, alguns deles sem mutilação, enquanto outros tiveram seus olhos arrancados. Somente três deles perderam a vida, pois desembainharam suas espadas e resistiram à prisão e, após matarem muitos homens, foram eliminados, pois não podiam ser subjugados de outra forma.

A crueldade da rainha Fastrada provavelmente foi a primeira causa dessas conspirações, duas delas devido à aparente submissão, mas cruel conduta de sua esposa e desvio de sua costumeira bondade e seus modos gentis. Por todo o resto de sua vida ele foi cercado por todos com o mais extremo amor e afeição, tanto que nunca a acusação de rigor injusto foi feita contra ele.

XXI. O tratamento de Carlos Magno aos estrangeiros

Ele gostava de estrangeiros, e com grandes sofrimentos os tinha sob sua proteção. Eles eram tantos no castelo e no reino que poderiam ter provocado um dano razoável; mas ele, com sua vasta humanidade, quase não se perturbava com tais aborrecimentos, porque se sentia compensado desses grandes inconvenientes pelos louvores à sua generosidade e a recompensa de sua grande reputação.

XX. Aparência pessoal

Carlos era grande, forte e de alta estatura, embora não fosse desproporcionalmente alto é bem sabido que sua altura era sete vezes o comprimento de seu pé; a parte superior de sua cabeça era arredondada, seus olhos muito largos e vivos, o nariz um pouco largo, um belo cabelo e um rosto risonho e agradável. Assim, sua aparência era sempre

grandiosa e digna, mesmo se estivesse de pé ou sentado. Porém, seu pescoço era largo e pequeno, e sua barriga meio proeminente, mas a simetria do resto de seu corpo compensava esses defeitos. Seu andar era firme, toda sua postura era varonil e sua voz era clara, mas não tão forte quanto seu tamanho levava a supor. Sua saúde era excelente, exceto durante os quatro anos antes de sua morte, quando esteve sujeito a muitas febres; finalmente, ele ainda mancou um pouco de um pé.

Mesmo naqueles anos, ele preferiu consultar suas próprias inclinações a ouvir os conselhos dos médicos, que lhe eram quase odiosos porque queriam que ele abrisse mão das carnes assadas as quais estava acostumado e comesse carne cozida em troca. Conforme o costume nacional, ele se exercitava freqüentemente em cavalgadas e caçadas, feitos em que quase ninguém no mundo podia se equiparar aos francos. Ele gostava das exalações do calor natural da Primavera, e freqüentemente praticava a natação, na qual era tão adepto que ninguém podia sobrepujá-lo.

Maquete do palácio de Aix-la-Chapelle

grandiosa e digna, mesmo se estivesse de pé ou sentado. Porém, seu pescoço era largo e

Assim, em um ano ele construiu seu palácio em Aix-la-Chapelle, e morou lá constantemente durante os últimos anos antes de sua morte. Ele costumava convidar para seus banhos não somente seus filhos, mas também seus nobres e amigos, e vez ou outra, uma tropa de seus seguidores ou sua escolta, e assim algumas vezes cem ou mais pessoas se banhavam com ele.

XXIII. Vestimentas

Ele costumava usar a nacional, isto é, a franca, um vestido colado à pele com uma blusa de linho e calções também de linho, ambos cobertos por uma túnica ornada com seda; as meias, apertadas por faixas, cobriam seus membros inferiores e calçavam seus pés, e ele protegia seus ombros e cintura no inverno com um casaco justo de pele de lontra ou marta. Por cima de tudo ele se cobria com uma capa azul, e sempre tinha consigo uma espada embainhada, geralmente com punho e cinto de ouro ou prata; algumas vezes carregava uma espada lapidada, mas somente em dias de grandes festas ou em alguma recepção de embaixadores de nações estrangeiras.

Ele desprezava trajes estrangeiros, embora fossem belos, e nunca se deixava vestir com eles, exceto duas vezes em Roma, quando vestiu a túnica romana e sapatos. A primeira vez, a pedido do papa Adriano [85], a segunda, para agradar Leão [86], sucessor de Adriano. Em grandes dias de festa, ele usava roupas bordadas e sapatos enfeitados com pedras preciosas; sua capa era apertada por uma fivela dourada, e ele aparecia coroado com um diadema de ouro e pérolas; mas noutros dias suas vestes variavam pouco dos trajes normais das pessoas.

XXIV. Hábitos

Carlos era moderado no comer e também no beber, pois abominava a bebedeira em qualquer pessoa, principalmente nele mesmo e naqueles sob sua proteção. Mas não podia se abster facilmente de comida, e sempre reclamava que jejuns feriam sua saúde. Ele raramente dava banquetes, somente em dias de grandes festas para um grande número de pessoas. Suas refeições normalmente consistiam em quatro pratos, isso sem contar os assados, que seus homens de caça costumavam trazer em espetos; ele era mais apegado a essa que a qualquer outra comida. Enquanto estava à mesa, ouvia leituras ou músicas. Os assuntos das leituras eram as estórias e feitos de velhos tempos: ele se agradava também com os livros de Santo Agostinho, especialmente aquele intitulado A Cidade de Deus.

Ele era tão moderado no uso do vinho e de outras bebidas que raramente se permitia mais que três copos de vinho nos pratos da refeição. No verão, após a refeição do meio- dia, ele comia uma fruta, consumia um único copo, colocava suas roupas e sapatos, como fazia à noite, e descansava por duas ou três horas. Tinha o hábito de acordar e se levantar da cama quatro ou cinco vezes durante a noite. Enquanto estava se vestindo e calçando os sapatos, ele não só dava audiência aos seus amigos, mas se o conde do palácio fizesse alguma petição na qual o julgamento fosse necessário, ele tinha as partes trazidas até diante de si, tomava conhecimento do caso e decidia, assim como se estivesse sentado na cadeira de juiz. Esse não era o único assunto que resolvia a essa hora, mas realizava qualquer tarefa do dia, mesmo que tivesse que atender, ou para seu próprio interesse, ou para dar uma ordem a seus oficiais.

XXV. Estudos

Carlos tinha o dom do discurso preparado e fluente, e podia expressar o que tivesse de dizer com a mais extrema clareza. Ele não estava satisfeito meramente com o domínio de sua língua nativa, pois deu atenção ao estudo de línguas estrangeiras; particularmente era tal mestre em latim que podia falar tão bem quanto sua língua nativa; mas entendia melhor que falava o grego. Era tão eloqüente que poderia ter passado por um professor de eloqüência. Ele cultivou mais zelosamente as artes liberais, mantendo por aqueles que o ensinavam uma grande estima e conferindo-lhes grandes honras. Ele teve lições de Gramática com o padre Pedro de Pisa, àquele tempo, um homem idoso. [87]

Um outro padre da Bretanha, Albino, de sobrenome Alcuíno, homem de origem saxônica, era o melhor educador daqueles dias, e foi seu professor em outros ramos do estudo. O rei passou muito tempo e trabalho com ele estudando Retórica, Dialética, e especialmente Astronomia; ele aprendeu a contar e costumava investigar e pesquisar com curiosidade e inteligência os movimentos dos corpos celestes. Ele também tentou escrever, e costumava manter tábuas e folhas em branco na cama embaixo do travesseiro, para que, nos momentos de ócio, pudesse acostumar sua mão a formar as letras; porém, como não começou seus esforços no tempo devido, somente tarde da vida, eles não foram bem-sucedidos.

XXVI. Piedade

Ele adorava com grande fervor e devoção os princípios da religião cristã, a qual foi introduzido desde a infância. Assim, ele construiu a bela basílica de Aix-la-Chapelle,

que adornou com ouro, prata, candelabros, grades e portas de bronze maciço. As colunas e mármores para esta estrutura foram trazidas de Roma e Ravena, pois não se podia encontrar mais adequadas em outro lugar. Ele era um constante devoto nessa igreja, enquanto sua saúde o permitiu, indo de manhã, à tarde e mesmo depois que a noite caía. Além de atender às massas, cuidava para que todos os cultos lá conduzidos fossem administrados com a mais extrema propriedade, e freqüentemente avisava os sacristãos para que não deixassem coisas impróprias ou impuras serem trazidas para dentro da construção ou permanecerem nela.

Ele providenciou tal número de bacias de ouro e prata e roupas clericais, que nem mesmo os hostiários, que preenchiam os mais humildes cargos na igreja, eram obrigados a vestir roupas normais durante o exercício de suas funções. Com grandes esforços, ele fez com que melhorassem as leituras e salmodias da igreja, pois era bem capacitado em ambas, embora não lesse em público nem cantasse, exceto em baixo tom e com os outros.

XXVII. Generosidade

Ele estava muito ansioso em ajudar os necessitados, com aquelas generosidades gratuitas que os gregos chamam de esmolas, de modo que não montou somente um ponto de ajuda em sua própria região e em seu próprio reino, mas assim que descobriu que havia cristãos vivendo em pobreza na Síria, no Egito e na África, perto de Jerusalém, de Alexandria e de Cartago, teve misericórdia daqueles carentes e habituou- se a mandar para além dos mares uma quantidade de dinheiro a mais para eles. A razão daquele fervor de se empenhar para fazer amizades com os reis que estavam além do mar era para obter ajuda para socorrer e aliviar os cristãos que viviam sobre seus governos.

Ele cuidou da Igreja de São Pedro, o apóstolo romano, mais que todos os outros lugares sagrados e consagrados, e acumulou sua riqueza com uma vasta abundância de ouro e pedras preciosas. Ele mandou inumeráveis e consideráveis presentes para os papas e, durante seu reinado, a vontade que tinha em seu coração era restabelecer a antiga autoridade da cidade de Roma que estava sobre seu cuidado e sobre sua influência, para defender e proteger a Igreja de São Pedro, para embelezá-la e enriquecê-la com seu próprio estoque de riqueza, mais até que outras igrejas. Embora mantivesse tal veneração, ele restaurou Roma somente para pagar seus votos e fazer suas suplicações quatro vezes durante todos os quarenta e sete anos de seu reinado.

XXVIII. Carlos Magno coroado imperador

Quando fez sua última jornada, ele também tinha outros fins em vista. Os romanos tinham infligido grande número de injúrias ao pontífice Leão, arrancando seus olhos e cortando sua língua, de modo que ele teve de chamar o rei para socorrê-lo [88]. Desse modo, Carlos foi a Roma restabelecer a ordem nos assuntos da Igreja que estavam bastante confusos, e lá passou todo o inverno. Foi então que recebeu os títulos de imperador e augusto, os quais primeiramente teve aversão quando declarou que se soubesse dos projetos do papa não teria entrado na igreja no dia em que lhe foram conferidos, mesmo sendo um dia de celebração. Ele suportou muito pacientemente a suspeita que os imperadores romanos demonstraram de sua atitude de assumir estes títulos, pois eles aceitaram isto doentiamente; e à força das freqüentes embaixadas e

cartas nas quais destinou a eles como irmão, fez a soberba deles render-se à sua magnanimidade, uma qualidade que era inquestionavelmente superior a eles.

XXIX. Reformas

Foi depois de ter recebido o título imperial que, descobrindo que as leis de seus povos eram muito defeituosas (os francos tinham duas séries de leis muito diferentes em muitas particularidades), ele determinou adicionar o que faltava para reconciliar as discrepâncias e corrigir o que estava errado, e incorretamente citado nelas. Contudo, em relação a esse assunto, ele não fez nada além de suplementar as leis com algumas capitulares imperfeitas. Mas fez com que as leis consuetudinárias de todas as tribos que estavam sobre seu governo fossem compiladas e reduzidas para a escrita; fez com que os velhos e grosseiros cantos que celebravam os atos e as guerras dos antigos reis fossem escritos para serem transmitidos para a posteridade; começou uma gramática de sua língua nativa; deu o nome dos meses em seu próprio idioma, substituindo o latim e os nomes bárbaros, que eram conhecidos antigamente entre os francos. Ele igualmente designou os ventos por doze nomes apropriados, pois havia apenas mais que quatro nomes distintos em uso anteriormente.

Ele chamou Janeiro, Wintarmanoth; Fevereiro, Hornung; Março, Letzinmanoth; Abril, Ostarmanoth; Maio, Winnemanoth; Junho, Brachmanoth; Julho, Heuvimanoth; Agosto, Aranmanoth; Setembro, Witumanoth; Outubro, Windumemanoth; Novembro, Herbistmanoth; Dezembro, Heilagmanoth. Ele denominou os ventos da seguinte maneira: Subsolanus, Ostroniwint; Eurus, Ostsundroni, Euroauster, Sundostroni; Auster, Sundroni; Austro-Africus, Sundwestroni; Africus, Westsundroni; Zephyrus, Westroni; Caurus, Westnordroni; Circius, Nordwestroni; Septentrio, Nordroni; Aquilo, Nordostroni; Vulturnus, Ostnordroni.

XXX. Coroação de Luís a morte de Carlos Magno

Perto do fim de sua vida, em 813, assim que foi derrotado pela má saúde e pela avançada idade, ele chamou Luís, rei da Aquitânia, seu único filho sobrevivente com Hildegarda, e reuniu todos os chefes homens do reino dos francos em uma assembléia solene. Ele designou Luís, com a consente unanimidade de todos, para governar com ele sobre todo o reino e nomeou-o herdeiro do título imperial. Então, colocando a coroa sobre a cabeça de seu filho, convidou-o a ser proclamado imperador e isto foi aplaudido por todos os presentes, pois parecia que Deus tinha sugerido que ele seria um bom reinante. Isto aumentou a dignidade do rei, e causou muito medo às nações estrangeiras.

Depois de mandar seu filho de volta à Aquitânia, como de costume ele saiu para caçar, embora fraco de idade, perto de seu palácio em Aix-la-Chapelle, e passou o resto do outono na caçada, voltando por volta de primeiro de novembro de 813. Nesse mesmo inverno, no mês de Janeiro, ele foi tomado por uma alta febre [89], que o fez ficar de cama. Quando compreendeu que estava doente, prescreveu para si mesmo abstinência de comida, como sempre estava acostumado a fazer em caso de febre, pensando que aquela enfermidade poderia ser diminuída, ou no mínimo aliviada, por meio do jejum. Juntamente com a febre, ele teve uma dor em seu lado que os gregos chamam de pleurisia, mas persistiu em jejuar, e sustentou sua única força se expondo ao ar por muitos e longos intervalos. Ele morreu no dia 28 de Janeiro, sete dias depois que ficou de cama, às nove horas da manhã, depois de participar da sagrada comunhão, no

septuagésimo segundo ano de sua idade e no quadragésimo sétimo de seu reinado, em 28 de janeiro de 814.

XXXI. Enterro

Seu corpo foi lavado e carregado de uma forma usual, transportado para a Igreja e enterrado em meio a grandes lamentações do povo. Houve um questionamento sobre o lugar onde seria enterrado, pois em toda a sua vida ele não indicou o local para seu enterro. Entretanto, em toda a extensão do reino não havia parte mais honorável que a

basílica que ele pôde construir dentro da cidade com seus próprios gastos, para o amor do rei Jesus Cristo, e em honra da Sagrada e Eterna Virgem, Sua Mãe. Ele foi enterrado ali, no mesmo dia em que morreu, e um arco dourado foi erguido acima de sua sepultura

com sua imagem e uma inscrição com as seguintes palavras: “Nesta sepultura está o

corpo do ortodoxo imperador Carlos, o Grande, que gloriosamente estendeu o reino dos francos e reinou prosperamente por quarenta e sete anos. Ele morreu perto dos setenta

anos, no ano 814 de Nosso Senhor, na sétima assembléia eclesiástica, no vigésimo

oitavo dia de Janeiro.”

XXXII. Presságios da morte

Uma verdadeira multidão tinha pressagiado a aproximação de seu fim, fato que ele reconheceu satisfatoriamente como nenhum outro. Eclipses tanto do Sol quanto da Lua foram vistos muito freqüentemente durante os três últimos anos de sua vida, e um ponto escuro esteve visível no Sol no espaço de sete dias. A galeria entre a basílica e o palácio que ele construiu com grande dor e trabalho, cedeu subitamente em ruínas pela terra no dia da ascensão de nosso rei. A ponte de madeira sobre o Reno, em Mayence, que ele incentivou com admirável habilidade para ser edificada com o custo de dez anos de trabalho duro e de modo que ela pudesse permanecer eternamente, foi completamente consumida em três horas por um acidente com fogo que a estilhaçou, exceto o que ficou sobre a água.

Além disso, um dia, em sua última campanha na Saxônia contra Godofredo, rei dos dinamarqueses, o próprio Carlos viu uma bola de fogo cair subitamente dos céus como uma grande luz, exatamente no momento em que ele deixava a marca, antes que o sol nascesse. Este fato ocorreu no céu da direita para a esquerda, e todas as pessoas ficaram surpreendidas com o seu significado, quando então o cavalo em que ele estava montado deu um salto súbito, elevou a cabeça e, caindo, derrubou-o no chão tão pesadamente que a fivela de seu manto quebrou e sua espada se esfacelou.

Depois, seus servos se apressaram para socorrê-lo, ele e suas armas, pois ele não podia levantar-se sem aquela assistência. Ao cair, ele tinha uma lança em sua mão, e esta feriu seu punho com tal força que foi encontrada caída a uma distância de vinte pés ou mais

do local. Novamente o palácio de Aix-la-Chapelle estremeceu freqüentemente, mas os telhados de todas as construções resistiram e sustentaram um ininterrupto e estrépito barulho. A basílica em que ele mais tarde foi enterrado foi atingida por um raio, e a bola dourada com a qual ele enfeitou a abóbada do telhado foi destruída pelo raio e arremessada sobre a casa dos bispos adjacentes. Nesta mesma basílica, sobre a margem da cornija interna [90], entre a parte de cima e a da fileira debaixo dos arcos, uma legenda foi escrita em letras vermelhas, declarando quem foi o construtor do templo, e

as últimas palavras que estavam eram “Príncipe Carlos”.

No ano em que ele morreu, alguns observaram, poucos meses antes de sua morte, que as

letras da palavra “Príncipe” estavam apagadas e só muito demoradamente eram

decifráveis. Mas Carlos desprezou ou fingiu desprezar todos esses presságios, como se não tivessem relação com ele.

XXXIII. Vontade

Ele tinha a intenção de realizar um desejo na herança para suas filhas e para as crianças de suas concubinas, e que pôde pronunciar a poucos; mas isto começou muito tarde e não pôde ser finalizado. Entretanto, três anos antes de sua morte, ele fez a divisão de seus tesouros, dinheiros, roupas, outros móveis e mercadorias, na presença de seus amigos e servos, e falou então para as testemunhas, que puderam assegurar a ratificação e a disposição feita. Ele tinha o resumo redigido com os votos a respeito da distribuição de suas propriedades, e os termos e o texto estão a seguir:

“Em nome do Rei Deus, o Todo-Poderoso Pai, Filho e Espírito Santo. Esse é o inventário e a divisão ordenada pelo mais glorioso e piedoso rei Carlos, imperador e augusto, no octogésimo primeiro ano da encarnação de nosso rei Jesus Cristo, quadragésimo terceiro ano de seu reinado na França e trigésimo sétimo na Itália, décimo primeiro de seu império, e durante a quarta assembléia eclesiástica em que ele determinou a consideração da piedade e da prudência e o favor que Deus o capacitou para apurar seus tesouros e dinheiros neste dia em sua câmara de tesouros. Nesta divisão, ele desejou especialmente prover não apenas as generosas esmolas das almas que os cristãos normalmente fazem com suas posses e que deverão ser feitas em seu

nome e em um curso adequado e fora de sua riqueza mas também que seus herdeiros deverão ser livres de todas as suspeitas, saber claramente o que pertence a eles, e serem capazes de participar de suas propriedades em uma repartição conveniente, sem litígio

ou combate.”

“Com esta intenção e para este fim, ele primeiro dividiu em três lotes todos os seus

recursos, móveis e mercadorias apurados em sua câmara do tesouro no dia mencionado, ouro, prata, pedras preciosas e ornamentos reais, lotes que foram subdivididos, e partiu dois dos mencionados lotes em vinte e uma partes, conservando o terceiro completo. Os dois primeiros lotes foram subdivididos dessa forma em vinte e uma partes, porque havia em seu reino vinte e uma cidades metropolitanas reconhecidas, de forma que cada arcebispo estava autorizado a receber, através de esmolas, nas mãos de seus herdeiros e amigos, uma das ditas partes, e que o arcebispo que administrasse estes assuntos

aceitaria a parte dada e a cota semelhante com seus bispos subordinados, de forma que um terço deveria ir para a Igreja, permanecendo dois terços para serem divididos entre

os bispos subordinados.”

“A vigésima primeira parte em que os primeiros dois lotes foram distribuídos, de acordo com o número de cidades metropolitanas reconhecidas, teria sido deixada de lado, e cada uma teria sido colocada à parte pessoalmente por ele em uma caixa classificada com o nome da cidade destinada. Os nomes das cidades que essas esmolas ou seja, generosidades serão enviadas está como se segue: Roma, Ravena, Milão, Friuli, Grado, Colônia, Mayence, Salzburgo, Trèves, Sens, Besançon, Lion, Rouen, Reims, Arles, Vienne, Moutiers-en-Tarantaise, Embrun, Bordeaux, Tours, e Bourges.”

“O terceiro lote, que ele manteve completo, será concedido como se segue: enquanto os dois primeiros lotes serão divididos nas partes já mencionadas e postos à parte sobre um selo, o terceiro lote será utilizado para os que possuem carência diária, como uma propriedade com a qual não haverá nenhuma obrigação de satisfazer qualquer promessa,

por tanto tempo como se estivesse na carne ou considerado necessário para seu uso. Mas por causa de morte ou renúncia voluntária dos assuntos desse mundo, este dito lote deverá ser dividido em quatro partes, e uma delas deverá ser adicionadas às já mencionadas vinte e uma partes; a segunda parte deverá ser designada para seus filhos, filhas e para os filhos e filhas de seus filhos, para serem distribuídas entre eles em justa e igual repartição; a terceira, conforme o hábito comum entre os cristãos, deverá ser destinada aos pobres, e a quarta deverá ir para o sustento dos homens e moças servas de

serviço no palácio.”

“É seu desejo que a este dito terceiro lote da quantidade total, que consiste, como o restante, de ouro e prata, deverão ser adicionadas todas as vasilhas e utensílios de

bronze, ferro e outros metais juntamente com as armas, vestuários e outros móveis e mercadorias, caras e baratas, adaptados para diversos usos, como cortinas, colchas, tapetes, tecidos de lã, roupas e artigos de couro, selas de animais, e tudo o que será estabelecido em sua câmara do tesouro e do armário para aquele tempo, a fim de que as partes desse lote possam ser aumentadas e as esmolas distribuídas ao maior número de

pessoas.”

“Ele ordenou que sua capela, isto é, as propriedades da igreja, tanto o que tinha

fornecido e recolhido quanto o que chegou a ele por herança de seu pai, deveria permanecer intacto, e não ser dividido por qualquer partilha. Se, de qualquer modo, algumas vasilhas, livros ou outros artigos certamente conhecidos forem estabelecidos

para não serem doados por ele para a dita capela, deverão ter qualquer carência sobre eles pagando um valor decentemente calculado. Ele igualmente ordenou que os livros em grande número e que tinha colecionado em sua livraria fossem avaliados para serem vendidos para tal carência, e o dinheiro recebido dessa venda seria doado ao povo. E são conhecidas entre suas outras propriedades e tesouros três bandejas de prata e uma

imensa e maciça bandeja de ouro.”

“Ele ordenou que a bandeja quadrada de prata, sobre a qual está a representação da

cidade de Constantinopla, fosse enviada para a basílica de São Pedro, o apóstolo de Roma, com os outros presentes dali destinados; que uma bandeja redonda adornada com

uma delineação da cidade de Roma fosse doada para a igreja episcopal de Ravena, e que a terceira, que ultrapassa e muito as outras duas em peso e formosura de trabalho manual e é feita em três círculos demonstrando o plano de todo o universo, desenhada com habilidade e delicadeza, deveria, juntamente com a bandeja de ouro, a quarta acima

mencionada, aumentar aquele lote consagrado para seus herdeiros e para as esmolas.”

“Atestado isto e as demais disposições, ele fez e autorizou na presença dos bispos, abades, e contando habilidosamente para os presentes, cujos nomes estão subscritos. Bispos: Hildebald, Ricolf, Arno, Wolfar, Bernoin, Laidrad, John, Teodulfo, Jesse, Heito e Waltgaud. Abades: Fredugis, Adalung, Angilbert, Irmino. Condes: Walacho, Meginher, Otulf, Stephen, Unruoch Burchard Meginhard, Hatto, Rihwin, Edo,

Ercangar, Gerold, Bero, Hildiger e Rocculf.”

Luís, filho de Carlos, que pela graça de Deus o sucedeu, depois de examinar este inventário, aceitou religiosamente satisfazer todas as condições o mais cedo possível após a morte de seu pai.