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QUE SABEMOS SOBRE A BÍBLIA?

ARIEL ÁLVAREZ VALDÉS

QUE SABEMOS SOBRE A BÍBLIA?

I

ARIEL ÁLVAREZ VALDÉS QUE SABEMOS SOBRE A BÍBLIA? I EDITORA SANTUÁRIO Aparecida-SP

EDITORA SANTUÁRIO

Aparecida-SP

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Álvarez Valdés, Ariel Que sabemos sobre a Bíblia? Ariel Álvarez Valdés; | tradu- ção Afonso Paschotte |. — Aparecida, SP: Editora Santuário,

1997.

Título original: ¿ Qué sabemos de la Biblia? Obra em 3 v. ISBN 85-7200-481-5 (v. 1) — ISBN 85-7200-482-3 (v. 2) — ISBN 85-7200-483-1 (v. 3)

  • 1. Bíblia - Estudo e ensino 2. Bíblia - Leitura I. Título.

97-2253

CDD-220.07

Índices para catálogo sistemático:

  • 1. Bíblia: Estudo e ensino 220.07

Título original: ¿Qué sabemos de la Biblia? (I) © Editorial LUMEN, Argentina, 1992 ISBN 950-724-214-7

Tradução de Pe. Afonso Paschotte, C.Ss.R.

Todos os direitos em língua portuguesa reservados à EDITORA SANTUÁRIO - 1997

Composição, impressão e acabamento: EDITORA SANTUÁRIO - Rua Padre Claro Monteiro, 342 Fone: (012) 565-2140 —
Composição, impressão e acabamento:
EDITORA SANTUÁRIO - Rua Padre Claro Monteiro, 342
Fone: (012) 565-2140 — 12570-000 — Aparecida-SP.
Ano: 2000
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Edição: 6
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PRÓLOGO

No dia em que entrei pela primeira vez na biblioteca do Estudo Bíblico Franciscano de Jerusalém, onde fora rea- lizar meus estudos bíblicos, fiquei pasmado. Mais de trinta mil volumes cobriam as paredes e os pisos da biblioteca. Estavam divididos em salas distintas, conforme os temas. Mas o extraordinário não era a quantidade, e sim que todos tinham sido escritos unicamente com o objetivo de explicar e comentar um só livro: a Bíblia.

Numa seção à parte achavam-se as trezentas e noven- ta revistas que o Instituto recebe regularmente, referentes a questões de arqueologia, patrística, oriente antigo, judaís- mo, mas sempre com o mesmo intuito: fazer a Bíblia mais compreensível.

Todos os anos aparecem centenas de novos livros, re- vistas, artigos, monografias, teses, atlas, mapas, dicionários e um sem-número de ferramentas que procuram esclarecer o sentido das Escrituras Sagradas. E a publicação prosseguirá porque o Espírito Santo, como dizia Jesus, vai nos levando pouco a pouco à compreensão total de sua Palavra (cf. Jo 16,13), a que no entanto não chegamos ainda. Neste sentido cada geração tem sempre algo novo a acrescentar, graças ao que ela vai compreendendo melhor o sentido de sua própria salvação. Assim esta nova contribuição converte-se em algo vital para todos os homens que vivem neste tempo.

Contaram-se todos os seus capítulos, versículos, pala- vras e até mesmo cada letra do Antigo e do Novo Testamen- to já está enumerada e sabe-se quantas são.

Todos os temas que se possam imaginar sobre ela já foram tratados, estudados e investigados e têm uma respos- ta, a melhor que podemos oferecer à altura das investiga- ções atuais.

Todas as dificuldades, os enigmas, as aparentes con- tradições, as questões insólitas, os desafios históricos e geo- gráficos já foram, na medida do possível, tratados e resolvi- dos.

No entanto, apesar desta produção profícua, o povo, a gente simples, os leigos, os catequistas, os membros dos gru- pos de oração ou de estudos bíblicos não se inteiraram, não tiveram acesso às novas descobertas e desconhecem grande parte do muito que se escreveu.

Muitos católicos, por exemplo, não sabem que há cin- qüenta anos o Papa Pio XII, em sua encíclica Divino afflante Spiritu , permitiu aos exegetas considerar os primeiros capí- tulos do Gênesis como gêneros literários especiais. Eles, no entanto, continuam acreditando na existência histórica de Adão e Eva, na serpente e na lista de castigos, por terem comido uma fruta.

Alguns, porém, seguem ensinando que os cinco pri- meiros livros da Bíblia, o Pentateuco , foram escritos por Moisés tal como os lemos na Bíblia, quando desde o século passado se vem provando, com suficientes argumentos, que na realidade trata-se de um conjunto formado por quatro narrativas de autores distintos.

Por que continuam ainda ignorados por tanta gente, se estes e outros assuntos já estão amplamente discutidos, ana- lisados, escritos, publicados?

Vários são os motivos. Em primeiro lugar, porque a maioria não tem acesso a esta literatura especial, que se pu- blica em grossos e custosos volumes, que muitas vezes dor- mem nas prateleiras das grandes bibliotecas e livrarias. Em segundo lugar, porque se trata de livros especializados, que por isso mesmo não são muito difundidos. Em terceiro lu- gar, porque muitas das obras estão escritas numa linguagem difícil, demasiado técnica, exclusiva de certos círculos de estudiosos.

Isto gerou uma distância cada vez maior entre os estu- diosos que fazem avançar o conhecimento da Palavra de Deus com suas pesquisas e o comum do povo que ficou relegado às velhas interpretações, sem quase se inteirar dos avanços bíblicos.

O presente livro não diz nada de novo. Pretende ape- nas divulgar algumas questões, esclarecidas pelos moder- nos estudiosos bíblicos, e, ao mesmo tempo, fazer chegar até as pessoas as novas contribuições da atual exegese cató- lica, algumas não tão novas, mas pouco difundidas. Busca assim preencher este vazio e estabelecer uma ponte entre os exegetas e o povo de Deus, para trazer-lhe as investigações dos estudiosos.

O único mérito que tem este livro é tentar expor as questões exegéticas, filosóficas, arqueológicas e teológicas que outros autores já propuseram, mas numa linguagem aces- sível, simples e compreensível para os iniciados.

Meu desejo é que os leitores, tendo aprendido um pou- co mais sobre a Palavra de Deus e entusiasmando-se com ela, animem-se a aprofundá-la, lendo outros livros.

O autor

QUANTOS LIVROS TEM A BÍBLIA?

Problema cristão, raízes judaicas

A Bíblia não é um livro, como alguns crêem, mas sim uma biblioteca. É composta de 73 livros, alguns dos quais bastante extensos, como o do profeta Isaías com seus 66 capítulos. Outros, muito breves, como o do profeta Abdias que não chega a ter capítulos, mas somente versículos. O mais curto de todos é a 3ª carta de São João, com apenas 13 versículos.

Estes livros estão divididos de tal maneira que 46 correspondem ao Antigo Testamento e 27 ao Novo Testa- mento.

De vez em quando cai em nossas mãos alguma Bíblia protestante e vemos, com surpresa, que lhe faltam 7 livros, contando assim somente 66.

Esta lacuna encontra-se no Antigo Testamento e deve- se à ausência de 4 livros chamados históricos (Tobias, Judite, Primeiro e Segundo Macabeus), 2 livros chamados Sapienciais (Sabedoria e Eclesiástico) e um profético (Baruc).

Qual é a história desta diferença entre católicos e pro- testantes?

O Antigo Testamento palestinense

No século I da era cristã, os judeus, que só aceitam o Antigo Testamento, não tinham ainda definido a lista com- pleta de seus livros, ou seja, não tinham completado a Bí- blia. Continuava aberta a possibilidade de outros livros vi- rem a engrossar as Sagradas Escrituras.

Mas, desde há muito, especialmente depois da des- truição de Jerusalém no século VI antes de Cristo e do desa- parecimento definitivo do estado judaico livre, os responsá- veis religiosos preocupavam-se cada vez mais em assegurar a continuidade da fé no povo e concretizar oficialmente a lista das obras nas quais se reconhecia a fé de Israel. Algu- mas das que circulavam entre o povo tinham, sem dúvida, idéias interessantes, mas havia outras que pareciam duvido- sas e inclusive claramente perigosas.

Foram, pois, fixados alguns livros de inspiração bíbli- ca inquestionável e estes foram aceitos como Escrituras Sa- gradas. A este conjunto de livros oficiais, reconhecidos pela comunidade como inspirados e portadores de doutrina au- têntica, deu-se o nome de “cânon” (normas, regras), já que reflete a regra de vida para quem nele crê.

Os outros foram rejeitados e receberam, com o tempo, o nome de “apócrifos” (ocultos) porque, sendo de origem duvidosa, eram considerados “de origem oculta”.

No primeiro século de nossa era, a comunidade judai- ca da Palestina tinha chegado praticamente a reconhecer como sagrados 39 livros.

Os Setenta

Ao mesmo tempo, existia nesta época na cidade egíp- cia de Alexandria, na costa mediterrânea, uma colônia ju-

daica, a mais numerosa fora da Palestina, pois contava com mais de 100.000 israelitas que, por não mais entenderem o hebraico, usavam na liturgia de suas sinagogas uma famo- síssima tradução grega. Chamavam-na de Setenta porque, segundo uma antiga tradição, tinha sido feita quase mila- grosamente por 70 sábios.

Esta versão dos Setenta, além dos 39 livros que com- punham o cânon hebraico, conservava, em grego, alguns textos dos que se tinham perdido no original hebraico e além disso acrescentava outros textos novos, escritos diretamente em grego.

Os judeus da Palestina nunca viram com bons olhos estas diferenças de seus irmãos alexandrinos e rejeitaram aquelas novidades.

Desde a mais alta antigüidade existiram, portanto, duas listas oficiais ou “cânones” das Escrituras ligeiramente dis- tintos: o palestinense e o alexandrino.

Em atenção ao destinatário

Os primeiros cristãos que tinham ouvido dizer que Jesus não viera para suprimir o Antigo Testamento, mas para plenificá-lo e completá-lo (cf. Mt 5,17), reconheceram igual- mente como parte de sua Bíblia os livros usados pelos ju- deus. Mas se viram em dificuldades. Deviam usar o cânon breve da Palestina ou o amplo de Alexandria? De fato, os cristãos, espalhados pelo império e que já não sabiam mais falar o hebraico porque em todo o Oriente Próximo, há tre- zentos anos, era o grego o idioma comum, decidiram-se pela versão grega. Isto respondia ao fato que os próprios destina- tários aos quais deviam levar a Palavra de Deus também falavam o grego.

Por isso, ao usar a versão grega da Bíblia, deviam for- çosamente empregar os 7 livros em questão.

Para não serem confundidos

Como reação aos cristãos, que utilizavam amplamen- te livros sagrados que consideravam exclusivos seus e, pior ainda, indicando profecias que justificavam a crença em Je- sus de Nazaré a quem rejeitavam obstinadamente, os judeus, no decorrer do século II, resolveram encerrar definitivamente o cânon e ficar com o mais breve.

Fixaram sua Bíblia, isto é, o Antigo Testamento, em

  • 39 livros. Até hoje o povo hebreu conserva como Escritura

Sagrada os 39 livros que integravam o antigo cânon da Pa-

lestina.

Nas comunidades cristãs, por sua parte, e sem que a Igreja tivesse resolvido oficialmente, foi-se impondo na prá- tica, com o correr do tempo, o uso dos 46 livros veterotes- tamentários.

De quando em quando, elevavam-se algumas vozes discordantes dentro da Igreja, que queriam os 39 escritos aceitos pelos judeus. Algumas de peso, como São Cirilo de Jerusalém (séc. IV), Santo Epifânio (séc. V), São Gregório Magno (séc. VII) e já nos tempos modernos, o cardeal Cayetano.

A fagulha que inflamou Lutero

Quando Martinho Lutero iniciou o cisma protestante, em 1517, e separou-se da Igreja Católica, entre as mudanças que introduziu em sua nova Igreja estava a volta ao cânon

breve, contrariamente à tradição quinze vezes centenária que vinha mantendo a Igreja Católica.

Desgostavam-no de modo especial estes 7 livros a mais, que por outro lado estavam escritos em língua grega e não na língua religiosa judaica.

Diante desta situação, os bispos do mundo inteiro reu- niram-se no famoso Concílio de Trento. Foi o mais longo da história da Igreja, durando 18 anos (1545-1563), e todo ele esteve ocupado em pontualizar e precisar a doutrina católica que, em alguns aspectos, como no bíblico, não tinha sido definida.

E no dia 8 de abril de 1546, através do decreto De Canonicis Scripturis, fixou definitivamente o cânon das Es- crituras em 46 livros para o Antigo Testamento, ou seja, in- cluíram terminantemente os 7 livros proscritos pelos protes- tantes.

Um nome difícil

Desde então as Igrejas protestantes e as seitas delas nascidas caminharam na história com esta lacuna.

Para os católicos, portanto, o Antigo Testamento consta de 46 livros, 39 escritos em hebraico e 7 em grego.

Esses últimos, por terem sido objeto de discussões e tendo em conta que entraram na lista oficial da Igreja bem mais tarde, receberam o nome de deuterocanônicos, do gre- go deuteros (segundo), para significar que passaram, num segundo momento, a fazer parte do cânon.

Os primeiros, ao contrário, por nunca terem sido colo- cados em discussão, são chamados de protocanônicos, do grego protos (primeiro), já que desde o primeiro momento integram o cânon.

Graças aos atuais descobrimentos arqueológicos, den- tre eles o de Qumrán, confirmou-se que nem todos os deuterocanônicos foram originariamente escritos em grego. Sabemos, por exemplo, que o livro de Tobias foi anterior- mente composto em aramaico, enquanto que os de Judite , Baruc, Eclesiástico e o 1º Macabeus foram escritos em hebraico. Podemos dizer que somente 2º Macabeus e Sabe- doria foram redigidos em grego.

A tão desejada unidade

Desde que Lutero traduziu sua Bíblia para o alemão, em 1534, e tirou os deuterocanônicos do elenco oficial da Bíblia, as Igrejas protestantes adotaram igual medida. Nos últimos anos surgem sintomas de um retorno a uma atitude mais moderada em relação a estes escritos, que eles prefe- rem chamar de apócrifos.

Com efeito, eles têm compreendido que certas doutri- nas bíblicas, como a ressurreição dos mortos, o tema dos anjos, o conceito da retribuição, a noção de purgatório, já começam a aparecer nestes 7 livros tardios.

Suprimindo-os, tira-se um elo precioso na progressividade e unidade da Revelação, e dá-se um salto muito abrupto até o Novo Testamento.

Por este motivo, já se vêem algumas Bíblias protes- tantes que finalmente, ainda que com um valor secundário, incluem os livros que faltam.

Queira Deus que chegue logo o dia em que dêem um passo a mais e aceitem-nos definitivamente, com a impor- tância própria da Palavra de Deus, para poder voltar à uni- dade que um dia perdemos.

A ARCA DE NOÉ EXISTIU?

Lá no Ararat

Existe uma montanha que tem o ditoso privilégio de ser a mais visitada, a mais escalada, a mais investigada e divulgada pelos meios de comunicação. Trata-se do célebre monte Ararat.

Toda sua importância advém do fato de ter sido, se- gundo a Bíblia, o lugar onde a arca tripulada por Noé e seus três filhos ficou encalhada, logo depois do famoso Dilúvio universal, que acabou com a vida de homens, animais e plan- tas da terra.

O Ararat é uma pequena cadeia de montanhas com 13 km de largura, localizada entre a Turquia e Armênia atuais. Tem dois cumes principais: o Ararat Maior, ao norte, com 5.165 metros de altura, coberto de neves eternas, e o Ararat Menor, ao sul, com seus 4.300 metros.

Segundo a tradição, a arca de Noé com seu zoológico especial teria chegado à primeira, na ladeira sudoeste que pertence à Turquia, e encalhado a uma altura de 2.000 metros. Assim, desde muito o monte se viu envolto numa aura de fascínio e tem gozado de particular veneração.

Em busca da arca perdida

Logo os cristãos que habitavam os arredores levanta- ram ali um templo, dando-lhe o nome de Templo da Arca, onde celebravam anualmente a data em que os estupefatos passageiros saíram da arca.

Com o passar dos séculos, porém, a fantasia foi sem- pre mais estimulada e começou-se a conceber a ilusão de poder encontrar a colossal nave que salvara os pais da nova humanidade.

O primeiro que disse tê-la encontrado foi São Jacó, monge do século VI. Segundo ele, encontrou, por inspira- ção divina, em meio à neve que cobre os sopés das monta- nhas, um pedaço de madeira da arca que é conservada pelos armênios num suntuoso relicário.

Mas foi um pastor de uma pequena aldeia chamada Bayzit, localizada aos pés do monte, que , certo dia, no fim do século XVIII, disse ter visto um estranho barco no monte sagrado. Isto desencadeou uma febre expedicionária tal que chegaria até nossos dias.

Muitos êxitos, mas sem provas

Em 1892 o Dr. Nouri, um diácono da igreja cristã malabar da Índia, assegurava que havia encontrado, em uma de suas viagens ao Ararat, a arca entre as neves perpétuas e que tinha explorado seu interior. Como ninguém acreditasse nele, quis mostrar as provas que trazia entre seus pertences,

mas ...

tinham-nas roubado!

Em 1916, em plena guerra mundial, um aviador russo chamado Vladimir Roscovitsky foi protagonista de um dos

episódios mais marcantes em torno da arca. Num caloroso dia de agosto, enquanto pilotava seu avião nas proximida- des do Ararat, pôde divisar a gigantesca nave. Ao regressar à base comunicou seu sensacional achado e imediatamente o czar Nicolau II enviou uma expedição de cento e cinqüen- ta homens que asseguraram ter podido estudá-la, fotografá- la, medi-la e desenhar suas partes durante um mês. Mas no ano seguinte, ao explodir a revolução russa, desapareceram todos os documentos e as provas!

Trinta anos mais tarde, no dia 20 de janeiro de 1945, a imprensa australiana publicou as declarações da jovem Arleene Deihar, de Sidney, que afirmava que seu noivo, tam- bém piloto, mas da Royal Air Force, tinha-lhe mostrado duas fotos onde se viam claramente os restos da arca de Noé, tira- das numa das encostas do monte. Mas já não era possível vê-las, pois ele fora abatido durante a Segunda Guerra Mun- dial, enquanto voava sobre a Turquia!

Outra vez os fracassos

A sorte pareceu ser diferente para o engenheiro George Greene. Em 1952, enquanto sobrevoava a região em um helicóptero, pôde distinguir a forma de um barco aflorando do gelo. Conseguiu tirar trinta fotos, que, quando reveladas, mostravam uma forma semelhante à de uma nave encalhada

num barranco, sobre um precipício. Entusiasmado com sua descoberta, tentou recolher dinheiro para financiar uma ex- pedição a fim de resgatá-la, mas poucos anos mais tarde foi

assassinado e, lamentavelmente se perderam, inclusive as fotos!

...

,

todos os seus pertences

Em 1955 o francês Fernand Navarre, acompanhado por dois guias turcos, assegurava ter chegado até a arca de

Noé. Mas desta vez trazia consigo uma prova: um pedaço de madeira negra calafetada com breu, tal como a Bíblia disse que foi preparada. Quando, enfim, se cria ter encontrado res-

tos da nave, foi submetido à prova do carbono 14 e demons-

trou remontar-se ao século VI

...

depois de Cristo!

Como podemos ver, o fato de que cada vez que se ob- têm algumas provas elas se perdem ou resultam insubstanciais já gera certa desconfiança sobre sua serieda- de, além das discrepâncias. De fato, enquanto a expedição do czar russo se defrontou com a arca no sul da montanha, Greene afirmava tê-la fotografado na ladeira norte.

A montanha pelo país

O que, porém, desqualifica toda esta busca desenfrea- da é que as expedições partem de um pressuposto errôneo, que no decorrer do tempo não pôde ser corrigido ainda.

Com efeito, o livro do Gênesis, ao relatar o final do dilúvio, não diz que a arca se deteve “no monte Ararat”, como todos interpretam, mas sim “nos montes Ararat” (Gn 8,4). E para a Bíblia “Ararat” não é o nome de um monte, mas sim de um país, como se pode ver pelas outras três ve- zes que vem mencionado (2Rs 19,37; Is 37,38; Jr 51,27). E a que país corresponde Ararat? Ao antigo Urartu, isto é, a atual Armênia. Por isso todos os biblistas estão de acordo que a tradução correta seria “os montes do país da Armênia”, como de fato traduziu São Jerônimo na Vulgata.

Portanto, em vez de precisar o lugar, a Bíblia dá uma localização muito vaga, tanto que pode ser qualquer lugar da Armênia, pois toda ela é um planalto elevado. E se quere- mos pensar somente em sua região propriamente montanho- sa, esta se estende por mais de 230 km.

A arca existiu?

Mas a pergunta que se impõe diante do episódio do Gênesis é esta: a Bíblia pretende narrar um fato que aconte- ceu realmente, ou trata-se de um relato didático?

Pelo modo de narrá-lo e pelos detalhes que nos dá, tudo parece supor o segundo. Vejamos.

Em primeiro lugar, Noé recebeu ordens de Deus para construir uma nave de 150 metros de comprimento, 25 de largura e 15 de altura, com 3 pisos de cinco metros cada. Estas medidas mostram-se exorbitantes, pois são as medi- das de um transatlântico moderno, nunca conseguido pela engenharia naval até o século XIX.

O relato está localizado na pré-história, quando ainda não se conhecia o uso dos metais. Como se podia fazer um navio tão grande sem instrumentos metálicos?

Precisar-se-ia, além do mais, da ajuda de centenas de pessoas. Como foi construído só com a ajuda de Noé, de seus quatro filhos e de suas esposas?

Em relação aos animais

O mais pitoresco e difícil de se admitir é o que se refe- re aos animais que Noé e os seus deviam introduzir na arca. Como poderiam reunir um casal de cada espécie existente para salvá-las da extinção? Foram capazes de percorrer os cinco continentes do planeta para trazê-los, alguns de uma distância de 20 mil quilômetros?

Acrescente-se a isto outra dificuldade: existem sobre a terra 1.700 espécies de mamíferos, 10.087 espécies de aves,

987 de répteis e aproximadamente 1.200.000 espécies de insetos. Para piorar, calcula-se que nesta época eram 15.000 as espécies de mamíferos, 25.000 as espécies de aves, 6.000 as de répteis, 2.500 as de anfíbios e mais de 10 milhões as espécies de insetos. Mais ainda. Os zoólogos julgam que em nosso planeta pode haver entre 5 a 10 milhões de espécies animais ainda sem identificação, ocultas aos olhos da ciên- cia, nos gelos polares, nas densas selvas tropicais ou sob as areias do deserto. Carregar a arca com esta bagagem teria sido um trabalho impossível aos viageiros.

E como fizeram oito pessoas para alimentar, dar de beber, limpar e cuidar de tamanha quantidade de animais?

Mais ainda, como pôde Noé com os seus criar o am- biente adequado para cada par, com suas respectivas exi- gências de dietas, climas e outras necessidades, quando hoje os zoológicos, com todas as técnicas modernas, têm dificul- dades para manter vivas algumas espécies em cativeiro?

Finalmente, os ecologistas sustentam que uma espé- cie está extinta quando sobram poucas centenas de exem- plares. Por exemplo, os ursos pandas são considerados em extinção porque somente uns mil sobrevivem, número de- masiado pequeno para recuperar outra vez a espécie em es- tado selvagem. Como se pôde repovoar o planeta só com um par de cada espécie?

Em relação à chuva

Conforme a Bíblia, choveu durante 40 dias e 40 noi- tes, sem parar (Gn 7,17). Sabemos, contudo, que o ciclo hidrológico de evaporação que provoca as chuvas mostra-se incapaz de prover semelhante quantidade de água.

Assim mesmo diz que a massa d’água cobriu toda a terra. Isto se mostra inimaginável numa época em que se pensava a terra como um disco plano de dimensões reduzi- das e que a abóbada que a recobria, isto é, o firmamento, permitia acumular mais rapidamente as águas. Mas, pode- mos continuar pensando que em 40 dias de chuva todo o planeta ficou coberto, quando sabemos hoje que o planeta tem uma superfície de 509.880.000 km 2 ?

Afirma igualmente que as águas subiram sete metros acima dos montes mais altos da terra (Gn 7,19-20). Pois bem, o monte mais alto do planeta é o Everest, com 8.846 metros. Portanto, para que as águas alcançassem esta altura de qua- se 9 km, seria preciso que os mares subissem em média 222 metros por dia. Mas qualquer meteorologista confirmaria o fato de que, se as nuvens que atualmente estão em nossa atmosfera se precipitassem de repente sobre todo o mundo, o globo permaneceria encoberto apenas por menos de cinco centímetros de água.

Mais sobre a água

A bioestratigrafia, por sua vez, rejeita a hipótese de uma morte simultânea de todas as espécies que habitaram o planeta. Sustenta bem o contrário.

A arqueologia nega também que se puderam conser- var, sem se estragar com o dilúvio, pinturas primitivas como as de Catal Hüuk, na Turquia, que datam de 7.000 antes de Cristo, ou as de Teleilat Jassul, perto do Mar Morto.

E as plantas, como se salvaram das águas? O relato não diz nada. E os peixes, que também foram postos a salvo na arca? Como não morreram ao se misturarem as águas doces com as salgadas?

Só uma permanente cadeia de milagres tornaria possí- veis todos estes fatos. Coisa improvável, porque na Bíblia os milagres servem para aumentar a fé das pessoas, não para exterminá-las.

Por que não nos disseram isto antes?

Este monte de objeções já nos dá a resposta ao proble- ma. Nunca existiu nenhum dilúvio universal. E tampouco a Bíblia pretende ensinar isto como um fato histórico. Não se pode negar a existência de algum dilúvio ou de uma grande inundação antiga, mas nunca poderia ser universal a ponto de destruir todo tipo de vida, como descreve a Bíblia.

Ao ouvir isto, talvez alguém se sentirá enganado e pensará por que então a Bíblia não adverte seus leitores que não está contando algo sério, para evitar tantos mal-entendi- dos posteriores. Mas a verdade é que todos os destinatários deste relato o sabiam. A mesma linguagem e as mesmas imagens empregadas faziam com que os leitores compreen- dessem imediatamente que não estavam diante de uma crô- nica periodicista, mas sim diante de uma narração didática. Não era preciso começar a exposição com uma advertência aos leitores, assim como hoje alguém que lê uma novela de García Márquez não precisa ser lembrado na primeira pági- na: “Atenção! Não creia no que diz este livro! Trata-se só de uma ficção!”

Somos nós que, com nossa mentalidade moderna, atri- buímos historicidade a alguns relatos que nunca mostraram intenção de tê-la.

O que ensina o Dilúvio

Portanto, o autor não quis expor um fato histórico, mas sim um relato didático, para ensinar uma mensagem religio- sa. E se tal fato tivesse realmente acontecido, não teria im- portância alguma.

Ou seja, o autor encontrou na tradição a lembrança desta história e a tradição deixa-lhe a responsabilidade que seja certa. Ele só pretende apropriar-se dela porque era um precioso material apto para transmitir um ensinamento reli- gioso.

Que mensagem nos deixa o episódio do Dilúvio uni- versal?

Em primeiro lugar, mostra como ele acontece por cul- pa dos pecados dos homens. Eles se acumulam em toda a Terra a tal ponto que a corrompem, a pervertem e provocam a catástrofe. E assim se volta ao caos anterior à Criação. Toda a ordem que Deus havia estabelecido ao criar o mundo pode ver-se destruída e voltada à estaca zero por causa da irresponsabilidade dos homens.

O patriarca mudo capaz de instruir

Dentre todas as pessoas más há uma que é justa: Noé. Deus, então, toma a decisão de destruir os homens e de sal- var Noé. Antes, porém, coloca-o à prova: ordena-lhe cons- truir uma grande embarcação, em pleno deserto, sobre terra firme, e sem dizer-lhe para que, apenas porque ele o ordena, colocar-se logo dentro dela e esperar.

Imaginemos o pobre Noé, exposto à caçoada de seus contemporâneos, aos quais não sabe dar outra explicação

senão: “Deus o ordenou. É coisa dele. Eu obedeço”. Mos- tra-nos a fé e a submissão deste homem incrível, obediente em tudo, e que ao longo dos quatro capítulos do relato ja- mais pronuncia uma única palavra. Nunca se contou tanto de um personagem bíblico e foi visto falar tão pouco.

Deus logo lhe revela seu segredo: “Dentro de sete dias vou fazer chover sobre a terra 40 dias e 40 noites. Extermi- narei da face da terra todos os seres vivos que fiz. Noé fez tudo o que Deus lhe havia mandado” (Gn 7,4). A mensagem é, pois, claríssima, mesmo quando contada com a lingua- gem do Antigo Testamento. Deus dá uma ordem. Se o ho- mem desobedece, se autodestrói. Se obedece, como faz Noé, se salva.

No mais é Deus que indica as medidas da arca, o ma- terial que se deve empregar e até o modo de construí-la. Ou seja, aquele que constrói sua vida com as medidas de Deus sempre sobreviverá a qualquer tempestade. Aquele que dei- xa de ouvir sua voz afogar-se-á.

Estar atento a isto é muito mais importante do que sa- ber se houve ou não houve a chuva de quarenta dias e em que lugar encalhou a arca. É a leitura que deveríamos fazer de Gn 6-9. Desta forma haveria menos gente interessada em escalar o monte Ararat em busca da arca e mais gente procu- rando mergulhar na Palavra de Deus, buscando viver sua mensagem.

NÃO HAVIA LUGAR PARA MARIA NA HOSPEDARIA?

A história que nos contaram

Numa fria noite de dezembro, há quase dois mil anos, um jovem casal de esposos caminhava em direção a Belém. César Augusto, imperador de Roma, havia decretado um recenseamento em todo o Império, e cada súdito romano devia ser recenseado em sua própria cidade.

José, o carpinteiro, tinha de ir recensear-se em Belém, onde nascera. Com ele, montada num burro, viajava sua es- posa Maria em avançado estado de gravidez, enfrentando uma cansativa viagem de mais de cento e cinqüenta quilô- metros desde Nazaré.

Seu esposo sentiu-se mais tranqüilo quando por fim entraram na cidade de sua família. Tinha a esperança de en- contrar logo um albergue, levando em consideração a situa- ção em que se encontrava sua mulher. Mas andou de casa em casa e não encontrou acolhida. É que o recenseamento trouxe a volta de muitos belemitas dos mais diversos pontos do país para se inscreverem.

Procurou em vão uma acomodação para que Maria pudesse dar à luz seu filho. Não a encontrou. De repente

avistou uma hospedaria. Aí se conseguiria seguramente alo- jamento. Mas grande foi sua decepção quando o hospedeiro lhe informou que não havia mais lugar disponível.

Enfim José, com Maria, que se movia com dificulda- de e que já sentia as dores do parto, dirigiu-se a uma gruta que servia de estábulo para os animais e aí se refugiaram. No silêncio daquela gruta Maria deu à luz seu primogênito e o colocou logo num presépio, ou seja, no recipiente onde se coloca a palha para alimento dos animais, que, por sua for- ma alongada, serviu-lhe de berço.

O Filho de Deus nasceu num estábulo porque os ho- mens que ele viera salvar lhe fecharam suas portas.

O Evangelho relata isto?

Esta narrativa assim contada e que ouvimos e medita- mos tantas e tantas vezes, de modo especial no tempo do Natal, apresenta dois sérios problemas.

O primeiro é que não está exatamente de acordo com o Evangelho. Ele não diz em parte alguma que Maria chega- ra a Belém, prestes a dar à luz. O texto afirma unicamente que “ estando ali, completaram-se os dias para o parto” (Lc 2,6). Tampouco conta o Evangelho que o casal andara de casa em casa em busca de alojamento. Isto é simples- mente uma dedução para o fato inexplicável de Maria ter dado à luz numa gruta, destinada ao refúgio dos animais, e porque se afirma que “ela deu à luz o filho primogênito” e que “o envolveu em panos e o deitou numa manjedoura, por não haver lugar na hospedaria” (Lc 2,7).

Que imprudente este José!

O segundo inconveniente é o grande número de inter- rogações que suscita.

  • a) Se José vinha para um breve ato administrativo e

levando em conta que naquela época a mulher não era obri- gada a se apresentar ao censo, porque bastava a presença do chefe de família, por que, então, José teria levado Maria até Belém?

  • b) Como pôde ter sido tão imprudente, esperando até

a última hora e viajando quando ela estava prestes a dar à luz?

  • c) O varão justo e prudente não foi capaz de prever

um lugar mais decente para o parto de sua esposa, sabendo que aquele que viria ao mundo nada mais era do que o Filho de Deus?

  • d) José era de Belém e voltava à sua cidade natal: como

é que não teria uma casa para alojar-se?

  • e) Considerando que para os orientais a hospitalidade

era um dever sagrado, que punha em jogo a própria honra, não parece estranho ninguém lhe abrir as portas, nem mes- mo um parente, ainda por cima vendo o estado de Maria?

E tudo por causa de uma palavra

Estas questões indicam que estamos num beco sem

saída.

Onde está o problema? É que fazemos uma leitura er- rônea do Evangelho, pondo muita imaginação naquilo que nos fala o texto. E a culpada disto é uma palavra do Evange-

lho que foi mal traduzida e que criou, assim, confusão e es- timulou a fantasia de gerações de leitores.

Trata-se da palavra grega katályma, que a maioria das Bíblias traduz por hospedaria, albergue, pousada. Traduzida desta forma, a frase do Evangelho soaria assim: não havia lugar para eles na hospedaria.

Mas no grego bíblico esta palavra contém outro signi- ficado, o de cômodo, quarto, sala, isto é, uma parte especial da casa mais discreta, reservada.

Que era de fato a katályma, onde não havia lugar para

eles?

A katályma

Para entendermos bem o que Lucas quer dizer em seu Evangelho temos de situar-nos no ambiente da Palestina, onde as casas não tinham vários cômodos, como podem ter as nossas hoje.

Devido à precariedade das construções, as moradias tinham tão-somente um cômodo central, onde havia de tudo:

armários, ferramentas, assentos, despensa, cozinha, e onde, ao anoitecer, estendiam-se as esteiras para o repouso notur- no, cada qual em seu lugar preferido.

O cômodo central era, pois, o pequeno mundo domés- tico em torno do qual girava toda a vida do lar e o movimen- to das pessoas, mais ou menos como os quartos de muitas de nossas casas de campo.

Mas além da sala principal as casas tinham ao lado algum compartimento menor reservado, com separações para maior privacidade, às vezes usado como depósito ou para eventuais hóspedes.

O aposento das parturientes

Este lugar servia de modo especial quando na casa havia alguma parturiente. Porque em Israel, quando uma mulher dava à luz um filho, permanecia impura durante qua- renta ou oitenta dias, conforme fosse homem ou mulher, pela perda de sangue que sofrera. E as coisas que ela tocava, o leito onde repousava, e também qualquer lugar onde se sen- tava, ficavam impuros. E se alguém a tocasse ou entrasse em contato com alguma coisa usada por ela, caía automati- camente na impureza (cf. Lv 15,19-24).

E para os judeus uma pessoa impura permanecia iso- lada socialmente, desonrada perante Deus e diante dos de- mais. Não podia acorrer ao templo, nem se relacionar com ninguém, até que terminassem os ritos de purificação, que eram complicados e levavam determinado tempo. Daí a pre- caução que se tomava em cada parto e a razão pela qual se fazia a que acabava de dar à luz residir na katályma, isto é, num lugar separado da casa e não em um ambiente comum.

Assim tudo fica mais claro

Suponhamos agora por um momento que o evangelista Lucas, quando escreveu dizendo que não havia lugar na katályma, não estava pensando numa hospedaria, como ge- ralmente traduzem as Bíblias, mas sim no cômodo de uma casa particular, que é outra possibilidade oferecida por esta palavra grega.

Então as perguntas logo se esclarecem, o texto evan- gélico torna-se mais coerente e a figura de José readquire valor como pai responsável e esposo prudente.

Comecemos, pois, a ler agora todo o relato do Evan- gelho à luz desta nova explicação, sem interpretações arbi- trárias e sem acréscimos espúrios.

Com uma mulher prestes a dar à luz

Sabendo que o imperador de Roma tinha ordenado um censo, José, que temporariamente residia na Galiléia, deci- diu voltar a Belém, uma vez que era natural de lá (cf. Lc

2,4).

O mais lógico teria sido deixar sua jovem esposa Ma- ria na Galiléia, já que não era preciso que ela comparecesse diante das autoridades do censo. Se a levou consigo, apesar da condição em que se encontrava, é porque pensava em radicar-se definitivamente em Belém. O que era normal, le- vando em conta que ele era desta cidade e que aí tinha sua parentela, seus bens e posses.

Mateus confirma isto quando conta que, ao regressa- rem do exílio do Egito, logo após a morte das crianças ino- centes, procuraram instalar-se novamente em Belém. Mas por medo do então governador Arquelau, eles tiveram de mudar de destino e ir viver em Nazaré (cf. Mt 2,22).

Se, pois, José tinha domicílio em Belém, é justo pen- sar que trazia Maria para estabelecer-se em sua própria casa.

Para isso puseram-se a caminho com tempo, com a prudência dos santos e para evitar as dificuldades de última hora. A viagem ter-lhes-ia custado uns dez dias, pelo cami- nho longo e acidentado de então, e teriam chegado à sua pátria vários meses antes do parto.

Na gruta, mais intimidade

A esta altura afirma o Evangelho que “estando ali, completaram-se os dias para o parto” (Lc 2,6).

Era, porém, a época do censo. Muitos belemitas pro- venientes de todas as partes enchiam a cidade, instalados nos quartos das hospedarias e em casas particulares. Tam- bém José e Maria teriam alojado parentes e amigos em to- das as dependências de sua casa.

Foi quando, chegando a hora do parto, Maria percebe que não havia onde dar à luz de modo digno e discreto, sem molestar e sem ser molestada, e sobretudo sem tornar impu- ros todos os que estavam na casa. Isto é, não havia lugar no cômodo reservado da casa, na katályma.

Por isso, sem ofender a nenhum de seus parentes, José e Maria retiraram-se para a gruta-estábulo, que todas as ca- sas de Belém tinham e ainda têm, para abrigar os animais.

E ali, numa gruta de sua própria casa, adaptada como refúgio e ajeitada do melhor modo possível por José, os san- tos cônjuges encontraram um ótimo ambiente para a perma- nência prolongada de uma parturiente.

É isto que deduzimos, se lemos o texto, que correta- mente traduzido agora diz: “e ela deu à luz o filho primogênito. Envolveu-o em panos e o deitou numa manje- doura, por não haver lugar na sala” (Lc 2,7).

Não havia lugar “para eles”

Por isso, em seguida o evangelista Lucas, sempre preci- so em seus detalhes, esclarece que não havia lugar, mas só

“para eles”. O que indica que para os outros teria havido um lugar qualquer para descansar, já que na Palestina as camas não são senão uma esteira estendida no chão. Mas para eles que deviam obedecer às prescrições da Lei judaica referen- tes à impureza legal, para eles não.

Poderíamos acrescentar ainda: para eles, tão reniten- tes em não molestar, tão delicados e persuadidos do Misté- rio que ciosamente guardavam, para eles não havia lugar em meio ao vaivém, ao ruído e à promiscuidade que reinavam na parte superior da casa.

Ou seja, foi numa das grutas da casa da família de José em Belém, destinadas ao estábulo, que se deu o nasci- mento do Messias.

Uma parábola confirma isto

Podemos então afirmar que no grego de Lucas a pala- vra katályma significa o compartimento reservado de uma casa e não uma hospedaria?

Sim. O relato da última ceia o prova. Quando Jesus dá as instruções a Pedro e a João para dirigirem-se até uma casa da cidade e preparar a Páscoa, indica-lhes: “Dizei ao dono da casa: ‘O mestre te manda perguntar: onde está a sala (katályma) em que comerei a Páscoa com os discípu-

los?’” (Lc 22,11). Isto significa que Jesus não celebrou a última ceia em nenhuma hospedaria, mas numa casa, cujo dono lhe preparou um lugar reservado para ele e seus após- tolos.

A parábola do bom samaritano também o confirma. Quando Lucas relata que ele levou o ferido até uma pousa- da, usa a palavra grega pandojéion e não katályma. Ou seja,

quando Lucas usa a palavra katályma nunca pensa numa hospedaria. Muito menos, pois, quando se refere a Maria e José.

Mais provas

Também São Mateus está de acordo com esta inter- pretação. Quando menciona a chegada dos Magos, buscan- do o recém-nascido, diz que a estrela os conduziu até uma casa (cf. Mt 2,11), isto é, não até uma gruta qualquer onde se refugiara a Sagrada Família por falta de hospedagem, mas sim para a própria casa de José, em Belém.

Um último argumento nos trazem as picaretas e pás da arqueologia. De fato, em Belém ainda hoje existe a gruta que a tradição identifica com a do nascimento de Jesus. E todos os estudos arqueológicos que se fizeram a seu respeito revelam que não se trata de uma gruta qualquer, perdida na curva de algum estrada palestinense, mas sim incorporada a uma moradia como recinto estável. No local daquela casa, construiu-se hoje uma majestosa basílica comemorativa.

Um José como Deus manda

Quando chega o Natal, algumas paróquias costumam encenar o episódio natalino com cenas infantis, onde Maria e José, depois de terem sido rejeitados em vários lugares, terminam refugiando-se num estábulo, onde possa nascer o menino.

Este quadro, com a chegada a Belém na última hora e à noite, batendo aturdidamente às portas das casas e hospe- darias e recebendo recusa em todas as partes, pinta a figura

de um pobre José inconsciente, que se comporta com negli- gência e cuja estupidez quase lhe vale um parto infeliz de sua esposa.

Trata-se, porém, de uma triste distorção. José de Belém foi um verdadeiro pai para Jesus e um autêntico esposo para Maria e seu papel foi essencial para o plano de Deus.

O ensinamento que ficou

Para nascer, Jesus tinha sua habitação preparada, sua casa, seu teto. Era dele. José, seu pai legal, a ajeitara para quando viesse ao mundo. Por razões históricas, porém, no momento de seu nascimento, havia outros que precisavam dela. Então José, decididamente, resolveu deixar o lugar pre- visto e ir para o tosco estábulo.

Dizem os psicólogos que as experiências pré-natais influem de forma decisiva nos filhos. Seja como for, este fato que determina desde o começo a educação que Jesus receberia em sua casa haveria de marcá-lo para sempre. Jesus não nasceu pobre porque as circunstâncias as- sim o exigiram, mas sim por uma livre decisão de José. E, quando cresceu, decidiu abraçar perpetuamente a pobreza, à qual foi fiel a vida toda. Viveu pobre, compartilhou o que tinha, acercou-se dos mais necessitados, comeu o que lhe davam e morreu na mais absoluta miséria. Jamais exigiu coisa alguma para si. Não quis ocupar algo que pudesse fazer falta aos outros. Viram-no aplicar constantemente o princípio que, se alguém necessitasse de sua habitação, ele deveria ir ao estábulo. Do começo até o fim seu pai havia ensinado isso a ele.

A ESTRELA DE BELÉM ERA UMA ESTRELA?

Às voltas com uma estrela

Há quase dois mil anos, conforme o Evangelho, che- garam a Jerusalém uns magos vindos do Oriente, depois de enfrentar uma longa viagem e as suspeitas do rei Herodes, para trazer ouro, incenso e mirra a um menino recém-nasci- do num estábulo.

Como eles mesmos contaram ao final da cansativa viagem, tinham-se colocado a caminho porque viram uma estrela no Oriente, que os guiara precisamente até ali, desa- parecendo logo depois.

Quando os magos se apresentaram perante o velho déspota Herodes que se achava nos últimos anos de sua vida, carregado de complexos de perseguição e molestado por complôs, o seu espanto foi muito grande. E, reunido numa das salas de seu palácio com os sábios da corte e com os recém-chegados, procurou saber melhor a respeito daquela estrela e do tempo de sua aparição.

Desde então muitos astrônomos, eruditos, exegetas e cientistas prosseguiram as investigações iniciadas por Herodes e sua gente e propuseram, ao longo da história, di- versas teorias, e aventuraram diferentes opiniões que até hoje não conseguiram esclarecer o mistério.

Foi uma estrela nova?

A hipótese que mais naturalmente parece impor-se, uma vez que o próprio Evangelho chama aquele fenômeno de “estrela” ( astér), é que se trata de uma estrela denomina- da nova. Segundo os astrônomos, em determinados momen- tos de suas vidas, certas estrelas adquirem uma intensidade tal que chegam a multiplicar cem mil vezes sua própria luz. Este acidente, acontecido no decorrer da evolução de uma estrela e que dura tão-somente uns meses, tem característi- cas tão especiais que parece o nascimento de uma nova es- trela. Daí seu nome.

Embora este fato tivesse sido bem esclarecido somen- te através da astronomia moderna, já Heparco de Rodas, no século II antes de Cristo, fala de um estrela nova detectada por volta do ano 134 a.C. Seu brilho era tal que podia ser vista em plena luz do dia.

Mas foi só em 1572, quando foi observada a estrela nova, é que se deu lugar a esta teoria. Foi divisada por al- guns navegadores espanhóis e brilhou durante todo o mês, tal como Vênus, até se extinguir. Com estes dados, Goodrich formulou uma teoria no século XVIII. Deduziu que a referi- da estrela deixava-se ver a cada trezentos anos e que foi, segundo sua opinião, a estrela que surpreendeu os Magos.

Esta hipótese explicaria como eles poderiam viajar durante o dia, guiados por uma estrela, e porque depois de alguns meses, o tempo suficiente para guiar sua viagem des- de o Oriente, ela desapareceu.

Foi o cometa Halley?

Uma teoria, já sustentada por Orígenes, dizia que se tratava de um cometa. Com efeito, o nascimento de vários

personagens famosos da antigüidade, como Mitrídates, rei do Ponto, e o imperador Augusto, havia sido precedido pelo surgimento de um cometa.

Dentre os mil e quinhentos que hoje conhecemos, o mais espetacular é o cometa Halley, que alcança uma longi- tude aparente de cento e cinqüenta graus e uma extensão linear de uns trinta milhões de quilômetros.

Detectado desde antigamente, já o célebre pintor florentino, Giotto, que contemplou sua imponente aparição, pintou-o em seu famoso óleo da Adoração dos Magos como a estrela de Belém. Ele voltou a aparecer em 1682, quando o astrólogo inglês Edmond Halley pôde estudá-lo atentamen- te. Depois foi visto em 1785, em 1910 e finalmente em 1986.

Segundo os cálculos dos astrônomos ocidentais o co- meta Halley apareceu em fins de agosto do ano 12 antes de Cristo, o que nos aproximaria bastante de seu nascimento. Esta data, porém, nos obrigaria a retroceder muito a data do nascimento de Cristo. Além disso há outro dado contra: se- gundo as antigas crenças populares, a aparição de um come- ta anuncia algum acontecimento nefasto: terremoto, seca, guerra ou peste. Dificilmente poderia ser considerado como um sinal divino do Messias.

Foi uma conjunção de planetas?

João Kepler foi quem concebeu a idéia de que a estre- la que guiou os três magos até Belém não era na realidade uma estrela, mas sim dois planetas muito próximos.

De fato, observando o céu em dezembro de 1603, o astrônomo alemão contemplou, atônito, como se conjuga- vam Júpiter (o planeta real) e Saturno (a estrela dos gigan- tes) na constelação de Peixe (o sinal da água, ligado ao rito

cristão do batismo). Esta conjunção que volta a acontecer a cada oitocentos e cinco anos teria se verificado no ano 7 antes de Cristo. Foi uma conjunção visível nos céus da Pa- lestina. Ambos os astros teriam aparecido como um só, mui- to luminoso, coisa rara aos olhos humanos. Por este motivo teria sido considerada como um sinal especial da divindade, principalmente tendo em conta que se repetiu mais duas ve- zes naquele ano, em outubro e em dezembro.

Pois bem, hoje sabemos que o rei Herodes morreu no ano 4 antes de Cristo. Por esta razão Jesus não pode ter nas- cido no ano 1, como normalmente se crê. Mas sim no ano 4 antes do início de nossa era para poder vir ao mundo durante o governo de Herodes. Quantos anos antes? Talvez um ou dois, ou seja, no ano 5 ou 6 antes da era cristã. Portanto, um fenômeno celeste acontecido no ano 7 a.C. o faz coincidir perfeitamente com estas novas precisões. De fato, esta hipó- tese é a que goza de maior aceitação entre os que interpre- tam literalmente o relato evangélico.

Os caprichos de uma estrela

Mas se prestarmos atenção no que diz São Mateus em seu Evangelho, perceberemos que em todas estas tentativas de identificação deste misterioso sinal com uma estrela não há nada que deva ser levado em conta, a não ser a boa inten- ção, uma vez que elas seguem um caminho falso.

Basta deter-nos um instante nas particularidades do relato (cf. Mt 2,1-12) para compreendermos que a descri- ção da estrela contradiz a realidade do mundo planetário e estelar.

Com efeito, o curso visível dos astros no céu, segundo nossa posição a partir da terra, é do Oriente para o Ocidente.

Pois bem, para que pudessem seguir tal estrela do Oriente até Jerusalém, os magos deveriam ter atravessado de cheio o feroz e tórrido deserto da Arábia, caminho este que nin- guém jamais ousara fazer. As caravanas chegavam sempre, seja do norte, seguindo a meia lua fértil, seja do sul, pela região chamada Arabá.

Há mais ainda. Uma vez chegados a Jerusalém, a es- trela continuou guiando-os até Belém, cidade que se encon- tra a 8 quilômetros ao sul. Que estranho corpo celeste este que viaja do leste para o oeste e do norte para o sul? Os astros não podem ficar ziguezagueando pelo céu.

Mais adiante o Evangelho conta que a estrela, que ia adiante dos Magos, chegou ao destino e se deteve no lugar exato onde se achava o Menino Jesus.

Pode uma estrela desenvolver semelhante acrobacia?

Aqueles que querem a todo custo salvar a estrela como realidade lançam mão do argumento supremo do milagre. Deus, que é todo-poderoso, pode certamente fazer com que um astro trace no céu a órbita que ele quiser. Mas deverá explicar então uma última dificuldade: a estrela comete um engano. Em vez de guiar os Magos diretamente a Belém, os conduz a Jerusalém.

Sem tal erro Herodes não ficaria sabendo do nasci- mento de Jesus e teria sido evitado todo o drama da morte dos inocentes. Pode um sinal guiado por Deus cometer tão macabro deslize? Quando escreveu estas coisas Mateus pen- sava mesmo numa estrela?

A estrela, símbolo da fé

Se a estrela do relato não era um fenômeno celeste, então é um símbolo com algum significado. Isto leva os auto-

res a se perguntarem pelo verdadeiro sentido da estrela e de todo o relato. E uma das explicações mais lógicas e coeren- tes supõe que Mateus compôs esta passagem para expor a tese da universalidade da salvação. Assim cada elemento da narrativa simbolizaria uma realidade distinta: os magos re- presentariam os pagãos; Herodes, os judeus, e a estrela, a fé.

Portanto, o que Mateus pretende dizer-nos é que Jesus, uma vez nascido em Belém como um menino judeu e para salvar os judeus, quis também ofertar ao paganismo, já desde o berço, a possibilidade de um encontro, para o qual envia a luz da fé (estrela), cuja missão é guiar os gentios (magos) até o lugar onde se encontra o Salvador (Jesus).

Mas Mateus está consciente que o povo judeu é o povo eleito e que tem um privilégio acima de todas as demais nações. Por isso a estrela (fé) não pode guiar os Magos (pa- ganismo) diretamente a Jesus. Enquanto o judaísmo conser- var sua posição de privilégio, só por intermédio dele é pos- sível chegar até o Salvador. É assim que no relato a estrela não guia os Magos até Belém, mas até Jerusalém, para que seja o judaísmo (Herodes) que lhe dê acesso a Jesus. A es- trela, pois, não aparece equivocando-se, mas cumprindo sua missão, levando os pagãos a confrontar suas inquietudes com os judeus.

Um privilégio recusado

Somente quando o judaísmo rejeita Jesus, fica livre o caminho para que os pagãos possam ir guiados pela estrela (fé) até o lugar onde se acha o Salvador.

Todo o privilégio tem sua correspondente obrigação. E o evangelista recorda que Israel estava muito mais obriga- do a receber o Messias. Tinha as luzes necessárias para des- cobri-lo no menino Jesus. Inclusive seu nascimento em Belém anunciava aos quatro cantos da terra que o reino messiânico havia chegado. Mas o relato dos Magos nos en- sina como o judaísmo renuncia voluntariamente a sua posi- ção especial. Não pode ir ao encontro do Messias. Ele o re- jeita. Mais ainda, o tem como um usurpador e um perigo. E recusando conduzir o mundo gentio até o lugar onde se en- contrava Jesus, renuncia voluntariamente aos privilégios que sua situação de povo escolhido lhe dava.

E é então, só então, que se abrem as portas ao paganis- mo para aproximar-se diretamente de Jesus. Já não precisa mais achegar-se a ele através do judaísmo. O antigo povo dá lugar ao novo.

Esta realidade, que do ponto de vista histórico só se realiza com a ressurreição de Jesus, quando Israel renuncia definitivamente à sua situação de privilégio e Jesus abre a Igreja para todos os povos, Mateus a retrocede até o nasci- mento de Jesus e a conta como se todos os povos já se bene- ficiassem com a vinda do Messias.

A estrela dos Magos, no relato de Mateus, não é, pois, nenhum fenômeno celeste que teria aparecido realmente no firmamento, mas o símbolo da luz da fé que brilha nas tre- vas do pecado quando o Salvador aparece no mundo.

Mateus cria assim uma tese nova. Jesus, embora judeu e descendente de Davi, é um Messias com força para afugen- tar do mundo inteiro as trevas do pecado, por mais distante que se ache o homem e no deserto que esteja. Para ele este deve cumprir uma só coisa: deixar-se guiar pela luz da fé.

A estrela surge para todos

Os escribas e sumos sacerdotes esquadrinharam a Bíblia e encontraram nada menos que quatrocentos e ses- senta e seis profecias messiânicas e mais de quinhentas e cinqüenta conclusões tiradas das Escrituras. E até indica- ram a Herodes o lugar exato onde podia encontrar o Sal- vador, o verdadeiro Rei dos judeus. Contudo, ninguém se pôs em movimento. Os magos, ao contrário, deixam-nos o exemplo de quem está em atitude de busca diante de Deus.

Em nossa vida acontecem fatos carregados de sentido que reclamam nossa atenção. Certamente se alguém não se põe a investigar, a ver o que Deus quer nos dizer, vive mais tranqüilo, não se questiona, não tem problemas. Mas não progride, movendo-se num horizonte estreito, mesquinho, sem dimensões, e se priva do que lhe oferece sua capacida- de de progredir.

Os magos estavam à espera. Aguardavam. E quando apareceu algo em seu céu, compreenderam que era o sinal. Não duvidaram. Não se deixaram enredar em falsas hipóte- ses. Iniciaram uma longa caminhada com o desejo de cum- prir a vontade de Deus e seguiram adiante apesar de todos os sacrifícios que tal decisão implicava.

Na vida temos de seguir uma estrela. Um ideal. Um projeto de vida. Um modelo de santidade. Esta é a estrela que brilha para nós em nosso céu azul. E temos de segui-la apesar de todos os sacrifícios que ela impõe.

Jesus nos espera no final.

POR QUE JUDAS TRAIU JESUS?

O retrato de um traidor

Há um homem de quem todos falam com desprezo e cujo nome se converteu em símbolo da traição, do desespe- ro e do pecado: Judas Iscariotes, um dos doze apóstolos es- colhidos por Jesus.

Seu sobrenome, Iscariotes, significa “homem (ish) de Kariot” (Cariote), um povoado da Judéia, isto é, do Sul, donde provinham ele e sua família. Dentre os doze era o único pro- priamente judeu e não galileu.

A figura deste trágico personagem na história da hu- manidade aparece muito pouco no Novo Testamento e so- mente por causa de seu crime e desgraça. Por outro lado, a tradição posterior não o viu com bons olhos e o condenou a ser perpetuamente sinal de vergonha e de zombaria.

No decorrer de toda a história do cristianismo, os ho- mens quiseram penetrar na mente de Judas, tentando desco- brir por que traiu Jesus, mas nunca tiveram uma resposta satisfatória. O enigma desta traição permanecerá sempre entre as nuvens do mistério.

Mas há algo que devemos descartar: que Cristo o te- nha escolhido para atraiçoá-lo, que o escolheu sabendo que iria entregá-lo. Supor isto seria quase uma blasfêmia, por-

que seria admitir que Jesus colocou de propósito um homem numa situação em que lhe seria inevitável cometer o delito da traição, o que significa desconhecer o projeto de Cristo, que quer a salvação de todos.

Escolheu-o para que estivesse com ele

O Evangelho diz claramente por que Jesus escolheu Judas. Escolheu-o, assim como os demais apóstolos, para que estivesse com ele e para enviá-lo a pregar (Mc 3,14). E nada nos leva a pensar que durante os primeiros tempos Judas desempenhasse sua missão de uma forma menos digna que a dos demais companheiros. Pelo contrário, suas qualidades e seu afeto para com Jesus e seu interesse para com os cole- gas eram tais que o nomearam tesoureiro do grupo (Jo 12,6). Isto não teria acontecido, se Judas não gozasse de boa repu- tação entre os apóstolos e o Mestre. Pensar que Judas foi incontentável traidor desde o princípio não passa de um erro disparatado.

Que levou, então, o discípulo a entregar Jesus nas mãos de seus inimigos para que o matassem?

Só podem ser três as verdadeiras razões para tal. To- das as outras que apareceram no decorrer dos tempos são variantes dessas três. Trataremos de analisá-las e de ver qual delas é a que melhor se adapta aos dados que nos oferecem os evangelhos.

Por avareza

A maioria dos comentaristas está inclinada a pensar que foi a cobiça o motivo que levou Judas a cometer sua

traição, já que isto parece ser o mais óbvio. Para isto ba- seiam-se em três argumentos, tirados do próprio Evangelho:

ele o vendeu por dinheiro (cf. Mt 26,15), a que era excessi- vamente apegado, como nos mostra o episódio da mulher que unge os pés de Jesus, sob a censura de Judas (cf. Jo 12,4); e o Evangelho acusa-o de ladrão (cf. Jo 12,6).

Se analisarmos, porém, com mais atenção, os textos evangélicos, podemos perceber que deles não se tiram con- clusões tão evidentes.

Mateus é o único que fala da venda por trinta moedas de prata. Isto porque manifesta permanente esforço para mostrar a realização das antigas profecias em Jesus e assim vê cumprir-se nele uma profecia de Zacarias (cf. 11,12). Por outro lado, Marcos conta que Judas foi entregá-lo de graça, sem pedir nada em troca, e que foram os sacerdotes que, contentes, lhe prometeram dinheiro (cf. 14,10-11).

De qualquer modo, mesmo supondo a venda por trinta moedas de prata, isso fora um preço muito baixo, já que era o preço fixado pela lei para pagar a indenização pela morte acidental de um escravo (cf. Êx 21,32). Pela vida de um mestre da Lei, um homem ambicioso teria pedido muito mais. Judas realizara um negócio pouco vantajoso, que revelava pouca ambição.

Em relação ao protesto pelo esbanjamento do perfu- me, Mateus nos diz que a reprovação não foi só de Judas, mas de todos (cf. Mt 26,8). Por que, então, só Judas seria o ambicioso?

E por fim, a acusação de ladrão. Será que quando se escreveu o evangelho de São João, uns sessenta anos após a morte de Jesus, a tradição, que já lhe era adversa, não teria acrescentado, além do pecado de traidor, também o de latro- cínio? Muitos teólogos pensam assim.

Por ódio

Alguns exegetas pensam que Judas era um nacionalis- ta, fanático e violento e que pertencia a um grupo da época chamado de “sicários”, cujo objetivo era expulsar, de qual- quer forma, os romanos da Palestina.

Judas teria visto em Jesus um líder influente e podero- so que poderia encabeçar, com sua palavra e poderes mila- grosos, uma grande rebelião judaica contra os estrangeiros que subjugavam seu povo. Ao comprovar, no entanto, que Jesus seguia outro caminho, o do amor e o da não-violência, e que inclusive fazia favores e milagres aos próprios solda- dos romanos, sua devoção converteu-se primeiramente em amarga desilusão e logo depois em profundo ódio, que o levou a buscar a morte daquele de quem havia esperado tan- tas coisas e que terminara por enganá-lo. Quem sabe Judas acabou odiando a Jesus por não ter sido o Cristo que ele, como muitos judeus, queria que fosse.

Este argumento, no entanto, mostra-se pouco convin-

cente.

Por exemplo: durante o julgamento de Jesus os sumos sacerdotes e o Sinédrio buscavam com afã testemunhas con- tra o Senhor e não as encontravam (cf. Mt 26,59-60). Por que Judas não se apresentou para prestar declaração? Que testemunho teria sido mais eficiente do que o de alguém que estava mais próximo do Mestre?

E por que, a partir da traição no Jardim de Getsêmani, Judas desaparece de cena, em vez de usufruir, como teria sido lógico, do espetáculo da paixão?

Enfim, o suicídio, símbolo inequívoco de desespero, não concorda muito com a hipótese de seu ódio contra Je- sus.

Judas era, sim, um homem nacionalista, fanático e violento, talvez partidário dos sicários, mas não entregou Jesus, movido pelo ódio.

Por amor

Há uma terceira razão pela qual Judas pode ter traído Jesus e, talvez, a mais provável de todas. Talvez Judas ja- mais tenha desejado a morte de Jesus, porque o amava.

Havia, sem dúvida, entre ele e Jesus uma especial e personalíssima relação que não só se expressava no fato de ter sido nomeado administrador econômico do grupo, mas em alguns detalhes da última ceia.

Lendo o Evangelho, parece claro que Jesus, colocado no centro da mesa, tê-lo-ia provavelmente feito assentar-se a seu lado, no lugar de honra, com quem poderia falar em particular, sem ser ouvido pelos demais. Só assim se explica que, quando Judas lhe perguntou se era ele quem iria traí-lo, Jesus pôde responder afirmativamente: “Tu o disseste!” (Mt 26,25), sem despertar a reação dos onze contra ele. Há, no entanto, mais uma prova de especial afeto entre Jesus e Judas. Na cultura oriental é um gesto de particular estima oferecer um bocado a um convidado. Se vamos dar crédito ao que nos conta o Evangelho, Jesus o fez quando molhou o pão ázimo na comida e o deu a Judas (cf. Jo 13,26). Revela-se, inclusive, uma insólita intimidade entre ambos o fato de que Jesus pôde transmitir a Judas mensagens que só ele e nin- guém mais compreende, sem chamar a atenção dos outros, como quando lhe diz: “O que tens a fazer, faze-o depressa!” (Jo 13,27).

Judas não queria a morte do Senhor. Amava-o, mas de uma forma equivocada.

O homem que quis mudar Deus

Judas era um homem nacionalista e violento, com so- nhos de poder e de grandeza. E não alimentava a menor dú- vida de que Jesus poderia transformar este sonho em reali- dade. Via certamente nele um líder divino com a missão de instaurar um reino novo, magnífico, poderoso. Por isso du- rante os primeiros tempos comportou-se como um apóstolo fiel e correto, feliz ao ver as multidões que se aglomeravam em volta do Mestre e que o seguiam, extasiadas, para escu- tar sua palavra.

Contudo, a certa altura de sua vida pública, quando mudou o teor de sua pregação e começou a falar da necessi- dade de sua paixão, de sua morte dolorosa, de seus sofri- mentos, a fé de Judas sofreu uma dura crise e seu ânimo começou a decair terrivelmente desenganado.

O primeiro sinal da tempestade interior aparece quan- do Jesus, em seu discurso na sinagoga de Cafarnaum, rejeita a homenagem do povo que quer fazê-lo rei. Judas, então, percebe que o triunfo tão ardentemente desejado, o sonho que almejava não aconteceria. É-lhe difícil entrar pelos no- vos caminhos que o Mestre sugere, resiste a segui-lo por esta rota sombria, sente-se pessoalmente desiludido e entra numa angústia que é fruto amargo de uma crise anterior de ilusões terrenas, mas sinceramente afeiçoadas a Jesus. Ele o ama e não quer que sofra. E pretende impor-lhe seus critéri- os demasiado humanos, contra o caminho de servo sofredor que se apresentava diante de seu Mestre.

É então que resolve entregá-lo.

Ao ver que ele não se decidia a estabelecer o reino do qual tanto falava, que se movia com demasiada lentidão, quis obrigá-lo a agir. De forma alguma Judas queria que seu mes-

tre fosse crucificado. Pensava somente em criar uma situa- ção em que Jesus se visse forçado a usar seu poder. Pensou que ao se ver encurralado pelos soldados romanos, entre a espada e a parede, faria um magnífico milagre, acabaria com a ocupação estrangeira e instauraria, por fim, o reino sobre o qual o ouvira muitas vezes pregar. Judas sonhava. Mas se equivocava.

Com um beijo de amor

Muito se tem falado sobre o beijo da traição. No en- tanto o texto original grego do Evangelho parece dizer outra coisa. Com efeito, quando se relata que Judas teria dado como senha aos soldados o beijo no Mestre, usa-se o verbo filein, que é a palavra corrente para designar beijar (cf. Mt 26,48). Mas quando se aproxima de Jesus e o beija, o Evangelho usa o verbo katafilein , que significa beijar afetuosamente, de forma apaixonada e repetida , usado propriamente para o beijo característico do amante. Por que Judas haveria de fa- zer assim?

Mais ainda: por que seria necessário identificar Jesus? Impossível que as pessoas e os soldados que foram prendê- lo não conhecessem este homem que ensinava todos os dias nos claustros do templo. Não. Jesus não precisava de identi- ficação alguma.

É provável que, quando Judas se adiantou para beijá- lo, tê-lo-ia feito como um discípulo que beijava a seu mes- tre, com afeto, e que tenha sido sincero ao fazê-lo. E logo, dando um passo atrás com expressão de orgulho, esperava que Jesus fulminasse a soldadesca com um portento e esta- belecesse seu triunfo definitivo.

Um final como Deus manda

É neste momento que começa a tragédia de Judas. Porque comprovou que seu Mestre não se defendia, não exer- cia violência, não agia de forma esperada. E compreendeu, embora tardiamente, que havia se enganado. Que Jesus nun- ca havia pensado em aniquilar violentamente seus inimigos. E, desesperado, foi até os sacerdotes e devolveu-lhes o di- nheiro, dizendo: “Pequei, entregando sangue inocente” (Mt

27,4).

Segundo o Evangelho, a mudança de atitude espiri- tual de Judas provocou diretamente a condenação de Jesus à morte. Por isso ele não esperava, apesar de conhecer as más intenções do Sinédrio, mas julgava que na última hora e de modo miraculoso se livraria de seus inimigos. Judas, por- tanto, não queria a morte de Jesus.

Chegamos assim à beira do abismo imensamente obs- curo que é a alma de um homem encurralado e fraturado em suas mais caras ilusões, antagônicas aos ideais de Deus.

A tragédia de Judas foi que ele se negou a aceitar Je- sus tal como era e tratou de convertê-lo naquilo que queria que ele fosse. O drama de Judas foi o do homem que pensou que sabia mais do que Deus.

Judas se condenou?

Orígenes escreveu uma das mais belas coisas que já se disseram sobre este apóstolo. Ele afirma que quando Judas se deu conta do que acabara de fazer apressou-se em suici- dar-se, esperando encontrar-se com Jesus no mundo dos mortos e ali, com a alma a descoberto, implorar-lhe o per- dão.

A Igreja nunca ensinou a condenação de Judas. Nem o poderia fazer, já que sua missão consiste em salvar e em declarar os que já estão salvos, isto é, os santos, mas nunca os condenados. Nem sequer as palavras de Jesus sobre Judas, “Melhor seria para este homem se não tivesse nascido” (Mc 14,21), implicam uma condenação eterna. Esta resulta me- nos provável ainda, se levamos em conta que o arrependi- mento do mal ocasionado a outra pessoa supõe amor. Judas amava a Jesus e, ao vê-lo diante daquela morte ignominiosa, tornou a sentir mais forte aquele amor.

A vida de todo homem tem suas luzes e sombras e só pertence a Deus saber quem pecou mais.

Conta-se que um dia o Senhor apareceu a Santa Tere- sa de Jesus a quem costumava tratar com amorosa confian- ça. Santa Teresa, mulher enfim, tinha curiosidade de saber se Salomão estava no céu ou no inferno e perguntou assim:

— Senhor, Salomão se salvou? O Senhor respondeu-lhe desta forma enigmática:

— Idolatrou! A santa, espantada, voltou a perguntar-lhe:

— Então ele se condenou? E o Senhor lhe respondeu:

— Edificou o Templo!

Com isso Teresa aprendeu a lição: há assuntos que estão reservados aos arcanos desígnios de Deus.

Queremos saber os caminhos de Judas após sua mor- te? Por tais caminhos só Deus pode segui-lo.

POR QUE SE VISITAM SETE IGREJAS NA QUINTA-FEIRA SANTA?

O dia do Sacrário humilde

Na noite de Quinta-feira Santa, depois da cerimônia do lava-pés e da comemoração da última ceia, ao terminar a missa, é costume realizar-se em todas as igrejas um rito que é único no ano: as hóstias são levadas em procissão a uma capela reservada, chamada “Monumento”, e aí o Santíssimo Sacramento é adorado pelos fiéis até a meia-noite e às vezes até a madrugada do dia seguinte.

Não haveria nada de estranho nisto, se não fossem certas particularidades desta adoração.

Em primeiro lugar o sacrário, que normalmente cos- tuma ser esplêndido, regiamente enfeitado e cuidado, apre- senta-se com poucos adornos e num lugar mais humilde. Em segundo lugar, o povo deve fazer a adoração a distância, sem poder aproximar-se do sacrário como geralmente acon- tece. Finalmente, o povo cristão costuma visitar sete igrejas ou capelas nesta noite e aí venerar a distância o monumento preparado, onde estão guardadas as hóstias.

Os passos na noite

Por que a adoração e as visitas da Quinta-feira Santa têm estas estranhas características? Por que devem ser sete as igrejas a serem visitadas?

Tudo isto tem sua origem na última noite que Jesus passou neste mundo e que uma antiga tradição desenhou nestes ritos.

De fato, os Evangelhos relatam cuidadosamente os tormentos da penosa noite de quinta-feira, na qual Jesus foi preso, manietado, golpeado, flagelado, coroado de espinhos, ridicularizado com falsas adorações e reverências e tudo isto na mais absoluta solidão, uma vez que seus amigos fugiram temerosos na escuridão do monte das Oliveiras.

Desde tempos bem antigos, os cristãos quiseram imi- tar os passos de Jesus naquela última noite e, seguindo o relato da paixão oferecido pelos Evangelhos, descobriram que o Senhor tinha sido levado perante sete tribunais e com- parecido a sete sessões, entre a meia-noite de Quinta-feira Santa e a manhã de sexta, durante as quais foi escarnecido e maltratado.

O Evangelho em concordância

Contudo, se tomarmos qualquer um dos quatro evan- gelhos, verificaremos que nenhum deles enumera os sete tri- bunais na paixão de Cristo. Pelo contrário, seus relatos não coincidem. Por exemplo: Lucas é o único que diz que Jesus foi julgado por Herodes Antipas. Através de João ficamos sabendo que o levaram à casa de Anás, como também fica- mos cientes do interrogatório do Sumo Sacerdote Caifás.

Somente Mateus e Marcos falam-nos de um julgamento no- turno do Sinédrio, o mais alto organismo judicial do povo judaico.

Na antigüidade, porém, era costume fazer uma leitura em concordância dos Evangelhos. Isto é, não se tomava cada um dos evangelhos separadamente, como hoje fazemos para ver qual a perspectiva teológica do evangelista, mas os qua- tro eram misturados e colocados em concordância. Procura- se, assim, obter dentre eles um só relato unitário e suposta- mente mais completo.

Desta maneira, juntando as quatro paixões, conclui-se que Jesus tinha comparecido diante de sete instâncias judi- ciais, algumas privadas, outras públicas, antes de seu dolo- roso fim.

As sessões noturnas

O primeiro lugar para onde levaram Jesus logo após sua prisão no monte das Oliveiras foi a casa de Caifás (cf. Jo 18,13). Não se diz a nós que trato lhe deram aí. Sabemos somente que mais tarde o levaram à casa do Sumo Sacerdo- te, em exercício naquele ano, chamado Caifás (cf. Jo 18,24) e genro de Anás, que provavelmente vivia nas imediações, onde Jesus fora interrogado e esbofeteado.

Todo o interrogatório narrado por João 18,19-24 deve ser colocado na casa de Caifás e não na casa de Anás, como parece deduzir-se do contexto, porque o mesmo evangelista diz que quem o fez foi o Sumo Sacerdote, portanto, Caifás.

Marcos e Mateus nos dão notícia de uma terceira ses- são, nesta mesma noite, na qual fizeram comparecer Jesus: a do Sinédrio, a suprema corte dos judeus (cf. Mt 26,57-66).

Fizeram-no comparecer a uma reunião noturna, às pressas. Presidia o tribunal o Sumo Sacerdote e interrogavam-no se- tenta e um membros, entre os quais estavam saduceus, fariseus e escribas, todos peritos em questões de leis. Estes ouviram as falsas testemunhas que de improviso consegui- ram reunir na última hora. Mas, para infelicidade deles, ha- via divergência nos testemunhos e portanto não conseguiam chegar a um acordo nas acusações.

A última manhã

Quando amanheceu, só Lucas nos relata, o Sinédrio reuniu-se de novo para um último interrogatório (cf. Lc 22,26), o quarto a que Jesus se submeteu. Durante este inter- rogatório Jesus se declarou Filho de Deus. Isto foi suficiente para que o Sinédrio tivesse as provas definitivas para poder condená-lo à morte.

Naquele tempo, porém, a Palestina estava sob o domí- nio do Império Romano. E Roma, embora tivesse permitido aos judeus que continuassem regendo-se por suas próprias leis e tribunais, tinha privado o Sinédrio da faculdade de aplicar a pena de morte. Poderia decretar qualquer outra pena; a capital, porém, estava reservada aos tribunais romanos.

E assim os chefes dos judeus, não querendo conten- tar-se com nenhum castigo para Jesus inferior ao da morte, prepararam a acusação formal para que o réu pudesse ser julgado pelo governador romano. Este não vivia em Jerusa- lém, mas em Cesaréia Marítima, cidade situada cerca de cento e vinte quilômetros a noroeste de Jerusalém. Mas ele estava por acaso naquele dia em Jerusalém para presenciar os fes- tejos da Páscoa.

Querer e não poder

Pôncio Pilatos, com o título de Prefeito, governava então a Judéia em nome de Roma e perante ele levaram Je- sus (cf. Lc 23,1). Os quatro evangelistas preocuparam-se em relatar este episódio. Foi o quinto interrogatório a que expu- seram o Senhor, e na primeira instância Pilatos o declarou inocente (cf. Jo 18,38).

Os sacerdotes e alguns do povo, sublevados por estes, insistiam em sua condenação. Então, não querendo compro- meter-se no processo e ouvindo que Jesus era natural de Nazaré, ou seja, da jurisdição galiléia, encontrou uma saída. Encaminhou-o para que fosse julgado pelo governador da Galiléia, Herodes Antipas, que por acaso também estava, neste dia, de passagem por Jerusalém para presenciar a festa pascal dos judeus.

Só Lucas relata o que ocorreu neste encontro (cf. Lc 23, 6-12). Jesus foi interrogado pela sexta vez (cf. Lc 23,9), mas desta vez nada respondeu. Guardou absoluto silêncio, de tal forma que causou estranheza ao próprio Herodes que o julgou louco. Por isso, depois de desprezá-lo e ridicularizá- lo como louco, mandou-o de volta a Pilatos.

Três vezes inocente

A sétima e última vez que Jesus compareceu perante um tribunal foi a segunda instância diante de Pilatos. Os quatro evangelistas unem-se ao descrevê-la.

O Prefeito romano, sabendo que o acusavam por inve- ja, tentou, por todos os meios, livrá-lo da morte. Mandou açoitá-lo para que inspirasse compaixão, propôs-lhes indultá- lo por ser festa da Páscoa, tornou a interrogá-lo em particular,

mas sem sucesso. Então, pela segunda vez, o declarou ino- cente em meio a uma gritaria geral (cf. Jo 19,4). Mas, temen- do perder o cargo, depois de declarar, pela terceira vez, a ino- cência de Jesus, terminou por ceder às pressões dos sacerdo- tes e dos magistrados judeus. E lavando as mãos, fazendo-se de desentendido, entregou-o para que o crucificassem.

Seguir o Mestre

Em memória daqueles sete interrogatórios e apresen- tações de Jesus diante das autoridades da época, os cristãos, segundo uma antiga tradição, quiseram recordar a solidão do Mestre, precisamente na noite de quinta-feira, na qual foi submetido a todos estes ultrajes. E para acompanhá-lo e se- gui-lo neste trajeto que terminou levando-o à morte, pere- grinam, visitando sete igrejas para evocar os sete tribunais pelos quais passou o Senhor.

O Evangelho conta também que um dos apóstolos de Jesus, Pedro, seguia-o à distância (cf. Lc 22,54), com receio de ser reconhecido como partidário de Jesus e por este moti- vo ser preso. Por isso a adoração nas igrejas se faz à distân- cia, sem que nos seja permitido achegar-nos ao sacrário, para que sintamos o sofrimento da distância em que tantas vezes nos colocamos quando temos medo de comprometer-nos com seus ensinamentos.

Daí a simplicidade com que nesta noite se apresenta o sacrário, uma vez que aqueles tribunais perante os quais ar- rastaram Jesus não foram lugares de honra, senão de humi- lhação e vergonha.

Oxalá todos os cristãos, que nesta noite seguem de longe o Senhor durante sua paixão, possam segui-lo de per- to em sua doutrina durante todo o ano.

JESUS CRISTO DESCEU AOS INFERNOS?

Um dogma dominical

Os que participam da missa aos domingos, depois de escutar a pregação do sacerdote, rezam o “creio”, isto é, re- citam em voz alta a lista dos artigos de fé em que um católi- co deve crer para estar unido aos ensinamentos da Igreja.

Mas normalmente o fazem de modo mecânico e roti- neiro, de tal modo que não prestam maior atenção ao que

estão dizendo. E é assim que no elenco destes dogmas de fé nos quais dizem crer, escorrega-se-lhes um tão estranho quan- to preocupante. É o dogma que afirma: “Creio que Jesus Cristo padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu aos Infernos”. Hoje, desceu à mansão dos mortos.

Se alguém de repente nos perguntasse se cremos que Jesus esteve no Inferno, com toda segurança diríamos que não. E, contudo, ao chegar o domingo, mais uma vez o dize- mos sem titubear e com toda a naturalidade. O que é que queremos afirmar com isso?

O lugar da desesperança

Em sua Divina Comédia, Dante nos conta que, ao che- gar um dia, durante uma visão, à porta do Inferno, viu um grande cartaz com uma inscrição pavorosa que anunciava a todos quantos ali entravam: Aqueles que aqui entrarem aban- donem de fora toda esperança.

É que de fato, e tal como ensina a Igreja, o Inferno é um estado definitivo, e uma vez que alguém ali entrou nun- ca mais pode deixá-lo. Jesus Cristo, quando subiu aos céus, teria violado esta lei eterna?

E, se o Inferno é o destino dos condenados, isto é, da- queles que durante sua vida recusaram a Deus com uma vida de pecado, como Jesus poderia ter estado ali, se, como afir- ma Hebreus 4,15, ele nunca cometeu um pecado?

No mais, a teologia ensina que o Inferno é a ausência total de Deus. Jesus Cristo, que era o próprio Deus, não pode ter ido até lá, porque, ao chegar, o Inferno se converteria em céu.

Então, Jesus Cristo desceu aos Infernos? Devemos responder inevitavelmente que sim, já que se trata de um dogma de fé proposto pela Igreja.

Entendemos, no entanto, que mais importante que sa- ber de cor as verdades de nossa fé é entender seu significa- do.

As recordações do Sábado Santo

Todo cristão sabe que acontecimento celebramos na Sexta-feira Santa e no Domingo de Páscoa. Pouquíssimos,

porém, poderiam explicar que fato a Igreja comemora no Sábado Santo.

Saberão que liturgicamente é um dia vazio em que não se pode celebrar missa, nem batismos, nem casamentos. Em síntese, dirão que é um dia de luto pela morte e pelo sepulta- mento de Cristo. Nada mais, porém.

E não obstante, a Igreja coloca neste dia o dogma da

descida de Cristo aos Infernos.

Trata-se de uma verdade esquecida, que hoje não des- perta interesse na pregação e na catequese, a tal ponto que muitos cristãos, inclusive, o desconhecem e até o acham es- tranho. Constitui-se, no entanto, um pilar fundamental de nossa fé. Com ela a Igreja quer expressar duas realidades que são base para a compreensão de toda a doutrina cristã.

Quando a terra era plana

Comecemos dizendo que os Infernos não são o In-

ferno.

De acordo com a teologia católica, o Inferno é o esta- do em que se encontram os condenados eternamente. Por outro lado, os Infernos é o nome dado ao lugar, conforme imaginava antigamente Israel, para onde iam todos os que morriam.

Com efeito, os judeus no Antigo Testamento tinham uma imagem do cosmos bem diferente da nossa. Represen- tavam-no como um disco enorme e plano, circular, rodeado pelas imensas águas do oceano. Estava assentado sobre qua- tro colunas que se afundavam no abismo.

Acima do espaço estava o firmamento. Era uma cúpu- la sólida, sobre a qual se supunha existir água e que servia

para separá-la das águas inferiores. Desta cúpula pendiam o sol, a lua e as estrelas. Para chover abriam-se as comportas de cima e então as águas caíam sobre a terra.

O terceiro estrato deste cosmo era o lugar chamado em hebraico sheol, a morada dos mortos, o mundo subterrâ- neo, colocado debaixo da terra. Para ali desciam todos os defuntos, sem exceção.

Quando a palavra sheol teve de ser traduzida para o grego, usou-se o vocábulo hades. Mais tarde, ao passar para o latim, traduziu-se por infernus, que significa exatamente isto: lugar inferior, subterrâneo. Estas três palavras, pois, indicam a mesma realidade.

O sheol, morada dos mortos

Os hebreus não tinham desenvolvido quase nada so- bre a doutrina do além. Por isso é muito pouco o que a Bí- blia diz sobre o sheol ou os infernos.

Estava supostamente localizado abaixo da terra, pelo que se falava de “descer” ao sheol, e envolto em trevas, uma vez que a luz era patrimônio único dos vivos. Aí não se ou- via nenhum som, nem as vozes de ninguém, mas vivia-se no mais absoluto silêncio.

Quem baixava ao sheol não podia regressar nunca mais. Para esta região sombria e tenebrosa iam todos os homens que haviam transpassado as fronteiras da vida. Bons e maus, indistintamente, tinham como inevitável destino final a te- nebrosa morada dos mortos.

A Bíblia chama os habitantes do sheol com o enigmá- tico nome de derefaím (os impotentes), uma vez que ali es- tavam passivos e debilitados, com uma existência tênue e

indolente. Nada faziam, em nada pensavam. Não gozavam de nada, nem sabiam o que se passava na terra. Não podiam louvar a Deus, nem ter contato com ele. Eram sombras vi- ventes.

Certo, mas difícil de acreditar

Pois bem, não foi algo fácil de ser admitido pelos cris- tãos das diversas épocas que Jesus, sendo Deus e gozando do poder e da condição divina, tenha morrido como um sim- ples mortal e provado o sheol.

E entre os primeiros cristãos havia quem negasse que Jesus tivera um corpo real, autêntico, mortal, igual ao nosso e se contentava em sustentar que seu corpo era aparente, como uma veste exterior, uma roupagem que cobria a pes- soa divina.

Os que defendiam esta doutrina herética foram cha- mados de docetistas (do verbo latino doceo: parecer, apa- rentar). Com um corpo aparente, era lógico que Jesus não morrera de fato, não pelo menos como qualquer ser huma- no.

Desta forma, acreditavam exaltar mais ainda a figura de Jesus, como acontece atualmente entre os muçulmanos, que o consideram um profeta tão grande (embora não Deus) que não deve ter morrido realmente. Segundo o Alcorão , na sexta-feira santa, em meio à confusão, os soldados romanos crucificaram, por engano, a Simão Cireneu, enquanto Jesus fugia.

Compreende-se, então, como na Igreja foi difícil acei- tar a idéia do Cristo humanamente morto.

Um morto bem morto

O perigo era grande, porque, se Jesus Cristo não tives- se de fato morrido, muito menos teria ressuscitado. E então não teria realizado nossa salvação e tudo estaria como antes de sua vinda.

Viu-se, portanto, a necessidade de evidenciar isso num dogma que ficou definido assim: Creio que Jesus Cristo morreu e foi sepultado. E para que não houvesse nenhuma dúvida sobre sua morte real, acrescentou-se: desceu aos In- fernos. Hoje, à mansão dos mortos.

A frase desceu aos Infernos, como se entende, com- põe-se de conceitos que já não são os nossos. Agora que sabemos que a terra não é plana, mas redonda, não acredita- mos que os mortos baixem a nenhum lugar inferior. A ver- dade de fé segue de pé. Com ela se quer dizer que Jesus morreu realmente, que passou pela humilhação da morte, separado desta vida, excluído do resto do mundo que conti- nua vivendo.

Se a ressurreição tivesse acontecido imediatamente após o último suspiro de Cristo, seria possível duvidar da realidade de sua morte. Mas não foi assim. Cristo permane- ceu na situação de morte; sua “descida” ao sheol constitui o limite extremo de seu aniquilamento. Com ela foi até o fun- do.

É o que queriam expressar os primeiros cristãos, quan- do afirmavam que Cristo havia descido até os abismos tene- brosos da terra: que havia morrido realmente.

O ruído de cadeias rompidas

Havia, porém, um segundo aspecto que se queria su- blinhar com esta frase: a salvação de todos os homens justos do Antigo Testamento.

Com efeito, nos Infernos, no sheol, estavam todos os bons, os justos, os santos, que haviam morrido antes de Cris- to. E nenhum deles podia entrar no céu, na salvação, antes de Cristo, porque, como diz São Paulo, ele é o primeiro a ressuscitar dentre os mortos, o primeiro dentre os irmãos, o primeiro em tudo (cf. Cl 1,18). Estavam todos esperando, nos Infernos, que se realizasse a redenção de Cristo.

Quando morreu, baixou para buscá-los e para dar-lhes a boa notícia e levá-los com ele ao Paraíso. Cristo inaugurou o Céu e atrás dele entram todos os que tinham sido dignos de salvação antes de sua vinda.

As cadeias, que segundo Pedro no seu discurso de Pentecostes retiveram Cristo e todos os defuntos no sheol (cf. At 2,24), romperam-se para sempre.

A Bíblia o afirma

O mesmo Pedro escreve sobre isto em sua primeira

carta, embora de forma velada e confusa, ao relatar: “Pois também Cristo morreu uma vez pelos pecados, o Justo pelos injustos, para vos conduzir a Deus. Sofreu a morte em sua

carne, mas voltou à vida pelo Espírito. E neste mesmo Espí-

rito foi pregar aos espíritos que estavam na prisão

...”

(1Pd

3,18-19). E mais adiante acrescenta: “Pois, para isso foi anunciada a boa nova aos mortos, a fim de que, julgados como homens na carne, vivam segundo Deus no espírito”

(1Pd 4,6).

Mateus também se refere a esta libertação, entre a morte e ressurreição de Cristo, quando conta que, ao expirar Jesus, “abriram-se os túmulos e muitos corpos de santos ressuscitaram e, saindo dos sepulcros, depois da ressurrei- ção de Jesus, vieram à cidade santa (escatológica, isto é, o céu) e apareceram a muitos” (Mt 27,52-53).

Assim também João, no Apocalipse, apresenta Jesus como o vivente: “Estive morto, mas eis que vivo pelos sécu- los dos séculos. Tenho as chaves da morte e do inferno”

(1,18).

Na morada dos mortos, a vida

A “descida” de Cristo aos Infernos tem, portanto, uma mensagem imensa. Todos os que tinham vivido antes de Cristo, para os quais nunca chegara o Evangelho e que nun- ca tinham ouvido falar de um Redentor, também puderam salvar-se.

Todas as épocas da história foram santificadas, a co- meçar de Adão. Por isso hoje, quando sabemos melhor do que antes quanto é antiga nossa humanidade, esta doutrina assume dimensões maiores.

E para nós que viemos depois, o dogma afirma que Cristo passou pela porta daquilo que mais nos aterroriza: a morte, que antes era “os Infernos”, e os destruiu. Todo o medo do mundo estava colocado neles. Agora, porém, o sheol foi superado. A morte já não é a mesma coisa que antes por- que a vida está no meio dela.

As portas da morte ficaram definitivamente abertas, tanto para os que viriam depois, como para os que morreram antes.

A lenda de Adão

Em Jerusalém, à entrada da Igreja do Santo Sepulcro, há uma grande gruta chamada gruta de Adão. Os próprios cristãos, que gostavam de comemorar as verdades da fé de um modo enfático e popular, criaram uma lenda em torno dela.

Diziam que ali viveram e estavam enterrados Adão e Eva. Pois bem, esta gruta encontra-se exatamente sob a ro- cha do Calvário, onde plantaram o madeiro no qual foi cru- cificado Jesus. Conforme esta lenda, quando Cristo morreu na cruz, seu sangue, deslizando-se pelas fendas da rocha partida pelo tremor, caiu sobre os restos de Adão, ali sepul- tado, e banhou seus ossos.

Com este relato ensinavam como Adão, que represen- ta o primeiro homem que pecou, quem quer que tenha sido, tinha também salvação. Com ele começava a redenção.

Por isso em muitos crucifixos antigos se vê uma ca- veira aos pés de Cristo: a caveira de Adão, que recebe as primeiras gotas de redenção.

Dogma envelhecido na forma, mas rico no conteúdo

A descida aos Infernos é uma doutrina que tem uma importância fundamental para a compreensão da fé cristã.

Tal como a enunciávamos, estava expressa em cate- gorias obsoletas e já superadas. Não obstante, permanece imutável a preciosa verdade de que Cristo, morrendo de fato, destruiu a morte antiga. E desde então não há ninguém, não

importa a época em que tenha vivido, que fique fora da sal- vação de Cristo.

Perante Cristo ninguém tem privilégios cronológicos. Nem os que nasceram antes, nem os que chegaram depois, nem os que viveram com ele. Todas as etapas da história, desde que apareceu a centelha de humanidade no homem primitivo, há dois milhões de anos, até a última que atraves- sará nosso universo, todas ficaram santificadas.

Quando Clóvis I, rei bárbaro dos francos, converteu- se ao cristianismo, em 496, costumava receber o bispo são

Remígio para ensinamentos catequéticos. Um dia, ouvindo o relato da prisão e da paixão de Jesus, exclamou com o ímpeto próprio de um neo-convertido: Ah! Senhor! Se eu tivesse estado aí com os meus francos, isto não teria aconte- cido!

Mas a pretensão de Clóvis era vã. Não faz mal não ter nascido em sua época. Sempre estaremos a tempo de pres- tar-lhe ajuda, de escutá-lo, ou de nos comprometer com sua causa, assim como aqueles que pisaram este mundo antes dele.

Podemos nascer em qualquer século. A descida de Cristo aos Infernos santificou a todos os homens de todos os tempos.

QUEM É A BESTA DO APOCALIPSE?

A galeria de personagens

O Apocalipse de São João é, sem dúvida, o livro mais difícil de todo o Novo Testamento. A dificuldade deriva de uma das características do gênero literário apocalíptico, que é a de ser altamente simbólico.

A multiplicidade de imagens empregadas, sua origi- nalidade muitas vezes desconcertante, o exercício sempre imprevisível da fantasia do autor, visões e cenas inauditas fazem com que o leitor se perca neste emaranhado de sím- bolos.

Muitos são os personagens que desfilam no decorrer de toda esta obra. O cordeiro imolado, os seres cheios de olhos, os gafanhotos gigantes, o anjo do livrinho, a mulher vestida de sol, a águia voadora, o dragão vermelho, a grande prostituta, o cavalo branco, o medidor.

No entanto, de toda esta galeria de personagens, ne- nhum é tão conhecido e falado como a célebre Besta.

É possível saber algo?

Embora seja verdade que o mundo do Apocalipse é muito diferente do nosso, tanto que se torna difícil para nós ocidentais, prisioneiros da lógica, não há, contudo, motivo para exagerar a dificuldade.

Isto significa que não há razão alguma para deixar- nos levar por interpretações mais fantásticas, como se sím- bolos fossem capazes de significar qualquer coisa. Os sím- bolos têm, com freqüência, um sentido estabelecido e mui- tas vezes o contexto do livro e as indicações do autor são o melhor meio para descobrir seu significado.

Com a Besta do Apocalipse aconteceu a mesma coisa que com o Anticristo: identificaram-na com tantas pessoas, movimentos e ideologias, desde o imperador Nero até Hitler, passando por tantos cismáticos e hereges, assim como por papas da Igreja, que se torna impossível apresentar aqui um elenco nem mesmo aproximado de todos eles. Além do mais, todas estas atribuições são tão gratuitas quanto fantasiosas.

O correto seria perguntarmos a São João, o autor do livro, a quem ele se referia, quando falava da Besta.

É possível encontrar no Apocalipse algum sinal indi- cador para não nos equivocarmos e podermos precisar com certeza a identidade da Besta? Parece que sim.

Adiantando o final

Em diversos momentos do livro do Apocalipse apare- ce a Besta, assim como a descrição de sua atividade, contrá- ria aos cristãos e à Igreja de Jesus. Mas dois são os lugares

para podermos decifrar o mistério que ela contém: os capí- tulos 13 e 17. Nestes dois capítulos o autor traz os dados suficientes para que o leitor que não conhece o sentido deste símbolo possa descrevê-lo.

No capítulo 17 João diz expressamente que vai expli- car o mistério escondido na Besta (v. 7) porque, como se trata de um dos personagens centrais do livro, não queria que as pessoas tirassem conclusões errôneas sobre ela. E, a seguir, dedica todo o capítulo 17 para expor o significado da visão e de cada um de seus detalhes.

Por isso, se quisermos saber a quem João se refere quando fala da Besta, se quisermos decifrar o enigma que oculta esta imagem, devemos recorrer a todas as pistas que o autor foi semeando nestes dois capítulos.

Por não seguir estas indicações, muitos leitores des- prevenidos perderam-se na bruma deste arcano.

Adiantamos o final: no Apocalipse a Besta nada mais é que o Império romano.

Por que a Besta vivia no mar?

A primeira indicação que se nos dá da Besta no Apocalipse é que saiu do mar (cf. 13,1). Na época do autor, que papel desempenhava o símbolo do mar?

Talvez porque Israel sempre foi um povo de terra fir- me, longe da costa mediterrânea durante quase toda sua his- tória por causa dos filisteus que a tinham conquistado, sem- pre teve terror ao mar. Não conhecia seus segredos, não che- gou jamais a dominá-lo e por isso nunca foi um povo do mar.

A natureza incontrolável e caótica do mar fez com que, pouco a pouco, ele se convertesse na encarnação das esferas infernais, hostis a Deus. Por isso, na Bíblia, os inimigos de Deus saem sempre do mar. Neste caso, que a Besta tenha sua morada no mar significa que pertence ao mundo do dia- bólico, do oposto a Deus.

Mais concretamente, porém, o mar representa aqui o mar por excelência para os judeus, isto é, o Mediterrâneo, do outro lado do qual se encontrava a sede do Império ro- mano.

Portanto, o inimigo que vem do mar para fazer guerra aos fiéis não pode ser outro senão Roma que, precisamente na época em que se escreve o Apocalipse, cerca do ano 90, sob o reinado do imperador Domiciano, acaba de deslanchar uma sangrenta perseguição contra os cristãos.

Uns títulos que ofendem

João continua contando sua visão e diz que a Besta tinha em suas cabeças títulos blasfemos, isto é, injuriosos contra Deus.

Este simbolismo está perfeitamente de acordo com o costume que os imperadores, primeiramente Nero e depois os outros, foram assumindo aos poucos, isto é, o de atribuir a si mesmos títulos próprios de Deus, como divino, filho de Deus, adorável, salvador, senhor. Alguns deles chegaram, inclusive, a fazer-se adorar como tais. Semelhantes preten- sões eram inadmissíveis aos cristãos que não tinham senão Jesus como Senhor e feriam profundamente sua sensibi- lidade.

A lenda de Nero redivivo

Dentre as peculiaridades da Besta, João nos conta que uma de suas cabeças parecia ferida de morte, mas que sua chaga mortal foi curada (cf. 13,3).

Mais adiante revela-nos o segredo de que cada uma das sete cabeças da Besta eram imperadores (cf. 17,9); de- vemos, portanto, entender que se trata de um soberano que se acreditava morto, mas que reviveu.

Isto se refere a um fato que os historiadores da época relatam: quando Nero se suicidou muitos não quiseram acre- ditar que estivesse morto e difundiu-se o rumor que ele ti- nha ido a um país estrangeiro para preparar um exército e voltar para a conquista do reino. Assim se criou a lenda da volta de Nero, após sua morte.

Esta lenda popular romana chegou também até os ju- deus e os cristãos e em muitos de seus escritos aparece a figura de Nero redivivo, ampliada com traços diabólicos.

Que significa o número 666?

Quem viu A Profecia se lembrará que no final do fil- me conseguem identificar o Anticristo porque tinha nascido no dia 6 de 6 (junho), às 6 da manhã, ou seja, através da chave 666. Não faltam também novelas e séries de televisão que falam do 666 como se fosse um número misterioso. O número que vai identificar um personagem diabólico que tratará de opor-se a Deus e fará todo tipo de maldade.

Durante séculos tentou-se descobrir a pessoa que se esconde atrás deste número. Os cristãos buscavam-na entre

os que tinham feito mal à Igreja. As seitas, contudo, tratam de identificar este número com o nome ou títulos de algum papa e daí concluem que a Roma a que se refere o Apocalipse, e que deve ser destruída é a Igreja Católica.

Pouco tempo antes de Reagan ser eleito presidente dos Estados Unidos, muitos ergueram a voz dizendo que estáva- mos nos últimos tempos e que o Anticristo havia aparecido na pessoa deste presidente, uma vez que em cada um de seus nomes, Ronald Wilson Reagan, havia 6 letras, o que dava exatamente 666.

E não faltam aqueles que crêem encontrar o fatídico número em etiquetas, rótulos e até em marcas de xampus.

Mas esta forma de interpretação carece de todo funda- mento e não tem nada a ver com a intenção real do autor do livro.

Algo que pode ser calculado

Vejamos o que diz o Apocalipse. A frase em questão está no capítulo 13, versículo 18. Encerra-se a descrição da terrível Besta que persegue e mata os cristãos e de uma se- gunda que faz uma estátua da primeira para que todos a ado- rem.

Depois de ter apresentado estas figuras simbólicas, João quer oferecer a seus leitores uma ajuda para que des- cubram o segredo e compreendam o que está dizendo. E apresenta-lhes uma espécie de enigma para ser resolvido, que diz: “Aqui se requer sabedoria. Quem tiver inteligên- cia, calcule o número da Besta, porque é o número de um homem. Seu número é seiscentos e sessenta e seis” (Ap

13,18).

Como vemos, o autor convida os inteligentes a calcu- lar. Portanto, não se trata de algo que acontecerá no futuro e que então não se conhecia. Pelo contrário, é algo que se po- dia calcular com um pouco de inteligência.

A chave é a gematria

O texto logo acrescenta que é o número de um ho- mem. O que é a cifra de um homem? Parece-nos estranho, mas trata-se de uma particularidade tanto da língua grega, a língua usada pelo autor, como da hebraica, que, sem dúvida, conhecia.

Enquanto em nossa língua usamos certos sinais para escrever as letras (a, b, c) e outros sinais diferentes para es- crever os números (1, 2, 3), em hebraico e grego os números são as letras do alfabeto. Assim, para escrever o número 1 usa-se a letra “a”; para o 2, a letra b, e assim por diante.

Muito bem. Somando, então, as letras de qualquer nome, obtém-se um número que é o número do homem. Este procedimento de substituir letras de um nome por seu valor numérico chama-se gematria e era muito co- mum na antigüidade. A Bíblia, inclusive, a emprega vá- rias vezes.

Voltando ao nosso caso, se João diz que este número é o número de uma pessoa e que o inteligente deve cal- culá-lo, é porque havia alguma pessoa conhecida dos lei- tores do Apocalipse, cujo nome escrito em hebraico ou em grego comportava esta soma. João, que se encontrava pri- sioneiro dos romanos quando escreveu este livro e cuja vida corria perigo, decide advertir os cristãos de uma maneira velada, que poucos haveriam de entender, justamente para

evitar que a polícia imperial pudesse fazer represálias con- tra ele.

Com toda probabilidade trata-se aqui do imperador Nero, pois, se escrevemos seu nome em hebraico, o resulta- do será o seguinte: N = 50 + R = 200 + W = 6 + N = 50 + Q = 100 + S = 60 + R = 200 = 666. Com as letras indicadas (NRWNQSR) escreve-se o nome e o título do imperador Nero César.

Os primeiros cristãos, que se escondiam e ocultavam todas as suas coisas por causa dos perseguidores romanos, teriam conhecido perfeitamente a chave.

Por que tinha sete cabeças?

Como se isto fosse pouco, no capítulo 17 o autor dá outras indicações, para que não restem dúvidas ao leitor.

Diz que as sete cabeças da Besta são sete colinas (v. 9). Todo mundo sabe que a cidade de Roma é famosa por ter sido construída sobre sete colinas; portanto, a identificação da Besta com o Império é claríssima.

Logo acrescenta: “São também sete reis. Cinco caí- ram, um existe e outro ainda não chegou mas, quando vier, permanecerá por pouco tempo. A Besta que era, e já não é, também é um oitavo, que é um dos sete e caminha para a perdição” (Ap 17,10-11).

Que significa tudo isso? É muito simples. Se as sete cabeças da Besta são sete reis, bastará averiguar quem fo- ram os primeiros imperadores e obter, assim, a chave para resolver o problema.

E parecia tão difícil!

O texto do Apocalipse diz que os cinco primeiros já passaram. Foram Augusto, Tibério, Calígula, Cláudio e Nero. Significa que Nero já havia morrido. Agora está o sexto, que é Vespasiano. Logo virá o sétimo, que durará pouco tempo (Tito que não durou dois anos). E com este completa-se a lista dos sete.

Pouco depois acrescenta um oitavo (Domiciano), do qual diz que é um dos sete, porque a Besta só tem sete cabe- ças.

O que tem Domiciano, para dizer que ele e um dos sete anteriores são um só? Simplesmente que o imperador Domiciano, então reinante, tinha desfechado uma feroz per- seguição contra os cristãos, como Nero em seu tempo.

Por isso o autor do Apocalipse o vê como um segundo Nero, um Nero redivivo. Por isso diz que a Besta (Nero) existia e já não existe mais (porque morto), mas que faz o oitavo, (porque é como se tivesse voltado depois de morto, na pessoa de outro perseguidor, mais cruel ainda, Domiciano). E por isso o oitavo imperador é um dos sete.

Por que o Império é uma Besta?

Conforme nos conta o autor do Apocalipse, a Besta que vê aparecer em sua visão é uma mistura de leopardo, urso e leão (cf. 13,2). Que Besta estranha é esta?

Certamente João não a inventou, e nem tampouco a viu de fato. Quem conhece os livros do Antigo Testamento logo percebe que se trata de uma soma dos quatro animais

que o profeta Daniel viu numa aparição, dos quais os três primeiros se assemelhavam ao leão, ao urso e ao leopardo (cf. Dn 7,1-8). Estes quatro animais somavam sete cabeças e dez chifres. Por isso a Besta do Apocalipse também tem estas características.

E por que João, para referir-se ao Império romano, tomou justamente este símbolo? Porque a partir do tempo de Cristo o judaísmo começara a interpretar a quarta besta de Daniel como figura deste reino, já que o general romano Pompeu havia invadido Jerusalém, em 64 a.C., ganhando o ódio de todos os judeus.

Com efeito, chegaram até nós muitos escritos antigos, onde se fala dos romanos como uma besta feroz, inimiga de Deus.

João, ao compor seu livro em forma de visões, recorre a uma metáfora facilmente deduzível pelos seus ouvintes.

Não era tanto mistério, portanto.

Não esperamos nenhuma Besta

João escreve seu Apocalipse num contexto muito es- pecial: o imperialismo romano, sistema opressor imposto pelo jogo dos que detinham o poder político, militar e eco- nômico daquele tempo. Nunca existira até o momento um império tão grande, nem com riquezas tão fabulosas, mas com um sistema tão perverso que beneficiava as minorias privilegiadas. Havia começado o culto ao imperador, isto é, ao Estado, como “Senhor e Deus”. E havia começado uma perseguição contra os que não aceitavam submeter-se aos caprichos e à corrupção da classe governante, ou seja, con- tra os cristãos que desejavam outro estilo de vida.

A resposta que João oferece às suas comunidades é de esperança: o poder opressor (o Império romano) vai desapa- recer e o poder de Cristo triunfará. Por isso temos de estar a seu lado. É a mesma mensagem que tem para os cristãos de hoje, submetidos a tantas injustiças pelo poder dos mais for- tes, dos corruptos.

Não esperamos nenhuma Besta para o futuro, porque Bestas sempre existirão. São todos os poderes políticos que de alguma forma se opõem, com suas ideologias, a Deus e aos mais pobres e fracos.

Por isso, para conservar renovadas as esperanças, sem- pre será preciso ler o Apocalipse.

QUE DIZ A BÍBLIA SOBRE O ANTICRISTO?

O Anticristo, um problema

De todos os personagens que a Bíblia menciona, ne- nhum é tão enigmático e ao mesmo tempo tão mal conheci- do como o Anticristo. Por isso não é de se estranhar que ele atraia com tanta força a atenção dos curiosos e que de vez em quando apareçam pessoas que dizem coisas as mais dis- paratadas e absurdas a seu respeito.

Chegou-se a afirmar que o Anticristo seria um judeu, filho de uma monja convertida e de um bispo, que ele não teria anjo da guarda, nasceria blasfemando, adquiriria, com fantástica rapidez, todas as ciências. Satanás seria seu com- panheiro permanente e faria prodígios mágicos, como ele- var-se ao céu para imitar assim a ascensão do Senhor.

No decurso da história foi identificado com várias pes- soas. Na Idade Média, por exemplo, com Maomé, fundador do Islamismo, e em épocas mais modernas com Lutero, ini- ciador da Reforma protestante. Inclusive fixou-se, por vá- rias vezes, o lugar e a data de seu nascimento.

A fonte principal das particularidades do Anticristo é o livro do Apocalipse. Dali se deduz que estará simbolizado

pelo número 666, que aparecerá no final dos tempos e que, com seu poder, tentará dominar e destruir todos os fiéis de Cristo.

De fato, o curioso de tudo isso é que o Apocalipse jamais nomeia o Anticristo. Nem os Evangelhos, nem as Epístolas de São Paulo. As únicas vezes que aparece em toda a Bíblia estão nas duas primeiras cartas de São João e justa- mente para esclarecer esta crença que, como hoje, se tivera de idéias espúrias já em sua época.

De onde nasceu esta idéia?

A origem da espera de um Anticristo deve ser buscada nos séculos que precederam o nascimento de Jesus. O povo judeu, recordando sua dolorosa experiência do passado e das perseguições de que fora alvo ao longo de sua história, co- meçou a pensar que esta situação quase constante de sua vida continuaria também no futuro. E assim passou a temer a aparição de um homem poderoso que, no final dos tem- pos, com violência e crueldade nunca vistas, trataria de fazê- lo perder a fé e de destruí-lo.

E o profeta Ezequiel fala de um príncipe que aparece- rá semeando, com brutalidade, o terror e dá-lhe o enigmáti- co nome de Gog (cf. Ez 38,1-23).Um pouco mais tarde, o livro de Daniel prognostica, por sua vez, um rei poderoso, em forma de pequeno chifre, que blasfema contra Deus, oprime seu povo e proíbe o culto (cf. Dn 7,8-26). Na reali- dade referia-se a Antíoco IV da Síria, que reinou entre 176 e 164 a.C. Mas esta misteriosa visão levou os leitores poste- riores a pensar, além do rei sírio, numa figura aterrorizadora do final dos tempos, da qual o rei sírio seria somente um precursor.

Sua passagem para o cristianismo

Esta crença judaica, que ficou plasmada de modo es- pecial nos livros apócrifos escritos imediatamente antes do Novo Testamento, passou rapidamente para os cristãos. Só que batizaram este inimigo de Deus, por ser agora adversá- rio de Cristo, com o nome de Anticristo.

E logo que começaram os problemas na nova Igreja cristã, as sangrentas perseguições e a feroz repressão contra os seguidores de Jesus, gerou-se uma situação de caos e de dor tão forte que se pensou que tudo isto estava orquestrado pelo Anticristo, que iria aparecer de um momento para o outro.

Surgiram então numerosíssimos rumores sobre ele. Onde apareceria, em que data, que poderes teria, as faça- nhas que faria, que estragos realizaria contra os eleitos e até como se deveria preparar-se para combatê-lo.

O temor espalhou-se em todas as comunidades e o pânico apoderou-se das pessoas de tal maneira que todo o mundo prestava mais atenção na maldade deste personagem contra a Igreja que no dano que seus próprios pecados lhe causavam.

Tinha de esclarecer as coisas

Neste momento de confusão o apóstolo João escreve sua primeira carta às comunidades da Ásia. E, entre outras coisas, diz: “Filhinhos, esta é a última hora. Como ouvistes, vem o Anticristo” (1Jo 2,18). Ou seja, João está consciente dos falatórios e comentários do povo que fantasiava sobre

este tema. E, tomando esta idéia, acrescenta: “Eis que já há muitos anticristos”.

Com isto o autor das cartas esclarece-nos várias coi-

sas.

Em primeiro lugar, o que se tecia em torno da vinda do Anticristo eram simples tapeações e invenções do povo, que, como hoje, gostavam de construir ficções especialmente sobre temas misteriosos e vigorosos.

Em segundo lugar, que não é verdade que existiria somente um Anticristo, mas que serão muitos.

E, por último, que eles não virão no fim do mundo, mas que já na época de João estavam atuando na comuni- dade.

Mas João não se contenta com esta referência genéri- ca, mas identifica os Anticristos e acrescenta: “Quem é men-

tiroso senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? É o Anticristo que nega o Pai e o Filho” (1Jo 2,22). E para que não haja nenhuma dúvida, repete mais adiante: “Todo o es- pírito que não confessar Jesus não é de Deus, é do anticristo”

(1Jo 4,3).

Por causa das dúvidas, outra carta

Alguns anos mais tarde, João escreve uma segunda carta a estas Igrejas e as adverte: “Muitos sedutores têm saído pelo mundo afora, que não professam a encarnação de Jesus Cristo. Trata-se do Sedutor e Anticristo” (2Jo 7).

Vemos, portanto, que o nome do Anticristo designa uma realidade atual. Todo aquele que nega que Jesus é o Cristo, todo aquele que rejeita o Pai e o Filho, todo aquele

que, com suas idéias extraviadas, destrói a doutrina da Igre- ja sobre Cristo, todo herege que induz os homens a serem infiéis ao Senhor, este será um Anticristo, ou seja, verdadei- ramente um adversário de Cristo.

Essas são as únicas quatro vezes em toda a Bíblia que se fala do Anticristo e precisamente para esclarecer sua rea- lidade. Em nenhuma outra parte volta-se a falar disto.

São Paulo fala do Anticristo?

Os exegetas sustentam que Paulo, embora não o men-

cione, refere-se ao Anticristo quando diz que “ninguém de modo algum vos engane. Porque primeiro deve vir a apostasia e manifestar-se o homem da iniqüidade, o filho da perdição, o adversário, aquele que se levanta contra tudo

que é divino e sagrado, a ponto de tomar o lugar no templo

de Deus e apresentar-se como se fosse Deus

...

(2Ts 2,3-8).

Mesmo se assim fosse, muitos biblistas sustentam que o homem da iniqüidade de São Paulo deve ser identificado com o Anticristo de São João e, por isso, não é nenhuma pessoa concreta, mas sim, um gênero, uma classe de pes- soas, ou a personificação de todos os inimigos de Cristo. Isto se deduz porque o próprio Paulo sustenta neste parágra- fo que este misterioso ímpio já está atuando em seu tempo (cf. 2,7). E se vivia no século I, não pode tratar-se de ne- nhum ser humano, mas antes de um protótipo de malícia que sempre haverá na história da Igreja, como uma réplica antagônica de Cristo.

O Anticristo não é, portanto, um personagem históri- co real, mas designa a atitude hostil e oposta a Deus dos

homens de todos os tempos. São todos os que atuam dirigi- dos e apoiados pelo poder misterioso do mal.

O próprio Jesus fala, embora não do Anticristo, mas dos falsos Cristos, no plural, que apareceriam realizando pro- dígios com a finalidade de enganar seus discípulos. E logo os adverte: “Ficai, pois, de sobreaviso. Eis que vos preveni de tudo” (Mc 13,23). Isto é, se os convida a viver vigilantes é porque também vão aparecer na vida de seus apóstolos.

São Pio X e o Anticristo

Pouco tempo depois de ser eleito papa, Pio X, em sua primeira encíclica de 4 de outubro de 1903, expõe a desoladora situação religiosa de sua época.

Nela ele diz: Talvez comecem os males reservados para os últimos tempos, como se já existisse no mundo o filho da perdição de que fala São Paulo. Tamanha, com efeito, é a audácia com que se persegue a religião em todas as partes, com que se combatem os dogmas da fé e se empenha brutal- mente em extirpar toda relação do homem com a divindade. E de modo especial, característica própria do Anticristo, segundo o mesmo apóstolo, o homem mesmo, com infinita temeridade, colocou-se no lugar de Deus, levantando-se contra tudo o que se chama Deus.

Com estas palavras autorizadas, o mesmo Papa, ao referir-se ao Anticristo, parece identificá-lo mais que com um homem, com uma doutrina. Neste caso, com o laicismo imperante que pretendia desterrar Deus da legislação e fa- zer-se adorar em seu lugar.

Que gente que sabe coisas!

Sendo tão pouco e tão preciso o que a Bíblia fala do Anticristo, chama a atenção que hoje se fale tanto dele, ate- morizando as pessoas com fraudes e fábulas, tal como ocor- ria no tempo do apóstolo João.

São, portanto, de muita atualidade suas duas cartas que mencionamos, já que são o testemunho de um pastor preo- cupado com seu povo, que se encontra confuso diante de tantos murmúrios inconsistentes, e que andava com a pru- dência e a sabedoria próprias daquele que bebe nas genuínas fontes da Palavra de Deus, e não em suas próprias inven- ções.

É CERTO QUE SÓ CENTO E QUARENTA E QUATRO MIL SE SALVARÃO?

A pergunta sem resposta

Uma vez, durante uma viagem de Jesus a Jerusalém, enquanto atravessava cidades e povoados, ensinando, apro- ximou-se dele um curioso com uma pergunta indiscreta. Como ouvira que Jesus trazia a salvação, disse-lhe malicio- samente: “Senhor, são poucos os que se salvarão?”

Jesus, porém, negou-se a responder e simplesmente lhe replicou: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita” (Lc 13,22-24). Isto é, em vez de responder-lhe quantos se salvarão, explicou-lhe como se salvarão, o que era mais im- portante.

Este livro destoa?

Desde então, nenhum escritor sagrado jamais se atre- veu a predizer o número de pessoas que se salvarão no fim do mundo. Nem sequer São Paulo, que se refere ao tema em várias ocasiões e tira de suas próprias reflexões certos deta- lhes sobre este acontecimento, se animou a fazê-lo.

Contudo, há um livro da Bíblia que fixa exatamente duas vezes o número dos que alcançarão salvação. É o Apocalipse.

No capítulo 7 o autor tem uma visão na qual lhe é permitido contemplar a todos os marcados com o selo salvífico na fronte e seu número é de cento e quarenta e qua- tro mil (7,4).

Ratificando este dado, mais adiante aparecem outra vez os cento e quarenta e quatro mil, agora junto a Jesus Cristo, que os resgata dentre todos os homens (cf. 14,1).

É possível que o autor do livro tenha desobedecido ao desejo de Jesus de não dar informações sobre este assunto?

Contas que não contam

Mais séria, contudo, é a questão se é possível, depois de tanto esforço por parte de Deus em ajudar os homens, que tão poucos sejam beneficiados com esta salvação.

Atualmente nenhum estudioso sério da Bíblia admite que o número 144.000 corresponda a uma quantidade exata, já que estão de acordo que se trata de um número simbólico.

De fato, ainda que os números que aparecem nas Es- crituras ofereçam muitas vezes dados precisos, outras vezes são usados em sentido convencional ou simbólico. Também entre nós costuma-se atribuir ao número 13 certa má sorte ou desgraça e usamos o número 1.000 para dizer muito, como quando exclamamos Eu te disse mil vezes para não fazeres isso!, quando na realidade o dissemos muitas vezes.

Pois bem, na Bíblia e em outros escritos da antigüida- de, esta associação era muito mais comum do que entre nós.

A exemplo dos velhos salvos

Este costume de utilizar quantidades simbólicas deve alertar-nos sobre a interpretação de certos números, como por exemplo as idades fabulosas dos patriarcas bíblicos, quando se diz que Adão viveu até 930 anos, ou que Noé tinha 600 anos quando começou o Dilúvio, ou que Matusalém gerou seu filho Lamec aos 187 anos!

É evidente que estas idades não são reais, mas que foram deliberadamente exageradas para simbolizar a bên- ção de Deus com uma longa vida terrena, quando ainda não se havia revelado a existência da vida eterna.

Pois bem, por que João, em seu Apocalipse, haveria de colocar um número simbólico ao se referir aos salvos? Quem lhe sugeriu que fixasse uma quantidade exata para os que seriam libertados com o sangue de Jesus, os redimidos na Páscoa de Cristo?

Para isso se inspirou no Antigo Testamento que, ao se referir aos israelitas salvos da escravidão do Egito, na pri- meira páscoa, graças ao sangue de um cordeiro, os primei- ros redimidos da Antiga Aliança, o faz com um número sim- bólico. Diz que saíram do Egito seiscentos e três mil e qui- nhentos e cinqüenta homens, sem contar as mulheres, os velhos e as crianças (Nm 1,46; 2,32).

Número inalcançável

Se tomarmos ao pé da letra estes números do Êxodo, então temos de calcular que os que iniciaram a peregrinação pelo deserto eram entre dois ou três milhões de pessoas, quantidade exorbitante, provavelmente jamais alcançada pela população de Israel em toda a sua história e, além do mais,

impossível de se movimentar numa só noite para cruzar o mar Vermelho e fugir.

Por outro lado, um exército assim, nunca reunido pela Assíria, nem por Babilônia, nem sequer por Alexandre Mag- no, colocado em marcha no deserto com dez filas em pro- fundidade, à moda antiga, formaria sessenta mil e trezentas e cinqüentas fileiras, que à distância de um metro uma da outra ocupariam uma extensão de sessenta quilômetros. Posta em movimento a primeira fila, as últimas só o fariam dois dias depois. E se acrescentarmos toda a população saída, cobririam, em fila, a distância total do Egito ao Sinai.

Assim mesmo, sabendo hoje que a população total de Canaã de então não chegava a dois milhões de pessoas, como se pode repetir continuamente que os israelitas eram poucos para tomar suas cidades? (cf. Dt 4,38; 7,7; 17,22).

Enfim, se estes números expressam quantidades reais, os setenta homens que primeiramente chegaram ao Egito deveriam ter tido, nos quatrocentos e trinta anos que perma- neceram escravos, conforme os cálculos do crescimento da população do Egito de então, uns 10.363 descendentes.

Não tantos, mas sim todos

Quem eram, pois, estes seiscentos e três mil e qui- nhentos e cinqüenta?

Trata-se de um procedimento freqüentemente usado na Bíblia, chamado de gematria, uma vez que, em hebraico, pelo fato de não haver números, escrevem-nos com as mes- mas letras do alfabeto, e substituindo as letras de uma pala- vra ou de um texto obtém-se uma cifra simbólica.

Assim, substituindo as letras da frase hebraica “Todos os filhos de Israel” (rs kl bny ysr’l) pelos seus correspon- dentes valores numéricos, temos exatamente 603.550.

Portanto, quando o autor diz que saíram do Egito seis- centos e três mil e quinhentos e cinqüenta, quer unicamente dizer que saíram todos os filhos de Israel, como se dissesse que todo Israel estava aí, já que sem o êxodo Israel nunca teria existido. O número dos que participaram da fuga segu- ramente não ultrapassava seis ou oito mil pessoas.

Algo assim para os novos

Quando João escreve seu livro do Apocalipse consi- dera que a morte de Cristo nos salvou de uma nova escravi- dão: a escravidão do pecado. Somos o novo povo libertado, mas desta vez, não com o sangue de um cordeirinho, mas de Cristo, o novo cordeiro da nova Páscoa.

E quantos são esses novos libertados? Ele o diz com um novo número simbólico: 144.000.

Com efeito, esta cifra é produto de 12x12x1.000.

Que significado tem esta quantidade? Na Bíblia o nú- mero 12, aplicado às pessoas, sempre significa os eleitos. Assim, as doze tribos eleitas de Israel, os doze apóstolos eleitos, as doze portas da nova Jerusalém, por onde entra- riam os eleitos (Ap 21,22).

Portanto, afirmar que se salvarão cento e quarenta e quatro mil equivale a dizer que se salvarão os eleitos do Antigo Testamento (12) e os eleitos do Novo Testamento (x 12), em uma grande quantidade (x 1.000).

O ‘plus’ dos convidados

João, no entanto, sempre desejoso de ser bem inter- pretado, apesar de usar uma linguagem simbólica, acrescen- ta a seguir: “Depois olhei e eis uma grande multidão que

ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam diante do trono e do Cordeiro, vestidos de túnicas brancas e com palmas nas mãos” (Ap 7,9).

Isto quer dizer que não são somente os cento e quaren- ta e quatro mil os salvos, mas que formam um povo incalcu- lável, impossível de se contar e provenientes dos mais dife- rentes lugares.

Que os salvos integram este grupo inumerável pode- mos ver por três elementos: a) têm as vestes brancas, que no Apocalipse sempre simbolizam a salvação; b) têm palmas em suas mãos, que é o atributo dos vencedores; c) já estão todos diante de Deus e do Cordeiro.

E quando o autor volta a dar, mais adiante, a cifra 144.000 (Ap 14,1), para evitar um novo equívoco, acrescen- ta: “Foram resgatados dentre os homens, como primícias para Deus e para o Cordeiro” (Ap 14,4). E se os chama de “primícias” é porque são os primeiros a serem salvos e que ainda faltam muitos para vir. Isto é, não pretende dar um número exato.

Estatísticas que doeriam

Alguns anos atrás, alguns cientistas alemães puseram- se na tarefa de calcular quantas pessoas teriam passado pela terra, desde cerca de dois milhões de anos, quando o primei- ro ser humano cruzou a fronteira da hominização, até nos- sos dias.

O resultado, segundo os índices relativos de natalida- de, mortalidade e progressão genética, chegava a um total de 77 milhões de seres humanos.

Supondo que o fim do mundo chegasse agora e fos- sem salvos somente 144.000, então, com base neste cômpu- to, somente 0,0001% da população mundial se salvaria.

Deste modo, Deus teria sido o maior frustrado da his- tória. Cristo, o Salvador mais ridículo, e o Espírito Santo, a força mais impotente que existiu. O plano de salvação de Deus transformar-se-ia assim no maior fracasso jamais pro- gramado.

Interpretar literalmente a cifra 144.000 implica não só desconhecer a Bíblia, mas também, e o que é mais grave, desconhecer e menosprezar o poder salvador de Deus.

Que pensas, Senhor?

Felizmente a Palavra de Deus é mais otimista do que muitos agourentos apocalípticos que, fixando um espaço li- mitado e exíguo para o ingresso na salvação, pretendem ate- morizar o povo e forçá-lo a converter-se.

Desconhecem, porém, que por temor ninguém se con- verte ao Amor.

E ainda que Jesus não tenha querido responder àquela pergunta que lhe fizeram sobre o números dos salvos, deu a entender, no entanto, que seriam muitos, quando disse a seu

imprudente inquisidor: “E virão do Oriente e do Ocidente, do norte e do sul para sentar-se à mesa no reino de Deus”

(Lc 13,29). Já antes o tinha anunciado a um angustiado centurião romano: São muitos os que virão (cf. Mt 8,11).

O próprio João Batista, conhecido pela sua dureza na pregação, por sua intolerância e extrema exigência com o comportamento moral do povo, disse, num de seus primei- ros sermões: E todo homem verá a salvação de Deus (Lc

3,6).

É impossível que Jesus e seu primo João tivessem fei- to tão mal os cálculos dos algarismos salvíficos.

Vem, Senhor Jesus!

Os primeiros cristãos desejavam ardentemente o dia do Juízo Final, posto que o concebiam como um dia de sal- vação, no qual Deus nos livraria do inimigo. Uma festa se- gura.

Por isso, conta o Apocalipse que, ao reunir-se em suas liturgias, exclamavam jubilosos: Marana Tha! Vem, Senhor! (Ap 22,17-20).

Depois, por influência do conceito latino de justiça, começou-se a ver o Juízo como uma prestação de contas. Já não evocava a confiança no triunfo, mas a angústia e a inse- gurança diante da sentença incerta.

No século XI pensava-se que a imensa maioria dos homens estava condenada. São Bernardo não tinha dúvida em afirmar que poucos eram os que se salvavam. No século XIII, Berthold de Ratisbona afirmava que somente um em cem mil alcançaria a salvação. Assim, o antigo dia da salva- ção foi-se transformando em dia de terror, cuja mais horripi- lante expressão plástica Miguel Ângelo expressou na Cape- la Sixtina, quando pintou Cristo com o punho cerrado, sepa- rando os bons dos maus.

Nada de estranho se, diante desta imagem, tenhamos suprimido o alegre grito Marana Tha.

Podemos, contudo, continuar gritando-o sem temor, porque, nem a Bíblia, nem a Igreja, nada pode fechar num modesto número os que se salvarão.

Queremos saber quantos são? Isso cada um tem de responder com sua própria vida.

PERGUNTAS PARA REFLETIR E DISCUTIR EM GRUPO SOBRE OS TEMAS BÍBLICOS TRATADOS

Quantos livros tem a Bíblia?

1) Leia no índice de sua Bíblia a lista dos livros do Antigo e do Novo Testamento e responda: Quantos destes livros você não conhece e dos quais nunca ouviu falar?

2) Quando você lê a Bíblia, sozinho ou em grupo, quais são os livros que lê com mais freqüência? Por quê?

3) Dentre os livros que você leu alguma vez, qual o de mais difícil interpretação? Por quê?

A Arca de Noé existiu?

1) Ao ler este tema, sentiu-se desiludido em saber que o relato de Noé não foi um fato literalmente histórico? Por quê?

2) Que vantagens traz saber que se trata de um relato didático e não histórico?

3) Como agimos quando a Palavra de Deus nos pede, como a Noé, para vivermos e nos comportamos em sentido contrário ao da realidade que nos rodeia?

Não havia lugar para Maria na hospedaria?

1) Conforme o ensinamento popular da chegada da Sagrada Família na última hora em Belém, que imagem se pode fazer de São José?

2) Quais os detalhes que costumamos repetir em torno desta cena do nascimento de Jesus e que estão em contradi- ção com o Evangelho?

3) O nascimento pobre de Jesus, numa gruta, foi um fato acidental ou algo voluntariamente buscado por José? Qual tem fundamento bíblico?

A estrela de Belém era uma estrela?

1) É aceitável a interpretação da estrela de Belém como um fenômeno astrológico? Por quê?

2) Quando os Magos viram um sinal celeste estranho consultaram aqueles que conheciam a Palavra de Deus (a corte de Herodes). Nós, a quem consultamos, buscando es- clarecimento, quando encontramos situações estranhas em nossa vida?

3) Temos no momento algum ideal ou meta em nossa vida, que seguimos mesmo quando ele parece levar-nos para caminhos equivocados?

Por que Judas traiu Jesus?

1) Quais são as hipóteses possíveis sobre a traição de Judas e que desvantagens apresentam?

2) Alguns crêem que Deus, desde toda a eternidade, destinara Judas para trair Jesus. Na realidade, que projeto tinha Jesus para Judas?

3) Quais são os valores que a sociedade pretende im- por e que de algum modo implicam querer mudar os planos de Deus para o homem?

Por que se visitam sete igrejas na Quinta-feira Santa?

1) Visitei alguma vez as igrejas na noite de Quinta- feira Santa? Com que finalidade? 2) Que lições pude tirar dessas visitas para o resto do

ano?

3) Como deve seguir o Senhor alguém que pretenda ser seu discípulo autêntico?

Jesus Cristo desceu aos infernos?

1) O que você pensava, antes de ler este artigo, quan- do recitava o creio nas missas?

2) Qual a crença popular sobre a outra vida, no Antigo Testamento?

3) Qual a crença popular dos cristãos sobre o além e a outra vida?

4) Que esperanças pode trazer-nos o dogma da desci- da de Cristo aos Infernos?

Quem é a Besta do Apocalipse?

1) Que semelhanças encontramos entre o Império ro- mano da época cristã e os poderes políticos atuais?

2) Que elementos da vida social atual nos pressionam a perder a fé em Jesus Cristo?

3) Como podemos manter a esperança em meio a uma sociedade em que as tentações anticristãs são fortes e fica difícil para nós enfrentá-las?

Que diz a Bíblia sobre o Anticristo?

1) Que idéia tínhamos do Anticristo, antes de ler este artigo?

2) De onde ela proveio?

3) Quando somos “anticristos”, isto é, quando nos opomos ao plano de Cristo, em nossa vida diária?

É verdade que só cento e quarenta e quatro mil se salvarão?

1) Qual é a interpretação corrente que ouvimos das seitas sobre o famoso número 144.000 do Apocalipse?

2) Qual o objetivo das seitas ao fixar um número limi- tado e pequeno para os salvos?

3) Qual foi o ensinamento de Cristo sobre a salvação que ele veio trazer?

4) Que sensação nos invade quando pensamos que um dia teremos de apresentar-nos diante da pessoa de Cristo para ser julgados? Por quê?

ÍNDICE

Prólogo

5

Quantos livros tem a Bíblia?

9

9

10

Os Setenta

......................................................................

10

Em atenção ao destinatário

............................................

..........................................

11

Para não serem confundidos

A fagulha que inflamou Lutero

12

12

Um nome difícil

13

14

A Arca de Noé existiu?

15

Lá no Ararat

15

................................................................... Em busca da arca perdida

16

16

Outra vez os fracassos

17

A montanha pelo país

18

A arca existiu?

19

Em relação aos animais

19

Em relação à chuva

20

Mais sobre a água

21

22

O que ensina o Dilúvio

23

23

Não havia lugar para Maria na hospedaria?

25

A história que nos contaram

25

O Evangelho relata isto?

26

27

E tudo por causa de uma palavra

...................................

27

O aposento das parturientes

 

29

Assim tudo fica mais claro

29

Com uma mulher prestes a dar à luz

30

Na gruta, mais intimidade

31

Não havia lugar “para eles”

 

31

Uma parábola confirma isto

32

Mais provas

33

33

O ensinamento que ficou

34

A estrela de Belém era uma estrela?

35

Às voltas com uma estrela

35

Foi uma estrela nova?

....................................................

36

Foi o cometa Halley?

36

Foi uma conjunção de planetas?

....................................

37

Os caprichos de uma estrela

38

A estrela, símbolo da fé

39

Um privilégio recusado

40

42

Por que Judas traiu Jesus?

43

O retrato de um traidor

43

Escolheu-o para que estivesse com ele

44

Por avareza

44

Por ódio .........................................................................

46

Por amor

47

O homem que quis mudar Deus

48

Com um beijo de amor

 

49

Um final como Deus manda

50

Judas se condenou?

50

Por que se visitam sete igrejas na Quinta-feira Santa?

53

O dia do Sacrário humilde

53

Os passos na noite

54

O Evangelho em concordância

54

As sessões noturnas

55

A última manhã

56

Querer e não poder

57

Três vezes inocente

57

Seguir o Mestre

58

Jesus Cristo desceu aos infernos?

59

Um dogma dominical

59

60

60

Quando a terra era plana

................................................

61

O sheol, morada dos mortos

62

Certo, mas difícil de acreditar

63

Um morto bem morto

64

O ruído de cadeias rompidas

65

A Bíblia o afirma

65

Na morada dos mortos, a vida

66

A lenda de Adão Dogma envelhecido na forma,

67

mas rico no conteúdo

67

Quem é a Besta do Apocalipse?

69

A galeria de personagens

...............................................

69

É possível saber algo?

70

Adiantando o final

70

71

Uns títulos que ofendem

................................................

72

A lenda de Nero redivivo

73

Que significa o número 666?

73

Algo que pode ser calculado

74

A chave é a gematria

75

76

E parecia tão difícil!

77

77

Não esperamos nenhuma Besta

78

Que diz a Bíblia sobre o Anticristo?

81

O Anticristo, um problema

81

De onde nasceu esta idéia?

82

Sua passagem para o cristianismo

.................................

83

Tinha de esclarecer as coisas

83

Por causa das dúvidas, outra carta

84

São Paulo fala do Anticristo?

85

São Pio X e o Anticristo

86

Que gente que sabe coisas!

............................................

87

É verdade que só cento e quarenta e quatro mil

se salvarão?

89

89

Este livro destoa?

89

90

A exemplo dos velhos salvos

91

Número inalcançável

91

Não tantos, mas sim todos

92

Algo assim para os novos

93

O ‘plus’ dos convidados

93

Estatísticas que doeriam

94

Que pensas, Senhor?

95

Vem, Senhor Jesus!

96

Perguntas para refletir e discutir em grupo

sobre os temas bíblicos tratados

97