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A DOUTRINA DO PECADO

“Hamartiologia” é o nome que se dá a doutrina que estuda o pecado. Ela é im- portante, pois, nos ajuda a compreender outras doutrinas bíblicas, especial- mente a doutrina do homem, de Cristo e da Salvação. Severa corretamente afirma que o grande problema da humanidade é o pecado e o grande propósi- to de Deus é libertar o homem dele”. 1

A Bíblia não brinca com o pecado, mas o leva a sério. A seriedade do pecado no Antigo Testamento, por exemplo, “fica evidente no distanciamento que cau- sa entre o ser humano e Deus, entre o ser humano e o mundo, entre o ser hu- mano e a sociedade e entre as pessoas”. 2 Justamente por causa de o pecado ter entrado na vida do ser humano, este já nasce num estado de alienação de Deus. Daí a razão porque o pecado é trágico! O profeta Isaías disse: Mas as vossas iniqüidades fazem separação entre vós e o vosso Deus (59:2).

A palavra hebraica traduzida por “separação”, neste texto, diz respeito ao verbo hebraico badal, que também significa “dividir” ou “cortar”. É interessante que o tronco do verbo é o “hifil”, que em geral expressa ação causativa. Neste caso, o que Isaías está dizendo é que, a razão do corte, divisão ou do distanciamento do ser humano de Deus, é o pecado. O interessante e intensificador desta in- formação é que este verbo esta no modo particípio, do hebraico, que representa uma ação ou condição em sua continuidade ininterrupta. Isto é, o que continuamente tem afastado o homem de Deus é o pecado! De novo ressaltamos: pecado é coisa séria e não diversão! Devido a esta seriedade, a Bíblia se preocupa com esta carência humana de remoção do pecado, mais do que com a natureza ou dignidade humana. Toda esta preocupação se explica pelo fato de os escritores bíblicos saberem que, “sem Deus, o ser humano é um pecador perdido, incapaz de se salvar ou de encontrar a felicidade”. 3 É so- bre o pecado que trata o presente trabalho.

1 Severa (1999, p. 197).

2 Smith (2001, p. 264).

3 Smith (2001, p. 265).

1. A NATUREZA DO PECADO

O que é pecado? Como podemos defini-lo? Talvez, começar pelo estudo da terminologia possa nos ajudar nesta resposta. É isso que faremos. Vamos ana- lisar os termos que a Bíblia usa para se referir ao pecado, os do Antigo e os do Novo Testamento. 4

1.1. O vocabulário do pecado

1.1.1. Antigo Testamento

No Antigo Testamento não temos nenhuma definição de pecado. Smith diz, citando Davidson, que o “que temos são descrições concretas da realidade do mal”. 5 Todavia, cabe aqui uma pergunta importante sobre a natureza do peca-

do. No Antigo Testamento ele é uma ação ou uma condição? De alguma ma- neira, os estudiosos vão dizer que o pecado é as duas coisas: ação e condição. Afirmam que por trás do pecado está o pecado, isto é, a condição errada da natureza humana. Eichrodt afirmou que no Antigo Testamento, “o pecado é ao

mesmo tempo voluntário e intrínseco. (

desordem material, um estado de pecaminosidade”. 6 Em sua essência o peca- do é uma rebeldia contra Deus, uma infração de sua vontade; é, também, a quebra da comunhão, uma traição do amor e do senhorio de Deus. Knudson afirmou que “o pecado é um ato ou um estado afirmativo de hostilidade contra Deus”. 7 Vejamos algumas palavras hebraicas usadas para descrevê-lo:

Onde há transgressão, há também

)

1.1.1.1. ãwen. Este substantivo geralmente é traduzido por iniqüidade. Alguns estudiosos acham que este termo tem relação com a palavra hebraica ‘ayin (“nada”). Esta correlação nos leva a entender que ‟ãwen significa ausência de tudo o que tem valor verdadeiro, por conseguinte, denota “indignidade moral” (Mq 2:1; Sl 36:3).

1.1.1.2. ‘ãshãm. Este substantivo é geralmente traduzido por “culpa”. Este ter- mo implica condição de culpa incorrida por algum mal. A palavra se refere a ofensa que em si acarreta culpa (Gn 26:10; Jr 51:5; Sl 68:21).

4 Adaptado : Vine; Unger; White Jr. (2009, p. 218-223; 858-859).

5 Smith (2001, p. 266).

6 Apud Smith (2001, p. 266). 7 Apud Smith (2001, p. 267).

1.1.1.3.

‘ãwõn. Este substantivo é traduzido por “iniqüidade” e “maldade”. Deri-

va-se da raiz ‘ãwãh, que significa “ser curvado”, “torcido”, “deturpado”. Este

termo mostra que o pecado é uma perversão da vida (uma torção da maneira certa), uma perversão da verdade (uma torção do erro) ou uma perversão da intenção (Sl 107:17; Is 50:1).

1.1.1.4. hattã’t. Geralmente este substantivo é traduzida por “pecado”. O termo

aparece quase trezentas vezes no Antigo Testamento. A concepção básica desta palavra é pecado imaginado no sentido de “errar o caminho ou alvo” (Gn 4:7; 18:20). É bom lembrar que errar o alvo, também significa acertar outro lu- gar. Ou seja, quando erramos o alvo e pecamos, também acertamos outra coi- sa, um lugar errado. Não é apenas um ideia passiva, mas envolve acerta algo errado.

1.1.1.5. hãtã. O verbo é traduzido por “perder, pecar, ser culpado”. Ele aparece

238 vezes no Antigo Testamento. O significado básico é ilustrado em Jz 20:16. A idéia é a mesma do substantivo, isto é, “errar o alvo” ou “errar o caminho”. O principal uso do verbo é para indicar o fracasso moral com relação a Deus (Gn 20:6; 39:9; Dt 24:1-4). “A idéia central é de Deus tem um padrão, ou objetivo, ao qual ele espera conformidade, e qualquer desvio com relação a este padrão constitui falha e, portanto, resulta na desaprovação de Deus”. 8

1.1.1.6. ‘ãbar. O verbo é traduzido por “transgredir”, “atravessar”, “passar por”.

Na maioria das vezes o verbo se refere ao movimento de “cruzar” ou “passar” (Nm 21:22; 6:5). O termo tem o sentido de transgredir uma ordem. Ou seja, neste caso, o transgressor passa por cima dos limites estabelecidos pela lei e cai em transgressão (Nm 14:41; Jz 2:20).

1.1.2. Novo Testamento

1.1.2.1. hamartia. Este substantivo significa, literalmente, “perda da marca”,

mas, no Novo Testamento, este significa etimológico se perder quase que completamente. O substantivo é usado no sentido de “errar o alvo” (Mt 1:21; Rm 3:9). Ocorre em suas várias formas 227 vezes. É o termo mais usado para se referir ao pecado.

8 Merrill (2009, p. 222).

1.1.2.2.

Hamartano. O verbo também tem o sentido de “desviar-se do cami-

nho”, “errar o alvo” (Mt 27:4; 18:15-21; Rm 3:23). Quase sempre este verbo aparece no aoristo referindo ao ato do pecado. Então, o termo tem conotação de ato. Somente em 1 João o termo aparece no presente (3:6-9). Isto indica não a consumação de um ato em si, mas a prática contínua do pecado.

1.1.2.3. Parabasis. Significa pecado como um ato de transgressão. Esta indica

que a ideia de pecado esta limitada pela ideia de lei, porque onde não há lei, também não há transgressão (Rm 4:15). “Faz se aqui referência à ordem moral

eterna de Deus com as suas manifestações primitivas nos reclamos da própria consciência. O pecado como transgressão da lei é possível só aos seres mo- rais e racionais”. 9

1.1.2.4. Adikía. Em 1 João 5:17 lemos que toda injustiça é pecado. A palavra

grega aqui é adikía e significa “tortuosidade” ou “torcimento do que era reto”.

1.1.2.5. Anomia. O pecado é “transgressão da lei” (anomia), 1 Jo 3:4. O que

deve se ressaltar aqui é o estado do pecado em vez do ato. É uma condição caracterizada com a falta de conformidade com a lei de Deus.

1.1.2.6. Asébeia. Esta palavra significa “impiedade”. Não só marca a separa-

ção da pessoa com relação a Deus, mas encerra o pensamento de um caráter dissimilar ao de Deus, um estado ou condição caracterizado pela ausência de

Deus (Rm 1:18). É um termo forte. 10

1.2. As imagens do pecado

Um fator interessante relacionado ao vocabulário do pecado no Antigo Testa- mento é o uso que os profetas fizeram da experiência para mostrar o alcance da falta de retidão dos israelitas. Isto é, eles usaram linguagem do dia-a-dia para mostrar ao povo o seu pecado e transgressão. A partir destas descrições todos entenderam que estavam “errando o alvo”. Na tabela abaixo veja alguns exemplos do que acabamos de afirmar.

9 Wiley; Culbertson (2009, p. 183). 10 Wiley; Culbertson (2009, p. 184).

O USO DA EXPERIÊNCIA NO VOCABULÁRIO DO PECADO

 

Área da experiência

Descrição que apontava o peca- do

Referência

bíbli-

ca

Linguagem da lavandeira

A

imundice que precisa ser lim-

Jr 2:22

pa

Linguagem do médico

A

doença que precisa da cura

Is 1:5-6

Linguagem do pastor

A

ovelha perdida

Jr 23:3

Linguagem do agricultor

O

trigo cheio de palha

Am 9:9

Linguagem do mineiro

A

impureza que deve ser refina-

Ez 22:18-19

da

Linguagem do construtor

A

parede torta

Am 7:8

Linguagem da doméstica

O

chão sujo que deve ser varri-

Is 14:23

do

Linguagem do oleiro

O

barro com pedra

Jr 18:1-4

Linguagem do mercado

A

venda de escravo

Is 50:1

1.3. O conceito do pecado

1.2.1. Transgressão da lei de Deus. Todo aquele que pratica o pecado também transgride a lei, porque o pecado é a transgressão da lei (1 Jo 3:4). Esta é a definição mais básica de pecado. Ela é correta e fala do pecado em seu sentido mais amplo, isto é, afastamento dos principios estabelecidos por Deus.

1.2.2. É algo contra o caráter de Deus. pois todos pecaram e carecem da glória de Deus (Rm 3:23). A glória de Deus, segundo Ryrie, é um reflexo do seu caráter. 11 Daí, Busweel define pecado como qualquer coisa na criatura que

11 Ryrie (2004, p. 242).

não expresse ou que seja contrário ao caráter santo de Deus. 12 A principal característica do pecado é que ele algo direcionado contra Deus.

2. A ORIGEM DO PECADO

Uma vez estudando sobre a natureza do pecado e constando que este é uma realidade, passemos a discutir sua origem. Lembramos de início o que disse Zuck: “A origem do pecado é um mistério que permanece fechado na revelação bíblica”. 13 Mesmo sendo um mistério, vamos voltar a nossa atenção para o Gê- nesis, o livro das origens, e ver o que ele tem a nos dizer de certo sobre este tema. Ali, lemos que o ser humano foi criado perfeito por Deus. Todavia, rebe- lou-se contra o criador. Smith, citando um pensamento de Christoph Barth, a- firma:

“A raça humana revoltou-se contra o seu criador logo no começo. O relato de Gê-

nesis 3-11 entrelaça confissões de pecado na história das realizações. Em Gêne-

sis 3, a rebelião é uma tentativa audaciosa de tornar o mandamento de Deus um

meio de repressão. O homem e a mulher, ao comerem o „fruto proibido‟, pensaram

que seriam como Deus, não mais sujeitos à supremacia”. 14

Muitas perguntas surgem quando falamos sobre a origem do pecado, por isso, é importante ressaltar que, ao nos referirmos ao evento histórico do primeiro pecado da raça humana que se tem notícia, não temos como tentar justificá-lo ou explicá-lo satisfatoriamente, isto é, não sabemos por que ele aconteceu? Deus não podia ter interferido? Se ele criou tudo bom e perfeito por que os se- res humanos pecaram? Bem, as Escrituras não nos apresentam respostas des- te gênero. A rebelião contra Deus é sempre ilógica e injustificada. O que po- demos conjecturar aqui, sobre o fato de Deus não ter interferido e evitado o fracasso humano, é que ele quis e fez pessoas livres e desejava parceiros vo- luntários e não robôs que tem de atender automaticamente à sua vontade. “A árvore serve como ponto de prova para a fidelidade do homem ao concerto”. 15

12 Ryrie (2004, p. 243).

13 Zuck (2009, p. 31).

14 Smith (2001, p. 273).

15 Zuck (2009, p. 31).

Voltando a questão da origem, se a natureza e a raça humana foram criadas boas e agora são “más” ou “ruins”, como e quando ocorreu a mudança? A ma- neira com que respondemos esta pergunta é citando a “queda” ou o “pecado original”. No entanto, o Antigo Testamento não usa estes termos. Gênesis 3 é uma narrativa que fala de “um momento decisivo na vida do primeiro casal hu- mano, a partir do qual a história da humanidade tornou-se a história do peca- do”. 16

O Antigo Testamento, então, descreve, depois deste relato, como o pecado

cresceu e se espalhou pela história da humanidade. “Contudo, ele não aponta outra porta de entrada do pecado no mundo senão a livre escolha de Eva e Adão de desobedecer a Deus pela sugestão de uma serpente”. 17 Paul Hoff concorda com isso quando diz que não existe outra resposta satisfatória para a origem do mal ou do pecado, senão com base no capítulo 3 de Gênesis. 18 Childs, acertadamente diz que o ser humano não foi criado em alienação de Deus, de seus companheiros ou de si mesmo. A função teológica dos primeiros capítulos de Gênesis, que mostram um período de inocência, segundo ele, é dar testemunho da harmonia na criação de Deus. 19

2.1. ANALISANDO O RELATO BÍBLICO DA QUEDA

O

ser humano foi criado livre e com todo o direito de fazer suas escolhas. Tan-

to

isso é verdade que Deus disse: De toda árvore do jardim comerás livremen-

te, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás (Gn 2:16-17). O Senhor queria que Adão e Eva o amassem de forma livre e espontânea, não como robôs pro- gramados; por isso, lhes deu opções. O teste foi inevitável! Para entendermos isso melhor, vamos analisar três elementos do relato de Gênesis 3: a proposta, a escolha, o resultado.

16 Smith (2001, p. 274).

17 Smith (2001, p. 274).

18 Hoff (2007, p. 30).

19 Apud Smith (2001, p. 275).

2.1.1.

A proposta sedutora da serpente: A Bíblia começa informando que a

serpente era o animal mais sagaz (hb. arum), isto é, sutil, astuto, esperto 20 (Gn

3:1). O disfarce perfeito! Satanás usou exatamente este animal para tentar o ser humano. Em Ap 12:9, ele próprio é identificado como o grande dragão, a

o sedutor de todo o mundo (grifo nosso). Ele, ainda hoje,

com suas sutilezas e estratégias, tem levado muitos à derrota. O relato da pri- meira tentação tem muito a nos ensinar sobre seu método. Leia versos 1 a 5 de Gênesis 3 e observe os passos dado pela serpente.

antiga serpente (

)

Em primeiro lugar, a serpente, questiona a palavra de Deus, fazendo uma per- gunta maliciosa e alterando o mandamento, com o propósito de lançar dúvida:

É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim? (Gn 3:1). A resposta de Eva mostrou que ela estava seguindo o exemplo de Satanás e al- terando a Palavra de Deus 21 (compare Gn 2:16-17 com 3:2-3). Repare que Eva subtraiu, da ordem divina, a palavra “livremente”, e acrescentou a expressão “nem tocareis nele”. Além de conversar com o tentador, o que já é muito peri- goso, 22 Eva parece gosta da conversa. A presa havia mordido a isca!

Em segundo lugar, a serpente, contradiz a palavra de Deus, afirmando: É certo que não morrereis (Gn 3:4). E, em terceiro lugar, a serpente, manipula a pala- vra de Deus, lançando sedução ao coração humano, ao dizer à mulher que, ao comerem do fruto proibido, seriam como Deus, conhecedores do bem e do mal (Gn 3:5). Esse foi golpe final e fatal. Sua proposta instigava o ego e sugeria rebeldia. Perceba que a essência da rebelião de Lúcifer, no céu, foi a soberba de querer ser igual a Deus e de se tornar independente do Senhor (Is 14:12-14; Ez 28:15-17). Foi o que ele sempre tentou implantar no ser humano.

2.1.2. A escolha equivocada do homem: Só Deus é autossuficiente. Os de-

mais seres dependem dele como criador e sustentador, inclusive o ser huma- no. Foi contra esse princípio que a serpente levaria Adão e Eva a se rebelarem.

A provável indagação era “por que deveriam permanecer naquela situação hu- milhante de dependência e subordinação? Por que não declaravam sua inde-

20 KIDNER (1985, p. 63).

21 WIERSBE (2006, p. 35).

22 PFEIFFER (1986, p. 9).

pendência a se tornavam iguais a Deus? Eles não iriam morrer; ao contrário, se tornariam como Deus”. 23 Assim, eles duvidaram da bondade e da sinceridade de Deus e escolheram acreditar no tentador.

O autor de Gênesis (3:6) diz o seguinte: Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido, e ele comeu. Agora, compare esse versículo com I João 2:16 e observe que há três áreas em que a tentação atua: a concupiscência da carne (boa para se comer), a concupiscên- cia dos olhos (agradável aos olhos) e a soberba da vida (desejável para dar entendimento). De fato, Eva foi induzida ao pecado; porém, Adão pecou cons- cientemente (I Tm 2:14). “Adão fez uma escolha, a escolha errada, e a huma- nidade tem sofrido desde então”. 24

2.1.3. O resultado desastroso do pecado: O que aconteceu? Imediatamente, os olhos dos dois se abriram, e eles perceberam que estavam nus (Gn 3:7). O termo nus (hb. arumim) tem a mesma raiz da palavra arum (qualidade da ser- pente em Gn 3:1). 25 Aprendemos com isso que a nudez deles era muito mais do que física: era, também, espiritual. Também aprendemos que, ao percebe- rem o erro absurdo que cometeram, sentiram vergonha de si mesmos, diante do outro e de Deus; perceberem que estavam, de certa forma, parecidos com a serpente; sentiram-se culpados, envergonhados e separados de Deus.

Além disso, Deus puniu a serpente, a mulher e o homem pelo pecado (Gn 3:14-19). Warren Wiersbe 26 comenta que o amor de Deus pelo pecador jamais elimina sua abominação santa pelo pecado, pois ele é amor (I Jo 4:8,16) e luz (I Jo 1:5). O Deus santo trata do pecado visando ao bem do pecador e à glória de seu nome. Por isso, Adão e Eva foram expulsos do paraíso e condenados à morte física e espiritual. Deixaram de ser livres e passaram a ser escravos do pecado; os seus descendentes já nasceram com a natureza decaída, em es- cravidão e morte (Rm 5:12, 3:23, 6:23).

23 STOTT (2007, p. 32).

24 WIERSBE (2006, p. 36).

25 HARRIS (1998, p. 1173).

26 WIERSBE (2006, p. 38).

3. AS CONSEQUÊNCIAS DO PECADO

Comer do fruto proibido por Deus fez com que o ser humano afirmasse sua independência de Deus. “O pecado introduziu uma alienação que afetou a rela- ção entre Deus e o homem”. 27 “Interrompeu-se a comunhão com Deus, e então fugiram de sua presença. O pecado sempre despoja a alma da pureza e do gozo da comunhão com Deus. Essa é a morte espiritual e compre, num sentido mais profundo, a advertência de que o homem morreria no dia em que comes- se do fruto proibido (2:17)”. 28 Além disso, a alienação também se estendeu na horizontal: 1) o homem se alienou da mulher e vice-versa (Gn 3:16); 2) e am- bos se alienaram da criação, isto é, o pecado rompeu a harmonia entre o ho- mem e a criação. 29 Diante disso, a pergunta que fazemos é a seguinte: De que maneira os pecados de Adão atingiram os seus descentes? Pelo conhecimento que temos do assunto, à luz da teologia tradicional, esta pergunta é fácil de ser respondida: “nascemos pecadores por causa do pecado original”. No entanto, surpreende o fato de o Antigo Testamento não dizer nada sobre isso, isto é, nem sobre a transmissão do pecado e nem sobre “pecado original”. O que o texto de Gênesis 3 mostra, é a conseqüência do pecado para os primeiros en- volvidos. A serpente foi amaldiçoada e, ao homem e mulher foram anunciadas as conseqüências do seu delito. A partir daí o Antigo Testamento não nos con- ta como o pecado do primeiro casal afetou as gerações subseqüentes. O que temos registrado é uma história de pecado que segui posteriormente. Todas as relações do ser humano foram afetadas!

Alguns textos do Antigo Testamento podem ser usados para se referir à univer- salidade do pecado (Gn 6:5, 11-12; 8:21; 1 Rs 8:46; 2 Cr 6:36; Sl 51:5; Pv 20:9; Ec 7:20; Is 48:8), mas não temos base para falar sobre pecaminosidade herda- da. Sobre o Salmo 51:5 - Eu nasci na iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe -, Kraus afirma que a oração fala da tendência original para o pecado. Ele ainda diz “Afirmações como essa não podem ser entendidas nem

27 Zuck (2009, p. 31).

28 Hoff (2007, p. 31).

29 Zuck (2009, p. 34).

como causas de pecados herdados biologicamente [

].

Elas reconhecem o

poder do mal para corromper o ser humano desde o começo”. 30 Mesmo que o Antigo Testamento não diga nada sobre o pecado original, no sentido de culpa transmitida a partir de Adão, ele está muito ciente da “têndencia humana em direção ao mal”. 31 Eichrodt entendeu que Gênesis 3 fala de um evento decisivo, pelo qual o plano de Deus para a humanidade foi frustrado e a história humana passou a ser marcada pela inimizade contra Deus. Este mesmo autor disse que esse “evento tem o caráter de uma „queda‟, ou seja, de cair fora da linha de desenvolvimento planejada por Deus, e, como mostra a narrativa subsequente, tem uma influência determinante sobre a atitude espiritual de

todas as pessoas”. 32

Diferente desta visão, que é comum a quase todos os cristãos, estão Pelágio e Armínio. Para estes, o pecado não é uma condição. Pelágio não concordava com um pecado original que contaminou toda a humanidade, nem que a natu- reza humana estivesse degenerada pelo pecado de Adão. “Defendia que eram os atos que levavam o ser humano a herdar a salvação”. 33 Nesta mesma linha de raciocínio, Jacobus Arminius não defendia que o ser humano é totalmente corrupto, mas inclinado à alienação. Ele usa Gênesis 6:5, 8:1 e Deuteronômio 31:21 para explicar seu ponto de vista. Arminio dizia que “o ser humano herdou de Adão a possibilidade de errar o alvo, mas não a culpa”. 34 Para estes dois autores, o ser humano é criado para fazer o bem, para herdar a salvação e não a danação. É por causa da alienação e inclinação para o mal que este peca e, por isso, precisa ter seu pecado removido. Este ponto de vista foi duramente combatido pela igreja cristão ao longo da história.

Para finalizar esta parte, ressaltamos, diante de tudo o que foi dito, que o ser humano foi criado por Deus num estado de perfeição, sob a lei do seu criador; porém, por sua própria decisão pecou desobedecendo a Deus, em consequência disso, toda a raça humana é pecadora, não por força mas por

30 Apud Smith (2001, p. 277).

31 Smith (2001, p. 277).

32 Apud Smith (2001, p. 279).

33 Pinheiro (2008, p. 21). 34 Pinheiro (2008, p. 24).

escolha; por natureza é inclinada para o mal, está condenada a danação eterna, sem defesa e sem desculpa.

3.1. As conseqüências na imagem de Deus no homem

3.1.1. Imagem no sentido conseguir dominar

O homem, pelo desenvolvimento de suas capacidades bio-psíquicos sociais, é a criatura que reflete Deus no cosmos, no sentido de dominar. Júlio Andrade Ferreira trabalha este conceito como a “Imago Dei Simples”: O homem visto em seu aspecto natural. Este conceito se encontra nos textos de Gn 1:26-27; 5:3; Tg 3:9. A Imago Dei Simples é a imagem formal de Brunner, a natural de S- trong, e a geral de Calvino.

De acordo com Gênesis, é o ser humano quem dá nome a tudo. É quem domi- na (Gn 1:27 ss.; Sl 8; Tg 3). Nesse sentido, o homem sempre foi e continua a ser a imagem de Deus. É o rei da criação, o vice-rei de Deus na terra. O ho-

mem é o intendente do grande Senhor: “Façamos o homem

e que domine”.

3.1.2. Imagem no sentido de poder ter comunhão

É a imagem renovada. Julio Andrade Ferreira chama este conceito de “Imago Dei Renovada”: Regenerada. Os textos que dão base para este conceito são os de Rm 8:29; Cl 3:10 e II Co 3:18. A imagem renovada é a imagem especial de Calvino, a moral de Strong, e a material de Brunner.

O homem criado a imagem de Deus, feito para relacionar-se com ele, mudou de direção e pecou. Ele, que deveria ser vice-rei, pensou ser o próprio rei. Se, no primeiro sentido, o homem nunca deixou de ser imagem de Deus, no se- gundo sentido, o homem caiu, e como decaído pode ser regenerado. Deus res- taura esta imagem e cria uma “nova criatura”. Paulo diz que “somos transfor- mados de glória em glória na mesma imagem”. A vida cristã é uma restauração da imagem, é a reorientação do homem segundo o seu destino.

Imputar significa atribuir, identificar ou entregar algo a alguém.

Três imputações básicas:

1. A imputação do pecado de Adão a raça humana (Rm 5:12-21; 3:23). To- dos pecaram quando Adão pecou. Ele é transmitido de Adão a cada pessoa e em cada geração.

2. A imputação do pecado do homem a Cristo (2 Co 5:19; 1 Pd 2:24). O remédio para o pecado imputado é Cristo.

3. A imputação da justiça de Cristo aos cristãos (2 Co 5:21).

4. A REMOÇÃO DO PECADO

4.1. No Antigo Testamento

4.1.1. Em Gênesis

Em Gênesis, no capítulo 3, onde temos registrado o pecado cometido pelo pri- meiro casal, temos a remoção do pecado prometida (v. 15) e prefigurada (v.

21).

O Senhor Deus, por causa de sua perfeita santidade, não aceita o pecado; po- rém, por causa do seu imenso amor, está disposto a perdoar o pecador (Jo 3:16; Rm 5:8). Por isso, em toda a narrativa da queda, vemos lampejos da gra- ça divina. Uma evidência disso é Gn 3:15, em que Deus promete que, a partir da mulher, nasceria aquele que esmagaria a cabeça da serpente. Essa pro- messa é conhecida como proto-evangelho 35 , ou “primeiro evangelho”. É a pri- meira vez que aparece, na Bíblia, a promessa do Salvador.

Adão confiou nestas palavras e, provavelmente, por isso, chamou sua mulher de Eva, isto é, vida 36 (Gn 3:20), pois dela nasceria aquele que é a esperança de vida! No v.21, encontramos outro ato gracioso de Deus: fez roupas de pele e com elas vestiu Adão e a sua mulher. Sabemos que, para providenciar a pe- le, um animal teve de morrer. Esse ato já era prenúncio do que Cristo faria pe-

35 BRUCE (2009, p.161).

36 MORRIS (1979, p. 48).

los pecadores, na Cruz. Jesus é a única esperança, o cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo (Ap 13:8).

4.1.2. No decorrer do Antigo Testamento

“A maldição da alienação requer um ato de reconciliação”. 37 “A queda da raça humana e o afastamento de Deus que se seguiu a ela exigiu que se fosse en- contrado algum meio de restaurar o relacionamento do homem com o Se- nhor”. 38 Como ele ocorre? O que o Antigo Testamento tem a dizer sobre este ato? A terminologia do Antigo Testamento em referência a remoção do pecado é rica e variada. Ela concentra-se no que Deus faz com o pecado. Vejamos: 39

1. Ele o remove, põe de lado (Is 6:7; Zc 3:4).

2. Ele o faz sobressair e/ou afasta-o (Ex 34:6-7).

3. Ele o apaga (Is 43:25; 44:22).

4. Ele o lava e limpa (Sl 51:2).

5. Ele o elimina e remove (Sl 51:7).

6. Ele o cobre (Sl 32:1).

7. Ele o expia (Ez 16:62-63).

8. Ele esquece ou não se lembra do pecado (Is 43:25).

9. Ele os lança para trás de si e no mar (Is 38:17).

10. Ele os pisoteará (Mq 7:19).

11. Ele os perdoa (Sl 103:2; Ne 9:17; Sl 130:4).

Apesar de termos registrados as maneiras pelas quais Deus lida com o pecado no Antigo Testamento, ele também registra alguns meios que as pessoas usa-

37 Zuck (2009, p. 34).

38 Merrill (2009, p. 221).

39 Smith (2001, p. 286-288).

ram para se livrar do mesmo. Todos sem sucesso. Estes procedimentos eram puramente externos e por isso não obtinham o resultado esperado.

“Às vezes a condição pecaminosa é resolvida pela lavagem com água (Nm 8.7; 19.9, 21; 31.23; Lv 14.5, 6); outras, queimada com fogo (Nm 31.22, 23; Is 6.6). Às vezes um animal ou pássaro leva embora o pecado (Lv 14.7, 53; 16.21, 22); nas situações mais sérias, o pecador é desligado da comunidade ou morto (Lv 20.6, 10, 11, 14)”. 40

Todos estes métodos mostram a percepção que as pessoas tinham do pecado e a tentativa de encontrar uma solução para ele. Todavia, os profetas tinham pouca confiança nos sacrifícios como meio de remoção do pecado. Eles fala- vam da necessidade de “arrependimento” e “perdão”, como meio de remover o pecado (Is 1:11; Os 6:6; Am 5:23-24; Mq 6:8). O povo deveria se arrepender, isto é, mudar de idéia, voltar atrás, à fidelidade a Deus. Sempre que as pesso- as se arrependiam verdadeiramente no Antigo Testamento, Deus perdoava. O pecado pode ser apagado somente por um ato de perdão de Deus. E, o per- dão, não deve ser entendido somente como uma remoção de pena, mas como uma restauração de relacionamento. Perdão não significa ficar isento das con- seqüências do pecado, mas ter a comunhão com Deus restaurada.

Todavia, qual a base deste perdão no Antigo Testamento? A resposta é que não temos de maneira clara. Apesar disso, podemos encontrar “alguns lampe- jos, prenúncios de uma solução final para o problema do pecado”. 41 Em Isaías 52:13-53:12, temos registrado a expressão mais clara da base do perdão no Antigo Testamento. Neste texto, a ideia do sofrimento vicário de um redentor foi lançada. Smith também diz que o último trecho do Salmo 22 vincula a vitória do reino de Deus ao sofrimento do justo e à sua redenção. 42 Enfim, no Antigo Tes- tamento o problema do pecado não foi resolvido de maneira satisfatória, isto acontece apenas no Novo, onde temos em Cristo, o meio definitivo de perdão.

4.2. No Novo Testamento

40 Smith (2001, p. 289).

41 Smith (2001, p. 298).
42

Smith (2001, p. 298).

Como pecador, o primeiro casal ficou sujeito à morte juntamente com todos os seus descendentes, como está escrito: Pelo que, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram (Rm 5:12). Agora, em estado de desobediência, afastado de Deus e impossibilitado de retomar a Ele por seus próprios esforços, o ser humano necessitava de um Salvador. Felizmente, isto já tinha sido providenciado, antes mesmo da existência desse primeiro casal, graças à presciência de Deus (At 2:23).

O plano de salvação foi elaborado pela Triunidade: Pai Filho e Espírito Santo, ou mais precisamente, pelo "conselho de Deus" (At 2:23). Através dele, a Di- vindade decidiu reconduzir o ser humano ao seu estado original de pureza e santidade, mediante a filiação adotiva (Gl 4:4-7). Nisto ficou provado o grande amor de Deus pelos humanos (Jo 3:16). O texto bíblico mais emocionante a respeito desse plano é o de Ef 1:3-10. Nele Jesus é apontado como o único caminho de retorno a Deus (Jo 14:6); só Ele pode libertar as pessoas da terrí- vel prisão do pecado (Rm 3:9; 6:14). Atentemos para as verdades desse plano em que Jesus Cristo é o personagem central.

Embora só tenha sido revelado na plenitude dos tempos (Gl 4:4 e 5), o plano de salvação foi traçado antes da fundação do mundo (Ef 1 :4 e 5). Portanto, trata-se de uma providência divina, adotada em benefício de todos nós seres humanos mediante a qual, a salvação nos é oferecida gratuitamente, sem que

coisa alguma seja exigida como retribuição (Ef 2:7-9). A Bíblia diz que esse plano nos proporciona toda sorte de bênçãos espirituais (Ef 1:6), entre as quais

a renovação do entendimento (Tt 3:5), que nos habilita a conhecermos e expe- rimentarmos a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm 12:2).

Na análise desse plano precisamos dar atenção especial ao papel exercido pela graça, que é comumente definida como "favor imerecido". A graça é a

maior manifestação do amor de Deus por nós. Sim, somos salvos pela graça, pois esta é um presente de Deus a todos os seres humanos que, pelo que são

e pelo que fazem não o merecem (Rm 3:24).

Fora de Cristo, o pecador não tem a mínima chance de ser redimido, uma vez que a base da salvação é o sacrifício perfeito de Cristo na cruz, que o pecador aceita pela fé. Na cruz, cinco fatos importantes foram provados e estão à dis- posição dos pecadores: 1) O amor de Deus (Rm 5:8); 2) o poder de Deus (1 Co 1:18, 24); 3) a sabedoria de Deus (1 Co 1:24), com uma profundidade insondá- vel (Rm 11 :33-35); 4) a justiça de Deus, pois diante dos céus, do reino das trevas, e de todo o mundo, a promessa de Deus de nos salvar foi cumprida (1 Co 1 :30); 5) a reconciliação do mundo com Deus (2 Co 5: 18-19).