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MEMORIAL DO INFERNO
A Saga da Família Almeida no Jardim do Éden

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Todos os direitos desta edição reservados ao autor.

Publicado por Giz Editorial e Livraria Ltda - EPP


R. 24 de Maio, 77 - 5º andar - Sala 504
Centro - São Paulo - SP - 01041-001
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VALDECK ALMEIDA DE JESUS

MEMORIAL DO INFERNO
A Saga da Família Almeida no Jardim do Éden

São Paulo, 2007

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© 2007 de Valdeck Almeida de Jesus
Título Original em Português:
Memorial do Inferno - A Saga da Família Almeida no Jardim do Éden

Coordenação editorial: Ednei Procópio


Comercial: Simone Mateus
Revisão: Sandra Garcia Cortés
Editoração eletrônica e capa: Gilberto Gonzales Serrano
Impressão: Imagem Digital

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Jesus, Valdeck Almeida de, 1966 –


Memorial do inferno – a saga da Família Almeida
no Jardim do Éden / Valdeck Almeida de Jesus. --
São Paulo: Giz Editorial, 2007. 2ª edição

ISBN: 978-85-99822-49-4

1. Família Almeida 2. Homens – Autobiografia


3. Jesus, Valdeck Almeida de, 1966 – I. Título.

08-1872 CDD-920.71

Índices para Catálogo Sistemático

1. Homens: Autobiografia 920.71

É PROIBIDA A REPRODUÇÃO

Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida,


copiada, transcrita ou mesmo transmitida por meios eletrônicos ou
gravações, assim como traduzida, sem a permissão, por escrito do
autor. Os infratores serão punidos pela Lei nº 9.610/98
Impresso no Brasil / Printed in Brazil

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AGRADECIMENTOS

Aos meus pais, João Alexandre de Jesus e Paula Almeida de


Jesus, falecidos, que foram o alicerce e os principais pilares de
minha vida.

Aos meus irmãos, Valquíria, Valmir, Valdecy, Valdir, Vitório,


Vivaldo e Ivonete, minhas únicas e raríssimas jóias.

Aos meus sobrinhos, Murilo, Rodrigo, Ramon, Roberto Junior,


Vítor e Tiago.

Às minhas sobrinhas, Delma, Jéssica, Amanda e Paula Fernanda.

Ao meu filho, Valdeck Almeida de Jesus Junior, que sempre me


dá motivos para evoluir.
Aos amigos que passaram por minha vida deixando grandes e
indeléveis marcas.

A todos os que, de forma anônima ou não, ajudaram minha


família a sobreviver neste país chamado Brasil.

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APOIO

Ivan Ramos
Lázaro Ramos
Vanise Vergasta

CAPA (ilustração)
Jorge Cravo
(artista plástico baiano)

PREFÁCIO
Domingos Ailton Ribeiro de Carvalho
(escritor, poeta e jornalista)

Valdeck, muita sorte em seu caminho.


BBBeijos.
Jean Wyllys, 18 de abril de 2005
(Dedicatória no livro Aflitos, de Jean Wyllys, publicado
pela Fundação Casa de Jorge Amado, COPENE,
Salvador, 2001).

Eli, Eli, lamá sabactâni: Deus meu, Deus meu, por que me
desamparaste?
Mateus, Capítulo 27, Versículo 46

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SUMÁRIO

Apresentação ................................................................................. 13
Prefácio .......................................................................................... 15
Meu Pai, Minha Mãe ...................................................................... 17
Cenas de Uma Infância ................................................................. 23
Primeira residência – Casa de Nazinha .................................. 23
Primeira escola ........................................................................ 29
Formação Religiosa ................................................................ 30
LUCI VALVERDE MAGALHÃES............................................ 32
Escola na Fazenda ................................................................... 37
Casa do motor .......................................................................... 38
Casa do Mangueiro ................................................................. 40
Perdemos-nos na roça ............................................................. 41
Represa .................................................................................... 42
O Piau ...................................................................................... 42
Acidente de carro ..................................................................... 43
Retorno para Jequié ...................................................................... 47
Trabalho .................................................................................. 52
Enchente – Comida estragada ................................................ 53
Sonhos ........................................................................................... 59
Figuras e Passagens Interessantes ................................................ 61
Militâncias, Trabalhos e Mudanças... ............................................. 73
Militância Política ................................................................... 73
Campanha Política de Waldir Pires ........................................ 74
Trabalho com Abdias e sua mulher ......................................... 75
Primeira viagem a Salvador .................................................... 83

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O Mar ...................................................................................... 86
Retorno a Jequié ..................................................................... 86
Estante com livros velhos ........................................................ 95
Casa própria – o sonho realizado ............................................ 96
Juizado de Menores ................................................................ 98
Casamento com Márcia ........................................................... 99
Casa da Rua João Santana .................................................... 101
Trabalho na empresa Tiradentes .......................................... 102
Em Busca de Um Lugar ao Sol ..................................................... 113
Afogamento em Itapoã .......................................................... 128
Dona Nini .............................................................................. 129
Viagens ........................................................................................ 137
Primeira viagem a São Paulo ................................................ 137
Cursos de inglês e espanhol .................................................. 141
Viagens para Jequié ............................................................... 141
Pedalando e dirigindo em Salvador ...................................... 141
Meu primeiro carro ............................................................... 144
Disco voador na estrada de Santa Inês ................................. 145
Viagens a Nova York .............................................................. 146
Viagem a Madrid ................................................................... 148
Falecimento de minha mãe ................................................... 149
Faculdade de Turismo em 2001 ............................................ 150
Viagem a Porto Alegre ............................................................ 151
Primeira viagem de avião de Junior ...................................... 151
Viagem à Venezuela em 2002 ............................................... 152
Acidente com o Santana ........................................................ 152
Viagem a Cuba ....................................................................... 153
9 de Outubro de 2002, 11:35h ............................................... 155
Mais informações sobre Cuba: .............................................. 159
Viagem para São Paulo com Gal e Eliana ............................. 160
Natal e Ano Novo em 2003/2004 ......................................... 161
Natal e Ano Novo em 2004/2005 ......................................... 162
Orientação Religiosa ............................................................. 163
Atualmente ............................................................................ 165
Roteiro para quem quer vencer na vida: ............................... 167

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Conclusão .................................................................................... 169
Histórias Bizarras ......................................................................... 171
Jequié/Ba ............................................................................... 171
Mordida no Braço de Dida ..................................................... 171
Choque elétrico ....................................................................... 171
Pegador de Menino e Tirador de Sangue .............................. 172
Lobisomem ............................................................................ 172
Meu anel preferido ................................................................ 172
Achei um dinheiro ................................................................. 173
Carrinho de rolimã ................................................................ 173
Caminhada até a Barragem ................................................... 173
Acidentes com Nete ............................................................... 174
Roubo de doces ...................................................................... 174
A calça de Memésio ............................................................... 174
Miguel, o filho de Odília ........................................................ 175
Caderninho de gastos ............................................................ 175
A cabra ................................................................................... 176
Feira do Cardoso ................................................................... 176
Pinduca .................................................................................. 176
Percevejos .............................................................................. 177
O beliche que Paula construiu ............................................... 177
Clínica São Vicente ................................................................ 178
Penico de bosta ...................................................................... 178
Escorpiões .............................................................................. 178
China em Salvador ................................................................ 179
Vitório e Dida em Ilhéus ....................................................... 179
Salvador/Ba .......................................................................... 180
Joanita ................................................................................... 180
Primeira viagem de avião ...................................................... 181
A terceira moto ...................................................................... 181
Iraci ........................................................................................ 181
Pagando micos ....................................................................... 182
Sobre o Autor .............................................................................. 183
Possui poemas publicados nas antologias: ...................... 184
Livros publicados: ............................................................ 186

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JESUS
DE
VALDECK A LMEIDA

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APRESENTAÇÃO

Para que melhor se compreenda a referência que aqui se faz


ao “Jardim do Éden”, é necessária uma prévia explicação. Minha
família iniciou-se praticamente a partir das figuras de minha mãe e
meu pai. Não tive avôs nem avós, primos, tios etc. Assim, tracei um
paralelo imaginário entre minha história e a história mitológica
contada na Bíblia.
Este é um livro autobiográfico, onde assumo o papel do narra-
dor, para contar a história de minha vida e a de minha família, que
compreende: mãe, pai e sete irmãos. Uma saga protagonizada por uma
família de baixa renda, residente em cidade de médio porte no interi-
or da Bahia, que expõe, ao longo de vários tópicos, toda a ordem de
dificuldades que essas pessoas enfrentaram: crises financeiras, falta
de habitação, de alimentação, de escola básica, de tratamentos médi-
co-odontológicos e tanto mais. Ao contrário do que costuma ocorrer
com esse tipo de gente, esta família não mediu esforços para superar
as muitas barreiras que lhe foram impostas, vencendo os mais diver-
sos obstáculos. Sem perder a fé no futuro, sempre incerto e duvidoso,
a Família Almeida conseguiu, com sua luta, atingir os objetivos alme-
Memorial do Inferno

jados e marcar seu lugar ao sol.


Estas páginas, que contam o duro dia-a-dia desta família, têm
por fim incentivar outros sofridos brasileiros a acreditar em seu país e
a lutar por seus ideais.
O Autor.

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JESUS
DE
VALDECK A LMEIDA

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PREFÁCIO
Domingos Ailton Ribeiro de Carvalho**

A memória individual assume uma dimensão grandiosa ao apre-


sentar aspectos marcantes da memória social. Essa é uma das caracte-
rísticas do livro autobiográfico de Valdeck Almeida de Jesus. Com um
título atrativo e carregado de senso de humor (uma das marcas da
personalidade de Valdeck, mesmo nos momentos mais difíceis de sua
vida), Memorial do Inferno - A Saga da Família Almeida no Jardim
do Éden revela a trajetória de uma vida sertaneja que comprova a fra-
se que se tornou célebre no livro Os Sertões, de Euclides da Cunha: “o
sertanejo é antes de tudo um forte”.
Para enfrentar os desafios que Valdeck e sua família sofreram
em Jequié, sertão baiano, é preciso muita força de vontade e determi-
nação. E estes são atributos inerentes à sua vida.
Conheci Valdeck nas lutas estudantis que realizamos no Insti-
tuto de Educação Régis Pacheco (IERP), o maior colégio de ensino
médio de Jequié. Na época em que fui eleito presidente do Grêmio
Estudantil Dinaelza Coqueiro, do IERP, Valdeck fazia parte da direto-
ria, na qualidade de diretor de Imprensa, onde foi co-autor do jornal
Memorial do Inferno

Jornada Estudantil. Nossa gestão ficou marcada na história, uma vez


que, além dos movimentos que fizemos em prol da melhoria do ensi-
no e do acesso à cultura e ao esporte, foi esta a primeira diretoria de
grêmio estudantil livre após o regime militar e a redemocratização do
país. Já no período de estudante do IERP e ativista do movimento
estudantil, Valdeck despontava como um poeta criativo e como um
artista em busca de seu espaço.
Antes mesmo do advento da Internet, ele já entrava em sintonia
com o mundo globalizado, como membro ativo do campo literário, 15

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fato que lhe possibilitou participar de antologias como: Poetas Brasi-
leiros de Hoje, lançada pela Shogun Editora, Rio de Janeiro, 1984;
Transcendental, Art’Labor Eventos e Produções Artísticas Ltda., Sal-
vador, 1998; Heartache Poems, iUniverse, New York, 2004; Antolo-
gia de Poetas Brasileiros Contemporâneos - 14º volume e Antologia
de Poetas Brasileiros Contemporâneos - 15º volume, Câmara Brasi-
leira de Jovens Escritores, Rio de Janeiro, 2005; Ensaios Poéticos,
Academia Virtual Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, 2005. Publicou
ainda outros trabalhos literários em jornais de grande circulação na
capital e no interior do estado da Bahia, além de ter sido colaborador
do jornal A Prosa, de Brasília/DF. Publicou, em 2005, o livro de poe-
sias Feitiço Contra o Feiticeiro, dezenove anos após ter divulgado no
Jornal de Jequié notícia sobre o breve lançamento do referido livro.
Mais recentemente, lançou Jamais Esquecerei do Brother Jean
Wyllys, pela Casa do Novo Autor, São Paulo, 2005, e fundou o fã-clu-
be do jornalista e escritor Jean Wyllys.
Neste livro, Memorial do Inferno - A Saga da Família Almeida
no Jardim do Éden, Valdeck Almeida de Jesus narra, com detalhes, a
história de sua família, abrangendo sua mãe, seu pai e seus sete ir-
mãos, onde conta passagens de momentos difíceis, como aquela onde
diz que “a comida variava de pão seco com café preto a pirão de fari-
nha com água fria. Muitas vezes dormíamos com fome, acreditando
no que minha mãe dizia: ‘amanhã Jesus vai trazer comida’. Eu me
irritava e xingava muito, pois todos os dias eu ouvia a mesma história
e Jesus nunca chegava com a comida prometida”. Mas não é só. O
autor se reporta também a momentos de sucesso, como o fato de ter
sido aprovado em concurso do Tribunal Regional do Trabalho, em
decorrência da sua boa capacidade intelectual, e de ter sido, desde cri-
ança, um aluno exemplar.
JESUS

Valdeck Almeida de Jesus é exemplo para todos que sonham e


DE

procuram concretizar seus sonhos. Ele tem um pensamento fascinan-


VALDECK A LMEIDA

te: devemos ter sempre uma atitude positiva diante da vida e deixar
esta imagem transparecer aos outros. Por este e mais tantos ensina-
mentos, e pela edificante trajetória de vida do autor, vale a pena a lei-
tura deste extraordinário livro.

(**) Domingos Ailton Ribeiro de Carvalho é poeta, escritor e mestre em Me-


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mória Social e Documento. Fundador e Membro da Academia de Letras de Jequié.

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MEU PAI, MINHA MÃE

Eu devia ter meus cinco anos de idade, mais ou menos. Ao en-


tardecer, surgia ele ao longe, com um machado nas costas, roupas sur-
radas e rasgadas pela ação do mato. As primeiras lembranças que te-
nho dele são de quando eu e Quira ficávamos na porta da casa (casa
alugada de Nazinha), esperando por sua chegada no final da tarde. E
ele nunca esquecia de passar na venda de Seu Júlio para nos com-
prar bombons.
Semi-analfabeto, trabalhava em fazendas, cortando madeira.
Não sei muito de sua vida, pois, além de trabalhar muito e estar sem-
pre fora de casa, na época em que convivi com ele eu era muito crian-
ça; além disso, em minha adolescência, meu pai vivia doente e não
tinha um espírito conversador como o de minha mãe. Antes de se ca-
sar com ela, teve um outro casamento, que lhe deu seis filhos, até
ficar viúvo.

João Alexandre de Jesus era um pai do tipo rígido, que batia de


cinto quando necessário. Mas também sabia ser amigo, dar bons con-
selhos e fazer carinhos, ao seu modo. Lembro-me, uma vez, já moran-
Memorial do Inferno

do na casa de Amanda, de uma ocasião em que ele queria me bater,


por uma travessura, da qual não me recordo bem. A porta da rua era
muito alta, para descer havia uma espécie de escada. O terreiro era de
cascalho. No afã de fugir das cintadas certeiras, joguei-me porta abai-
xo, caindo e esfolando toda a barriga no cascalho. Meu tórax e abdo-
me sangravam, eu chorava de dor. Então ele disse: “Vem!”. Eu relutei,
com medo de apanhar. E ele continuou já com a voz mais mansa: “Não
vou te bater mais”. Eu fui e ele não bateu... Esta cena se inscreveu para
sempre em minha memória. 17

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Era um homem de pouca saúde. Sobretudo, pelas más condi-
ções de seu tipo de trabalho. Lembro-me de que minha mãe contava
sobre uma tora de madeira (uma árvore) que havia caído em cima de
meu pai, em uma das roças onde trabalhou. Ele também sofria de uma
sinusite crônica, que o deixava atordoado. Vivia a queixar-se de dores
de cabeça. Com a velhice, tudo foi se acumulando, e ele acabou mor-
rendo, vitimado por uma série de problemas de saúde.
Ao final da vida, havia momentos em que perdia a memória.
Ficou violento e, por segurança, minha mãe passou a mantê-lo tran-
cado no quarto, para evitar que se ferisse ou que saísse pela rua sem
rumo. Nessa época, início dos anos 80, criou o hábito de pedir comida
às pessoas que iam visitá-lo. Dizia sentir fome, porque os filhos comi-
am tudo e nada deixavam para ele. As pessoas acreditavam no que ele
dizia e lhe levavam comida, mas não sem antes advertir-nos para não
mais agirmos daquela maneira com o nosso próprio pai. Para resol-
ver o assunto, minha mãe, um dia, pediu aos que traziam comida a
meu pai para ficarem escondidos e observá-la enquanto lhe dava a
comida; ele comia tudo. Depois, chamava a visita para vê-lo nova-
mente. Como ele não reconhecia ninguém, nem os próprios filhos,
repetia a mesma história de que teríamos comido tudo, sem deixar
nada para ele.
Meu pai foi aposentado por invalidez. Recebia um salário míni-
mo por mês. Quando morreu, esta pequena renda se extinguiu e mi-
nha mãe se viu com oito filhos menores, sem condições financeiras de
sustentá-los.
O velho João - como costumávamos chamá-lo - sofreu muito
durante a vida e, quando esteve doente, de cama, quase à beira da
morte, seu sofrimento foi muito maior. O sofrimento dele era também
JESUS

o nosso sofrimento. No dia de sua morte, Albérico, um parente distan-


DE

te, tirou fotografias de meu pai na cama, na hora em que agonizava.


VALDECK A LMEIDA

Eram seus últimos momentos de vida. Assisti a tudo e ajudei, inclusi-


ve, a colocar uma vela em sua mão. Para ser franco, devo dizer que não
me comovi com sua partida, não senti sua falta, não fiquei triste. Ao
contrário, senti mais alívio por vê-lo partindo do que a dor de perder
um ente querido. Vim chorar sua falta somente dez anos depois. Era
um domingo de Dia dos Pais, e neste dia senti profundamente a sua
18 ausência. Fiz até um poema em sua homenagem.

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Paula, minha mãe, costumava falar demais. Sempre contava
muitas histórias de sua vida, mas, na maioria das vezes, nós, os filhos,
não levávamos muito a sério o que ouvíamos. Na maior parte do tem-
po, simplesmente fingíamos ouvir suas histórias, e, em outras ocasi-
ões, corríamos, deixando-a a falar sozinha.
Ela contava que a mãe tinha morrido de parto e que fora criada
pelo pai até os doze anos de idade; que sua avó paterna era uma índia
“pega a dente de cachorro”. Segundo ela contava, seu pai era um am-
bulante, louro e de olhos azuis. Essa história foi confirmada, após sua
morte, por uns primos, descobertos por minha irmã Valquíria lá perto
do Frisuba – cerca de 15 quilômetros de Jequié -, local onde minha
mãe passou boa parte da infância e juventude.
Cabe dizer aqui que nossa idéia de família remonta praticamen-
te à figura de minha mãe e de meu pai, já que não tínhamos conheci-
mento da existência de outros parentes.
O fato de meu avô materno ter sido loiro e de olhos azuis explica
o fato de quase todos nós termos nascido com cabelos loiros, que mais
tarde teriam sua cor modificada para preto ou castanho claro, pelos
efeitos do tempo. Explica também os olhos claros com que alguns de
nós fomos contemplados. Antenor, um de nossos recém-descobertos
primos, afirma que esse avô materno era descendente de italianos.
Diz que ele vivia pelas bandas de Santo Antônio de Jesus e que era,
realmente, um ambulante. Trabalhava com confecção artesanal de
cestas e produtos feitos com palha.
Minha mãe sempre teve problemas sérios de saúde. Contava que,
Memorial do Inferno

quando criança, sofria de uma espécie de doença, que nunca entendi


bem do que se tratava, se um problema de coração ou de ordem espi-
ritual. Dizia que, durante uma época, ficava presa num quarto, amar-
rada em algo semelhante a uma camisa-de-força, por não ter controle
dos movimentos do corpo. Ficava a se debater todo o tempo, a ponto
de os parentes precisarem amarrá-la à essa camisa-de-força improvi-
sada, feita com couro de boi, para que não se machucasse. Essa situa-
ção deve ter durado muito tempo e marcado bastante sua vida, pois
19
freqüentemente voltava a tocar no assunto.

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Quando já tínhamos mais consciência da vida, presenciamos
muitas de suas crises: sistema nervoso, asma, coração. Costumava
ficar, por boa parte do tempo, sem os movimentos dos membros in-
feriores, praticamente paralisada. Arrastava-se pelo chão, sem qual-
quer sensibilidade nas pernas. Não sentia a parte inferior de seu cor-
po nem mesmo ao fazer suas necessidades. Era um sofrimento só,
tanto para ela quanto para as crianças. Precisava de cadeira de ro-
das. Conseguimos uma, depois que tive a idéia de enviar uma carta
ao programa apresentado por Geraldo Teixeira, na Rádio Baiana de
Jequié. Nesta oportunidade, foi-nos doada uma cadeira de rodas usa-
da, que serviu à minha mãe até ela apresentar melhoras e poder subs-
tituí-la por um par de muletas. Após muitos anos, finalmente, voltou
a andar.
Essa foi uma das fases mais marcantes para a vida de minha
mãe, e também para a nossa. Ficávamos mortos de vergonha por ter-
mos de empurrar aquela cadeira rua acima e rua abaixo, para que ela
conseguisse as esmolas que ajudariam a gente a comer, beber, se ves-
tir, estudar, sobreviver. A cadeira era imensa, minha mãe pesada, e
nós franzinos e fracos para agüentarmos todo aquele peso; além da
questão, é claro, da timidez e vergonha de sermos vistos empurran-
do a cadeira de rodas. Mas não tínhamos escolha. Ou empurrávamos
a cadeira para pedir esmolas ou morríamos de fome. De minha par-
te, sentia uma vergonha enorme ao ser visto conduzindo aquela ca-
deira de rodas pelas ruas, sob o sol quente.
Durante todo o tempo passado ao lado de minha mãe, o que
mais me recordo, além das constantes mudanças de endereço, já que
não morávamos em casa própria, eram as idas e vindas ao Hospital
Geral Prado Valadares, onde ela permanecia internada por grandes
JESUS

intervalos de tempo. Durante essas fases, cada um dos filhos ficava


na casa de um vizinho, até que ela retornasse e mostrasse condições
DE

de reassumir a casa e as crianças. Esses vizinhos chegavam a lhe pro-


VALDECK A LMEIDA

por que doasse os filhos, alegando que as crianças poderiam ter vida
mais digna e confortável, mas ela jamais admitiria tal hipótese. Di-
zia: “Onde come um, comem dois”. Passava apertos, privações, ne-
cessidades, mas jamais seria capaz de doar qualquer um de seus fi-
lhos. Era uma experiência sem igual, já que na casa do anfitrião tí-
nhamos tudo o que não tínhamos em nossa casa: comida, cama, ba-
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nho, televisão. Mas o desejo maior era de que minha mãe pudesse

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voltar do hospital e todos retornássemos ao aconchego do lar e do
colo materno. Era uma grande festa quando recebíamos a notícia de
que nossa mãe tinha tido alta médica e que estava voltando para casa.

Memorial do Inferno

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JESUS
DE
VALDECK A LMEIDA

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CENAS DE UMA INFÂNCIA

Primeira residência – Casa de Nazinha

A casa ficava num local que hoje se chama “Banca”, no bairro


Jequiezinho, em Jequié. Na época em que moramos ali, não havia água
encanada, linha de ônibus nem calçamento nas ruas. Cabe aqui res-
saltar que, passados mais de quarenta anos, esta e outras ruas do bair-
ro permanecem ainda sem calçamento e sem linha regular de trans-
porte coletivo. Apenas uma linha de ônibus circula nos arredores.
Os esgotos ainda correm a céu aberto e as casas mantêm o as-
pecto da pobreza e da miséria que ainda ronda o antigo bairro. Vivi ali
boa parte de minha infância. Passei fome e brinquei por entre os lixos,
catando ossos para vender. Freqüentemente pedia comida na casa de
um e de outro. Este fato rendeu a mim e à minha irmã Valquíria (Qui-
ra) alguns apelidos do tipo “Gordurinha” (Quira) e “Paquira” (eu), pois,
quando íamos à casa de Seu “Santin” pedir comida, eu costumava dizer:
“Minha mãe falou pro senhor mandar um pedacinho de carne PAQUI-
RA”, enquanto Quira vivia pedindo “uma gordurinha”. Seu “Santin” ma-
Memorial do Inferno

tava porco e era tido como rico, pois em sua casa não faltavam comida,
energia elétrica e sanitário (com uma fossa no quintal).
Lembro-me de uma vez que eu estava catando ossos nos fundos
do quintal dele, quando, ao pular sobre um esgoto, caí, atolando as
duas pernas dentro das bostas e cortando o pé direito nos cacos de
vidros alojados no fundo do lamaçal. Foi um horror. Um drama. Corri
para casa aos prantos e minha mãe cuidou de mim. Eu gritava e cho-
rava de dor, desesperado de ver toda aquela inundação sanguínea a
jorrar do meu pé. 23

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A casa era de taipa. Dois quartos, uma salinha e uma cozinha
minúscula. Foi construída sobre uma encosta, sendo que a parte da
frente da casa, que dava para a rua principal, tinha uma escada enor-
me para descer até o nível da rua. E a porta dos fundos era no mesmo
nível do solo, porém dava para uma ladeira, que ia dali da porta da
cozinha até a rua que passava atrás. Era casa de aluguel. Acredito que
Valquíria tenha nascido ali, já que devemos ter morado naquela casa
por volta do ano de 1967. Recordo-me bem do momento em que mi-
nha mãe entrou em trabalho de parto e foi para o hospital. Ao voltar
com o nenê, sua cama foi arrumada com lençóis floridos. Ficava ali
deitada o tempo todo com seu bebê, respeitando o resguardo do parto.
Os vizinhos eram os próprios donos da casa: Maria, mãe de Na-
zinha, que, por sua vez, era mãe de Lúcia e de Domingos. Havia tam-
bém uma família que morava perto: Maria de Ademário, sua filha Lú-
cia e mais outros filhos, dos quais não me recordo bem. Atrás da casa
havia um beco, onde se guardavam ossos. Durante a noite, os cachor-
ros apareciam para roê-los. Faziam uma algazarra que me amedron-
tava. Por inúmeras vezes, acordava chorando e gritando de medo. Acha-
va que os cães estavam embaixo de minha cama de lona. Mas logo
aparecia minha mãe para me tranqüilizar, dizendo que os cachorros
estavam do lado de fora. E, como eu não me convencia, ela me levava
para dormir em sua cama.
Nossos móveis se resumiam a uma pequena cama de madeira e
um armário de cozinha, do tipo cristaleira, porém sem os vidros nas
portas. O fogão era de barro e o combustível era lenha. Não havia água
nem luz. Saneamento básico, nem pensar. Nenhuma casa, em todo o
bairro, possuía esgotamento sanitário.
Eu morava a cerca de 500 ou 600 metros da venda de Seu Júlio,
JESUS

que para mim pareciam quilômetros. Aos olhos de uma criança tudo é
DE

imenso, gigantesco... E, para aumentar a sensação de distância, de


VALDECK A LMEIDA

minha casa até a venda não havia casas nem de um lado nem do outro
da rua. O que havia era uma cerca, formando uma estrada, uma passa-
gem chamada de “corredor”, por onde passava muito gado. Muitas
vezes eu via passar centenas de milhares de animais, guiados por
vaqueiros, que advertiam aos moradores do perigo de se aproxi-
mar da manada. Era um espetáculo que durava horas e horas, como
24 se fosse um mar interminável de bois e de vacas. Nos dias de hoje,

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esse espetáculo já não existe. As criações se restringem a lugares
mais afastados da cidade e também já não há tantos animais como
havia antigamente.
Quando eu ia à venda de Seu Júlio comprar alguma coisa, tinha
sempre que enfrentar um menino que me batia, enquanto o tio dele
ficava esperando eu acabar de apanhar. Uma vez, apanhei bastante
desse garoto. Quando minha mãe soube que isso acontecia, procurou
os parentes dele e se queixou. Desse dia em diante não apanhei mais.
Uma lembrança que até hoje habita a minha mente é a do boato
sobre o “fim do mundo” ou “dia da escuridão”. Diziam que o mundo
ficaria sob as trevas. Minha mãe, muito precavida, tinha várias velas
bentas, que seriam as únicas a permanecerem acesas quando o “escu-
ro” viesse, segundo ela. Tinha também água benta e pão bento, que
seriam os únicos alimentos permitidos durante os dias de escuridão.
Penso que tais boatos eram criados pela igreja católica para amedron-
tar as pessoas. Quanto à previsão de fim do mundo, minha mãe acre-
ditava piamente que o mundo se acabaria no ano 2000. A passagem
desse ano foi quase uma decepção para ela, mas também uma alegria,
por saber que viveria um pouco mais aqui na Terra. No entanto, a pre-
visão que fez de sua própria morte, que viria a ocorrer neste mesmo
ano de 2000, realmente aconteceu, no triste mês de junho.
Marcaram-me também as folhas de juá, que usávamos como
creme dental. A fruta do juazeiro é pequena como uma azeitona, po-
rém redonda e muito doce. As folhas, no entanto, são amargas e, se-
gundo a crença popular, possuem propriedades medicinais, prevenindo
cáries e outras doenças bucais. Crença ou não, fato é que, hoje, muitos
cremes dentais exibem em suas embalagens, com orgulho, a folha de
juá na composição do produto. Uma outra fruta que comíamos muito
Memorial do Inferno

era a “quixaba”, parecida com o juá, porém de cor preta, diferente da


outra, que, quando madura, fica amarelinha.

i
Moramos também numa casa na antiga “Rua da Palha”, atual
Rua Vovó Camila, no Jequiezinho. Era uma pobreza franciscana por
todo o bairro. Casas de palha e de “adobões”, muita miséria e falta de 25

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tudo. Recordo-me que nessa época eu e Quira freqüentávamos uma
escola na casa de Seu Canuto. A casa era imensa aos nossos olhos.
Anos mais tarde, voltamos ali e constatamos que a casa não era tão
grande assim. Era apenas a impressão dos olhos de uma criança, que
amplia tudo. Havia um extenso matagal onde brincávamos. As casas
ficavam somente de um lado da rua. Do outro, era mato fechado, onde
os moradores jogavam o lixo e onde as crianças brincavam de escon-
de-esconde. A lenha para os fogões era retirada também dali. Em dias
de ventania, o lixo era espalhado pra todo lado, inclusive pra cima das
casas. Lembro de uma expressão que aprendi, nessa época, de tanto
que os mais velhos repetiam. Quando o vento começava a soprar for-
te, costumava-se dizer: “Aqui tem Maria Virgem!”. Era uma alusão à
mãe de Jesus, para que o vento diminuísse sua intensidade e evitasse
atingir a casa daqueles que pronunciavam a “santa frase”.
Atrás da casa havia também muito mato. Havia sítios, onde os
proprietários criavam cabras e onde minha mãe buscava água para
abastecer a casa. Um desses sítios pertencia a um “primo” de minha
mãe. Mas, como não dispúnhamos de muitas informações a respeito
dos familiares dela, sempre achávamos que as pessoas que ela nos
apresentava como parentes eram apenas pessoas com as quais tinha
alguma afinidade. Esta rua era um prolongamento do “corredor” por
onde passava o gado para as fazendas, tocado pelos vaqueiros.

i
Moramos ainda na casa alugada de Amanda, na Rua Professora
Virgínia Ribeiro. Era uma casa de meia água, modelo de construção
no qual o telhado se projeta em apenas uma direção, da parede mais
JESUS

alta para a mais baixa. Quando chovia, caía água de chuva por cima da
parede, e minha mãe ficava morrendo de medo que a parede caísse, já
DE
VALDECK A LMEIDA

que era feita de “adobões”. A casa não tinha água encanada, luz elétri-
ca nem nada.
Nessa época, a Rua Professora Virgínia Ribeiro também tinha
casas somente de um lado. No outro, havia um matagal cheio de plan-
ta espinhosa, mandacaru, urtiga, cansanção e arbustos da espécie. Era
dali que as pessoas, inclusive a nossa família, tiravam, para o consu-
26
mo diário, a lenha, que era o combustível dos fogões daquele tempo. O

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fogão à lenha, marca registrada de todas as casas da época, enorme,
feito de adobes, ficava bem no meio da cozinha.
Nossa família costumava ter sempre muitos problemas de saú-
de. Uma vez, fiquei com o corpo todo ferido. Não sei que doença era
aquela, mas lembro que minha mãe me banhava com sumo de folhas
de “vassourinha”. Eu sentia muita dor quando o sumo entrava em con-
tato com as feridas. Minha irmã Nete também apresentou problemas
de ferimentos pelo corpo. Mas, no caso dela, as erupções se concen-
travam mais no couro cabeludo que, de tão ferido e purulento, acu-
mulava até bicho de mosca em sua cabeça. Era uma nojeira só.
Minha madrinha, Dona Nenê, era uma senhora negra que mo-
rava perto de nossa casa. Eu a tratava por Comadre Nenê, exatamente
como minha mãe a chamava. Nunca consegui pedir-lhe a bênção nem
chamá-la de “madrinha”.
Desta época, lembro nitidamente de um episódio em que eu,
com meus seis ou sete anos de idade, viajava no ônibus com minha
mãe, e um passageiro, sentado no banco de trás, começou a brincar
comigo. Como eu não respondia nem participava da brincadeira, o
homem protestou dizendo que eu era muito enfezado e que tinha a
cara fechada. Hoje, ao lembrar desta cena, percebo o quanto mudei.
Atualmente, sou um sujeito brincalhão, que tenta sempre se manter
alegre e tirar uma boa lição de tudo o que a vida possa oferecer, seja de
bom ou de ruim.
Insere-se também nessa época um outro episódio do qual ja-
mais esquecerei. Sempre via as pessoas pularem dos ônibus antes que
eles parassem no ponto. Achava aquilo tão bonito que me senti tenta-
do a fazer o mesmo. Um dia, antes de o ônibus parar no ponto onde eu
deveria descer, me joguei. Logicamente, acabei caindo de mau jeito e
Memorial do Inferno

me machucando. Fiquei todo ralado e sujo de terra. Entrevado no chão,


todo empoeirado, me apavorei entre arranhões, sangue e lágrimas.
Minha mãe ficou desesperada. O motorista e os passageiros desceram
para ver o que havia acontecido. Foi uma confusão só. Felizmente,
tudo não passou de um susto e de raladuras pelo corpo inteiro. Um
desconhecido que passava na hora se ofereceu para me levar de bici-
cleta até em casa. Mais uma lição aprendida.
Nessa época, meus irmãos Zezé e Édson, da primeira família de
27
meu pai, visitavam meu pai regularmente. E, numa dessas visitas, acha-

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ram por bem levá-lo com eles para São Paulo, onde poderiam cuidar
melhor de sua saúde. Ficou então decidido que minha mãe, eu, Val-
quíria, Valmir (Mi) e Valdecy (China) – filhos da segunda família de
meu pai – ficaríamos em Jequié, na casa de Amanda, cujo aluguel pas-
saria a ser pago por Édson e Zezé. Ficou acertado que as despesas com
a nossa alimentação também correriam por conta deles, que enviari-
am o dinheiro diretamente para Amanda, dona da casa onde moráva-
mos, e para Preta, dona da venda onde a comida seria comprada.
Todos os meses as despesas eram cobertas, conforme o acorda-
do. Mas, com o passar do tempo, o dinheiro parou de chegar, tanto
para o aluguel quanto para a comida, e Preta parou de nos vender fia-
do. Quanto à casa, Amanda permitiu que continuássemos morando,
agora de graça, com pena de mandar embora uma mãe com quatro
filhos pequenos. Por falta de comida, minha mãe não teve outra saída
a não ser sair para pedir esmolas pelas casas do centro da cidade. Mas
sempre dizia que estava trabalhando. Não queria que a vizinhança
soubesse que ela era uma pedinte (no interior, pedinte é chamado
de “esmoler”).
Onde atualmente está erguido o edifício Mansão Avenida, na
Avenida Rio Branco, Centro da Cidade, existia um casarão enorme.
Era um dos pontos onde minha mãe costumava pedir esmolas, arras-
tando eu e Quira pela cidade inteira. Não lembro o nome da proprietá-
ria da casa, mas lembro claramente que existia em seu quintal um car-
rinho tipo jipe, com quatro rodas, e que se locomovia por pedais inter-
nos. Era um carro todo velho e enferrujado, mas com o qual nos diver-
tíamos muito toda vez que íamos lá. Brigávamos para disputar quem
iria brincar com o carro. Minha mãe, diante da cena, intervinha para
evitar a confusão, dizendo que meu pai traria um Velotrol novo de São
JESUS

Paulo, assim que voltasse de seu tratamento de saúde. Passou-se uma


vida inteira e o Velotrol não chegou. Mas ficou a lembrança desta pro-
DE

messa em nossas mentes, que jamais será apagada.


VALDECK A LMEIDA

i
Não havia transporte coletivo circulando naquela região. Era
uma rua de pobres, e pobres não tinham dinheiro para pagar ônibus.
28
A linha que passava mais perto, a um quilômetro de distância, cortava

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a Avenida Franz Gedeon. O trajeto até ali tinha de ser feito a pé ou, em
caso de emergência, tentava-se arranjar uma carona, coisa muito difí-
cil, uma vez que toda a vizinhança era pobre e mal tinha dinheiro para
a comida. Também não existia calçamento. Anos depois, a energia elé-
trica foi ligada na rua, mas em nossa casa nunca pudemos usufruir
deste benefício, pois não tínhamos condições de arcar com a conta
mensal. Lembro dos inúmeros buracos que a companhia de energia
elétrica abriu na rua para colocar os postes, dentro dos quais a crian-
çada costumava se divertir.
Minha mãe passou a pegar água na casa de Amanda, tão logo
ela foi instalada lá. Usava-a para consumo e para lavar roupas e pra-
tos. Nessa época, éramos apenas eu, Quira, Mi e China, os quatro fi-
lhos mais velhos. Com o passar do tempo, as coisas foram melhoran-
do. Minha mãe já contava com uma boa quantidade de pessoas conhe-
cidas nos arredores, e muitas dessas pessoas ajudavam regularmente
a nossa família. À medida que o tempo passava, minha mãe ia apren-
dendo a cultivar cada vez mais suas amizades. E, como ficamos mui-
tos anos morando nesta casa, o círculo foi aumentando.
Certa vez, morando ali, fui com minha mãe ao centro da cidade
para pedir esmolas. Ao passarmos pela Praça Ruy Barbosa, vi alguns
clipes de papel espalhados pelo chão. Achei bonito e parei para catar.
Quando terminei de pegar todos, olhei em volta à procura de minha
mãe e não a vi por perto. Perdi-me dela, fiquei apavorado. Comecei a
chorar e a gritar por ela. Aos prantos, lembro de dar voltas e mais
voltas no quarteirão onde ficava o antigo Mercado Municipal.
No final, um senhor chamado Seu Nenzinho me pegou pelo bra-
ço e me levou para a Rádio Baiana de Jequié. Lá me colocou no ar, no
programa de Geraldo Teixeira, e depois me levou para a sua casa, onde
Memorial do Inferno

permaneci até que minha mãe fosse me buscar. Ela já conhecia Seu
Nenzinho e a esposa, Dona Lia; meu pai já havia trabalhado em uma
de suas fazendas. Fiquei em sua casa apenas um dia. No dia seguinte,
minha mãe já estava lá para me pegar.

Primeira escola

Foi na Escola de Lina que eu e Quira começamos a estudar. Eu


com seis anos de idade e ela com cinco. Era uma escola particular, que 29

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funcionava dentro da casa da professora, na Rua da Banca. Até hoje a
escola existe, no mesmo lugar. Saíamos pela manhã e voltávamos à
noite, o turno era em tempo integral. Foi lá que aprendi o ABC. Quan-
do não sabíamos o dever ou esquecíamos o nome de alguma letra, a
professora nos batia com palmatórias. Mamãe nos dava dinheiro para
a merenda, cinco centavos. Na hora do recreio saíamos para comprar
a merenda e brincar dentro de um matagal que rodeava a escola.
Íamos e voltávamos sozinhos, não havia perigo algum. Nessa
época, minha mãe sempre me mandava à Venda de Preta (que era
branca) para comprar algo. Permanece ainda nítida a lembrança do
miolo dos pães, que comia pelo caminho. Outro episódio bizarro foi
quando fui comprar um ovo e acabei por esmagá-lo entre os dedos, de
tanto cuidado para não deixá-lo cair. Voltei para casa com os frag-
mentos da casca do ovo na mão, e, quando minha mãe perguntou
por ele, abri a mão, que guardava apenas as fraturas de sua casca.
Não, ela não me bateu nem me castigou por causa disso. Compre-
endera o meu dilema.
A segunda escola foi a de Neuza, onde aprendi a ler e a recordar
(ler novamente) o livro Alice. Aprendíamos a ler e a fazer contas com a
tabuada. Como eu terminava de ler o livro inteiro antes do final do
ano, tinha que “recordar”. Chorava muito quando não conseguia ler
uma determinada palavra e era colocado de castigo, em frente à pro-
fessora, até conseguir lê-la corretamente.

Formação Religiosa

Nascemos num país católico e, fatalmente, seguimos a religião


da maioria. A vida de minha mãe era nas igrejas. Não faltava às missas
JESUS

dominicais e, nos demais dias da semana, sempre que possível, arru-


mava um jeito de assistir às missas regulares. Lembro-me, com certa
DE
VALDECK A LMEIDA

ternura, de uma amiga dela, chamada Anália, mãe de Roxa, Pedro e


Dozinho, também muito fervorosa, que, de vez em quando, nos trazia
hóstias para colocarmos na sopa. Não eram propriamente as hóstias
que eram servidas na missa, mas sim a folha de goma com os furos de
onde haviam sido retiradas as hóstias.
Eu e Quira freqüentávamos o catecismo, que era coordenado
30 por Isaías, um dos cristãos da Igreja do Convento. Para nós, era uma

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festa. Ele vinha nos buscar em casa, de carro, levando também várias
outras crianças. Era o melhor dia da semana, pois significava a chance
que tínhamos de conhecer e interagir com outras pessoas, sem falar
na diversão que tudo aquilo nos proporcionava.

Minha mãe adorava a igreja católica e nunca perdia uma procis-


são. Uma vez, quando acompanhávamos uma dessas procissões, um
menino me deu uma vara para segurar. Quando segurei firme, ele pu-
xou a vara, que escorregou por entre meus dedos, deixando minha
mão toda suja de bosta. Tive de agüentar a mão lambuzada e o maior
fedor até o final da procissão, quando pude ir para casa me lavar. Odiei
aquele menino.

Minha mãe tinha feito uma promessa para São Roque, pedindo
ao santo que a curasse do problema das pernas: um problema de saú-
de que a deixava paralítica. Após cumprir a promessa, começou a sen-
tir alguma melhora, o que contribuiu para aumentar ainda mais sua
fé, motivando-a a fazer uma festa para o santo. Para realizar essa fes-
ta, ela se vestia com uma roupa azul, comprida até os pés, pegava a
estátua de São Roque, improvisava uma espécie de altar ambulante e
saía em direção a todas as casas da cidade, pedindo esmolas para aju-
dar no evento. No dia da festa, vinham as mulheres rezadeiras e mui-
tos outros fiéis comer o arroz-doce que era servido. A casa, repleta de
velas acesas, era toda arrumada para aquela cerimônia. A reza durava
horas e mais horas. Era muito divertido ver aquilo tudo. Uma autênti-
ca demonstração de fé e de confiança em São Roque, mais um dos
representantes de Deus na Terra.

Foi também nessa oportunidade que tivemos contato com o


Centro Espírita Bezerra de Menezes, atraídos por cestas básicas, re-
Memorial do Inferno

médios gratuitos, cobertores e roupas. Houve vezes em que até di-


nheiro minha mãe recebera daquela instituição. Tornamo-nos conhe-
cidos do pessoal do “Centro”, que vinha até nossa casa para trazer do-
ações. A fome nos atraiu para onde a comida era ofertada gratuita-
mente. Com o tempo, minha mãe passou a assistir às palestras de dou-
trinação. Levava sempre a mim e a Quira com ela. Acabamos nos acos-
tumando a ouvir a palavra de Deus e acabamos ficando por lá, sem
deixar, contudo, de freqüentar a igreja católica, que também era uma
fonte de alimentos para os pobres. 31

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Em algumas reuniões do Centro Espírita não era permitida a
presença de crianças. Nessas ocasiões, minha mãe nos deixava na casa
de Dona Laurita, que ficava nas imediações do Centro. Enquanto es-
perávamos pelo seu retorno, divertíamo-nos imitando o que víamos
no Centro Espírita, inclusive os movimentos dos médiuns dando seus
passes. As filhas de Dona Laurita morriam de rir do espetáculo que
lhes proporcionávamos.

LUCI VALVERDE MAGALHÃES

Minha mãe sempre teve saúde muito frágil e, após a viagem de


meu pai, ficou bastante abalada. E não era para menos. Viu-se sozi-
nha, com quatro filhos para cuidar e sem nenhuma fonte de renda
para garantir sustento e habitação. Pouco tempo depois da partida do
marido, ela resolveu ir também para São Paulo, mas não conseguiu
contar com o apoio de meus irmãos Édson e Zezé. Então resolveu pe-
dir ajuda à Prefeitura Municipal, então comandada por Caribé. O pre-
feito forneceu-lhe as passagens. Quanto à grana para a comida, minha
mãe conseguiu vendendo a mobília que possuíamos. Começou a pla-
nejar a ida da família para Sampa: entregou a casa, embalou as roupas
e fez pacotes de comida. Porém, um dia antes da partida, ela teve um
sonho, no qual via que o ônibus em que viajaríamos sofria um aciden-
te. Eu aparecia no sonho como único sobrevivente, chorando em meio
aos corpos dos passageiros e destroços do veículo. Prontamente ela
cancelou a viagem. Amanda, por sorte, permitiu que continuássemos
a morar na casa. No dia seguinte ao dia da suposta viagem, a Rádio
Baiana noticiou um acidente ocorrido com um ônibus da empresa pela
qual viajaríamos, e que apenas um bebê de seis meses de idade havia
sobrevivido.
JESUS
DE

i
VALDECK A LMEIDA

Meu irmão Valmir tinha freqüentes problemas de falta de ar,


quando a asma lhe atacava. Ele ficava ruim, quase morto. Eu não com-
preendia a gravidade da situação, mas percebia o quanto minha mãe
ficava preocupada quando Valmir era vitimado por seus ataques de
32 falta de ar. Ela tentava de tudo, sem dinheiro para médico, sem di-

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nheiro para remédio... Dava-lhe cigarros de flor de zabumba para fu-
mar, o que amenizava a situação.
Uma vez, Luci Valverde, freqüentadora do Centro Espírita, ao
ver meu irmão, pela primeira vez, teve uma crise de choro e disse que
Valmir deveria ter sido alguém importante na vida dela em alguma
vida pregressa. Fez de tudo para que minha mãe entregasse meu ir-
mão para ela cuidar. Com a permissão de minha mãe, Mi foi morar
com Luci. Ela sempre trazia Mi para minha mãe ver. Quando ele che-
gava em nossa casa, trazido por Luci, vinha sempre muito bem vestido
e gordo - contrastando conosco -, resultado da vida boa que levava por
lá, comendo iogurte e outras coisas que nós, nem em sonho, ousáva-
mos imaginar. Passado o devido tempo, minha mãe resolveu pedir o
Mi de volta. E Luci o trouxe definitivamente para casa, já curado da
asma, em virtude dos tratamentos médicos caríssimos a que fora sub-
metido, sob os cuidados dela.
Já não tínhamos o que fazer para sobreviver, quando Luci Val-
verde ofereceu a fazenda dela para que fôssemos lá morar e trabalhar.
A viagem foi acertada, após minha mãe aceitar a oferta. Partimos para
a fazenda, sem saber nem para que lado ficava. Só sabíamos que se
chamava Fazenda Turmalina. E Luci, conhecíamos apenas das reuni-
ões doutrinárias do Centro e da ajuda que ela nos dava. Minha mãe já
sabia que ela morava em frente ao Posto Shell, no Edifício Jordan,
onde funcionava, até bem recentemente, uma concessionária de auto-
móveis e uma emissora de rádio. Muitas vezes, acompanhei minha
mãe quando de suas idas à casa de Luci. Íamos para pedir esmolas e
sempre recebíamos alguma coisa, comida ou roupas usadas.
Sem muitas alternativas, fomos todos morar na Fazenda Tur-
malina, onde minha mãe trabalhava na cozinha de Luci, quando de
Memorial do Inferno

suas eventuais estadias na fazenda, que ocorriam geralmente a cada


dois meses. Ela permanecia por lá durante uma semana ou mais. Da
viagem, as recordações são vagas. Lembro apenas que a sede da fa-
zenda ficava a uns quarenta quilômetros de Jequié.
A princípio, ficamos morando numa casinha dentro da sede da
fazenda. Era uma casa dividida ao meio, formando dois cômodos me-
nores, mas sem quartos ou espaço destinado a uma cozinha. Tinha
uma porta na frente e outra nos fundos. No meio, havia uma janela
33
que dava para um terraço onde, outrora, colocava-se o café para secar.

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Não havia água encanada ou energia elétrica, mas era confortável. A
casinha parecia estar fechada há muito tempo, pelo seu estado de má
conservação e pela quantidade de mofo em seu interior.
Na fazenda havia energia elétrica gerada por motor a diesel, que
era ligado somente durante as visitas de Luci. Não fazia muita dife-
rença para nós, já que estávamos acostumados a viver a vida sem luz e
sem água. O motor fazia um barulho infernal, quando ligado, mesmo
estando a uma boa distância da sede. Lembro-me que ousei emendar
uma ligação de energia elétrica na casinha, certa vez, e tudo funcionou
muito bem.
Na frente da casa havia um pequeno pátio, onde ficava uma ge-
ladeira velha, que não prestava para mais nada além de depósito de
bananas. Colocávamos bananas dentro da geladeira, deixávamos a
porta fechada, e as bananas amadureciam com rapidez por causa do
calor que as abafava. Certa feita apareceu por lá alguém que precisou
dormir em nossa casa. A visita dormiria na cama de China. Por causa
do frio, ela não parava de repetir a China: “Chega pra cá, neguinha!”.
E a resenha pegou. Passamos a perturbar China com essa história por
muito tempo: “Chega pra cá, neguinha!”.
Brincávamos de vaqueiros fictícios, mas usando nomes de pes-
soas que exerciam o ofício na própria fazenda. Eu era Calango, Quira
era João Grilo, China era Edmundo e Mi era Calixto. Víamos esses
vaqueiros como uma espécie de heróis e, por isso, gostávamos de imi-
tá-los em nossas brincadeiras.
Minha mãe trabalhava na cozinha e na limpeza geral da casa de
Luci, quando de suas idas à fazenda. Tinha outra mulher, chamada
Jovelina, se não me falha a memória, que também fazia o serviço da
JESUS

casa. Eu cuidava das plantas, molhando-as todos os dias, e tomava


conta do jardim em frente ao casarão. Uma vez fui ajudar na cozinha e
DE
VALDECK A LMEIDA

tomei uma bronca enorme de Luci, quando me viu tirando a casca do


alho com a unha. Ensinou-me, pacientemente, que aquilo era falta de
higiene e me mostrou como fazer o trabalho usando uma faca.
Na casa de Luci, que era enorme, tinha geladeira a gás. Eu acha-
va interessante aquele fogo aceso para gelar comida... A casa tinha
varanda em toda sua volta, muitos quartos, escritório, biblioteca, quar-
34 to de empregada, despensa, sala de estar e de jantar e um jardim enor-

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me. Havia uma TV na sala, que nunca funcionava por falta de energia
elétrica. E, quando a energia era ligada, a TV também não pegava,
porque a região era muito isolada.
Tinha também um gabinete onde ela guardava centenas de mi-
lhares de revistas em quadrinhos, de vários personagens. Eu costu-
mava pegá-las emprestadas, entrando escondido na casa pela janela
lateral esquerda, sempre que Luci estava em Jequié. Pegava dezenas
de revistas, lia-as todas, voltava, colocava-as onde havia encontrado
e... pegava mais. Era uma curtição ler aquelas histórias. A janela tinha
um problema que a impedia de ser completamente fechada, deixan-
do-a em falso. E eu, sabendo disso, me aproveitava da situação. Em
uma dessas minhas entradas na casa, aproveitei para pegar alguns
chocolates, que ficavam sobre uma estante da sala de jantar.
Havia muitos caqueiros de plantas ao redor da casa e um curral
no lado esquerdo. Havia o pé de pitanga, que ficava entre o curral e a
casa, do qual eu e Quira tirávamos os frutos para comer. E também
um galinheiro, muitos coqueiros e um pé de goiaba junto ao muro,
onde eu e Quira ficávamos comendo aquelas frutas até enjoar. Havia
patos, perus e gansos. Os gansos, irritados, costumavam nos atacar
quando atingidos pelas pedras que jogávamos neles. Atrás da casa,
havia um enorme galpão que abrigava toras de madeira e uma máqui-
na torrefadeira com ensacadora de café em grão, que já há muito não
funcionava. Tínhamos o hábito de brincar no galpão, sobre as toras,
ou atrás da máquina abandonada.
Seu Maneca, o gerente, inicialmente, morava em uma estufa
antiga, que ainda funcionava quando chegamos à fazenda. Depois ele
se mudou com a família para uma casa na sede, junto à estufa antiga.
Lembro-me que na casa dele as pessoas sempre ouviam música e a
Memorial do Inferno

que mais me marcou foi “Estúpido Cupido”, que tocava quase todos os
dias. Minha irmã Quira logo aprendeu a letra e não parava de cantar e
de dançar dentro de nossa casa. Depois de seu Maneca, houve um ou-
tro gerente, que tinha muitas filhas, mas não consigo me lembrar do
nome de ninguém.
Tempos depois foi construída uma nova estufa, que substi-
tuiria a primeira que ficou abandonada. Seu Suta, um senhor já de
idade, tomava conta da estufa e da secagem do cacau. Muitas vezes
35
eu ficava a observar o movimento dos homens, na nova estufa, en-

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sacando o cacau e colocando os sacos sobre um caminhão, que os
transportaria até Jequié.
A fileira de pés de laranja, de mais ou menos um quilômetro, que
ficava diante da casa da sede, era palco de muitas alegrias, uma festa para
nós. Lá costumávamos chupar laranjas sem descer do pé. E, quando um
pé não tinha laranja madura, subíamos em outro e em outro.
Foi uma parte da vida maravilhosa e enriquecedora. Nunca ha-
via tido um contato tão intenso com a natureza, com uma cultura dife-
rente daquela da cidade. Nessa fase, experimentei fatos e situações
inesquecíveis, que jamais teria chance de viver em Jequié. Quando
morava na casa de Amanda, pensava que os grãos de feijão nasciam
grudados ao caule da planta. Somente na fazenda pude descobrir que
eles nasciam dentro de bagens, além de muitas outras coisas.
Cobras eram comuns por todos os lados, e eu já matei muitas
delas, inclusive quando tentavam engolir algum sapo ou rã. Quando
morávamos na chamada Casa do Motor, matava dezenas delas, pois a
casa ficava um pouco afastada da sede da fazenda, próxima aos mata-
gais, onde as cobras, sorrateiras, preferem se esconder.
Todas as manhãs, bem cedinho, buscávamos leite no curral.
Geralmente, eu e Quira éramos os escalados para a função. Aproveitá-
vamos para beber boa parte do leite. Ficávamos imaginando uma va-
silha equipada com uma mangueirinha, para que não precisássemos
tirar da cabeça o balde de leite, permitindo assim que o bebêssemos
enquanto caminhávamos.
Uma vez, nossa casa ficou com problemas, molhando quando
chovia, e tivemos de nos mudar para o quarto da empregada, na casa
JESUS

de Luci. Era um quartinho que ficava nos fundos da casa, contíguo à


cozinha e à despensa. Havia muitos morcegos ali. Chiavam a noite in-
DE

teira, o que muito nos apavorava, principalmente porque minha mãe


VALDECK A LMEIDA

dizia que eles gostavam de chupar o sangue das pessoas enquanto elas
dormiam. Enquanto moramos ali, era comum ouvirmos ruídos de ob-
jetos caindo na despensa, como se fossem panelas e utensílios de alu-
mínio jogados ao chão. Minha mãe, sempre muito corajosa, levantava
para ir lá ver o que era. Mas a constatação era sempre a mesma: nada
tinha caído no chão. Uma vez ela foi com Quira e viu um homem sair
36 da cozinha em direção ao quintal. Seguiu o intruso e tentou, em vão,

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ver seu rosto. Evitando ser visto, ele se virava para a direção oposta à
de minha mãe. E ela lhe dizia: “Então, é você que fica derrubando tudo
lá dentro, não é?”. Quando percebeu que se tratava apenas de um vul-
to, minha mãe saiu de costas com Quira e voltou correndo para o quar-
to. Contou o acontecido a Luci, que riu de minha mãe, dizendo que
aquele homem era o pai dela, que gostava de rondar a casa, mesmo
após muitos anos de morto.
Morando ali, aprendi a fazer vinagre de mel de cacau. Pegava o
mel de cacau na estufa e armazenava em tonéis na casa de Luci, até
que fermentasse e ficasse no ponto para o preparo do vinagre.
Eu e Quira trabalhamos nas roças de cacau de Luci. No meio do
cacaual, fazíamos a coleta, separando-a em pequenos montes. Esse
tipo de trabalho é conhecido regionalmente como “bandeirar cacau”.
A rotina era simples.
Acordávamos cedo, tomávamos café – geralmente abóbora co-
zida com leite. Minha mãe preparava feijão com farinha e colocava a
comida dentro de latas de leite Ninho, que levávamos para o trabalho.
A caminhada até o local era dura. Tínhamos que passar pelo meio do
mato todos os dias. Matávamos nossa sede em qualquer riacho que
passasse por perto. Ruim mesmo era nos dias de chuva, pois, além do
frio que fazia, o terreno se tornava escorregadio.
Outro grande problema eram as muriçocas e as cobras. Sobre os
pés de cacau, ficavam as cobras-cipó que, por serem de cor verde, nos
confundiam, o que aumentava o perigo. Na hora do almoço, sentáva-
mo-nos com os demais empregados. Cada um abria sua lata e comia.
Da sede da fazenda, ao meio-dia e à uma hora da tarde, o som de um
búzio tocava anunciando o intervalo para o almoço e o horário de re-
começar o trabalho, respectivamente. Meu primeiro salário foi de CR$
Memorial do Inferno

3,00 (três cruzeiros), mas ia todo para Dona Paula, minha mãe, que o
recebia em meu lugar. Apenas uma única vez eu recebi os três cruzei-
ros, que gastei comprando um abridor de latas e uma sardinha enlata-
da, num mercadinho de Itagi, por ocasião das nossas costumeiras via-
gens aos sábados para “fazer feira”.

Escola na Fazenda

Nossa escola ficava um pouco distante da sede da fazenda e éra-


37
mos obrigados a fazer longas caminhadas por dentro dos mangueiros,

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enfrentando cobras, gado e tudo mais. Quando tinha alguma vaca pa-
rida no mangueiro, evitávamos a todo custo passar por perto. Às vezes
até íamos por um caminho mais longo, com medo de ser atacados.
Mas, por mais que evitássemos, havia sempre o perigo, e não foram
poucas as vezes em que corremos de vaca ou de boi valente. Para me
proteger, levava um pedaço de pau, com o qual batia entre os chifres
da vaca ou boi que nos atacasse. Ouvi de minha mãe que o gado odiava
ser golpeado entre os chifres e que fugia após receber a paulada. E
assim passei fazer. Para minha sorte, sempre deu certo.
No caminho da escola havia um pequeno riacho, onde gastáva-
mos boa parte de nosso tempo brincando e nos divertindo, pinotean-
do dentro da água, que não cobria nem metade da canela. Freqüente-
mente, chegávamos molhados na escola e também em casa. As traves-
suras no riachinho eram nossa melhor diversão, tanto no caminho de
ida quanto no caminho de volta da escola. No horário da merenda,
cantávamos a seguinte canção: “Merenda gostosa, leite, fruta e pão;
dá bom apetite, boa digestão”. Foi nessa escola da fazenda que apren-
di a ver as horas no relógio da casa da professora.

Casa do motor

Assim chamávamos a casa que ficava próxima à cisterna e à ca-


sinha do motor a diesel que fornecia energia elétrica para a sede da
fazenda. Moramos um bom período nessa casa. Havia também uma
lagoa perto, cheia de sapos que faziam barulho todas as noites. A “casa
do motor” ficava após uma ladeira íngreme e escorregadia, atrás da
sede, onde havia uma pedra enorme, na qual costumávamos brin-
car. Tinha um quintal cercado de arame. Ali meu pai plantou me-
JESUS

lancia, cana, quiabo, repolho, couve, abóbora, coentro, cebolinha e


outras hortaliças.
DE
VALDECK A LMEIDA

Meu pai plantou também uma pequena roça num terreno pró-
ximo à casa. Era um terreno ladeirado, que nos deu muito quiabo para
colher. Nessa rocinha, minha mãe, certa vez, tomou uma queda e, se-
gundo ela própria, ficou enganchada num piquete, que lhe feriu seria-
mente os órgãos genitais, fazendo-a perder um filho. Essas coisas não
nos eram faladas abertamente, por nossa condição de criança. Mas
38 me recordo muito bem do longo tempo que ela passou se medicando.

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Nossa refeição geralmente era pirão escaldado de farinha com
folha de quiabo, acompanhado de molho de pimenta, por falta de ou-
tra coisa para comer. Outra presença comum em nossa mesa do café
da manhã era a abóbora cozida e amassada com leite.

Junto da casa havia também um enorme coqueiro e, sempre que


chovia, minha mãe ficava apavorada com medo que ele desabasse so-
bre nossas cabeças. Só China ficava rezando para que chovesse, pois
teria a chance de vestir uma calça comprida, que na época era uma
peça de vestuário estritamente masculina. China queria a novidade de
vestir algo diferente de suas saias ou vestidos. Como sabia que, na hora
do desespero, minha mãe não ligava para esses detalhes, ela via na
chuva a oportunidade ideal para experimentar uma roupa “proibida”,
o que era seu sonho.

A água para beber, cozinhar e tomar banho nós tínhamos de


buscar na cisterna de água doce, que ficava junto à casinha do motor.
Aproveitávamos para nos molhar. Havia muitos caranguejos de água
doce pelos arredores da fonte de água e, sempre que podíamos, pegá-
vamos alguns para fazer um escaldado. Nessa cisterna, Quira quase
morreu afogada um dia. Distraiu-se e caiu no poço. Mas, para nossa
sorte, minha mãe ouviu os gritos e correu. Puxou-a pelos cabelos e a
salvou da morte certa.

Lembro ainda do requeijão e do doce de leite que fazíamos nes-


sa casa. Ali havia muita fartura de leite. Como não conseguíamos con-
sumi-lo todo, já que diariamente íamos ao curral retirá-lo, passamos a
investir em seus derivados.

Nessa casa, criávamos uma gata enorme, que gostava de sair


para caçar. Num belo dia, a gata apareceu com um coelho. Tomamos-
Memorial do Inferno

lhe o coelho, que minha mãe tratou, temperou e assou para nós. Ficou
uma delícia.

Havia uma moça chamada Maísa que nos contou uma história
meio fantasiosa. Disse-nos que tinha um gato muito pirracento, que
adorava lhe falar obscenidades. Nós acreditamos, claro!
De vez em quando, os homens da SUCAM apareciam por lá, para
picar a ponta de nossos dedos, fazer exames e colocar veneno contra
39
morcegos e ratos na casa. Morríamos de medo deles.

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Casa do Mangueiro

Morávamos na casa do mangueiro, quando meu pai retornou de


São Paulo para Jequié, e de lá foi direto para a Fazenda Turmalina,
levado por meus irmãos, Édson e Zezé. Assim que chegaram à nossa
casa, eu e Quira corremos para perto do carro que os havia trazido à
procura do Velotrol que meu pai nos traria, conforme a promessa de
nossa mãe. Ao descobrirmos que não havia Velotrol algum e que tudo
não passara de uma estratégia momentânea, ficamos profundamente
frustrados. Foi decepcionante descobrir que nossa mãe mentira e, pior,
descobrir que jamais teríamos um Velotrol.
A criação de galinhas e o plantio de roças ficavam nos terre-
nos próximos à “casa do motor”, tanto antes quanto depois de nos
mudarmos para a “casa do mangueiro”. Não sei precisar bem quanto
tempo moramos em uma e em outra casa, mas sei que as planta-
ções foram feitas, e que sempre colhíamos frutas e cereais dessas
roças que meu pai plantou. Não me recordo da data exata de chega-
da de meu pai à fazenda, mas lembro muito bem da imagem de
Édson chegando lá com ele. Minha mãe se abriu em felicidade e
nós também. Mas meu pai não parecia ter melhorado. Não nota-
mos muita evolução desde o dia em que ele viajara para se tratar
em São Paulo. Pouca diferença fez para a sua saúde aquela viagem.
Porém, como sempre fora muito trabalhador, não conseguiu ficar
parado em casa. Inventou de criar galinhas e fez várias roças e plan-
tações no quintal. Com o leite abundante que buscávamos de graça
no curral da fazenda, fazíamos requeijão. Meu pai chegou a plantar
ainda duas outras rocinhas, estas um pouco mais distantes da casa,
onde cultivava milho, feijão, melancia etc. Muitas vezes, íamos co-
mer melancia dentro da própria roça.
JESUS

Aprendi a nadar nessa época. Tinha um riacho bem raso que


DE

passava perto de casa, onde tomávamos banho e lavávamos os pratos.


VALDECK A LMEIDA

Mais uma vez, dando ouvidos às histórias de minha mãe, acreditei


quando ela disse que, para aprender a nadar, teve de engolir um pe-
queno peixinho antes de se jogar na água e sair nadando. Acreditei e
fiz o mesmo. E desta vez funcionou. Engoli o peixinho vivo, me joguei
no riacho e saí nadando! É incrível o poder dos “sugestionamentos”,
sobretudo para as crianças, crédulas pela própria natureza.
40

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Esta “casa do mangueiro” ficava um pouco afastada da sede da
fazenda, mas de lá dava para ver o casarão e a estradinha que dava
direto nela, por onde todos os carros tinham que passar, inclusive o
carro da dona da fazenda. Por isso, todo mundo ficava sabendo quan-
do Luci chegava, antes mesmo que alguém viesse avisar. Era a casa
mais afastada de tudo e de todos. Ao lado dessa casa, toda rodeada por
uma cerca de arame para proteção contra o gado, tinha um grande pé
de manga, onde as galinhas costumavam subir, ao cair da tarde, para
dormir. Não dava para plantar nada ao redor, ou por causa do gado,
que às vezes entrava no “quintal”, ou por causa da criação de galinhas,
que ciscavam e comiam tudo o que houvesse. Uma vez, ouvimos um
barulho vindo desse pé de manga, onde as galinhas dormiam. Minha
mãe saiu para ver o que estava acontecendo. O suspense se desfez quan-
do ela descobriu que era Roque, um morador da fazenda, tentando
roubar nossas galinhas. Minha mãe deu-lhe uma bela bronca, botan-
do-o pra correr de lá.

Perdemos-nos na roça

Uma vez, minha mãe chamou Quira e eu para pegarmos bana-


nas na roça, que ficava pertinho da “casa do motor”, onde moráva-
mos. Foi um dia do cão aquele. Acabamos nos perdendo e passamos o
dia inteiro andando por dentro do cacaual. Minha mãe chorava e o
desespero em nós crescia cada vez mais. Ouvíamos uma voz fina, como
a voz de Norino (dito homossexual, que morava na fazenda) a bradar
repetidamente: “O caminho é cá!”. Quanto mais seguíamos a voz, mais
ficávamos perdidos na floresta. Conseguimos chegar até perto de Ita-
gibá, a cidade mais próxima da fazenda, e lá fomos informados por
alguns trabalhadores de que estávamos muito longe da Fazenda Tur-
Memorial do Inferno

malina. Indicaram-nos, então, a direção a seguir para que pudésse-


mos retornar. Continuamos mato adentro perdidos até que minha
mãe teve a idéia de pôr fumo numa árvore como oferenda para Ca-
apora. Segundo a lenda, essa entidade protetora das matas, gosta
de fumar. Por isso, faz com que as pessoas se percam na mata até
que resolvam lhe oferecer fumo. Lenda ou não, o fato é que, depois
da oferenda colocada num galho de árvore, encontramos facilmen-
te o caminho de volta.
41

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Represa

A água que saía da fonte da cisterna percorria um caminho por


entre os matos e formava um riachinho. Esse riachinho tinha muito
peixe, e eu sempre ia com um balaio ou com um jereré pegar caran-
guejos, tilápias, piabas ou traíra por ali. Uma vez peguei uma cobra no
balaio e corri apavorado.
Luci, a dona da fazenda, mandou construir uma represa, próxi-
mo à sede, formando um lago pequeno com a água desse riacho, e lá
soltaram tilápias para criar. Usávamos esta represa para tomar ba-
nho, lavar roupas e nos divertir.
Eu não sabia nadar direito nem mergulhar, mas resolvi acredi-
tar numa história que minha mãe contava. Dizia ela que, se passásse-
mos óleo de oliva no corpo inteiro, ao entrarmos na água, o óleo for-
maria uma bolha de ar ao nosso redor, impedindo que nos afogásse-
mos. E foi assim que quase morri afogado nessa represa. Lancei-me
ao fundo, com o corpo todo lambuzado de óleo. Essa história deve ter
sido fruto de algum folclore. E eu, achando que na vida real funcio-
naria tal qual nas lendas, resolvi levá-la a sério e por pouco não
morri. Fui salvo por minha mãe ou por outra pessoa que não me
vem agora à memória.

O Piau

Havia um outro riacho perto de nossa casa, em cujas águas trans-


parentes eu tinha visto um lindo peixe, um piau. Comprei um anzol e
fui pegar o peixe. Foi uma experiência marcante em minha vida, tal
qual a conquista de um grande prêmio. Afinal, pude me sentir capaz
JESUS

de fazer algo sozinho, algo digno de aplausos. Fiquei imensamente


feliz quando consegui pegar o peixe e levá-lo para casa como um tro-
DE

féu. Eu pescava por necessidade de matar a fome e também por diver-


VALDECK A LMEIDA

são. A pescaria funcionava também como uma terapia, pois o tempo


livre era preenchido com uma atividade lúdica, que requer muita pa-
ciência, coisa que eu não tinha. Ficava observando aquele peixe lindo,
nadando de um lado para outro do riacho, cuidando do ninho, e ima-
ginava-o sendo fisgado por mim. Então comecei a planejar como seria
o dia da pescaria, detalhe por detalhe. Ao final, tudo aconteceu con-
42
forme havia imaginado. Para mim, foi como uma cena de filme de ação.

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O peixe mordeu a isca, se debateu, correu de um lado para outro,
deu solavancos, puxou a vara com violência, me deu um trabalho
danado. Até que consegui tirá-lo da água. Ele media uns vinte cen-
tímetros de comprimento e era bem pesado. Foi uma das minhas
melhores conquistas.

Acidente de carro

Certa vez, viajei com Luci para Jequié, no carro dela, que era
uma Pick Up Ford. Na rodovia BR-330, ela acabou abalroando um
outro veículo, que fazia ziguezague na pista. Bati com a cabeça na
porta do carro e ainda precisei ouvir de Luci que não devíamos fi-
car dentro de um veículo em movimento como se estivéssemos sen-
tados no sofá de casa. Devemos estar sempre de prontidão para a
eventualidade de um tombo, uma batida ou coisa similar, para um
choque maior. Aprendi a lição. Ainda bem que hoje os cintos de
segurança são de uso obrigatório.

i
Ainda crianças, eu e meus irmãos percebíamos que nosso pai
não estava lá muito certo da cabeça. Tirando proveito da situação, fi-
cávamos o tempo todo fazendo brincadeiras com ele. Uma das brinca-
deiras preferidas era a seguinte: um de nós se vestia com as roupas de
minha mãe, ou dele mesmo, e batia na porta da casa pedindo açúcar
ou outra coisa qualquer. Ele atendia e, em sua inocência, ia chamar
um dos filhos para dar o açúcar. Então, aquele que havia batido na
porta dava uma volta na casa, trocava de roupa e voltava para dentro,
enquanto o outro se vestia e vinha pedir outra coisa. A brincadeira
Memorial do Inferno

durava o tempo que quiséssemos, e ele nunca descobria que se tratava


de uma traquinagem dos próprios filhos. Após cansarmo-nos da brin-
cadeira, íamos para os pés de cidra, uma espécie de limão grande e
muito azedo, que dava em fartura por ali. Tirávamos as frutas da árvo-
re e comíamos com açúcar.
Certa vez, meu pai passou mal e minha mãe pediu que eu fosse
até a sede da fazenda para pedir ajuda. Saí correndo pelo mangueiro,
desesperado, desviando-me das vacas recém-paridas. Passei por um
43
riachinho, no qual sujei as pernas todas de lama, pois eu afundava

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até o joelho naquele lodaçal. Infelizmente, todo o sacrifício foi em
vão, não consegui ajuda. Mas, quando voltei, por sorte, meu pai já
estava melhor.
Perto de nossa casa havia uma pequena vila, com umas quatro
ou cinco casas, no meio do mangueiro. Lá morava um rapaz chamado
Norino, funcionário muito querido da dona da fazenda. Apesar de
morarmos perto, nunca estivemos naquela vila. A mãe não deixava, e
eu nunca soube o motivo pelo qual ela proibia nossa ida ao local.
Uma outra lembrança dessa época foi quando China pediu que
minha mãe lhe comprasse um chiclete, quando fosse às compras. Ela
prometeu que compraria. Numa de suas idas a Itagi, tentou comprar o
chiclete de China, mas não encontrou. Comprou-lhe então balas co-
muns. O desapontamento de China foi profundo ao ver seu sonho de
mascar chicletes frustrado; sonho este que teve sua realização adiada
por muitos anos, até que ela mesma pudesse trabalhar e comprar o
próprio chiclete. Vim saber dessa história mais de vinte anos depois,
pela boca da própria China.

i
O armazém onde fazíamos compras ficava a alguns quilômetros
da sede da fazenda, num local chamado “Preguiça”, nome também do
rio que cortava as imediações. Eu e Quira, quando íamos comprar algo
para minha mãe, levando embornais, morríamos de medo dos ciga-
nos que ficavam acampados no caminho e que sempre nos cercavam
para pedir algo. Ficávamos apavorados, temendo que tomassem nos-
sas compras e que nos batessem. A fim de nos livrar do assédio, passa-
JESUS

mos a levar sempre alguma coisa para dar a eles.


Uma vez fui ao armazém a cavalo, montado em Dominó, o ani-
DE
VALDECK A LMEIDA

mal mais lerdo e preguiçoso da fazenda. A bem da verdade é preciso


dizer que eu não guiei o cavalo. Foi Dominó que me levou e me trouxe,
já que eu morria de medo de puxar a rédea e ser derrubado por ele.
Quando o cavalo queria parar para comer seu capim, parava. E quan-
do queria continuar a caminhada, continuava, a seu bel talante.
Toda semana viajávamos para Itagi, a pé ou a cavalo, para fazer
44 compras. Os homens geralmente iam montados nos animais, enquan-

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to as mulheres iam atrás, caminhando. Quira lembra que ficava com
raiva porque nunca a deixavam montar num cavalo. Para chegarmos
a Itagi, no meio do caminho, tínhamos de atravessar o rio Preguiça.
Lembro que, uma vez, quase caí da garupa do cavalo, quando ele su-
biu o barranco do outro lado do rio. Apavorei-me.

Memorial do Inferno

45

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JESUS
DE
VALDECK A LMEIDA

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RETORNO PARA JEQUIÉ

Concluí a quarta série primária na escola da fazenda e precisava


continuar meus estudos. Como lá não havia professores para o pri-
meiro grau, tive de retornar para Jequié. Arrumei minhas coisas e vi-
ajei. Não lembro se sozinho, com minha mãe ou com Luci. Minha mãe
conseguiu que eu ficasse morando provisoriamente na casa de Dona
Lia, esposa de Seu Nenzinho, no bairro Cilion. O nome do bairro sur-
giu a partir do nome de um posto de gasolina que existia na praça
Juracy Magalhães, que acabou falindo, fechando e reabrindo com ou-
tro nome. Mas como o bairro já havia sido batizado, assim ficou: Cili-
on. Dona Lia tinha um filho chamado Junior, que não se deu muito
bem comigo de início, talvez por ter que dividir a casa e as atenções da
mãe com um outro menino. Mas depois foi se acostumando e nos tor-
namos grandes amigos.
Ele próprio tinha vários amigos, que se tornaram também meus.
E eu quase tive minha primeira experiência sexual com uma vizinha
deles, que sempre aparecia por lá e brincava conosco. Uma vez, resol-
veram me incentivar a ficar a sós com ela em meu quarto. Tentamos
ter uma relação, mas não houve penetração. Ela desistiu antes do fim
Memorial do Inferno

e saiu correndo. Era uma morena escura, que tinha um problema físi-
co na perna direita, fazendo-a mancar quando caminhava.
A primeira namorada também conheci durante o período em
que vivi na casa de Dona Lia. Era uma vizinha que morava na casa em
frente. Chamava-se Jaqueline. Era linda e eu gostava demais dela. De
nossas janelas, trocávamos olhares furtivos, iniciando uma ligação de
afeto. Passamos a nos encontrar numa casa em frente. Ali, no pátio
daquela casa, nos beijamos pela primeira vez. Foi daqueles namoros 47

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meio mágicos, sem maldades, sem sexo. Foram momentos muito feli-
zes ao lado de Jaqueline, e eu jamais me esquecerei dela. Até poesias
lhe fiz. A primeira namorada a gente nunca esquece.
Matriculei-me no Instituto de Educação Régis Pacheco - IERP.
Dona Lia sempre me dava dinheiro para a merenda. Tinha uma vida
boa na casa dela. Sempre fui tratado como um membro da família.
Naquela época, havia um ritual muito bonito nas escolas: hastear a
Bandeira Nacional e cantar o Hino Nacional Brasileiro todos os dias,
com os alunos em formação militar. Tudo para mim era muito bom.
Participei de um coral que se apresentou na rádio local, onde canta-
mos o Hino à Bandeira, entre outros hinos. Era a primeira vez que
conhecia um estúdio de rádio por dentro, fiquei em êxtase. Acabei
aprendendo coisas muito valiosas com cada pessoa que conheci e em
cada experiência que vivi.

i
Quando morava na fazenda, ganhei um cachorrinho que batizei
de Bolinha. Ele era preto, pé duro. Aonde eu ia, o cachorrinho me acom-
panhava. Gostava demais dele. Ao voltar para Jequié, para prosseguir
meus estudos, deixei-o com minha mãe, que, logo depois, também
retornaria a Jequié, deixando Bolinha na fazenda. Longe deles, pade-
cia de saudades da família e do cachorro.
Quando minha mãe resolveu voltar para Jequié com a família
inteira, eu já estava estudando. Fiquei feliz com o retorno da família,
mas foi péssima a notícia de que meu cachorro Bolinha não viera jun-
to. Morri de tristeza. Minha mãe alegou que seria muito difícil trazê-lo
JESUS

com ela na viagem e, por isso, achou melhor dá-lo a alguém. Fiquei
DE

revoltado e chorei muito. Gostava muito de meu cachorro. Tão desa-


VALDECK A LMEIDA

pontado fiquei que não dei a mínima para as histórias que minha mãe
contava sobre a viagem e sobre as coisas que lhe acontecera, como o
fato de Teobaldo, filho de Luci, ter dito que iria jogar a família, com
móveis e tudo, ponte abaixo, além de outros problemas que enfrenta-
ra. Só pensava no meu cachorro. A paixão e a saudade de Bolinha
foram tantas que prometi para mim mesmo nunca mais ter outro
48 animal de estimação. A promessa vem sendo cumprida até aqui, e

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hoje desconfio que minha aversão a animais tem origem nessa do-
lorosa experiência.

i
Minha mãe ia regularmente me visitar na casa de Dona Lia. Até
que um dia resolveu me levar de volta com ela definitivamente. Fui e
voltei várias vezes da nova casa, achava-a muito feia e o lugar horrível.
Ficava na Rua da Palha. Era uma casa pequena, de adobões, sem água
nem luz. Mas, no final das contas, era para onde eu teria que ir mes-
mo, sem chance de escolha.

Uma das coisas com a qual não consegui me acostumar, ao vol-


tar para a casa de minha mãe, foi a comida. Além de ser de péssima
qualidade, não a tínhamos todos os dias. Foi muito duro sair daquela
casa, onde eu tomava café, almoçava e jantava, de forma decente e em
horários regulares, e me adaptar a uma outra realidade, em que tinha
de comer qualquer coisa e em horários disparatados. Isso, quando não
tinha de ficar sem comer mesmo.
Igualmente difícil foi ter de me acostumar com a distância da
casa até o IERP, colégio onde estudava. Tinha de fazer o trajeto a pé,
sob o sol escaldante e, agora, sem ter sequer o dinheiro para meren-
dar. Foi um terror essa fase de adaptação, muito difícil para mim. Prin-
cipalmente, nos dois dias da semana em que tinha aulas de ginástica.
Era obrigado a sair pela manhã, para assistir à aula normal, e voltar,
no período da tarde, para a aula de ginástica. Um verdadeiro tormen-
to. O sol demasiado quente e a estrada sem calçamento, toda cheia de
poeira, tornavam a caminhada insuportável. Mas, gostando ou não,
Memorial do Inferno

tive de me acostumar com a nova vida, que passaria a ser minha roti-
na dali em diante.
Minha luta agora era outra, além da comida que faltava na mesa.
Tinha que comprar livros, mas não possuía dinheiro. Estudava sem
livros ou recebia um ou outro exemplar, cedido por colegas de sala,
que faziam uma vaquinha para comprar. Mas todos os outros estu-
dantes tinham também uma vida difícil, poucos recursos financeiros,
e nem sempre podiam ajudar, já que também precisavam de ajuda. 49

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Uma professora me deu, certa vez, um Kichute usado, que usei
por cinco anos, durante todo o primeiro grau e início do segundo. Os
cadernos eram daqueles doados pelo governo estadual, com o Hino
Nacional na capa; os lápis eram também doados pelo governo, alguns
deles vinham até com a tabuada impressa, mas esses não eram bem-
vindos nas aulas de matemática, pela razão óbvia. Uma ocasião, perdi
um lápis na sala – ou foi roubado por alguém – e fiz o maior escânda-
lo. Chorava pelos corredores, chamando a atenção do colégio inteiro
com meus indignados protestos pela perda do lápis e dizendo que ali
só tinha ladrão. Foi um show à parte.
Minha adaptação ao currículo escolar foi muito difícil, para não
dizer impossível, já que eu tinha vindo de escolas onde se aprendia
apenas o ABC, as quatro operações, além de leituras e releituras de
livros de histórias, sem nenhuma técnica para aprender a gramática.
Na hora de separar sílabas, eu sempre escrevia duas letras e colocava
um tracinho. Quando a palavra era cavalo, por exemplo, eu acertava
fácil. Mas quando era caule, eu escrevia “ca-ul-e”. Ou seja, segundo
minha lógica, a separação de sílabas era feita a cada duas letras segui-
da por um tracinho. Um desastre total.
Por conta da minha falta de estrutura e por motivos de doença,
acabei perdendo o ano. Perder um ano tem sempre conseqüências
negativas, um ano de minha vida ficaria atrasado. Mas, por outro lado,
serviu-me de lição, motivando-me a me esforçar bem mais no ano se-
guinte. Desse dia em diante, não perdi mais ano algum e consegui con-
cluir o primeiro e o segundo graus com notas muito boas. Surpreen-
dentemente, acabei me transformando em um aluno CDF durante to-
dos os anos escolares.
O lado positivo de tudo isso foi o fortalecimento do meu senso
JESUS

de autocrítica, que fez com que procurasse estudar mais, para não pas-
sar novamente pela vergonha de perder o ano. Outra coisa boa foi o
DE
VALDECK A LMEIDA

contato com a poesia, através de uma coleção de três minilivros que


comprei de um daqueles vendedores que passam de sala em sala ofe-
recendo suas mercadorias. Encantei-me com aquela forma de escre-
ver, com as rimas e as estrofes. Passei a escrever poemas também.
Posteriormente, tive contato com a literatura de cordel, o que me in-
fluenciou bastante a escrever tudo que me vinha à mente. Não sei pre-
50 cisar no tempo, mas me lembro de uma época em que eu pegava tudo

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quanto era papel, ou algo que encontrasse jogado pelas ruas, para ler.
Para mim, era uma espécie de mágica poder decifrar tudo aquilo, mes-
mo que não soubesse o significado de todas as palavras que lia. O sim-
ples ato de ler expandia minha mente.

i
Depois de um tempo morando na Rua da Palha, mudamo-nos
para a casa de número 1265, na Avenida Franz Gedeon, uma das prin-
cipais artérias da cidade. Foi a partir dessa época que ocorreu o nasci-
mento dos meus outros irmãos, Valdir, Vitório, Vivaldo e Ivonete. A
casa era de meu irmão Édson, e lá já haviam morado muitos familia-
res dele, mas naquela ocasião se encontrava fechada. Como de praxe,
a nova moradia também não dispunha de luz, água, saneamento bási-
co, móveis e outros recursos essenciais. Nosso fogão, para variar, era à
lenha. O sanitário era no chão do quintal, ou seja, exalava uma feden-
tina horrível. Muita gente fazendo suas necessidades por todos os la-
dos e o sol quente a tornar o mau cheiro ainda mais insuportável.
A vida de minha família sempre foi de muita pobreza, não tí-
nhamos condições nem de comer condignamente. Televisão então era
um luxo que nem sequer imaginávamos poder comprar. Assim, todos
os dias eu e meus irmãos íamos para a casa dos vizinhos, onde ficáva-
mos dependurados em suas janelas assistindo à TV. Tínhamos que
assistir ao que estivesse passando, ao gosto do dono da casa. E, por
muitas vezes, nem conseguíamos assistir aos programas ou aos filmes
até o final, porque a televisão era desligada sob o pretexto de que “o
aparelho estava esquentando e precisava descansar”. Uma das vizi-
nhas que mais desligava a televisão em nossa cara era a Dominga. Mas,
Memorial do Inferno

como sua casa era também o lugar onde a TV ficava ligada nos horári-
os em que estávamos livres de escola ou de outras obrigações, apare-
cíamos lá quase todos os dias.
Na casa de Dona Dete e seu Chico a gente morria de rir. Toda
vez que apareciam os atores Tony Ramos e Elisabeth Savalla na teli-
nha, eles faziam o mesmo comentário: “André Cajarana e Carina es-
tão muito diferentes...”, reportando-se aos personagens vividos na
novela “Pai Herói” pelo casal de atores. Dona Dete e Seu Chico não 51

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conseguiam separar a realidade da ficção. Faziam a maior confusão
entre a vida dos atores e os personagens por eles vividos nas novelas.
Saíamos pela cidade inteira à procura de brinquedos pelos li-
xos. Batizávamos cada lixo com um nome, para facilitar o roteiro e
para organizar nossas caminhadas. Um desses lixos foi batizado como
“lixo da BODA”. O nome veio de uma brincadeira, pois, quando desco-
brimos esse lixo pela primeira vez, havia muitas cabras e bodes por
perto. Procurávamos livros, revistas, brinquedos, qualquer novidade.
Encontrávamos muita coisa, mas sempre desfalcada de uma peça ou
de uma folha. Em carros sem uma das rodas, sempre dávamos um
jeito, fabricando outra rodinha com sandália havaiana - naquela épo-
ca esse tipo de sandália era exclusividade de pessoas paupérrimas. Mas
quando faltava a última folha de uma revista de história em quadri-
nhos, por exemplo, a solução era mais difícil. Então, guardávamos a
revista e tentávamos encontrar outra igual, que tivesse o final da his-
tória. É bem verdade que raras foram as vezes que conseguimos com-
pletar uma história em quadrinhos.
Nessas caminhadas, uma vez, adentramos um quintal abando-
nado. A galera subiu nos coqueiros que lá havia e começou a tirar co-
cos da árvore. Após nos empanturrarmos de água de coco, levamos os
cocos que sobraram para casa. Minha mãe nos fez voltar e jogá-los no
quintal novamente, advertindo-nos de que, se tal fato voltasse a ocor-
rer, tomaríamos uma surra daquelas. Esta foi uma lição que jamais
esquecerei, mais uma das inúmeras que ela nos ensinou.
Ainda sobre brinquedos e brincadeiras, não posso deixar de lem-
brar do “Mané Gostoso”, pendurado entre dois palitos e amarrado com
uma borracha que minha mãe comprava para nós.
JESUS
DE

Trabalho
VALDECK A LMEIDA

Um dos meus primeiros empregos foi no escritório da ASPEB,


uma caderneta de poupança que depois foi comprada pelo antigo Banco
Econômico. O escritório ficava na praça Ruy Barbosa, no centro da
cidade de Jequié. Eu era uma espécie de office-boy. Aproveitei para
aprender a datilografar nas máquinas de escrever do escritório, nas
52 horas vagas, além de ficar escrevendo ou passando a limpo minhas

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poesias. Quanto às datas de admissão e de saída deste emprego, não
lembro muito bem.
Certa vez, resolvi trabalhar como vendedor do Baú da Felicida-
de, do grupo Silvio Santos. Saía com um vendedor mais experiente,
que me mostrava como deveria fazer para vender os carnês. Aprendi
tudo, pois eu prestava muita atenção ao que ele fazia. Finalmente, ar-
risquei-me a sair sozinho com uma pasta cheia de carnês.
Minha primeira vítima foi uma empregada doméstica que tra-
balhava numa residência no centro da cidade. Recebi dela a primeira
parcela do pagamento, que correspondia à minha comissão. Quando
cheguei ao escritório, à tarde, após andar o dia inteiro e ter vendido
apenas aquele carnê, a patroa da minha única cliente já me esperava
para receber de volta o dinheiro que sua empregada tinha pago pelo
carnê. Alegou que eu tinha enganado a pobre mulher, que ela era uma
pessoa pouco esclarecida e se deixara ludibriar por mim. Acabei per-
dendo minha comissão e desisti de vez de ser vendedor ambulante.
Aquela não era, definitivamente, minha praia.
Em uma outra ocasião, candidatei-me para trabalhar com Seu
Nenzin. Ele me escalou para trabalhar com jornais. Pensei em algo
como uma banca de jornal ou coisa parecida. Fui com ele ao centro da
cidade e, quando cheguei ao local do trabalho, descobri que era para
vender jornais pelas ruas, como ambulante. Recusei imediatamente o
trabalho, pois além da baixa remuneração, eu já havia tido uma expe-
riência nefasta como vendedor ambulante, que não gostaria de repetir
para ganhar a vida. Entendi que deveria preferir sempre o salário fixo,
mesmo que fosse o menor salário que se pudesse pagar, a trabalhar
me aventurando a ganhar um salário maior, através de comissões.
Memorial do Inferno

Enchente – Comida estragada

Houve uma enchente em Jequié, por volta de 1982 ou 1983, que


arrasou metade da cidade. O Rio de Contas estava muito cheio e re-
presava a água do Rio Jequiezinho. Do Centro para o bairro Jequiezi-
nho só se passava pela Ponte de Newton, a ponte que servia, em tem-
pos remotos, para passagem do trem de ferro. Todas as outras pontes
haviam sido cobertas pela água, exceto esta. A parte baixa do Centro e
os bairros Campo do América, Banca, São Judas Tadeu, Mandacaru e 53

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outros foram totalmente engolidos pela água. Os Edifícios Almerinda
Lomanto e Hildete Brito Lomanto ficaram inundados até o primeiro
andar. Todos temiam que a Barragem de Pedras, localizada a trinta
quilômetros da cidade, se quebrasse com a pressão da quantidade enor-
me de água e inundasse toda a cidade de Jequié. Mas felizmente não
aconteceu, graças a Deus. Do contrário, seria uma tragédia sem prece-
dentes, já que a barragem represa mais de setenta quilômetros de água.
Depois que as águas baixaram, muitos estabelecimentos comer-
ciais do Centro começaram a contabilizar os prejuízos. O Supermerca-
do Cardoso, na praça da Bandeira, foi um dos estabelecimentos que
perdeu quase todo o seu estoque. Muita coisa fora jogada no lixo, no
esgoto. Boatos se espalharam rapidamente de que muito presunto,
queijo, mortadela, salame e uma infinidade de comestíveis estavam
sendo despejados pelos esgotos dentro do rio Jequiezinho. Saímos em
passeata: eu, Dida, Tó, Mi, mais um monte de garotos das ruas próxi-
mas, direto para o esgoto. Lá tivemos de enfrentar uma disputa acir-
rada com outros meninos para ver quem conseguia pegar a maior quan-
tidade de mercadoria estragada. Levamos essas mercadorias para con-
sumi-las em casa.
Se tivéssemos de morrer por termos comido alimentos estraga-
dos, certamente não estaria eu aqui contando este episódio inusitado,
pois, durante a maior parte de minha vida, eu e minha família ingeri-
mos rejeitos e refugos de comida. Nesse mesmo rio, quando as águas
baixavam, costumávamos pegar camarões, que ficavam se batendo à
procura de uma água mais profunda, já que o rio estava em fase de
extinção e os lugares mais profundos não mediam meio metro. Mui-
tos esgotos da cidade eram jogados dentro desse rio, inclusive os do
Hospital Regional Prado Valadares. Mas nós não nos importávamos
JESUS

com nada, só queríamos um pouco de comida para saciar a fome. E o


rio se comportou como um pai, sempre a nos prover daquilo que pro-
DE

curávamos.
VALDECK A LMEIDA

Nosso dia-a-dia não variava muito. Num dia, era Gal e no dia
seguinte era Nete quem saía para pedir esmolas pelas casas da rua e
dos arredores. Os menores iam substituindo os mais velhos, que fica-
vam envergonhados da tarefa de ficar de porta em porta pedindo co-
mida e ouvindo piadas do tipo: “Você já é bem grandinho, por que não
54 vai trabalhar?”. Tínhamos um roteiro a seguir, e cada dia íamos a uma

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casa diferente, para não chatear a mesma pessoa todos os dias. Tinha
a casa de Dominga, a casa de Dora, a casa de Dona Maria da Campa-
nha, casa de Bói... Dona Maria da Campanha era uma católica prati-
cante que coletava doações do tipo comidas, roupas e dinheiro, para
entregar à minha mãe. Arrumávamos apelidos para todos os que nos
ajudavam, já que eram muitos e ficava quase impossível memorizar
seus nomes. Para complicar ainda mais, havia gente com o mesmo
nome, como era o caso de Dona Maria, por nós batizada de “Maria da
Campanha”, para diferenciá-la das outras “Marias” em nossa lista.
Dora é nossa cunhada, casada com Néco (Manoel), que, por sua
vez, é filho de meu pai com sua primeira esposa. Ele pertence à pri-
meira família de meu pai, em que todos os seis irmãos têm idade supe-
rior a quarenta e cinco anos de idade. Quando meu pai se casou com
minha mãe, a mãe desses outros irmãos já havia falecido há muito
tempo. Dora também nos ajudava sempre que podia, já que tinha uma
família para dar conta e somente o marido trabalhava fora.
Bói era uma senhora que morava na nossa rua. China foi morar
e trabalhar em sua casa, em troca de comida e roupas. Lá havia duas
irmãs gêmeas, Alice e Agda, já bem velhinhas, que sempre davam café
da manhã aos meninos que passavam pela porta. E, como não poderia
deixar de ser, meus irmãos, especialmente Tó, Dida, Gal e Nete, sem-
pre passavam por lá, onde tinham a oportunidade de beber suco de
groselha com pão ou com bolachão. China conta que, quando foi tra-
balhar na casa de Bói, criou o hábito de deixar o pão do próprio café
para dar aos irmãos. Colocava-o na calha da chuva e ficava esperando
que os manos aparecessem para pegar. Fazia isso escondida de Bói,
que era muito rígida e não aceitaria que ela deixasse de comer em be-
nefício dos irmãos.
Memorial do Inferno

China conta ainda que, quando não tinha o pão para colocar na
calha, ficava muito triste de ver os irmãos brigando para ver quem
chegava primeiro e a expressão de decepção em seus rostos ao perce-
berem que nada havia sido deixado para eles. Tinham de enfiar o bra-
ço inteiro no cano da calha para poder alcançar o pão ou biscoitos que
China colocava.

i 55

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Dentre os vários episódios de comida estragada, fome, miséria e
sofrimento, me lembro de alguns que marcaram muito.
Domingas era uma vizinha que morava perto de nossa casa, na
Avenida Franz Gedeon, e nos ajudava com comida e roupas usadas.
Muitas vezes, ela guardava comida a semana inteira na geladeira, até
que aparecesse alguém da nossa família para receber o presente. Even-
tualmente, quando íamos pedir esmolas em sua casa, recebíamos muita
comida, dentro de uma panela enorme. Certa ocasião, uma dessas
panelas estava azeda, pois tinha sopa, repolho, feijão e todo tipo de
sobras misturadas. Minha mãe não deixou que comêssemos com medo
que a comida nos fizesse mal, e deu para Dona Odília, que, por sua
vez, deu para suas galinhas. Todas as galinhas morreram, a comida
estava realmente estragada. Dona Odília ficou de mal com minha mãe
por causa deste episódio, achando que ela fizera aquilo de propósito.
Outro caso inusitado foi esse: minha mãe assou um tendão, que
era uma mistura de pele, cartilagem e gordura. O fogo era feito no
meio da casa, com pedaços de madeira e plásticos que encontrávamos
pela rua e no lixo, situação que perdurou por mais de vinte anos em
nossa vida. A comida ficava com um cheiro horrível de plástico. Mas o
pior ainda estava por acontecer. Depois de “assado” (na verdade, sa-
pecado na fumaça), ela dividiu a iguaria em pedaços iguais para os
filhos, servindo-a com pirão de água fria e farinha. O meu pedaço foi o
maior de todos e tinha bastante gordura. Desconfiado como sempre,
abri para olhar e vi um monte de bichos de moscas, vivos, procu-
rando um local mais frio para se proteger, pois, como o fogo não
tinha assado totalmente aquele pedaço de imundície, não matou
completamente os bichos de mosca. Fiquei com nojo, joguei fora e
comi somente o pirão.
JESUS

A necessidade de sobrevivência nos deixava à mercê de situa-


DE

ções vexatórias e inusitadas. Uma vez minha mãe ganhou uma gali-
VALDECK A LMEIDA

nha viva. Matou-a e preparou um almoço. Mas vi, quando ela abriu a
galinha, um tumor ou coisa parecida na moela. Tinha muito pus e fe-
dia demais. Minha mãe preparou assim mesmo e deu para que todos
comessem. Saí para trabalhar e, quando voltei, encontrei à minha es-
pera esse prato “especial”. Ela jurou que não era da galinha que eu
tinha visto, mas não acreditei e joguei tudo no lixo. Não comi e fui
56 dormir com fome, o que não era um fato raro na vida da gente. Nossa

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comida variava de pão seco com café preto a pirão de farinha com água
fria. Muitas vezes dormíamos com fome, crédulos no que minha mãe
dizia: “amanhã Jesus vai trazer comida”. Eu me irritava com ela e xin-
gava muito, pois todos os dias ouvia a mesma história e Jesus nunca
chegava com a comida prometida.
A refeição mais desejada por nós era um prato de qualquer coi-
sa com carne, já que essa iguaria quase nunca fazia parte de nossa
dieta. Pelas condições de extrema pobreza, era quase impossível ter-
mos carne à mesa. Quando comíamos um pedaço de carne, era uma
festa em casa. O acompanhamento podia até ser pirão de farinha com
água fria, mas se tivesse carne o prato de tornava especial. Mas não
era carne normal a que comíamos, era carne sentida. Era assim que
chamávamos a carne em processo de putrefação. Recebíamos muitas
gorduras, pelancas, peles e outros refugos de carne quando saíamos
pela feira livre pedindo algo para comer. Muitos dos barraqueiros nos
enxotavam dizendo impropérios, mas muitos outros nos acolhiam com
palavras doces e nos ofertavam pedaços de carne. Geralmente era car-
ne que quase ninguém compraria ou que estava já azulada e com bi-
chos de mosca. Minha mãe aproveitava essas carnes da seguinte for-
ma: aferventava tudo numa panela e depois colocava para secar ao
sol. Assim, já “lavada”, a carne ficava com um aspecto mais agradável
ao olhar e ao paladar. Mesmo assim ficava com um cheirinho enjoado
de carne estragada. Minha mãe dizia que era carne “sentida”. Comía-
mos essa carne frita ou cozida no feijão.
Memorial do Inferno

57

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JESUS
DE
VALDECK A LMEIDA

58

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SONHOS

Na avenida Franz Gedeon, onde morávamos, havia uma oficina


de conserto e de aluguel de bicicletas. Toda a garotada da rua alugava
bicicletas ali e aprendia a pedalar. Todos os meus irmãos também ti-
veram esta oportunidade e a aproveitaram. Exceto eu, pela minha exa-
cerbada timidez. Só aprendi a montar numa bicicleta aos vinte anos
de idade, quando pude comprar uma Monark nova, que precisei em-
purrar da loja até o loteamento Itaygara, onde morávamos na época.
Ao chegar em casa, chamei Valmir para segurar o bagageiro da bike
enquanto eu pedalava. Alguns instantes depois, meu irmão passou
correndo ao meu lado e eu perguntei quem estava segurando a bike
para mim. Ele respondeu que ninguém empurrava e que eu estava
pedalando sozinho. Desde então, passei a pedalar bicicletas sem nun-
ca sofrer uma queda. Antes, em meus sonhos, imaginava estar peda-
lando e voando ao mesmo tempo, ou seja, pedalando até que a bicicle-
ta decolasse e eu continuasse a pedalar durante o vôo.

i
Memorial do Inferno

Não sei bem por que razão eu sempre sonhei em trabalhar com
serviços burocráticos. Desde criança, imaginava-me numa espécie de
escritório, lidando com papeladas e telefones. Realizei este sonho
muitos anos mais tarde, quando ingressei no Tribunal Regional do
Trabalho, no ano de 1990.
Um outro sonho que eu sempre alimentei foi o de morar em
Salvador. Mas eu tinha muito medo de sair de Jequié, do conforto da
59
família e do lugar onde sempre vivi, para enfrentar um mundo com-

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pletamente hostil. Alimentei o sonho durante anos. Lia regularmente
os jornais da capital e ficava a me imaginar caminhando pelas ruas da
cidade. Até comprei um mapa de Salvador, onde percorria todos os
cantos da capital com os dedos. Já adolescente e trabalhando com car-
teira assinada, sempre encontrava uma forma de economizar para
poder fazer minhas viagens de final de semana a Salvador. Saía de
Jequié à meia-noite de uma sexta-feira, chegava a Salvador pela ma-
nhã, pegava um ônibus circular e visitava os principais pontos da ci-
dade. Tomava banho de sol nas praias da Barra e Pituba, e, no final da
tarde, voltava para a estação rodoviária, onde passava a noite descan-
sando e dormindo nos bancos. Pela manhã, reiniciava minha peregri-
nação pela cidade. Retornava à tarde para a rodoviária e pegava o ôni-
bus para Jequié, aonde chegava à meia-noite de domingo. Ficava imen-
samente feliz com essas viagens. Tirava inúmeras fotos, via coisas e
lugares que, aos meus olhos, eram apaixonantes.
Com sacrifício, realizei meus dois sonhos maiores: o de ter um
trabalho fixo e burocrático e o de morar em Salvador, que não troco
por nenhuma outra cidade brasileira ou do exterior.
JESUS
DE
VALDECK A LMEIDA

60

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FIGURAS E PASSAGENS INTERESSANTES

A casa de Judite, uma vizinha que muito nos ajudava, ficava


do lado oposto à casa onde morávamos, e era lá que minha mãe
diariamente ia para lavar os pratos e, em alguns dias da semana,
para lavar nossa roupa, já que não tínhamos condições de arcar
com os custos da água encanada em casa. Mesmo sofrendo de pa-
ralisia nas pernas, minha mãe atravessava a rua, arrastando-se pelo
asfalto, correndo risco de ser atropelada e morrer. As pernas e os
pés ficavam sagrando, arranhados e feridos pelo contato com o piso
grosso da rua.
Freqüentemente íamos com ela à casa de Judite, esposa de Seu
Tidinho e mãe de Maxwel, Creuza e Joel. Certa vez, presenciamos uma
discussão bizarra entre minha mãe e Joel, porque este ficava profun-
damente irritado de ver minha mãe mascando fumo e cuspindo o tem-
po todo. Chegava a ter nojo de beber nos copos que minha mãe utili-
zava em sua casa. Foi uma confusão danada. Minha mãe ficou muito
chateada, mas não tinha como evitar de ir à casa de Judite que, além
de ser parenta de meu pai, facilitava-lhe o acesso gratuito à água para
uso doméstico.
Memorial do Inferno

Na mesma rua, próximo à casa de Judite, morava Dona Zefa,


uma senhora pernambucana enorme e casada com um homem fran-
zino, que vivia levando broncas dela. Há quem diga até que o pobre
apanhava da mulher, o que não era de duvidar, levando-se em conta a
desproporção de seu tamanho em relação ao dela. Dona Zefa tinha
muitos filhos, que brincavam comigo e com meus irmãos. Também
usávamos a casa dela para assistir à televisão - da janela, lógico, pois
quase ninguém abria a casa para nós, à exceção de Seu Chico e Dona
61
Dete (pais de Florisvaldo) e de Dominga. A brincadeira entre a crian-

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çada às vezes terminava em briga, mas minha mãe nunca ficou inimi-
ga de vizinhos por causa de brigas de crianças.
Maria, que ganhara o apelido de “Boca de Macaco”, é uma outra
figura inesquecível. Morava numa casa que ficava juntinho à nossa.
Era mãe de Beto e de Lurdinha. O quintal de sua casa era cercado com
varas, que sempre se soltavam ou caíam, deixando nosso quintal mai-
or. Assim, invadíamos o quintal dela e ganhávamos mais espaço para
brincar. Uma vez, Lurdinha começou a trabalhar na fábrica de roupas
Saci Pererê e contratou meu irmão Valmir para levar seu almoço to-
dos os dias ao meio-dia. Nessas idas e vindas, ele achou um relógio
Citizen, que vendeu a mim. Algum tempo depois, o relógio começou
a atrasar. Mandei trocar a pilha, mudar peças internas, mas o atra-
so persistia. Revoltado, destruí o maldito com uma marretada e
resolvi o problema.
Carrapeta era uma senhora meio louca que passava pela rua.
Parecia-se mesmo com uma carrapeta: gorda no meio e as pernas fi-
nas. Quando alguém a chamava por este apelido, ela enlouquecia e
despejava os mais terríveis palavrões.
Tinha também Tonho Doido, um cara tipo cigano, de olhos cla-
ros, que circulava pelas redondezas e sempre aparecia lá em casa. Mi-
nha mãe deixava-o entrar e lhe dava comida. Mas Tonho Doido sem-
pre arrumava confusão, pois não tinha juízo e se encrencava com tudo.
Lembro também de uma mulher de cor negra, bem idosa, que
passava quase toda semana por nossa casa, que mais parecia um pon-
to de encontro de loucos e desequilibrados. Ela trazia bananas e bis-
coitos, recebidos como esmola, e dava pra gente. Quando não dava, a
gente roubava de sua sacola.
JESUS

Anália é outra que não pode ser excluída desse elenco. Era mãe
de Roxa, uma comadre minha. Explico-me: é hábito, no interior, que
DE

aqueles que pulam juntos a fogueira das festas juninas se tornem com-
VALDECK A LMEIDA

padres e comadres. Eu pulei fogueira com Roxa e nos tornamos com-


padres. Conhecemo-nos quando minha mãe morava na mesma Rua
da Palha e eu era quase uma criança.
Germina era uma mulher morena, bastante gorda, que tinha os
pés rachados, e sempre parava lá em casa para prosear com minha
62 mãe. Suava feito um cuscuz e exalava um cheiro muito forte. Carrega-

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va sempre consigo uma toalha de rosto, com a qual não parava de en-
xugar o suor que lhe escorria pelo rosto e pelo pescoço.
Havia também Baratão, outro louco que passava pela rua. Nos-
sa diversão era perturbá-lo e jogar pedras no pobre homem.
Nessa época, eu era ainda muito jovem. Lembro-me que cons-
truí um parquinho de diversões de brinquedo, que funcionava com
um pequeno motor a pilha. Como só tinha um motor, ora colocava-o
na roda-gigante de brinquedo, ora na “sombrinha”. A garotada da rua
se juntava perto de minha casa para contemplar admirada os brinque-
dos que eu construía.
Zeca Alves era um senhor moreno escuro e gordo que morava
em nossa rua. Meu irmão Vivaldo (Gal), sempre muito gaiato, toda
vez que passava em frente à casa de Zeca Alves gritava: “Zeca Alves,
ladrão!” Não sei de onde ele tirou essa idéia de xingar o homem, que
um dia se irritou e quis agredi-lo. Ele devia ter então uns cinco anos de
idade. Nessa época, meu pai já devia ter morrido, não me recordo muito
bem. Mas minha mãe, apesar de estar aleijada, defendia-nos a unhas
e dentes, tal qual uma loba enlouquecida. Quando Gal chegou em casa
chorando, ela saiu se arrastando pela rua afora até a porta da casa de
Zeca Alves e começou a gritar, xingando-o de ladrão e de tudo quanto
era nome. Chamou atenção. Zeca Alves saiu para discutir com ela, e o
filho dele queria bater em minha mãe, uma senhora descontrolada e
aleijada. Nossos vizinhos não permitiram tamanha falta de respeito.
Zeca Alves então se vingou com muitos palavrões e praguejando que
todos os filhos dela haveriam de ser ladrões, maconheiros, drogados e
coisas do tipo, pois, além de não terem pai, viviam sob o jugo de uma
mãe louca. Minha mãe voltou para casa chorando. Toda a criançada
também chorava junto com ela. Graças a Deus e à educação que mi-
Memorial do Inferno

nha mãe deu a cada um dos filhos, essa predição não se concretizou.
Somos todos honestos e pessoas de bem.
Dona Nêga é uma senhora que morava, e ainda mora, na aveni-
da Franz Gedeon, perto da casa onde morávamos. Vive até hoje numa
casa de três cômodos, pequena e construída em estilo antigo. Ainda
tem fogão à lenha e se veste com modelos de roupa de vinte anos atrás.
Era como se fosse uma irmã de minha mãe.
Em dias de chuva forte, íamos de mala e cuia para a casa dela,
quando a nossa ficava alagada. Dona Nêga sempre foi uma pessoa 63

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muito simples e prestativa. Apesar de dispor de poucos recursos, toda
vez que chegávamos em sua casa, dividia o que podia conosco: comi-
da, carinho e conselho de mãe, entre outras coisas.
Quando o marido dela morreu, ficamos todos muito tristes. Foi
como se um membro de nossa família também tivesse partido. Dona
Nêga tinha quatro filhos: José, Jean Cláudio, Pinto e Jabá. À exceção
de José, que era bem maior do que nós, todos os outros eram uma
espécie de extensão de nossa própria família. Saíamos para catar lixo,
brincávamos juntos, freqüentávamos a casa uns dos outros. Experi-
mentamos juntos muitos momentos marcantes da vida, como se fôs-
semos mesmo uma só família.
José, o filho mais velho de Dona Nêga, viajou para São Paulo a
trabalho e se demorou muito por lá. Quando veio de férias visitar a
mãe, saiu com amigos para tomar banho de cachoeira e acabou mor-
rendo afogado após mergulhar e bater com a cabeça em uma pedra.
Foi uma tristeza para a rua inteira, sem falar em sua mãe, que perdeu
um filho de forma tão trágica e precoce.
Não posso deixar de mencionar aqui o Nêgo Tinho e seu irmão,
que também freqüentavam a casa de Dona Nêga e faziam parte de
nosso círculo de amizade. Eram considerados os “capetas” da rua por
viverem aprontando.

i
Sempre fui muito curioso e dinâmico, apesar de sempre me achar
um moleirão, um covarde ou coisa que o valha. Sempre gostei de es-
crever, principalmente cartas. Enviava correspondências para o mun-
JESUS

do inteiro, mesmo sem saber falar outra língua que não fosse a portu-
DE

guesa. Acabava recebendo folhetos evangélicos da China, Rússia e


VALDECK A LMEIDA

outros países, após enviar cartas solicitando esse tipo de material, que
eu distribuía pela cidade inteira. Tinha centenas de cartas guardadas,
de amigos, de empresas, de todo lugar do planeta. Também gostava
de catar todos os “cartões de resposta comercial”, preenchê-los e en-
viá-los. Particularmente, adorava esses “cartões”, por dispensarem o
uso de selos e envelopes. Fazia minha festa com eles. O carteiro da
64 cidade já me conhecia. Mesmo quando eu mudava de um bairro para

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outro, acabava recebendo as correspondências, pois o carteiro desco-
bria meu novo paradeiro. Tinha coleções de revistas Veja, Isto É e ou-
tras que chegavam das editoras, por causa dos cartões-resposta que
eu preenchia e enviava. Às vezes, recebia três ou quatro revistas se-
manais de uma só vez. Quando uma assinatura era cancelada por
falta de pagamento, enviava outros pedidos e, assim, recebia as re-
vistas ininterruptamente.
Com esse meu hobby, acabei aprendendo alguns macetes como,
por exemplo, que existia e ainda existe a chamada “Carta Social”, que
qualquer um pode postar pagando apenas um centavo. Isso mesmo.
Carta com peso igual ou inferior a vinte gramas, cujo envelope seja
preenchido a mão, sendo os remetentes e os destinatários “pessoas
físicas”, custa apenas R$ 0,01. Há um limite de cinco cartas por vez,
em cada agência, para evitar que se explore demasiadamente o servi-
ço. Mas eu sempre burlava essa regra, colocando as cartas em agênci-
as diferentes ou voltando à mesma agência em horários diversos e me
dirigindo a outros guichês. Nesse vai-e-vem de cartas, ocorreu-me, um
dia, enviar uma carta ao Presidente da República - na época, João Fi-
gueiredo -, pedindo aposentadoria para minha mãe. Não é que ele res-
pondeu a carta, informando que tinha encaminhado o pedido ao Ministé-
rio da Previdência Social? E, após alguns meses, o Ministério enviou uma
solicitação a minha mãe, pedindo-lhe que comparecesse a um posto do
antigo INPS (atual INSS). Depois de infindáveis trâmites e perícias médi-
cas, minha mãe foi, enfim, “encostada” por invalidez, devido ao seu pro-
blema de paralisia nas pernas. A renda era de meio salário mínimo, que,
após muitos anos, passou a um salário mínimo completo. E eu nunca
entendi como é que se divide o “mínimo” em dois...
Memorial do Inferno

i
O primeiro bem de valor que possuí foi um rádio de pilha, com-
prado com o fruto de meu trabalho, do Senhor Francisco, pai de Flo-
risvaldo e marido de Dona Dete. Essas pessoas desempenharam papel
importante em nossas vidas. Francisco, ou Chico, como era conheci-
do, tinha uma barraca no Mercado Municipal de Jequié, onde vendia
farinha e sempre nos dava um pouco e Dona Dete era aquela que nos
65
permitia assistir televisão em sua casa.

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O rádio era portátil, à pilha, e já usado. Pegava somente as esta-
ções em ondas médias e curtas. E, mesmo que pegasse FM, isso era
coisa que não existia em Jequié na época. Carregava esse rádio para
todos os lugares por onde andava.
Ao deitar e antes de pegar no sono, passava boa parte da noite
ouvindo a Rádio Capital e a Rádio Record, de São Paulo. Esta última
tinha um programa de humor apresentado por Zé Betio, onde conheci
a maioria dos humoristas que atualmente fazem sucesso na TV. Eu
trabalhava, à época, com Esmeraldo, fazendo cintos e sacolas e tam-
bém atendendo no balcão de seu armarinho ou em sua barraca de
miudezas na feira livre da cidade. O rádio me acompanhava em todos
esses lugares.
Na oportunidade em que eu comecei a trabalhar na pequena
fábrica de cintos, fiz um acordo com Esmeraldo, no qual eu recebe-
ria um salário menor em troca de café da manhã, almoço e jantar,
todos os dias.
Uma vez, roubei a calculadora de pilha de uma vizinha de Es-
meraldo, que vendia leite e morava ao lado da casa dele. Devia ter lá
meus doze anos de idade àquela época. Esperei todo mundo sair da
sala, não resisti e entrei na casa. Rapidamente, peguei a calculadora
que me tentava sobre a televisão. Ninguém nunca descobriu o autor
do roubo. Mas, muito arrependido, confesso-o aqui, agora.

i
No mês de junho, são freqüentes as festas em homenagem a
Santo Antônio, o padroeiro da cidade de Jequié. E todos os anos, nes-
JESUS

sa época, um parque de diversões é armado em frente à igreja matriz.


DE

Minha mãe me levava com ela para assistir à missa, em um dos treze
VALDECK A LMEIDA

dias da trezena de Santo Antônio, e também para ver as outras crian-


ças brincando no parque. Ela não tinha condições de comprar ingres-
sos para os brinquedos. Nem sequer para me comprar uma maçã do
amor. Eu me sentia muito frustrado com tudo aquilo, até que, um belo
dia, resolvi roubar os ingressos do parque. Precisava apenas saber
aonde eram guardados os ingressos usados. E descobri que, ao lado de
66 cada brinquedo – roda-gigante, carros de bate-e-volta, etc. havia uma

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espécie de garrafa, onde eram depositados os ingressos já utilizados.
Em uma dessas garrafas percebi que havia um buraco na parte de bai-
xo. E dali retirei centenas de ingressos, sem que o rapaz que tomava
conta do brinquedo percebesse. Enchi vários saquinhos plásticos de
maçãs do amor com os ingressos roubados e depois corri para casa
feliz da vida. Não contei nada à minha mãe, pois seria surra certa, caso
ela soubesse do acontecido. No dia seguinte, levei todos os irmãos para
montarem nos brinquedos do parque, de graça. De alguns brinquedos
nem saíamos, como era o caso dos carrinhos de bate-e-volta. A cada
vez que o tempo terminava, dávamos outro ingresso para o rapaz que
controlava o brinquedo. Brincamos tanto que acabamos enjoando da-
quilo tudo e distribuímos os ingressos para a meninada da rua onde
morávamos. A garotada fez uma festa no parque, literalmente.

i
Cursei o primeiro grau no Ginásio Celi de Freitas, onde era o
aluno que mais se destacava. Estudava muito e, por isso, sempre tira-
va as melhores notas. Todos me conheciam: alunos, censores, profes-
sores, coordenadores e diretores. Sempre participava das atividades
extraclasse: dançava nas quadrilhas juninas, tocava e ensaiava a ban-
da do colégio, tomava parte nas mais diversas campanhas.
José Lientinho, um dos professores do colégio, era encarregado
de promover as festas e ensaiar a banda. Tinha contato freqüente com
ele, pois tomava conta dos instrumentos e tinha a chave do local onde
eles ficavam guardados, além de também ter a chave de uma sala onde
ele armazenava papel ofício, papel carbono, álcool e todo material que
arrecadava no comércio local para uso da escola. Professor Lientinho
Memorial do Inferno

tinha esse aposento como sendo de sua propriedade, e ninguém podia


pegar dali uma folha de papel sem o seu consentimento. Certa vez, ele
foi escalado para tomar conta de uma prova na sala onde eu estudava.
Simplesmente, resolveu sair da sala, permitindo assim que todos “pes-
cassem”. Em sinal de protesto, assinei a prova em branco e me retirei.
A turma quase me matou. No dia seguinte, a professora da matéria me
chamou e me deu nota dez pela atitude, anulou a prova dos demais e
marcou outra prova com todos, exceto eu. O professor ficou desmora-
67
lizado no colégio e, por este motivo, trancou-me no auditório da esco-

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la; queria me espancar. Gritei por socorro e vieram professores e alu-
nos acudir. Felizmente, foi apenas uma “pressão”. Não deu tempo para
que ele me batesse.

i
Luciene era a mais engraçada, a mais relapsa e a mais admirada
colega de turma. Era gordinha, casada, falava um monte de palavrões
e não gostava de estudar. Quando saíamos da escola, às 22 horas, ela
reunia uma galera para fazer baderna pelas ruas. Roubávamos as plan-
tas que as pessoas colocavam nos pátios de suas casas e levávamos
para a casa de Luciene. Quando não conseguíamos carregar os caquei-
ros, por causa do peso, quebrávamos e destruíamos tudo. Até que a
vizinhança deu queixa na polícia, que passou a fazer ronda pelas ruas
próximas. Desse dia em diante, evitamos continuar com aquele tipo
de baderna.
Luciene era a aluna que menos estudava. Passava o tempo intei-
ro conversando e fazendo bagunça na sala de aula. Mas sempre passa-
va de ano, graças aos colegas, que, por gostarem muito dela, davam-
lhe “cola” no dia da prova. Na prova final da oitava série, pediu-me
que preenchesse a prova e deixasse sem assinatura, para que ela pu-
desse assinar e não perder o ano. Eu já tinha notas suficientes para
passar. Sempre fechava minhas notas na terceira unidade. Mas ela
dependia da nota da quarta unidade para conseguir concluir a oitava
série. Fiz o que ela pediu, e ambos passamos de ano.
Um belo dia estava eu trabalhando numa barraca de doces, na
esquina da avenida Rio Branco com a rua Barbosa de Souza, quando
passou minha professora de Português, Eulália. Ela parou e começou
JESUS

a conversar comigo. Quando tocou no assunto da prova, aquela que eu


DE

tinha preenchido para Luciene, fiquei paralisado. Baixei a cabeça e


VALDECK A LMEIDA

não falei mais uma palavra. Com atraso, ela me deu a bronca que de-
veria ter dado na época, falou que tinha me visto entregar a prova para
Luciene, e que só não tinha anulado as duas provas em consideração a
mim, que era um ótimo aluno e não merecia ter um ZERO na caderne-
ta. Ressaltou ainda que, também por consideração a mim, acabara
cometendo uma injustiça: passar Luciene para a primeira série do se-
68 gundo grau. Culpou-me pelo fato de minha colega passar de ano sem

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saber nada, enfatizando que eu levaria para o resto da vida esta culpa.
Advertiu-me para que eu não cometesse mais atitudes daquela natu-
reza e encorajou-me a continuar sendo o aluno exemplar que sempre
tinha sido. Ouvi todo o sermão calado, sem coragem de olhar em seus
olhos. Morri de vergonha de tudo aquilo. Esta é mais uma lição que
me acompanha e, na medida do possível, tento passá-la adiante.
Estudei em duas fases no IERP - Instituto de Educação Régis
Pacheco. A primeira foi quando voltei da Fazenda Turmalina, depois
de lá ter vivido por cinco anos. Fui direto para a quinta série do pri-
meiro grau. Tendo estudado anteriormente numa escola onde apenas
aprendi o básico – ler, escrever, ver as horas no relógio e outras ame-
nidades –, fui reprovado em muitas matérias, principalmente em Por-
tuguês, ao entrar para o novo colégio. Não conseguia sequer separar
as sílabas das palavras. Desisti então de continuar estudando ali e vol-
tei para a escola normal da cidade. Isso ocorreu por volta de 1982.
A segunda vez foi quando lá me matriculei para cursar o segun-
do grau. Aí, sim, fui mais bem-sucedido, pois tinha me proposto a ser
um aluno “caxias” no primeiro grau e, conseqüentemente, tornara-
me o destaque de minha turma. “Vendia” trabalhos de Geografia, His-
tória, Matemática e de outras matérias para toda a turma. Quando o
professor passava uma pesquisa, eu fazia os trabalhos da sala inteira,
para vendê-los depois. Era uma boa fonte de renda extra para mim.
Durante meu curso de segundo grau, eu trabalhava na empresa
de ônibus Tiradentes, de Dalmar (veja detalhes no capítulo “Trabalho
na empresa Tiradentes”). A perseguição era muito forte dentro do tra-
balho e ninguém conseguia estudar e trabalhar, pois os horários das
escalas de trabalho eram feitos de forma que impedia que o funcioná-
rio tivesse tempo de freqüentar a escola. Mas, felizmente, consegui
Memorial do Inferno

conciliar as duas atividades, mesmo porque eu era muito incisivo e


insistente naquilo que eu queria. Sempre enfrentei João e outros “fis-
cais” da empresa de forma contundente.
Eu era o único cobrador que agia dessa maneira e não era demi-
tido. Muitas vezes, chegava de viagem, trabalhando, e ia direto para o
colégio, onde fazia provas que nem sabia que estavam marcadas. A
duras penas, concluí o segundo grau, com muitas falhas, devido ao
baixo nível de ensino daquela instituição (a melhor da cidade), onde
69
se fingia estar ensinando e os alunos fingiam estar aprendendo. Mui-

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tas provas de Economia eram “trabalhos” a serem feitos em casa e
entregues na Secretaria, pois o professor raramente aparecia na sala
de aula. Outras matérias tiveram a mesma sorte. Tanto que me “for-
mei” em Técnico em Contabilidade e nada sei da área. Os estágios,
então, eram catastróficos. Além da imensa dificuldade de se conseguir
locais para estagiar, quando aparecia algum eram empresas que não
tinham a menor estrutura para funcionar, e muito menos para trans-
mitir informações contábeis. Na época, muita gente nem fazia estágio,
apesar de conseguir notas de estágio supervisionado. É o Estado cum-
prindo a sua parte em formar cidadãos desinformados e desprepara-
dos para exercer suas atividades com cidadania.
Ainda durante o curso de segundo grau, conheci Renato, de quem
fiquei muito amigo. Sendo eu considerado um dos CDF da classe, aca-
bava indo sempre à casa dos amigos, nos finais de semana, para lhes
dar aulas. A casa de Renato era quase uma velha conhecida, pois todos
os domingos eu estava lá, bem cedinho, às vezes até mesmo antes de o
café ser servido. Lembro que sempre assistia ao Globo Rural, um dos
programas matinais da Rede Globo, na casa dele.
Lá, aproveitava para tomar café, almoçar e jantar, além das
merendas servidas durante o dia, principalmente a mim, que era visi-
ta. A família de Renato também era muito pobre, mas sua mãe era
aposentada e tinha salário fixo, o que lhe permitia ter sempre comida
em casa. Além disso, como a casa era própria, não precisavam gastar
com aluguel, e sempre sobrava algum dinheiro para outros gastos.
Consegui, uma vez, um emprego para Renato como vigilante na
empresa de um outro amigo meu, também colega de sala, para quem
eu também dava aulas em alguns finais de semana. Este outro amigo
morava no bairro Agarradinho e tinha fama de ser ladrão. Mas nossa
JESUS

amizade continuou mesmo após eu ter tomado conhecimento de que


ele roubava e fazia jus à fama.
DE
VALDECK A LMEIDA

Foi nessa época que conheci outra colega de escola chamada


Ivonete. Era dona de uma barraca de verduras na feira livre da cidade.
Como minhas “aulas” particulares nos finais de semana se tornaram
famosas, acabei sendo convidado para dar aulas a ela também. E as-
sim descobri que Ivonete era comerciante e ela descobriu que eu
era uma pessoa necessitada. Acabou se oferecendo para me ajudar
70
e eu aceitei. Daí em diante, toda semana minha mãe, ou algum de

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meus irmãos, passava na barraca dela e recebia um monte de ver-
duras e frutas.

Memorial do Inferno

71

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JESUS
DE
VALDECK A LMEIDA

72

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MILITÂNCIAS, TRABALHOS E MUDANÇAS...

Militância Política

Eu militava no Partido Comunista do Brasil e participava das


reuniões de cúpula, onde discutíamos estratégias de ocupação dos es-
paços na cidade: associações de bairros, sedes de partidos, grêmios
estudantis e todos os espaços que pudessem gerar dividendos políti-
cos. Uma das fontes de informações de que me valia para manter-me
atualizado era o jornal Tribuna Operária, que adotava uma posição e
linha de pensamento compatíveis com minhas idéias na busca de um
mundo mais justo e de uma sociedade mais humana. Durante muitos
anos, revoltei-me com as reportagens sobre a Ditadura Militar que lia
nos jornais.
No colégio, juntei-me a uma equipe de rapazes e moças que já
atuavam politicamente de uma forma mais madura e profissional.
Éramos tão atuantes que acabamos fundando uma chapa para con-
correr à direção do grêmio estudantil. Nossa chapa de estudantes foi
eleita para a direção do Grêmio Estudantil Dinaelza Coqueiro, que fun-
damos no IERP e mantivemos por muito tempo. Eu era o Diretor de
Memorial do Inferno

Imprensa desse grêmio e responsável, entre outras coisas, pela publi-


cação do jornalzinho informativo, onde denunciávamos os mandos e
desmandos do Diretor Carlos Melhem.
Cheguei até a viajar para Salvador para pegar o jornal do grê-
mio, que era impresso em uma gráfica da Ladeira de Santana. Nessa
época, viajei também para Arembepe, para participar da Convenção
Nacional da União da Juventude Socialista, um braço político do PC
do B. Foi uma festa inesquecível. Participamos de comemorações e
debates, tomamos banho nas lagoas de Arembepe e dançamos ao som 73

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de trios elétricos. O que mais me marcou nessa viagem foi o colégio
onde dormíamos e suas inúmeras telhas quebradas que, com a chuva,
acordavam muita gente durante a madrugada. Outra cena que não
esqueço foi a de uma tartaruga gigante, que vi nadando no mar, perti-
nho da praia. Naquele dia, tinha acordado cedo e resolvi sair para uma
caminhada na beira da praia. Estava distraído olhando o mar, quando
notei uma “pedra” enorme se movendo na superfície da água. Fiquei
intrigado com aquilo e não desgrudei os olhos dali até descobrir que o
estranho fenômeno era uma tartaruga de mais de dois metros de com-
primento. Fiquei surpreso e admirado diante daquela obra formidá-
vel da natureza. Permaneci um bom tempo contemplando aquele cas-
co colossal a se movimentar na água. Até que a tartaruga resolveu dar
um mergulho e desaparecer no meio das ondas do mar.

Campanha Política de Waldir Pires

Trabalhei com alguns amigos na campanha política de Waldir


Pires para o governo do estado da Bahia. Viajamos para a convenção
do PMDB, partido que fazia parte da coligação para a eleição de Wal-
dir Pires. Em Salvador, fomos para a Câmara Municipal, onde aconte-
cia a festa, almoçamos num restaurante localizado embaixo do prédio
da Prefeitura e ficamos hospedados num minúsculo apartamento no
Engenho Velho de Brotas, de propriedade de Lídice da Mata. Como o
apartamento era muito pequeno, Lídice foi dormir na casa de sua mãe
e lá deixou parte da galera, na qual eu me incluía. Muito simpática, ela
nos autorizou a ficarmos à vontade em sua casa, inclusive para assal-
tar a geladeira, nos fartar de iogurtes e ovos, os quais consumimos
com vontade.
JESUS

Fazíamos panfletagem, boca de urna, colagem de cartazes pela


cidade, debates, reuniões e seminários, em troca de uma promessa de
DE

emprego, caso o Waldir ganhasse a eleição. Para nossa decepção, logo


VALDECK A LMEIDA

após a conquista do governo do estado, nosso partido trocou os cargos


por “apoio político” na eleição seguinte. Fiquei revoltado com aquilo,
de ver que as decisões eram tomadas em gabinetes, restando à base
aceitá-las pacificamente. Encontrava-me desempregado há um bom
tempo e aquela promessa de trabalho era com o que eu contava. Saí do
partido, abandonei toda a militância e nunca mais me engajei em po-
74
lítica partidária.

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Trabalho com Abdias e sua mulher

Trabalhei com Abdias e sua mulher desde o tempo em que eram


casados e moravam na Ladeira da Coelba. Nessa época, ele só tinha
Rubens de filho. Eram vendedores ambulantes de panelas, tecidos e
utensílios domésticos de plástico. Viajei muito em sua pick-up C10
para Itagi, Apuarema, Ipiaú e cidades dos arredores de Jequié, nos
finais de semana. Armava uma barraca ou simplesmente estendia uma
lona preta no chão, arrumava a mercadoria, e esperava que os fregue-
ses aparecessem. O mais engraçado era que, muitas vezes, além de ter
de “brigar” por um espaço no chão das feiras livres, ainda tinha de
pagar uma taxa à prefeitura local pela utilização do “solo”, que não
passava de um chão livre ou coberto de paralelepípedos. Lembro-me
que, certa ocasião, fui deixado em uma cidadezinha, onde tive de pro-
curar pelas mercadorias de Abdias, que estavam guardadas na casa de
um dos moradores da cidade, para depois levá-las até a feira e, no
final, guardá-las novamente nessa casa. Dali pegava um ônibus e vol-
tava para Jequié com o dinheiro apurado na vendagem do dia. Poste-
riormente, Abdias se mudou para o Agarradinho, casou-se com outra
mulher e teve mais filhos. E, por coincidência, acabei indo morar em
frente à sua casa, quando me casei com Márcia.
Na época em que Abdias e a mulher se encontravam sem condi-
ções de manter a estrutura de vendedores ambulantes, montaram vá-
rias barraquinhas, de um metro de comprimento por meio metro de
largura, para a venda de doces, pipocas, chicletes e cigarros. Trabalhei
numa dessas barracas, que ficava guardada numa residência na Ave-
nida Rio Branco. Era a residência de duas senhoras idosas. Nos fun-
dos da propriedade, havia um quartinho onde eu guardava o “caixote”
com os doces. As senhoras sempre me davam café ou alguma comida,
Memorial do Inferno

quando eu chegava pela manhã para pegar o carrinho de mão e a bar-


raca. Todos os dias eu carregava a barraquinha e a armava na esquina
da casa de Walter Sampaio – então prefeito da cidade –, onde, tempos
depois, foi construído o Superlar Supermercados – uma rede de mer-
cadinhos de Vitória da Conquista, com várias lojas em Jequié. Sempre
era roubado pelos estudantes que por ali passavam, fosse quando com-
pravam fiado ou quando, simplesmente, pegavam as mercadorias e
corriam. Nessa ocasião, minha mãe estava com sérios problemas nas
pernas e precisava usar muletas para caminhar. Ainda assim, todos os 75

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dias, ia levar minha comida, que não variava muito: pirão de farinha
com água, uma piaba frita ou um pão com manteiga (no interior, mar-
garina é chamada de manteiga). Como eu não gostava da comida, que
ela levava com sacrifício, e não queria magoá-la, usava da seguinte
estratégia: jogava fora minha água de beber, armazenada numa lata
de Neston, e pedia que ela fosse buscar mais água. Nesse meio tempo,
dava um jeito de jogar a comida no lixo, sem que ela visse. Enquanto
ela atravessava, com dificuldades, a avenida Rio Branco, eu olhava para
a comida e dela me desfazia imediatamente, caso meu estômago a re-
cusasse. Porém, quando minha mãe voltava com a água, dizia-lhe que
havia comido tudo. Ela ficava satisfeita, enfatizando que meus irmãos,
em casa, não tinham almoçado para que sobrasse comida para mim.
Eu ficava com o coração partido, mas nunca tive coragem de dizer à
minha mãe que, na maioria das vezes, eu também ficava com fome.

i
Trabalhei como balconista no bar de Bio, na praça da Bandeira.
Despachava cachaça, bebidas diversas, cereais, tira-gostos, sucos, bo-
los etc. Trabalhava de segunda a sábado e ganhava muito pouco. A
grande vantagem era que eu comia durante todo o dia, coisa que não
poderia fazer em casa, onde quase nunca havia o que comer. Não lem-
bro quanto tempo trabalhei nesse bar, mas é uma passagem que me-
rece registro.

i
JESUS

Quando ficava sem trabalho, ia limpar quintais de conhecidos


DE

com uma enxada. Às vezes, saía a caminhar por ruas onde não conhe-
VALDECK A LMEIDA

cia ninguém, perguntando, de casa em casa, se tinha algo que eu pu-


desse fazer. Desta forma, nunca ficava sem uns trocados para com-
prar minhas coisas. Sempre encontrava algo para fazer. Lembro bem
do quintal de Dona Alzira, mãe de Edilene. O quintal dela era enorme,
e sempre tinha muito mato e lixo a serem removidos. Eu levava comi-
go uma “galiota” (carrinho de mão, daqueles que os pedreiros usam)
76 para retirar o lixo, as pedras e o mato que eu capinava.

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i
Trabalhei como caseiro na casa de um senhor conhecido como
Dr. Gerson. Ele tinha uma casa enorme e vários cachorros da raça po-
licial. Apesar de não ser chegado a animais, eu cuidava dos cães e dava
comida a eles. Certa feita, entrei no carro do patrão e encontrei um
enorme revólver, calibre 38, no porta-luvas. Foi a primeira vez que vi
uma arma de verdade. Manuseei o revólver um pouco e, em seguida,
guardei-o, com medo de ser visto por alguém.

i
Trabalhei também quebrando pedras. Era um trabalho duro, li-
teralmente duro. Ficava numa pedreira, perto de Jequié. Ali eu ga-
nhava por produção. Cada lata de pedra equivalia a cerca de R$ 1,00,
a preços de hoje. Isso poderia significar um bom dinheiro se eu conse-
guisse quebrar muitas pedras. Mas a realidade é que eu passava dois
ou três dias tentando encher uma lata. Foi uma das fases mais difíceis
de minha vida.

i
Trabalhei também com Aldo, vendedor de utensílios domésti-
cos e de leite. Viajava com ele para as cidades circunvizinhas para ven-
der tecidos, utensílios plásticos e panelas. Trabalhava nas feiras livres
das cidades próximas a Jequié. Não lembro de muita coisa sobre esse
Memorial do Inferno

trabalho, foi apenas mais um deles.

i
Joel é um primo distante, por parte de meu pai. Ele trabalhava
numa panificadora, na Avenida Franz Gedeon, próximo ao centro da
cidade. Conseguiu-me uma vaga para trabalhar como vendedor e en-
77
tregador de pães. Eu saía de casa, então, todos os dias bem cedo, por

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volta das cinco horas da madrugada, e voltava somente no final da
tarde. Ainda lembro do cheiro dos pães fresquinhos, a exalar do enor-
me cesto que eu carregava, para entrega nas lojas próximas e no cen-
tro da cidade. Meu pescoço doía muito por causa do peso do balaio.
Não fiquei muito tempo empregado ali, e nem sequer recordo do mo-
tivo de minha saída.

i
Construí um carrinho de mão, de madeira, e com ele trabalhei
muito tempo carregando as compras do povo na feira. As pessoas que
iam às compras levavam cestos enormes, balaios descomunais, que
enchiam de verdura, feijão, carne e tudo mais. Só que a volta para casa
nem sempre era uma operação fácil para esses compradores, pois ti-
nham de levar suas compras em ônibus coletivos ou em táxis. Nos
ônibus, nem todos os motoristas permitiam; e nos táxis, a corrida fi-
cava mais cara. A saída para aquela gente então era pagar uns troca-
dos para um rapazinho carregar as compras. Esta prática é bem co-
mum nos locais onde tem feira livre.
Geralmente, os dias de maior movimento eram sexta e sábado,
quando o centro da cidade era invadido por pessoas vindas de povoa-
dos e fazendas próximas para fazer suas compras em Jequié ou para
vender os produtos das roças. Houve um dia em que eu quase des-
maiei quando subia a avenida Rio Branco em direção ao viaduto Dani-
el Andrade, com um cesto enorme no carro de mão. O peso era tão
grande que eu me entortava todo para equilibrar o carrinho de mão.
E, para piorar a situação, nesse dia eu não tinha tomado café, esta-
JESUS

va muito fraco. Acabei passando mal e quase não pude continuar


meu trabalho na feira. A dona do cesto, sensibilizada com o meu
DE

estado, me trouxe um copo d’água e depois me deu café com pão.


VALDECK A LMEIDA

Pediu que eu ficasse ali parado um pouco, descansando, e depois


fosse para casa. Segui seus conselhos e descansei, mas, ao invés de
voltar para casa, fui direto para a feira livre, procurar mais cestos
para carregar.

78 i

memorial_final_a.pmd 78 26/2/2007, 17:05


Um dos trabalhos mais chatos que tive foi o de ajudante de pe-
dreiro. Nunca havia trabalhado antes nessa profissão – e, depois des-
sa experiência, não procurei outras iguais. Seu Elias era um senhor
negro e gordo, lento e lerdo como uma tartaruga. Uma vez, chamou-
me para ganhar um dinheiro trabalhando como seu ajudante no servi-
ço de pedreiro. Só que ele não fazia nada. Ficava sentado na escada de
madeira, recebendo blocos de cimento, massa de cimento e tudo mais,
sem fazer o menor esforço. Só sabia mandar: “Traga o cimento! Traga
a corda! Traga a colher de pedreiro!”. Esta passagem foi tão rápida
que mal consigo lembrar quanto tempo durou o trabalho, nem quanto
eu recebia por ele.

i
Zezé é o apelido de José, um de meus irmãos, filho do primeiro
casamento de meu pai. Ele é casado com Irene, com quem teve Vag-
ner e Lane. A primeira família de meu pai sempre viveu afastada da
gente, acredito que por causa da nossa condição social, que não nos
permitia freqüentar os lugares que eles freqüentavam.
Sendo comerciante, sempre teve um bar ou uma mercearia, onde
trabalhava duro para sustentar a família. Quando trabalhei com ele
no bar, como balconista, caminhava quase a cidade inteira, de madru-
gada, para chegar ao estabelecimento cedinho, antes das seis horas da
manhã, todos os dias. Batia na porta de sua casa e ele abria uma porti-
nhola por onde enfiava a mão e me entregava as chaves da venda. Daí
eu abria o mercadinho, fazia toda a limpeza do chão, das louças, frigi-
deiras e panelas de café, que estavam sujas desde o dia anterior. Cozi-
nhava ovos, preparava lanches, fervia feijão ou alguma outra comida
Memorial do Inferno

que estivesse no fogão, limpava e enchia a geladeira e o freezer de be-


bidas. Deixava toda a venda preparada para o novo dia.
Zezé acordava por volta das sete horas e ia para lá. Nem sempre
ficava comigo. Mas uma de suas advertências era que eu evitasse ven-
der fiado para a clientela, sob a alegação de que fiado somente na pre-
sença dele. E assim eu procedia, evitando que a maior parte do esto-
que fosse vendida fiado. Para cada cliente que chegava pedindo para
fiar a compra, eu repetia sempre que “somente com meu irmão”, pois
79
não tinha autorização para tal.

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Gostava daquele trabalho e tentava fazê-lo da melhor maneira
possível. Afinal, eu precisava do salário que ele me pagava (menos que
um salário mínimo, diga-se de passagem). Na venda, ele tinha um
ponto de jogo do bicho, onde aprendi a fazer o jogo. Muitas vezes,
Irene, minha cunhada, ficava no bar comigo. Mas o mais comum era
encontrar Vagner por ali, geralmente sentado ao lado do caixa e pas-
sando troco. Nunca desconfiei dele. Mas, um dia, houve uma discus-
são entre mim e Irene, porque Vagner tinha colocado um saco de amen-
doim doce pendurado num prego sobre a pia. Com o peso, o saco ras-
gou, fazendo com que o amendoim caísse na pia, ficando todo molha-
do e se estragando. Vagner, para livrar-se da bronca e de pagar o pre-
juízo, acusou-me de ter colocado o amendoim sobre a pia. Ficou a pa-
lavra dele contra a minha, e sua mãe, obviamente, acreditou no filho.
Protestei e discuti com ela. Quando meu irmão chegou, certamente
influenciado por algo que Irene lhe dissera, resolveu me mandar em-
bora, sob o argumento de que, se eu não me dava bem com a mulher
dele, não poderia continuar trabalhando na venda. Nada pude fazer,
era ele o dono do bar.
Devido ao jogo do bicho que eu fazia para Zezé lá no bar, acabei
conhecendo todos os fregueses e também aqueles que faziam sua “fe-
zinha” constantemente. Desempregado e sem ter o que fazer, fui até
a banca do jogo do bicho e peguei um talão para mim. Comecei a
fazer jogos por minha própria conta. Meu roteiro incluía principal-
mente as proximidades da venda de meu irmão, onde eu já tinha
uma boa freguesia.
Um dia, estava eu do lado de fora da venda e vi uma freguesa
conhecida entrar. Ela não me viu e, dando por minha falta, perguntou
à Irene, que estava no balcão, onde eu me encontrava. Irene pronta-
JESUS

mente anunciou que “Zé mandou embora, pois ele estava roubando o
bar”. Quase não me contive de raiva ao ouvir aquelas palavras, mas
DE

fiquei do lado de fora da venda, escutando toda a conversa. Até hoje


VALDECK A LMEIDA

tenho este espinho entalado na garganta. E, um dia, ainda hei de cha-


mar Irene para conversar sobre o assunto. Ouvi bem quando ela disse
à freguesa que sempre mandava Vagner tomar conta do caixa da ven-
da, para que eu não roubasse ainda mais. E foi aí que me caiu a ficha:
ela mandava o filho, não com a intenção de me ajudar, mas para me
vigiar. O que deixa meu coração aliviado é que eu nunca peguei nada
80
de meu irmão.

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Ouviria de Zezé, tempos mais tarde, quando eu passava por sua
venda, sobre as estripulias do filho. Contou-me que Vagner tinha se
tornado evangélico, e que, quando ia para os “retiros espirituais”, sem-
pre arrombava a venda, levando comida e tudo o que encontrasse, para
passar semanas no meio do mato com os “irmãos” de igreja. Por ironia
do destino, ele que era o vigia passou ao papel de ladrão. Zezé relatou,
ainda, que muitas vezes foi xingado pelo filho na presença de pessoas
da vizinhança, o que lhe deixava morto de vergonha. É o destino dan-
do a lição necessária àqueles que precisam aprender algo na vida.

i
Saímos da Casa da Avenida Franz Gedeon. Essa casa pertencia
ao meu irmão Édson, que sempre morou em São Paulo. A razão de
termos saído dessa casa foi que os cunhados de Édson (Joel, Maxwel e
Creuza) convenceram-no a nos tirar de lá e a pagar o aluguel de uma
outra casa para nós. Alegavam que, se continuássemos morando ali, a
casa poderia passar a ser nossa. E ele, temendo que isso acontecesse,
fez o que lhe foi sugerido. Édson resolveu então passar a pagar o alu-
guel de uma outra casa para nós. E, como o valor do aluguel que ele se
propunha a pagar era muito baixo, só podíamos escolher casas bem
pequenas e em bairros distantes. Fomos morar inicialmente no bairro
do Pau Ferro. Primeiro, procuramos casa na rua da Bosta, o pior lugar
do bairro, onde encontramos uma que fazia jus ao nome da rua. Fica-
va em cima de um despenhadeiro, em rua de chão batido, onde não
havia serviço de ônibus nem de água encanada. Depois, conseguimos
uma casa, no mesmo bairro, pelo mesmo preço, porém mais perto do
Centro. Fomos então morar nessa casa, cujo aluguel deveria equivaler
Memorial do Inferno

hoje a algo em torno de dez reais por mês.


Alguns meses depois nos mudamos para uma casinha com uma
sala de um metro e meio por dois de largura, um quartinho do mesmo
tamanho e um pequeno corredor, localizada na rua Rafael Pinto, bair-
ro do Jequiezinho. Não tinha quintal, ou melhor, tinha um quintal
que, por não ser cercado nem murado, acumulava muito mato e lixo.
Na frente da casa, a rua era de cascalho. Fica difícil hoje compreender
como todos os meus oito irmãos, juntamente com minha mãe, conse-
81
guiam se acomodar numa casinha tão pequena.

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Ali conhecemos muita gente. Continuávamos dependendo da boa
vontade das pessoas para sobreviver. Conhecemos Eva e sua família: a
mãe, Dona Maria, e a irmã, Nalva. Era gente da roça, que se mudou
para a cidade após vender um sítio que possuía. A família foi em busca
de uma vida mais fácil, menos sofrida. Acabou sem o sítio, sem a casa,
sem nada, pois, quando o dinheiro secou, ficou sem ter como sobrevi-
ver naquela realidade urbana, onde cada um luta por si. Dona Maria
teve de vender a própria casa para cuidar de Eva, vítima de doença
incurável: um câncer em estágio avançado. Antes de procurar os mé-
dicos, ela correu para as igrejas evangélicas, depois para os terreiros
de candomblé e, quando enfim resolveu apelar para a medicina, o caso
já estava adiantado demais. Não me sai da lembrança o dia em que fui
visitá-la em sua casa e espantei-me com o buraco enorme em suas
nádegas, por onde se viam os ossos do quadril. Foi uma das cenas mais
chocantes que vi.

Quando morávamos nessa casa, fui à loja e comprei um fogão a


gás. No entanto, a alegria durou pouco. Nunca usamos o fogão, pois
não tínhamos condições de comprar o botijão de gás e, muito menos,
o gás para abastecê-lo mensalmente. Esse fogão eu acabei vendendo
para pagar pela publicação de uma poesia na antologia Poetas Brasi-
leiros de Hoje – 1984. Não usamos o fogão para cozinhar, mas ele
serviu para essa alegria minha e de minha família, que vibrou quando
viu o livro publicado. Antes de eu comprar esse fogão, já tínhamos
ganho um fogão menor, de duas bocas, doado por uma pessoa chama-
da Lourdes. A alegria foi muito grande, mas não tivemos condições de
comprar o botijão de gás e por isso o fogão nunca foi utilizado. Acaba-
mos nos desfazendo dele para comprar comida.

Nessa rua – como nas outras – era Quira quem mais fazia ami-
JESUS

zades. Conheceu Nenquena e Norminha. A primeira usava drogas e a


DE

segunda fumava cigarros igual a uma caapora. Tinham fama de mu-


VALDECK A LMEIDA

lheres fáceis, diziam que elas saíam com todos os homens da cidade.
Minha mãe vivia a reclamar com Quira por causa de suas amizades,
mas, sempre muito teimosa, minha irmã continuava a sair com essas
e outras amigas. Felizmente ela não seguiu o destino das amigas e hoje
é uma pessoa de bem, casada, com três filhos, evangélica, responsável
e muito amada por todos da família.
82

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Primeira viagem a Salvador

Fui trabalhar em Salvador, em 1984, na casa de Luci Valverde,


que morava na Alameda das Framboesas, Quadra 7, Lote 12, Caminho
das Árvores. A casa ficava perto do Iguatemi e todos os dias eu passa-
va perto do shopping para comprar pães. Da varanda, dava para ver
ao longe os ônibus passando, e eu ficava horas e horas observando o
movimento dos carros. Na verdade, ela me levou para a capital dizen-
do que precisava de mim para tomar conta de um cachorro. Mas, quan-
do cheguei, não tinha cachorro algum. Eu teria de limpar a piscina, o
quintal, ser zelador e jardineiro. Como relatado anteriormente, Luci
era a dona da Fazenda Turmalina, onde morei dos sete aos doze anos
de idade. Em sua casa na cidade moravam, além dela, os filhos Augus-
to, Conceição e Pitutinha. Teobaldo, o mais velho, morava no México,
na época.
Por falar em Teobaldo, certa vez o carteiro trouxe uma carta dele
para Luci, e eu, por achar o selo muito bonito, arranquei-o do envelo-
pe para juntá-lo à minha coleção. Por medo de mostrar o envelope
lascado, cometi a imprudência de ler a carta e jogá-la no lixo, em se-
guida. Depois, arrependido, recuperei a carta e coloquei-a, aberta, na
estante da sala. Luci pegou a carta e me pressionou a confessar o deli-
to. Neguei até a morte, e ela me deu um sermão que jamais esqueci;
disse que era muita ousadia e falta de responsabilidade abrir corres-
pondência alheia, que aquilo era crime. Aprendi a lição e nunca mais
ousei abrir qualquer correspondência, fosse de quem fosse. Só não
revelei que tinha sido eu o autor do ocorrido, nem os motivos que me
levaram a abrir a carta. Mas ela sempre teve a certeza de que fui eu
que abri aquela correspondência.
Uma vez houve um problema na instalação elétrica da casa e foi
Memorial do Inferno

chamada uma pessoa para fazer o conserto. Luci pediu-me que ficasse
na garagem, junto com o eletricista, tomando conta das coisas, para
não correr o risco de ser roubada por ele. Infelizmente, não pude evi-
tar que um roubo acontecesse, e não por culpa do eletricista. A coisa
se passou da seguinte maneira: fiquei sozinho na garagem, quando o
eletricista subiu para verificar uma fiação no primeiro andar da casa.
Minutos depois de o eletricista ter subido, passou um rapaz em frente
à garagem, chegou até a porta e perguntou se não estavam precisando
de alguém para trabalhar na casa. Respondi que não. Ele então entrou 83

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e levou uma bicicleta Caloi 10 novinha, que estava ali, depois de me
ameaçar com a chave de fenda que pegou dentro da própria garagem.
Perguntou-me se tinha mais alguém em casa e eu, com medo, respon-
di que tinha muita gente na casa, quando na verdade tinha somente o
rapaz que trabalhava consertando os fios e Luci. Ele levou a bicicleta e
eu fiquei em pânico. Corri para fechar a porta da garagem e para avi-
sar Luci. Saímos pelos arredores à procura do ladrão, mas infelizmen-
te não conseguimos localizá-lo.
A casa era enorme e tinha uma piscina muito bonita no quintal.
Eu ficava louco para tomar um banho ali, mas, como empregado, não
tinha direito a essa regalia. Esperei o pessoal viajar, oportunidade em
que fiquei sozinho na casa. Aí aproveitei para dar o tão desejado mer-
gulho, um único mergulho, naquela piscina de águas convidativas. Foi
o suficiente para matar meu desejo e curiosidade. Foi o primeiro mer-
gulho de minha vida em uma piscina. Quando Luci chegou, deu-me a
maior bronca, pois tinha observado o rastro que eu deixara no fundo
da piscina. Com o mergulho, meu corpo havia limpado uma faixa de
sujeira do fundo e eu não percebera...
Meu quarto ficava nos fundos da casa, perto da cozinha. Tinha
um guarda-roupa enorme, onde caberiam todas as roupas de minha
vida. Mas eu ocupava apenas uma gavetinha do fundo, já que não pos-
suía muita roupa. Tinha também uma televisão. Eu podia assistir TV
no meu quarto ou na cozinha; jamais na sala, com os patrões. Nas
poucas vezes em que me sentava na sala para assistir TV, era posto
para fora dali, sob o argumento de que “empregados não podiam se
misturar com patrões”. Mas eu não tinha essa noção ou cultura, nem
sabia que a expressão “colocar-me em meu lugar” significava ficar nos
fundos da casa. Lembro de uma vez que fiquei brincando com o con-
JESUS

trole remoto da TV enquanto Pitutinha assistia aos programas na sala.


De molecagem, eu mudava de canal a toda hora, para vê-la reclaman-
DE

do. Ela era uma criança ainda, e eu, também da mesma faixa etária,
VALDECK A LMEIDA

achava-me no direito de brincar com a patroinha da casa.


Odiava macarrão porque me lembrava lombrigas. Uma vez, no
jantar, vi que meu prato continha macarrão em sua maior parte. Comi
o restante da comida e joguei o macarrão no lixo. Luci estava na janela
do primeiro andar e me viu fazendo aquilo. Desceu e me deu uma bron-
84 ca memorável. Falou que tinha muita gente passando fome no mundo

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e que eu estava desperdiçando comida. Disse ainda que, se eu não gos-
tasse da comida, que falasse para a empregada me dar outra coisa.
Repeti a cena em outra ocasião, quando a empregada esqueceu
de deixar comida para mim. Então, Conceição, filha de Luci, preparou
uma sopa de cogumelo. Tentei comer, mas odiei o sabor. Fingi que
comi, esperei ficar sozinho, e joguei tudo no lixo. Desta vez não fui
visto, senão seria bronca certa.
A empregada da casa folgava nos finais de semana. Certa vez,
peguei o prato sujo e coloquei na pia. E lá veio Luci novamente me dar
bronca. Agora alegando que até ela mesma lavava seu prato, e que
muitas vezes já tinha lavado até o vaso sanitário de seu quarto; que
metia a mão dentro dele com esponja e sabão, e que aquilo não a tor-
nava melhor ou pior do que era. Após o sermão, exigiu que eu lavasse
o prato. Aprendi a lição. Com Luci aprendi muitos valores importan-
tes da vida.
Chegou o natal e Luci começou a preparar a festa de final de
ano. Aquela seria a primeira ceia natalina de minha vida. A mesa esta-
va repleta de comidas: leitão assado, peru, frutas, nozes e vinhos. Mas
não agüentei esperar até meia-noite e corri para a cama. Poderia ter
experimentado naquele Natal uma sensação diferente de todas as que
já tinha vivido. Mas, infelizmente, o sono me venceu e eu perdi a opor-
tunidade de desfrutar da festa. Pouco tempo depois, voltaria a morar
na pobreza, em Jequié, com minha mãe.
Luci era espírita e tinha o costume de oferecer comida e presen-
te aos espíritos. Lembro-me que, na época em que morei na fazenda,
eu já havia encontrado abóbora com mel, e outras oferendas, dentro
de uma tigela de barro, que ela colocava dentro do mato. Em Salvador,
levou-me uma vez para o rio Vermelho, onde jogou flores e perfumes
Memorial do Inferno

no mar, para Yemanjá. Foi a primeira vez que vi o mar. Fiquei maravi-
lhado, extasiado... E, deste encantamento, fiz uma poesia em home-
nagem ao mar:

85

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O Mar

O mar é muito lindo!


Tão lindo quanto extenso.
Tudo que vejo e é lindo
Está no mar.
Nele tem peixes grandes e peixes pequenos.
Pelas águas do mar, ou dos mares,
Navegam as maiores embarcações...
Também singram o mar,
A trabalho, diversão ou em simples viagem,
As embarcações menores: canoas, barcos, balsas, jangadas...
A textura da areia é finíssima e alva
Em quase todas as praias brasileiras.
Os habitantes do mar, os peixes já mencionados,
São muito úteis aos brasileiros,
Que têm no mar uma de suas principais fontes de alimentação.
O mar também aparece como a ligação
De outros países com esta Nação.
(1984)
JESUS

Retorno a Jequié
DE
VALDECK A LMEIDA

Quando voltei a Jequié, minha mãe já estava morando no Pau


Ferro, na casa de Mariinha. Era uma casinha bem pequena, estreita e
baixa. Tinha um quintal imundo e cheio de tralhas. A família inteira
morava naquela casinha minúscula. Sonhava, nessa época, em entrar
para a Aeronáutica. Pedi a Luci Valverde que me ajudasse a pagar o
curso preparatório e ela generosamente concordou. Com o dinheiro,
86 comprei as apostilas.

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Um belo dia, Luci apareceu em minha casa para saber se eu es-
tava estudando e me preparando para o concurso. Expliquei-lhe que
achava tudo muito difícil e que estava prestes a desistir. Luci me deu a
maior bronca que recebi em toda a minha vida. Falou que tinha tido
uma vida muito difícil, e que, na juventude, teve que comer banana
verde assada para sobreviver; falou ainda que já havia passado muita
fome; que seu pai enriquecera, sim, mas que antes de conquistar seus
bens materiais passara por muito sofrimento e conhecera a fome de
perto; que tudo o que ela adquiriu foi resultado de muito suor e traba-
lho; que sua situação financeira confortável devia-se às economias que
fazia e ao cuidado na aplicação de cada centavo; que não desperdiçava
nada, a fim de poder ter sempre com o que se manter. Ela me disse
que eu deveria aproveitar as oportunidades que a vida me desse, en-
frentar os desafios, ter mais coragem e autoconfiança e nunca desistir
dos meus sonhos e projetos, mesmo que eles pudessem parecer im-
possíveis de conquistar.
Enfim, deu-me uma lição de moral e uma lição de vida para nun-
ca mais esquecer. Todo aquele discurso ficou gravado em minha men-
te e me lembro de cada palavra como se fosse hoje.

i
Em uma casa em frente à que morávamos, havia uma família
com três irmãos: Balbino, Ádia (conhecida como “sem queixo”) e Ma-
ria, que moravam com o pai. Apaixonei-me por Maria, que tinha um
filho chamado Anderson, de um ano de idade, cujo pai morava no Rio
de Janeiro. Enquanto namorei Maria, costumávamos freqüentar uma
Memorial do Inferno

boate chamada “Cantinho de Lua”, que ficava perto do Aeroporto Vi-


cente Grilo, onde desfrutamos de bons momentos. O romance durou
quase um ano, mas ela nunca quis algo mais sério comigo. Namoráva-
mos e transávamos muito, mas, quando eu falava em morarmos jun-
to, ela caía fora do papo.
Quando terminamos, entrei em depressão. Cheguei a fumar
uma carteira inteirinha de cigarros em poucas horas. O detalhe é
que eu não era fumante e não gostava de cigarro. Caminhei do bair-
ro Mandacaru até o bairro do km 4 fumando, e quase me joguei 87

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embaixo de uma caçamba que passou na BR-116, indo em direção a
Vitória da Conquista.
Tirei muitas fotos com Anderson, filho de Maria. Eu gostava
demais do garoto e queria adotá-lo como meu filho. As fotos serviram
de lembrança para guardar, como uma recordação do namoro com a
mãe dele e de uma provável família feliz que seríamos.
Nesse mesmo período, trabalhei como fotógrafo particular. Com-
prei uma câmera fotográfica não profissional e comecei a “tirar fotos”
de todo mundo. Dessa época tenho guardada em casa uma infinidade
de fotos e negativos. Muita gente não me pagava, é bem verdade, mas,
de um modo ou de outro, acabava recuperando o dinheiro investido,
pois a quantidade de fotos que eu fazia era grande.

i
O Pau Ferro era um dos bairros mais violentos da cidade. Lá
havia tiroteio, gente cortando gente com facão, pobreza, falta de sane-
amento básico (os esgotos corriam a céu aberto), ruas sem calçamen-
to, serviço de transporte público precário, enfim, era um bairro típico
da periferia. Eu não falava com praticamente ninguém, exceto o estri-
tamente necessário, com medo de criar laços de amizade com pessoas
que pudessem me trazer problemas no futuro.
Trabalhava no bar de Joel, um primo distante, e meu contato
com o público se restringia ao formalmente necessário. Quando saía
para trabalhar, sempre advertia meus irmãos para que não abrissem a
porta para quem quer que fosse, lembrando-lhes que, caso alguém
perguntasse algo sobre mim, deveriam dizer que eu era do Exército,
JESUS

patente “herdada” de meu pai, que também tinha sido militar. Uma
mentira de conveniência para que as pessoas nos “respeitassem” e
DE
VALDECK A LMEIDA

evitassem confusão conosco.


Um belo dia, alguém bateu à porta e meu irmão Gal (Vivaldo)
atendeu. Desconsiderando minhas instruções, falou para a pessoa que
tudo não passava de uma mentira e que eu não era do Exército coisa
nenhuma. Gal era uma criança e não tinha noção da gravidade do que
estava fazendo, mas levou uma surra por isso, surra que ele jamais
88 esqueceu. Eu, sinceramente, não me lembrava deste episódio, mas,

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recentemente, em conversa com Gal e com meus outros irmãos, fui
“lembrado” do ocorrido.

i
O bar era composto de um pequeno balcão e prateleiras, e tam-
bém de um salão onde havia uma mesa de sinuca. Joel tinha montado
um aparelho de som em casa, de grande potência, que posteriormente
instalou no bar. Eu sempre colocava músicas para tocar e, freqüente-
mente, ouvia Frank Sinatra no volume máximo do aparelho, irritando
bastante os vizinhos. Mas ninguém nunca chegou para reclamar do
barulho, apenas do meu mau gosto por música, já que eles preferiam
cantores mais populares. Joel, o dono do bar, possuía vários discos de
vinil, que eu não parava de ouvir: reggae, Tina Turner e outros sons...
A música deixava tudo muito mais alegre.

Perto do bar, do outro lado da rua, moravam Lusa e Pinóia, duas


prostitutas que tinham um pai cego. Certa vez, chamei Lusa e marca-
mos um “programa”. Ela aceitou e foi à noite até o bar para me encon-
trar. Bebemos bastante e transamos várias vezes em cima da mesa de
sinuca, sobre o balcão, em todos os lugares possíveis. Eu tinha dezoito
anos de idade e era a minha primeira experiência sexual, que viria a
me render também a primeira e única doença venérea: gonorréia. Pas-
sados alguns dias, comecei a sentir um ardor insuportável ao urinar.
Depois começou a sair uma secreção do pênis. Fiquei apavorado e
mostrei para minha mãe, que me levou ao posto de saúde, onde o
médico me receitou o remédio apropriado. Tomei as injeções que ele
prescreveu e fiquei curado.
Memorial do Inferno

Lusa sempre pegava arroz ou feijão no bar, dentre outras coi-


sas, sem pagar, por conta de nossa transa. Mais de dois anos depois,
vim a saber que tinha ficado grávida de mim e abortado o filho, sob o
argumento de que eu não teria condições de criar a criança e ela não
queria assumir o bebê sozinha. Fiquei muito revoltado com este in-
feliz incidente, mas nunca a procurei para falar sobre o assunto.
Teria sido o meu primeiro filho, que poderia estar hoje com vinte
anos de idade.
89

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No bar existiam duas mesas de sinuca. Como eu tinha a chave
da gaveta, ficava o dia inteiro jogando de graça. Abria a gaveta por
baixo e pegava as bolas, sem que o contador girasse e marcasse o nú-
mero de partidas jogadas. Várias e várias vezes eu repetia a mesma
operação, para preencher o tempo vazio, já que quase ninguém com-
prava no bar. O povo era muito pobre, dinheiro não sobrava nem se-
quer para comprar comida.

Valdinéia era uma das putas do Pau Ferro, filha de Dona Zene e
irmã de Yara (a puta mais poderosa da área). Ela freqüentava o bar
onde eu trabalhava e, pelo contato constante, acabamos nos envol-
vendo sexual e sentimentalmente. Várias vezes ela dormia no bar co-
migo, e transávamos cerca de quatro a cinco vezes por dia. Acabamos
tendo um caso e fomos morar juntos, na casa de minha mãe. Nessa
época, eu andava psicologicamente muito abalado por causa da situa-
ção financeira da família. A depressão andava comigo e, diante da fal-
ta de expectativas, passei a atentar contra a própria vida, como no dia
em que tomei um copo inteiro de aguardente Pitu, chegando em casa
transtornado, e quando enchi um frasco de veneno e me dirigi ao pos-
to médico do bairro vizinho. Lá, entrei no sanitário e tentei ingerir o
veneno, mas me faltou coragem para concluir o ato. Deixei o veneno
ali mesmo e voltei para casa. Num terceiro episódio, entretanto, aca-
bei tomando veneno Baygon com cachaça e fui parar no hospital, onde
permaneci internado por vários dias. A depressão e o medo de viver
me sufocavam, fazendo-me planejar fugas mirabolantes do hospital.
Deus estava presente em minha vida, através de amigos e familiares, e
com o tempo o amor de todos eles foi me deixando mais confiante.
Recuperei-me do susto de morrer, recuperei minha auto-estima e fui
vencendo aos poucos minhas paranóias.
JESUS

Néia passou a morar comigo, tornando meus dias menos amar-


DE

gos. Lembro que ela gostava muito de tomar café. Fazia um panelão
VALDECK A LMEIDA

de café e guardava; toda hora esquentava e tomava um gole. Era hor-


rível o gosto de café requentado, mas ela gostava. Néia tinha um pro-
blema no útero que a impedia de engravidar. E tinha também um bafo
de onça: a boca fedia como um esgoto, mas eu fingia não perceber e
nem reclamava. Seus dentes eram demasiadamente grandes, o que
fez com que acabasse se tornando alvo de crítica de meus irmãos, que
90 passaram a chamá-la de “barrão alvoraçado”. Todos gozavam da cara

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dela, dentro de casa, inclusive eu. Pirraçávamos demais com a pobre.
Não sei como ela agüentava tudo aquilo.

i
Ainda no bairro Pau Ferro fomos morar numa casa localizada
no final da rua João Rosa. Era um casebre, na verdade. Não tinha sa-
nitário, somente uma “casinha” ridícula no quintal, que não era mura-
do. Um pedaço de plástico funcionava como porta, e uma tábua com
um furo no meio como vaso sanitário. A fossa embaixo da tábua fedia
terrivelmente e em suas bordas se acumulavam muitos bichos de mos-
ca. Era um lugar insuportável de se morar por causa do incômodo mau
cheiro. Ao lado desse “sanitário”, havia um tanque de água, no chão. O
tanque nunca ficava cheio, era rachado. Enchíamos o tanque pela
manhã, quando caía água, e a rachadura levava toda a água antes do
meio-dia.

i
Minha ex-sogra, Dona Zene, mãe de Néia, conhecia muita gen-
te, pois trabalhava nas feiras livres da cidade e também no Matadouro
Municipal, vendendo comida e mingau. Também já havia trabalhado,
por muitos anos, em frente ao Frigorífico Sudoeste Bahiano S/A (Fri-
suba), vendendo bolo, café, mingau e outras iguarias. Assim, acabou
fazendo amizade com muita gente que trabalhava ali, inclusive com o
médico veterinário Valdelício Fontenelle, chefe do Serviço de Inspe-
ção Federal que funcionava dentro do Frisuba, a quem me apresen-
Memorial do Inferno

tou, pedindo-lhe que me arranjasse um emprego. O médico precisava


de mais um auxiliar e acabou me indicando ao Frisuba, para ser con-
tratado. Foi o meu primeiro emprego de carteira assinada. Era um
emprego muito bom. Minha função, como um dos auxiliares do médi-
co, era examinar as carnes e miúdos dos bovinos abatidos no frigorífi-
co. Nossa equipe tinha destaque e era tratada com certas regalias que
os demais funcionários não tinham: vestuário separado e lavado por
conta do Frisuba, almoço em sala separada com cardápio diferencia-
do, fardamento diferente (com uma cruz verde no ombro esquerdo, 91

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que significava “auxiliar de médico” ou coisa parecida), acesso aos te-
lefones, sala com máquina de escrever, frigobar, telefone e mesas de
escritório. Toda essa regalia gerava uma certa inveja por parte dos
demais funcionários da casa.
Éramos uma espécie de autoridade ali. Tínhamos autorização
para jogar no incinerador todas as carnes ou miúdos bovinos conta-
minados por fezes, ou que apresentassem doenças. Os caminhões de
carne vistoriada só podiam partir após serem lacrados com o selo de
inspeção do SIF (Serviço de Inspeção Federal) e com o laudo atestan-
do que aquele produto era apropriado para o consumo humano. Tí-
nhamos também direito a um meio de transporte diferente do da “peão-
zada”. Mas, como o frigorífico não comprava um veículo apropriado
para o nosso uso, os cinco funcionários da Inspeção Federal invadiam
a cabine do caminhão que levava os peões. O motorista reclamava que
a polícia rodoviária podia multar, mas protestávamos e não saíamos
da cabine.
O frigorífico ficava a uns dez quilômetros do centro da cidade.
Todos os dias pegávamos um ônibus ou o caminhão da empresa às
sete horas da manhã. Lembro-me que, certa vez, perdi tanto o cami-
nhão quanto o ônibus, e acabei indo a pé para o trabalho. No caminho,
o médico veterinário passou dirigindo o Fusca preto, de propriedade
do governo federal, e me deu carona. Chegando atrasado ao trabalho,
o porteiro não permitiu que eu batesse o ponto. Daí, o próprio médico
foi à portaria, pegou e bateu meu cartão de ponto, por sua conta e
risco.
Este foi o primeiro emprego de carteira assinada e o melhor que
havia tido até então. O salário era muito bom; com ele pude comprar
minha primeira televisão, fogão a gás e pagar em dia o aluguel da casa
JESUS

onde morávamos. E, apesar das dificuldades financeiras que enfren-


tava, ainda conseguia fazer uma economia de guerra, e juntar alguma
DE
VALDECK A LMEIDA

grana para o caso de um futuro incerto. Resultado dessa economia e


planejamento: acabei comprando um terreno no Loteamento Itayga-
ra, no bairro Mandacaru.
Ali no Frisuba, tive uma colega de setor chamada Welma. Con-
versava muito com ela sobre minha vida e a situação que enfrentava.
Quando lhe disse que não tinha televisão porque não poderia alugar
92
uma casa equipada com instalações elétricas, ela me sugeriu comprar

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uma TV que pudesse ser alimentada por bateria de carro. Por coinci-
dência, o irmão de Welma tinha uma TV em preto e branco, que funci-
onava tanto com energia elétrica quanto com bateria de carro. Não
titubeei. Comprei a TV. Foi uma verdadeira festa em casa, pois dali em
diante não necessitaríamos mais ficar nas casas dos vizinhos para as-
sistir aos programas, às novelas e aos desenhos animados. O proble-
ma era que varávamos as noites assistindo televisão, e a bateria se
esgotava em poucos dias. Além disso, havia o contratempo de ter que
levar a bateria, na cabeça, até alguma oficina mecânica que nos fizesse
a recarga gratuitamente. E, depois de recarregada, ainda tinha a se-
gunda jornada: voltar para casa com o peso na cabeça, para vararmos
novas noites assistindo à televisão. Nessas noitadas, comíamos todos
os biscoitos e bebíamos todo o café que existissem na casa...

i
Fomos morar num casebre localizado à rua Teixeira de Freitas,
a rua mais pobre e feia do bairro. As casas que ficavam do lado direito
tinham seus quintais virados para o corte que dava na antiga passa-
gem da linha de trem. Nesse corte passavam os esgotos de todas as
casas, que eram jogados ali. Aquilo exalava um cheiro insuportável e
era foco de muitas doenças, além de servir de berço para nascimento e
crescimento de muriçocas. Incomodado com tanta precariedade, re-
solvi fazer uma carta e mandar para a rádio local, que a divulgou num
dos programas de maior audiência. O resultado não foi dos melhores:
toda a rua se revoltou contra mim, a ponto de quererem até me bater.
Achavam que tal iniciativa havia sido intromissão de minha parte e
que eu não tinha o direito de enviar carta a rádio alguma, já que era o
Memorial do Inferno

mais recente morador do bairro. Os moradores comentavam em voz


alta, para que eu ouvisse, que “os incomodados tinham que se mudar
e não ficar reclamando ou divulgando a situação precária do bairro”.
Numa daquelas chuvas torrenciais que costumam cair na cida-
de, a parede da cozinha caiu dentro do corte. Minha mãe, temendo
que a casa inteira viesse abaixo, resolveu sair à procura de outro local
para morarmos. Havia uma casa numa transversal, que pertencia a
um rapaz apelidado de Petisco. Como a casa estava fechada, minha
93
mãe decidiu invadi-la. Fomos todos para a nova casa, muito mais bonita

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do que a outra. Tinha duas janelas que davam para a rua e o chão era
cimentado em cor vermelha. Ao ser avisado da invasão, o dono da casa
chegou trazendo a polícia para nos expulsar. Ficamos na casa dele até
que a chuva passasse. Depois, voltamos para a casa antiga, por ordem
da polícia.
Moramos também numa casa de adobões, localizada na traves-
sa Teixeira de Freitas. A casa não tinha água encanada, nem piso de
cimento. O chão era de barro batido, tinha dois quartos, uma sala e
uma cozinha. O sanitário era uma casinha de adobes, com uma fossa
fedorenta. O quintal era cercado de varas, e todos que passavam pela
rua de trás podiam nos ver através da cerca.
Essa casa era de Dona Maria, mãe de Edilene e de Jonas. Acabei
me apaixonando por Edilene, uma menina negra, magra e alta. Mas a
paixão não passou de simples admiração, pois ela não me deu a menor
bola e terminei por esquecê-la, apesar de Edilene ter me inspirado
algumas poesias.
A essa altura, eu já assumia praticamente todas as despesas da
casa. O salário que recebia já me possibilitava sobreviver com minha
mãe e meus sete irmãos, e ainda dava para pagar o aluguel, a água e a
energia elétrica. Passei a fazer um planejamento de compras para o
mês inteiro.
Comprávamos uma caixa enorme de ovos, com mais ou menos
umas 150 unidades, além de cevada, feijão, arroz e açúcar em grande
quantidade. Depois dividíamos as mercadorias em pequenos pacotes
para consumo diário. Não poderíamos comer mais de cinco ovos por
dia, para que a comida durasse até o final do mês. Trancava tudo den-
tro de um pequeno armário e carregava a chave. Diariamente, eu o abria,
JESUS

pegava a “ração” do dia e entregava-a à minha mãe. Quira arrombava o


DE

armário pela parte de trás e pegava mais comida do que o estipulado para
VALDECK A LMEIDA

a “ração diária”, e eu tinha conhecimento disso. Mas fingia não saber de


nada. O problema era que, em certos meses, a comida acabava antes
do previsto e eu tinha que conseguir dinheiro para comprar mais. A
cevada era usada misturada ao pó de café, para que este durasse mais
tempo. Tinha um gosto muito ruim, mas, apesar de eu também não
gostar, fingia achá-la gostosa, para não ensejar reclamações por parte
94 de meus irmãos. Com o tempo, todos foram se conscientizando que

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era melhor comer pouco mas comer todos os dias do que comer muito
em um único dia e ficar com fome nos dias seguintes.
Nessa época, eu trabalhava no Frisuba e sempre trazia sobras
de comida. A refeição era quase sempre à base de carne na empresa, e,
como eu não conseguia comer tudo, levava o restante para casa. Além
disso, meus colegas de trabalho também separavam parte da refeição
deles e me davam. Tinha também as doações que o gerente de setor
fazia: vez ou outra, ele separava úbere bovino ou fígado e distribuía
entre os funcionários. Era o dia em que eu e minha família comíamos
melhor, pois significava fartura em casa.

i
Tem uma rua no bairro do Pau Ferro, cujo nome oficial é aveni-
da Senhor do Bonfim. Há também nessa rua uma igreja católica de
mesmo nome, dedicada ao santo. Acontece que, a partir da igreja, em
direção ao atual presídio, a rua não era calçada, era cheia de lama e de
esgoto. Este trecho era conhecido como “Rua da Bosta”, por causa do
mau cheiro e dos esgotos que corriam a céu aberto. E, mesmo depois
de a rua passar a ter saneamento básico e calçamento de paralelepípe-
do, continuou a ser chamada pelo nome de “Rua da Bosta”. Ali com-
prei um casebre de dois metros de largura por dois metros e meio de
comprimento, colado ao muro do Parque de Exposições Luiz Braga. A
casa era ridícula: baixinha, apertada, sal minando pelas paredes,
chão arrombado e um quintal minúsculo. Era muito quente, por
causa do sol que ficava no poente. Para minha felicidade, não che-
guei a morar nessa casa. Comprei-a somente a título de investimen-
to, depois revendi.
Memorial do Inferno

Estante com livros velhos

Eu colecionava livros, revistas, jornais e todo tipo de publica-


ções que encontrava nos lixos ou que alguém me doava. Mandei fazer
um carimbo com os dizeres “Biblioteca Particular Valdeck Almeida de
Jesus” para marcar todos os livros que possuía. Eram tantos que abar-
rotavam a imensa estante que tínhamos na sala. Muita gente me pedia 95

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livros emprestados, tanto para leitura como para trabalhos escolares.
Com o tempo, fui doando os livros para a Biblioteca Municipal e para
quem me pedisse. Quando nos mudamos do bairro Pau Ferro para o
bairro Mandacaru, não havia espaço suficiente para guardar todos os
livros na nova casa. Mandei, então, meus irmãos levarem uma boa
quantidade de revistas e livros à Biblioteca Municipal para doação.
Até o ano de 2003, eu acreditava piamente que esses livros ha-
viam sido realmente entregues. Mas, por ocasião de uma viagem que
fiz a São Paulo, em 2004, em conversa com meus irmãos, onde fala-
mos sobre mal-entendidos e pedimos desculpas uns aos outros pelo
que pudéssemos ter feito de errado, fiquei sabendo de tudo. Confessa-
ram que rasgaram e jogaram todos os livros e revistas de cima da pon-
te do Mandacaru. Foi um choque para mim, mas não havia muito o
que fazer. O tempo já havia passado e meus irmãos já eram adultos.
Não fazia sentido brigar por um deslize ocorrido tantos anos atrás. Já
não tinha importância.

Casa própria – o sonho realizado

Ainda morava na casa da travessa Teixeira de Freitas e traba-


lhava no Frisuba. “Néia, dente de barrão” continuava a visitar minha
casa, embora não estivéssemos mais juntos como antes. Certo dia, vi o
anúncio de um loteamento e fui visitá-lo pessoalmente. Era um bairro
novo que começava a se formar à margem direita do rio de Contas: o
loteamento Itaygara, no bairro Mandacaru. O vendedor, Bêu, conven-
ceu-me de que se tratava de um ótimo investimento, que o bairro, em
pouco tempo, seria habitado por muita gente, que teria praças, linhas
de ônibus, telefone, água encanada e luz elétrica. Não fiquei muito
JESUS

animado, por causa do preço e também porque eu tinha medo de ficar


desempregado e perder todo o dinheiro investido no pagamento do
DE

lote.
VALDECK A LMEIDA

O vendedor, muito esperto, pensando apenas na comissão dele,


que equivalia ao valor da primeira prestação, acabou virando o jogo e
me vendendo o lote 12 da quadra 07. Comprei e voltei feliz da vida
para casa. Ele tinha feito um plano de pagamento, de forma que as
prestações fossem reajustadas a cada seis meses, de acordo com o au-
96 mento do salário mínimo, para não comprometer minha renda.

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Mas o acaso me favoreceu ainda mais. Assim que José Sarney
assumiu a Presidência da República, foi criada a “tablita”, tabela que
deflacionava os preços das compras realizadas antes de sua vigência.
E assim acabei pagando várias parcelas do terreno de uma vez só, já
que, a cada mês, o preço diminuía. Foi minha salvação. Esta medida
garantiu-me adquirir a primeira propriedade, o terreno onde eu e meus
irmãos construiríamos nossa primeira casa.
Tentei conseguir ferramentas emprestadas para construir a casa:
picareta, enxada, formão e colher de pedreiro, mas ninguém empres-
tou. Tive que comprar todo o material necessário para as obras de cons-
trução. Todos os dias, eu ia trabalhar no Frisuba e meus irmãos saíam
do Pau Ferro para o Mandacaru para limpar o terreno, carregar água
do rio de Contas e bater adobes de barro. Isto significava uma marato-
na de mais de dez quilômetros, percorridos a pé, sob um sol escaldan-
te de 40 graus ou mais. Era de dar pena, eles mal conseguiam carregar
a picareta por causa do peso. Eu não podia ajudar todos os dias, pois
só chegava do trabalho no final da tarde e, além disso, estudava à noi-
te. Mas, nos finais de semana, eu ia sempre ao terreno ajudar na cons-
trução da casa. Fizemos tudo sozinhos, desde as fundações até a colo-
cação das telhas. Todos os dias eu ou um de meus irmãos cavava a
terra, cessava, buscava água no rio, fazia o barro, pisava o barro, batia
os adobes e os deixava secando ao sol. No dia seguinte, retornávamos
para continuar o trabalho e para recolher e arrumar os adobes pron-
tos. Para nossa surpresa, verificávamos que muitos dos adobes eram
pisados e destruídos por vândalos. Xingávamos muito, esbravejáva-
mos, mas não podíamos fazer nada além de aproveitar o barro dos
adobes destruídos para fazer novos adobes.
O processo de construção da casa foi bastante demorado, pois
Memorial do Inferno

era eu quem comandava tudo e meu tempo era limitado somente aos
finais de semana. Mas, de adobe em adobe, as paredes iam subindo,
subindo... Até que, num belo dia, concluí a obra, após colocar porta (a
única), janela (também única), madeiras e telhas no topo. Imediata-
mente, mudamos-nos para a “nossa” casinha.
Foram longos anos de trabalho até podermos entrar na casa e
sorrirmos felizes por termos, enfim, onde morar. Uma casa própria,
construída com as próprias mãos. Foi uma experiência muito boa, uma
grande sensação de liberdade. Desde a infância, só havia morado em 97

memorial_final_a.pmd 97 26/2/2007, 17:05


casas de aluguel e, finalmente, naquele momento, já com meus 22 ou
23 anos de idade, pude desfrutar da alegria de morar numa casa sem
precisar me submeter às imposições de ninguém. A casinha media três
metros de largura por seis de comprimento. Era bem baixinha e tinha
somente dois cômodos. Posteriormente, dividimos a sala com uma
meia parede e fizemos uma pequena cozinha. Assim, passamos a mo-
rar em nossa casinha, após entregarmos a casa de aluguel. Foi a pri-
meira moradia a ser erguida e habitada no local. Nas águas do rio de
Contas tomávamos nossos banhos. Essas águas também serviam
para lavar as roupas, as louças, e para beber e cozinhar, depois de
devidamente fervidas e filtradas. Morávamos minha mãe, eu, Qui-
ra, Mi, China, Dida, Tó, Gal e Nete. Depois que nasceu Murilo, meu
primeiro sobrinho, filho de Quira com Chico, a casa, que já era pe-
quena, ficou menor ainda. O calor era imenso e não havia ainda
água encanada no bairro.
Com o passar do tempo, fui construindo outra casa maior, no
mesmo terreno. Esta outra casa foi planejada com mais cuidado e ti-
nha dois quartos, duas salas, uma cozinha e um banheiro. Os adobi-
nhos cozidos foram comprados com muito sacrifício. Sempre que pos-
sível, comprava uma carroça de adobinhos de barro queimado, em
cerâmica cozida. Acabei de construir a segunda casa e, quando ela es-
tava já em ponto de telhado, negociei-a com Chico, meu cunhado. Ele
me vendeu a casa onde morava com Quira e seus três filhos: Murilo,
Rodrigo e Delma (ver capítulo “Casa da Rua João Santana”).

Juizado de Menores

Resolvi colocar todos os meus irmãos sob minha guarda e res-


JESUS

ponsabilidade, perante a justiça comum, a fim de cadastrá-los como


meus dependentes no INSS e para que eles pudessem ter acesso a con-
DE

sultas médicas e internamentos. Aproveitei esta deixa para obrigá-los


VALDECK A LMEIDA

a serem mais responsáveis na vida e também nos empregos ou traba-


lhos que encontrassem. Todos eles sempre trabalharam, seja venden-
do picolés, seja em olarias carregando adobinhos, seja limpando quin-
tais ou, ainda, cortando e preparando papéis para cigarro de palha
numa gráfica. Mas, por outro lado, sempre encontravam uma descul-
pa para sair do trabalho. Ora diziam que o patrão falou alto, ora dizi-
98
am que não agüentavam a jornada, pretextos não faltavam.

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Certo dia, chamei-os todos e dei uma ordem: teriam de sair para
procurar trabalho e só poderiam voltar para almoçar caso encontras-
sem algum. Ao meio-dia, chegou o primeiro, Dida, o mais gaiato de
todos, e pediu que minha mãe botasse seu almoço, e ela mandou que
falasse comigo antes. Mas Dida insistiu para que colocasse sua comida,
já que havia encontrado trabalho, juntamente com os demais. Minha mãe
me chamou e eu conversei com Dida, que confirmou já estar trabalhan-
do. Dizia ter muita fome, por causa do esforço, uma vez que o trabalho
era numa oficina mecânica, como aprendiz de chapista (“martelinho”,
como se diz em São Paulo). Comentou também que, como aprendizes, só
iriam receber salário depois de um determinado tempo. Falei então com
minha mãe para servir o almoço de todos os meus irmãos.
Evidentemente, eu não os deixaria com fome, caso não houves-
sem encontrado trabalho. Mas precisava tomar aquela atitude para
fazê-los “acordar” para a vida. Além da ameaça de ficarem sem almo-
ço, havia ainda uma outra. Falei que entregaria todos ao Juizado de
Menores (em Jequié existe uma Escola Profissional de Menores, onde
residem crianças e adolescentes rebeldes e infratores), caso não tra-
balhassem e fugissem da responsabilidade. Graças a Deus, hoje todos
ganham a vida como chapistas, exceto o Mi, que não se adaptou a esse
tipo de trabalho e já trabalha há dez anos como porteiro de um grande
condomínio em São Paulo.

Casamento com Márcia

Quase em frente à nossa casa, morava uma moça chamada Már-


cia, que era casada com Zé Docílio, com quem tinha uma filha chama-
da Bete. Márcia era muito bonita. Fazia um tipo cigana, era alta e do
signo de Leão. Márcia flertava comigo, vivia me chamando para con-
Memorial do Inferno

versar e sair com ela. Saímos por várias vezes e então começamos a
namorar. Depois, passei a dormir em sua casa, quando o marido via-
java. Uma vez, dei uma surra em minha irmã Nete porque pedi a ela
que levasse um recado a Márcia, dizendo que iríamos para a Barra-
gem de Pedras tomar banho. Nete simplesmente andou até o meio da
rua e deu o recado aos gritos. Fiquei muito envergonhado, pois nosso
namoro ainda não era de conhecimento público e era de todo o meu
interesse que continuasse secreto por mais algum tempo. Chamei Nete
99
e dei-lhe uma surra que ela jamais esqueceu.

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Acabei me casando com Márcia. Fizemos uma festinha na casa
de meus sogros, Judite e Acetildes, após a cerimônia de casamento,
realizada no Cartório de Paz de Yolanda Bastos. Várias fotos foram
tiradas, mas como eu não tinha dinheiro para a revelação, nunca saí-
ram do rolo de filme.
Fui morar com ela numa casinha do bairro Agarradinho. O bairro
tinha esse nome porque as casas eram coladas umas às outras. Márcia
ficava a noite inteira assistindo televisão. Ela ficava acordada a noite
inteira para me chamar bem cedo, para poder pegar o ônibus que me
levaria ao trabalho. Comprava quilos de milho para fazer pipoca. Co-
mia pipoca a noite inteira diante da TV.
Na empresa Tiradentes, onde Zé Docílio, ex-marido de Márcia,
trabalhava e onde eu passei a trabalhar como cobrador de ônibus, quan-
do os motoristas souberam da notícia que eu estava casado com a
mulher de Zé Docílio, a resenha comeu. Todos os dias eu tinha que
aturar uma gozação do pessoal. Tinha um motorista, chamado Bastos,
com o qual eu viajava muito fazendo a linha Jaguaquara-Maracás, que
costumava dizer que eu tinha “olho de Sapo Boi” e que nunca deixaria
que eu botasse os olhos em sua mulher, temendo que eu a atraísse
para mim e ficasse com ela pra sempre. Em tom de escárnio, meus
colegas de atividade perguntavam-me se, caso eu fosse escalado para
trabalhar com Zé Docílio, viajaria com ele ou perderia o dia de traba-
lho. E eu dizia serenamente que trabalharia com ele sim. Felizmente
nunca fui escalado para trabalhar junto com ele, e escapei de um cons-
trangimento muito grande.
O casamento se arrastou nas dificuldades que eu enfrentava.
Mesmo casado, ajudava a minha família. Três anos depois, terminei
meu casamento com Márcia. Não sobrou uma lembrança sequer da
JESUS

festa de casamento, até o rolo do filme que não foi revelado ela abriu
e queimou.
DE
VALDECK A LMEIDA

Muitos fatores contribuíram para o fim de nosso relacionamen-


to, mas creio que o mais importante deles tem origem no seguinte fato:
estava eu desempregado e viajei com ela para Salvador, a fim de pro-
curar trabalho. Demos sorte. No mesmo dia em que chegamos à capi-
tal, compramos o jornal e respondemos a um anúncio que procurava
um casal para tomar conta de uma mansão no rio Vermelho. Fomos
100
direto para a Cardeal da Silva, onde ficava a mansão. Era uma casa

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imensa, com um quintal cheio de plantas frutíferas. Morava ali ape-
nas um casal de idosos, cujos filhos estavam em Minas Gerais tentan-
do lançar uma banda musical. O senhor era hipertenso e a senhora
diabética. A alimentação dos dois era toda controlada pela dona da
casa, que fazia questão de preparar a comida. O trabalho de Márcia
seria manter a casa limpa. E eu teria que cuidar da piscina e do quin-
tal. Toda a produção de frutas seria para o nosso consumo. Ficaría-
mos instalados numa casa nos fundos do quintal, toda mobiliada. Eu
ganharia um salário mínimo e Márcia outro. As referências que dei de
ter trabalhado no hotel de César Borges, em Jequié, foram suficientes
para conseguirmos o trabalho. Acertamos tudo e ficamos de voltar no
dia seguinte para trabalhar. Ao sairmos, já no portão da mansão, Már-
cia começou a resmungar que o salário não daria para sobreviver. Eu
fiquei espantado com aquilo. Teríamos casa para morar, mobília com-
pleta e ainda dois salários para as nossas despesas. E ainda podería-
mos continuar morando juntos, vivendo nossa vida de casados. Már-
cia dizia que seu salário seria para comprar brincos, chocolates e coi-
sas de enfeitar, enquanto o meu seria destinado às despesas da casa.
Revoltei-me e discuti feio com ela. Furioso, disse que iria à rodoviária
comprar minha passagem de volta para Jequié e não mais voltaria a
procurá-la. Ela não acreditou. Mas foi exatamente o que fiz: fui direto
ao guichê da empresa de ônibus, comprei minha passagem e fui em-
bora e nunca mais voltei pra ela.

Casa da Rua João Santana

Era uma casa com dois quartos, sala, cozinha e banheiro, além
de uma pequena área de serviço, localizada no Jequiezinho. Paguei
com o terreno do loteamento Itaygara e com a casinha de adobe cru
Memorial do Inferno

que havia construído inicialmente, mais os adobinhos da casa maior,


construída depois, ficando o restante para pagamento em prestações
mensais. A única exigência imposta por Chico foi derrubar a casa gran-
de e separar os adodinhos para ele, o que aceitei prontamente. Em
poucos dias a casa estava derrubada e os adobinhos empilhados.
A nova casa tinha tudo: móveis, lençóis, panelas, pratos, colhe-
res, tudo. Tinha até linha telefônica instalada. Passamos a morar ali
logo e adoramos a nova residência, que nos dava muito conforto. 101

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Quase um ano depois, comprei um casarão na mesma rua e to-
dos se mudaram para a nova casa, exceto eu, que preferi ficar moran-
do sozinho por um tempo. Mas meus irmãos, que tinham a chave da
minha casa, sempre apareciam por lá para tomar banho e deixavam
tudo sujo. Preferiam tomar banho lá porque o chuveiro era elétrico,
luxo que não havia na casa em que moravam. Acabei logo com a festa
deles, por causa da sujeira que faziam em meu banheiro.
Eles trabalhavam como chapistas em oficinas mecânicas e che-
gavam sempre muito sujos de graxa, óleo e poeira de oficina, deixan-
do todo o banheiro encardido. Só que, a despeito do meu protesto,
continuaram a usar o banheiro. Arrombavam a janela e entravam na
casa, sem minha permissão, nos horários em que eu me encontrava
ausente. Isso acabou resultando em algumas brigas. Dida e Tó discu-
tiram feio comigo, e ficamos um ou dois meses sem nos falar, por con-
ta disso. Depois fizemos as pazes, como é próprio dos bons irmãos.

Trabalho na empresa Tiradentes

Minha experiência como cobrador da Auto Viação Tiradentes


foi marcante e merece um capítulo especial. Eu fui contratado para
trabalhar como cobrador urbano. Acontece que, no contrato de traba-
lho firmado com a empresa, não havia cláusula específica que rezasse
que o funcionário admitido como cobrador “urbano” estivesse deso-
brigado de trabalhar como cobrador “intermunicipal”. E isso foi o que
mais atrapalhou minha vida escolar, pois os horários de trabalho nem
sempre eram compatíveis com os horários da escola. Eu estudava à
noite, das 19 às 22 horas, de segunda a sexta-feira. E, para complicar
ainda mais, o chefe do tráfego, que fazia a escala de trabalho, sempre
JESUS

se “esquecia” que eu estudava à noite e me escalava freqüentemente


para trabalhar no horário das 14 às 23 horas. Mas eu conseguia dri-
DE

blar o tempo e as adversidades. Pegava os assuntos das aulas com meus


VALDECK A LMEIDA

colegas e estudava durante o trabalho, sentado na cadeira de cobra-


dor. Estudava escondido, pois, se um cobrador fosse pego pelo fiscal
fazendo esse tipo de coisa, era demitido. Quando era escalado para
trabalhar nas linhas intermunicipais, o problema ficava ainda mai-
or, pois tinha de dormir nas cidades de destino da viagem, sem fa-
lar na questão da hospedagem e alimentação, que não eram pagas
102
pela empresa.

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Eu tinha comprado uma bicicleta para facilitar meu deslocamen-
to para o trabalho e para a escola. Saía pedalando para a garagem nos
dias em que a escala de trabalho me permitia ir à aula após o serviço.
Por várias e várias vezes, quando chovia, chegava à escola todo sujo. A
garagem da empresa ficava no bairro Mandacaru, onde a maioria das
ruas ainda era de chão batido ou de cascalho. Quando chovia, tudo
virava um lamaçal enorme, e o pneu da bicicleta respingava um boca-
do de lama em mim.
Toda vez que eu viajava, levava uma marmita de comida, que
nem sempre chegava em bom estado ao final da viagem. Aí, além de
passar a noite com fome, ainda tinha de dormir dentro do veículo, nas
poltronas do fundo, que eram as menos desconfortáveis. Lembro-me
de várias viagens para Barra da Estiva, em que dormi com fome e frio,
porque a temperatura ali é sempre muito baixa, sobretudo à noite,
devido à sua localização no alto da Chapada Diamantina. Uma vez,
levei uma marmita que azedou durante a viagem. Ao pararmos em
Maracás para fazer um lanche, comi todo o frasco de pimenta e a fari-
nha que estavam sobre a mesa da lanchonete.
Cansei de dormir dentro do veículo nas cidades. Em Salvador,
cheguei até a dormir dentro do bagageiro do ônibus, pois o calor era
insuportável dentro do carro e as muriçocas faziam uma festa. Com o
bagageiro aberto, pelo menos, a temperatura ficava mais agradável.
De madrugada, o segurança da rodoviária me acordou, achando que
eu era algum assaltante ou morador de rua. Tive que me identificar
para que me deixasse em “paz”. Em Manoel Vitorino, passava a noite
morrendo de medo, pois o ônibus estralava demais, e eu acordava so-
bressaltado pensando que era alguém tentando entrar para roubar o
dinheiro da féria. Em Cravolândia, cidade próxima a Santa Inês, che-
guei a pedir comida a um cobrador que morava na cidade e viajava de
Memorial do Inferno

carona voltando para casa. Em Iramaia, morria de frio e fome, ao dor-


mir no veículo. Em Nazaré, havia uma pousada de preço compatível
com meu salário, onde pernoitei algumas vezes. A linha fazia o trajeto
de Jequié a Bom Despacho, mas o ônibus ia somente até Nazaré. Eu
dormia e jantava na pousadinha, juntamente com o motorista. O pro-
blema era que ali os cobradores eram roubados durante a noite. Para
me proteger dos ladrões, uma vez coloquei o dinheiro da féria embai-
xo do travesseiro. A estratégia foi em vão. Pela manhã, percebi que
faltava quase metade do dinheiro, mas nada pude fazer, não havia como 103

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provar o roubo. Daquele dia em diante, resolvi deixar o dinheiro da
féria escondido dentro de uma das poltronas do ônibus. Foi a solução
encontrada para evitar os roubos.
Passei aperto também em Itaquara. O ônibus que rodava para
aquela cidadezinha era o pior carro da frota e demorava o dobro do
tempo para fazer a viagem. Quando chegava à cidade, o veículo era
estacionado numa praça e o motorista ia para sua casa, sem sequer
me convidar para tomar um copo de água. Não restava alternativa se-
não passar a noite inteira dentro do carro, esperando o dia amanhecer
para retornar a Jequié.
Nas viagens a Valença, o ônibus retornava no mesmo dia. Saía
de Jequié às 5 horas da madrugada, chegando a seu destino ao meio-
dia. Ali eu tinha que varrer o interior do veículo, almoçar minha quen-
tinha e esperar pelo horário do retorno, às 13 horas, com chegada em
Jequié prevista para 21 horas aproximadamente. Ao chegar, ainda
perdia um bom tempo prestando contas e, até sair da garagem, já não
compensava mais ir à escola.
Quando eu trabalhava na linha Maracás-Jaguaquara, saía de
Jequié pela manhã, por volta das 5 horas da madrugada, e fazia diver-
sas vezes o percurso entre as duas cidades. Só retornava à garagem no
final da tarde, lá pelas dezoito ou dezoito e trinta horas. Nesses dias,
eu ia direto para a escola tentar pegar algum assunto dos cadernos dos
colegas. Essa viagem era de percurso curto e o cobrador tinha de usar
mais de cinqüenta talões de passagens, cada um de uma cor. Era uma
maluquice da cabeça do dono da empresa, Dalmar, com o objetivo de
se precaver de fraudes por parte dos cobradores. Eu ficava mais
atento às cores do talão que tinha de usar do que a qualquer outra
coisa. Passava o dia inteiro tentando recapitular: agora é o talão
JESUS

azul, percurso de ida; agora é o talão rosa, percurso de volta, e as-


sim por diante.
DE
VALDECK A LMEIDA

Quando trabalhava nas linhas urbanas, no horário da manhã


(das 6 às 14 horas), sempre prestava contas no escritório da empresa,
ao retornarmos à garagem. Mas quando trabalhávamos no horário da
tarde (das 14 às 23 horas), contávamos o dinheiro, preenchíamos um
formulário e colocávamos tudo dentro de um malote, que era fechado
com um cadeado. Jogávamos esse malote num buraco que dava para a
104
tesouraria e levávamos a chave do cadeado para casa. No dia seguinte,

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o cobrador entregava a chave a um funcionário da tesouraria, que abria
o malote, conferia o dinheiro e fazia a prestação de contas do cobra-
dor. Quando o cobrador estava escalado para viajar de madrugada,
tinha que deixar a chave amarrada ao malote. Muitas vezes faltava
dinheiro nesses malotes, e a diferença era debitada na conta de cada
cobrador. Sempre desconfiei que alguém mais possuía cópias dessas
chaves e tirava o dinheiro durante a noite. Mas, como sempre, nunca
podíamos comprovar nada.
Uma vez, um cobrador amigo meu colocou dentro do malote
uma nota de mil cruzados novos, e a nota simplesmente desapareceu.
Fui testemunha de que ele tinha colocado a cédula lá dentro, pois foi a
primeira nota de mil cruzados novos que ele recebeu e nenhum outro
cobrador havia recebido uma dessas antes. Ele havia mostrado a cé-
dula a todos os colegas do turno da noite, na hora da prestação de
contas na garagem. Era uma nota diferente e todo mundo ficou curio-
so pra ver. E eu acompanhei a prestação de contas dele. O sumiço de
dinheiro acontecia também com os cobradores que trabalhavam nas
linhas intermunicipais.
Com os cobradores dos ônibus urbanos, acontecia ainda um
outro fato estranho: toda noite, ao sair do veículo, antes de prestar
contas, cada cobrador anotava a numeração da catraca, que indicava a
quantidade de passageiros do seu turno de trabalho, a fim de calcular
a quantidade de dinheiro apurada. No dia seguinte, quando o confe-
rente fazia a verificação, a numeração das catracas nunca coincidia
com a numeração que o cobrador tinha anotado na noite anterior. Ou
seja, alguém girava a catraca várias vezes, a fim de que o cobrador
pagasse as passagens extras.
Havia uma linha que rodava do Parque de Exposições até a Ro-
Memorial do Inferno

doviária. Mas o final dessa linha não era exatamente na rodoviária, e


sim dois pontos adiante. Alguns passageiros iam para o Parque de
Exposições e tomavam o ônibus em um dos pontos que ficavam antes
do final de linha na Rodoviária. Dalmar, o dono da empresa, queria
que evitássemos pegar passageiros nessas condições, e instruiu-nos a
orientá-los para tomarem o ônibus quando este estivesse retornando.
Uma vez, um determinado passageiro se recusou a descer do ônibus;
pagou a passagem e sentou-se. Dalmar vinha seguindo o ônibus, de
carro, passou à sua frente, obrigou o motorista a parar, entrou e rodou 105

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a catraca, para que eu pagasse a passagem extra do passageiro. O pas-
sageiro protestou, mas Dalmar explicou que o cobrador - eu, no caso -
era quem pagaria a passagem.
As linhas intermunicipais da empresa Tiradentes faziam, em sua
maioria, trajetos para cidades distantes, cujo acesso era por estradas
de chão, que atravessavam o sertão. Por esta razão, era muito comum
um pneu furar. Nessas oportunidades, a melhor opção era fazer o “furo”
na primeira borracharia encontrada naquele deserto. Mas para o dono
da empresa o preço cobrado pelo conserto do pneu furado era sempre
muito caro: cinqüenta centavos. Quando trazíamos as notas fiscais,
ele se recusava a dar o “visto”, para que o valor não fosse ressarcido ao
cobrador. Cheguei a acumular mais de dez notas fiscais. Toda vez que
encontrava Dalmar na garagem da empresa, ele alegava que só pode-
ria tratar daquele tipo de assunto em seu escritório, que ficava no in-
terior da garagem. E quando eu conseguia entrar no escritório, após
horas de espera, Dalmar dizia que só poderia atender dentro da gara-
gem. Eu ficava num bate-e-volta sem fim.
Acabei colocando um fim nessa novela, à minha maneira. Numa
viagem para Valença, num sábado, com o ônibus cheio de vendedores
ambulantes, tive a chance de me vingar. O pneu do carro furou na
cidade de Mutuípe e o motorista parou o carro numa borracharia na
saída da cidade. Eu não paguei para fazer a “força”. E o motorista fa-
lou para os passageiros que o ônibus não seguiria viagem enquanto eu
não pagasse pelo serviço. Contei minha versão para os passageiros,
que me apoiaram e disseram que, se o ônibus não seguisse viagem,
eles iriam quebrar o carro. O motorista ligou para a garagem e de lá
ordenaram que eu pagasse pelo “furo” do pneu. Não paguei. O moto-
rista pagou do próprio bolso.
JESUS

Ao retornar para a garagem, meu nome não constava na escala


de serviço e sim indicado para “comparecer ao escritório” e falar com
DE
VALDECK A LMEIDA

o gerente. Perdi meu dia de trabalho. Informei ao gerente que não


havia pago nem pagaria mais por “furos” de pneus de ônibus, já que o
proprietário da empresa não havia me ressarcido pelas notas fiscais
anteriores.
Voltei ao trabalho e, no dia seguinte, fui interceptado pelo Sr.
Dalmar, no meio da rua, que se referiu a mim como “o cobrador que
106
não paga os ‘furos’ dos pneus”. Falei a ele que não só não havia pago

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como não pagaria nunca mais, até que ele assinasse todas as notas
fiscais que eu acumulara. Ele retrucou, dizendo que era muito caro
uma força de pneu por cinqüenta centavos, etc. e tal. Respondi-lhe
que era impossível escolher onde levar o pneu para conserto, uma vez
que no meio do deserto não dispúnhamos de muitas opções. Ele então
pegou todas as notas e assinou. Daquele dia em diante, voltei a pagar
por todos os outros “furos” de pneus, e ele passou a assinar as notas
sem hesitar.
Parecia haver uma combinação entre certos motoristas e a fis-
calização da empresa para induzir os cobradores a fraudarem os ta-
lões de passagem, de modo que obtivessem vantagens pessoais desti-
nadas a cobrir almoços e diárias de hotel nas cidades onde dormis-
sem. Mas comigo o truque nunca funcionou, sempre recusei essas in-
vestidas. Não era difícil perceber que se tratava de “armação”, pois os
motoristas ditos “durões” e mais fiéis à empresa eram os que davam
as melhores dicas de como roubar. E, para confirmar minhas suspei-
tas, sempre havia fiscais na estrada quando eu viajava com esses mo-
toristas. Era como se fosse um ardil, uma cilada preparada para me
pegar em contradição ou, como se diz popularmente, “com a boca na
botija”. A política da empresa era a de demissão por justa causa, e a
gerência fazia de tudo para que os funcionários acumulassem adver-
tências e suspensões até o limite legal, a fim de chantageá-los com o
pedido de demissão voluntária ou forçada, esquivando-se assim de
pagar os direitos trabalhistas. Jamais algum fiscal conseguiu me pe-
gar cometendo erros, pois sempre fui muito correto em meu trabalho.
Mesmo que a situação me obrigasse a sentir fome e a dormir dentro
dos ônibus, nunca me vali dessas prerrogativas para lesar a empresa.
Testemunhei episódios engraçados como cobrador. Um, parti-
Memorial do Inferno

cularmente, merece ser contado aqui. Uma vez entraram dois passa-
geiros, cada qual com um balaio enorme. Todos os passageiros tinham
direito a um volume no bagageiro do ônibus, sem pagar taxa alguma
por isso. Coloquei esses dois balaios no mesmo bagageiro, para ocu-
par menos espaço. Quando o fiscal viu que os dois balaios estavam
com o tíquete “gratuito”, achou que eu tivesse recebido pagamento
por um dos balaios, que havia colocado aquele tíquete para embolsar
o dinheiro e não vender o tíquete “pago”. Entrou no ônibus e pergun-
tou de quem eram os balaios. Cada um dos respectivos donos levantou
107
a mão. Muito sem graça, o fiscal foi embora. Era comum que os fiscais

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aparecessem várias vezes no mesmo dia, para tentar surpreender o
cobrador. Comigo sempre perderam seu tempo.
João, o controlador de tráfego da empresa, era quem fazia a es-
cala de trabalho. Ele sabia que eu estudava à noite e que não poderia
ficar fazendo viagens intermunicipais. Ainda mais porque a empresa
não fornecia tíquete refeição nem providenciava local para dormidas
nas cidades de destino. Eu era tido como o cobrador mais chato da
empresa, pois me mostrava inconformado com aquela situação desu-
mana, e não guardava este inconformismo somente para mim. Abria o
verbo, falava com os outros cobradores, reclamava com os fiscais, com
o gerente e com o controlador de tráfego, apesar de nunca ter tido um
retorno ou uma solução.
Um belo dia, numa sexta-feira, quando acabava de chegar da
viagem e prestar contas na tesouraria, fui informado que um ônibus
da linha Jequié-São Miguel das Matas, percurso de cerca de 150 km,
estava prestes a sair, com previsão de ficar naquela cidade todo o final
de semana, retornando somente na segunda-feira. O gerente da em-
presa me disse que o cobrador do horário tinha “queimado a escala”.
“Queimar escala” era uma gíria usada para designar a falta do funcio-
nário escalado para um determinado serviço. E, como nesse dia não
havia cobrador de plantão na garagem, a solução óbvia seria: eu viajar
com fome, permanecer todo o final de semana em São Miguel e retor-
nar na segunda-feira. Aproveitei aquela oportunidade para protestar.
Disse a João, o controlador de tráfego, que não iria viajar. Ele amea-
çou me demitir ou me colocar “fora de escala” durante todo o final de
semana, o que significaria perder o salário daqueles dias. Disse-lhe
que fizesse o que achasse melhor, em sua opinião. Ele veio então ten-
tar me convencer a fazer a viagem, dizendo que eu poderia ter almoço
JESUS

e jantar durante o serviço, que autorizaria as notas fiscais e tudo mais.


Mas, desconfiado, recusei, pois em outras oportunidades já havia tra-
DE

zido notas que ele nunca assinou. O máximo que me propus a fazer
VALDECK A LMEIDA

pela empresa foi ir até a rodoviária e sair com o ônibus de lá, para
evitar que o então Departamento Estadual de Transportes e Termi-
nais multasse a empresa por atraso na saída do veículo. Ali, pedi ao
motorista que levasse o carro para a garagem, dizendo que João pro-
videnciaria um outro cobrador para seguir viagem. Na garagem, desci
do ônibus, sentei-me à porta da entrada principal e não mais voltei ao
108
veículo para seguir viagem.

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Estava determinado a dar uma lição na empresa. Minha atitude
deve ter ficado para a história da Auto Viação Tiradentes e para seu
proprietário, Dalmar Antônio de Souza.
Numa das viagens que fiz para Nazaré, conversava com um pas-
sageiro a respeito da forma como a empresa tratava seus funcionári-
os. Ele então me aconselhou a pedir demissão e tentar ganhar a vida
em Rondônia.
Peguei todos os seus endereços, inclusive telefones de contato,
e guardei. Ele estava indo a Nazaré comprar material para candomblé
e fazer consultas com os pais e mães de santo da cidade. Depois dessa
conversa, eu já tinha tudo planejado para viajar para Rondônia; sabia,
inclusive, todo o roteiro que deveria fazer: de Jequié iria até Feira de
Santana para pegar um ônibus até Brasília, de onde pegaria um outro
para Cuiabá, e outro de Cuiabá para Rondônia. Ao chegar lá, tomaria
um táxi na rodoviária e seguiria direto para a casa da pessoa que o
passageiro me indicara, que me apresentaria ao prefeito da cidade e
conseguiria trabalho para mim.
Cansado de suportar o massacre que a empresa promovia con-
tra seus funcionários, resolvi pedir demissão. Dirigi-me ao gerente
geral, Édson, e comuniquei-lhe que não pretendia mais continuar na
empresa. Ele me aconselhou a procurar o dono da empresa, Dalmar,
para resolver a questão. Fiquei quase uma semana indo e voltando da
empresa, todos os dias, tentando uma “audiência” com a “Majestade”,
em vão. Quando vi que não conseguiria falar com ele, decidi abando-
nar o trabalho. Fiquei um mês sem comparecer ao batente. Quando
voltei e reencontrei o gerente, ouvi dele que a empresa não tinha mais
interesse em meus serviços e que iria me despedir, mas que eu teria de
escrever uma carta pedindo demissão. Não titubeei e escrevi a tal
Memorial do Inferno

carta, sem me importar muito com o fato de que perderia parte dos
meus direitos trabalhistas com este procedimento. Entreguei a carta
ao gerente no dia seguinte, e nesse mesmo dia fui demitido. Era a
minha redenção para uma nova vida. Meus planos de ir para Ron-
dônia ainda estavam de pé. Já havia começado a preparar as saco-
las para a viagem.
Antes, porém, de viajar para tão longe, resolvi tentar a sorte em
Salvador. Ao sair da empresa de ônibus, acompanhei meu irmão Val-
109
mir, que estava trabalhando numa serraria em Salvador, junto com

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meu ex-sogro Acetildes, pai de Márcia. Quando cheguei à serraria, lo-
calizada nas proximidades do aeroporto da cidade, percebi que aquele
tipo de trabalho não era para mim. Para minha sorte, no dia em que
comecei a trabalhar, a serraria estava sendo transferida para outro
local, as madeiras e as máquinas estavam sendo levadas de caminhão.
O que vi foi o suficiente para me convencer de que aquele não era,
definitivamente, o tipo de trabalho mais adequado para o meu porte
físico. Tentei ajudar na mudança, pegando algumas madeiras, mas
acabei desistindo, com as mãos sangrando e o corpo suado e trêmulo
de fraqueza. Na hora em que o pessoal pegava as máquinas e as colo-
cava sobre o caminhão, eu fingia que ajudava. Quando senti que não
agüentava mais o serviço, parei, peguei minhas coisas e voltei para o
interior. Mesmo desempregado e com promessa de emprego certo em
Rondônia, fui adiando um pouco a viagem. E, nesse meio tempo, con-
segui trabalho no Hotel Itajubá, onde trabalhei por três meses como
recepcionista. O hotel é de propriedade de Waldomiro Borges, pai de
César Borges, ex-governador da Bahia e atual senador da República.
Não me adaptei muito bem ao horário de trabalho, que ia das 22 às 7
horas da manhã. Quase não conseguia dormir ao chegar em casa, pois,
além de não gostar de dormir durante o dia, o calor era insuportável.
Ligava um ventilador pequeno, mas, mesmo assim, o sono não vinha.
Além disso, meus irmãos e minha mãe conversavam alto o tempo todo,
impedindo que eu relaxasse.
Certa vez, um casal hospedou-se no hotel somente por uma noi-
te. Na opinião do gerente, teria sido uma artimanha para usarem o
estabelecimento como motel. Fui demitido por ter autorizado a entra-
da do casal - como se eu pudesse adivinhar o que as pessoas iriam
fazer dentro de um quarto de hotel. Segundo o gerente, aquele “hós-
pede” já era conhecido no hotel por tal prática, tendo ali se hospeda-
JESUS

do, em outras ocasiões, com a mesma finalidade. Por esse motivo, o


DE

gerente achou por bem me despedir sem justa causa.


VALDECK A LMEIDA

Mais do que nunca o meu projeto de ir para Rondônia conti-


nuou de pé, quando fiquei sabendo de um concurso para o Tribunal
Regional do Trabalho. Freqüentava diariamente a Biblioteca Pública
de Jequié e gostava muito de ler jornais. Lia todas as reportagens e
todas as notas. Preferia pegar o jornal do dia anterior, para evitar a fila
de pessoas querendo ler o jornal do dia e também porque não gostava
110
de lê-lo rapidamente, para poder passar o jornal à próxima pessoa. Já

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quanto aos jornais de um ou dois dias atrás, quase ninguém ligava.
Pois foi num desses que vi a notinha, bem pequena, a respeito do con-
curso, que despertou meu interesse.

Memorial do Inferno

111

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JESUS
DE
VALDECK A LMEIDA

112

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EM BUSCA DE UM LUGAR AO SOL

Fiquei interessado em participar do concurso. Seria o primeiro


de minha vida. Procurei informações por toda a cidade, em todos os
órgãos públicos, mas ninguém sabia dizer nada a respeito. Quando já
faltavam dois dias para o encerramento das inscrições, que tinham
começado no dia 11 e se encerrariam no dia 17 de outubro de 1989,
descobri um último destino e resolvi ir diretamente até a sede da Jus-
tiça do Trabalho.
Fui atendido no balcão por uma moça, que mais tarde viria a se
tornar minha melhor amiga: Teresinha. Ela me mostrou um cartaz na
entrada da Vara do Trabalho, onde constavam informações sobre o
concurso. O cartaz informava haver apenas UMA vaga para a cidade
de Jequié, e que a vaga era para o cargo de Auxiliar Operacional - Ser-
viço de Limpeza. Nem ali consegui uma cópia do edital que havia sido
publicado no Diário Oficial da União. Teresinha me falou que as ins-
crições estavam sendo feitas no Banco Econômico (Banco Bilbao Viz-
caya, atualmente do grupo Bradesco). Fui até lá, onde, por coincidên-
cia, eu tinha uma conta-poupança, na qual estavam depositados cin-
qüenta cruzados novos. Mantinha essa poupança como reserva para o
Memorial do Inferno

caso de qualquer emergência e para a minha viagem a Rondônia, que


estava sendo meticulosamente planejada. No banco, havia apenas um
caixa destinado às inscrições, e lá a atendente me entregou uma cópia
do Edital do Concurso, sublinhando o cargo “Auxiliar Operacional -
Área de Limpeza” no documento e esclarecendo que havia apenas UMA
VAGA para Jequié. Fiquei surpreso e triste, pois investiria quase todo
o meu dinheiro numa aventura da qual não sabia se sairia vitorioso.
Na verdade, a inscrição me custou quarenta e três cruzados novos e
noventa e sete centavos. Mas valia a pena arriscar, pois o salário inici- 113

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al correspondia a 12 BTN - Bônus do Tesouro Nacional, do qual já
perdi a referência, mas que equivalia a vários salários mínimos da épo-
ca. A moça do caixa ficou impaciente com minha indecisão. Sugeriu-
me ler o edital com atenção e, caso me decidisse pela inscrição, que a
chamasse novamente. Li e reli o edital várias vezes e percebi que havia
muitas vagas para Salvador e fiquei tentado, mas resolvi arriscar e me
inscrever para a única vaga oferecida em Jequié. Retirei todo o di-
nheiro da conta de poupança e paguei a inscrição. Dali em diante, co-
mecei a estudar arduamente e a me preparar para as provas, que seri-
am realizadas na cidade de Vitória da Conquista. Não parava nem
para almoçar. Debruçado sobre os livros, eu comia, estudava, es-
crevia, tentando me preparar da melhor forma possível para o grande
dia das provas.
Viagem marcada, eu fui para a rodoviária levando comigo meus
irmãos Dida e Tó, que queriam conhecer a cidade de Vitória da Conquis-
ta. Carregava uma lata de leite Ninho, cheia de farofa de feijão, que seria
a nossa refeição durante a viagem. Ao chegar à rodoviária de Jequié, en-
contrei muita gente conhecida, que também iria fazer a mesma prova.
Fiquei desanimado com a concorrência, mas não desisti. Muitas dessas
pessoas portavam apostilas enormes, que liam e reliam, passando ques-
tionários. Aí, sim, foi que comecei realmente a acreditar que não teria
muita chance. O máximo que havia feito fora estudar por conta própria
em livros velhos, de primeiro e segundo graus, que não tinham muito a
ver com os assuntos daquelas apostilas sofisticadas.
Chegando a Vitória da Conquista, fiquei com meus irmãos na
rodoviária da cidade, pois não tinha como pagar por uma pousada ou
hotel. À noite, o frio era insuportável e não conseguíamos dormir dei-
tados naqueles bancos de cimento da rodoviária.
JESUS

Já bem tarde, um motorista da empresa Gontijo, ao nos ver ali


DE

deitados, perguntou se esperávamos por algum ônibus com destino a


VALDECK A LMEIDA

outra cidade. Respondi negativamente, explicando-lhe que estávamos


ali porque eu deveria me submeter a um concurso público no dia se-
guinte. E ele, generosamente, ofereceu-nos um ônibus para pernoi-
tarmos. Pediu apenas que não ficássemos no veículo até o dia ama-
nhecer, pois, se o fiscal da empresa soubesse que ele, motorista, tinha
permitido que estranhos dormissem no ônibus, acabaria lhe aplican-
114 do uma advertência ou uma suspensão. E assim fizemos.

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Antes do amanhecer eu e meus irmãos saímos do ônibus e fo-
mos até a escola pública onde as provas seriam aplicadas – Escola
Comercial Edvaldo Flores, localizada à Rua Siqueira Campos, s/n°,
Centro. Ao chegarmos lá, preferi me manter afastado da escola, com
vergonha das pessoas que me conheciam. Comemos a farofa de feijão
e jogamos a lata no lixo. Depois que todos os concorrentes entraram,
eu me aproximei e fui direto para a sala de provas. Terminei a prova e
saí antes dos demais, com medo que algum conhecido me visse. Mi-
nha preocupação era que, sendo conhecido como aluno CDF na cida-
de, iria morrer de vergonha se alguém, porventura, viesse a saber que
fiz o concurso e não passei.
Aguardei o resultado, que seria publicado no Diário Oficial do
Estado. Durante várias semanas eu compareci à Vara do Trabalho em
busca de informações sobre o resultado do concurso, mas a resposta
era sempre a mesma: que o Diário Oficial ainda não havia chegado.
Em uma das vezes, aconselharam-me a ligar para a sede do TRT, em
Salvador, a fim de obter a informação desejada. Liguei para o setor de
pessoal do TRT e fui informado que na lista dos aprovados havia DOIS
candidatos de nome Valdeck. Um em primeiro e outro em segundo
lugar, mas não me confirmaram se eu era o primeiro ou o segundo
colocado. Aguardei mais alguns dias e retornei à Vara do Trabalho,
para saber da chegada do Diário Oficial, não obtendo sucesso na mi-
nha empreitada. A ansiedade pelo resultado do concurso não me per-
mitia ficar parado. Assim, ocorreu-me viajar para Salvador, a fim de
obter informações mais detalhadas. E foi exatamente o que fiz.
Não tinha dinheiro para pagar as passagens de ida e volta. Pre-
cisava obtê-lo urgentemente, de alguma forma. Lembro-me que Ed-
naldo, um vendedor ambulante, foi à minha casa numa quarta-feira e
Memorial do Inferno

que viajei na sexta para Salvador, a fim de lutar pela vaga de trabalho.
Nessa época, minha mãe começava a se entrosar com o pessoal da
prefeitura municipal e me prometeu que tentaria conseguir as passa-
gens. Ela foi várias vezes à prefeitura, até que, na última tentativa, na
sexta-feira, conseguiu o que queria.
Andando com ajuda de muletas, ao chegar perto do prédio, viu
a pessoa que ela conhecia já dentro de seu carro, preparando-se para
sair. Fez-lhe um sinal tentando dizer que queria conversar com ela. A
pessoa então voltou, abriu a prefeitura e lhe deu uma carta, na qual 115

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solicitava ao gerente da empresa Auto Viação Camurugipe que forne-
cesse as passagens. Nesse mesmo dia, fui à estação rodoviária, mas o
atendente me disse que aquela carta não tinha valor algum sem a assi-
natura do gerente geral da empresa. Corri até a sede da empresa de
ônibus e implorei ao gerente para dar o “visto” na carta. Finalmente,
com o seu aval, voltei à rodoviária e pude retirar as passagens.
A viagem foi muito tensa. Estava nervoso e preocupado com o
resultado de todo o meu esforço, e não tinha a mínima idéia de como
seria o desfecho. Chegando a Salvador, fui direto ao TRT, no bairro
Nazaré. Conversei com pessoas do Setor de Pessoal, que me aconse-
lharam a aguardar a Diretora Geral, por quem esperei o dia inteiro,
até conseguir falar-lhe. Tudo resolvido no final. Aliviado e contente,
voltei para Jequié com um ofício para me apresentar ao trabalho. To-
mei posse no dia 25 de janeiro de 1990, na Vara do Trabalho de Je-
quié, onde permaneci trabalhando por aproximadamente três anos.
Essa data, que já era muito especial para mim, por causa do aniversá-
rio de minha mãe, se tornou ainda mais importante, por ser o dia em
que tomei posse no trabalho.
Como fiz o concurso para um cargo no Serviço de Limpeza, mi-
nha rotina ali era limpar o chão, servir café e suco, lavar os copos e
pratos, encerar o piso de taco, varrer as imediações do prédio, jogar o
lixo nos tonéis, limpar as mesas sujas com tinta azul de carimbos, var-
rer as cascas de amendoins torrados que o povo jogava no piso de
mármore branco, limpar e podar as plantas na frente do prédio, lim-
par as folhas que caíam das árvores no quintal, limpar o sanitário pú-
blico, limpar o sanitário dos funcionários e o do juiz, limpar a placa de
bronze com o brasão da República com palha de aço e outras tarefas
afins.
JESUS

Como o prédio era pequeno, eu conseguia fazer todo o serviço


até meio-dia. No tempo que sobrava, ia ajudar o pessoal da secretaria
DE
VALDECK A LMEIDA

nos serviços de escritório, como colar AR (aviso de recebimento do


correio), arquivar e protocolar processos, juntar e protocolar petições,
preparar despachos, fazer notificações, emitir as listas de correspon-
dências para envio ao correio, comprar vales-transporte para os fun-
cionários, fazer cargas de processos, emitir certidões negativas ou po-
sitivas, datilografar ofícios diversos, fazer autuação de processos, ex-
116 pedir cartas precatórias e outras atividades correlatas.

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Nessa época, também substituía os funcionários que saíam de
férias, de licença médica, licença-maternidade ou impedidos de tra-
balhar por qualquer outro motivo. Fui Oficial de Justiça ad-hoc por
um mês, substituí o diretor, secretário de audiências e todos os de-
mais funcionários, em várias oportunidades. Só não substituí o juiz.
O Tribunal começou a informatizar todas as unidades da capital
e do interior. Para Jequié foi enviado um terminal remoto de compu-
tador, que se resumia a um monitor de tela verde, interligado ao com-
putador central, localizado em Salvador, através de uma linha telefô-
nica. Depois da instalação, uma equipe de técnicos foi até a cidade
para ensinar os usuários a utilizá-lo. Por ironia do destino, o terminal
quebrou no primeiro dia. No segundo dia, faltou energia elétrica. So-
mente no terceiro dia, um domingo, os técnicos conseguiram passar
as instruções. Passei o domingo inteiro com a equipe da Secretaria de
Planejamento e Informática; anotei tudo o que ouvia, perguntei o que
foi possível e tirei centenas de dúvidas. Tornei-me um expert no as-
sunto e fiquei incumbido de repassar as informações para os demais
funcionários.
Eu já trabalhava ali há alguns meses quando chegou uma funci-
onária transferida de Brasília: Mônica Barroso. Era casada com um
holandês de nome Peter, que não era naturalizado brasileiro e traba-
lhava como engenheiro na fazenda Serra da Pipoca, do grupo Paes
Mendonça. Mônica tornou-se uma grande amiga, sempre conversá-
vamos muito. Visitava-a com freqüência e, quando ela viajava para o
Rio, sua cidade natal, deixava sua casa sob minha responsabilidade.
Nesses dias em que eu me instalava na casa de Mônica, recebia visitas
de meus irmãos, que acabavam ficando por lá. A casa era muito con-
fortável. Mônica deixava sempre muita comida e bebida na gela-
Memorial do Inferno

deira e dizia que eu poderia consumir tudo durante sua ausência.


Meus irmãos faziam uma festa. Lembro-me de uma vez em que eles
comeram tanto milho verde em conserva que ficaram doentes por
mais de uma semana.
Mônica tinha um notebook, no qual digitava muitas sentenças
dos juízes substitutos que passavam pela Vara. Ela me ensinou a utili-
zar o computador pessoal dela; foi minha primeira oportunidade de
acesso a um computador de verdade.
117

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Em uma das inúmeras viagens que Mônica fez ao Rio de Janei-
ro, ousei pegar seu carro emprestado, sem ao menos saber dirigir. Tive
muita sorte de não ter me envolvido em nenhum acidente. Fui da casa
dela até a minha com o carro. Convidei a família inteira para dar um
passeio pela cidade. No final da aventura, penei para recolocar o carro
na garagem, cujo acesso era bastante complicado. Quando Mônica
voltou de viagem, descobriu que eu tinha saído com o veículo; eu ti-
nha mudado a posição do banco do motorista e ela percebeu. Pedi
desculpas e ela disse que não se importava. Mas, desse dia em di-
ante, passou a não mais deixar as chaves do carro acessíveis duran-
te suas viagens.
O trabalho era muito bom, a equipe de funcionários era maravi-
lhosa, mas eu queria mudar para outra cidade, tentar fazer um curso
universitário e também mudar de função. Consegui remoção para Ilhé-
us, mas na última hora desisti, após receber um telefonema do serviço
de pessoal informando-me que a transferência implicava que eu con-
tinuasse a executar os serviços de limpeza, por determinação do Pre-
sidente José Joaquim. Já havia me acostumado ao tipo de serviço que
vinha prestando na Vara e não queria mais voltar a fazer limpeza. Por
esta razão, desisti da remoção para Ilhéus. Além do mais, notei que os
funcionários que tinham prestado concurso para outras áreas esta-
vam sendo nomeados para a secretaria, o que eu achava um absurdo.
Por intermédio de uma diretora que foi trabalhar na Vara de
Jequié, Alice Lopes, consegui uma função gratificada de Secretário de
Audiências na recém-instalada Vara do Trabalho de Brumado, em
1993. Mas, antes de aceitar a nova função, fiz uma visita ao local e
acabei desistindo de morar lá. A cidade era muito pequena e não ofe-
recia muitas perspectivas para que eu pudesse estudar ou crescer ali.
JESUS

Mais uma vez, continuei mesmo em Jequié, onde prestei vestibular


para Enfermagem, na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, e
DE

comecei a cursar.
VALDECK A LMEIDA

Adorava o curso de Enfermagem, bem como os colegas, os pro-


fessores, tudo. Apesar de ter de manipular ossos e cadáveres humanos
de vez em quando e de o curso envolver uma boa base em Química,
conseguia acompanhar bem o ritmo das aulas. Tudo ia muito bem, até
que um dia comecei a sentir fortes dores na barriga, que culminaram
118 numa cirurgia e na conseqüente interrupção do curso.

memorial_final_a.pmd 118 26/2/2007, 17:05


Passei dois dias sentindo muitas dores na barriga. Suava barba-
ramente e não parava de ir ao sanitário. Minha mãe preparava-me
uma infinidade de chás, que de nada, ou quase nada, adiantavam. Achei
por bem então tentar conseguir uma ficha para atendimento médico.
Após dormir a noite inteira na calçada do posto médico do INSS, o
clínico me atendeu e solicitou exames de sangue e raios-X com con-
traste, para verificar a causa do caroço enorme que ele detectara no
meu intestino. Mais de seis meses levei tentando realizar o exame de
raios-X. Sempre que chegava o dia agendado, o exame tinha de ser
remarcado porque o radiologista não tinha ido trabalhar, ou a máqui-
na de raios-X estava quebrada, ou faltava o material de contraste.
Para aliviar as dores e por uma questão de precaução, além do
medo de morrer, não parei de tomar antibiótico por conta própria,
enquanto aguardava uma solução. Finalmente, após longos seis me-
ses de espera, consegui fazer o exame. Mas ainda teria de esperar mais
uns dois meses pelo resultado com o laudo do radiologista. Tão logo
me vi com o material nas mãos, levei-o a um outro médico clínico, que
me aconselhou a procurar uma cidade de grande porte, como São Paulo
ou Rio de Janeiro, a fim de me submeter a uma cirurgia para extrair
um provável tumor cancerígeno do intestino, segundo sua opinião.
Fiquei apavorado e com medo de morrer. Acabei fazendo a cirurgia
em Jequié mesmo, na Clínica Santa Helena, tendo por equipe de
cirurgiões a Dra. Josefina e o Dr. Diniz, seu esposo. Antes de me
internar, porém, resolvi passar um final de semana em Ilhéus, a
fim de espairecer e tomar mais coragem para encarar uma cirurgia
daquele porte.
Tranquei o curso de enfermagem, do qual acabei desistindo após
a cirurgia, por não me achar em condições de acompanhar o ritmo da
Memorial do Inferno

turma. O material retirado na cirurgia (cerca de trinta centímetros de


intestino delgado, intestino grosso e cólon) foi enviado para biópsia
ao Hospital Santa Izabel, em Salvador. Alguns meses depois, recebi
o resultado do exame confirmando que se tratava apenas de uma
apendicite aguda em regressão. A médica disse que eu tinha acer-
tado sozinho numa loteria de milhões, já que a suspeita de câncer
não tinha se confirmado.
Nessa oportunidade, recebi apenas a visita de um único amigo.
Todos os outros que saíam comigo para farras e cervejadas desapa- 119

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receram. Cada um achava um motivo nobre para não ter podido visi-
tar um amigo doente. Um verso me vem à mente, diante deste fato:

Donec eris felix, multos numerabis amicos.


Enquanto fores feliz, terás muitos amigos.

É um verso de Ovídio, em que o poeta lamenta a perda dos ami-


gos, após ter caído na desgraça de Augusto (Tristia, 1, 1-39).

Recuperado da cirurgia, prestei novo vestibular, desta vez


para Letras. Adorei o curso e cheguei a concluir um semestre. Du-
rante o período, fomos a Ouro Preto para estudar o Barroco Minei-
ro. A viagem foi muito divertida, dentro de um microônibus lotado
de estudantes.
Tiramos muitas fotos, brincamos bastante, enfim, foi um pas-
seio maravilhoso. Eu não tinha máquina fotográfica e pedi uma em-
prestada a um amigo. Com medo de errar, na hora de colocar o filme,
pedi ao funcionário da loja que o fizesse para mim. Tirei fotos durante
toda a viagem, mas, para minha decepção, ao levá-las para revelar,
descobri que todo o filme havia sido inutilizado, em virtude de ter sido
colocado incorretamente na máquina. Mas ainda pude guardar como
lembrança dessa viagem as fotos que tirei com as máquinas dos amigos.
Outra viagem interessante que fiz foi para curtir o carnaval de
Aracaju. Viajei de ônibus com passagem de ida gratuita conseguida
por uma amiga. No retorno, tive que pagar, mas não pude voltar na
data que planejara. Deveria voltar no último dia do carnaval, para po-
JESUS

der trabalhar na manhã do dia seguinte. Não consegui passagem e tive


que antecipar meu retorno em um dia. Meu plano era pegar o ônibus
DE

das 20 horas, no último dia de carnaval. Impossível. E só consegui


VALDECK A LMEIDA

comprar para o dia anterior porque um dos passageiros havia desisti-


do de viajar. Mas acabei chegando em casa a tempo de descansar.
Ao chegar em casa, encontrei minha moto com problemas. Meus
irmãos, Dida e Tó, tinham saído com ela e queimado as velas. Discuti
com os dois até que conseguissem arranjar velas novas para substituir
120 as defeituosas.

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Com a moto já funcionando, fui à casa da patroa de China, a fim
de devolver a mochila que eu tinha tomado emprestado. Levei Nete
comigo. A patroa de China insistiu para que eu jantasse lá, mas educa-
damente recusei. Voltei para casa com pressa, a fim de assistir ao Jor-
nal Nacional, às 20 horas. Foi justamente nesse horário que acabei
batendo de frente com uma mobilete. Quebrei o pé e o outro piloto que-
brou a boca e o nariz. Nete ficou desmaiada no meio do asfalto e só acor-
dou no hospital, sem saber o que tinha acontecido. Arrisco-me a uma
conclusão: o horário que planejara voltar de Aracaju era justamente o
horário em que, por alguma obra do acaso, eu deveria estar em Jequié,
para sofrer aquele acidente. Mistérios que não se explicam.
Gastei muito dinheiro para consertar a moto acidentada e dei como
entrada na compra de um modelo mais novo. Numa noite fria e tranqüi-
la, resolvi sair de moto para dar umas voltas pela cidade. Acabei desistin-
do e voltei para casa, pois o frio estava insuportável. No retorno, Walter
Sampaio Filho, filho do prefeito da cidade, me atropelou. O saldo foi: uma
fratura em várias partes da patela, o nariz e um dedo do pé direito que-
brados. Walter nem sequer me prestou socorro, e ainda tentou impedir
que os motoristas que paravam para ver o acidente me levassem para o
hospital. Não bastando, depois de eu já estar no pronto-socorro aguar-
dando atendimento, ainda entrou para me dizer que eu estava errado e
que não iria me ajudar em nada na cirurgia.
Passei a noite inteira deitado numa maca de alumínio, com frio,
esperando pelo médico ortopedista, que chegaria somente pela ma-
nhã. Minha mãe, assim que foi avisada do acidente, correu para o hos-
pital. Com pena de mim, acabou voltando em casa mais tarde para
pegar um cobertor, com o qual cobri parte da maca e me embrulhei
todo, para agüentar o frio da madrugada.
Memorial do Inferno

Fui submetido a uma cirurgia dois dias depois, não no hospital


geral, mas na Clínica São Vicente. A cirurgia foi um sucesso, e eu con-
segui recuperar 100% dos movimentos da perna.
Passei mais de seis meses fazendo fisioterapia. Era praticamen-
te uma via crucis todos os dias. Um colega de trabalho, chamado Pa-
raíso, que possuía um fusca velho, muito me ajudou nesse calvário. Ia
todos os dias me buscar em casa, carregava-me no colo, colocava-me
dentro do seu carro, levava-me à clínica de fisioterapia, carregava-me
121
do carro para a clínica, ia embora e voltava no horário combinado para

memorial_final_a.pmd 121 26/2/2007, 17:05


me levar de volta. Tão logo me senti melhor, e já podendo caminhar,
resolvi fazer natação na piscina do Jequié Tênis Clube. Rita, minha
colega de trabalho, foi quem conseguiu meu acesso ao clube.
Sem ânimo para continuar estudando e pela dificuldade das cir-
cunstâncias, acabei trancando o curso de Letras, do qual fui jubilado
após minha transferência definitiva para Salvador.
Já estava recuperado do trauma na perna direita, resultado do
acidente, quando minha transferência para Salvador foi aprovada. Na
época, eu tinha participado de um curso intensivo para secretários de
audiência e fui aprovado em primeiro lugar. Fiquei muito feliz, pois,
caso eu conseguisse uma função gratificada de secretário de audiên-
cia, em uma das Varas da capital, poderia manter meus gastos em uma
nova cidade, onde as despesas seriam bem maiores. Mas, infelizmen-
te, não consegui a vaga. Todos os demais participantes do curso foram
chamados, exceto eu.
Tinha ciência de que seria muito difícil me estabelecer em Sal-
vador, e que tal mudança demandaria certo tempo de adaptação. Co-
mecei a me desfazer de todo o meu patrimônio: vendi duas casas, uma
moto e uma linha telefônica. Coloquei o dinheiro na poupança, na ten-
tativa de fazer uma economia para o novo investimento de minha vida,
que seria um apartamento ou casa na capital. Para não deixar minha
família desamparada, comprei uma casa no bairro Agarradinho, em
Jequié, e acomodei minha mãe e meus irmãos neste imóvel. A casa
que comprei já tinha sido minha, onde morei com Márcia quando me
casei. Na separação, deixei a casa para ela, que me revendeu. Toda a
minha família ficou nessa casinha pequena no bairro do Agarradinho.
Minha mãe não tinha ficado muito satisfeita com a casa do bair-
JESUS

ro Agarradinho (Urbis IV), que levou esse nome por alusão a um bi-
chinho de pelúcia que se agarrava às pessoas, cujo nome era “Agarra-
DE
VALDECK A LMEIDA

dinho”. Paula sempre reclamava que a casa era pequena, que não ca-
bia todos os móveis e que daria um jeito de sair dali. E deu.
Foi à Caixa Econômica Federal e se inscreveu para comprar uma
casinha, do mesmo tamanho daquela, no bairro Brasil Novo, que esta-
va sendo criado no outro lado da cidade, próximo ao bairro Inocoop.
Quando eu soube da história, ela já estava morando na nova residên-
122 cia, com metade da família.

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Valmir resolveu ficar morando no Agarradinho com a futura
esposa, Célia. Nesse período, ele trabalhava como cobrador na mesma
empresa de ônibus em que eu trabalhara antes, a Auto Viação Tira-
dentes. Depois de sua demissão da empresa, passou a freqüentar a
casa de minha mãe, juntamente com a mulher e o filho recém-nasci-
do, Ramon. Com o tempo, acabou fechando a casa onde morava e se
mudou de vez para a casa da mamãe. Valmir sempre foi muito es-
quentado e muito preocupado com sua família. Não agüentava ver o
filho passando fome quando não podia comprar o leite e os ingredien-
tes para a comida do bebê. Resolveu então viajar para São Paulo, onde
já moravam algumas de suas cunhadas, que prometeram dar suporte
a ele e à sua família, enquanto não conseguisse trabalho.

Valmir viajou para São Paulo com Célia, sua esposa, e o filho
Ramon, ainda de braço, com seis meses de idade. Partiram no dia 25
de agosto de 1995, e desde então não voltaram mais à Bahia, à exceção
da vinda de Valmir para o funeral de minha mãe, em junho de 2000.
Ele conta que o sofrimento foi grande até conseguir se estabelecer numa
cidade violenta e competitiva como Sampa. A prova de fogo começara
já na viagem de ônibus, pois levara consigo tudo o que pôde. Chegan-
do a Sampa, foi morar na casa das cunhadas, que sempre ofereceram
todo o apoio que a família necessitava. Mas esse apoio estava muito
longe de ser o suficiente. Afinal, as cunhadas trabalhavam como em-
pregadas domésticas e não ganhavam bons salários.

Segundo Valmir, nem colchão pra dormir ele pôde comprar. As


cunhadas, penalizadas, mas sem poder ajudar muito, conseguiram um
colchão de casal, doado por uma senhora que pesava duzentos e cin-
qüenta quilos, após tê-lo substituído por um novo. Esta gordinha não
conseguia levantar da cama por causa do seu peso, nela permanecia
Memorial do Inferno

deitada a maior parte de sua vida. Por esta razão, o suor de seu corpo
havia impregnado todo o colchão ao longo dos anos. Quando Mi rece-
beu o presente, ficou muito alegre porque não mais precisaria dormir
em papelões no meio da sala. Mas, ao mesmo tempo, ficou enojado do
aspecto e do cheiro do colchão. Mesmo assim, agradeceu a Deus pelo
presente. Todos os dias pela manhã ele tinha que tirar a roupa com a
qual havia dormido e colocá-la para lavar, pois o colchão, além de
emanar um cheiro extremamente desagradável, liberava uma “tinta”
escura e gordurosa que grudava na roupa dele, da esposa e do filho. 123

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Valmir conta que chegou a levantar muitas vezes no meio da noite
para vomitar, devido ao cheiro repugnante, mas logo voltava a se dei-
tar ali, pois era o único lugar quente e aconchegante que tinha para
passar a noite.
Conta também que várias vezes teve de andar mais de vinte qui-
lômetros a pé, procurando emprego, porque não queria usar o vale-
transporte que as cunhadas lhe davam, com medo de não achar traba-
lho naquele dia e ter de retornar no dia seguinte, refazendo o mesmo
percurso. E isso não era raro de acontecer. Foram vários e vários me-
ses de caminhada em busca de uma colocação, onde pudesse ganhar o
suficiente para o sustento do filho e da esposa.
Quando já estava prestes a desistir, encontrou uma pessoa que
lhe aconselhou a “esquentar” a carteira de trabalho, a fim de poder
comprovar experiência como trabalhador de portaria e jardinagem. A
pessoa alegava que somente desta maneira poderia aumentar suas
chances de encontrar uma empresa que lhe fichasse. E assim ele fez.
Conseguiu trabalho na mesma semana. No início, os turnos de traba-
lho eram sempre à noite ou de madrugada, o que lhe impedia de ver o
filho acordado, pois o pouco tempo que sobrava era gasto no trânsito,
de casa para o trabalho e vice-versa.
Com o passar dos anos, foi conseguindo modificar sua rotina.
Atualmente, trabalha num grande condomínio, como porteiro, no ho-
rário de 8 às 14 horas, o que lhe permite chegar em casa antes das seis
da tarde, quando Ramon e a caçula Amanda, que nasceu em São Pau-
lo, podem desfrutar da presença do pai. A garota é especial, nasceu
com a Síndrome de Tourette, uma doença raríssima que impede o de-
senvolvimento da fala, das funções motoras e de outras funções. Val-
mir tem o maior carinho pelos dois filhos, especialmente por essa fi-
JESUS

lhinha caçula.
DE
VALDECK A LMEIDA

Eu me mudei para Salvador dois anos antes de Valmir viajar


para São Paulo, mas acompanhei boa parte de sua luta em Jequié,
pois eu viajava sempre para visitar minha família.
Quando viajei para Salvador, já tinha sido indicado por Graça
para trabalhar no Setor de Distribuição, com Dina. Fiquei ali um bom
tempo, adorei o setor e as pessoas, mas o serviço era muito estressan-
124 te. Pedi para sair do setor e fui para a 3ª Vara de Salvador. Os funcio-

memorial_final_a.pmd 124 26/2/2007, 17:05


nários costumavam se referir ao prédio onde funcionavam as Va-
ras como “Senzala” e ao prédio do TRT como “Casa-Grande”, em
alusão ao livro de Gilberto Freire, Casa-Grande e Senzala. Todo
mundo queria ir trabalhar na Casa-Grande. Mais tarde descobri o
motivo dessa comparação.
Inicialmente não comprei apartamento. Graça, uma colega de
trabalho, havia me apresentado um amigo que morava no Edifício
Crescenciano dos Santos, em Salvador. Procurei-o, acreditando que
ele aceitaria a proposta de “dividir” o apartamento comigo, mas de-
cepcionei-me diante de sua recusa. Resolvi então ficar um mês de féri-
as em Salvador, em fevereiro de 1993, dividindo as despesas em um
apartamento em Ondina, onde morava Jaqueline, filha de Edlene,
então Diretora da Vara de Jequié, até encontrar um apartamento para
alugar ou comprar. Acabei encontrando um à venda no Edifício Cres-
cenciano - o “Balança, mas não cai”, alusão a um programa de TV da
época. Comprei o imóvel por intermédio de um corretor. Ao receber as
chaves e entrar em meu apartamento próprio, pulei várias vezes, gritei e
chorei de alegria. E a segunda vez em que chorei de alegria foi quando
pude repassá-lo ao proprietário oficial, mesmo tendo perdido metade da
grana que, com muito esforço, juntei ao longo de vários anos.
Foi o maior mico que paguei. O apartamento era financiado pelo
Banco Nacional de Habitação, em nome de um determinado titular.
Mas quem me vendeu foi uma terceira pessoa, com o aval do real pro-
prietário. Já morando nesse apartamento, eu peregrinei por mais de
dois meses por toda a cidade, coletando documentos, certidões e ou-
tros papéis, a fim de formalizar a transferência do contrato para meu
nome. Dia e hora combinados, fui ao banco com o proprietário do apar-
tamento, acreditando que tudo seria formalizado em questão de ho-
Memorial do Inferno

ras. O banco informou que o processo de transferência seria longo e


que poderia ou não ser aceito pelo agente financiador. Inexperiente e
acreditando na boa-fé do vendedor e do corretor do imóvel, resolvi
apostar todas as minhas fichas nesse arriscado investimento.
Paguei uma fortuna ao corretor e ao dono do imóvel. Três me-
ses depois de ter entregue uma verdadeira pilha de documentos e cer-
tidões ao setor de financiamento, recebi do banco a informação de que
a transferência não poderia ser realizada, pois o proprietário do imó-
vel tinha outro apartamento financiado pelo BNH, o que impediria a 125

memorial_final_a.pmd 125 26/2/2007, 17:05


transação. Fiquei desesperado e coloquei um anúncio no jornal, com a
intenção de “revender” o apartamento. O dono original do imóvel leu
o anúncio e me procurou para chantagear, obrigando-me a devolver-
lhe o apartamento pela metade do preço que eu havia pago. Não tinha
outra saída. Era receber cinqüenta por cento do investimento ou per-
der tudo, já que ele ameaçara entregar o financiamento ao banco, caso
eu não aceitasse devolver o apartamento pela metade do preço que
havia pago.
Comprei, então, outro apartamento, no mesmo edifício, desta
vez sem intermediários, mas com uma dívida de IPTU e condomínio
de mais de dez anos. Até o presente momento, não transferi o aparta-
mento para meu nome, apesar de já ter quitado a dívida com o banco
financiador. O apartamento encontra-se fechado até hoje, por falta de
comprador. Não há quem queira morar ali, devido aos vários proble-
mas que o prédio enfrenta.
O “Balança mas não cai” já foi manchete de programas de tele-
visão e de jornais da cidade. Os moradores alegam que o prédio treme
o tempo todo. Dizem os mais antigos que uma equipe de engenheiros
já examinou o fenômeno e atribuiu-o ao movimento constante de veí-
culos pesados que passam em frente ao prédio, apesar de afirmarem
não haver risco de desabamento. Quanto a isso, não posso garantir
nada, mas posso afirmar categoricamente que o prédio é uma verda-
deira favela vertical. O edifício tem uma dívida astronômica com a
companhia de água e esgoto, que cortou o abastecimento. O sistema
será restabelecido somente após a quitação da dívida, que está fi-
nanciada em dez anos. Caminhões-pipa abastecem o prédio em in-
tervalos regulares de tempo e a água é fornecida aos apartamentos
através de uma mangueira, em dias e horários predeterminados.
JESUS

Dos três elevadores, apenas dois ainda funcionam precariamente.


O terceiro foi seqüestrado pela justiça para pagamento de dívidas
DE

trabalhistas. E as escadarias estão em completo estado de destrui-


VALDECK A LMEIDA

ção, entre outros problemas.

i
Eu não pude comprar novos móveis, botijão de gás, colchão e
126 armário e acabei pedindo que minha mãe trouxesse para Salvador parte

memorial_final_a.pmd 126 26/2/2007, 17:05


da mobília que eu tinha deixado em Jequié. Ela veio de ônibus com a
mobília. Quando fui me encontrar com ela na rodoviária, levei dois
amigos para ajudar a carregar as coisas. Mas fiquei com tanta vergo-
nha de ver toda aquela tralha sendo colocada no ônibus que tive uma
crise de riso e fugi, deixando meus amigos, minha mãe e uma irmã
para pagarem o mico de carregar tudo no ônibus coletivo, que pega-
ram da rodoviária para o bairro Sete Portas, onde eu morava.

Passei a maior parte do tempo morando sozinho em Salvador.


Porém, não era raro ter sempre alguém da família por perto. Vários
irmãos chegaram a viver comigo e depois voltaram para o interior.
Nete foi quem passou mais tempo. Ficou em minha casa até passar em
primeiro lugar num concurso público para Auxiliar de Enfermagem
em Porto Seguro, onde morou por quase um ano. Desistiu de continu-
ar morando lá por causa do salário, que era muito baixo e ainda por
cima atrasava meses para ser pago. Nete resolveu então que seria me-
lhor voltar para Jequié e fazer um curso universitário antes de sair da
cidade para enfrentar a vida.

Sempre quis morar bem próximo ao local de trabalho, já que a


cidade de Salvador não tem um sistema de transporte público eficien-
te, fato que eu já havia comprovado. Experimentei, várias vezes, sair
de Ondina, antes de me transferir definitivamente para o bairro Sete
Portas, de ônibus para chegar ao bairro Nazaré. O atraso era constan-
te, o veículo vinha lotado e muitas vezes não parava no ponto para
pegar passageiros. Este problema me desestimulou de morar distante
do trabalho. Do edifício Crescenciano, onde eu morava, para o TRT,
gastava dois ou três minutos subindo uma ladeira interminável, com
minha marmita, cujo conteúdo era sempre o mesmo: feijão, arroz, um
pedaço de abóbora cozida e um pedaço de carne. Havia um espaço
Memorial do Inferno

chamado Centro de Convivência, onde os funcionários se encontra-


vam para assistir televisão, bater papo e almoçar. Todos os dias estava
eu ali com meu marmitão. Morria de vergonha dos outros colegas,
que levavam uma comida diferente a cada dia e sempre pediam que
eu abrisse a minha quentinha para trocar com eles um pedaço de
carne ou de outra coisa qualquer. Como eu sempre levava a mesma
coisa diariamente, alguns colegas nem queriam ver minha marmi-
ta, enquanto outros, já adivinhando o que nela continha, faziam
brincadeiras e gozações. 127

memorial_final_a.pmd 127 26/2/2007, 17:05


Afogamento em Itapoã

Quase morri afogado em Itapoã. Fazia apenas dois meses que


eu havia chegado a Salvador. Em abril de 1993, reencontrei um gran-
de amigo do interior, chamado Greyko, e saímos para tomar umas
cervejas na praia de Itapoã. Tomamos duas cervejas e comemos dois
caranguejos - o primeiro caranguejo de minha vida. Quando caminhá-
vamos em direção ao ponto de ônibus, vimos uma galera andando de
caiaque e paramos para olhar.
Meu amigo cismou de dar umas voltas de caiaque e me chamou
para acompanhá-lo, o que recusei de pronto. Mas ele insistiu e acabei
seduzido pela aventura de andar de caiaque no mar. Já tinha andado
de caiaque num rio da cidade de Ilhéus alguns anos antes. Depois de
darmos algumas remadas, resolvemos sair do caiaque para dar um
mergulho. Na hora de entrar no caiaque, eu não conseguia me equili-
brar e caía na água toda vez que tentava subir. Com as inúmeras tenta-
tivas, o caiaque afundou e tivemos que nadar de volta à praia. Tendo a
narina esquerda comprometida por causa do segundo acidente de moto
que quebrou meu nariz, cansei rápido e parei para descansar. Pedi
ajuda a ele. Precisei me segurar nele para poder respirar mais livre-
mente e voltarmos a nadar.
Não agüentei o pique e comecei a me afogar. Meu amigo ainda
tentou me salvar, mas eu estava desesperado e ele ficou com medo de
morrer junto comigo. Após me debater muito, percebi que eu afunda-
va, sentindo a temperatura da água se tornar cada vez mais fria. De-
pois, não vi mais nada, tudo estava muito escuro. Acreditando que
aquele seria meu último dia de vida, entreguei-me ao mar, sem resis-
tência. Afundei e desmaiei.
JESUS

Parecia estar “sonhando” com meu corpo deitado sobre uma


pedra, ao nível da água do mar, e que as ondas batiam em mim. Sentia
DE
VALDECK A LMEIDA

o brilho intenso do sol forte e quente sobre mim, enquanto gritava:


“Deus, eu não posso morrer agora, me dê mais uma oportunidade!
Tenho somente dois meses em Salvador e muita coisa para viver ainda
nesta cidade!”.
Na cena seguinte, alguém me pegou, me colocou dentro de um
barco e me levou de volta à praia. Meu amigo contou que conseguiu
128 ser salvo por um cara que passava num barco à vela e o levou até a

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praia. Achou que eu tinha morrido. Estava chorando na praia, quando
o dono da barraca de aluguel de caiaque pediu que alguém fosse ao
mar pela segunda vez, já que na primeira haviam encontrado apenas
os remos do caiaque. Disse-me depois que não acreditou quando viu
que me traziam de volta à praia com vida. Eu também não acreditei
naquilo, achei que fora um milagre, uma segunda chance de vida, para
realizar alguma coisa que estaria por vir.
Socorrido na praia por populares, fui levado de hospital em hos-
pital, mas não recebi atendimento médico em nenhum deles, sob a
mesma alegação de que não havia pneumologista de plantão. Fui leva-
do para casa, com os pulmões cheios de água, tive febre altíssima, se-
guida de bronquite e pneumonia. Consultei-me com um médico no
meu trabalho, que me receitou remédios para dores. A doença evoluiu
e acabei tendo tuberculose. Por conta disso, fui submetido a um trata-
mento que durou mais de um ano. Mas, finalmente, fiquei curado. Não
era a minha hora.

Dona Nini

Tive uma vizinha chamada Dona Nini. Morava no apartamento


ao lado e era uma criatura maravilhosa. Sempre me presenteava com
frutas e, quando fazia uma comida diferente, me chamava para ofere-
cer um prato do novo quitute.
Depois que me mudei do prédio, soube que ela também tinha se
mudado para a Pituba e que passava por sérios problemas de saúde.
Procurei seu endereço e fui visitá-la. A cena me cortou o coração. Foi
chocante para mim ver aquela mulher, que antes era tão firme, vaido-
sa, bonita e vistosa, reduzida a um monte de carne retorcida em cima
Memorial do Inferno

de uma cama.
Dona Nini tinha tido um infarto que deixara seqüelas. Estava
torta de um lado, a boca meio aberta, até para comer tinha dificulda-
des. Aquela cena me deixou mortificado, mas não deixei transparecer
minha perplexidade. Ela sabia que estava com seus dias contados,
mas não me privei de incentivá-la. Falei-lhe que já tinha visto pes-
soas passarem por situações mais complicadas e que conseguiram
dar a volta por cima e muitas outras palavras de ânimo. Mas ela
estava inconformada. 129

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Alguns dias depois, sua saúde piorou e precisou ser internada
num hospital da cidade, onde fui visitá-la. Fiquei mais estarrecido ainda
quando a vi se alimentando por meio de tubos e respirando com a
ajuda de aparelhos, numa semi-UTI. Veio a falecer pouco tempo de-
pois. Fiquei muito impressionado com o desenrolar dos fatos; a ima-
gem dela ocupou minha mente por vários dias. Uma noite, tive um
sonho. Estava sentado num grande sofá, juntamente com outras pes-
soas. O sofá estava completamente lotado de gente, e todos fixavam o
olhar para frente, não se mexiam para os lados. Passados alguns mi-
nutos, Dona Nini entrou no ambiente. Sentia que era ela, mas, de al-
guma forma, sabia que não podia olhá-la diretamente. Parecia que meu
pescoço estava preso e não podia girar. Dona Nini se aproximou de
mim, olhou-me nos olhos e me estendeu a mão. Eu fiquei com medo,
assustado, pois eu sabia que ela tinha morrido. E ela falou: “Pegue em
minha mão!” Eu peguei, mas achando que pegaria numa mão de nu-
vem, sem forma e sem consistência. Minha mão tocou uma mão quen-
te, firme e humana. Ela, como que lendo meus pensamentos, falou:
“Está vendo? É uma mão de verdade. Eu estou bem. Não se preocupe.
Eu estou bem!”. O sonho acabou aí. Acordei muito assustado e fiz al-
gumas orações, antes de tentar dormir novamente.

i
Quando eu morava no Edifício Crescenciano dos Santos, meus
irmãos Dida e Tó estavam em Ilhéus, onde trabalhavam. Dida vivia
com uma garota, e Tó morava junto com eles, numa casa alugada. Sem-
pre dava um jeito de visitar meus irmãos em Ilhéus. Quase todos os
meses, viajava para o interior de ônibus, ou com minha mãe ou sozi-
JESUS

nho. Tinha planos de ajudá-los a comprar um terreno ou uma casa.


DE

Em uma dessas minhas visitas, conversamos sobre a compra de


VALDECK A LMEIDA

um imóvel, e ambos me prometeram procurar um local adequado à


construção de uma oficina, já que o desejo deles era ter o próprio ne-
gócio. Semanas depois, me ligaram dizendo que ainda não tinham
encontrado nada razoável. Em uma nova viagem a Ilhéus, saí com os
dois em busca de uma casa ou terreno. Encontramos uma casa enor-
me, no bairro Teotônio Vilela, com um quintal descomunal, que tanto
130 serviria de moradia como dispunha de área apropriada para a cons-

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trução de uma oficina mecânica. Eles argumentaram que aquele não
seria o local ideal, pois o bairro, além de não oferecer infra-estrutura
adequada, era muito violento. Voltei para Salvador e, na semana se-
guinte, recebi um telefonema deles dizendo que tinham encontrado
um terreno muito bom.
Com o dinheiro que enviei, eles compraram um terreno horrí-
vel, num despenhadeiro. A área era grande, mas tinha apenas três
metros de terreno plano, o restante era um barranco que descia até
um manguezal, que desembocava no rio Cachoeira. Fiquei bastante
irritado com o fato de meus irmãos terem desperdiçado a oportunida-
de de comprar uma boa área onde pudessem morar e trabalhar. Co-
meçaram a construir ali uma casa de dois metros de largura por três
de comprimento, e me pediram mais dinheiro para comprar o materi-
al de construção da oficina mecânica. Mas, ao invés de investirem o
dinheiro que enviei em material de trabalho, compraram um Fusca
velho, caindo aos pedaços. Ao chegar a Ilhéus e verificar que haviam
comprado um carro velho e não o material para trabalhar, não pude es-
conder minha indignação. Resolvi não mais ajudá-los e passei um enor-
me sermão nos dois. Uma semana depois, soube que haviam vendido o
Fusca e comprado material para construir mais dois cômodos na casa.

i
Já trabalhando na 3ª Vara de Salvador, fui chamado por Dina,
que dizia ter uma notícia muito boa para mim. Perguntou-me se eu
tinha interesse em substituir a funcionária de um gabinete que entra-
ra de férias. Eu já havia substituído várias pessoas, em todos os seto-
res onde trabalhei, inclusive na Distribuição, onde Dina era a chefe.
Memorial do Inferno

Perguntei qual era o trabalho a ser feito e Dina me disse que era uma
coisa fácil e que eu iria gostar. Sob tais condições, aceitei. Comunicou-
me então que, assim que tudo tivesse acertado, me telefonaria, o que
aconteceu uma semana depois. Foi um pouco complicado ser liberado
da 3ª Vara para substituir uma funcionária do gabinete, mas acabei
conseguindo, sob a condição de trabalhar nos dois setores em horári-
os diferentes, cumprindo duas cargas horárias. Aceitei prontamente.
No dia combinado, fui ao gabinete, com a roupa que eu costu-
131
mava vestir no dia-a-dia: uma conga marca Alcolor com um buraco no

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dedão do pé direito, uma calça jeans velha, com furo no joelho, e uma
camiseta de malha. Conversei com o juiz Gustavo Lanat, sem fazer a
menor idéia de quem era e que importância tinha. Uma das perguntas
que ele me fez foi se eu sabia datilografar. Respondi que sim. E ele
disse que havia em torno de oitenta processos acumulados no gabine-
te e precisava de alguém para ajudar sua equipe a dar conta do traba-
lho. Aceitei. Perguntou-me também se eu apertaria um parafuso ou
tentaria consertar algum objeto que se quebrasse. Eu disse que sim,
caso eu soubesse realizar o conserto. Ao final da conversa, marcou o
dia para eu começar a trabalhar. Iniciei no dia 28 de novembro de
1993 e permaneci ali, até junho de 2005, a trabalhar com ele e com
sua equipe, onde nunca precisei apertar nenhum parafuso.

i
Não foi muito fácil o processo de adaptação a uma cidade tão
grande, repleta de coisas boas e ruins; muita gente bonita e também
muita gente mal-intencionada. Mas tentava me acostumar com tudo,
fui aprendendo a lidar com as adversidades e a tirar de cada uma delas
uma lição de vida.
Recém-chegado de Jequié, uma cidade carente de diversões,
quando comecei a conhecer os points da Salvador, me esbaldei até
onde pude. Quase toda semana ia assistir a filmes, não perdia uma
estréia; não faltava a uma “terça da bênção” no Pelourinho. Eu sem-
pre ia à festa do Pelourinho, nas noites de terça-feira, mas jamais ima-
ginei que a expressão “bênção” se relacionava à “água benta que o pa-
dre jogava sobre os fiéis, na igreja de Nossa Senhora do Rosário dos
JESUS

Pretos, durante a missa”; pensava que era apenas o nome da festa po-
pular. Via muitas peças de teatro no Teatro Santo Antônio, no bairro
DE

Canela, de graça; adorava tomar banho de mar nas diversas praias;


VALDECK A LMEIDA

curtia o carnaval adoidado, no meio da multidão, e não perdia uma


seresta ou pagode. Praticamente, não parava em casa. Estava sempre
em atividade. Até toquei no Ilê Ayê, quando o grupo ensaiava no Forte
de Santo Antônio, no bairro de mesmo nome. Os ensaios eram às quar-
tas-feiras e aos sábados. Ficávamos a noite inteira ensaiando. Mas,
como não sou uma pessoa notívaga, acabei abandonando esses ensai-
132
os em poucos meses.

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Numa dessas idas e vindas de festas, conheci Elias, que se tor-
nou meu amigo. Elias era muito mais festeiro do que eu e sempre me
dava boas dicas de lugares onde estava rolando algum “reggae”. Mui-
tas vezes, fui com ele a Periperi, um bairro suburbano, distante mais
de dez quilômetros do centro da cidade, para curtir serestas e pagodes
até altas horas. Acontecia com freqüência de eu me esquecer do horá-
rio e perder o último ônibus. Aí o jeito era esperar o “pernoitão”, a
linha especial de ônibus que circula de madrugada. O sono era tanto
que dormia sentado no ponto de ônibus.
Por intermédio de Elias, conheci um outro camarada, Elivan,
cuja mãe morava em Periperi. Ele vivia com o pai em São Tomé de
Paripe, o bairro mais distante do centro. Elivan vendia sorvetes numa
garagem da casa do pai. Quando ia a São Tomé, após tomar umas cer-
vejas na praia, era comum eu ir almoçar ou comer alguma coisa no bar
do tio dele, o Bar do Chico.
Sempre que encontrava Elivan por ali, perdíamos a noção das
horas, conversando sobre todo o tipo de assunto, inclusive sobre tra-
balho. Ele tinha o sonho de ser marinheiro, vencer na vida e ajudar a
mãe. Eu ficava ouvindo seus planos e não deixava de lhe incentivar,
mas tinha quase certeza de que ele não iria chegar a lugar algum, pois
a dificuldade de se vencer na vida numa cidade grande é diretamente
proporcional ao tamanho dessa mesma cidade. No entanto, para sur-
presa minha, Elivan lutou contra todas as adversidades, se preparou
para o concurso e entrou na Marinha Mercante. Hoje é Sargento da
Marinha, trabalha no Rio de Janeiro, servindo no Primeiro Distrito, já
viajou por quase toda a costa brasileira, já se casou e teve dois filhos. E
o mais importante: ajudou e continua ajudando a mãe e os irmãos.
Construiu uma casa para a mãe em Aratu e depois resolveu levá-la
Memorial do Inferno

com alguns de seus irmãos para o Rio, deixando a casa aos cuidados
de outros irmãos.
Ele é um exemplo de pessoa. Em sua trajetória de vida, pude
identificar uma semelhança muito grande com a minha própria histó-
ria: a história de um menino pobre, morador de periferia, que conse-
gue vencer todos os obstáculos e dar a volta por cima. Assim, con-
quista seu lugar ao sol, com honestidade, sem trapaças, sem con-
chavos, sem passar por cima de ninguém e sem puxar o tapete de
quem quer que fosse. 133

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i
Desde sempre, quis me mudar do Edifício Crescenciano dos San-
tos, no bairro Sete Portas, onde morei. Mas, para isso, teria de sacrifi-
car muita coisa: evitar de sair às farras, de comprar muitas roupas,
reduzir as viagens. Passei mais de três anos arquitetando o dia de mi-
nha libertação. Quando estava com uma boa grana no banco, comecei
a pesquisar preços de casas e apartamentos.
Conheci muitos lugares de Salvador, caminhando em busca de
um lugar para morar. Poucos me agradavam. Até que encontrei o apar-
tamento do Edifício Gama, no bairro Nazaré. Apaixonei-me de cara
pelo imóvel e fechei negócio imediatamente. Essa compra se deu em
1997. Seria o início de uma nova fase. Depois que passei a morar no
novo prédio, iniciei uma longa jornada de viagens pelo Brasil e por
alguns países do mundo.
Convidei então meus irmãos para virem morar em Salvador no
Edifício Crescenciano dos Santos, que logo aceitaram.
No dia 25 de julho de 1997, nasceu meu filho Junior, fruto de
uma aventura rápida que tive com Maria Raimunda da Conceição,
natural de Ilhéus. Após o nascimento, no Hospital Sagrada Família,
em Salvador, decidimos, eu e sua mãe, que nosso relacionamento ti-
nha chegado ao fim e que o nenê ficaria comigo. A mãe voltou para o
interior e de lá se mudou para São Paulo, para onde levo Junior, sem-
pre que posso, para visitá-la.
Minha mãe morava comigo e cuidava de Junior. Foi uma expe-
riência muito boa, o nascimento de meu filho. Além de representar
uma extensão de mim, que teria de cuidar para sempre, ele me trouxe
JESUS

muitas alegrias. Mudei vários conceitos e planos que tinha para mi-
nha vida em função dele. O projeto de viver no exterior, por exemplo,
DE

foi adiado por causa de minha mãe e de Junior, que representavam


VALDECK A LMEIDA

muito mais que uma vida para mim. Cuidei de meu filho com muito
carinho, enquanto ele morou comigo e com minha mãe. Troquei fral-
das, dei mamadeira e banho. Brincava sempre com ele quando chega-
va do trabalho. Aprendi a ter paciência e a descobrir o significado do
choro. Preocupava-me com cada movimento dele, perto de mim, na
cama. Ficamos muito ligados um no outro, principalmente depois que
134 minha mãe morreu, e eu me vi sozinho para cuidar dele.

memorial_final_a.pmd 134 26/2/2007, 17:05


Contratei pessoas para ficarem em minha casa cuidando de meu
filho, mas, depois de pensar muito, achei que o melhor para o menino
seria estar perto de alguém da família, que pudesse cuidar dele como
ele merecia. E resolvi deixá-lo com minha irmã Valquíria, em Jequié.
Falamo-nos freqüentemente por telefone e, vez ou outra, envio-lhe
cartas. Ele também me escreve, manda cartões de aniversário, de Na-
tal e Ano Novo. Quando nos encontramos, Junior coloca toda a con-
versa em dia, quer me mostrar a roupa nova, o brinquedo novo, con-
tar as coisas que aprendeu na escola.
Quanto a meus irmãos, eles aceitaram vir para Salvador. Ao che-
garem, não demoraram a encontrar trabalho nas oficinas mecânicas
da cidade. Depois de dois ou três anos, resolveram voltar para Ilhéus,
e de lá foram para São Paulo, onde vivem até hoje. Quando se muda-
ram para São Paulo, eu já tinha ajudado Mi a comprar uma casa no
bairro Parque Novo Santo Amaro. A casa custou R$ 20.000,00 (vinte
mil reais), dos quais emprestei, a fundo perdido, cinqüenta por cento.
O restante foi financiado pela própria imobiliária, e as prestações
mensais eram divididas também com a sogra e com as cunhadas, que
saíram de suas casas de aluguel para morarem na nova casa. O imóvel
era bem amplo; possuía três andares e ainda um telhado, que permi-
tia bater uma laje para a construção de mais um andar. Vitório acabou
batendo uma laje nesse telhado, onde construiu sua casa.

Memorial do Inferno

135

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JESUS
DE
VALDECK A LMEIDA

136

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VIAGENS

Primeira viagem a São Paulo

Viajei pela primeira vez para São Paulo em 1996. Fui de ônibus.
A viagem parecia não terminar. Mas foi muito agradável. Transcrevo
abaixo uma espécie de “diário de bordo”, relato desta experiência:

“Jequié, 2 de abril de 1996.


10:21 h
Saí de Salvador no início da manhã e, neste exato
momento, encontro-me no Ponto de Apoio da empresa
de ônibus São Geraldo, em Jequié.
10:27 h
Estou dentro do ônibus para São Paulo, comendo
taboca, um doce enroladinho, feito de tapioca. Aqui dá
para ver muita coisa bonita. O ônibus segue estrada
adentro.
Memorial do Inferno

15:04 h
Passamos pelas cidades de Manoel Vitorino, Poções
e Planalto. Paramos em Vitória da Conquista para almo-
çar. O ônibus é delicioso. Tem água mineral à vontade e
café quentinho da hora. O ar condicionado torna o ambi-
ente bem agradável. Passamos pela pequena cidade de
Cândido Sales, que é cortada por um riachinho de água
barrenta. Aqui faz muito frio. 137

memorial_final_a.pmd 137 26/2/2007, 17:05


16:00 h
Estamos no estado de Minas Gerais, a paisagem é
encantadora, com pedras e montanhas enormes por to-
dos os lados. Muitas curvas na estrada. Em frente à mi-
nha poltrona, duas moscas muito chatas resolveram se
acomodar. Penso que são duas moscas baianas indo de
carona para São Paulo.

20:00 h

Paramos em Teófilo Otoni para o jantar. Preferi não


comer nada, achei a comida uma boa droga. Paguei caro
pela quentinha, que acabei jogando no lixo. Arrependi-
me amargamente de ter comprado aquela porcaria e ain-
da por cima ter de carregá-la dentro do ônibus, com o ar
condicionado desligado, por mais de meia hora. Teria sido
melhor sair da rodoviária e fazer um lanche numa bodega
de beira de estrada.

06:00 h

Está amanhecendo. Já é dia 3 de abril e estamos


entrando no estado do Rio de Janeiro. Dormi quase a noi-
te inteira. Com isso, deixei de ver um monte de cidades
mineiras.

06:50 h

Agora estamos passando por Sapucaia, uma cida-


dezinha do Rio de Janeiro, pequena e bem cuidada.
JESUS

07:10 h
DE

O ônibus atravessa a cidade de Anta, bem menor


VALDECK A LMEIDA

que Sapucaia.

07:30 h

Passamos por Três Rios, ainda no Rio de Janeiro.


Um pouco depois da saída da cidade, vi um caminhão de
138 leite enlatado virado e uma multidão saqueando a carga.

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08:00 h
Paramos em Paraíba do Sul para tomar café e, em
seguida, atravessamos Vassouras, cidade pequena, arbo-
rizada, bonita e aconchegante.
09:00 h
Passamos por Barra do Piraí, outra cidadezinha do
Rio de Janeiro, pequena, muito pobre, cheia de morros.
09:30 h
Já estamos em Volta Redonda. De longe se percebe
a nuvem de poluição a cobrir a cidade, que é bem desen-
volvida e cheia de prédios. Acredito que morar neste lu-
gar deve ser um pesadelo por causa da poluição. Dormi
um pouco e acordei em Resende. É uma cidade pequena,
com alguns edifícios e um rio muito caudaloso que mar-
geia a estrada por muitos quilômetros.
11:40 h
Agora entramos no estado de São Paulo, mais exa-
tamente nas proximidades de Aparecida, onde há uma
parada para o almoço. A cidade é muito simpática. De lon-
ge, pude ver a Catedral Basílica, que impressiona por sua
imponência.
13:00 h
Chegamos a Taubaté. A cidade é enorme e eu até
acreditei que já estava na cidade de São Paulo. Se o moto-
rista não me adverte, eu teria desembarcado ali. O ônibus
Memorial do Inferno

parou na rodoviária. Muita gente desceu, mas eu preferi


ficar no carro, por estar nervoso demais. Talvez pelo medo
do desconhecido. Não vejo poluição, mas o horizonte da
cidade é escurecido.
15:30 h
Finalmente, São Paulo. Ao desembarcar na Estação
Rodoviária do Tietê, tomei um susto. O terminal era imen-
so e havia uma multidão incalculável ali, partindo e che-
139

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gando, ônibus pra todo lado. Fiquei apreensivo, achando
que não encontraria minha cunhada, que prometera me
esperar. Mas não demorei dez minutos para avistar Célia,
acompanhada de Bela, sua irmã. Da rodoviária até o dis-
trito de Jardim Ângela, onde meu irmão morava, foi uma
viagem de mais de seis horas. Um engarrafamento mons-
truoso paralisava o trânsito da cidade inteira. Memorizei
quase todas as casas e prédios da avenida Santo Amaro,
pois o ônibus parava a cada metro que conseguia andar.
Fazia um calor infernal, e eu lá de casaco, carregado de
malas e mochilas. Parecia até que estava indo de mudan-
ça definitiva para São Paulo. Finalmente, chegamos ao
Jardim Ângela, e logo em seguida ao Parque Novo Santo
Amaro, onde ficava a casa de meu irmão.
O tempo ali entre eles passou voando. Em vinte dias,
pude descansar e ordenar minha mente e refazer meus
projetos de vida. Gostei tanto das pessoas que não tinha
ainda tido oportunidade de conhecer: um montão de cu-
nhadas de meu irmão, a sogra dele e mais gente, muita
gente. No dia que voltei para Salvador, todos choraram
na despedida. Eu não me agüentei e chorei também.
Gostei tanto da experiência que um ano depois via-
jei de ônibus com minha mãe, meu sobrinho Murilo, meu
filho Junior e Jean, um amigo da família. Desta vez, a vi-
agem não foi tão surpreendente quanto a primeira, pois
já conhecia o trajeto. A partir de então, passaria a visitar
meus irmãos todos os anos, no Natal e no Ano Novo. Fui
duas vezes de carro e outras tantas vezes de avião.
JESUS

Houve uma viagem que me marcou em especial, na


DE

segunda vez em que fui de carro. Resolvi sair de São Pau-


VALDECK A LMEIDA

lo quando faltavam vinte e cinco minutos para a meia-


noite. Todos protestaram: minha mãe, meu irmão, as cu-
nhadas dele e outras pessoas que estavam na casa. Mas
não ouvi ninguém. Era uma noite de reveillon. Vimos a
queima de fogos, em comemoração ao Ano Novo, quando
atravessávamos a cidade, passando pela Avenida Santo
140 Amaro, em direção à BR-116.

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Cursos de inglês e espanhol

Tinha muitos planos de fazer viagens ao exterior, por isso co-


mecei a aprender inglês. Fiz um curso de três anos em uma escola
tradicional da cidade. A princípio, parecia que jamais conseguiria
aprender uma palavra sequer. Mas, com o passar do tempo, fui me
acostumando com a língua, e hoje já consigo conversar normalmente
até com próprios nativos. Já o curso de espanhol durou apenas vinte
dias, acabei desistindo. Preferi me aperfeiçoar primeiro no inglês e
somente depois recomeçar o curso de espanhol.

Viagens para Jequié

Quase toda semana eu viajava para Jequié e, na maioria das ve-


zes, ficava na casa de minha irmã Quira. Numa dessas viagens, fui até
o açougue com ela para comprar uns dois quilos de bife. O açougueiro
cortou a carne e separou as peles das partes mais duras num monti-
nho. Enquanto ele pesava e embalava a carne, mostrei o montinho de
peles à minha irmã e perguntei-lhe se aquilo a fazia lembrar de algo.
Ela sorriu, como que concordando com a lembrança do tempo em que
comíamos os refugos doados pelos barraqueiros da feira livre da cida-
de. O açougueiro, pensando que queríamos levar as peles, falou que
poderia embalar aquele sebo para darmos aos cachorros, caso os ti-
véssemos. Respondemos que não tínhamos cachorro e que falávamos
de outra coisa. Ele não entendeu nada.

Pedalando e dirigindo em Salvador


Memorial do Inferno

Resolvi comprar uma bicicleta, a fim de fazer exercícios físicos.


Não me agradava muito ficar em academias, pela minha timidez e tam-
bém por ser um lugar fechado, onde geralmente não se pode ver pai-
sagens, a não ser através das janelas. Encontrei um anúncio no jornal,
telefonei e fui até o bairro de Pituaçu, que era onde morava o vende-
dor da bike. Voltei de lá pedalando pela avenida Paralela. Daí em di-
ante, passei a pedalar por duas ou mais horas, todos os dias. Lembro-
me que, numa das manhãs em que pedalava pela Pituba, começou a
chover e, quando olhei para o relógio, vi que já eram sete e trinta da 141

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manhã e eu deveria estar no trabalho antes das oito, pois era dia de
sessão no Tribunal. Corri tanto que parecia que a bicicleta flutuava
sobre a água. Mas cheguei a tempo ao trabalho.
Saía quase todos os dias de Nazaré e ia até Paripe, Alto de Cou-
tos, pedalando pela Suburbana e por Ipitanga, em Lauro de Freitas.
Muitas vezes, pedalava de manhã cedo, antes de ir para o trabalho, e,
quando chegava em casa à tarde, repetia a dose. Cometi loucas aven-
turas com minha bike, como sair às 22 horas de Salvador rumo a Dias
D’Ávila, aonde cheguei após pedalar três horas na chuva. Fiquei em
casa de amigos e voltei no dia seguinte, pedalando de novo.
Eu tinha muito medo do trânsito de Salvador, mas, depois que
eu comecei a pedalar pela cidade, acabei me acostumando com o rit-
mo e com o movimento rápido dos carros. Até quando andava de táxi
sentia medo, ficava sempre segurando na porta do carro. Aos poucos,
fui me habituando.
Ao ver senhores e senhoras dirigindo tranqüilamente, fiquei mais
animado e confiante para dirigir também. Resolvi então entrar num
consórcio de carro e me matricular numa auto-escola para aprender a
dirigir. Tomei mais aulas do que o necessário, e mesmo depois delas
ainda continuava um pouco inseguro e com medo de tirar a carteira de
motorista. Mas a forma com que os instrutores davam as aulas foi de-
cisiva para me ajudar a resgatar a minha segurança. Certa vez, quando
manobrava o veículo, o instrutor pediu que me aproximasse de um
muro e parasse, para que um outro carro que estava atrás pudesse
passar. O carro ficou numa posição complicada. Só poderia ser retira-
do dali através do uso de meia embreagem e de marcha à ré. Eu estava
apenas começando a aprender a fazer meia embreagem, e por isso o
JESUS

instrutor ficou preocupado com a possibilidade de eu bater com o car-


ro no muro. Ele já ia saindo para pegar o carro e retirá-lo dali, quando
DE

mudou de idéia e resolveu que eu poderia fazê-lo, seguindo suas ori-


VALDECK A LMEIDA

entações. Fiquei supernervoso, mas ele me transmitiu toda a calma


que eu precisava. Foi minha primeira grande vitória, pois dali em di-
ante criei coragem para enfrentar desafios outros que porventura pu-
dessem ocorrer na direção de um veículo.
Quando o instrutor achou que eu já estava apto a me submeter
142 aos exames do Detran, falou em marcar os testes. Relutei bastante.

memorial_final_a.pmd 142 26/2/2007, 17:05


Depois resolvi alugar o carro da própria auto-escola por um dia intei-
ro, a fim de treinar bastante antes de fazer os testes práticos. Marca-
mos os exames. Fiz todos os testes e passei de primeira, para minha
própria surpresa.
Ao receber minha carteira de motorista, a primeira providência
foi reservar um carro em uma locadora de Salvador. No dia marcado,
fui à locadora de veículos, mas não tive coragem de entrar para fazer o
contrato e alugar o carro. Passava várias vezes em frente à loja, olhava
para os carros circulando na rua e ficava apavorado. Os carros passa-
vam sem parar, a uma distância muito curta uns dos outros. Concluin-
do que não tinha condições de dirigir num trânsito daqueles, voltei
para casa sem alugar o veículo.
Mais de um mês se passou e eu, enfim, criei coragem de alugar
um carro. Mas não o fiz em Salvador. Viajei de ônibus até Ilhéus, onde
aluguei um Fiat Pálio. De lá viajei para Jequié, que ficava a uns duzen-
tos quilômetros de distância. Aprendi muita coisa, inclusive que não
se deve entrar numa curva em alta velocidade, como eu estava fazen-
do. O carro cantava pneus em todas as curvas por que eu passava. Na
estrada para Jequié, presenciei um acidente com outro veículo Pálio,
que capotou para evitar o atropelamento de um cachorro. Um dos pas-
sageiros, uma moça de mais ou menos vinte anos de idade, em trajes
de banho, voou pelo pára-brisa e caiu morta no asfalto. O motorista e
outros passageiros ficaram gravemente feridos e foram levados para
o hospital geral da cidade de Jequié. Aquilo me chocou e me fez
repensar em uma forma mais segura e preventiva de dirigir, o que
adoto até hoje.
Dirigi por toda a cidade de Jequié como uma criança deslum-
brada com um brinquedo novo. Não me cansava. Acredito que gastei
Memorial do Inferno

um tanque de combustível, rodando por Jequié inteira.


Em outra oportunidade, aluguei um carro em Jequié, duran-
te um final de semana prolongado. O mico que paguei foi sair com
o carro sem ligar os faróis. Somente alguns metros após sair da lo-
cadora é que fui parar o carro para procurar onde ficavam os bo-
tões para ligar as luzes, pois eu fiquei com vergonha de perguntar
aos funcionários da locadora.
143

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Meu primeiro carro

Fui contemplado no consórcio de um veículo Gol, novo, ano 1998.


Com esse carro, andei cerca de duzentos mil quilômetros. Fiz duas
viagens para São Paulo, várias para Aracaju, uma para Petrolina, além
de viajar toda semana para Ilhéus, onde visitava meus irmãos Dida e
Tó e para Jequié, onde moravam outros irmãos e minha mãe. Rodava
cerca de mil quilômetros por final de semana. Fiz uma viagem a Ara-
caju somente para tomar uma água de coco na praça e voltar a Salva-
dor. Nesse dia, eu estava meio na “maresia”, sem muita coisa para
fazer, meio desanimado, no tédio. Então resolvi ligar para um amigo.
Marquei com ele de nos encontrarmos para dar umas voltas e espaire-
cer. Acabei pegando a orla, em direção a Itapoã, depois segui rumo a
Lauro de Freitas, depois Arembepe.
Conversando, conversando, passamos por Praia do Forte e aca-
bamos subindo até Aracaju. Chegamos à capital sergipana por volta
das dez horas da noite. A cidade estava quase um deserto. Parada.
Passei por uma pracinha e parei numa barraca de lanches, onde eu e
meu amigo tomamos uma água de coco. Em seguida, pegamos a estra-
da de volta a Salvador. Mais de seis horas de viagem para beber uma
água de coco, mas valeu. A gasolina era muito barata e dava para en-
cher um tanque com R$ 25,00. Atualmente, tornou-se impossível via-
jar todas as semanas, devido ao preço exorbitante do combustível.
Lembro de uma viagem que fiz a São Paulo, com minha mãe,
Quira, Nete, meu amigo Fernando e Valdeck Junior, de carro. Leva-
mos tanta comida que os passageiros tinham de colocar seus pés so-
bre caixas de refrigerantes, bolos e panelas de comida pronta.
Em outra oportunidade, retornei a São Paulo com Quira, Chi-
JESUS

na, o amigo Anderson, meu filho Junior e meu sobrinho Roberto


DE

Junior de carro. Foi uma longa jornada. Nessa viagem, passei mui-
VALDECK A LMEIDA

to mal enquanto dirigia. Faltava pouco mais que cem quilômetros


para chegar a Sampa, quando parei para comer alguma coisa e des-
cansar. Como eu estava dirigindo há mais de vinte horas, fiquei es-
gotado e quase não consegui seguir viagem. Preferi não dizer a nin-
guém que estava me sentindo mal, para evitar preocupações. De-
pois de uma meia hora, já me sentia melhor e pude então conti-
144 nuar a viagem.

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Eu tinha bebido muito extrato de guaraná para evitar dormir ao
volante, e o efeito do guaraná foi muito forte, deixando-me desperto
durante toda a viagem. Dirigindo “ligado”, tal qual um zumbi, quase
provoco um acidente grave, que jogaria o carro ribanceira abaixo. Se-
guia em direção ao acostamento; de repente, saí da pista e o carro foi
em direção ao barranco. Via que estava indo de encontro à morte e
não conseguia reagir. Mas, de súbito, “acordei” e mudei rapidamente
a direção do veículo. Por uma questão de segundos, não causei um
acidente grave. Na volta para Jequié, preferi não tomar qualquer tipo
de estimulante. Viajei vinte e duas horas de São Paulo a Jequié, sem
parar para dormir.

Disco voador na estrada de Santa Inês

Depois que comprei o carro, não parei mais de viajar. Já não era
de ficar muito parado em casa, pois sempre fui muito ansioso. Com o
carro, fiquei mais ansioso ainda. Um dia, peguei a rodovia BR-101 para
Jequié. Gostava de ir por lá, porque passava por Santa Inês, onde po-
dia dormir ou descansar na casa de minha irmã China.
Nessa ocasião, convidei Lázaro Telles, um amigo que hoje vive
em Londres, e Akira, um japonês que tinha vindo ao Brasil fazer um
curso de Português, que conheci e de quem me tornei amigo. Quando
peguei a BR-420, no entroncamento de Laje, já eram mais ou menos
seis horas da tarde e a chuva nos acompanhava há bastante tempo.
Essa rodovia é quase deserta, principalmente em tardes chuvosas de
final de semana. Percebia luzes no horizonte, que confundia com farol
de algum carro em sentido contrário. Como chovia bastante e o pára-
brisa ficava constantemente embaçado, pensei também na hipótese
Memorial do Inferno

de ser algum reflexo da água no vidro dianteiro do carro. Tinha a ma-


nia de brincar de apagar todas as luzes do carro, parado no meio da
estrada deserta, e ligar e desligar os faróis várias vezes. Depois seguia
em frente. Repeti isso várias vezes durante a viagem. A tal “luz” me
acompanhou por muitos quilômetros, mas não me chamou a atenção.
Cheguei a Santa Inês por volta das oito horas da noite, tomei
banho, jantei e resolvi seguir viagem para Jequié, distante apenas oi-
tenta quilômetros dali. Meu cunhado Roberto e minha irmã acharam
145
que era loucura sair numa chuva daquelas e enfrentar a estrada, mas

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não dei ouvidos às suas advertências. Logo ao sair da cidade, no en-
troncamento, percebi uma claridade estranha vindo da cidade. A prin-
cípio, tive a nítida sensação de serem os faróis de um carro em movi-
mento, por trás de uma fileira de árvores. Continuei a não dar atenção
e segui olhando para o asfalto, a fim de evitar buracos e um possível
acidente. Alguns quilômetros adiante, o japonês, intrigado com a luz
que via, perguntou-me de onde ela vinha. Respondi que se tratava dos
faróis de meu carro refletidos nos barrancos, pois era o que eu real-
mente supunha ser. Ele não se conformou e perguntou de novo, pe-
dindo para que eu olhasse na direção em que apontava. E eis que, quan-
do virei a cabeça para o lado esquerdo do carro, avistei uma luz imen-
sa, que emanava de algo com formato circular. Parecia um círculo de
refletores fortíssimos, apontados para o céu, girando e vindo em dire-
ção ao carro. Fiquei extasiado com aquela visão. Parei o carro e pus-
me a admirar a cena, muito curioso e louco de vontade de saber qual
seria a fonte daquela luz, que se aproximava cada vez mais. A coisa, de
formato esférico, tinha mais ou menos o tamanho de um estádio como
o Balbininho, em Salvador.
Meu amigo Lázaro começou a gritar desesperado e implorava
para que eu saísse dali. Eu não queria sair, permaneci olhando, mas
acabei cedendo a seus berros desesperados. Liguei o carro e disparei a
mais de cem por hora. Parei vários quilômetros adiante e resolvi vol-
tar, sob o protesto de Lázaro. Só que não vi mais nada. No primeiro
telefone público que encontrei, já em Jaguaquara, liguei para casa e
para alguns amigos, relatando a história. Enviei mensagens para pro-
gramas de televisão. Alguns até responderam, enviando e-mails onde
pediam provas concretas, fotos etc., para poderem relatar a história.
Mas não havia provas. Nunca mais vi a tal coisa, apesar de sempre
JESUS

passar pela mesma estrada, em horários noturnos diversos.


DE
VALDECK A LMEIDA

Viagens a Nova York

Tive a felicidade de fazer duas viagens a Nova York. A primeira,


em 1999, com vôo saindo diretamente de Salvador para NYC; a segun-
da, em 2000, com escala em São Paulo. Adorei conhecer os Estados
Unidos, apesar de ter visitado somente um único estado. Na primeira
146 vez, passei todos os vinte dias de viagem caminhando pela cidade, com

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a câmera a tiracolo para registrar tudo. Visitei o Central Park, fui ao
Empire State Building, atravessei a Brooklyn Bridge. Passava a maior
parte do tempo apreciando a arquitetura, os traçados retilíneos das
ruas e avenidas, as centenas de pessoas que iam e vinham. Fui de fer-
ry-boat da ilha de Manhattan à Staten Island e conheci mais um pou-
co dos arredores da cidade. Ali, sobretudo na estação da ferry, vi mui-
tos mendigos se protegendo do frio cortante que fazia. Não tive muita
vontade de visitar a Estátua da Liberdade, depois que me disseram
que o acesso ao topo da estátua era abafado e quente. Também não me
animei a visitar as Torres Gêmeas, pois fui informado de que a vista
era a mesma do Empire State Building, com a diferença de mais al-
guns andares de altura. Futuramente, após a tragédia com as Torres,
isso se transformaria numa grande frustração, diante da certeza de
nunca mais poder subir ao topo do World Trade Center.
Visitei um programa de televisão chamado Ricky Lake, uma es-
pécie de “Programa do Ratinho” à moda americana, onde as pessoas
se xingavam e se agrediam o tempo todo. Foi muito divertido.
O que mais me impressionava na cidade era a organização e o
respeito ao sinal de trânsito, mesmo nas madrugadas. Por várias ve-
zes, ao pegar um táxi voltando das farras para a casa onde estava hos-
pedado, testemunhei a mesma cena: sempre que o sinal ficava verme-
lho, a qualquer hora da madrugada, o taxista parava o carro e espera-
va o sinal abrir. O sistema de metrô da cidade também me pareceu
fantástico, de uma pontualidade infalível.
Na segunda viagem, eu já não estava tão preocupado em tirar
fotos. Além do mais, fui fazer um curso de inglês em uma escola de
intercâmbio cultural. Fiquei hospedado na casa de uma família no
Brooklyn e estudava em Manhattan, na Sexta Avenida. Na casa onde
Memorial do Inferno

eu fiquei havia um sistema de alarme cuja senha de acesso era trocada


todos os dias. A pessoa tinha que digitar a senha, abrir a porta, fechá-
la e digitá-la novamente. Um dia, eu me atrapalhei e o sistema dispa-
rou o alarme. Todos os moradores da casa correram para ver do que se
tratava, achando que era um assaltante. Quando viram que era eu,
respiraram aliviados, mas fiquei muito envergonhado e sem saber me
explicar direito.
Um dia antes de minha viagem de volta ao Brasil, liguei para o
147
serviço de táxi e marquei uma corrida para o aeroporto no dia seguin-

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te. A pessoa que me atendeu ao telefone falou “hold on”, e eu imaginei
que ela voltaria a falar comigo. Fiquei “aguardando” e, depois que per-
cebi que não havia ninguém na linha, desliguei. Alguns minutos mais
tarde parou um táxi em frente à casa e começou a buzinar. Saí para ver
o que era e me deparei com o táxi à minha espera para me levar ao
aeroporto. Fiquei tão nervoso na hora que comecei a conversar em
português com um dos filhos da dona da casa. Ele me olhava espan-
tando, e eu continuava a falar sem parar, até me dar conta de que ele
nada entendia do meu idioma. Depois de me acalmar, pedi a ele que
explicasse ao taxista que a corrida era para o dia seguinte.
Conhecer os Estados Unidos foi uma experiência muito feliz,
apesar de ser torturado pelo frio, que me obrigava a vestir várias rou-
pas ao mesmo tempo, para conseguir me esquentar um pouco.
Na primeira viagem que fiz tomei um grande susto, como é pró-
prio dos inexperientes. Remarquei o meu vôo pessoalmente no escri-
tório da VASP em Nova York com uma brasileira. Tudo confirmado.
No dia da viagem, fui para o aeroporto John Fitzgerald Kennedy, lépi-
do e fagueiro, crente que meu vôo sairia dali. Qual não foi meu espan-
to quando vi o guichê de check-in da VASP fechado. Procurei informa-
ções e me disseram que não havia nenhum vôo saindo dali para o Bra-
sil naquele dia. Fiquei desesperado. Depois, acabei descobrindo que o
vôo sairia de New Jersey, do aeroporto Newark. Peguei um táxi e, du-
rante a corrida, não parava de pedir ao motorista que corresse bastan-
te. Mas ele sempre respondia que já estava correndo dentro do limite
máximo permitido e que ali havia controle de velocidade. Por mais
que corresse, não conseguia me convencer de que ele não andava de-
vagar. Mas no final deu tudo certo. Cheguei a tempo, fiz o check-in,
embarquei e cheguei ao Brasil em paz.
JESUS
DE

Viagem a Madrid
VALDECK A LMEIDA

Quando retornei de Nova York, em minha segunda viagem, no


ano de 2000, fui direto para Madrid, conhecer um pedaço da Europa.
Aproveitei para fazer um curso de espanhol de vinte dias. Viajando
como estudante, as despesas da viagem ficam menores, já que há des-
contos nas passagens aéreas e é fácil conseguir alojamento em casas
148 de família. Aproveitei a viagem ao máximo. Caminhei muito pela ci-

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dade, fui à tourada, feiras livres, danceterias, visitei Segóvia e Toledo.
Adorei o pessoal da escola onde estudei. Ali conheci gente do Japão,
Coréia, Itália, Estados Unidos e outros países. A parte triste foi que
aconteceu um acidente de carro com duas amigas coreanas, que aca-
baram morrendo. Todo o pessoal da escola ficou consternado e eu até
chorei a morte delas. Fiquei impressionado quando a família de uma
delas foi buscar o corpo e destruiu todos os seus pertences, inclusive
as fotos que os amigos tiraram.
Faltando alguns dias para retornar ao Brasil, comecei a ficar
subitamente apreensivo. Sentia uma necessidade grande de ver mi-
nha mãe. Por várias vezes ligara para saber como andava a saúde dela
e sempre obtinha a resposta de que tudo estava bem, o que me deixava
mais tranqüilo, mas não eliminava aquela sensação de apreensão.
Resolvi antecipar meu retorno. Mudei a data de embarque no vôo que
estava reservado e, de tão atrapalhado que estava, acabei chegando ao
aeroporto um dia depois de o vôo ter partido. Com algum esforço, a
Varig conseguiu um lugar para mim num vôo das Aerolíneas Argenti-
nas. O vôo era para Buenos Ayres, com escala em São Paulo. Ao che-
gar à capital paulista, notei que havia problemas com minha baga-
gem: ou não havia sido desembarcada ou fora extraviada. Registrei a
ocorrência junto à companhia aérea e viajei para Salvador, a fim de
aguardar em casa o resultado das investigações.

Falecimento de minha mãe

Dois ou três dias depois de ter chegado de viagem, recebi um


telefonema dando conta de que minha bagagem tinha sido localizada
no aeroporto de Buenos Ayres e que já havia sido remetida a Salvador.
Memorial do Inferno

Nesse meio tempo, meu celular ficou sem carga na bateria e, como o
carregador se encontrava na mala extraviada, resolvi ir até o Tribunal
Regional do Trabalho para usar o carregador de minha chefe, que ti-
nha o aparelho igual ao meu.
Assim que a bateria completou a carga, recebi um telefonema
de meu cunhado Nilson, de Jequié, com a trágica notícia de que mi-
nha mãe tinha acabado de falecer. Foi uma fatídica tarde do dia 14 de
junho de 2000. Perdi a noção do tempo, do espaço, de tudo. Entrei em
desespero e liguei para meu amigo Fernando, que me acompanhou na 149

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viagem a Jequié. Para minha surpresa, minha então chefe, Ramin, e
meus colegas Márcio e Iraci também foram até Jequié para o enterro
de minha mãe. Encontrei-me com eles somente no cemitério. Posso
dizer que esta foi a maior perda de minha vida. Uma tristeza que não
passa, uma lacuna que não se preenche, uma lembrança que jamais
será esquecida.
Todos os irmãos conseguiram chegar para o velório, inclusive
Mi, que morava em São Paulo, e Tó, que morava em Ilhéus, onde fui
buscá-lo. Só Dida não conseguiu vir de São Paulo, pois não conseguiu
dinheiro emprestado para pagar a passagem de avião.
Em todas as viagens de férias que fiz ao exterior, sempre fui so-
zinho. A única coisa que fazia era ligar para casa ou mandar um car-
tão-postal, não costumava comprar presentes. Mas, voltando dessa
viagem à Espanha, trazia na mala para minha mãe um ímã de geladeira,
com a frase “Te quiero, Mamá” (Te amo, Mamãe) e o desenho de uma
senhora descascando alguma fruta ou verdura. Não consegui dar a ela o
presentinho que comprei, já que falecera antes de eu chegar a Jequié.
Nunca havia pensado em levar alguém da família comigo nes-
sas viagens, nem mesmo minha mãe. Porém, retornando de Madri para
o Brasil, no avião das Aerolíneas Argentinas, encontrei uma senhora
que morava em São Paulo. Viajava com sua mãe, pela primeira vez em
muitos anos. Contou-me que era proprietária de uma empresa que
fornecia alimentação para o exército e que passou muitos anos traba-
lhando sem parar. Um belo dia, voltando sonolenta do trabalho, seu
carro atravessou a pista e quase bateu de frente em uma carreta que
estava na pista oposta. Disse ela que, desse momento em diante, re-
solveu trabalhar menos e cuidar mais da saúde e da família. Estava ali
viajando com a mãe justamente para dar início ao novo ciclo de sua
JESUS

vida. Após ouvir essa história, decidi que levaria minha mãe comigo
na próxima viagem que fizesse ao exterior. Mas o destino não me deu
DE

tempo de realizar este desejo. A morte chegou antes, levando minha


VALDECK A LMEIDA

mãe de surpresa.

Faculdade de Turismo em 2001

Prestei vestibular para turismo, concluí três semestres e tran-


quei o curso por motivos particulares. Esses motivos me levaram, tam-
150
bém, a solicitar uma licença sem remuneração do meu trabalho, por

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seis meses. Durante esse tempo, pensei e repensei minha vida, fiz pla-
nos de me transferir para outro estado, pensei até mesmo em ir morar
em Manaus. Felizmente, após muito refletir, voltei ao trabalho, mas
resolvi não mais continuar com o curso superior (Ver capítulo “Natal
e Ano Novo 2003/2004”).

Viagem a Porto Alegre

Participo do programa de milhagem da Varig. Em 2001, já pos-


suía milhagem suficiente para uma viagem dentro do Brasil. Resolvi
então gastar minhas milhas em uma viagem pelo sul do país, em mar-
ço daquele ano. Gostei muito da cidade, mas fiquei somente dois dias,
pois não suportei o calor do verão no sul. De Porto Alegre parti para
Florianópolis, de ônibus. Amei a cidade. Conheci a Ilha de Santa Cata-
rina, a praia da Joaquina, o bairro Jurerê Internacional e outros locais
fascinantes. Passei uma noite e um dia naquela cidade. Em seguida,
segui para Foz do Iguaçu, Paraguai, Argentina, Rio de Janeiro, Vitória
e Fortaleza. Foi uma viagem bem eclética.

Primeira viagem de avião de Junior

Meu filho Junior sempre me acompanhou em quase todas as


viagens que fiz a São Paulo, de ônibus e de carro. Um belo dia decidi
fazer-lhe uma surpresa. Falei que iríamos ao aeroporto ver os aviões.
Era uma segunda-feira de carnaval, dia 11 de fevereiro de 2002. Fui
para a avenida Sete dar uma olhada na festa e me divertir um pouco,
antes de viajar. Quando faltava uma hora para o embarque, marcado
Memorial do Inferno

para 21 horas, saí correndo feito louco para não perder o vôo.
Ao chegar ao balcão da empresa, fui informado que o check-in
tinha sido encerrado e que os passageiros já estavam embarcados. Ale-
guei que estava com uma criança e a atendente da Varig ligou para a
aeronave e providenciou o embarque. Na verdade, os passageiros ain-
da aguardavam no salão. Junior nem tinha tomado banho ainda e
eu vestia uma bermuda, camiseta e sandálias havaianas. Minha rou-
pa e a roupa de Junior estavam dentro de um saco plástico do su-
permercado Bompreço. 151

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Como eu não sabia que os passageiros do nosso vôo ainda aguar-
davam no salão, entrei apressado pelo túnel de embarque e, no meio
do caminho, fui informado por um funcionário para retornar ao salão
e aguardar o chamado. Aproveitei então para ir ao sanitário trocar de
roupa. O saco onde eu guardava as roupas se rompera e eu precisava
providenciar um novo saco para guardar meus pertences. A solução
foi pegar um saco de lixo do sanitário. Mas, após todos os contratem-
pos, embarcamos e fizemos uma viagem tranqüila. Junior ficou mara-
vilhado e muito contente. Não parava de repetir: “Pai, o senhor não
disse que viríamos ver aviões?”, ao que eu respondia que era melhor
estar dentro de um avião do que apenas vê-los por uma janela de vi-
dro. E ele concordava exultante, mas não parava de perguntar quando
iríamos ver os aviões.
Chegamos ao aeroporto de Guarulhos no horário previsto, ou
seja, às 23 horas. Pegamos um ônibus executivo para o Centro da ci-
dade e, ao chegarmos lá, o serviço de metrô já tinha encerrado o expe-
diente. Tivemos de pegar vários ônibus, indo de um terminal para
outro, até chegarmos à casa de meu irmão, no Jardim Ângela, às 5
horas da madrugada. Evitava deixar Junior dormir, para que não se
tornasse mais um fardo a carregar, já que eu estava levando nossas
malas, além do saco de lixo cheio de roupas.

Viagem à Venezuela em 2002

Ganhei uma passagem de milhagem pela TAM e fui até Manaus.


De lá, peguei um ônibus que atravessou toda a floresta amazônica pela
BR-174 até a cidade de Pacaraíma/RR. Ali, tomei um outro ônibus e
fui até Santa Elena de Guairén, na Venezuela. Foi uma viagem mara-
JESUS

vilhosa, onde pude contemplar as lindas paisagens naturais, índios e


animais exóticos. Foram apenas três dias nesse roteiro. Retornei logo
DE
VALDECK A LMEIDA

a Salvador, partindo em direção a Jequié, para passar os festejos juni-


nos com meus irmãos.
Acidente com o Santana

Resolvi trocar meu Gol por um Santana. Viajei para Jequié


num final de semana, em setembro de 2002, e, na volta para Salva-
152 dor, quase me envolvi num acidente fatal, próximo à região da ci-

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dade de Santo Estêvão. Ao perceber que vinha um caminhão na
contramão, freei o carro, que derrapou para a pista oposta, indo
em direção a outro caminhão. Tentei desviar; o Santana derrapou
na pista e “voou” em direção ao matagal que havia ao lado. O carro
correu alguns metros por dentro do mato e parou num barranco.
Respirei fundo, toquei em mim para ver se ainda estava vivo e saí
do carro contente e sorrindo, junto com Fernando Bingre, um ami-
go que me acompanhava na viagem. O susto foi muito grande, mas
me ajudou a aprender a valorizar mais a vida.

Viagem a Cuba

Antes de ir a Cuba, procurei informações sobre o país na Inter-


net, comprei um guia e me informei sobre visto de entrada, hospeda-
gem, moeda corrente, clima, meios de transporte e tudo que um turis-
ta precisa saber para visitar um país desconhecido. Devidamente in-
formado, liguei para algumas agências de turismo e enviei e-mails para
outras, solicitando um orçamento de passagem aérea e hospedagem.
Várias agências responderam. Fiquei sabendo que os vôos partiam de
São Paulo, pela Cubana de Aviación ou pela Copair. Comparei os pre-
ços e escolhi os três mais baratos. Liguei então para as agências solici-
tando que refizessem os orçamentos, desta vez sem a hospedagem.
Todas me prometeram enviar as informações, que até hoje não chega-
ram, infelizmente. Fui pessoalmente a uma terceira agência, onde a
atendente me aterrorizou dizendo que não valia a pena ir a Cuba. Ale-
gou que era um local muito pobre e feio e que era uma viagem muito
cara. Disse, inclusive, que um amigo dela que esteve em Cuba passara
por situações terríveis e criticou a comida escassa, isso, aquilo e muito
Memorial do Inferno

mais. Fiquei estarrecido com o relato, principalmente porque o obje-


tivo de uma agência de turismo é “convencer o cliente a viajar”, e não
o contrário.
Resolvi, então, montar meu pacote por conta própria. Liguei
diretamente para a empresa de aviação e reservei minha passagem. A
própria companhia aérea se encarrega de enviar, via sedex, a passagem e
o “cartão de turista”, que é o visto cubano. Tudo foi resolvido em apenas
um dia. Informei-me sobre hospedagem alternativa e encontrei as “casas
de aluguel”, que são casas de cubanos que podem ser alugadas a turis- 153

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tas, mediante uma autorização prévia do governo federal do país. Uma
dessas casas era a de Miriam Crespo, em Havana, onde fiquei hospedado.
Liguei para a proprietária e fiz a reserva, pagando-lhe as diárias assim
que cheguei à sua residência. O custo foi muito mais barato do que o in-
formado nos orçamentos das agências de turismo.
No dia 5 de outubro de 2002, embarquei em São Paulo rumo a
Havana. Infelizmente, houve um problema com o radar do avião, o
que obrigou os passageiros a desembarcarem e ficarem hospedados
num hotel por quase dois dias, tudo pago pela companhia aérea de
Cuba. Somente no domingo à noite conseguimos embarcar. Não dire-
tamente para Cuba, mas com destino a Buenos Ayres, pela Aerolíneas
Argentinas. De lá, pegamos um avião da Cubana de Aviación para San-
tiago do Chile e, finalmente, do Chile para Havana. Cheguei a Havana
ao meio-dia de uma segunda-feira, dia 7 de outubro.
Transcrevo abaixo, algumas impressões sobre a viagem, escri-
tas no dia 8 de outubro de 2002:
“Estou na varanda da casa que aluguei, olhando o
movimento da rua. Devem ser oito horas da manhã. Pou-
cas pessoas passam por aqui, que é um bairro residencial.
Acho que, a esta hora, todos já foram para o trabalho.
Ainda não conheci o centro e a parte nova da cida-
de. Tudo que conheci até agora foi o que observei durante
o percurso do carro que me trouxe do aeroporto, que fica
a mais ou menos 20 km daqui, além do que pude ver na
caminhada que fiz ontem, de uns cinco quilômetros. A ci-
dade dá uma nítida impressão de simplicidade, extrema
simplicidade, tudo muito parecido com o subúrbio de Sal-
JESUS

vador, especialmente com os bairros de Vista Alegre, Pa-


ripe, Alto de Coutos e Avenida Suburbana, no que diz res-
DE

peito à arquitetura, ao traçado das ruas, à falta de conser-


VALDECK A LMEIDA

vação e manutenção das habitações e das praças e ruas


em geral. A diferença é que, no bairro onde me hospedei,
as ruas têm um estilo americano, onde as casas, afastadas
umas das outras, têm jardim e cerca muito baixa. Uma
parte da calçada é gramada e outra possui uma trilha ci-
mentada. A maioria das casas é térrea. E os poucos edifí-
154
cios que vi são bem antigos e muito parecidos com os pré-

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dios da Ilha de São João (subúrbio de Salvador, próximo
a São Tomé de Paripe). A diferença primordial é que os
prédios de Havana não têm grades na frente nem portei-
ros - nem mesmo eletrônicos -, porque não há violência
ou perigo de roubo ou assalto. Fiquei impressionado com
este fato, que se contrapõe à vida em Salvador, onde vive-
mos presos atrás de grades, tal qual animais enjaulados.
Hoje, pelo menos até agora, a temperatura está
amena, ao contrário da temperatura de ontem que, de tão
quente, tirou-me o ânimo de continuar a caminhar e co-
nhecer melhor o bairro. Pretendo passar o dia inteiro fora
de casa, tirando fotos e visitando lugares.
Aqui há três canais de televisão e a programação é
bem diferente do que se vê no Brasil, inclusive não há pro-
pagandas comerciais. As emissoras exibem quase todo o
tempo, programas educativos, aulas de idiomas, de His-
tória, Geografia e assuntos relacionados a Cuba. Há um
noticiário - o “Noticero” - que é transmitido em cadeia
pelos três canais durante a noite. O restante da progra-
mação é composto de shows de músicos cubanos, balé e
tudo o que se refere à cultura e à revolução cubana. À noi-
te, são apresentadas minisséries brasileiras duas vezes por
semana (chamadas de novelas pelos locais). São interca-
ladas com novelas cubanas. Atualmente estão exibindo
Chiquinha Gonzaga e Aquarela do Brasil, minisséries
produzidas pela Rede Globo. Notícias esportivas também
fazem parte da programação, mas os jogos ao vivo nunca
são transmitidos, nem mesmo os da Copa Mundial. Não
Memorial do Inferno

há satélites nem antenas parabólicas em Cuba, para evi-


tar a entrada de imagens e interferências americanas nas
TVs e rádios locais.

9 de Outubro de 2002, 11:35h

Estou em casa. Ontem fui à La Habana. Muito do


que vi deixou-me chocado, pasmo... Todas as informações
e fotos que antes coletara sobre Cuba estavam muito lon- 155

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ge da verdadeira realidade cubana, que eu desconhecia
totalmente. Observando in loco, notei que a dureza da
vida do povo e a pobreza do país são muito maiores do
que se possa imaginar. Tudo, absolutamente tudo, é
antiquado e ultrapassado, desde os carros até os edifí-
cios. As coisas são velhas e mal conservadas. Em con-
traste com toda a pobreza e decadência, porém, há al-
guns prédios em impecável estado de conservação, prin-
cipalmente aqueles onde funcionam as embaixadas.
Também vi carros importados de última geração e es-
tranhei. Fui informado depois que esses carros perten-
ciam a técnicos estrangeiros que trabalhavam no país.
Dificilmente um cubano comum poderia comprar um
carro daqueles, devido ao altíssimo preço. Cabe assina-
lar aqui que, de fato, há carros particulares, mas a mai-
oria deles pertence ao estado.
Tomei uma bebida cubana, muito tradicional e po-
pular, o “Mojito” (pronuncia-se “morrito”). É uma espé-
cie de caipirinha: rum, limão, açúcar, gelo, água mineral
com gás e folhas de hortelã fina. Toma-se com um canu-
do. A bebida é ótima, mas seu preço é salgado: OITO DÓ-
LARES o copo!
Fui comer em um restaurante chinês, mais pareci-
do com aquelas espeluncas da Baixa do Sapateiro (Salva-
dor/BA) do que propriamente com um restaurante. Comi
uma bisteca, um pouco de salada de pepino, uma colher
de arroz e tomei uma cerveja em lata. Preço: QUINZE
DÓLARES.
JESUS

Pelas ruas do bairro onde fiquei todos os dias pas-


DE

sava um homem vendendo pão, iogurte de goiaba e leite


VALDECK A LMEIDA

de soja. Este homem é o “mensageiro”. Cada família tem


um limite máximo de pães para comprar, acho que UM
pão por pessoa. Tudo que se compra deve ser anotado na
“libreta”, uma espécie de caderneta da família. Não po-
dem ultrapassar o limite preestabelecido, para que to-
das as famílias possam comprar, já que a comida é es-
156 cassa no país.

memorial_final_a.pmd 156 26/2/2007, 17:05


Em uma de minhas caminhadas pelo centro de Ha-
vana, tomei uma água de coco que me custou DOIS DÓ-
LARES. O coco era pequeno, feio e murcho, do tipo que
eu jamais compraria se estivesse no Brasil. Tampouco um
vendedor teria coragem de colocar aquele fruto à venda.
Não comi carne bovina nem vi aonde poderia com-
prar. Fui informado de que não deveria comprar carne
nas ruas (não vi ninguém vendendo), pois o cubano que
me vendesse a carne poderia ser preso. É proibido o co-
mércio de carne, exceto nas “carnicerías” (açougues). O
nativo que for pego pela polícia ou for denunciado por
vender carne é preso. No entanto, nada acontece ao turis-
ta que a compra. As pessoas vigiam umas às outras e qual-
quer deslize é logo denunciado. Em cada quadra dos bair-
ros há um “Mayor” (responsável), a quem todos os mora-
dores devem dar informações de tudo o que ocorre na vi-
zinhança. Eles se reúnem uma vez por semana. A dona da
casa onde o turista se hospeda é obrigada a informar nome,
endereço e carteira de identidade de todas as pessoas que
visitam o turista, sob pena de sanção por parte do Estado,
que poderá ser de uma simples advertência e cancelamen-
to da autorização para alugar a casa e até penas mais pe-
sadas. Não obtive informações sobre em que consistiriam
essas penas.
Não há muitas lojas ou vendas/armazéns, nem su-
permercados. Há pequenas lojinhas onde se vende de co-
mida a roupa, tudo muito caro e da pior qualidade. Em
uma das “tiendas” (lojas) mais completas que entrei, en-
Memorial do Inferno

contrei somente coxa de frango, fígado e moela de gali-


nha, tudo de origem brasileira. O arroz era todo quebra-
dinho e custava OITO DÓLARES o quilo, mas mesmo as-
sim era muito mais barato que comer em restaurantes.
Os táxis são do estado; ônibus urbanos são raros.
Os “camelos” - espécie de carreta imensa adaptada para
transportar pessoas -, os trens, os automóveis, tudo per-
tence ao estado. Até mesmo as motos-táxi, umas pareci-
das com laranjas e outras parecidas com aquelas motos 157

memorial_final_a.pmd 157 26/2/2007, 17:05


americanas, com um side-car, pertencem ao estado. Há
ainda as bicicletas-táxi, que cobram mais barato. Estas eu
não sei se pertencem ao estado, mas sei que pagam taxas
de licença para rodar como “táxi”. Ninguém usa cintos
de segurança nos carros. A maioria dos automóveis é
muito antiga, das décadas de 40 e 50. Todos muito ve-
lhos, porém correm bastante. Por dentro, são destruí-
dos e desprovidos de peças, já que ninguém consegue
encontrá-las para reposição. O cheiro de gasolina, muito
forte dentro desses carros, fazia com que eu me sentis-
se mal. A maioria desses veículos é particular e seus pro-
prietários os utilizam como táxi, mediante uma licença
do Estado. Outros transportam pessoas clandestina-
mente, correndo o risco de serem pegos pela polícia e
serem presos.
Os telefones públicos são raros. Para fazer uma li-
gação internacional é necessário comprar um cartão que
custa DEZ DÓLARES, ligar para a telefonista e solicitar a
chamada, que não dura mais de cinco minutos. Ligar de
uma residência é quase impossível, a menos que se co-
nheça, e muito bem, o dono da casa, pois os cubanos têm
medo de perder suas linhas telefônicas, já que as chama-
das telefônicas podem ser gravadas pelo estado, por mo-
tivo de segurança.
Fui informado sobre a cesta básica mensal que cada
família de quatro pessoas tem direito a comprar, a preços
baixíssimos, para garantir que TODOS possam comer, pelo
menos, o necessário. Os que têm dinheiro podem com-
JESUS

prar de particulares, a preços maiores.


DE

A cesta consiste em:


VALDECK A LMEIDA

1 kg de biscoito
20 l de iogurte
20 l de leite
1 kg de sal
158 12 kg de arroz

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2,5 kg de feijão
6 kg de açúcar branco
4 kg de açúcar preto
5 caixas de cigarros (somente para maiores
de 42 anos de idade)
1 l de óleo
2 pacotes de café
4 sabonetes (que devem durar até três meses)
1 creme dental
20 kg de gás de cozinha, a cada 20 dias
4 kg de frango
6 kg de peixe
1 kg de salsicha
1 kg de carne bovina
4 dúzias de ovos
frutas diversas

Mais informações sobre Cuba:

1. El Malecon – uma avenida extensa, que mede


mais ou menos uns oito quilômetros, que liga
Habana Vieja (Centro Histórico) a Vedado
(parte mais moderna), repleta de casarões an-
tigos - muitos precisando de reforma urgen-
Memorial do Inferno

te. Boa parte dos prédios antigos está sendo


restaurada. As construções mais antigas e as
ruas transversais próximas ao centro de Ha-
bana Vieja lembram muito as casas e prédios
do Pelourinho, antes da reforma, e a atual rua
28 de setembro, ambos em Salvador/BA. Não
se pode comentar nada a respeito de política
ou sobre o governo. As pessoas se recusam a
falar, com medo de que alguém as denuncie. 159

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2. As emissoras de rádio funcionam em ondas
médias e curtas, com uma transmissão muito
precária. A programação é baseada em músi-
cas cubanas, política, notícias nacionais e,
uma ou outra vez, colocam uma música es-
trangeira, principalmente brasileira, como
Roberto Carlos e Alexandre Pires, em espa-
nhol.

3. A frota de aviões da empresa cubana é for-


mada por aeronaves antigas e algumas com
problemas no sistema de refrigeração.

4. Em minhas andanças, vi algumas embarca-


ções no porto, que mais parecia um cemitério
de navios do que verdadeiramente um porto.

5. A última moda entre os cubanos é a camiseta


“furadinha”, de cores berrantes, tipo azul,
verde, laranja, rosa e vermelho.

6. Acesso à Internet é uma raridade, se não to-


talmente inexistente. Os cubanos podem aces-
sar “correio eletrônico”, o que não pode ser
chamado de Internet, como é hábito no resto
do mundo, uma vez que não há acesso a sites
estrangeiros e, talvez, nem mesmo a sites cu-
banos. Somente estrangeiros podem acessar
a Internet, a preços desestimulantes.”
JESUS

Viagem para São Paulo com Gal e Eliana


DE
VALDECK A LMEIDA

No ano de 2003, viajei de ônibus, mais uma vez, para São Paulo.
Dessa vez, levei meu irmão Gal, sua esposa Eliana, minha sobrinha
Paulinha e meu filho Junior. Na viagem de volta, uma cena me cha-
mou a atenção. Na verdade, eu já tinha visto esta cena várias vezes,
nas idas e vindas entre Salvador e Jequié. Mas eu queria mostrá-la a
Junior e Paulinha. Queria que vissem aquelas pessoas sentadas à bei-
160 ra da rodovia, com as mãos estendidas. Paulinha perguntou o que elas

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estavam fazendo naquela posição. Falei que estavam pedindo esmo-
las. E ela, surpresa, me perguntou o que significava “esmolas”... Lan-
cei um sorriso de cumplicidade a meu irmão e minha cunhada, e ex-
pliquei a Paulinha do que se tratava. Afinal, tive uma boa experiência
na ação de pedir esmolas.

Natal e Ano Novo em 2003/2004

Devido a uma série de problemas particulares, conflitos, con-


tradições e pirações diversas, além de um assalto a mão armada que
sofri, o final de ano de 2003 para 2004 não foi dos melhores, apesar
de eu ter passado as festas de Natal e Ano Novo rodeado de familiares
em São Paulo. Ao retornar a Salvador, fui forçado pelas circunstâncias
a pedir uma licença não-remunerada de meu trabalho e a trancar meu
curso de Turismo na Faculdade São Salvador.
Passei oito meses enclausurado em mim mesmo, tentando sair
de uma profunda depressão, do poço escuro... Recorri até a ajuda pro-
fissional. Durante esse período, não produzi absolutamente nada, nem
sequer acrescentei uma vírgula a esse livro, já em fase final. Pensei,
repensei, caminhei mentalmente mil vezes o Caminho de Santiago de
Compostela, peregrinei pelas profundezas de minha alma até que, fi-
nalmente, após várias injeções de doses de misericórdia, e também
auxiliado pela terapia TEATRO, com André Mustafá e Marília Galvão
no comando, fui sendo, aos poucos, trazido de volta à vida. E aqui es-
tou, inteiro, completo, repleto de milhões de idéias positivas e rejuve-
nescedoras, pronto para compartilhar com quem quer que venha ao
meu encontro.
Antes de sair desse estado de torpor, praticamente vegetei. Du-
Memorial do Inferno

rante muitos dias eu acordava pela manhã em pânico, triste e depri-


mido, apesar de estar tomando remédios fortíssimos para combater a
doença psicológica. Todas as manhãs eu ouvia músicas de Enya, vindo
de longe, como se o vento as estivesse trazendo para me perturbar.
Aquelas músicas eram as mesmas que eu ouvia ao namorar, ao buscar
me concentrar em meus trabalhos mentais e também quando eu que-
ria ficar em paz. Mas, nas circunstâncias em que eu as estava ouvindo,
era muito contraditório. Elas serviam para me deixar cada vez mais
enclausurado e com medo de sair de casa. 161

memorial_final_a.pmd 161 26/2/2007, 17:06


Nesses momentos de solidão, eu pensava em morrer, em fugir
da cidade, em fugir das pessoas e de mim mesmo. Todos os meus com-
promissos sociais eu cancelava sem motivo justo, ou simplesmente
não comparecia a encontros com amigos e parentes, para não conver-
sar com ninguém.
Busquei, além de ajuda psicológica e psiquiátrica, ajuda espiri-
tual. Freqüentei o Centro Espírita Leopoldo Machado, no bairro da
Boa Viagem, em Salvador, por várias semanas. Ali, eu conseguia um
pouco de paz espiritual, mas, quando retornava para casa, o mundo
caía de novo em minha cabeça. Fui, também, à Federação Espírita, no
Pelourinho, tomar “passes”, que me acalmavam enquanto eu estava
na casa espírita.
Foram muitas noites de fuga, muita desilusão e falta de interes-
se de voltar à realidade... Então eu decidi enfrentar o problema de fren-
te. Parei de tomar os remédios controlados, comecei a sair de casa,
mesmo apavorado. Andei a pé por muitas ruas e praias ditas perigo-
sas, evitando olhar para trás. Meu medo era que alguém estivesse me
seguindo para me matar ou me causar um mal, mas eu enfrentava
esse medo para que ele não me controlasse mais ainda.
Aos poucos fui tomando confiança em mim, acreditando que eu
poderia sobreviver àquele pesadelo. Paulatinamente, eu percebia que
a cada dia melhorava um pouco mais... Até no teatro eu comecei a
sentir que me concentrava mais e mais nos textos e na interpretação.
Após longos oito meses de terapia convencional e não-convencional,
me achei apto a voltar a trabalhar e a levar adiante meus projetos de
vida, que até então estavam estacionados.
Graças a Deus consegui me libertar do medo e da depressão, à
custa de muito esforço e de muita ajuda espiritual. Eu orei muito du-
JESUS

rante várias semanas, buscando fortalecer o meu ego e minha alma,


DE

que tinha passado por uma experiência muito difícil. Finalmente


VALDECK A LMEIDA

entrei em estado de consciência positiva e prossegui minha jorna-


da até hoje. Continuo em busca, cada vez mais, de um equilíbrio
emocional e espiritual.

Natal e Ano Novo em 2004/2005


Praticamente todos os anos eu viajava para São Paulo. E, nos
162
finais de ano, sempre levando minha mãe e mais algum irmão ou pa-

memorial_final_a.pmd 162 26/2/2007, 17:06


rente que ainda não tivessem conhecido a maior cidade do Brasil.
Em 2004, devido aos ensaios de uma peça teatral que estrearia em
breve nas casas de espetáculo de Salvador, preferi não viajar. E foi
um Natal diferente. Passei na casa de Dona Célia, em Monte Gordo.
Conheço dona Célia e sua família há mais de dez anos. Acabei
por adotá-la como mãe e seus filhos como irmãos. Mas, antes mesmo
de me sentir irmão de seus filhos, estes já me consideravam como tal.
E, por incrível que pareça, foi o primeiro Natal em que troquei presen-
tes, como se estivesse no seio da minha verdadeira família, o que, ali-
ás, nunca fizera antes com meus irmãos de sangue. À meia-noite em
ponto, estouramos champanhe, fizemos a ceia, trocamos presentes e
desejamos uns aos outros muitas felicidades e saúde. Depois caímos
todos na piscina, que estava com sua boca azul e aberta, esperando
para nos devorar naquela noite maravilhosa.
Foi um Natal espetacular, regado a sentimento, carinho, respei-
to, amor, afeto e positividade. Os participantes da festa: eu, Dona Cé-
lia e seus filhos Roque e Ivana, suas netinhas Estéfane e Ariana, e os
amigos: Edmar Mascarenhas, Isabela, Vera, Everaldo, Edebaldo, Mei-
re, Érika, Cris e o bebê Eriem, que vieram de Jacobina especialmente
para esta confraternização de final de ano.

Orientação Religiosa

Talvez não coubesse neste livro discorrer sobre “religião”, já que


o que se ouve por aí é que “religião, futebol e política não se discute”.
Mas tenho muito medo do que se esconde por trás de frases como
essas que se perpetuam através da existência humana e que acabam
travando ou atrasando o fluir do pensamento e sua evolução. Não me
Memorial do Inferno

refiro aqui à minha orientação ou crença pessoal, mas a uma visão


mais abrangente do assunto. Estou colocando apenas uma impressão,
enquanto ser único e individual, que é, ao mesmo tempo, influenciá-
vel e influenciador.
Nasci na religião católica, com direito a missas, catecismo, primei-
ra comunhão, crisma e tudo mais, como a maioria dos brasileiros. Diz-se
que todo aquele que não tem religião é católico, o que é bastante discutí-
vel, já que há “católicos” (os praticantes) e “católicos” (os não pratican-
163
tes). Mas o mérito desta questão eu deixo para os doutores no assunto.

memorial_final_a.pmd 163 26/2/2007, 17:06


O que me compete dizer aqui é que eu e todos da minha família
(tudo começou no Jardim do Éden, com meu pai e minha mãe) fomos
católicos por muitos anos. Por força da necessidade de comer e beber
– necessidades básicas do ser humano –, tivemos contato com o Espi-
ritismo Kardecista, atraídos principalmente pelas cestas básicas dis-
tribuídas aos freqüentadores do Centro Espírita Bezerra de Menezes.
Devido às circunstâncias da vida, problemas de saúde, financeiros e
outros, minha mãe acabou voltando aos terreiros de Candomblé, os
quais já havia freqüentado em sua juventude, segundo seus relatos.
Mesclaram-se três religiões a partir de então.
Na minha adolescência, em virtude dos conflitos existenciais,
acabei me perdendo em meio a tantas definições sobre o que era certo
e o que era errado. Busquei refúgio na Igreja Batista Monte Horebe e
me “converti”, amedrontado por aqueles filmes que mostravam o des-
tino dos “infiéis”, que eram queimados no mármore do inferno. Bíblia
na mão, cantor cristão, harpa, livrinho de hinos e idas diárias à igreja.
Levava comigo a família inteira e os vizinhos mais próximos. Depois
“acordei” para outros horizontes e saí da igreja, arrastando todos os
meus SEGUIDORES de volta.
Transcorridos oito ou nove anos desde que passei a morar em
Salvador, conheci pessoas que professavam o Candomblé, que me con-
vidaram para assistir a rituais e participar de festas. E fui. Conheci
várias “roças”, e tinha sempre sensações estranhas em quase todas as
festas das quais participava: tremores, calafrios, tonturas e arrepios.
Fiquei receoso do que poderia resultar essa experiência e preferi dar
um tempo, fora das atividades, para pensar no assunto.
Por ocasião deste tema, gostaria de deixar registrado que minha
mãe era um pouco bruxa. Conhecia e fazia uso com sucesso de inúme-
ras plantas medicinais, pressentia o que estava por vir, tinha visões de
JESUS

acontecimentos futuros, que posteriormente eram sempre comprova-


DE

dos. Isso sempre nos deixou um tanto perturbados, pois nos recusáva-
VALDECK A LMEIDA

mos a acreditar que ela pudesse possuir tais poderes. Mas os fatos
sempre se confirmavam. Tinha planos de escrever um livro, relatando
todo o seu conhecimento a respeito das plantas e de suas proprieda-
des medicinais. Fui adiando, adiando, e hoje me arrependo de não tê-
lo escrito.
Para concluir a questão religiosa, minha mãe morreu espiritua-
164 lista e foi velada numa igreja batista. Minha irmã Valquíria se conver-

memorial_final_a.pmd 164 26/2/2007, 17:06


teu ao protestantismo e hoje freqüenta uma igreja batista. Minha irmã
Ivonete é beata de carteirinha, freqüenta e quase mora na igreja cató-
lica. Está mesmo se tornando uma freira. Os demais irmãos freqüen-
tam qualquer igreja que esteja aberta e na passagem dos seus cami-
nhos. E eu freqüento o Centro Espírita Leopoldo Machado, no bair-
ro da Boa Viagem, em Salvador, e a Federação Espírita da Bahia,
no Largo São Francisco, no Pelourinho. Mas, se for convidado para
assistir a uma missa, irei; para participar de um culto evangélico,
participarei; para ir a uma festa de candomblé, estarei lá, sempre
com a maior boa vontade.

Atualmente

Trabalho ainda no Tribunal Regional do Trabalho, em Salva-


dor. Valquíria (Quira), minha irmã mais velha, mora há oito anos em
Jequié com seu novo marido, Nilson, com quem se casou recentemen-
te. Em oito de novembro de 2004, Quira foi submetida a uma cirurgia.
Quando criança teve complicações de saúde que a deixaram com se-
qüelas sérias. Tinha de ficar amarrada na cama para não cair, pois se
batia o tempo todo. Depois do tratamento médico, ficou boa. Mas o
que ela nem a família sabiam era que o tratamento não poderia ter
sido interrompido. Resultado: teve uma febre reumática e a bactéria
causadora da doença se alojou na válvula mitral esquerda do coração.
Com o passar dos anos, começou a se queixar freqüentemente de can-
saço, falta de ar e outros distúrbios relacionados à respiração e circu-
lação sangüínea. Em janeiro de 2004, Quira resolveu entrar numa aca-
demia de ginástica e, no teste de avaliação física, desmaiou. Procurou
um médico cardiologista especializado, que sugeriu uma valvuloplas-
tia urgente.
Memorial do Inferno

Após vários exames nos hospitais de Salvador e uma espera de


seis meses para que o INSS concluísse o processo de licitação interna-
cional e compra do material a ser utilizado, finalmente conseguiu
marcar sua cirurgia no Hospital Santa Isabel para o dia 20 de setem-
bro de 2004, que foi adiada dois dias antes, sem previsão de nova data
para sua realização. Enquanto a intervenção não acontecia, Valquíria
passava momentos difíceis, com apenas 10% da capacidade da válvula
mitral esquerda em funcionamento. 165

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Em decorrência de várias complicações, foi atendida mais de
três vezes na emergência cardiológica do Hospital Santa Isabel, que
sempre exigia um cheque de R$ 2.000,00 como depósito antecipado
para realizar o atendimento médico. E isso depois de conseguirmos
furar a barreira dos seguranças na entrada da emergência, que só se
preocupavam em perguntar, antes de qualquer coisa: “qual é o convê-
nio médico?”. Por meio de informações diversas, descobrimos que o
Hospital das Clínicas (UFBA) também realizava esse tipo de cirurgia.
E assim conseguimos marcar uma outra data, 28 de outubro de 2004,
que supúnhamos ser definitiva. Porém, fomos surpreendidos, na vés-
pera da cirurgia, com a notícia de que ela teria de ser adiada, sem pre-
visão de nova data, porque o INSS não tinha liberado o material ne-
cessário ao procedimento, que custava mais de R$ 40.000,00.
Pesquisando na Internet, descobrimos o Instituto do Coração
de Cachoeiro do Itapemirim/ES, para onde encaminhei Quira, que
viajou acompanhada de Nete, nossa irmã, para se submeter à cirurgia.
Viajaram no dia 4 de novembro. Quira ficou hospedada em uma casa
de apoio mantida pela comunidade cachoeirense e, no dia 8 de no-
vembro de 2004, foi internada e submetida à intervenção cirúrgica,
que, graças a Deus, foi um sucesso total. Em questão de dias, o proble-
ma, que esperou durante anos por uma solução, chegou ao fim.
Valdecy (China) mora hoje em Vitória da Conquista com o ma-
rido Roberto e o filho Roberto Junior. Foram oito longos anos de es-
pera por uma transferência da Escola Agrotécnica Federal de Santa
Inês/Ba, onde seu marido trabalhava, para o Centro Federal de Edu-
cação Tecnológica de Vitória da Conquista/BA.
Valmir (Mi) mora em São Paulo, com a esposa Célia e os filhos
Ramon e Amanda. Também em São Paulo moram Valdir (Dida), com a
JESUS

esposa Raimunda e a filha Jéssica, e Vitório (Tó), com a esposa Rejane e


os filhos Vítor e Tiago. O primeiro trabalha como porteiro de um grande
DE

condomínio e os demais como chapistas em oficinas mecânicas.


VALDECK A LMEIDA

Vivaldo (Gal) mora em Jequié, com a esposa Eliana e a filha


Paula, e trabalha como chapista em uma oficina mecânica. Nete, caçu-
la e solteira, está fazendo faculdade de Pedagogia em Jequié.
Creio que somos todos vencedores, sobretudo porque não fugi-
mos à luta. De tudo, ficaram lições que disponibilizo aqui como uma
166 espécie de roteiro.

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Roteiro para quem quer vencer na vida:

1. Traçar um objetivo real e plausível, para não se frus-


trar, caso não consiga atingi-lo.

2. Fazer um plano de metas a serem atingidas, a cada


dia ou a cada semana.
3. Caso não consiga concluir o plano diário ou sema-
nal, verificar o que não deu certo para tentar nova-
mente ou mudar de plano.
4. Ter muita paciência, pois o dia-a-dia nem sempre é
estimulante.
5. Ter muita fé naquilo que se propuser a fazer e per-
sistir sempre.
6. Dividir sonhos e objetivos somente com aqueles que
possam lhe ajudar a concretizá-los ou, ao menos,
incentivar-lhe e dar boas dicas.
7. Nunca se lamentar de uma situação difícil, nem usar
os pontos negativos para desistir ou diminuir a luta.
8. Falar muito pouco sobre os planos estratégicos para
a sua caminhada.
9. Sempre dizer “não” a vendedores e promotores de
vendas.
10. Evitar gastos desnecessários com festas, roupas e
diversões.
Memorial do Inferno

11. Estudar e planejar, mesmo nos dias em que não


houver o que comer, e concluir a tarefa do dia a qual-
quer custo.
12. Não passar para a etapa seguinte sem antes con-
cluir a atual.
13. Contabilizar erros, acertos, gastos monetários
etc., a fim de fazer uma análise crítica dos dados
obtidos. 167

memorial_final_a.pmd 167 26/2/2007, 17:06


14. Adotar sempre uma atitude positiva diante da vida
e deixar que esta imagem transpareça ao olhar dos
outros.
15. Não desistir, nunca.
JESUS
DE
VALDECK A LMEIDA

168

memorial_final_a.pmd 168 26/2/2007, 17:06


CONCLUSÃO

O objetivo principal da existência humana é a evolução. Mas


muitas vezes evolução é confundida com conquista de bens materiais
e conforto físico. Acredito, no entanto, que seja um pouco mais que
isso, e que o maior patrimônio que se pode acumular com a experiên-
cia de vida na Terra é o patrimônio espiritual.
Antes de compreender que a vida é curta e efêmera, protestei e
me revoltei. Talvez por isso tenha sofrido alguns revezes relacionados
à saúde, ao amor, à família e a outros aspectos da vida.
Sempre lutando muito – e honestamente, diga-se de passagem
–, consegui superar a barreira da mendicância e passei de pedinte a
esmoler. Mas a brutalidade inata, ou adquirida, ainda permaneceu em
minhas atitudes (e continua até hoje). Isso ocasionou (e ainda ocasio-
na) muitos sofrimentos, mas, atualmente, já não com a mesma inten-
sidade dos tempos passados.
Fui aprendendo, com a experiência, que doar não era o bastan-
te; o ato da doação deve ser precedido por uma verdadeira vontade de
doar. Tentei, e tento ainda, praticar a doação com desprendimento,
Memorial do Inferno

sem culpa, sem querer barganhar com os céus. E, com isso, tenho per-
cebido que minha vida vem se transformando para melhor, à medida
que avanço nessa prática. Essa doação não deve ser necessariamente
compreendida com o ato de retirar algo físico de meu patrimônio para
dá-lo a outrem. Deve ser compreendida, sobretudo, como o ato de doar
sabedoria, aconselhamento, atenção, tempo, um olhar de cumplicida-
de, um ombro amigo...
Após esse estágio de quarenta anos de vida, tornei-me uma
pessoa mais humana, mais verdadeira, mais tolerante e mais poli- 169

memorial_final_a.pmd 169 26/2/2007, 17:06


da, apesar de ainda estar muito longe do ideal. Mas já é um bom
começo. Quem sabe na próxima encarnação a evolução aconteça
mais rapidamente...
JESUS
DE
VALDECK A LMEIDA

170

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HISTÓRIAS BIZARRAS

Jequié/Ba

Mordida no Braço
de Dida

Uma vez estava com ele, recém-nascido, no colo, andando pelos


arredores da casa, mordendo-lhe a camisa recém-trocada por minha
mãe. E eis que meu dente pegou no braço do menino, que começou a
gritar desesperado. Minha mãe veio pra me bater, mas, como não sa-
bia o que havia ocorrido ao certo, desistiu. Nem percebeu a marca do
meu dente no braço dele...

Choque elétrico

Uma vez estávamos eu e minha mãe pedindo esmola nas ruas.


Ela entrou numa lanchonete, onde havia um balcão de vidro com
uma lâmpada para iluminar as mercadorias. A lâmpada ficava na
Memorial do Inferno

parte externa do balcão e, ao lado dela, havia um bocal sem lâmpa-


da, no qual minha curiosidade infantil levou-me a enfiar o dedo.
Tomei um choque elétrico brutal, que me fez cair ao chão e chorar
muito. O pessoal da lanchonete me socorreu. Passaram manteiga
em meu dedo e me deram sorvete para acalmar. A lanchonete ain-
da fica no Maringá, perto de um posto de gasolina, guardando mi-
nhas histórias de menino.

171

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Pegador de Menino
e Tirador de Sangue

Uma das pérolas do folclore popular, alimentada pela ignorân-


cia das pessoas, era a lenda dos “pegadores de menino” ou “tiradores
de sangue”, que supostamente andavam pelas ruas dos bairros pobres
tentando atrair crianças com balas e doces, para depois seqüestrá-las
e tirar seu sangue. Segundo os mais velhos, havia uma “carneira” no
cemitério da cidade, que sangrava o tempo todo, e o sangue tirado das
crianças seria usado para lavar essa carneira, numa espécie de ritual
para purificar pecados e maldades do morto, que seria um bruxo ou
algo que o valha. Eu ouvia essas histórias tanto em Jequié quanto na
fazenda onde morei. Dizia o povo que esses malfeitores colocavam as
crianças em sacos grandes e as levavam para bem longe. Este argu-
mento era usado, principalmente, para amedrontar os meninos, de-
sestimulando-lhes a vontade de sair de casa. Na fazenda onde vivi dos
meus sete aos doze anos, cansei de ouvir essas histórias, e só depois de
muitos anos consegui estabelecer um paralelo entre o folclore e a rea-
lidade. Os homens da SUCAM - atual Fundação Nacional de Saúde,
empresa governamental que realiza exames de sangue e também in-
vestiga se há focos de dengue nas residências – encaixavam-se perfei-
tamente nas características dos “pegadores de menino” e dos “tirado-
res de sangue”. Por esta razão, eram muitas vezes mal compreendidos
pela população.

Lobisomem

Tínhamos muito medo de lobisomem. Quando eu era criança


toda noite aparecia alguém unhando a porta e a janela da casa de
JESUS

Amanda, onde morávamos. Minha mãe dizia que era “ele”, querendo
pegar crianças sapecas... Eu ficava apavorado, acreditando ser a mais
DE

pura verdade. A lenda do lobisomem é muito comum nas cidades do


VALDECK A LMEIDA

interior.

Meu anel preferido

Junto à casa de Amanda, onde morávamos, havia a casa da Ana


172
de Antônio Cego. Eu e meus irmãos costumávamos brincar por lá com

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os filhos dela. Certa vez, apareceram na casa umas moças que toma-
ram meu anel. Era um anel bem simples, sem valor algum. Mas era
meu, e eu o tinha no dedo há muito tempo. Porém, a forma com que
me roubaram o anel, forçando-me a tirá-lo do dedo, marcou-me para
sempre. E jamais me esquecerei desta mágoa e deste dia.

Achei um dinheiro

Quando tinha meus doze anos, costumava ir à feira livre com


meu pai. Num belo dia de sorte, na avenida Franz Gedeon, encontrei
uma cédula de dez cruzeiros. Estava molhada, estirada na calçada. Eu
peguei a cédula e mostrei a meu pai, que a guardou com muito cuida-
do no bolso direito, para que não fosse destruída pelos movimentos
da perna da calça. Pelo tanto de compras que ele fez com aquele di-
nheiro, a nota devia valer bastante.

Carrinho de rolimã

Todos os garotos de minha idade, ou mais velhos, possuíam um


carrinho de rolimã. Era uma tábua com duas rodinhas atrás e uma na
frente, onde cada um se sentava e era empurrado por alguém nas cal-
çadas ou no asfalto. Muitos acidentes aconteciam quando algum me-
nino caía ou quando o carrinho quebrava. Com rolamentos que achei
nos lixos das oficinas mecânicas, construí meu carro de rolimã. Meus
irmãos ficavam com muita raiva, e com razão. Obrigava-os sempre a
me empurrar rua acima e rua abaixo no carrinho, mas, quando chega-
va a minha vez de empurrá-los, eu sempre dava uma desculpa para
escapar daquele encargo.
Memorial do Inferno

Caminhada até
a Barragem
Nunca gostei muito de ficar em casa parado. Por isso, em certa
ocasião, chamei meus irmãos Mi, Tó e Dida para fazermos uma cami-
nhada de Jequié até a Barragem de Pedras, situada a mais ou menos
uns trinta quilômetros do centro da cidade. O sol estava escaldante e,
no meio do caminho, a fome apertou. Sem muitas opções, fomos co- 173

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mendo tudo o que encontrávamos pela estrada, de casca de melancia
a laranja estragada. Na volta, ainda subimos no Morro do Totonho,
onde ficam instaladas as torres de transmissão de TV e rádio da cida-
de. Resultado: chegamos desidratados em casa e a maioria de nós teve
febre e vômitos.

Acidentes com Nete

Quando Nete - minha irmã mais nova - era criança, comeu fo-
lhas de uma planta venenosa que minha mãe tinha dentro de casa. Era
cocó, uma planta verde com pintas brancas espalhadas pelas folhas.
Ela ficou espumando e foi levada ao hospital passando mal. Mas, gra-
ças a Deus, o socorro foi rápido e eficiente e Nete sobreviveu a mais
uma perigosa aventura infantil.
Mais uma aventura de Nete: quando tinha dois anos de idade,
bebeu água sanitária Q-Boa. Não me lembro de maiores detalhes des-
se outro incidente em que Nete se meteu. Só sei que ela passou muito
mal e foi levada ao hospital regional para ser medicada. Ficou interna-
da e depois foi liberada. Depois desse episódio, nós a apelidamos de
“Q-boa”. Ela ficava muito chateada quando a chamávamos assim.

Roubo de doces

Lembro de uma vez que fui ao Supermercado Cardoso comprar


um doce. Tinha dinheiro somente para um pacotinho. Abri um pacote
e comi a metade, depois o joguei na prateleira e peguei outro pacote
inteiro. Fui direto ao caixa, todo desconfiado, mas, antes de pagar pelo
pacotinho de doce, o segurança do mercado apareceu com o outro que
eu tinha furado e jogou em cima do guichê do caixa, para que eu pa-
JESUS

gasse. Como o dinheiro não era suficiente para dois pacotes, deixei os
DE

dois no mercado e fui em casa buscar mais para pagar e resgatar os


VALDECK A LMEIDA

doces. Até hoje não voltei nem para pagar nem para receber o pacote
de doce, mas aprendi a lição.

A calça de Memésio

Memésio, meu padrinho, era gordo como uma baleia. Uma vez,
174
ele deu algumas roupas usadas para que minha mãe cortasse e fizesse

memorial_final_a.pmd 174 26/2/2007, 17:06


roupas para nós. Para se ter uma idéia do tamanho do homem, uma
calça dele, somente, se transformou em três calças para mim e ainda
sobrou tecido.

Miguel, o filho de Odília

Havia um campinho de bola em frente à casa em que morá-


vamos, onde os moleques sempre jogavam baba no final da tarde.
Eu, perna de pau de carteirinha, só olhava. Um dia, Miguel, o filho
de Dona Odília, chutou a bola com muita força em cima de mim.
Reagi, dando-lhe uns bons tabefes e murros. Esta foi uma das ra-
ríssimas brigas em que me meti contra outros rapazes. Depois fize-
mos as pazes. Em outra oportunidade, nós nos encontramos num
jogo de futebol. Jogávamos em times diferentes, para sorte dele.
Eu nunca conseguia passar a bola para os jogadores do meu time,
mesmo estando eles vestidos com camisa igual. Sempre tive pro-
blemas de coordenação. Conclusão: meu time acabou perdendo e
eu fui expulso porque, de uma forma ou de outra, acabava ajudan-
do o time adversário.

Caderninho de gastos

Durante muitos anos usei um caderninho onde anotava todas


as minhas transações comerciais, ou seja, tudo o que envolvia gastos e
ganhos de dinheiro. Era uma forma de controlar meu orçamento. Na
prática, não deixava de ser uma contabilidade rudimentar, pois, atra-
vés desses lançamentos, tinha idéia do quanto possuía, do quanto po-
deria gastar e com o quê. Um simples picolé que eu comprasse ficava
Memorial do Inferno

ali registrado, para não me esquecer que, naquela semana, eu já tinha


chupado um picolé e não deveria comprar outro, incorrendo assim em
“gasto extra” com guloseimas. Foi um tempo muito difícil, mas apren-
di a controlar minhas modestas finanças. Hoje já não há necessidade
dessas anotações, tampouco possuo planilhas eletrônicas para acom-
panhar minha vida financeira. A própria experiência de vida me deu
bases para este controle, onde evito não me envolver em empreendi-
mentos mirabolantes ou em compras de bens desnecessários, que pos-
sam comprometer meu equilíbrio financeiro. 175

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A cabra

Minha mãe ganhou uma cabrita de presente e levou para criar


em casa cujo quintal não era murado. A pobre da cabrita tinha que
viver amarrada a uma corda durante todo o tempo. Quando o sol esta-
va muito quente, minha mãe colocava-a dentro de casa, fazendo o
mesmo também à noite, para que a cabra dormisse protegida dos la-
drões que moravam no bairro Pau Ferro. Em fotos de família ainda
podemos ver minha mãe sentada em sua cadeira de rodas com a cabra
no colo.

Feira do Cardoso

Minha mãe pedia esmolas em frente ao Supermercado Cardoso,


no Centro da cidade de Jequié. Todos os dias, um de nós a levava até
a porta do supermercado. Isso fez com que ela passasse a conhecer
o dono do estabelecimento, que passou a doar-lhe uma cesta básica
por semana. Esta cesta de comida sustentou a família inteira por
muitos anos.

Pinduca

Na época em que moramos no bairro Pau Ferro, por volta de


1987, nosso gosto musical era muito influenciado pelo que ouvíamos
na casa dos vizinhos. Assim, nós nos encantamos pelas músicas de
Pinduca, tocadas nas radiolas de quase todos os moradores do bairro.
Até encomendei uma edição antiga do disco de vinil dele, numa em-
presa que fazia regravações de sucessos antigos. A sede da empresa
JESUS

era em São Paulo e o disco foi enviado pelo correio. Foi uma festa.
Ouvíamos esse disco todos os dias, repetidamente. E, nos finais de
DE

semana, colocávamos as músicas de Pinduca para tocar na radiola, na


VALDECK A LMEIDA

porta de casa, do lado de fora. Era uma radiola pequena, daquelas com
uma tampa que, quando fechada, se transformava numa espécie de
maletinha. Tão pequena que tínhamos de abri-la completamente para
que o disco pudesse tocar. Nesse bairro, onde somente moravam pes-
soas muito pobres, o costume era colocar o som do lado de fora. As-
sim, toda a vizinhança era obrigada a ouvir as músicas que estivessem
176
tocando na casa de alguém.

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Percevejos

Durante toda a nossa vida fomos perseguidos pelos percevejos.


Somente quando passamos a morar em nossa primeira casa própria,
no loteamento Itaygara, começamos a nos livrar dessa praga. Desde
criança convivi com os percevejos. Eles nos acompanhavam por todas
as casas onde morávamos. Ou levávamos os nossos, ou encontráva-
mos percevejos novos nas casas onde passávamos a habitar. Era uma
coisa terrível. Eu tinha uma espécie de alergia a percevejos e quase
não conseguia dormir quando atacado por eles. Mais terrível ainda
era o mau cheiro que deles exalava quando os espremíamos para matá-
los. As casas onde morávamos sempre ficavam com as paredes pinta-
das de sangue, pois os matávamos onde quer que estivessem. Mas,
por mais que os matássemos, nunca conseguíamos nos livrar desses
insetos horrorosos. Entranhavam pelas frestas das paredes e dos mó-
veis, escondendo-se da claridade do dia. Só apareciam à noite, para
infernizar nossa vida e sugar nosso sangue. Nessa casa do Mandacaru,
eles começaram a desaparecer. Havia na sala um sofá velho, que tinha
somente a carcaça de madeira e um colchão deformado que servia de
almofada. Esse sofá velho servia de cama para nós e para um cachorro
chamado Rex, que criávamos. Todos os dias, minha mãe colocava essa
carcaça ao sol para que os percevejos começassem a sair das frestas do
sofá, pelo efeito do calor. Em seguida, ela jogava água fervente sobre o
sofá e matava centenas deles. Com o tempo, os percevejos foram fi-
cando cada vez mais raros, até desaparecerem por completo de nossas
vidas, após mais de 25 anos de perseguição.

O beliche que Paula construiu


Memorial do Inferno

Nesta casinha do bairro Mandacaru o espaço era exíguo e cada


centímetro muito importante. Como não havia onde colocar camas
para todos, minha mãe acabou “construindo” um beliche com as ca-
mas velhas que possuíamos. Amarrou com paus e arames uma cama
sobre outra e fez um beliche até o teto. Certa noite, Tó acordou gritan-
do, desesperado, dizendo que tinha um olho nas telhas a lhe espreitar.
Ele estava dormindo no último dos beliches, que ficava quase colado
ao telhado. A luz da lua passava pelo buraco de uma das telhas, fazen-
do-o imaginar que seu reflexo era um olho. 177

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Clínica São Vicente

Uma ocasião, Nete, nossa irmã caçula, foi internada na Clínica


São Vicente, com febre e diarréia. Minha mãe voltou para casa e reu-
niu toda a família. Pegou lençóis, cobertores, sacolas de roupas e mais
alguns apetrechos e levou-nos todos para lá. Chegando à clínica, en-
tramos e nos acomodamos na enfermaria onde minha irmã estava in-
ternada. Tomamos banho nos banheiros da clínica, jantamos, assisti-
mos TV e depois nos acomodamos nas camas destinadas aos pacien-
tes internados. A festa não durou muito. Quando as enfermeiras per-
ceberam que havia somente uma pessoa doente e que as demais fazi-
am parte da família, expulsou-nos de lá.

Penico de bosta

Meus irmãos contam uma cena muito cômica. Não tínhamos


sanitário em casa, até porque não havia esgotamento sanitário no re-
cém-lançado bairro Itaygara, onde morávamos. Assim, cada morador
se virava como podia para satisfazer suas necessidades fisiológicas. A
maioria usava o matagal próximo à sua casa ou então enchia sacos de
bosta e jogava-os no mato - os chamados “aviões”. Vitório, um de meus
irmãos, preferia cagar atrás do muro que fizemos para cercar a casa.
Tínhamos um penico, que era usado durante toda a noite e despejado
no mato na manhã seguinte. Só que todos se recusavam a descarregar
o penico, alegando não terem feito uso do dito-cujo durante a noite.
Sobrava para minha mãe, como sempre, que despejava o penico por
cima do muro. Num belo dia, quando Vitório estava agachado atrás do
muro, cagando compenetradamente, o penico foi despejado subita-
mente em sua cabeça. Ele ficou furioso. Xingou feito louco e ainda
JESUS

teve que caminhar quase um quilômetro até o rio de Contas, para to-
mar banho e tirar o fedor de bosta do corpo.
DE
VALDECK A LMEIDA

Escorpiões

Nossa casa foi a primeira a ser construída no bairro Itaygara e


era cercada de mato por todos os lados, exceto na frente. E o lotea-
mento era infestado de escorpiões. Tomávamos todas as precauções
178
possíveis, mas não pudemos escapar da fatalidade: Quira, ainda grá-

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vida de Murilo, foi picada por um escorpião e levada às pressas para o
hospital regional. Semanas mais tarde, minha mãe foi a vítima seguinte
do inseto. Felizmente, o socorro foi rápido e eficiente, em ambas as
oportunidades, o que ensejou recuperação rápida tanto de minha irmã
quanto de minha mãe.

China em Salvador

China foi uma das pessoas da família que menos conviveu den-
tro de casa com os irmãos, já que passava a maior parte de seu tempo
trabalhando em casas de família. Se não era em Jequié, era em Salva-
dor. Quando foi morar na casa de uma moça na Politeama, China en-
viava-nos muitas cartas, dizendo que se sentia muito triste e que não
agüentava viver longe da família. Falava que era tratada a pão e água
na casa onde vivia e das situações constrangedoras por que tinha de
passar. Queixava-se que, quando as visitas a confundiam com alguém
da família, tratavam-na muito bem. Mas, tão logo descobriam que ela
era apenas uma empregada doméstica, mudavam radicalmente sua
forma de tratamento.

Vitório e Dida em Ilhéus

Vitório não estava gostando muito do salário que recebia na ofi-


cina mecânica onde trabalhava em Jequié, por volta do ano de 1992, e
resolveu ir para Ilhéus tentar vida nova. Levou apenas uma sacola plás-
tica com um par de bermudas e outro de camisas, além de uma sandá-
lia havaiana e objetos de uso pessoal, como escova e pente. Tinha so-
mente o dinheiro da passagem de ida.
Memorial do Inferno

Contou-nos depois que, ao chegar a Ilhéus, arrependeu-se e queria


voltar para Jequié. Mas não podia, pois não tinha dinheiro da passagem.
Disse que pensou que a cidade era apenas a rodoviária e alguns barracões
que estavam enfileirados ao longo da rodovia. O centro da cidade fica
distante dali, e quem chega à cidade não tem idéia do quanto é linda.
Ele ficou por ali mesmo, conseguiu um trabalho em uma oficina me-
cânica e se instalou na cidade. Um mês depois, Dida resolveu também
viajar para Ilhéus. Os dois sempre viveram muito próximos, até mes-
mo por causa da semelhança de idade e de profissão. 179

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Meses depois, fui visitá-los na nova cidade. Fiquei morrendo de
pena dos dois. Dormiam dentro de uma carcaça de carro, que nem
janela possuía. Era algo desumano. Tive uma conversa séria com eles,
mas não deixei transparecer que estava com dó, pois sabia que aquele
sofrimento, de alguma forma, significava um estágio necessário na vida
deles e que logo passaria. Além disso, aquela situação poderia vir a se
transformar em mais um estímulo para que continuassem a lutar por
uma vida melhor.
Em outra oportunidade, visitei-os novamente. Notei que, desta
vez, tinham passado a um estágio superior: moravam dentro de um
barraco de madeira, com fogão, cama e alguns pratos. Ali também
moravam centenas de guaiamus, que à noite saíam dos buracos no
chão para devorar qualquer tipo de comida que encontrassem. Chega-
vam até a lascar os sacos de feijão ou de outros cereais que estivessem
em local próximo ao chão.

Salvador/Ba

Joanita

Conheci Joanita durante um curso que eu fiz em Salvador.


Eu ainda morava em Jequié, nessa época. Ela trabalhava da 14ª
Vara do Trabalho como secretária de audiências. Procurava-a sem-
pre que viajava a Salvador, e passávamos horas conversando. Joa-
nita dizia que tinha muita vontade de engravidar, mas temia ter
problemas no parto, pois sofria de anemia falciforme. A vontade
foi maior que o medo, e, após inúmeras tentativas, ela engravidou
e morreu de parto. Senti bastante sua morte. Joanita foi uma das
pessoas com quem mais me identifiquei no trabalho. Era uma fun-
JESUS

cionária muito dedicada; não tinha tempo nem para fazer as com-
DE

pras de casa durante o dia, era obrigada a ir aos mercados à noite.


VALDECK A LMEIDA

Por causa de tanta dedicação, não viveu a vida, só trabalhou. Outra


lição para minha vida: aproveitar as oportunidades, me divertir,
visitar amigos e parentes, mesmo quando o tempo parecer escasso.
A vida passa muito rapidamente. Muita gente espera para vivê-la
depois de se aposentar. Esquecem-se de que nem todos conseguem
chegar à aposentadoria, ou que podem chegar lá com várias limita-
180 ções impostas por problemas de saúde.

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Primeira viagem de avião

Morando em Salvador, costumava sempre viajar para o interi-


or, principalmente nos feriados prolongados e durante as férias. Ti-
nha uma imensa vontade de viajar de avião e resolvi realizar meu de-
sejo. Fui para Ilhéus de ônibus e voltei de avião. O vôo durou apenas
vinte minutos, mas marcou toda a minha vida. Não senti medo algum,
sempre soube que aquele era o meio de transporte mais seguro do
mundo. Mas que deu um friozinho na barriga... Ah, isso deu. Este so-
nho foi realizado em dezembro de 1993.

A terceira moto

Comecei a pagar um consórcio de moto, na intenção de usá-lo


como investimento para futuramente comprar um outro apartamen-
to. Não gostaria de viver para sempre num prédio com permanentes
problemas de elevadores e de abastecimento de água, como era o caso
do Edifício Crescenciano dos Santos. Ao ser contemplado, fui buscar o
veículo. Mas não tive coragem de pilotar a moto até minha casa. Pa-
guei uma pessoa para trazê-la. Chegando ao edifício, subi para o sexto
andar com a moto no elevador. Foi um trabalhão danado, mas acabei
sendo bem-sucedido em mais esta proeza.

Iraci

Conheci uma colega de trabalho chamada Iraci. Ela sempre foi


muito engraçada. Chegava ao setor onde trabalhava, animando o am-
biente com suas expressões personalizadas: “Qual o significado da
Memorial do Inferno

mesma?”, “Algo a declarar?”, “Não se afobeis”. Iraci é uma pessoa muito


interessante e de um coração enorme. Ela é muito conhecida no TRT
da 5ª Região, pela sua alegria e pelo alto astral que espalha por
onde passa. Trabalhou por muitos anos ali e depois se aposentou. É
a única pessoa em cuja casa eu me sinto como se estivesse em mi-
nha própria. Nossas famílias se conhecem e todos nós nos senti-
mos como se fôssemos velhos conhecidos. Sempre que posso vou à
sua casa bater papo ou comer um belo prato de feijoada, que ela
sabe preparar como ninguém. 181

memorial_final_a.pmd 181 26/2/2007, 17:06


Pagando micos

Certa feita conversava com alguns colegas de trabalho sobre


comida, café e coisas afins. Falava que gostava de tudo, exceto de café
“resquentado”. O pessoal começou a gargalhar, corrigindo-me em se-
guida. Mas eu estava convencido de que era assim mesmo que se fala-
va, aprendera o termo em Jequié. Fui ao dicionário, tirei minha dúvi-
da e paguei mais um grande mico.
Em uma outra conversa, desta vez sobre festas de aniversário,
começamos a falar de festa de quinze anos, e comentei que ainda não
tinha pensado na festa de quinze anos de meu filho. Mais uma vez fui
alvo de risos. Ensinaram-me então que não era comum rapazes faze-
rem festa de quinze anos, quando muito de dezoito.
JESUS
DE
VALDECK A LMEIDA

182

memorial_final_a.pmd 182 26/2/2007, 17:06


SOBRE O AUTOR

VALDECK ALMEIDA DE JESUS é funcionário público federal,


nascido em 15 de março de 1966 em Jequié/BA, onde viveu até os seis
anos de idade, quando foi residir na Fazenda Turmalina (região de
Itagibá/BA), onde continuou a estudar até os 12 anos de idade.

Aluno exemplar, retornou a Jequié/Ba para se matricular na 5ª


série do primeiro grau. Ingressou na Faculdade de Enfermagem da
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia em 1990, desistindo de
continuar o curso. Prestou vestibular para Letras, na mesma universi-
dade, no ano seguinte, onde concluiu apenas o primeiro semestre.

Por motivos financeiros e outros, resolveu se transferir para


Salvador, onde reside desde fevereiro de 1993. Na capital, fez cursos
de Informática, Relações Humanas e Fotografia. No exterior, fez ain-
da um curso de Espanhol, em Madri, por um período de dois meses, e
um curso intensivo de Inglês, em Nova York, também com duração de
dois meses, complementando os três anos do curso de Inglês iniciado
em Salvador.
Memorial do Inferno

Em 2003, iniciou o curso de Turismo, concluindo três semes-


tres, na Faculdade São Salvador, e um cursinho de teatro por um ano
e meio.

Suas habilidades na área literária valeram Menção Honrosa, em


1989, no 1° Concurso Nacional de Poesia, promovido pelo Instituto
Internacional da Poesia de Porto Alegre/RS e no Concurso Literário
Oswald de Andrade, promovido pela Universidade Estadual do Sudo-
este da Bahia, em 1990, na cidade de Jequié/BA.
183

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Possui poemas publicados
nas antologias:

Poetas Brasileiros de Hoje -1984,


Editora Shogun Arte, Rio de Janeiro,
1984.

Transcendental, Editora Gráfica da


Bahia, Salvador, 1986.

II Antologia Cultural: 500 Anos de


Língua Portuguesa no Brasil, Editora
Clube de Letras, Barra Bonita/SP,
2005.

Antologia de Poetas Brasileiros


Contemporâneos, 14º volume, Câmara
Brasileira de Jovens Escritores, Rio de
Janeiro, 2005.

Antologia de Poetas Brasileiros


Contemporâneos, 15º volume, Câmara
Brasileira de Jovens Escritores, Rio de
Janeiro, 2005.

Letras Libertas - Contos, Crônicas e


Poesias - Vol 2, Editora Ilha das Letras,
Santa Catarina, 2005.
JESUS

XV Concurso Internacional Literário


DE

de Verão, Editora Agiraldo, São Paulo


VALDECK A LMEIDA

2005.

Sangue, Suor e Lágrimas, Arnaldo


Giraldo Editor, São Paulo, 2006.

Palavras que Falam, Editora Scortecci,


184 São Paulo, 2005.

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Todas as Formas de Amar, Casa do
Novo Autor Editora, São Paulo, 2005.

O Amor na Literatura, São Paulo, Casa


do Novo Autor Editora, 2005.

Livro de Ouro da Poesia Brasileira


Contemporânea, Câmara Brasileira do
Jovem Escritor, Rio de Janeiro, 2005.

VII Antologia Nau Literária, Komedi


Editora, Campinas/SP, 2005.

Poetry Vibes, Editora Poetry Vibes,


Ohio, USA, 2005.

20 Anos de Poesia - Caderno 32, Oficina


Editores, Rio de Janeiro, 2005.

Pérgula Literária - VII, Editora EVSA,


Rio de Janeiro, 2005.

Amor, Sublime Amor, Editora Litteris,


Rio de Janeiro, 2006.

Ensaios Poéticos, Academia Virtual


Brasileira de Letras, Rio de Janeiro,
2005.

X Coletânea Komedi, Editora Komedi,


Memorial do Inferno

Campinas/SP, 2006.

Participação no V Fórum Social


Mundial, em Porto Alegre/RS - 26 a 31
de janeiro de 2005.

Expositor, como escritor independente,


da VII Bienal do Livro da Bahia, em
setembro de 2005, em Salvador/Ba. 185

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Fundador e presidente do Primeiro Fã-
Clube Oficial do Jean Wyllys, cujo site
é www.jeanwyllys.com.

Livros publicados:

Heartache Poems. A Brazilian Gay


Man Coming Out from the Closet,
Editora iUniverse, New York, USA,
2004.

Feitiço Contra o Feiticeiro, Editora


Scortecci, São Paulo 2005.

Jamais Esquecerei do Brother Jean


Wyllys, juntamente com Edmar José
Mascarenhas da Silva e Karina Schill,
Casa do Novo Autor Editora, São Paulo,
2005.

Memorial do Inferno. A Saga da


Família Almeida no Jardim do Éden,
1ª edição, Editora Scortecci, São Paulo,
2005.
JESUS
DE

1ª Antologia Poética Valdeck Almeida


VALDECK A LMEIDA

de Jesus, Casa do Novo Autor Editora,


São Paulo, 2006.

Tem poemas publicados em jornais de grande circulação da ca-


pital e do interior do estado da Bahia, além dos jornais de Brasília/
186 DF; Colaborador, desde 1985, do jornal A Prosa, Brasília/DF.

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Organizador do projeto Antologia Poética Valdeck Almeida de
Jesus, que publica e divulga poetas do Brasil inteiro, em edição anual,
já no segundo ano.
Membro da Federação Canadense de Poetas desde 2004 e da
União Brasileira de Escritores desde 2005.
Participante ativo, nos anos oitenta, da Diretoria Regional do
Partido Comunista do Brasil, em Jequié/BA, em 1987 foi eleito o pri-
meiro diretor de imprensa do Grêmio Estudantil Dinaelza Coqueiro,
do Instituto de Educação Régis Pacheco, sendo o fundador do jornal
Jornada Estudantil.
Poeta e escritor, filho de Paula Almeida de Jesus e de João Ale-
xandre de Jesus, já falecidos.

E-mail de contato: valdeck@hotmail.com

Memorial do Inferno

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Incentivando novos
talentos literários!

Esta obra foi composta nas fontes Bernhard Bold Condensed BT


e Geogia. Impressão em papel Cartão Supremo 250g/m 2 (capa)
e papel Offset 75g/m 2 (miolo).

memorial_final_a.pmd 190 26/2/2007, 17:06