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ARCADISMO

Século XVIII

Arcadismo no Brasil (1768)

Profa. Dra. Rafaela Sanches


Jacques -Louis David

“Marte desarmado por


Vênus e as Três
Graças” (1824)
L’Amour à la campagne (1730),
Jean-Antoine Watteau:
Saudação à Arcádia Ultramarina (1768),
De Cláudio Manuel da Costa

Enfim eu vos saúdo,


Ó campos deleitosos,
Vós, que à nascente Arcádia em grato estudo
Brotando estais os loiros mais frondosos;
Já sinto que respira
Uma aura em nós suave;
Orfeu pulsa de novo a doce lira,
LIRA
● Lira: é um instrumento de cordas conhecido pela sua
vasta utilização durante a antiguidade. As récitas poéticas
dos antigos gregos eram acompanhados pelo seu som, ainda
que o instrumento não tivesse origem helênica. Os mestres
propostos pela mitologia grega eram: Orfeu, Museu e
Tamíris.
Esse nome Arcadismo, vem de Arcádia, uma região da Grécia antiga (Centro do
Peloponeso), habitada por pastores e transformada pelos poetas antigos no lugar
ideal da vida simples, da inocência e da felicidade. O Arcadismo foi um movimento
artístico e literário que cultivava os padrões estéticos da Antiguidade Clássica, em
repúdio aos valores do clero e da nobreza. Em meados do século XVIII, a Europa
passou por profundas transformações: o progressivo descrédito das monarquias
absolutas, a decadência da aristocracia feudal; o crescimento do poder da burguesia,
a chamada Revolução Industrial que se iniciou na Inglaterra; todas transformações
que ocorreram devido aos ideais da Revolução Francesa que fermentou o mundo
inteiro.

- quadro de transformações sociais, econômicas e políticas

... a primeira Arcádia foi fundada em Roma, em 1690, por alguns poetas e críticos
que já antes costumavam reunir-se nos salões da ex-rainha Cristina da Suécia. O
programa comum era “exterminar o mau gosto onde quer que se aninhasse”;
[...] Os sócios tomavam nomes de pastores gregos ou romanos. (BOSI, 1997, p.
61).

In: OS ÁRCADES INCONFIDENTES NO BRASIL E AS REFORMAS POMBALINAS (artigo)


ARCÁDIA ULTRAMARINA (antes de 1769)

Trata-se de uma sociedade literária fundada na cidade de


Vila Rica (MG), influenciada pela Arcádia italiana e
cujos membros adotavam pseudônimos, isto é, nomes
artísticos de pastores cantados na poesia grega ou latina.
[...] promovendo a renovação do pensamento em Portugal, manifesta
no surgimento de academias. Laboratórios, traduções e edições
importantes. Nas ciências, tal renovação corresponde à adoção do
método cartesiano e da física de Newton; em filosofia, equivale á
superação da Neoescolástica em favor do experimentalismo inglês;
nas letras, manifesta-se na assimilação da poética de Boileau e na
censura generalizada à poesia seiscentista, sobretudo em sua vertente
gongórica. (TEIXEIRA, 1999, p. 23).

TEIXEIRA, I. O mecenato pombalino e poesia neoclássica.


• o Arcadismo também pode ser visto como bagagem
ideológica e de poder da Ilustração - engloba a Ilustração).

Por Ilustração, entende-se o conjunto de tendências


ideológicas próprias do século XVIII, de fonte inglesa
e francesa na maior parte: exaltação da natureza,
divulgação apaixonada do saber, crença na melhoria
da sociedade por seu intermédio, confiança na ação
governamental para promover a civilização e o bem-
estar coletivo. Sob o aspecto filosófico, fundem-se
nela racionalismo e empirismo; nas letras, pendor
didático e ético, visando empenhá-las na propagação
das Luzes (CANDIDO, 2000, p. 41).
In: CANDIDO, A. A formação da literatura brasileira
As influências arcádicas, que englobam o
Classicismo e a Ilustração,

se manifestaram nas concepções e no esforço


reformador de certos intelectuais e administradores,
enquadrados pelo despotismo relativamente esclarecido
de Pombal. Seja qual for o juízo sobre este, sua ação foi
decisiva e benéfica para o Brasil, favorecendo atitudes
mentais evoluídas, que incrementariam o desejo de
saber, a adoção de novos pontos de vista na literatura e
na ciência, certa reação contra a tirania intelectual do
clero e, finalmente, o nativismo (CANDIDO, 2000, p.
63).

In: CANDIDO, A. A formação da literatura brasileira


Devemos observar que as iniciativas de modernização destes
economistas portugueses foram iniciativas que antecederam as propostas
iluministas representadas na Reforma Pombalina. Assim a partir do
século XVIII, aconteceram na Europa inúmeras mudanças no modo de
produção e de ideias, que refletiram de forma ascendente na vida dos
homens. Sua disseminação atingiu a economia, a ciência, a política, a
arte, a religião e a filosofia. A transformação não ocorreu somente na
produção material, e sim em todos os aspectos da consciência humana.
Desenvolveram-se no mundo todo profundos movimentos como:
a Revolução Industrial, que se iniciou na Inglaterra; a revolução
francesa; a Reforma Pombalina, em Portugal; e as Inconfidências, no
Brasil. Em termos filosóficos, o iluminismo dominou o campo das ideias.
´Trata-se de um momento histórico em que o homem abandona as
superstições medievais e abraça as ideias iluminadas pela razão e
pela ciência. O objetivo do Iluminismo era libertar o pensamento do
domínio das ideias sobrenaturais para o homem conquistar a
liberdade intelectual.
In: OS ÁRCADES INCONFIDENTES NO BRASIL E AS REFORMAS POMBALINAS (artigo)
No final do século XVIII aparece em Portugal uma
corrente de pensamento que pretende, inspirando-se
nos princípios iluministas, reformar o sistema colonial
em crise.
No reinado de D. José essa facção ascende ao poder
através do Marquês de Pombal, e chega a implantar
reformas que sob muitos aspectos transformaram
Portugal e o Brasil. [...] (JOBIM, 1983, p. 7).
Vertente crítica

A análise do envolvimento entre os domínios da história e da literatura ainda


incipientes na colônia proporcionou a impregnação de estilos artísticos que
promoveram, na época de Pombal, pensamentos ajustados e desajustados ao
sistema colonial que já prenunciavam uma crise, como Basílio da Gama, Cláudio
Manuel da Costa, Alvarenga Peixoto e Tomás Antônio Gonzaga, estes três
últimos poetas participaram de projetos de separação política que culminaram
na Inconfidência Mineira (1789).

os Inconfidentes eram “revolucionários “, ou do ponto de vista colonial “sediciosos”


(revolta contra a autoridade). Cláudio Manuel da Costa, por exemplo, falava em
“interesses da Capitania”, lesados pela administração lusa; para Alvarenga Peixoto,
senhor de lavras no sul de Minas, os europeus estava, “chupando toda a substância
da Colônia”; as “pessoas grandes” ou “alentadas” viam com apreensão a derrama,
sentindo-se como o Coronel José Ayres, “poderoso com o senhorio que tem em mais
de quarenta e tantas sesmarias,... Acérrimo (grande) inimigo dos filhos de Portugal”.
Em Tomás Antônio Gonzaga, colhe-se boa profissões de fé proprietista, como o
famoso “é bom ser dono” da Lira I...; do próprio Tiradentes sabe-se que não pretendia
abolir a escravatura caso vingasse o levante, opinião partilhada pelos outros
inconfidentes, salvo o mais radical dentre todos, o Padre Carlos Correia de Toledo e
Melo (BOSI, 2002, p. 60).
Literatos do classicismo, arcadismo
In: BOSI, A. História concisa da literatura brasileira.
• O movimento procura liberta-se dos excessos do
barroquismo, bem como redimensionar os valores
clássicos das obras de arte. Daí que recupera
Aristóteles, principalmente, através da Arte poética
de Horácio, preconiza o caráter racional da arte e da
cultura, preocupa-se em exaltar a finalidade moral
da literatura, a concepção de que o poeta é um
pintor de situações [...] Buscam-se os motivos
bucólicos, o clima ameno e campestre em tudo [...]
(HELENA, 1997, p. 25)

GÊNERO LÍRICO

TOMÁS ANTONIO GONZAGA


LIRA (considerações iniciais)
● Como podemos estabelecer um diálogo entre a
convenção e a construção da imagem do pastor?

Delegação poética: A poesia bucólica se caracteriza por


uma delegação poética, a saber, a transferência da
iniciativa lírica a um pastor fictício. Ao contrário do
trovador dos Cancioneiros, do sonetista do século XVI, ou
do futuro bardo romântico, o árcade não ama, nem mesmo
anda com sua própria personalidade; adota um estado
pastoril e, portanto, disciplina. (CANDIDO, 1969, p. 66).

Pastor: representa o gênero pastoral (manifestação da


naturalidade, relações simples, mito da idade de ouro).
● Em pleno prestígio da existência citadina, os homens sonham
com a natureza, com o campo, à maneira de uma felicidade passada,
construindo a convenção da naturalidade como forma ideal de
relação humana. (CANDIDO, 1969)

● Inserido em um ambiente campestre, o eu lírico apresenta


imagens de um modo de vida refinado e simples. O seu discurso
prima por circunscrever-se nos paradigmas dos ideais árcades,
trazendo para seu cenário algumas características dos elementos
retóricos, como: fugere urbem, locus amoenus e aurea
mediocritas. O espaço traz os ideais do belo, a partir de imagens
de um ambiente bucólico e idílico, representando o equilíbrio
entre o espaço externo e o interno, visto que a natureza configura
o próprio sentimento do sujeito lírico.

● Esse retorno ao campo representa a própria negação do


presente.
● O par (rusticidade X refinamento) O espaço campestre
(simples) apresentado aqui é constituído por cabanas, lãs
tecidas artesanalmente, pastoreio de ovelhas, agricultura,
contacto direto com a natureza, divertimentos campestres.
Estes elementos formam o quadro de uma atividade
rústica, implicando situação social modesta, apesar da
abastança relativa que é declarada (CANDIDO, 1993, p.
31).

Convenção: pastor, simplicidade (vida e do discurso=


integração entre forma e conteúdo), campestre,
refinamento.
● O leitor fica meio perplexo com este discurso
despojado e sem mistério, que parece entregar
tudo à primeira vista; mas nota que ele é fruto
de uma contenção elaborada, não de uma
tranquilidade real. Nota que o poeta deliberou
“não fazer tragédia”, atenuando com
urbanidade clássica a situação de infelicidade e
privação, que é tempo presente do enunciado
[...]. Daí a impressão de dor contida que não
grita e se traduz no aludido efeito de
simplicidade. (CANDIDO, 1993, p. 22)
• a construção da convenção árcade estruturada
no seio de uma vida em pleno contato com a
natureza, mas digna e sublime. Ou seja, o eu lírico
se aproxima do bom selvagem, do homem não
corrompido pela sociedade. [...] este homem ganha
traços civilizados, uma vez que a crosta primitiva e
grosseira é guilhotinada.
• Refinamento: imagens que trazem a sua
condição nobre junto ao seu próprio discurso
(domínio das letras, artes).
A “Lira” de Gonzaga tem uma inovação: ela suprime
não só o diálogo entre pastores, mas os lugares-comuns
mais frequentes, como a referência a sacrifício de
animais, à oferta de produtos da terra e a entidades
protetoras. Nela, estamos mais perto do que será o
poema lírico dos românticos, embora conserve o que se
pode chamar de “delegação poética”, isto é, o recurso
que consiste em transferir a manifestação do Eu a um
personagem alternativo o pastor. Ele é o rústico sob
cuja pele se esconde poeticamente o civilizado
(CANDIDO, 1993, p. 35)
LIRA I (ANÁLISE)
• o eu lírico se autorretrata/autodefine para sua amada, mostrando,
logo de início, a sua superioridade diante de outros que possam
ter alguma semelhança com ele.
• se afasta da imagem do vaqueiro, que se constitui como aquele
que apresenta tosco trato e expressões grosseiras.
• lado nobre e sua vida pastoral e digna, calcada, por um lado, no
seu poder enquanto proprietário, e, por outro, na sua vivência
bucólica.
• propriedade lhe fornece o essencial para uma vida nobre e
simples, como podemos observar: “Dá-me vinho, legume, fruta,
azeite, / Das brancas ovelhinhas tira o leite,/ E mais as finas lãs,
de quem me visto.”
● o eu apresenta distinção e nobreza, graças ao
destino, à estrela, que o ilumina e lhe dá
esclarecimento e cultura (vale lembrar que o período
é influenciado pela ideias iluministas francesas, que
privilegiam a razão sobre outras características da
vida humana). Todos os elementos da cena descrita
levam a um lugar e a um tempo distantes da nossa
realidade, criando um mundo mítico, a Arcádia, um
local grego em que pastores convivem, declamando
poemas, num ambiente simples, campestre, com uma
vida ideal. (SIMÕES, 2007)
● Ressonância da lira na imagem da sanfoninha. Lira: é
um instrumento de cordas conhecido pela sua vasta
utilização durante a antiguidade. As récitas poéticas dos
antigos gregos eram acompanhados pelo seu som, ainda que
o instrumento não tivesse origem helênica. Os mestres
propostos pela mitologia grega eram: Orfeu, Museu e
Tamíris.
 perpectiva metalinguística
A figura da mulher idealizada naturaliza-se com o cenário
mítico, integrando-se a ele, ao passo que é pintada com os
próprios elementos da natureza e com os elementos
celestiais.
Marília também carrega esses elementos, fato reiterado
nas configurações de luz, e reverberado na figura da estrela.
Por extensão, a amante é capaz de conduzir e guiar o pastor
do poema: “Graças, Marília bela,/ graças à minha estrela!”.
● amor equilibrado, vivenciado na montagem de um
cenário bucólico e celestial, onde ambos experimentam
uma vida simples e honrada capaz de estender-se até a
morte.
● O pastor discursa para Marília o seu mito amoroso, e
também a possibilidade de ele alcançar a felicidade plena
(amorosa e social).
● um cenário pastoril idealizado mitologicamente, um
lugar edênico, onde elementos da natureza, os pastores, os
deuses, o amigo e Marília anunciam um mundo de
felicidades.
Seguindo os preceitos convencionados, os amantes serviriam
de exemplo para outros pastores. Ou melhor, para outros poetas.
O exemplo proposto pelo sujeito lírico, isto é, seu próprio
exemplo, tece uma forma de representação dialógica com os
elementos da convenção árcade. Se a vida descrita pelo eu
insere-se nos paradigmas do campo mítico, ou seja, na esfera da
Arcádia, e se sua amada configura-se dentro do modelo feminino
veiculado pelo arcadismo, o eu lírico canta seu canto como
aquilo que é verdadeiro e belo, portanto, digno de ser seguido.
Ele aponta, assim, para o universo literário, pois seu referente é a
própria construção poética. Seu modelo é a integração entre
espaço exterior (natureza) e espaço interior (eu).
● Imitação não se confunde com a cópia servil, mas se
descreve como a escolha dos aspectos característicos e
essenciais do modelo. (AGUIAR e SILVA).
● Campo do sublime: monte e celeste = Arcádia
(espaço mítico)
● Espaço mítico, idealização da mulher e idealização
do pastor = harmonia com a natureza
● os traços de Marília dialogam com a atmosfera
angelical que a circunda, e com o espaço poemático.
● LIRA II

 ele subverte uma imagem convencionada e cria seu


próprio referente, isto é, ao mesmo tempo em que
anuncia que pintará um quadro, ele já o está
pintando: as imagens pictóricas formam-se nas
malhas do discurso poético.

 Horácio “ut pictura poesis” (a pintura é como a


poesia).
● Essa transmutação poética que acaba por determinar
“Marílias diferentes” em liras distintas é um dos mais
significativos índices da própria natureza da poesia. O
enunciador lírico plasma a realidade das imagens em
circunstâncias diversas e, evidentemente, serão diversos os
efeitos, dentro de um mesmo estilo. (GONÇALVES, 1999,
p. 367).

●Dorotéia se desindividualizou para ser absorvida na


convenção arcádica: é a pastora Marília , objeto ideal de
poesia, sem existência concreta. Por isso mesmo, ora é
loura, ora morena; ora compassiva, ora cruel: em qualquer
caso, sem nervo nem sangue. (CANDIDO, 1969, p. 123)
● A lira em questão, ao se propor a descrever liricamente o
Amor, materializa-o na descrição da Musa, bem como na
sua relação com ela. (GONÇALVES, 1999, p. 367).
●AMOR (com letra maiúscula): constrói seu próprio mito,
seu próprio referente

● Se, por um lado, o sujeito desmitifica a figura do cupido


e o referencializa na de Marília, por outro, a própria
construção do seu mito segue os paradigmas da poesia
arcádica, a saber: amor idealizado (platônico), beleza
inalcançável, comparação com os elementos da natureza.
Convenção: gênero pastoral, pastor, ambiente idílico e
bucólico, vida simples e nobre (mediocricidade
dourada), Arcádia (espaço mítico), eu idealizado, amor
idealizado (amor platônico), linguagem clara, sublime
e contida, constrói o espaço físico e a amada com os
valores da natureza.

Equilíbrio entre eu e natureza

Horácio: “ut pictura poesis” (a pintura é como a


poesia).
Lira XV

Propunha-me dormir no teu regaço


Eu, Marília, não fui nenhum Vaqueiro,
As quentes horas da comprida sesta,
Fui honrado Pastor da tua aldeia; Escrever teus louvores nos olmeiros,
Vestia finas lãs, e tinha sempre Toucar-te de papoulas na floresta.
A minha choça do preciso cheia. Julgou o justo Céu, que não convinha
Tiraram-me o casal, e o manso gado, Que a tanto grau subisse a glória minha.
Nem tenho, a que me encoste, um só cajado.
Ah! minha Bela, se a Fortuna volta,
Para ter que te dar, é que eu queria Se o bem, que já perdi, alcanço, e provo;
De mor rebanho ainda ser o dono; Por essas brancas mãos, por essas faces
Prezava o teu semblante, os teus cabelos Te juro renascer um homem novo;
Ainda muito mais que um grande Trono. Romper a nuvem, que os meus olhos cerra,
Agora que te oferte já não vejo Amar no Céu a Jove, e a ti na terra.
Além de um puro amor, de um são desejo.
Fiadas comprarei as ovelhinhas,
Se o rio levantado me causava, Que pagarei dos poucos do meu ganho;
Levando a sementeira, prejuízo, E dentro em pouco tempo nos veremos
Eu alegre ficava apenas via Senhores outra vez de um bom rebanho.
Na tua breve boca um ar de riso. Para o contágio lhe não dar, sobeja
Tudo agora perdi; nem tenho o gosto Que as afague Marília, ou só que as veja.
De ver-te aos menos compassivo o rosto.
Senão tivermos lãs, e peles finas, Quando passarmos juntos pela rua,
Podem mui bem cobrir as carnes nossas Nos mostrarão c’o dedo os mais Pastores;
As peles dos cordeiros mal curtidas, Dizendo uns para os outros: “Olha os nosso
E os panos feitos com as lãs mais grossas. “Exemplos da desgraça, e são amores”.
Mas ao menos será o teu vestido Contentes viveremos desta sorte,
Por mãos de amor, por minhas mão cosido. Até que chegue a um dos dois a morte

Nós iremos pescar na quente sesta


Com canas, e com cestos os peixinhos:
Nós iremos caçar nas manhãs frias
Com a vara envisgada os passarinhos.
Para nos divertir faremos quanto
Reputa o varão sábio, honesto e santo.

Nas noites de serão nos sentaremos


C’os filhos, se os tivermos, à fogueira;
Entre as falsas histórias, que contares,
Lhes contarás a minha verdadeira.
Pasmados te ouvirão; eu entretanto
Ainda o rosto banharei de pranto.
LIRA XV

● o poema fragmenta-se em duas partes. Na primeira


parte, o eu lírico contrasta o seu presente disfórico com o
seu passado idílico, representando um lugar perdido,
espaço de nostalgia. Na segunda parte, ele busca um
retorno ao paraíso perdido, projetando um futuro calcado
na restituição de seus bens materiais e do amor de sua
amada. O poema representa um cenário idílico, isto é,
anseia o retorno.
● Em pleno prestígio da existência citadina, os homens sonham com a natureza, com o
campo, à maneira de uma felicidade passada, construindo a convenção da naturalidade
como forma ideal de relação humana. (CANDIDO, 1969)

● Na primeira parte, inserido em um ambiente campestre, o eu lírico arquiteta


imagens de um modo de vida refinado e simples que viveu (experiência do
passado). O seu discurso, ao voltar-se para o passado, prima por
circunscrever-se nos paradigmas dos ideais árcades, trazendo para seu cenário
algumas características dos elementos retóricos, como: fugere urbem, locus
amoenus e aurea mediocritas. O espaço traz os ideais do belo, crivado nas
imagens de um ambiente bucólico e idílico, representando o equilíbrio entre o
espaço externo e o interno, visto que a natureza configura o próprio
sentimento do sujeito lírico.

● Esse retorno ao passado representa a própria negação do presente. O


momento experimentado pelo eu lírico o despi de todos os seus valores: ele é
um pastor que não tem mais aldeia, nem gado, nem o amor de Marília. Em
virtude disso, traz o seu passado para identificá-lo, posto que, no presente,
perdeu sua identidade.
● as cinco primeiras estrofes trazem um contraste entre o espaço perdido do
sujeito e o seu presente, destituído de posses e até mesmo de seu amor, Marília.
- identidade perdida do sujeito lírico é reconstituída no campo de suas
projeções.

● imagem de refinamento no decorrer do poema: finas lãs, cajado, grande trono,


peles finas. Em contraste com este modelo nobre, a simplicidade de sua vida
exprime-se por meio das descrições dos espaços, e por meio do seu modo de
encarar a vida, fundamentada nas coisas mais simplórias. Essa representação
intensifica-se na segunda parte da lira: momento em que ele almeja retornar ao
cenário idílico: “Nós iremos pescar na quente sesta/ com canas e com cestos os
peixinhos; / Nós iremos caçar nas manhãs frias com a vara enviscada os
passarinhos./ Nas noites de serão nos sentaremos/ cos filhos, se o tivermos, à
fogueira:”
● futuro- resgatam o cenário idílico do seu passado -
vida simples e bucólica que o sujeito sonha contemplar
ao lado de sua amada.
- Esse olhar projetivo do “eu” dialoga com as imagens
que tecem a sua simplicidade no campo, como o fato de
pescar, caçar, e sentar-se à fogueira : modo familiar
● espaço perdido X espaço recuperado

● espaço interno = espaço externo

Dirceu (Tomas Antonio Gonzaga e Marília-


Maria Doroteia)
● O espaço poético caracteriza-se em função da dinamicidade
dos verbos (passado-presente-futuro), bem como na imobilidade
das descrições espaciais. Ao mesmo tempo em que configura o
espaço poético, também configura o seu próprio “eu”.

● O poeta mobiliza a convenção literária de sua época, tecendo na


sua lira a imagem do eu lírico na figura do pastor, inserido em um
ambiente rústico, que promove uma linguagem simples e direta
para falar de algo trágico. Apresenta um discurso claro e
despojado, que não esconde mistérios. O seu discurso mobiliza a
esfera nobre, que dialoga com sua imagem civilizada.
Sujeito nobre e civilizado em um ambiente campestre .
Obras poéticas de Glauceste Satúrnio (1768),
Cláudio Manuel da Costa (trechos do
poema Fábula do Ribeirão do Carmo)
II Turvo banhando as pálidas areias
Leia a posteridade, ó pátrio Rio, Nas porções do riquíssimo tesouro
Em meus versos teu nome O vasto campo da ambição
celebrado; recreias.
Por que vejas uma hora despertado
O sono vil do esquecimento frio: Que de seus raios o planeta louro
Enriquecendo o influxo em tuas
Não vês nas tuas margens o veias,
sombrio, Quanto em chamas fecunda, brota
Fresco assento de um álamo em ouro
copado;
Não vês ninfa cantar, pastar o gado SIGNIFIVADOS:
Na tarde clara do calmoso estio. Vil- desprezível
Álamo- árvore
Copado- copa densa
Estio- tempo quente
Resumo do poema - Fábula do Ribeirão do Carmo

O Ribeirão do Carmo é o narrador, que conta a sua origem e o seu


trágico destino, que se mistura com a origem e o destino das Minas e
da própria poesia de Cláudio Manuel. Ele conta que o seu nascimento
se deu pela relação entre o gigante Itamonte e uma das muitas penhas
de Minas. Na sua juventude vivera como um pacato e alegre pastor, até
que o trágico destino lhe fez ser acometido de uma paixão irrefreável
pela bela ninfa Eulina, então na flor dos seus quinze anos. Mas este era
um amor proibido, já que Eulina fora consagrada por Aucolo, seu pai,
ao deus Apolo. Movido apenas pelos seus desejos, depois de furtar o
ouro ao pai Itamonte, o herói tenta pela força raptar o seu amor, no que
é impedido pelo próprio Apolo, Deus da poesia. Desesperado, o
infausto amante tentar matar-se com um punhal, e já espargindo todo o
seu sangue, recebe ainda o golpe final, sendo transformado por Apolo
no pátrio Ribeirão. Como uma chaga, ainda guardaria na sua turva cor
a lembrança do sangue que, por castigo divino, das suas veias um dia
jorrara.
Apropria-se- O mito de Polifemo

o amor impossível do ciclope Polifemo pela ninfa Galateia. No mito,


o gigante e horrendo Polifemo se apaixona pela bela e frágil ninfa
Galateia, então já destinada ao amor do jovem Acis. O ciclope flagra
os enamorados e acaba atirando uma pedra mortal contra Acis, o
que leva os deuses, penalizados, a metamorfoseá-lo em um rio.
Este mito se transformou numa verdadeira convenção tópica da
poesia bucólica, desde Teócrito, Virgílio e Ovídio; passando pelos
quinhentistas, como Sannazaro e Sá de Miranda; pelos
seiscentistas, como Quevedo e Lope da Veja; até os setecentistas
italianos, franceses e luso-brasileiros.
No prefácio de suas Obras, escreveu Cláudio
Manuel da Costa:

“Não são estas as venturosas praias da Arcádia,


onde o som das águas inspirava a harmonia dos
versos. Turva e feia, a corrente destes ribeiros,
primeiro que arrebate as ideias de um Poeta,
deixa ponderar a ambiciosa fadiga de minerar a
terra, que lhes tem pervertido as cores.”
Soneto VII, CLÁUDIO MANUEL DA COSTA

Ninfas do pátrio rio, eu tenho pejo (pudor)


Que ingrato me acuseis vós outras, quando
Virdes que em meu auxílio, ando invocando
As ninfas do Tejo, ou do Mondego.

Convosco um eco ao mundo dar desejo,


Maior que o bom Camões.
[...]
Cartas Chilenas, Tomás Antônio Gonzaga
(Sátira)

Nasceu o sábio Homero entre os antigos, Pagar o conselheiro aquela soma,


para o nome cantar do grego Aquiles; Não é isso furtar? Não é violência?
para cantar também ao pio (piedoso) Enéias,
Ah pobre, ah pobre povo, a quem
teve o povo romano o seu Vergílio:
governa
assim, para escrever os grandes feitos
Um bruto, que ao Céu não teme,
que o nosso Fanfarrão obrou em Chile,
Nem tem o menor pejo, de lhe verem
entendo, Doroteu, que a Providência
lançou na culta Espanha o teu Critilo Tão indignas ações os outros homens!

(Tomás Antônio Gonzaga). (GONZAGA, 2006, p.148)


Gregório: (olhar do colonizador), filho de senhor de
engenho)

Sátira- discurso agressivo/ difamatório


Tema- Pátria – origem e etnias- defende o elemento
branco, católico, o não mestiço.

Sátira de Tomás Antônio Gonzaga – crítica ao


governo – influenciado pela Ilustração. (ideias
libertário)

Épico- Ribeirão do Carmo – crítica - intervenção


Referência básica:

Candido, A. Formação da literatura brasileira (texto on


line).